“O MENSAGEIRO DE NOSSA SENHORA DA SALETTE”: A AÇÃO EDUCATIVA DE UMA CONGREGAÇÃO RELIGIOSA POR MEIO DE UMA REVISTA (1917-1921) Letícia Aparecida Mazochi (Universidade São Francisco - SP) [email protected] Paula Leonardi (Universidade São Francisco - SP) [email protected] Introdução O presente trabalho tem por tema a ação educativa da Congregação dos Missionários de Nossa Senhora da Salette por meio de uma Revista (1917-1921). O objeto dessa pesquisa se insere no contexto cultural do século XIX e início do século XX, quando a constituição das cidades modernas foi o espaço onde novas configurações de poder se estabeleceram com a separação entre Igreja e Estado e o avanço da secularização. Diversas congregações religiosas entraram no Brasil após a Proclamação da República. Ao adaptar-se à nova realidade aqui encontrada, essas congregações reviam seus carismas e missões e lançavam-se na tarefa de evangelização/educação por diversos meios, construindo seus espaços na cidade, relacionando-se com os habitantes locais por meio de colégios, de pensionatos, de cinemas, de editoras, de revistas, de hospitais etc. Dentre estas variadas estratégias e formas de educar/evangelizar, este estudo se debruça sobre o caso das revistas. A Congregação Saletina foi criada na França, em 1852, a fim de difundir o culto a Nossa Senhora da Salette. Quando os primeiros missionários foram enviados para o Brasil em 1902, além dos santuários criados no Rio de Janeiro (1927), em São Paulo (1940) e em Marcelino Ramos (1943), a ação dos religiosos era dirigida para a criação de escolas paroquiais e para a publicação do referido periódico. Nele, os mais diversos assuntos eram tratados e, entre eles, prescrições de educação moral para as mulheres, pais e professores. Como estes padres tentaram universalizar a imagem da Salette, de um local específico da montanha na França, vestida como os camponeses locais, para o Brasil? Como teria se dado a transposição dessa imagem e dessa devoção? Eles obtiveram sucesso? Como se adaptaram e adaptaram sua congregação e formas de educar/evangelizar à nova realidade brasileira? De que forma a imprensa contribuiu para um empreendimento de caráter educativo na sociedade? A fim de responder essas questões, nossa pesquisa teve como foco a Revista O Mensageiro de N. S. da Salette, entre os anos de 1917 (primeira publicação no Brasil) até 1921. A primeira data marca o início da publicação e, a segunda, foi o período que conseguimos alcançar no quadro de uma pesquisa de Iniciação Científica realizada em dois anos. Salette e a criação da Revista Para a compreensão deste objeto, consideramos importante conhecer um pouco de como é narrada, pelas memórias construídas pela congregação, a constituição da Congregação Missionários de Nossa Senhora da Salette. Na Revista O Mensageiro, em seu primeiro número publicado no Brasil, sua história é assim contada: E’ a Salette communa rural do departamento do Isére, no sudeste de França. Um dos cumes alpestres que se lhe erguem no território, o monte Sous~les~Baisses, situado numa altitude de 1.8000 metros, foi theatro do facto maravilhosos que vamos succintamente narrar. N’um sabbado de temporas, 19 de Setembro de 1846, véspera da festividade de N. Sra. das Dôres, duas creanças, Melania, de 15 anos, e Maximino, de 11, juntos guardavam naquellas alturas os rebanhos de Baptista Pra e Pedro Selme, seus patrões, pequenos proprietários de uma aldeia da Salette. [...] depois de haverem avistado, do alto de um montículo próximo, as vaccas que deviam apascentar, desciam a eminenciasinha para se juntarem a ellas, quando, chegada á meia-encosta, Melania percebeu, no próprio lugar onde havia estado, um globo luminoso mais brilhante do que o sol. Sem tardança, chama a pastora a attenção do companheiro para o estranho phenomeno. Emquanto os dous o contemplam, entreabre-se o globo luminoso, e deixa que se lhe veja no seio uma senhora (são as próprias palavras dos videntes) assentada sobre pedras dispostas em tosco banco, os cotovellos apoiados nos joelhos, o rosto occulto entre as mãos como que abatida por grandes maguas” (O MENSAGEIRO DE N. S. DA SALETTE – Janeiro de1917, p. 03, grifos do autor). A história impressionante contada na Revista tem o respaldo da Igreja Católica. Depois de 5 anos de diversos processos internos da Igreja, foi determinado por essa instituição que a aparição foi um “fato”, ou seja, verdadeira. Assim, em 1852 é ordenada a construção do santuário na montanha e designados alguns padres que dele se ocupariam sob a denominação “Missionários de Nossa Senhora da Salette”. A chegada dos missionários saletinos ao Brasil, se deu em 1902 com o Pe. Clemente Henrique Moussier. É importante destacar que as congregações tiveram uma abertura para o 2 exterior por diferentes motivos: pelo “esforço missionário” em evangelizar os diferentes povos além-fronteira, pela “criação de congregações destinadas a tornarem-se internacionais”, ou ainda em decorrência de mudanças nas leis francesas (leis de laicização do ensino) (LEONARDI, 2011, p. 31). Padre Atico Fassini (2001, p. 20-21) em sua obra Crônicas de uma missão – 100 anos de presença saletina no Brasil, se reporta à vinda da Congregação dos Missionários da Salette ao país: [...] o Governo francês, ao final do séc. XIX e começo do séc. XX, desencadeou uma perseguição às diferentes Congregações Religiosas, proibindo a formação de comunidades e confiscando seus bens. Esse período de sofrimento foi um tempo de graça que provocou novo impulso missionário além-fronteiras da Vida Religiosa francesa. A Congregação dos Missionários de Nossa Senhora da Salette já havia partido para terras de missão, anos antes, na Noruega, a seguir em Madagascar e nos EUA. Mas, a perseguição fez com que outros Missionários Saletinos partissem da França para missões estrangeiras. A própria Casa Geral da Congregação foi transferida para a Suíça e mais tarde para a Itália. Com o Pe. Moussier chegara a hora do Brasil. A chegada do primeiro saletino no Brasil em 1902 abriu possibilidade para a expansão da Congregação. Padre Moussier, o primeiro saletino a chegar, foi recebido pelas irmãs de São José de Chambery em São Paulo, as quais serviram de apoio as suas atividades, cedendo espaço para sua instalação e o exercício de atividades como capelão. Posteriormente, com a chegada de mais padres saletinos, conseguiram novos postos de missões e capelania em cidades interioranas, como Jaú, Santa Cruz das Palmeiras, Campinas, dentre outras. Em 1912, iniciaram as obras de construção do seu primeiro Santuário no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, no bairro de Catumbi. Em 1913, criou-se a paróquia e, ao longo dos anos, foram ampliando as construções, inaugurando-o somente em 1927. No ano seguinte, criaram a Escola Apóstólica, em Marcelino Ramos, no Rio Grande do Sul. A escolha se deu devido a pouca concorrência com outras congregações, pelo fato do local ser populoso e pela cidade se ligar facilmente a outras por uma ferrovia. Quanto ao Noviciado, esse teve início em 1923 no bairro Catumbi, Rio de Janeiro, sendo transferido em 1929 para Marcelino Ramos. O segundo Santuário dessa congregação iniciou suas obras somente em 1940, em São Paulo, no Bairro de Santana (FASSINI, 2001). Assim, enquanto esses espaços eram criados, a ação missionária dos padres se voltou para a criação da Revista O Mensageiro de Nossa Senhora da Salette, importante veículo de difusão do culto e de evangelização no Brasil. Nesse sentido, NÓVOA (1997 apud DIAS, 2002, p. 113-114), refere-se à imprensa como meio de veicular intentos educativos: 3 A imprensa é, provavelmente, o local que facilita um melhor conhecimento das realidades educativas, uma vez que aqui se manifestam, de um ou de outro modo, o conjunto dos problemas desta área. É difícil imaginar um meio mais útil para compreender as relações entre teoria e prática, entre os projectos e as realidades, entre tradição e a inovação... São características próprias da imprensa (a proximidade em relação ao acontecimento, o carácter fugaz e polêmico, a vontade de intervir na realidade) que lhe conferem este estatuto único e insubstituível como fonte para o estudo histórico e sociológico da educação e da pedagogia. A publicação da Revista se inscreve nas orientações do primeiro Concílio Plenário da América Latina (1898), que intentava unificar e homogeneizar a ação da Igreja na região. O documento resultante desse Concílio enfatizava que os religiosos deveriam atuar na redação e publicação de boas obras, que defendessem a doutrina e a fé católica. Salientou também que cada província deveria publicar ao menos um Boletim Católico. Assim, a iniciativa de criação da imprensa católica se apoiava nas diretrizes estabelecidas pelo papa Leão XIII e pela hierarquia. Foi assim instalada a imprensa como meio propagador da doutrina católica (FASSINI, 2001). A história da Revista O Mensageiro de N. S. da Salette começa na América do Norte com o título de “Annaes”, em seguida de “Boletim”, difundindo os ensinamentos da Salette e da Igreja “aos povos de língua ingleza”: Infelizmente, mais do que em tempos idos, hoje se verificam as palavras do divino Salvador: <<A messe, na verdade, é grande, porém, os operarios são poucos.>> Bem cedo comprehenderam os Missionarios que para melhor realisarem sua nobre missão, deviam recorrer ao poderoso auxilio da imprensa, unico meio de alcançar numerosas famílias e vastos paizes, onde deviam echoar as dolorosas queixas de Maria Santissima e suas salutares advertencias. Vieram á luz os “Annaes de N. S. da Salette”, tempos depois apareceu o “Boletim dos Padres Missionarios da Salette”, o qual, para occorrer a novas necessidades, se revestiu duma nova forma, e levou a boa semente aos povos de língua ingleza, particularmente da America do Norte (O MENSAGEIRO DE N. S. DA SALETTE, Nº 1, Janeiro de 1917, p. 1-2). A ação dos padres saletinos na criação da Revista também se desenvolve no cenário da romanização e ultramontanismo: Como forma de vencer os males provocados pela modernidade, o clero ultramontano começa uma fase de recristianização pelo mundo. Esse processo foi uma solução encontrada pela Igreja como forma de rejeição e combate à ciência moderna, á democracia burguesa, ao capitalismo e ao comunismo. Dentro do pensamento ultramontano a educação das meninas e jovens constituía-se em uma das principais tarefas, pois estas seriam as futuras mães, educadoras de seus filhos, portanto, disseminadoras da fé e dos preceitos religiosos. Nessa perspectiva, cabe afirmar que as congregações 4 religiosas responsáveis em promover a educação feminina faziam parte do projeto ultramontano para afastar seus fiéis das idéias modernas e das propostas da educação laica (ACHNITZ, 2007, p. 03). As prescrições da Revista e a difusão de um modelo de mulher e de mãe se filiam a essa política da Igreja como se verá adiante. A Revista em sua materialidade Ao consultar a Revista, primeiramente direcionamos o olhar para as características físicas - título, anos, formato, estado de conservação, diagramação e colaboradores, número de assinaturas, e uma visão geral sobre seu conteúdo interno, seguindo as orientações de Cruz e Peixoto (2007). Assim, essa sessão apresenta uma visão geral da Revista nos anos estudados e analisa os aspectos materiais e simbólicos da Revista “O Mensageiro de Nossa Senhora da Salette". FIGURA 1- Capa do número 1 Fonte: O Mensageiro de Nossa Senhora da Salette - nº 1, Janeiro de 1917 5 A coleção da Revista O Mensageiro de Nossa Senhora da Salette (de 1917 a 1928) está arquivada no Grupo de Estudos História da Educação e Religião (GEHER), na Faculdade de Educação da USP em São Paulo e emprestada temporariamente para o Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa em História da Educação (CDAPH), da Universidade São Francisco, campus Bragança Paulista. Os números de Janeiro de 1917 até Dezembro de 1918 encontram-se reunidos e encadernados em um mesmo volume, em capa dura, nas dimensões de 15x22 centímetros. Os volumes, referentes aos anos 1919 e 1920 são xerocopiados em preto e branco, encadernados em espiral com as páginas abertas, sendo então duas páginas por folha, em que algumas estão com a escrita cortada. E, um último volume, de Janeiro de 1921 à Dezembro de 1922, em capa dura, nas dimensões de 15x22 centímetros. As folhas estão amareladas, há alguns furos feitos por insetos (traça), e o lombo de alguns cadernos está soltando. O período de publicação da Revista dos anos de 1923 até 1927 está reunido em três volumes: um de Janeiro de 1923 até Dezembro de 1924; outro de Janeiro de 1925 até Dezembro 1926 e um último de Janeiro de 1927 à Dezembro de 1928. Todos encontram-se em capa dura, nas dimensões de 15x22 centímetros. As folhas estão amareladas e algumas com manchas de umidade. Conforme aponta Fassini (2001, p. 119), “o periódico teve seu primeiro número editado em janeiro de 1917, no Rio de Janeiro. Uma sala da Casa Paroquial foi transformada em centro administrativo da revista. Pe. Fidélis Willy MS foi seu fundador e, por muitos anos, Irmão Rafael Rozec MS foi seu gerente”. Desta forma a Revista permaneceu até 1943, sendo que, no ano seguinte, o direito de propriedade esteve em nome de Marcos Sombra Albuquerque, um leigo. No entanto, em 1950, o Conselho Provincial transferiu esse direito à Associação Nossa Senhora da Salette. Além disso, em 1946 a Revista foi transferida para Marcelino Ramos (RS) sob encargo de Irmão Nicolau Martinowski, Pe. Alberto Allamann, Pe. Francisco Xavier Hoegger, Pe, Emílio Soares da Silva, Pe. Clorálio Caimi, entre outros. Em 1960, o título foi alterado para “Salette”, sob gestão de Padre Anacleto Ortigara e direção de Padre Arlindo Favero. A Revista ganhou novo estilo, mais cores e foi computadorizada. Trata-se ainda, de uma Revista publicada até os dias atuais: “Salette” é um veículo de grande penetração, sobretudo em meio a populações interioranas. Divulga entre seus vinte mil ou mais assinantes, a Mensagem de Nossa Senhora da Salette, levando a seus leitores artigos de informação sobre questões de vida pessoal a familiar numa perspectiva humanística e de formação cristã (FASSINI, 2001, p. 248). 6 Em seu sumário da primeira publicação (1917), sob o título “Assignaturas” informa-se que a forma de pagamento deve ser adiantado e deve ser em “carta registrada com valor declarado ou vale postal” ao endereço mencionado no “Expediente”, sendo o valor para o Brasil de 3$000 e, para o Estrangeiro, o valor de 4$000. Não foi encontrado, em nenhum dos números da Revista, dados relativos à tiragem. Nesta caracterização, foi possível notar, ainda, que as imagens das capas da Revista aparecem inicialmente trazendo momentos da aparição de Salette na França e, depois, enfatiza o santuário de Nossa Senhora, primeiro na França e, em seguida, sua construção no Brasil (RJ) representando aquilo que os missionários estavam incumbidos de difundir: a imagem de Nossa Senhora da Salette e sua mensagem carregada de valores. Observamos que, aos poucos, a construção do Santuário no Rio de Janeiro torna-se assunto de destaque em seus números. Gradativamente as imagens da aparição vão deixando de estampar as capas tornando-se assunto para o interior da Revista em seus artigos que relembram a temática da aparição, da fé, da credulidade, a verdadeira religião etc. Nesse momento as imagens dos Santuários ganham centralidade e destaque na primeira visão de quem adquire o material: a capa. Além desse enfoque dado pelos missionários, no miolo da Revista são apresentados aos fiéis os projetos para a obra bem como o andamento dela: plantas baixas, vista frontal, detalhamento de tamanho, estrutura, materiais, operários na construção etc. Além da caracterização da Revista nos seus aspectos materiais, buscamos compreender seu conteúdo por meio da leitura, da seleção e categorização de artigos intentando observar nesses textos a ação evangelizadora/educativa dos missionários. Lendo e analisando a Revista: a educação por meio de modelos e prescrições Os missionários salientam que o surgimento da Revista tinha por função difundir os ensinamentos de Salette, e fazer com que a nobre missão chegasse a um número maior de pessoas. E qual o meio melhor para isso? A imprensa. Nos artigos da Revista, encontramos o projeto educativo empreendido pelos padres, pelos temas e formas abordadas. Percebemos que há um movimento que tensiona para afirmar a aparição de Nossa Senhora como verdadeira, trazendo provas para os leitores, propondo temas como a fé, a evangelização, a defesa do pensamento religioso católico calcado na tradição do culto aos santos, no modelo de família patriarcal, na imagem de Maria como exemplo para as mulheres. 7 Ao publicar na Revista imagens impressionantes (em representações discursivas ou visuais) que se fixam na memória, a Igreja utilizou-se de um veículo de comunicação a seu favor, para a produção de imagens do ser ideal (baseado na figura de Maria) e para a divulgação de “lugares de memória”: santuários, locais das aparições (NORA 1993 apud LEONARDI, 2011). Como salienta Leonardi (2011, p.18), a religião é considerada um fenômeno dinâmico, permeada de “[...] relações de poder, classe, gênero, raça e etnia” assim, como um sistema que modela, redesenha, configura a sociedade por meio do seu sistema simbólico, estruturando modelos e práticas de comportamento a seu favor. Diante disso, alguns assuntos são apresentados com maiores discussões e com repetição frequente: discursos referentes à moda, aos trajes femininos, à educação, à moral e virtudes, prescrições quanto ao convívio nos lares, boas lições, abominação de outras religiões, sobretudo o espiritismo e protestantismo, oração para as moças e, também, conselhos sobre o casamento, tornam-se frequentes. Um exemplo de prescrição de modelos e comportamentos para o público feminino encontra-se na publicação de abril de 1918, na página 274, um pequeno texto intitulado “Para as moças”, com a indicação ao final do artigo: “Boletim da Liga pela Moralidade”: O uso de modas indecentes é signal certo de fraqueza de espirito ou de pronunciada maldade. Deveras só usa de trages de bailarina quem lhe tem a alma, ou quem receia por timidez os sarcasmos dos pevertidos. O melhor encanto de uma moça é a pureza dos seus costumes, o pudor, em suas maneiras. E’, por isto que nem sequer concebem lyrios de negra côr. Quem se julgará livre de culpa porque há outros que erram tambem? O que fica bem nos carneiros não é só por isto regra para os animaes racionaes. Modas poucos descentes, maneiras livres, fazem suppôr que a jovem nasceu para actriz de theatro. Os espelhos reflectem a realidade, os trages e os modos são o espelho da alma (O MENSAGEIRO DE N. S. DA SALETTE, Nº 4, Abril de 1918, p. 274). Os modos e trages devem espelhar a pureza da alma, uma das qualidades atribuídas a Nossa Senhora. Essas ligações são reiteradas nos demais artigos da Revista. O exemplo de Maria torna-se a imagem, o modelo, o espelho para o qual as moças devem voltar-se. Em todos estes estados, a mulher virgem, esposa, mãe, viuva, vivendo no mundo ou retrahida no silencio da sua casa, póde prestar verdadeiros serviços as causa catholica e social sem sahir fora da esphera da sua acção e sem abandonar os interesses da sua familia. [...] Deve por todas as formas louvaveis ser o amparo dos desgraçados, o modelo a imitar, a missionaria do Bem, a Mulher forte do Evangelho (O MENSAGEIRO DE N. S. DA SALETTE, Nº 4, Abril de 1918, p. 273-274). 8 O modelo de mulher está inscrito na imagem da Mulher forte do Evangelho, Maria. No enredo da Revista, outras religiões são enfaticamente abordadas. Os ataques dirigem-se, sobretudo ao espiritismo entendido como “[...] praticas ridiculas, pharisaicas, até indecorosas, quando não francamente immoraes, dos centros espiritas”, destacam ainda: <Entre todas as superstições, que se exhibem com certo apparato Scientifico, invocando o progresso e a civilisação da nossa epocha, para mais facilmente illudirem os incautos, a mais perniciosa é a que tomou o nome de Espiritismo>. (Concilio Plenario da America Latina) (O MENSAGEIRO DE N. S. DA SALETTE, Nº 1, Janeiro de 1917, p. 09). Como se vê, o texto da Revista remete às orientações do Concílio e investe no combate à outras religiões. Interessante notar que da mesma forma abordam a Maçonaria: “A maçonaria odienta e satanicamente impia não descansa durante a guerra: Discursos violentos, mentiras, insinuações calumniosas [...] contra os catholicos. Não ha duvida em que, em materia de cynismo, os maçons não podem ter cuncurrentes” (O Mensageiro de N. S. da Salette, nº 1, Janeiro de 1917, p. 43-44). Espiritismo e maçonaria são apresentados como inimigos da Igreja Católica. Após o ataque, a religião tida como verdadeira ganha destaque e a ênfase no catecismo aparece como um meio de combate aos inimigos: Os principios eternos sobre os quaes esta baseado o seu ensinamento, não brotaram do cerebro humano, mas desceram das regiões sobrenaturaes. Não contem meras opiniões, porem a verdade pura, os mesmos ensinamentos que cahiram dos lábios divinos de Jesus Christo, as mesmas palavras de vida, esparsas na Sagrada Escriptura, mas aqui reunidas, methodicamente compendiadas. Sem as verdades contidas neste livro, o homem será o eterno ludibrio das paixões nunca saciadas, a sciencia será fria como o mármore dos sepulchros e todas as philosophias conduzirão fatalmente ás desoladas regiões das duvidas, onde viveram torturados os chamados philosophos (O MENSAGEIRO DE N. S. DA SALETTE, Nº 1, Janeiro de 1917, p. 07). Disso deriva a ideia de uma das imagens veiculadas pela Revista, a boa imprensa. O artigo intitulado “A bôa imprensa” (Jan. 1917, anno 1, nº 1, p. 16), apresentou trechos de carta do cardeal Gasparri, secretário de estado do papa Bento XV, endereçada a esse papa, para sugerir a obra da boa imprensa organizada na Itália, tida como um exemplo para os brasileiros. Compreende-se então, que a boa imprensa foi uma recomendação, uma obrigatoriedade entre as almas católicas. Tendo em conta a funesta e deletéria propaganda que se vai espraiando por meio da imprensa antireligiosa e sectária, com grave detrimento da fé, da moral e da disciplina catholica, o Augusto Pontifice demonstrou as melhores disposições em favorecer com seu supremo apoio, a nobre e salutar empreza que tem por objecto promover uma intensa e progressiva difusão do espírito 9 e sentimento catholico, de maneira tal que se possa chegar por meio de uma prudente harmonia dos intentos e das forças, a pôr um dique ao desenvolvimento da imprensa antireligiosa. Ao mesmo tempo, Sua Santidade comprehende perfeitamente a necessidade absoluta de que os diários, as revistas e os periódicos que se inspiram no espírito recto e profundamente catholico, sejam cada dia mais e mais favorecidos (O MENSAGEIRO DE N. S. DA SALETTE, Nº 1, Janeiro de 1917, p. 16, grifos do autor). Trata-se de representações que delimitam e diferenciam uma imprensa antirreligiosa (contra o catolicismo) de uma imprensa católica. A defesa do catolicismo compreende, na Revista, duas frentes: a pregação dos valores católicos, a defesa de sua moral e o oferecimento de espelhos para a boa e o bom fiel e, de outro lado, o ataque a outras religiões ou seitas. Por contraste, salientam a elevação espiritual que o catolicismo traz. <Os Revds. Parochos e confessores instruam e reprehendam os fiéis, que pensam lhes ser licito frequentar as sessões espiritas, por não terem ouvido nunca ahi cousas torpes ou impias. E lhes declarem que todos os escriptos, jornaes, revistas e livros do espiritismo estão prohibidos.>> (O MENSAGEIRO DE N. S. DA SALETTE – Janeiro de 1917, p. 09, grifos nossos). A missão evangelizadora/educativa dos religiosos é louvada. A imagem do missionário construída na Revista e a imagem da própria Revista é daquele e daquela eleitos para levar a verdade aos povos. Ressalta-se, que os padres são enviados por Deus – ordenados - e encarregados de sua missão. Na tradição católica, a ordenação sacerdotal é dada somente aos homens, um ritual pelo qual se transmite a missão de Cristo a seus apóstolos de ensinar, santificar e governar os fiéis. A ordenação é proibida às mulheres. Os artigos que trazem os valores da conversão, da boa imprensa (católica), da leitura do catecismo, prescrições para mães, são instrumentos de valorização da moral católica, da naturalização das diferenças entre homem e mulher. Porque portadores da verdade, os missionários se entendem como educadores. Instruir, evangelizar e educar a população para a religião católica é como salvá-la dos males da sociedade que está numa fase de transformação, de mudanças e inquietação: a tão temida modernidade, em que emerge a ciência, a filosofia, novos costumes e hábitos contrários aos valores pregados pelo catolicismo. Construção de uma devoção: O Santuário de N. S. da Salette Pudemos perceber que os discursos, memórias e imagens construídos e divulgados por meio deste periódico endereçaram esforços de divulgação de modelos e práticas tendo como 10 eixo condutor a mensagem da Salette. Gradativamente, ganha espaço na Revista a construção e instalação do primeiro santuário no Brasil, em 1927, no Rio de Janeiro. Conforme estudos de Andrade (2010) em “Religiosidade e educação na história”, os santuários podem ser entendidos como espaços educativos, pois modelam o espaço urbano por meio de atividades e ritos simbólicos. Os santuários, até mesmo cemitérios, conventos (locais de peregrinação), são espaços de mostras de devoção. Além disso, os santuários se inserem nas principais manifestações da religiosidade católica que está associada a três aspectos: o culto aos santos, que seriam os intermediários entre Deus e o fiel; as peregrinações e romarias, que seriam as viagens aos santuários e capelas num tempo e espaço que é sagrado; e, por fim, os ritos e cerimônias realizados para pedir curas, proteção, resolução de problemas. Diante disso, a religiosidade católica é caracterizada pela necessidade de buscar uma proximidade do sagrado com o plano humano, aproximando-se do transcendente. A primeira menção a uma igreja dedicada à Salette, foi feita num artigo intitulado “O mez de N. S. da Salette” em Janeiro de 1917, anno I, nº 1, página 11, assinado como “Uma devota de N. Sra. da Salette”. Como nos dous anos precedentes, isto é, desde a fundação da matriz de N. Sra. Das Dôres da Salette, em Catumby, foi festejado o mez de Setembro, mez consagrado á Virgem da Salette. Todas as noites houve ladainha cantada e bençam, e duas vezes por semana sermão por pregadores de nomeada; notando-se sempre grande concurrencia de fieis. [...] Si durante todo o mez a cuncurrencia foi grande, no encerramento foi ainda maior, lamentando-se apenas que a exiguadade do templo não permitisse accomodar melhor os devotos de N. Sra. da Salette. Esperemos que em breve esse inconveniente fique remediado, pelo zelo dos fieis em auxiliarem a construcção da nova matriz (O MENSAGEIRO DE N. S. DA SALETTE, Nº 1, Janeiro de 1917, p. 11). O primeiro aspecto a observar neste artigo, foi a referência à fundação da Matriz de Nossa Senhora das Dores da Salette, no bairro do Catumby, no Rio de Janeiro, como mencionado pela autora, teria acontecido há dois anos, ou seja, em 1914. Fassini (2001) destaca que em 1913 os padres saletinos foram designados pelo bispo local para ação na Paróquia Santo Cristo dos Milagres, no Rio de Janeiro. Aí deveriam se instalar. No entanto, devido ao pouco espaço da paróquia conseguiram, com autorização do Cardeal Arcoverde, a construção de uma capela que fosse da Congregação Saletina. O lugar concedido foi no bairro do Catumbi. Quando surgiu a possibilidade de compra dos imóveis de nº 76 e 78 na rua Catumbi, no bairro do Catumbi, a localização não foi do agrado de todos. Tratava-se de bairro mal conservado e muito pobre. Achava-se que jamais se 11 poderia recolher doações suficientes para as construções previstas. Em meio às hesitações da comunidade, Pe. Moussier assinalou que um bairro tão pobre como o do Catumbi, não era o objeto de desejo de ninguém e que, por conseguinte, não havia risco de que a escolha dessa área fosse mal vista pelo clero local, e que de mais a mais, também entre os pobres se encontram muitas vezes admiráveis atitudes de devotamento e de incalculável generosidade. Diante dessa postura de Pe. Moussier, o Conselho Regional, a 2 de junho de 1913, decidiu adquirir, pela soma de 96 contos de réis, os dois imóveis situados na Rua Catumbi, na esperança de ali erigir a Paróquia dedicada a Nossa Senhora da Salette (FASSINI, 2001, p. 105). Compreendemos que o processo de difusão da devoção de Nossa Senhora da Salette no Brasil passou, na Revista, pela etapa da divulgação da mensagem e das histórias impressionantes até chegar à construção do santuário. O que se observa, nessa Revista é a construção de uma devoção no Brasil: da imagem de Maria se passa, gradativamente, para os assuntos relativos a construção do santuário. Para tal empreendimento, os missionários pedem a ajuda dos fieis, na arrecadação de prendas e dinheiro para sua construção, estampando nas páginas da Revista as palavras de recomendação do Chefe de Arquidiocese na época, Cardeal Arcoverde, que valida a organização dos saletinos em prol do santuário. Dentre os aspectos simbólicos e físicos, detemo-nos, nessa comunicação, aos aspectos físicos, os quais ganham cada vez mais espaço na Revista, tendo uma seção específica a partir de Julho e Agosto de 1917 intitulada “O Santuario de N. S. da Salette”. A partir daí, torna-se evidente o apelo às doações, mas também os agradecimentos às prendas recebidas. Muito de coração agradecemos as pessoas ás quaes N. S. da Salette inspirou o meritório gesto d’uma offerta em beneficio da construcção do Santuario. Mau grado o tempo pouco propicio, vão progredindo os alicerces.Quanto aos recursos, confessamos que os nossos foram-se com as grandes despezas preliminares, mas contamos com os obulos e donativos das almas religiosas e criteriosas, pois trata-se d’um Santuario necessário ao desenvolvimento do culto e dos ensinamentos de N. S. da Salette e ao mesmo tempo d’um templo que será a Matriz d’uma povoação operaria e pobre, n’uma freguezia nova onde tudo é para se fazer. Mais uma vez agradecemos qualquer prenda ou obulo que nos seja enviado (O MENSAGEIRO DE N. S. DA SALETTE, Nº 11, Novembro de 1917, p. 169). Em alguns momentos percebemos, que a imagem da Salette fora deixada num “segundo plano”, quando o assunto de destaque estava nas obras do santuário, na presença de pessoas importantes, na arrecadação de verbas etc. 12 Considerações Finais O discurso presente nos números da Revista “O Mensageiro de Nossa Senhora da Salette” é aquele de quem se sente autorizado a fornecer modelos de comportamento valorizados pelas virtudes católicas. É interessante salientar que trata-se de uma história que começa com uma Congregação formada por homens, mas que é encarregada de difundir um ideal de mulher, de feminilidade na figura de Maria, bem como sua mensagem. O catolicismo é colocado como a salvação para os males da sociedade porque é considerado a religião detentora da verdade. Nesse sentido, o uso da imprensa pelos católicos deveria contribuir com a restauração da sociedade, efetivando as tarefas de: divulgar a doutrina social da Igreja, o catecismo, os sacramentos; informar sobre as atividades dos inimigos e de outras religiões, como o espiritismo, o protestantismo, o socialismo; e sobre os meios de combate, como a leitura insistente do Catecismo; propor sugestões e alertar contra os comunistas; endereçar prescrições morais às mães sobre a educação de suas filhas; divulgar lugares de memória como os santuários. A análise dos números da Revista permitiu, também, perceber que o sentimento de pertença á Igreja, ao Santuário como ambiente sagrado, foi sendo reforçado cada vez mais quando se publicavam artigos que animavam a fé, a crença na aparição, nos milagres. Esses discursos vinculavam-se à política ultramontana e às exortações do Concílio Plenário da América Latina. Assim, o enredo da Revista é articulado de forma a garantir que a Igreja Católica, frente a perda de espaços dentro de um contexto de mudanças no início do século XX (como o aumento da industrialização, a concentração de riquezas, os deslocamentos de pessoas, a pobreza, as reivindicações das mulheres por mais espaços de atuação), mantenha sua postura como educadora, porque se entende como portadora da verdade. A atuação por meio de uma revista ganha parte importante em seu combate para manutenção de seus espaços e conquistas de outros. Referências ACHNITZ, Sonia Alves. Catolicismo Ultramontano e Educação Feminina: o Colégio Nossa Senhora de Sion em São Paulo (1901- 1970). In: IV Colóquio de Pesquisa sobre Instituições Escolares. São Paulo. Anais. São Paulo: UNINOVE, 2007, p. 1-18. 13 ANDRADE, Solange Ramos de. A Romaria enquanto manifestação da religiosidade católica. In: OLIVEIRA, Therezinha (org.). Religiosidade e educação na história. Maringá: Eduem, 2010. 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