DO CENÁRIO E DA NECESSIDADE DE UMA EDUCAÇÃO DO CAMPO NO MARANHÃO José de Ribamar Sá Silva 1 Resumo: O contexto socioeconômico do Maranhão, destacando-se as condições desfavoráveis em que vive a maior parte de sua população, especialmente os moradores do campo. Discute-se que um desenvolvimento sustentável, com uso equilibrado dos recursos naturais, que impulsione o mercado interno, incorpore o contingente disponível e eleve a qualidade de vida das pessoas, deve pressupor a construção de uma educação pública que reconheça e promova a diversidade do campo enquanto pleno espaço de vida. Palavras-chave: Políticas p úblicas, desenvolvimento regional, educação do campo, Maranhão. Abstract: The social and economic context of Maranhão, emphasizing the unfavourable conditions where most of its population lives, especially the inhabitants of rural areas. It is discussed that a sustainable development, with correct use of natural resources, that stimulates the domestic market, that incorporates the available contingent and raises the quality of people’s life, must presuppose the construction of a public education that recognizes and promotes the diversity of rural areas as a full life space. Key words: Public politics, regional development, rural education, Maranhão. 1 Doutor. Universidade Federal do Maranhão. Email: [email protected] 1 INTRODUÇÃO Nos tempos atuais surgem evidências das limitações dos padrões de vida centrados nas cidades e organizados em função destas, cujos resultados revelam uma duvidosa qualidade de vida e a impossibilidade de incorporação do conjunto das pessoas nos processos de trabalho e de apropriação da riqueza gerada. Mais que isso, ao longo da história os padrões de consumo demonstram-se incapazes de se reproduzirem utilizando de forma equilibrada os recursos da natureza. Esse é certamente um dos legados dos países de capitalismo avançado. Todavia, muitos países não desenvolvidos buscam a aprofundar a imitação daqueles padrões e, dentre desses países, as regiões ou estados que ficaram à margem dos processos dinâmicos, insistem em persegui-los, ainda que a custos muitos mais drásticos para o futuro comum. No caso do Brasil, a consolidação capitalista aprofundou as desigualdades regionais e a distância entre ricos e pobres, tanto do ponto de vista dos indivíduos quanto no que se refere às unidades federativas. Assim é que os 10% mais ricos detêm mais renda que os 50% mais pobres, do mesmo modo que num único estado está concentrado mais um terço da riqueza gerada no país. Estados de população pobre, como o Maranhão, perseguem os padrões de evolução capitalista que foi possível nalgumas regiões em um dado momento. Todavia, as condições objetivas vigentes no mundo contemporâneo dão pouca indicação de que seja possível lograr êxito nessa direção. Enquanto isso, nesses estados alarga-se ainda mais o fosso entre o pequeno mundo das elites locais e as condições de vida do conjunto da população, acumulando-se déficit de emprego, de moradia, de serviços de saúde, de educação, de abastecimento alimentar, entre outros aspectos. Discute-se neste artigo que, por não ter logrado avanços significativos na perseguição dos padrões de desenvolvimento vigentes nas regiões dinâmicas do país, o Maranhão tem na atualidade a possibilidade de iniciar uma trajetória que se baseie em seus próprios potenciais, incorporando seu contingente populacional. Nesse sentido, não há como avançarmos sem uma educação de qualidade para todos, porém a qualidade não é apenas técnica e sim técnica, política e contextualizada, para que possa ser útil aos fins de humanização e de construção de uma vida digna para todos e cada um. Significa, pois, reconhecer-se e promover-se igualmente a vida na cidade e no campo. Entretanto, no Maranhão atual, mesmo dispondo de um grande contingente populacional, grande potencial agrícola e pesqueiro, além demais recursos naturais, a zona rural continua com os mais baixos indicadores sociais, como conseqüência direta de um modelo de desenvolvimento centrado no mundo urbano, com concepção de campo distorcida, em que se privilegia o latifúndio e onde o espaço das comunidades tradicionais tem sido visto sinônimo de local de atraso. 2 DO CENÁRIO: um Maranhão repleto de contrastes Uma breve observação em alguns os indicadores sociais e econômicos do Maranhão é suficiente para revelar aspectos peculiares, muitos contrastes e situações inaceitáveis. De um modo geral, constitui uma característica histórica desta unidade da Federação contar com elevado percentual de sua população residindo no campo. Comparando-se a distribuição rural/urbano da população residente do Brasil e oo Maranhão, pode observar que, enquanto no conjunto do país a proporção entre os residentes na cidade igualou-se à dos residentes no campo na passagem da década de 1960 para a de 1970, no caso do Maranhão esse equilíbrio ocorreu somente 30 anos mais tarde, na década de 1990. Além desse descompasso cronológico do Maranhão em relação à totalidade do país, importa observar o ritmo dessa urbanização. Para o conjunto do país, a trajetória da curva de ascensão da população urbana indica um crescimento a taxas praticamente constantes, alargando-se a distância para o quantitativo da população que permanece na zona rural, que se mostra sempre decrescente ainda que a taxas reduzidas. Esse movimento reflete o processo efetivo de migração campo/cidade, acelerado desde meados do século XX, mas que atendia ao impulso das atividades urbano-industriais e da modernização da agricultura brasileira, conforme o estilo do desenvolvimento capitalista em curso no Brasil. Por suas características seletivas, esse padrão de desenvolvimento representou uma acentuada concentração das atividades mais dinâmicas e, portanto, do ritmo de acumulação na região Sudeste. Por sua vez, o Maranhão apresenta uma trajetória de ascendência da população urbana discreta no início do período considerado e que tem sua velocidade acelerada a partir da década de 1980. Cabe observar que entre esta década e a anterior, também a população rural encontrava-se em crescimento absoluto bastante significativo, com taxas muitos próximas das que caracterizavam a população urbana. Essa distribuição pode ser associada ao papel secundário que coube ao Maranhão (e a outros estados) no modelo de desenvolvimento do Brasil. Da década de 1990 em diante, a velocidade de crescimento da população urbano tornou-se ainda mais acentuada. Assim, nos dias atuais, o estado tem aproximadamente 60% de seus habitantes caracterizados como população urbana. A direção da curva de crescimento da população urbana no Maranhão sugere a falsa impressão de que o estado vem operando um processo de desenvolvimento liderado por atividades tipicamente urbanas. Porém, a realidade não é essa e suas contradições despertam variadas reações, como bem ilustram as palavras de professor Belik. Sempre nos surpreendemos com os materiais e estudos referentes ao Maranhão. Por exemplo, nos últimos anos esse estado figurou entre as unidades de maior crescimento econômico da federação. Apenas para se ter uma idéia, o Maranhão cresceu o dobro da taxa de crescimento brasileiro e 66% acima da taxa de crescimento da região Nordeste, no comparativo da análise das Contas Regionais do Brasil de 2005 com a edição anterior de 2002 do IBGE. Um dos destaques para esse crescimento foi a agropecuária, tendo como base a produção de soja, bovinos e extração de madeira. Por outro lado, o Maranhão apresenta indicadores vergonhosos no campo social. O PIB per capita do estado se situou no penúltimo lugar entre os estados brasileiros representando apenas 35% e 75% dos valores médios alcançados para o conjunto dos estados do Brasil e do Nordeste, respectivamente (dados de 2005). Ademais, no ano 2000, por ocasião da realização da pesquisa sobre o IDH - Índice de Desenvolvimento Humano coordenada pelo PNUD – Organismo das Nações Unidas para a promoção do Desenvolvimento, o Maranhão foi considerado aquele estado de pior desempenho do Brasil. Nessa pesquisa, a sua distância em relação ao resto do Brasil era tal que seriam necessários 15,5 anos de crescimento para que o Maranhão pudesse alcançar o IDH do Distrito Federal, considerado o melhor entre os estados da Federação (BELIK, 2008, p. 15). De fato, quando são examinados diferentes indicadores, elaborados a partir de distintos referenciais metodológicos, pode-se verificar que o Maranhão contemporâneo figura, na grande maioria dos casos, na condição de estado com o pior desempenho relativamente às demais unidades da federal. De acordo com o parâmetro de renda per capita, a Fundação Getúlio Vargas (2003) identificou no Maranhão a maior proporção de população em condição de miserável, neste início de século. Pelo estudo em questão, 10% dos municípios maranhenses apresentam entre 86% e 95% de suas respectivas populações auferindo renda per capita entre zero e U$ 1.00 por mês (cerca R$ 79,00, pelo cambo daquele momento). O Lemos (2005), identificou 25% dos 100 municípios nordestinos que apresentavam os piores níveis de qualidade de vida pertencem ao Maranhão. Estudos coordenados por Amorim e Pochmann (2003), no qual o Maranhão aparece como o estado com o pior índice de exclusão social no Brasil1, sendo que 66 de seus 217 municípios estão entre os 200 em pior situação no país; 35 estão entre os 100 piores; 15 entre os 50 piores; 5 entre os 20 piores; 2 entre os 15 piores. Num conjunto de 5.507 municípios considerado no país, no Maranhão está o 3º onde a situação de exclusão é mais grave. Apenas a capital, São Luís, apresenta Índice de Exclusão próximo à média do intervalo de variação, ainda ocupa a 719ª posição no ranking nacional. O Maranhão é também o estado que tem o maior percentual (69,1%) dos domicílios em situação de insegurança alimentar, no país, sendo em que 18,0% dos domicílios as pessoas se encontram em situação de insegurança alimentar grave, conforme dados IBGE (2005)2. Quando consideramos outros indicadores da atividade econômica, podemos ver que, por exemplo, no tocante ao emprego formal, o maior empregador continua sendo a estrutura do Estado, em suas diferentes esferas (federal, estadual e municipal), que responde por 40,5% dos postos de trabalho. (IMESC, 2008). O setor serviços corresponde a 24,3% e o de comércio e reparação oferta 17,9% das vagas formais. A indústria de transformação responde por 7,1% enquanto atividade extrativa mineral oferta apenas 0,2% do emprego formal. Curiosamente, observando a composição da pauta de exportação do Maranhão pode-se ver que, no ano de 2007 (IMESC, 2008), o complexo ferro responde por 46%, alumínio, por 39% e soja, por 12%. Juntos esses três segmentos, pouco significativos em termos de empregos formais, representam 97% do valor das 1 O Índice de Exclusão Social (IES) foi elaborado a partir de dados do IBGE, para o ano de 2000, abrangendo três componentes básicos, sendo que cada um é medido a partir dos índices de seus respectivos indicadores: Padrão de vida digno (índices de pobreza, emprego formal e desigualdade); Conhecimento (índices de anos de estudo e alfabetização) e Risco juvenil.(índices de concentração de jovens e violência). Índice de Exclusão Social varia no intervalo de 0 a 1, sendo os valores próximos do zero indicativos de um maior grau de exclusão na sociedade. (AMORIM; POCHMANN, 2003). 2 Os demais estados que em situação próxima à do Maranhão são Roraima (68,7%), Piauí (63,5%) e Rio Grande do Norte (60,4%). Santa Catarina é o estado que se encontra na posição relativa menos desfavorável, com 16,5% dos domicílios em insegurança alimentar. Mesmo os estados que se encontram nas posições intermediárias (São Paulo, Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Paraná) todos apresentam em torno de 25% dos domicílios nessa situação. exportações. Como são atividades fortemente dependentes da dinâmica do mercado externo, pode-se perceber a fragilidade da economia maranhense ao continuar concentrando as exportações em basicamente três produtos. E são exatamente essas as atividades que estão associadas ao agravamento do ritmo de desmatamento no Maranhão atualmente. De acordo com cálculos do professor Mesquita (2006), entre 1970 e 1985, a taxa de desmatamento foi de 3,6% ao ano. Esse ritmo se alterou drasticamente, num curto espaço temporal (2000/2005), passando para 13% ao ano, período que coincide com a expansão dos grandes projetos vinculados à produção de commodities agrícolas e minerais no Maranhão (soja e ferro-gusa). 3 DA NECESSIDADE: Um Maranhão repleto de possibilidades A situação que se vivencia do Maranhão do início do século XXI reflete as decisões tomadas pelas elites locais, nas décadas de 1960 e 1970 e reafirmadas na década de 1980, pela intervenção do governo federal e particularmente pelo governo estadual, privilegiando um padrão de desenvolvimento econômico com base na ação de grandes empresas e desconsiderando-se as necessidades de democratização do acesso à terra e à riqueza gerada. No Maranhão, ao se perseguir o modelo de modernização conservadora que estava se consolidando nas regiões onde se concentraram as atividades mais dinâmicas no país, acabou-se por atrair para capitais especulativos, cujas atividades assumiram, no primeiro momento, característica mais de reserva de valor e de busca de benefícios fiscais do que propriamente de investimentos produtivos, e, no momento mais recente, os grandes projetos vinculam-se diretamente à dinâmica dos mercados externos, pouco significando para a distribuição de renda e apropriação da riqueza internamente. O grande contingente de agricultores familiares foi deixado à sua própria sorte, pois o que interessava às elites era auferir seus lucros privados pela via da “modernização” do campo maranhense. Mais que isso, à população do campo foram negadas as políticas públicas que garantissem o acesso a serviços básicos, especialmente os de educação e saúde. Essa situação se expressa, por exemplo, na permanência de uma elevada taxa de analfabetismo no conjunto da população do Maranhão. Enquanto a média estadual atinge 23%, entre a população do campo esse percentual é ainda mais preocupante, alcançando 41,3% dos habitantes. Do mesmo modo, entre os que freqüentaram a escola formal, verifica-se que a média de anos de escolaridade muito reduzida, sendo que é na zona rural que estão 72,2% dos que se encontram sem instrução ou com menos de um ano de estudo, no Maranhão. Apesar de o discurso referente à universalização do ensino fundamental integrar as políticas educacionais no Brasil desde o início da década de 1990, na zona rural do Maranhão, ainda hoje a realidade permanece muito distante desse objetivo. Dados do Censo Escolar (2006) revelam que, das matrículas do Ensino Fundamental de 5ª a 8ª série, apenas 31,42% são relativos à zona rural. Esse número traduz uma situação na qual um elevado contingente de crianças e adolescentes residentes no campo encontra-se impossibilitado de prosseguir nas demais séries do Ensino Fundamental ou, na melhor das hipóteses, essas pessoas precisam se deslocar até as cidades mais próximas para continuar freqüentando a escola. A situação é ainda mais grave quando se consideram as matrículas do Ensino Médio e da Educação Profissional de nível técnico: do total das matrículas no ensino Médio, apenas 7,69% estão localizadas na zona rural. O descaso com que as elites dirigentes no Maranhão trataram a oferta de educação para os moradores do campo é refletido também no espaço físico da escola. Do total das salas de aula na zona rural, 20% funcionam em espaços provisórios (barracões de taipa, casa de professor, igrejas, sindicatos). Em situação igualmente desfavorável encontram-se os profissionais da educação. Quando observamos a educação do campo, em particular, a precariedade toma ares de tragédia, quer seja pela escassez de professores, quer seja pelo tipo de formação a eles ofertada, ou ainda pelas condições de trabalho a que estão submetidos. Informações disponíveis no Censo Escolar (2006) indicam, por exemplo, uma desproporção tanto oferta de vagas (matrícula) quanto na distribuição das funções docentes entre campo e cidade, relativamente à população residente, sendo que apenas 30% das funções docentes estão alocadas na zona rural. A desproporção está no fato de que a atual distribuição rural (40%) versus urbano (60%) da população reflete uma falsa situação. Na realidade, essa distribuição obedece a uma definição oficial dos espaços rural e urbano, sem que sejam consideradas especificidades essenciais dos processos socioeconômicos nos quais se assenta a sustentação das periferias urbanas, de numerosos povoados e de grande parte das sedes municipais no Maranhão. Ainda assim, aquele resultado só é atingido em função dos quatro municípios mais populosos concentram 23% da população do Maranhão. Não fosse tal a concentração populacional, a distribuição média seria sensivelmente favorável à zona rural. Atualmente, 160 municípios (quase ¾ do total) ainda contam com mais da metade de suas populações residindo no campo. Quanto à formação, do total das funções docentes no Ensino Fundamental, na zona rural, a maioria possui de nível médio, e apenas 1% possui formação superior em Licenciatura. Neste caso, ressalta-se que 3% das funções docentes ainda são ocupadas por pessoas que possuem apenas formação de nível fundamental, isto é, são professores com o mesmo nível de formação no qual estão atuando. Quando se focaliza o Ensino Médio percebe-se uma situação ainda mais alarmante: somente 9% das funções docentes estão atuando na zona rural. Há bem pouco tempo, a oferta de Ensino Médio na zona rural era quase inexistente, obrigando, a população jovem a interromper os estudos ou migrar para as cidades. Embora 85% possuam Licenciatura, ainda existem 5,8 mil funções ocupadas por pessoas sem formação de nível superior. Destas, 4,8 mil possuem nível médio completo e 37 funções ainda são exercidas por pessoas que cursaram somente o Ensino Fundamental, sendo que quatro sequer chegaram a concluir esse nível de ensino. Assim, manifesta-se uma situação embaraçosa: pessoas assumem a responsabilidade de conduzir um processo de ensino/aprendizagem num nível pelo qual elas nunca passaram... Se o panorama geral do Estado, em relação à formação dos professores do campo, é grave, essa realidade torna-se ainda mais preocupante quando na esfera dos municípios. Reflete-se aqui outra característica geral do desenvolvimento do Maranhão: a assimetria entre as diversas regiões e unidades municipais que compõem o seu território. Em 44% dos 217 municípios maranhenses, o percentual de professores com formação de nível superior atuando na zona rural varia de 0% a 5%, cabendo destacar que em 28 municípios, não há sequer um professor com essa formação. Todo esse cenário de dificuldades também se constitui o próprio potencial de construção de uma educação do campo forte. O fato de que a situação existente é precária significa que precisa ser construída e que provavelmente os sujeitos (educadores e educandos) não estão satisfeitos com o que lhes é oferecido hoje. Somando-se a isso as conquistas já consolidadas dos movimentos pela educação do campo no Maranhão, o horizonte torna-se ainda mais promissor. Mais que isso, quando se evidencia a necessidade de reconstruirmos as bases do nosso desenvolvimento socioeconômico, pautando-o pelo reconhecimento e incorporação das múltiplas identidades que constituem os povos do campo, o desafio mostra-se urgente e inadiável. E essa multiplicidade torna-se nossa riqueza, nosso maior potencial. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Sabemos que a superação da pobreza no campo necessariamente transcende a resolução dos aspectos econômicos, passando pelo enfrentamento de um complexo de elementos institucionais, com base em mecanismos políticos, jurídicos e culturais, que se formam e se reafirmam no contexto da extrema concentração da propriedade e da destituição, da maioria da população do campo, do direito de produzir seu sustento, de fazer-se reconhecer como sujeito e de viver com dignidade. A gravidade desses mecanismos inclui suas múltiplas manifestações, muitas vezes naturalizadas e que se reproduzem nas esferas da vida, constituindo verdadeiro bloqueio à humanização. São exemplos dessas manifestações, desde as relações de dependência às oligarquias políticas até a negação do acesso à cultura sistematizada; do não acesso à escola ao não acesso à comida. O Maranhão logra reunir e reproduzir historicamente o conjunto desses mecanismos, de modo que qualquer tentativa de superação para evoluir nosso padrão de civilidade, supõe democratizar o acesso à terra, à riqueza gerada e ao conhecimento libertário. Neste particular, não podemos considerar libertário o conhecimento que, ainda que seja contra a ordem vigente, despreze as peculiaridades e a diversidade da vida no campo e na cidade, ou um conhecimento que intente submeter uma esfera aos desígnios da outra. É nessa condição que a educação do campo é um pressuposto para se construir um desenvolvimento capaz de garantir vida digna para as pessoas e superar as situações inaceitáveis hoje vigentes no Maranhão. REFERÊNCIAS AMORIM, Ricardo; POCHMANN, Márcio (Orgs.). Atlas da exclusão social no Brasil. São Paulo: Cortez, 2003a. FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. O ranking da miséria no Brasil. Disponível em: <http://.www.fgv.org.br>. Acesso em: 28.set.2003. LEMOS, José de Jesus Sousa. Mapa da exclusão social no Brasil: radiografia de um país assimetricamente pobre. Fortaleza: BNB, 2005. MESQUITA, Benjamin Alvino de. A transformação da pecuária maranhense sob a ação governamental e as forças de mercado. 459f. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Maranhão – Université Paris III-Sorbonne Nouvelle. São Luís. SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DO MARANHÃO. Censo Escolar. São Luís, 2006. SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DO MARANHÃO. Educação rural no Maranhão: experiências recentes, condições educacionais e expectativas de povos indígenas e quilombolas. São Luís, 2003. BELIK, Walter. Prefácio. In: SILVA, José de Ribamar Sá. Segurança alimentar, produção agrícola familiar e assentamentos de reforma agrária no Maranhão. São Luís: Edufma, 2008.