PROJETO DE TRABALHO: UM PROCEDIMENTO PEDAGÓGICO PARA MINIMIZAÇÃO DAS DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM Vânia Gonçalves Rodrigues1 Regiane Banzzatto Bergamo2 Resumo O presente trabalho apresenta um estudo realizado sobre a importância em desenvolver o Projeto de Trabalho como um procedimento pedagógico para minimização das dificuldades de aprendizagem no Ensino Fundamental. A pesquisa realizada teve como universo alunos do Ciclo II/ 1.ª etapa que freqüentam uma escola pública situada no município de Curitiba. Para obtenção de dados, foi realizada uma pesquisa qualitativa, promovendo intervenções com um grupo de três alunos que apresentavam dificuldades na escrita e leitura. O fazer pedagógico assentado por meio de Projeto de Trabalho visa a re-significação do ambiente escolar, transformando–o em um espaço de trocas e interações, promovendo a aprendizagem de forma efetiva. Palavras-chave: Projeto de Trabalho, dificuldades de aprendizagem. 1 2 Licenciada em Pedagogia PUCPR/2005. [email protected] Professora da PUCPR, orientadora da pesquisa. 1591 Introdução O presente texto relata os resultados da pesquisa que teve como enfoque analisar como o Projeto de Trabalho pode contribuir para a minimização de dificuldades de leitura e escrita com alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Durante a realização de estágios na rede pública de ensino, pode-se perceber que muitas crianças, mesmo tendo avançado nas etapas entre os ciclos, apresentam ainda grande dificuldade no processo de leitura e escrita, dificultando a participação ativa do aluno nas atividades propostas, cotidianamente em sala de aula. Nesse aspecto faz-se necessário um trabalho diferenciado com esse aluno, pois nem todos aprendem da mesma forma e ao mesmo tempo. A partir destas situações buscou-se pesquisar como Projeto de Trabalho contribuiria no processo de aquisição da leitura e escrita, se construído com o aluno que apresenta dificuldades? Em uma sala de aula heterogênea e diversificada, se faz necessário trabalhar com metodologias que atendam a todos, independente das dificuldades que estes apresentem, procurando sempre facilitar o aprendizado do aluno. Nesse aspecto o Projeto de Trabalho pode auxiliar a minimizar essas dificuldades, pois parte do interesse e da necessidade de aprendizagem do aluno, podendo ser um trabalho individual ou em grupo dependendo do objetivo a ser alcançado. Os Projetos de Trabalho e a Aprendizagem A proposta inspiradora da aprendizagem por projetos está vinculada à perspectiva do conhecimento global e relacional. Essa modalidade de articulação dos conhecimentos escolares é uma forma de organizar a atividade de ensino e aprendizagem, como argumenta Correia, Madureira, Domingues (in: LEITE, MALPIQUE, SANTOS, 1993, p.30) que [...] a aprendizagem por projetos centrada em problemas contribui para o acréscimo de informações ao nível cognitivo, contribuindo também, para auxiliar o aluno a (re) descobrir, aquilo que está dentro de si, e aquilo que o rodeia. Assim o estudo por projetos surge como uma forma de levar o educando a agir sobre a informação integrá-la nos seus conhecimentos anteriores reestruturando-o, levando-o também a pensar criticamente, trabalhar em equipe, resolver problemas, emitir juízos de valor, comunicar, 1592 questionar e questionar-se de acordo com suas experiências, motivações e necessidades. Ainda, segundo Leite, (1994, p. 8), pode-se situar os projetos como uma proposta de intervenção pedagógica que [...] dá a atividade de aprender um sentido novo, onde as necessidades de aprendizagem afloram nas tentativas de se resolver situações problemáticas. Um projeto gera situações de aprendizagem, ao mesmo tempo, reais e diversificadas. Possibilita, assim, que os educandos, ao decidirem, opinarem, debaterem, construam sua autonomia e seu compromisso com o social, formando-se como sujeitos culturais. Para Hernandez (1998), os Projetos de Trabalho e a visão educativa se vinculam, convidam a repensar a natureza da escola e do trabalho escolar. Sendo necessário uma organização mais complexa da classe, uma melhor compreensão dos temas e a atuação do educador como guia. Podem contribuir, favorecendo aos alunos a aquisição de capacidades como: iniciativa; utilização criativa de recursos e métodos; formulação e resolução de problemas; integração; tomada de decisões e comunicação interpessoal. As Dificuldades de Aprendizagem no Contexto Escolar O campo das dificuldades de aprendizagem foi delimitado oficialmente em 1963, sua origem é marcadamente norte-americana e canadense. Sisto (2001, p. 33), ao definir o termo dificuldades de aprendizagem, afirma que engloba Um grupo heterogêneo de transtornos, manifestando-se por meio de atrasos ou dificuldades em leitura, escrita, soletração e cálculo, em pessoas com inteligência potencialmente normal ou superior e sem deficiências visuais, auditivas, motoras, ou desvantagens culturais. Geralmente não ocorre em todas essas áreas de uma só vez e pode estar relacionada a problemas de comunicação, atenção, memória, raciocínio, coordenação, adaptação social e problemas emocionais. No DSM IV (1995), a seção sobre transtornos da aprendizagem inclui transtorno da leitura e da expressão escrita, relatando as seguintes características diagnósticas: Em indivíduos com transtorno da leitura (também chamado dislexia), a leitura oral caracteriza-se por distorções, substituições ou omissões; tanto a 1593 leitura em voz alta quanto à silenciosa caracterizam-se por lentidão erros na compreensão (id., 1995, p.48). No transtorno da expressão escrita, geralmente existe uma combinação de dificuldades na capacidade do indivíduo de compor textos escritos, evidenciados por erros de gramática, e pontuação dentro das frases, má organização dos parágrafos, múltiplos erros ortográficos e caligrafia excessivamente ruim (id., 1995, p.51). Segundo Sisto (2001), as dificuldades de aprendizagem sempre existiram em menor ou maior grau na vida escolar das pessoas, algumas foram superadas, para outras foi atribuído menor importância no sistema de avaliação empregado. Por essas e outras razões as dificuldades de aprendizagem foram e são indicadas por diferentes critérios, implicando em distintas definições do que realmente poderia ser considerado como dificuldade de aprendizagem. Smith (2001), aponta que as dificuldades de aprendizagem podem ocorrer por quatro fatores distintos. O primeiro trata-se das alterações no desenvolvimento cerebral, uma vez que a aprendizagem, depende da ativação de “circuitos” envolvendo várias áreas do cérebro, o prejuízo em uma dessas áreas pode afetar o crescimento e o desenvolvimento em outro ponto do sistema. Por essa razão é difícil que um aluno tenha um problema de dificuldade isolado, problemas relacionados são mais comuns. O segundo fator aponta os desequilíbrios químicos, pois as células cerebrais se comunicam através dos neurotransmissores, qualquer mudança no clima químico delicadamente equilibrado do cérebro pode interferir, prejudicando o funcionamento adequado. O terceiro fator é a hereditariedade, estudos de famílias de crianças com dificuldades de aprendizagem descobrem, consistentemente, uma incidência mais alta que a média de problemas similares de aprendizagem entre pais, irmãos e parentes. O quarto fator está relacionado às influências ambientais, pois, embora as dificuldades de aprendizagem sejam causadas por problemas fisiológicos, a extensão em que as crianças são afetadas por elas freqüentemente é decidida pelo ambiente no qual vivem. As condições em casa e na escola podem fazer a diferença entre uma leve deficiência ou um problema verdadeiramente incapacitante. 1594 O Contexto Analisado A pesquisa foi realizada em uma escola municipal, com aproximadamente mil alunos, que atende o Ensino Fundamental, ciclo I e II, no período da manhã e tarde. O nível de escolaridade dos professores é de 3% mestrado, 31% especialização, 54% curso superior e 12% magistério. A pesquisa teve início, quando da realização de estágio durante o curso de pedagogia na referida escola e sensibilizada mediante a explicação da pedagoga que muitos alunos estavam sendo encaminhados para uma Avaliação Diagnóstica Psicoeducacional por apresentarem dificuldades de aprendizagem, e que existia na escola uma lista de alunos aguardando para serem chamados. Solicitei, então, permissão para desenvolver um trabalho com estes alunos. Para a realização da investigação foi adotada uma abordagem qualitativa, que, em primeiro lugar, buscou analisar, preliminarmente, os dados referentes aos alunos que apresentavam dificuldades de aprendizagem, ou seja, levantamento, identificação e organização de um grupo de alunos para o atendimento pedagógico, mediante registros fornecidos pelos professores, com indicações semelhantes quanto às dificuldades de aprendizagem apresentadas pelos alunos, que estudavam na mesma sala, com disponibilidade de horário para atendimento. Apresentação e Análise dos Dados da Pesquisa O desenvolvimento do Projeto de Trabalho foi realizado com um grupo de alunas que freqüentavam o Ciclo II/1.a etapa, as quais apresentavam dificuldades de aprendizagem em aspectos relacionados à escrita. As alunas foram encaminhadas pela Pedagoga da escola, em consonância com a professora. Convencionou-se denominá-las de Aluna B, Aluna C e Aluna M, preservando a identificação das educandas, visando a análise dos dados propostos nos objetivos da presente pesquisa. 1595 Queixas Acadêmicas As queixas acadêmicas indicadas em relação às dificuldades de aprendizagem da Aluna B, da Aluna C e da Aluna M, serão descritas, a seguir: • Aluna B apresenta dificuldades em Língua Portuguesa e Matemática. Não faz tarefas é dispersiva, imatura e falta motivação. Na escrita segmenta o texto em palavras, mas nem sempre corretamente, pode manter palavras ligadas ou criar separações que não existem. Não faz indagações, sobre a ortografia das palavras antes de escrever. Usa maiúsculas de forma arbitrária. • Aluna C tem dificuldade de entender orientações ou interpretá-las por escrito e/ou oralmente. Falta pré-requisitos para desenvolver-se em matemática. Dificuldade de ler e interpretar textos mais complexos. Lentidão para copiar e fazer tarefas. Caligrafia ruim. Apatia. • Aluna M é insegura e apresenta dificuldades em leitura, interpretação, escrita (troca letras g/h, b/p, d/t, c/g) e raciocínio lógico. Falta de pré-requisitos na alfabetização. O Percurso Segundo Leite, (1994, p.8), os Projetos de Trabalho podem se situar como uma proposta de intervenção pedagógica que [...] dá a atividade de aprender um sentido novo, onde as necessidades de aprendizagem afloram nas tentativas de se resolver situações problemáticas. Um projeto gera situações de aprendizagem, ao mesmo tempo, reais e diversificadas. Possibilita, assim, que os educandos, ao decidirem, opinarem, debaterem, construam sua autonomia e seu compromisso com o social, formando-se como sujeitos culturais. O Projeto de Trabalho construído com as alunas teve a duração de sete encontros. O caminho percorrido procurou ser progressivo, porém sensível às dificuldades apresentadas pela professora em relação às alunas. Com este propósito, passou-se a desenvolver o trabalho voltado para o processo de minimização e/ou superação das dificuldades evidenciadas pelas alunas atendidas, percorrendo diferentes fases, defendidas por Barbosa (1999). 1596 Acreditando que o Projeto de Trabalho contribuiu efetivamente para o processo de aprendizagem das alunas nele envolvido, descrever-se-á as etapas percorridas, interpretando os dados observados durante o processo, ou seja, buscando estabelecer o movimento entre a teoria e a prática, seguindo os seguintes procedimentos relatados, a seguir: • No primeiro encontro com o grupo, houve a necessidade de explicar que a palavra projeto significa um planejamento para construção de alguma coisa. E que no nosso caso seria feito um Trabalho por Projetos, ou seja, elas iriam escolher um tema de interesse do grupo, e faríamos um trabalho sobre esse tema, para aprender mais sobre o assunto, e que elas ainda poderiam escolher a forma como este projeto seria desenvolvido. • No segundo encontro, após o grupo ter decidido que seria organizado uma peça de teatro, houve hesitação em relação ao tipo de material a ser confeccionado como máscaras, fantasias, etc. No almoxarifado da escola haviam algumas máscaras, dos personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, utilizadas em outra ocasião. Cada uma escolheu o personagem que gostaria de interpretar. E, a partir desse momento, o projeto começou a tomar forma. Ensaiaram uma cena. A Aluna C começou dando a idéia, a Aluna M mostrava-se empolgada, já a Aluna B necessitou de um pouco mais de estímulo para participar. Pedi que cada uma registrasse em uma folha de papel sulfite a fala de seu personagem. Nesse momento, foi possível perceber através do comportamento demonstrado pelas alunas, suas dificuldades. A Aluna C não apresentou resistência para realizar o registro, mas foi difícil entender o que tinha escrito. A Aluna M disse que não queria escrever e que a Aluna C deveria registrar a fala de todos os personagens. A Aluna B apresentou grande resistência a escrita, disse até que não iria escrever. Falei que cada uma faria seu registro para não esquecer a fala durante a apresentação. A Aluna B ficou parada, depois pegou a folha da Aluna C deu uma olhada e então foi fazer o registro. A Aluna M muito insegura começou a escrever, deixei ela bem a vontade, sem interferências. Barbosa (1999), quando fala de crianças com dificuldades de aprendizagem diz que não conseguir aprender, faz com o aluno forme uma imagem de fracasso de si mesma, e se desinteressará ou se inibirá diante de novas 1597 situações de aprendizagem. Entretanto, o Projeto de Trabalho, representa uma nova oportunidade de experimentar, de enfrentar desafios, e de reconstruir sua autoimagem. • No terceiro encontro, todas as alunas estavam bastante entusiasmadas, e sem receio de fazer o registro das falas de seus personagens. Quando surgia alguma dúvida sabiam que podiam pedir ajuda. Assim, o roteiro estava tomando forma, e elas se libertando do medo da escrita e da leitura. Segundo Santana (1976, apud BARBOSA, 1999, p.21), “um Projeto de Trabalho pode ser caracterizado como um instrumento capaz de romper o ciclo inibitório da aprendizagem, e criar situações que possibilitem a formação de um ciclo de progresso, neste processo”. • No quarto encontro, um pouco antes de terminarem de escrever o roteiro, a Aluna M viu entre o meu material, folhas de papel pautado, e pediu, para passar a limpo o roteiro. A Aluna C e a Aluna B concordaram. Distribui as folhas. A Aluna M foi a primeira a pegar, pois estava muito entusiasmada. Para este encontro havia elaborado um material alternativo, utilizando canudos de rolos de toalha de papel, e, envolvidos com as palavras que as alunas, durante a escrita do roteiro haviam indicado dificuldade em sua escrita, conforme acerto estabelecido na sessão anterior. O trabalho foi realizado de forma individualizada, auxiliando-as para refletirem sobre a relação fonema/grafema das palavras, que, ortograficamente, não apresentavam a forma padrão em sua escrita, fazendo uso do material alternativo já descrito. Observou-se um grande progresso, pois, a Aluna M que no primeiro e segundo encontro se recusava a escrever, hoje estava sugerindo uma reescrita do texto. A Aluna C não apresentava muitas dificuldades quanto à escrita ortográfica, foi a que menos precisou de apoio. E, a Aluna B estava mais confiante, participativa, e sem medo de escrever. Barbosa (1999), salienta que, normalmente o encaminhamento de crianças com dificuldade de escrita, vem carregado de preocupações relativas mais a forma 1598 do que ao conteúdo, ou seja, refere-se à troca de letras, letra “feia” e separação inadequada de palavras. Viver a leitura e a escrita, sentir sua necessidade podem levar o aprendiz a corrigir tanto as falhas que se referem à forma, quanto as que se referem ao conteúdo. A leitura e a escrita, contextualizadas, são significativas e podem ser trabalhadas sem a resistência paralisadora, que aparece nas situações de treinamento descontextualizadas (p. 43). • Durante o quinto encontro o roteiro continuou sendo reescrito. A Aluna B mostrase cada vez mais confiante, uma vez que, ao perceber que a escrita das palavras não correspondia a sua forma fonética, solicitava apoio. Recebia, então, incentivo para construir as palavras indicadas com o material alternativo. Em seguida, a Aluna M relata que já sabe que nomes próprios iniciam com letra maiúscula, porém que não sabe como traçava as letras “T/L/J”. As letras foram traçadas no quadro e a Aluna M não demonstrou medo em registrar em seu texto. Ainda apresentava dificuldade quanto à discriminação auditiva em determinados fonemas. A Aluna B também apresentou dificuldades com letras maiúsculas, e recebeu a mesma orientação que a Aluna M. A Aluna C faltou a esse encontro. Para Barbosa (1999), o processo de aprender não pode ser tão doloroso que afaste o aprendiz do seu intento e nem tão indolor que o impeça de sentir o desejo de aprender, transformando-o em um ser passivo e desmotivado, ou em um fugitivo das novas situações de aprendizagem. Vygotsky (1986, in: BARBOSA, 1999, p. 115) argumenta que O mediador do processo ensino e aprendizagem deve promover a autonomia, deixando que as crianças e adolescentes possam ir assumindo alguns controles, na medida em que vão demonstrando condições para tal: permitir que o sujeito viva o processo, podendo cometer falhas e trabalhar sobre elas para corrigi-las: solicitar tarefas e atividades que pertençam à zona de desenvolvimento proximal do sujeito. Ainda no quinto encontro, perguntei, como elas iriam fazer para convidar os alunos que iriam participar do teatro. A Aluna M disse que poderiam fazer convites. Cada uma preparou cinco convites, que foram entregues aos colegas na sala. Antes de fechar o encontro, combinamos que a apresentação do teatro seria realizada na próxima semana, para os colegas de sala. A professora da turma e a pedagoga da escola também foram consultadas e gostaram da idéia. Portanto, tudo ficou acertado. 1599 Smith (2001, p.20), com propriedade, argumenta A ciência ainda não oferece muito em termos de tratamento médico, mas a longa experiência tem mostrado que a modificação no ambiente pode fazer a diferença impressionante no progresso educacional de uma criança. Isso significa que, embora as dificuldades de aprendizagem sejam consideradas condições permanentes, elas podem ser drasticamente melhoradas, fazendose mudanças em casa e no programa educacional da criança. • O sexto encontro, foi o ponto crucial do projeto, visto que as alunas estavam eufóricas com a apresentação do teatro. Cada uma pegou sua folha com o roteiro, para repassar as falas do seu personagem. Ensaiaram um pouco, nem precisaram da folha com o roteiro durante a apresentação, pois, já sabiam as falas. Todos que assistiram adoraram e elas ficaram muito felizes. A professora regente elogiou o projeto. Nesta perspectiva, Leite, Malpique e Santos (1993, p.23), apontam que Dewey do ponto de vista metodológico propõe o Sistema de Projetos, assim descrito O verdadeiro método pedagógico consiste primeiro em tornarmo-nos inteligentemente atento às aptidões, às necessidades, às experiências vivenciadas pelos educandos e, em segundo lugar, em desenvolver estas sugestões de base de tal forma que elas se transformem num plano ou num projeto que, por sua vez, se organize num todo assumido pelo grupo. Por outras palavras, o plano é um empreendimento cooperativo e não ditatorial: a sugestão do professor não deve evocar a idéia de um molde para fundir objetos duros, pesados e inertes, mas a de um ponto de dilatação susceptível de se transformar num todo ordenado pelas contribuições de todos aqueles que se empenham em comum na mesma experiência educativa.[...] Para o último encontro havia a previsão de encerramento do projeto. Como era véspera de Natal, aproveitei a ocasião, escrevemos os nossos nomes em uma folha de papel, fizemos o sorteio e cada uma deveria escrever uma mensagem de Natal a colega sorteada. Após a confecção da mensagem, cada uma deveria revelar o nome da colega e ler a mensagem recebida. Todas participaram ativamente da proposta, sem constrangimento perante a atividade de escrita, como também dificuldades para a sua realização. Nesse sentido Kilpatrick (1918, in: Santomé, 1998, p. 203) enfatiza Um projeto é uma proposta entusiasta de ação a ser desenvolvida em um ambiente social, e deve servir para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Na medida em que os alunos se sentem comprometidos com sua aprendizagem, se esforçarão mais e irão adquirir conhecimentos para viver melhor. 1600 Refletindo Sobre o Processo No início do projeto, a Aluna B não demonstrou interesse, motivação. Mostrava-se dispersiva, tinha receio quanto à leitura e escrita, e cometia muitos erros de ortografia, além de ter dificuldade para organizar a estrutura do texto. Ao final do projeto participava muito entusiasmada sem medo de ler ou escrever. Disse que havia gostado muito de apresentar o teatro na sala de aula para os colegas. A Aluna C tinha uma caligrafia ilegível, dificultando o entendimento do seu texto, também apresentava dificuldade quanto à estruturação do texto, pois começava escrevendo sobre uma coisa e terminava escrevendo sobre outra, sem sentido, porém era criativa e empolgada. E, durante o desenvolvimento do projeto, ao elaborar o roteiro da peça, ela percebeu a necessidade de dar maior atenção à forma como escrevia, melhorando muito a letra, e também percebeu como era difícil entender as coisas que escrevia, pela falta de clareza nas idéias expostas no texto. Teve um progresso muito grande. Já a Aluna M, durante o desenvolvimento do projeto, nem parecia que tinha alguma dificuldade, pois, sempre muito esperta, expressava-se, oralmente muito bem, porém tinha muito medo de escrever. Provavelmente, tinha consciência que cometia muitos erros ortográficos, e sentia vergonha em escrever errado, principalmente, quando trocava as letras. Fiquei surpresa e muito feliz, quando ela que apresentava maior resistência à escrita, propôs uma reescrita do roteiro, isso só veio a confirmar minhas expectativas quanto à validade do Projeto de Trabalho na minimização das dificuldades de leitura e escrita. Considerações Finais O Projeto de Trabalho é reconhecidamente uma prática educativa, que busca apresentar alternativas para os novos problemas enfrentados nas escolas. Em diferentes períodos, passou por inúmeras variações de conceito, se adaptando ao contexto e às necessidades sociais e educativas. Não é um método, uma fórmula milagrosa que atende a todas as necessidades educativas, uma receita pronta a ser seguida, rigidamente, mas uma forma de entender o sentido da escolaridade, 1601 baseada no ensino para compreensão. O desenvolvimento de um Projeto de Trabalho depende basicamente da motivação e do interesse do aluno e da ação do professor enquanto mediador do processo, focando sempre na aprendizagem do aluno. As dificuldades de aprendizagem são uma realidade de difícil resolução nas escolas. No momento atual, a demanda é tanta que o aluno tem que aguardar um longo período para avaliação psicoeducacional, enquanto isso essa dificuldade tende a se agravar. O que ocorre muitas vezes é que, ao ser identificada a dificuldade em sala, o professor encaminha o aluno para atendimento em sala de apoio. Só que na sala de apoio se reproduz o mesmo ambiente e a mesma metodologia utilizada em sala de aula, além de um atendimento a grupos muito grandes, o que acaba criando ainda mais obstáculos à aprendizagem. Nesse contexto, cabe à escola ao identificar a dificuldade de aprendizagem, seja na leitura ou escrita iniciar com o aluno na sala de apoio um Projeto de Trabalho, como uma forma de minimizar esse quadro. O Projeto pode ser desenvolvido individualmente ou em pequenos grupos, oportunizando ao aluno demonstrar o que sabe, dando a ele o direito de cometer falhas, sem a pressão, a vergonha, e o rótulo presente em sala de aula, que pode acabar ampliando a dificuldade. Se o aluno não aprende da forma que se quer ensinar, é preciso propiciar situações diferentes daquelas utilizadas em sala de aula, para que assim ele possa romper esse ciclo inibitório e aprender. Referências BARBOSA, L.M.S. O projeto de trabalho: uma forma de atuação psicopedagógica. Curitiba: Arins, 1999. DSM IV. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. GUERRA, L.B. A criança com dificuldades de aprendizagem: considerações sobre a teoria-modos de fazer. Rio de Janeiro: Enelivros, 2002. HERNANDEZ, F. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 1998. LEITE, L.H.A. A pedagogia de projetos em questão. Belo Horizonte: Mimeo, 1994. 1602 LEITE, E.; MALPIQUE, M.; SANTOS, M.R. Trabalho de projecto. Leitura comentada. Porto: Afrontamento, 1993. SMITH, C. Dificuldades de aprendizagem de A a Z. Porto Alegre: Artmed, 2001. THIOLLENT, M. Metodologia da pesquisa-ação. 7 ed. São Paulo: Cortez, 1996. VYGOTISKY, L.S.; LURIA, A.R.; LEONTIEV, A.N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone, 1998.