SEMELHAN(:A E DESSEMELHAN(:A ENTRE "UMA SENHORA", DE
MACHADO DE ASSIS, E A TRAGEDIA GREGA
ABSTRACT: This essay examines the liking between "Uma Senhora ", by Machado de
Assis, and the Greek tragedy structure. The likeness lies in the protagonist's
"hybris"
and in the narrator's reflexive role. The differences lie in the absence of the "hamartia"
and in the narrator's wide role in Machado's short story.
Falar da semelhanl;a e da dessemelhanl;a entre 0 conto machadiano e a tragedia
grega parece atitude urn tanto quanto ousada. Ocorre, no entanto, que 0 contlito entre a
subjetividade do her6i e os val ores dominantes na sociedade em que se ve inserido se
institui como elemento comum. Da mesma mane ira, a oposil;ao entre a al;ao da
personagem e a retlexao do cora presente na tragedia atica fazem-se tambem presentes
no conto machadiano onde 0 narrador assume, inumeras vezes, 0 papel retlexivo a
mediar entre 0 publico e a a9ao desempenhada pela personagem.
Barreto Filho e Helen Caldwell ja registraram 0 vinculo entre a obra
machadiana e a especificidade tragica. Nenhum deles, no entanto, se ateve ao conto
"Uma senhora", publicado pela primeira vez em 27 de novembro de 1883, no jomal
carioca A Gazeta de Noticias, urn ana depois inserido no volume pelo autor intitulado
HistOrias sem data.
o objetivo da presente comunica9ao reside em analisar a proximidade do referido
conto com a especificidade tragica. Primeiramente, esta proximidade sera vista no que
diz respeito a maneira de ser da personagem principal, Dona Camila, depois, na maneira
de ser do narrador a atuar, tal qual os coros de Esquilo e SOfocles, como mediador entre
publico e obra de arte, sendo, no entanto, membro da segunda. Note-se que serao vistas
as semelhanl;as e as dessemelhanl;as, sendo ambas significativas, conforme se vera na
conclusao deste trabalho.
I. Personagem dotada de hybris, sem, no entanto, alcan9ar a hamartia
Nicola Abbagnano, em seu Dicionario de Filosojia, define "hybris" como
"uma qualquer violal;ao das normas da medida, isto e, dos limites que 0 homem deve
.encontrar em suas rela90es com os outros homens, com a divindade e com a ordem das
coisas" (Abbagnano, 1970: 495). A "hybris" deve, pois, ser vista em confronto com a
"medida", tida como justil;a, harmonia, com a qual 0 comportamento excessivamente
individualista do her6i dominado pela "hybris" rompe. Em toda tragedia fazem-se
presentes estes dois p610s, 0 coletivo, com sua medida, 0 individual, no caso do her6i,
com sua desmedida, constituindo-se a al;ao tragica como 0 desvendamento progressivo
da verdade, situada na medida. Toda "hybris" instaura-se, pois, a partir dos valores
vigentes. Modifica-se quando as normas sociais se alteram.
A personagem Dona Camila, presente no conto "Uma senhora", viola as
normas da medida em sua tentativa de nao envelhecer. Atua contra as leis da natureza
nas quais, segundo 0 conto, citando os Profetas da Escritura, "os dias sao como as aguas
do rio que nao voItam mais" (Assis, 1998:138). A protagonista, desrespeitando a norma,
quer fazer destas aguas em constante movimento "uma represa para seu uso" (Assis,
1998: 138). Acontece que, ao pretender romper com a ordem das coisas, acaba por
atrapalhar 0 fluxo constante, bloqueando a passagem daqueles que vem atrlis, no caso,
dificultando 0 fluir de sua filha e de seu provavel neto no processo temporal. Muitas sao
as artimanhas da personagens na tentativa de estagnar 0 tempo. Veste sua filha
adolescente como menina, retem-na mais que 0 suficiente no colegio, dissimuladamente
faz com que dois namoros mais serios sejam rompidos. Assim sendo, 0 comportamento
de Dona Camila estabelece a desordem no fluxo temporal, dificultando 0 processamento
da ordem da natureza.
Na tragedia grega, a "hybris" e normalmente seguida da "hamartia", erro sem
culpa, uma vez que cometido inconscientemente, porem capaz de instaurar a desordem
no universo social. Se a protagonista de "Uma Senhora" persistisse na nao aceitarrao do
crescimento da filha e desse continuidade a sua arrao de romper os possiveis
relacionamentos amorosos da jovem, chegaria, certamente, a hamartia, restando-lhe,
entao, a devida penalizarrao: 0 sacrificio sempre presente no final de uma tragedia atica
como garantia do restabelecimento da ordem.
Nao e isto o que ocorre no conto machadiano. Dona Camila da-se conta de seu
real envelhecimento ao deparar-se com urn fio de cabelo branco em sua caberra, sendo,
obviamente, cuidadosamente arrancado. Surge outro e, finalmente, 0 terceiro, a somarse com 0 advento de urn terceiro noivo para a filha. Frente a manifestarrao concreta da
lei da natureza, a personagem acaba, a contra gosto, cedendo.
Seu processo de aceite vem sempre acompanhado de uma compensarrao que
acaba por reafirmar seu lugar no cenario social. Compensa 0 casamento da filha com a
festa na qual continua sendo 0 centro das atenrroes e, para tanto, "preparou-se
galhardamente" (Assis, 1998: 143). a narrador, cioso do brilho da senhora, lembra que
"era certo que ainda Ihe pendia dos ombros urn retalho de purpura" (Assis, 1998: 143),
registrando, desta forma, sua primazia no acontecimento. Dona Camila compensa 0
nascimento do neto com a necessidade imposta pela imaginaria dinastia na qual 0
"retalho de pUrpura" a insere.
Cre-se que va recolher-se ao papel de avo instituido pela sociedade
oitocentista. Nao e 0 que ocorre. Encontra nova artimanha: sai com a crianrra e a ama,
"tao apertadinha, tao cuidadosa, tao a miudo, tao sem outra senhora, que antes parecia
mae do que avo; e muita gente pensava que era mae" (Assis, 1998: 144). Cria, pois,
novo artificio para nao ceder seu posto a filha e assim prossegue, ate onde, nao se sabe,
pois 0 conto termina neste momento do processo~
A natureza ordena 0 movimento constante do tempo. as jovens de hoje semo
os adultos· de amanha. as adultos de hoje sao os velhos de amanha. A sociedade
valoriza a idade aduIta e recharra os velhos; Dona Camila, consciente. ou
inconscientemente, nao quer ser recharrada. Dado tal fato, empreende sua luta.
Diferentemente dos herois da tragediagrega, nao assume de forma declarada, atraves de
um discurso claro e repleto de revolta, sua posirrao frente a injustirra social brasileira
com relarrao aos velhos. Sua arrao, como e peculiar entre as personagens femininas
machadianas, nao se dli "de saito, mas aos saItinhos" (Assis, 1997: 829).
Ha, pois, semelhan9a entre a subjetividade da protagonista de "Vma Senhora"
a se colocar. em oposi9ao aos valores sociais e 0 comportamento das heroinas da
tragedia atica. A "hybris" determina a a9ao no conto machadiano e nas pe9as do seculo
V antes de Cristo. Ha, igualmente, dessemelhan9a entre a forma de atua9ao de Dona
Camila e aquela presente nas tragedias gregas. A luta da personagem machadiana nao e
assumida de forma clara atraves de urn discurso lucido e revoltado. Registra-se atraves
de artimanhas a permitirem-Ihe momentaneamente a solU9ao do impasse. Dada a
divergencia de comportamento, Dona Camila consegue por mais tempo ludibriar seu
destino.
A tragedia atica surgiu no momento de eclosao dos valores democraticos. 0
sacrificio de seus herois, acompanhado da lucidez da revolta de seus discursos, tornavase suporte para reflexoes a respeito das normas sociais imperantes. 0 silencio ardiloso
de Dona Camila faz com que seja revelada a imutabilidade das normas sociais,
permitindo ao leitor dar-se conta de que apenas a atitude dissimulada faz possivel 0
retardamento da a9ao segura. A protagonista de "Vma Senhora" sera recha9ada. A
sociedade determina 0 poder dos adultos. Cumpre-Ihe apenas retardar 0 momento de sua
ocorrencia.
Por tras da a9ao das personagens esta a sociedade em que se ve inserida. Na
sociedade democratica da polis grega, 0 debate era fundamental. Por isso, as heroinas
falam, expoem os motivos que as induziram a a9ao. Clitemnestra, depois de ter matado
seu marido, lembra que Agamemnon sacrificou, por desejo de vitoria sobre Troia, sua
fllha, Ifigenia. Na sociedade oitocentista brasileira, os valores eram rigidos e nao havia
espa90 para 0 debate. A a9ao neste contexto so se fazia possivel pela dissimula9ao que,
se nao resolvia 0 problema, atuava como atenuante, deixando para depois sua
ocorrencia. Dona Camila sera excluida, nao agora, mas quando nao houver mais
possibilidade de artimanhas. A ordem, a medida, continua reinando, ainda que mulheres
como a referida personagem nao a aceitem. 0 sacrificio nao se efetivou, pois a
personagem com sua "hybris" permaneceu nos limites dos subterrugios. Nao alcan90u a
"hamartia" acompanhada da expressao de sua revolta.
2. Narrador como mediador entre obra e publico
o narrador presente em "Vma senhora" conta a historia em primeira pessoa,
embora nao tenha participado dela e nem sequer tenha tido qualquer tipo de contato com
as personagens ou, ao menos, com pessoas proximas delas. Mostra-se onisciente,
adentrando-se na intimidade da protagonista, seja no que diz respeito ao espa90, seja no
que diz respeito aos proprios pensamentos. Cuida sempre de mostrar que seu relato e
urn discurso, pressupondo a presen9a do leitor, ao qual se dirige de forma direta. Sua
fun9ao, no entanto, nao se restringe a contar e a estabelecer vinculos discursivos.
Reflete sobre 0 que conta, vinculando 0 ocorrido a conhecidos dados da cultura,
interpretando as a90es da protagonista.
E esta fun9ao reflexiva que aproxima 0 narrador machadiano do coro presente
na tragedia atica. E sabido que nesta especie literaria do seculo V antes de Cristo
aparecem fundidos dois elementos de natureza distinta: 0 coro e as personagens.
Ocupavam nos teatros gregos espa90s especificos. As personagens faziam-se presentes
no palco, situado sobre urn balcao. 0 coro ocupava a orquestra, ''ulna vasta esplanada
de forma circular, cujo centro era ocupado por urn altar redondo dedicado a Dioniso"
(Romilly, 1973:.24). A orquestra era localizada espacialmente entre as arquibancadas e
o palco. Seu aspecto mediador aparece, pois, figurado na propria divisao do teatro.
Enquanto os personagens da tragedia agem, ou, ao menos, utilizam-se das palavras para
imporem 0 movimento da ayao, 0 coro e constituido por entes desprovidos de poder.
Trata-se de anciaos ou de mulheres, seres marginalizados na sociedade grega do seculo
V antes de Cristo. Limitam-se a seguir participativamente a ayao gerada pelas
personagens. Caracterizam-se estes anciaos e estas mulheres por grande capacidade
reflexiva. Cumpre-lhes situarem~se como leitores dos procedimentos das personagens,
inserindo-os em dados culturais que os antecederam, interpretando-os. Assim sendo, 0
coro representa na tragedia 0 papel de espectadores exemplares. Nao sera este 0 papel
do narrador presente em "Uma Senhora" nos momentos em que se apresenta como
leitor daquilo que relata?
Logo na abertura do conto, situa aquilo que vai contar na tradiyao literaria.
Sintetiza-o atraves de citayao de passagem de Quadros de viagem, de Heine, onde se Ie:
"Dia vim em que as pedras serao plantas, as plantas animais, os animais homens e os
homens deuses" (Assis, 1998: 137). Diante desta colocayao, 0 leitor sabe de antemao
que se deparara com duas ordens distintas de valores: as de hoje, onde os homens silo
homens, as pretendidas pela protagonista, onde os homens serao deuses. Esta citayao
logo no primeiro paragrafo do conto marca que 0 que sera lido situa-se no
descontentamento do homem por nao ser deus. Trata-se de uma instancia reflexiva a
respeito do que 0 narrador diz ter visto e acompanhado por algum tempo: a luta
empreendida por Dona Camila contra seu envelhecimento aos olhos dos outros.
Uma vez apresentadas as duas ordens de valores, 0 narrador afunila seu
enfoque e coloca a protagonista da ayao como futura Hebe, deusa da juventude, a
oferecer aos homens 0 nectar da perenidade. Neste afunilamento, 0 leitor ja se da conta
de que a nova ordem pretendida tera como agente a personagem feminina, Dona
Camila. Comparando-a com Hebe, faz-nos saber de que seu problema diz respeito ao
envelhecimento.
Mais adiante sera 0 momento de apresentar ao leitor a medida, a ordem do
universo aceita como necessaria para a convivencia sadia entre os homens. E a vez da
Biblia, do livro dos Profetas, onde se Ie que 0 fluir do tempo e como as aguas de urn rio
que nao voltam mais. Frente a esta medida, instaura-se a desmedida de Dona Camila
que quer fazer para si uma represa. Atraves da apresentayao da passagem biblica
acompanhada da atitude opositiva de Dona Camila, deparamo-nos com a desordem
instaurada pela personagem que, ao pretender represar 0 rio do tempo, impede 0
movimento daqueles que vem atras dela. Mais uma vez 0 narrador assume a atitude
reflexiva propria do coro nas tragedias aticas.
A revolta de Dona Camila frente a impossibilidade de continuar com sua
desmedida, com sua "hybris", tambem se instaura na tradiyao livresca. E a vez de
Shakespeare, de Macbeth. Tendo 0 fio de cabelo branco nas maos, exclama:"- Out,
damned spot! Out!".(Assis, 1998: 143). Nao contente com a citayao, 0 narrador culto
explica: "Mais feliz do que a outra lady Macbeth, viu assim desaparecer a nodoa no ar,
porque no animo dela, a velhice era urn remorso, e a fealdade urn crime. Sai, maldita
mancha! Sai!" (Assis, 1998: 143).
As ayoes da protagonista sao cuidadosamente interpretadas pelo narrador.
Assim, quando Dona Camila cuidou de impedir que 0 primeiro namoro da filha
acabasse em casamento, devido a eminencia de urn neto, 0 narrador faz 0 leitor saber
que ela nao agiu de forma consciente e justifica tal afirmativa da seguinte maneira: "A
alma estende-se a si mesma; uma sensa~ao vale urn raciocinio. As que ela teve foram
nipidas, obscuras, no mais intimo do seu ser, donde nao as extraiu para nao ser obrigada
a encara-Ias" (Assis, 1998: 140). Note-se que 0 narrador, alem de saber demais,
interpreta a a~ao da protagonista, situando-a como alguem que age instintivamente,
sendo este nivel de a~ao uma defesa para nao obriga-Ia a defrontar-se consigo mesma.
Conhecedor da natureza da alma feminina, 0 narrador, no seu relacionamento com 0
leitor, explicita-Ihe a razao do comportamento da protagonista. Sua a~ao mediadora
entre obra e leitor e not6ria. Sua fun~ao interpretativa da razao das a~oes mais uma vez
situa-o em fun~ao desempenhada na tragedia grega pelo coro.
o conflito entre a subjetividade do her6i, denominada na tragedia grega
"hybris", desmedida, e os valores dominantes na sociedade, medida, constitui
caracteristica primeira do tragico. Faz-se presente em "Uma Senhora", de Machado de
Assis. Diferentemente da tragedia grega, a heroina machadiana nao manifesta sua
revolta atraves de discurso eloqiiente e revoltado. Mascara-a. Assim agindo, nao alcan~a
a "hamartia", erro tr:igico, e nao e sacrificada. A dissimula~ao substitui, pois, 0
enfrentamento da situa~ao conflitiva.
Se na tragedia grega cumpria ao coro, personagem coletiva situada na
orquestra, refletir sobre 0 que se desenvolvia no palco, espa~o dos personagens
individuais, no conto oitocentista brasileiro, 0 narrador igualmente reflete sobre a a~ao
da personagem. Seu ·papel, no entanto, e mais amplo do que aquele do cora de anciaos
ou de mulheres nas pe~as Micas. Curnpre-Ihe, alem de refletir sobre 0 desempenho das
personagens, alem de mediar entre a~ao romanesca e publico, assumir 0 proprio relata,
ainda que inumeras vezes as personagens falem por si.
Assim sendo, pode-se concluir que ha semelhan~as e dessemelhan~as entre 0
conto machadiano enfocado e a tragedia grega. Alem dos apontados pontos
convergentes e divergentes, cumpre lembrar que ambos se instituem como "uma
reflexao sobre 0 homem" (Romilly, 1973: 5), caracteristica primeira do fenomeno
tragico. Barreto Filho e Helen Caldwell ja discorreram sobre a proximidade entre a obra
machadiana e a tragedia grega do quinto seculo antes de Cristo. Cumpre a efetiva~ao de
trabalhos que deem conta desta especificidade presente em algumas produ~oes de
Machado de Assis.
RESUMO: Objetiva-se apresentar 0 vinculo entre "Uma Senhora", de Machado de
Assis, e a tragedia atiea. As semelhan~as residem na "hybris" das protagonistas e na
fun~ao retlexiva do narrador e do coro. A dessemelhan~a reside na ausencia da
"hamartia", erro fatal, no conto e na mais ampla fun~ao do narrador.
ABBAGNANO, Nicola. Dicionario de Filosofia. Tradu~ao coordenada e revista por
Alfredo Bosi. Sao Paulo: Mestre Jou, 1990.
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
1997.
__ " Contos: lima antologia. Volume II. Selevao, introduvao e notas de John
Gledson. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1998.
BARRETO FILHO. Introdu9iio a Machado de Assis. Rio de Janeiro: Agir, 1947.
CALDWELL, Helen. Machado de Assis: the brazilian master and his novels. Berkeley:
University of California Press, 1970.
ROMILL Y, Jacqueline de. La tragedie grecque. Paris: Presse Universitaire, 1973.
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