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O COMÉRCIO DE UMA LOJA EM VILA RICA SETECENTISTA
Alexandra Maria Pereira1
Universidade de São Paulo
RESUMO
Esta comunicação pretende analisar as rotinas de uma loja radicada nas Minas durante a
primeira metade do século dezoito. Para tanto, beneficiamos das contas correntes de um
livro contábil, datado entre fevereiro de 1737 e agosto de 1738. De modo particular e
dentro dos limites ditados por esta fonte, destacamos os produtos ofertados na casa
comercial bem como a sua clientela. O estudo detalhado desta movimentação comercial
possibilitou-nos elementos profícuos para a identificação das preferências de cada
consumidor, e deste modo, um melhor conhecimento de alguns elementos
característicos do consumo da dita sociedade setecentista.
Palavras-chave: Economia colonial; Comércio; Atividades mercantis; Minas Gerais.
Esta comunicação pretende analisar as rotinas de uma loja radicada nas Minas
durante a primeira metade do século dezoito. Para tanto, beneficiamos das contas
correntes de um livro contábil, datado entre fevereiro de 1737 e agosto de 1738. De
modo particular e dentro dos limites ditados por esta fonte, destacamos os produtos
ofertados na casa comercial bem como a sua clientela. O APM CC 2018 faz parte do
fundo arquivístico da Coleção Casa dos Contos do Arquivo Público Mineiro.
Identificado como borrador de comerciante anônimo, não possui termo de abertura ou
identificação de autoria ou propriedade. A partir da sua transcrição foi possível inferir
que era um livro diário de uma loja estabelecida em Vila Rica.
A escrituração correspondia às estruturas básicas de um borrador ou livro-diário
e adequava-se à medida comum adotada na contabilidade do período em questão2. O seu
conteúdo estava dividido em três funções, e cada uma correspondia a um tipo de
procedimento adotado na organização da loja; tais procedimentos distribuídos em
quatro partes. Uma primeira função dedicada ao registro do processo de venda
dividido entre a primeira parte, em que se lançaram as vendas a crédito, e a terceira
parte, para as vendas à vista. Outra função corresponde ao balanço anual das
mercadorias dessa casa de comércio. E uma última, a qual se encontra inferida alguns
indicativos do sistema de cobranças por créditos e livranças ou ordens de pagamento.
No estudo ora proposto privilegiamos tão somente as vendas a crédito que
estão na primeira parte do borrador. Mas antes, ainda há que se apresentar a identidade
do comerciante, ou melhor, da companhia encabeçada por Jorge Pinto de Azevedo e seu
irmão Manoel Cardoso Pinto. Mediante análise de um processo de execução3 movido
por Jorge Pinto de Azevedo contra Ana Gonçalves da Silva em 1736, e relativo a uma
cobrança de dívida por fazenda adquirida em sua loja, obtivemos embasamento para
afirmar que o borrador de comerciante anônimo era de propriedade da sua loja em Vila
Rica.
A rede de clientes que adquiriam seus produtos no sistema a crédito era vasta;
aproximadamente 440 nomes, dentre os quais existe uma acentuada diversidade social.
Diversas pessoas de expressão na sociedade de Minas Gerais, como os contratadores
João Fernandes de Oliveira (precisamente o pai, pela data), o coronel Matias Barbosa, o
provedor da Real Fazenda de Minas, Antônio Coelho de Barros, o ilustríssimo Doutor
corregedor e ouvidor geral Fernando Leite Lobo, entre outros. Além de capitães,
coronéis, padres, tenentes, a Irmandade do Santíssimo, escravos, forros, artesãos, a sua
clientela era constituída por comerciantes – por exemplo: andantes, vendeiros e donos
de lojas. Nesse sentido, a análise das informações deixa claro que a atividade mercantil
dessa empresa não se limitava ao atendimento da demanda de um comércio a varejo,
também ocorria o abastecimento de outras casas comerciais, tanto em Vila Rica quanto
em outras localidades.4 Concomitantemente à venda de mercadorias, a empresa atuava
no mercado de empréstimo e mediações em processos.
A década de 1730 constituiu-se em um período particularmente significativo
para a atividade comercial das Minas. Um momento o qual a atividade de exploração
mineratória se fazia recorrente pouco mais de três décadas, e ainda permanecia em fase
próspera. Além disso, a atividade ganhou novo fôlego com a descoberta dos diamantes
nos fins da década anterior.
Um olhar mais atento para estes anos sugere a emergência das possibilidades
daquela sociedade em dispor de condições mais favoráveis para o consumo, sobretudo
aos mais abastados. Um outro aspecto importante decorrente da mineração era a
capacidade de gerar um meio imediato de poder de compra: o ouro em pó. Ele era a
principal moeda corrente e o comércio das Minas se beneficiou das condições de
utilização do metal. Júnia Furtado nos informa que “o comércio rapidamente floresceu
na região, pois os mineiros possuíam em suas mãos um equivalente universal de troca, o
que muito facilitava as operações mercantis” (FURTADO, 1999, p.197). Dessa forma,
podemos relacionar tal conjuntura com a movimentação econômica discriminada no
borrador.
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Cerca de 275 variedades de produtos estavam arrolados no processo de venda
dessa casa mercantil. Em grande maioria, estavam os artigos de luxo importados do
Reino, como tecidos, roupas, aviamentos em geral, enxovais para casa, instrumentos de
ofícios, entre outros. Separamos os artigos ofertados em nove categorias.
Tabela 10
Valor total por categoria (Dados apresentados em ordem decrescente para
os valores em réis)
Categoria
Tecidos
Valor total
14.576.183,07
Aviamentos, linhas e rendas
2.199.739,29
Artigos de vestuário
1.960.075,01
Perfumaria, jóias e acessórios
1.414.746,51
Ferramentas, arreios e armas
983.221,88
Utensílios de casa
782.588,14
Outros
365.296,88
Artigos de escritório
253.021,26
Especiaria
Soma total
93.543,75
22.628.415,79
Fonte: APM/Coleção Casa dos Contos. Referência: 2018
Com a análise da movimentação e faturamento da loja de Jorge Pinto de
Azevedo, verificamos que os tecidos foram destacadamente os artigos mais vendidos. O
valor geral da venda compreendeu a maior soma por categoria, ou seja, 14:576$183,07
réis, cerca de 65% do total das transações por crédito da loja, avaliada em
22:628$415,79 contos de réis. Os dados do borrador apontam bem para a variedade dos
tecidos ofertados, ao todo 58. Embora prevalecendo uma demanda maior de alguns
como a baeta, o veludo, o pano e a nobreza, a procura era bem diversificada pelos
têxteis.
O montante total de cada tecido em comparação com a sua quantidade
possibilitou-nos verificar as diferenças entre tecidos de uso comum para tecidos de luxo.
Em decorrência dessa avaliação, têxteis como a nobreza, o galacê e a cambraia da Índia,
alcançaram um valor total elevado mesmo apresentando uma venda em quantidade
menor. Tais dados possibilitam inferir que esses tecidos mais caros conseqüentemente
eram os mais luxuosos.
Para ilustrar algumas variações entre os tecidos segue o detalhamento de dois
casos. O primeiro trata-se do tecido e artigo mais vendido nesta loja tanto em valor
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quanto em quantidade, a baeta. Um tecido de lã ou algodão geralmente grosso e
felpudo, muito usado na confecção de roupas como o timão, que era um tipo de
camisola ou casaco grosseiro, usado por escravos, mulheres de baixa condição e
crianças, como proteção ao frio. As cores eram diversas e encontramos algumas
variações para os tons de verde e azul. As mais vendidas eram as azuis, seguidas do
vermelho, dos tons verdes e da preta. O segundo refere-se ao tecido mais suntuoso
derivado do fio da seda e um dos mais caros ofertados nessa casa, o galacê. Utilizado na
feitura de roupas, suas cores sempre compostas, como as combinações de ouro com
carmesim, prata com verde, agemado com prata, azul com prata, ouro com cor de fogo,
ou em uma única cor, como azul, ouro, rosa, preto, agemado e prata. As cores sugerem a
tendência das galas, das vestias e trajes de festa usados naquele universo da sociedade
mineradora. Um côvado daquele tecido custava em média 8$500 réis!
Os Aviamentos, linhas e rendas ocuparam a segunda categoria de produtos
mais vendidos na loja e representaram 10% das vendas.Decerto, não menos importante
e interessante ao que seria mais próximo às predileções dos moradores das Minas
setecentistas figuravam os artigos de vestuário. Em disparada, os chapéus estavam entre
os artigos mais procurados. Finos, grossos, pequenos, de menino, rapaz, do Porto ou de
Braga, fino bordado de prata ou ouro, eram elementos indispensáveis na composição
dos trajes da época.
Uma última categoria relacionada ao vestuário e composição dos trajes foi
referente às perfumarias, jóias e acessórios. Entre os sortimentos de cheiro solicitados
encontramos a água da rainha da Hungria, a alfazema, os óleos e os sabonetes de cheiro.
Entretanto, os dados sugerem que entre os acessórios de uso mais comum estavam as
meias e ligas. Das jóias, sobressaiam os brincos, frequentemente vendidos através de
uma numeração variada entre os números dois e sete. Quanto maior a numeração menor
era seu custo.
A análise das especiarias apresentou um porcentual inferior se comparados a
outras categorias de artigos ofertados nessa loja, Todavia, constituem em um dado
relevante para expressar à capacidade que esta casa mercantil tinha para oferecer aos
seus clientes gêneros mais específicos e de difícil acesso aos consumidores. O que
consequentemente reflete o padrão de excelência assumido por esta casa. Os artigos de
escritório também fizeram parte dos artigos oferecidos por esta casa de comércio.
Destes artigos prevaleceu o papel seguido da caparrosa, espécie de mineral que
dissolvido em água era utilizado como tinta para escrever.
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Os dados extraídos da movimentação mercantil desta casa demonstram uma
evidente concentração do movimento monetário em itens que compunham o vestuário
da sua vasta clientela. O faturamento específico de cada categoria permitiu-nos um
detalhamento maior da composição do montante total dos artigos ofertados por esta casa
de comércio. E, desse modo, no bojo desta, nada menos de 80% da movimentação
esteve voltada para os artigos de vestuário. À luz dessa perspectiva, fica em evidência
aspectos do fluxo mercantil e do consumo praticado pelos moradores das Minas Gerais
dos setecentos. Mas, para além, os gastos aplicados em artigos voltados para o “bom
tratamento” denunciam a importância da boa aparência dentro da estrutura hierárquica
daquela sociedade. E, igualmente sugerem que a atividade mercantil configurada
naquele universo colonial teria sido um importante setor também nos quadros do
mercado interno da dita economia.
Para a análise do perfil da clientela, os mesmos foram segregados em três
categorias, quais sejam: a categoria dos clientes comerciantes, indivíduos que adquiriam
os produtos por grosso para abastecerem a sua atividade mercantil; uma outra categoria
a qual estava radicada a clientela de consumidores que possuíam valores totais de
compras equiparáveis ao dos clientes comerciantes, mas que, diferentemente dos
primeiros, adquiriam os produtos para o consumo próprio. Neste caso, tiveram por
parâmetro um valor total de suas compras acima de 100$000; e por fim, clientes
consumidores com um “perfil comum” em decorrência de um consumo menor, nesta
categoria destacaram a clientela com as somas de suas compras inferiores a 100$000.
Os clientes consumidores acima de 100$000 foram responsáveis por 36% das vendas,
os clientes consumidores abaixo de cem mil 34% e 30% para a categoria dos clientes
comerciantes.
Consoante essas informações a média em valores manteve um patamar
equilibrado entre o valor total de uma para outra categoria. Entretanto, mesmo que os
dados tenham revelado valores próximos, ao explorar com minúcia as características de
cada categoria, emergem as suas particularidades. Os clientes comerciantes
apresentaram o menor número de pessoas, ao todo treze, mas estes eram os responsáveis
pela mais elevada movimentação mercantil da loja. No caso da clientela que por algum
motivo adquiriu produtos por grosso ou fizeram compras com valores elevados, com
suas dívidas calculadas acima de 100$000, foram elencados um número total de 40. Já
para a categoria daqueles que tiveram por parâmetro suas dívidas inferiores a 100$000,
cerca de 372 clientes, aparentemente eram os clientes mais comuns desta loja. Pois,
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certamente estavam integrados em um grupo ilustrativo daqueles consumidores que
adquiriam os produtos com o fim único de atender as suas necessidades de consumo
próprio.
Tendo em vista as informações reservadas para a categoria dos clientes
comerciantes fica notória a relevância assumida pelo abastecimento por grosso no
conjunto da movimentação mercantil da loja. Desses registros, treze clientes
comerciantes e treze compras efetuadas. Em dois destes casos as compras foram em
conjunto. Vale dizer que para uma delas, a de José do Santos Freire e Antônio Pinto de
Távora, este último irmão de Jorge Pinto de Azevedo, os valores dos produtos não
estavam expressos. Sem dúvida, essa foi a segunda maior compra do grupo e se
devidamente registrada, nos informaria que também em valores, a categoria dos clientes
comerciantes era a mais destacada no fluxo da loja. No que se refere à demanda pelos
produtos ofertados por esta casa, o abastecimento por grosso movimentou praticamente
todas as categorias de produtos. Embora, para o maior porcentual por categoria de
produtos prevaleceu os artigos de luxo voltados ao vestuário, destacadamente os
tecidos, seguidos dos aviamentos.
No que respeita à categoria da clientela de consumidores acima de 100 mil réis,
o Sr. Manuel Fernandes Casal Soure assumiu em ordem decrescente do valor das
compras o mais vultoso montante total de dívida, avaliado em 629$920. Diferentemente
dos demais clientes, este senhor adquiriu um único produto: 1.110 libras de cobre que se
[lhe largou] pelo custo do Rio de Janeiro. Um caso diferenciado, posto que o produto
adquirido por ele não fizesse parte dos artigos que geralmente eram comercializados
nesta casa mercantil.
O Padre Antônio de Souza Lobo foi o segundo cliente consumidor em ordem
de valores. De acordo com os registros, praticamente todos os meses compareceu na
loja para adquirir os seus produtos. São muitos itens arrolados em seu nome, e todos em
pequena quantidade. Dos artigos levados por ele, os tecidos foram os que mais se
destacaram pela sua variedade de tipos e cores. Dessa relação verificamos que os
tecidos eram sortidos, mas geralmente os mais caros, e em suas cores, independente da
qualidade do tecido, prevaleceu à preta. Ao todo, os produtos atingiram o valor total de
479$578,13 e demonstram as possibilidades deste membro clerical de dispor de
condições favoráveis para a aquisição dos artigos de luxo.
Pessoas de expressão, tal qual o Padre Antônio, eram aquelas detentoras de
cargos públicos e patentes militares. Um deles era o do provedor da Real Fazenda
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Antônio Coelho de Barros, uma das ocupações mais importantes dentro da sociedade
mineradora dos setecentos. Sua dívida era elevada, no valor total de 439$921,88. Os
tecidos, por sua vez, eram variados tanto em qualidades quanto em cores, embora,
geralmente figurassem os mais luxuosos. Não somente a variedade dos tecidos era
enorme, mas igualmente as cores e possivelmente as estampas, o que nos informa estar
uma das maiores autoridades das Minas em plena harmonia com os hábitos e com a
moda da nobreza européia. A grande maioria dos artigos arrolados em seu nome eram
aqueles relacionados ao vestuário, mas outros produtos estavam discriminados, vale
ressaltar que Antônio Coelho de Barros foi o cliente que mais adquiriu papel, ao todo
foram 71$025 réis deste artigo.
Pessoa de cabedal naquele universo colonial, o contratador e capitão-mor João
Fernandes de Oliveira, também figurou como um dos clientes desta loja. Foram
178$875,00 réis em artigos, com registros de compra em praticamente todos os meses.
Eram tecidos, aviamentos e peças de vestuário, mas havia ainda um baralho de cartas e
quatro armas compridas para o capitão Brás Ferreira de Lemos do Serro do Frio.
Um caso tão interessante quanto o do provedor da Real Fazenda Antônio
Coelho de Barros, e, revelador, foi o da negra Quitéria da Conceição que teve uma
dívida no valor de 289$593,75 em artigos de luxo. Trata-se de registros que permitem
colocar em um nível de igualdade indivíduos que dentro da ordem social desse universo
estavam inseridos em estratos sociais opostos. São muitas variedades de itens arrolados
em seu nome, e em sua maioria artigos de muito luxo. Certamente, os tecidos adquiridos
pela negra Quitéria figuravam entre os mais caros e luxuosos, com uma preferência
pelos provenientes da Índia, os mais valiosos. Para dar acabamento à feitura das peças
com estes tecidos estavam arrolados rendas, aviamentos e ornamentos como
abotoaduras, botões, fitas e bordaduras de ouro e prata. Os artigos de vestuário arrolados
em seu nome foram vinte peças de roupa da Índia, além do feitio de três saias de seda,
dois coletes de galacê, saias de chita e de baeta preta e botões de requife de ouro.
Entretanto, a grande maioria da clientela dessa loja teve como montante total
de suas dívidas um valor inferior a 100$000 réis. Por conseguinte, isto possibilita inferir
que a investigação sobre esses clientes revela-nos os hábitos de consumo que mais se
enquadraria com aqueles indivíduos que adquiriam produtos com o fim único de atender
aos gostos e predileções próprios. Assim sendo, as informações referentes a estes
consumidores igualmente são sugestivas à identificação do perfil característico para o
consumo residente no universo colonial das Minas setecentistas.
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Uma análise mais detida sobre os artigos adquiridos por este grupo de
consumidores permite-nos inferir que, mais uma vez, concentra-se nos artigos de luxo
voltados para a composição do vestuário a demanda e preferência da clientela da loja.
Assim como os demais clientes das outras categorias, a procura se dava por conta dos
produtos diretamente relacionados ao bom tratamento que imprimiam os seus trajes;
daqueles usados por essas pessoas nas ocasiões festivas assim como no cotidiano das
Minas setecentistas.
Cada investigação individualizada que relatamos na tentativa de conhecer os
hábitos de consumo desses clientes conserva particularidades inerentes ao gosto,
predileção e necessidade específica de cada um. Mas, quando analisadas em conjunto,
ressaltam o padrão de consumo comum do universo social em que estavam inseridos.
Do teor das aquisições dessa mesma clientela, registrados nesse livro de contas
correntes, e da tentativa de caracterização desses clientes consumidores fica uma idéia
conclusiva: a posse dos artigos de luxo, sobretudo tecidos, aviamentos, rendas, peças de
vestuário e acessórios, indiferente das características destes mesmos produtos, era
almejada indistintamente nesta sociedade pelos indivíduos que nela se inseriam. Isto,
porque a apropriação desses artigos favorecia a quem dispusesse de condições para
adquiri-los, em sua interação com a estratificação social numa sociedade que estava em
plena harmonia com os ditames de requinte e suntuosidade característicos da sociedade
européia desta época.
1
Mestre em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora e doutoranda em História Econômica da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo – FFLCH/USP.
2
No que diz respeito ao caráter contábil do borrador, tomamos como exemplo o estudo realizado por
Virgínia Rau, Fréderic Mauro e Joseph Miller, de um livro contábil de Antônio Coelho Guerreiro, em fins
do século XVII. Para este caso, Mauro, ao referir-se sobre o sistema contábil destaca: “a existência de
diários, de ‘borradores-diários’, é comprovada, nesta época, pelos hábitos portugueses. Os colégios da
Companhia de Jesus os empregaram”. Mais adiante, esse autor também descreve a forma como eram
organizadas as informações nesses livros diários, “Livros-diários, um por ano, com um balanço a cada
fim de exercício – e um registro de letras de câmbio emitidas.” Mauro (1973), Rau (1956), Miller (1984).
3
AHMI – Casa do Pilar de Ouro Preto. Cartório do 1º ofício. Auto 7698. Ano 1736.
4
A extensão geográfica da sua rede alcança as localidades da região mineradora: Vila do Carmo,
Congonhas, Itaubira, Serro do Frio, Santa Bárbara, Sabará, Pitangui, São Bartolomeu, Antônio Pereira,
Camargos e Furquim.
Referência Bibliográfica:
ALMEIDA, Carla M. Carvalho. Homens Ricos, Homens Bons: produção e
hierarquização social em Minas Colonial (1750-1822). UFF, 2001, (tese de doutorado);
8
ANTEZANA, Sofia Lorena Vargas. Os contratadores dos caminhos do ouro das Minas
Setecentistas: estratégias mercantis, relações de poder, compradrio e sociabilidade
(1718-1750). Belo Horizonte: UFMG, 2006. (dissertação de mestrado);
BLUTEAU. D. Raphael. Vocabulário Portuguez e Latino. Coimbra: Collegio das Artes
da Companhia de Jesus, 1712;
BOXER, Charles. A Idade de Ouro do Brasil; Dores de crescimento de uma sociedade
colonial. Trad. Nair Lacerda. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000;
CARRARA, Ângelo Alves. Minas e Currais. Produção Rural e Mercado Interno de
Minas Gerais. Juiz de Fora: Ed. da UFJF, 2007;
FISHER, E. H. S. The Portugal trade: a study of Anglo-Portuguese commerce, 17001770. Londres: Methuen, 1971;
FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio: a interiorização da metrópole e do
comércio nas Minas setecentistas. São Paulo: Hucitec, 1999;
MAGALHÃES, Beatriz Ricardina. “A demanda do trivial; Vestuário, Alimentação e
Habitação”. In: Revista Brasileira de Estudos Políticos. Belo Horizonte: UFMG, n. 65,
jul. 1987;
MAURO, Frédéric. Nova História e novo mundo. 3a ed. São Paulo: Perspectiva, 1973.
pp. 149-176;
MILLER, Joseph C. Capitalism and Slaving: The Financial and Commercial
Organization of the Angolan Slave Trade, according to the Accounts of Antonio Coelho
Guerreiro (1684-1692). The International Journal of African Historical Studies, Vol.
17, No. 1 (1984), pp. 1-56;
RAU, Virgínia.O "livro razão" de Antonio Coelho Guerreiro. Lisboa: 1956.
9
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