MEYER FILHO “MARCIANO”: NASCIDO HÁ 90 ANOS OS FILMES ESQUECIDOS NOS ANOS DE CHUMBO + prosa + poesia + pensamento UM CINEMA EXTREMO NO OESTE CATARINENSE “É preciso estar namorando a inspiração, fazer uma espécie de chamamento” CLEBER TEIXEIRA, poeta e tipógrafo v O catari na! f u n d a ç ã o c ata r i n e n s e d e c u lt u r a | n ú m e r o 7 0 | 2 0 0 9 Qual o destaque cultural da sua cidade? ta, captada pelas lentes de Heloísa Espada, contempla as páginas como quem redescobre, no mundo poroso do papel, o seu lugar, a sua natureza, a sua condição de criador e criatura da palavra escri- Fotos Márcio H. Martins/FCC ta. Ô Catarina! colorizou o preto-e-branco da lâmpada que pende tanto à literatura quando à ciência e à política (vide a charge ferina de 1954). falante da língua materna e 100% dos moradores fazem Os desenhos e pinturas de Meyer refutam as re- artesanato. Nossas crianças são alfabetizadas primeiro na língua materna.” presente na vida de outros bibliófilos como um exemplo, original em Chapecó. gras ensinadas nas academias e agregam elementos audaciosos a uma compreensão não apenas da arte Ary Feliciano, 37 anos, artesão, morador da aldeia Kondá, sem réplicas. Essa mesma luz dissipa parte da sombra sobre dois enquanto técnica ou subordinada a um estilo, mas também como modo de vida. Desconheço outro artista que pintava galos e os punha na sacada para tomar “O Grupo Folclórico Alma Açoriana. Ele é instantes do cinema em Santa Catarina — o dos anos da ditadura e banho de sol. Não porque se tratava de uma pintura municipal, existe há cinco anos e representa nossa cuja tinta necessitasse de calor, mas porque os galos, cultura. Também temos a Dança de São Gonçalo, que o dos recentes filmes trash de Palmitos — e incide sobre as artes estamos resgatando. Ela é santa. As pessoas fazem luminescentes de Meyer Filho e de Max Moura e a poesia de Mauro promessa e pagam dançando, homem com homem e Faccioni Filho. Traz à luz a escrita de Kamilla Nunes e Silvana Silva Jacinda Padilha, 39 anos, diretora de cultura, moradora de mulher com mulher. Quem organiza é a comunidade.” n acontece culturais que vêm ocorrendo, no teatro, na música, na ta; moderna sem deixar de ser nacional. Renovação rios, paisagens e galos, existia um interesse artístico e dança, principalmente nos grupos étnicos. A cultura da arte e criação da identidade — ao mesmo tempo político em sair do lugar cultural no sentido primário alemã, italiana, afro-descendente, todas estão se nacional e regional — tornaram-se a preocupação dos (galeria, museus, catálogo) sem que a proposição em pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), com apoio da Cinemateca Catari- “Desde 1993 temos o Festival Internacional de nense. Nesta edição, o Governo do Estado distribuirá R$ 1,9 milhão para 19 pro- Corais. Outro destaque de Criciúma é a Casa de jetos selecionados em seis categorias diferentes. O resultado, com a divulgação Cultura e também a Mina Modelo, que está desativada dos selecionados, será publicado em março de 2010. O número de inscrições vem no momento. Temos um projeto para construir uma aumentando a cada edição: em 2008, o prêmio teve 140 projetos inscritos, contra mina virtual.” Lisiane Potrikos, 26 anos, historiadora, moradora de Criciúma. Espaço Cultur al Casa da Alfândega lhada por amigos e familiares. Não havia separação corpo sempre prestes a explodir. Para além dos casa- moradora de Jaraguá do Sul. 128 em 2007, 101 em 2005, 55 em 2002 e 51 em 2001. em Marte, é contada até hoje com espanto e garga- refém de suportes, mas encontrava-se à deriva de um Jussette Wittkowski, 39 anos, pedagoga social, novembro de 2009 as inscrições para o Edital Catarinense de Cinema, promovido Kamilla Nunes uma cultura nacional sem deixar de ser vanguardis- focos de cultura nos bairros.” Com um número recorde de 189 projetos inscritos, foram encerradas no dia 20 de ta Manoel de Menezes nos anos 60, relatando a estadia entre a arte e o artista, uma vez que sua obra não era desvelando. A cidade está descentralizando, fazendo Edital Catarinense de Cinem a A entrevista que Meyer Filho concedeu ao jornalis- O vampiro. 1963. Aquarela sobre papel As primeiras décadas do século XX na América “Na minha cidade eu gosto dos movimentos Ryana Gabech e Telma Scherer. De luz em luz, este número 70 cria em sua exuberância, precisavam ser cortejados. Latina foram marcadas por uma utopia: construir Barra Velha. de Souza e ilumina os olhares/relatos líricos de Francine Canto, n inquietações e investigações plásticas relacionadas “Se fosse indicar um lugar para alguém visitar na tantas vezes recluso e invisível na vida de bibliófilo, tantas vezes n Complexidade do modernista Meyer Filho desafia as definições cidade, com certeza seria a nossa aldeia. Ela é 100% sobre Cleber para dar a ver a figura humana do editor da Noa Noa, outros campos de visão sobre Santa Catarina. Cosmo e caos do emissário de Marte No dia 25 de novembro de 2009, cerca de 500 catarinenses estiveram no auditório da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), em Florianópolis, na II Conferência Estadual de Cultura. Ô Catarina! perguntou a alguns deles qual o destaque cultural das cidades onde vivem. O tipógrafo-poeta Cleber Teixeira emerge da contraluz e sua silhue- A Fundação Catarinense de Cultura (FCC) inaugura em março de 2010 o Espaço “O Festival de Dança. Acontece todo ano e Cultural Casa da Alfândega, no Centro de Florianópolis. O local, que está sendo estamos na 19a edição. Ele é um dos melhores da restaurado, receberá exposições de artistas plásticos catarinenses e será utiliza- região, outras cidades também querem participar. do também para lançamentos de livros, realização de debates culturais e oficinas Outro destaque é a Fanfarra Municipal de Três Barras, de arte, tudo com entrada gratuita. O espaço funcionará na Casa da Alfândega, que existe há 23 anos e já foi 15 vezes campeã no mesmo local anteriormente ocupado pela Associação Catarinense de Artistas estadual.” Plásticos (Acap), ao lado da Galeria de Artesanato já administrada pela FCC. Uma Marcos Aurélio Budant, 46 anos, diretor de cultura, comissão curatorial definirá quais exposições serão realizadas no local. morador de Três Barras. artistas do período, tanto em Santa Catarina e São si desmoronasse imediatamente. E a série de crônicas Paulo, quanto em outros países latinos, com variação publicadas pelo artista no extinto jornal “O Estado” conforme as coordenadas sociais, culturais e políticas permanece quase desconhecida e inexplorada. de cada tempo e espaço. Para chegar a uma compreensão da obra de Meyer A arte de Ernesto Meyer Filho (Itajaí, 4 de dentro da complexidade instaurada no modernismo é dezembro/1919 — Florianópolis, 22 de junho /1991) preciso combater a tendência ao estável, à passivida- foi por vezes apresentada como estética primitivista, de ligada ao hábito, à insistência em pensar que a obra assumida na época com o caráter positivo associado desse artista se encerra em uma categoria possível de ao popular. No entanto, a perspectiva insólita, mar- ser nomeada ou a uma técnica específica. Meyer Fi- ginal e singular que se formou com as premissas do lho, por exemplo, nunca foi um surrealista, apesar de modernismo, tais como a renovação dos preceitos fazer referência a este movimento em momentos de das vanguardas europeias e a ruptura com a arte sua produção e divagação poética. O artista não deu meramente histórica associada às colônias indíge- importância às teorias psicanalíticas de Freud, aos nas, ao escravismo e ao império, impulsionaram a preceitos do “Manifesto Surrealista” e tampouco deu produção artística de Meyer Filho para um hibridismo técnico e para a enunciação simultânea de discurso erudito e popular. Anita Pires Diretor Administrativo | Ray Borges Martins Diretora de Difusão Artística | Mary Garcia Diretora de Patrimônio Cultural | Simone Harger Assessora de Comunicação | Deluana Buss Consultora Jurídica | Juliana Caon Assessor da Presidência | Sinval Santos da Silveira Coordenador do Núcleo de Projetos | Eugênio Lacerda Presidente | 17 DE NOVEMBRO DE 1889 Governador do Estado de Santa Catarina | Luiz Henrique da Silveira Vice-governador | Leonel Pavan 2 Secretário de Estado de Turismo, cultura e Esporte | Gilmar Knaesel Gerente de Administração, Finanças e Contabilidade | Antônio Ubiratan de Alencastro Gerente Operacional | Domingos Guedin Gerente de Logística e Eventos | Soraya Fóes Bianchini Gerente de Patrimônio | Karla Fonseca Ô Catarina! | número 70 | 2009 Lucília Polli Administradora da Casa da Alfândega | Gerente de Artes | Administradora da Casa de Campo do Governador Hercílio Luz | Marilóide da Silva Administrador do Centro Integrado de Cultura | José Neves Administração do Museu Nacional do Mar | Administradora do Teatro Ademir Rosa | Westphal Margarett Irani Administradora do Museu de Arte de Santa Catarina | Lygia Helena Roussenq Neves Administradora do Museu da Imagem e do Som | Thomasi Denise Marita Balbi v Élia Mara Magalhães Brites Administradora do Museu Histórico de Santa Catarina | Susana Simon Aministradora do Teatro Álvaro de Carvalho | Margarett Westphal Ayrton Cruz Imprensa Oficial do Estado de Santa Catarina (Ioesc) Tiragem | 10 mil exemplares O catari na! Deluana Buss e Dennis Radünz Mary Garcia Conselho Editorial | Jason de Lima e Silva, Jayro Schmidt, Mary Garcia, Péricles Prade e Onor Filomeno PESQUISA E DOCUMENTAÇÃO | Aline Gallina e Denize Gonzaga ASSESSORIA | Cloé de Haro Distribuição gratuita Publicação da Fundação Catarinense de Cultura Apoio | Fundação Catarinense de Cultura Av. Governador Irineu Bornhausen, 5.600 — Agronômica — CEP 88025-202 — Florianópolis — Santa Catarina E-mail | [email protected] Fone | (48) 3953-2383 Site | www.fcc.sc.gov.br O conjunto da obra do artista refuta a hierar- Detentor no Banco do Brasil do maior salário junção do espiritual e do profano, formado por um público da época, ele convivia com a elite que imaginário particular que se transfigura na ossatura estava se formando na Ilha de Santa Catarina, revestida pela desconfiança cética com a realidade e a mesma elite que crescia entre a cultura com posturas inquietas e chocantes do seu posicio- letrada e a mescla das tradições popula- namento enquanto artista e cidadão, vale dizer, um cidadão de Marte. Mamão. Esse trânsito entre o popular Está aí um ponto importante a ser lembrado nos e o culto marcou a obra de Meyer 90 anos de seu nascimento: o caos. Recordarei que Filho de tal forma que ele superou Meyer, junto com seus estudos rápidos e rapidíssimos, o caráter meramente narrativo com as pinturas e os recortes de jornal, guardava to- da arte e deixou transpare- das as contas e notas fiscais quitadas por ele e que cer na superfície pictórica, suas pinturas dividiam a parede com gaiolas de passa- na fala, na escrita, em rinhos, tapetes e rascunhos. desenhos e aquare- É quase inútil nominar o microcosmo criado por Meyer las, nos protestos Filho na tentativa de constituir um ponto de partida de e editores | coordenadora | Administradora da Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina | Fundação Secretária Executiva do Conselho Estadual de Cultura | Administrador do Teatro Governador Pedro Ivo | Apolinário Catarinense de Cultura Denize Gonzaga planejamento gráfico e arte | Impressão | Administrador da Casa dos Açores Museu Etnográfico | Samuel Max Seemann revisão | entre em contato Halley Filipouski Caio Cavichiolli Administradora da Escolinha de Arte | Alessandra Ghisi Zapelini Gerente de Pesquisa e Tombamento | margens ao automatismo psíquico. quia entre o cosmos e o mundo dos homens, há uma res correntes na região, como o Boi-de- expediente personalidade editor ial Luminescentes reivindica- leitura da sua obra, pelo simples fato de que o fim e a ções, as ordem nunca existiram. Não há qualquer razão válida suas para considerar os meios de expressão do artista como uma extensão lógica de seu pensamento: ele é eloquente por si mesmo. Convém deixar em suspenso a definição. n texto | kamilla nunes é curadora e diretora do Instituto Meyer Filho. imagens | divulgação 3 Ô Catarina! | número 70 | 2009 entrev ista entrev ista entrev ista concedida a marco vasques Cavaleiro andante da palavra Poeta e tipógrafo carioca revive em Santa Catarina a arte gutemberguiana Marco Vasques A figura de Dom Quixote quase acontece aí uma coisa muito curiosa ÔC! | Quais autores foram decisivos está expresso no trabalho a frente que se explica só pelo inexplicável da para a sua formação? da editora Noa Noa, na generosidade situação. Conheci pouco meu pai, con- Cleber | Tomás Antônio Gonzaga me com que recebe os escritores e amigos vivi pouco com ele. Até para fazer um marcou muito. Bandeira, Murilo Men- em sua casa para falar de literatura, retrato real e honesto dele eu teria que des, João Cabral de Melo Neto. Um dos na tenacidade em manter a editora refletir mais e rever meus sentimentos. poetas que eu mais admiro é Affonso sempre respirando e, é claro, na sua Como disse, ele me deu de presente em Ávila. Muitos outros, mas estes influíram literatura. um Natal a obra completa do Monteiro na minha formação. Cleber Teixeira | Eu venho procurando Lobato e o “Tesouro da Juventude”. Ti- uma explicação para esta minha paixão nha oito anos de idade e me tomei de ÔC! | Como surgiu a editora Noa Noa? pelos livros. Porque na minha casa não paixão por aquilo. Evidentemente que Cleber | O nome vem do livro “Noa tínhamos tanto livros assim. Tudo bem para me dar os livros de presente eu Noa”, do Paul Gauguin, e quer dizer Ter- que meu pai era um jornalista, mas não já havia manifestado o gosto pela lei- ra Perfumada. Era o nome da ilha em era um leitor compulsivo. Minha sorte tura. Então ele estimulou dando aquilo que Gauguin viveu. [Risos] Cá estou eu foi ter recebido de presente de Natal a que foi um presente pelo qual hoje, 61 numa ilha. Eu tive sorte, pois desde ga- coleção completa do Monteiro Lobato. anos depois, tenho um apego enorme. roto quis ser escritor. Queria fazer livros Foi um belíssimo presente. Talvez eu E isso agradeço sempre. Não deveria e ler livros; na época, isso para mim era precise fazer uma revisão com relação agradecer com tamanha ênfase, por- aparentemente muito simples. Sabemos ao prazer da leitura e a possível influên- que é obrigação de todo pai educar que não é simples. Mas tudo aconteceu cia que meu pai teve nisso tudo. Meu pai adequadamente seus filhos, mas vá lá, de forma muito saborosa. Eu tinha von- teve uma vida quase secreta: ele tinha como não convivi com um pai cumpri- tade de editar alguma coisa, mas não La Mancha é contagiante. Ele precisa A poética de Cleber Teixeira cita as Cleber não é um Quixote naque- uma outra família e nós não sabíamos. dor das obrigações, vou homenagear, tinha dinheiro. Em outros tempos o pro- de um sonho para não morrer. Somos cantigas medievais e nos reporta aos le sentido burlesco, mas no sentido Enfim, ele se mandou e nos deixou na tentar resgatá-lo lembrando as coisas cesso de edição de um livro era muito todos quixotes. provençais que tinham a poesia como mais nobre que se possa metaforizar. extrema miséria, miséria mesmo. Um boas que ele fez. mais complexo. Manter uma oficina ti- sempre é associada ao pejorativo, A grande metáfora de Miguel de ofício diário e irrestrito. E Cleber é as- Entregar a vida aos livros, à leitura, a dia tenho que mexer neste baú secreto. O meu pai tinha uma crônica num jor- pográfica com linotipo era caro. A única ao burlesco. O fidalgo Quijana, leitor Cervantes, que escreveu o romance na sim: vive para a palavra e da palavra. difundir a leitura, à feitura artesanal O que importa é que ele teve o cuidado nal popular de esquerda. Era a crônica maneira de um autor médio publicar era de livros de cavalaria, resolve sair do prisão, além da liberdade e do sonho, Sua editora, Noa Noa, uma das mais de livros num mundo em que tudo é de me dar o Monteiro Lobato e, certa- típica do cronista mesmo. Eu tinha isso pagando. Bandeira pagou a edição do papel de leitor para se tornar perso- é, sem dúvida, a força da palavra falada importantes do Brasil, publicou tradu- rápido e mercantilizado; onde sinônimo mente, a partir dali minha paixão pelos num caderno e boa parte sumiu comple- seu primeiro livro, o “Cinza das horas”. nagem e criar a sua própria aventura. e escrita. Força essa que encontramos ções de John Donne, John Keats, Ge- de sucesso é ter dinheiro, carro do ano livros começou. Tanto faz estar em Des- tamente. Meu pai, na verdade, era uma Se minha memória não estiver me train- Moinhos de vento ou barris de carvalho na pessoa do tipógrafo, editor e poeta rard Manley Hopkins, Mallarmé, Cum- e algum poder só pode mesmo ser um terro ou no Rio de Janeiro, se você tem pessoa com talento de escritor. Ele co- do, acredito que o Drummond também. tomam feições de gigantes ou presos Cleber Teixeira. A vida dedicada à lei- mings e T.S.Eliot (e Augusto e Haroldo ato de amor. A generosidade e o prazer acesso a bibliotecas você está sintoniza- bria um espetáculo de ópera em um dia Era muito complicado editar. acorrentados passam a seres inocentes tura, à escritura e à publicação de li- de Campos publicaram algumas de em receber com o tradicional cafezinho do com o mundo. e no outro ia a um jogo no Maracanã. Até que em 1965 eu casei e estava ten- que precisam da justiça da cavalaria vros. O cavaleiro que faz da palavra sua suas traduções pela Noa Noa), em um os amigos, escritores, estudantes — no Ele era muito versátil. Eu ia algumas ve- tando achar uma maneira de prosseguir andante. Até Sancho Pança, o escudei- aventura, a começar por dois de seus catálogo de 72 títulos e tiragens limi- bairro Agronômica, Ilha de Santa Cata- ÔC! | Mesmo com esses conflitos, pa- zes ao estádio com ele. Esse crédito eu meu sonho de editar. Aí o meu ex-sogro ro, em princípio incrédulo na aventura, livros: “13 poemas do poeta, cavaleiro tadas, com média de duzentos exem- rina, onde o carioca vive há 30 anos — rece-me que seu pai teve papel funda- dou a ele, o de ter aberto para mim um um dia chegou para mim e disse “olha, entra no sonho e se imagina governador sem cavalo e tipógrafo Cleber Teixeira” plares compostos na gráfica manual são outros dos atributos do cavaleiro/ mental na sua formação como leitor. caminho ao qual eu já era propenso: a tem uma viúva de um amigo meu que de uma ilha. Tudo em Dom Quixote de e “Armadura, espada, cavalo e fé”. guttemberguiana. poeta da tipografia. Cleber | Exatamente. Na verdade, literatura. fazia um trabalho gráfico, ela quer ven- Ô Catarina! | número 70 | 2009 t 4 Ô Catarina! | O seu amor pelos livros “A leitura passou a ser o possível momento de paz, pois o universo do livro é fascinante, tudo se pode aprender com a leitura.” 5 Ô Catarina! | número 70 | 2009 respeito muito os jovens escritores e farçar com a linguagem é que mostra fico satisfeitíssimo por saber que res- to, mais lírico. Parece que o poeta o poder de fogo do poeta. Tirar o sen- peitam meu trabalho, porque passei a está entre a guerra e o gozo. timentalismo e produzir um texto que vida lutando e tentando fazer o melhor. Cleber | Esteticamente é isso mesmo. discuta as questões pessoais de maneira Se consegui ou não, só eles mesmo para O fato de você buscar uma maneira de universal e, às vezes, colocar uma situa- dizerem. Sinto muito prazer em ouvir realizar o seu trabalho escrito, luta com ção universal particularizada. Fazer isso isto que você fala, porque eu quero a tua vontade e com a tua competência. com maestria, como no “Homem Oco” mesmo é ser útil. Muitas pessoas me Você sempre se acha menos competen- do Eliot, é que diferencia o poeta do procuram, sobretudo para saber sobre te do que a tua vontade quer, então versejador. Temos muitos versejadores o Concretismo. trabalhar com isso é muito difícil. Esta- espalhados pelo mundo; poucos, pou- belece-se mesmo a guerra e o gozo. Mas quíssimos poetas que se traduzem em ÔC! | Como recebeu o documentário clarões existem e acho que todo escri- linguagem. “Só Tenho um Norte” (média reali- tor, todo mesmo, tem clarões, mesmo o Já que você falou do Graciliano Ramos, zado em 2007 com direção de Alexan- melhor deles, e você tem que ser mo- vou contar uma história. Essa eu ouvi dre Veras, Demétrio Panarotto, Júlia desto e honesto para mostrar que você na década de 1950 de um jornalista, o Studart e Manoel Ricardo de Lima)? não é infalível. Aliás, essa falibilidade é Santa Cruz, que foi chefe de redação Cleber | Acho que apareci em exces- que dá sentido ao ato da escritura e à do Correio da Manhã, onde o Graciliano so. Apareci mais do que gostaria. Eu me busca de um texto bom. Todos temos era revisor. Quando eles trabalhavam senti pouco à vontade. Com relação ao limites. Ocorre muito, muito mesmo, de juntos, o Graciliano perdeu a mãe e es- filme penso que eles foram muito com- poetas terem uma vontade maior que a tava sem dinheiro para pagar o enter- petentes, camaradas, mas sou muito competência; outros têm mais compe- ro, então o Santa Cruz promoveu uma discreto. Outra coisa que me incomo- der uma máquina com os tipos e eu sei sentadas, daí o tom elegíaco. O poema proteção dos livros / e da casa fecha- tência que vontade. vaquinha para pagar o enterro da mãe dou foi a opção estética deles, tudo que te interessa”. Aí eu disse que não “Paz” é, sim, um canto ao momento da / mas não perdi o / amor ao com- Lembro que quando Adélia Prado surgiu dele. O Graciliano pegou aquilo e disse: muito próximo, muito detalhado. Mes- tinha dinheiro, ele me disse “vai falar mais feliz da vida humana, à singeleza bate, / não cultivei o esquecimento). foi um furor [no poema “Casamento” “Santa, você é o cara menos ‘filha’ da mo assim eu respeito o trabalho deles. com ela, pois ela disse que o que im- dos primeiros anos, à espontaneidade de Labuta do escrever. Quais elementos dos versos: Há mulheres que dizem: / puta que eu conheço”. Olha o poder da porta é vender para alguém que tenha como se vive. Nesse período, o tom e o essenciais para se tornar um escritor? Meu marido, se quiser pescar, pesque, linguagem. Ele ao proferir um elogio re- ÔC! | O que é um bom poema para paixão por isso, ela não quer vender toque das coisas são puros. Depois a lei- Cleber | Retomo o Guimarães Rosa, pois / mas que limpe os peixes / Eu não. A velou meia ofensa. você? para qualquer um”. Na verdade, ela tura passou a ser o possível momento de em dois momentos em que os concretis- qualquer hora da noite me levanto, / queria homenagear o marido repassan- paz, pois o universo do livro é fascinan- tas proclamavam a morte da inspiração ajudo a escamar, abrir, retalhar e sal- ÔC! | Segundo o Ministério da Cultura que quando você está lendo você diz: do o trabalho dele para um apaixonado. te; tudo se pode aprender com a leitura. ele surge e diz que a inspiração existe, gar. (...), mas esse poema hoje é consi- existem, hoje, no Brasil, 600 muni- eu queria ter escrito este poema. Não Então eu comprei a máquina e comprei De minha experiência com esse mundo, contudo é necessário que se trabalhe, derado um poetar não verdadeiro. Claro cípios que nunca receberam uma bi- podemos esquecer das subjetividades, um manual de tipógrafo, aí surge a Noa mesmo que minha vida tenha mudado, trabalhe muito, para que ela se realize que ninguém tem autoridade para dizer blioteca. Você iniciou um movimento cada qual tem a sua. Lembro-me muito Noa. No início quebrei a cabeça, mas fui tenho um pesadelo terrível até hoje, que como linguagem. É preciso estar namo- se esse poema é ou não verdadeiro. Eu aqui em Florianópolis para a criação bem que após o surgimento do Concre- pegando o pulo-do-gato. é de estar à noite num lugar onde não há rando a inspiração, fazer uma espécie estive em um encontro de poetas em de bibliotecas. tismo, tudo que os irmãos Campos fa- Havia uma antologia com dez poemas ninguém na rua e eu não tenho casa para de chamamento, e isso só acontece com São Paulo em que a Adélia Prado estava Cleber | É preciso sensibilizar o poder lassem que era boa poesia, mesmo que em edição bilíngue do [poeta estaduni- ir. Meu pânico foi sempre não ter casa muito labor. O Quintana é um exemplo. também e ela foi muito infeliz na sua público. Esse quadro tem que mudar, se não gostasse, se procurava gostar. dense] Cummings que era uma raridade. para mim e para meus irmãos, de modo Ele tem um arsenal de coisas geniais. Eu fala, pois ela disse que a mulher estava pois os governantes têm que saber que Então sabemos que é difícil responder Então escrevi para o Augusto de Campos que essas coisas entram na literatura, prefiro dizer que minha criação é o re- em segundo plano, que a mulher tem se tivermos um maior investimento em esta sua pergunta. Tudo é muito sub- sugerindo que ele reeditasse os poe- mesmo que o autor não queira. Sempre sultado disto: labor e espreita. Costumo que servir ao homem. Enfim, penso que educação e cultura todos os setores da jetivo: quem viu o João Cabral falando mas. Imediatamente ele respondeu que fui obsessivo em algumas coisas. Quan- trabalhar um texto muitas vezes, estou essa postura tenha alterado a leitura do sociedade acabam ganhando. Do sanea- não acredita que aquele que está fa- topava e propôs que acrescentássemos do gosto de alguma coisa, eu me atiro, permanentemente mudando. O que me poema por parte do público. Às vezes é mento básico à saúde. Temos iniciativas lando é o mesmo quem escreveu aque- mais dez poemas. Aí começamos uma de certo modo. Os provençais são minha apavora é que sempre se pode melhorar melhor calar sobre a guerra ou o gozo, particulares, como a Barca dos Livros, les poemas. parceria interessante de tradução e de obsessão. Parece-me um período povoa- um poeta. O Salim Miguel sempre diz sobre a construção de um verso, por- da Tânia Piacentini [na Lagoa da Con- publicação de poetas que amávamos. do por pessoas interessantes, os poetas, que escrever é cortar. Essa é uma boa que o poeta pode se atrapalhar. Ela se ceição], que só sobreviverá se o poder ÔC! | Em que a literatura melhora o Refizemos o livro de Cummings e teve as damas e as senhoras e aquelas canti- pergunta, porque é de difícil respos- atrapalhou. público apoiar. Precisamos criar meca- homem e qual a sua função? uma repercussão incrível. Veja: naquela gas. Esse livro é uma espécie de diário ta. Uma coisa que me agrada é não ter Em suma, naquela ocasião eu disse — o nismos para disponibilizar a informação Cleber | Essa é mais uma pergunta difí- época os Concretistas pagavam as edi- poético. Agora eu estou num impasse, certeza. Estou sempre pronto a ouvir e que me criou certo desconforto com ela nos bairros. Uma salinha, inicialmente, cil, mas vamos lá. A literatura engajada ções! Fizemos depois Donne, Keats, Ar- porque quando eu comecei essa obra eu atento ao que dizem poetas, aqueles — que a Adélia Prado estava cada dia já contribui. Eu mesmo me disponibili- corre um risco porque se a pessoa que naut Daniel... estava magoado, tinha recém saído de que incluo no meu processo de criação, representando melhor a Adélia Prado. zo a falar, dar palestras para os jovens a pratica não tem uma ação real ela Cleber | Bem, um bom poema é aquele um casamento e recorri àquele univer- que é aberto. Como ouço o Mario Quin- Veja bem, eu disse isso sem maldade, e adolescentes sobre livros e literatu- pode, e quase sempre acontece, não ÔC! | Seu poema “A Paz” revela que é so para dar conta do problema que es- tana e sua sofisticação, pois só os tolos não tenho nada contra ela. E isso re- ra. Minha contribuição social pode ser ter força alguma. Há quem produza do na infância que alcançamos a deseja- tava vivendo naquele momento. Só que rejeitam a sofisticação do Quintana, mete ao que eu queria dizer, essa certa essa, mas é preciso que cada bairro te- seu gabinete, sem nunca ter visitado e da tranquilidade. Seu livro “Edgar Poe agora estou com muitos anos de paz, de ouço Eliot, porque esse combate entre dificuldade de lidar com o fazer poético nha um lugar onde o jornal, a revista, o vivido o real e o imaginário daquilo que the ancient raven et moi...” tem um tranquilidade, de bens, de amigos. Agora a sofisticação e a simplicidade me faz quando você não pode deixar de consi- livro esteja disponível. Faz-se necessá- escreve. A literatura engajada exige caráter elegíaco e geralmente se diri- virou a página, é outro capítulo. Então, pensar há anos. Entre Haroldo e Mario derar, e eu não deixo, que, como disse rio criar uma relação de afetividade en- que o sujeito no mínimo seja um homem ge a uma senhora, o que nos remete tudo está bom demais na minha vida. O Quintana, por exemplo, se tivesse que Mallarmé, poesia se faz com palavras. tre o jovem e a leitura. Existem muitos atuante. Ele tem que ser um jornalista, voluntários para ajudar. um líder comunitário, enfim, tem que às cantigas da Idade Média. único problema que eu tenho é o de saú- escolher um só, ficaria com o Quintana. Contudo nós sabemos que poesia não Dei o teu nome Cleber | Exatamente. Essa leitura é de, que anda me incomodando um pou- O Manoel de Barros, ainda que não seja se faz apenas com palavras, mas como muita precisa, pois a intenção da obra é co, mas isso todo mundo tem. Mas tudo um poeta do sarcasmo do Quintana, tem fazer a comunhão do subjetivo, do ÔC! | Existe toda uma geração de jo- pelas suas penas. Lima Barreto colocou às minhas vitórias essa. Os provençais e os poemas produzi- anda tão bom, tão certo na minha vida, uma algibeira de palavras. Meu processo mental, do emocional, da narração da vens escritores que reverenciam seu a alma dele na literatura. Inconcebí- dos na Idade Média em geral, sempre me que às vezes eu temo que isso possa des- de produção é lento. Estou permanen- existência. Tudo isso vem com as pala- trabalho: você sente que com isso que vel uma obra daquelas produzida por seduziram muito, ainda que pessoalmen- truir o andamento poético. temente alterando um poema, mas isso vras e não há como um autor fugir de a missão foi atingida? um Olavo Bilac, por exemplo. Isso não não é estanque, às vezes um poema dá si mesmo. Cleber | Claro, eu sinto que minha mis- significa que a literatura criativa não são foi atingida. Amo livros e vivo cer- possa abordar essas questões, mas elas (assim ficas imortal, como eu, meu poema tem nesse livro uma história de vida. A ÔC! | No livro “Armadura, espada, ca- menos trabalho, outro mais. Cada escri- e meu cavalo). pobreza, como sabemos, é muito cruel valo e fé” temos um poema que diz tor vai descobrindo o que é essencial a ÔC! | Graciliano Ramos defende que cado por eles. Tenho uma família mara- serão mais verdadeiras quando feitas na formação de um ser. De certo modo, Sou um guerreiro discreto / mas tenaz, sua formação. Existem, é claro, aqueles tudo que se escreve é, de algum vilhosa e amigos que amam a literatura por criadores engajados, que viveram nesse livro, essas marcas estão repre- senhora, / (passei longo tempo / sob a que nunca descobrirão. modo, autobiográfico. e os livros tanto quanto eu. Também a escritura. n Poema de Cleber Teixeira Ô Catarina! | número 70 | 2009 “Um bom poema é aquele que quando você está lendo você diz: ‘eu queria ter escrito este poema’.” estar envolvido com a vida que passa te eu seja uma pessoa contida, também t 6 Cleber | Ele está corretíssimo. O dis- entrev ista entrev ista “É preciso estar namorando a inspiração, fazer uma espécie de chamamento, e isso só acontece com muito labor.” ÔC! | Ainda nesse livro, parece-me que o seu eu poético está mais aber- entrevista | marco vasques vive em Florianópolis e é poeta. Formado em filosofia (UFSC), publicou, entre outros, os livros “Elegias urbanas” (poemas) e “Diálogos com a literatura brasileira” (dois volumes de entrevistas). fotografias | heloísa espada vive em São Paulo. É mestre e doutoranda em História da Arte pela ECA/USP, onde integra o Centro de Pesquisa em Arte e Fotografia, e coordena a área de artes visuais do Instituto Moreira Salles. 7 Ô Catarina! | número 70 | 2009 feira do livro de por to alegre feira do livro de por to alegre Telma Scherer Cinquenta e cinco anos. Já não é uma mocinha. Tampouco se aproxima dos seus últimos dias. Conserva ainda traços matreiros de criança, encontráveis por olhares mais sensíveis. De alinho, saia e coque, é bonita, sim. O que se vê nela, pelo exterior, acusa a proporção da sua sabedoria. Há quem diga que ela abandonou os rasgos de empolgação, o entusiasmo que costumava aparentar há algumas décadas. Compreendo. Já não há suspense. Aquele frio na barriga, aquele medo do ILUSTRE: Contista Silveira de Sousa foi o catarinense homenageado futuro. Não. Há nela a serenidade da experiência, sim, e mostra já sinais de desatenção. A memória lhe falha, ainda mais no que se refere àqueles que ela vê pela Na cidade dos jacarandás, o poema de Hugo Mund Jr. toma o muro primeira vez. “Já sei do que se trata, já No rio do instante, as palavras porto vi destes aos milhares”, é a primeira coisa que diz. Depois, amansa. Toma-os para amigos, ouve, dá presentes, agrados. Enfim, viram motivo do seu maior orgulho. “Vejam só como são especiais esses meus meninos. Ninguém nunca fez algo assim. Estado homenageado na 55a Feira do Livro de Amilcar Neves, Eliane Debus, Fábio Brüggemann e Nunca!” Foi assim com os escritores ca- Porto Alegre, Santa Catarina teve em João Paulo Péricles Prade, pesquisadoras Tânia Piacentini e tarinenses, homenageados nessa sua 55a Silveira de Sousa o emissário maior. Ativista das ar- Tânia Regina Oliveira Ramos, e, entre os novos au- tes desde os anos 50, o contista e cronista ouviu as tores, Carlos Henrique Schroeder, Clotilde Zingali, palavras de sua “Janela de varrer” ressoarem pela Cristiano Moreira e Ramone Abreu Amado. Ryana Gabech edição. Mostraram o que têm de melhor e cativaram a senhora. Esperamos que Mar de livros — uma tenda encobre a possam lhe perdoar as faltas, as peque- antiga Força e Luz, a sede do Centro Cultural Érico Para documentar parte do périplo, Ô Catarina! corrente de palavras entre muitas margens, nas rabugices. Desde então ela vai ficar Veríssimo, na rua dos Andradas, a poucos passos das pediu à fotógrafa-poeta Francine Canto que captu- das docas de Porto Alegre às margens das saudosa, eternamente os esperando para alas labirínticas atravessadas pelos livros. Pelas pa- rasse a atmosfera de Porto Alegre e, de instante a alas de A a D. No Centro da cidade, a Praça uma visita. n lavras de Silveira de Sousa a literatura catarinense instante, tecesse esse fio de Ariadne das imagens que da Alfândega transbordante de rostos que se disse presente, de 30 de outubro a 15 de novem- orientam a palavra das poetas-fotógrafas Ryana Ga- se intercalam na altura do olhar. As meni- bro, em mesas redondas e sessões de autógrafos que bech e Telma Scherer. Nos rios do instante, no instan- nas dos olhos vagamente se distraem entre reuniram, entre outros, os escritores Alcides Buss, tâneo das imagens, essas palavras-porto: carrosséis de livros pendurados. Crianças Ramone Abreu Amado (1), Carlos Henrique Schroeder (2), Fábio Brüggemann (3), Amilcar Neves e Alcides Buss (4), desfolharam palavras na Praça da Alfândega (1) (2) miram-se no espelho colorido da fantasia. Quem pode costurar as direções entre os estandes, se surpreende com os eventos simultâneos: leitores procuram e procuram, malabares dançam ao sol do meio dia, o sax se liberta na música instrumental. De minuto a minuto, os autógrafos, as receitas do escrever, o bate-papo com autores. Palavras faladas ao vento soltam-se (3) (4) em mil bocas desconhecidas e é possível ao passante pescar frases ondulantes no percurso. Nem a chuva ou as pequenas poças que sobraram sobre as pedras intimidam os interessados. Entrevistas ao vivo nas rádios, livros-CD, livros-desenho, livrosparque e, numa poesia extrema, livros são docemente trocados por brigadeiros. E a Feira se alastra pela antiga Força e Luz, o Centro Cultural Érico Veríssimo, no Três lugares de deleite literário das crianças terraço da Casa Mário Quintana, na Bienal do Mercosul, nos bares da Cidade Baixa, onde se abrem os abraços dos amigos e de tantos desconhecidos que se aproximam. As afinidades se entrelaçam no calor da descoberta e põem abaixo as diferenças culturais. A linguagem desagua nas nascentes do 8 Ô Catarina! | número 70 | 2009 ler e escrever. Os livros são começos. As palavras, o caminho. textos | ryana gabech vive em Florianópolis, é poeta e formanda em Artes Visuais (UDESC). Publicou “A data invisível do poema” e o livro-CD “Trêmulo”. | telma scherer vive em Porto Alegre, é mestre em Literatura Comparada (UFRGS) e publicou os livros de poemas “Desconjunto” e “O rumor da casa”. imagens | francine canto vive em Florianópolis, é fotógrafa e poeta. Publicou o volume de postais-poema “Arquitetura da luz”. 9 Ô Catarina! | número 70 | 2009 cinema cinema palavra de realizador “O “Novelo”, poderia se dizer assim, fala de uma crise existencial: o objetivo era mostrar a situação em que estava a civilização naquele momento, AI-5 arrebentando com tudo que havia acontecido em Maio de 1968 na França. O objetivo dele era mostrar a civilização e a crise do sujeito perante a civilização e tudo isso. Então ele fala da derrocada da civilização ocidental que estava acontecendo naquele momento e que não acabou de acontecer ainda, mas tudo bem, daqui a pouco a gente já ultrapassa, não há dúvidas.” Pedro Bertolino SEIS INSTANTES DE “NOVELO”: Existencialismo e narrativa circular marcaram o primeiro curta-metragem realizado em Santa Catarina (1968) “Nós estudávamos cinema, mas éramos amadores. Tínhamos a ideia de teoria cinematográfica, mas nunca havíamos feito nada. Não tínhamos dinheiro. Aí o Ady Vieira [produtor de “Novelo”] disse: ‘Dinheiro é comigo, trate do resto’. Aí eu falei com o Pedro Bertolino, porque há muitos anos nós éramos amigos e um tempo atrás ele havia me contado a história de uma sociedade burguesa em que o filho um dia se rebela contra tudo e aí parte para o suicídio. Mas não era um suicídio. Na verdade, era um suicídio existencial.” Pedro Paulo Souza “Na verdade, a ideia do curta é uma sugestão para Um novelo no limbo dos anos de chumbo Filmes florianopolitanos produzidos nos anos 60 e 70 ficaram no esquecimento, mas se mostram universais Fernando Boppré Gilberto Gerlach de conclusão de curso de Sissi Valente, tanto para se entender a época quanto além dos roteiros e demais materiais por intitulado “Novelo, Via-Crucis e Olaria: o próprio cinema). eles cedidos, foi possível traçar algumas “Porque a ideia de ‘Via-Crucis’ foi justamente a Não se deve, contudo, considerar “Novelo” e “Via-Crucis”), Nelson Macha- ção, no Sul da Ilha, com paisagens de- Além disso, os filmes compõem tes- trajetória de um urbano, não que não seja uma pessoa não identificada, mas uma pessoa comum, que na verdade pode de alguma maneira refletir todos nós, que num determinado momento de sua história pode ser escolhido, como o personagem foi, e sofrer uma determinação que ele não escolhera ou alheia a sua própria vontade. Aí, nesse caso, pelo próprio contexto que a gente vivia na época foi uma tragédia, o cara na verdade foi escolhido pela violência, torturado e morto... a ideia é essa... e a desproteção de que todos somos vítimas... estamos à mercê.” mera coincidência o silêncio em torno do dos Santos (diretor de “Via-Crucis” e sertas, serviu de abrigo: à beira do mar, temunhos de um momento específico Nelson Machado do Santos dessas produções. Fato é que apresen- “Olaria”), Ady Vieira Filho (produtor e ao lado do costão, nu, ele coloca-se em da história de Florianópolis que, naque- tam uma poética e uma temática que ator de “Novelo”) e Gilberto Gerlach posição fetal e, lentamente, torna-se le período, passava por um processo não estabelecem continuidade com a (diretor de fotografia de “Novelo”). parte do orgânico. acelerado de urbanização, incluindo a Os filmes “Novelo”, de 1968, “Via- experiências cinematográficas na Flo- A partir daí, ele tem duas opções: questões centrais para a compreensão Crucis”, de 1972, e “Olaria”, de 1976, rianópolis das décadas de 1960 e 1970” prostituir-se ou suicidar-se. Não obs- do que estava em jogo na concepção e não participaram da história da cinema- é um esforço de síntese do material reu- tante, ele se decide por uma terceira na produção destas películas 16mm. Em tografia em Santa Catarina. Não tomam nido ao longo de dois anos de pesquisa alternativa, impondo a essa aparente primeiro lugar, destaca-se a predomi- parte de sua tradição como, por exem- junto à equipe do Laboratório de Pes- dicotomia uma saída (im)possível. De nância de um pensamento acerca do lo- plo, “O Preço da Ilusão’, rodado pelos quisa e Imagem do Som (LAPIS), que re- maneira radical, o personagem se livra cal numa estreita relação com o univer- modernistas do Grupo Sul em fins da dé- gistrou em vídeo os depoimentos de Pe- da civilização — da cidade, das roupas, sal, numa dialética cujos resultados são, cada de 1950. Estão relegados, por assim dro Paulo Souza (diretor de “Novelo”), dos carros — e parte para o arrabalde. sem dúvida, ainda hoje, os mais ousados dizer, a uma espécie de limbo histórico. Pedro Bertolino (autor do argumento de Na ocasião, a distante praia da Arma- da cinematografia catarinense. tradição cinematográfica predominante No filme “Novelo”, com direção de O pressuposto do filme é da ordem verticalização do Centro da cidade. Por nos dias de hoje: esses filmes não carac- Pedro Paulo Souza, co-direção de Gil- do impossível: morrer para renascer. fim, cabe assinalar que as sofisticadas terizam ou reforçam identidades locais, berto Gerlach e produção de Ady Vieira Não há o happy end, muito menos o seu experimentações de linguagem cine- mas sim articulam visões mais amplas Filho, o protagonista — interpretado por oposto. O que há é uma aposta na possi- matográfica aliavam-se a um conteúdo sobre questões universais como a crise Fernando José — entra em crise ao se de- bilidade de um renascimento — não sem de caráter crítico sobre o meio social do sujeito ante a civilização ocidental. parar com a frase de Martin Heidegger: antes proceder com um corte brutal, do período (incluindo aqui os impasses Não por acaso, o principal estudo “Os valores não são, eles valem”. Após com uma morte em civilização — ins- ante a censura com que os filmes ti- sobre esses filmes não surgiu dos cursos livrar-se da religião e da família, cami- pirado nas ideias existencialistas. É um veram que lidar). Foi decisiva ainda a de Cinema ou de Jornalismo, mas sim nha por longo corredor até defrontar-se filme corajoso, sobretudo. influência do existencialismo (em “No- do curso de História da Universidade com uma lâmina de barbear (a metáfora A partir da análise dos filmes e das Federal de Santa Catarina. O trabalho precisa do corte, conceito fundamental entrevistas cedidas pelos realizadores, Ô Catarina! | número 70 | 2009 velo”) e do marxismo (em “Via-Crucis” e “Olaria”). t 10 planos, que eu acho que o curta tem esse sentido. A linguagem dele tem que ser mais da poesia do que da prosa. O curta-metragem tem que ter a linguagem da poesia e não da prosa, prosear em um curta-metragem é uma coisa que está andando em cima de um fio, cai o tempo todo. A escola de cinema de curta metragem da Polônia já dizia isso: o curta tem que ter um sentido e uma forma poética.” OVONOVELO: o novo no velho Um filme sobre o filme. Contempla- va, o original de “Novelo” está preserva- do no Edital Cinemateca Catarinense do na Cinemateca Brasileira, enquanto 2008, o documentário “Ovonovelo” — artigos e dissertações de História foram média-metragem em vídeo com direção produzidos sobre o tema. Recentemen- de Fernando C. Boppré e Maria Emília de te, um dos episódios de “Histórias de Ci- Azevedo — se apropria do célebre poe- nema” (RBS-TV), com direção de Chico ma visual “Ovonovelo”, de Augusto de Caprário e Marco Martins, exibiu trechos Campos, para revisitar o primeiro curta- de “Novelo” e uma entrevista com Gil- metragem realizado em Santa Catarina, berto Gerlach. “Novelo” (1968), ficção de poética fíl- Rodado em junho e agosto de 2009, mica singular com argumento de Pedro o documentário “Ovonovelo” conta com Bertolino e realizada em plena ditadura Ricardo Weschenfelder (assistência de militar brasileira. direção), Guto Lima (produção executi- A retomada em 2003 dos rolos dos va) Ivan Soares (direção de fotografia), filmes do antigo Grupo Universitário de Gustavo de Souza (direção de som), Alan Cinema Amador (GUCA) coube ao Labo- Langdon (edição), André S.A. e Boppré ratório de Pesquisa em Imagem e Som (pesquisa). O média tem previsão de (LAPIS/UFSC) e, como efeito da iniciati- lançamento para início de 2010. n textos | fernando boppré “O ponto de partida [para o filme “Olaria”] foi esse: vive em Florianópolis, é mestre em História Cultural pela UFSC e coordenador da agenda cultural do Museu Victor Meirelles/IBRAM/MinC. ‘Vamos filmar antes que desapareça’. E, por outro lado, há um elemento trágico, porque é um modo de vida lindo, aquela coisa do artesão, uma pessoa que tem o domínio completo da sua vida. Ele acordava às quatro da manhã, ia lá no meio da baía, pegava o almoço, vinha, já escalava o peixe, deixava o peixe prontinho às seis, seis e meia, começava o trabalho na olaria. Quando chegava meio-dia, as mulheres já faziam o almoço, o cara almoçava e quatro da tarde encerrava.” imagens | divulgação Nelson Machado dos Santos fotogramas do filme “Novelo”. 11 Ô Catarina! | número 70 | 2009 cinema cinema o que é ser cineasta? O estranho mundo de Petter Baiestorf é o nosso mundo “É se exorcizar em público podendo (ou não) compartilhar seus ideais. O cineasta deve ser libertário e engajado com a busca pela solução dos problemas sociais do seu tempo. O cineasta do espetáculo não sobrevive muito tempo, já o cineasta das ideias, dos ideais, sobrevive para ser discutido pelas gerações futuras.” Jair Fonseca Ao escrever este texto, a começar pelo título, lembrei-me tanto de Zé do Caixão, quanto de um artigo de Otto Maria Carpeaux sobre Jorge Luis Borges. Para quem estranhar o encontro de figuras tão diversas no início de um breve ensaio sobre a obra de Petter Baiestorf, também diferente dos trabalhos dos demais, justifico a minha impressão. Carpeaux mostra que a obra de Borges, classificada à época como fantástica, apresenta insólitos laços com a realidade político-social e com a própria literatura. De modo semelhante, o estranho mundo de Zé do Caixão é o chamado Terceiro Mundo, transfigurado pela devoração mojiquiana dos antigos filmes de terror e dos quadrinhos. Também o surrealismo e o pós-surrealismo de Buñuel têm pouco a ver com o que se costuma classificar como fantástico e, ao invés de serem uma fuga da realidade, são bem mais um encontro e um confronto com ela. Claro que quando falo de realidade em relação à construção artística considero esta dentro daquela e vice-versa. Nada de ilusões referenciais (do tipo: a arte é um simples reflexo da realidade), ou outras ilusões, como as de que nada se refere a nada, tudo é linguagem e imagem, ou seja, tudo é nada, nada é tudo, e coisas do tipo. Pois bem, os filmes, vídeos, textos (literários ou não) e a performan- Cinema extremo móveis entre o artístico e o real vivido, pois mesmo o imaginado é vide filmes trash (lixo, sem valor) ou de terror gore (sangrento e nojento), o artista catarinense não pode ser compreendido dentro de limites tão estreitos. E é notável como tenta não se limitar, embora isso acabe ocorrendo, tanto por injunções internas quanto externas. Longe das salas multi- algumas produções com roteiro e direção de Petter Baiestorf vido. Marcado, até por sua própria escolha, pelo estigma de realizador diretor devora com ironia os gêneros “marginais” e realiza o “kanibaru sinema” no Oeste de Santa Catarina Rosana Cacciatore filmografia ce de Petter Baiestorf na cena cultural mostram bem essas fronteiras Tentarei explicar: Baiestorf combate o “cinemão” comercial de ensua obra na 8a Mostra do Filme Livre, em baixo custo, têm em comum uma es- Marins, Sérgio Hingst, Andréa Bryan, tretenimento, hollywoodiano ou brasileiro, por motivos estéticos-polí- abril de 2009, no Centro Cultural Banco pécie de crueza estética, com edições Ozualdo Candeias. “Candeias me in- ticos, pois compreende bem que essas dimensões não se separam. Ao do Brasil, no Rio de Janeiro. Cenas do média-metragem “Zombio”, de 1999, que teve um custo de aproximadamente R$ 300,00 1993 “Criaturas Hediondas” (longa-metragem, R$ 300,00) 1995 “O Monstro Legume do Espaço” (longametragem, R$ 500,00) 1999 “Zombio” (média-metragem, R$ 300,00) toscas e atuações irregulares aliadas a fluenciou muito mais que Mojica”, diz mesmo tempo, faz um tipo de filme, ou vídeo, anti-industrial e trans- plex das grandes redes de “Eu comecei a fazer filmes em 1992, doses consideráveis de ousadia, inven- Baiestorf. Tanto que um road movie gressivo, que acaba por fazer certas concessões facilitadoras, apelando cinema, mas muito exibidos com VHS ainda. Hoje eu tiro uma grana cionismo e muita diversão, como no exibido apenas em sessões fechadas a clichês: os eternos zumbis, as cenas de nudez e sexo etc. Entretanto, nos circuitos ditos alterna- boa só fazendo filmes de horror e dan- primeiro filme nacional sobre mortos- — “Super Chacrinha e seu amigo Ultra- o uso que faz disso é suficientemente ambíguo para ser crítico. O seu tivos do Brasil e também do palestras”, diz o proprietário da cul- vivos, “Zombio”, de 1999. shit em crise” vs. “Deus e o Diabo na trabalho também é diversão, é voltado para o entretenimento (inclusive, fora do país, os filmes do cata- tuada e bem sucedida Canibal Filmes, É interessante notar que na obra Terra”, de Glauber Rocha (ou: “Ainda o de quem faz o filme), mas é autoconsciente. Sabemos do poder subver- rinense Petter Baiestorf produtora de um clássico do trash bra- do cineasta de Palmitos, por mais que bem que Jimi Hendrix Morreu”) — é sivo do riso e vários desses filmes e vídeos são cruelmente engraçados. estão próximos de sileiro: “O monstro legume do espaço” seus filmes possam ser considerados uma referência explícita a Glauber e a “Zombio” (1999), já desde o título, parece zombar de certos filmes se tornarem cult. (1995). Baiestorf acumula na bagagem “trashes”, na maioria das vezes eles Rogério Sganzerla. Nascido na cidade mais de cem filmes no gênero, cuja prin- ultrapassam os clichês com as provo- Na atualidade, o filme trash come- que-vão-acampar-e-se-dão-mal. Aliás, a zombaria se estende ao próprio de Palmitos, no cipal característica é o baixíssimo custo cações mais diversas. Mergulhando no ça a crescer e ser visto, graças ao ba- vídeo e às expectativas do espectador, quando, após o fim, temos outro Oeste catarinen- da produção, como propõe no “Manifes- lixo cultural espalhado pelo mundo e rateamento de filmadoras portáteis e à final. Como os zumbis, o vídeo continua depois do fim, e coloca a si produção, orçado em R$ 3.000,00) se, em 1974, onde to canibal”, a sua declaração de princí- reutilizando o cinema de gênero — hor- internet. Nos Estados Unidos, a cultura mesmo em cena. Apesar de apresentar problemas de roteiro e de ritmo, mora e realiza os pios de 2002: “A opção de realizar obras ror, pornô, policial —, Baiestorf promo- desse tipo de filmes é estruturada e “Zombio” já nos passa a estranha impressão de que esse mundo “fan- livro “Manifesto Canibal”, de Baiestorf e Coffin filmes do Kani- com cenários, figurinos, iluminação e ve uma anarquia narrativa regada a até lucrativa. Já no Brasil os cineastas tástico” que se cria ali é o nosso (terceiro) mundo, que o sobrenatural é baru Sinema (ci- maquiagens criados/conseguidos com muito deboche, sangue e sexo e, por desse “gênero” começam a se firmar artificial e que a fuga da realidade serve para alcançá-la de outro jeito, nema lixo.” Tanto que seu filme mais caro cus- isso, é cultuado. agora. Para os organizadores da 8a e, de algum jeito, superar essa realidade. canibal), Ô Catarina! | número 70 | 2009 2003 “Primitivismo Kanibaru na Lama da Tecnologia Catódica” (curta, custo zero) 2006 “A Curtição do Avacalho” (longametragem, R$ 1.200,00) 2007 “Manifesto Canibal — O Filme” (curtametragem, custo zero) 2009 “Ninguém Deve Morrer” (curta em Souza (editora Achiamé, 2004) documentário “Baiestorf: Filmes de Sangueira & Mulher Pelada” (direção de Cristian Caselli, Rio de Janeiro, 2004) Mostra do Filme Livre, a Canibal Filmes Não é à toa que Baiestorf briga tanto com o que se faz em gran- Essas produções, oriundas do un- próprio cineasta, parte de seus filmes é a dona do cinema mais transgressor de parte do cinema brasileiro contemporâneo, paradoxal cinemão que expressivos do derground e conhecidas sob muitos segue a cartilha do hoje consagrado e extremo feito no Brasil no momen- não consegue vencer seu complexo de inferioridade frente ao cinemão trash brasilei- rótulos — Filme Trash, Cinema Margi- cinema marginal brasileiro das déca- to. Para Petter Baiestorf, seus filmes hollywoodiano. Petter prefere fazer as coisas do jeito que pode e quer, ro. A importân- nal, Filme B, Cinema Independente, das de 60 e 70, que, apesar de serem explicitam “a opção de se utilizar do referindo-se frequentemente a mitos de um cinema diferente do seu, cia de Baiestorf Alternativo, Boca do Lixo ou, principal- produções heterogêneas, tinham como Kanibaru Sinema e sua estética do caos mas semelhante ao seu, de algum modo: o de Rogério Sganzerla e prin- rendeu uma re- mente, Gore (um subgênero do horror proposta comum um “cinema de au- para finalmente poder flertar com a es- cipalmente o de Glauber Rocha. É que estes são mortos-vivos e muito da é professor de Teoria Literária e Cinema na UFSC. trospectiva que exacerba a escatologia) —, além do tor”. São nomes da época José Mojica tética da falta de estética”. produção audiovisual de nossos dias é coisa de vivos-mortos. n imagens | divulgação de tou três mil reais. t De certa forma, conforme admite o dos nomes mais Baiestorf é um 12 americanos de terror, com aquelas histórias já muito vistas de jovens- 2001 “Raiva” (longa-metragem, R$ 1.500,00) textos | rosana cacciatore é mestre e pesquisadora de cinema. | jair fonseca 13 Ô Catarina! | número 70 | 2009 que de brincadeira. — Eu saio daqui a pouco. Se quiser companhia... Para um outro café em outro lugar — seus cabelos ruivos prosa ensaio deve flertar com garçonetes, mesmo emolduravam lindamente aquele rosto alvo agora tímido como uma colegial de quinze anos. — Aceito. Vai ser bom mudar a rotina. Recostou-se na cadeira. Agora pessoas entravam e saíam a todo instante. O ambiente tornou-se insuportavelmente barulhento. Era a deixa para ele ir embora. Não naquele dia. Aquele dia seria diferente. Via, em meio a pequena multidão, Beatriz ir e vir, sempre lhe espiando pelas beiradas. — Vai ser bom mudar a rotina. Sorveu o último gole do café já morno. Sentiu o gosto amargo percorrendo os recantos da boca. Novamente aquela sensação, um “queimor” que lhe comia por dentro. Breve. Passou. Beatriz terminou seus afazeres e já vinha vindo. Agora a tarde era em tom de azul noturno com ar fresco, elegante. Não havia estrelas no céu. As pessoas pareciam felizes. Ele estava feliz, mergulhado no silêncio. Não precisaria falar, Beatriz tinha conversa para os dois. Falava gesticulan“Tróia cine cidade”, de Rosa Marques Um livro bom atrás do outro Ronald Augusto como todo poeta anônimo amo também este esquecimento muito errar?) à orla de uma borrasca ta com um sinal de distinção os rumos este espaço vazio e imenso aniquiladora: o trágico. Mauro parece tortuosos por onde se arrasta o sujeito este destino inglório Silvana Silva de Souza parte do espaço individual dele. Isso o irritava um pouco... muito. Mas relevou. Estava linda num vestidinho leve e rosa. Caminhavam lentamente, ele tentando não seguir o ritmo da empolgação da fala Líquido escuro em louça alva — Uma xícara de café? — a garçonete dela. Três quadras depois do café viraram à esquerda. Tão perto e já estavam longe e provocação calculada. Ele não sorriu, — Qual a sua sugestão? — Pensou um do burburinho do centro. A rua emude- mas sua seriedade atiçava-lhe uma cha- pouco. Olhou de soslaio para o resto do ceu, até poder ouvir o som melodioso da — Sim, obrigado... ma por dentro. De repente aquela moça salão como se certificando de alguma brisa... Beatriz, entretanto, continuava Era uma rotina boa aquela. Cinco e que mudava de cara toda semana era, coisa. sua tagarelice costumeira. Sentiu nova- amo este imenso espaço meia da tarde saía do escritório, apenas enfim, uma moça que lhe atraía comple- — Tortinha de limão. Hoje estão mente aquele “queimor” por dentro. Ele rodando num lento rio atravessava a rua, já estava sentado na tamente. Fascinou-se ainda mais ao vê- especialmente deliciosas. Para mim até parou um instante colocando a mão mesa junto à janela onde ficava apre- la movendo-se pelo café com destreza e combina com café puro, amargo e bem sobre a boca do estômago. Suspirou. Fe- ciando o movimento. desembaraço. quente. chou os olhos. Parecia lutar contra algu- Mauro Faccioni Filho é autor de “He- nos dizer que os musculosos e astutos herói em condição transeunte e que, de impessoal lenos”, dos melhores livros de poemas prodígios de Aquiles e Odisseu (perso- uma vez por todas, já não se assemelha desprovido de deuses e objetivos publicados no remoto ano de 1998. Mas nae que percorrem seu “Helenos”) nada mais aos deuses. vou tratar aqui de “Duplo Dublê”, outro mais são do que um glamour fugaz a re- O (re)conhecimento, a estupidez do livro impressionante lançado por Mauro vestir uma polpa em processo de apo- desígnio: fardo. Meu “Duplo Dublê”: o peitos pele saliva músculos desejos quatro anos depois de “Helenos”. Am- drecimento. E esta “polpa” vem a ser esforço, via linguagem, para tentar im- à revelia bos publicados pela editora Letras Con- a tragédia. Tragédia como lance entró- pedir, retardar ou, quem sabe, refletir temporâneas. sorria amável como sempre. — Puro e amargo. A tarde caía tranquila em tons aver- — Só se me acompanhar. ma coisa... Força ou dor dilacerante. Uma pico que não desconsidera a incisão do sobre o destino pelo seu lado figural, A moça, que nessa semana estava melhados. O aroma forte do café coado — De jeito nenhum, senhor... gota de suor escorreu pelo rosto. Puxou Se em “Helenos” Mauro se apodera acaso. Ruptura de tendões e fibras — a como imagem de um processo. Dobrar o ruiva e tinha cortado os cabelos na al- há pouco penetrou pelas narinas com — Márcio... Beatriz para um canto, apertando bem do “eco épico”, isto é, transfigura em inteireza física e moral no extremo de fado (por via da beleza?), vale dizer, num tura dos ombros, já sabia todos os seus prazer. Apenas fechou os olhos aprovei- — Seu Márcio, o patrão não deixa. seu corpo contra o corpo dela num beijo música verbal contemporânea as ruínas seus tensionamentos. — Eu pago. O meu café, o seu café, longo, desejado, desejoso, intenso. Ela impulso de interpretá-lo, emprestar-lhe gostos de cor. Ele sorriu também, em- tando o momento. Lembrou-se de coisas hieráticas de um epos cujos percalços Estamos condenados ao desgaste, a sentido, em suma, todo um concurso bora preferisse sempre o silêncio como familiares. Uma memória longínqua... narrativos já não copulam com os inte- estados cada vez mais indiferenciados de signos agenciados para estancar a forma de cortesia. Um instante, uma perturbação ainda — Desculpe, mas temos muitas me- a olhou no fundo, o mesmo olhar que lhe resses dos deuses, nem reiteram a dis- e frios. Pode a tragédia vir, encontrará tendência entrópica e a dissolução. En- mais familiar atravessou-lhe o pensa- sas e poucas garçonetes. Não será possí- deu no café. Ela devolveu-lhe aquele sor- cursividade formular característica do cada coisa fora do seu lugar. Por outro capsular a tragédia-entropia, portanto mento chispando rápido. Abriu os olhos. vel. Mas agradeço o convite... — ele até riso. Apenas sentiu entrando em seu cor- gênero, em “Duplo Dublê” o mergulho lado, os poemas de “Duplo Dublê” pre- — como acontece —, na palavra grega E saiu ela com graça, mexendo os Novamente o aroma tranquilizando a sentiu vontade de rir da indignação no po, certo e preciso, logo depois o escor- na húbris da desventura humana torna- sentificam em sua linguagem menos um sema, que admite os sentidos tanto de quadris para um lado e para outro, consciência. seu tom de voz. A raiva latejava pelo rer de uma coisa quente. Nem sentiu dor, se mais radical. A dissolução e o dioni- fado do que um fardo. A “questão de “signo” como de “sepultura”. Uma tex- jovial, fresca, arregalada como era — Estava a seu gosto? — Beatriz sen- pescoço dela, como se realmente tives- a princípio, apenas uma leve falta de ar. síaco exasperantes que atravessam as fundo” a atravessar o livro — se é que a tura de linguagem que, a um tempo, a próprio das moças na primavera. Não tia prazer em iniciar aquele joguinho. se feito qualquer proposta indecorosa. Outra fincada, dessa vez profunda. Mas páginas de “Duplo Dublê” constituem a expressão entre aspas dá conta de sua evoca e a revoga. demorou muito para que voltasse, o lí- Seu nome, antes uma mera inscrição no Mas não era ela mesma quem mais se já não tinha forças. O corpo esmoreceu contraparte problematizadora daquela beleza discursiva —, na verdade, não dis- O “Duplo Dublê” reivindicado pelo divertia com aquilo? devagarzinho, o olhar dela parado, mor- nudez ática e beligerante dos afirmati- cute se devemos ou não lidar de modo meu desejo de linguagem, dobra a carne vos heróis de “Helenos”. resignado com o destino inexorável ma- que se obstina em apodrecer e entriste- tutado pelos céus (fado) em prejuízo da nossa vontade de mortais. Como metaforiza o fotograma da capa de “Duplo Dublê”, neste volume 14 COMO TODO do como os italianos, tomando grande quente. quido escuro fumegando na louça alva. uniforme, agora tomava outros sentidos Ele teve vontade de sorrir-lhe outra vez. mais profundos. Lembrou-se de Dante. cer. Duplica um corpo no outro de forma vive em Porto Alegre e é poeta, músico, editor e crítico de poesia. Autor de, entre outros, “Vá de valha” (1992) e “No assoalho duro” (2007). vertiginosa. Cede ao prazer do poema e imagem | rosa marques trata-se de dar ouvidos ao mortal que Mas, antes, põe em cena o reconhe- ao poema do prazer como resquício de “lixa o céu seco” com seu brado as- cimento (fardo) dessa ordem desagrega- pornografemas que enganam o gozo do sombrado. Nos encontramos (depois de dora que, ao fim e ao cabo, pavimen- qual nos ressentimos. n Ô Catarina! | número 70 | 2009 — Não esqueça de trazê-lo bem texto | ronald augusto vive em Porto Alegre. Bacharel em Artes Plásticas/Desenho pela UFRGS, realizou dezenas de exposições individuais e coletivas desde 1986. mais o tempo que estiver comigo. — Desculpe a mim. Só queria uma Era o segundo sorriso em menos de cin- — Como sempre — Olhou-a direto, co minutos. Sentiu-se meio estranho. uma penetração de rasgar entranha. Sua Baixou os olhos tentando esconder seus seriedade quase severa desmontou-a. Ela pensou. Agora parecia compade- arroubos. Era tarde. Um outro freguês Bateu a caneta no bloco meio constran- cer-se. Ele, ainda sério, também pare- salvou-o do sorriso malicioso que a gida, meio fazendo-se de santa. cia sinceramente arrependido. Não pelo moça devolvia, um misto de brincadeira — Deseja mais alguma coisa? convite, mas por todo o resto. Não se companhia para o café. Sou meio solitário, às vezes. quase desfaleceu em seus braços. Depois to. Bastou tirar o punhal deixar o corpo estirado ali mesmo. n texto | silvana silva de souza vive em Tubarão/SC e é contadora de histórias, diretora de teatro e atriz. imagem | tadeu lobato s/título, 1994. Acervo do Masc. 15 Ô Catarina! | número 70 | 2009 semiótica curator ial Diclotômica cínica cíclica salmoura clitolírica clitotímida clitoúmida clímax n poema | suzana mafra vive em Brusque/SC. É mestre em literatura e bibliotecária e publicou o livro “Borboletras: poemas curtos que voam”. litografia | max moura (1949-2009) artista plástico catarinense. Obra do acervo do Masc. 16 S emi ó tica C uratorial tem curadoria de j a y r o s c h m i d t e prop õ e imagens à in v enti v idade dos poetas . elas , portanto , n ã o ilustram os poemas : s ã o os poemas que se referem às imagens e s ã o escritos instantaneamente . Ô Catarina! | número 70 | 2009