XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. QUEM ENSINA TAMBÉM APRENDE? ANÁLISE DA GESTÃO DO CONHECIMENTO EM UMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR Luciana Gondim de Almeida Guimaraes (FMGR) [email protected] Fredy Bezerra Carneiro (FMGR) [email protected] Francisco Roberto Farias Guimaraes Junior (UFPB) [email protected] ANTONIO ODALIO GIRAO DE ALMEIDA (UNIFOR) [email protected] O objetivo é analisar uma IES a partir do modelo proposto por Nevis, DiBella e Gould. Este modelo é composto de duas partes: sete orientações de aprendizagem e dez fatores facilitadores desta aprendizagem. A interação destas orientações de aprendizagem com os fatores facilitadores geram três estágios: aquisição, disseminação e utilização do conhecimento. Esta pesquisa é qualitativa, com aplicação de entrevistas, observação e análise documental. Identificou-se que a Instituição demanda um sistema de gestão do conhecimento. Os processos precisam ser projetados e orientados para resultados e metas. Há necessidade da criação de banco de dados com informações confiáveis para processo decisório. Palavras-chaves: Gestão do conhecimento; Aprendizagem organizacional; Instituição de ensino superior. XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. 1. Introdução A expansão do sistema universitário brasileiro, ocorrida nos últimos anos, vem ocasionando uma série de novas exigências para as Instituições de Ensino Superior (IES). Dentre estas, a necessidade dos gestores universitários exercerem atividades em vários setores da IES, com competência para superarem os desafios estabelecidos pela complexidade do ambiente e com objetivos voltados para a criação e a propagação do conhecimento (SILVA, 2000). Assim, há uma necessidade das IES serem mais flexíveis, atualizadas, capazes de gerar ciência e tecnologia e de acompanhar as mudanças ambientais, exigindo maior ênfase no gerenciamento da informação e do conhecimento para que se tenham pleno êxito no alcance de seus objetivos (FREITAS JÚNIOR et al, 2002). O sucesso de uma IES neste novo cenário exige gestores que consigam aliar: competência acadêmica (obter qualidade e integração nas atividades de ensino, pesquisa e extensão) e competência administrativa (finanças, custos, recursos humanos, estratégias, tecnologia da informação etc.) (TACHIZAWA; ANDRADE). Então, um eficiente sistema de gestão do conhecimento (GC) poderá se tornar uma ferramenta eficaz ao apoio gerencial, objetivando o acesso às informações estratégicas e o gerenciamento do conhecimento dentro de uma IES, de modo a inclusive, compartilhar o conhecimento entre todos os que participam do processo de dinamização do capital intelectual da IES (FREITAS JÚNIOR et al, 2002). A teoria utilizada é o modelo conceitual de GC de Nevis, DiBella e Gould de 2002, no qual os autores explicam tal gestão ocorre em três etapas que são aquisição, disseminação e utilização do conhecimento. Para eles, a aprendizagem organizacional é a capacidade de melhorar a performance através da experiência. A organização é um sistema de aprendizagem. Este trabalho tem como objetivo analisar uma Instituição de Ensino Superior a partir do Modelo de GC proposto por Nevis, DiBella e Gould, utilizando o método do estudo de caso. Este artigo está organizado em seis partes incluindo esta introdução. Na segunda parte, apresenta-se a teoria acerca da GC, conceitos e o modelo utilizado. Na terceira parte é discutida a gestão GC em IES. A seção seguinte demonstram-se os procedimentos metodológicos utilizados. Na quinta parte, tem-se a análise da IES, seguindo-se das considerações finais. 2. Gestão do conhecimento Dados e informação não são conhecimento, embora muitas vezes sejam assim considerados. Os dados representam um conjunto de fatos e objetivos sobre eventos, podendo ser compreendidos em uma organização como elemento básico da informação e do conhecimento. A informação, por sua vez, constitui-se do dado manipulado, o qual permitirá ao gestor tomar decisões (OLIVEIRA,1993). O conhecimento é mais valioso que o dado e a informação, estando ligado à capacidade de agir. O conhecimento é visto como um fator para explicar as idiossincrasias das empresas Com base no pressuposto de que fatores internos podem ser então os mais influentes no desempenho empresarial, a Visão Baseada em Recursos (RBV) considera o uso eficiente de recursos raros e únicos como a principal fonte de vantagem competitiva, e realça duas 2 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. suposições não consideradas pela Visão Baseada no Mercado (Market Based View – MBV): a de que a heterogeneidade e a imobilidade de recursos podem ser fontes de uma vantagem competitiva superior (BARNEY, 1991). A RBV mostrou a importância do conhecimento ao lado de outros recursos como vantagem competitiva. Um dos recursos que pode ser considerado como fonte de vantagem competitiva para as empresas é o conhecimento tácito, argumentou Winter, em 1987, em sua publicação (NONAKA, VON KROG, 2009). Assim, a criação da teoria do conhecimento organizacional ajudou não somente a explicar a natureza dos ativos de conhecimento e estratégias para gerenciá-las, bem como para complementar a visão baseada em conhecimento da empresa e a teoria das capacidades dinâmicas, para explicar os processos dinâmicos de criação de conhecimento organizacional. Duas premissas foram importantes para esse esforço (NONAKA, VON KROG, 2009): 1. Os conhecimentos tácito e explícito podem ser conceitualmente distintos ao longo de um continuum; 2. Conversão do conhecimento explica a interação entre os conhecimentos tácito e explícito. Conhecimento tácito é um conhecimento que é desarticulado e amarrado aos sentidos, habilidades motoras, experiências físicas, a intuição, ou regras implícitas. Exemplos: conhecimento de degustação de vinhos, elaboração de um violino, ou interpretação de uma impressão sísmica complexa de um reservatório de petróleo (NONAKA, VON KROG, 2009). Conhecimento explícito é o conhecimento que é pronunciado e capturado em desenhos e escrita, que pode ser facilmente comunicado. Exemplo: conhecimento de uma solução para uma equação diferencial (NONAKA, VON KROG, 2009). Os mesmos autores afirmam que, o conceito de "Conversão do conhecimento" explica como conhecimento tácito e explícito interagem ao longo de um continuum. A interação entre o conhecimento tácito e conhecimento explícito resulta em quatro modos de conversão do conhecimento, discutidos a seguir (NONAKA; TAKEUCHI, 1997). Socialização: é o processo de compartilhamento de experiências entre os indivíduos de um grupo. Desenvolve-se, frequentemente, através da observação, da imitação e da prática. Assim, é possível transferir o conhecimento tácito entre os indivíduos e a associação de um mesmo tipo de conhecimento a diferentes contextos individuais; Externalização: é o processo de organização do conhecimento tácito em conhecimento explícito, através de metáforas, analogias, conceitos, hipóteses e modelos, permitindo a criação de novos e explícitos conceitos, advindo do conhecimento tácito; Combinação: este modo de conversão estabelece o processo de sistematização de conceitos em um sistema de conhecimento. Envolve a combinação de conjuntos de conhecimento explícito (tais como a classificação, a sumarização, a pesquisa e a categorização das informações) com o uso da tecnologia de banco de dados, podendo gerar novos conhecimentos; Internalização: é o processo de inclusão do conhecimento explícito no conhecimento tácito, ou seja, é o modo pelo qual o conhecimento explícito se torna instrumento de aprendizagem, 3 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. através de manuais ou documentos, e volta a assumir um contexto abstrato e subjetivo para cada indivíduo na organização. 2.1 Modelo de organizações como sistema de aprendizagem Este artigo baseia sua análise no modelo conceitual de Nevis, DiBella e Gould (2002), pois este considera de forma sistêmica as três etapas que constituem o sistema de gestão do conhecimento, são elas: aquisição, disseminação e uso do conhecimento. Modelo proposto por Nevis, DiBella e Gould (2002) considera aprendizagem organizacional como a capacidade ou os processos dentro da organização destinados a manter ou melhorar o desempenho com base na experiência. Os autores propõem um modelo (Quadro 1) que considera as organizações como sistemas de aprendizagem. Primeiramente, as orientações de aprendizagem constituem os valores e práticas que refletem onde a aprendizagem ocorre e a natureza daquilo que se aprende. Estas orientações formam um padrão que define o “estilo de aprendizagem” de uma organização. Os fatores facilitadores constituem as estruturas e os processos que afetam a facilidade ou dificuldade de ocorrência da aprendizagem, como também a quantidade de aprendizagem eficaz que ocorre. Descritivo (como e onde ocorre a aprendizagem) Orientações de Aprendizagem Normativo (O que promove a aprendizagem) Fatores Facilitadores Quadro 1. Modelo de Organizações como sistemas de aprendizagem Fonte: Nevis, DiBella e Gould (2002). As orientações da aprendizagem são apresentadas abaixo (NEVIS, DIBELLA e GOULD, 2002): 1. Fonte de conhecimento: a organização está internamente desenvolvendo um novo conhecimento ou está meramente copiando ideias externas? Há inovação ou adaptação?; 2. Foco produto-processo: a organização prefere acumular conhecimento sobre resultados de produtos e serviços ou sobre processos que dão sequência aos vários produtos?; 3. Modo de documentação: é vista a memória organizacional ou volume de conhecimento que é publicamente documentado; 4. Modo de disseminação: a organização estabeleceu um clima no qual a aprendizagem evolui ou no qual uma abordagem controlada e mais estruturada induz à aprendizagem?; 5. Focos de aprendizagem: a aprendizagem está concentrada em métodos e ferramentas para melhorar o que já está sendo feito ou em testar as suposições que dão seguimento ao que está sendo feito? 6. Foco na cadeia de valores: que investimentos em competências essenciais e aprendizagem são valorizadas e apoiadas pela organização?; 4 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. 7. Foco no desenvolvimento de habilidades: a organização desenvolve habilidades tanto individuais como de grupo? Os fatores facilitadores são apresentados a seguir (NEVIS, DIBELLA e GOULD, 2002): 1. O imperativo da varredura minuciosa: a organização compreende o ambiente em que funciona?; 2. Lacuna de desempenho: como os gerentes, familiarizados que são com a observação de diferenças entre resultados desejados e o desempenho real, analisam as variâncias?; 3. Preocupação com a medição: a organização desenvolve e utiliza medições para dar suporte à aprendizagem? Como são estes indicadores?; 4. Mentalidade experimental: a organização dá ênfase à experimentação em bases correntes?; 5. Clima de abertura: os limites em torno do fluxo de informações são permeáveis de tal modo que as pessoas possam fazer suas próprias observações? Grande parte da aprendizagem informal é uma função das interações diárias, em sua maioria, não planejadas entre as pessoas; 6. Educação contínua: há um compromisso de educação no longo prazo em todos os níveis da organização?; 7. Variedade operacional: há mais de uma maneira de se atingir os objetivos de trabalho?; 8. Advogados múltiplos: junto com a liderança envolvida, há mais de um “campeão” que determina o cenário para a aprendizagem?; 9. Liderança envolvida: a liderança em todos os níveis organizacionais está engajada na implementação da visão?; 10. Perspectiva sistêmica: os participantes-chave pensam na interdependência das variáveis organizacionais em termos abrangentes? O modelo de Nevis, DiBella e Gould (2002) divide as sete orientações de aprendizagem e os dez fatores facilitadores em três estágios: aquisição, disseminação e utilização do conhecimento, de acordo com a Figura 1. 5 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Adquirir Imperativo de Varredura Minuciosa Lacuna de Desempenho Preocupação com Medição Fonte de Conhecimento Foco em Produto-Processo Foco com Desenvolvimento de Habilidades Liderança Envolvida Perspectiva Sistêmica Variedade Operacional Clima de Abertura Advogados Múltiplos Educação Contínua Foco em Aprendizado Modo Documentação Foco em Cadeia de Valores Figura 1. Elementos de um sistema de aprendizagem organizacional Fonte: Nevis, DiBella e Gould (2002). 3. Gestão do conhecimento em Instituições de Ensino Superior A necessidade da implantação de sistema de gerenciamento do conhecimento (SGC) no ambiente universitário surgiu em decorrência de vários fatores, entre eles, destacam-se: (1) a necessidade de informações confiáveis para auxiliar o processo decisório; (2) a necessidade de gerenciar o capital intelectual e (3) a necessidade de criar ambientes de trabalho para compartilhar e transferir conhecimento visando elaborar estratégias corporativas inovadoras (FREITAS JÚNIOR et al, 2002). Dentre os estudos realizados sobre GC no contexto acadêmico, estão as pesquisa de Felix (2003) e Cajueiro, Sicsú e Ribeiro (2009), que analisam a literatura sobre o tema e ressaltam vários elementos importantes para a construção de modelos de Gestão de Conhecimento para IES. Os modelos de Cajueiro, Sicsú e Ribeiro (2009) e Leite (2006) trazem contribuições consideráveis para o tema. O trabalho de Cajueiro, Sicsu e Ribeiro (2009) faz a comparação dos modelos de GC de Felix (2003) e Leite (2006). Gallucci (2007) estabelece as principais bases para um modelo de gestão do conhecimento em IES, com foco no compartilhamento de conhecimento entre docentes. Cardoso e Machado (2008) aplicam e analisa uma ferramenta de data mining, para extrair conhecimento referente à produção científica das pessoas envolvidas com a pesquisa na Universidade Federal de Lavras. No entanto, o trabalho focaliza tecnologia da informação. 6 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Os autores consideram que há necessidade de se antecipar às mudanças e ressaltam a importância de gerenciar o conhecimento nas organizações. As IES são organizações responsáveis pela criação e distribuição de conhecimento, portanto, instituições formadoras de profissionais qualificados para desenvolverem atividades na sociedade (CAJUEIRO, SICSÚ, RIBEIRO, 2009). 4. Procedimentos Metodológicos Quanto à natureza, a pesquisa pode ser classificada em básica ou aplicada (SILVA; MENEZES, 2000, p. 20). Esta pesquisa é uma pesquisa aplicada, porque objetiva descrever a gestão do conhecimento em uma Instituição de Ensino Superior. Quanto à forma de abordagem do problema, a pesquisa pode ser classificada em quantitativa ou qualitativa (SILVA; MENEZES, 2000, p. 20). Esta pesquisa possui características de uma pesquisa qualitativa. Quanto aos objetivos, a pesquisa pode ser classificada em exploratória, descritiva ou explicativa (SILVA; MENEZES, 2000, p. 21; GIL, 1993, p. 45). Esta pesquisa tem características de uma pesquisa predominantemente exploratória e descritiva, porque envolve como procedimentos: pesquisa bibliográfica, entrevistas e observação. É uma pesquisa descritiva por estar tentando descrever um fenômeno. Descritiva por trazer à tona um estudo ainda em fase de exploração no meio acadêmico, com base na descrição de uma realidade estudada. A partir da análise da contextualização e do objetivo de pesquisa, este estudo teve enfoque qualitativo, mais especificamente o modelo para estudo de caso. Merriam (1998) explica que o estudo de caso é um trabalho intensivo por meio do qual se visa aprofundar uma unidade de análise claramente identificada. 4.1 Seleção da amostra O estudo de caso se caracteriza por ser um tipo de pesquisa cujo objeto é uma unidade que se analisa profundamente, a seleção da amostra ocorrerá em dois níveis (MERRIAM, 1998). Primeiramente será selecionada a organização e em seguida os indivíduos que fornecerão informações sob investigação. A técnica de seleção da amostra foi intencional, por ser a mais adequada a esse tipo de estudo. Tomando por base a seleção da amostra em dois níveis, apresentam-se alguns critérios que serão utilizados na escolha da amostra do primeito nível. A opção da organização será motivada pela conveniência, por fazer parte da organização, facilitando o acesso às informações, documentos e entrevistas (STAKE, 1995). A instituição de ensino superior que será analisada é uma Faculdade situada em Jaboatão dos Guararapes/PE, com dez anos de atuação. No segundo nível, buscou-se selecionar os respondentes, privilegiando os que tinham informações sobre os processos de GC na organização. Para esta pesquisa, foram considerados a vice-diretora acadêmica e dois coordenadores de cursos de graduação, que participam ativamente das tomadas de decisões na organização. 4.2 Coleta de dados A coleta de dados principal do trabalho se deu através de entrevistas semiestruturadas, com o auxílio de um roteiro, que segundo Merriam (1998), possibilita mais liberdade ao entrevistador para introduzir as perguntas e aprofundá-las no decorrer da entrevista. 7 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Outra técnica que foi utilizada é a pesquisa documental. Analisou-se o Plano de Desenvolvimento Instituicional (PDI), os Projetos Pedagógios de Cursos (PPC), o Regimento da Faculdade e o site da IES. Como complemento houve um trabalho de observação direta assistemática. A utilização de mais de um método de pesquisa proporciona a triangulação de dados (MERRIAM, 1998) que apresenta três vantagens. A primeira é poder oferecer diferentes pontos de vista sobre o que está sendo observado, através das várias formas de coleta dos dados, com diversas possibilidades de contextualização. Outra vantagem é poder identificar discrepâncias entre o que o entrevistado diz e o que ele efetivamente realizou, e, dependendo da discrepância, desconsiderar os dados. A terceira vantagem é de evitar ou minimizar visões tendenciosas do entrevistador. Essa prática permite uma maior verificação da validade das informações, além de poder retroalimentar o processo de coleta de dados, ao sugerir pontos a serem esclarecidos ou aprofundados. 5. Análise da IES 5. 1 Orientações da aprendizagem A seguir, a IES será analisada sob a ótica das sete orientações de aprendizagem. Fonte de conhecimento: a IES tem procurado ser inovadora. É pioneira no lançamento de cursos de graduação no norte e nordeste, tais como: Gestão Portuária e Construção Naval. Quanto à infraestrutura, houve a instalação de banheiros unissex; os laboratórios são multifuncionais. A IES incentiva as visitas técnicas dentro e fora do estado de Pernambuco. No entanto, em algumas ações a IES também tem buscado a adaptação. Exemplos de ações adaptativas são: a forma de aquisição de novos alunos e a política de preços adotada (mensalidades). Foco produto-processo: a IES tem o foco no produto, deixando de lado o processo. Os processos são semiestruturados. Nem todos os processos estão estabelecidos, o que gera uma certa flexibilidade, mas também uma despadronização. Modo de documentação: a IES está em fase de mudança para uma busca de documentação de seus conhecimentos. Uma mudança é a criação da Comissão Própria de Avaliação (CPA), órgão que registra todos os eventos e reuniões. As reuniões têm obrigatoriedade de atas, o uso intenso de correio eletrônico (para explicitar o conhecimento e registrar). Está institucionalizado o registro anual de todas as ações dos cursos, o que cria uma memória da IES. O setor que centraliza estas informações é a CPA a partir das informações fornecidas por coordenadores de cursos, professores e outros membros da instituição. Modo disseminação: a IES tem uma disseminação mais focada no informal. No entanto, esta está buscando ações que incentivem a disseminação formal, através de encontros, reuniões (entre docentes, entre coordenadores, com direção). Há uma obrigatoriedade de atas em todas as reuniões, para registrar as decisões. Há eventos específicos de troca de informações entre docentes e direção acadêmica, que é a semana pedagógica. Este evento acontece uma vez por semestre. Focos de aprendizagem: a IES faz uso dos dois tipos de aprendizagem. No entanto, nas atividades centrais ela utiliza a aprendizagem em dois loops. Exemplo: criação de novo regimento interno para Centro Universitário; O sistema de informação gerencial acadêmico tem novas funcionalidades; a atualização dos projetos pedagógicos dos cursos é realizada semestralmente; a infraestrutura da IES. 8 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Foco na cadeia de valores: há uma valorização do aprendizado, através de incentivo à publicação, ao ingresso dos docentes em programas de Pós-graduação, a participação em treinamentos e cursos de capacitação, participação em eventos científicos, culturais e visitas técnicas com docentes e discentes. Foco no desenvolvimento de habilidades: existe este desenvolvimento através de encontros informais na e fora da IES. Há um incentivo às comunidades de prática. 5.2 Fatores facilitadores O imperativo da varredura minuciosa: a IES está sempre buscando conhecer o ambiente (concorrentes, consumidores etc.). No entanto, é algo não institucionalizado. É feito pelo Mantenedor da IES e disseminado informalmente entre membros da hierarquia superior, sob demanda destes. Lacuna de desempenho: há necessidade de melhorias no sistema de informação da IES, pois não há feedback em relação aos resultados. Comprometendo assim a gestão. Ausência de sistema de apoio à decisão (SAD). Quando ocorre, o feedback é informal. Preocupação com a medição: há ausência da existência ou de divulgação de indicadores de desempenho, de custos, de resultados por unidades de medida, inadimplência, desistência de alunos e suas motivações. Mentalidade experimental: a aprendizagem pela experiência interna é algo que acontece na IES. Além disto, é algo incentivado e não sistematizado. Os resultados de tal aprendizagem também não são explicitados formalmente, visto a ausência de processos para tal ou sistemas de gerenciamento do conhecimento. Clima de abertura: é intenso entre discentes, docentes e direção acadêmica, ambiente interno e externo. Não há uma formalidade advinda da burocracia. A IES ainda possui uma estrutura não muito hierarquizada, por vezes matricial, o que permite comunicações face-a-face intensas, porém, não registradas. Educação contínua: no geral, o comportamento de busca pela educação contínua é individual e de iniciativa de cada membro, no entanto, há incentivo financeiro da instituição a posteriori. Há alguns treinamentos mais voltados aos coordenadores de cursos que são iniciativas da IES. Variedade operacional: há uma grande variedade operacional, devido a pouca formalização dos processos. Não há manuais e nem preparação para certificações de qualidade. Outro impacto é a ausência de treinamento formal para novos coordenadores de cursos. Advogados múltiplos: as decisões são centralizadas, há o compromisso com foco na normatividade. Há formação de clusters nos colegiados de cursos, pois há cursos muito específicos, em que os docentes são exclusivos daquele curso. Assim, gera certo distanciamento destes docentes em relação aos demais. Liderança envolvida: os líderes são o Diretor Acadêmico e vice-diretor acadêmico, e Coordenadores de cursos. O horizonte de tempo é curto (um semestre) para tomada de decisão coletiva e empoderamento. Perspectiva sistêmica: a IES promove o pensamento sistêmico, através das reuniões formais e regulares de coordenadores, reuniões de núcleo docente estruturante e reuniões de colegiados dos cursos. 6. Considerações finais 9 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Esta pesquisa teve como foco a aplicação do modelo de gestão do conhecimento de Nevis, DiBella e Gould (2002) em uma IES no Município de Jaboatão dos Guararapes/PE. O objetivo central foi analisar a IES a partir de um modelo de GC. O método de análise de dados foi o estudo de caso e as técnicas de coleta de dados foram entrevistas semiestruturadas, observações diretas e pesquisa documental. Quanto à aquisição de conhecimento, há um misto de ausência, quando se refere às variáveis: lacuna de desempenho, preocupação com a medição e foco no produto-processo; com presença das variáveis: imperativo de varredura minuciosa e fonte de conhecimento. O que demonstra que a IES ainda tem que mudar suas condições ou orientações para aquisição de conhecimento. Quando à disseminação de conhecimento, a IES demonstra estar em um estágio de maior maturidade, pois há um clima de abertura, educação contínua e modo documentação. No entanto, deverá haver mais investimentos tanto em tecnologia da informação quanto em formalização de processos. Quanto à utilização do conhecimento, os aspectos mais negativos se referem à variedade operacional e advogados múltiplos, pois as variáveis foco em aprendizado e foco em cadeia de valores estão bem disseminadas na IES. Identificou-se que a IES demanda um sistema de GC auxiliado por produtos de software. Os processos precisam ser projetados e orientados para resultados e metas precisas. Criar banco de dados com informações confiáveis para tomada de decisão será uma vantagem. Por fim, a IES precisa criar métricas que orientem seu crescimento de forma sustentável, de maneira que sua estratégia esteja alinhada em todos os setores, para que assim a gestão do conhecimento possa gerar vantagem competitiva. Este estudo vem a contribuir para a temática da GC, ilustrado o caso de uma IES por oferecer elementos facilitadores e obstacularizados da gestão do conhecimento, para acadêmicos e praticantes. As limitações da pesquisa derivam da quantidade de atores entrevistados e da abertura das questões formuladas na entrevista de coleta de dados. Referências BARNEY, J. Firm resources and sustained competitive advantage. Journal of Management. v. 17, n. 1, p. 99120, 1991. CAJUEIRO, J. L. G.; SICSÚ, A. B. & RIBEIRO, A. R. B. Elementos preliminares para a construção de modelos: a contribuição da gestão do conhecimento para Instituições de ensino superior. Revista Gestão Industrial, v. 05, n. 03: p. 219-234, 2009. CARDOSO, O. N. P. & MACHADO, R. T. M. Gestão do conhecimento usando data mining: estudo de caso na Universidade Federal de Lavras. Revista de Administração Pública RAP – Rio de Janeiro 42(3):495-528, maio/jun, 2008. FELIX, P. 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