Ionela
— Alô, Ionela1?
— Sim?
— Quem fala é Iana Matei. Peppi deve ter avisado que eu ia
ligar. Ela explicou quem eu era?
— Sim, sim, estou sabendo.
— Você pode falar? Não está sendo vigiada por ninguém?
— Tudo bem, no momento estou sozinha.
— Peppi me disse que você está precisando da minha ajuda.
É isto mesmo?
— Não sei...
— Você está com medo?
— Sim.
— Mas confia em mim?
— Sim, acho que sim.
— OK, então vou tirá-la daí.
Ionela tem 15 anos e é escrava sexual. É praticamente tudo
que sei a seu respeito, mas para mim é mais que suficiente: preciso
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Os nomes foram modificados.
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salvá-la. Foi um advogado que me avisou, esta manhã. Pelo telefone, ele me disse ter sido mobilizado por uma senhora espanhola,
uma certa Peppi, preocupada com a situação de uma adolescente romena sequestrada por traficantes. Segundo ela, Ionela está
nas mãos de uma família de ciganos, a mãe, seus dois filhos e sua
filha. No início, se bem entendi, essa mãe cafetina, já idosa, propôs a Ionela, cujos pais viviam brigando, hospedá-la em sua casa.
E a colocou para trabalhar a seu lado, num mercado. Passados três
meses, a babuchka disse:
— A hospedagem e a comida não são de graça. Você já me
custou muito dinheiro, está na hora de pagar sua dívida. Meus
filhos encontraram um emprego para você na Turquia. Você viaja
amanhã.
Na Turquia, Ionela foi espancada e ameaçada de morte. Acabou cedendo e fazendo o que lhe ordenavam: dormir com desconhecidos. Depois de uma batida policial durante seu turno de
trabalho, ela foi mandada de volta para a Romênia, onde a cafetina
a recebeu ao descer do avião, e a enviou para a Espanha. Assim que
chegou, Ionela tentou suicidar-se ingerindo sedativos comprados
numa farmácia. Dias depois, tentou de novo. Na terceira vez em
que se encheu de remédios, ficou tão grogue que o traficante, um
dos dois filhos da babuchka, não pôde mandá-la para a rua. Ionela
ficou reclusa no quarto de um hotel pulguento, aonde seu cafetão ainda assim mandou-lhe alguns clientes. Um deles, espanhol,
achou-a muito jovem:
— Que idade você tem?
— Quinze anos.
Não fosse o efeito dos remédios, ela provavelmente jamais teria
tido coragem de dizer a verdade. O sujeito, extremamente chocado, bombardeou-a de perguntas. Ionela acabou contando-lhe a
história toda. Ao voltar para casa, o cliente contou tudo à mãe. Dá
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para imaginar? Para os dois, não havia outra opção: era preciso
tirar a mocinha das garras daqueles monstros. No dia seguinte,
o cliente voltou ao hotel, negociando mais um encontro com Ionela. Ao chegar ao seu quarto, levou-a consigo, simplesmente, e a
colocou num ônibus para a Romênia, com alguns euros no bolso.
Prometeu-lhe até mandar periodicamente dinheiro por vale postal. De volta ao seu país, Ionela refugiou-se na casa da tia, mas não
demorou para que a babuchka fosse buscá-la, o que era previsível.
Afinal, um traficante sabe tudo sobre suas vítimas, pois é a única maneira de pressioná-las. Os traficantes agarraram Ionela em
frente à casa da tia e a obrigaram a entrar em seu carro. A tia bem
que tentou impedi-los, mas a babuchka sabia usar as palavras:
— Um conselho: nada de chamar os tiras. Se inventar coisa,
vamos levar sua filha no lugar dela.
A filha tinha 13 anos. A tia não deu um pio. Os traficantes levaram Ionela para Călăraşi, perto da fronteira com a Bulgária, não
muito longe do litoral do mar Negro. Felizmente, Peppi, a mãe do
cliente espanhol, cumpriu sua palavra: já havia entrado em contato
com Ionela para fazer chegar a ela um vale postal. Interrogada pelos
traficantes, a adolescente informou os sequestradores sobre isso,
que a deixaram telefonar à benfeitora para combinar uma data para
o depósito: para esse tipo de gente, dinheiro é sempre dinheiro. Foi
um erro. Ionela aproveitou para avisar Peppi do que havia acontecido a ela. Esta, impotente, entrou em contato com um advogado para encontrar na Romênia alguém que pudesse salvar Ionela.
O advogado deu alguns telefonemas e ficou sabendo de mim, do
meu abrigo e de meu projeto em favor das vítimas de tráfico sexual.
Era urgente intervir: após o último depósito de Peppi, Ionela
disse-lhe que a babuchka pretendia mandá-la para a Turquia.
Como Ionela já estava fichada na polícia turca, os traficantes a casaram com um sujeito, pagando 100 euros, para que ela mudasse
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de sobrenome. É preciso agir com rapidez: dentro de alguns dias
ela terá atravessado a fronteira...
No telefone, percebo que Ionela está meio perdida, hesitante.
— Ionela, eu vou buscá-la.
— Não, não faça isso! Eles vão me matar! Disseram que se eu
tentasse fugir de novo iam me amarrar a um carro e me arrastar
pelas ruas até morrer...
— Eles não vão fazer nada disso, estão apenas querendo te
amedrontar.
— Não, vão fazer, sim! Quando eles vieram me buscar na casa
da minha tia, Ramon me esmurrou. Também cortaram meus cabelos de qualquer maneira, para me punir. Eu disse a eles que ia
contar à polícia e a babuchka caiu na risada, dizendo que os policiais eram seus amigos!
Eu não tenho como verificar se ela está falando a verdade. Mas
que importa!? No fundo, estou convencida de que essa moça corre
perigo. O resto é apenas detalhe.
— Ionela, vamos encontrar um meio. Em algum momento eles
te deixam sozinha?
— Não, eu fico trancada num quarto o dia inteiro.
— Pense bem: eles nunca te deixam sair?
— Não, estou dizendo, eles nem querem que eu trabalhe na
rua. Temem que eu fuja de novo. Eu só saio para ir receber os vales
postais de Peppi no correio.
— E nesse momento você fica sozinha?
— Babuchka e Ramon me esperam em frente ao prédio. Não
desgrudam de mim em momento algum.
— Mas você entra sozinha no correio?
— Sim, mas Peppi me mandou dinheiro há alguns dias. Não
sei quando vou receber o próximo vale.
— Não tem importância: não é para que eles saibam mesmo. Ouça, você vai dizer a eles que Peppi telefonou, que mandou
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dinheiro, que você precisa ir buscá-lo. E depois vai me ligar para
dizer quando.
— E depois?
— Eu vou te esperar em frente ao correio. Você vai ver um
velho Audi vermelho metálico estacionado em frente, com uma
senhora loura no volante: sou eu. A porta de trás estará aberta.
Quando eles chegarem com você, você vai entrar no correio — e
imediatamente sair de novo. Temos de pegá-los de surpresa: eles
vão achar que você vai demorar pelo menos uns dez minutos, o
tempo necessário para assinar os papéis. Com certeza vão acender
um cigarro para esperar. Nenhum deles vai imaginar que você vá
sair logo depois. Quando sair, você entra no banco de trás do meu
carro. O motor estará ligado, e daremos a partida em um segundo.
— OK...
— Vai dar tudo certo, Ionela.
— Tudo bem...
Desligo o telefone, um pouco preocupada, apesar de tudo.
E se os traficantes desconfiassem de alguma coisa? Tanto pior, não
temos escolha, é preciso tentar... Ionela me telefona no dia seguinte:
— Está combinado, vou buscar o dinheiro amanhã à tarde.
— Estarei lá. Onde fica a agência de correio?
— É a do centro da cidade.
— Muito bem, vou achá-la. Mas lembre-se: um Audi vermelho, uma senhora loura, e você entra no carro.
— OK.
Moro em Pitesti, uma cidade industrial ao pé dos Cárpatos.
Călăraşi, onde vou buscar Ionela, fica perto do mar Morto, a quatro ou cinco horas. Terei portanto de partir cedo, ainda mais porque não tenho a menor ideia da hora em que Ionela vai aparecer.
Eu poderia ir no meu Dacia, mais confortável para trajetos longos,
mas o velho Audi é mais ágil e rápido, o que poderá revelar-se útil
em caso de perseguição.
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Já é quase meio-dia quando chego ao centro de Călăraşi. Meio
perdida com o mapa, acabei perguntando a um passante onde ficava a agência de correio. Finalmente, cheguei. Estaciono junto ao
meio-fio, a poucos metros da entrada. Muito bem... Agora é só esperar... na esperança de que os traficantes não mudem de planos!
Três horas e meia depois, nada de Ionela. Nem me levanto do
assento do carro, com medo de não ver quando ela chegasse. Não
como nada desde a manhã e meu estômago está se revirando ferozmente, mas de qualquer maneira eu não conseguiria comer nada.
Esta espera é insuportável. Fico imaginando o pior: a babuchka
teria descoberto a trama? Ionela teria confessado, aterrorizada, que
não havia nenhum vale? Com um nó na barriga de tanta angústia,
continuo observando atentamente o movimento das pessoas que
entram na agência de correio. De repente, lá está ela: uma menina
pálida, com o cabelo reto e sem corte, trajando calças jeans e uma
blusa minúscula, descendo de um táxi que acaba de parar na minha frente. Eu fico meio em dúvida... O cabelo mal cortado... Sim,
é ela, só pode ser. Ela dá uma olhada na direção do meu carro e se
dirige para a entrada do prédio. No assento dianteiro do outro automóvel, posso ver uma velha cigana conversando com o motorista
de táxi. Já agora com o cérebro em piloto automático, dou a partida
no carro e começo discretamente a dar ré, para poder zarpar sem
hesitação. Sempre de olho no táxi, passo a mão na maçaneta da
porta traseira para abri-la. Tudo pronto. Lá vamos nós! Ionela sai
da agência de correio e em três segundos se atira no banco traseiro. Ela nem se sentou ainda, e eu já dei a arrancada. É impossível
saber se a babuchka viu alguma coisa, mas ao ultrapassar o táxi
eu vejo pelo retrovisor o motorista dizer-lhe algo apontando meu
Audi. Eles entenderam... Com o pé enfiado no acelerador, ganho
velocidade. Atrás, o táxi também dá a partida cantando pneus.
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— Ionela, para onde vamos? Direita? Esquerda?
Eu não conheço a cidade. Nas quatro horas de espera no carro,
nem me ocorreu estabelecer um trajeto... Mas que imbecil! Pelo
retrovisor, vejo o rosto apavorado de Ionela, que nem ousa sentarse e tenta se localizar lançando olhares furtivos pela janela.
— Por aqui!
Encolhida no banco, a adolescente me indica com o braço a
direção a seguir. Eu obedeço. O táxi vem na minha cola. Lá de
dentro, a babuchka me mostra o punho, vingativa.
— E agora, para onde vou?
— Esquerda!
Ao me dar a resposta, ela aponta o braço para a direita.
— Ionela! Você não distingue a direita da esquerda?
— Sim... Não... Por aqui!
Caímos as duas na gargalhada, de nervoso. Ionela está em pânico. Tenho certeza de que se lhe perguntasse seu nome agora, ela
não saberia responder! Mal ou bem, vou seguindo suas indicações,
embora ela pareça desnorteada. Eu viro, ziguezagueio, avanço um
sinal... No retrovisor, nossos perseguidores rapidamente vão ficando para trás. Eu me congratulo por ter optado pelo Audi... Ao fim
de cinco longos minutos, Ionela se arrisca a olhar para trás.
— Não estou vendo mais eles — suspira, sem acreditar muito.
E está certa: é isso mesmo, conseguimos despistá-los. Mas nem
por isso eu desacelero. Os traficantes podem ter comunicado a placa do meu carro a um cúmplice. Sempre à espreita, quero me certificar de que nenhum outro veículo está vindo em nosso encalço.
No limite da cidade, finalmente convenço-me de que estamos salvas. Mantenho a velocidade, para aumentar ainda mais nossa vantagem, mas abro um sorriso encorajador para minha passageira
assustada. Por algum tempo, ficamos ambas caladas. Aos poucos,
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vamos voltando a respirar normalmente. De repente, toca o celular
de Ionela. No instante em que ela atende, alguém berra do outro
lado, tão alto que consigo ouvir:
— Me passa essa puta loura!
Trêmula e furiosa, Ionela me estende o celular. A voz brutal de
um homem quase me fura os tímpanos:
— Traga essa menina de volta imediatamente ou vai virar comida de ratos!
— Vá para o inferno!
— Você não devia ter feito isso, não sabe com quem está
lidando!
Caio na gargalhada: o sujeito visivelmente acha que está lidando com um traficante concorrente. Como se eu lhe estivesse roubando a mão de obra!
— Puta de m...!
Indignada, desligo e jogo o telefone no chão. Ficar me dizendo
essas grosserias é pura perda de tempo. E logo trato de tranquilizar minha protegida.
— Tudo bem, você está segura, eles nada podem contra nós.
— Sim... foram enganados direitinho, hein?
A voz da mocinha está um pouco tensa. Mas dá para sentir
que ela está empolgada com a situação. Ela não sabe nada a meu
respeito, pela primeira vez se sente confiante. O caminho é longo
e nós aproveitamos para nos conhecer. Falo do meu centro de hospedagem de vítimas de tráfico sexual, proponho que venha participar do meu programa de reintegração. Ela aceita, entusiasmada. E
também extremamente sedutora... Essa preocupação de me agradar não me espanta. Ela vem de um ambiente violento. Durante
semanas, tratou de enganar como podia para sobreviver. Terá de
aprender a confiar em mim... Ainda estamos a uma hora de Pitesti
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quando o celular de Ionela, ainda no chão do carro, volta a tocar.
Dessa vez, eu atendo, pronta para disparar outra saraivada de insultos. Surpreendentemente, a voz do outro lado é mais calma.
— Alô, eu sou sargento da polícia. Acabo de receber uma queixa de rapto de menor. A senhora está intimada a devolver imediatamente a moça.
Mais essa agora... Os traficantes tiveram a audácia de procurar
a polícia! Ou seriam apenas cúmplices? É impossível saber, mas a
ordem do representante rompe aquilo que me consome há tantas
horas. Louca de fúria, eu explodo:
— Seu babaca! A menor que eu supostamente raptei é explorada como prostituta! Por que é que você dá cobertura a essa gente?
Pelo menos eles se deram ao trabalho de lhe informar que a obrigaram a casar com um estranho?
— Não, não sei de quem está falando. Sei apenas que recebi
uma queixa de rapto.
— Qual é o seu nome, sargento?
— ...
— Alô?
A ligação caiu. Evidentemente, o tira preferiu desligar na minha
cara. Certamente se deu conta de que o caso era sério. Instintivamente, Ionela olha pelo vidro traseiro, gesto que repetiu uma boa
centena de vezes desde que deixamos Călăraşi. Eu sinto que ela vai
levar muito tempo para caminhar na rua sem olhar para trás...
— E então, está com fome?
— Sim.
— OK, vamos parar para comer alguma coisa.
Já é noite. Não comemos nada o dia inteiro. Restam-nos apenas vinte minutos de estrada para chegar ao abrigo, e eu quero
expor-lhe sucintamente as linhas gerais do programa antes de
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apresentá-la às outras moças. No restaurante de beira de estrada,
Ionela ataca a comida em seu prato. Aliviada mas esgotada, ela
agora está com pressa de chegar. O centro de hospedagem é para
ela a chance de mudar de vida.
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