Desafios da prática docente da disciplina de sociologia: emancipação ou reafirmação da desigualdade? Damião Jobam* Daniel Pereira* Flávio Ramalho* Resumo: Este trabalho visa analisar a prática docente do ensino de sociologia no ensino médio, no sentido de entender e identificar a melhor forma de se aplicar a disciplina, de modo a possibilitar ao aluno fazer dela um instrumento de emancipação, ou seja, desconstruir a ideia da sociologia utilizada apenas como meio de transmissão do conhecimento, mas na perspectiva da construção do censo crítico do aluno, como um caminho para uma intervenção efetiva em sua realidade social. O estudo foi realizado em uma escola de referência do ensino médio da rede estadual, no Recife-PE. A metodologia adotada para a construção dos dados foi a observação etnográfica. Nossas principais referências teóricas são: Basil Bernstein, Pierre Bourdieu e Bernard Lahire. palavra-chave: Ensino médio, Sociologia, Emancipação. Introdução É sabido que a sociologia no ensino médio, em nosso país, desde a sua primeira tentativa de implementação, por Benjamim Constant em 1891, enfrentou dificuldade em se efetivar no currículo escolar, mesmo a partir de 1925, quando conseguiu sua inclusão, não gozou do mesmo status das demais disciplinas. Desde então, teve dificuldades para se efetivar, sofrendo uma forte intermitência. Essas idas e vindas acarretou grande prejuízo na elaboração de conteúdos e métodos para uma aplicação satisfatória. Com base no exposto acima ainda hoje os cursos de formação de docentes, juntamente com a Sociedade Brasileira de Sociologia, vêm tentando equacionar essas questões. Com vistas a esse equacionamento, o PIBID (programa institucional de bolsa de iniciação a docência) vem colaborando com intervenções em algumas escolas de ensino médio através de ações articuladas com as universidades, na formação dos futuros docentes e na formação continuada dos atuais docentes da disciplina de 1 sociologia dessas unidades escolares. Na condição de bolsistas Pibid, observando atentamente a dinâmica de uma escola, sua gestão, a heterogeneidade da sua clientela, classes sociais e grupos étnicos aos quais pertencem, o capital social desses alunos, a postura deles e dos professores, sobretudo o da disciplina de sociologia, podemos perceber algumas distorções que julgamos deturpar a finalidade da disciplina. Assim, respaldados nas idéias dos autores Basil Bernstein, Bernard Lahire e Pierre Boudieu, nos sentimos desafiados a colaborar na correção das arbitrariedades cometidas naquela unidade de ensino. Na escola observada pelos bolsistas do PIBID, verificou-se uma baixíssima inserção da unidade na comunidade, essa postura nega aos alunos a possibilidade de aproveitamento de uma potencialidade que reverbera diretamente em seu desenvolvimento e aproveitamento escolar, pois de acordo com Bernard Lahire, para compreender o comportamento e resultados escolares é imprescindível reconstruir a rede de relações familiares da criança em questão. Ele aponta como grande causa para os fracassos escolares a solidão dos alunos, ou a falta de estímulos familiares em relação ao seu universo escolar. Ele parte do pressuposto de que as dimensões que influenciam os desempenhos escolares de crianças e adolescentes estariam associadas além da escola e à família, também ao bairro ou à vizinhança, enquanto espaços de socialização informais. As dificuldades que algumas crianças encontram na escola são enfrentadas por elas de modo solitário mesmo quando retornam às suas casas e às suas famílias. Assim, a escola e a família constituiriam redes que se complementam ou não, e de acordo com isto geram situações de fracasso ou sucesso escolar. As cinco configurações familiares que mais importam nesta relação com a escola seriam: as formas familiares da cultura escrita, as condições e disposições econômicas, a ordem moral doméstica, as formas de autoridade familiar e as formas familiares de investimento pedagógico. Relatos e teorias A escola junto com a família são espaços de interações secundárias e primárias, ou seja, são agências tradicionais de socialização onde valores culturais são criados e identidades são construídas em indivíduos que podem ser ou não ser emancipados. 2 Dessa forma são a escola e a família instâncias socializadoras que coexistem. Esta relação de proximidade tão necessária, não foi observada na escola de referência (EREM) na qual foi acompanhada a rotina das aulas de sociologia. Na escola citada acima, podemos perceber que tínhamos um “campo fértil” para se trabalhar questões que poderiam, juntos às adversidades, despertar o interesse por este campo de conhecimento – o que em qualquer contexto já é um grande desafio, visto a forma como se deu o ensino de Sociologia no Brasil. E estas questões que são da abordagem da disciplina são de fato familiares na terminologia de todos dias, que os leigos acham que são coisas cotidianas, todos já tem conhecimento, mas são tratadas com uma formalidade que dificulta o entendimento daqueles que não dominam o conhecimento formal. São fenômenos sociais que nos afetam todos dos dias, na vida real e em suas formas de representação, como a arte e expressões culturais, por exemplo. Nas relações e conversas triviais e habituais, debatemos e expressamos opiniões sobre temas que são cotidianos como noções do senso comum. A disciplina não era ministrada por um profissional com formação em sociologia, e sim em geografia. Nas aulas pudemos perceber o quanto era difícil para os estudantes dar algum significado para aquilo que estava sendo posto, em apenas cinquenta minutos de aulas semanais, para aqueles alunos em sua maioria quase sempre dispersos. O professor tem em suas palavras e postura, alguma qualidade que nos remete a um conhecedor daquele ambiente, e naturalmente daqueles adolescentes, seus alunos. Em sala, ele cumprimenta os alunos, que em sua maioria, não retribuem; se mexem, andam, conversam, trocam ideias e risadas, não escutam os avisos iniciais do professor. A metodologia é, necessariamente variante, mas sempre buscando chamar a atenção dos alunos para o assunto do dia e para as instruções do professor em suas palavras, ou para observarem o quadro com as anotações de uma parte do conteúdo proposto, que será complementado através de exposição verbal com contribuição dos bolsistas dos PIBID ali presentes. Conceitos eram repassados, de forma escrita e oral com a explanação do professor, que, entre uma advertência e/ou interrupção por causa do barulho, precisava repetir o que já havia dito, de forma resumida e fiel ao seu material de apoio, este era sempre um livro. Aliado a tudo isso, ainda no início da aula, algum aluno ou aluna reclamava da repreensão recebida, por usar o celular no momento da aula, provavelmente conectada às redes sociais, ou pelo professor ter mandado (literalmente) ele ou ela mudar de cadeira ou não se levantar 3 para evitar conversas excessivas, ou qualquer outra ação que pudesse atrapalhar o plano traçado pelo professor para aquela aula. A turma era dividida com relação as reclamações e declarações sobre a postura do professor; sempre tinha casos dos que protestavam contra a forma como ele falava “mandando” e comumente revidavam sem nenhuma distinção de hierarquia ou de autoridade dentro de sala; também havia os que sempre acatavam sem resistência ou nem estavam no grupo dos que eram chamados à atenção. Dentro do que abrange o programa anual de sociologia da secretaria de educação de Pernambuco, vimos conteúdos de “comunidade, sociedade e cidadania” que tinham como competências, valorizar o direito a diversidade, enquanto princípio estético, político e ético que supera conflitos e tensões do mundo atual; onde tivemos aulas sobre comunidade, sociedade, cidadania e minorias, e direitos humanos. No bimestre seguinte acompanhamos aulas sobre grupos sociais e seus mecanismos de sustentação. Esse conteúdo foi explorado pelo professor e pelos bolsistas de forma a gera discussões interessantes com relação aos temas, que eram conhecidos ou próximos da vida daqueles alunos, típicos estudantes de escola pública, onde, em sua maioria moravam na comunidade vizinha ao local de ensino, que se localiza em um bairro de classe média da cidade de Recife, ou seja, eles poderiam se auto identificarem como atores de algumas das problemáticas vistas em sala de aula, se fossem instigados adequadamente. Eles poderiam entender de forma prática ali onde estavam localizados, e mesmo que embasados no senso comum, estavam familiarizados com vários daqueles assuntos que estavam sendo discutidos. "o mundo social pode ser concebido como um espaço multidimensional construído empiricamente pela identificação dos principais fatores de diferenciação que são responsáveis por diferenças observadas num dado universo social ou, em outras palavras, pela descoberta dos poderes ou formas de capital que podem vir a atuar, como azes num jogo de cartas neste universo específico que é a luta (ou competição) pela apropriação de bens escassos... os poderes sociais fundamentais são: em primeiro lugar o capital econômico, em suas diversas formas; em segundo lugar o capital cultural, ou melhor, o capital informacional também em suas diversas formas; em terceiro lugar, duas formas de capital que estão altamente correlacionadas: o capital social, que consiste de recursos baseados em contatos e participação em grupos e o capital simbólico que é a forma que os diferentes tipos de capital toma uma vez 4 percebidos e reconhecidos (BOURDIEU, P. 1987. p.4.l) como legítimos." Em discussão sobre o conceito de comunidade, o professor dá exemplos, distinguindo uma localidade habitada por pessoas de classe alta e outra por pessoas de classe desfavorecida. O professor inicia citando as profissões e hábitos da classe opulenta: são médicos, engenheiros, advogados, empresários, etc. moram em coberturas de edifícios luxuosos, usam aparatos tecnológicos de última geração, usam roupas de marca, trocam de carro com frequência, ou seja, ostentam de forma exacerbada. Enquanto que o pobre mora em uma comunidade pobre, com casas muito simples, trabalham como cabeleireiros, pedreiros, diaristas, etc. Segundo este professor, muitos pobres querem imitar alguns hábitos, como comprar celulares caros, mesmo tirando dinheiro da alimentação, apenas para se exibir, este professor estimula os alunos no sentido de trabalharem bastante para progredir financeiramente, assim, um dia deixarem suas comunidades para morar em uma localidade privilegiada, comprarem carros caros e serem consumistas a ponto de sugerir a compra de uma Ferrari como meta. Com estas afirmações o professor fere o sentimento de pertencimento dos alunos, pois insiste em se referir à favela de forma depreciativa e tenta inculcar nos alunos a idéia de que o termo comunidade é superior, portanto eles devem usar esta terminologia em lugar daquela. "Fazendo hierarquias sociais... parecerem estar baseadas em hierarquia de "dons", mérito ou habilidade ... o sistema educacional preenche a função de legitimação ... da ordem social."(BOURDIEU, P. 1977. p.496). Podemos situar esse discurso como sendo reprodução de diferenças, da origem e situação financeira da família, umas das perspectivas que podemos analisar um possível fracasso escolar desses alunos. Em uma aula dinâmica, para o tema “grupos sociais” tivemos uma atividade que seria introdutória para posteriormente trabalhar mais diretamente o conceito. A turma foi dividida em dois grupos que representariam grupos sociais distintos dentro do ambiente da escola, um grupo representaria os alunos e o outro os professores; a atividade sugeria que a turma, em sua divisão, preparasse reivindicações para seu grupo, defendendo seus interesses. Antes da prática propriamente dita, foram colocadas algumas características básicas do que seriam os grupos sociais. Ao final seria proposto uma apresentação dos pedidos feitos em cartazes, em forma de protesto pelos grupos, e um debate para com isso tentar perceber como eles se identificavam e se haviam se situado naquela atividade como membros de um grupo 5 social, com base nas características anteriormente apresentadas. Porém, isso não aconteceu, pois o professor estendeu o tempo para iniciarem as apresentações até que restasse apenas alguns minutos para o final da aula. Quando questionado pelos bolsistas do pibid, o professor disse que não precisa haver o debate, pois “dali não iria sair nada de proveitoso mesmo, eles não teriam nada mais do que apenas os pontos de vista próprios, baseados no senso comum, para acrescentar”. Esta postura do professor denota claramente o desprezo pela linguagem própria do grupo social ao qual pertencem os alunos, ou seja, à classe social menos favorecida. Fazemos esta afirmação embasada no pensamento de Basil Bernstein, pois o mesmo argumentava que “as pessoas usam a linguagem de duas maneiras básicas, uma linguagem pública, que seria uma forma mais ampla de explicar o fato para que todos entendam; a outra é a linguagem através do código de jargão, essa, por sua vez é usada de modo informal e tende a ser compreendida pelos que têm entendimento do contexto". Bernstein afirmava que as crianças e adolescentes de classe média têm mais oportunidade de entender e dominar a linguagem formal, já os jovens da classe operária costumam ter acesso a segunda delas. Desta forma, os jovens que careçam de contato com a linguagem na forma pública, inclusive nas escolas, sofrerão com as diferenças de classe, especialmente em tarefas que exigem tipos de pensamento universal abstrato, uma vez que o código formal é o da vida pública. Neste contexto pudemos perceber também a mudança de postura dos alunos quando os bolsistas do pibid faziam suas intervenções na aula e ou se colocavam no momento da explanação de conceitos e idéias. Eles eram mais participativos e “acordados”, tratavam de forma mais cautelosa com as palavras e, consequentemente, eram mais participativos nas respostas ao que estava sendo exposto e comentado na aula, ou seja, eles respondiam com a voz, corpo e olhar. Foi observado também que, apesar do ínfimo domínio sobre a disciplina, o citado professor tem resistência em ampliar suas fontes de leitura e de conhecimento sobres os assuntos do programa, e esse é um dos fatores que nos deixaram com uma forte sensação de que ele estava se sentindo desconfortável com o assunto. Assim, fazia com que o tempo da aula fosse tomado com alguma conversa dos alunos, ou o momento de um aviso da diretoria na sala, ou até o fato de passar um quarto da aula copiando no quadro e fazendo a chamada. Isto é de fato uma relação de comunicação que empobrece a aula e o contato com os alunos, já que é sabido que todas as 6 relações educativas e socializadoras são relações de comunicação. Um dos fatores que influenciam no sucesso escolar e a oportunidade das escolas em oferecer aos alunos a aquisição do “conhecimento poderoso” passa pela metodologia, pela visão e expectativa que o profissional tem dos alunos. “O fracasso escolar não existe, o que existe são alunos fracassados, situações de fracasso, histórias escolares que terminam mal. Esses alunos, essas situações de fracasso é que deveriam ser analisadas”. (CHARLOT, Bernard. 2000 pág.16). Uma possível emancipação Como uma disciplina que aborda aspectos das experiências que nos são perfeitamente familiares, estudando grupos, instituições e atividades que os jornais, a televisão e demais meios de comunicação falam todos os dias, transformações políticas e culturais, e mudanças na vida em sociedade. Porém, esse conhecimento não esteve sempre disponível, pelo menos do jeito que a sociologia nos traz. Revoluções que trouxeram desdobramentos mudaram a vida dos homens, causando incertezas e criando novos valores que regiam a vida em sociedade, foram mudados a partir desse ponto. Neste contexto surgiu uma ciência a qual se atribuiu a tarefa de compreender, situar, criticar e modificar a nova sociedade na modernidade. Partindo do pressuposto de que a produção do conhecimento atende a algum interesse, a sociologia seria uma disciplina que serve aos interesses da autorreflexão, que seria a reflexão da reflexão (Habermas). E essas são as que podem nos levar a emancipação, pois identifica que os interesses de auto-reflexão e emancipatórios moldam as ciências sociais, visto que as ciências naturais são guiadas pelos interesses técnicos. Com base nessas premissas, podemos olhar para o ensino de sociologia no ensino médio, mais especificamente no nosso campo, o EREM na cidade de Recife, e nos questionar, analisar e criticar (assim como a sociologia nos sugere) de que forma está sendo realizado o ensino do conteúdo da disciplina de sociologia naquele centro de ensino. Como ela deveria ser colocada? Qual a função da Sociologia, ainda mais considerando o contexto desses alunos que são desfavorecidos pelas suas condições sociais? “A Sociologia não mereceria talvez nenhuma hora de atenção se tivesse como objetivo apenas descobrir os fios que movem os indivíduos que ela observa, se ela 7 esquecesse que tem o compromisso com os homens, justamente quando estes, à maneira das marionetes, participam de um jogo cujas regras ignoram, enfim, se ela não tivesse como tarefa restituir o sentido dos próprios atos destes homens” (Bourdieu, le bal des célibataires). O trabalho realizado em sala de aula deve ser de interação do docente com o discente e vice-versa. Considerando o trabalho escolar de forma geral e as situações cotidianas e individuais, devemos levar em consideração o sujeito na sua singularidade de sua história e atividades que ele realiza (CHARLOT, 2005, p. 40), e o fato de estudar e aprender não significa a mesma coisa para todos (para a maioria é como uma obrigação), tem que se compreender o processo epistêmico para ajudá-los a entender melhor o que seria o “aprender” na escola. As formas de organização da escola dialogando com o ambiente próximo (a comunidade, o bairro), e mais ligado aos alunos. Conclusão Nesse trabalho analisamos o ensino de Sociologia na especificidade do ensino médio. Nele pudemos contribuir para o entendimento de como fatores como a prática docente e um conjunto de elementos externos à escola, influenciam para o sucesso no aprendizado escolar, no que trouxemos como sendo o ensino que busca propiciar a emancipação do individuo em seu papel como cidadão; isso assim como vemos na Sociologia em sua atribuição de origem como ciência e disciplina escolar. Levando em consideração o que foi observado entendemos que o ensino de uma disciplina que, poderia ser direcionada para a construção do senso crítico e proporcionar possíveis intervenções na realidade social, pode se transformar em algo que aumente o abismo das desigualdades sociais, e consequentemente a alienação do indivíduo que estaria na escola, assimilando uma reprodução das ideias de segregação. Este trabalho se propõe a ajudar em futuras pesquisas sobre as questões do ensino de Sociologia e os problemas inerentes ao papel da escola e do docente. Nele contém a identificação de problemas práticos escolares e de contexto, onde de forma direta contribuirão para outras análises no campo da educação. 8 Referencias YOUNG Michael. Para que servem as Escolas CHARLOT, Bernard. Relação com o saber e com a escola entre estudantes de periferia LICÍNIO, Lucíola. Bernstein e o Campo Educacional: Relevância, Influência e Incompreensões. LAHIRE, Bernard. Sucesso escolar nos meios populares: as razões do improvável. São Paulo: Ática, 1997; PIOTTO, Debora Cristina. A Escola e o Sucesso Escolar: Algumas reflexões à Luz de Pierre Bourdieu; VASCONCELLOS, Maria Drosila. PIERRE BOURDIEU: A Herança Sociológica; CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000; LAHIRE, Bernard. Crenças coletivas e desigualdades culturais.Educ. Soc., Campinas, v. 24,n. 84,Sept. 2003. 9