UNIVERSIDADE LUSÍADA DE LISBOA Faculdade de Ciências da Economia e da Empresa Mestrado em Gestão Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Realizado por: José Domingos Reis Araújo Orientado por: Prof. Doutor Mário Alexandre Guerreiro Antão Constituição do Júri: Presidente: Orientador: Arguente: Prof. Doutor Mário Caldeira Dias Prof. Doutor Mário Alexandre Guerreiro Antão Prof. Doutor Dário Elias Félix de Oliveira Rodrigues Dissertação aprovada em: 29 de Abril de 2015 Lisboa 2014 U N I V E R S I D A D E L U S Í A D A D E L I S B O A Faculdade de Ciências da Economia e da Empresa Mestrado em Gestão Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica José Domingos Reis Araújo Lisboa Julho 2014 U N I V E R S I D A D E L U S Í A D A D E L I S B O A Faculdade de Ciências da Economia e da Empresa Mestrado em Gestão Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica José Domingos Reis Araújo Lisboa Julho 2014 José Domingos Reis Araújo Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências da Economia e da Empresa da Universidade Lusíada de Lisboa para a obtenção do grau de Mestre em Gestão. Área de especialização: Financeira Orientador: Prof. Doutor Mário Alexandre Guerreiro Antão Lisboa Julho 2014 Ficha Técnica Autor Orientador José Domingos Reis Araújo Prof. Doutor Mário Alexandre Guerreiro Antão Título Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Local Lisboa Ano 2014 Mediateca da Universidade Lusíada de Lisboa - Catalogação na Publicação ARAÚJO, José Domingos Reis, 1972- Controlo de gestão : estudo de caso em empresa farmacêutica / José Domingos Reis Araújo ; orientado por Mário Alexandre Guerreiro Antão. - Lisboa : [s.n.], 2014. - Dissertação de Mestrado em Gestão, Faculdade de Ciências da Economia e da Empresa da Universidade Lusíada de Lisboa. I - ANTÃO, Mário Alexandre Guerreiro, 1965- LCSH 1. 2. 3. 4. 5. Indústria farmacêutica - Gestão Sistemas de informação para a gestão Eficácia organizacional Universidade Lusíada de Lisboa. Faculdade de Ciências da Economia e da Empresa - Teses Teses - Portugal - Lisboa AGRADECIMENTOS A realização do presente trabalho só foi possível graças ao apoio, ajuda, orientação, compreensão, acompanhamento e incentivo de várias pessoas a quem quero dirigir os meus maiores agradecimentos. Em primeiro lugar, um especial agradecimento ao meu orientador, o Prof. Doutor Mário Antão, por ter aceitado esta missão, pelos ensinamentos transmitidos, pelo sábios e oportunos conselhos e por todo o apoio, incentivo e disponibilidade sempre demonstrados. Quero também manifestar o meu agradecimento ao pessoal da Mediateca por todo o suporte e apoio prestado. A realização deste trabalho não teria sido possível sem a colaboração da empresa onde trabalho, pertencente a um dos principais grupos portugueses da área farmacêutica. A todos, incluindo Administração e colegas com quem trabalho, os meus mais sinceros agradecimentos por terem permitido o desenvolvimento deste trabalho e por toda a ajuda que prestaram, sempre sem hesitações. Por fim, para toda a minha família e em particular a minha mulher e filho, Sandra e Daniel, um agradecimento muito especial, pois, sem o seu incondicional apoio, paciência e compreensão, não teria as condições para tornar este trabalho possível. APRESENTAÇÃO Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica José Domingos Reis Araújo O tema deste trabalho está centrado no controlo de gestão e nos seus principais modelos por forma a compreender a importância que o mesmo tem vindo a assumir nas empresas. O controlo de gestão, apesar da sua crescente importância para as organizações e constituir uma importante ferramenta na implementação da estratégia, é um tema estudado de forma ainda um pouco vasta e díspar na literatura da gestão. Depois da caracterização dos principais modelos de controlo de gestão encontrados na literatura, foi desenvolvido um estudo de caso num grupo farmacêutico de capital português, analisando a evolução histórica do controlo de gestão nesse grupo de empresas, o sistema de controlo de gestão actualmente existente e as suas limitações. Após essa análise, são propostas algumas medidas no sentido da melhoria de performance do seu sistema de controlo de gestão, visando uma maior integração de dados e uma maior eficiência na utilização de recursos para a interpretação e análise da informação por parte da gestão. Tendo em conta que o grupo farmacêutico português está inserido num sector altamente competitivo como é o caso da indústria farmacêutica, no fim é proposto um modelo de controlo de gestão considerado ajustado ao nível de desenvolvimento do grupo, contribuindo para o aumento da sua competitividade. Palavras-chave: controlo de gestão, sistemas de controlo de gestão, modelos de controlo de gestão, indústria farmacêutica. PRESENTATION Management control: a case study in a pharmaceutical company José Domingos Reis Araújo The subject of this work is management control and its main models in order to better understand the importance that this practice has assumed in the business environment. Management control, despite its growing importance to organizations and its importance while implementing a strategy, is still treated in an uneven faction across the academic publications. After the characterization of the main models of management control present in the literature, a case study of a pharmaceutical group of Portuguese capital was developed by analyzing the historical evolution of management control in this group of companies, the current management control system and its limitations. After this analysis, some measures are proposed towards improving the company's management control system, aiming at greater integration of data and a more efficient use of resources for the interpretation and analysis of information by the managers. Given that the company, subject of this study, belongs to a highly competitive industry, the pharmaceutical industry, a model of management control adjusted to the level of the group development, contributing to the increase its competitiveness, is proposed at the end. Keywords: management control, management management control, pharmaceutical industry. control systems, models of LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Principais abordagens ao controlo de gestão ............................................. 47 Figura 2 - Informação relevante para o controlo de gestão ......................................... 51 Figura 3 - Modelo de controlo de gestão de Anthony .................................................. 58 Figura 4 - Modelo integrado de controlo de gestão de Flamholtz ................................ 60 Figura 5 - Elementos do Sistema de Controlo de Flamholtz........................................ 60 Figura 6 - Representação esquemática das Alavancas de Controlo de Simons.......... 64 Figura 7 - Esquema do modelo de controlo de gestão de Ferreira e Otley.................. 81 Figura 8 - Sistema de controlo de gestão como pacote de Malmi e Brown ................. 83 Figura 9 - Organograma Geral do GRUPO ............................................................... 104 Figura 10 - Modelo global do controlo de gestão do GRUPO.................................... 109 Figura 11 - Modelo de DR mensal do GRUPO.......................................................... 117 Figura 12 - Mapa semanal de vendas do GRUPO .................................................... 117 Figura 13 - Lacunas e expectativas do GRUPO em relação ao CG .......................... 122 Figura 14 - Estrutura organizacional do GRUPO com novo modelo de CG .............. 132 Figura 15 – Esquema do modelo de controlo de gestão proposto para o GRUPO.... 134 Figura 16 - Mapa Estratégico do GRUPO ................................................................. 136 Figura 17 - Objectivos estratégicos e indicadores - GRUPO ..................................... 137 Figura 18 - Objectivos estratégicos e indicadores – GRUPO (cont.) ......................... 138 Figura 19 - Análise de Desempenho - GRUPO ......................................................... 139 Figura 20 - Novo mapa semanal de vendas do GRUPO ........................................... 140 Figura 21 - Matriz de preços de transferência GRUPO ............................................. 141 Figura 22 - Centros de Investimento GRUPO ........................................................... 142 LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E ACRÓNIMOS CG - Controlo de Gestão SCG - Sistema de Controlo de Gestão BSC - Balanced ScoreCard CEO - Chief Executive Officer KPI - Key Performance Indicators SOP - Standard Operating Procedures PMS - Performance Management Systems SGD - Sistemas de Gestão do Desempenho SI - Sistema(s) de Informação TI - Tecnologia(s) de Informação ROI - Return On Investment EVA - Economic Value Added MBO - Management By Objectives I&D - Investigação e Desenvolvimento GMP - Good Manufacturing Practice R&D - Research & Development API - Active Pharmaceutical Ingredients FDF - Final Dosage Forms ERP - Enterprise Resource Planning MRP - Material Resource Planning EBITDA - Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization OTC - Over the Counter EBIT - Earnings Before Interest and Taxes YTD - Year-To-Date DR - Demonstração de Resultados BI SNC - Business Intelligence - Sistema de Normalização Contabilística OBM - Open Book Management MCR - Margem de Contribuição Residual BA - Business Analytics SUMÁRIO 1. Introdução .............................................................................................................................. 17 1.1. Génese do trabalho ........................................................................................................ 17 1.2. Objectivos ....................................................................................................................... 18 1.3. Opções metodológicas ................................................................................................... 18 1.4. Estrutura da tese ............................................................................................................ 22 2. Estado da arte ........................................................................................................................ 25 2.1. Introdução ao controlo de gestão ................................................................................... 25 2.2. Historial do controlo de gestão ....................................................................................... 31 2.3. Informação relevante para o controlo de gestão ............................................................ 48 2.4. Modelos de controlo de gestão ...................................................................................... 54 2.4.1. Modelo de Anthony ................................................................................................. 56 2.4.2. Modelo de Flamholtz e de Flamholtz, Das e Tsui .................................................. 59 2.4.3. Modelo de Simons .................................................................................................. 63 2.4.4. Modelo de Merchant e Van der Stede .................................................................... 68 2.4.5. Modelo de Ferreira e Otley ..................................................................................... 75 2.4.6. Modelo de Malmi e Brown ...................................................................................... 82 3. O controlo de gestão na indústria farmacêutica – Caso GRUPO .......................................... 89 3.1. Breve caracterização da indústria farmacêutica na perspectiva do controlo de gestão 89 3.2. Breve caracterização da empresa do estudo de caso ................................................... 95 4. Estudo de Caso GRUPO ....................................................................................................... 99 4.1. Historial da empresa e do controlo de gestão dentro da empresa ................................ 99 4.2. O actual modelo do controlo de gestão........................................................................ 106 4.3. Fontes de informação e sua recolha ............................................................................ 115 4.4. Interpretação e análise de resultados .......................................................................... 118 4.5. Lacunas e expectativas da organização relativamente ao controlo de gestão ........... 120 5. Modelo proposto................................................................................................................... 123 5.1. Necessidades observadas ........................................................................................... 125 5.2. Descrição do modelo .................................................................................................... 128 5.3. Aplicação do modelo .................................................................................................... 134 5.4. Análise dos resultados ................................................................................................. 144 6. Conclusão ............................................................................................................................ 147 7. Futuros desenvolvimentos ................................................................................................... 151 Referências ............................................................................................................................... 153 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 1. INTRODUÇÃO 1.1. GÉNESE DO TRABALHO O objectivo deste trabalho é demonstrar como, da aplicação dos conceitos teóricos do controlo de gestão e das “best practices” de gestão nesta área, poderão resultar vantagens para o modelo de controlo de gestão actual de uma empresa do ramo farmacêutico, tornando-o numa ferramenta essencial para a concretização da estratégia da empresa e para a criação de valor. Para a prossecução do objectivo traçado recorrer-se-á não só à fundamentação teórica como também ao estudo de caso. Actualmente, o controlo de gestão representa uma importante ferramenta para a implementação da estratégia, na medida em que, se bem orientado, permite o alinhamento entre as metas e objectivos estratégicos da organização, com os objectivos individuais dos seus gestores e trabalhadores. A justificação para o tema pode ser encontrada na própria literatura sobre controlo de gestão. De facto, apesar da crescente importância do controlo de gestão, o seu estudo tem sido efectuado de forma muito vasta e díspar (Berry et al., 2009, p. 15; Merchant e Simons, 1986). A grande maioria da investigação em controlo de gestão cobre um vasto leque de temas mas continua incompleta e parcial (Otley, Broadbent e Berry, 1995, p. S41). Outra justificação para a escolha do tema e a consequente exploração, resultou da experiência acumulada de quinze anos do autor nos domínios da função financeira, da assessoria de administração e mais recentemente (desde 2009) no controlo de gestão de uma empresa do sector farmacêutico. O autor do trabalho é colaborador da empresa estudada há mais de dez anos, actualmente com responsabilidades no Controlo de Gestão, exercendo a função de “Controller” desde 2009 juntamente com outro colega. Após recolha de elementos sobre a empresa e o grupo onde se insere, percebeu que a empresa tinha um modelo de controlo de gestão implementado com bastante potencial mas incompleto, pouco integrado e com algumas limitações. O interesse pessoal e profissional justificou, em boa medida, a orientação da presente investigação para o estudo do controlo de gestão nas empresas do sector farmacêutico através de um estudo de caso. José Domingos Reis Araújo 17 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica O presente estudo apresenta uma proposta de organização do controlo de gestão, para a indústria farmacêutica, com vista à implementação de um sistema de controlo de gestão que cubra as áreas consideradas relevantes e críticas para a gestão. 1.2. OBJECTIVOS Este trabalho visa alcançar três objectivos principais: 1. Caracterizar os sistemas de controlo de gestão em geral e os da indústria farmacêutica em particular; 2. Avaliar a performance do sistema de controlo de gestão de uma empresa que opera no sector da indústria farmacêutica; 3. Com base no diagnóstico efectuado ao sistema de controlo de gestão da empresa alvo do estudo, propor medidas que contribuam para a melhoria de performance do mesmo; Como objectivo específico, este estudo ambiciona compreender a importância que o controlo de gestão tem vindo a assumir nas empresas. É neste contexto que se pretende analisar o desenvolvimento do sistema de controlo de gestão num grupo de empresas de capital português, evidenciando o sistema adoptado actualmente, a sua importância e limitações. Por outro lado, no âmbito da empresa alvo do estudo, pretende-se propor um modelo de controlo de gestão mais eficaz, até se transformar num sistema de gestão estratégico e integrado. 1.3. OPÇÕES METODOLÓGICAS A metodologia adoptada reveste-se de duas componentes. Uma primeira, mais teórica, visa caracterizar o estado da arte ao nível dos sistemas de controlo de gestão, a sua evolução ao longo do tempo, bem como o enquadramento teórico do estudo de caso realizado. Para esse fim, foi feita uma ampla pesquisa bibliográfica incluindo os principais autores com trabalhos sobre as temáticas de controlo de gestão e sistemas de controlo de gestão. Numa primeira fase, realizou-se uma pesquisa bibliográfica com o objectivo de analisar os pressupostos teóricos relevantes para o desenvolvimento do presente estudo e escolher as práticas que melhor se ajustam à empresa em estudo. José Domingos Reis Araújo 18 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica A segunda componente, mais prática, foi desenvolvida a partir de um estudo de caso de uma empresa de capital português com duas unidades de produção, ambas em Portugal, com actividade no mercado interno e com exportações para mais de cinquenta países ao longo dos últimos dez anos. Para tal, foram recolhidos dados relevantes para a caracterização da empresa em estudo e para o sector em que se insere. O estudo de caso efectuado neste trabalho envolve uma única unidade organizacional (GRUPO, que é a unidade de análise), constituída por duas empresas principais (API e FDF), ou seja, tem duas sub-unidades de análise. É holístico na medida em que examina um problema (o controlo de gestão de uma empresa) numa multiplicidade de dimensões (evolução histórica e aspectos a melhorar). No fim, é proposto um modelo de controlo de gestão julgado adequado ao estádio de desenvolvimento da empresa e que representa uma melhoria significativa face ao existente. A pedido da empresa objecto do estudo de caso, o seu nome manter-se-á confidencial, estando o seu perfil caracterizado na secção 3.2. A pesquisa de campo decorreu de Setembro de 2012 até Março de 2014, apoiada na análise de relatórios e documentos da empresa e de entrevistas informais efectuadas aos seus colaboradores. Dado que o autor faz parte da unidade em estudo, os métodos de pesquisa descritiva compreenderam entrevistas pessoais e observação directa. As técnicas de recolha de dados resultaram essencialmente da observação participante, recolha de documentos (planos estratégicos, relatórios internos, documentos contabilísticos e outros documentos internos) e de conversas informais com gestores e outros “stakeholders” do sector e do grupo de empresas alvo do estudo. A análise dos dados foi realizada tendo como referência os conceitos apresentados pela literatura para o controlo de gestão e os seus diversos modelos e quadros conceptuais. Sempre que possível, foi procurada a relação entre a teoria e a evidência observada ao longo do processo de investigação. José Domingos Reis Araújo 19 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica A investigação do tipo qualitativo justifica-se, sobretudo, por ser uma forma adequada para entender a natureza de um fenómeno social. Os métodos qualitativos são mais indicados para as investigações de perspectiva interpretativa ou crítica. Este tipo de investigação tem sempre um grande cunho descritivo, em que o investigador procura dar a conhecer a situação em estudo tal como ela lhe surge, procurando, fundamentalmente, compreender fenómenos complexos (Yin, 2003, p. 4). Dentro da abordagem qualitativa optou-se pela metodologia do estudo de caso, frequentemente utilizado na área dos estudos organizacionais (Yin, 2003, p. 4). Os estudos de caso fornecem uma visão particular sobre o funcionamento real das organizações, sendo uma forma de investigação positiva, na medida em que visa compreender e explicar as práticas observadas, contrariamente à investigação mais normativa que tem como propósito o desenvolvimento de modelos teóricos. É um método de pesquisa escolhido quando o fenómeno não é facilmente distinguido do contexto (Yin, 1993, p. 3), sendo necessária uma selecção apropriada de metodologia de investigação. De acordo com este autor, o estudo de caso é uma investigação científica que investiga um fenómeno no seu ambiente real, quando as fronteiras entre o fenómeno e o seu contexto não são evidentes, enfrenta um situação tecnicamente única em que haverá muito mais variáveis de interesse do que pontos de dados e, como resultado, baseia-se em várias fontes de evidência e beneficia-se do desenvolvimento prévio de proposições teóricas para conduzir a colecta e análise de dados (Yin, 2003, p. 32-33). Assim, o estudo de caso fornece uma importante abordagem quando o foco de interesse é sobre fenómenos actuais, que só poderão ser analisados dentro do contexto da vida real (Yin, 2003, p. 18). No método do estudo de caso, a pesquisa deve estar centrada em questões do tipo “como” e “porquê”, ligadas à análise da evolução de um fenómeno ao longo do tempo e para as quais a simples contagem de incidências (usada por exemplo em métodos quantitativos) poderão não trazer respostas (Yin, 2003, p. 8). O estudo de caso possibilita estudar processos sociais à medida que estes ocorrem, permitindo uma análise processual, contextual e longitudinal das várias acções que ocorrem nas organizações (Hartley, 2004, p. 323). O método do estudo de caso está epistemologicamente em harmonia com a experiência daqueles que com ele estão envolvidos, logo, para essas pessoas José Domingos Reis Araújo 20 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica constitui-se numa base natural para generalização. Tal é especialmente importante na área das ciências sociais onde os estudos estão fundamentados na relação entre a natureza e tipo de experiência vivida, a expressão dessa experiência e a compreensão da mesma (Stake, 2001). Os estudos de caso são aplicáveis em situações onde o objectivo é a compreensão e ampliação da experiência (Stake, 2001, p. 433). O estudo de caso único é mais vulnerável porque pode resultar em algo diferente do esperado inicialmente (Yin, 2003, p. 63). Contudo, a utilização de um único caso é particularmente apropriado em algumas circunstâncias: quando é utilizado para determinar se as proposições de uma teoria são correctas; quando não existem muitas situações semelhantes para que sejam feitos estudos comparativos; quando o caso permite o acesso a informações não facilmente disponíveis (Stake, 2001, p. 135); quando representa um caso longitudinal, ou seja, permite estudar o mesmo caso único em dois ou mais pontos diferentes no tempo (Yin, 2003, p. 9). Apesar das vantagens inerentes à utilização deste método, importa referir que existem também limitações que podem condicionar o seu uso. Yin (Yin, 2003, p. 11) reconhece que a principal preocupação com o estudo de caso relaciona-se com a possível falta de rigor e a subjectividade por parte do investigador resultante da sua proximidade com o objecto de estudo. Outra crítica frequente a este método está relacionada com o facto de fornecer reduzida base para generalizações estatísticas (Yin, 2003, p. 15). A escolha do método do estudo de caso foi tomada tendo a consciência das potencialidades, bem como das fraquezas ou críticas, atrás referidas, que normalmente lhe estão associadas e que não podem ser ignoradas (Yin, 2003, p. 3). É uma opção metodológica com maiores riscos porque não estão definidos critérios científicos muito claros e unanimemente aceites pela comunidade científica sobre o modo de realização do mesmo. Apesar das críticas frequentemente feitas ao método do estudo de caso, principalmente as suas limitações em termos de generalização estatística, considerouse que, para os objectivos da investigação, seria a metodologia mais apropriada. Com efeito, procurou-se neste trabalho analisar o funcionamento do controlo de gestão numa organização concreta e no seu contexto real. Por outro lado, na abordagem José Domingos Reis Araújo 21 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica efectuada, tentou-se sempre que possível, relacionar os temas abordados na literatura à realidade da empresa em concreto. Portanto, o estudo de caso apresentou-se como o método mais indicado, por ser aquele que possibilita alcançar um maior nível de profundidade sobre o assunto e permite maior poder de análise da organização, através da comparação desta com tipos ideais encontrados na literatura. A presente pesquisa é um estudo exploratório e descritivo no qual o estudo de caso serviu para identificar aspectos a melhorar num modelo de controlo de gestão que pode servir de exemplo para outras empresas do sector. Por ter sido realizado em somente um grupo farmacêutico constituído por duas empresas, os resultados desta pesquisa apenas se restringirão à unidade em estudo, com as suas características e particularidades. Apesar disso, julgamos serem cabíveis relações e comparações com outras empresas do sector. 1.4. ESTRUTURA DA TESE O trabalho encontra-se estruturado em sete capítulos. O primeiro capítulo contextualiza o problema em análise, explica as principais motivações para a escolha do tema, apresenta os objectivos propostos do estudo e descreve qual a metodologia que vai ser utilizada. Neste capítulo são explicadas as razões e motivações que levaram à opção pelo método do estudo de caso, bem como a forma como o mesmo foi conduzido. O capítulo dois trata da revisão da literatura sobre controlo de gestão. Primeiramente, é feita uma abordagem introdutória do tema enquadrado na gestão das organizações em geral. Seguidamente, é realizada uma análise da evolução histórica do controlo de gestão, para depois nos centrarmos na informação considerada relevante para o controlo e nos principais modelos de controlo de gestão encontrados na literatura. Os modelos de controlo de gestão referidos na pesquisa sobre o estado da arte são apresentados de uma forma progressiva em termos de integração, do menos integrado (modelo de Anthony) para o mais integrado e holístico (modelo de Malmi e Brown). José Domingos Reis Araújo 22 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica No terceiro capítulo é feita uma breve caracterização da indústria farmacêutica e do controlo de gestão na mesma com o objectivo de analisar a importância do controlo de gestão para uma indústria altamente competitiva como é caso da farmacêutica. Neste capítulo é ainda caracterizado o perfil da empresa analisada no estudo de caso. O quarto capítulo é dedicado à exposição do estudo de caso. É analisada, numa primeira fase, a evolução histórica da empresa bem como o desenvolvimento do controlo de gestão e a forma como foi sendo considerado na empresa ao longo das suas diversas fases de crescimento. Seguidamente, é caracterizado o actual modelo de controlo de gestão, as peças fundamentais para o mesmo e a forma como a empresa interpreta e analisa os resultados nas suas várias vertentes. No fim, é feita uma avaliação objectiva do actual modelo de controlo de gestão da empresa, salientando as suas actuais limitações e as expectativas de evolução, que poderão constituir aspectos a melhorar numa evolução futura do modelo. No quinto capítulo são apresentadas as melhorias que este trabalho pretende introduzir no modelo de controlo de gestão existente, partindo da análise das lacunas e expectativas da organização referidas no capítulo anterior. O sexto capítulo mostra quais as conclusões que se podem tirar do trabalho desenvolvido e quais os impactos esperados na empresa alvo do estudo. Por fim, no sétimo capítulo, são sugeridas algumas linhas orientadoras para futuros trabalhos nesta área, quer ao nível do controlo de gestão em geral, quer concretamente aplicado ao controlo de gestão da empresa estudada. José Domingos Reis Araújo 23 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica José Domingos Reis Araújo 24 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 2. ESTADO DA ARTE 2.1. INTRODUÇÃO AO CONTROLO DE GESTÃO A realidade empresarial actual, marcada pela globalização dos mercados, competição acrescida, reforma dos Estados e rápido avanço tecnológico, levanta questões e coloca novos e complicados problemas à gestão das organizações. Neste sentido, o controlo de gestão exerce um papel preponderante na empresa, ao apoiar os gestores no planeamento, integração, coordenação e controle das actividades, cada vez mais complexas e exigentes. O processo de gestão das organizações sendo um acto contínuo de tomada de decisões, necessita de um sólido suporte informacional. A obtenção da eficácia dessas decisões pode ser facilitada pela existência de uma área específica na empresa, à qual se delegue a responsabilidade pela coordenação, integração e monitorização desse processo: o controlo de gestão. O controlo de gestão (CG) e a eficácia organizacional estão intimamente ligados. A eficácia está essencialmente relacionada com o cumprimento das metas e objectivos da organização (Barnard, 1938, p. 55; Otley, 1999, p. 364; Price, 1972, p. 101). Para Mintzberg (Mintzberg, 1995, p. 20), todas as actividades de uma organização conduzem a duas exigências fundamentais: a divisão do trabalho em várias tarefas e a coordenação das mesmas a fim de realizar as actividades em questão. O Controlo é uma das funções clássicas, que juntamente com o Planeamento, Organização e Direcção, permitem o exercício da Gestão. A literatura sobre Gestão é muito vasta para os temas de planeamento, organização e direcção mas bastante mais exígua para o tema do controlo, tendo sido apenas recentemente iniciada a sua sistematização como disciplina autónoma da gestão (Arrow, 1964, p. 408; 1964a, p. 317). A palavra “controlo” tem origem nas palavras latinas “rotulus”, que significa o papel que num guião o actor tem de seguir e “contra” que significa ser o oposto, representando uma oposição entre dois pólos: um papel ligado a um guião e um contra-papel, que monitoriza a aderência do papel ao guião. A palavra “contrôle” foi usada pela primeira vez em França e resulta da conjunção das palavras “rôle” (guião) e “contre-rôle”, ou seja, que monitoriza a aderência do rolo ao guião. Esta etimologia já José Domingos Reis Araújo 25 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica diz muito sobre o propósito do controlo e desde logo pode-se definir controlo como sendo um mecanismo através do qual as performances dos actores (organizacionais) são guiadas e monitorizadas (Macintosh e Quattrone, 2010, p. 260). Contudo, o termo controlo não pode ser associado e entendido unicamente como um processo de fiscalização, pois, nesse caso, seria um conceito restritivo. Num sistema de fiscalização procura-se constatar o que está bem ou mal, de acordo com normas ou procedimentos, enquanto um sistema de controlo de gestão fornece informação aos gestores que permite a tomada de decisões e acções correctivas na prossecução do objectivo final. “Confiança e interesse mútuo devem substituir a desconfiança e a fiscalização como método de controlo” (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 440). O controlo foi durante muitos anos negligenciado e considerado uma das áreas menos compreendidas da gestão (Dauten, Gammill e Robinson, 1958, p. 42). O seu papel na gestão tem sido frequentemente confundido com o simples controlo financeiro e visto como uma tarefa unicamente a cargo da contabilidade ou do “controller”, através da mera aplicação de técnicas como a orçamentação ou os rácios. Como reconhecem diversos autores (Drucker, 1954, p. 160, 1964, p. 286; Jerome, 1961, p. 42; Litterer, 1965, p. 233; Macintosh e Quattrone, 2010, p. 3; Merchant e Van der Stede, 2012, p. 5; Otley, Broadbent e Berry, 1995, p. S32); Ouchi, 1979, p. 833) a palavra “controlo” é interpretada de diversas formas, consoante os diferentes contextos e acaba por ser um termo relativamente impreciso, ambíguo ou até polémico no campo da gestão. Como salientam Tessier e Otley (Tessier e Otley, 2012, p. 171), os conceitos utilizados na literatura do controlo de gestão são por vezes mal definidos e, consequentemente, têm sido criticados. Drucker (Drucker, 1964, p. 288) distingue “controlos” de “controlo”. Controlos são medidas e informação são os meios para atingir os fins (o fim é o controlo); são usados para fornecer informação com vista a determinar que acção de controlo deve ser tomada. Por sua vez, controlo, significa direcção; é a função que assegura que o trabalho está a ser feito para preencher a intenção original. Segundo Drury (Drury, 2000, p. 593), controlo é o processo que assegura que as actividades da empresa estão conforme o plano e que os objectivos são atingidos. Desta forma não poderá haver controlo se não forem definidos objectivos e planos para os atingir. O processo de controlo de gestão engloba a fixação de objectivos, José Domingos Reis Araújo 26 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica planeamento e acompanhamento dos resultados (Jordan, Neves e Rodrigues, p. 2728). O controlo é aplicado em diferentes níveis dentro da organização (Drury, 2000, p. 594). Merchant (Merchant, 1998) distingue “controlo estratégico” do “controlo de gestão”. O controlo estratégico tem um foco externo. Trata-se de saber como uma empresa, dados os seus pontos fortes e fracos e as suas limitações, poderá competir com os seus concorrentes (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 8-9). Como ramo do conhecimento da gestão, o controlo de gestão é bastante abrangente e baseia-se em conceitos de estratégia, comportamento organizacional e contabilidade de gestão (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 1). Importa assim definir cada um dos conceitos com vista a compreender a sua abrangência. A estratégia refere-se à direcção que uma organização planeia seguir em ordem a atingir as suas metas ou objectivos globais (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 56). Para Robbins (Robbins, 1992, p. 3), comportamento organizacional refere-se ao estudo sistemático das acções e atitudes das pessoas nas organizações. Contabilidade de gestão ou “management accounting” pode ser definida como: the process of identification, measurement, accumulation, analysis, preparation, interpretation, and communication of information that assists executives in fulfilling organizational objectives…a formal mechanism for gathering and communicating data for the ends of aiding and coordinating collective decisions in light of the overall goals or objectives of an organization. (Horngren e Sundem, 1990, p. 4) O controlo de gestão é um termo que define um conjunto extenso de abordagens e mecanismos formais e informais que visam a regulação dos comportamentos dos membros de uma organização (Hewege, 2012, p. 1). Os mecanismos formais de controlo de gestão incluem a estrutura da organização, sistemas de recompensa, orçamentação, regras, procedimentos, sistemas de planeamento estratégico, e controlos operacionais. Os mecanismos informais compreendem os aspectos relacionados com liderança, cultura, valores e normas sociais e comportamentais. Para Anthony (Anthony, 1965, p. 10) o controlo de gestão é o “processo pelo qual os gestores asseguram que os recursos são obtidos e utilizados eficiente e eficazmente no cumprimento dos objectivos organizacionais”. A eficácia liga objectivos a José Domingos Reis Araújo 27 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica resultados, enquanto que a eficiência tem a ver com o assegurar que os recursos são usados da melhor forma para a obtenção dos resultados. Na definição de Anthony e Govindarajan (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 6),” controlo de gestão é o processo pelo qual os gestores influenciam outros membros da organização a implementar as estratégias da organização”. Esse processo abrange um conjunto de actividades e de instrumentos, que podemos designar por Sistema de Controlo de Gestão (SCG), e que difere de organização para organização, independentemente de ter ou não fins lucrativos. Segundo Reis e Rodrigues: O controlo de gestão é a função que visa assegurar que o desenvolvimento das diversas tarefas e actividades, anteriormente planeadas, estão a conseguir que se caminhe ao encontro dos objectivos pré-definidos, permitindo atingir os resultados desejados. (Reis e Rodrigues, 2011, p. 15) Complementando estas visões de carácter mais económico, Abernethy e Chua propõem uma definição de cariz mais sociológico para o controlo de gestão: Um sistema que engloba uma combinação de mecanismos de controlo concebidos e implementados pelos gestores para aumentar a probabilidade de que os indivíduos irão comportar-se de forma consistente com os objectivos pretendidos pela coligação organizacional dominante. (Abernethy e Chua, 1996, p. 573) Esta perspectiva de controlo de gestão difere das anteriores na medida em que já não tem só por detrás a ideia da maximização do valor da organização na óptica dos proprietários ou aumento da riqueza, mas também uma ideia a favor de um complexo processo de equilíbrio de forças da qual a dominante determinará os objectivos a atingir (Ferreira, 2009, p. 303). Autores como Lorino (Lorino, 2000, p. 42), utilizam o termo “pilotagem de gestão” em substituição do vocábulo “controlo de gestão”, considerando-o mais adequado e até com um campo de acção mais abrangente. Jordan, Neves e Rodrigues, definem controlo de gestão como: um conjunto de instrumentos que motivam os responsáveis descentralizados a atingirem os objectivos estratégicos da empresa, privilegiando a acção e a tomada de decisão em tempo útil e favorecendo a delegação de autoridade e responsabilização. (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 21) José Domingos Reis Araújo 28 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Esta definição tem por detrás oito princípios básicos (Jordan, Neves e Rodrigues, p. 21-22) : 1. Os instrumentos de controlo de gestão consideram objectivos de natureza financeira e não financeira; 2. Descentralização, delegação e responsabilização; 3. Convergência dos objectivos individuais com os objectivos estratégicos da organização; 4. Os instrumentos de controlo de gestão devem funcionar como catalisadores da acção e não se resumirem a meros documentos ou burocracia; 5. O horizonte é fundamentalmente o futuro e não apenas o passado; 6. Actua primordialmente sobre as pessoas, influenciando os seus comportamentos e menos sobre os números; 7. Engloba um sistema de incentivos e sanções; 8. Os actores de primeira linha são muito mais os operacionais do que os “Controllers”. O controlo pressupõe planeamento e não faz sentido haver planeamento se posteriormente não houver controlo (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 4; Gorry e Morton, 1989, p. 59; Mintzberg, 1995, p. 173). O controlo não pode existir sem um planeamento prévio e os planos perdem a sua influência se não forem acompanhados por mecanismos de controlo. Os planos e os controlos regulam directamente os resultados e, indirectamente, regulam também os comportamentos (Mintzberg, 1995, p. 173). O controlo de gestão pode ser visto sob duas formas: como órgão facilitador que fornece informações às restantes áreas da empresa; como órgão integrador do processo de decisões de cada área com o objectivo da organização. Caracteriza-se pela busca da optimização do resultado económico da organização, através de uma actuação sinérgica com todas as áreas/departamentos ou centros de responsabilidade. José Domingos Reis Araújo 29 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Existem dois factores básicos que contribuem para a importância do controlo de gestão: a eventualidade de existir conflitualidade de objectivos organizacionais e individuais e o espaço temporal entre a definição e a realização dos objectivos. O papel do controlo de gestão é zelar pelo bom desempenho da empresa, coordenando as sinergias existentes entre as diversas áreas em busca de um maior grau de eficácia empresarial. Em termos gerais, o controlo desenvolve-se tradicionalmente em três etapas (Reis e Rodrigues, 2011, p. 77): 1. Estabelecimento de um padrão, meta ou alvo; 2. Comparação do desempenho real com o padrão estabelecido; 3. Implementação de eventuais acções correctivas. Sendo certo que o controlo de gestão é um imperativo e uma preocupação central em qualquer organização descentralizada (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 1; Berry et al., 2009, p. 16), diversos estudos indicam que o controlo de gestão é diferente em empresas de maior dimensão e em pequenas empresas e que a utilização e papel dos sistemas de controlo alteram-se consoante o crescimento da organização (Blau, 1970; Burns e Waterhouse, 1975; Khandwalla, 1972, 1977; Kimberly, 1976; Merchant, 1981; Meyer, 1972; Pugh, Hickson e Hinings, 1969; Thomas, 1986). Resumidamente, as grandes empresas quando comparadas com as de menor dimensão, diferem por: - maior diversidade de operações; - maior diferenciação das estruturas organizacionais; - maior especialização dos departamentos funcionais; - maior formalização dos procedimentos; - sistemas de controlo mais sofisticados. Os sistemas de controlo de gestão desempenham um papel vital nas organizações (Macintosh e Quattrone, 2010, p. 61), são um factor de desenvolvimento da empresa, porquanto afectam o comportamento dos gestores no sentido da implementação da estratégia e serão tanto mais eficazes quanto mais envolverem os membros da organização na melhoria dos desempenhos individuais e organizacionais (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 13). É objectivo dos sistemas de controlo de gestão José Domingos Reis Araújo 30 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica influenciar o comportamento dos empregados no sentido de aumentar a probabilidade da organização atingir os seus objectivos (Drury, 2000, p. 594). O controlo de gestão é normalmente exercido pelo controlador de gestão ou “controller”, (como começou a ser designado nas empresas anglo-saxónicas). No entanto, o controlo de gestão não é apenas um domínio de actuação do controlador de gestão, sendo os gestores operacionais os principais intervenientes no processo de controlo de gestão (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 14), porque implementar estratégias através do controlo de gestão é basicamente um processo social e comportamental (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 14). O controlador de gestão deverá fornecer ao gestor os instrumentos para garantir o correcto processo de negociação dos objectivos, planos de acção, acompanhamento das suas realizações e propostas de medidas correctivas. A sua função deverá ser principalmente de design (concepção de instrumentos) e de “consulta”, na implementação e utilização do sistema de controlo de gestão (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 14), dando espaço de actuação aos principais intervenientes no processo de controlo de gestão. O controlo de gestão tem a ver principalmente com o alinhar dos objectivos e motivações organizacionais (visão, missão, objectivos estratégicos) e individuais. Segundo Arrow (Arrow, 1964, p. 3), o problema crucial das organizações é resolver o problema de como manter os seus membros em sintonia uns com os outros, para maximizar a função objectivo da empresa, ou seja, manter uma congruência de objectivos. 2.2. HISTORIAL DO CONTROLO DE GESTÃO A origem do controlo de gestão nas organizações empresariais é resultado da industrialização ocorrida nos Estados Unidos da América na segunda metade do século XIX (Horváth, 2006, p. 18). No final desse século, um significativo número de empresas concorrentes, que haviam proliferado a partir da Revolução Industrial iniciaram processos de fusões, formando grandes empresas mundiais, organizadas sob forma de departamentos e divisões, mas com controlo centralizado. Neste sentido, em 1892, a General Electric tornou-se a primeira empresa que formalmente instituiu a posição de “controller” (Horváth, 2006, p. 18). A partir dessa altura, o controlo de gestão foi ganhando crescente importância nas principais empresas norte-americanas, o que, aliado à progressiva descentralização José Domingos Reis Araújo 31 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica verificada a partir daí, especialmente nas grandes multinacionais americanas, levou a que o controlo de gestão emergisse no início do século XX, com a finalidade de proceder a um rígido controlo de todos os negócios das empresas relacionadas, subsidiárias e/ou filiais. Alicerçado nos princípios da Administração Científica de Taylor e da Teoria Clássica da Administração de Fayol, o tema do controlo das organizações começa a ganhar alguma relevância no início do século XX, preocupando-se fundamentalmente com os aspectos de controlo de tarefas, tempos e supervisão directa sobre os trabalhadores. Segundo Giglioni e Bedein (Giglioni e Bedein, 1974, p. 294), os primeiros autores a debruçarem-se sobre a temática controlo/controlo de gestão foram os norteamericanos Emerson e Church. Um dos primeiros autores a reconhecer o controlo como um processo da gestão foi Emerson (Emerson, 1912) com sua obra “The Twelve Principles of Efficiency”. A obra de Church (Church, 1914) é igualmente importante para o reconhecimento dos principais aspectos do processo de controlo, tendo sido pioneiro na distinção do controlo como função da gestão. Ele identifica cinco funções orgânicas da administração, sendo o “controlo” a terceira e a “comparação” a quarta (Church, 1914, p. 28). O primeiro texto inteiramente dedicado ao controlo de gestão (“management control”) foi obra de Lawson (Lawson, 1920). Pretendia fornecer uma base para a administração científica preconizada por Taylor, nos aspectos que ao controlo diziam respeito, argumentando que só após as leis do controlo serem interpretadas poderia ser correctamente aplicada a gestão científica. Dutton (Dutton, 1924; 1925; 1927) e Lichtner (Lichtner, 1924) sustentam a ideia de que o planeamento faz parte integrante do controlo. No final dos anos vinte, o controlo é reconhecido como uma das funções da gestão e, como processo, inclui o planeamento. Autores como Robinson (Robinson, 1925), Davis (Davis, 1928) e Urwick (Urwick, 1928) introduziram uma concepção mais moderna de controlo de gestão, fornecendo quadros conceptuais que combinavam instrumentos com acções sobre os comportamentos. José Domingos Reis Araújo 32 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Urwick é considerado como o primeiro a identificar um conjunto de princípios do controlo: “Princípio da Responsabilidade, Princípio da Evidência, Princípio da Uniformidade, Princípio da Comparação, Princípio da Utilidade (Urwick, 1928, p. 179). Mais tarde, deixa cair os primeiros dois e define os três princípios restantes: The Principle of Uniformity – All figures and reports used for purposes of control must be in terms of the organization structure The Principle of Comparison – All figures and reports used for purposes of control must be in terms of standards of performance required, and, of past performance The Principle of Utility – Figures and reports used for purposes of control vary in value directly in proportion to the period separating them from the events which they reflect. (Urwick, 1943, p. 122) As obras que se seguiram eram principalmente orientadas para o controlo contabilístico e financeiro (Giglioni e Bedeian, 1974, p. 301). Nas décadas de trinta a cinquenta do século passado, as empresas americanas General Motors e DuPont foram autênticos laboratórios, colocando em prática os recentes conhecimentos do controlo de gestão. Nestas décadas, o controlo de gestão começou a adquirir uma identidade própria, com o desenvolvimento de instrumentos como o controlo orçamental, para os quais muito contribuíram autores como Dent (Dent, 1934; 1935), Goetz (Goetz, 1949), Rice (Rice, 1947), Trundle (Trundle, 1931; 1948) ou Wharton (Wharton, 1947). O termo anglo-saxónico “comptroller” que se referia ao responsável da contabilidade, passa definitivamente a “controller”, designando a pessoa que tinha já uma missão um pouco mais vasta. Surge em 1946, elaborada pelo “Controller’s Institute of America”, a primeira versão que listava dezassete diferentes funções do “controller” (Horváth, 2006, p. 21, 22). Mais tarde, em 1962, o “Financial Executives Institution” reduz para sete funções básicas (Horváth, 2006, p. 24). Schell (Schell, 1934) analisou o controlo de gestão do ponto de vista do executivo, realçando os meios e técnicas que os gestores podem utilizar para conduzir as equipas para o alcance dos resultados previstos. Rose (Rose, 1934) foi pioneiro na abordagem do controlo sob o prisma da gestão de topo, tendo a sua obra “Higher Control” sido sucessivamente editada até ao anos 60. José Domingos Reis Araújo 33 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Este autor define “higher control” como: a monthly survey of the functional activities of a commercial undertaking, carried out from the business, trading and financial viewpoints, and based upon direct trend comparison between the position at the moment and the position at the last financial year. (Rose, 1934, p. 67) Em 1941, surgem as primeiras tentativas de exploração do controlo integrado. Holden, Fish e Smith (Holden, Fish e Smith 1941), apresentam os resultados de um dos primeiros estudos empíricos sobre controlo organizacional. O estudo efectuado a trinta e uma grandes empresas que adoptavam já um controlo de gestão moderno, permitiulhes concluir que o controlo de gestão era uma responsabilidade principalmente da gestão de topo (Holden, Fish e Smith, 1941, p. 3) e que o controlo era um processo abrangente, que incluía a definição de objectivos, planeamento, responsabilização, e avaliação de resultados (Holden, Fish e Smith, 1941, p. 77). Nos anos cinquenta o controlo de gestão tinha ganho crescente interesse por parte dos autores de gestão e verifica-se uma tentativa de desenvolver uma teoria visando uma unificação de conceitos e de modelos gerais. Nos diversos livros sobre gestão publicados nesta década, o controlo já ocupava pelo menos um capítulo e a grande maioria das obras já incorpora princípios de controlo de gestão modernos, como por exemplo o princípio da excepção. Os temas normalmente apresentados incluíam: uma identificação dos passos do processo de controlo; os requisitos do controlo; a determinação dos standards e formas de medição; e tipos de mecanismos de controlo, incluindo controlo orçamental e a resposta humana aos controlos (Giglioni e Bedeian, 1974, p. 299). Koontz e O’Donell (Koontz e O’Donell, 1955) sobressaem entre os seus pares, ao enunciarem o mais completo quadro de princípios do controlo de gestão até á altura, mantendo-se ainda bastante actuais. Inicialmente identificam catorze mas mais tarde limitam a doze princípios (Koontz e O’Donell, 1972, p. 672-76), que dividem em três subgrupos: • Princípios relacionados com o propósito do controlo Princípio da certeza do objectivo A tarefa do controlo é assegurar o cumprimento dos objectivos pela detecção de potenciais ou actuais desvios aos planos, de modo atempado, para permitir acções correctivas. José Domingos Reis Araújo 34 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Princípio da eficiência dos controlos Quanto mais as abordagens e técnicas do controlo detectam e focam as causas específicas dos potenciais ou actuais desvios aos planos com os mínimos custos ou sem outras consequências não desejadas, mais eficientes esses controlos serão. Princípio da responsabilidade do controlo A responsabilidade primária do exercício do controlo reside no gestor encarregue da execução dos planos. Princípio do controlo directo (ou dos controlos reduzidos) Quanto maior a for a qualidade dos gestores e dos seus subordinados, menor será a necessidade de controlos indirectos, e os superiores poderão passar menos tempo em actividades de controlo. • Princípios relacionados com a estrutura do controlo Princípio da reflexão de planos Quanto mais os controlos são desenhados para reflectir e lidar com a natureza específica e estrutura dos planos, mais eficazmente irão servir os interesses das empresas e dos gestores. Princípio da adequabilidade organizacional Quanto mais os controlos são desenhados para reflectir o lugar na estrutura da organização onde a responsabilidade pela acção reside, melhor facilitarão as correcções aos desvios dos eventos face aos planos. Princípio da individualidade dos controlos Os controlos têm de ser consistentes com a posição, responsabilidade operacional, competência, e necessidades dos indivíduos que interpretam as medidas de controlo e exercem controlo. José Domingos Reis Araújo 35 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica • Princípios relacionados com o processo de controlo Princípio dos standards O controlo eficaz requere formas de controlo objectivas, rigorosas e adequadas. Princípio do controlo do ponto crítico O controlo eficaz requer atenção aos factores que são críticos para a apreciação da performance relativamente a um plano individual. Princípio da excepção Quanto mais o gestor concentra o seu controlo nas excepções, mais eficientes serão os resultados do seu controlo. Princípio da flexibilidade dos controlos A flexibilidade é condição essencial para que os controlos se mantenham eficazes, mesmo em situações de falhas ou alterações não previstas nos planos. Princípio da acção O controlo é justificado apenas se os desvios face aos planos são corrigidos através de adequado planeamento, organização, pessoal e direcção. Até meados da década de cinquenta a preocupação fundamental estava muito concentrada na descoberta das funções-chave universais da gestão (planear, organizar, “staff”, dirigir e controlar) e o controlo de gestão estava muito orientado para a contabilidade e o controlo financeiro. O foco principal era a determinação dos custos de produção industriais e o controlo da mão-de-obra directa, materiais directos e gastos gerais de fabrico. Os gestores exerciam o controlo dizendo às pessoas como deveriam executar as tarefas e monitorizando-os constantemente (Simons, 1995a, p. 80). Desde o final da década de cinquenta, início de sessenta, surge um crescente interesse na relação estratégia-SCG e constitui desde essa altura até à actualidade um importante tópico de discussão, tendo sido um importante factor de José Domingos Reis Araújo 36 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica desenvolvimento da teoria do controlo de gestão. Esta linha de pensamento fundou a chamada escola de gestão do planeamento estratégico, que proclamava que a estratégia e o planeamento estratégico são as chaves para o governo (“governance”) e controlo das organizações, sejam elas de qualquer natureza ou dimensão. Estudos como os de Burns e Stalker (Burns e Stalker, 1961), Emery e Trist (Emery e Trist 1965), Woodward (Woodward, 1965), no Reino Unido, Crozier (Crozier, 1963) em França, Hofstede (Hofstede, 1978) na Holanda e Chandler (Chandler, 1962) nos EUA, fundaram as bases para uma nova escola de teoria organizacional que suplantou os princípios clássicos da escola de gestão. Esta teoria defende que o eficaz controlo organizacional é contingente com certas variáveis estratégicas chave (teoria da contingência). A premissa básica é a de que existem importantes ligações entre ambiente, estratégia, estrutura da organização e o SCG, e que uma congruente interligação entre estas variáveis é essencial para a performance de uma organização. Anos mais tarde, na década de setenta, Khandwalla aprofunda esta temática com os seus estudos sobre diversas empresas norte-americanas, mais especificamente sobre a utilização dos sistemas de planeamento e de controlo no contexto da estrutura das organizações. Anthony (Anthony, 1965) conseguiu proceder a uma súmula de todo o conhecimento até então e foi o primeiro grande teórico a conceptualizar o controlo de gestão de uma forma estruturada e sistemática. O seu livro “Planning and Control Systems” forneceu um quadro global e conceitos chave para o entendimento das relações entre estratégia, estrutura e SCG e contribuiu em muito para o estabelecimento do controlo de gestão como campo de estudo autónomo dentro da área da gestão. A sua primeira definição, considerada mais tarde bastante restritiva, enfatizava a utilização de forma eficaz e eficiente dos recursos pelos gestores na prossecução dos objectivos organizacionais. Após o trabalho percursor de Anthony, o controlo de gestão continuou a evoluir em termos conceptuais, principalmente nos Estados Unidos e Europa. A revisão da literatura efectuada permite constatar que tem sido diferentemente definido e interpretado por diversos autores. Apesar de ter tido a sua origem nos EUA e grande desenvolvimento em Inglaterra, a função de controlo de gestão, só nos últimos vinte a trinta anos teve um verdadeiro reconhecimento e impulso em toda a Europa. Na Alemanha, a expansão do tema José Domingos Reis Araújo 37 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica ganhou notoriedade no final da década de cinquenta, mas as primeiras obras somente surgiram a partir de 1970. Embora existindo um relativo consenso acerca da segunda definição de Anthony (Anthony, 1988), registou-se, após o seu primeiro modelo de 1965, um desenvolvimento no campo do controlo de gestão, com propostas alternativas e/ou complementares de análise, destacando-se principalmente Ouchi (Ouchi, 1979), Otley (Otley, 1980), Hofstede (Hofstede, 1981), Flamholtz (Flamholtz, 1983), Flamholtz, Das e Tsui (Flamholtz, Das e Tsui, 1985), Macintosh (Macintosh, 1994), Simons (Simons, 1995), Merchant (Merchant, 1998), Malmi e Brown (Malmi e Brown, 2008), Ferreira e Otley (Ferreira e Otley, 2009), Merchant e Van der Stede (Merchant e Van der Stede, 2012). Nas últimas três ou quatro décadas registou-se um forte desenvolvimento do conhecimento e teoria do controlo de gestão, documentadas em recentes revisões da investigação (Otley, Broadbent e Berry, 1995; Langfield-Smith, 1997, 2005, 2007; Chenhall, 2003; Merchant e Otley, 2007; Berry et al., 2009). Estas revisões tinham em comum o reconhecimento de que o controlo de gestão preconizado por Anthony, essencialmente formal, quantitativo e baseado numa visão contabilística, deveria dar lugar a perspectivas mais holísticas, incorporando também componentes informais e operando como um “pacote” (Abernethy e Chua, 1996; Bisbe e Otley, 2004). Por exemplo, Hofstede (Hofstede, 1978, p. 455) critica o modelo clássico de Anthony no que respeita à incapacidade de capturar os aspectos sociais e psicológicos das organizações. Lowe e Puxty (Lowe e Puxty, 1989), preocuparam-se em realçar o problema do foco demasiado estreito da teoria dominante do controlo de gestão, devido à sua forte orientação contabilística (Hewege, 2012, p. 4). Otley, Broadbent e Berry (Otley, Broadbent e Berry, 1995, p. S32), referem a excessiva concentração no planeamento e controlo segundo racionais contabilísticos e a pouca ou nenhuma discussão de aspectos psicossociais e comportamentais. Os mesmos autores também reconhecem que o trabalho pioneiro de Anthony, numa complexa área como é a do controlo de gestão, deverá ser entendido como uma “limpeza de terreno”, como um primeiro passo para o estudo de outras abordagens (Otley, Broadbent e Berry, 1995, p. S32). Uma das contribuições mais importantes para o controlo de gestão nos últimos anos foi a de Kaplan e Norton (Kaplan e Norton, 1992) com uma das ferramentas mais José Domingos Reis Araújo 38 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica divulgadas de sempre: o “Balanced Scorecard” (BSC). Estes autores argumentam que os temas do controlo de gestão estavam excessivamente centrados na análise de dados numéricos, e que o desempenho económico e financeiro das organizações deveria ser avaliado através de outras dimensões de análise, praticamente negligenciadas à altura, dando mais ênfase ao factor humano e aos aspectos intangíveis. Segundo Kaplan e Norton, as medidas financeiras eram úteis quando a economia era dominada pelos activos tangíveis, o que se manteve até finais do século XX. A partir dessa altura, os activos intangíveis passaram a ser a maior fonte de vantagem competitiva, mas as empresas não conseguiam medi-los adequadamente (Kaplan e Norton, 2001, p. 88). O BSC foi apresentado inicialmente como um sistema de controlo de gestão, que integrava um conjunto de indicadores de natureza financeira e não financeira. No decurso dos anos 90 e início da primeira década deste século, Kaplan e Norton, foram desenvolvendo o conceito do BSC, transformando-o num sistema de gestão da estratégia, englobando as fases de reflexão, formulação e reformulação. A constatação das evidentes limitações dos modelos tradicionais de controlo de matriz financeira induziu a indispensabilidade da contextualização estratégica do processo de controlo. Após a revisão da literatura efectuada podemos constatar também a existência de diferentes paradigmas identificados por diversos autores dentro da teoria do controlo de gestão. Hofstede (Hofstede, 1978), identifica os paradigmas cibernético, homeostático e político. Ouchi (Ouchi, 1979) enumera três formas de controlo: burocrático, mercado, e clã. Merchant e Simons (Merchant e Simons, 1986), por sua vez, identificam seis abordagens em termos da pesquisa efectuada até á altura: princípios de gestão, teoria do controlo cibernético, teoria da contingência, teoria da agência, pesquisa em controlo psicológico, e baseadas em estudos de caso. Ansari e Bell (Ansari e Bell, 1991), referem a visão técnico-racional e a visão colectivista. Puxty (Puxty, 1993) enquadra os diversos entendimentos referentes aos sistemas de contabilidade e gestão em cinco paradigmas: funcionalista, interpretativista, radical estruturalista, humanista radical, e pós-modernista. Berry, Broadbent e Otley (Berry, Broadbent e Otley, 1998), reúnem diversos textos teóricos baseados em quatro visões de controlo: direccionadas para metas, adaptativas, socialmente estruturadas, e contingenciais. Macintosh e Quattrone (Macintosh e Quattrone, 2010, p. 61), referem cinco paradigmas universais através dos quais o controlo de gestão pode ser visto: teoria da José Domingos Reis Araújo 39 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica agência, processo laboral, sistema nervoso central informacional, simbolismo contabilístico, e controlo dialéctico. Muito mais exemplos poderiam aqui ser referidos mas não é objectivo deste trabalho proceder a uma análise exaustiva de todos as teorias ou paradigmas que contribuíram para a evolução do controlo de gestão. Contudo, seguidamente irão ser brevemente caracterizadas as principais abordagens, tendo em conta o seu impacto para o controlo de gestão. Abordagem burocrática e mecânica A visão burocrática e mecânica do controlo nas organizações usa fundamentalmente mecanismos formais materializados em objectivos, regras, procedimentos, políticas, hierarquia de autoridade, sistemas de recompensas, estandardização e outros mecanismos burocráticos para estabelecer e influenciar comportamentos, medir performance e monitorizar desvios indesejáveis relativamente a standards prédefinidos (Daft, 2004, p. 290-291). A formalização de todas as actividades torna possível a estandardização e consequentemente a previsibilidade. As organizações são vistas como um sistema fechado e os aspectos que envolvem a organização e o seu meio envolvente não são considerados. O conceito de controlo e temas relacionados são tratados como uma função discreta da gestão (Merchant e Simons, 1986, p. 186) e o estilo de gestão prevalente baseia-se em inúmeras listas com técnicas e princípios prescritivos orientados para o “como fazer”. A maioria da literatura da primeira metade do século XX, com autores como Emerson (Emerson, 1912), Church (Church, 1914) e Fayol (Fayol, 1916), podem ser incluídos nesta abordagem. Também a maioria da literatura pertencente ao paradigma funcionalista, identificado por Puxty (Puxty, 1993), em que os procedimentos e processos do controlo de gestão são explicados em relação à sua função de suporte aos propósitos da gestão sem questionar a existência de metas organizacionais incongruentes, poderá ser categorizada nesta visão (Berry, Broadbent e Otley, 1998). Abordagem cibernética De acordo com Otley, Broadbent e Berry (Otley, Broadbent e Berry, 1995, p. S34), a teoria organizacional em geral e o controlo de gestão em particular têm sido bastante José Domingos Reis Araújo 40 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica influenciados pela cibernética, ciência da comunicação e do controlo. Esta influência foi ampliada pela teoria geral dos sistemas, a qual está intimamente ligada à abordagem cibernética (Otley, Broadbent e Berry, 1995, p. S34), e da qual resultou uma concepção mais holística dos sistemas de controlo de gestão, uma vez que, a teoria geral dos sistemas procura explicar o comportamento pelo estudo da interrelação das partes em vez da natureza dessas partes. Muitos investigadores, incluindo Otley (Otley, 1983), Otley e Berry (Otley e Berry, 1980), referem que o modelo cibernético de controlo tem bastante utilidade no estudo do comportamento humano nas organizações. Uma das ideias principais da cibernética e da teoria geral dos sistemas é a de que o controlo depende da habilidade da organização em controlar as suas interacções com o seu meio envolvente (Lowe e Puxty, 1989; Lowe, 1971; Lowe e McInnes, 1971). Na sua essência, a cibernética preocupa-se com o estudo de sistemas auto-regulados. Do ponto de vista cibernético, todos os processos de controlo (planeamento, orçamentação, avaliação de desempenho, comparação, descoberta de discrepâncias e correcções, alocação de recursos, e sistemas de recompensas) são vistos sob um prisma de processamento de informação e considerados como actividades baseadas em informação. Os sistemas de controlo cibernético baseiam-se em fluxos de informação sobre performance organizacional e comparação dessa performance com um nível/standard pré-determinado. A ideia central da abordagem cibernética é a habilidade de um sistema para a auto-regulação baseado em retornos de informação (“feedback loops”), objectivos traçados previamente, resultados comparados com objectivos, e discrepâncias reportadas para os gestores poderem corrigir acções (Green e Welsh, 1988). Outro conceito mais avançado de controlo é o de “feedforward loops” (controlo por antecipação), que acontece por exemplo para avaliar a adequabilidade das regras existentes e determinar se é necessário redefinir as regras e o standard existente. Na visão clássica da visão cibernética, o controlo está ligado à ideia de dirigir ou regular (Chua, Lowe e Puxty, 1989, p. 4). A primeira geração de defensores desta abordagem, da qual Anthony foi percursor, considerava as organizações como um sistema bastante fechado. Os teóricos da segunda geração já defendiam uma visão de sistema aberto, onde a modelação e a identificação das inter-relações e padrões causais já eram consideradas importantes (Merchant e Simons, 1986, p. 187). José Domingos Reis Araújo 41 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Anthony (Anthony, 1965; 1988), Koontz e Bradspies (Koontz e Bradspies, 1972), Amy (Amy, 1979), Horngren (Horngren, 1982), Kaplan (Kaplan, 1982), Green e Welsh (Green e Welsh, 1988), e Simons (Simons, 1991), são alguns exemplos de autores que podem ser incluídos na abordagem cibernética do controlo de gestão. Abordagem da teoria da agência Existe uma relação de agência quando uma parte (o dono, o principal, o proprietário, ou accionista), contrata uma outra parte (o agente, o gestor) para executar determinado serviço ou tarefa, mediante uma compensação, delegando-lhe poderes para actuar em seu nome, e como tal, concedendo-lhe autoridade para a tomada de decisões. No caso de uma empresa esta situação é bem patente na relação entre accionistas e um director geral (CEO – “Chief Executive Officer”). Sob o prisma da teoria da agência, podem ainda ser consideradas as relações entre os gestores e os subordinados. De acordo com esta teoria, a organização é vista como uma rede contratos entre duas pessoas, dono/gestor e empregado, onde o primeiro usa a informação contabilística e de gestão para controlar o empregado, o qual actua como agente do dono (Macintosh e Quattrone, 2010, p. 61). A teoria da agência tem a sua raiz na economia neoclássica, que tinha o interesse próprio como uma plataforma básica (Macintosh e Quattrone, 2010, p. 63). Esta teoria considera que todos os indivíduos agem no seu próprio interesse. Um dos elementos principais da teoria da agência é o de que principais e agentes têm preferências e objectivos divergentes e os contratos de incentivos podem reduzir essas divergências (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 530). Um outro conceito importante realçado pela teoria da agência é o da assimetria de informação, ou seja, o problema da inadequada informação que o principal (dono) poderá eventualmente ter para monitorizar o desempenho do agente (gestor ou empregado) e a informação que o agente possui eventualmente não conhecida pela outra parte ou que simplesmente não pretende fornecer (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 531). Segundo a teoria da agência, existem duas formas principais de lidar com os problemas de divergência de objectivos e assimetria de informação: monitorização e José Domingos Reis Araújo 42 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica incentivos (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 531). Nesta lógica, os sistemas de controlo de gestão providenciam informação crucial aos donos para fixar, institucionalizar e monitorizar o contrato (Macintosh e Quattrone, 2010, p. 69). Obter uma congruência de objectivos entre principais e os seus agentes e minimizar os custos totais de agência constitui o foco primordial desta abordagem. Os custos de agência estão associados à monitorização do comportamento do agente e às obrigações dos contratos. Os autores como Baiman (Baiman, 1982), Baiman and Evans (Baiman and Evans, 1983), Chow (Chow, 1983), Waller and Chow (Waller and Chow, 1985), e Oviatt (Oviatt, 1988), podem ser compreendidos nesta abordagem. Perspectiva dos recursos humanos Esta visão é suportada e inspirada pela imensa literatura relacionada com o campo dos recursos humanos. As principais ideias são: 1) As organizações existem para servir as necessidades humanas, logo a atenção deverá ser posta na inter-relação entre os indivíduos e o seu trabalho; 2) As organizações e as pessoas necessitam uma das outras; 3) Um correcto alinhamento entre os indivíduos e a organização beneficia ambas as partes. As pessoas encontram significado, desenvolvimento e satisfação no trabalho, enquanto as organizações conseguem pessoas comprometidas, com criatividade, talento e motivação. Sob esta abordagem, as organizações são vistas como coligações de tomadas de decisão individuais, cada uma das quais com aspirações, expectativas e sentimentos pessoais distintos, além da inter-relação com a própria entidade organizacional (Merchant e Simons, 1986, p. 189). Quando as organizações são vistas como coligações de tomadas de decisão individuais, a variabilidade cognitiva e as limitações cognitivas em termos dos modos pessoais de motivação, comportamentos interpessoais, aprendizagem, bem-estar psicológico e processos emocionais, são considerados importantes (Merchant e Simons, 1986, p. 189). Uma primeira abordagem sob a perspectiva dos recursos humanos era baseada num conceito de sistema fechado, onde os empregados eram principalmente considerados José Domingos Reis Araújo 43 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica como membros internos das organizações. A visão recente, mais integrada, considera as múltiplas necessidades sociais humanas e considera os empregados não só como membros das organizações mas também parte da sociedade. Entre outros, os autores Argyris (Argyris, 1952), Becker e Green (Becker e Green, 1962), Schiff e Lewin (Schiff e Lewin, 1970), Rockness (Rockness, 1977), Hirst (Hirst, 1983), podem ser incluídos nesta abordagem. Abordagem da teoria da contingência De acordo com a abordagem contingencial, a performance da organização depende do relacionamento das características do sistema de controlo com os constrangimentos da sua envolvente e de outras importantes circunstâncias contextuais (Macintosh e Quattrone, 2010, p. 101). Segundo a teoria de contingência, não existe um desenho único para o sistema de controlo de gestão, e este depende de diversos factores situacionais da organização em particular (Drury, 2000, p. 648), os chamados factores contingentes, que podem ser internos ou externos, como por exemplo: tamanho da empresa, ambiente, tecnologia, estratégias, cultura, localização geográfica ou estilo de gestão. Uma das premissas fundamentais é a de que não existe uma estrutura óptima para o desenho das organizações, aplicável em todas as situações (Mintzberg, 1995, p. 29; Otley, 1980, p. 305). Com base nesse argumento, os primeiros investigadores preocuparamse em procurar identificar a fórmula estrutural específica que provasse ser a mais apropriada num determinado conjunto de condições (Mintzberg, 1995, p. 29). As organizações eram vistas neste prisma como sistemas abertos, que precisam de se adaptar à envolvente externa, assim como às circunstâncias internas. A teoria da contingência consolidou o seu desenvolvimento no início dos anos 80, apesar de ter tido, anos antes, como principais percursores autores como Burns e Stalker (Burns e Stalker, 1961), Lawrence e Lorsch (Lawrence e Lorsch, 1967), Thompson (Thompson, 1967), Perrow (Perrow, 1970), e Galbraith (Galbraith, 1973), que se focaram no impacto do ambiente externo e da tecnologia na estrutura das organizações (Chenhall, 2003, p. 128) e Khandwalla (Khandwalla, 1972) que examinou o efeito que o tipo de competição enfrentado pela empresa tem no controlo de gestão. A escola do planeamento estratégico, com autores como Crozier (Crozier, 1963) em França, Emery e Trist (Emery e Trist, 1965) no Reino Unido, Chandler José Domingos Reis Araújo 44 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica (Chandler, 1962) nos Estados Unidos e Hofstede (Hofstede, 1978) na Holanda, contribuiu também fortemente para o desenvolvimento desta linha de pensamento. A teoria da contingência tem conseguido reunir alargados consensos na explicação de alguns factores contingenciais. Por exemplo, desde Anthony a Kaplan e Norton, que se tem vindo a demonstrar a existência de importantes relacionamentos entre estratégia (Chandler, 1962; Porter, 1980), estrutura (Hopwood, 1972; Otley, 1980; Mintzberg, 1979; Ouchi, 1977) e sistemas de controlo (Macintosh e Quattrone, 2010, p. 130). Outros reconhecidos factores contingenciais são, entre outros, o ambiente (Burns e Stalker, 1961; Otley, 1980), tecnologia (Woodward, 1965; Zuboff, 1988), e motivação dos empregados (Etzioni, 1961). Abordagem cultural Esta abordagem radica numa visão mais interpretativista e antropológica do controlo de gestão e preocupa-se com o papel dos valores e da cultura e o modo como estes influenciam o controlo das pessoas nas organizações (Otley, Broadbent e Berry, 1995, p. S38). A cultura de uma organização pode ser definida como um conjunto de valores, crenças, e normas sociais que tendem a ser partilhadas pelos seus membros e que influenciam os seus pensamentos e acções (Flamholtz, 1996, p. 603). A premissa básica nesta visão é a de que os valores e as crenças têm um papel vital no desenho e operação dos sistemas de controlo de gestão, devendo a cultura ser o ponto de partida para o desenho de qualquer sistema de controlo organizacional. Esta visão assume também que existem culturas organizacionais, similares a culturas nacionais, compostas por itens intangíveis e mesmo irracionais. A abordagem cultural, tendo raiz na perspectiva natural aberta (Ansari e Bell, 1991; Chua, Lowe e Puxty, 1989), rejeita a ideia que os objectivos racionalmente formulados, regras, documentos e processos são as principais forças condutoras para todas as actividades organizacionais. Os autores que advogam esta perspectiva, defendem que a influência dos aspectos culturais nas práticas de controlo organizacional é significativa e que a cultura organizacional representa uma forma de controlo social (Flamholtz e Tsui, 1985, p. 46). Assim, direccionam a sua atenção para o modo como as acções individuais e José Domingos Reis Araújo 45 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica sociais definem e moldam os sistemas de controlo e como os conceitos de racionalidade e eficiência são usados para legitimar os interesses políticos dos membros individuais e para fortalecer as suas posições de poder dentro da organização. Os autores Hofstede (Hofstede, 1978), Ouchi (Ouchi, 1979), Gambling (Gambling, 1987), Miller e O’Leary (Miller e O’Leary, 1987), Ansari e Bell (Ansari e Bell, 1991), Bhimani (Bhimani, 1999), e Ahrens e Mollona (Ahrens e Mollona, 2007) são alguns dos exemplos que teorizam uma abordagem cultural do controlo de gestão. Na figura 1, apresentada na página seguinte, podem ser visualizadas as abordagens anteriormente referidas. Berry et al. (Berry et al., 2009), examinam os principais temas emergentes do controlo de gestão e destacam como principais temas actuais: a tomada de decisão para o controlo estratégico, gestão da performance para o controlo estratégico, modelos de controlo para avaliação da performance e gestão, controlo de gestão e novas formas de organização, controlo e risco, controlo e cultura, e controlo e tecnologia de informação. Os mesmos autores concluem que a investigação é ainda relativamente incipiente na relação entre o controlo de gestão e as tecnologias de comunicação e informação, nomeadamente no seu impacto no design e capacidade dos sistemas de controlo, para além de haver ainda pouca atenção às relações entre controlo e risco e controlo e cultura (Berry et al., 2009, p. 16). Estudos recentes têm revelado novos conceitos e evidências empíricas que desafiam o paradigma tradicional do controlo de gestão, demonstrando que é um elemento chave das organizações dinâmicas, em vez de um elemento periférico e até negativo, tal como era considerado no passado (Davila, Foster e Oyon, 2009, p. 300). José Domingos Reis Araújo 46 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Figura 1 - Principais abordagens ao controlo de gestão Diferentes abordagens Linha principal de acção Principais ideias e conceitos utilizados Exemplos de autores Príncipios prescritivos de "como fazer" Formalidade, previsibilidade, estandardização, racional, mecânico, burocracia, regras, procedimentos, autoridade, sistema fechado Emerson (1912), Church (1914), Fayol (1914) Cibernética Modelar e identificar as interrelações causais "Feedback" e "feedforward loop", processamento de informação, correcção, regulação, melhoria, sistema fechado e aberto Anthony (1965, 1988), Koontz e Bradspies (1972), Amy (1979), Horngren (1982), Kaplan (1982), Green e Welsh (1988), Simons (1991) Teoria de agência Identificação de interesses comuns, relação de agência (principal e agente), Gerir uma série de relações monitorização e controlo dos contratuais comportamentos dos agentes, minimização dos custos de agência. Burocrática e mecânica Identificar o melhor ponto Perspectiva dos recursos de intersecção entre a humanos organização e as necessidades humanas Sintonia entre indivíduos e trabalho, motivações humanas, motivação, aprendizagem, processos emocionais e psicológicos Argyris (1952), Becker e Green (1962), Schiff e Lewin (1970), Rockness (1977), Hirst (1983) Interacção entre factores contingenciais, não existe uma única e melhor abordagem, identificação da fórmula estrutural específica que melhor se adapte aos factores contingenciais, sistema aberto Burns e Stalker (1961), Lawrence e Lorsch (1967), Thompson (1967), Perrow (1970), Hopwood (1972), Khandwalla (1972), Galbraith (1973), Otley (1980), Zuboff (1988) Teoria da contingência Escolha estratégica entre diversas alternativas Cultural Realidade socialmente construída, Definir, interpretar e criar a "meaning creating processes", valores, cultura organizacional normas, crenças, tradições, interacções sociais José Domingos Reis Araújo Baiman (1982), Baiman and Evans (1983), Chow (1983), Waller and Chow (1985), e Oviatt (1988) Hofstede (1978), Ouchi (1979), Gambling (1987), Miller e O’Leary (1987), Ansari e Bell (1991), Bhimani (1999), Ahrens e Mollona (2007) 47 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 2.3. INFORMAÇÃO RELEVANTE PARA O CONTROLO DE GESTÃO Os sistemas de controlo de gestão guiam a tomada de decisão e o comportamento da gestão pela coordenação dos processos de planeamento e controlo. Os sistemas de controlo são frequentemente usados em conjunção com sistemas de avaliação da performance. Um bom sistema de controlo de gestão usa tanto informação interna como externa à organização. O controlo de gestão deverá conjugar informação formal e informal, incluindo a obtida do sistema de contabilidade da empresa (que reúne e dissemina informação relativa aos rendimentos e gastos, activos, passivos e capitais próprios), dos recursos humanos (informação sobre vencimentos, absentismo e benefícios), e dos sistemas de controlo de qualidade (que providenciam informações sobre defeitos, formas de melhorar a qualidade, etc.). A contabilidade sendo um sistema de informação, é considerado o principal e o de maior credibilidade de entre os sistemas de mensuração existentes numa empresa (Horngren, Foster e Datar, 2000, p. 2), pelo que, é fundamental para o controlo de gestão. De facto, neste âmbito, a contabilidade pode fornecer dados para: a formulação de estratégias globais e planeamento de longo prazo; a tomada de decisões associadas à atribuição de recursos que permitam colocar a ênfase nos clientes, nos produtos e nas políticas de preços; planeamento dos custos e controlo das actividades; e avaliação do desempenho e das pessoas. Apesar de a contabilidade ser, por excelência, o principal sistema de informação para o controlo de gestão, as empresas não utilizam somente informação financeira. É largamente reconhecido pelos autores e investigadores da área, que a maior parte da informação relevante para o controlo de gestão é obtida através do processo de interacção humana (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 6; Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 13). A informação base ou relevante para o controlo de gestão deverá, para além de fiável, ser fornecida em tempo oportuno, por forma a permitir à gestão a tomada de decisões em tempo útil. A informação para a gestão e nomeadamente para o controlo de gestão é essencial porque simplesmente não é possível gerir sem informação. A importância actual do recurso "informação" é salientada por Drucker (Drucker, 1993, p. 166) quando afirma que na sua grande maioria, as indústrias que cresceram nos últimos José Domingos Reis Araújo 48 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica quarenta anos só o conseguiram porque se reestruturaram à volta do saber e da informação. Os principais recursos produtores de riqueza deixaram de ser o trabalho, a terra e o capital sendo actualmente a informação e o saber (Drucker, 1993, p. 167). Dando como exemplo a indústria farmacêutica, Drucker, refere que “o produto actual da indústria farmacêutica é o conhecimento” (Drucker, 1993, p. 166), e que “o comprimido já não é mais do que a embalagem para o conhecimento” 1. É hoje inegável a importância dos sistemas e tecnologias de informação como suporte ao controlo de gestão, e esses sistemas de informação devem ser postos ao serviço dos gestores no que respeita ao suporte às decisões (Gorry e Morton, 1989, p. 50). Jordan, Neves e Rodrigues resumem a informação relevante para o controlo de gestão nos “instrumentos de pilotagem” (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 33). Estes são os instrumentos necessários para o acompanhamento de todo o ciclo do controlo de gestão (fixar objectivos, planear e acompanhar os resultados). A informação base para o controlo de gestão pode assim ser distribuída em três níveis (ver figura 2). Em primeiro lugar, o controlo de gestão irá receber dados provenientes da análise estratégica, posteriormente formalizado num plano estratégico, ponto de partida do processo de controlo de gestão (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 34). O controlo de gestão tem um importante papel na implementação da estratégia (Horngren, Foster e Datar, 2000, p. 463). Uma importante realização do sistema de planeamento e controlo orçamental é o plano escrito que clarifica aonde a organização deseja chegar – objectivos -, como pretende lá chegar – estratégias - e que resultados deverá esperar - metas de performance – (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 306). No segundo nível, mais operacional, o controlo de gestão prosseguirá o seu processo com base nas informações retiradas do plano operacional, orçamento, controlo orçamental e “tableux de bord” (quadros de bordo). Os “tableux de bord” constituem peças fundamentais para um correcto funcionamento de um sistema de controlo de gestão, na medida em que permitem obter informação rápida para actuar no curto prazo (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 230). O “tableau de bord” é essencialmente um “report” periódico de natureza operacional e 1 Os conceitos de conhecimento e informação, apesar de serem distintos (CHOO, 2001), são usados neste contexto como sinónimos, não sendo objectivo deste trabalho aprofundar esta temática. José Domingos Reis Araújo 49 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica abrangendo indicadores maioritariamente financeiros. Contudo, deve conter também dados não financeiros porque, segundo Jordan, Neves e Rodrigues (Jordan, Neves e Rodrigues 2002, p. 231) “os gestores operacionais não podem tomar decisões baseando-se unicamente em dados financeiros”. O “tableau de bord” deve ser sintético mas com possibilidade de desagregação (ou “drill down”, “drill up” 2) das variáveis essenciais ao acompanhamento da evolução da organização, atraindo a atenção sobre os factores-chave e favorecendo o diagnóstico, identificando o que não evolui como o previsto (Jordan, Neves e Rodrigues 2002, p. 230-231). Lorino (Lorino, 2000, p. 231-232) sintetiza uma divisão interessante dos indicadores utilizados nos quadros de bordo. Os indicadores podem assim ser divididos segundo o seu posicionamento relativamente à acção em: - indicadores de resultado: medem o resultado final da acção (grau de performance de um objectivo, grau de realização de um objectivo); - indicadores de controlo: assinalam a acção, medem a sua progressão e permitem reagir (acções correctivas) antes que o resultado seja consumado. Os indicadores podem ainda ser divididos segundo o seu posicionamento relativamente à estrutura de poder e responsabilidade. Nessa perspectiva dividem-se em: - indicadores de “reporting”: servem para informar o nível hierárquico superior sobre a performance realizada e o grau de alcance dos objectivos. Tratam-se sempre de indicadores de resultado; - indicadores de pilotagem: servem o próprio governo do autor que os segue, para ajudar a pilotar a sua actividade. Num terceiro nível situa-se a gestão do desempenho, ou seja, a fase de monitorização dos resultados. A este nível o controlo de gestão lidará com indicadores sobre a performance individual e organizacional, com base numa prévia definição dos critérios de avaliação do desempenho. 2 Desagregar ou agregar dados numa tabela ou quadro. José Domingos Reis Araújo 50 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Figura 2 - Informação relevante para o controlo de gestão (Adaptado a partir de Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 33) Alternativamente à forma clássica de planeamento e controlo orçamental, Hope e Fraser (Hope e Fraser, 2003), propõem o “Beyond Budgeting Model”, ou seja, substituir o orçamento enquanto instrumento de controlo por formas de actuação que permitem um maior envolvimento dos colaboradores, fomento do trabalho em equipa e maior liberdade aos gestores na formulação e implementação da estratégia. Contudo, ainda que possa ser dada mais importância a outras formas de controlo, estudos empíricos continuam a demonstrar que o orçamento é imprescindível como elemento de informação para o controlo de gestão (Pereira, 2013, p. 63), e a orçamentação é a ferramenta mais usada para o planeamento e controlo das organizações (Horngren, Foster e Datar, 2000, p. 178). Na maior parte das organizações, sobretudo nas grandes empresas, o controlo de gestão necessita de ter mais informação do que a fornecida no “tableau de bord”. A informação relevante para o controlo de gestão no sentido de um acompanhamento José Domingos Reis Araújo 51 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica integrado (estratégia e operação) é normalmente obtida por metodologias mais abrangentes. Uma das metodologias mais utilizadas para o acompanhamento integrado (estratégia e operação) da performance das organizações é o “Balanced Scorecard” (BSC), proposto por Kaplan e Norton em 1992 (Kaplan e Norton, 1992). A principal característica e determinante para o seu sucesso é a capacidade de integrar equilibradamente informação financeira e não financeira para o controlo de gestão assente em dois pontos essenciais. O primeiro indica que toda a estratégia deve ser clarificada para que qualquer elemento da organização possa compreendê-la e perceber como pode contribuir para o seu sucesso. O segundo ponto assenta na ideia que o BSC é um instrumento de monitorização da performance estratégica e operacional (Caldeira, 2014, p. 51). O BSC traduz a missão e a estratégia da organização para um conjunto compreensível de medidas de desempenho que fornecem um quadro global para a implementação da estratégia (Horngren, Foster e Datar, 2000, p. 463). O BSC proporciona uma forma de organização dos objectivos, estratégias e indutores do sucesso de uma organização em torno de quatro perspectivas (Kaplan e Norton, 2001, p. 90-91): 1. Financeira – a estratégia para o crescimento, rentabilidade e risco vista pela perspectiva do accionista ou a resposta à questão, “como devemos olhar para os accionistas para sermos bem sucedidos?”; 2. Cliente - a estratégia para criar valor e diferenciação na perspectiva do cliente ou a resposta à questão, “para alcançar a minha visão como devo olhar para os meus clientes?”; 3. Interna - a estratégia prioritária para os vários processos de negócio que geram satisfação nos clientes e nos accionistas ou a resposta à questão, “para satisfazer os meus clientes em que processos devo ser excelente?”; 4. Aprendizagem e Crescimento – criação de um clima de suporte à mudança organizacional, inovação e crescimento ou a resposta à questão, “para José Domingos Reis Araújo 52 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica alcançar a minha visão como a minha organização deve aprender e melhorar?”. O objectivo principal do BSC é apresentar um conjunto de indicadores financeiros e não financeiros que demonstrem de forma coerente e compreensiva os objectivos e as estratégias da organização e os seus indutores do sucesso (Pereira, 2013, p. 69), procurando um balanço entre: - objectivos de curto e de longo prazo; - indicadores que medem o alcance dos objectivos e indicadores que mostram o que deve ser feito para alcançar os objectivos; - indicadores financeiros e não financeiros; - todos os “stakeholders” da organização (clientes, fornecedores, accionistas e credores). O BSC tem um alto apelo visual, construindo uma visão simplificada de realidades mais complexas, como são os processos, visões, acções e metas (Macintosh e Quattrone, 2010, p. 301). No entanto, Merchant e Van der Stede alertam para as principais dificuldades no funcionamento do BSC (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 454): - implementação não criteriosa de um quadro geral de indicadores não atendendo à especificidade da própria empresa ou do sector onde actua; - se forem usadas muitas medidas, é provável que a sua importância individual se dilua, levando a que os membros da organização não prestem a devida atenção a nenhuma medida do quadro. Outra das metodologias mais recentes e relevantes para a obtenção de informação para o controlo de gestão e igualmente apelativas visualmente são os “Dashboards”. O “Dashboard” é um painel de informação contendo indicadores críticos (“Key Performance Indicators” – KPI), recorrendo a visualizações preferencialmente gráficas com “lay-out” apelativo, numa única página/ecrã, onde a informação se conjuga de forma a identificar relações entre si (Caldeira, 2014, p. 49). José Domingos Reis Araújo 53 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Para um painel de informação ser considerado como “dashboard” deverá ter as seguintes características específicas (Caldeira, 2014, p. 147-148): - apresentar os principais “drivers” da actividade da organização num único ecrã/página; - comunicar preferencialmente através de gráficos; - combinar de modo eficaz a informação sob diferentes perspectivas visando expor relações que seriam difíceis de detectar individualmente; - utilizar um design criativo, simples, directo e elegante. Qualquer que seja o modelo e o sistema de informação usado, na abordagem actual do controlo de gestão, o controlo deve ser interactivo, acompanhando quer a formulação da estratégia quer a sua implementação. Tal deriva da ideia de que que as mudanças do ambiente externo e interno da organização se processam de forma constante e por vezes com extrema rapidez (Teixeira, 2011, p. 320). 2.4. MODELOS DE CONTROLO DE GESTÃO Podem ser encontrados diversos modelos de controlo de gestão na literatura. Os teóricos da organização tentaram, desde sempre, estudar a natureza e evolução das organizações recorrendo a tipologias ou modelos de organização. Por exemplo, alguns consideraram a organização em termos de uma entidade racional que possuía alguma semelhança a uma máquina (Fayol, 1916; Taylor, 1911; Weber, 1947). A perspectiva de racionalidade deu origem a um outro aspecto das organizações, vendo as mesmas como um sistema fechado. Outros autores descrevem a organização como um organismo (Burns e Stalker, 1961). A literatura do controlo de gestão é muito vasta e díspar (Berry et al., 2009, p. 15; Merchant e Simons, 1986). Otley, Broadbent e Berry (Otley, Broadbent e Berry, 1995, p. S41) realçam que a grande maioria da investigação em controlo de gestão cobre um vasto leque de temas mas continua incompleta e parcial. Estas investigações têm sido suportadas em diversas linhas de pensamento ou paradigmas. Macintosh (Macintosh, 1994), por exemplo, traça cerca de vinte modelos de sistemas de controlo, sob cinco paradigmas distintivos das organizações e sociedade: estruturalista, funcionalista, interpretativista, radical estruturalista, radical humanista e pós-modernista. Macintosh e José Domingos Reis Araújo 54 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Quattrone sustentam que uma abordagem sociológica no que respeita ao estudo do controlo nas organizações, fornece um melhor entendimento dos aspectos comportamentais e sociais dos sistemas de controlo em vez das abordagens mais técnicas e processuais (Macintosh e Quattrone, 2010, p. 37-41). É importante salientar que não existe um modelo universal de controlo de gestão. Os instrumentos a utilizar podem variar consoante a empresa ou o sector. A adopção de um sistema de controlo de gestão deve adequar-se à realidade de cada organização. Factores como, ciclo de vida, estrutura organizacional, dimensão, negócio, estilo de gestão, cultura organizacional, situação económica e financeira, recursos humanos, cultura empresarial, tecnologia e meio envolvente, deverão ser sempre levados em conta para a implementação de qualquer modelo (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 576; Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 401). É igualmente importante referir que a elaboração de um sistema de controlo de gestão adequado e eficaz para uma organização requer principalmente, para além da análise dos aspectos anteriores, uma correcta compreensão e enquadramento dos aspectos humanos e culturais. Um sistema de controlo deve conter: uma unidade de medida; um alvo de comparação ou um padrão; um modo de alteração do comportamento, em caso de necessidade; e os meios para estabelecer fluxos de informação e de comunicação resultantes dos elementos anteriores (Reis e Rodrigues, 2011, p. 75). Para garantir o correcto funcionamento de um modelo de controlo de gestão é necessário influenciar o comportamento organizacional dos gestores, no sentido do desenvolvimento de um maior espírito empreendedor, através da concepção de instrumentos orientados para a motivação e o empenho dos mesmos no cumprimento dos objectivos (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 14). Para tal é importante definir uma estrutura organizacional adequada e flexibilizar o funcionamento interno da organização. Os sistemas de controlo de gestão fazem a ligação entre a estratégia e os resultados organizacionais, através da utilização de diversas medidas de desempenho. A estratégia é baseada na envolvente externa, a qual também influencia a concepção e o uso dos sistemas de controlo de gestão (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 1). José Domingos Reis Araújo 55 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Contudo, são os SCG que, no final, permitem o alcance dos objectivos estratégicos (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 1; Ferreira, 2009, p. 303). Os sistemas de medição de desempenho são uma das componentes do SCG e contribuem fortemente para aumentar a probabilidade das metas e objectivos da empresa serem alcançados (Ferreira, 2009, p. 303). De seguida apresentam-se brevemente alguns modelos que, pela sua importância e aplicação ao caso em estudo, merecem ser destacados Os modelos são apresentados de uma forma progressiva em termos de integração, ou seja, do menos integrado para o mais integrado e holístico. 2.4.1. MODELO DE ANTHONY O modelo de Anthony (Anthony, 1965) é considerado a base do controlo de gestão moderno e é comumente referido como o modelo clássico ou teoria clássica do controlo de gestão. O seu quadro de referência é, até hoje, uma das estruturas teóricas mais utilizadas na área do controle de gestão. Anthony integra pela primeira vez, num modelo conceptual abrangente, o controlo de gestão com a estratégia e o planeamento. O seu modelo de controlo de gestão, decompõe-se, basicamente em três sub-sistemas (controlo estratégico, controlo de gestão e controlo operacional) sendo o controlo de gestão o elo crítico entre a estratégia e as operações. Anthony define planeamento estratégico como: the process of deciding on objectives of the organization, on changes in these objectives, on the resources used to obtain these objectives, and on the policies that are to govern the acquisition, use, and disposition of these resources. (Anthony, 1965, p. 24) Controlo de gestão como: the process by which managers assure the resources are obtained and used effectively and efficiently in the accomplishment of the organization’s objectives. (Anthony, 1965, p. 27) E controlo operacional como: the process of assuring that specific tasks are carried out effectively and efficiently. (Anthony, 1965, p. 69) José Domingos Reis Araújo 56 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Em 1988, tendo em vista clarificar e expandir o conceito de controlo de gestão, Anthony acrescenta uma componente mais comportamental e redefine-o como um processo pelo qual os gestores influenciam e motivam os outros membros a implementar as estratégias da organização (Anthony, 1988, p. 10). Renomeia também “controlo operacional” para “controlo de tarefas” (Anthony, 1988, p. 12). Este processo é baseado numa abordagem cibernética. Os standards de performance são determinados a priori, a performance é medida a posteriori, é feita a comparação entre standards e performance actual, e a informação dos desvios provem do “feedback”. A informação contabilística é o núcleo central dos processos de controlo de gestão, de que resulta um sistema de responsabilidade baseado na informação que a contabilidade providencia. Dependendo do grau de delegação, os centros de responsabilidade podem ser centros de gastos, centros de lucro ou centros de investimento (Anthony, 1988, p. 63-64). Anthony procura visualizar um sistema integrado que englobe todas as operações da empresa. O volume de recursos envolvidos em cada decisão é visto como uma variável importante do sistema, causando impacto sobre os resultados da organização, implicando um maior ou menor envolvimento das pessoas no processo. Neste modelo, as três classes de planeamento e controlo (planeamento estratégico, controlo de gestão e controlo de tarefas) constituem uma hierarquia. O controlo de tarefas segue as regras do controlo de gestão e este existe para se alcançar o plano estratégico. O sistema de controlo de gestão é desenvolvido a partir do estudo da estrutura organizacional (focalizando centros de responsabilidades) e do processo de controlo, organizado de acordo com as diversas fases do processo, através do planeamento e programação, orçamento e avaliação do desempenho. Um dos aspectos que Anthony enfatiza neste modelo, e que é um tópico central em toda a sua obra, é a congruência de objectivos (objectivos organizacionais versus individuais), a qual é hoje analisada com mais profundidade por diversos autores através de uma abordagem comportamental. Pela implementação de processos cibernéticos de controlo de gestão, a gestão de topo pode implementar a estratégia da organização. Na visão de Anthony, o controlo de gestão é o elo de ligação entre o planeamento estratégico e o controlo de tarefas (“task control”). José Domingos Reis Araújo 57 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Figura 3 - Modelo de controlo de gestão de Anthony (adaptado a partir de Anthony, 1988) O modelo de Anthony é alvo de diversas críticas por ser baseado numa visão de sistema fechado. Os elementos centrais são as relações de controlo vertical entre a gestão de topo e a gestão dos centros de responsabilidade. Após a organização ser decomposta nessas várias unidades, as mesmas deverão ser controladas à luz da estratégia da organização. Os sistemas de produção das várias unidades são os objectos primários do controlo de gestão. Outra das críticas a este modelo tem a ver com o facto conter unicamente racionais contabilísticos e não incluir aspectos sociopsicológicos ou comportamentais do controlo de gestão, apesar de Anthony os José Domingos Reis Araújo 58 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica reconhecer como importantes (Otley, Broadbent e Berry, 1995, p. S32). Desta forma, a sua obra fornece uma primeira conceptualização do controlo de gestão mas não deixa de ser uma visão redutora do tema (Otley, Broadbent e Berry, 1995, p. S32). De facto, uma das consequências (não intencionais) do trabalho de Anthony, acaba por ser precisamente o desenvolvimento de uma corrente que realçava que as variáveis explicativas do controlo de gestão deveriam ser alargadas para além do escopo puramente contabilístico (Otley, Broadbent e Berry, 1995, p. S31). 2.4.2. MODELO DE FLAMHOLTZ E DE FLAMHOLTZ, DAS E TSUI Flamholtz (Flamholtz, 1983; 1996) e Flamholtz, Das e Tsui (Flamholtz, Das e Tsui, 1985) desenvolveram um modelo de controlo organizacional integrado que sintetiza perspectivas da escola de gestão clássica, sociologia organizacional e psicologia organizacional. Na sua génese está a necessidade de desenvolver uma metaperspectiva dos sistemas de controlo (Flamholtz, 1983, p. 154). Este modelo consiste num sistema de controlo central inserido no contexto da estrutura organizacional, cultura organizacional e ambiente externo (ver figura 4). Flamholtz, Das e Tsui, definem controlo como “attempts by the organization to increase the probability that individuals will behave in ways that will lead to the attainment of organizational objectives” (Flamholtz, Das e Tsui, 1985, p. 35). Factores como a estrutura e a cultura, que têm uma influência indirecta, são incluídos nos factores de controlo contextuais (“control context factors”). O foco deste modelo teórico incide sobre os sistemas humanos dentro da organização, a um nível de análise individual, grupal e organizacional (Flamholtz, Das e Tsui, 1985, p. 38). O modelo deve ser utilizado como uma lente para compreender, desenhar e/ou avaliar os sistemas de controlo organizacional. A configuração de Flamholtz (Flamholtz, 1983) do modelo de controlo organizacional, conceptualiza um sistema de controlo completamente desenvolvido compreendendo os subsistemas observados na figura 5. José Domingos Reis Araújo 59 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Figura 4 - Modelo integrado de controlo de gestão de Flamholtz (adaptado a partir de Flamholtz, Das e Tsui, 1985, p. 38; Flamholtz, 1996, p. 599-600; Flamholtz, 1983, p. 155) Figura 5 - Elementos do Sistema de Controlo de Flamholtz Cultura Organizacional Sistema de valores Crenças Assumpções Formas padronizadas de pensamento Estrutura Organizacional Regras Interrelacionamento das regras Diferenciação Integração Sistema de Controlo Central Planeamento Subsistema operacional Resultados Medição Feedback Avaliação e recompensa (adaptado a partir de Flamholtz, 1983) José Domingos Reis Araújo 60 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica O sistema de controlo central, funcionando de modo cibernético, consiste em cinco processos relacionados: planear, operar, medir, receber “feedback”, e avaliarrecompensar, com o propósito de alcançar as metas e objectivos organizacionais. No entanto, o sistema de controlo central contém seis elementos: planeamento, subsistema operacional, resultado, medição, “feedback”, e avaliação – recompensa. No contexto deste modelo, objectivos são declarações de intenção relativamente gerais, enquanto metas são declarações mais quantitativas (Flamholtz, 1996, p. 599). A avaliação da performance passada pode encorajar ou modificar a futura performance, quando os outputs são usados como base (input) para um sistema de avaliação-recompensa. Flamholtz, Das e Tsui (Flamholtz, Das e Tsui, 1985, p. 39) identificam quatro processos e técnicas como mecanismos do sistema de controlo. Esses mecanismos, que parecem influenciar directamente os comportamentos individuais ou grupais com vista ao alcance das metas organizacionais são designados de mecanismos centrais de controlo (“core control mechanisms”). Estes mecanismos centrais de controlo são constituídos por: planeamento, medição, “feedback”, e avaliação – recompensa. O modelo inicia com a definição das metas e objectivos organizacionais, que são inputs para o processo. A medição dos resultados fornece o output (“feedback”) sobre o modo como uma organização ou uma subunidade está a alcançar as suas metas estratégicas, operacionais e financeiras. Conjuntamente com um sistema organizacional de recompensa, a avaliação (“feedback”) visa motivar comportamentos conducentes à congruência de objectivos entre as diferentes unidades (Flamholtz, Das e Tsui, 1985, p. 46). As recompensas podem ser intrínsecas, quando as pessoas são motivadas pelo interesse das próprias tarefas que executam, ou extrínsecas, quando as pessoas executam as suas funções devido às recompensas que receberão de outros, como por exemplo, reconhecimento e promoção (Flamholtz, Das e Tsui, 1996, p. 601). O primeiro elemento contextual, a estrutura organizacional, é constituído por: regras, inter-relacionamento das regras, diferenciação e integração (Flamholtz, 1983, p. 158). A combinação de um conjunto alargado de mecanismos como a supervisão pessoal, regras, descrições de funções, procedimentos operacionais (SOP’s – “Standard Operating Procedures”), orçamentos, e sistemas de performance, são usadas pela José Domingos Reis Araújo 61 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica maioria das empresas para facilitar o controlo sobre o comportamento das pessoas (Flamholtz, 1983, p. 154). O grau de centralização ou descentralização na organização, o grau de especialização funcional, o grau de integração vertical ou horizontal, o grau de confiança em procedimentos predeterminados para lidar com os problemas, e o uso de regras, são reconhecidos como importantes factores com implicações para o controlo das organizações. Comparativamente ao sistema central de controlo, a estrutura da organização é relativamente estática e representa uma resposta estratégica aos requisitos dos mercados, tecnologia e do ambiente externo em geral (Flamholtz, 1996, p. 603). A escolha de uma estrutura organizacional representa uma estratégia corporativa visando adaptar a entidade organizacional às exigências do seu ambiente (Flamholtz, 1983, p. 158). A cultura organizacional, o terceiro elemento especificado no modelo, compreende os valores partilhados, crenças e normas sociais, as quais tendem a influenciar o pensamento e a acção individual dentro do quadro organizacional. De acordo com Flamholtz (Flamholtz, 2006, p. 603) a cultura organizacional é ponto de partida para o desenho de um sistema de controlo organizacional. O controlo de gestão deve ser compatível com a cultura organizacional, dado que as dimensões da cultura influenciam o comportamento dos diversos actores organizacionais e afectam o desenho dos outros componentes do sistema de controlo (Flamholtz, 1983, p. 159). O controlo através da cultura organizacional representa uma forma de controlo social e a sua invocação pode ser especialmente apropriada quando o conhecimento dos processos ou a capacidade para medir a performance é baixa (Flamholtz, Das e Tsui, 1985, p. 45). Flamholtz (Flamholtz, 1983, p. 160), destaca especialmente o papel da cultura organizacional como um mecanismo de controlo dominante versus sistema de controlo formal (contabilidade como sistema técnico-social). Por outro lado, a institucionalização de um sistema central de controlo pode ser usado como um veículo de mudança cultural (conforme será verificado adiante no estudo de caso). O ambiente externo à organização é o contexto societal para a organização e os seus membros. Flamholtz, Das e Tsui (Flamholtz, Das e Tsui, 1985, p. 46) identificam três grupos principais de factores ambientais: novos valores de trabalho que manifestam crescente interesse pela participação na tomada de decisão, nível de profissionalismo, e exigências directas dos clientes e consumidores. Na nossa opinião podem também José Domingos Reis Araújo 62 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica ser acrescentadas as exigências de outros “stakeholders”, como sejam, os investidores ou instituições bancárias. O modelo de controlo central proposto por Flamholtz, Das e Tsui é na sua natureza cibernético, e, na medida em que reconhece a existência das variáveis contextuais, segue uma abordagem de sistema aberto (Flamholtz, Das e Tsui, 1985, p. 47). 2.4.3. MODELO DE SIMONS Baseado num extensivo trabalho de campo, onde investigou mais de cem empresas, incluindo entrevistas com gestores e executivos, Simons (Simons, 1995; 1995a) desenvolveu um modelo de processo dinâmico que designou por “Alavancas de Controlo” onde relacionava os sistemas de controlo com a estratégia. No seu modelo, explica como a gestão de topo deve usar os sistemas de controlo formal como “alavancas” na implementação da estratégia de negócio, sem perder de vista as crescentes necessidades ao nível da flexibilidade, inovação e criatividade (Simons, 1995a, p. 80). Já anteriormente, Simons (Simons, 1990) reconhecia que os sistemas de controlo de gestão eram importantes tanto para a implementação como para a formação da estratégia. Simons constata que os sistemas de controlo de gestão são mais do que simples instrumentos de constrangimento e monitorização e define sistemas de controlo de gestão como “the formalized procedures and systems that use information to maintain or alter patterns in organizational activity” (Simons, 1990, p. 128). No entendimento de Simons (Simons, 1995; 1995a), a prossecução da estratégia de negócio de uma empresa deveria basear-se em quatro alavancas fundamentais de controlo (“Levers of Control”), que descrevem o uso dos sistemas de controlo de gestão no nível superior da empresa: sistemas de controlo de diagnóstico, sistemas de crenças, sistemas de fronteira, e sistemas de controlo interactivo. Colectivamente, estes quatro tipos de sistema de controlo representam as políticas, procedimentos e tecnologias que influenciam as normas culturais, comportamentos e resultados das pessoas e dos grupos. Na raiz do modelo encontram-se quatro conceitos chave, relacionados, pela mesma ordem, com as alavancas de controlo: variáveis chave de desempenho, valores nucleares, riscos a evitar; e incertezas estratégicas. Cada tipo de sistema de controlo tem efeitos únicos mas, o que é importante, é a conjunção do funcionamento de todos por forma a gerir a tensões inerentes entre: 1) oportunidade José Domingos Reis Araújo 63 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica ilimitada e atenção limitada; 2) estratégia intencional e estratégia emergente; 3) interesse próprio e o desejo de contribuição para o interesse organizacional (Simons, 1995, p. 28). Figura 6 - Representação esquemática das Alavancas de Controlo de Simons (adaptado a partir de Simons, 1995a, p. 85) Sistemas de Controlo de Diagnóstico (“Diagnostic Control Systems”) É o controlo na sua forma redutora, ou seja, medição dos progressos face a um plano com vista a garantir o alcance dos objectivos (Simons, 1995a, p. 81) e são usados para motivar, monitorizar e recompensar o alcance de objectivos específicos. Os sistemas de controlo de diagnóstico controlam as variáveis chave de desempenho e tem como função acompanhar, avaliar e premiar o alcance de objectivos. As variáveis chave de desempenho são os factores que devem ser atingidos ou implementados com sucesso para que a estratégia intencional do negócio seja concretizada (Simons, 1995, p. 63). A estratégia intencional é formal, sistemática e elaborada através do processo de planeamento (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 7). O sistema de controlo de diagnóstico representa uma força negativa ou reversiva dentro do sistema de controlo, visando a comunicação de variáveis de desempenho críticas (definir padrões de desempenho e avaliar resultados obtidos) para a implementação da estratégia. É usado similarmente a um painel de bordo de um cockpit de um avião, neste caso, para monitorizar os resultados da organização e tomar medidas correctivas, se necessário. Simons (Simons, 1995, p. 60) afirma que a maior parte da discussão sobre sistemas de controlo de gestão refere-se aos sistemas de controlo de diagnóstico (como por José Domingos Reis Araújo 64 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica exemplo orçamentos e outras formas de planeamento e sistemas de medição). Embora sejam importantes e necessários para aferir o alcance dos resultados e monitorizar a rentabilidade da empresa, os sistemas de controlo de diagnóstico não são adequados nem suficientes para exercer um controlo eficaz (Simons, 1995a, p. 81). Este autor alerta para os riscos do uso disfuncional deste sistema, como por exemplo, para os perigos de se deixar um empregado responsável pelo alcance dos objectivos, apenas com os seus próprios recursos para os atingir, sem mais nenhuma referência ou linha balizadora (Simons, 1995, p. 82). Um dos principais propósitos dos sistemas de controlo de diagnóstico é eliminar a necessidade dos gestores de constante monitorização, mas, por si só, este sistema não assegura o controlo eficaz. Para esse efeito, são necessárias as restantes alavancas de controlo. Sistemas de Crenças (“Beliefs Systems”) Os sistemas de crenças são o conjunto específico de definições organizacionais que os gestores de topo comunicam formalmente e reforçam sistematicamente para fornecer valores básicos, propósito e direcção para a organização (Simons, 1995, p. 34) e são usados para inspirar e pesquisar directamente novas oportunidades. O sistemas de crenças controlam os valores nucleares e tem como função contribuir para o processo criativo de explorar e captar novas oportunidades, através da partilha de valores e missão, obtenção de compromisso, propriedade, cultura, procurando exercer uma força positiva dentro do sistema de controlo. Incluem tipicamente modos de interacção humana bem como expectativas de performance. Estas crenças devem ser usadas pelos gestores seniores para estabelecer a direcção da mudança estratégica, para motivar a força de trabalho e para clarificar os esforços à medida que as oportunidades expandem significativamente. No entanto, para ser uma poderosa alavanca de controlo é necessário que os gestores usem as declarações de missão como verdadeiros documentos vivos, ou seja como parte de um sistema para guiar por padrões de comportamento aceitável (Simons, 1995a, p. 82). Sistemas de Fronteira (“Boundary Systems”) Os sistemas de fronteira podem ser considerados como o negativo dos sistemas de crenças (Simons, 1995a, p. 84). Este tipo de sistema procura exercer uma força José Domingos Reis Araújo 65 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica negativa dentro do sistema de controlo (marcação de terrenos “proibidos”). São usados para estabelecer limites nos comportamentos que buscam as oportunidades. Os sistemas de fronteira delineiam o domínio aceitável da actividade estratégica para os participantes na organização (Simons, 1995, p. 39). Definem e fazem cumprir os limites para além dos quais os empregados não devem passar. Baseiam-se num princípio simples mas profundo de gestão: o “poder do pensamento negativo”, ou seja, dizer às pessoas o que não fazer em vez do que fazer (Simons, 1995a, p. 84). Os sistemas de fronteira controlam os riscos a evitar e estabelecem as fronteiras para a captação de novas oportunidades por forma a minimizar risco. Procuram equilibrar criatividade com as restrições existentes, através do estabelecimento de limites de actuação dos gestores, de uma verdadeira definição da estratégia e de revisões regulares. Os sistemas de fronteira são particularmente críticos nos negócios em que a reputação baseada na confiança é um factor competitivo chave (Simons, 1995a, p. 84). No caso da indústria farmacêutica este é um dos principais factores competitivos. Sistemas de Controlo Interactivo (“Interactive Control Systems”) Os sistemas de controlo interactivo permitem à gestão de topo focar-se nas incertezas estratégicas, aprender sobre as ameaças e oportunidades à medida que as condições competitivas mudam, e responder proactivamente (Simons, 1995, p. 81). As incertezas estratégicas são as ameaças e oportunidades que poderão invalidar os pressupostos nos quais a presente estratégia é baseada, e relacionam-se com as mudanças na dinâmica competitiva e competências internas que devem ser entendidas para que o negócio da empresa se adapte com sucesso ao longo do tempo (Simons, 2000, p. 213-215). Os sistemas de controlo interactivo são usados para estimular a aprendizagem organizacional e o aparecimento de novas ideias e estratégias. O principal objectivo do controlo interactivo é facilitar a criação da aprendizagem organizacional, ou seja a capacidade dos colaboradores para lidarem com as mudanças numa base contínua (Anthony e Govindarajan, 2007, p. 471). José Domingos Reis Araújo 66 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Analogamente a um sistema de monitorização meteorológica, os sistemas de controlo interactivo são sistemas sensitivos usados pelos gestores para se envolverem regular e pessoalmente nas decisões dos subordinados (Simons, 1995a, p. 86). Estes sistemas controlam as incertezas estratégicas, e pretendem a criação de mecanismos de implementação da estratégia na prática, fomentando a experimentação, aprendizagem organizacional e o processo de desenvolvimento de novas ideias e estratégias. Para atingir esses desígnios é necessário ter em atenção vários factores: gestão de risco estratégico, pressupostos subjacentes à estratégia (económicos, tecnológicos, marketing e comportamento do consumidor) e adaptação da estratégia através da incorporação da estratégia emergente. A estratégia emergente emerge da interacção entre a gestão, empregados e ambiente (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 7-8). Este tipo de sistema exerce uma força positiva dentro do sistema de controlo e é desenhado para reunir informação que poderá desafiar as visões do futuro (Simons, 1995a, p. 87). Os sistemas de controlo interactivo distinguem-se dos sistemas de controlo diagnóstico principalmente pelo uso e não pelo design, possuindo quatro características distintivas: 1) focam-se em informação constantemente alterada, identificada pelos gestores como potencialmente estratégica; 2) a informação é significante o necessário para exigir a procura e atenção regular dos gestores operacionais em todos os níveis da organização; 3) os dados gerados pelo sistema interactivo são melhor interpretados e discutidos em reuniões entre superiores, subordinados e pares; 4) o sistema de controlo interactivo é um catalisador para um debate contínuo sobre dados relevantes, pressuposições e planos de acção (Simons, 1995a, p. 87). Os sistemas de controlo de diagnóstico são reconhecidos por: terem o seu foco nas actividades passadas; serem colecções rotinizadas de dados; compararem informação colectada com standards pré-estabelecidos; e por os gestores intervirem nas excepções (princípio da gestão pela excepção). O modelo de Simons cria uma mudança de paradigma porquanto considera os sistemas interactivos como ferramentas para conduzir a organização no sentido da exploração das incertezas estratégicas (Davila, Foster e Oyon, 2009, p. 288) e afastase da tradicional análise da combinação entre instrumentos de controlo formal e factores críticos de sucesso. Simons ilustra a relação entre processo formal e estratégia: posicionamento estratégico competitivo, controlo de gestão e processo de José Domingos Reis Araújo 67 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica elaboração da estratégia. Este modelo proporciona uma nova visão para explicar os tipos de controlo de gestão interactivos usados pelos gestores em diferentes organizações e os padrões existentes entre empresas com estratégias similares, focando-se num aspecto algo negligenciado na altura: a estratégia corporativa (Otley, Broadbent e Berry, 1995, p. S37). No fundo, este modelo propõe dois “benchmarks” extremos para classificar os sistemas de controlo de gestão: sistemas interactivos versus sistemas diagnósticos, dependendo do nível de envolvimento da gestão de topo. Apesar de globalmente ter merecido uma apreciação favorável por parte da maioria dos autores e investigadores em controlo de gestão, o modelo de Simons é por vezes criticado por não atender a importantes controlos informais, como normas grupais, socialização ou cultura, dentro da sua conceptualização dos sistemas de crenças (Berry et al., 2009, p. 6, citando Collier, 2005). Outra limitação, que o próprio Simons reconhece, é a de que este modelo foi desenvolvido no nível superior da gestão e poderá aplicar-se somente a este nível (Berry et al., 2009, p. 6, citando Simons, 1994). Outra das críticas mais frequentes é a de que as formas de controlo interactivas e de diagnóstico explicam mais como um elemento de controlo ou sistema de controlo de gestão é usado do que como é desenhado (Ferreira e Otley, 2005, p. 34; Sandelin, 2008, p. 325). Num estudo recente, Tessier e Otley, propõem um desenvolvimento do modelo de Simons, analisando as dimensões positivas e negativas dos controlos, separando as intenções da gestão para os controlos e as percepções dos controlos pelos empregados (Tessier e Otley, 2012, p. 171). 2.4.4. MODELO DE MERCHANT E VAN DER STEDE O controlo de gestão é uma função crítica nas organizações e as falhas no mesmo podem levar a grandes perdas financeiras, na reputação e mesmo à falha total da organização (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 3). Merchant e Van der Stede (Merchant e Van der Stede, 2012 p. 5) possuem uma visão ampla do controlo de gestão e consideram a visão cibernética como antiga e limitada, dado que esta apenas considera o controlo de gestão como um sistema regulador envolvendo um simples “feedback” num circuito análogo a um termóstato. Nesta visão José Domingos Reis Araújo 68 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica redutora, o sistema funciona como uma espécie de “feedback loop”; os gestores medem a performance, comparam com os standards ou performances préestabelecidas e, se necessário, tomam acções correctivas. Na visão destes autores, o controlo de gestão inclui todos os mecanismos ou sistemas que os gestores usam para assegurar que os comportamentos e decisões dos empregados são consistentes com os objectivos e estratégias da organização (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 6). Merchant e Van der Stede (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 8) sugerem que os sistemas de controlo têm duas funções básicas: controlo estratégico e controlo de gestão. O controlo estratégico envolve o permanente questionar da validade da estratégia e como poderá ser alterada para permanecer válida. O controlo de gestão foca-se na execução e envolve a permanente questão: os empregados estão a ter o comportamento apropriado? Esta questão é decomposta em quatro outras questões (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 9): 1. Os empregados compreendem o que se espera deles? 2. Trabalharão consistentemente para o alcance dos objectivos da organização em linha com a estratégia? 3. São capazes de fazer um bom trabalho? 4. Se a resposta às anteriores questões for negativa, o que poderá ser feito para resolver os problemas de controlo de gestão? As ferramentas usadas para o controlo estratégico e controlo de gestão são bastante diferentes. O controlo estratégico tem o foco principal na envolvente externa da organização; examina a indústria e o posicionamento da organização na mesma. Contempla como a organização e as suas combinações de forças, fraquezas, oportunidades e ameaças, poderão competir com outras empresas na sua indústria. O controlo de gestão tem principalmente um foco interno, reflectindo a questão de como poderão ser influenciados os comportamentos dos empregados na lógica desejável pela organização. Neste sentido, o controlo de gestão envolve os passos necessários para que os gestores ajudem a assegurar que os empregados fazem o que é melhor para a organização. Segundo Merchant e Van der Stede (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 10-12) os problemas do controlo de gestão podem advir de três conjuntos de causas: 1. Falta de direcção: o empregado não sabe o que se espera do seu trabalho; José Domingos Reis Araújo 69 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 2. Problemas motivacionais: porque os objectivos individuais e organizacionais não coincidem necessariamente; 3. Limitações pessoais: por falta de aptidão, treino, experiência ou conhecimento das tarefas. Estes problemas poderão ser evitados basicamente através de quatro formas: eliminação de actividades, automação, centralização e partilha de risco (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 13-16). Contudo, para os problemas de controlo que não podem ser evitados e para aqueles cujas decisões foram tomadas no sentido de os não evitar, os gestores devem ter um ou mais mecanismos de controlo. A tipologia de Merchant (Merchant, 1998) e Merchant e Van der Stede (Merchant e Van der Stede, 2012) assenta em quatro mecanismos de controlo, baseados na distinção do objecto do controlo. 1. Controlos de resultados (“results controls”) São as formas de controlo mais difundidas e utilizadas na maioria das grandes empresas e estão relacionadas com a ideia de compensação pelos resultados alcançados. A sua prevalência deriva das seguintes ordens de razão (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 30-31) : a) Os controlos de resultados promovem a meritocracia, ou seja, as recompensas são dadas aos empregados mais talentosos e trabalhadores; b) São um elemento necessário na abordagem do “empowerment”, tendência da gestão com início da década de noventa; c) São particularmente dominantes como meios de controlar os comportamentos de empregados altamente qualificados e com autoridade de decisão, como os gestores; d) São consistentes e imprescindíveis para a implementação de formas descentralizadas de organização e centros de responsabilidade. Os controlos de resultados podem mitigar os problemas de controlo atrás referidos (falta de direcção, falta de motivação e limitações pessoais). Poderão atenuar uma potencial falha de direcção, na medida em que, resultados bem definidos informam os empregados daquilo que deles é esperado, encorajando-os a fazer o necessário para produzir os resultados desejados. Também são particularmente efectivos para José Domingos Reis Araújo 70 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica combater os problemas de motivação; mesmo sem supervisão ou interferência superior, os controlos de resultados induzem os empregados a comportarem-se de modo a maximizar as chances de produzir os resultados que a organização deseja. Finalmente poderão mitigar limitações pessoais; dado que os controlos de resultados tipicamente prometem recompensas para boas performances, podem ajudar as organizações a atrair e reter empregados que são confiantes nas suas capacidades. Além disso, encorajam os empregados a desenvolver os seus talentos para se posicionarem vantajosamente para ganhar a recompensa baseada nos resultados (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 32) A implementação dos controlos de resultados envolve quatro passos fundamentais (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 33): 1. Definir a(s) dimensão(ões) nas quais os resultados são desejados; 2. Medir a performance nessas dimensões; 3. Estabelecer metas de desempenho individuais a alcançar para cada medida; 4. Providenciar recompensas para o alcance das metas, para encorajar comportamentos que levem aos resultados desejados; Os controlos de resultados funcionam com sucesso apenas quando todas as seguintes três condições estão presentes (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 36): 1. As organizações podem determinar que resultados são desejados nas áreas a controlar; 2. Os empregados cujos comportamentos são alvo de controlo, têm influência significativa nos resultados (princípio da controlabilidade); 3. As organizações podem medir os resultados eficazmente, sendo as medidas de resultados obrigatoriamente congruentes, controláveis, precisas, objectivas, tempestivas, compreensíveis e eficientes ao nível do custo (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 38-39). Os controlos de resultados são uma forma indirecta de controlo porque não se focam explicitamente nas acções e decisões dos empregados. Daqui resultam importantes vantagens (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 40). Em primeiro lugar, são bastante José Domingos Reis Araújo 71 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica eficazes quando não é claro que comportamentos são os mais desejáveis. Em segundo lugar, concedem larga autonomia aos empregados, não deixando de constituir um bom controlo. Principalmente nos níveis hierárquicos mais elevados, essa autonomia á bastante apreciada pelos gestores. 2. Controlos de acção (“action controls”) Os controlos de acção visam assegurar que os empregados fazem (ou não fazem) certas acções conhecidas como benéficas (prejudiciais) para a organização (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 81). São aplicáveis nas situações em que as acções em si mesmas são o foco do controlo e só são úteis e eficazes se os gestores souberem que acções são desejáveis (ou não desejáveis) e tiverem a capacidade de assegurar que as acções desejáveis ocorrem (ou as não indesejáveis não ocorram) (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 86). Os controlos de acção podem assumir quatro formas: constrangimentos de comportamento (“behavioral constraints”), revisões de pré-acção (“preaction reviews”’), responsabilização da acção (“action accountability”) e redundância (“redundancy”). Os constrangimentos de comportamento, tornam impossível ou mais difícil que os empregados façam acções que não devam e podem ser aplicados física ou administrativamente (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 81). Exemplos de constrangimentos físicos são os bloqueios de computador, senhas de acesso e áreas de acesso limitado. Constrangimentos administrativos podem ser, por exemplo, escalões de aprovação de despesas e separação de funções. Nas revisões de pré-acção, os “revisores” podem aprovar ou reprovar as acções propostas ou propor modificações antes da aprovação final (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 83), como por exemplo, o processo de aprovação do orçamento por níveis hierárquicos. A responsabilização da acção envolve manter os empregados responsáveis pelas acções que tomam e requer: a) definir as acções que são aceitáveis ou inaceitáveis; b) comunicar essas definições aos empregados; c) observar ou acompanhar o que acontece; d) recompensar as boas acções ou penalizar as acções desviantes (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 83). Podem ser comunicadas de modo administrativo, através de regras de trabalho, políticas, procedimentos e códigos de José Domingos Reis Araújo 72 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica conduta, ou socialmente, através de reuniões ou por intermédio da linha hierárquica directa. A redundância verifica-se quando se fazem as mesmas tarefas ou se alocam os mesmos equipamentos para uma actividade que é considerada estritamente necessária ou muito importante (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 84). Os controlos de acção só são contudo eficazes se: 1) as organizações poderem determinar que acções são (in)desejáveis; 2) e forem capazes de assegurar que as acções (in)desejáveis (não) ocorrem (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 86). 3. Controlos pessoais (“personnel controls”) Os controlos pessoais motivam os empregados a controlar os seus próprios comportamentos e constroem uma tendência natural de auto-controlo e automotivação nos empregados (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 88). Servem três propósitos: 1) ajudam a clarificar expectativas, ou seja, a assegurar que cada empregado compreende o que a organização quer; 2) ajudam a assegurar que cada empregado está apto a fazer um bom trabalho, que tem a capacidade (experiência, inteligência) e recursos (informação, tempo) necessários à função; 3) incrementam a probabilidade de cada empregado potenciar as suas capacidades de automonitorização (tendência natural para fazer um bom trabalho, com comprometimento pessoal), ou seja, motivação intrínseca ou lealdade. Os controlos pessoais podem ser implementados através de: 1) recrutamento e selecção; 2) Treino e selecção; 3) “Job design” e fornecimento dos recursos necessários com vista a assegurar que o trabalho é desenhado para permitir que empregados motivados e qualificados tenham uma elevada probabilidade de sucesso (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 90). Todas as empresas, em menor ou maior grau, confiam que os seus empregados se guiam e motivam por eles próprios, sendo que, alguns sistemas de controlo são mesmo dominados por controlos pessoais (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 95). José Domingos Reis Araújo 73 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 4. Controlos culturais (“cultural controls”) Os controlos culturais são desenhados para encorajar a mútua monitorização dos empregados e são uma poderosa forma de pressão de grupo sobre os indivíduos que se desviam das normas ou valores do grupo (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 90). Os códigos de conduta, códigos de ética, declarações de missão e visão são normalmente utilizados como forma de controlo cultural (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 91). As recompensas de grupo ligadas ao alcance de metas colectivas como por exemplo bónus, partilha de lucros ou outras formas de partilha de ganhos baseadas nas metas globais da companhia, funcionam igualmente como formas de controlo cultural (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 92). Outras formas de moldar a cultura organizacional incluem: rotações de funções, ambiente físico (“open spaces”, decoração e arquitectura dos escritórios), ambiente social (códigos de vestuário, hábitos institucionalizados, comportamentos e vocabulário), e o exemplo da gestão de topo (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 93). A rotação de funções ajuda a transmitir cultura pelo incremento da socialização dos empregados através da organização, permitindo-lhes um melhor entendimento dos problemas enfrentados pelas diferentes partes da organização e inibindo a formação de metas e perspectivas incompatíveis. Além disso, as transferências também potenciam a mitigação de fraudes ou falhas de segurança e controlo na medida em que evitam que os empregados fiquem demasiado familiarizados com certas entidades, actividades, colegas ou transacções. Os controlos culturais podem assumir forte predominância num sistema de controlo (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 95). A melhor hipótese de criar uma cultura forte acontece normalmente cedo na vida da organização, quando o fundador consegue embutir na organização uma cultura distintiva. Os controlos culturais têm a vantagem de serem, na maior parte das vezes, pouco invasivos. Os empregados nem sempre consideram as normas partilhadas como sendo parte do sistema de controlo. Desta forma, os controlos culturais podem substituir outros tipos de controlo mais formais. Quanto mais forte a cultura, menor necessidade existe de manuais de procedimentos, quadros organizacionais, ou procedimentos e regras detalhadas (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 95). José Domingos Reis Araújo 74 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Segundo Merchant e Van der Stede (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 96), os controlos pessoais e culturais, (também chamados de “soft controls”), têm ganho crescente importância nos últimos anos, na medida em que, as organizações ficaram mais magras e reduzidas e as hierarquias e sistemas de controlo de acção (burocracias) estão a ser desmantelados e substituídos por empregados com cada vez mais poder de decisão. Neste sentido, os valores partilhados da organização têm-se tornado uma ferramenta cada vez mais importante para assegurar que todas as pessoas agem no melhor interesse da empresa. Na divisão efectuada entre controlo estratégico e controlo de gestão, o trabalho de Merchant é similar ao de Anthony, mas ao enunciar os quatro tipos de controlo: controlos de resultados, controlos de acção, controlos pessoais, e controlos culturais, Merchant (Merchant, 1998) aproxima-se da linha seguida pela teoria da contingência. 2.4.5. MODELO DE FERREIRA E OTLEY O modelo apresentado por Ferreira e Otley (Ferreira e Otley, 2009) é uma ferramenta de pesquisa para examinar a estrutura, funcionamento e utilização dos sistemas de controlo de gestão de uma forma holística, baseando-se na aplicação práctica dos modelos de Simons (Simons, 1995) e Otley (Otley, 1999). O modelo é resultado de vários anos de pesquisa dos autores na análise dos desenhos e práticas dos sistemas de controlo de gestão em diversas organizações. Ferreira e Otley sustentam, com as evidências dos estudos de caso, o uso conjunto de sistemas de controlo de diagnóstico e de controlo interactivo (Ferreira e Otley, 2005, p. 26, 40, 41). Otley (Otley, 1999) apresentou um grupo de cinco questões na perspectiva de desenvolver uma estrutura para representar o desempenho da organização. As perguntas estão relacionadas com questões centrais da gestão moderna e abordam: 1) a definição de metas e avaliação do cumprimento das mesmas; 2) a formação e implementação da estratégia; 3) definição das metas de performance/desempenho; 4) as recompensas (ou punições) a serem estabelecidas; 5) o fluxo de informações (“feedback” e “feed-forward”) necessário à monitorização da performance. O trabalho de Simons, detalhado anteriormente no ponto 2.4.3., é outro dos alicerces da pesquisa de Ferreira e Otley (Ferreira e Otley, 2009). José Domingos Reis Araújo 75 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Partindo das forças e fraquezas e da complementaridade dos modelos de Simons (Simons, 1995) e Otley (Otley, 1999), Ferreira e Otley (Ferreira e Otley, 2009) propõem um modelo holístico que permite um melhor entendimento da forma como um sistema de controlo de gestão é usado na prática. Para os autores, sistema de controlo de gestão representa o conjunto de mecanismos e processos formais e informais usados pelas organizações para medir, controlar e gerir o desempenho (performance), para implementar estratégias e, como último desígnio, para atingir os objectivos globais (Ferreira e Otley, 2005, p. 5). Contudo, segundo os autores, o próprio termo “sistemas de controlo de gestão” é demasiado restritivo, pelo que propõem “sistemas de gestão do desempenho” (“performance management systems” - PMS) por forma a capturar a abordagem holística da gestão e controlo da performance organizacional (Ferreira e Otley, 2009, p. 264). Desta forma, definem sistemas de gestão do desempenho (SGD): …as the evolving formal and informal mechanisms, processes, systems, and networks used by organizations for conveying the key objectives and goals elicited by management, for assisting the strategic process and ongoing management through analysis, planning, measurement, control, rewarding, and broadly managing performance, and for supporting and facilitating organizational learning and change. (Ferreira e Otley, 2009, p. 264) O modelo desenvolvido, definido como “performance management systems framework”, representa uma progressão das cinco questões “Qual” de Otley (Otley, 1999) para dez questões “Qual” e duas “Como”. Reflecte uma visão mais alargada do papel do controlo na gestão da performance organizacional, por oposição a uma visão mais tradicional e compartimentada, de que Anthony (Anthony, 1965) é expoente máximo (Ferreira e Otley, 2009, p. 266). As doze questões que servem de base ao modelo são (Ferreira e Otley, 2009., p. 266-267): 1. Qual a visão ou missão da organização e como são levadas ao conhecimento dos gestores e empregados? Que mecanismos, processos e redes são usados pela organização para alcançar os objectivos propostos aos seus membros? Saber qual é a missão e visão da empresa é importante numa empresa, pois a visão dá-nos a direcção que esta quer seguir, enquanto a missão “identifica os requerimentos para atrair e manter os “shareholders”, empregados, e clientes e fazê-lo de uma maneira que seja socialmente adaptável“ (Ferreira e Otley, 2009, p. 268, citando Chenhall, 2003, p. 136). A visão e missão guiam-nos ao processo da escolha e José Domingos Reis Araújo 76 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica mudança das estratégias e actividades para fazer face ao contínuo ambiente de mudança dos mercados (Ferreira e Otley, 2009, p. 268). Visão e a missão são elementos importantes do sistema de controlo, na terminologia de Simons, reflectindo parte do sistema crenças (Ferreira e Otley, 2009, p. 268). A sua consideração na estrutura PMS é essencial, na medida em que define as grandes orientações e os objectivos globais que a organização escolhe prosseguir. 2. Quais são os factores chave que são fundamentais para o sucesso global futuro da organização, e como são levados à atenção dos gestores e empregados? Os factores chave de sucesso são importantes para atingir a missão e visão da empresa, sendo a sua monitorização extremamente importante para alcançar os objectivos estratégicos (Ferreira e Otley, 2009, p. 269). 3. Qual a estrutura da organização e qual o impacto que tem na concepção e uso dos sistemas de gestão do desempenho? Como os influencia e como é influenciada pelo processo de gestão estratégica? Este é um dos aspectos que, de acordo com a bibliografia do controlo de gestão analisada, é um factor importante para moldar a concepção e utilização de sistemas de controlo. A estrutura organizacional determina as responsabilidades e obrigações dos participantes, influenciando a eficiência do trabalho, a motivação dos indivíduos, os fluxos de informação e sistemas de controlo (Ferreira e Otley, 2009, p. 269, citando Chenhall, 2003, p. 145). A estrutura da organização é influenciada pela gestão estratégica, pois esta é que decide o caminho a seguir para conseguir os objectivos da empresa, enquanto a implementação da estratégia assegura que a escolha das estratégias são realizadas e monitorizadas de acordo a conseguir os resultados necessários (Ferreira e Otley, 2009, p. 269, 270). 4. Quais as estratégias e planos que a organização tem adoptado e quais são os processos e actividades que decidiram ser necessários para implementá-las com sucesso? Como são as estratégias e os planos adoptados, gerados e comunicados aos gestores e empregados? É importante que as estratégias sejam bem transmitidas e conhecidas por parte de toda a organização. Este processo pode ter uma abordagem “top-down”, no qual os José Domingos Reis Araújo 77 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica gestores de topo desenvolvem, decidem, planeiam as estratégias e depois comunicam às outras partes da organização, ou uma pode seguir uma abordagem “bottom-up”, quando existe envolvimento de todos os níveis da gestão no processo estratégico (Ferreira e Otley, 2009, p. 270). Parece claro que um maior envolvimento dos níveis inferiores da gestão no processo de gestão estratégica potencia maior entendimento da intenção estratégica da organização e melhor aceitação do caminho a tomar, resultando num maior alinhamento organizacional. 5. Quais são as principais medidas de desempenho da organização provenientes dos seus objectivos, factores chave de sucesso, estratégias e planos? Como são especificados e comunicados e que papel desempenham na avaliação de desempenho? Existem omissões significativas? As principais medidas de desempenho (medidas chave, “key performance measures” ou “key performance indicators” – KPI) podem ser tanto financeiras ou não financeiras, e são usados em diferentes níveis da organização para avaliar se os seus objectivos foram alcançados com sucesso, e se as expectativas dos diferentes “stakeholders” são satisfeitas (Ferreira e Otley, 2009, p. 271). Estas medidas são crescentemente importantes nas organizações actuais e têm influência nos comportamentos individuais. Ittner e Larcker (Ittner e Larcker, 2001, p. 379) sustentam que “a escala da medida de desempenho é uma função da competitividade da organização, estratégia e desenho organizacional” (Ferreira e Otley, 2009, p. 271). 6. Qual o nível de performance que a organização precisa para alcançar cada uma das suas principais medidas de desempenho, como é que estão a decorrer as definições das metas de desempenho adequadas para elas, e quão desafiantes são essas metas de desempenho? A fixação dos objectivos constitui um aspecto crítico na gestão de desempenho, dado que têm uma influência no desempenho da empresa (Otley, 1999, p. 368). Esta questão reflecte a tensão universal existente entre o que é desejado e o que é julgado atingível na determinação das metas para todos os aspectos desempenho organizacional (Ferreira e Otley, 2009, p. 271). O facto de serem desafiantes e o desejo de uma melhoria contínua nos objectivos é hoje em dia muito importante face à concorrência e mercados globalizados (Ferreira e Otley, 2009, p. 271, 272, citando Chenhall, 2003). José Domingos Reis Araújo 78 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 7. Que processos a organização segue para a avaliação de desempenho individual, de grupo e organizacional? As avaliações de desempenho são principalmente objectivas, subjectivas ou mistas e quão importantes são as informações formais e informais e controlos nesses processos? A área da avaliação de desempenho/performance representa um nexo crítico nas actividades de controlo (Ferreira e Otley, 2009, p. 272) Os processos de avaliação de desempenho são uma área que não foi considerada pela estrutura de Otley (Otley, 1999). A questão agora torna-se óbvia e explícita, já que é uma área importante a ter em conta, sobretudo quando se considera a questão da força e da coerência entre os componentes do sistema de controlo. 8. Quais as recompensas, financeiras ou não financeiras, que os gestores e outros empregados vão receber ao atingir as metas de desempenho definidas (ou irão sofrer penalizações ao não atingi-las)? As recompensas vêm normalmente após o processo de avaliação do desempenho e são consideradas, neste modelo, de uma forma lata, podendo ir desde expressões aprovadas e reconhecimento dos gestores de topo, passando por recompensas financeiras, até progressões a longo prazo e promoções (Ferreira e Otley, 2009, p. 272). Estas recompensas, financeiras ou não financeiras, podem ter uma influência positiva no desempenho tanto ao nível individual como ao nível geral da empresa. 9. Que fluxos de informação, sistemas e redes tem a organização para apoiar o funcionamento dos seus sistemas de gestão do desempenho? O fluxo de informações, sistemas e redes são essenciais permitindo mecanismos para qualquer modelo de controlo de gestão (Otley, 1999, p. 369). Os fluxos de informação devem visionar a correcção das falhas dos processos (“feedback”), e permitir a tentativa de antecipar eventos futuros e responder antes da sua ocorrência (“feedforward”). Os sistemas são usados para organizar a contabilidade e outras informações de controlo, e são parte da infra-estrutura que engloba o sistema de informação (SI) e a tecnologia de informação (TI), actualmente essenciais nas empresas (Ferreira e Otley, 2009, p. 274). As redes são outra sub-estrutura dentro da infra-estrutura de SI/TI, podendo ser formais ou informais (Ferreira e Otley, 2009, p. 274). José Domingos Reis Araújo 79 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 10. Que tipo de uso é feito da informação e dos vários mecanismos de controlo na organização? Podem esses usos ser caracterizados em termos de tipologias diferentes na literatura? Como é que os controlos e os seus usos diferem nos diferentes níveis hierárquicos? Esta área é muito importante porque, como demonstrado pelas evidências, a utilização pode ser mais significativa do que a própria concepção do sistema de controlo (Ferreira e Otley, 2009, p. 274). Além disso, desde há muito que se observa na bibliografia a importância de contemplar a forma como as informações são utilizadas nas organizações (Govidarajan, 1984; Hopwood, 1972; Otley, 1978). Contudo, o conceito de “uso” nunca foi inteiramente desenvolvido na literatura (Ferreira e Otley, 2009, p. 274). 11. Como é que os sistemas de gestão do desempenho se adaptam às dinâmicas de mudança da organização e do seu ambiente? As mudanças na concepção ou uso dos sistemas de gestão do desempenho têm sido feitas de uma forma proactiva ou reactiva? Esta é igualmente uma área de grande importância, especialmente tendo em conta o facto do número de empresas que considera a implementação de novas técnicas de controlo de gestão estar a aumentar. A incorporação desta questão ajuda à compreensão de como os diferentes componentes do sistema de controlo interagem uns com os outros (Ferreira e Otley, 2009, p. 275). É como se movendo uma determinada alavanca (isto é, mudança) nós temos a possibilidade de observar o impacto sobre a imagem do sistema de controlo. Temos que ter em conta que os SCG devem ser revistos periodicamente devido às contínuas mudanças do mercado e das empresas, por forma a antecipar-se a todas estas mudanças e continuar a ser eficiente. 12. Quão fortes e coerentes são as ligações entre os componentes dos sistemas de gestão do desempenho e de que formas são usadas? Esta representa um complemento à estrutura original de Otley (Otley, 1999). A força e coerência das conexões nos SGD são cruciais para perceber as operações e para alcançar resultados eficazes e eficientes, pelo que tem de haver uma boa coordenação e alinhamento nos SGD. Apesar dos componentes individuais dos SGD poderem estar bem concebidos, as evidências sugerem que se conjuntamente não José Domingos Reis Araújo 80 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica combinarem bem (quer no desenho quer no uso), poderão ocorrer falhas de controlo (Ferreira e Otley, 2009, p. 275). É importante referir que, tal como Otley (Otley, 1980), Ferreira e Otley (2009, p. 276) referem-se a SGD como “pacotes” mais do que “sistemas”. Isto porque os seus diversos componentes tendem a ser compostos por conjuntos dispersos de elementos, frequentemente desenhados e implementados por diferentes pessoas, em diferentes partes da organização e em diferentes períodos. Por essa razão, a observação dos SGD na prática, revela, na esmagadora maioria dos casos, a existência de características de coerência sistémica e de design, conjuntamente com características de tensão e conflito entre os diversos elementos (Ferreira e Otley, 2009, p. 276). Figura 7 - Esquema do modelo de controlo de gestão de Ferreira e Otley (adaptado a partir de Ferreira e Otley, 2009, p. 268) José Domingos Reis Araújo 81 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica As questões 1, 2 (em parte), 5 e 6 têm a ver com os resultados (ou fins). Os meios para alcançar os resultados podem ser vistos nas questões 2 (em parte), 3, 4, 7 e 8. As questões 9 a 12 expressam o entendimento dos autores sobre as variáveis contextuais e a cultura, essenciais para a perfeita compreensão de qualquer sistema de gestão de desempenho em qualquer contexto organizacional. A figura ilustra que o sistema de gestão do desempenho está no centro de qualquer organização e que o seu desenho é guiado por oito questões funcionais (no ponto central da figura). Por seu turno, estas questões são moldadas por outras quatro questões relacionadas com a cultura e factores contextuais da organização (na parte exterior da figura, estando um pouco distantes do actual sistema de gestão do desempenho mas moldando a sua natureza). O modelo de PMS’s (“performance management systems”) de Ferreira e Otley (Ferreira e Otley, 2009) foi considerado um tema emergente e actual no controlo de gestão e um dos modelos de controlo de gestão relevantes para a medição da performance e gestão (Berry et al., 2009, p. 7). Contudo, também são referidas algumas limitações, tais como a escassa interconexão entre as doze questões e a necessidade de compreender os antecedentes e o contexto organizacional do desenho do sistema de gestão do desempenho (Berry et al., 2009, p. 7). 2.4.6. MODELO DE MALMI E BROWN Malmi e Brown (Malmi e Brown, 2008) propõem um modelo de controlo de gestão como um “pacote”, sustentando que na literatura (Chenhall, 2003; Dent, 1990; Fisher, 1998; Flamholtz, Das, e Tsui, 1985; Otley, 1980) a ideia do funcionamento do SCG como um pacote já existe desde há mais de trinta anos. Numa concepção geral, o pacote SCG é uma colecção ou conjunto de controlos e sistemas de controlo. Tal engloba os sistemas de controlo individual, como os tradicionais controlos contabilísticos (orçamentos, medidas financeiras), os controlos administrativos, como por exemplo, a estrutura organizacional e os sistemas de governança, e os controlos mais sociais, como os valores e a cultura (Malmi e Brown, 2008, p. 287). O termo “pacote” é empregue porque na maior parte das organizações actuais existem diversos SCG. O conceito de pacote refere-se ao facto de que diferentes sistemas são frequentemente introduzidos por diferentes grupos de interesses em diferentes tempos, logo, os controlos na sua totalidade não devem ser definidos holisticamente José Domingos Reis Araújo 82 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica como um simples sistema, mas como um pacote de sistemas (Malmi e Brown, 2008, p. 291) O modelo conceptual de Malmi e Brown do SCG como um pacote é baseado no trabalho de Brown (Brown, 2005) que desenvolveu essa tipologia após análise e síntese de quase quarenta anos de pesquisa em SCG (Malmi e Brown, 2008, p. 291). De acordo com Malmi e Brown, a tipologia fornece um quadro suficientemente global, mas ainda parcimonioso, para o estudo empírico do controlo de gestão como pacote, afirmando que o objectivo é facilitar e estimular a discussão e a pesquisa nesta área, em vez de sugerir uma solução final para todos os problemas conceptuais (Malmi e Brown, 2008, p. 291). Os autores sugerem que a definição de controlo de gestão deve esclarecer o tema relativo ao problema da gestão de direccionar o comportamento dos empregados. Sendo assim, o controlo de gestão deveria incluir todos os sistemas (excluindo os sistemas puramente de suporte à decisão), regras, procedimentos, práticas, valores, e outras actividades de gestão postas em acção para direccionar o comportamento dos empregados e para garantir que as suas decisões são consistentes com objectivos e estratégias da organização (Malmi e Brown, 2008, p. 290). Como podemos visualizar na figura 8, o modelo engloba cinco tipos de controlos; 1) controlos de planeamento; 2) controlos cibernéticos; 3) controlos de recompensa ou compensação; 4) controlos administrativos; 5) controlos culturais. Figura 8 - Sistema de controlo de gestão como pacote de Malmi e Brown Controlos Culturais Clãs Valores Controlos Cibernéticos Sistemas de Sistemas de Planeamento Planeamento Orçamentos medição medição não de longo prazo de acção financeiros financeiros Símbolos Controlos de Planeamento Sistemas híbridos de medição Controlos de recompensa e compensação Controlos Administrativos Estrutura de "Governance" Estrutura Organizacional Políticas e procedimentos (adaptado a partir de Malmi e Brown, 2008, p. 291) José Domingos Reis Araújo 83 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Controlos de planeamento Malmi e Brown (Malmi e Brown, 2008, p. 291) dividem planeamento em planeamento de acção e planeamento a longo prazo. O primeiro tem um foco táctico e determina metas e acções para o futuro imediato (usualmente doze meses ou menos). O último tem um foco mais estratégico e estabelece metas e acções para o médio e longo prazo. Os autores argumentam que o planeamento pode ser considerado uma forma ex ante de controlo devido a três razões. Em primeiro lugar, o planeamento direcciona o esforço e o comportamento pelo estabelecimento de metas para as áreas funcionais da organização. Em segundo lugar, ao estabelecer os standards a atingir relativamente às metas, o planeamento clarifica o nível de esforço e o comportamento esperado dos membros da organização. Em terceiro lugar, o planeamento pode ajudar a atingir a congruência de objectivos através das áreas funcionais da organização, e assim controlar as actividades dos grupos e dos indivíduos. Além disso, os autores salientam que o planeamento pode realizar duas tarefas distintas (Malmi e Brown, 2008, p. 290). Primeiro, pode ser usado para suportar a tomada de decisão ex-ante. Segundo, pode ser usado como ilustrado acima, ou seja, para criar congruência de objectivos dentro da organização. Para ser fiel à definição de SCG dos autores, no primeiro caso o planeamento não deveria fazer parte do SCG, enquanto que no segundo caso já seria parte do SCG. Controlos cibernéticos Os controlos cibernéticos baseiam o seu funcionamento na lógica cibernética. De acordo com Otley e Berry (Otley e Berry, 1980, p. 231), o controlo, no seu completo sentido cibernético significa monitorizar actividades e tomar acções correctivas por forma a assegurar que os fins desejados são alcançados. Malmi e Brown (Malmi e Brown, 2008, p. 292, citando, Green e Welsh, 1988), referem cinco características específicas do controlo cibernético. Primeiro, engloba medidas que permitem a quantificação de um fenómeno, actividade ou sistema a ser seguido. Segundo, contempla standards de performance ou metas a serem alcançadas. Terceiro, inclui um processo de “feedback” que permite a comparação dos resultados com os standards. Esta análise dos desvios é a quarta característica dos sistemas de controlo cibernético. Em quinto lugar, surge a capacidade de modificar o comportamento do sistema ou actividade seguida. Malmi e José Domingos Reis Araújo 84 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Brown enfatizam que um sistema cibernético pode ser tanto um sistema de suporte à decisão como um sistema de controlo, dependendo da forma como é usado. Os autores referem que a ligação do comportamento às metas e o estabelecimento de uma responsabilização pelas variações na performance, faz com que um sistema cibernético passe de um mero sistema de informação para o suporte à decisão para um verdadeiro sistema de controlo de gestão (Malmi e Brown, 2008, p. 292). Os controlos cibernéticos contêm quatro sistemas, para os quais existem importantes e significativas correntes de literatura associada (Malmi e Brown, 2008, p. 292, 293): - orçamentos; - medidas financeiras; - medidas não financeiras; - e sistemas híbridos contemplando medidas financeiras e não financeiras. Apesar de imensamente criticada, a orçamentação continua a desempenhar um papel importante nas organizações actuais. Especificamente, quando usada como sistema de controlo, a orçamentação foca-se no planeamento de níveis aceitáveis de comportamento e na avaliação da performance face a esses planos (Malmi e Brown, 2008, p. 293). Os sistemas de medição financeira mantêm os empregados responsáveis pelo alcance de certas medidas financeiras (como por exemplo, o retorno do investimento – “return on investment” - ROI, e o “economic value added” – EVA). As medidas não financeiras têm vindo a ser progressivamente mais importantes para as organizações actuais, devido especialmente à sua capacidade de identificar “drivers” ou factores de performance, bem como de ultrapassar as insuficiências das medidas financeiras (Malmi e Brown, 2008, p. 293). Exemplos de sistemas híbridos de medição de performance são a gestão por objectivos (“management by objectives” – MBO) e o “Balanced Scorecard” (BSC), o qual tem sido alvo de considerável atenção por parte dos académicos e gestores nos últimos anos. José Domingos Reis Araújo 85 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Controlos de recompensa ou compensação Estes tipos de controlos visam motivar e aumentar a performance dos indivíduos e dos grupos dentro das organizações através de recompensas pelo alcance dos objectivos ou metas. Como argumento principal (Malmi e Brown, 2008, p. 293) referem que os controlos de recompensa ou compensação conduzem a: 1) controlo direccional do esforço dos empregados (as tarefas nas quais se focam); 2) controlo da duração do esforço (quanto tempo os empregados devotam á tarefa); e 3) controlo da intensidade do esforço (quantidade de atenção devotada à tarefa). As organizações tendem a dar recompensas e compensações por diversas razões e nem todas as recompensas ou compensações estão necessariamente ligadas a controlos cibernéticos. As organizações podem por exemplo tentar reter os empregados através de recompensas. Deste modo, é importante considerar esquemas alternativos de recompensas e compensações, os seus objectivos e as suas ligações aos vários controlos (Malmi e Brown, 2008, p. 293). Controlos administrativos Os sistemas de controlo administrativo têm como principal intenção direccionar o comportamento dos empregados ao nível individual e colectivo (grupal) e podem ser divididos em três grupos (Malmi e Brown, 2008, p. 293): desenho e estrutura organizacional; estrutura de “governance”; e políticas e procedimentos. O design e a estrutura organizacional funcionam como sistemas de controlo pela organização dos indivíduos e grupos de uma forma que proporciona certos tipos de contacto e relacionamento, levando a um comportamento mais consistente e previsível. Malmi e Brown enfatizam que, se o desenho e a estrutura de uma organização é modificável na perspectiva dos gestores, então pode ser categorizada como sistema de controlo e não como uma variável contextual, como grande parte dos investigadores considera (Malmi e Brown, 2008, p. 294). A mesma visão era já partilhada por Otley e Berry (Otley e Berry, 1980, p. 232), quando afirmavam que a organização pode ser, ela própria, vista como um processo de controlo, quando grupos de pessoas sentem a necessidade de cooperar para alcançar propósitos que requerem acções conjuntas. José Domingos Reis Araújo 86 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica De um modo geral, as estruturas de “governance” de uma empresa incluem as linhas formais de autoridade e responsabilidade, direccionam e monitorizam o comportamento dos seus membros. Os autores salientam que as estruturas de “governance” englobam o conselho de administração, a sua composição e estrutura, bem como as várias equipas de gestão e de projectos, e sistemas (como reuniões e agendas) que permitem que diversas funções e unidades organizacionais coordenem a suas actividades tanto vertical como horizontalmente (Malmi e Brown, 2008, p. 294). As políticas e procedimentos aplicam a abordagem burocrática para direccionar o comportamento dos empregados. Incluem documentos como SOP’s (“Standard Operating Procedures”), bem como outras regras escritas. Além disso, incluem também os controlos de acção (“action controls” de Merchant e Van der Stede, 2012, já referidos na secção 2.4.4.), constrangimentos de comportamento (“behavioral constraints”), revisões de pré-acção (“preaction reviews”’), e responsabilização da acção (“action accountability”) (Malmi e Brown, 2008, p. 294). Controlos culturais Segundo os autores a cultura organizacional deve ser considerada como um SCG quando é usada para regular comportamentos, ou seja, quando os gestores são capazes de usar a cultura como um mecanismo ou sistema visando assegurar que os comportamentos e decisões dos seus empregados são consistentes com os objectivos e estratégias da organização (Malmi e Brown, 2008, p. 294). Dessa forma, os autores explicitamente assumem que é uma questão de saber se os gestores desejam usar a cultura como um sistema de controlo ou não. No seu estudo, concluem que a cultura é relativamente estável ao longo do tempo e pode ser, ocasionalmente, vista como fora do leque de mecanismos de controlo à disposição dos gestores, no entanto, assumem que a cultura pode ser usada - pelo menos em algum grau - como um SCG. No seu modelo, Malmi e Brown sugerem três aspectos de controlos culturais: 1) controlos baseados em valores (“value-based controls”); 2) controlos baseados em símbolos (“symbol-based controls”); e 3) controlos de clã (“clan controls”). Os controlos de valores são baseados nos sistemas de crenças de Simons (Simons, 1995), que permitiam comunicar os valores centrais da estratégia de negócio da companhia. Malmi e Brown (Malmi e Brown, 2008, p. 294) argumentam que esses valores funcionam através de três níveis de processo. O primeiro nível refere-se ao José Domingos Reis Araújo 87 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica recrutamento deliberado de indivíduos com valores em linha com os da organização. No segundo nível, os indivíduos são socializados numa tentativa de mudar os seus valores em conformidade com os da organização. O terceiro nível acontece quando os valores são explicados e os empregados comportam-se de acordo com os mesmos, ainda que possam não concordar pessoalmente com esses valores. Os controlos de símbolos referem-se a expressões visíveis que as organizações criam para desenvolver um determinado tipo de cultura. Estas podem incluir, um determinado desenho do espaço de trabalho ou do edifício e códigos de vestuário. Por exemplo, de acordo com Malmi e Brown, um escritório em “open space” pode servir para criar uma cultura de comunicação e colaboração (Malmi e Brown, 2008, p. 294). O terceiro grupo de controlos culturais, os controlos de clã, assenta no pressuposto de que as organizações têm subculturas ou clãs distintos e que cada clã tem membros que compartilham um conjunto de habilidades e valores incutidos neles através de um processo de socialização. Os controlos de clã controlam o comportamento do empregado, estabelecendo valores e crenças através de cerimónias e rituais do clã (Malmi e Brown, 2008, p. 295). O modelo proposto por Malmi e Brown é bastante abrangente porquanto consegue fazer uma boa súmula e agregação dos conceitos de controlo de gestão existentes na literatura. Contudo, conforme os próprios autores referem, será necessário o aprofundamento de diversas questões, especialmente a forma como os vários sistemas e elementos do pacote de controlo de gestão se interrelacionam entre si (Malmi e Brown, 2008, p. 297). Merchant e Van der Stede (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 19) referem-no como um trabalho que analisa com precisão os vários conceitos do controlo de gestão. Ferreira e Otley (Ferreira e Otley, 2009, p. 275) salientam que as relações no pacote de sistemas de controlo são um aspecto crucial do desenho dos SCG. José Domingos Reis Araújo 88 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 3. O CONTROLO GRUPO DE GESTÃO NA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA 3.1. BREVE CARACTERIZAÇÃO DA INDÚSTRIA PERSPECTIVA DO CONTROLO DE GESTÃO – CASO FARMACÊUTICA NA A indústria farmacêutica mundial é caracterizada por um elevado nível de concentração com quinze empresas multinacionais a dominar a indústria, representando 87% das vendas mundiais. Nas últimas duas décadas, a indústria farmacêutica sofreu importantes mudanças estruturais, principalmente conduzidas por choques tecnológicos e institucionais, que afectaram todos os estágios da cadeia de valor, impondo mudanças nas organizações das empresas e na estrutura de mercado. Por um lado, os avanços científicos transformaram as perspectivas e os processos de descoberta e desenvolvimento de novos medicamentos. Por outro lado, o crescimento dos gastos com a saúde induziu a políticas de contenção de custos, que afectaram a estrutura da procura nos principais mercados. Para além disso, os requisitos cada vez mais apertados e restritivos para a aprovação de novas drogas, juntamente com a orientação para a pesquisa de patologias complexas, implicam ensaios clínicos de base internacional mais abrangentes e dispendiosos. Todos estes aspectos, têm implicado não só um elevado incremento dos recursos necessários ao desenvolvimento de novos medicamentos como também uma redefinição da natureza e das complementaridades entre as fontes fundamentais de vantagens competitivas desta indústria, nomeadamente competências de I&D (Investigação e Desenvolvimento), marketing e distribuição. Deste modo, a indústria farmacêutica enfrenta actualmente enormes desafios. A divergência de interesses dos principais agentes do mercado, como, o público, associações médicas, governos e companhias de seguros, a crescente internacionalização e globalização com os consequentes processos de consolidação, o incremento da competição, e a pressão sobre os custos, são alguns desses desafios. Além disso, os investimentos em investigação e desenvolvimento e em obrigações regulamentares e de “compliance”, como por exemplo as validações e GMP’s (“Good Manufacturing Practice”), são extremamente elevados. José Domingos Reis Araújo 89 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica O mercado farmacêutico é, provavelmente, um dos mais competitivos ao nível mundial. A ampla disseminação dos medicamentos genéricos, potenciou ainda mais essa competitividade. Este facto, associado à insegurança da situação económica actual, torna essencial a adopção de sistemas de controlo de gestão adaptados às especificidades de cada empresa, tendo em conta as necessidades da gestão, também únicas, em termos de conhecimento de custos, estratégias e desempenho, que lhes permita uma monitorização das suas actividades principais. O controlo de gestão ajuda os gestores das empresas farmacêuticas a desenvolver e implementar o processo de planear para o futuro (por exemplo, orçamentação), tomar decisões sobre produtos, serviços, preços e custos a incorrer (tomada de decisão usando informação de custos), e a assegurar que os planos são postos em acção e são atingidos os resultados pretendidos (controlo pelos resultados). É de extrema importância para as empresas a adopção de modelos de controlo de gestão que lhes permitam monitorizar a execução da estratégia, por forma a manter / ganhar competitividade. Por outro lado, as empresas que estiverem atentas e souberem aproveitar as tendências actuais, nomeadamente a crescente importância do “outsourcing” e estabelecimento de parcerias para a combinação de produtos ou para alcançar novos mercados, poderão ganhar vantagens competitivas importantes. Importantes vantagens competitivas poderão também advir de uma política de “procurement” eficiente, de uma produção bem planeada, ou de um marketing de sucesso. As empresas farmacêuticas são organizações baseadas na ciência e a gestão de indústrias baseadas na ciência apresenta desafios únicos (Omta, Bouter, e Van Engelen, 1995, p. 552). Tradicionalmente são organizações com um ambiente interno bastante burocrático, baseado na estandardização dos processos de trabalho, numa larga tecnoestrutura, necessária ao desenho e manutenção dos elaborados processos de produção, e numa centralização vertical. O controlo de gestão no contexto da indústria farmacêutica deverá ser entendido não numa acepção redutora, apenas incluindo a simples monitorização e correcção, mas sim como qualquer forma de influenciar o direccionamento de metas (Omta, Bouter, e Van Engelen, 1995, p. 554; 1997, p. 168). Desta forma o controlo pode ser aplicado a uma diversidade de processos organizacionais, como processos de poder, aprendizagem organizacional, e mudanças de estrutura organizacional (Omta, Bouter, José Domingos Reis Araújo 90 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica e Van Engelen, 1997, p. 168). O controlo de gestão é, assim, uma medida de eficácia da gestão e pode ser equacionado em função da flexibilidade organizacional e da capacidade de controlo. Flexibilidade organizacional é a capacidade de uma organização se adaptar às situações de mudança (p. ex: grau de rigidez das regras administrativas) e a capacidade de controlo é a qualidade e competência da gestão para alcançar adaptações tendo em conta o nível de flexibilidade organizacional. Numa perspectiva de inovação farmacêutica, para que um modelo de controlo de gestão seja eficaz, deverão ser combinadas duas ordens de factores. A primeira refere-se aos factores técnico-sistémicos, relacionados com os aspectos técnicos, de informação, e de comunicação, como por exemplo o faseamento e a estruturação dos projectos de I&D, o estabelecimento de metas em termos de tempo, valor e especificações (Omta, Bouter, e Van Engelen, 1995, p. 552). A segunda ordem tem a ver com os factores sócio-dinâmicos, relacionados com os problemas de liderar e motivar as pessoas para alcançar os objectivos da organização. Na perspectiva da indústria farmacêutica, o controlo de gestão pode ser dividido em três formas: controlo de sistema, controlo de processo, e controlo externo (Omta, Bouter, e Van Engelen, 1997, p. 168). O controlo de sistema refere-se ao controlo sobre o pessoal e os recursos materiais do laboratório. Divide-se em controlo pessoal e controlo dos recursos (Omta, Bouter, e Van Engelen, 1997, p. 168). O controlo pessoal diz respeito à qualidade dos sistemas de recompensa e flexibilidade organizacional, como por exemplo: número de incentivos tangíveis e intangíveis e políticas de planeamento de carreira. O controlo pessoal está ainda relacionado com a competência da gestão em reagir a situações de mudança (capacidade de controlo), como por exemplo, reorganizações. O controlo de recursos está relacionado com a adequação dos recursos (ex: aparelhos de laboratório, orçamento e espaço) para facilitar a condução das tarefas na ausência de constrangimentos administrativos, combinando flexibilidade organizacional e capacidade de controlo no nível operacional (Omta, Bouter, e Van Engelen, 1997, p. 168). José Domingos Reis Araújo 91 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica O controlo de processo divide-se em planeamento e processo de comunicação da pesquisa. O planeamento inclui a percepção, pela gestão de topo, da importância do planeamento estratégico, táctico e operacional para o trabalho diário de uma unidade de pesquisa e está ligado à relação entre a gestão de topo e gestão operacional no estabelecimento das metas (Omta, Bouter, e Van Engelen, 1997, p. 169). O processo de comunicação da pesquisa está relacionado com a capacidade de controlo da gestão operacional ligada à pesquisa. O controlo externo refere-se à posição do laboratório na comunidade científica internacional e na rede institucional global (Omta, Bouter, e Van Engelen, 1997, p. 169). Os estudos destes autores permitem concluir que o controlo de gestão é fundamental para o sucesso das empresas farmacêuticas inovadoras e que os laboratórios farmacêuticos de alta performance apresentam as seguintes características distintivas ao nível do controlo de gestão (Omta, Bouter, e Van Engelen, 1995, p. 552): Controlo pessoal: • É prestada bastante atenção à gestão dos recursos humanos e à motivação do pessoal; • São usados planos de carreira que motivam um ambiente de trabalho inspirador; • São dadas oportunidades para o reconhecimento do mérito individual; • São efectuados esforços para ir ao encontro das necessidades específicas do “staff” científico. Controlo administrativo: • Flexibilidade de adaptação a situações de mudança; • Evitar o problema do “red tape”, criando sistemas operacionais que evitem a burocracia; • Os procedimentos são realizados rapidamente. José Domingos Reis Araújo 92 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Controlo externo: • Pesquisa no ambiente externo de novas ideias, oportunidades e recursos financeiros; • Foco na construção e manutenção de uma rede internacional de I&D. O estudo levado a cabo por Omta, Bouter, e Van Engelen, em vinte grandes empresas farmacêuticas, permitiu concluir que as empresas com melhores desempenhos em termos de inovação e capacidade industrial distinguem-se claramente das empresas de menor performance, em termos de flexibilidade organizacional e capacidade de controlo (Omta, Bouter, e Van Engelen, 1995, p. 559). Os mesmos autores concluem que o controlo pessoal (“personnel control”) é a factor socio-dinâmico mais importante na demarcação das empresas de alto desempenho das restantes e a política de pessoal é uma variável chave no controlo de gestão (Omta, Bouter, e Van Engelen, 1995, p. 560). Salas (Salas, 1994) faz referência a estudos sobre empresas inovadoras e de alta tecnologia do sector químico-farmacêutico em Espanha. A utilização do controlo de gestão é influenciada pela cultura das empresas e o mesmo é tendencialmente mais complexo e formal à medida que a dimensão das empresas vai aumentando (Salas, 1994, p. 7). Estas empresas utilizam limitadamente os sistemas de controlo financeiro como mecanismos de controlo e dão mais importância a outros tipos de mecanismos, nomeadamente não formais (Salas, 1994, p. 8). Outra das conclusões importantes deste estudo revela que as empresas farmacêuticas utilizam sistemas de controlo bastante similares entre si, caracterizando-se por serem pouco complexos, orientados para o curto prazo e bastante flexíveis, ou seja adequados a eventuais mudanças tácticas. Apesar disso, apresentam características dos sistemas de controlo mais tradicionais no que respeita a indicadores, estruturas por centros de responsabilidade e critérios de preparação da informação (Salas, 1994, p. 7). Resumidamente, as principais características do sistema de controlo de gestão das empresas farmacêuticas espanholas alvo do estudo são (Salas, 1994, p. 7-9): José Domingos Reis Araújo 93 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica • O processo de direcção orienta-se claramente para o longo prazo e os controlos de planificação e financeiros são orientados para o curto prazo; • É dada maior importância a aspectos qualitativos do que quantitativos. O fomento da motivação, o desenvolvimento de uma cultura compatível com a inovação e o fomento da identificação dos componentes da organização com esta cultura surgem como mecanismos muito importantes no processo de controlo; • A internacionalização das empresas conduz a sistemas de controlo de gestão mais sofisticados e à progressiva evolução da componente de controlo financeiro, contudo é dada primordial importância aos mecanismos informais de controlo; • As variáveis chave e os factores críticos de êxito, acompanhados pelo controlo de gestão, têm mais a ver com a gestão tecnológica dos projectos e comercialização das inovações do que propriamente com a minimização dos custos; No que respeita à realidade nacional, a indústria farmacêutica é claramente dominada pelas grandes empresas multinacionais de características inovadoras. Estas assumem elevados orçamentos de I&D, os quais são a garantia de importantes retornos futuros e consequente manutenção do seu domínio do mercado. São empresas com largas despesas não só nos departamentos de I&D, mas também em activos de marketing e distribuição Para estas, o fabrico não é importante comparado com a investigação e desenvolvimento e a comercialização, que comandam o grosso do investimento. Dado que as empresas farmacêuticas a operar em Portugal são na sua maioria multinacionais, apresentam um modelo de controlo de gestão assente numa lógica predominantemente financeira e de reporte para as suas sedes (“head-quarters”) no estrangeiro, localizadas maioritariamente nos Estados Unidos da América e Europa. São empresas que comercializam medicamentos inovadores protegidos por patente. Desta forma, o controlo de gestão nessas empresas faz normalmente parte da direcção financeira, reportando regionalmente ao director financeiro, o qual por sua vez reporta ao director internacional. Regra geral, aqueles que surgem na primeira José Domingos Reis Araújo 94 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica linha do controlo de gestão com os dados e elementos que produzem, são os departamentos financeiros, responsáveis pela manutenção e produção dos elementos contabilísticos e fiscais. As grandes empresas multinacionais abrangem um vasto leque de áreas terapêuticas e estão normalmente divididas em três grandes áreas “Corporate” nas suas sedes: R&D, (“Research & Development”), Marketing e Vendas, e Operações. A direcção financeira (onde se encontra o controlo de gestão) e a direcção de tecnologias de informação são normalmente áreas de suporte. As filiais regionais recebem anualmente as directrizes das respectivas sedes. Os orçamentos e os “forecasts” das unidades regionais são baseados nessas directrizes e são depois reportados à base “Corporate” (sede). As directrizes incluem principalmente prazos limite para os “reportings”, que informações devem ser reportadas, e como supostamente devem ser reportadas. Essas directrizes funcionam como um modelo global para as filiais e a informação é maioritariamente enviada numa abordagem de cima para baixo, ou seja, são decididas no nível “Corporate”. As empresas farmacêuticas de capital nacional (como a do presente caso), cujas receitas, maioritariamente, advêm da produção de medicamentos-cópia e genéricos (após expiração das patentes dos inovadores), geralmente possuem unidades de controlo de gestão autónomas da direcção financeira, funcionando de modo consultivo e normalmente reportando de forma directa à Gestão de Topo. 3.2. BREVE CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA DO ESTUDO DE CASO O presente caso refere-se a um grupo químico-farmacêutico português com mais de sessenta anos de história, o qual, por razões de confidencialidade e concorrência de mercado, irá ser apenas designado por GRUPO. As duas principais empresas do GRUPO, que irão ser também objecto de estudo, são a FDF e a API, nomes fictícios. Estas duas empresas, apesar de juridicamente distintas, são geridas como uma só entidade, com direcções centrais comuns. Não é objectivo deste estudo analisar ou questionar as opções estratégicas da empresa/grupo, mas sim analisar a evolução do controlo de gestão ao longo das várias fases de evolução da empresa/grupo, o modelo actualmente existente e apresentar propostas de melhoria. José Domingos Reis Araújo 95 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica A informação para o presente caso foi recolhida de diversos documentos internos, tais como relatórios e contas anuais, planos estratégicos, “business plans”, descritivos de funções e manuais de procedimentos. Além destas fontes, foi bastante importante, nomeadamente para a evolução histórica do GRUPO, a recolha de informação directamente de pessoas que trabalham no GRUPO há mais tempo, incluindo o seu próprio fundador. Algumas, mesmo já não trabalhando no GRUPO neste momento, puderam prestar informações importantes sobre as primeiras décadas da sua criação. O GRUPO é de cariz familiar e opera na área químico-farmacêutica, integrando verticalmente a produção de medicamentos para uso humano e veterinário e a produção de matérias-primas de base (ingredientes activos) para o fabrico das especialidades farmacêuticas. A API fabrica matérias-primas de base para a indústria farmacêutica (API’s – "Active Pharmaceutical Ingredients”) e a FDF fabrica e comercializa medicamentos na sua forma final (FDF’s - “Final Dosage Forms”). Não obstante o facto de o GRUPO deter participações sociais em entidades que operam noutros sectores, as entidades mais relevantes no seio do GRUPO são a FDF e a API, as quais garantem a quase totalidade das receitas do mesmo. Neste sentido, revela-se pertinente uma breve análise ao posicionamento destas duas entidades no mercado em que actuam. FDF A FDF opera no mercado da formulação de especialidades farmacêuticas, detendo “know-how” relacionado com a formulação galénica de mais de 200 princípios activos distintos, não apenas de uso humano, como também veterinário, cobrindo um vasto leque de áreas terapêuticas e abrangendo formas distintas de apresentação, como sejam, comprimidos, drageias, suspensões orais extemporâneas e injectáveis, entre outras. A concorrência da FDF no mercado nacional assume um cariz de dispersão e é dominada pelos grandes grupos multinacionais. A maior empresa que actua neste sector tem uma quota de mercado que ronda os 7%, enquanto que a FDF detém menos de 1% de quota de mercado. A FDF tem focado o seu posicionamento no sub-sector dos antibióticos, contribuindo este segmento terapêutico com aproximadamente 47% das vendas totais. José Domingos Reis Araújo 96 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Segundo dados do Relatório e Contas de 2012, na distribuição das vendas por mercados, vem em primeiro lugar o nacional, com cerca de 70% do volume de negócios. As exportações dividem-se pela América Central e do Sul (23%), África (5%) e Ásia (2%). Num mercado cada vez mais controlado no que concerne a preços praticados e que se caracteriza pela imposição de limites para a promoção médica e pela existência de concorrentes de preços reduzidos (medicamentos genéricos), a FDF tem procurado corresponder aos requisitos e necessidades de doentes e profissionais de saúde, que procuram uma prescrição mais efectiva e oportunidades de comparticipação. API A API, enquanto produtora de matérias-primas farmacêuticas, tem o seu “target” no segmento dos antibióticos com actividade centrada nos anti-infecciosos e posiciona-se no subsector de fabricantes de produtos intermédios, localizado entre os sectores químicos, agrícola e alimentar (a montante) e os produtos de especialidades farmacêuticas (a jusante). No seu processo de produção a empresa recorre a diversas tecnologias, sendo considerada especialista não apenas em fermentação de anti-infecciosos e outros activos farmacêuticos, como também em processos de separação novos (como nano e ultrafiltração) e clássicos (como filtração extracção com solvente e permuta iónica), bem como em cristalização e catálise heterogénea. Os tipos de produtos da API podem assim ser agrupados de acordo com a natureza do seu processo de produção: fermentação, síntese química e outros. Refira-se que a empresa é líder mundial na produção do seu principal produto de síntese química, com uma quota global de 60%. A API assume uma vertente essencialmente exportadora. O mercado externo representou 98% do total das vendas em 2012, destacando-se o mercado americano com 66%. Os outros mercados geográficos dividem-se em: Europa com 21%, Ásia com 7%, e América do Sul e África com 2% cada. Em termos concorrenciais, verifica-se uma particular agressividade a nível internacional, competindo a API com produtos em diferentes estádios de vida (a maior parte já numa fase de maturidade ou declínio). Não obstante, embora a maioria dos José Domingos Reis Araújo 97 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica grupos multinacionais concorrentes da empresa se encontrem a operar em Portugal, estes limitam a sua actividade aos produtos farmacêuticos acabados, não colidindo assim com os produtos fornecidos pela API. As informações referidas neste capítulo foram retiradas dos Relatórios e Contas dos anos 2010 a 2012 das empresas FDF e API e dos Planos Estratégicos 2008-2012 e 2013-2017 do GRUPO. José Domingos Reis Araújo 98 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 4. ESTUDO DE CASO GRUPO 4.1. HISTORIAL DA EMPRESA E DO CONTROLO DE GESTÃO DENTRO DA EMPRESA A génese do GRUPO teve a sua origem na década de quarenta, ano em que foi criada a FDF. A sua constituição vem no seguimento da concessão do alvará de especialidades farmacêuticas a uma pequena farmácia. Alguns anos mais tarde, o custo da instalação industrial decorrente das exigências do alvará obtido provocou uma crise financeira que foi ultrapassada com a entrada de uma nova Administração, cujo responsável foi o fundador do GRUPO, que implementou novos métodos de acção, conduzindo a uma nova dinâmica no mercado interno e iniciando uma actividade exportadora, que se manteve até hoje. De facto, a viabilização económica dos projectos de produção de especialidades farmacêuticas e a reduzida dimensão do mercado nacional para este sector, ditaram, praticamente desde o seu início, a internacionalização das suas actividades. Numa lógica de integração vertical, por iniciativa dos seus principais accionistas, foi criada a API no início da década de 60, com a finalidade de produzir matéria-prima para a indústria farmacêutica e de tornar o GRUPO independente em relação a determinadas matérias-primas mais utilizadas na fabricação de medicamentos por parte da FDF. A API especializou-se na fabricação de antibióticos, tendo as suas instalações industriais sido concebidas, desde início, para contemplar os mercados internacionais. A partir dessa altura o GRUPO, assumiu-se definitivamente como um “player” internacional no sector químico-farmacêutico, trabalhando para o mercado global, (exporta anualmente mais de 50% da sua produção), abrangendo zonas do globo tão diferentes como os Estados Unidos, a União Europeia, África, Médio e Extremo Oriente, América Central e do Sul. Em finais dos anos 80, com o objectivo de apoiar administrativamente as principais empresas do GRUPO, foram criadas diversas empresas de serviços. Também nessa altura, aproveitando a experiência acumulada, o GRUPO alargou a sua actividade à transferência de tecnologias para a produção de diversos antibióticos noutros países e José Domingos Reis Araújo 99 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica diversificou a sua actividade para outros sectores como os da edição gráfica e madeiras. Como já referido, o GRUPO é essencialmente familiar, uma vez que os administradores são, na sua maioria, da família do fundador inicial. Nas primeiras duas décadas, a estrutura de gestão assentava num proprietário, ajudado principalmente por familiares e amigos. Os poderes de gestão e de decisão estavam fortemente centralizados. Praticamente tudo era decidido ao nível da Administração, desde a opção de produzir para um novo mercado, recrutamento e compra de equipamento fabril, até à aquisição de material para escritório. Conforme salienta Greiner, nos anos iniciais da gestão de uma empresa, a estrutura organizacional é informal e o controlo é realizado através de resultados de mercado (Greiner, 1998, p. 66). O proprietário planeia, organiza e controla os processos de forma bastante rudimentar. Contudo, somente terá condições de efectuar um controlo visual eficaz do seu património enquanto o volume de negócios é reduzido. Á medida que o volume de negócios vai aumentando, deixa de ser possível fazer o acompanhamento de toda a empresa de forma sensitiva. O crescente volume de actividades impõe maior delegação e, consequentemente, a necessidade de adoptar novas formas de controlo (Greiner, 1998, p. 60). Nesta altura, o Presidente do Conselho de Administração assumia diversas funções e era preponderante, quer ao nível da definição das grandes linhas estratégicas e opções de internacionalização, quer ao nível das principais áreas operacionais, como sejam a produção, comercialização e marketing. Era responsável pela definição da estratégia, áreas de negócio e tipo de mercado e clientes a que a empresa se devia dedicar. Era igualmente responsável por reunir os recursos adequados à implementação dessas orientações e assegurar o devido controlo, no sentido de garantir que os objectivos eram alcançados, detectar desvios e actuar de forma a permitir a sua correcção. Consequentemente, não se verificavam grandes necessidades de coordenação e controlo, uma vez que também não se observava uma elevada divisão do trabalho. O controlo de gestão não era ainda uma função autonomizada dentro da organização, sendo assegurado pela própria Administração que centralizava a grande maioria das decisões. José Domingos Reis Araújo 100 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica O controlo de gestão era baseado na utilização de instrumentos de controlo informais, na liderança do fundador, na delegação de autoridade baseada na amizade pessoal e no desenvolvimento de uma cultura que valorizava e fomentava a lealdade e confiança. Deste modo, desde o seu início e durante muitos anos, o modelo de controlo de gestão do GRUPO foi alicerçado em poderosas formas de controlo pessoais e culturais. Os controlos pessoais/culturais são em regra mais firmes e frequentes em empresas familiares, porque se verifica uma congruência de interesses entre a organização e as pessoas mais influentes para o alcance dos objectivos organizacionais (Merchant, Van der Stede, 2012, p. 131). Até ao início da década de 60, tanto a unidade fabril como os serviços administrativos localizavam-se num único edifício em Lisboa. A construção de duas novas fábricas, uma de medicamentos (na sua forma final) e outra de matérias-primas (que deu origem à empresa API), num Concelho limítrofe de Lisboa, no início da década de 60, conduziu a profundas alterações no modelo de controlo de gestão até então vigente. Em primeiro lugar, deixou de haver contacto directo da Administração com a unidade fabril, levando à necessidade de maior descentralização. A partir desse momento, a necessidade de contratar pessoal especializado foi se tornando cada vez mais um imperativo para o desenvolvimento da empresa. Apesar do fundador ainda deter um papel de destaque na organização, o poder ficou, a partir dessa altura, cada vez menos centralizado nas suas mãos, dado que foi progressivamente dando mais liberdade de actuação a directores e profissionais especializados (técnicos de contabilidade, farmacêuticos, engenheiros), demonstrando conforme Miller e Friesen (Miller e Friesen, 1984, p. 1163), o início da descentralização do poder. Em segundo lugar, com a criação da nova empresa API e consequente necessidade de gestão integrada dos dois pólos industriais, a complexidade aumentou consideravelmente. A necessidade de um sistema de controlo numa organização com operações distribuídas geograficamente é maior do que a de uma do mesmo porte localizada em apenas um local (Flamholtz, 1979). O sistema de controlo facilita a integração ao assegurar que os objectivos sejam atingidos (performance da companhia como um todo) e ao permitir a coordenação das unidades (descentralização das operações diárias). José Domingos Reis Araújo 101 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Nesta fase, a organização passava a verticalizar o negócio farmacêutico, passando a operar também no segmento das matérias-primas para a indústria farmacêutica, com a empresa API, para além de expandir consideravelmente a sua capacidade de produção de medicamentos com a nova unidade fabril da FDF. Na revisão da literatura efectuada, o tamanho da empresa é apontado como um dos principais factores para a emergência do controlo de gestão. Os processos produtivos utilizados eram bastante complexos e tecnologicamente sofisticados para a época, exigindo equipamentos e instalações muito específicos, com um elevado custo de aquisição e de manutenção, e com crescentes exigências de qualificação ao nível do pessoal. Nesta altura, foram empreendidas importantes melhorias no sistema de contabilidade analítica do Grupo, com a criação de centros de custos baseados no método das secções homogéneas, e que viriam a servir de suporte ao desenho dos centros de responsabilidade e à implementação de preços de transferência interna. O Departamento de Contabilidade tinha nessa altura um papel preponderante dado que fornecia a maioria da informação para a Gestão. Embora o controlo de gestão continuasse ainda a não ser uma função autónoma, em parte era assegurado pela contabilidade, na figura do Director de Contabilidade do Grupo, complementado pela própria Administração. O controlo de gestão passou a ser mais uma função do Departamento de Contabilidade, sob a alçada de um administrador para a área financeira. O Departamento de Contabilidade, tal como os restantes serviços administrativos, localizavam-se em Lisboa. Também no início da década de 60, foi criada uma divisão dentro do Departamento de Contabilidade designada por Controlo de Armazéns, que visava a monitorização das actividades do armazém de matérias-primas, de produtos intermédios, e de produtos acabados, para além de fornecer a informação necessária à contabilidade para a valorização dos stocks. Este momento da evolução da empresa, forneceu as bases para a criação de um sistema de controlo contabilístico baseado em centros de responsabilidade. Segundo Drury (Drury, 2009, p. 602) os controlos contabilísticos são das formas mais predominantes de controlo nas organizações. Foi também melhorado o processo de José Domingos Reis Araújo 102 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica planeamento, que conjuntamente com os centros de responsabilidade, constituem os dois elementos principais do controlo de gestão (Drury, 2000, p. 605). Uma outra fase importante para o controlo de gestão no GRUPO verificou-se com a implementação de um novo sistema informático, no início da década de 80, que substituiu o sistema baseado em cartões perfurados utilizado até essa altura. Este novo sistema informático, embora ainda não fosse considerado um ERP (“Enterprise Resource Planning”), porque os diversos módulos não comunicavam entre si, continha já as componentes de gestão de stocks, facturação, processamento de salários, caixa e bancos, para além da contabilidade, e melhorou substancialmente a informação para a Gestão. Também a partir desta altura generalizou-se a utilização do computador pessoal. Em meados dos anos 90, a Administração e os serviços administrativos, que estavam ainda em Lisboa, passaram para o complexo fabril. O GRUPO tinha na altura cerca de 1000 pessoas divididas não só pelas duas principais empresas, FDF e API, como também por outras empresas de serviços que tinham sido criadas desde o início da década de 80 para apoiar administrativa e comercialmente o Grupo. Em termos gerais, a idade média das pessoas era elevada e a grande maioria tinha uma antiguidade nas empresas superior a vinte anos, sendo que algumas delas estavam na FDF desde a primeira década da empresa. O modelo de gestão que existia nesta altura era um modelo simples e de cariz familiar. O poder de decisão estava centralizado na Administração, à qual cabia a definição da estratégia. Mesmo os objectivos mais operacionais nem sempre eram definidos e acompanhados em conjunto com os colaboradores. Por outro lado, na maior parte dos casos, não era estabelecida de forma explícita a correlação entre esses objectivos e os resultados da empresa. A gestão era verticalizada, com uma limitada participação dos colaboradores, e a monitorização não tinha uma frequência regular. A implementação do ERP em finais da década de 90 iria permitir uma melhor utilização dos centros de responsabilidade e dos preços de transferência. A implementação do MRP (“Material Resource Planning”) na década seguinte facilitou o processo de planeamento. José Domingos Reis Araújo 103 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Contudo, só foi conseguido o melhor aproveitamento possível destas importantes ferramentas após um processo de restruturação e downsizing iniciado em 2006, que coincidiu com a entrada de um novo CEO (“Chief Executive Officer”). Precisamente nesta altura foi autonomizado o controlo de gestão dentro da estrutura da empresa, funcionando como órgão de “Staff”, conforme se pode visualizar no organograma geral seguinte. Figura 9 - Organograma Geral do GRUPO As áreas da Direcção Administraria e Financeira (Finanças) e de Recursos Humanos são comuns às empresas FDF e API. Os serviços de compensação salarial, pagamentos a entidades externas, gestão tesouraria e de contabilidade do GRUPO, são efectuadas centralmente pelas áreas Financeira e de Recursos Humanos De 2006 a 2012 o GRUPO passou por um profundo processo reestruturativo que consistiu principalmente na melhoria dos controlos internos, implementação de uma sistema de gestão integrado, reorganização da estrutura corporativa e optimização dos processos e dos recursos. Tal conduziu a uma forte redução da força de trabalho e a uma melhoria da performance operacional, eficiência e rentabilidade. A reorganização do GRUPO, entre 2006 e 2012, englobou os seguintes temas e propósitos centrais: - Foco na eficiência (Optimização de processos e recursos); - Auditorias internas (Qualidade, Ambiente e Segurança; Energia; TI’s; Financeira); José Domingos Reis Araújo 104 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica - Implementação do Sistema de Gestão Integrado, “Balanced Scorecard” e “Lean Six Sigma” 3; - Controlos internos transversais às empresas do Grupo; - Nova Imagem do Grupo; - “Outsourcing” das áreas não estratégicas (Logística e Distribuição, Tecnologias de Informação, Segurança, Cantina); - Formação alargada (TI’s, marketing, vendas, qualidade, ambiente e segurança, idiomas) No que respeita à FDF, os objectivos transversais visavam: - Optimização do portfólio de produtos: eliminação de produtos/apresentações com vendas anuais baixas ou com baixa rentabilidade; - Reclassificação ABC de especialidades farmacêuticas, médicos e farmácias; - Reorganização e redimensionamento da força de vendas. Quanto à API, os objectivos transversais propunham: - Redução dos custos fixos através do redimensionamento de sectores de apoio (qualidade, manutenção, utilidades); - Utilização de instalações anteriormente ociosas para a produção de outros Princípios Activos; - Dinamização das áreas piloto de fermentação e síntese química; - Dinamizar as áreas de “Contract Manufacturing” e “Business Development”. Verificou-se uma forte redução do pessoal em praticamente todas as áreas funcionais das empresas. Em 2005 o GRUPO funcionava com cerca de 800 pessoas, enquanto que em 2010 o número de efectivos era ligeiramente inferior aos 400. Esta redução foi em parte natural, pela entrada em idade de reforma de algumas pessoas, tendo as restantes rescisões sido por mútuo acordo. Em final de 2012, as duas principais 3 Metodologia de melhoria de processos que combina duas ideias base: “Lean” – conjunto de técnicas para reduzir o tempo necessário de produtos ou serviços, e “Six Sigma” – conjunto de técnicas para melhorar a qualidade de produtos ou serviços e contribuir para um incremento substancial da satisfação do cliente. José Domingos Reis Araújo 105 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica empresas do GRUPO tinham 333 pessoas. O volume de negócios consolidado do GRUPO ascendeu, em 2012, a cerca de 39 milhões de Euros, atingindo 3,9 milhões de EBITDA. Foram também dissolvidas/fundidas diversas empresas dentro do GRUPO, por não terem actividade ou por não terem representação significativa em termos consolidados. Refira-se que as duas principais empresas do GRUPO (FDF e API) representam 98% do volume de negócios consolidado. Este processo de reestruturação foi apoiado numa mudança cultural no sentido de uma maior responsabilização em detrimento de uma cultura mais patriarcal que vinha do passado. O controlo de gestão foi fundamental neste processo de reestruturação, pela organização e implementação de processos e procedimentos, para além do apoio dado à gestão na elaboração e acompanhamento dos planos operacionais e estratégicos. Deste modo constata-se, tal como no modelo de Flamholtz, Das e Tsui (Flamholtz, Das e Tsui, 1985), anteriormente apresentado, que a institucionalização de um sistema central de controlo foi aqui usada como um veículo de mudança cultural. A informação histórica sobre o GRUPO e as empresas FDF e API foi retirada dos Relatórios e Contas dos anos de 1985 a 2013 de cada uma das empresas, do Diagnóstico e Análise Estratégica das empresas FDF e API datado de Fevereiro de 1996, do Diagnóstico e Análise Estratégica do GRUPO datado de Outubro de 2005 e dos Relatórios dos Preços de Transferência dos anos 2006 a 2012 das empresas FDF e API. Para além desses documentos, foram ainda recolhidos dados importantes para esta secção em entrevistas informais aos administradores e colaboradores das empresas do GRUPO. 4.2. O ACTUAL MODELO DO CONTROLO DE GESTÃO Como já foi referido, o controlo de gestão, como função autónoma, apenas foi criado em 2006 com a entrada de um novo CEO. Anteriormente, essa função era parcialmente assegurada pela Contabilidade Analítica, sob a alçada da Direcção Financeira. Contrariamente ao que acontecia nos modelos anteriores, em que o José Domingos Reis Araújo 106 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica controlo de gestão era visto como um mero instrumento ou técnica da Contabilidade, agora o controlo de gestão tem um âmbito bastante mais alargado e é considerado como pedra angular da condução da estratégia. Embora não existindo nenhum documento formal que constitua um manual de procedimentos para o controlo de gestão do GRUPO, verifica-se que, actualmente, o controlo de gestão do GRUPO funciona não como um órgão de linha, mas sim como um órgão de “staff” ou consultivo, sendo as suas principais funções: • Análise estratégica: recolha de um conjunto diverso de informação sobre a envolvente externa e interna do GRUPO com vista à realização de diagnósticos para apoio à tomada de decisões estratégicas por parte da Administração. • Apoio ao planeamento estratégico: o processo de planeamento estratégico é fundamental numa indústria como a farmacêutica e este encontra-se devidamente formalizado no GRUPO ao nível da Administração; o controlo de gestão apoia esse processo ao nível da coordenação e conselho. • Apoio na definição de objectivos: ao nível da definição de objectivos, o GRUPO define primeiramente os objectivos estratégicos ao nível da Administração. Seguidamente são definidos os objectivos funcionais e departamentais e os objectivos operacionais para o curto prazo, normalmente um ano. O controlo de gestão tem aqui basicamente um papel de animação e de coordenação. • Elaboração e acompanhamento do Plano: o termo utilizado internamente é “Plano” mas refere-se ao Plano Operacional, o qual é traduzido mais em detalhe pelo “Budget” (Orçamento). • Gestão de projectos: o controlo de gestão do GRUPO nos últimos anos assumiu um papel preponderante ao liderar e dinamizar diversos projectos transversais a várias áreas, desde a produção à logística e distribuição. O GRUPO tem duas áreas principais de negócio: FDF e API. A empresa FDF produz, comercializa e promove especialidades farmacêuticas, divididas em: - Medicamentos Sujeitos a Receita Médica - Medicamentos de Uso Exclusivo Hospitalar José Domingos Reis Araújo 107 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica - OTC’s 4 e Nutracêuticos - Medicamentos Genéricos - Dispositivos Médicos - Medicamentos de Uso Veterinário A empresa API produz e comercializa princípios activos para a indústria farmacêutica, divididos em: - Produtos de Síntese Química - Produtos de Fermentação - Serviços de “Contract Manufacturing” 5 O modelo global do controlo de gestão actualmente existente pode ser observado na figura da página seguinte. Conforme se pode concluir da análise da figura 10, o modelo de controlo de gestão do GRUPO baseia-se principalmente no planeamento e controlo orçamental, sendo considerado uma ferramenta essencial a uma gestão dinâmica e rigorosa. É um modelo que assenta na sistematização de processos e concilia orientações e objectivos estratégicos com indicadores e planos operacionais. Estas ferramentas apoiam a gestão na monitorização do desempenho da empresa. A evidência de controlo interno na estrutura do GRUPO pode ser aferida por: “Controls: The Group is organized by departments, each with specific responsibilities. Several controls can be identified in different processes, not only high but low level controls. Systems: The Group possesses a large system infrastructure, covering all core processes … risk is controlled by the existence of an IT department, responsible of the maintenance and control of all information. Quality of Management / Finance Functions: …its possible to identify appropriate duty segregation in all core processes and that management presents the adequate level of skills and knowledge to run and control the business”. (retirado de relatório de auditoria da KPMG ao GRUPO, Junho de 2009) 4 5 “Over the Counter” ou medicamentos não sujeitos a receita médica. Fabrico para terceiros. José Domingos Reis Araújo 108 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Figura 10 - Modelo global do controlo de gestão do GRUPO O GRUPO define a sua Missão corporativa, estabelecendo os fundamentos que orientam a formulação de estratégias e padrões para o desenvolvimento da organização nas dimensões das áreas de negócio FDF e API. A Missão é revista apenas quando existem alterações significativas no contexto empresarial. Em 2007, o GRUPO redefiniu a sua finalidade, sendo que a Missão é: “Desenvolver, produzir e comercializar substâncias activas, medicamentos, produtos de saúde e bem estar que contribuam para a melhoria da qualidade de vida”, e a Visão: “Ser em 2015, um dos maiores e melhores grupos químico-farmacêuticos no mercado nacional e internacional, reconhecido como parceiro científico, tecnológico e comercial de excelência”. José Domingos Reis Araújo 109 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica À semelhança do que foi realçado no Modelo de Ferreira e Otley (Ferreira e Otley, 2009), também o GRUPO considera a definição da visão e missão como fundamentais, porque permite identificar as grandes orientações e os objectivos globais que a organização pretende prosseguir. A formulação da estratégia e respectiva quantificação da mesma é função da Administração, numa perspectiva “top-down”. Daqui resulta um conjunto de esforços visando conciliar os objectivos e iniciativas estratégicas (Plano Estratégico) com os planos operacionais ( “Business plans” ) das áreas de negócio FDF e API. O Plano Estratégico e os “Business Plans” das Áreas de Negócio são normalmente preparados a cinco anos e são devidamente suportados por estudos e análises detalhadas. A sua elaboração tem como base, entre outros, a definição das principais linhas orientadoras do GRUPO, dos seus objectivos gerais, o estudo do meio envolvente, o estudo do potencial do GRUPO, os estudos comerciais, industriais e organizacionais, a formulação estratégica e os projectos de investimento e reestruturação. No contexto das condicionantes externas, assumem extrema importância a evolução dos mercados onde actua e novos mercados, bem como a análise dos “stakeholders”, parcerias e acordos. Sob a orientação do Plano Estratégico definido pelo GRUPO, são preparados os Planos Operacionais (Planos) a três anos, divididos em área de negócio FDF e área de negócio API. Os Planos cobrem o período de três anos e traduzem em acções o Plano Estratégico. Trata-se de um plano abrangente, contendo os seguintes subplanos para cada uma das empresas: - Plano Comercial e Marketing - Plano de Produção - Plano de Recursos Humanos - Plano de Investimentos - Plano Qualidade, Ambiente e Segurança - Plano de Tecnologias de Informação - Plano de Contingências (positivas e negativas) e de Avaliação de Riscos José Domingos Reis Araújo 110 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica - Plano Financeiro - Plano Tesouraria Em consequência da aposta estratégica no desenvolvimento de novos processos que permitissem redução de custos, bem como em novos produtos para renovar o portfólio, nos últimos anos as empresas FDF e API aumentaram os seus investimentos em Investigação e Desenvolvimento (I&D). Deste modo, seria importante criar e monitorizar um Plano de I&D. O Budget traduz em números o primeiro ano do Plano para cada uma das empresas FDF e API e é a ferramenta mais utilizada no acompanhamento da actividade das mesmas durante o ano, apresentando todo o detalhe necessário para que a avaliação do desempenho do GRUPO seja devidamente monitorizado. Para além das Contas de Exploração mensais, o Budget apresenta também quais os planos de acção de curto prazo com impacto mais imediato na actividade das empresas / áreas de negócio, nomeadamente: acções de cariz comercial e “pricing”, acções de optimização de custos, acções de reorganização dos recursos humanos, e acções de optimização de processos com ou sem recurso a investimentos. Os investimentos devem estar devidamente detalhados e fundamentados, contendo a justificação para o investimento e respectivo impacto, bem como o retorno (“payback”) esperado. O Plano e Budget são elaborados no final do terceiro trimestre / início do quarto trimestre do ano e aprovados pela Administração normalmente até final de Novembro. O Controlo de Gestão fornece a planilha (em Excel) aos diversos departamentos, fazendo, no final do processo, a consolidação para aprovação da Administração. O Plano, ao ser posto a aprovação, pode ser sujeito a negociações com idas e voltas e arbitragens. O Controlo de Gestão tem aqui uma função de coordenação actuando em dois sentidos: ao lado da Administração, verificando a satisfação dos objectivos, procedimentos e quantificação dos planos de acção, e prestando também apoio, quando necessário, aos vários departamentos, na explicação das despesas. O Budget é periodicamente revisto através da técnica de “Rolling Forecast”, normalmente a cada três meses, sendo preparado um novo orçamento (Forecast 0, Forecast 1…3) que contempla sempre um horizonte temporal fixo, tipicamente 12 ou José Domingos Reis Araújo 111 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 18 meses. No entanto, é importante referir que, apesar de trimestralmente se preparar uma nova estimativa de desempenho para o ano, o Plano permanece inalterado durante todo ano. O método de “rolling forecast” permite sempre obter uma perspectiva futura da performance da empresa que ultrapassa o ano fiscal. Este método confere ao orçamento dinâmica, permitindo avaliar o impacto das decisões de uma forma contínua e avaliar a trajectória da empresa face aos objectivos de médio prazo. Refira-se que o modelo de planeamento e controlo orçamental, não se encontra integrado com o sistema de ERP do GRUPO, sendo efectuado “fora do sistema” em ambiente Excel. O circuito documental e o sistema contabilístico foram ajustados por forma a nos primeiros cinco dias do mês a Administração ter a informação necessária à gestão, incluindo a conta de exploração do mês anterior e um conjunto de indicadores-chave em cada área funcional. Contudo tal prazo nem sempre é possível devido a algumas ineficiências do circuito documental. A demonstração de resultados é elaborada pelo departamento financeiro e revista e analisada pelo Controlo de Gestão. As contas anuais são normalmente fechadas até ao dia 20 de Janeiro. A informação de vendas (ver fig. 11 do ponto 4.3) é disponibilizada, numa base semanal, para a Administração e Directores. O GRUPO implementou em 2008 um Sistema de Gestão Integrado de Qualidade, Ambiente e Segurança, suportado no “Balanced Scorecard” e baseado na metodologia “Lean Six Sigma”, com o objectivo de ser uma peça fundamental no apoio ao controlo de gestão. Para tal, o GRUPO foi esquematizado num modelo de funcionamento constituído por um conjunto organizado de diferentes processos, inter-relacionados e interagindo entre si como um todo homogéneo e coerente. Foram definidos indicadores estratégicos e indicadores operacionais e um calendário de acompanhamento dos mesmos. A excessiva morosidade na obtenção de alguns indicadores, especialmente não financeiros, motivou algum abrandamento na medição dos desempenhos das várias José Domingos Reis Araújo 112 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica áreas/processos, conduzindo a um sentimento de “ineficácia” do sistema implementado. O sistema funcionou ainda até final de 2011, tendo sido abandonado, nessa altura, o acompanhamento integrado dos vários indicadores, apesar de alguns ainda serem monitorizados regularmente. Todavia, é objectivo da Administração a retoma do modelo após as necessárias correcções às situações que levaram ao seu abandono enquanto metodologia de gestão. Não existe um sistema de avaliação do desempenho individual extensivo a todo o GRUPO, sendo apenas feita numa base regular (trimestral), pelo Controlo de Gestão, a avaliação dos comerciais, para aferição dos prémios de acordo com os objectivos de vendas estabelecidos. Como instrumentos de comunicação, salientam-se especialmente as reuniões periódicas da Administração com os Directores e com os Técnicos. As reuniões com os Directores têm uma periodicidade mensal e contam, para além da Administração, com a presença do: - Responsável do Controlo de Gestão; - Responsável das Tecnologias de Informação e Comunicação (“outsourcing”); - Director Administrativo e Financeiro; - Director de Recursos Humanos; - Director Fabril da FDF; - Director Fabril da API; - Director de Assuntos Regulamentares - Director de Marketing e Vendas; - Director de Marketing Internacional. Estas reuniões constituem verdadeiros “instrumentos de diálogo” (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 40). Nessas reuniões são apresentados, pelo Controlo de Gestão, diversos indicadores de desempenho do GRUPO, nomeadamente: vendas por segmentos e mercados, José Domingos Reis Araújo 113 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica produtos mais representativos (análise de Pareto 80-20), e resultados (margens brutas, EBITDA, EBIT e resultado líquido). Seguem-se normalmente apresentações dos directores contendo as principais actividades, projectos das respectivas áreas, alguns indicadores operacionais, e dados de mercado/”benchmarks”. Nas reuniões periódicas com os Técnicos, estão presentes todos os quadros superiores e médios do GRUPO e funcionam de modo similar às reuniões mensais de Direcções, ou seja, são feitas apresentações dos principais indicadores financeiros, dos resultados alcançados, e de alguns indicadores operacionais por áreas. Refira-se que nestas reuniões, principalmente nas realizadas no último trimestre do ano, são também difundidos os objectivos estratégicos do GRUPO bem como as principais linhas de acção do Plano a três anos e é salientada, pela própria Administração, a necessidade de passar toda essa informação para os níveis hierárquicos inferiores. Tendo em conta os modelos analisados na revisão da literatura, o GRUPO segue de muito perto o modelo clássico de Anthony (Anthony, 1965) na medida em que privilegia o planeamento e controlo orçamental. De facto, apesar de não deixar de ser uma ferramenta importante, o modelo actualmente existente é suportado pelo orçamento anual e análise dos desvios e maioritariamente baseado em indicadores financeiros, o que conduz a uma excessiva ênfase na informação numérica passada. Por outro lado, e contrariamente à abordagem de Merchant (Merchant, 1998), podemos concluir que o modelo de controlo de gestão do GRUPO assume tanto o carácter de controlo estratégico como de controlo de gestão propriamente dito. Tal tem também a ver com a natureza da função de controlo de gestão no GRUPO, que é essencialmente de “staff”, ou de apoio á Administração, não estando hierarquicamente subordinada à área financeira como acontece em grande parte das empresas farmacêuticas, principalmente as multinacionais, que procedem a “reportings” periódicos para as suas sedes. Apesar de ser cibernético na sua natureza, o modelo de controlo de gestão do GRUPO possui características de um sistema aberto, patente na realização das reuniões periódicas com os técnicos, que servem, para além de comunicar os objectivos estratégicos, para fortalecer a cultura organizacional. São assim reconhecidas, dentro do modelo de controlo de gestão do GRUPO, a existência das José Domingos Reis Araújo 114 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica variáveis contextuais, preconizadas no modelo proposto por Flamholtz, Das e Tsui (Flamholtz, Das e Tsui, 1985) e dos sistemas de crenças referidos por Simons (Simons, 1995; 1995a). Na perspectiva do modelo de Simons (Simons, 1995; 1995a), o GRUPO opta principalmente por um sistema de controlo de diagnóstico, o qual é reconhecido por ter um foco excessivo nas actividades passadas. Idealmente deveria evoluir para um sistema mais condizente com o preconizado por Ferreira e Otley (Ferreira e Otley, 2009), onde sistemas de controlo diagnóstico e sistemas de controlo interactivo coexistem. A interacção entre a gestão e os empregados, permite responder proactivamente com base numa aprendizagem sobre as ameaças e oportunidades, num contexto ambiental onde as condições competitivas estão a ser frequentemente alteradas, como é o caso da indústria farmacêutica. O facto de o GRUPO não estar a usar plenamente uma importante ferramenta como é o caso do BSC, não permite uma clara ligação do comportamento às metas e a efectiva responsabilização pelas variações na performance. Só assim, numa perspectiva de análise pelo modelo de Malmi e Brown (Malmi e Brown, 2008), o sistema de controlo do GRUPO passaria de um sistema meramente cibernético, ou seja, apenas sistema de informação para o suporte à decisão, para um verdadeiro sistema de controlo de gestão. A informação relevante para esta secção foi retirada do Plano Estratégico 2013-2017 do GRUPO, dos planos operacionais (“business plans”) das empresas FDF e API para esses anos, dos manuais de procedimentos e dos descritivos de funções em vigor para a área administrativa e financeira, do manual do sistema de gestão integrado (qualidade, ambiente e segurança), e do relatório de auditoria da KPMG ao GRUPO datado de Junho de 2009. Foi também recolhida informação proveniente de algumas reuniões de Direcções e de reuniões trimestrais com os técnicos, nomeadamente referentes a apresentações (slides) efectuadas nas mesmas. 4.3. FONTES DE INFORMAÇÃO E SUA RECOLHA A base de partida para o actual controlo de gestão é o Plano (a 3 anos), sendo o Budget a peça fundamental para proceder ao acompanhamento das actividades do GRUPO. José Domingos Reis Araújo 115 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica A informação interna para as actividades do controlo de gestão provém principalmente do sistema de ERP e da contabilidade, os quais consubstanciam os dados para outras duas peças fundamentais na monitorização do desempenho do GRUPO: a conta de exploração mensal e o mapa semanal de vendas por segmentos. Na figura 11 podemos visualizar o modelo de conta de exploração que é mensalmente actualizada, numa base “year-to-date” (YTD). O modelo da conta de exploração (figura 11) representa os dados consolidados. A mesma estrutura é aplicada para as empresas FDF e API numa base individual. Este conjunto de informação resume a conta de exploração do mês anterior que é apresentada todos os meses, acompanhada de uma breve análise dos desvios (efectuada pelo Controlo de Gestão). Este mapa deveria ser disponibilizado à Administração até ao quinto dia útil do mês seguinte, no entanto, como se viu atrás, nem sempre tal é possível. O mapa semanal de vendas (ver figura 12) é enviado pelo Controlo de Gestão no final da semana à Administração e a todos os directores. A sua estrutura permite acompanhar desempenho das vendas por segmentos considerados importantes para o GRUPO. Este mapa é também desdobrado em termos de unidades (embalagens para a empresa FDF, e toneladas para a empresa API). Para uma correcta avaliação do desempenho dos vários segmentos seria igualmente importante a obtenção de um mapa onde se pudesse visualizar não só o desempenho ao nível das vendas mas também ao nível dos custos. Contudo tal informação não é possível obter de uma forma directa, na medida em que o custeio implementado não está segmentado da mesma forma. Mesmo de forma indirecta a obtenção desses dados torna-se morosa. A contabilidade e o sistema de ERP permitem uma forma automatizada de custeio da produção, com imputação directa do custo dos produtos. O custeio utilizado insere-se dentro de uma lógica de absorção, ou seja, os custos directos e indirectos são repartidos pelos produtos. O tipo de custo utilizado é o do custo standard. José Domingos Reis Araújo 116 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Figura 11 - Modelo de DR mensal do GRUPO Consolidado GRUPO DR Mensal YTD Ano n-1 Real Ano n Previsão Ano n Real % Vendas % Cump. Forecast % Cresc. Vendas Variação da produção Rendimentos Operacionais Custo Merc. Vend. e Mat. Cons. Margem Bruta (Margem Bruta) Prestação de serviços Outros Rendimentos FSE Pessoal Outros Gastos Operacionais EBITDA (Margem EBITDA) Provisões Amortizações e ajustamentos Reversões de amortizações EBIT (Margem EBIT) Juros e rendimentos similares obtidos Juros e gastos similares suportados EBT Imposto Resultado Líquido Figura 12 - Mapa semanal de vendas do GRUPO Vendas Líquidas DATA: 18 de outubro de 2013 OUTUBRO 2013 2012 ACUMULADO (ATÉ OUTUBRO) Real OUTUBRO Semana 1 Semana 2 Semana 3 Semana 4 Dias úteis do mês 23 Semana 5 Acumulado % Previsão % % Homólogo Ano Previsão % % Peso (Mês) Previsão Cresc. 2012 2013 (Acum) Previsão Cresc. Negócio Dias úteis decorridos 14 61% GRUPO - € - € - € - € - € - € - € - € * * - € - € - € * FDF - € - € - € - € - € - € - € - € * * - € - € - € * * * Ambulatório - € * * * * Hospitalar - € * * * * Suplementos e Prod. Saúde - € * * * * OTC´s - € * * * * Genéricos - € * * * * Veterinária - € * * * * Exportação - € * * * * * * Produção para terceiros API - € - € - € - € - € - € - € - € - € * * * * - € - € - € * * Síntese química - € * * * * Fermentação - € * * * * Outros produtos - € * * * * Contract Manufacturing - € * * * * GRUPO (Serviços) - * * * * * * * * Total GRUPO GOAL (Inclui Extra-Grupo) - € - € - € - € - € - € € - € - € - € - € - € Para além da informação interna, são também recolhidos regularmente dados externos, como por exemplo: dados económicos sobre Portugal e países importantes para a estratégia do GRUPO, dados sobre a concorrência, dados do mercado farmacêutico regional, nacional e mundial. José Domingos Reis Araújo 117 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica A generalidade dos mapas e reportes são construídos “manualmente” em Excel ou exportados para este formato, com base na informação contida no ERP e contabilidade. Não existe nenhuma ferramenta de BI (“Business Intelligence” 6 Posteriormente, ou são enviados por mail aos respectivos responsáveis ). disponibilizados em pastas partilhadas na rede interna, de acordo com níveis de acesso. Todas estas actividades de reporte, semanal e mensal, despendem muito tempo em recursos humanos, têm fragilidades em termos de coerência da informação e obrigam a validações adicionais para garantir a credibilidade e a coerência da informação. Com base em novos sistemas de informação estes constrangimentos poderiam ser minimizados, para além de contribuírem para um melhor acesso à informação e potenciarem decisões de melhor qualidade e em menor tempo útil. Os Gestores do GRUPO, necessitam cada vez mais, em tempo real, não apenas da informação para a gestão corrente, mas também da informação para a decisão, ou seja, a informação tratada e agregada de modo a produzir os indicadores que ajudem as tomadas de decisão. O actual sistema de ERP não foi concebido e implementado para permitir essas funcionalidades. Por forma a potenciar ao máximo a utilização do seu software, a evolução para um sistema de “Business Intelligence” poderia proporcionar informação de melhor qualidade e de forma mais tempestiva à Gestão. O que se pretende é tornar os factos visíveis, calculáveis e, no fim, controláveis (Macintosh e Quattrone, 2010, p. 286). 4.4. INTERPRETAÇÃO E ANÁLISE DE RESULTADOS Os indicadores seguidos de forma mais cuidadosa e regular são os ligados a: • Vendas • Facturação • Tesouraria • Evolução dos Custos e Proveitos • Performance Face ao Plano 6 Consiste na organização de dados em número elevado (normalmente de várias origens e bases de dados) com a finalidade de obtenção de informação qualitativa com o intuito de obtenção de conhecimento que permita a tomada de decisões. José Domingos Reis Araújo 118 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Os indicadores obtidos para cada área são analisados, em primeiro lugar, pelo respectivo responsável. A utilização dos indicadores é um aspecto fundamental na análise do GRUPO e deveria permitir aos seus gestores: ◦ Obter uma visão completa sobre a posição e a performance da organização; ◦ Controlar desempenhos e analisar desvios; ◦ Apoiar a tomada de decisões; ◦ Detectar as tendências e delinear as perspectivas futuras para o negócio; ◦ E ainda, ajudar a identificar os pontos fortes e fracos da organização. A conta de exploração mensal (figura 11) é analisada principalmente sob três perspectivas: comparativamente ao ano anterior, à previsão (“forecast”), e em função das vendas (% das vendas). No modelo actual a conta de exploração mensal é global. Idealmente, a DR deveria permitir a possibilidade de desagregação por área ou segmento de negócio. No mapa semanal de vendas é usada também a análise face ao ano anterior e face à previsão. O mapa em si, não permite uma forma de análise tipo “drill down / drill up”, nem a análise multidimensional com a funcionalidade “drag and drop” 7. Os resultados das várias actividades do GRUPO são confrontados com as metas previamente estabelecidas para apuramento dos níveis de performance em cada área operacional. Contudo, tal só é efectuado ao nível das vendas, não sendo feita uma análise segmentada dos resultados, incluindo os custos para os obter. O conceito de centros de responsabilidade está um pouco desvirtuado na medida em que existem áreas e departamentos com determinadas funções na organização, mas a sua eficiência não é medida, nem o seu desempenho é reflectido na avaliação dos respectivos gestores de forma clara e objectiva. 7 Possibilidade de mover objectos de análise num interface gráfico em aplicações (“software”) de computador, aumentando o leque de opções de análise e associações entre dados. José Domingos Reis Araújo 119 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Para além das formas de monitorização referidas, são ainda acompanhados de forma maios ou menos regular os diversos projectos em curso, incluindo os projectos de I&D. Todavia, apesar de se utilizar o conceito de projecto, a sua utilização é meramente técnica, ou seja, não é apurada e monitorizada regularmente a rendibilidade real de cada projecto, nem existe algum sistema onde essa informação esteja compilada de uma forma centralizada. A informação necessária a esta secção bem como à anterior foi recolhida no sistema ERP do GRUPO, em diversos relatórios e documentos contabilísticos, designadamente, balancetes e mapas por centros de custo e em relatórios periódicos destinados à Gestão, que cobriram os períodos de Setembro de 2012 a Dezembro de 2013. 4.5. LACUNAS E EXPECTATIVAS DA ORGANIZAÇÃO RELATIVAMENTE AO CONTROLO DE GESTÃO O actual modelo de controlo de gestão tem vindo a ser seguido desde 2006 e conta com a colaboração e participação crescente dos gestores operacionais. Contudo, dado que a organização teve, desde o seu início e durante muitos anos, uma gestão excessivamente centralizada, ainda se verifica pouca responsabilização ao nível dos principais gestores e respectivas equipas. No fundo, são estes os principais agentes do processo de controlo de gestão, na medida em que deverão intervir directamente na fixação dos objectivos, planos de acção, acompanhamento da sua realização e nas medidas correctivas (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 13). Se não se sentirem como gestores descentralizados e empossados de responsabilização para tal, o controlo de gestão não funcionará correctamente. A este respeito, a Administração está plenamente consciente de que as pessoas da organização podem ser verdadeiros agentes da mudança, quando afirma que “…os colaboradores do GRUPO são os verdadeiros protagonistas desta história e vão ser eles os decisores do futuro desta empresa.” O modelo de controlo de gestão existente no GRUPO caracteriza-se por ser um modelo de cariz puramente financeiro, monitorizando unicamente variáveis de cariz contabilístico como as vendas por segmentos e a demonstração de resultados, desprezando variáveis financeiras importantes como o balanço (activos e passivos) e variáveis de cariz não financeiro. José Domingos Reis Araújo 120 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica O actual controlo de gestão está muito limitado à contabilidade e aos controlos financeiros. Deveria incluir uma mais vasta gama de controlos não financeiros ou não cibernéticos, medidas de performance e controlos de recursos humanos como o recrutamento, treino, supervisão e cultura. Outra das situações que mais atenção deve dispensar por parte da Administração e do controlo de gestão, e que pode também considerar-se uma das actuais lacunas, é o desenho dos sistemas de incentivos. Na área comercial, em particular, poderá haver a possibilidade de os directores, com o objectivo de aumentar vendas em determinados momentos para atingir/superar as metas propostas nos orçamentos anuais, penalizarem as vendas em momentos posteriores, através de grandes quantidades de devoluções por prazos de validade, ou seja vendas de produto sem rotação no mercado. Neste sentido, o sistema de incentivos pode conduzir à desvirtuação de resultados ou à manipulação das variáveis que conduzem à sua obtenção (Merchant, Van der Stede, 2012, p. 384). Actualmente não existe um sistema global de avaliação do desempenho individual. A avaliação é feita apenas aos comerciais numa base trimestral, pelo Controlo de Gestão, atribuindo-se prémios de acordo com os objectivos de vendas estabelecidos em sede orçamental. Apesar de o BSC ser reconhecido pela Administração como um sistema de extrema utilidade, não tem vindo a ser aproveitado na sua plenitude, isto é, ainda não é um instrumento de apoio da gestão na tomada de decisão, e de operacionalização de toda a informação relevante para o controlo de gestão e estratégia da organização. Tal configura outra das lacunas do actual sistema e que pode ser amplamente melhorado. Ao nível do aproveitamento da plataforma tecnológica e do sistema ERP existente, verifica-se ainda uma margem de progressão, que se traduziria em bastantes ganhos para o sistema de controlo de gestão. Actualmente, grande parte da informação para o controlo de gestão provém da contabilidade geral e analítica, sendo relativamente moroso o processo de obtenção de informação, quando se pretende proceder, por exemplo, a uma análise numa perspectiva de rendibilidade por tipo de negócio, cliente, geografia, ou outra. José Domingos Reis Araújo 121 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Também o modelo de planeamento e controlo orçamental, não se encontra integrado com o sistema de ERP do GRUPO, sendo efectuado “fora do sistema” em ambiente Excel. Partindo do modelo actual e no sentido de aproveitar todas as potencialidades dos sistemas existentes, é expectativa da organização evoluir para um sistema de BI (“business intelligence”), através do qual é possível conceber informação (financeira e não financeira) em diversas perspectivas de análise cruzando-a em múltiplos segmentos, permitindo uma visão multidimensional. O objectivo seria abrir a possibilidade de múltiplas análises, como por exemplo a segmentação da informação financeira por projectos cruzando-os matricialmente com a sua geografia/mercado, possibilitando ao gestor a análise projecto a projecto, cruzando com o respectivo mercado onde se insere. Por último, constata-se que não existe um manual de procedimentos para o controlo de gestão do GRUPO, o qual constituiria um referencial importante para a sistematização dos processos e para a correcta atribuição de responsabilidades aos vários intervenientes (Caldeira, 2014, p. 59). A figura 13 resume e sistematiza as lacunas ou limitações do modelo existente, evidenciadas atrás, e as expectativas da organização para as ultrapassar. Figura 13 - Lacunas e expectativas do GRUPO em relação ao CG José Domingos Reis Araújo 122 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 5. MODELO PROPOSTO Tendo em conta a revisão da literatura efectuada e a análise anterior ao SCG existente do GRUPO, o Modelo de Controlo de Gestão para o GRUPO deverá aliar dois aspectos fundamentais: 1) alinhamento dos objectivos organizacionais e individuais, induzindo um comportamento individual consistente com as estratégias e objectivos da organização; e 2) monitorização da performance organizacional, por forma garantir que os objectivos assumidos no Plano Estratégico e no Plano Operacional estão a ser cumpridos. No que respeita ao primeiro ponto, é importante salientar que o GRUPO passou por uma forte reestruturação nos últimos anos, pelo que importa agora refocalizar as pessoas no sentido do crescimento sustentado das empresas FDF e API. Um dos propósitos do processo de reestruturação foi o de transformar o GRUPO e nomeadamente a FDF e API em empresas orientadas para menores produções mas mais rentáveis. A atenção da gestão está agora mais orientada para melhorar a eficiência das operações das empresas e oferecer um conjunto mais limitado de produtos que os concorrentes, competindo principalmente pelo custo e/ou entrada em nichos de mercado negligenciados pelas grandes multinacionais. O modelo de controlo de gestão deverá reflectir essa necessidade. Por outro lado, os gestores deverão ter instrumentos de orientação de comportamentos, que os ajudem a ter um comportamento empresarial que privilegie os interesses dos GRUPO na gestão da sua área específica. Propõe-se a aplicação de um modelo baseado em centros de responsabilidade, redefinindo os conceitos de responsabilização e de resultados para cada área. Os centros de responsabilidade deverão ser orientados para a cadeia de valor, de forma a aferir-se a rentabilidade cada segmento. A organização em centros de responsabilidade indicará com precisão a cada gestor quais as suas missões, a natureza dos objectivos a atingir e os meios sobre os quais tem poder de decisão (Merchant, Van der Stede, 2012, p. 274; Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 38). Desenvolver uma cultura de responsabilização e de envolvimento dos seus quadros nos resultados obtidos é um dos objectivos que norteiam o modelo de controlo de gestão proposto. A própria Administração do GRUPO refere que “…há que José Domingos Reis Araújo 123 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica estabelecer práticas operacionais justas e coerentes de acordo com as funções de cada um, não desprezando uma política absolutamente necessária de contenção e revisão de custos, e criar uma cultura de transparência que poderá passar pela reorganização das equipas de gestão nas diferentes áreas e pelo estabelecimento de objectivos claros que serão a base para a motivação de todos os colaboradores”. Ainda de acordo com a Administração, “o contributo e o esforço de cada colaborador nas tarefas e projectos que estão à sua responsabilidade são fundamentais para que as empresas do GRUPO encontrem a sustentabilidade e a estabilidade futura”. Neste aspecto é extremamente importante que as equipas de trabalho detenham poderes e responsabilidades, com base em critérios claros de transparência, com cronogramas, orçamentos e protocolos de actuação previamente definidos. Para a plena concretização do primeiro ponto é igualmente importante ajustar preços de transferência interna que permitam de forma eficiente a tradução dos fluxos que existem entre os centros de responsabilidade e possibilitem aferir a rentabilidade de cada um deles. Os preços de transferência interna constituem um instrumento de grande potencial para a orientação do comportamento dos gestores operacionais (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 41). O segundo ponto está relacionado com a medição dos desempenhos, a qual constitui um ponto de referência na monitorização da performance organizacional. O Modelo de Controlo de Gestão para o GRUPO tem de incluir a monitorização eficaz do negócio, com os respectivos instrumentos de pilotagem, por forma a possibilitar um conhecimento profundo, correcto e atempado da sua evolução e reduzir o risco da sua actividade. Os instrumentos de pilotagem permitem fixar e definir objectivos, planear e acompanhar os resultados (Jordan, Neves e Rodrigues, p. 33). O Modelo de Controlo de Gestão do GRUPO deve estar orientado para o futuro e permitir uma abordagem holística da gestão do desempenho de todo o negócio. Conforme preconizado no Modelo de Ferreira e Otley, mais concretamente na sua questão 12 (força e coerência entre as diversas ligações dos diversos componentes do modelo), um bom modelo de controlo de gestão deve ser capaz de estabelecer José Domingos Reis Araújo 124 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica ligações entre as pessoas, a informação e os processos de tomada de decisão em todo o ciclo de gestão, possibilitando acções correctivas em tempo útil. Partindo do modelo de controlo de gestão existente (ver fig. 8 do ponto 4.2), a evolução do mesmo deverá continuar a garantir o acompanhamento de todo o ciclo de gestão, desde a fixação dos objectivos até à avaliação dos desempenhos (planeamento, execução e monitorização do desempenho), possibilitando o alinhamento estratégico em todo o GRUPO e a monitorização do desempenho organizacional nas suas várias vertentes. 5.1. NECESSIDADES OBSERVADAS Tendo em conta os dados e a informação anteriormente analisada, podemos sistematizar as necessidades observadas no modelo de controlo de gestão em dois níveis. Num primeiro nível teremos as situações que podem ter uma resolução mais imediata, no curto prazo, e que constituiriam a base para um modelo de controlo de gestão mais integrado. Num outro nível, teremos os aspectos que poderão melhorar num horizonte temporal mais alargado, que constituiriam objectivos de longo prazo. Relativamente aos aspectos que poderiam ser desenvolvidos e melhorados no imediato e até porque existe já um desenvolvimento prévio no controlo de gestão do GRUPO nessas matérias, temos: • Identificação de todas as áreas comuns e serviços partilhados entre as empresas do GRUPO por forma a calcular correctamente os preços de transferência internos; • Redefinição dos centros de responsabilidade, como consequência do anterior; • Reposição da utilização do BSC como instrumento de execução e acompanhamento da estratégia, dando também importância a indicadores não financeiros. Pela análise efectuada, verifica-se que o GRUPO se encontra ainda numa fase embrionária do seu processo de controlo de gestão, ou seja, o sistema de controlo de gestão existente não está devidamente focado na criação de valor. José Domingos Reis Araújo 125 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica O GRUPO já utiliza instrumentos previsionais como o plano estratégico, operacional e o orçamento; no entanto, numa lógica de planeamento de rubricas do plano contabilístico de contas (SNC – Sistema de Normalização Contabilística), ou seja, conta a conta são fixados valores pelos quais os directores funcionais são responsáveis. A nível de monitorização o instrumento utilizado é somente de carácter retrospectivo, uma vez que, só apura os desvios após o fecho mensal das contas, ou seja, analisa os custos e proveitos já ocorridos. Em relação à contabilidade analítica, existe uma organização – pelo menos contabilística – em centros de custos e de resultados. O conceito de centro de investimento não existe uma vez que o custo de capital é ignorado, já que valoriza os seus capitais a custo históricos. Os capitais investidos e as necessidades de fundo maneio não são valorizadas pela taxa de custo de capital respectiva. Estamos então perante um modelo de apuramento de resultados por centros de responsabilidade, mas baseado no método da absorção, sobrecarregando as diferentes áreas e departamentos com custos sobre a maior parte dos quais não têm qualquer influência. A utilização do método de absorção retira, de facto, todo o sentido à existência de centros responsabilidade, já que desresponsabiliza uns gestores, penalizando forçosamente outros, sem qualquer aderência à realidade dos seus desempenhos (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 145-146). Passar de uma lógica de absorção para uma lógica de contribuição é fundamental para o bom funcionamento do modelo de controlo de gestão proposto. Em termos de orientação comportamental, o GRUPO deve organizar-se em centros de responsabilidade, aos quais devem ser negociados objectivos próprios e meios para os realizar, de acordo com os objectivos estratégicos da empresa. Posteriormente, os gestores devem ser avaliados e responsabilizados pela realização desses objectivos. Por outro lado, deve-se procurar implementar um sistema de preços de transferência interno que permita valorizar correctamente os fluxos reais de bens ou serviços entre os centros de responsabilidade. Deste modo, o GRUPO estará apto a implementar métricas de avaliação do desempenho nos diferentes centros de responsabilidade de modo a contribuir para a melhoria da eficiência e eficácia da organização na implementação da sua estratégia. O modelo proposto deve também ser suportado por uma contabilidade analítica que permita encontrar formas de apuramento de resultados que possibilitem a alocação José Domingos Reis Araújo 126 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica dos recursos e respectivas produções aos segmentos respectivos, segmentando gastos e rendimentos, permitindo avaliar a contribuição de cada segmento para o total do GRUPO. Após o desenvolvimento destes aspectos, colocar-se-iam outros objectivos que, a mais longo prazo, conduziriam o modelo de controlo de gestão no sentido de uma maior abrangência e a níveis de excelência. Assim, teríamos: • Implementação de um sistema de incentivos de aplicação generalizada para o GRUPO; • Evolução para centros de investimentos; • Gestão por projectos; • Utilização da prática de gestão denominada “Open Book Management” (OBM); • Integração do modelo de planeamento e controlo orçamental com o sistema de ERP; • Evolução para um sistema de BI. É necessário proceder a alterações nos cálculos de custos, resultados por áreas e por produtos e na responsabilização das direcções e dos líderes dos projectos sobre os respectivos orçamentos e custos. Na gestão por projectos é importante perceber o ponto de situação e monitorizar os projectos de I&D. Merchant e Van der Stede referem-se à prática do OBM como uma forma de controlo cultural (Merchant, Van der Stede, 2012, p. 93). O objectivo do OBM é criar uma linha clara de visão entre as acções e decisões de cada empregado e o desempenho da empresa. Em última análise, um sistema de BI, permitiria transformar dados dispersos dos sistemas transaccionais em Informação de Gestão com formatos de fácil leitura, de forma a sustentar e agilizar os processos de tomada de decisão, nos vários níveis hierárquicos da organização. José Domingos Reis Araújo 127 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 5.2. DESCRIÇÃO DO MODELO A proposta de modelo de controlo de gestão para o GRUPO deverá conter os aspectos positivos do actual modelo e transformar os aspectos menos positivos ou negativos de forma a evoluir para um modelo mais abrangente e integrado, indo de encontro às expectativas da organização. Para descrever o modelo vamos recorrer à tipologia usada por Malmi e Brown (Malmi e Brown, 2008), na medida em que permite cobrir toda a extensão do modelo proposto. Controlos culturais Devido ao processo de reestruturação verificado no GRUPO, com forte redução de pessoal, é fundamental fomentar uma cultura de comunicação e colaboração. Nesse sentido, no modelo proposto a cultura é uma forma de controlo pois é usada como um mecanismo ou sistema visando assegurar que os comportamentos e decisões dos empregados são consistentes com os objectivos e estratégias do GRUPO. Seguindo o esquema conceptual de Malmi e Brown distinguem-se três tipos de controlos culturais: valores, símbolos e clãs. Os valores centrais da estratégia de negócio do GRUPO devem ser comunicados de forma regular aos técnicos nas reuniões trimestrais referidas no ponto 4.2. Apesar de não estarem todos os empregados presentes, o que tem acontecido até agora é que os técnicos envolvidos comunicam posteriormente aos subordinados os conteúdos das mesmas. Esta forma de comunicação é fundamental para criar um espírito de coesão e de união em torno dos objectivos organizacionais do GRUPO. Como símbolos ou expressões visíveis da cultura de comunicação, cooperação e colaboração que se pretende desenvolver no GRUPO, constata-se que com o processo de reestruturação do GRUPO verificou-se uma progressiva tendência para transformar gabinetes e espaços fechados em ambientes “open space” e para uma maior informalidade ao nível do vestuário (“casual friday”). O GRUPO possui subculturas ou clãs distintos, como por exemplo os engenheiros na empresa API ou os farmacêuticos na empresa FDF. Sendo assim, para qualquer José Domingos Reis Araújo 128 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica processo de mudança ser bem sucedido, a gestão deverá motivar e ter o apoio destes dois importantes subgrupos ou clãs. Controlos de planeamento O planeamento, quer táctico (de acção ou de curto prazo), quer estratégico (de longo prazo) já é usado de forma recorrente no actual modelo, conforme constatado no ponto 4.2. Contudo, da observação dos procedimentos do GRUPO, constata-se que é apenas utilizado como ferramenta de decisão da gestão acerca das actividades futuras. Para que passe para uma efectiva forma de controlo, o planeamento deverá ser, no novo modelo, um processo que envolva o real comprometimento dos empregados com os planos. Em primeiro lugar, deverá direccionar o esforço e o comportamento pelo estabelecimento de metas para as áreas funcionais do GRUPO. Em segundo lugar, deverá estabelecer claramente os standards a atingir relativamente às metas, clarificando o nível de esforço e o comportamento esperado dos membros da organização. Em terceiro lugar, o planeamento pode ajudar a atingir a congruência de objectivos através das áreas funcionais da organização, e assim controlar de forma mais eficaz as actividades dos grupos e dos indivíduos. Por último, propõe-se no novo modelo uma evolução para uma integração do planeamento no sistema ERP do GRUPO. Controlos cibernéticos Relembrando a metodologia de Malmi e Brown, os controlos cibernéticos podem dividir-se em: orçamentos; medidas financeiras; medidas não financeiras e; sistemas híbridos contemplando medidas financeiras e não financeiras. No que respeita à orçamentação, vimos já que o GRUPO utiliza de forma recorrente o sistema de controlo orçamental. No novo modelo proposto, o orçamento continuará a ser fundamental como forma de controlo, na medida em que se focará no planeamento de níveis aceitáveis de comportamento e na avaliação da performance face a esses José Domingos Reis Araújo 129 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica planos, funcionando em estreita ligação com os controlos de recompensa e compensação. A utilização das medidas financeiras continuará também a ser importante no modelo de controlo de gestão proposto. Os directores ou líderes das várias áreas consideradas centros de responsabilidade deverão ser responsáveis pelo alcance de certas medidas financeiras, como o EBITDA ou a margem de contribuição (EVA – “economic value added”). As medidas não financeiras deverão ganhar uma maior importância no contexto dos controlos cibernéticos do GRUPO. No novo modelo de controlo de gestão do GRUPO, pretende-se a utilização em pleno de um sistema híbrido de medição de performance: o BSC. Neste campo, o objectivo que deverá nortear o GRUPO será o uso dos controlos cibernéticos para um efectivo sistema de controlo de gestão, através da ligação do comportamento às metas e ao estabelecimento de uma responsabilização das várias áreas pelas variações na performance. O modelo de controlo de gestão deverá permitir acompanhar a performance financeira e não financeira das diferentes áreas de negócio, numa perspectiva multidimensional e na lógica do valor acrescentado por segmento. Mensalmente serão elaborados relatórios contendo “tableaux de bord” organizacional e por centro de responsabilidade. Em termos de processo de “reporting”, deverá ser possível apurar a informação essencial para a apresentação e discussão da performance organizacional, numa base mensal. O objectivo do “reporting” mensal é o de acompanhar e controlar, em diferentes níveis, os objectivos e os projectos da organização e é materializado num relatório integrado mensal (vendas, custos, resultados), a completar no máximo até ao quinto dia de cada mês. Actualmente este prazo nem sempre é respeitado, mas é importante que aconteça por forma a conferir a tempestividade e a oportunidade necessária ao processo de tomada de decisão da gestão. A informação necessária ao “report” periódico seria fornecida ao controlo de gestão pelos responsáveis de cada área ou retirada do sistema pelo próprio controlo de gestão. O ERP está preparado para tal mas poderá demorar algum tempo nessa José Domingos Reis Araújo 130 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica extracção. Havendo melhores ferramentas de extracção de dados, nomeadamente BI/BA, constituiria sem dúvida uma mais-valia importante. Deverá ser da responsabilidade do controlo de gestão a gestão da informação a incluir no reporte para a Administração, podendo ser necessário o tratamento prévio de alguma informação antes da sua inclusão no “report”. Controlos de recompensa e compensação No modelo actual apenas existem esquemas de recompensas para a área comercial. No novo modelo de controlo de gestão propõe-se a criação de sistemas generalizados de recompensas e compensações que de facto motivem e aumentem a performance individual e dos vários grupos no sentido do alcance dos objectivos e metas organizacionais. Estes controlos funcionarão de modo articulado com os controlos cibernéticos e sistemas de medição. O modelo de controlo de gestão a implementar baseia-se no apuramento de margens de contribuição por centros de responsabilidade, indicador central na formulação do um sistema de prémios e incentivos a atribuir aos principais responsáveis. Controlos administrativos Na tipologia de Malmi e Brown, os controlos administrativos dividem-se em: estrutura organizacional; estrutura de “governance”; e políticas e procedimentos. Ao nível da estrutura organizacional e de “governance” existente (figura 9 da secção 4.1.) observa-se que as unidades de negócio estão já bem definidas no modelo actual. No entanto, propõe-se uma estrutura mais flexível (ver figura 14), idêntica à que irá ser estabelecida em termos de centros de responsabilidade. O modelo de controlo de gestão proposto baseia-se na nova organização em unidades de negócio, para a qual haverá necessidade de requalificar unidades departamentais, definir competências, estruturas, ferramentas a utilizar. A estrutura organizacional deverá também ser flexível ao ponto de responder com eficácia a uma gestão por projectos quando assim for exigido. Desta forma, propõe-se a implementação de um modelo de controlo de gestão baseado em duas unidades de negócio (funcionando também como centros de José Domingos Reis Araújo 131 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica resultados), seis centros de resultados (puros), e quatro centros de serviços partilhados. Aos centros de responsabilidade prestadores e utilizadores de serviços e/ou produtos, deverão ser aplicadas as regras de funcionamento do mercado, ou seja, deverão ser utilizados preços de transferência internos devidamente ajustados às trocas efectuadas. Figura 14 - Estrutura organizacional do GRUPO com novo modelo de CG A ideia subjacente a esta estrutura organizacional e de “governance” é a de ir ao encontro a uma filosofia mais “corporate”, a qual tem vindo a desenvolver-se desde 2006 com a entrada de Administradores não pertencentes ao círculo familiar. As unidades de negócio FDF e API continuam a ser empresas distintas mas norteadas pelos mesmos princípios de Missão e Valores. Pretende-se também a adopção de comportamentos que estimulem o trabalho de equipa e o funcionamento em equipas interdepartamentais e em rede para a concretização de projectos. Na tipologia de Malmi e Brown, os controlos administrativos incluem o que Merchant e Van der Stede designam por controlos de acção, os quais pode ser divididos em: José Domingos Reis Araújo 132 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica constrangimentos de comportamento; revisões de pré-acção; e responsabilização da acção. No que concerne aos constrangimentos de comportamento, observa-se no modelo existente que existem já alguns constrangimentos físicos, tais como bloqueios de computador, senhas de acesso a áreas da rede informática e zonas de produção só para pessoal qualificado. De igual modo, constatam-se constrangimentos administrativos, como a obrigatoriedade de haver uma requisição para cada compra, escalões de aprovação de despesas das mesmas e separação de funções. No novo modelo os constrangimentos de comportamento deverão existir mas com as necessárias adaptações dada a nova estrutura organizacional e de “governance”. As revisões de pré-acção também continuarão a ocorrer no modelo de controlo de gestão proposto. O Budget anual do GRUPO irá ser alvo de um processo de aprovação por níveis hierárquicos. A responsabilização da acção é outro dos controlos de acção que continuará a verificar-se no modelo proposto para o controlo de gestão. Exemplos da manifestação deste tipo de controlo já é actualmente observado nas diversas regras de trabalho, políticas, SOP’s (“Standard Operating Procedures”), descritivos de funções e de processos, e manual de qualidade. Contudo não existe nenhum manual de procedimentos no que respeita ao controlo de gestão. Para um correcto enquadramento e completo entendimento da função de controlo de gestão, sugere-se a elaboração de um manual de controlo de gestão do GRUPO. A figura da página seguinte sintetiza, nos seus principais componentes, a proposta para o modelo de controlo de gestão atrás descrito. José Domingos Reis Araújo 133 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Figura 15 – Esquema do modelo de controlo de gestão proposto para o GRUPO 5.3. APLICAÇÃO DO MODELO Conforme referem Merchant e Van der Stede, o desenho do modelo de controlo de gestão em si não garante o sucesso. A implementação do modelo é igualmente importante, se não mais, para além de determinante (Merchant e Van der Stede, 2012, p. 194). É extremamente importante que todos os intervenientes (“Controller”, Administração, Directores, e colaboradores em geral) percebam as vantagens e os benefícios que poderão ser obtidos com a implementação do modelo de controlo de gestão proposto. José Domingos Reis Araújo 134 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica O “Controller” deverá aqui assumir um papel preponderante de motivação e sensibilização interna, quer durante o processo de implementação do modelo de controlo de gestão, quer durante a própria execução, acompanhamento e monitorização. A aplicação do modelo pressupõe que o trabalho já efectuado ao nível do BSC é enquadrado e melhorado no sentido de o tornar num efectivo instrumento de melhoria e aprendizagem contínua. Neste sentido, no Modelo de Controlo de Gestão proposto o BSC assume importância primordial, tendo por base o mapa estratégico do GRUPO (figura 16). A missão e visão mantêm-se: Missão: “Desenvolver, produzir e comercializar substâncias activas, medicamentos, produtos de saúde e bem estar que contribuam para a melhoria da qualidade de vida.” Visão: “Ser um dos maiores e melhores grupos químico-farmacêuticos no mercado nacional e internacional, reconhecido como parceiro científico, tecnológico e comercial de excelência.” A esquematização dos objectivos estratégicos e dos indicadores considerados críticos para os medir pode ser visualizada na figura 17. Os indicadores Margem de Contribuição Residual (MCR) e “Economic Value Added” (EVA) serão introduzidos com o objectivo de monitorizar o desempenho das unidades de negócio e centros de responsabilidade definidos (ver figura 14 do ponto 5.2.). Estes indicadores substituem a Rentabilidade dos Capitais Próprios e a Rentabilidade Líquida das Vendas, anteriormente usados mas considerados agora, com o novo modelo, menos adequados para medir o desempenho das unidades acima referidas. Como já foi referido anteriormente, os indicadores deixaram de ser acompanhados e monitorizados, em especial os indicadores não financeiros. No novo Modelo de Controlo de Gestão, considera-se bastante importante a retoma do acompanhamento periódico dos indicadores das figuras 17 e 18. Só desta forma o BSC poderá ser considerado um instrumento de medição de performance, tanto para objectivos financeiros como não financeiros dos gestores, traduzindo-os em indicadores de José Domingos Reis Araújo 135 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica desempenho, que por sua vez serão importantes para o sistema de recompensa e compensação que se pretende implementar. Figura 16 - Mapa Estratégico do GRUPO José Domingos Reis Araújo 136 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Figura 17 - Objectivos estratégicos e indicadores - GRUPO Perspectivas Objectivos estratégicos Indicadores F1.1 Margem de Contribuição Residual F1.2 EVA (Economic Value Added) F1.3 F1.4 F1.5 F1.6 F2.1 F2 Melhorar a estrutura de custos F2.2 F2.3 F3.1 F3 Aumentar a utilização dos activos F3.2 F4 Aumentar as vendas F4.1 F5.1 F5.2 F5 Melhorar posicionamento no F5.3 mercado F5.4 F5.5 F1 Aumentar a rentabilidade FINANCEIRA C2 Novos agentes CLIENTES C4 FH satisfeitas %Produtos com Margem Bruta <50% Autonomia financeira %Produtos com Margem Bruta >70% Custo médio Unitário Rotação de stocks Grau contribuição trabalhadores (VAB/Emprego) Resultado Líquido / Activo EBITDA Taxa crescimento (Vendas actuais/Vendas homólogas) Quota de mercado Crescimento empresa vs mercado Valor de Negócio Segmento A Valor de Negócio Segmento B Valor de Negócio Segmento … Grau de internacionalização - Peso do Turnover Internacional no C2.1 Total Grau de desenvolvimento dos mercados - Peso do Turnover em C2.2 novos clientes vis a vis Total Export C2.3 C3 Agentes satisfeitos Preço Médio de Venda (incluindo os 3%) C2.4 C3.1 C3.2 C4.1 Grau de desenvolvimento dos mercados - Nº Entradas Novos Países # de novos parceiros em novos mercados Grau de satisfação dos parceiros Taxa de reclamações de parceiros Grau de satisfação de Farmácias Hospitalares C4.2 Nº Reclamações Grau de satisfação e recordatório dos produtos de medicos prescritores C5.2 Grau de satisfação de Farmácias Comunitárias C5.1 C5 Farmácias e prescritores satisfeitos C5.3 Nº Reclamações C6 Novos prescritores José Domingos Reis Araújo C6.1 Nº total prescrições dos 5 1ºs produtos A 137 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Figura 18 - Objectivos estratégicos e indicadores – GRUPO (cont.) Perspectivas Objectivos estratégicos Indicadores I1.1 I1 Gerir portofólio I2 Dar garantias I3 Produzir com eficiência INTERNA I4 Comprar bem % de facturação de produtos com vendas < 100 000€ (excluindo novos produtos) I1.2 I1.3 I1.4 I1.5 I1.6 I1.7 I1.8 I1.9 I1.10 I2.1 I2.2 % de facturação de produtos com vendas > 500.000 Euros I3.1 Nº pessoas directos / 1M unidades SKU I3.2 I3.3 I3.4 I3.5 I3.6 I4.1 Nº de apresentações com stock > 300 dias / semana I5.1 Rupturas I5.2 % de valor entregue (períodos exportação) I6.1 I6.2 # média de visitas Ambulatório (Médicos) Número de lançamento de produtos GRUPO Número de lançamento de produtos FDF e API Total Vendas Produtos até 3 anos / Vendas totais Vendas Produtos 1º ano / Forecast Número famílias de produtos 1º ano com vendas <100K€ Vendas Produtos até 3 anos / Forecast Número famílias de produtos até 3 anos com vendas <500K€ Número de contratos celebrados Conformidade em Auditorias de Clientes Conformidade em Auditorias Regulamentares Throughput time (Produtos A) Rendimentos (Produtos A) Valor produtos Rejeitados e Obsoletos / valor produção anual Nº horas extra Compliance fabricantes API I5 Entregar como combinado # média de visitas Ambulatório (Farmácias) I6.2.1 # média de visitas Hospitalar (KA) I6 Desenvolver o mercado I7 Maximizar a utilização da capacidade I8 Desenvolver parcerias R1 Aumentar competências INOVAÇÃO E APRENDIZAGEM R2 Apostar em tecnologias estratégicas R3 Desenvolver uma cultura "corporate" I6.3 I6.4 I6.5 I6.6 I6.7 I6.8 I6.9 I6.10 I6.11 # média de visitas Genéricos (Médicos) I7.1 Taxa de absentismo I8.1 I8.2 R1.1 R1.2 R2.1 % Contactos com prazo de resposta < 60 dias # média de visitas Genéricos (Farmácias) # média de visitas OTC´s (Farmácias) Rentabilidade da Visita Venda directa à farmácia Venda directa a MassMarket KAManager Taxa de cobertura do painel seleccionado AMBULATÓRIO Taxa de cobertura do painel seleccionado FARMÁCIA Taxa de cobertura do painel seleccionado GENERICOS % Contratos assinados < 120 dias Nº horas de formação por empregado Produtividade dos empregados introdução de novos produtos Vs competidores % processos sobre os quais existe informação em tempo real (qualidade, tempos e custos) R3.1 Nº empregados que trabalham em projectos conjuntos FDF e API R3.2 Satisfação dos empregados R2.2 Estes indicadores constituirão os “tableaux de bord”, essenciais no “reporting” mensal para discussão da performance organizacional e tomada de decisão pelos gestores, e que serão disponibilizados no máximo até ao quinto dia útil de cada mês. José Domingos Reis Araújo 138 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Também ao nível do “reporting”, o Controlo de Gestão, até ao quinto dia útil de cada mês, deverá disponibilizar à Administração e aos responsáveis das unidades de negócio / centros de responsabilidade, o mapa de desempenho do GRUPO conforme figura 19. Figura 19 - Análise de Desempenho - GRUPO Análise de Desempenho - GRUPO Mensal Unidade de Negócio / Centro Responsabilidade FDF Nacional Internacional API CM S. Quím. Ferment. CM Vendas Variação da produção Rendimentos Operacionais Custo Merc. Vend. e Mat. Cons. Margem Bruta (Margem Bruta) Prestação de serviços Outros Rendimentos FSE Pessoal Outros Gastos Operacionais EBITDA (Margem EBITDA) Provisões Amortizações e ajustamentos Reversões de amortizações EBIT (Margem EBIT) Juros e rendimentos similares obtidos Juros e gastos similares suportados EBT Imposto Resultado Líquido Custo de Financiamento do Activo Económico (CFAE) * Margem de Contribuição Residual (MCR) = EBIT - CFAE EVA = MCR - Imposto Activo Económico Activo Fixo Necessidades em Fundo de Maneio (NFM) * custo de oportunidade do capital utilizado aplicado ao Activo Económico Este mapa deverá permitir uma análise multidimensional, através de ferramentas de “drill down / drill up”, ou uma análise por segmentos. Por exemplo, para a Unidade de Negócio FDF, Centro de Responsabilidade Nacional, na rubrica Vendas, deverá ser possível visualizar os segmentos Ambulatório, Hospitalar, OTC’s, Suplementos, Genéricos, ou Veterinária Por sua vez, em cada segmento deverá ser possível visualizar as rubricas por produto. José Domingos Reis Araújo 139 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica O reporte de vendas continuará a ser enviado numa base semanal à Administração e directores, pelo Controlo de Gestão, mas de acordo com a proposta visualizada na figura 20, para permitir uma monitorização por segmentos. Este mapa deverá permitir um detalhe por produto ou por cliente através de “drill down / drill up”. Figura 20 - Novo mapa semanal de vendas do GRUPO Vendas Líquidas DATA: Moeda: milhares de EURO 9 de junho de 2014 JUNHO 2014 ACUMULADO (ATÉ JUNHO) Real JUNHO 2013 Semana 1 Semana 2 Semana 3 Semana 4 Dias úteis do mês 20 Semana 5 Acumulado % Previsão % % Homólogo Ano Previsão % % Peso (Mês) Previsão Cresc. 2013 2014 (Acum) Previsão Cresc. Negócio * Dias úteis decorridos 6 30% GRUPO - € - € - € - € - € - € - € - € * * - € - € - € * FDF - € - € - € - € - € - € - € - € * * - € - € - € * * - € - € - € - € - € - € - € - € * * - € - € - € * * - € * * * * - € * * * * - € * * * * - € * * * * - € * * * * - € * * * * FDF Nacional Ambulatório Produto A Produto … Hospitalar Produto B Produto … Suplementos e Prod. Saúde Produto C Produto … OTC´s Produto D Produto … Genéricos Produto E Produto … Veterinária Produto F Produto … FDF Internacional - € - € - € - € - € - € País X * * * * - € - € - € * * - € - € - € * * - € * * * * - € * * * * - € * * * * * * * * Produto 1 Produto … País Y Produto 2 Produto … País … Produto 3 Produto … Contract Manufacturing - € - € - € - € - € - € - € - € - € - € - € Cliente A - € * * * * Cliente B - € * * * * Cliente … - € * * * * * * * * * * * * Serviços API - € - € - € - € - € - € Síntese Química - € - € - € - € - € - € - € * * * * Produto 4 - € * * * * Produto … - € * * * * - € * * * * - € * * * * Fermentação Produto 5 Produto … Contract Manufacturing * * * * Cliente C - € * * * * Cliente D - € - € - € * * * * Cliente … - € * * * * - * * * * Serviços - € - € - € - € - € € - € - € - € - € O modelo descrito até agora corresponde ao que poderá ser mais atingível no curto prazo, dada a situação actual do Controlo de Gestão do GRUPO (o que no ponto 5.1 designámos por objectivos de curto prazo). Todavia, consideramos ser perfeitamente possível, após estabilização de todos os processos anteriores, a evolução do Modelo para outros níveis (objectivos de longo prazo). José Domingos Reis Araújo 140 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Em primeiro lugar, propõe-se a implementação de um sistema de incentivos de aplicação generalizada para o GRUPO. Este sistema deverá ter uma natureza variável (complementar à remuneração base), estar alinhado com as metas de desempenho do BSC e incentivar os gestores e empregados a tomarem decisões que maximizem o valor do GRUPO, criando valor para o accionista. As medidas de performance deverão estar em linha com a criação de valor. Deste modo, propõe-se um sistema de remuneração variável indexada ao EVA. Este sistema deverá ser atribuído aos gestores das unidades de negócio e centros de responsabilidade, reservando parte dos prémios aos restantes empregados da organização como forma de motivação para o alcance das metas organizacionais. Os prémios e incentivos dos restantes departamentos e serviços partilhados serão atribuídos em função da sua contribuição para os resultados globais do GRUPO. Para que tal ocorra em situação de equidade e alinhamento dos objectivos de toda a organização é imprescindível um sistema de preços de transferência justo, equilibrado e que reúna o consenso global dos vários directores, tanto prestadores como utilizadores de serviços. Sugere-se a fixação dos preços de transferência de acordo com a seguinte ordem de preferência (Jordan, Neves e Rodrigues, 2002, p. 354): preço de mercado, custo padrão, ou preços negociados. Na figura 21 podemos visualizar a matriz dos preços de transferência internos entre os sectores e a proposta de valorização tendo em conta as especificidades em que se realizam as operações internas no GRUPO. Figura 21 - Matriz de preços de transferência GRUPO Administração Business & Development S istema de Gestão Integrado FDF c.p. c.p. c.p. c.p. API c.p. c.p. c.p. c.p. Prestadores Utilizadores Controlo de Assessoria Gestão Jurídica Direcção Recursos Administrativa Humanos e Financeira Assuntos Engenharia e Regulatórios Manutenção FDF API c.p. - p.m. c.p. c.p. c.p. p.m. c.p. p.m. - c.p. c.p. c.p. p.m. p.m. : preço de mercado c.p. : custo padrão Em segundo lugar, dado que os actuais centros de responsabilidade proporcionam retornos diferentes e estão sujeitos a riscos diferenciados, propõe-se a evolução dos centros de resultados para centros de investimento (figura 22). José Domingos Reis Araújo 141 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica Figura 22 - Centros de Investimento GRUPO Estes centros de investimento deverão ser responsáveis quer pelos resultados quer pelos investimentos feitos (activos) para gerar esses resultados. Em terceiro lugar, o Modelo de Controlo de Gestão deve cada vez mais permitir um acompanhamento e monitorização dos diversos projectos em curso (de I&D ou outros). Nos últimos anos o GRUPO passou por um forte processo de reestruturação, tendo havido redução no quadro de pessoal. Contudo, sendo a estrutura do GRUPO muito mais ligeira, pretende-se que responda ainda com mais eficácia para fazer face aos desafios actuais. Neste sentido, o trabalho em equipa e em rede, cruzando vários departamentos dentro do GRUPO, torna-se uma realidade imperiosa. É cada vez mais necessária a criação de equipas específicas para levar a cabo diversos projectos. O controlo de gestão deve estar apto a fornecer elementos e instrumentos para o correcto enquadramento, acompanhamento e avaliação dos resultados dos projectos. Ao nível da gestão dos projectos pretende-se ter um quadro de indicadores técnicos e financeiros, por projecto, que permitam numa base mensal saber o ponto de situação dos mesmos. Estes indicadores devem incluir: grau de execução física do projecto, nível do desvio do orçamento, grau da execução do projecto, número de tarefas concluídas, em execução, em atraso e por concluir, número de dias de atraso do projecto, % de projectos dentro do calendário e dentro do orçamento, número médio José Domingos Reis Araújo 142 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica de alterações às definições dos projectos, tempo médio para aprovação dos projectos, e % de projectos com risco elevado. Em quarto lugar, aproveitando e potenciando o sistema de comunicação já utilizado, de que são um bom exemplo as reuniões periódicas com os directores e técnicos do GRUPO, sugere-se a evolução para uma prática de gestão denominada “Open Book Management” (OBM). Merchant e Van der Stede referem-se à prática do OBM como uma forma de controlo cultural (Merchant, Van der Stede, 2012, p. 93). O OBM possibilita uma linha de visão clara entre as acções e decisões de cada empregado e o desempenho da empresa, na medida em que são criados incentivos para que os empregados se comportem de acordo com os interesses da empresa (porque são afinal idênticos aos seus), contribuindo com sugestões válidas para a melhoria da organização. A proposta de OBM para o GRUPO resume de certo modo a proposta de modelo descrito até aqui envolvendo assim: • A partilha regular de informação financeira ou outra informação que ajude os empregados a trabalhar conjuntamente com a gestão para o sucesso da organização; • Formação necessária para permitir aos empregados compreenderem não só o que a informação acima significa, mas também como eles próprios podem contribuir para o desempenho da empresa; • Recompensas ligadas á performance da organização; • Uma mudança cultural para uma filosofia “dow-top-down”, para assegurar que as ideias dos empregados são encorajadas e consideradas justas. Os dois últimos objectivos (integração do modelo de planeamento e controlo orçamental com o sistema de ERP, e evolução para um sistema de BI) acabam por ser soluções técnicas que complementam e optimizam o Modelo de Controlo de Gestão proposto. A estratégia deverá ser o motor da criação de valor da organização. Contudo, o acompanhamento da sua execução será tanto melhor quanto mais for apoiado em José Domingos Reis Araújo 143 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica sistemas de informação que permitam medir o seu impacto e tomar decisões em tempo útil. A integração dos dados, processos, e sistemas de informação, permitirá a evolução para um o Modelo de Controlo de Gestão cada vez mais integrado. A evolução para um sistema de BI – “Business Intelligence” (transformação de dados em informação) / BA – “Business Analytics” 8 (transformação de informação em conhecimento), potenciará o Modelo de Controlo de Gestão, na medida em que agilizará, sem dúvida, o processo de suporte à decisão nos níveis estratégico, táctico e operacional. Tanto a integração do modelo de planeamento e controlo orçamental com o sistema de ERP, como evolução para um sistema de BI/BA permitiria: • Organizar o fluxo de informação e a qualidade da mesma no contexto dos vários tipos de controlos (de planeamento, cibernéticos, de recompensa e compensação, e administrativos); • Optimizar o processo de tomada de decisão; • Reduzir o uso de interfaces manuais; • Reduzir custos operacionais; • Eliminar a redundância de actividades; • Reduzir os limites de tempo de resposta ao mercado; • Aumentar a produtividade. 5.4. ANÁLISE DOS RESULTADOS A segmentação do GRUPO em unidades de negócio e centros de responsabilidade, a clara definição da contribuição de cada um destes para a margem global da empresa, e a indexação das remunerações dos responsáveis aos resultados obtidos nas suas 8 Refere-se às capacidades, tecnologias, aplicações e práticas para a contínua exploração iterativa e investigação da performance histórica do negócio, com vista a melhorar substancialmente o planeamento do mesmo. José Domingos Reis Araújo 144 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica áreas da sua responsabilidade, fará do Modelo de Controlo de Gestão proposto um instrumento de gestão essencial a um crescimento sustentado do GRUPO. Do novo Modelo de Controlo de Gestão, espera-se uma melhoria substancial na qualidade da informação para a gestão. Grande parte dessa melhoria advirá da correcta aplicação do BSC anteriormente implementado e não utilizado na sua plenitude. Outro dos resultados que se pretende com a aplicação do modelo proposto é um menor dispêndio na análise e interpretação de dados, face ao que é verificado actualmente. Resumidamente, a análise dos resultados no novo modelo de controlo de gestão englobará os seguintes aspectos: • Custos e resultados por áreas/departamentos; • Custos e resultados por produto; • Responsabilidade dos directores para unidades de negócios; • Responsabilidades de líderes de projectos com resultados, custos e tempos dos projectos; • Transparência em vendas, custos e cumprimentos; • Plena integração do Orçamento, Planos de Compras e Tesouraria; • Gestão de projectos (“Project Management”). José Domingos Reis Araújo 145 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica José Domingos Reis Araújo 146 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 6. CONCLUSÃO Na primeira parte do trabalho caracterizam-se os sistemas de controlo de gestão em geral (capítulo dois) e os da indústria farmacêutica em particular (capítulo três). A análise do estado da arte do controlo de gestão revela uma emergência ainda recente desta área da gestão e a necessidade de mais estudos que comprovem de que forma os conceitos teóricos estão a ser aplicados à realidade das empresas, nomeadamente através de estudos de caso. Julgamos que o presente estudo vai de encontro a essa necessidade. Outra característica evidenciada na análise do estado da arte, revela que o controlo de gestão não é apenas da responsabilidade do “Controller”, mas de todos, incluindo, empregados, gestores e Administração. No entanto, o “Controller" tem um papel fulcral, na medida em que, deve assegurar o funcionamento eficiente e adequado dos vários sistemas de controlo de gestão, e alertar a Gestão de Topo para as limitações dos mesmos, evitando-as ou minimizando-as. Outras características importantes foram evidenciadas, nomeadamente: • As transformações ocorridas nos últimos anos, resultantes do fenómeno da globalização, levaram a maioria das empresas a alterarem os seus princípios orientadores ao nível da implementação da estratégia; • Nesse sentido, a emergência do desenvolvimento de sistemas de controlo de gestão capazes de lidarem com um ambiente cada vez mais volátil e competitivo resulta, por um lado, dos sistemas de informação de uma empresa deverem estar aptos a satisfazer todas as necessidades de gestão e, por outro lado, do modo como a gestão das próprias organizações estar em constante mutação; • Dadas as limitações dos indicadores meramente financeiros utilizados nos modelos de controlo de gestão tradicionais na avaliação do desempenho das empresas, torna-se necessário o desenvolvimento de modelos de indicadores de gestão que traduzam os factores críticos para o sucesso. Estabelecer e manter um sistema que assegure a implementação de todas as actividades de gestão e melhoria da qualidade é objectivo crucial numa organização; • As empresas necessitam cada vez mais de implementar sistemas de controlo de gestão flexíveis, incluindo medidas de desempenho que possibilitem a adequação José Domingos Reis Araújo 147 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica das medidas à estratégia organizacional, complementando os tradicionais indicadores financeiros com indicadores de natureza não financeira; Todas estas características podem ser identificadas na análise dos seis modelos conceptuais de controlo de gestão, apresentados numa ordem crescente quanto ao nível de integração: Modelo de Anthony (Anthony, 1965), Modelo de Flamholtz, Das e Tsui (Flamholtz, Das e Tsui, 1985), Modelo de Simons (Simons, 1995; 1995a), Modelo Merchant e Van der Stede (Merchant e Van der Stede, 2012), Modelo de Ferreira e Otley (Ferreira e Otley, 2009), Modelo de Malmi e Brown (Malmi e Brown, 2008). No estudo efectuado ao nível do controlo de gestão na indústria farmacêutica, ficaram também patenteadas outras características importantes, em linha com as observadas para o controlo de gestão em geral: • No actual cenário competitivo em que as empresas actuam, nomeadamente as do sector farmacêutico, as mudanças e as alterações no seu meio envolvente dão-se a um ritmo gradualmente mais rápido; • As empresas do sector farmacêutico para sobreviverem e assegurarem com sucesso o alcance dos seus objectivos, têm de se adaptar rapidamente. Para que as mudanças sejam bem sucedidas, é necessária uma visão integrada do negócio da empresa, que possibilite tomar decisões de gestão correctas e em tempo útil; • Num contexto de recessão económica e de margens praticamente esmagadas na indústria farmacêutica, torna-se essencial implementar modelos de controlo de gestão que permitam monitorizar permanentemente o desempenho do negócio nas suas múltiplas vertentes; • A implementação e melhoria contínua de um Modelo de Controlo de Gestão, facilitam uma visão integrada do negócio, identificando e monitorizando os vários pontos de controlo e formas de melhorar, contribuindo para o alcance dos objectivos organizacionais. Além disso, um modelo eficaz de controlo de gestão, constitui um elemento de diferenciação decisivo numa indústria competitiva como é o caso da indústria farmacêutica. Desta forma, será acrescentado valor aos negócios da empresa. Nos capítulos quatro e cinco, dedicados ao estudo de caso do GRUPO, que opera na indústria farmacêutica, e após recolha de diversos documentos internos e outros elementos referenciados ao longo dos capítulos três e quatro, foram constatadas estas mesmas evidências. José Domingos Reis Araújo 148 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica No estudo de caso foram ainda identificadas as lacunas ou limitações do modelo de controlo de gestão existente e as expectativas da própria organização para as obviar (secção 4.5). Com base nessa análise, propuseram-se medidas para a melhoria da performance do modelo de controlo de gestão, alicerçadas no Modelo de Malmi e Brown (Malmi e Brown, 2008), apresentado sob a forma de uma proposta de melhoria do actual modelo de controlo de gestão do GRUPO, a qual pode ser visualizada de forma resumida na figura 15. A proposta de modelo de controlo de gestão para o GRUPO estabelece uma “ponte” com o modelo anterior na medida em que, contendo os aspectos positivos do actual modelo, transforma os aspectos menos positivos ou negativos, evoluindo para um modelo mais abrangente e integrado, mais de encontro às expectativas e necessidades da organização. Inovando face ao existente, ao nível dos controlos de planeamento, a lógica do modelo de controlo de gestão proposto visa influenciar o comportamento de cada gestor em função da estratégia das empresas do GRUPO e alinhar as suas decisões em função dos grandes objectivos do GRUPO. O mercado onde o GRUPO está inserido é extremamente competitivo, pelo que, a adopção de um modelo de controlo de gestão adequado também ao nível dos controlos cibernéticos, incluindo a monitorização de desempenho por segmentos, é fundamental para identificar o valor de cada negócio. A plena utilização do BSC permitirá a clara medição de performance dos centros de responsabilidade, constituindo um sólido suporte para o sistema de recompensa e compensação a implementar, representando outra das inovações constantes do modelo proposto. A utilização de ferramentas de BI/BA contribuirá também para uma significativa agilização de todo o processo, potenciando a utilização eficaz dos controlos cibernéticos. Outro dos aspectos propostos no novo modelo de controlo de gestão é o reforço dos controlos culturais, alicerçados em formas de gestão inovadoras como o “Open Book Management” (OBM). O modelo de controlo de gestão proposto assenta também na reformulação dos controlos administrativos, introduzindo aspectos inovadores, nomeadamente estrutura José Domingos Reis Araújo 149 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica de gestão em rede e por projectos, evolução para centros de investimento e definição de um manual de controlo de gestão. Com a proposta submetida é nossa convicção que estão disponibilizados os conceitos e ferramentas básicas para que a partir daqui se possa implementar no GRUPO um modelo de controlo de gestão baseado na análise do valor por segmento de negócio. A proposta de intervenção aqui desenvolvida deve ser entendida como um guia de acção, eventualmente sujeito a mudanças, que deverá ser colocado em prática por uma equipa de trabalho multidisciplinar (e não só o “Controller”), em que o estímulo esteja presente, a responsabilização seja uma realidade, a gestão com rigor um caminho a seguir, para que o êxito possa ser atingido através da correcta tradução da estratégia em acção. Se as medidas forem correctamente aplicadas, é nossa convicção que contribuirão significativamente para a melhoria do nível de informação para a gestão e consequentemente para ganhos na competitividade da empresa. José Domingos Reis Araújo 150 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica 7. FUTUROS DESENVOLVIMENTOS A análise do desenho e do funcionamento do modelo actual do controlo de gestão de uma organização pode ser entendido como um primeiro passo para o desenvolvimento de uma teoria “ex-post” visando o refinamento do modelo de controlo de gestão ideal a essa organização. Com este projecto não foi pretensão apontar soluções únicas, mas potenciar algumas linhas de orientação para futuros projectos, que permitam uma dinâmica de mudança, evolução e crescimento das empresas, nomeadamente do sector farmacêutico. Como sugestões para futuras investigações podemos indicar o aprofundamento das questões ligadas à evolução dos sistemas de informação para a gestão e o seu relacionamento com os modelos de controlo de gestão. Actualmente, as tecnologias de informação são consideradas fundamentais para suportar os sistemas de controlo de gestão, nomeadamente ao nível dos dados para a obtenção dos diversos indicadores que permitem a monitorização do desempenho. Por exemplo, deverá ou não caminhar-se para uma integração total do sistema de controlo de gestão no sistema de informação das empresas? No caso concreto do GRUPO, essa solução de integração plena passaria necessariamente pela adopção de um sistema de BI/BA “state of the art”. Uma vez concluída a implementação do modelo proposto e atingida a fase cruzeiro da sua implementação, preparar o desenvolvimento de um “software” de BI/BA de última geração, procedendo em seguida à sua implementação, seria um passo perfeitamente admissível dado o estádio de maturidade do controlo de gestão no GRUPO. Numa outra perspectiva, poderia ser abordado o estudo do impacto de sistemas BI/BA no controlo de gestão da empresa ou de que forma o BI/BA pode ajudar o controlo de gestão a melhorar a sua eficácia/eficiência. O controlo de gestão está hoje muito relacionado com a gestão da performance, pelo que o estudo de modelos de controlo de gestão integrados que incluem a definição de KPI’s associados a objectivos estratégicos e respectivos modelos de “report” interno, faz todo o sentido. José Domingos Reis Araújo 151 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica José Domingos Reis Araújo 152 Controlo de gestão: estudo de caso em empresa farmacêutica REFERÊNCIAS ABERNETHY, Margaret A. ; CHUA, Wai Fong (1996) – A field study of control system “redesign”: The impact of institutional process on strategic choice. Contemporary Accounting Research. Toronto. ISSN 1911-3846. 13:2 (1996) 569-606. AHRENS, Thomas ; MOLLONA, Massimiliano (2007) - Organizational control as cultural practice: a shop floor ethnography of a Sheffield steel mill. Accounting, Organizations and Society. London. ISSN 0361-3682. 32:4-5 (2007) 305-331. AMY, Lloyd R. (1979) - Budget Planning and Control Systems. 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