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A CHINA E O MEIO AMBIENTE: UMA PEÇA EM QUATRO ATOS (TRAGÉDIA
OU COMÉDIA?)
Marc Lucotte
Institut des Sciences de l’Environnement - GEOTÓP. Université du Québec à Montreal. C. P. 8888, suc.
Centre-Ville. Montreal, Québec, H3C 3P8. Canadá.
RESUMO
As constantes agressões ao meio ambiente provocadas pela economia chinesa, ao
mesmo tempo herdadas do pesado passado industrial da era comunista e decorrentes de
sua recente ascensão ao estatuto de manufatura mundial, ameaçam, não apenas a saúde
dos trabalhadores chineses, mas também o equilíbrio ecológico de todo o planeta. O
fulgurante crescimento da demanda energética, essencialmente atendida pela combustão
do carvão, impeliu a China aos primeiros lugares entre os países emissores de gás
causador do efeito estufa, de dióxido de enxofre e outros poluentes atmosféricos. A
emergência de uma classe média de consumidores gera toda uma série de novos
problemas ambientais, como o aumento descontrolado da quantidade de lixo doméstico e
a produção de poeiras malsãs devidas aos grandes canteiros de obras urbanos. Em
oposição à classe média, a maioria dos chineses constitui agora uma classe social pobre,
profundamente animada por uma busca de ascensão social nos moldes da nova
prosperidade econômica. Esses trabalhadores miseráveis exercem atividades pouco ou
nada enquadradas nas leis de proteção ao meio ambiente e, assim, também são
responsáveis por sua degradação. O desequilíbrio ecológico atinge tais patamares que
ameaça a continuidade do crescimento econômico do país, nem que seja pelas
agressões à saúde da mão-de-obra, abundante e barata, chave do sucesso econômico do
país. No momento, a reação dos dirigentes chineses ante esse problema é, sobretudo,
cosmética, e ainda só se pode entrever uma verdadeira virada do país para o
ecodesenvolvimento. Pela própria sobrevivência do equilíbrio ecológico do planeta, cabe
aos países desenvolvidos apoiar a China em seus esforços nessa direção.
Palavras-chave: meio ambiente; China; manufatura mundial; ecodesenvolvimento.
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A China e o Meio Ambiente: Uma Peça em Quatro Atos (Tragédia ou Comédia?)
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Raras são as semanas sem que o estado do meio ambiente na China não seja
objeto de anúncios alarmistas. A nuvem escura de poluição (brouwn cloud), que
praticamente cobre de modo permanente a China e os países vizinhos, atinge dimensões
inigualáveis e se difunde até a América do Norte ou ainda polui o Ártico, e, agora,
inclusive, está provado que afeta o conjunto do hemisfério norte. Recentemente, a grave
poluição do Rio Songhua por rejeitos de benzeno foi manchete, enquanto milhões de
pessoas ficavam privadas de água potável, até na vizinha Sibéria. Como todos sabem, a
China vive um crescimento econômico fenomenal (10,75% em 2006), com todas as
conseqüências ambientais que isso pode comportar, incluindo uma demanda inigualável
de recursos minerais e uma contribuição crescente às agressões ao meio ambiente,
afetando o conjunto do planeta (gás causador do efeito estufa, compostos destruidores da
camada de ozônio, etc.).
Analisamos aqui a evolução da degradação do meio ambiente na China, desde a
revolução comunista, e consideraremos as possíveis vias para limitar os prejuízos, caso
não se de instaure, em curto prazo, um verdadeiro modelo de desenvolvimento
sustentável, que repouse sobre um equilíbrio do desenvolvimento humano, do
desenvolvimento econômico e da proteção ao meio ambiente.
PRIMEIRO ATO: A CHINA COMUNISTA
Tradicionalmente, os fundamentos do regime comunista foram de privilegiar o
desenvolvimento humano antes que o desenvolvimento econômico, e, com certeza, antes
que a proteção do meio ambiente (Figura 1). Isso se traduziu em políticas de
industrialização sistemática das cidades e do campo, sobretudo quando sua localização
era próxima do litoral. Simultaneamente, indústrias pesadas e centrais de produção
termoelétrica (combustão de carvão) foram implantadas a partir dos anos 60 em todas
áreas centrais. Minas de carvão em pequena escala foram postas para operar em todas
as partes em que o recurso existia, e isso permitia alimentar localmente as centrais
térmicas ou os altos-fornos. Essas políticas acarretaram poluição generalizada, mas
proporcional, unicamente, ao consumo doméstico da época, afinal relativamente limitado.
Assim, a situação global do meio ambiente na China comunista era preocupante, mas
relativamente estável.
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SEGUNDO ATO: A CHINA NEOMERCANTILISTA
Em 1979, Deng Xiaoping declarou: “A pobreza não é socialismo. Ser rido é
glorioso”. Em 1992, ele lançou seu célebre “Enriquecei!”. Assim apareceu a China
“neomercantilista”, distinguindo-se, com seu forte Estado central, do sistema puramente
capitalista, no qual só as forças do mercado intervêm. Os líderes chineses de hoje, Hu
Jintao (presidente, secretário do Partido Comunista chinês, chefe das forças armadas) e
Wen Jiabao (primeiro ministro) reforçaram essa ótica neomercantilista com vigor, abrindo
a China para o mundo. Desde então, o desenvolvimento econômico prepondera sobre o
desenvolvimento humano, sempre relegando à terceira posição a proteção ao meio
ambiente (Figura 1).
Em alguns anos, passou-se de uma indústria que supria, essencialmente, suas
necessidades domésticas a uma China que se tornou a manufatura mundial de inúmeros
bens de consumo (aparelhos eletrônicos – particularmente televisores –, têxteis sintéticos,
automóveis – terceiro produtor mundial até 2010). Esse “despertar do dragão” envolve
vários danos colaterais, até então desconhecidos na China. As demandas energéticas
sofreram uma escalada, sendo que o carvão representa 75% da energia primária e
fornece dois terços da produção elétrica (FENG et alii, 2002). Atualmente, mais de um
bilhão de toneladas de carvão são queimadas todos os anos, sem contar os duzentos
milhões de toneladas que queimam espontaneamente todos os anos, “fora de controle”,
no norte do país. A hidroeletricidade também conhece um desenvolvimento sem
precedentes. Apenas a barragem das Três Gargantas, que gera 85 bilhões de quilowatshora em plena capacidade, representa um investimento de 24 bilhões de dólares (40 a 50
bilhões de dólares segundo fontes ocidentais) e ocasionou o deslocamento de mais de
um milhão de pessoas (LI et alii, 2001). A China, transformada em manufatura mundial,
também passou ao primeiro posto mundial nas emissões de dióxido de enxofre e de
compostos cloro-fluor-carbonados (CFC) e ao segundo posto mundial nas emissões de
dióxido de carbono e outros gazes causadores do efeito estufa, como os óxidos de azoto
(STREETS et alii, 2003; Banco Mundial, 2005). O acúmulo de cifras opressivas é
assustador: dezesseis das vinte cidades mais poluídas do planeta são chinesas, 40% do
território é afetado por graves chuvas ácidas (FENG et alii, 2002; LARSSEN et alii, 2006).
Paralelamente ao despertar do dragão, assiste-se à emergência de consumidores
das classes média e rica, o que também tem repercussões enormes sobre o meio
ambiente. A construção de milhões de novas moradias (80 milhões em 2000, o que fez
passar de 4.5 para 3.5 pessoas a unidade familiar sob um mesmo teto, entre 1985 e
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2000) (LIU et alii, 2003a) e outras grandes obras urbanas são, em grande parte,
responsáveis pelos teores de partículas em suspensão no ar das cidades, de três a cinco
vezes superior às normas da Organização Mundial da Saúde (FENG et alii, 2002; WONG
et alii, 2006). A cada ano, os novos consumidores chineses compram cerca de três
milhões de novos automóveis. E mais de 5.000 km de auto-estradas são construídos a
cada ano. Essa mesma classe média descarta seis bilhões de toneladas de lixo
doméstico por ano, fato novo na sociedade chinesa. Esse lixo, hoje, é simplesmente
acumulado ao redor das cidades e contribui para a poluição dos lençóis freáticos, para a
perda de terras aráveis e para a emissão de gás causador do efeito estufa (LIU e
DIAMOND, 2005). Apenas algumas cidades, como Pequim, Xangai e Gangzhou, deram
início à coleta seletiva do lixo, assim como à incineração de rejeitos. Além disso, o
consumo crescente de carne, peixe e outros produtos da agricultura industrial elevou, não
apenas a utilização de adubos, mas, sobretudo, de pesticidas (250.000 toneladas por ano,
ou seja, o segundo lugar mundial), poluindo assim os cursos d’água e os lençóis freáticos,
acarretando o desaparecimento de insetos predadores e favorecendo o aparecimento de
insetos nocivos resistentes.
O desenvolvimento econômico acelerado da China acarreta, globalmente,
alterações ambientais maiores no âmbito do país: estima-se que 19% da superfície sofreu
processos de erosão dos solos, 9%, a salinização e 25%, a desertificação (ibid.). As terras
úmidas desapareceram rapidamente, enquanto 90% dos prados naturais do país já estão
destruídos em diversos graus. De modo geral, a qualidade, a fertilidade e a quantidade de
solos aráveis diminuíram drasticamente no correr dos últimos anos e hoje o processo está
longe de desacelerar. Essa constatação é ainda mais alarmante porque os chineses só
dispõem, em média, de 0.1 hectare de terra arável por pessoa, ou seja, a metade da
média mundial. No conjunto, a biodiversidade acusa quedas notáveis, enquanto que,
paralelamente, inúmeras espécies invasoras se espalham (LIU et alii, 2003b). Quanto à
situação das águas, sua qualidade é em geral ruim e continua a se deteriorar. No
momento, somente 20% das águas domésticas usadas são tratadas. Por exemplo, a água
do reservatório Guanting, em Pequim, foi várias vezes declarada imprópria para o
consumo desde 1997 (LIU e DIAMOND, 2005). E, ainda por cima, mais de cem cidades
sofrem penúria crônica de água, e a jusante do Rio Amarelo (Huang He) ocorre,
episodicamente, cessação completa do fluxo. Recentemente, a grave poluição do Rio
Songhua por rejeitos acidentais de benzeno em Harbin privou de água potável milhões de
pessoas, tanto na China quanto a jusante, na vizinha Sibéria. Símbolo da degradação da
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qualidade das águas de superfície na China, a pesca no Yangtse diminuiu 75% no correr
dos últimos anos.
Os problemas ambientais da China neomercantilista são também agravados pela
herança da era comunista. Assim sendo, indústrias vetustas e muito poluentes (carvão,
aço, papel, cimento, fertilizantes) são mantidas em atividade para preservar, não apenas
milhões de empregos, mas também a paz social. Por exemplo, a produção de uma
tonelada de aço no nordeste da China (Dongbei) ilustra a glória siderúrgica comunista
caída em desuso, visto que ela requer de 23 a 56m3 de água, comparativamente aos 6m3
em média nos países ocidentais.
A atual prosperidade econômica da China está longe de alcançar o conjunto da
população. Cerca de dois terços da população, ou seja, 800 milhões de pessoas, formam
hoje uma classe social pobre, em oposição às classes média e rica emergentes (Banco
Mundial, 2005). Segundo o Banco Mundial, cerca de 135 milhões de chineses vivem com
menos de um dólar por dia. Ora, essas pessoas pobres aspiram, também elas, à sua
parte de prosperidade e, para alcançá-la, em geral, estão dispostas a tudo, inclusive
agredir o meio ambiente. O exemplo flagrante dessa corrida para o desenvolvimento é
representado por cerca de 17.000 minas artesanais de carvão distribuídas pelo país,
produzindo ainda um terço da produção nacional de carvão. Com freqüência, essas minas
fazem os operários trabalharem em condições desumanas e particularmente perigosas,
além de poluírem o meio ambiente em grande escala (perdas de terras aráveis e
desmatamento, poluição de lençóis freáticos, poeiras, etc.). No entanto, o governo central
não tem sucesso em fechar bom número dessas minas, pois elas são uma (a) principal
fonte de renda dos governos locais. Enfim, milhões daqueles que estão à margem do
desenvolvimento são obrigados a utilizar, para sua sobrevivência, um meio ambiente
contaminado, inclusive, utilizando águas de lixiviação dos aterros mineiros contidas nas
barragens de retenção para irrigar seus campos ou, ainda, a operar minas artesanais de
mercúrio, zinco, etc. em condições extremas de insalubridade (GUNSON e VEIGA, 2004;
WONG et alii, 2006). As baixas cifras de esperança média de vida na China (71 anos no
nascimento, 64 anos com boa saúde) testemunham as agressões à saúde provocadas
pela degradação do meio ambiente. Assim, as crescentes disparidades das condições de
vida na China são responsáveis pela multiplicação exponencial dos protestos e das
revoltas populares.
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TERCEIRO ATO: A CHINA “VERDE”
Para além dos protestos operários e camponeses, a degradação do meio
ambiente na China tornou-se uma preocupação maior do governo, mesmo porque o
próprio desenvolvimento econômico poderia ser impedido por uma massa operária
enfraquecida pela poluição. Isso é ainda mais preocupante para os dirigentes chineses
porque a chave do sucesso econômico atual da China repousa, em grande parte, sobre
uma mão-de-obra abundante e barata. Desde o fim dos anos 90, Jiang Zemin, antigo
presidente da República e secretário do Partido Comunista chinês, reconhece a
importância da virada verde para a China. Em 2003, Hu Jintao lançou seu conceito de
“sociedade harmoniosa”, baseada no humanismo, no desenvolvimento sustentável, na
harmonia homem-natureza e de progresso socioeconômico equilibrado entre as diferentes
regiões. De fato, a situação ambiental tornou-se extremamente crítica em muitos níveis. A
falta de terras aráveis, de água potável e de energia é cada vez mais gritante. Os custos
com saúde e absenteísmo, em parte devidos aos problemas de degradação ambiental,
estão aumentando claramente. A poluição do ar causa a morte prematura de 400.000
pessoas por ano. A gestão do pesadelo ambiental custa 270 bilhões de dólares por ano
ao Estado, ou seja, 10% do PIB. Aparentemente, pelo menos, agora a proteção do meio
ambiente
tem
precedência
sobre
o
desenvolvimento
econômico
e
sobre
o
desenvolvimento humano (Figura 1).
As medidas concretas tomadas para essa virada verde incluem, inicialmente, a
promulgação de leis exigindo estudos de impacto ambiental para a implantação de novas
indústrias, em particular estrangeiras. Entretanto, devido à corrupção crescente entre os
industriais, boa parte das indústrias nem sempre se ajusta às leis ambientais. Todavia,
multiplicam-se as construções de indústrias limpas, cuja tecnologia é freqüentemente
importada dos países desenvolvidos (LIU e DIAMOND, 2005). Esse é, particularmente, o
caso da construção de automóveis cujos rejeitos poluentes são limitados ou, ainda, das
indústrias de produção de papel e de amoníaco. Assiste-se também, progressivamente, à
implantação de projetos agrícolas que utilizam menos pesticidas e menos água, ao
tratamento das águas usadas, à utilização de energias mais limpas e ao fim da drenagem
das terras úmidas. Além disso, as indústrias vetustas da era comunista são fechadas ou
modernizadas (minas, fábricas de cimento, usinas de pastas e papel, indústrias químicas),
mas também, às vezes, infelizmente, apenas deslocadas das regiões costeiras para as
províncias interiores mais pobres. Outras medidas ambientais incluem a transmissão da
gestão da água potável e do ar saudável para sociedades privadas ou, ainda, a adoção
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de critérios de mérito para os funcionários que proponham gestos concretos favorecendo
o meio ambiente. Enfim, após alguns anos, os poderes da SEPA (State Environmental
Protection Administration, 2007) foram reforçados, paralelamente aos incentivos ao
desenvolvimento econômico.
A promoção de uma China verde é veiculada por gestos grandiosos do governo
central, como o anúncio dos jogos olímpicos “ecológicos” de Pequim em 2008, anúncio
que forçou, entre outras coisas, o fechamento de centenas de pequenas minas de carvão
no município da capital. No rastro disso, o governo tenta fazer passar, de agora a 2010,
de 17.000 para 10.000 o número de minas artesanais de carvão pelo país afora. O
governo também utiliza a mão-de-obra barata para proceder ao rematamento de centenas
de milhares de hectares, particularmente ao norte de Pequim, na intenção de deter o
avanço do deserto de Gobi e minimizar as tempestades de areia que afetam
periodicamente a capital (HOLDEN, 2001). A construção da estrada de ferro “verde”,
ligando Qinghai ao Tibete é um outro exemplo muito divulgado da utilização do pretexto
ecológico para levar à melhor aceitação de projetos controversos (PENG et alii, 2007).
Enfim, a China conseguiu criar, recentemente, mais de mil reservas naturais, que cobrem
mais de 7% do território nacional (LIU et alii, 2003b). Entretanto, esse esforço, num país já
superpovoado, realiza-se, com freqüência, graças a “migrações ecológicas incentivadas”.
Desde 2000, cerca de um milhão de habitantes que viviam em zonas de pastagens
degradadas foram deslocados, em geral à força (DU, 2006). Num futuro próximo, o
governo planeja estender essa medida, em nome da preservação do meio ambiente, a
sete milhões de pessoas. Ora, é preciso enfatizar que a maioria das “migrações
ecológicas” afeta minorias étnicas (como os tibetanos) e visam integrá-las em cidades
povoadas majoritariamente por hans (maioria chinesa) (DU, 2006).
O aspecto certamente mais promissor para a instalação de uma China mais verde
é o interesse marcante dos jovens chineses pelas questões ambientais. Os programas de
formação pré-universitária e universitária, tanto quanto de educação popular inscrevem,
cada vez mais freqüentemente, o meio ambiente como matéria secundária, até principal.
A escola central do Partido, que forma os quadros superiores da República Popular, inclui
conhecimentos de gestão ambiental em seus programas.
QUARTO ATO: O ECODESENVOLVIMENTO DA CHINA
Apesar de todas a medidas para uma China verde que acabamos de avaliar e que
são sistematicamente anunciadas com grandes reforços de propaganda, é forçoso
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constatar que o desenvolvimento econômico prossegue seu avanço predatório. A situação
geral do meio ambiente continua a se degradar e, conseqüentemente, também a saúde
dos trabalhadores e trabalhadoras chineses deteriora-se, e os conflitos sociais
relacionados a questões ambientais se agravam. O quarto ato da história moderna do
desenvolvimento da China ainda está por ser escrito e determinará na natureza cômica ou
trágica da peça. De fato, mesmo que seja para permitir à China prosseguir alegremente o
crescimento de sua economia, os dirigentes chineses devem planejar com seriedade o
“ecodesenvolvimento” de seu país. Desde essa ótica, deve-se, necessariamente, abolir
qualquer prioridade entre os três conjuntos: o desenvolvimento econômico, o
desenvolvimento humano e a proteção ao ambiente. Numa visão verdadeiramente
ecossistêmcia, os três componentes do desenvolvimento sustentável deverão ser
considerados em pé de igualdade, em total interação uns com os outros (Figura 2).
Desde já, podem-se sugerir algumas pistas a serem seguidas, como aumentar a
parcela do PIB chinês destinada à proteção do meio ambiente (1,2%, em relação a 2%
nos Estados Unidos), eliminar os subsídios às indústrias poluentes (por exemplo, a do
carvão) e aplicar taxas mais pesadas ao consumo (por exemplo, o de automóveis) (LIU e
DIAMOND, 2005). Outras medidas, também simples, como tentar reduzir a multiplicação
da construção de moradias (favorecer a coabitação, reduzir o número de divórcios – 1,6
milhões em 2004!), poderiam ter efeitos benéficos imediatos para o meio ambiente (LIU et
alii, 2003a). E, ainda, continuando a investir maciçamente na educação, particularmente
nas províncias do interior, o governo chinês contribuirá para multiplicar o número de
pessoas educadas, que procurarão empregos que não afetem zonas ecológicas
sensíveis.
A instauração de um ecodesenvolvimento na China tem a ver com o futuro do
planeta em seu conjunto. De fato, apesar de seu crescimento econômico fulgurante, o PIB
chinês por habitante continua ainda muito inferior ao dos países desenvolvidos. A China
ainda guarda um gigantesco potencial de crescimento. Por exemplo, pode-se imaginar a
poluição planetária que seria ocasionada por uma multiplicação por dez do consumo
energético chinês? Essa multiplicação, de fato, representaria recuperar a diferença atual
do consumo energético médio por habitante entre a China e os Estados Unidos. O
desenvolvimento de um meio ambiente saudável na China é urgente e incontornável, e
também será feito em proveitos dos países desenvolvidos. Em contrapartida, os países
desenvolvidos deverão aceitar pagar o justo preço dos produtos manufaturados chineses
que importam, preço esse que, necessariamente, internalizará os custos de produção
segundo critérios rigorosos de proteção ao meio ambiente. Isso quer dizer, para os
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ocidentais, aceitar pagar duas ou três vezes mais caro a fatura de uma compra no Wal
Mart!
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Artigo recebido em 24.05.2007. Aprovado em 29.06.2007.
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