PROJETO DE TRABALHO: UM PROCEDIMENTO PEDAGÓGICO PARA
MINIMIZAÇÃO DAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM
Vânia Gonçalves Rodrigues1
Regiane Banzzatto Bergamo2
Resumo
O presente trabalho apresenta um estudo realizado sobre a importância em
desenvolver o Projeto de Trabalho como um procedimento pedagógico para
minimização das dificuldades de aprendizagem no Ensino Fundamental. A pesquisa
realizada teve como universo alunos do Ciclo II/ 1.ª etapa que freqüentam uma
escola pública situada no município de Curitiba. Para obtenção de dados, foi
realizada uma pesquisa qualitativa, promovendo intervenções com um grupo de três
alunos que apresentavam dificuldades na escrita e leitura. O fazer pedagógico
assentado por meio de Projeto de Trabalho visa a re-significação do ambiente
escolar, transformando–o em um espaço de trocas e interações, promovendo a
aprendizagem de forma efetiva.
Palavras-chave: Projeto de Trabalho, dificuldades de aprendizagem.
1
2
Licenciada em Pedagogia PUCPR/2005. [email protected]
Professora da PUCPR, orientadora da pesquisa.
1591
Introdução
O presente texto relata os resultados da pesquisa que teve como enfoque
analisar como o Projeto de Trabalho pode contribuir para a minimização de
dificuldades de leitura e escrita com alunos que apresentam dificuldades de
aprendizagem nas séries iniciais do Ensino Fundamental.
Durante a realização de estágios na rede pública de ensino, pode-se
perceber que muitas crianças, mesmo tendo avançado nas etapas entre os ciclos,
apresentam ainda grande dificuldade no processo de leitura e escrita, dificultando a
participação ativa do aluno nas atividades propostas, cotidianamente em sala de
aula. Nesse aspecto faz-se necessário um trabalho diferenciado com esse aluno,
pois nem todos aprendem da mesma forma e ao mesmo tempo. A partir destas
situações buscou-se pesquisar como Projeto de Trabalho contribuiria no processo de
aquisição da leitura e escrita, se construído com o aluno que apresenta dificuldades?
Em uma sala de aula heterogênea e diversificada, se faz necessário
trabalhar com metodologias que atendam a todos, independente das dificuldades
que estes apresentem, procurando sempre facilitar o aprendizado do aluno. Nesse
aspecto o Projeto de Trabalho pode auxiliar a minimizar essas dificuldades, pois
parte do interesse e da necessidade de aprendizagem do aluno, podendo ser um
trabalho individual ou em grupo dependendo do objetivo a ser alcançado.
Os Projetos de Trabalho e a Aprendizagem
A proposta inspiradora da aprendizagem por projetos está vinculada à
perspectiva do conhecimento global e relacional. Essa modalidade de articulação
dos conhecimentos escolares é uma forma de organizar a atividade de ensino e
aprendizagem, como argumenta Correia, Madureira, Domingues (in: LEITE,
MALPIQUE, SANTOS, 1993, p.30) que
[...] a aprendizagem por projetos centrada em problemas contribui para o
acréscimo de informações ao nível cognitivo, contribuindo também, para
auxiliar o aluno a (re) descobrir, aquilo que está dentro de si, e aquilo que o
rodeia. Assim o estudo por projetos surge como uma forma de levar o
educando a agir sobre a informação integrá-la nos seus conhecimentos
anteriores reestruturando-o, levando-o também a pensar criticamente,
trabalhar em equipe, resolver problemas, emitir juízos de valor, comunicar,
1592
questionar e questionar-se de acordo com suas experiências, motivações e
necessidades.
Ainda, segundo Leite, (1994, p. 8), pode-se situar os projetos como uma
proposta de intervenção pedagógica que
[...] dá a atividade de aprender um sentido novo, onde as necessidades de
aprendizagem afloram nas tentativas de se resolver situações problemáticas.
Um projeto gera situações de aprendizagem, ao mesmo tempo, reais e
diversificadas. Possibilita, assim, que os educandos, ao decidirem, opinarem,
debaterem, construam sua autonomia e seu compromisso com o social,
formando-se como sujeitos culturais.
Para Hernandez (1998), os Projetos de Trabalho e a visão educativa se
vinculam, convidam a repensar a natureza da escola e do trabalho escolar. Sendo
necessário uma organização mais complexa da classe, uma melhor compreensão
dos temas e a atuação do educador como guia. Podem contribuir, favorecendo aos
alunos a aquisição de capacidades como: iniciativa; utilização criativa de recursos e
métodos; formulação e resolução de problemas; integração; tomada de decisões e
comunicação interpessoal.
As Dificuldades de Aprendizagem no Contexto Escolar
O campo das dificuldades de aprendizagem foi delimitado oficialmente em
1963, sua origem é marcadamente norte-americana e canadense. Sisto (2001, p.
33), ao definir o termo dificuldades de aprendizagem, afirma que engloba
Um grupo heterogêneo de transtornos, manifestando-se por meio de atrasos
ou dificuldades em leitura, escrita, soletração e cálculo, em pessoas com
inteligência potencialmente normal ou superior e sem deficiências visuais,
auditivas, motoras, ou desvantagens culturais. Geralmente não ocorre em
todas essas áreas de uma só vez e pode estar relacionada a problemas de
comunicação, atenção, memória, raciocínio, coordenação, adaptação social
e problemas emocionais.
No DSM IV (1995), a seção sobre transtornos da aprendizagem inclui
transtorno da leitura e da expressão escrita, relatando as seguintes características
diagnósticas:
Em indivíduos com transtorno da leitura (também chamado dislexia), a
leitura oral caracteriza-se por distorções, substituições ou omissões; tanto a
1593
leitura em voz alta quanto à silenciosa caracterizam-se por lentidão erros na
compreensão (id., 1995, p.48).
No transtorno da expressão escrita, geralmente existe uma combinação de
dificuldades na capacidade do indivíduo de compor textos escritos,
evidenciados por erros de gramática, e pontuação dentro das frases, má
organização dos parágrafos, múltiplos erros ortográficos e caligrafia
excessivamente ruim (id., 1995, p.51).
Segundo Sisto (2001), as dificuldades de aprendizagem sempre existiram
em menor ou maior grau na vida escolar das pessoas, algumas foram superadas,
para outras foi atribuído menor importância no sistema de avaliação empregado. Por
essas e outras razões as dificuldades de aprendizagem foram e são indicadas por
diferentes critérios, implicando em distintas definições do que realmente poderia ser
considerado como dificuldade de aprendizagem.
Smith (2001), aponta que as dificuldades de aprendizagem podem ocorrer
por quatro fatores distintos. O primeiro trata-se das alterações no desenvolvimento
cerebral, uma vez que a aprendizagem, depende da ativação de “circuitos”
envolvendo várias áreas do cérebro, o prejuízo em uma dessas áreas pode afetar o
crescimento e o desenvolvimento em outro ponto do sistema. Por essa razão é difícil
que um aluno tenha um problema de dificuldade isolado, problemas relacionados
são mais comuns. O segundo fator aponta os desequilíbrios químicos, pois as
células cerebrais se comunicam através dos neurotransmissores, qualquer mudança
no clima químico delicadamente equilibrado do cérebro pode interferir, prejudicando
o funcionamento adequado. O terceiro fator é a hereditariedade, estudos de famílias
de crianças com dificuldades de aprendizagem descobrem, consistentemente, uma
incidência mais alta que a média de problemas similares de aprendizagem entre
pais, irmãos e parentes. O quarto fator está relacionado às influências ambientais,
pois, embora as dificuldades de aprendizagem sejam causadas por problemas
fisiológicos, a extensão em que as crianças são afetadas por elas freqüentemente é
decidida pelo ambiente no qual vivem. As condições em casa e na escola podem
fazer a diferença entre uma leve deficiência ou um problema verdadeiramente
incapacitante.
1594
O Contexto Analisado
A pesquisa foi realizada em uma escola municipal, com aproximadamente
mil alunos, que atende o Ensino Fundamental, ciclo I e II, no período da manhã e
tarde. O nível de escolaridade dos professores é de 3% mestrado, 31%
especialização, 54% curso superior e 12% magistério. A pesquisa teve início,
quando da realização de estágio durante o curso de pedagogia na referida escola e
sensibilizada mediante a explicação da pedagoga que muitos alunos estavam sendo
encaminhados para uma Avaliação Diagnóstica Psicoeducacional por apresentarem
dificuldades de aprendizagem, e que existia na escola uma lista de alunos
aguardando para serem chamados. Solicitei, então, permissão para desenvolver um
trabalho com estes alunos.
Para a realização da investigação foi adotada uma abordagem qualitativa,
que, em primeiro lugar, buscou analisar, preliminarmente, os dados referentes aos
alunos que apresentavam dificuldades de aprendizagem, ou seja, levantamento,
identificação e organização de um grupo de alunos para o atendimento pedagógico,
mediante registros fornecidos pelos professores, com indicações semelhantes
quanto às dificuldades de aprendizagem apresentadas pelos alunos, que estudavam
na mesma sala, com disponibilidade de horário para atendimento.
Apresentação e Análise dos Dados da Pesquisa
O desenvolvimento do Projeto de Trabalho foi realizado com um grupo de
alunas que freqüentavam o Ciclo II/1.a etapa, as quais apresentavam dificuldades de
aprendizagem em aspectos relacionados à escrita. As alunas foram encaminhadas
pela Pedagoga da escola, em consonância com a professora. Convencionou-se
denominá-las de Aluna B, Aluna C e Aluna M, preservando a identificação das
educandas, visando a análise dos dados propostos nos objetivos da presente
pesquisa.
1595
Queixas Acadêmicas
As queixas acadêmicas indicadas em relação às dificuldades de
aprendizagem da Aluna B, da Aluna C e da Aluna M, serão descritas, a seguir:
•
Aluna B apresenta dificuldades em Língua Portuguesa e Matemática. Não faz
tarefas é dispersiva, imatura e falta motivação. Na escrita segmenta o texto em
palavras, mas nem sempre corretamente, pode manter palavras ligadas ou criar
separações que não existem. Não faz indagações, sobre a ortografia das
palavras antes de escrever. Usa maiúsculas de forma arbitrária.
•
Aluna C tem dificuldade de entender orientações ou interpretá-las por escrito e/ou
oralmente. Falta pré-requisitos para desenvolver-se em matemática. Dificuldade
de ler e interpretar textos mais complexos. Lentidão para copiar e fazer tarefas.
Caligrafia ruim. Apatia.
•
Aluna M é insegura e apresenta dificuldades em leitura, interpretação, escrita
(troca letras g/h, b/p, d/t, c/g) e raciocínio lógico. Falta de pré-requisitos na
alfabetização.
O Percurso
Segundo Leite, (1994, p.8), os Projetos de Trabalho podem se situar como
uma proposta de intervenção pedagógica que
[...] dá a atividade de aprender um sentido novo, onde as necessidades de
aprendizagem afloram nas tentativas de se resolver situações problemáticas.
Um projeto gera situações de aprendizagem, ao mesmo tempo, reais e
diversificadas. Possibilita, assim, que os educandos, ao decidirem, opinarem,
debaterem, construam sua autonomia e seu compromisso com o social,
formando-se como sujeitos culturais.
O Projeto de Trabalho construído com as alunas teve a duração de sete
encontros. O caminho percorrido procurou ser progressivo, porém sensível às
dificuldades apresentadas pela professora em relação às alunas. Com este
propósito, passou-se a desenvolver o trabalho voltado para o processo de
minimização e/ou superação das dificuldades evidenciadas pelas alunas atendidas,
percorrendo diferentes fases, defendidas por Barbosa (1999).
1596
Acreditando que o Projeto de Trabalho contribuiu efetivamente para o
processo de aprendizagem das alunas nele envolvido, descrever-se-á as etapas
percorridas, interpretando os dados observados durante o processo, ou seja,
buscando estabelecer o movimento entre a teoria e a prática, seguindo os seguintes
procedimentos relatados, a seguir:
•
No primeiro encontro com o grupo, houve a necessidade de explicar que a
palavra projeto significa um planejamento para construção de alguma coisa. E
que no nosso caso seria feito um Trabalho por Projetos, ou seja, elas iriam
escolher um tema de interesse do grupo, e faríamos um trabalho sobre esse
tema, para aprender mais sobre o assunto, e que elas ainda poderiam escolher a
forma como este projeto seria desenvolvido.
•
No segundo encontro, após o grupo ter decidido que seria organizado uma peça
de teatro, houve hesitação em relação ao tipo de material a ser confeccionado
como máscaras, fantasias, etc. No almoxarifado da escola haviam algumas
máscaras, dos personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, utilizadas em outra
ocasião. Cada uma escolheu o personagem que gostaria de interpretar. E, a
partir desse momento, o projeto começou a tomar forma. Ensaiaram uma cena.
A Aluna C começou dando a idéia, a Aluna M mostrava-se empolgada, já a Aluna
B necessitou de um pouco mais de estímulo para participar. Pedi que cada uma
registrasse em uma folha de papel sulfite a fala de seu personagem. Nesse
momento, foi possível perceber através do comportamento demonstrado pelas
alunas, suas dificuldades. A Aluna C não apresentou resistência para realizar o
registro, mas foi difícil entender o que tinha escrito. A Aluna M disse que não
queria escrever e que a Aluna C deveria registrar a fala de todos os
personagens. A Aluna B apresentou grande resistência a escrita, disse até que
não iria escrever. Falei que cada uma faria seu registro para não esquecer a fala
durante a apresentação. A Aluna B ficou parada, depois pegou a folha da Aluna
C deu uma olhada e então foi fazer o registro. A Aluna M muito insegura
começou a escrever, deixei ela bem a vontade, sem interferências.
Barbosa
(1999),
quando
fala
de
crianças
com
dificuldades
de
aprendizagem diz que não conseguir aprender, faz com o aluno forme uma imagem
de fracasso de si mesma, e se desinteressará ou se inibirá diante de novas
1597
situações de aprendizagem. Entretanto, o Projeto de Trabalho, representa uma nova
oportunidade de experimentar, de enfrentar desafios, e de reconstruir sua autoimagem.
•
No terceiro encontro, todas as alunas estavam bastante entusiasmadas, e sem
receio de fazer o registro das falas de seus personagens. Quando surgia alguma
dúvida sabiam que podiam pedir ajuda. Assim, o roteiro estava tomando forma, e
elas se libertando do medo da escrita e da leitura.
Segundo Santana (1976, apud BARBOSA, 1999, p.21), “um Projeto de
Trabalho pode ser caracterizado como um instrumento capaz de romper o ciclo
inibitório da aprendizagem, e criar situações que possibilitem a formação de um ciclo
de progresso, neste processo”.
•
No quarto encontro, um pouco antes de terminarem de escrever o roteiro, a
Aluna M viu entre o meu material, folhas de papel pautado, e pediu, para passar
a limpo o roteiro. A Aluna C e a Aluna B concordaram. Distribui as folhas. A Aluna
M foi a primeira a pegar, pois estava muito entusiasmada.
Para este encontro havia elaborado um material alternativo, utilizando
canudos de rolos de toalha de papel, e, envolvidos com as palavras que as alunas,
durante a escrita do roteiro haviam indicado dificuldade em sua escrita, conforme
acerto estabelecido na sessão anterior. O trabalho foi realizado de forma
individualizada, auxiliando-as para refletirem sobre a relação fonema/grafema das
palavras, que, ortograficamente, não apresentavam a forma padrão em sua escrita,
fazendo uso do material alternativo já descrito.
Observou-se um grande progresso, pois, a Aluna M que no primeiro e
segundo encontro se recusava a escrever, hoje estava sugerindo uma reescrita do
texto. A Aluna C não apresentava muitas dificuldades quanto à escrita ortográfica, foi
a que menos precisou de apoio. E, a Aluna B estava mais confiante, participativa, e
sem medo de escrever.
Barbosa (1999), salienta que, normalmente o encaminhamento de crianças
com dificuldade de escrita, vem carregado de preocupações relativas mais a forma
1598
do que ao conteúdo, ou seja, refere-se à troca de letras, letra “feia” e separação
inadequada de palavras.
Viver a leitura e a escrita, sentir sua necessidade podem levar o aprendiz a
corrigir tanto as falhas que se referem à forma, quanto as que se referem ao
conteúdo. A leitura e a escrita, contextualizadas, são significativas e podem
ser trabalhadas sem a resistência paralisadora, que aparece nas situações
de treinamento descontextualizadas (p. 43).
•
Durante o quinto encontro o roteiro continuou sendo reescrito. A Aluna B mostrase cada vez mais confiante, uma vez que, ao perceber que a escrita das palavras
não correspondia a sua forma fonética, solicitava apoio. Recebia, então, incentivo
para construir as palavras indicadas com o material alternativo. Em seguida, a
Aluna M relata que já sabe que nomes próprios iniciam com letra maiúscula,
porém que não sabe como traçava as letras “T/L/J”. As letras foram traçadas no
quadro e a Aluna M não demonstrou medo em registrar em seu texto. Ainda
apresentava dificuldade quanto à discriminação auditiva em determinados
fonemas. A Aluna B também apresentou dificuldades com letras maiúsculas, e
recebeu a mesma orientação que a Aluna M. A Aluna C faltou a esse encontro.
Para Barbosa (1999), o processo de aprender não pode ser tão doloroso
que afaste o aprendiz do seu intento e nem tão indolor que o impeça de sentir o
desejo de aprender, transformando-o em um ser passivo e desmotivado, ou em um
fugitivo das novas situações de aprendizagem. Vygotsky (1986, in: BARBOSA, 1999,
p. 115) argumenta que
O mediador do processo ensino e aprendizagem deve promover a
autonomia, deixando que as crianças e adolescentes possam ir assumindo
alguns controles, na medida em que vão demonstrando condições para tal:
permitir que o sujeito viva o processo, podendo cometer falhas e trabalhar
sobre elas para corrigi-las: solicitar tarefas e atividades que pertençam à
zona de desenvolvimento proximal do sujeito.
Ainda no quinto encontro, perguntei, como elas iriam fazer para convidar os
alunos que iriam participar do teatro. A Aluna M disse que poderiam fazer convites.
Cada uma preparou cinco convites, que foram entregues aos colegas na sala. Antes
de fechar o encontro, combinamos que a apresentação do teatro seria realizada na
próxima semana, para os colegas de sala. A professora da turma e a pedagoga da
escola também foram consultadas e gostaram da idéia. Portanto, tudo ficou
acertado.
1599
Smith (2001, p.20), com propriedade, argumenta
A ciência ainda não oferece muito em termos de tratamento médico, mas a
longa experiência tem mostrado que a modificação no ambiente pode fazer a
diferença impressionante no progresso educacional de uma criança. Isso
significa que, embora as dificuldades de aprendizagem sejam consideradas
condições permanentes, elas podem ser drasticamente melhoradas, fazendose mudanças em casa e no programa educacional da criança.
•
O sexto encontro, foi o ponto crucial do projeto, visto que as alunas estavam
eufóricas com a apresentação do teatro. Cada uma pegou sua folha com o
roteiro, para repassar as falas do seu personagem. Ensaiaram um pouco, nem
precisaram da folha com o roteiro durante a apresentação, pois, já sabiam as
falas. Todos que assistiram adoraram e elas ficaram muito felizes. A professora
regente elogiou o projeto.
Nesta perspectiva, Leite, Malpique e Santos (1993, p.23), apontam que
Dewey do ponto de vista metodológico propõe o Sistema de Projetos, assim descrito
O verdadeiro método pedagógico consiste primeiro em tornarmo-nos
inteligentemente atento às aptidões, às necessidades, às experiências
vivenciadas pelos educandos e, em segundo lugar, em desenvolver estas
sugestões de base de tal forma que elas se transformem num plano ou num
projeto que, por sua vez, se organize num todo assumido pelo grupo. Por
outras palavras, o plano é um empreendimento cooperativo e não ditatorial: a
sugestão do professor não deve evocar a idéia de um molde para fundir
objetos duros, pesados e inertes, mas a de um ponto de dilatação susceptível
de se transformar num todo ordenado pelas contribuições de todos aqueles
que se empenham em comum na mesma experiência educativa.[...]
Para o último encontro havia a previsão de encerramento do projeto. Como
era véspera de Natal, aproveitei a ocasião, escrevemos os nossos nomes em uma
folha de papel, fizemos o sorteio e cada uma deveria escrever uma mensagem de
Natal a colega sorteada. Após a confecção da mensagem, cada uma deveria revelar
o nome da colega e ler a mensagem recebida. Todas participaram ativamente da
proposta, sem constrangimento perante a atividade de escrita, como também
dificuldades para a sua realização.
Nesse sentido Kilpatrick (1918, in: Santomé, 1998, p. 203) enfatiza
Um projeto é uma proposta entusiasta de ação a ser desenvolvida em um
ambiente social, e deve servir para melhorar a qualidade de vida das
pessoas. Na medida em que os alunos se sentem comprometidos com sua
aprendizagem, se esforçarão mais e irão adquirir conhecimentos para viver
melhor.
1600
Refletindo Sobre o Processo
No início do projeto, a Aluna B não demonstrou interesse, motivação.
Mostrava-se dispersiva, tinha receio quanto à leitura e escrita, e cometia muitos
erros de ortografia, além de ter dificuldade para organizar a estrutura do texto. Ao
final do projeto participava muito entusiasmada sem medo de ler ou escrever. Disse
que havia gostado muito de apresentar o teatro na sala de aula para os colegas. A
Aluna C tinha uma caligrafia ilegível, dificultando o entendimento do seu texto,
também apresentava dificuldade quanto à estruturação do texto, pois começava
escrevendo sobre uma coisa e terminava escrevendo sobre outra, sem sentido,
porém era criativa e empolgada. E, durante o desenvolvimento do projeto, ao
elaborar o roteiro da peça, ela percebeu a necessidade de dar maior atenção à
forma como escrevia, melhorando muito a letra, e também percebeu como era difícil
entender as coisas que escrevia, pela falta de clareza nas idéias expostas no texto.
Teve um progresso muito grande. Já a Aluna M, durante o desenvolvimento do
projeto, nem parecia que tinha alguma dificuldade, pois, sempre muito esperta,
expressava-se, oralmente muito bem, porém tinha muito medo de escrever.
Provavelmente, tinha consciência que cometia muitos erros ortográficos, e sentia
vergonha em escrever errado, principalmente, quando trocava as letras. Fiquei
surpresa e muito feliz, quando ela que apresentava maior resistência à escrita,
propôs uma reescrita do roteiro, isso só veio a confirmar minhas expectativas quanto
à validade do Projeto de Trabalho na minimização das dificuldades de leitura e
escrita.
Considerações Finais
O Projeto de Trabalho é reconhecidamente uma prática educativa, que
busca apresentar alternativas para os novos problemas enfrentados nas escolas. Em
diferentes períodos, passou por inúmeras variações de conceito, se adaptando ao
contexto e às necessidades sociais e educativas. Não é um método, uma fórmula
milagrosa que atende a todas as necessidades educativas, uma receita pronta a ser
seguida, rigidamente, mas uma forma de entender o sentido da escolaridade,
1601
baseada no ensino para compreensão. O desenvolvimento de um Projeto de
Trabalho depende basicamente da motivação e do interesse do aluno e da ação do
professor enquanto mediador do processo, focando sempre na aprendizagem do
aluno.
As dificuldades de aprendizagem são uma realidade de difícil resolução nas
escolas. No momento atual, a demanda é tanta que o aluno tem que aguardar um
longo período para avaliação psicoeducacional, enquanto isso essa dificuldade
tende a se agravar. O que ocorre muitas vezes é que, ao ser identificada a
dificuldade em sala, o professor encaminha o aluno para atendimento em sala de
apoio. Só que na sala de apoio se reproduz o mesmo ambiente e a mesma
metodologia utilizada em sala de aula, além de um atendimento a grupos muito
grandes, o que acaba criando ainda mais obstáculos à aprendizagem. Nesse
contexto, cabe à escola ao identificar a dificuldade de aprendizagem, seja na leitura
ou escrita iniciar com o aluno na sala de apoio um Projeto de Trabalho, como uma
forma de minimizar esse quadro. O Projeto pode ser desenvolvido individualmente
ou em pequenos grupos, oportunizando ao aluno demonstrar o que sabe, dando a
ele o direito de cometer falhas, sem a pressão, a vergonha, e o rótulo presente em
sala de aula, que pode acabar ampliando a dificuldade. Se o aluno não aprende da
forma que se quer ensinar, é preciso propiciar situações diferentes daquelas
utilizadas em sala de aula, para que assim ele possa romper esse ciclo inibitório e
aprender.
Referências
BARBOSA, L.M.S. O projeto de trabalho: uma forma de atuação psicopedagógica.
Curitiba: Arins, 1999.
DSM IV. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre:
Artes Médicas, 1995.
GUERRA, L.B. A criança com dificuldades de aprendizagem: considerações
sobre a teoria-modos de fazer. Rio de Janeiro: Enelivros, 2002.
HERNANDEZ, F. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho.
Porto Alegre: Artmed, 1998.
LEITE, L.H.A. A pedagogia de projetos em questão. Belo Horizonte: Mimeo, 1994.
1602
LEITE, E.; MALPIQUE, M.; SANTOS, M.R. Trabalho de projecto. Leitura
comentada. Porto: Afrontamento, 1993.
SMITH, C. Dificuldades de aprendizagem de A a Z. Porto Alegre: Artmed, 2001.
THIOLLENT, M. Metodologia da pesquisa-ação. 7 ed. São Paulo: Cortez, 1996.
VYGOTISKY, L.S.; LURIA, A.R.; LEONTIEV, A.N. Linguagem, desenvolvimento e
aprendizagem. São Paulo: Ícone, 1998.
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PROJETO DE TRABALHO: UM PROCEDIMENTO