Nota de Imprensa
Santander Cultural Porto Alegre inaugura nova exposição do projeto
RS Contemporâneo com Marília Bianchini
Série de imagens fotográficas impressas em papéis artesanais confeccionados pela
artista.
De diferentes origens, papéis estão a ponto de se desfazer, assim como as imagens
com aspecto desbotado.
Característica de desmanche do suporte artesanal, material essencial na trajetória da
artista, a fez explorar ainda mais a ideia de transitoriedade.
Porto Alegre, 7 de maio de 2013 – A unidade de cultura do Santander em Porto Alegre dá
continuidade ao seu calendário de exposições 2013. O projeto RS Contemporâneo traz a
mostra de Marília Bianchini, com curadoria de Luiza Proença. Elogio da transitoriedade
inaugura para o público em 15 de maio (14/3 coquetel para convidados) e fica em cartaz até 16
de junho. A jovem artista é a segunda convidada do ano para o programa, que já teve Nathália
Garcia e terá Túlio Pinto, além dos artistas Rafael Pagatini, Nara Amélia Melo e Rochele
Zandavalli, em 2012.
A curadora destaca que “o título da exposição de Marília Bianchini dentro do programa
RS Contemporâneo – Elogio da transitoriedade – é apropriado do texto de Thomas Mann em
que ele defende a transitoriedade acima de tudo. Ele escreve: “Mas a transitoriedade é muito
triste, dirão os senhores. Não, replico eu, ela é a alma do ser, é o que confere valor, dignidade
e interesse à vida, pois a transitoriedade produz o tempo – e o tempo é, ao menos
potencialmente, a maior e mais útil das dádivas [...].”1”.
Parte das obras retrata uma senhora idosa em diferentes situações – em pé, deitada em
um sofá, costurando, capinando; outra parte registra ferramentas que contrastam não somente
com a imagem frágil da senhora, mas também com o papel delicado. Já no único vídeo da
exposição, uma enorme bolha de sabão paira e depois estoura no espaço central do Santander
Cultural.
Um estímulo à produção cultural gaúcha e a formação de público em artes visuais, a iniciativa
prevê em cada edição um Conselho Curatorial que indica artistas, cujos trabalhos, capazes de
gerar uma contribuição relevante ao meio cultural, são observados por curadores de fora de
sua área geográfica de atuação e que, até o momento, não haviam se voltado às suas
1
MANN, Thomas. Elogio da transitoriedade. Serrote, n. 13, mar. 2013.
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poéticas. O Conselho Curatorial deste ano é formado pelos pesquisadores, críticos e curadores
gaúchos Paula Ramos e Paulo Gomes, que indicam os artistas para participarem do projeto
após analise de suas trajetórias. Dentro do RS Contemporâneo, os artistas trabalham em
conjunto com especialistas, expõem em condições adequadas e têm documentadas em
catálogo suas obras.
Já Carlos Trevi, Coordenador Geral do Santander Cultural, afirma que o programa
consolida o compromisso de estimular o trabalho de jovens artistas locais em sintonia com a
crença do banco na criatividade como fonte de desenvolvimento. “RS Contemporâneo está
diretamente relacionado à nossa vocação para a arte contemporânea e à valorização do
potencial artístico brasileiro para fortalecer as economias locais e inseri-las no contexto cultural
nacional”, destaca.
Projeto RS Contemporâneo apresenta
Elogio da transitoriedade
Artista Marília Bianchini
Curadoria Luiza Proença
15 de abril até 16 de junho (abertura para convidados em 14/5)
Entrada franca
Rua Sete de Setembro, 1028 | Centro Histórico, Porto Alegre, RS
Telefone: 51 3287.5500
De terça a sábado, das 10h às 19h
Domingos e feriados, das 13h às 19h
[email protected] | www.santandercultural.com.br
Texto da curadora Luiza Proença
Marília Bianchini e a artesania do tempo
Como nos relacionamos com o nosso tempo? A pergunta pode parecer ambígua. Os
pensadores da contemporaneidade logo comentariam a presença das tecnologias no nosso
cotidiano, imerso em celulares, smartphones, tablets, televisores e computadores; e a maneira
como a informação e nossas relações sociais se estabelecem hoje em dia. Falariam do modo
como nos tornamos não somente consumidores de imagem e informação, mas também
produtores, o tempo todo conectados. Nos lembrariam do tempo coletivo – latente, vivo,
excitante, urgente. Mas como de fato percebemos o nosso próprio tempo? Como e quando nos
damos conta da passagem dele? Quanto tempo, por exemplo, é necessário para escrever este
texto ou quanto tempo você, leitor, leva para lê-lo? Você chegou até esta frase sem
perturbações, ou você já teve sua atenção desviada?
Existe melhor momento para se pensar no tempo do que, justamente, estar em trânsito?
Para escrever este texto, saí da minha casa e fui ao aeroporto em São Paulo; de lá, embarquei
em voo rumo a Porto Alegre com duração aproximada de 1h30. Já em Porto Alegre, tomei um
taxi até o ateliê da artista Marília Bianchini. Durante o percurso, nosso carro passou na frente
da Fundação Iberê Camargo, de arquitetura internacionalizada e singular na cidade; da
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construção do estádio Beira Rio, promessa para a Copa do Mundo, em 2014; e
coincidentemente o motorista me avisou que o carro da (presidenta) Dilma acabara de cruzar
por nós. Em poucos momentos, de algum modo, é como se tivesse formado um panorama
exemplar da conjuntura atual do país, baseada em uma expectativa de futuro por meio da
elaboração de projetos mais distantes para si e a partir da constatação de que somos uma
potência econômica. Eis uma relação com o tempo bastante peculiar.
“Bem no início da rua os números são meio estranhos, mas minha casa/ateliê fica logo
que termina a subida, à direita”, eram as orientações de Marília. Com bastante dificuldade
procuro me situar e, em alguns instantes, estou em uma paisagem que me fornece uma
experiência de tempo completamente diferente e contrastante com as imagens anteriores: uma
casa silenciosa, com aparência de campo ou praia, uma vista ampla para o Guaíba e um jardim
frutífero, onde pude observar o devagar caminhar de alguns caramujos.
Era a segunda vez que eu me encontrava com a artista, que conheci por meio do
convite do projeto Contemporâneo RS, e deveria, em poucos dias, ajudá-la a definir sua
exposição individual e escrever um ensaio (sim, este mesmo). Marília me apresenta o
jardim/horta e as árvores e frutos que nascem dele: banana, abacate, maracujá, mandioca,
couve... E falamos então, para além da exposição que estava por vir, de sua avó, falecida
recentemente, mas que por muitos anos morou com a artista e cuidou do jardim. Fui aos
poucos perguntando outros detalhes sobre a história e a personalidade da avó dela, tão
importantes para o processo deste texto e da exposição quanto desnecessários de serem
descritos aqui. O fato é que, se no início eu via com certa banalidade as histórias de avó na
fala ou obra de jovens artistas, aos poucos a narração afetiva de Marília me revelou o quanto a
figura da avó é determinante para uma geração.2 Quantas histórias de avós incríveis não
podemos escutar na nossa atualidade? A minha própria avó foi uma pessoa fundamental na
minha formação e experiência afetiva, e perdê-la foi, embora previsível e inevitável, um
significativo momento para lidar com transitoriedade.
Um elogio
O título da exposição de Marília Bianchini dentro do programa RS Contemporâneo –
Elogio da transitoriedade – se refere ao texto de Thomas Mann em que ele defende que a
transitoriedade está “acima de tudo”. Ele escreve: “Mas a transitoriedade é muito triste, dirão os
senhores. Não, replico eu, ela é a alma do ser, é o que confere valor, dignidade e interesse à
vida, pois a transitoriedade produz o tempo – e o tempo é, ao menos potencialmente, a maior e
mais útil das dádivas [...].”3
Marília apresenta uma série de imagens fotográficas impressas em papéis artesanais,
feitos por ela mesma. As imagens se fundem com os papéis fibrosos – há interferência direta
da imagem sobre o papel e vice-versa. Os papéis, de diferentes origens, estão a ponto de se
desfazer, assim como as imagens com aspecto bastante desbotado (consequência do
processo de impressão no qual o papel deixa passar parte da tinta). Essa característica de
desmanche do papel artesanal, material essencial na trajetória da artista, a fez explorar ainda
mais a ideia de transitoriedade, também bastante importante para outros artistas de sua
geração.
2
Foi Sofía Hernández Chong Cuy, curadora da 9ª Bienal do Mercosul (Porto Alegre), que em uma conversa
particular coincidentemente comentou a importância da avó na arte contempôranea, especialmente em países como
o Brasil, cuja grande parte das famílias são de imigrantes.
3
In: MANN, Thomas. “Elogio da transitoriedade”. Publicado na revista Serrote #, n. 13, março de. 2013.
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É o olhar otimista de Mann sobre o transitório que a artista busca nas imagens mais
cotidianas. Parte das obras apresentadas em Elogio da transitoriedade, a exposição, retratam
uma senhora idosa em diferentes situações – em pé, deitada em um sofá, costurando,
capinando. Em geral, parecem melancólicas, colocando-nos diante de um lento e solitário
passar dos dias. Temos a personagem e seu objeto de relação – uma cadeira de balanço, o
pano de costura, o sofá, a enxada –, mas não temos um cenário específico (e não importa o
nome da senhora).
Em Sem título [costurando], por exemplo, temos a personagem em uma cadeira
costurando uma camisa, ou algo parecido. Não seria uma imagem clichê de uma pessoa de
idade? Curioso, porém, é notar que o papel utilizado para a impressão dessa imagem foi feito
com fibra de jeans, ou seja, o mesmo material retratado tanto na vestimenta da personagem
como relacionado à ação da costura. Imagem e suporte se fundem de modo que a imagem se
expande de um singular momento em direção à fabricação de um estereótipo. É como se
existisse uma espécie de projeção sobre o papel que se dá também como imaginação. Cabe
ao papel resistir ou suportar essa imagem, nem sempre com muito sucesso.
Já em À procura, temos uma composição que se dá pela sobreposição de diferentes
papéis e pontos de vista de uma mesma imagem, a senhora com uma enxada. Essa foi uma
metodologia muito usada nas primeiras obras de Marília Bianchini: a partir do registro
fotográfico de um mesmo objeto em diferentes momentos e ângulos, ela cria espécies de
“camadas temporais”, valendo-se da transparência do papel, e assim reforçando a ideia do
passar do tempo; em À procura, mais especificamente, do capinar de um dia todo.
Labor
Outra parte das obras registram ferramentas, duas pás e um garfo. Contrastam não
somente com a imagem frágil da senhora, mas também com o papel delicado. São imagens
com cores fortes e presença bruta que nos remetem à ideia de labor ou trabalho no seu sentido
mais arcaico, tão presente no processo de trabalho artesanal da própria artista. Nas suas
palavras:
“Passar por todo o processo de manufatura do papel significa cortar a planta (ou colher
os frutos, no caso as paineiras; ou cortar uma camiseta velha, no caso do algodão),
picá-la, cozinhá-la por horas em uma solução alcalina, lavá-la até ficar somente a fibra
(o que pode demorar dias), bater essa fibra (com martelo de madeira ou borracha) até
ela se transformar em uma pasta, colocar essa pasta em uma bacia com água e CMC
(Carboxi Metil Celulose), retirar daí as folhas com moldes, deixá-las secar e prensálas.”4
Após esse processo, há ainda todo o trabalho na impressão das imagens, feito com
uma impressora caseira, com todo cuidado, até Marília conseguir o resultado desejado.
Na série Paina em bananeira, temos imagens de painas (fibra semelhante ao algodão)
em diversos estágios impressas em papel de bananeira. A fibra do papel se mescla com a fibra
retratada na imagem, tornando ainda mais indistinguíveis suporte e imagem. A imagem quase
se desfaz no papel e vice-versa, em ação e reação. E o processo de trabalho está todo
sintetizado.
4
Trecho de dissertação da artista A poesia da tensão: o suporte como corpo da imagem a partir de impressões em
jato de tinta sobre papéis artesanais, realizada para qualificação de mestrado em póeticas visuais da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, em novembro de 2012.
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A bolha estoura
Balões também usam bengalas, conclui a artista na obra que ilustra balões coloridos
suspendendo uma bengala. Assim como os sujeitos, os balões, ou objetos, são efêmeros,
também estouram, têm sem próprio tempo. “Tudo tem alma”, continuaria Thomas Mann, e
Marília concordaria.
Com sentido semelhante, Excesso de liquidez, único trabalho em vídeo na exposição,
registra uma enorme e sedutora bolha de sabão flutuando pelo saguão principal de estilo
eclético do Santander Cultural, que foi por muitos anos sede de diversas instituições bancárias.
Aqui talvez já esteja mais do que evidente a ampliação da noção de transitoriedade, por meio
da relação com o termo “bolha econômica” – usado para descrever os processos de
supervalorização do mercado e especulação financeira, e assim refletir sobre conceitos como
os de ilusão, imaginação e fantasia. Em Excesso de liquidez, a bolha, já formada, reflete
solenemente a luz e o espaço em volta, move-se lentamente, transita, até, finalmente, estourar.
Sobre a artista Marília Bianchini (Porto Alegre/RS, 1977)
É formada em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS) e atualmente é mestranda em Poéticas Visuais na mesma instituição.
Em 2008, foi premiada no Salão Jovem Artista do grupo RBS. Em 2010, foi indicada ao IV
Prêmio Açorianos de Artes Plásticas (SMC/Prefeitura de Porto Alegre) nas categorias Destaque
em Desenho e Artista Revelação por sua exposição individual Linhas em
Transparências (Studio Clio, 2009). Entre suas principais exposições coletivas, estão: Essa
Poa é Boa (DC, 2007/2008); Pequenos Formatos (Atelier Subterrânea, 2008); 19º Salão de
Artes Plásticas da Câmara Municipal de Porto Alegre (2010); Interseção (ESPM, 2011, com
Diego Amaral); Cartão de Visita (Galeria Gestual, 2011), exposição vencedora do VI Prêmio
Açorianos de Artes Plásticas (SMC/Prefeitura de Porto Alegre, 2012) na categoria Destaque em
Exposição Coletiva; e Idades Contemporâneas (MAC-RS, 2012).
Sobre a curadora Luiza Proença
É coordenadora editorial das publicações da 9ª Bienal do Mercosul I Porto Alegre
(2013). Foi curadora assistente da exposição The Insides Are on the Outside, na Casa de
Vidro, de Lina Bo Bardi (2011-2013), e cocuradora do Rumos Artes Visuais 2011-2013
(Instituto Itaú Cultural, São Paulo, Belém e Rio de Janeiro). Foi cocuradora das mostras À
Sombra do Futuro (Instituto Cervantes, São Paulo, 2010) e Temporada de Projetos na
Temporada de Projetos (Paço das Artes, São Paulo, 2009). Integrou o Grupo de Crítica e
Curadoria da Universidade de São Paulo (2009-2011) e Máquina de Responder (Capacete
Entretenimentos, 2010). Desde 2009, colabora como crítica de arte em diversas publicações
nacionais e internacionais.
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