PROCEDIMENTOS DOS ALUNOS DURANTE O DESENVOLVIMENTO DE UMA ATIVIDADE DE MODELAGEM MATEMÁTICA Ana Paula Zanim Lorin Universidade Estadual de Londrina [email protected] Lourdes Maria Werle de Almeida Universidade Estadual de Londrina [email protected] Resumo: Este trabalho tem por objetivo identificar os procedimentos utilizados por um grupo de alunos do 2º ano do curso de licenciatura em matemática, na disciplina de Modelagem Matemática, durante o desenvolvimento de uma atividade de modelagem matemática do terceiro momento de familiarização. A metodologia utilizada é de caráter qualitativo e a análise é inspirada nas considerações da proposta metodológica da Teoria Fundamentada (Grounded Theory), baseada principalmente, nas indicações de Kathy Charmaz. A análise da atividade apresentada identifica os procedimentos dos alunos na configuração, estruturação e resolução de uma situação-problema. Foi possível inferir que os alunos envolvidos nessa atividade apresentam dificuldades com relação aos procedimentos, manipulação dos dados e obtenção do modelo matemático que descreve a situação inicial. Palavras-chave: Modelagem Matemática. Procedimentos dos alunos. Educação Matemática. Introdução A modelagem matemática consolidou-se nos últimos anos como um campo de investigação em programas de pós-graduação ligados à área de Educação Matemática e também já aparece como disciplina nas licenciaturas em Matemática, como, por exemplo, na Universidade Estadual de Londrina, Universidade Estadual do Norte do Paraná e Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Os estudos a respeito de modelagem matemática em Educação Matemática têm diferentes abordagens, realizadas com diferentes pressupostos no que se refere às perspectivas que norteiam as práticas educativas e as estruturas teóricas das pesquisas científicas. Segundo Barbosa, O crescimento do interesse por Modelagem Matemática no campo da Educação Matemática tem sido visível nas últimas décadas. Trata-se de um tema sempre presente nos eventos e publicações, suscitando interesse de XII EPREM – Encontro Paranaense de Educação Matemática Campo Mourão, 04 a 06 de setembro de 2014 ISSN 2175 - 2044 professores e pesquisadores. Este crescimento tem impulsionado a configuração de uma comunidade brasileira de pesquisadores em Modelagem, cuja configuração parece estar relacionada à produção de dissertações e teses (BARBOSA, 2003, p.84). É o caso desse trabalho, que apresenta um recorte de uma dissertação em andamento. Uma justificativa para estudar modelagem matemática, deve-se à sua implementação nos currículos escolares, pois a introdução da modelagem matemática na sala de aula é vista como uma possibilidade de estudar os conteúdos matemáticos e também de proporcionar ao aluno a resolução de situações do seu cotidiano com vistas aos objetivos educacionais complementares. Partindo do pressuposto de que a implementação da modelagem matemática é uma realidade em algumas licenciaturas, uma questão que se coloca, diz respeito ao modo como os alunos lidam com as atividades de modelagem matemática, assim estamos interessados em que(ais) encaminhamento(s)1 dos alunos podem ser identificados durante o desenvolvimento de atividades de modelagem matemática. Isto é, este trabalho tem por objetivo identificar os procedimentos utilizados pelo grupo de alunos do 2º ano de um curso de licenciatura em matemática, na disciplina de Modelagem Matemática, durante o desenvolvimento de uma atividade de modelagem do terceiro momento de familiarização proposto por Almeida, Silva e Vertuan (2012). A metodologia utilizada para analisar os procedimentos dos alunos no desenvolvimento da atividade de modelagem matemática é inspirada na proposta metodológica da Teoria Fundamentada (Grounded Theory), baseada principalmente, nas indicações de Kathy Charmaz (2006, 2009). Os dados para a análise foram coletados por meio de observação direta dos alunos, aplicação de questionários, entrevista, anotações em diário de campo, gravações de áudio e vídeos e registros escritos dos alunos. Inicialmente, apresentamos nosso entendimento com relação à modelagem matemática, no âmbito da Educação Matemática. Em seguida, descrevemos uma atividade de modelagem desenvolvida por um grupo de alunos e analisamos olhando para os procedimentos realizados, à luz dos aspectos teóricos que serão elencados. Modelagem Matemática na Educação Matemática Neste trabalho, entendemos a modelagem matemática como uma alternativa pedagógica que relaciona a matemática escolar com questões extra matemáticas que 1 Encaminhamento: no sentido de como eles definem o “rumo” no desenvolvimento das atividades de modelagem matemática. XII EPREM – Encontro Paranaense de Educação Matemática Campo Mourão, 04 a 06 de setembro de 2014 ISSN 2175 - 2044 interessam aos alunos (ALMEIDA; BRITO, 2005). Nesse sentido, consideramos que uma atividade de modelagem matemática pode ser descrita “em termos de uma situação inicial (problemática) e de uma situação final desejada (que representa uma solução para a situação problema) e de um conjunto de procedimentos” (ALMEIDA; SILVA; VERTUAN, 2012, p.12). Nessa perspectiva, os procedimentos efetuados pelos alunos no desenvolvimento de uma atividade de modelagem matemática estão associados aos métodos e ações utilizadas pelos alunos para irem da situação inicial à situação final. Uma atividade de modelagem matemática, na sala de aula, pode se desenvolver seguindo uma sequência de etapas, conforme mostra a Figura 1, Figura 1: Esquema de modelagem apresentado por Bassanezi (2011, p.27) De acordo com Bassanezi (2011), o processo envolvido em uma atividade de modelagem é dinâmico, repletos de ir e vir, conforme é indicado pelas setas pontilhadas. Atividades de modelagem matemática colocam os alunos em contato com práticas que, de forma geral, não lhe parecem corriqueiras na sala de aula, como é o caso do envolvimento com uma situação-problema e, em muitos casos, com a própria definição de um problema. A familiarização do aluno com a modelagem pode ser realizada gradativamente, caracterizando três diferentes “momentos”: Em um primeiro momento, o professor coloca os alunos em contato com uma situação problema, juntamente com os dados e as informações necessárias. A investigação do problema, a dedução, a análise e a utilização de um modelo matemático são acompanhadas pelo professor, de modo que as ações como definição de variáveis e de hipóteses, a simplificação, a XII EPREM – Encontro Paranaense de Educação Matemática Campo Mourão, 04 a 06 de setembro de 2014 ISSN 2175 - 2044 transição para linguagem matemática, obtenção e validação do modelo bem como o seu uso para a análise da situação, são em certa medida, orientadas e avalizadas pelo professor. Posteriormente, em um segundo momento, uma situação é sugerida pelo professor aos alunos, e estes, divididos em grupos, complementam a coleta de informações para a investigação da situação e realizam a definição de variáveis e a formulação de hipóteses simplificadoras, a obtenção e validação do modelo matemático e seu uso para a análise da situação. O que muda, essencialmente, do primeiro momento para o segundo é a independência do estudante no que se refere à definição de procedimentos extramatemáticos e matemáticos adequados para a realização da investigação. Finalmente, no terceiro momento, os alunos divididos em grupos, são responsáveis pela condução de uma atividade de modelagem, cabendo a eles a identificação de uma situação-problema, a coleta e análise dos dados, as transições de linguagem, a identificação de conceitos matemáticos, a obtenção e validação do modelo e seu uso para a análise da situação, bem como a comunicação desta investigação para a comunidade escolar (ALMEIDA, SILVA, VERTUAN, 2012, p. 26). A orientação e a colaboração do professor, mais intensa no primeiro e no segundo momento, podem conferir ao aluno confiança, independência e autoridade para delimitar uma situação-problema, e buscar por meio da matemática uma solução. Deste modo, a independência do aluno para o desenvolvimento da atividade vai se intensificando e solidificando no decorrer desses diferentes momentos, tornando-se responsável por todos os procedimentos no terceiro momento. O envolvimento do aluno com atividades de modelagem matemática nos permite direcionarmos nosso olhar para alguns aspectos desse envolvimento, por exemplo, o “como” esses alunos se tornam modeladores e quais as características desses modeladores, suas dificuldades e barreiras para com a modelagem, bem como seus estilos de pensamento. Nesse sentido, Maaβ (2005, p.10), caracteriza por meio de competência de modelagem dos alunos2, quatro tipos de modeladores, sendo eles: “modelador da realidade-distante; modelador da matemática-distante; modelador reflexivo; modelador desinteressado”. Já Blum e Ferri (2009), apontam que possíveis dificuldades podem ser evidenciadas no modo como os alunos lidam com atividades de modelagem, segundo eles, essas dificuldades podem ser observadas nas seguintes fases da modelagem: construção do modelo (o aluno ignora o contexto e realiza os cálculos); simplificação (o aluno tem dificuldade em fazer suposições) e validação (o aluno não verifica se a solução é razoável e adequada). 2 “a capacidade de construir modelos realizando esses passos várias vezes, bem como analisar ou comparar modelos dados” (BLUM; FERRI, 2009, p.47), XII EPREM – Encontro Paranaense de Educação Matemática Campo Mourão, 04 a 06 de setembro de 2014 ISSN 2175 - 2044 No que diz respeito às dificuldades e as competências dos alunos, Borromeo Ferri (2006) caracteriza „rotas de modelagem dos alunos‟ como sendo os caminhos que eles percorrem para desenvolver uma atividade de modelagem matemática. Considerando o aporte teórico apresentado, temos a intenção de analisar os procedimentos de um grupo formado por três alunos durante o desenvolvimento de uma atividade de modelagem matemática no terceiro momento de familiarização. A seguir, apresentaremos as etapas percorridas para o desenvolvimento deste trabalho. Aspectos metodológicos A metodologia utilizada para analisar os procedimentos dos alunos durante o desenvolvimento de uma atividade de modelagem matemática é inspirada na proposta metodológica da Teoria Fundamentada (Grounded Theory), baseada principalmente, nas indicações de Kathy Charmaz (2006, 2009). Segundo Charmaz (2009), os dados formam a base da teoria e a análise que o pesquisador faz dos dados origina a teoria, ou pelo menos alguns aspectos dessa teoria, contrariamente às estratégias habituais em que os dados são analisados a partir de uma base teórica. A autora afirma que a análise dos dados conduz a uma compreensão teórica da experiência estudada. Nesse sentido, procuramos codificar os procedimentos com palavras que indicassem ações, conforme indicação teórica: “A codificação na teoria fundamentada incentiva o estudos da ação e dos processos” (CHARMAZ, 2009, p.70). O grupo envolvido nesse trabalho desenvolveu uma atividade considerada do terceiro momento de familiarização como proposto por Almeida, Silva e Vertuan (2012), em uma disciplina de Modelagem na UTFPR – Cornélio Procópio. A atividade foi denominada por eles como “Todo cuidado é pouco! O número da Aids”. Optamos, em analisar os procedimentos durante o desenvolvimento de uma atividade de apenas um grupo, devido à quantidade de dados coletados e o limite desse texto. A atividade especificada nesse trabalho e desenvolvida pelo grupo exigiu dos alunos a escolha do tema, do problema a ser resolvido, bem como sua resolução, concluindo com uma apresentação para todos os alunos da disciplina. A atividade teve orientação da professora regente da turma, bem como da pesquisadora, primeira autora deste trabalho. Os dados para a análise foram coletados por meio de observação direta dos alunos, aplicação de questionários, entrevista, anotações em diário de campo, gravações de áudio e vídeos e registros escritos dos alunos. Buscamos, a partir desses dados e por meio da análise identificar os procedimentos do grupo na atividade. XII EPREM – Encontro Paranaense de Educação Matemática Campo Mourão, 04 a 06 de setembro de 2014 ISSN 2175 - 2044 Análise dos procedimentos dos alunos na atividade de modelagem: “Todo cuidado é pouco! O número da Aids” Para a análise consideramos um grupo formado por três alunos, que iremos denotar por A1, A2 e A3, indicaremos por P a professora regente da turma e por p a pesquisadora. Para uma melhor identificação dos códigos que, em geral, são palavras ou uma sequência de palavras que indicam ação, identificaremos no formato itálico os códigos que indicam os procedimentos realizados pelo grupo. No terceiro momento de familiarização com atividades de modelagem matemática, referente a atividade em questão, os alunos desenvolvem a atividade de forma independente, ou seja, escolhem o tema, levantam os dados, o problema que querem investigar, sendo responsáveis por todo o processo de desenvolvimento. Desse modo, a professora da turma, inicialmente pediu para que os alunos anotassem o que eles estavam pensando em investigar, para que tivéssemos acesso aos registros de suas primeiras ideias. Inicialmente os tiveram diferentes ideias, pesquisaram a respeito de vários temas, como mostra o diálogo abaixo, A1: tenho uma ideia, mas não sei como podíamos modelar isso: planetas habitáveis podem ser comuns, um quinto das estrelas parecidas com o Sol tem planetas habitáveis, a estrela mais próxima com planetas habitáveis está há 12 anos luz, aí tipo, tem distância, envolve matemática, mas eu não sei como colocar isso, entendeu. Acharam um planeta e tem as informações dele. A1: e aí gente, vamos expor as ideias. A2: eu estava pensando em fazer sobre a quantidade de presidiários que tem no Brasil. p: mas daí seria só contar a quantidade? A2: não eu queria saber se um dia vai ter a mesma quantidade de presos que tem lá fora. Então a A1 achou um de galáxias e a A3 sobre o pré-sal, bem legal, só que não temos o volume do pré-sal, temos a área. A1: eu peguei mais ou menos o que é redes sociais e tem a ver com a matemática (lendo o que pesquisou para os colegas), e eu peguei uma tabela que tem todas as redes sociais com a quantidade de todos os seguidores. Mas a do planeta é muito legal gente, de verdade, eu já pensei em um problema, mas não sei. Bom, vou ler tudo pra vocês me ajudarem a encontrar um problema (lendo sobre o tema); é legal o tema, tipo assim da pra gente fazer uma modelagem da distância. Quais seriam os planetas habitáveis daqui a tantos anos luz? Vamos escrever esse que a gente trouxe. Então vamos selecionar o que nós vamos procurar, do pré-sal já sabemos que não dá, então vamos procurar sobre os planetas e sobre os presídios. Em outra aula o grupo relata que não gostaram dos temas que tinham discutido e mudaram de tema, p: e aí, vocês mudaram de tema? A1: é nós não gostamos dos outros temas. O tema escolhido pelo grupo foi “Todo cuidado é pouco! O número da Aids”, no trabalho final entregue pelos alunos podemos notar que o grupo coloca no item que escolheram como sendo XII EPREM – Encontro Paranaense de Educação Matemática Campo Mourão, 04 a 06 de setembro de 2014 ISSN 2175 - 2044 apresentação da situação-problema, os dados que levantaram a respeito do tema, conforme mostra a Figura 2, No dia 1º de dezembro é comemorado o dia Mundial de Luta contra a Aids. Uma decisão da Assembleia Mundial de Saúde, adotada no Brasil, a partir de 1988. AIDS é a Síndrome da Imunodeficiência Humana, e se caracteriza pelo enfraquecimento do sistema de defesa do corpo e pelo aparecimento das doenças oportunistas. Como esse vírus ataca as células de defesa do nosso corpo, o organismo fica mais vulnerável a diversas doenças, como um simples resfriado até infecções mais graves como tuberculose e alguns tipos de cânceres. Neste domingo (1/12), Dia Mundial de Luta Contra a AIDS, o Ministério da Saúde divulgou o novo boletim sobre a doença no Brasil. são estimados 718 mil portadores de HIV, dos quais cerca de 150 mil ainda não sabem de sua condição. “São quase três Maracanãs lotados”. Os números demonstram que a Aids, no Brasil apesar de concentrar-se em populações vulneráveis, está também muito presente no universo feminino. De 1980 a junho de 2011, foram identificados 397.662 (65,4%) casos da doença no sexo masculino e 210.538 (34,6%) no sexo feminino. No entanto, essa diferença vem diminuindo ao longo dos anos. Em 1989, a razão era de seis homens infectados para cada mulher, enquanto em 2010 passou para de seis a cada 1,7. Em 2010, a taxa de incidência entre homens foi de 22,9 casos por 100 mil habitantes e nas mulheres, a taxa foi de 13,2 por 100 mil habitantes. Em 2010, foram registrados mais casos de mulheres entre 13 e 19 anos com Aids do que homens da mesma faixa etária. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, em 2010, foram registrados 349 casos de Aids entre meninas contra 296 notificações do vírus entre meninos. Pelos números, a incidência da doença entre mulheres jovens é de 2,9 para cada 100 mil habitantes, enquanto entre homens a taxa é de 2,5 para cada 100 mil habitantes. Até 30 de junho de 2011, 137 meninas de 13 a 19 foram infectadas, enquanto 110 jovens do sexo masculino tiveram a doença detectada. "Temos uma grande preocupação com mulheres jovens, de 13 a 19 anos, pelo fato de ter mais mulheres que homens nessa faixa etária e pelo aumento dos casos de Aids entre meninas”, disse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em entrevista coletiva. Por causa do aumento de casos de Aids no sexo feminino, um dos focos da campanha de prevenção do governo federal serão mulheres de 13 a 19 anos. Quando se leva em consideração tanto homens quanto mulheres, a incidência da enfermidade é maior entre pessoas de 35 a 39 anos. De acordo com o Ministério da Saúde, em 2010, a taxa de incidência da doença entre pessoas dessa faixa etária é de 38,1 para cada 100 mil habitantes. A taxa de incidência da doença entre homens dessa faixa etária passou de 67,8 casos a cada 100 mil habitantes em 1998 para 49,4 em 2010. Já a verificada entre mulheres aumentou de 26,8 casos a cada 100 mil habitantes para 27,4. A segunda faixa etária com maior incidência é entre 30 e 34 anos (37,4 para cada 100 mil habitantes). Na faixa etária acima de 50 anos, a taxa entre mulheres aumentou 75,9% em 2010 na comparação com os dados de 1998. Nos homens, a incidência passou de 14,5 casos por 100 mil habitantes em 1998 para 18,8 no ano passado. O Brasil vai parar de crescer em 2042. Uma nova projeção para a população brasileira, divulgada nesta quinta-feira pelo IBGE, mostra que o país vai atingir o seu ápice populacional naquele ano, quando terá Fonte: acervo da 228,4 milhões de autora habitantes. A partir daí, a população começa a decrescer - em 2060, por exemplo, já estará no mesmo nível de 2025, um total de 218,2 milhões de pessoas. Em 2013, a população é de 201 milhões. Figura 2: relatório final dos alunos A partir de todo o levantamento das informações, o grupo formulou o seguinte problema: “levando em consideração essas informações , surge o interesse em investigar, no ano do ápice populacional do Brasil (2042), o número de incidência de casos de aids será maior nos homens ou nas mulheres”? O grupo levanta e manipula os dados da apresentação da situação-problema, conforme mostra o diálogo, A1: só que eu tenho que colocar os dados de 2010 e 2009, alguém olha pra mim. A2: 2009: homem é 25 e mulher é 15,5; 2010: homem é 22,9 e mulher é 13,2. A3: e aí está ficando próxima a diferença? A2: mais ou menos; tem mais padrão do que torto. A1: vai dar linear isso não vai. A2: acho que não... A1: é verdade vai subir mais aqui...começou a cair de novo. XII EPREM – Encontro Paranaense de Educação Matemática Campo Mourão, 04 a 06 de setembro de 2014 ISSN 2175 - 2044 A2: uhum A2: subiu de novo... A3: é bom ir plotando, talvez fique mais fácil. A3: a gente podia pegar um padrão de dois em dois A2: também acho...porque de cinco em cinco vai ficar muito tendencioso. A1: pronto já plotei A2, A3: vamos ver A1: quais vão ser os anos? A2: 90, 91... A1: nossa deu assim ó (aponta para o computador) A2: deixa eu ver. Ó esse pedacinho que ela deu desnivelada, que ano que é? Podemos não pegar ele. E como é só um podemos deixar e falar que ele é um ponto discrepante. A1: vou fazer de cinco em cinco pra ver A2: vou fazer de três em três A1: esse aqui não deu discrepante. (aponta para as plotagens que ele fez) De dois deu mais cheinho né. A2: o de três em três ficou horrível. A2: olha eu acho que vai ser uma senóide. A1: acho que vai ser um cosseno. A1: vem aqui ver professora os gráficos. Esse aqui é a diferença de todos.O gráfico, fizemos de um em um, dois em dois, três em três... P: e aquela de 100% vocês fizeram, a diferença de percentual? A1: ainda não. A2: como faz? P: tem que ser assintótica A2: mas e se ela não for? A3: professora, não incluímos no modelo, mas e se considerarmos que um dia vai acabar. P: tentem fazer a diferença de percentual pra ver se vocês encontram alguma regularidade. A2: é 100 menos a taxa de homem, depois é 100 menos em taxa de mulher. A1: nossa gente desiste, ficou muito estranho. A2: ah vamos deixar de dois em dois então. Ficou parecendo uma galáxia tudo disperso nosso gráfico. A1: professora vem ver como ficou. P: por que aquele último ficou tão grande? Vamos usar o curves pra ver qual função se aproxima. P: tá vendo que ele traçou a melhor curva, agora você precisa ver qual vai ser a melhor. A1: nossa Nesse diálogo, podemos inferir que o grupo estuda o comportamento dos dados fazendo uso do excel, com o intuito de encontrar um modelo matemático que descreva a situação inicial que propuseram. Também na entrevista do aluno A1, inferimos que o grupo teve dificuldades em manipular os dados, conforme mostra a Figura 3, [...] então a gente se reuniu várias vezes e não saia nada, nós perdemos bastante tempo nisso, acho que uma semana e meia se vendo todo dia e não conseguia fazer nada, a gente fazia os gráficos, tentava fazer, então os nossos dados eram assim, a gente teve que lidar com uma coisa que a gente ainda não tinha aprendido, a gente tinha vários dados e a gente precisou aprender a lidar com esses dados de uma maneira que usasse da melhor forma pra deduzir o modelo, pra responder o que a gente queria. Figura 3: trecho da entrevista do aluno A1 XII EPREM – Encontro Paranaense de Educação Matemática Campo Mourão, 04 a 06 de setembro de 2014 ISSN 2175 - 2044 No relatório final do grupo, na matematização da situação, o grupo realiza o levantamento das hipóteses, selecionam as variáveis, deduzem o modelo e validam o modelo, conforme mostra a Figura 4, Hipóteses: A população brasileira atingirá seu ápice em 2042, com 228.350.224 habitantes dos quais 116.616.790 serão mulheres e 111.734.134 serão homens. A situação pode ser representada através de um modelo por partes. A primeira por uma função polinomial do 3° grau, no intervalo de 1990 a 2005, e a segunda, no intervalo de 2005 a 2010, por uma exponencial decrescente. Taxa de incidência de Aids. Taxa de incidencia. Variáveis: Variável independente: Tempo (t). Variável dependente: Taxa de incidência de Aids masculino (M) e feminino (F). Quantidade total da população (Q(P)). Variável auxiliar: (x). homens 1980 1990 2000 2010 2020 Tempo. Sexo Masculino: Analisaremos o gráfico dividindo-o em duas partes: a primeira será com os quatro primeiros pontos e a segunda com os dois últimos. Primeira parte: Para construção do modelo matemático da situação, consideramos os quatro pontos conhecidos para aplicar em m(x)= ax3+bx+c. Tomamos então os pontos (0; 10,74), (1; 20,83), (2; 22,75) e (3; 23,22). Temos então o seguinte sistema de equações: Encontrando o modelo: { Como na tabela apresentada, escolhemos alguns pontos estratégicos que variam de 5 em 5 anos. Variável auxiliar x mulheres 𝒕 𝟏𝟗𝟗𝟎 𝟓 Plotando os pontos temos o gráfico: d= 10,74 c= 10,09 – b – a (1) 8a+ 4b+ 2(10,09- b- a) + 10,74= 22,75 (2) 8a+ 4b+ 20,18- 2b- 2a= 12,01 6a+ 2b= -8,17 b= b= -4,085 – 3a (3) Substituindo b em (1), temos: c= 10,09- (- 4,085- 3a) –a c= 10,09+ 4,085+ 3a- a c= 14,175 + 2a (4) 27a+ 9(-4,085- 3a)+ 3(14,175+2a)= 12,48 (5) 27a -36,765 -27a +42,525 +6a = 12,48 6a= 49,245 -42,525 6a= 6,72 a=1,12 XII EPREM – Encontro Paranaense de Educação Matemática Campo Mourão, 04 a 06 de setembro de 2014 ISSN 2175 - 2044 Substituindo a em (4), temos: c= 14,175 + 2(1,12) c= 14,175 +2,24 c= 16,415 Substituindo c em (3), temos: b= -4,085 – 3(1,12) b= -4.085 -3,36 b= -7,445 Portanto, { Substituindo a variável: Validando a primeira parte: m(0)= 10,74 m(1)= 1,12 -7,445 +16,415 +10,74 m(1)= 20,83 m(2)= 1,12(8) -7,445(4) +16,415(2) +10,74 m(2)= 8,86 -29,78 +32,83 +10,74 m(2)= 22,75 m(3)= 1,12(27) -4,445(9) +16,415(3) +10,74 m(3)= 30,24 -67,005 +49,245 +10,74 m(3)= 23,22 Segunda Parte: Para a construção da segunda parte do modelo matemático consideramos os pontos (3; 23,22) e (4; 22,9), e a expressão m(x)= abx. Note que temos o seguinte sistema de equações: ab4= 22,9 { ab3= 23,22 (1) a= 𝑏 (b4)= 22,9 23,22b= 22,9 b= Substituindo em (1), temos: 4 a(0,986218776) = 22,9 b= 0,986218776 a(0,946004203)= 22,9 a= 24,20708061 Assim, m(x)= 24,20708061(0,986218776)x Validando a segunda parte: m(3)= 24,20708061(0,986218776)3 m(3)= 23,22 m(4)= 24,20708061(0,986218776) m(4)= 22,90000001 ( { Assim, m(x)= 1,12x3-7,445x2+16,415x+10,74 ) Sexo feminino: Analogamente analisaremos o gráfico da incidência de Aids no sexo feminino. Primeira Parte: Para a construção do modelo matemático da situação, consideramos quatro pontos conhecidos e aplicamos na f(x)= ax³+bx²+cx+d. Tomamos então os pontos (0; 1,96), (1; 7,45), (2; 13,05) e (3; 15,5). Substituindo os pares ordenados na expressão geral da função, obtém-se o seguinte sistema de equações lineares: d= 1,96 a+ b+ c+ d= 7,45 8a+4b+2c+d=13,05 27a+9b+3c+d=15,5 a=5,49-b-c (1) 8(5,49-bc)+4b+2c=11,9 43,92-8b-8c+4b+2c=11,09 -4b-6c=-32,83 2b+3c=16,415 3c=16,415-2b c= (2) 27(5,49-b-c)+9b+16,415-2b=13,54 148,23-27b-27c+9b+16,415-2b=13,54 -20b-27( )+164,645=13,54 -20b-9(16,415-2b)=-151,105 -20b-147,735+18b=-151,105 -2b=-3,37 b=1,685 (3) Substituindo b em (2), temos: c= 4 c= c=4,348 Substituindo b e c em (1), temos: a=5,49-1,685-4,384 a=-0,543 XII EPREM – Encontro Paranaense de Educação Matemática Campo Mourão, 04 a 06 de setembro de 2014 ISSN 2175 - 2044 Assim, f(x)=-0,543x³+1,685x²+4,348x+1,96 Validando a primeira parte: f(1)= )=-0,543.1³+1,685.1²+4,348.1+1,96 f(1)=7,45 f(2)=-0,543.2³+1,685.2²+4,348.2+1,96 f(2)=-4,334+6,74+8,69+1,96 f(2)=13,052 f(3)=-0,543.3³+1,685.3²+4,348.3+1,96 f(3)=-14,661+15,165+13,044+1,96 f(3)=15,508 Substituindo (2) em (1), temos: a(0,617627605)=15,5 a=25,09602854 Assim, f(x)= 25,09602854 Validando a segunda parte: f(3)= 25,09602854(0,851612903)³ f(3)= 25,09602854. 0,617627605 f(3)=15,50000001 f(4)= f(4)= 25,09602854(0,525979637 f(4)=13,2 Portanto, Segunda Parte: Para continuarmos a construção do modelo matemático, nesta segunda parte vamos considerar os pontos (3; 15,5) e (4; 13,2), na expressão f(x)= . ab³=15,5 =13,2 𝑏 ={ Substituindo a variável: .𝑏 =13,2 { ( ) (15,5)b=13,2 b=0,851612903 (2) a= (1) Figura 4: relatório final do grupo Na Figura 4, destacamos que o grupo realizou a validação concomitante com a dedução do modelo. O grupo coloca em seu relatório final o item interpretação e validação, onde eles respondem o problema, conforme indica a Figura 5, XII EPREM – Encontro Paranaense de Educação Matemática Campo Mourão, 04 a 06 de setembro de 2014 ISSN 2175 - 2044 Analise do modelo e de suas estimativas. Em 2042 haverá aproximadamente: Respondendo ao problema: Homens: 111.734.134 Mulheres: 116.616.790 x= Logo, o numero de homens com incidência da doença será de aproximadamente 23.409 mil. Conclusão: Seja, x= = = 10,4 Masculino: Assim pode-se mesmo f(10, 4)= 24,20708061(0,986218776)10,4 Temos: que concluir o numero que de mulheres no ano de 2042 seja f(10, 4)= 24,20708061(0,865609415) maior que o de homens, isso não f(10, 4)= 20,95387689 será f(t)M 20,95 Logo, o numero de mulheres com incidência da doença será de aproximadamente 5.505 mil. Para o caso masculino, temos: Assim, Feminino: f(10, 4)= 25,09602854(0,85161283)10,4 f(10, 4)= 25,09602854(0,188156498) suficiente para que a quantidade de mulheres com incidência de Aids ultrapasse a quantidade de homens com a doença. f(10, 4)=4,721980844 f(t)F 4,72 Figura 5: relatório final do grupo Ressaltamos que os itens colocados no relatório final dos alunos foram escolhidos por eles. Inferimos que os nomes dados pelos alunos aos itens se aproximam do que encontramos na literatura pelo fato deles já terem tido contato com atividade de modelagem matemática anteriormente. No que diz respeito ao encaminhamento dos alunos durante o desenvolvimento dessa atividade de modelagem matemática, de acordo com os procedimentos que identificamos, podemos elencar três categorias, sendo elas: apresentação da situação-problema; matematização e resolução; interpretação e validação. Um esquema que representa o encaminhamento dos alunos nessa atividade é indicado na figura 6, Apresentação da situação Interpretação e validação Figura 6: da autora matematização e resolução XII EPREM – Encontro Paranaense de Educação Matemática Campo Mourão, 04 a 06 de setembro de 2014 ISSN 2175 - 2044 Inferimos que o grupo realizou toda a atividade de modelagem matemática passando por esses três “passos” ou “etapas”. Em cada uma dessas “etapas” os alunos realizaram procedimentos que destacamos: Apresentação da situação-problema: o grupo escolheu o tema, o levantamento dos dados, estudou o comportamento dos dados. Matematização e resolução: nesse momento o grupo realizou o levantamento das hipóteses, selecionam as variáveis, deduzem o modelo e validam o modelo. Interpretação e validação: o grupo responde ao problema. Considerações Finais A Modelagem Matemática foi utilizada como alternativa pedagógica. Nesse sentido, analisamos os procedimentos dos alunos no desenvolvimento de uma atividade de modelagem matemática do terceiro momento de familiarização. Os procedimentos dos alunos elencados revelam como se deu o encaminhamento da atividade que eles realizaram, todo o desenvolvimento da atividade se dá por meio de três “etapas”, sendo possível a identificação dos procedimentos realizados pelo grupo em cada uma dessas “etapas”. Inferimos que uma das dificuldades dos alunos no que diz respeito aos procedimentos foi com a manipulação dos dados, em identificar possíveis simplificações, e desse modo, recorreram à ajuda de professores para que pudessem entender melhor o comportamento destes dados. A construção do modelo também foi uma dificuldade apontada pelos alunos. Podemos inferir que essa dificuldade está em estabelecer relações matemáticas no fenômeno apresentado pela situação-problema. Um aspecto relevante que destacamos nesse trabalho, é que o encaminhamento que os alunos desse grupo dão para a atividade é diferente do que é apontado na literatura, podemos dizer que eles “fazem” seu próprio caminho para encontrar a solução do problema que eles propuseram. Desse modo, a identificação dos procedimentos realizados pelos alunos no desenvolvimento de uma atividade de modelagem matemática, pode auxiliar o professor a efetuar um monitoramento de suas atitudes no decorrer de sua orientação na atividade, de modo a facilitar a aprendizagem da matemática pelos alunos. Referências ALMEIDA, L. W.; SILVA, K. P.; VERTUAN, R. E. Modelagem Matemática na educação básica. São Paulo: Contexto, 2012. XII EPREM – Encontro Paranaense de Educação Matemática Campo Mourão, 04 a 06 de setembro de 2014 ISSN 2175 - 2044 ALMEIDA, L. W.; BRITO, D. S. Atividades de modelagem matemática: que sentido os alunos podem lhe atribuir? Ciência & Educação, v. 11, n. 3, p. 483-498, 2005. BARBOSA, J. C. 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