MEYER FILHO “MARCIANO”:
NASCIDO HÁ 90 ANOS
OS FILMES ESQUECIDOS
NOS ANOS DE CHUMBO
+ prosa + poesia + pensamento
UM CINEMA EXTREMO
NO OESTE CATARINENSE
“É preciso estar namorando a inspiração,
fazer uma espécie de chamamento”
CLEBER TEIXEIRA, poeta e tipógrafo
v
O catari na!
f u n d a ç ã o c ata r i n e n s e d e c u lt u r a | n ú m e r o 7 0 | 2 0 0 9
Qual o destaque cultural da sua cidade?
ta, captada pelas lentes de Heloísa Espada, contempla as páginas
como quem redescobre, no mundo poroso do papel, o seu lugar, a
sua natureza, a sua condição de criador e criatura da palavra escri-
Fotos Márcio H. Martins/FCC
ta. Ô Catarina! colorizou o preto-e-branco da lâmpada que pende
tanto à literatura quando à ciência e à política (vide a
charge ferina de 1954).
falante da língua materna e 100% dos moradores fazem
Os desenhos e pinturas de Meyer refutam as re-
artesanato. Nossas crianças são alfabetizadas primeiro
na língua materna.”
presente na vida de outros bibliófilos como um exemplo, original
em Chapecó.
gras ensinadas nas academias e agregam elementos
audaciosos a uma compreensão não apenas da arte
Ary Feliciano, 37 anos, artesão, morador da aldeia Kondá,
sem réplicas. Essa mesma luz dissipa parte da sombra sobre dois
enquanto técnica ou subordinada a um estilo, mas
também como modo de vida. Desconheço outro artista que pintava galos e os punha na sacada para tomar
“O Grupo Folclórico Alma Açoriana. Ele é
instantes do cinema em Santa Catarina — o dos anos da ditadura e
banho de sol. Não porque se tratava de uma pintura
municipal, existe há cinco anos e representa nossa
cuja tinta necessitasse de calor, mas porque os galos,
cultura. Também temos a Dança de São Gonçalo, que
o dos recentes filmes trash de Palmitos — e incide sobre as artes
estamos resgatando. Ela é santa. As pessoas fazem
luminescentes de Meyer Filho e de Max Moura e a poesia de Mauro
promessa e pagam dançando, homem com homem e
Faccioni Filho. Traz à luz a escrita de Kamilla Nunes e Silvana Silva
Jacinda Padilha, 39 anos, diretora de cultura, moradora de
mulher com mulher. Quem organiza é a comunidade.”
n
acontece
culturais que vêm ocorrendo, no teatro, na música, na
ta; moderna sem deixar de ser nacional. Renovação
rios, paisagens e galos, existia um interesse artístico e
dança, principalmente nos grupos étnicos. A cultura
da arte e criação da identidade — ao mesmo tempo
político em sair do lugar cultural no sentido primário
alemã, italiana, afro-descendente, todas estão se
nacional e regional — tornaram-se a preocupação dos
(galeria, museus, catálogo) sem que a proposição em
pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), com apoio da Cinemateca Catari-
“Desde 1993 temos o Festival Internacional de
nense. Nesta edição, o Governo do Estado distribuirá R$ 1,9 milhão para 19 pro-
Corais. Outro destaque de Criciúma é a Casa de
jetos selecionados em seis categorias diferentes. O resultado, com a divulgação
Cultura e também a Mina Modelo, que está desativada
dos selecionados, será publicado em março de 2010. O número de inscrições vem
no momento. Temos um projeto para construir uma
aumentando a cada edição: em 2008, o prêmio teve 140 projetos inscritos, contra
mina virtual.”
Lisiane Potrikos, 26 anos, historiadora, moradora de
Criciúma.
Espaço Cultur al Casa da Alfândega
lhada por amigos e familiares. Não havia separação
corpo sempre prestes a explodir. Para além dos casa-
moradora de Jaraguá do Sul.
128 em 2007, 101 em 2005, 55 em 2002 e 51 em 2001.
em Marte, é contada até hoje com espanto e garga-
refém de suportes, mas encontrava-se à deriva de um
Jussette Wittkowski, 39 anos, pedagoga social,
novembro de 2009 as inscrições para o Edital Catarinense de Cinema, promovido
Kamilla Nunes
uma cultura nacional sem deixar de ser vanguardis-
focos de cultura nos bairros.”
Com um número recorde de 189 projetos inscritos, foram encerradas no dia 20 de
ta Manoel de Menezes nos anos 60, relatando a estadia
entre a arte e o artista, uma vez que sua obra não era
desvelando. A cidade está descentralizando, fazendo
Edital Catarinense de Cinem a
A entrevista que Meyer Filho concedeu ao jornalis-
O vampiro. 1963. Aquarela sobre papel
As primeiras décadas do século XX na América
“Na minha cidade eu gosto dos movimentos
Ryana Gabech e Telma Scherer. De luz em luz, este número 70 cria
em sua exuberância, precisavam ser cortejados.
Latina foram marcadas por uma utopia: construir
Barra Velha.
de Souza e ilumina os olhares/relatos líricos de Francine Canto,
n
inquietações e investigações plásticas relacionadas
“Se fosse indicar um lugar para alguém visitar na
tantas vezes recluso e invisível na vida de bibliófilo, tantas vezes
n
Complexidade do modernista Meyer Filho desafia as definições
cidade, com certeza seria a nossa aldeia. Ela é 100%
sobre Cleber para dar a ver a figura humana do editor da Noa Noa,
outros campos de visão sobre Santa Catarina.
Cosmo e caos do emissário de Marte
No dia 25 de novembro de 2009, cerca de 500 catarinenses
estiveram no auditório da Federação das Indústrias do Estado
de Santa Catarina (Fiesc), em Florianópolis, na II Conferência
Estadual de Cultura. Ô Catarina! perguntou a alguns deles
qual o destaque cultural das cidades onde vivem.
O tipógrafo-poeta Cleber Teixeira emerge da contraluz e sua silhue-
A Fundação Catarinense de Cultura (FCC) inaugura em março de 2010 o Espaço
“O Festival de Dança. Acontece todo ano e
Cultural Casa da Alfândega, no Centro de Florianópolis. O local, que está sendo
estamos na 19a edição. Ele é um dos melhores da
restaurado, receberá exposições de artistas plásticos catarinenses e será utiliza-
região, outras cidades também querem participar.
do também para lançamentos de livros, realização de debates culturais e oficinas
Outro destaque é a Fanfarra Municipal de Três Barras,
de arte, tudo com entrada gratuita. O espaço funcionará na Casa da Alfândega,
que existe há 23 anos e já foi 15 vezes campeã
no mesmo local anteriormente ocupado pela Associação Catarinense de Artistas
estadual.”
Plásticos (Acap), ao lado da Galeria de Artesanato já administrada pela FCC. Uma
Marcos Aurélio Budant, 46 anos, diretor de cultura,
comissão curatorial definirá quais exposições serão realizadas no local.
morador de Três Barras.
artistas do período, tanto em Santa Catarina e São
si desmoronasse imediatamente. E a série de crônicas
Paulo, quanto em outros países latinos, com variação
publicadas pelo artista no extinto jornal “O Estado”
conforme as coordenadas sociais, culturais e políticas
permanece quase desconhecida e inexplorada.
de cada tempo e espaço.
Para chegar a uma compreensão da obra de Meyer
A arte de Ernesto Meyer Filho (Itajaí, 4 de
dentro da complexidade instaurada no modernismo é
dezembro/1919 — Florianópolis, 22 de junho /1991)
preciso combater a tendência ao estável, à passivida-
foi por vezes apresentada como estética primitivista,
de ligada ao hábito, à insistência em pensar que a obra
assumida na época com o caráter positivo associado
desse artista se encerra em uma categoria possível de
ao popular. No entanto, a perspectiva insólita, mar-
ser nomeada ou a uma técnica específica. Meyer Fi-
ginal e singular que se formou com as premissas do
lho, por exemplo, nunca foi um surrealista, apesar de
modernismo, tais como a renovação dos preceitos
fazer referência a este movimento em momentos de
das vanguardas europeias e a ruptura com a arte
sua produção e divagação poética. O artista não deu
meramente histórica associada às colônias indíge-
importância às teorias psicanalíticas de Freud, aos
nas, ao escravismo e ao império, impulsionaram a
preceitos do “Manifesto Surrealista” e tampouco deu
produção artística de Meyer Filho para um hibridismo técnico e para a enunciação simultânea de
discurso erudito e popular.
Anita Pires
Diretor Administrativo | Ray Borges Martins
Diretora de Difusão Artística | Mary Garcia
Diretora de Patrimônio Cultural | Simone Harger
Assessora de Comunicação | Deluana Buss
Consultora Jurídica | Juliana Caon
Assessor da Presidência | Sinval Santos da Silveira
Coordenador do Núcleo de Projetos | Eugênio
Lacerda
Presidente |
17 DE
NOVEMBRO
DE 1889
Governador do Estado de
Santa Catarina |
Luiz Henrique da
Silveira
Vice-governador |
Leonel Pavan
2
Secretário de Estado de
Turismo, cultura e Esporte |
Gilmar Knaesel
Gerente de Administração, Finanças e Contabilidade |
Antônio Ubiratan de Alencastro
Gerente Operacional | Domingos Guedin
Gerente de Logística e Eventos | Soraya Fóes
Bianchini
Gerente de Patrimônio | Karla Fonseca
Ô Catarina! | número 70 | 2009
Lucília Polli
Administradora da Casa da Alfândega |
Gerente de Artes |
Administradora da Casa de Campo do Governador Hercílio
Luz |
Marilóide da Silva
Administrador do Centro Integrado de Cultura |
José Neves
Administração do Museu Nacional do Mar |
Administradora do Teatro Ademir Rosa |
Westphal
Margarett
Irani
Administradora do Museu de Arte de Santa Catarina |
Lygia Helena Roussenq Neves
Administradora do Museu da Imagem e do Som |
Thomasi
Denise
Marita Balbi
v
Élia Mara Magalhães Brites
Administradora do Museu Histórico de Santa Catarina |
Susana Simon
Aministradora do Teatro Álvaro de Carvalho |
Margarett Westphal
Ayrton Cruz
Imprensa Oficial do Estado de Santa
Catarina (Ioesc)
Tiragem | 10 mil exemplares
O catari na!
Deluana Buss e Dennis Radünz
Mary Garcia
Conselho Editorial | Jason de Lima e Silva,
Jayro Schmidt, Mary Garcia, Péricles Prade
e Onor Filomeno
PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO | Aline Gallina e Denize
Gonzaga
ASSESSORIA | Cloé de Haro
Distribuição gratuita
Publicação da Fundação
Catarinense de Cultura
Apoio |
Fundação Catarinense de Cultura
Av. Governador Irineu Bornhausen,
5.600 — Agronômica — CEP 88025-202 —
Florianópolis — Santa Catarina
E-mail | [email protected]
Fone | (48) 3953-2383
Site | www.fcc.sc.gov.br
O conjunto da obra do artista refuta a hierar-
Detentor no Banco do Brasil do maior salário
junção do espiritual e do profano, formado por um
público da época, ele convivia com a elite que
imaginário particular que se transfigura na ossatura
estava se formando na Ilha de Santa Catarina,
revestida pela desconfiança cética com a realidade e
a mesma elite que crescia entre a cultura
com posturas inquietas e chocantes do seu posicio-
letrada e a mescla das tradições popula-
namento enquanto artista e cidadão, vale dizer, um
cidadão de Marte.
Mamão. Esse trânsito entre o popular
Está aí um ponto importante a ser lembrado nos
e o culto marcou a obra de Meyer
90 anos de seu nascimento: o caos. Recordarei que
Filho de tal forma que ele superou
Meyer, junto com seus estudos rápidos e rapidíssimos,
o caráter meramente narrativo
com as pinturas e os recortes de jornal, guardava to-
da arte e deixou transpare-
das as contas e notas fiscais quitadas por ele e que
cer na superfície pictórica,
suas pinturas dividiam a parede com gaiolas de passa-
na fala, na escrita, em
rinhos, tapetes e rascunhos.
desenhos e aquare-
É quase inútil nominar o microcosmo criado por Meyer
las, nos protestos
Filho na tentativa de constituir um ponto de partida de
e
editores |
coordenadora |
Administradora da Biblioteca Pública do Estado de Santa
Catarina |
Fundação
Secretária Executiva do Conselho Estadual de Cultura |
Administrador do Teatro Governador Pedro Ivo |
Apolinário
Catarinense de Cultura
Denize Gonzaga
planejamento gráfico e arte |
Impressão |
Administrador da Casa dos Açores Museu Etnográfico |
Samuel Max Seemann
revisão |
entre em contato
Halley Filipouski
Caio Cavichiolli
Administradora da Escolinha de Arte | Alessandra
Ghisi Zapelini
Gerente de Pesquisa e Tombamento |
margens ao automatismo psíquico.
quia entre o cosmos e o mundo dos homens, há uma
res correntes na região, como o Boi-de-
expediente
personalidade
editor ial
Luminescentes
reivindica-
leitura da sua obra, pelo simples fato de que o fim e a
ções,
as
ordem nunca existiram. Não há qualquer razão válida
suas
para considerar os meios de expressão do artista como
uma extensão lógica de seu pensamento: ele é eloquente por si mesmo. Convém deixar em suspenso
a definição. n
texto | kamilla nunes
é curadora e diretora do Instituto Meyer Filho.
imagens | divulgação
3
Ô Catarina! | número 70 | 2009
entrev ista
entrev ista
entrev ista concedida a marco vasques
Cavaleiro andante da palavra
Poeta e tipógrafo carioca revive em Santa Catarina a arte gutemberguiana
Marco Vasques
A figura de Dom Quixote quase
acontece aí uma coisa muito curiosa
ÔC! | Quais autores foram decisivos
está expresso no trabalho a frente
que se explica só pelo inexplicável da
para a sua formação?
da editora Noa Noa, na generosidade
situação. Conheci pouco meu pai, con-
Cleber | Tomás Antônio Gonzaga me
com que recebe os escritores e amigos
vivi pouco com ele. Até para fazer um
marcou muito. Bandeira, Murilo Men-
em sua casa para falar de literatura,
retrato real e honesto dele eu teria que
des, João Cabral de Melo Neto. Um dos
na tenacidade em manter a editora
refletir mais e rever meus sentimentos.
poetas que eu mais admiro é Affonso
sempre respirando e, é claro, na sua
Como disse, ele me deu de presente em
Ávila. Muitos outros, mas estes influíram
literatura.
um Natal a obra completa do Monteiro
na minha formação.
Cleber Teixeira | Eu venho procurando
Lobato e o “Tesouro da Juventude”. Ti-
uma explicação para esta minha paixão
nha oito anos de idade e me tomei de
ÔC! | Como surgiu a editora Noa Noa?
pelos livros. Porque na minha casa não
paixão por aquilo. Evidentemente que
Cleber | O nome vem do livro “Noa
tínhamos tanto livros assim. Tudo bem
para me dar os livros de presente eu
Noa”, do Paul Gauguin, e quer dizer Ter-
que meu pai era um jornalista, mas não
já havia manifestado o gosto pela lei-
ra Perfumada. Era o nome da ilha em
era um leitor compulsivo. Minha sorte
tura. Então ele estimulou dando aquilo
que Gauguin viveu. [Risos] Cá estou eu
foi ter recebido de presente de Natal a
que foi um presente pelo qual hoje, 61
numa ilha. Eu tive sorte, pois desde ga-
coleção completa do Monteiro Lobato.
anos depois, tenho um apego enorme.
roto quis ser escritor. Queria fazer livros
Foi um belíssimo presente. Talvez eu
E isso agradeço sempre. Não deveria
e ler livros; na época, isso para mim era
precise fazer uma revisão com relação
agradecer com tamanha ênfase, por-
aparentemente muito simples. Sabemos
ao prazer da leitura e a possível influên-
que é obrigação de todo pai educar
que não é simples. Mas tudo aconteceu
cia que meu pai teve nisso tudo. Meu pai
adequadamente seus filhos, mas vá lá,
de forma muito saborosa. Eu tinha von-
teve uma vida quase secreta: ele tinha
como não convivi com um pai cumpri-
tade de editar alguma coisa, mas não
La Mancha é contagiante. Ele precisa
A poética de Cleber Teixeira cita as
Cleber não é um Quixote naque-
uma outra família e nós não sabíamos.
dor das obrigações, vou homenagear,
tinha dinheiro. Em outros tempos o pro-
de um sonho para não morrer. Somos
cantigas medievais e nos reporta aos
le sentido burlesco, mas no sentido
Enfim, ele se mandou e nos deixou na
tentar resgatá-lo lembrando as coisas
cesso de edição de um livro era muito
todos quixotes.
provençais que tinham a poesia como
mais nobre que se possa metaforizar.
extrema miséria, miséria mesmo. Um
boas que ele fez.
mais complexo. Manter uma oficina ti-
sempre é associada ao pejorativo,
A grande metáfora de Miguel de
ofício diário e irrestrito. E Cleber é as-
Entregar a vida aos livros, à leitura, a
dia tenho que mexer neste baú secreto.
O meu pai tinha uma crônica num jor-
pográfica com linotipo era caro. A única
ao burlesco. O fidalgo Quijana, leitor
Cervantes, que escreveu o romance na
sim: vive para a palavra e da palavra.
difundir a leitura, à feitura artesanal
O que importa é que ele teve o cuidado
nal popular de esquerda. Era a crônica
maneira de um autor médio publicar era
de livros de cavalaria, resolve sair do
prisão, além da liberdade e do sonho,
Sua editora, Noa Noa, uma das mais
de livros num mundo em que tudo é
de me dar o Monteiro Lobato e, certa-
típica do cronista mesmo. Eu tinha isso
pagando. Bandeira pagou a edição do
papel de leitor para se tornar perso-
é, sem dúvida, a força da palavra falada
importantes do Brasil, publicou tradu-
rápido e mercantilizado; onde sinônimo
mente, a partir dali minha paixão pelos
num caderno e boa parte sumiu comple-
seu primeiro livro, o “Cinza das horas”.
nagem e criar a sua própria aventura.
e escrita. Força essa que encontramos
ções de John Donne, John Keats, Ge-
de sucesso é ter dinheiro, carro do ano
livros começou. Tanto faz estar em Des-
tamente. Meu pai, na verdade, era uma
Se minha memória não estiver me train-
Moinhos de vento ou barris de carvalho
na pessoa do tipógrafo, editor e poeta
rard Manley Hopkins, Mallarmé, Cum-
e algum poder só pode mesmo ser um
terro ou no Rio de Janeiro, se você tem
pessoa com talento de escritor. Ele co-
do, acredito que o Drummond também.
tomam feições de gigantes ou presos
Cleber Teixeira. A vida dedicada à lei-
mings e T.S.Eliot (e Augusto e Haroldo
ato de amor. A generosidade e o prazer
acesso a bibliotecas você está sintoniza-
bria um espetáculo de ópera em um dia
Era muito complicado editar.
acorrentados passam a seres inocentes
tura, à escritura e à publicação de li-
de Campos publicaram algumas de
em receber com o tradicional cafezinho
do com o mundo.
e no outro ia a um jogo no Maracanã.
Até que em 1965 eu casei e estava ten-
que precisam da justiça da cavalaria
vros. O cavaleiro que faz da palavra sua
suas traduções pela Noa Noa), em um
os amigos, escritores, estudantes — no
Ele era muito versátil. Eu ia algumas ve-
tando achar uma maneira de prosseguir
andante. Até Sancho Pança, o escudei-
aventura, a começar por dois de seus
catálogo de 72 títulos e tiragens limi-
bairro Agronômica, Ilha de Santa Cata-
ÔC! | Mesmo com esses conflitos, pa-
zes ao estádio com ele. Esse crédito eu
meu sonho de editar. Aí o meu ex-sogro
ro, em princípio incrédulo na aventura,
livros: “13 poemas do poeta, cavaleiro
tadas, com média de duzentos exem-
rina, onde o carioca vive há 30 anos —
rece-me que seu pai teve papel funda-
dou a ele, o de ter aberto para mim um
um dia chegou para mim e disse “olha,
entra no sonho e se imagina governador
sem cavalo e tipógrafo Cleber Teixeira”
plares compostos na gráfica manual
são outros dos atributos do cavaleiro/
mental na sua formação como leitor.
caminho ao qual eu já era propenso: a
tem uma viúva de um amigo meu que
de uma ilha. Tudo em Dom Quixote de
e “Armadura, espada, cavalo e fé”.
guttemberguiana.
poeta da tipografia.
Cleber | Exatamente. Na verdade,
literatura.
fazia um trabalho gráfico, ela quer ven-
Ô Catarina! | número 70 | 2009
t
4
Ô Catarina! | O seu amor pelos livros
“A leitura passou
a ser o possível
momento de paz,
pois o universo do
livro é fascinante,
tudo se pode
aprender
com a leitura.”
5
Ô Catarina! | número 70 | 2009
respeito muito os jovens escritores e
farçar com a linguagem é que mostra
fico satisfeitíssimo por saber que res-
to, mais lírico. Parece que o poeta
o poder de fogo do poeta. Tirar o sen-
peitam meu trabalho, porque passei a
está entre a guerra e o gozo.
timentalismo e produzir um texto que
vida lutando e tentando fazer o melhor.
Cleber | Esteticamente é isso mesmo.
discuta as questões pessoais de maneira
Se consegui ou não, só eles mesmo para
O fato de você buscar uma maneira de
universal e, às vezes, colocar uma situa-
dizerem. Sinto muito prazer em ouvir
realizar o seu trabalho escrito, luta com
ção universal particularizada. Fazer isso
isto que você fala, porque eu quero
a tua vontade e com a tua competência.
com maestria, como no “Homem Oco”
mesmo é ser útil. Muitas pessoas me
Você sempre se acha menos competen-
do Eliot, é que diferencia o poeta do
procuram, sobretudo para saber sobre
te do que a tua vontade quer, então
versejador. Temos muitos versejadores
o Concretismo.
trabalhar com isso é muito difícil. Esta-
espalhados pelo mundo; poucos, pou-
belece-se mesmo a guerra e o gozo. Mas
quíssimos poetas que se traduzem em
ÔC! | Como recebeu o documentário
clarões existem e acho que todo escri-
linguagem.
“Só Tenho um Norte” (média reali-
tor, todo mesmo, tem clarões, mesmo o
Já que você falou do Graciliano Ramos,
zado em 2007 com direção de Alexan-
melhor deles, e você tem que ser mo-
vou contar uma história. Essa eu ouvi
dre Veras, Demétrio Panarotto, Júlia
desto e honesto para mostrar que você
na década de 1950 de um jornalista, o
Studart e Manoel Ricardo de Lima)?
não é infalível. Aliás, essa falibilidade é
Santa Cruz, que foi chefe de redação
Cleber | Acho que apareci em exces-
que dá sentido ao ato da escritura e à
do Correio da Manhã, onde o Graciliano
so. Apareci mais do que gostaria. Eu me
busca de um texto bom. Todos temos
era revisor. Quando eles trabalhavam
senti pouco à vontade. Com relação ao
limites. Ocorre muito, muito mesmo, de
juntos, o Graciliano perdeu a mãe e es-
filme penso que eles foram muito com-
poetas terem uma vontade maior que a
tava sem dinheiro para pagar o enter-
petentes, camaradas, mas sou muito
competência; outros têm mais compe-
ro, então o Santa Cruz promoveu uma
discreto. Outra coisa que me incomo-
der uma máquina com os tipos e eu sei
sentadas, daí o tom elegíaco. O poema
proteção dos livros / e da casa fecha-
tência que vontade.
vaquinha para pagar o enterro da mãe
dou foi a opção estética deles, tudo
que te interessa”. Aí eu disse que não
“Paz” é, sim, um canto ao momento
da / mas não perdi o / amor ao com-
Lembro que quando Adélia Prado surgiu
dele. O Graciliano pegou aquilo e disse:
muito próximo, muito detalhado. Mes-
tinha dinheiro, ele me disse “vai falar
mais feliz da vida humana, à singeleza
bate, / não cultivei o esquecimento).
foi um furor [no poema “Casamento”
“Santa, você é o cara menos ‘filha’ da
mo assim eu respeito o trabalho deles.
com ela, pois ela disse que o que im-
dos primeiros anos, à espontaneidade de
Labuta do escrever. Quais elementos
dos versos: Há mulheres que dizem: /
puta que eu conheço”. Olha o poder da
porta é vender para alguém que tenha
como se vive. Nesse período, o tom e o
essenciais para se tornar um escritor?
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
linguagem. Ele ao proferir um elogio re-
ÔC! | O que é um bom poema para
paixão por isso, ela não quer vender
toque das coisas são puros. Depois a lei-
Cleber | Retomo o Guimarães Rosa, pois
/ mas que limpe os peixes / Eu não. A
velou meia ofensa.
você?
para qualquer um”. Na verdade, ela
tura passou a ser o possível momento de
em dois momentos em que os concretis-
qualquer hora da noite me levanto, /
queria homenagear o marido repassan-
paz, pois o universo do livro é fascinan-
tas proclamavam a morte da inspiração
ajudo a escamar, abrir, retalhar e sal-
ÔC! | Segundo o Ministério da Cultura
que quando você está lendo você diz:
do o trabalho dele para um apaixonado.
te; tudo se pode aprender com a leitura.
ele surge e diz que a inspiração existe,
gar. (...), mas esse poema hoje é consi-
existem, hoje, no Brasil, 600 muni-
eu queria ter escrito este poema. Não
Então eu comprei a máquina e comprei
De minha experiência com esse mundo,
contudo é necessário que se trabalhe,
derado um poetar não verdadeiro. Claro
cípios que nunca receberam uma bi-
podemos esquecer das subjetividades,
um manual de tipógrafo, aí surge a Noa
mesmo que minha vida tenha mudado,
trabalhe muito, para que ela se realize
que ninguém tem autoridade para dizer
blioteca. Você iniciou um movimento
cada qual tem a sua. Lembro-me muito
Noa. No início quebrei a cabeça, mas fui
tenho um pesadelo terrível até hoje, que
como linguagem. É preciso estar namo-
se esse poema é ou não verdadeiro. Eu
aqui em Florianópolis para a criação
bem que após o surgimento do Concre-
pegando o pulo-do-gato.
é de estar à noite num lugar onde não há
rando a inspiração, fazer uma espécie
estive em um encontro de poetas em
de bibliotecas.
tismo, tudo que os irmãos Campos fa-
Havia uma antologia com dez poemas
ninguém na rua e eu não tenho casa para
de chamamento, e isso só acontece com
São Paulo em que a Adélia Prado estava
Cleber | É preciso sensibilizar o poder
lassem que era boa poesia, mesmo que
em edição bilíngue do [poeta estaduni-
ir. Meu pânico foi sempre não ter casa
muito labor. O Quintana é um exemplo.
também e ela foi muito infeliz na sua
público. Esse quadro tem que mudar,
se não gostasse, se procurava gostar.
dense] Cummings que era uma raridade.
para mim e para meus irmãos, de modo
Ele tem um arsenal de coisas geniais. Eu
fala, pois ela disse que a mulher estava
pois os governantes têm que saber que
Então sabemos que é difícil responder
Então escrevi para o Augusto de Campos
que essas coisas entram na literatura,
prefiro dizer que minha criação é o re-
em segundo plano, que a mulher tem
se tivermos um maior investimento em
esta sua pergunta. Tudo é muito sub-
sugerindo que ele reeditasse os poe-
mesmo que o autor não queira. Sempre
sultado disto: labor e espreita. Costumo
que servir ao homem. Enfim, penso que
educação e cultura todos os setores da
jetivo: quem viu o João Cabral falando
mas. Imediatamente ele respondeu que
fui obsessivo em algumas coisas. Quan-
trabalhar um texto muitas vezes, estou
essa postura tenha alterado a leitura do
sociedade acabam ganhando. Do sanea-
não acredita que aquele que está fa-
topava e propôs que acrescentássemos
do gosto de alguma coisa, eu me atiro,
permanentemente mudando. O que me
poema por parte do público. Às vezes é
mento básico à saúde. Temos iniciativas
lando é o mesmo quem escreveu aque-
mais dez poemas. Aí começamos uma
de certo modo. Os provençais são minha
apavora é que sempre se pode melhorar
melhor calar sobre a guerra ou o gozo,
particulares, como a Barca dos Livros,
les poemas.
parceria interessante de tradução e de
obsessão. Parece-me um período povoa-
um poeta. O Salim Miguel sempre diz
sobre a construção de um verso, por-
da Tânia Piacentini [na Lagoa da Con-
publicação de poetas que amávamos.
do por pessoas interessantes, os poetas,
que escrever é cortar. Essa é uma boa
que o poeta pode se atrapalhar. Ela se
ceição], que só sobreviverá se o poder
ÔC! | Em que a literatura melhora o
Refizemos o livro de Cummings e teve
as damas e as senhoras e aquelas canti-
pergunta, porque é de difícil respos-
atrapalhou.
público apoiar. Precisamos criar meca-
homem e qual a sua função?
uma repercussão incrível. Veja: naquela
gas. Esse livro é uma espécie de diário
ta. Uma coisa que me agrada é não ter
Em suma, naquela ocasião eu disse — o
nismos para disponibilizar a informação
Cleber | Essa é mais uma pergunta difí-
época os Concretistas pagavam as edi-
poético. Agora eu estou num impasse,
certeza. Estou sempre pronto a ouvir e
que me criou certo desconforto com ela
nos bairros. Uma salinha, inicialmente,
cil, mas vamos lá. A literatura engajada
ções! Fizemos depois Donne, Keats, Ar-
porque quando eu comecei essa obra eu
atento ao que dizem poetas, aqueles
— que a Adélia Prado estava cada dia
já contribui. Eu mesmo me disponibili-
corre um risco porque se a pessoa que
naut Daniel...
estava magoado, tinha recém saído de
que incluo no meu processo de criação,
representando melhor a Adélia Prado.
zo a falar, dar palestras para os jovens
a pratica não tem uma ação real ela
Cleber | Bem, um bom poema é aquele
um casamento e recorri àquele univer-
que é aberto. Como ouço o Mario Quin-
Veja bem, eu disse isso sem maldade,
e adolescentes sobre livros e literatu-
pode, e quase sempre acontece, não
ÔC! | Seu poema “A Paz” revela que é
so para dar conta do problema que es-
tana e sua sofisticação, pois só os tolos
não tenho nada contra ela. E isso re-
ra. Minha contribuição social pode ser
ter força alguma. Há quem produza do
na infância que alcançamos a deseja-
tava vivendo naquele momento. Só que
rejeitam a sofisticação do Quintana,
mete ao que eu queria dizer, essa certa
essa, mas é preciso que cada bairro te-
seu gabinete, sem nunca ter visitado e
da tranquilidade. Seu livro “Edgar Poe
agora estou com muitos anos de paz, de
ouço Eliot, porque esse combate entre
dificuldade de lidar com o fazer poético
nha um lugar onde o jornal, a revista, o
vivido o real e o imaginário daquilo que
the ancient raven et moi...” tem um
tranquilidade, de bens, de amigos. Agora
a sofisticação e a simplicidade me faz
quando você não pode deixar de consi-
livro esteja disponível. Faz-se necessá-
escreve. A literatura engajada exige
caráter elegíaco e geralmente se diri-
virou a página, é outro capítulo. Então,
pensar há anos. Entre Haroldo e Mario
derar, e eu não deixo, que, como disse
rio criar uma relação de afetividade en-
que o sujeito no mínimo seja um homem
ge a uma senhora, o que nos remete
tudo está bom demais na minha vida. O
Quintana, por exemplo, se tivesse que
Mallarmé, poesia se faz com palavras.
tre o jovem e a leitura. Existem muitos
atuante. Ele tem que ser um jornalista,
voluntários para ajudar.
um líder comunitário, enfim, tem que
às cantigas da Idade Média.
único problema que eu tenho é o de saú-
escolher um só, ficaria com o Quintana.
Contudo nós sabemos que poesia não
Dei o teu nome
Cleber | Exatamente. Essa leitura é
de, que anda me incomodando um pou-
O Manoel de Barros, ainda que não seja
se faz apenas com palavras, mas como
muita precisa, pois a intenção da obra é
co, mas isso todo mundo tem. Mas tudo
um poeta do sarcasmo do Quintana, tem
fazer a comunhão do subjetivo, do
ÔC! | Existe toda uma geração de jo-
pelas suas penas. Lima Barreto colocou
às minhas vitórias
essa. Os provençais e os poemas produzi-
anda tão bom, tão certo na minha vida,
uma algibeira de palavras. Meu processo
mental, do emocional, da narração da
vens escritores que reverenciam seu
a alma dele na literatura. Inconcebí-
dos na Idade Média em geral, sempre me
que às vezes eu temo que isso possa des-
de produção é lento. Estou permanen-
existência. Tudo isso vem com as pala-
trabalho: você sente que com isso que
vel uma obra daquelas produzida por
seduziram muito, ainda que pessoalmen-
truir o andamento poético.
temente alterando um poema, mas isso
vras e não há como um autor fugir de
a missão foi atingida?
um Olavo Bilac, por exemplo. Isso não
não é estanque, às vezes um poema dá
si mesmo.
Cleber | Claro, eu sinto que minha mis-
significa que a literatura criativa não
são foi atingida. Amo livros e vivo cer-
possa abordar essas questões, mas elas
(assim ficas imortal,
como eu, meu poema
tem nesse livro uma história de vida. A
ÔC! | No livro “Armadura, espada, ca-
menos trabalho, outro mais. Cada escri-
e meu cavalo).
pobreza, como sabemos, é muito cruel
valo e fé” temos um poema que diz
tor vai descobrindo o que é essencial a
ÔC! | Graciliano Ramos defende que
cado por eles. Tenho uma família mara-
serão mais verdadeiras quando feitas
na formação de um ser. De certo modo,
Sou um guerreiro discreto / mas tenaz,
sua formação. Existem, é claro, aqueles
tudo que se escreve é, de algum
vilhosa e amigos que amam a literatura
por criadores engajados, que viveram
nesse livro, essas marcas estão repre-
senhora, / (passei longo tempo / sob a
que nunca descobrirão.
modo, autobiográfico.
e os livros tanto quanto eu. Também
a escritura. n
Poema de Cleber Teixeira
Ô Catarina! | número 70 | 2009
“Um bom poema
é aquele que
quando você
está lendo você
diz: ‘eu queria
ter escrito este
poema’.”
estar envolvido com a vida que passa
te eu seja uma pessoa contida, também
t
6
Cleber | Ele está corretíssimo. O dis-
entrev ista
entrev ista
“É preciso estar
namorando a
inspiração, fazer
uma espécie de
chamamento, e
isso só acontece
com muito labor.”
ÔC! | Ainda nesse livro, parece-me
que o seu eu poético está mais aber-
entrevista | marco vasques
vive em Florianópolis e é poeta. Formado em
filosofia (UFSC), publicou, entre outros, os
livros “Elegias urbanas” (poemas) e “Diálogos
com a literatura brasileira” (dois volumes de
entrevistas).
fotografias | heloísa espada
vive em São Paulo. É mestre e doutoranda em
História da Arte pela ECA/USP, onde integra
o Centro de Pesquisa em Arte e Fotografia, e
coordena a área de artes visuais do Instituto
Moreira Salles.
7
Ô Catarina! | número 70 | 2009
feira do livro de por to alegre
feira do livro de por to alegre
Telma Scherer
Cinquenta e cinco anos. Já não é uma
mocinha. Tampouco se aproxima dos seus
últimos dias. Conserva ainda traços matreiros de criança, encontráveis por olhares mais sensíveis. De alinho, saia e coque, é bonita, sim. O que se vê nela, pelo
exterior, acusa a proporção da sua sabedoria. Há quem diga que ela abandonou
os rasgos de empolgação, o entusiasmo
que costumava aparentar há algumas décadas. Compreendo. Já não há suspense.
Aquele frio na barriga, aquele medo do
ILUSTRE:
Contista
Silveira de
Sousa foi o
catarinense
homenageado
futuro. Não. Há nela a serenidade da experiência, sim, e mostra já sinais de desatenção. A memória lhe falha, ainda mais
no que se refere àqueles que ela vê pela
Na cidade dos
jacarandás, o
poema de Hugo
Mund Jr. toma
o muro
primeira vez. “Já sei do que se trata, já
No rio do instante,
as palavras porto
vi destes aos milhares”, é a primeira coisa que diz. Depois, amansa. Toma-os para
amigos, ouve, dá presentes, agrados. Enfim, viram motivo do seu maior orgulho.
“Vejam só como são especiais esses meus
meninos. Ninguém nunca fez algo assim.
Estado homenageado na 55a Feira do Livro de
Amilcar Neves, Eliane Debus, Fábio Brüggemann e
Nunca!” Foi assim com os escritores ca-
Porto Alegre, Santa Catarina teve em João Paulo
Péricles Prade, pesquisadoras Tânia Piacentini e
tarinenses, homenageados nessa sua 55a
Silveira de Sousa o emissário maior. Ativista das ar-
Tânia Regina Oliveira Ramos, e, entre os novos au-
tes desde os anos 50, o contista e cronista ouviu as
tores, Carlos Henrique Schroeder, Clotilde Zingali,
palavras de sua “Janela de varrer” ressoarem pela
Cristiano Moreira e Ramone Abreu Amado.
Ryana Gabech
edição. Mostraram o que têm de melhor
e cativaram a senhora. Esperamos que
Mar de livros — uma tenda encobre a
possam lhe perdoar as faltas, as peque-
antiga Força e Luz, a sede do Centro Cultural Érico
Para documentar parte do périplo, Ô Catarina!
corrente de palavras entre muitas margens,
nas rabugices. Desde então ela vai ficar
Veríssimo, na rua dos Andradas, a poucos passos das
pediu à fotógrafa-poeta Francine Canto que captu-
das docas de Porto Alegre às margens das
saudosa, eternamente os esperando para
alas labirínticas atravessadas pelos livros. Pelas pa-
rasse a atmosfera de Porto Alegre e, de instante a
alas de A a D. No Centro da cidade, a Praça
uma visita. n
lavras de Silveira de Sousa a literatura catarinense
instante, tecesse esse fio de Ariadne das imagens que
da Alfândega transbordante de rostos que
se disse presente, de 30 de outubro a 15 de novem-
orientam a palavra das poetas-fotógrafas Ryana Ga-
se intercalam na altura do olhar. As meni-
bro, em mesas redondas e sessões de autógrafos que
bech e Telma Scherer. Nos rios do instante, no instan-
nas dos olhos vagamente se distraem entre
reuniram, entre outros, os escritores Alcides Buss,
tâneo das imagens, essas palavras-porto:
carrosséis de livros pendurados. Crianças
Ramone
Abreu Amado
(1), Carlos
Henrique
Schroeder
(2), Fábio
Brüggemann
(3), Amilcar
Neves e
Alcides
Buss (4),
desfolharam
palavras
na Praça da
Alfândega
(1)
(2)
miram-se no espelho colorido da fantasia.
Quem pode costurar as direções entre
os estandes, se surpreende com os eventos simultâneos: leitores procuram e procuram, malabares dançam ao sol do meio
dia, o sax se liberta na música instrumental. De minuto a minuto, os autógrafos, as
receitas do escrever, o bate-papo com autores. Palavras faladas ao vento soltam-se
(3)
(4)
em mil bocas desconhecidas e é possível
ao passante pescar frases ondulantes no
percurso.
Nem a chuva ou as pequenas poças
que sobraram sobre as pedras intimidam
os interessados. Entrevistas ao vivo nas
rádios, livros-CD, livros-desenho, livrosparque e, numa poesia extrema, livros são
docemente trocados por brigadeiros.
E a Feira se alastra pela antiga Força e
Luz, o Centro Cultural Érico Veríssimo, no
Três lugares de deleite literário das crianças
terraço da Casa Mário Quintana, na Bienal
do Mercosul, nos bares da Cidade Baixa,
onde se abrem os abraços dos amigos e de
tantos desconhecidos que se aproximam.
As afinidades se entrelaçam no calor da
descoberta e põem abaixo as diferenças
culturais.
A linguagem desagua nas nascentes do
8
Ô Catarina! | número 70 | 2009
ler e escrever. Os livros são começos. As
palavras, o caminho.
textos | ryana gabech
vive em Florianópolis, é poeta e formanda em
Artes Visuais (UDESC). Publicou “A data invisível do
poema” e o livro-CD “Trêmulo”.
| telma scherer
vive em Porto Alegre, é mestre em Literatura
Comparada (UFRGS) e publicou os livros de poemas
“Desconjunto” e “O rumor da casa”.
imagens | francine canto
vive em Florianópolis, é fotógrafa e poeta. Publicou
o volume de postais-poema “Arquitetura da luz”.
9
Ô Catarina! | número 70 | 2009
cinema
cinema
palavra de realizador
“O “Novelo”, poderia se dizer assim, fala de uma crise
existencial: o objetivo era mostrar a situação em que estava
a civilização naquele momento, AI-5 arrebentando com
tudo que havia acontecido em Maio de 1968 na França. O
objetivo dele era mostrar a civilização e a crise do sujeito
perante a civilização e tudo isso. Então ele fala da derrocada
da civilização ocidental que estava acontecendo naquele
momento e que não acabou de acontecer ainda, mas tudo
bem, daqui a pouco a gente já ultrapassa, não há dúvidas.”
Pedro Bertolino
SEIS INSTANTES DE
“NOVELO”: Existencialismo
e narrativa circular
marcaram o primeiro
curta-metragem realizado
em Santa Catarina (1968)
“Nós estudávamos cinema, mas éramos amadores.
Tínhamos a ideia de teoria cinematográfica, mas nunca
havíamos feito nada. Não tínhamos dinheiro. Aí o Ady Vieira
[produtor de “Novelo”] disse: ‘Dinheiro é comigo, trate do
resto’. Aí eu falei com o Pedro Bertolino, porque há muitos
anos nós éramos amigos e um tempo atrás ele havia me
contado a história de uma sociedade burguesa em que o
filho um dia se rebela contra tudo e aí parte para o suicídio.
Mas não era um suicídio. Na verdade, era um suicídio
existencial.”
Pedro Paulo Souza
“Na verdade, a ideia do curta é uma sugestão para
Um novelo no limbo dos anos de chumbo
Filmes florianopolitanos produzidos nos anos 60 e 70
ficaram no esquecimento, mas se mostram universais
Fernando Boppré
Gilberto Gerlach
de conclusão de curso de Sissi Valente,
tanto para se entender a época quanto
além dos roteiros e demais materiais por
intitulado “Novelo, Via-Crucis e Olaria:
o próprio cinema).
eles cedidos, foi possível traçar algumas
“Porque a ideia de ‘Via-Crucis’ foi justamente a
Não se deve, contudo, considerar
“Novelo” e “Via-Crucis”), Nelson Macha-
ção, no Sul da Ilha, com paisagens de-
Além disso, os filmes compõem tes-
trajetória de um urbano, não que não seja uma pessoa não
identificada, mas uma pessoa comum, que na verdade pode
de alguma maneira refletir todos nós, que num determinado
momento de sua história pode ser escolhido, como o
personagem foi, e sofrer uma determinação que ele não
escolhera ou alheia a sua própria vontade. Aí, nesse caso,
pelo próprio contexto que a gente vivia na época foi uma
tragédia, o cara na verdade foi escolhido pela violência,
torturado e morto... a ideia é essa... e a desproteção de que
todos somos vítimas... estamos à mercê.”
mera coincidência o silêncio em torno
do dos Santos (diretor de “Via-Crucis” e
sertas, serviu de abrigo: à beira do mar,
temunhos de um momento específico
Nelson Machado do Santos
dessas produções. Fato é que apresen-
“Olaria”), Ady Vieira Filho (produtor e
ao lado do costão, nu, ele coloca-se em
da história de Florianópolis que, naque-
tam uma poética e uma temática que
ator de “Novelo”) e Gilberto Gerlach
posição fetal e, lentamente, torna-se
le período, passava por um processo
não estabelecem continuidade com a
(diretor de fotografia de “Novelo”).
parte do orgânico.
acelerado de urbanização, incluindo a
Os filmes “Novelo”, de 1968, “Via-
experiências cinematográficas na Flo-
A partir daí, ele tem duas opções:
questões centrais para a compreensão
Crucis”, de 1972, e “Olaria”, de 1976,
rianópolis das décadas de 1960 e 1970”
prostituir-se ou suicidar-se. Não obs-
do que estava em jogo na concepção e
não participaram da história da cinema-
é um esforço de síntese do material reu-
tante, ele se decide por uma terceira
na produção destas películas 16mm. Em
tografia em Santa Catarina. Não tomam
nido ao longo de dois anos de pesquisa
alternativa, impondo a essa aparente
primeiro lugar, destaca-se a predomi-
parte de sua tradição como, por exem-
junto à equipe do Laboratório de Pes-
dicotomia uma saída (im)possível. De
nância de um pensamento acerca do lo-
plo, “O Preço da Ilusão’, rodado pelos
quisa e Imagem do Som (LAPIS), que re-
maneira radical, o personagem se livra
cal numa estreita relação com o univer-
modernistas do Grupo Sul em fins da dé-
gistrou em vídeo os depoimentos de Pe-
da civilização — da cidade, das roupas,
sal, numa dialética cujos resultados são,
cada de 1950. Estão relegados, por assim
dro Paulo Souza (diretor de “Novelo”),
dos carros — e parte para o arrabalde.
sem dúvida, ainda hoje, os mais ousados
dizer, a uma espécie de limbo histórico.
Pedro Bertolino (autor do argumento de
Na ocasião, a distante praia da Arma-
da cinematografia catarinense.
tradição cinematográfica predominante
No filme “Novelo”, com direção de
O pressuposto do filme é da ordem
verticalização do Centro da cidade. Por
nos dias de hoje: esses filmes não carac-
Pedro Paulo Souza, co-direção de Gil-
do impossível: morrer para renascer.
fim, cabe assinalar que as sofisticadas
terizam ou reforçam identidades locais,
berto Gerlach e produção de Ady Vieira
Não há o happy end, muito menos o seu
experimentações de linguagem cine-
mas sim articulam visões mais amplas
Filho, o protagonista — interpretado por
oposto. O que há é uma aposta na possi-
matográfica aliavam-se a um conteúdo
sobre questões universais como a crise
Fernando José — entra em crise ao se de-
bilidade de um renascimento — não sem
de caráter crítico sobre o meio social
do sujeito ante a civilização ocidental.
parar com a frase de Martin Heidegger:
antes proceder com um corte brutal,
do período (incluindo aqui os impasses
Não por acaso, o principal estudo
“Os valores não são, eles valem”. Após
com uma morte em civilização — ins-
ante a censura com que os filmes ti-
sobre esses filmes não surgiu dos cursos
livrar-se da religião e da família, cami-
pirado nas ideias existencialistas. É um
veram que lidar). Foi decisiva ainda a
de Cinema ou de Jornalismo, mas sim
nha por longo corredor até defrontar-se
filme corajoso, sobretudo.
influência do existencialismo (em “No-
do curso de História da Universidade
com uma lâmina de barbear (a metáfora
A partir da análise dos filmes e das
Federal de Santa Catarina. O trabalho
precisa do corte, conceito fundamental
entrevistas cedidas pelos realizadores,
Ô Catarina! | número 70 | 2009
velo”) e do marxismo (em “Via-Crucis”
e “Olaria”).
t
10
planos, que eu acho que o curta tem esse sentido. A
linguagem dele tem que ser mais da poesia do que da prosa.
O curta-metragem tem que ter a linguagem da poesia e não
da prosa, prosear em um curta-metragem é uma coisa que
está andando em cima de um fio, cai o tempo todo. A escola
de cinema de curta metragem da Polônia já dizia isso: o
curta tem que ter um sentido e uma forma poética.”
OVONOVELO: o novo no velho
Um filme sobre o filme. Contempla-
va, o original de “Novelo” está preserva-
do no Edital Cinemateca Catarinense
do na Cinemateca Brasileira, enquanto
2008, o documentário “Ovonovelo” —
artigos e dissertações de História foram
média-metragem em vídeo com direção
produzidos sobre o tema. Recentemen-
de Fernando C. Boppré e Maria Emília de
te, um dos episódios de “Histórias de Ci-
Azevedo — se apropria do célebre poe-
nema” (RBS-TV), com direção de Chico
ma visual “Ovonovelo”, de Augusto de
Caprário e Marco Martins, exibiu trechos
Campos, para revisitar o primeiro curta-
de “Novelo” e uma entrevista com Gil-
metragem realizado em Santa Catarina,
berto Gerlach.
“Novelo” (1968), ficção de poética fíl-
Rodado em junho e agosto de 2009,
mica singular com argumento de Pedro
o documentário “Ovonovelo” conta com
Bertolino e realizada em plena ditadura
Ricardo Weschenfelder (assistência de
militar brasileira.
direção), Guto Lima (produção executi-
A retomada em 2003 dos rolos dos
va) Ivan Soares (direção de fotografia),
filmes do antigo Grupo Universitário de
Gustavo de Souza (direção de som), Alan
Cinema Amador (GUCA) coube ao Labo-
Langdon (edição), André S.A. e Boppré
ratório de Pesquisa em Imagem e Som
(pesquisa). O média tem previsão de
(LAPIS/UFSC) e, como efeito da iniciati-
lançamento para início de 2010. n
textos | fernando boppré
“O ponto de partida [para o filme “Olaria”] foi esse:
vive em Florianópolis, é mestre em História Cultural pela UFSC e coordenador da
agenda cultural do Museu Victor Meirelles/IBRAM/MinC.
‘Vamos filmar antes que desapareça’. E, por outro lado,
há um elemento trágico, porque é um modo de vida lindo,
aquela coisa do artesão, uma pessoa que tem o domínio
completo da sua vida. Ele acordava às quatro da manhã,
ia lá no meio da baía, pegava o almoço, vinha, já escalava
o peixe, deixava o peixe prontinho às seis, seis e meia,
começava o trabalho na olaria. Quando chegava meio-dia, as
mulheres já faziam o almoço, o cara almoçava e quatro da
tarde encerrava.”
imagens | divulgação
Nelson Machado dos Santos
fotogramas do filme “Novelo”.
11
Ô Catarina! | número 70 | 2009
cinema
cinema
o que é ser
cineasta?
O estranho mundo de Petter
Baiestorf é o nosso mundo
“É se exorcizar em
público podendo (ou não)
compartilhar seus ideais.
O cineasta deve ser
libertário e engajado com
a busca pela solução dos
problemas sociais do seu
tempo. O cineasta do
espetáculo não sobrevive
muito tempo, já o cineasta
das ideias, dos ideais,
sobrevive para ser discutido
pelas gerações futuras.”
Jair Fonseca
Ao escrever este texto, a começar pelo título, lembrei-me tanto de
Zé do Caixão, quanto de um artigo de Otto Maria Carpeaux sobre Jorge
Luis Borges. Para quem estranhar o encontro de figuras tão diversas no
início de um breve ensaio sobre a obra de Petter Baiestorf, também
diferente dos trabalhos dos demais, justifico a minha impressão. Carpeaux mostra que a obra de Borges, classificada à época como fantástica,
apresenta insólitos laços com a realidade político-social e com a própria
literatura. De modo semelhante, o estranho mundo de Zé do Caixão é o
chamado Terceiro Mundo, transfigurado pela devoração mojiquiana dos
antigos filmes de terror e dos quadrinhos. Também o surrealismo e o
pós-surrealismo de Buñuel têm pouco a ver com o que se costuma classificar como fantástico e, ao invés de serem uma fuga da realidade, são
bem mais um encontro e um confronto com ela. Claro que quando falo
de realidade em relação à construção artística considero esta dentro
daquela e vice-versa. Nada de ilusões referenciais (do tipo: a arte é um
simples reflexo da realidade), ou outras ilusões, como as de que nada se
refere a nada, tudo é linguagem e imagem, ou seja, tudo é nada, nada
é tudo, e coisas do tipo.
Pois bem, os filmes, vídeos, textos (literários ou não) e a performan-
Cinema extremo
móveis entre o artístico e o real vivido, pois mesmo o imaginado é vide filmes trash (lixo, sem valor) ou de terror gore (sangrento e nojento),
o artista catarinense não pode ser compreendido dentro de limites tão
estreitos. E é notável como tenta não se limitar, embora isso acabe ocorrendo, tanto por injunções internas quanto externas.
Longe das salas multi-
algumas produções com roteiro
e direção de Petter Baiestorf
vido. Marcado, até por sua própria escolha, pelo estigma de realizador
diretor devora com ironia os gêneros “marginais” e
realiza o “kanibaru sinema” no Oeste de Santa Catarina
Rosana Cacciatore
filmografia
ce de Petter Baiestorf na cena cultural mostram bem essas fronteiras
Tentarei explicar: Baiestorf combate o “cinemão” comercial de ensua obra na 8a Mostra do Filme Livre, em
baixo custo, têm em comum uma es-
Marins, Sérgio Hingst, Andréa Bryan,
tretenimento, hollywoodiano ou brasileiro, por motivos estéticos-polí-
abril de 2009, no Centro Cultural Banco
pécie de crueza estética, com edições
Ozualdo Candeias. “Candeias me in-
ticos, pois compreende bem que essas dimensões não se separam. Ao
do Brasil, no Rio de Janeiro.
Cenas do média-metragem “Zombio”,
de 1999, que teve um custo de
aproximadamente R$ 300,00
1993 “Criaturas Hediondas” (longa-metragem,
R$ 300,00)
1995 “O Monstro Legume do Espaço” (longametragem, R$ 500,00)
1999 “Zombio” (média-metragem, R$ 300,00)
toscas e atuações irregulares aliadas a
fluenciou muito mais que Mojica”, diz
mesmo tempo, faz um tipo de filme, ou vídeo, anti-industrial e trans-
plex das grandes redes de
“Eu comecei a fazer filmes em 1992,
doses consideráveis de ousadia, inven-
Baiestorf. Tanto que um road movie
gressivo, que acaba por fazer certas concessões facilitadoras, apelando
cinema, mas muito exibidos
com VHS ainda. Hoje eu tiro uma grana
cionismo e muita diversão, como no
exibido apenas em sessões fechadas
a clichês: os eternos zumbis, as cenas de nudez e sexo etc. Entretanto,
nos circuitos ditos alterna-
boa só fazendo filmes de horror e dan-
primeiro filme nacional sobre mortos-
— “Super Chacrinha e seu amigo Ultra-
o uso que faz disso é suficientemente ambíguo para ser crítico. O seu
tivos do Brasil e também
do palestras”, diz o proprietário da cul-
vivos, “Zombio”, de 1999.
shit em crise” vs. “Deus e o Diabo na
trabalho também é diversão, é voltado para o entretenimento (inclusive,
fora do país, os filmes do cata-
tuada e bem sucedida Canibal Filmes,
É interessante notar que na obra
Terra”, de Glauber Rocha (ou: “Ainda
o de quem faz o filme), mas é autoconsciente. Sabemos do poder subver-
rinense Petter Baiestorf
produtora de um clássico do trash bra-
do cineasta de Palmitos, por mais que
bem que Jimi Hendrix Morreu”) — é
sivo do riso e vários desses filmes e vídeos são cruelmente engraçados.
estão próximos de
sileiro: “O monstro legume do espaço”
seus filmes possam ser considerados
uma referência explícita a Glauber e a
“Zombio” (1999), já desde o título, parece zombar de certos filmes
se tornarem cult.
(1995). Baiestorf acumula na bagagem
“trashes”, na maioria das vezes eles
Rogério Sganzerla.
Nascido na cidade
mais de cem filmes no gênero, cuja prin-
ultrapassam os clichês com as provo-
Na atualidade, o filme trash come-
que-vão-acampar-e-se-dão-mal. Aliás, a zombaria se estende ao próprio
de Palmitos, no
cipal característica é o baixíssimo custo
cações mais diversas. Mergulhando no
ça a crescer e ser visto, graças ao ba-
vídeo e às expectativas do espectador, quando, após o fim, temos outro
Oeste
catarinen-
da produção, como propõe no “Manifes-
lixo cultural espalhado pelo mundo e
rateamento de filmadoras portáteis e à
final. Como os zumbis, o vídeo continua depois do fim, e coloca a si
produção, orçado em R$ 3.000,00)
se, em 1974, onde
to canibal”, a sua declaração de princí-
reutilizando o cinema de gênero — hor-
internet. Nos Estados Unidos, a cultura
mesmo em cena. Apesar de apresentar problemas de roteiro e de ritmo,
mora e realiza os
pios de 2002: “A opção de realizar obras
ror, pornô, policial —, Baiestorf promo-
desse tipo de filmes é estruturada e
“Zombio” já nos passa a estranha impressão de que esse mundo “fan-
livro “Manifesto Canibal”, de Baiestorf e Coffin
filmes do Kani-
com cenários, figurinos, iluminação e
ve uma anarquia narrativa regada a
até lucrativa. Já no Brasil os cineastas
tástico” que se cria ali é o nosso (terceiro) mundo, que o sobrenatural é
baru Sinema (ci-
maquiagens criados/conseguidos com
muito deboche, sangue e sexo e, por
desse “gênero” começam a se firmar
artificial e que a fuga da realidade serve para alcançá-la de outro jeito,
nema
lixo.” Tanto que seu filme mais caro cus-
isso, é cultuado.
agora. Para os organizadores da 8a
e, de algum jeito, superar essa realidade.
canibal),
Ô Catarina! | número 70 | 2009
2003 “Primitivismo Kanibaru na Lama da
Tecnologia Catódica” (curta, custo zero)
2006 “A Curtição do Avacalho” (longametragem, R$ 1.200,00)
2007 “Manifesto Canibal — O Filme” (curtametragem, custo zero)
2009 “Ninguém Deve Morrer” (curta em
Souza (editora Achiamé, 2004)
documentário “Baiestorf: Filmes de
Sangueira & Mulher Pelada”
(direção de Cristian Caselli,
Rio de Janeiro, 2004)
Mostra do Filme Livre, a Canibal Filmes
Não é à toa que Baiestorf briga tanto com o que se faz em gran-
Essas produções, oriundas do un-
próprio cineasta, parte de seus filmes
é a dona do cinema mais transgressor
de parte do cinema brasileiro contemporâneo, paradoxal cinemão que
expressivos do
derground e conhecidas sob muitos
segue a cartilha do hoje consagrado
e extremo feito no Brasil no momen-
não consegue vencer seu complexo de inferioridade frente ao cinemão
trash brasilei-
rótulos — Filme Trash, Cinema Margi-
cinema marginal brasileiro das déca-
to. Para Petter Baiestorf, seus filmes
hollywoodiano. Petter prefere fazer as coisas do jeito que pode e quer,
ro. A importân-
nal, Filme B, Cinema Independente,
das de 60 e 70, que, apesar de serem
explicitam “a opção de se utilizar do
referindo-se frequentemente a mitos de um cinema diferente do seu,
cia de Baiestorf
Alternativo, Boca do Lixo ou, principal-
produções heterogêneas, tinham como
Kanibaru Sinema e sua estética do caos
mas semelhante ao seu, de algum modo: o de Rogério Sganzerla e prin-
rendeu uma re-
mente, Gore (um subgênero do horror
proposta comum um “cinema de au-
para finalmente poder flertar com a es-
cipalmente o de Glauber Rocha. É que estes são mortos-vivos e muito da
é professor de Teoria Literária e Cinema na UFSC.
trospectiva
que exacerba a escatologia) —, além do
tor”. São nomes da época José Mojica
tética da falta de estética”.
produção audiovisual de nossos dias é coisa de vivos-mortos. n
imagens | divulgação
de
tou três mil reais.
t
De certa forma, conforme admite o
dos nomes mais
Baiestorf é um
12
americanos de terror, com aquelas histórias já muito vistas de jovens-
2001 “Raiva” (longa-metragem, R$ 1.500,00)
textos | rosana cacciatore
é mestre e pesquisadora de cinema.
| jair fonseca
13
Ô Catarina! | número 70 | 2009
que de brincadeira.
— Eu saio daqui a pouco. Se quiser companhia... Para um outro café
em outro lugar — seus cabelos ruivos
prosa
ensaio
deve flertar com garçonetes, mesmo
emolduravam lindamente aquele rosto
alvo agora tímido como uma colegial de
quinze anos.
— Aceito. Vai ser bom mudar a rotina.
Recostou-se na cadeira. Agora pessoas entravam e saíam a todo instante.
O ambiente tornou-se insuportavelmente barulhento. Era a deixa para ele ir
embora. Não naquele dia. Aquele dia
seria diferente. Via, em meio a pequena
multidão, Beatriz ir e vir, sempre lhe espiando pelas beiradas.
— Vai ser bom mudar a rotina.
Sorveu o último gole do café já morno. Sentiu o gosto amargo percorrendo
os recantos da boca. Novamente aquela
sensação, um “queimor” que lhe comia
por dentro. Breve. Passou. Beatriz terminou seus afazeres e já vinha vindo.
Agora a tarde era em tom de azul noturno com ar fresco, elegante. Não havia
estrelas no céu. As pessoas pareciam felizes. Ele estava feliz, mergulhado no silêncio. Não precisaria falar, Beatriz tinha
conversa para os dois. Falava gesticulan“Tróia cine cidade”, de Rosa Marques
Um livro bom atrás do outro
Ronald Augusto
como todo poeta anônimo
amo também este esquecimento
muito errar?) à orla de uma borrasca
ta com um sinal de distinção os rumos
este espaço vazio e imenso
aniquiladora: o trágico. Mauro parece
tortuosos por onde se arrasta o sujeito
este destino inglório
Silvana Silva de Souza
parte do espaço individual dele. Isso o
irritava um pouco... muito. Mas relevou.
Estava linda num vestidinho leve e rosa.
Caminhavam lentamente, ele tentando
não seguir o ritmo da empolgação da fala
Líquido escuro em louça alva
— Uma xícara de café? — a garçonete
dela. Três quadras depois do café viraram
à esquerda. Tão perto e já estavam longe
e provocação calculada. Ele não sorriu,
— Qual a sua sugestão? — Pensou um
do burburinho do centro. A rua emude-
mas sua seriedade atiçava-lhe uma cha-
pouco. Olhou de soslaio para o resto do
ceu, até poder ouvir o som melodioso da
— Sim, obrigado...
ma por dentro. De repente aquela moça
salão como se certificando de alguma
brisa... Beatriz, entretanto, continuava
Era uma rotina boa aquela. Cinco e
que mudava de cara toda semana era,
coisa.
sua tagarelice costumeira. Sentiu nova-
amo este imenso espaço
meia da tarde saía do escritório, apenas
enfim, uma moça que lhe atraía comple-
— Tortinha de limão. Hoje estão
mente aquele “queimor” por dentro. Ele
rodando num lento rio
atravessava a rua, já estava sentado na
tamente. Fascinou-se ainda mais ao vê-
especialmente deliciosas. Para mim
até parou um instante colocando a mão
mesa junto à janela onde ficava apre-
la movendo-se pelo café com destreza e
combina com café puro, amargo e bem
sobre a boca do estômago. Suspirou. Fe-
ciando o movimento.
desembaraço.
quente.
chou os olhos. Parecia lutar contra algu-
Mauro Faccioni Filho é autor de “He-
nos dizer que os musculosos e astutos
herói em condição transeunte e que, de
impessoal
lenos”, dos melhores livros de poemas
prodígios de Aquiles e Odisseu (perso-
uma vez por todas, já não se assemelha
desprovido de deuses e objetivos
publicados no remoto ano de 1998. Mas
nae que percorrem seu “Helenos”) nada
mais aos deuses.
vou tratar aqui de “Duplo Dublê”, outro
mais são do que um glamour fugaz a re-
O (re)conhecimento, a estupidez do
livro impressionante lançado por Mauro
vestir uma polpa em processo de apo-
desígnio: fardo. Meu “Duplo Dublê”: o
peitos pele saliva músculos desejos
quatro anos depois de “Helenos”. Am-
drecimento. E esta “polpa” vem a ser
esforço, via linguagem, para tentar im-
à revelia
bos publicados pela editora Letras Con-
a tragédia. Tragédia como lance entró-
pedir, retardar ou, quem sabe, refletir
temporâneas.
sorria amável como sempre.
— Puro e amargo.
A tarde caía tranquila em tons aver-
— Só se me acompanhar.
ma coisa... Força ou dor dilacerante. Uma
pico que não desconsidera a incisão do
sobre o destino pelo seu lado figural,
A moça, que nessa semana estava
melhados. O aroma forte do café coado
— De jeito nenhum, senhor...
gota de suor escorreu pelo rosto. Puxou
Se em “Helenos” Mauro se apodera
acaso. Ruptura de tendões e fibras — a
como imagem de um processo. Dobrar o
ruiva e tinha cortado os cabelos na al-
há pouco penetrou pelas narinas com
— Márcio...
Beatriz para um canto, apertando bem
do “eco épico”, isto é, transfigura em
inteireza física e moral no extremo de
fado (por via da beleza?), vale dizer, num
tura dos ombros, já sabia todos os seus
prazer. Apenas fechou os olhos aprovei-
— Seu Márcio, o patrão não deixa.
seu corpo contra o corpo dela num beijo
música verbal contemporânea as ruínas
seus tensionamentos.
— Eu pago. O meu café, o seu café,
longo, desejado, desejoso, intenso. Ela
impulso de interpretá-lo, emprestar-lhe
gostos de cor. Ele sorriu também, em-
tando o momento. Lembrou-se de coisas
hieráticas de um epos cujos percalços
Estamos condenados ao desgaste, a
sentido, em suma, todo um concurso
bora preferisse sempre o silêncio como
familiares. Uma memória longínqua...
narrativos já não copulam com os inte-
estados cada vez mais indiferenciados
de signos agenciados para estancar a
forma de cortesia.
Um instante, uma perturbação ainda
— Desculpe, mas temos muitas me-
a olhou no fundo, o mesmo olhar que lhe
resses dos deuses, nem reiteram a dis-
e frios. Pode a tragédia vir, encontrará
tendência entrópica e a dissolução. En-
mais familiar atravessou-lhe o pensa-
sas e poucas garçonetes. Não será possí-
deu no café. Ela devolveu-lhe aquele sor-
cursividade formular característica do
cada coisa fora do seu lugar. Por outro
capsular a tragédia-entropia, portanto
mento chispando rápido. Abriu os olhos.
vel. Mas agradeço o convite... — ele até
riso. Apenas sentiu entrando em seu cor-
gênero, em “Duplo Dublê” o mergulho
lado, os poemas de “Duplo Dublê” pre-
— como acontece —, na palavra grega
E saiu ela com graça, mexendo os
Novamente o aroma tranquilizando a
sentiu vontade de rir da indignação no
po, certo e preciso, logo depois o escor-
na húbris da desventura humana torna-
sentificam em sua linguagem menos um
sema, que admite os sentidos tanto de
quadris para um lado e para outro,
consciência.
seu tom de voz. A raiva latejava pelo
rer de uma coisa quente. Nem sentiu dor,
se mais radical. A dissolução e o dioni-
fado do que um fardo. A “questão de
“signo” como de “sepultura”. Uma tex-
jovial, fresca, arregalada como era
— Estava a seu gosto? — Beatriz sen-
pescoço dela, como se realmente tives-
a princípio, apenas uma leve falta de ar.
síaco exasperantes que atravessam as
fundo” a atravessar o livro — se é que a
tura de linguagem que, a um tempo, a
próprio das moças na primavera. Não
tia prazer em iniciar aquele joguinho.
se feito qualquer proposta indecorosa.
Outra fincada, dessa vez profunda. Mas
páginas de “Duplo Dublê” constituem a
expressão entre aspas dá conta de sua
evoca e a revoga.
demorou muito para que voltasse, o lí-
Seu nome, antes uma mera inscrição no
Mas não era ela mesma quem mais se
já não tinha forças. O corpo esmoreceu
contraparte problematizadora daquela
beleza discursiva —, na verdade, não dis-
O “Duplo Dublê” reivindicado pelo
divertia com aquilo?
devagarzinho, o olhar dela parado, mor-
nudez ática e beligerante dos afirmati-
cute se devemos ou não lidar de modo
meu desejo de linguagem, dobra a carne
vos heróis de “Helenos”.
resignado com o destino inexorável ma-
que se obstina em apodrecer e entriste-
tutado pelos céus (fado) em prejuízo da
nossa vontade de mortais.
Como metaforiza o fotograma da
capa de “Duplo Dublê”, neste volume
14
COMO TODO
do como os italianos, tomando grande
quente.
quido escuro fumegando na louça alva.
uniforme, agora tomava outros sentidos
Ele teve vontade de sorrir-lhe outra vez.
mais profundos. Lembrou-se de Dante.
cer. Duplica um corpo no outro de forma
vive em Porto Alegre e é poeta, músico,
editor e crítico de poesia. Autor de,
entre outros, “Vá de valha” (1992) e
“No assoalho duro” (2007).
vertiginosa. Cede ao prazer do poema e
imagem | rosa marques
trata-se de dar ouvidos ao mortal que
Mas, antes, põe em cena o reconhe-
ao poema do prazer como resquício de
“lixa o céu seco” com seu brado as-
cimento (fardo) dessa ordem desagrega-
pornografemas que enganam o gozo do
sombrado. Nos encontramos (depois de
dora que, ao fim e ao cabo, pavimen-
qual nos ressentimos. n
Ô Catarina! | número 70 | 2009
— Não esqueça de trazê-lo bem
texto | ronald augusto
vive em Porto Alegre. Bacharel em
Artes Plásticas/Desenho pela UFRGS,
realizou dezenas de exposições
individuais e coletivas desde 1986.
mais o tempo que estiver comigo.
— Desculpe a mim. Só queria uma
Era o segundo sorriso em menos de cin-
— Como sempre — Olhou-a direto,
co minutos. Sentiu-se meio estranho.
uma penetração de rasgar entranha. Sua
Baixou os olhos tentando esconder seus
seriedade quase severa desmontou-a.
Ela pensou. Agora parecia compade-
arroubos. Era tarde. Um outro freguês
Bateu a caneta no bloco meio constran-
cer-se. Ele, ainda sério, também pare-
salvou-o do sorriso malicioso que a
gida, meio fazendo-se de santa.
cia sinceramente arrependido. Não pelo
moça devolvia, um misto de brincadeira
— Deseja mais alguma coisa?
convite, mas por todo o resto. Não se
companhia para o café. Sou meio solitário, às vezes.
quase desfaleceu em seus braços. Depois
to. Bastou tirar o punhal deixar o corpo
estirado ali mesmo. n
texto | silvana silva de souza
vive em Tubarão/SC e é contadora de histórias,
diretora de teatro e atriz.
imagem | tadeu lobato
s/título, 1994. Acervo do Masc.
15
Ô Catarina! | número 70 | 2009
semiótica curator ial
Diclotômica
cínica
cíclica
salmoura
clitolírica
clitotímida
clitoúmida
clímax n
poema | suzana mafra
vive em Brusque/SC. É mestre
em literatura e bibliotecária e
publicou o livro “Borboletras:
poemas curtos que voam”.
litografia | max moura
(1949-2009)
artista plástico catarinense.
Obra do acervo do Masc.
16
S emi ó tica C uratorial tem curadoria de j a y r o s c h m i d t e prop õ e imagens à in v enti v idade dos poetas . elas ,
portanto , n ã o ilustram os poemas : s ã o os poemas que se referem às imagens e s ã o escritos instantaneamente .
Ô Catarina! | número 70 | 2009
Download

“É preciso estar namorando a inspiração, fazer uma espécie