III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea O CAMPONÊS E O SEU PROTAGONISMO: O EXEMPLO DO MST E A SUA LUTA PELA PERMANÊNCIA E GARANTIA DE QUALIDADE DE VIDA NOS ASSENTAMENTOS DE REFORMA AGRÁRIA DO MUNICÍPIO DE NOSSA SENHORA DA GLÓRIA- SE Claudia Kathyuscia Bispo de Jesus Universidade Federal de Sergipe- UFS [email protected] III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea Interpretando o Campesinato Brasileiro A estrutura agrária brasileira, a permanência do poder das classes sociais rurais vinculadas aos grandes empreendimentos agropecuários, a pobreza e a negação de direitos sociais que marcaram, historicamente, a vida dos camponeses e demais trabalhadores(as) no campo foram elementos centrais definidores da formação, identidade e organização da sociedade brasileira e do seu meio rural. Tais questões apresentaram-se – com particularidades, complementaridades ou oposições – nas abordagens de valiosos estudiosos da sociedade brasileira, ora enquanto componente importante dos debates existentes na nascente ciências sociais em nosso país, ora demarcando também as leituras da atual geração de estudiosos(as) da sociologia, principalmente a sociologia rural; e é sobre isso que faremos uma breve análise abaixo. Para um dos clássicos do pensamento social brasileiro, com a colonização do território brasileiro, “formou-se na América tropical uma sociedade agrária na estrutura, escravocrata na técnica de exploração econômica, híbrida de índio - e mais tarde de negro - na composição” (FREYRE, 2005, p. 65), cuja família patriarcal – oriunda dos senhores de engenho – tornou-se o fator determinante na formação nacional, de acordo com Gilberto Freyre em sua obra Casa-grande & Senzala, de 1933. Para ele, foi o grande empreendimento açucareiro advindo da iniciativa privada da família patriarcal rural o elemento definidor de nossas raízes socioculturais e econômicas, permitindo aflorar no Brasil – em decorrência da colonização portuguesa - a maior civilização dos trópicos, para Freyre (Idem), cheia de plasticidade, híbrida por natureza, com capacidade de miscigenar-se e adaptar-se ao clima tropical sem preconceitos e dificuldades psico-sociais1. Nesse sentido, mais do que o Estado colonizador português, foram os atributos positivos da família rural dos senhores de engenho os agentes fundamentais que moldoram a nossa existência social. Dessa forma, essa colonização particular Há um conjunto expressivo de críticas quanto à visão romântica e adocicada da escravidão no Brasil, de seu caráter suave por conta do colonizador português, como defendeu Freyre. Alguns apontam ainda que, além de questões sociais e acadêmicas que influenciaram o inovador sociólogo, Freyre teria focado – em maior medida – o escravo fora da casa grande, o do eito, do corte de cana ou a sua vida dentro da própria senzala. Acerca disso é oportuno lembrar dos escritos: MOTA, Carlos Guilherme. Ideologia da cultura brasileira (1933-1974). São Paulo: Editora 34, 2008; ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 2006. 1 III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea consolidou a agricultura latifundiária e a escravidão, onde, a partir de 1532, se evidenciou o domínio hegemônico da família rural, logo, a unidade produtiva, “a força social que se desdobra em política, constituindo- se na aristocracia colonial mais poderosa da América” (idem, p. 81), e que foi a única capaz de produzir uma sociedade baseada mais na complementaridade entre grupos étnicos do que em conflitos, em oposições socioculturais. Nessa leitura freyriana, o campesinato e a população trabalhadora de homens livres passaram despercebidos, em favor do complexo casagrande - senzala. Ao contrário de Freyre, Caio Prado Junior (2007) empregou a categoria conflito para desmistificar a formação colonial brasileira e os rumos de nossa nacionalidade, especialmente devido à sua abordagem materialista histórica como opção de análise da Evolução política do Brasil2. Para Prado Jr (2007), a escravidão é um ato de violência, de expropriação efetivada pelos senhores da terra. Ele revelou às raízes da formação da matriz do domínio rural brasileiro (grandes propriedades, trabalho negro escravo e o monocultivo), um sentido colonial ainda presente, através da força dos grandes proprietários de terra para ditar os destinados nacionais, principalmente ao expor que somos uma nação subordinada às relações capitalistas internacionais, enquanto produtora de matérias-primas, cujo enfoque o fez colocar em pauta o dilema da nossa histórica e injusta estrutura agrária. A sociedade colonial brasileira é reflexo fiel de sua base material: a economia agrária... da simplicidade da infra- estrutura econômica- a terra, única força produtiva, absorvida pela grande exploração agrícola- deriva a da estrutura social: a reduzida classe de proprietários, e a grande massa que trabalha e produz, explorada e oprimida (PRADO JR, 2007, p. 23- 29). Por exemplo, o sistema de sesmaria, a Lei de Terras de 1850 e o surgimento da República (1889) – em parte retaliação das classes rurais dominantes à monarquia devido à promulgação da Lei Áurea em 1888 – revelavam a marca indelével do nosso sentido colonial e, com isso, da aguda presença das elites agrárias sobre os rumos e o perfil do capitalismo no Brasil, no qual a posse da terra era negada aos setores populares. Mesmo no Século XX, não rompemos com a síndrome colonial, já que nos tornamos uma sociedade de capitalismo parcial, de capitalismo desigual e combinado, Evolução política do Brasil é o título do emblemático livro de Caio Prado Júnior publicado em 1934, e que é considerado por autores como Octávio Ianni e Antonio Candido, por exemplo, como o escrito que inaugurou o emprego da abordagem marxista, em termos científico, no Brasil. Segundo Candido (1995, p. 11), tal livro foi “[...] a primeira tentativa de síntese da nossa história baseada no marxismo”. Sobre isso ler: IANNI, Octávio. Pensamento social no Brasil. Bauru-SP: Edusc, 2004; CANDIDO, Antonio. O significado de “Raízes do Brasil”. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ª. edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 9-21. 2 III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea que suporta a convivência, de maneira complementar, entre trabalho servil ou semiservil com relações mais modernas em termos capitalistas de remuneração da força de trabalho, na compreensão de Caio Prado Jr (Idem; 2000). É importante destacar que esse sentido colonial ou estatuto colonial3 contribuiu no desenvolvimento da economia agrária brasileira, que se figurou alicerçada na exploração e concentração dos meios de produção no campo (a terra). As classes dominantes rurais fortaleceram-se, além de basear sua riqueza no trabalho negro escravo, pela exploração da pequena propriedade, inibindo sua expansão pelo monopólio da terra, bem como do próprio trabalho livre durante séculos. Por isso, nessas condições, o pequeno proprietário acabava “cedendo” a sua terra em benefício dos grandes domínios, logo, “depois de tal processo de eliminação da pequena propriedade, vai- se afinal fundar toda a economia agrária da colônia unicamente no grande domínio rural” (Idem, p. 21), e essa será uma herança negativa que bloqueou o desenvolvimento nacional mesmo dentro dos moldes capitalistas, acompanhando a história brasileira até os dias atuais, pois sempre houve, por partes das políticas governamentais e da estrutura econômica, “uma clara tendência no sentido de acentuação da disparidade entre a grande e pequena exploração, em favor da primeira” (PRADO Jr, 2000, p. 82). Tudo isso contribuiu para a permanência de um viés compulsório no universo do trabalho rural (morador de condição e o sistema de barracão, no Nordeste, e o regime de colonato no sudeste) e nas condições precárias de vida no meio rural (baixa escolaridade e de expectativa de vida, desnutrição, escassez de acesso a bens culturais, etc). Além dos aspectos já mencionados sobre o estatuto colonial, vale ressaltar a contribuição de Ligia Osório Silva (2008) em seu trabalho minucioso que se voltou para revelar a história da apropriação territorial, principalmente de como a criação da Lei de Terras , em 1850, nos deixou sob as amarras dos detentores de terras - ou o (re)começo do cativeiro da terra como afirmou José de Souza Martins (1981) -, ou seja, a estrutura socioeconômica brasileira e os sujeitos que a condicionam fizeram com que o nosso tempo presente estivesse sustentado e alimentado pelo tempo passado. Sobre o sentido ou estatuto colonial presente na obra de Caio Prado Jr, vale ler os seguintes textos: IANNI, Octávio. A dialética da história. In: _____ . Pensamento social no Brasil. Bauru-SP: Edusc, 2004. p. 77-101; ; RÊGO, Rubem Murilo Leão. Sentimento do Brasil: Caio Prado Júnior – continuidades e mudanças no desenvolvimento da sociedade brasileira. Campinas: Editora da Unicamp, 2000; RICUPERO, Bernardo. Caio Prado Júnior e o lugar do Brasil no mundo. In: BOTELHO, André; SCHWARCZ, Lília Moritz. Um enigma chamado Brasil: 29 intérpretes e um País. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 226-239. 3 III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea A Lei de Terras [!] estava vinculada, portanto, também ao processo de consolidação do Estado nacional. Procurando ordenar uma situação de grande confusão que existia no Brasil em matéria de títulos de propriedade, a lei estabeleceu um novo espaço de relacionamento entre os proprietários de terras e o Estado, que foi evoluindo durante a segunda metade do século XIX, com desdobramentos na primeira república (OSÓRIO, 2008, p. 19). Além da questão frisada acima pela autora, o Estatuto da Terra, de 1963, segundo a estudiosa, contribuiu para instaurar o “caos da concentração fundiária” que até hoje persiste na realidade agrária do nosso País (Idem), beneficiando o grande empreendimento rural, em detrimento da classe trabalhadora no campo. Ademais, a força das elites rurais e suas ações contra a afirmação de direitos sociais no campo jogaram um peso decisivo nos destinos nacionais, seja na negação do alcance dos diretos trabalhistas das áreas urbanas para o meio rural no período getulista (1930-1945), seja na reação e apoio ao golpe militar de 1964 contra as reformas de base no Governo de João Goulart, seja no processo de redemocratização brasileira em 1985. Em todos esses momentos, o poder das classes rurais abastadas esteve presente, condicionando as dinâmicas sociopolíticas e econômicas brasileira, e blindando o campo da expansão dos direitos sociais, principalmente da reforma agrária (IANNI, 2004; MARTINS, 1994). Muito das questões que o País vivencia hoje tem, também, como um dos seus marcos estrutural o tipo de transição que ocorreu de uma sociedade agrária para uma sociedade de característica urbano-industrial, principalmente iniciada com a “Revolução de 1930”, o fim da velha república. É nesse período que, para Francisco de Oliveira (1977), ocorre a nossa revolução burguesa, que foi incapaz de promover um real rompimento com a estrutura monopolizada pelos latifundiários 4 . Desse modo, na tentativa de consolidar os interesses da burguesia, a partir do desenvolvimento industrial, passou-se a buscar mudanças no âmbito do processo produtivo, ora pela intensificação do desenvolvimento das forças produtiva, ora pelas transformações nas relações produtivas sem que houvesse alterações expressivas no campo. A liberação da força de trabalho do campo para a cidade inibiu, em várias situações, o nascimento de conflitos sociais no campo, de cobrança pela reforma agrária e demais direitos sociais, além de ofertar mão de obra de baixo custo para as indústrias que nasciam e se Uma das teses clássicas do tipo de “revolução burguesa” que ocorreu no Brasil, isto é, uma revolução burguesa sem revolução burguesa, pelo fato da mesma não romper completamente com o poder do latifúndio, encontra-se presente no excelente livro: FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. 5ª. Edição. São Paulo: Editora Globo, 2006. 4 III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea desenvolviam nas cidades, particularmente no sudeste brasileiro. Assim, os interesses das frações de classe dominante (rural e urbana), de caráter regional, viam-se atendidas e não entravam em choque com os empresários. Com o avanço da expansão capitalista no Brasil pós 30, sobretudo na região hegemônica (São Paulo ou região Sul), desencadeava um movimento de diferenciação que resultou em uma estrutura de poder, onde localizava- se, de um lado, a nova classe dominante, a burguesia, oriunda do café, que emergia com forte apoio estatal e que não entrava em conflito com as oligarquias agrárias, com fina e íntima parceria com o Estado (o qual era também dirigido por essas oligarquias) que impulsionava a era da industrialização brasileira; e, do outro lado, estava a mais recente classe operária, oriunda do movimento migratório campo-cidade, com fragilidades de adaptação ao urbano-industrializado em decorrência de sua cultura rural (caipira, camponesa) (OLIVEIRA, Idem). Com base no autor supracitado, a questão da convivência da classe industrial com as oligarquias agrárias é tão somente uma questão de subordinação. Subordinação essa que não exclui as contradições entre os interesses do latifúndio e indústria, entre campo e cidade. A política econômica ditada pelos interesses da reprodução do capital industrial reduziu as formas de reprodução da economia agroexportadora, como uma forma de impor a sua própria forma de reprodução ao conjunto da economia nacional, com o intuito de que a política do capital industrial pudesse tomar o controle e infligir a sua lógica de reprodução do capital (Ibidem) É nessas condições que, segundo Oliveira, a relação capital industrial versus economia exportadora da oligarquia resultou no fenômeno da criação do proletariado rural, como bem afirmou Oliveira: O processo de proletarização no campo apenas apoiado na atividade cafeicultura caminhou por isso tão lentamente, tendo sido mais veloz nas atividades de exploração agrícola da cana- de- açúcar mesmo em São Paulo, e só tendo culturas como a da soja e do trigo, permitindo enormes mudanças na composição orgânica do capital, caíram definitivamente o proletariado rural (OLIVEIRA, 1977, p. 85). Essas mudanças no processo produtivo foram determinantes na conversão do lavrador em operário rural, em assalariados do campo na década de 1960 em diante, especialmente por conta das transformações que o meio rural passou em decorrência das III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea alterações no perfil dos grandes empresários agropecuários, que eram também donos de empresas modernas nas cidades5. Além disso, no Governo Goulart (1962-1964), o direito a organização sindical no campo é conquistado, bem como alguns direitos previdenciário e trabalhista (férias, 13º salário, aposentadoria, salário mínimo, etc.), fato que gerou reações adversas das oligarquias rurais (o golpe de 1964 foi uma das mais contundentes, como já foi abordado). Uma das reações contrárias foi o crescente quadro de expulsão promovido, no caso do Nordeste, pelos senhores de engenho em relação aos antigos moradores de suas terras, para não pagarem e incorporarem direitos sociais e trabalhistas ao cotidiano daqueles(as) que trabalham e moravam em suas terras tradicionalmente (SIGAUD, 2007). Acerca dessas transformações no Brasil, é importante destacar o contundente trabalho de Octavio Ianni (2004), quando o mesmo descreveu as alterações objetivas dos sujeitos pertencentes ao mundo do trabalho rural, de acordo com as metamorfoses vividas pela própria economia capitalista e dos perfis que o trabalhador rural assumiu, assim como as suas lutas políticas: Enquanto lavrador, o trabalhador rural se encontra pratica e ideologicamente vinculado à fazenda, ao fazendeiro aos meios de produção... ele se compreende como membro de um nós fortemente carregado de valores e relações de tipo comunitário... em nível ideológico, aí está o reino do valor de uso. Isto é, as relações de produção não são claramente vistas e avaliadas em termos da economia de mercado, de dinheiro... o lavrador não dispõe das condições sociais e culturais indispensáveis a compreensão da sua situação real. É apenas uma classe econômica, subalterna; vive na condição de uma classe- em- si [!]. Esse é o ambiente sócio- cultural econômico e político em que podem surgir movimentos religiosos (romarias, curandeiros, padres milagrosos, monges, profetas) ou manifestações de violência de tipo anárquico (tocaia, vindita, cangaço). Enquanto proletário, o trabalhador rural se encontra pratica e ideologicamente divorciado dos meios de produção, da fazenda, da casa- grande... o seu grupo, o seu nós são, principalmente os outros trabalhadores... em nível ideológico, aí se generaliza o reino do valor de troca. Isto é, as relações de produção passam a ser compreendidas e avaliadas com maior clareza, como relações mercantilizadas ou mercantilizáveis. Nesse contexto, o trabalhador aparece como uma classe política, elaborando uma consciência política mais autônoma, como classe- parasi [!]. Essas são as condições socioculturais, econômicas e políticas em que surgem as ligas camponesas e os sindicatos rurais. Além das revoltas de cunho religioso e da violência anárquica, messianismo e cangaço, surgem movimentos políticos de classe, organizados segundo as exigências da luta pela transformação das condições de existência do proletariado rural (IANNI, Ibidem, p. 130-131, grifos do autor). Muitos deles eram descendentes – filhos e netos – de usineiros, cafeiculturores, que resolveram ampliar investimentos e diversificá-los, bem como modernizar os anteriores, em alguns contextos. Sobre isso vale ler: SILVA, Maria Aparecida de Moraes. Errantes do fim do século. São Paulo : Editora da Unesp, 1999; 5 III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea E essas mudanças significativas, conforme Ianni expôs sobre a cena política do trabalhador e do aspecto de sua organização política, foi (e ainda é) importante no conflito de classes. Nesse cenário, lutas pela reforma agrária, direitos trabalhistas e previdenciários, como a da livre organização sindical, deram a tônica das reivindicações populares no meio rural, o que provocou conflitos abertos de classe com vários assassinatos de lideranças políticas camponesas (MARTINS, 1983). No geral, a ação do Estatal pós Estado Novo, o aparecimento e o constante crescimento da burguesia industrial e urbana, suas formas de apropriação dos poder público federal, que cada vez mais ampliou seu raio de interesses de fração de classe em detrimento do poder das oligarquias – sem que isso significasse necessariamente a anulação da importância das forças políticas rurais dentro do Estado -, o aumento das desigualdades regionais, o Golpe Militar de 1964, a crescente proletarização na cidade e, depois, no campo, o surgimento de trabalhadores sem terra (bóias-frias, trabalhadores volantes ou pontas de rua), acabaram por configur novas relações socioeconômicas e culturais, bem como colocaram elementos outros de exploração na relação capital x trabalho (OLIVEIRA, op. cit.; IANNI, op. cit.)6. Para muitos autores (Medeiros, 2010; Wanderley, 2003; Martins 1983), tal contexto produziu o aumento de condições desfavoráveis no campo, como a ampliação da concentração fundiária, o impacto socioambiental advindo do uso de agrotóxicos, desemprego, expulsão de famílias camponesas e o deslocamento cada vez maior da 6 Retomando as reflexões de Oliveira, percebemos o movimento dialético daquela época, pois, na medida em que avançava a expansão industrial, contraditoriamente, o proletariado crescia e, paralelamente, surgia também o exercito industrial de reserva. Além disso, o proletariado industrial se redefinia, tanto no aspecto quantitativo, por conta do desenvolvimento das forças produtivas, quanto no aspecto qualitativo, pela implantação da legislação trabalhista. Esse duplo movimento também estimulou a contradição capital versus trabalho, com a ascensão do proletariado na cena política, nas lutas de classes e também pelas suas diferenças internas.Vale ressaltar que, de acordo com o autor citado a cima, a compreensão da nova sociedade do Centro Sul, ou melhor, da região industrial de São Paulo, não pode ser completa se não considerar a presença do Estado (já tomado pela burguesia industrial) nesse processo. Foi ele que na esfera produtiva realizou a acumulação primitiva e a repassava para a burguesia industrial, bem como nas crises do ciclo do capitalista era quem intervia como a alternativa de saída. Mas, sua maior intervenção foi na guarda do movimento operário, por meio das suas concessões, através da legislação trabalhista a fim de manter preso o movimento operário ao Estado (OLIVEIRA, op. cit.). Já na região nordeste as relações sociedade, economia e Estado ocorreram de forma diferenciada das de São Paulo. Isso porque, a burguesia industrial do Nordeste encontrava- se de “braços atados” para participar de sua própria expansão, porque a sua produção ainda estava voltada para a exportação. Entretanto, com a integração do mercado nacional passou-se a ter a industrialização voltada para o mercado interno. Essa situação teve como consequência o agravamento das tensões burguesia versus proletariado, por decorrência da incapacidade da burguesia industrial do Nordeste de gerir novas formas de geração de valor e, consequentemente, novas relações com a classe subordinada. Além disso, no cenário político do Nordeste não houve (uma coligação populista, até então) um Estado como produtor direto de sua acumulação. Não teve um Estado contraditório (como fora na região de São Paulo) que favorecesse um amplo espaço para o confronto direto do conflito de classes. Porém, é importante ratificar que houve a presença de um Estado Contraditório na representação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), pois essa agência de planejamento regional (que correspondia a uma nova estrutura de poder) trouxe expectativa de superação da pobreza para o povo nordestino em meio as suas precárias condições de vida. Mas, na verdade, a criação dessa instituição tinha como intenção de “controlar ou dominar as tensões crescentes na região [...] foi senão uma das soluções dadas ao agravamento das contradições políticas no Nordeste” (IANNI, Idem, p. 211). III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea população rural para os centros urbanos em busca de trabalho e de melhores condições de vida, foram processos que marcaram as décadas de 1970 a 90. Torna-se claro que, essa mesma fase de dinamização e expansão da economia nacional, contraditoriamente, significou também a fase dos primeiros sinais de organização política dos trabalhadores rurais, a exemplos nos anos de 1960 das Ligas Camponesas e dos sindicatos rurais, como já foi salientado, e – posteriormente - o aparecimento do MST. Ademais, foi nesse contexto turbulento de manifestações camponesas que as ciências sociais, entre outras disciplinas, começaram a debruçar-se, de modo mais aprofundado, sobre esses fatos sociais, resultando, assim, em inúmeras temáticas publicadas a respeito das condições e modos de vida dos camponeses, a partir dos anos de 1970 em diante com maior intensidade, seja enfocando lutas sociais e as novas relações de trabalho, seja analisando a permanência da pequena produção rural em áreas dominadas pelo sistema de plantation. Portanto, esse acontecimento possibilitou, ademais, uma redescoberta, ou melhor, uma resignificação da categoria camponês, logo, passou a ser aceito como uma classe social. Uma vez que, até então, eram vistos de modo pejorativo, de não reconhecer a presença histórica do campesinato. O campesinato, uma categoria esquecida, espúria, em processo de diferenciação social, em direção a uma das classes polares do capitalismo, era o sinônimo de atraso, da fragilidade política e da dependência; acrescia- se a essas fragilidades a noção de ineficiência econômica, técnica, resultante do seu tradicionalismo e aversão ao risco. Esse quadro amplo do lugar dos camponeses na sociedade de classes parecia definir a sorte desses habitantes do campo: a pouca visibilidade, uma morte constantemente anunciada, embora adiada, a condição de ameaçados, economicamente, socialmente, politicamente. (WANDERLEY; et al, 2009, p.23) Em síntese, desejei apenas lançar algumas reflexões gerais feitas a partir da leitura de alguns estudiosos, sobre o meio rural, com ênfase para questão dos direitos sociais, reforma agrária, campesinato e o universo do trabalho no campo brasileiro, e como que a estrutura fundiária foi (e é) determinante para o surgimento e manutenção dos movimentos camponeses. Essas breves considerações remetem-nos a outra discussão, a de pensar a situação do camponês em meio a essas transformações nas relações produtivas e como ele reagiu (e ainda reage) as consequências dessas mudanças. Estes aspectos serão examinados, brevemente, no texto seguinte. O camponês e o seu protagonismo: o exemplo do MST III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea A história do campesinato brasileiro é registrada pelas marcas de suas lutas na obtenção de um espaço próprio na economia e na sociedade, portanto, de processos sociais de resistência pelo direito de existir, enquanto homens e mulheres, em termos políticos, sociais, culturais e econômicos. Segundo Wanderley (2009), o campesinato no Brasil sempre foi um setor bloqueado historicamente, especialmente por conta da negação sistemática, em diversas localidades, do acesso dessa população à terra. Voltando a questão da luta por espaço, a ideia de construção de um território (território no sentido de ser algo além de um espaço físico, é aquele em que há também relações sócio-culturais, história de vida, pertencimento diversos) aponta por si só para o protagonismo do camponês, na qualidade de que este foi capaz de edificar – mesmo em situações profundamente adversas - um lugar tecido por seu modo de vida, suas formas de sociabilidade, experiências e lutas políticas, processos de produção e reprodução da vida. Octavio Velho (1969) afirmou que o conceito de camponês é originado pelos próprios e não uma criação de cientistas sociais. Por outro lado, segundo José de Souza Martins (1983), a palavra camponês foi introduzida no país pela implantação política das esquerdas, quando existiam nomes específicos nas diversas regiões (como: caipira, caboclo, caiçara, tabaréu). De qualquer modo, entendemos por camponês e seu modo de vida como um conjunto de práticas e valores que remetem a uma ordem moral possuidora de valores do tipo familiar, na força de trabalho familiar enquanto uma unidade de produção e consumo, que portam sentimentos não apenas mercantis que os ligam à terra (seu principal meio de produção). De acordo com Nazareth Wanderley (1996), o camponês é uma expressão da agricultura familiar, agricultura essa entendida como um núcleo familiar, onde a mesma é proprietária dos meios de produção, logo, é aquela que assume o trabalho produtivo. Essa agricultura familiar tem como estrutura produtiva o tripé: trabalho-produçãofamília. No entanto, apresenta singularidades diversas, seja no aspecto de sua atividade econômica, seja no seu modo de sociabilidade, a depender do lugar, região, de condições socioeconômicas encontradas. Em suma, a produção camponesa é resultante da realização de atividades agrícolas e criação de animais, através de usos de técnicas e – muitas vezes – de tecnologias tradicionais de produção executadas por meio da unidade familiar. Assim, III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea na interpretação de Wanderley (1996, p.4), “[...] a família define estratégias que visam, ao mesmo tempo, assegurar sua sobrevivência imediata e garantir a reprodução das gerações subsequentes”. Nesse sentido, as estratégias de orquestrar a produção visam não só a sobrevivência, mas também a manutenção de suas relações de parentesco, consequentemente, de suas tradições, da reprodução da unidade familiar como elemento de produção e consumo ao longo do tempo. Questões mais gerais – do ponto de vista político, principalmente - colocaram na ordem do dia o tema do campesinato. Por decorrência do processo de internacionalização da indústria brasileira, bem como do avanço do capitalismo no campo, que impulsionaram o desenvolvimento da modernização do processo produtivo na agricultura, desencadeou-se, enquanto reação a essa modernização excludente, uma forte organização dos trabalhadores rurais em vários municípios no País, que repercutiram em âmbito nacional por conta de seus atos políticos na década de 1950 e, principalmente nos primeiros anos de 1960 que antecederam à implantação do Regime Militar em 1964. A organização política dos camponeses contou com o apoio dos partidos políticos, sobretudo o Partido Comunista Brasileiro (PCB), e da Igreja Católica, os quais reunidos no I Congresso Nacional dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas, em 1961, formularam, pela primeira vez, uma proposta unitária de reforma agrária brasileira, como síntese de suas interpretações política acerca da questão agrária no país, gerando repercussão na imprensa (rádio e jornal, na época). Destarte, “essas eram as condições em que estava ocorrendo à redefinição política das relações de classes no campo. Isto é, pouco a pouco, verificava-se a metamorfose política do lavrador em camponês” (IANNI, 2004, p. 212), especialmente na condição de elaboração de sua identidade política. A agenda política desses grupos campesinos expressava questões como: (a) reforma agrária; (b) livre direito à organização sociopolítica da classe trabalhadora rural; (c) extensão de direitos trabalhistas para o campo, bem como previdenciários; (d) fim do sistema de barracão e do cambão nos engenhos; (e) políticas públicas ligadas ao desenvolvimento produtivo no campo, fundamentalmente para a pequena produção rural (ANDRADE 2005; MARTINS, 1983). O elenco de aspectos aludidos acima mostra como as áreas rurais estavam incólumes aos direitos de cidadania, particularmente III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea devido ao poder das elites agrárias em negá-los constantemente, como já destacamos em momentos anteriores deste escrito. Esse período efervescente permitiu o acirramento dos conflitos no campo, sobretudo, com a criação e ação das Ligas Camponesas. As Ligas Camponesas foi um movimento camponês que teve seu inicio no ano de 1954 em Pernambuco e, posteriormente, na Paraíba, donde emergiram suas principais lideranças: João Pedro Teixeira, Elizabeth Teixeira, Júlia Santana, Francisco Julião e outros(as). As Ligas existiram até 1964, sendo eliminadas, assim como as demais organizações de camponeses e de trabalhadores rurais sindicalizados vinculados à esquerda. Os vinte anos de ditadura militar silenciaram as organizações dos trabalhadores e os partidos políticos de esquerda e o verdadeiro debate em torno de programas de reforma agrária só é retomado com o processo de redemocratização do país[...] seguiu- se o surgimento dos novos movimentos sociais no campo, entre eles o MST, que depois se tornaria o mais expressivo (STEDILE, 2005, p. 15). Tudo isso levou a um silenciamento da identidade política projetada a partir das ações e dos valores de mundo dos próprios homens do campo. Em meio à retomada das manifestações populares no período decisivo de encerramento do regime militar, o movimento camponês ganha (novo) impulso, com destaque para o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) 7 . De acordo com Stedile e Fernandes (2012), as raízes do surgimento desse movimento foram determinadas por diversos fatores, dentre os principais: a) o aspecto socioeconômico das transformações que a agricultura brasileira sofreu na década de 70; b) modernização e industrialização no campo; c) e a era da colonização da região Norte do país. Portanto, o nascimento do MST tem suas raízes nas condições objetivas do desenvolvimento da agricultura, logo, “o MST não surgiu só da vontade do camponês. Ele só pode se constituir como um movimento social importante porque coincidiu com um processo mais amplo de luta pela democratização do país” (Idem, p. 24) Torna-se necessário destacar que, para alguns estudiosos (a exemplo do Horácio Martins Carvalho) o surgimento do MST possibilitou uma resignificação do conceito camponês. Isto porque, afirmava-se que o camponês correspondia meramente a um simples produtor agrícola. “Com uma forma de organização própria e uma identidade que foi construída no processo de consolidação do movimento no âmbito nacional e 7 O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) surgiu na região Centro- Sul do Brasil no período de 1984- 1985. O movimento só teve contorno e repercussão nacional a partir dos anos 90, devido às vitórias e emblemas dos processos de ocupações de terra da época, a exemplo da ocupação na fazenda Macali. (TURATTI, 2005) III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea estadual, o sem- terra é a cara mais renovada do campesinato” (CARVALHO, 2005, p. 156). De tal modo, com base no autor citado, o MST marca o período de constituição de um novo camponês: o assentado de reforma agrária. Sônia Bergamasco (1996) define os assentamentos como a criação de novas unidades de produção agrícola, de base familiar, por meio de políticas governamentais, visando o (re)ordenamento do uso da terra, em benefício de trabalhadores rurais sem terra ou com pouca terra. Além disso, a autora argumentou que tudo isso, também, possibilita o incentivo a organização social e a vida comunitária, os laços de sociabilidade tradicionais do campo, onde o parentesco e a vizinhança assumem papel preponderante. É importante destacar que, no Brasil, a implementação dos assentamentos decorre, também, de uma tentativa de minimizar a violência dos conflitos sociais no campo, principalmente a partir da metade dos anos de 1980. No que se refere à família rural no projeto de reforma agrária, a mesma acaba assumindo caráter central, pois a criação dos assentamentos é a validação da importância e reconhecimento da família como elemento fundamental para a vida nos assentamentos, já que, “o sujeito da conquista do assentamento de reforma agrária tem um núcleo basicamente familiar, e de família extensa” (MARTINS, 2002, p. 19). Segundo Schneider (2003), a família rural é entendida como um grupo social que compartilha um mesmo espaço e possui em comum a propriedade de um pedaço de terra para cultivo agrícola. A mesma está ligada por laços de parentesco e consanguinidade (filiação), podendo a ele pertencer a outros membros não consanguíneos (adoção, compadres). É no âmbito familiar que se discute e se organiza a inserção produtiva, laboral, social e moral de seus integrantes; sendo também em função desse referencial que são estabelecidas as estratégias individuais e coletivas, que visam a garantir a reprodução social do grupo familiar. Assim, a família rural representa o trabalho (o predomínio da agricultura como base familiar), a segurança (garantia de futuro) e a conservação dos valores, tradições e costumes, de acordo com Souza (2009)8. Diante desta conceituação, parte-se a ideia de que a família rural assentada tenta garantir a reprodução social do grupo familiar e, consequentemente, a melhoria das Pesquisa de doutorado intitulada “Do acampamento ao assentamento: um estudo da reforma agrária e qualidade de vida em Sergipe”, realizada no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Sergipe (NPGEO/UFS), sendo a tese defendida em dezembro de 2009. Esta discute, entre outros aspectos relevantes ao processo de reforma agrária, a qualidade de vida das famílias assentadas em Sergipe. 8 III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea condições de vida, uma vez que estas são agentes da modificação social do mundo rural. Por isso, ela (a família rural) é base de nossa compreensão e respostas acerca da questão da busca pela implementação dos direitos sociais em seus respectivos assentamentos rurais de reforma agrária. São essas famílias e as dinâmicas existentes nos assentamentos que têm possibilitado em vários municípios formas de inclusão social antes precarizadas pela ausência da posse da terra. Ademais, são elas que passam a buscar qualificar as políticas dos poderes públicos municipais, cobrando escolas, postos de saúde, melhorias de infraestrutura (BERGAMASCO, 2003; MARTINS, 2004). A luta das famílias rurais assentadas pela sua permanência e garantia de Qualidade de Vida A partir do pressuposto que as famílias rurais assentadas são as protagonistas na busca por melhores condições de vida nos assentamentos e que desenvolvem, em muitas localidades, modos de cobranças para garantir uma maior e melhor aplicação de políticas públicas no meio rural, foram elas que se tornaram alvo de nosso trabalho. Como o presente texto resultou de um trabalho de extensão, o nosso objetivo foi, além de pesquisar, contribuir para que famílias assentadas pudessem apropriar-se, por meio de informações, e construir reivindicações/demandas voltadas para os direitos sociais e a qualidade de vida nos Assentamentos de Reforma Agrária do município de Nossa Senhora da Glória-SE, através dos Conselhos Municipais existentes. Essa apropriação de direitos, atualmente, vem se dando através dos Conselhos Gestores Municipais. Dessa maneira, o PIBIX (entendido como uma troca de saberes entre a universidade e a sociedade) desempenhou um papel de fornecer subsídios para a participação popular, a partir do tema dos direitos sociais e da qualidade de vida junto aos principais beneficiários da reforma agrária (as famílias assentadas), objetivando que elas pudessem apropriar-se, em algumas situações ainda mais, dos referidos temas mencionados, e inspirados no II Plano Nacional da Reforma Agrária (II PNRA).9 9 No aspecto à categoria da qualidade de vida, a mesma tem fina relação com a questão dos direitos sociais, fato que pode ser destacado e que se faz presente nas formulações do II PNRA, visto que o mesmo passou a ser entendido como “uma nova perspectiva orienta o PNRA. Nos novos projetos de assentamento busca-se combinar viabilidade econômica com sustentabilidade ambiental, integração produtiva com desenvolvimento territorial, qualidade e eficiência com massividade. Pretende-se, assim, criar as condições para que o modelo agrícola possa ser alterado, introduzindo-se maior preocupação com a III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea Inicialmente, considerando que a qualidade de vida está relacionada aos valores culturais, contextos econômicos e sociais, que se somam às percepções apresentadas pela família rural, pois se admite que a mesma possui concepções e capacidades de elaboração sobre o que representa qualidade de vida. Nesse sentido, este tema ilustra o propósito deste trabalho, que tentou apoiar-se e fundamentar-se, também, nas concepções de vida, dos projetos de melhoria social das famílias rurais assentadas em Sergipe, especialmente ao tomarmos como eixo um tema atual que é a questão da qualidade de vida, assim como ressaltou Ramonildes Gomes (2005), ao analisar a frisada categoria, apoiando-se, para tanto, nos valores e condições de existência vividas por agricultores familiares impactados pelas políticas da construção de hidroelétricas no Nordeste brasileiro. Na realidade, admite-se que essas famílias possuem concepções e capacidades de elaboração sobre o que representa qualidade de vida, uma vez que a consolidação do assentamento rural, na maioria dos casos, se dá por um árduo período de reivindicação. A qualidade de vida está constituída por elementos específicos ou fatores, os quais formam o contexto da experiência de vida dos indivíduos. (METZEN et al, 1980). Desta forma, o presente trabalho de extensão almejou levar essa discussão para dentro destes assentamentos - por meio de grupos focais e demais atividades -, oferecendo possibilidades para que os assentados (as) se apropriem dos marcos legal do II PNRA, agregando-a as demandas relativas ao tema da qualidade de vida. A ideia era que as famílias e sua instância de representação política (a associação) passem a exigir, nos respectivos Conselhos Gestores existentes no seu município, que tais aspectos (direitos sociais e qualidade de vida) fossem incorporados pelas políticas públicas e pela ação dos agentes da Assistência Técnica Rural (ATER, ATES e demais grupos de assessoria). Obtivemos como consideração final que, as famílias assentadas são protagonistas da reforma agrária e é sobre elas que devem se situar um conjunto de iniciativas capazes de possibilitar a consolidação e/ou a intensificação da luta pela conquista de direitos sociais e pela melhoria na qualidade de vida, uma vez que a posse distribuição de renda, a ocupação e o emprego rural, a segurança alimentar e nutricional, o acesso a direitos fundamentais e o meio ambiente” (II PNRA, 2004, p. 10). III- Seminário de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas. GT 2- Comunidades tradicionais e produção de sentido na sociedade contemporânea da terra ainda não assegura a plena garantia de condições de permanência através do acesso a bens e serviços essenciais ao indivíduo na manutenção do seu núcleo familiar. Referência Bibliográfica ANDRADE, Manuel Correia de. A terra e o homem no Nordeste: contribuições ao estudo da questão agrária no Nordeste. 7a. edição. São Paulo, Cortez, 2005. 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