38 Interbio v.6 n.2 2012 - ISSN 1981-3775 DETERMINANTES SOCIAIS DE SAÚDE E ENFERMAGEM EM SAÚDE COMUNITÁRIA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA SOCIAL DETERMINANTS OF HEALTH AND COMMUNITY HEALTH NURSING: AN INTEGRATIVE REVIEW OF THE LITERATURE MONÇÃO, Marilza Leiko 1 ; FIGUEIREDO, Marcio Grei Alves Vidal² Resumo Somente atacando às raízes dos problemas e tomando o conceito de que saúde é determinada socialmente é possível atender necessidades de saúde de uma comunidade. Percebendo a relevância e a problemática envolvida no assunto é que o presente estudo propôs-se a verificar as contribuições da enfermagem em saúde comunitária em relação aos Determinantes Sociais de Saúde. Para conhecer melhor esta realidade realizou-se uma pesquisa na literatura numa revisão integrativa evidenciando intervenções e estratégias utilizadas na prática e no processo de trabalho do enfermeiro para impactar determinantes sociais que interferem negativamente na saúde da comunidade. Após análise mais aprofundada dos textos selecionados, percebem-se iniciativas como: (1) empoderamento comunitário, (2) promoção de cidadania, (3) intersetorialidade, (4) controle e participação social. Constata-se que nesse empreendimento de contribuir para o desenvolvimento comunitário, o enfermeiro protagoniza novos espaços e práticas de promoção da cidadania. Palavras-chave: Enfermagem em saúde comunitária, Enfermagem em Saúde Pública, determinação das necessidades de saúde, Promoção comunitária, desenvolvimento da comunidade. Abstract Only by attacking the roots of the problems and taking the concept that health is socially determined is possible to meet the health needs of a community. Realizing the importance and problems involved in the matter is that the present study was to verify the contributions of community health nursing in relation to the Social Determinants of Health to better understand this situation we carried out a literature search in an integrative review showing interventions and strategies used in practice and in the process of nursing work to impact the social determinants that negatively affect the health of the community. After further analysis of selected texts, initiatives are perceived as: (1) community empowerment, (2) promotion of citizenship, (3) intersectionality, (4) control and social participation. It appears that this endeavor to contribute to community development, the nurse stars in new spaces and practices of citizenship. Key-words: Community health nursing, Public Health Nursing, determination of health needs, community promotion, community development. 1 Acadêmica do 8° semestre de Enfermagem do Centro Universitário da Grande Dourados – UNIGRAN, Dourados, M.S. email- [email protected] ² Docente do Curso de Enfermagem do Centro Universitário da Grande Dourados – UNIGRAN, Dourados, M.S. MONÇÃO, Marilza Leiko; FIGUEIREDO, Marcio Grei Alves Vidal 39 Interbio v.6 n.2 2012 - ISSN 1981-3775 Introdução Os Determinantes Sociais de Saúde expressam conceitos de que condições de vida e trabalho dos indivíduos e de grupos da população bem como a organização e a distribuição de recursos econômicos, sociais e derivados determinam a saúde de membros de uma sociedade (BUSS, 2007; PELLEGRINI FILHO, 2007 e DOWBOR, 2008). Fleury-Teixeira et al.(2008) relembra que condições sociais de um povo são determinantes finais e com grande peso para a saúde. Alguns exemplos de Determinantes Sociais de Saúde que incidem negativamente sobre a saúde são a violência, desemprego, subemprego, falta de saneamento básico, habitação inadequada e/ou ausente, dificuldade de acesso à educação, fome, urbanização desordenada, qualidade do ar e da água ameaçada e deteriorada (BRASIL, 2006a). Diante da tendência de problemas sociais como os mencionados acima serem cotidiano nas comunidades, a finalidade de atender as necessidades de saúde dos grupos sociais que constituem um território significa tomar o conceito da determinação social do processo saúde- doença para instaurar processos de trabalho que respondam por elas no âmbito das raízes dos problemas, do determinante (CAMPOS; MISHIMA, 2005). Segundo Persegona et al.(2009) a partir das necessidades de uma comunidade, o Enfermeiro em Saúde Comunitária juntamente com a equipe multidisciplinar, planeja e realiza ações para alcançar efeito sinérgico em situações complexas visando melhoria da qualidade de vida e empoderamento de grupos populacionais mais vulneráveis. Nesta perspectiva, entendendo-se que as ações do Enfermeiro possam assegurar melhorias para a comunidade, é pertinente refletir sobre os instrumentos que este profissional utiliza em seu processo de trabalho, sobretudo os conhecimentos que moldam seu agir. Considerando este cenário complexo, tem-se a questão norteadora desta pesquisa: Quais estratégias o Enfermeiro em Saúde Comunitária utiliza visando impactar Determinantes Sociais de Saúde? Em busca de possíveis respostas a tal questionamento, realizou-se uma revisão integrativa da literatura, buscando destacar estratégias e intervenções utilizadas na prática e no processo de trabalho do enfermeiro dentre as contribuições das pesquisas produzidas pela Enfermagem Brasileira acerca da temática, tomando por base os artigos publicados em periódicos nacionais. Esta temática de pesquisa surgiu num primeiro momento nas atividades acadêmicas de Administração dos Serviços de Enfermagem em Saúde Pública, sobre Planejamento Estratégico em Saúde, onde se levantam determinantes e condicionantes de saúde encontrados na comunidade para planejar ações que levem em consideração às raízes (causas) dos problemas. Em outro momento percebendo a lacuna bibliográfica existente sobre estratégias e intervenções utilizadas pela enfermagem em saúde comunitária para impactar Determinantes Sociais de Saúde que interfere na saúde da comunidade, delimitou-se o tema. O planejamento em saúde no nível local acontece num contexto complexo determinado por influências políticas das esferas de governo e que interferem no processo decisório da enfermagem (SOUZA et al., 2008). Ciente da dimensão política presente na problemática faz-se necessário esta resposta, pois é a garantia do exercício da cidadania ativa, conquistando a oportunidade para que as comunidades sejam beneficiadas da discussão e construção de como fazer e produzir Saúde, evidenciada nesta preocupação. Determinantes Sociais de Saúde A saúde já foi definida como ausência de doenças, e nos últimos tempos é aceita como completo estado de bem-estar bio-psico-social. Conforme Akerman et al.(2006), esta definição de saúde não permite compreender sua dimensão coletiva, MONÇÃO, Marilza Leiko; FIGUEIREDO, Marcio Grei Alves Vidal 40 Interbio v.6 n.2 2012 - ISSN 1981-3775 inserida em um amplo contexto históricocultural, com conceitos de múltiplos significados e deverá ser estendido dando ênfase ao seu caráter de bem público, direito do cidadão e instrumento de preservação e desenvolvimento de uma sociedade. Criada em março de 2006 a Comissão Nacional de Determinantes Sociais de Saúde, traça um panorama da situação de saúde do país e propõem programas e intervenções. Explica como se relaciona os determinantes e como estão vinculados as características individuais e comportamento de estilo de vida que determinam e condicionam a saúde. Caracteriza os determinantes intermediários como redes sociais/comunitárias, condições de vida e trabalho e determinantes distais como a macroestrutura econômica, social e cultural (CNDSS, 2008). “Os determinantes referidos constituem uma rede complexa de fatores que se inter-relacionam e condicionam o processo saúde-doença na especificidade do indivíduo e na abrangência do modo de vida coletivo” (SANT’ANNA et al., 2010, p.93). Barata (2006) revisa conceitos e modelos de Determinação Social do processo saúde-doença e a contribuição brasileira no assunto estabelecendo relações com desigualdade social de saúde. Para Sena e Silva (2007), essas condições de saúde e de adoecimento expressam-se nos indicadores de morbi-mortalidade, no acesso e na distribuição dos serviços, ainda na formulação de políticas públicas. De acordo com a pesquisa que identificou a percepção de Enfermeiras sobre os Determinantes Sociais de Saúde na comunidade trabalhada, Sant’Anna et al. (2010) conclui que, os determinantes sócioambientais que mais apareceram nas repostas, foram referências aos aspectos das condições socioeconômica, culturais e ambientais gerais, identificadas na educação, ambiente de trabalho, fonte de renda, saneamento básico, habitação, serviços de saúde e cultura. Enfermagem em Saúde Comunitária A enfermagem em saúde comunitária está ligada a Estratégia Saúde da Família que é o modelo dito centro ordenador de redes de Atenção à Saúde no Brasil. Conforme a Política Nacional de Atenção Básica, portaria 648/2006, o processo de trabalho das equipes de Saúde da Família inclui atuar no território, realizando diagnóstico situacional e desenvolver atividades de acordo com o planejamento dirigidas aos problemas de saúde mais freqüentes da comunidade. Buscar a integração com instituições e organizações sociais, em especial em sua área de abrangência, para o desenvolvimento e promoção de parcerias nas ações intersetoriais sob coordenação da gestão municipal (BRASIL, 2006b). Persegona et al. (2009) reflete em seu artigo sobre o papel do Enfermeiro nas contribuições da construção, decisões e execução de políticas de saúde, pois exige dele inserções nos espaços decisórios, atuando nas diferentes formas de concretizar ações de saúde. No cenário da saúde comunitária, o Enfermeiro assume responsabilidades que vão além da condução da equipe de enfermagem, assume a gerência de unidade de saúde, programas e processo de trabalho interdisciplinar, para alcance de objetivos coletivos. Materiais e Métodos Estudo de abordagem qualitativa que identificou nas produções da Literatura a relação da Enfermagem em saúde comunitária e os Determinantes Sociais de Saúde numa revisão integrativa. Este tipo de revisão é um método de pesquisa que permite a busca, a avaliação crítica e a síntese das evidências disponíveis do tema investigado, sendo o seu produto final o estado atual do conhecimento do tema investigado e a implementação de intervenções efetivas na assistência à saúde (MENDES et al. 2008, p.758). A revisão integrativa contribui no processo de sistematização e análise dos resultados visando à compreensão de um determinado MONÇÃO, Marilza Leiko; FIGUEIREDO, Marcio Grei Alves Vidal 41 Interbio v.6 n.2 2012 - ISSN 1981-3775 tema a partir de outros estudos independentes (SOUZA et al., 2010). A partir do levantamento de pesquisas realizadas sobre ações, programas e/ou políticas de saúde, foram levantadas as estratégias que a Enfermagem em saúde comunitária planeja e desenvolve para impactar Determinantes Sociais de Saúde. Nesse sentido, foram adotadas as seis etapas indicadas para constituição da revisão integrativa da literatura: seleção da pergunta de pesquisa; definição dos critérios de inclusão de estudos e seleção da amostra; representação dos estudos selecionados em formato de tabelas, considerando todas as características em comum; análise crítica dos achados, identificando diferenças e conflitos; interpretação dos resultados; reportar de forma clara a evidência encontrada (MENDES et al. 2008; BARBOSA et al., 2008; CAMPOS, 2005). Tais etapas constituíram um protocolo a ser seguido. A busca pela literatura ocorreu no mês de setembro 2011, na base de dados Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), somente artigos indexado no LILACS. Os descritores foram selecionados a partir da terminologia em saúde consultada nos Descritores em Ciências da Saúde (DECS-BIREME), sendo como critério de inclusão estudos que continham descritores: Enfermagem em saúde comunitária, Enfermagem em saúde pública, determinação das necessidades de saúde, promoção comunitária, desenvolvimento da comunidade, publicadas no período de 2004 a 2011, no idioma português, que fossem textos completos e os autores com formação (pelo menos um) em enfermagem. Em posse dos estudos, iniciou-se a leitura flutuante dos mesmos e, considerando o critério de pertinência e consistência do conteúdo, foram selecionados nove estudos completos para análise mais aprofundada. Em concordância com o terceiro item das etapas estabelecidas na revisão integrativa da literatura para a extração dos dados dos estudos selecionados, foi construída uma tabela contendo colunas descriminando as seguintes informações: autores, título do estudo, ano de publicação, periódico, considerações/temática. Os dados foram agregados conforme a identificação de semelhanças e diferenças compondo um achado que foi interpretado e sustentado com outras literaturas pertinentes. Todos os estudos selecionados encontram-se referenciados no texto. Os benefícios da questão investigada sustentada numa perspectiva de construção do conhecimento criam-se possibilidade de uma abordagem mais critica e reflexiva dos Determinantes Sociais de Saúde e conseqüente desenvolvimento de ações que interfiram sobre eles, aumentado a consciência de cidadania e prática social no perfil do Enfermeiro em Saúde Comunitária Resultados e Discussão Ao buscar por literatura envolvendo a temática percebe-se que ainda são escassos os estudos sobre Determinantes Sociais de Saúde e Enfermagem, porém, o mesmo não ocorre com determinantes biológicos, comportamentais e psicológicos, existindo grande quantidade. O que confirma que ainda se encontra em transição o processo de pensar Saúde no centro do desenvolvimento social, refletindo na literatura os aspectos de intervenções biomédicas e curativas na saúde comunitária, porém nos artigos selecionados podemos perceber que a Enfermagem em saúde comunitária investiga e atua na problemática. Respondendo a questão norteadora da pesquisa pode-se afirmar que o Enfermeiro está direcionado a intervir na realidade e usa estratégias que pode ser percebidas nas iniciativas como: (1) controle e participação social, (2) promoção de cidadania, (3) empoderamento comunitário, (4) intersetorialidade; E com estas estratégias intervêm nos níveis de saúde e nos aspectos que influenciam negativamente a saúde da MONÇÃO, Marilza Leiko; FIGUEIREDO, Marcio Grei Alves Vidal 42 Interbio v.6 n.2 2012 - ISSN 1981-3775 comunidade. Os artigos selecionados foram apresentados no quadro 1. Estes artigos selecionados trazem referências aos Determinantes Sociais Saúde de forma fluída, porém o deslocamento da questão saúde para o centro do processo de desenvolvimento social, expressa a transformação do pensar/fazer saúde no cotidiano da Enfermagem em saúde comunitária, respeitando princípios da Política Nacional da Promoção de Saúde como: intersetorialidade, empoderamento, participação social, eqüidade, ações multiestratégicas, concepção holística e sustentabilidade (BRASIL, 2006a). Quadro 1: Descrição dos estudos incluídos na revisão integrativa, levantados na base de dados LILACS segundo título do artigo, autor (es), periódico, ano de publicação e considerações/ temática. Nº Título Autor (es) Periódico Ano de Considerações/ Temática public. As contribuições da MARIN, M. Rev. Latino2007 Verificou as contribuições da 1 comunidade para o trabalho J. S. et al Am. participação popular nas da equipe de um PSF Enfermagem ações de saúde O controle social no Sistema ARANTES, Texto 2007 Identificou as ações de 2 Único de Saúde: concepções C. I. S. et al. contexto – controle social de enfermeiras e ações de enfermeiras da enferm. atenção básica Promovendo a cidadania por BACKES, D. Rev. bras. 2009 Identidade política do 3 meio do cuidado de S. et al. Enferm. enfermeiro /responsabilidade enfermagem social Empoderamento: processo de KLEBA, M. Saude soc. 2009 Dimensões e conceitos de 4 fortalecimento dos sujeitos E.; empoderamento do sujeito nos espaços de participação WENDAUS /participação social e política. social e democratização EN, A. política Intersetorialidade: uma PAULA, K. Interface 2004 5 vivência prática ou um A. de; (Botucatu) Compreendeu como o desafio a ser conquistado? O PALHA, P. enfermeiro busca articulação Discurso do Sujeito Coletivo F.; PROTTI, com os equipamentos sociais/ dos enfermeiros nos núcleos S. T. intersetorialidade de Saúde da Família do Distrito Oeste - Ribeirão Preto Saúde coletiva na perspectiva SANTOS, M. Rev. Gaúcha 2009 Ambiente 6 ecossistêmica: uma C. dos Enferm. saudável/consciência possibilidade de ações do (Online) ecossistêmica/inserção do enfermeiro enfermeiro Violência entre jovens: COCCO, Rev Gaúcha 2010 7 dinâmicas sociais e situações M;.LOPES, Enferm Dinâmicas sociais na vida do de vulnerabilidade MJM jovem/ situações de vulnerabilidade Estudo com enfermeiros e CEZARTexto 2007 Estudo quantitativo do 8 médicos da atenção básica à VAZ, M. R. contexto – processo de trabalho partir de saúde: uma abordagem et al. enferm uma abordagem socioambiental socioambiental Alcoolismo: um novo desafio ACAUAN, Esc. Anna 2008 Enfermeiro na busca de 9 para o enfermeiro L.et al. Nery saberes acerca do alcoolismo/assistência eficiente e eficaz A Promoção da Saúde inclui nas suas ações, políticas públicas e intersetoriais reforçando a mudança do estilo de vida e de determinantes sociais, políticos, econômicos, culturais, ambientais que favorecem o processo de adoecimento para MONÇÃO, Marilza Leiko; FIGUEIREDO, Marcio Grei Alves Vidal 43 Interbio v.6 n.2 2012 - ISSN 1981-3775 alcançar uma visão de Saúde como Produção Social e capacitação da coletividade para melhoria da qualidade de vida (WESTPHAL, 2006). Conforme Backes et al.(2009), a travessia do paradigma “biologicista”, ainda presente na saúde para um pensamento sistêmico de intervenção social reflete a percepção de que o enfermeiro pode interagir no desenvolvimento social local de forma pró-ativa e empreendedora. No primeiro artigo analisado Marin et al. (2007), destaca a participação social como movimento que vem sendo incentivado como uma estratégia de enfrentamento dos problemas de saúde. Para sua operacionalização, a Lei nº 8.142, de 28 de dezembro de 1990, orienta sobre a formação dos Conselhos de Saúde nos vários âmbitos como um espaço estratégico e valioso instrumento para a construção de mudanças nos modos de gerir e nas práticas de saúde (Brasil, 2009). De acordo com a Política Nacional de Humanização do SUS a gestão participativa implica o envolvimento dos trabalhadores da saúde, gestores e usuários em um pacto de co-responsabilidade baseado em contratos e compromissos com o sistema de saúde (TRAD; ESPERIDIAO, 2011). Conforme Lanzoni et al. (2009), a atuação de enfermeiros e profissionais de saúde nos conselhos de saúde apresenta-se como uma estratégia de fortalecimento para o exercício de cidadania, requer compromisso e responsabilidade social, ética e familiarização com as políticas públicas de saúde. Constata-se a necessidade de avançar na construção de maior consciência política e responsabilidade da comunidade, através da discussão de saúde de uma forma mais ampliada (MARIN et al., 2007). Pensar em práticas e políticas saudáveis numa concepção ampliada de saúde é incluir integração e intersecção de todos os setores sociais com participação social e o empoderamento (KLEBA; WENDAUSEN, 2009). Versa no artigo dois (2) o fortalecimento e a construção do controle social efetivo como um importante papel do Enfermeiro na Atenção Básica à Saúde, pois estão em contato direto com a população usuária dos serviços e possuem, em grande parte, um papel articulador tanto das atividades realizadas, quanto dos diferentes trabalhadores envolvidos no processo de produção das ações de saúde (ARANTES et al., 2007). O Enfermeiro deve possuir conhecimento sobre o curso de como as questões de saúde são determinadas, repensar os condicionantes e determinantes da realidade como se apresentam, interferir politicamente nestas questões, bem como mobilizar as pessoas com as quais interage, para também agir (PERSEGONA et al., 2009, p.647). O artigo três (3) trata-se de um estudo qualitativo que objetivou compreender o significado do cuidado de enfermagem como prática social empreendedora. Segundo Backes et al. (2009), nesse empreendimento de contribuir para o desenvolvimento comunitário, o enfermeiro deve ser capaz protagonizar novos espaços e práticas de promoção da cidadania, ampliando espaços e oportunidades reais, importante na inclusão social. Conforme Zioni e Westphal (2007), a transformação da sociedade e políticas públicas depende de esforço conjunto, no sentido de promover e garantir empoderamento das populações. A valorização do individuo, como sujeito da ação, pode transformar estrutura e significados de ações sociais. Trata-se de uma abordagem histórica e conceitual do processo de empoderamento proposto no artigo quatro (4), tomando-o como elemento relevante à compreensão das possibilidades e dos limites na promoção da participação social e política (KLEBA; WENDAUSEN, 2009). O trabalho com os Determinantes Sociais de Saúde é tido pelos profissionais de promoção da saúde como estratégia e uma força sinérgica para o empoderamento comunitário e a equidade MONÇÃO, Marilza Leiko; FIGUEIREDO, Marcio Grei Alves Vidal 44 Interbio v.6 n.2 2012 - ISSN 1981-3775 social (DOWBOR, 2008). Mais do que repassar informações e induzir determinados comportamentos, o empoderamento comunitário deve buscar apoiar pessoas e coletivos a realizarem suas próprias análises para que tomem as decisões que considerem corretas, desenvolvendo a consciência crítica e a capacidade de intervenção sobre a realidade (CARVALHO, 2004). A abordagem da intersetorialidade no artigo cinco (5) apresenta-se como a capacidade de articular os vários setores locais (educação, ambiente, habitação, etc.) onde as ações de saúde são ofertadas à população, de forma a prestar uma atenção mais integral e resolutiva podendo desencadear mudanças mais efetivas e duradouras (PAULA et al., 2004). Ainda que com limites, o aumento das interfaces entre a saúde e os outros setores para a construção da cidadania com o avanço das abordagens intersetoriais nas políticas de governo municipais expresso na criação de câmaras para a gestão da política local e nas experiências de orçamento participativo ampliaram a visão sobre os determinantes sociais da saúde. (GIOVANELLA et al., 2009, p.793). Os artigos de número seis (6) e oito (8) mencionam determinantes ambientais e a inserção de ações do enfermeiro na apropriação de uma consciência socioambiental coletiva. Conforme Santos et al.(2009) o ecossistema saudável de uma comunidade nutre a rede social local e precisa ser entendida como um bem comum, construído e a ser conservado. Valorizando assim o ambiente como determinante / condicionante no processo saúde-doença (CEZAR-VAZ, 2007). Os artigos de número sete (7) e nove (9) trazem referências de determinantes sociais como violência e alcoolismo, refletindo sobre vulnerabilidade e dinâmicas sociais envolvidas, bem como o papel dos serviços de saúde no desenvolvimento de políticas e ações para construir intervenções consistentes, valorizando o sentido de cidadania, reconhecendo-o como elemento importante na qualidade de vida e saúde das populações (COCCO; LOPES, 2010). É imprescindível que o enfermeiro busque novos saberes o que lhe propiciará um novo olhar e a oportunidade de prestar uma assistência mais eficiente e eficaz (ACAUAN, 2008). Para o planejamento de atividades, a enfermagem identifica a necessidade da elaboração do plano, atores e os recursos envolvidos com o plano, tentando viabilizálo, realizando previsão de situações e possíveis alternativas para a tomada de decisão. (KAWATA et al., 2009). Apesar dos avanços na construção de uma abordagem mais ampla sobre saúde e bem-estar, permanece o desafio cotidiano de lidar com problemas estruturais e complexos e que, na maioria das vezes, envolvem diferentes esferas de governo, instituições e agências públicas, além de múltiplas habilidades, recursos e níveis de informação (MAGALHAES; BODSTEIN, 2009). O planejamento compartilhado e participativo propicia ao cidadão uma prática fiscalizadora e avaliativa das ações em saúde e da plena concretização dos objetivos traçados (LANZONI et at., 2009). A participação efetiva dos usuários e da população é o eixo do estabelecimento de práticas emancipatórias, com ênfase na autonomia e no diálogo profissional-usuário. Com isso, pode-se agir sobre os determinantes do processo saúde-doença que interferem em seu adoecer e em seu ser saudável. (HORTA et al., 2009). Segundo Kleba e Wendausen (2009), os processos de empoderamento e de promover o desenvolvimento comunitário através do trabalho com os Determinantes Sociais de Saúde ocorrem em arenas conflitivas, onde necessariamente se expressam relações de poder, requer criatividade, ousadia e a capacidade de protagonizar e visualizar novos espaços de desenvolvimento e ações estratégicas. O nível local luta por maior autonomia, aprimorando e assumindo novos encargos sendo um deles o essencial processo de planejar em saúde de forma ascendente, MONÇÃO, Marilza Leiko; FIGUEIREDO, Marcio Grei Alves Vidal 45 Interbio v.6 n.2 2012 - ISSN 1981-3775 participativa comunicativa e estratégica (CUBAS, 2005). Enfatiza-se a necessidade de implementar no ensino o conceito ampliado do processo saúde-doença, adotando se noções de promoção da saúde em contraposição à natureza setorial que caracteriza a formação e a atuação dos profissionais, considerando-se o enfoque social, comunitário e político como determinante das respostas efetivas em saúde (SILVA, 2007, p.829). “Ao contribuir para a constituição de cidadãos saudáveis, conscientes de seus direito, esses serviços aumentam a possibilidade de ações sociais que incidam positivamente sobre os múltiplos determinantes do processo saúde/doença.” (CARVALHO, 2004, p.1094). Segundo Backes et al. (2011), a enfermagem é uma profissão eminentemente social pela possibilidade de compreender o indivíduo não como um ser doente, mas como um ser complexo e com potencial de ser participante nos cuidados de saúde de sua vida e de sua comunidade. Basta, no entanto, que a enfermagem invista em atitudes pró-ativas, capazes de promover a saúde dos indivíduos pela ampliação das oportunidades e possibilidades reais. A educação em saúde é o processo de construção do conhecimento que leva o indivíduo a sua autonomia e emancipação através de um pensamento crítico e reflexivo da realidade e dos fatores determinantes de um viver saudável permitindo propor ações transformadoras por meio de um processo participativo, intervindo de forma mais ampla nos aspectos que determinam o processo saúde-adoecimento (MACHADO et al., 2007). atendimento resolutivo e humanizado às comunidades, porém condições de trabalho e apoio dos gestores municipais devem fazer parte da pauta de prioridades dos governos, proporcionando condições aos profissionais para atuar numa abordagem intersetorial visando o desenvolvimento da comunidade. Constata-se que nesse empreendimento de contribuir para o desenvolvimento comunitário, o enfermeiro protagoniza novos espaços e práticas de promoção da cidadania Considerações Finais BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Política Nacional de Promoção da Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2006a. Percebe-se um envolvimento maior da Enfermagem em Saúde Comunitária em todos os aspectos que determinam processo saúde-doença, e principalmente no enfoque social. Considera-se que isto sejam bases nos processos de trabalho para um Referências Bibliográficas ACAUAN, L; DONATO, M; DOMINGOS, A. M. Alcoolismo: um novo desafio para o enfermeiro Esc. Anna Nery, Rio de Janeiro, v. 12, n. 3,Sept. 2008 . AKERMAN, M.; et. al. Saúde e Desenvolvimento: Que Conexões? . In: CAMPOS, G.W.S., et.al. (Org.). Tratado de saúde coletiva. São Paulo: Hucitec. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2006. ARANTES, C.I.S. et. al. 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