AVALIAÇÃO DE FRAGMENTOS FLORESTAIS PARA UMA POSSÍVEL
REINTRODUÇÃO DO MUTUM-DE-ALAGOAS EM SEU AMBIENTE NATURAL.
SÔNIA ALINE RODA
ANDRÉ MAURÍCIO MELO SANTOS
APOIO:
JULHO - 2005
2
AVALIAÇÃO DE FRAGMENTOS FLORESTAIS PARA UMA POSSÍVEL
REINTRODUÇÃO DO MUTUM-DE-ALAGOAS EM SEU AMBIENTE NATURAL.
SÔNIA ALINE RODA & ANDRÉ MAURÍCIO MELO SANTOS1
SUMÁRIO
1.
INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................
4
2.
CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL GERAL DA ÁREA DE DISTRIBUIÇÃO DO MUTUM-DE-ALAGOAS .........................
6
2.1 Localização dos registros .....................................................................................................
6
2.2 Histórico da ocupação da área .............................................................................................
7
2.3 Clima, solo e relevo ...............................................................................................................
9
2.4 Hidrografia ............................................................................................................................
10
2.5 Vegetação ............................................................................................................................
11
2.6. Unidades de conservação na área de distribuição do Mutum-de-alagoas ..........................
12
2.7 Uso dos recursos naturais ....................................................................................................
15
2.8 Indicadores de degradação ambiental .................................................................................
15
CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL DOS FRAGMENTOS PARA A UMA POSSÍVEL REINTRODUÇÃO DO MUTUM-DEALAGOAS ............................................................................................................................................
17
3.1 Usina Cachoeira ...................................................................................................................
20
3.2 Usina Caeté ..........................................................................................................................
20
3.3 Usina Coruripe ......................................................................................................................
21
3.4 Usina Porto Rico ...................................................................................................................
22
3.5 Usina Serra Grande ..............................................................................................................
23
3.6. Usina Sinimbu .....................................................................................................................
23
3.7 Usina Sumaúma ...................................................................................................................
24
3.8 Usina Triunfo ........................................................................................................................
25
3.9. Usina Utinga Leão ...............................................................................................................
25
4.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...........................................................................................................
27
5.
AGRADECIMENTOS .............................................................................................................................
29
3.
1
Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste. Rua Major Médico Vicente Fonseca de Matos, 750, 302/A, Candeias,
Jaboatão dos Guararapes, PE, CEP 54440-370. E-mail: [email protected]; [email protected]
3
LISTA DE FIGURAS
1
Mutum-de-alagoas, Mitu mitu ....................................................................................................
5
2
Sítios de registros históricos do Mutum-de-alagoas .................................................................
6
3
Distribuição potencial do Mutum-de-alagoas nos Tabuleiros Costeiros ....................................
7
4
Produção anual de lenha nos municípios da distribuição do Mutum-de-alagoas ......................
16
5
Produção anual de carvão vegetal nos municípios da distribuição do Mutum-de-alagoas .......
16
6
Localização das áreas inventariadas no Estado de Alagoas .....................................................
18
7
Municípios abrangidos pela distribuição do Mutum-de-alagoas ................................................
19
LISTA DE ANEXOS
ANEXO 1
1A
Fragmentos da Usina Cachoeira ..............................................................................................
30
1B
Fragmentos da Usina Caeté .....................................................................................................
31
1C
Fragmentos da Usina Coruripe .................................................................................................
33
1D
Fragmentos da Usina Poro Rico ...............................................................................................
34
1E
Fragmentos da Usina Serra Grande .........................................................................................
35
1F
Fragmentos da Usina Sinimbu ..................................................................................................
36
1G
Fragmentos da Usina Sumaúma ..............................................................................................
38
1H
Fragmentos da Usina Triunfo ....................................................................................................
40
1I
Fragmentos da Usina Utinga Leão ...........................................................................................
41
2A
Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Cachoeira ...............................................
43
2B
Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Caeté .....................................................
46
2C
Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Coruripe ..................................................
48
2D
Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Poro Rico ...............................................
50
2E
Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Serra Grande .........................................
52
2F
Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Sinimbu ..................................................
54
2G
Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Sumaúma ..............................................
56
2H
Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Triunfo ....................................................
58
2I
Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Utinga Leão ...........................................
60
ANEXO 2
4
1. INTRODUÇÃO
O Mutum-de-alagoas (Mitu mitu) (Figura 1) é uma ave da ordem Galiforme, família
Cracidae, um grupo com ampla distribuição nas florestas tropicais da América Latina. É
uma espécie florestal de grande porte, que atinge c. 95 cm de comprimento e 3 kg de
peso (Nardelli 1993), apresenta o bico com base vermelha e porção apical rósea, região
auricular nua, e cauda com o par central das retrizes totalmente negro e as restantes com
o ápice marrom (Silveira et al. 2004).
É pouco conhecida quanto aos seus requerimentos ecológicos e biológicos na natureza,
no entanto, assim como outros Cracidae, são frugívoros e bons dispersores de sementes
(Silva & Tabarelli 2000). Originalmente, esta espécie distribuía-se nas florestas de
tabuleiro (i.e., nas florestas de terras baixas ao longo do litoral) do estado de Alagoas
(Teixeira 1986).
O Mutum-de-alagoas foi descrito há três séculos por Linnaeus, baseado em texto e
ilustração publicado em 1648 por J. Marcgrave. Esta gravura foi baseada em um
exemplar proveniente de “Pernambuco” (i.e. na área do domínio holandês), no entanto foi
registrado e documentado apenas para Alagoas (Pinto 1952, Vaurier 1967, Coimbra-Filho
1970, Nardelli 1993, Teixeira 1992), sendo redescoberto em Alagoas em 1951 (Pinto
1954, Sick 1997).
O Mutum-de-alagoas vivia originariamente confinado às florestas costeiras ao sul do
Estado de Alagoas, e sempre foi vítima, desde o tempo da colonização das ações dos
caçadores e dos desmatamentos para plantio da cana-de-açúcar. Já era raro em 1951
quando Olivério Pinto esteve em Alagoas e o redescobriu nas florestas do município de
São Miguel dos Campos.
Com o avanço dos desmatamentos, a última colônia dos mutuns redescoberta na década
de 70 e estimada por Pedro Nardelli em 60 a 80 exemplares, ficou restrita às matas dos
municípios de Roteiro e São Miguel dos Campos, que na época contava ainda com
aproximadamente 10.000 hectares de floresta Atlântica em bom estado de preservação.
Com o advento do Pro-álcool, programa incentivado pelo governo federal, uma destilaria
de álcool foi implantada nesta região e toda a floresta foi substituída por plantações de
cana-de-açúcar, o que representou o completo desaparecimento do Mutum-de-alagoas
na natureza. Nenhum outro exemplar foi observado então desde 1982.
5
Figura 1 – Mutum-de-alagoas, Mitu mitu. (Foto: LF Silveira)
Atualmente c. 150 exemplares encontram-se confinados em criadouros científicos. Em
cativeiro, esta população foi cruzada com M. tuberosa (Grau et al. 2003), e análises de
variabilidade genética, através da técnica de DNA fingerprinting, realizadas em alguns
destes exemplares cativos demonstraram que em dezessete destas aves há uma
divergência de 2,6% com M. tuberosa, indicando que os indivíduos cativos de M. mitu são
distintos de M. tuberosa (Grau et al. 2003).
Sem nenhum indivíduo em estado silvestre, o que torna o Mutum-de-alagoas uma das
mais raras aves do mundo, e com os indivíduos cativos restantes confinados em poucos
locais, foi criado o “Comitê para Recuperação e Manejo do Mutum-de-alagoas Mitu
mitu”. Este comitê tem como objetivos principais gerar informações e ações para reverter
a situação pela qual a espécie atravessa no momento, tão próxima de uma extinção
completa.
Este relatório visa avaliar alguns fragmentos florestais existentes dentro da área de
distribuição recente do Mutum-de-alagoas com o objetivo de estabelecer algumas áreas
prioritárias para recuperação e uma possível reintrodução desta espécie na natureza.
6
2. CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL GERAL DA ÁREA DE DISTRIBUIÇÃO DO
MUTUM-DE-ALAGOAS
2.1 Localização dos registros
O Mutum-de-alagoas (Mitu mitu) é conhecido e documentado para as florestas de
tabuleiro do litoral sul do Estado de Alagoas (Collar et al. 2000, Sick 1997) (Figura 2).
São poucas as localidades de registro do Mutum-de-alagoas: Barra de São Miguel
(Nardelli 1993), Marechal Deodoro (Silveira et al. 2003), Pilar (Silveira et al. 2003),
Roteiro (Nardelli 1993) e São Miguel dos Campos (Pinto 1954) (Figura 2).
Figura 2 – Sítios de registros históricos do Mutum-de-alagoas.
Uma análise de distribuição potencial desta espécie (SA Roda, dados não publicados)
indica que pode ter ocorrido em uma área de 9.243,43 km2 que abrange os Tabuleiros
Costeiros em Alagoas, norte de Pernambuco e parte do sul da Paraíba, região de relevo
plano a suave-ondulado, onde predominam solos do tipo Latossolo, e uma vegetação
7
Subperenifólia com encraves de Cerrado (ZANE 2000) (Figura 3). Esta espécie pode ter
ocorrido em áreas florestadas mais interioranas e em todo o litoral de Alagoas a
Pernambuco, mas provavelmente foi extinto muito antes de ter sido detectado.
Figura 3 – Distribuição potencial do Mutum-de-alagoas nos Tabuleiros Costeiros.
2.2 Histórico da ocupação da área
A área de domínio do sistema canavieiro nos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba
e Rio Grande do Norte compreende uma das regiões mais exploradas economicamente
no Nordeste do Brasil. A estrutura econômica produtiva principal nestes estados é
baseada na atividade canavieira, no entanto vários pólos industriais, próximos às grandes
cidades, foram instalados na região. Consequentemente, esta área tornou-se
densamente povoada.
Sob o ponto de vista sucro-alcooleiro esta região é importante tanto pela expressiva
produção obtida, como pela utilização de insumos modernos e quantidade de mão-deobra empregada, onde nos períodos de safra abriga mão-de-obra de regiões vizinhas
como do Agreste e Sertão (Andrade 1988).
8
Ao longo dos quatro séculos de desenvolvimento da cultura canavieira no Nordeste, as
áreas consideradas como as mais adequadas para o plantio da cana de açúcar de cultivo
foram principalmente as várzeas e as encostas dos tabuleiros. No entanto, com a
necessidade de expandir a lavoura e aumentar a produção açucareira e alcooleira
passou-se a incorporar gradativamente as terras de tabuleiros. Isto se deu principalmente
nos anos 50. Contudo, os tabuleiros apresentavam baixa fertilidade e conservavam até
então, sua cobertura vegetal nativa: no manto arenoso denso a vegetação era menos
densa e com árvores de pequeno porte; e, no manto arenoso menos denso, uma
vegetação primitiva caracterizada por árvores de grande porte. A incorporação dessas
áreas por canaviais apresentava vantagens como facilidade de mecanização e dispensa
de técnicas como drenagem e curvas de nível, barateando a produção, apesar da intensa
adubação, porém implicou num grande processo de desmatamento.
A partir dos anos 60 a cultura canavieira não mais levou em conta as condições
climáticas e topográficas, expandindo-se para áreas íngremes mais interioranas e
provocando os mais variados impactos ambientais como a destruição de florestas, erosão
dos solos e desequilíbrio ecológico de rios e riachos (Andrade 1988). Isto se deu,
principalmente, pela elaboração de vários fundos e programas governamentais para
aumentar a produção canavieira e abrir espaço para o comércio internacional (Andrade
1988) como: Fundo de Recuperação da Agroindústria Canavieira (1961); Fundo de
Racionalização da Agroindústria Canavieira do Nordeste (1963); Fundo Especial de
Exportação (1965); Plano de Expansão da Indústria Açucareira Nacional (1965);
Programa de Racionalização da Agroindústria Canavieira (1971); Programa Nacional de
Melhoramento da Cana-de-Açúcar/PLANALSUCAR (1971); e, Programa Nacional do
Álcool – PROALCOOL (1975).
Este último, o PROALCOOL, talvez o mais polêmico de todos os programas adotados
pelo governo, além de não ter atingido uma das suas metas principais que era um
substancial aumento de produtividade agrícola canavieira, gerou, segundo Andrade
(1988) graves conseqüências sociais (i.e. houve diminuição na geração de empregos
devido à modernização agrícola e industrial) e ecológicas (aumento da poluição dos rios
e desmatamento).
Hoje o cenário ambiental do setor sucro-alcooleiro é diferente. Com tecnologias mais
modernas e variedades mais produtivas de cana-de-açúcar, as usinas conseguem uma
maior produção em áreas onde antes a produção era baixa, evitando assim desmatar
para aumentar sua área de produção. Aliada a isto, a legislação ambiental brasileira
tornou-se mais severa e os órgãos de fiscalização mais atuantes, minimizando os
impactos ambientais que esta cultura oferece.
9
2.3 Clima, solo e relevo
Clima
O litoral sul alagoano é predominado por ventos alísios de sudeste, conferindo
estabilidade e bom tempo para quase toda a área, no entanto também é atingido por
correntes de circulação secundária, recebendo influência da frente Polar Atlântica e das
ondas de Leste. De modo geral, as precipitações se estendem por quase todo o ano,
apresentando uma curta estação seca no verão e uma longa estação chuvosa no outonoinverno. Em função de sua localização nas baixas latitudes tropicais, esta área recebe
alta taxa de insolação, fazendo com que a temperatura seja alta durante todo o ano. A
ação do fluxo dos alísios no litoral, carregados de umidade e calor recebidos pela sua
passagem sobre as águas de correntes marítimas quentes, mantém a regularidade da
temperatura na faixa de influência oceânica (Brasil 1983, Nimer 1977).
O regime pluviométrico desta região não apresenta uma homogeneidade espacial. Os
totais pluviométricos decrescem do litoral para o interior, elevando-se novamente nas
áreas de maiores altitudes (ANEEL 1998). Seja qual for o volume de água precipitado ao
longo do ano, sua divisão sazonal é marcadamente tropical, onde há um período muito
chuvoso, no inverno, e outro seco, com pouca ou nenhuma chuva, no verão (FIBGE
1985).
No litoral sul alagoano o máximo pluviométrico ocorre entre os meses de março e
setembro e o mínimo, entre outubro e fevereiro. Os totais pluviométricos estão entre
1.750 a 2.000mm/ano, com períodos secos entre outubro e janeiro.
Solos
Os solos mais bem representados no litoral sul alagoano são os Podizólico Vermelhoamarelo Distrófico e o Latossolo Amarelo Distrófico. O primeiro tipo de solo é derivado
principalmente de sedimentos argilo-arenosos e areno-argilosos do Grupo Barreiras, que
recobrem rochas do Pré-Cambriano. Tratam-se de solos com horizonte B textural, não
hidromórfico e argila de atividade baixa. Este tipo de solo ocorre tipicamente em porções
de relevo plano até montanhoso (Brasil 1983). Apesar de serem solos com baixa
fertilidade, são solos utilizados para a cultura da cana-de-açúcar e pastagens (Brasil
1983).
O segundo tipo de solo mais bem representado, o Latossolo Amarelo Distrófico,
predomina na região. Este tipo de solo é derivado dos sedimentos do Grupo Barreiras
(Terciário-Quaternário). Trata-se de um solo não hidromórfico, caracterizado pelo
avançado grau de intemperismo, o que resulta na predominância de minerais de argilas.
10
São solos profundos e bem drenados, e estão localizados na faixa litorânea, em relevos
planos sobre os tabuleiros costeiros (Brasil, 1983a). Estes solos foram formados
principalmente por sedimentos do Grupo Barreiras onde se desenvolveram as florestas
do tipo Ombrófila Aberta e Estacional Semidecidual (Brasil 1983). Apresentam uma baixa
fertilidade apesar de serem bastante utilizados pela cultura da cana-de-açúcar (Brasil
1983).
Relevo
O relevo é dominado pela subunidade Litoral ou Planície Litorânea que corresponde à
faixa ao longo da costa onde predominam afloramentos de rochas Mesocenozóicas
(FIBGE 1985). Apresenta uma forte influência dos relevos interiores, das correntes
marinhas e do clima (Moreira 1977). As planícies litorâneas caracterizam-se por
apresentar uma grande diversidade de acidentes geográficos como dunas, lagunas,
falésias e tabuleiros da Formação Barreiras (Moreira 1977; FIBGE 1985; Regis 1993). Os
tabuleiros costeiros caracterizam-se pelo dissecamento em forma de colinas modeladas
em rochas pré-cambrianas e os topos tabulares são formados por rochas sedimentares
cenozóicas da Formação Barreiras (Brasil 1983).
2.3 Hidrografia
A hidrografia do litoral sul alagoano é representada pela bacia do Nordeste Oriental (i.e.,
Regiões Hidrográficas, sensu Conselho Nacional de Recursos Hídricos – CNRH) (htpp://
www.cnrh-srh.gov.br/). Apesar de também englobar uma parte da Caatinga e do
Cerrado, a Bacia Hidrográfica do Nordeste Oriental contempla praticamente toda a
floresta Atlântica nordestina (i.e., a floresta Atlântica ao norte do rio São Francisco),
possuindo várias sub-bacias costeiras.
Na Região Hidrográfica Costeira do Nordeste Oriental as condições hidrológicas variam
em função da alternância da permeabilidade e das estruturas sinclinais ou monoclinais
que asseguram as diferentes condições de água sob pressão (FIBGE 1985). As bacias
costeiras, de maneira geral, são invadidas por águas marinhas devido à grande
profundidade em que se encontram as zonas de descarga e as pequenas altitudes das
zonas de recarga (FIBGE 1985). Nesta região hidrográfica, destaca-se a ocorrência de
lagoas litorâneas, principalmente no estado de Alagoas, onde sobressaem as lagoas de
Mundaú, Mangueba, Roteio e Jiquiá (FIBGE 1985). A origem destas lagoas deve-se às
oscilações do nível do mar, que a princípio provocaram uma intensa erosão fluvial e
posteriormente foram fechadas por cordões litorâneos e restingas (FIBGE 1985).
11
Nas bacias costeiras observa-se uma das maiores alterações por ação antrópica sobre a
vegetação nativa, comprometendo em parte a vazão dos mananciais da região (ANA
2003). Em grande parte das bacias costeiras, o uso e manejo dos solos são
inadequados, principalmente em função de práticas agrícolas impactantes, que têm
acarretado processos erosivos, salinização e, em alguns casos, formação de áreas
desertificadas (ANA 2003).
Os graus distintos de preservação das bacias e sub-bacias hidrográficas do litoral sul
alagoano (Mundaú e São Miguel) ocorrem em função da presença de indústrias de
açúcar existentes na região, pela presença de inúmeros núcleos ambientais (vilas e
povoados) e de ações de agentes poluentes, em virtude desta bacia se localizar em zona
açucareira (FIBGE 1985). As cargas poluidoras são muito variadas, sendo as efluentes
industriais e os esgotos domésticos as mais importantes, destacando-se ainda o chorume
escoado dos lixões e os agrotóxicos.
2.4 Vegetação
Dois tipos de vegetação ocorrem na área de distribuição do Mutum-de-alagoas: a
Floresta Ombrófila Aberta e em menor escala a Floresta Estacional Semidecidual.
Na Floresta Ombrófila Aberta predominam árvores espacialmente bem distribuídas, com
o estrato arbustivo ralo, com dominância das subformações fanerófitas ombrófilas
rosuladas e lianas lenhosas (Brasil 1983). Este tipo de floresta apresenta faciações
florísticas que alteram a fisionomia ecológica da floresta ombrófila densa, imprimindo-lhe
claros, por isso o termo “aberta” foi adotado. Ao contrário da floresta ombrófila densa, que
não possui período biologicamente seco, neste tipo de vegetação pode ocorrer mais de
60 dias seco por ano (Veloso et al. 1991).
A floresta estacional semidecidual é de acordo com Veloso et al. (1991), um tipo de
vegetação é constituído por fanerófitos com gemas foliares protegidas da seca por
escamas (catáfilos), ou pêlos, possuindo folhas adultas esclerofilas ou membranáceas
deciduais. Este tipo de vegetação está associado a um clima de duas estações, uma
seca e uma chuvosa (Veloso et al. 1991; Brasil 1983). Esta dupla fase climática
estacional leva a uma estacionalidade foliar das árvores dominantes, que demonstram
uma adaptação à deficiência hídrica. De acordo com Brasil (1983), no caso da floresta
estacional semidecidual, a porcentagem de árvores caducifólias no conjunto florestal
deve situar-se em torno de 20% na época desfavorável. Este tipo de formação florestal
ocorre apenas em parte do Município de Coruripe.
12
2.5. Unidades de conservação na área de distribuição do Mutum-de-alagoas
A área de distribuição do Mutum-de-alagoas apresenta duas reservas ecológicas
estaduais, cinco RPPNs e três APAs. Esta última é a mais em representada do ponto de
vista de área ocupada. Veja os quadros abaixo.
Nome da UC
Reserva Ecológica de Manguezais do Roteiro
Tipo
Reserva Ecológica – Estadual
Município
Barra de São Miguel e Roteiro
Área (ha)
742
Órgão gestor
Relevância na região
Relevância na geração de renda
para comunidades locais
Principais problemas e conflitos
IMA
Corresponde a uma das mais expressivas áreas de manguezais
do Estado.
Esta Reserva Ecológica propicia o desenvolvimento local da
pesca artesanal para atividades produtivas.
Pesca indisciplinada, sem correta orientação.
Nome da UC
Reserva Ecológica de Saco da Pedra
Tipo
Reserva Ecológica – Estadual
Município
Marechal Deodoro
Área (ha)
5
Órgão gestor
Relevância na região
IMA
Corresponde a uma área de sensível fragilidade ambiental,
sujeita as modificações condicionadas pela dinâmica do
complexo estuarino-lagunar e à influência marinha.
Informação não disponível.
Relevância na geração de renda
para comunidades locais
Principais problemas e conflitos
Devido a sua beleza cênica, sofre grande pressão do fluxo
turístico.
Nome da UC
Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Lula
Lobo I
Tipo
RPPN – Particular
Município
Coruripe
Área (ha)
68,6
Órgão gestor
Relevância na região
S / A Usina Coruripe Açúcar e Álcool.
A RPPN Fazenda Lula Lobo I é integrante do Sítio do PauBrasil, um posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata
Atlântica.
Esta RPPN pode ser visitada como forma de Educação
Ambiental, com visitas programadas, o que pode gerar renda
para a comunidade local (guia de campo, comércio ambulante)
Relevância na geração de renda
para comunidades locais
13
Nome da UC
Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Francisco
Pereira
Tipo
RPPN – Particular
Município
Coruripe
Área (ha)
290
Órgão gestor
Relevância na região
S / A Usina Coruripe Açúcar e Álcool.
A RPPN Fazenda Francisco Pereira é integrante do Sítio do
Pau-Brasil, um posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata
Atlântica.
Esta RPPN pode ser visitada como forma de Educação
Ambiental, com visitas programadas, o que pode gerar renda
para a comunidade local (guia de campo, comércio ambulante,
vigilante, etc).
Relevância na geração de renda
para comunidades locais
Nome da UC
Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Rosa do
Sol
Tipo
RPPN – Particular
Município
Barra de São Miguel
Área (ha)
15,50
Órgão gestor
Relevância na região
Alfredo Durval Vilela Cortez.
Proteção de amostras de floresta Atlântica e manguezais.
Nome da UC
Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda São
Pedro
Tipo
RPPN – Particular
Município
Pilar
Área (ha)
50
Órgão gestor
Relevância na região
Francisco José Quintella Cavalcante.
Área mantenedora de nascentes.
Nome da UC
Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Santa
Tereza
Tipo
RPPN – Particular
Município
Atalaia
Área (ha)
100
Órgão gestor
Relevância na região
João José Pereira Lyra (Presidente do Grupo JL).
A RPPN Fazenda Santa Tereza é integrante do Sítio do PauBrasil, um posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata
Atlântica.
Esta RPPN pode ser visitada como forma de Educação
Ambiental, com visitas programadas, o que pode gerar renda
para a comunidade local (guia de campo, comércio ambulante,
vigilante, etc.).
Relevância na geração de renda
para comunidades locais
14
Nome da UC
Área de Proteção Ambiental de Santa Rita
Tipo
APA – Estadual
Município
Maceió, Marechal Deodoro e Coqueiro Seco.
Área (ha)
10.230
Órgão gestor
Relevância na região
IMA
Abrange a Reserva Ecológica de Saco da Pedra. Constitui um
ecossistema onde se processa o escoamento das bacias dos
rios Paraíba do meio, Mundaú e Sumaúma.
A Área de Proteção Ambiental de Santa Rita possui muitas
zonas de interesse ecológico e turístico como a lagoa
Manguaba e seus canais interlacunares que a interligam com a
lagoa Mundaú, além dos remanescentes de Mata Atlântica, de
matas de restinga e de manguezais. A meliponicultura é bem
desenvolvida na Área.
Localizada próxima a capital. Sofre com a poluição por
efluentes industriais, agrotóxicos, lixos, resíduos urbanos,
esgotos domésticos, corte a aterro dos manguezais, pesca
predatória e expansão imobiliária desordenada.
Relevância na geração de renda
para comunidades locais
Principais problemas e conflitos
Nome da UC
Área de Proteção Ambiental do Catolé e Fernão Velho
Tipo
APA – Estadual
Município
Maceió e Satuba
Área (ha)
5.415
Órgão gestor
Relevância na região
Principais recursos
Estratégias de minimização de
problemas e conflitos
IMA
Apresenta considerável importância devido a sua função
mantenedora de um rico manancial que abastece 30% da
cidade de Maceió, Vila ABC e Fernão Velho.
Informação não disponível.
No interior da APA está inserida a sede do Batalhão de Polícia
Ambiental.
Nome da UC
Área de Proteção Ambiental do Pratagy
Tipo
APA – Estadual
Município
Maceió, Messias e Rio Largo.
Área (ha)
13.369,50
Órgão gestor
Relevância na região
IMA
Em sua abrangência está inclusa a bacia do Pratagy,
manancial hídrico que abastece a cidade de Maceió. Na APA
do Pratagy ocorrem muitas espécies de aves endêmicas e
ameaçadas de extinção.
Sofre intenso processo de degradação devido a proximidade
de aglomerado de favelas. Contaminação por agrotóxicos
decorrentes do cultivo de cana-de-açúcar e presença de lixões
e aterros sanitários.
Monitoramento do rio através do Instituto do Meio Ambiente
(IMA), a fim de minimizar a degradação ambiental; implantação
de estação coletora e de tratamento d’água de onde saem as
adutoras para o abastecimento da Capital.
Principais problemas e conflitos
Estratégias de minimização de
problemas e conflitos
15
2.6 Uso dos recursos naturais
Segundo informações do IBGE (2000), o Município de Boca da Mata é o principal
produtor de carvão vegetal entre os municípios da área de distribuição do Mutum-dealagoas, com cerca de 6 toneladas/ano, seguida de Coruripe com 5 tonelada/ano e Pilar
com 4 toneladas/ano (Figura 4).
Os municípios de Boca da Mata, São Miguel dos campos e Coruripe são os principais
produtores de lenha, com 10.350, 5.920 e 5.130 m3/ano, respectivamente (Figura 5)
(IBGE 2000).
As madeiras mais utilizadas para diversos usos são: Byrsonima sericea (murici) - lenha e
fornecimento de energia doméstica; Bowdichia virgilioides (sucupira) – lenha,
fornecimento de energia doméstica, construções de cercas, manutenção das casas,
pequenas pontes, etc.; e, Eschweilera ovata (imbiriba) - construção de cercas,
manutenção das casas, pequenas pontes, etc.
Os recursos hídricos também são utilizados para diferentes fins, como: Irrigação, geração
de energia, pesca lavagem de roupas, animais, automóveis, caminhões e tratores, e
também para lazer (banhos de cachoeira, rio, mar e mangue). A má utilização dos
recursos hídricos pode causar vários impactos, tais como: envenenamento das águas
das regiões por insumos químicos (pesticidas e adubos), represamento e conseqüente
interrupção de fluxos biológicos, eutrofização e liberação de resíduos automotivos, etc.
2.7 Indicadores de degradação ambiental
A incidência de incêndios tem ocorrido com bastante freqüência em vários municípios da
área de distribuição do Mutum-de-alagoas. Geralmente são decorrentes da colheita de
cana-de-açúcar, ocupações de terras, renovação de pastos, acidentais e intencionais. Os
municípios mais afetados, de acordo com o Centro de Previsão de Tempo e Estudos
Climáticos
(CPTEC)
do
Instituto
Nacional
de
Pesquisas
Espaciais
(INPE)
(http://www.cptec.inpe.br/) entre os anos de 2000 – 2005 são: Coruripe (553
ocorrências), São Miguel dos Campos (217), Jequiá da Praia (159), Atalaia (156), Rio
Largo (118), Marechal Deodoro (117), Pilar (91), e Maceió (72).
16
7
6
Toneladas/ano
5
4
3
2
1
0
Boca da Mata
Coruripe
Pilar
São Miguel dos Campos
Roteiro
Municípios
Figura 4 – Produção anual de carvão vegetal nos municípios da distribuição do Mutumde-alagoas. Fonte: IBGE 2000.
12000
10000
Metros cúbicos
8000
6000
4000
2000
0
Boca da Mata
São Miguel dos
Campos
Coruripe
Roteiro
Pilar
Municípios
Figura 5 – Produção anual de lenha nos municípios da distribuição do Mutum-dealagoas. Fonte: IBGE 2000.
17
3. CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL DOS FRAGMENTOS PARA A UMA POSSÍVEL
REINTRODUÇÃO DO MUTUM-DE-ALAGOAS.
Foram visitadas nove usinas da região que potencialmente podem abrigar em seus
fragmentos, populações do Mutum-de-alagoas, são elas: Cachoeira, Caeté, Coruripe,
Porto Rico, Serra Grande, Sinimbu, Sumaúma, Triunfo, Utinga Leão (Figura 6). Um total
de 19 fragmentos foi investigado. A Usina Serra Grande situa-se fora da distribuição
recente do Mutum-de-alagoas, no entanto o Comitê, na sua primeira reunião em 2003,
achou necessária a sua inclusão devido a apresentar um dos mais representativos e bem
conservados fragmentos florestais (Engenho Coimbra) em área de usina.
Os registros históricos englobam quatro (atuais) municípios dos Tabuleiros Costeiros do
Estado de Alagoas: Barra de São Miguel, Jequiá da Praia e São Miguel dos Campos
(Figura 7A). As áreas inventariadas reúnem dez municípios: Barra de Santo Antônio,
Campo Alegre, Coruripe, Ibateguara, Jequiá da Praia, Maceió, Marechal Deodoro, Pilar,
Rio Largo e São Miguel dos Campos (Figura 7B).
Elaborou-se um protocolo para a aquisição das informações a ser aplicado em cada
fragmento. Portanto, foram obtidas informações preliminares sobre: caracterização da
estrutura da vegetação; disponibilidade de abrigos e sítios reprodutivos para o Mutum-dealagoas; forma e tamanho do fragmento; presença de predadores potenciais; presença
de outros Cracídeos; segurança das áreas; pressão antrópica; aspectos hídricos;
conectividade potencial entre os fragmentos; impactos ambientais decorrentes da
agricultura; infra-estrutura, acesso e trilhas; ocorrência de caça e retirada de madeira.
Para padronizar a caracterização da vegetação seguiram-se alguns itens da resolução do
CONAMA n° 28 de 07 de dezembro de 1994 relativas à classificação dos estágios de
sucessão da Floresta Atlântica como: fisionomia, estratificação, altura média da
vegetação, existência, diversidade e quantidade de epífitas, existência, diversidade e
quantidade de trepadeiras, ausência ou presença e quantidade de serapilheira,
subosque, diversidade biológica e dominância de espécies.
A presença de algumas espécies arbóreas e de predadores potenciais do Mutum-dealagoas foi apontada através de entrevista aos mateiros que acompanhavam a equipe
nos diferentes fragmentos. Em alguns casos foi possível a detecção visual de alguns
predadores.
18
Figura 6 – Localização das áreas inventariadas no Estado de Alagoas (Usina Cachoeira 1, Mata da Sela; 2, Mata do Raboio; 3, Barragem das Prensas; 4, Grota da Cachoeira; 5,
Mata do Bamburral; Usina Caeté – 6, Fazendas Reunidas; 7, Mata das Carobas; 8,
Fazenda Varrela; Usina Coruripe – 9, Mata de Riachão; 10, Mata de Capiatã; Usina Porto
Rico – 11, Mata do Matão; Usina Serra Grande – 12, Mata de Coimbra; Usina Sinimbu –
13, Fazenda do Prata; 14, Fazenda Riachão; Usina Sumaúma – 15, Fazenda Charles;
15, Fazenda Carobas; Usina Triunfo – 17, Mata do Quebra Carro; Usina Utinga Leão –
18, Mata da Sálvia; 19, Mata do Cedro) e as localidades de registro histórico (A, Barra de
São Miguel; B, Roteiro; C, São Miguel dos Campos; D, Usina Sinimbu).
19
A
B
Figura 7 – Municípios abrangidos pela distribuição do Mutum-de-alagoas. A, Distribuição
histórica; B, Áreas inventariadas.
20
3.1 Usina Cachoeira (Anexos 1A e 2A)
Os fragmentos visitados na Usina Cachoeira localizam-se em áreas não próximas de
povoados e vilas (c. 15 km de Maceió), com exceção da Grota da Cachoeira e Bamburral,
situadas próximas à usina. As coordenadas de referência são: Barragem das Prensas
(9°26’09.3”S / 35°40’43.5”W), Grota de Cachoeira (9°25’51.1”S / 35°43’36.1”W), Mata do
Bamburral (9°26’09.45”S / 35°43’23,5”W), Mata da Sela (9°22’S / 35°43’W) e Mata do
Raboio (9°22’53.1”S / 35°40’05.4”W). Todos estes fragmentos localizam-se no Município
de Maceió.
De uma maneira geral os fragmentos estão associados a encostas íngremes (Grota da
Cachoeira, Bamburral e parte dos fragmentos de Raboio) ou em área de proteção de
mananciais (Barragem das Prensas).
A Mata do Raboio é um complexo de pequenos fragmentos de formatos bastante
irregulares e de diferentes tamanhos, geralmente menores que 10 ha. Visualmente é
possível perceber o corte de madeira, retirada de lenha e arrastos de caçadores por toda
a área.
A Barragem das Prensas apresenta fragmentos isolados e de diferentes tamanhos, no
entanto a maioria encontra-se em estágio inicial de recuperação florestal. Uma pequena
porção de mata mais preservada próximo à barragem é cortada por um riacho que se
encontra parcialmente assoreado por entulho das obras da construção da barragem.
Parte da área que margeia a barragem foi reflorestada e a vegetação encontra-se
naturalmente em início de regeneração.
A Grota da Cachoeira e Bamburral apresentam árvores altas e de uma forma geral, a
vegetação apresenta uma estrutura mais madura. Foi possível observar árvores
emergentes e algumas com troncos bastantes desenvolvidos.
3.2 Usina Caeté (Anexos 1B e 2B)
Os fragmentos visitados na Usina Caeté foram: Fazenda Varrela (9°42’04.5”S /
36°00’54.4”W), Mata das Carobas I (9°42’35.8”S / 36°00’09.9”W) e Fazendas Reunidas
(9°42’ 2.1”S / 36°02’15.4”W). As Fazendas Reunidas não pertence à Usina Caeté, no
entanto faz divisa com parte da mata pertencente à Fazenda Carobas e Usina
Roçadinho. A Fazenda Varrela localiza-se no Município de Pilar, a Fazenda Carobas e
Reunidas localizam-se no Município de São Miguel dos Campos.
21
O fragmento da Fazenda Varrela é parcialmente protegido, o acesso é restrito à
executiva da Usina Caeté, pois existe ali um clube de campo. Existem portões com
cadeados em um dos acessos. A mata apresenta uma boa estrutura, com árvores
emergentes e algumas com troncos bastantes desenvolvidos, e de maneira geral a
vegetação apresenta uma estrutura mais madura. Parte desta mata é uma grota íngreme
e no fundo do vale existe um açude abastecido pelas nascentes da mata. Este açude é,
também, utilizado para abastecer recipientes para aplicação de agrotóxicos. Foram
observados vários tambores vazios ao lado do açude. Esta mata é separada da Mata de
Carobas por uma grande área de pasto.
A Mata de Carobas é um fragmento alongado e estreito. Nesta área foram observados
uma grande quantidade de lenha cortada e vestígios de retirada de madeira. Também é
bastante freqüentada por caçadores. Existe uma grande tubulação para captação de
água para irrigação que corta transversalmente parte da mata.
Tanto a Varrela quanto a Carobas margeiam a BR 101, em um trecho de trânsito
bastante movimentado.
A mata das Fazendas Reunidas é totalmente cercada e existe vigilância permanente.
Segundo o proprietário, é para assegurar que não retirem madeira, pois este fragmento
fica próximo da vila de moradores da Fazenda Carobas. Situa-se a c. 1 km da BR 101. A
mata já foi parcialmente cortada, mas encontra-se em estágio avançado de regeneração.
Apenas a área da “Grota do Niquim” apresenta árvores com fisionomia de mata tardia.
Nesta grota existem bombas de captação de água que funcionam praticamente o dia
todo. Um tubo de gasoduto da Petrobrás corta a mata em toda a sua extensão.
3.3 Usina Coruripe (Anexos 1C e 2C)
Foram visitados dois fragmentos da Usina Coruripe, a Mata do Riachão (10º00'04''S /
36º17'18''W) e a Mata de Capiatã (10º03'32.3''S / 36º16'42.8''W), a primeira está
localizada entre os municípios de Coruripe e Teotônio Vilela, a segunda no Município de
Coruripe. Nestas matas já houve queimadas e corte seletivo de madeiras. Em muitas
áreas no interior dos fragmentos é comum encontrar clareiras dominadas por gramíneas.
As matas da Usina Coruripe apresentam uma fisionomia de matas secas devido ao tipo
de floresta, a Estacional Semidecidual, aliada ao estágio de sucessão que se encontram.
Grande parte da área visitada está em estágio médio-avançado de regeneração. Não se
observou área de desenvolvimento mais tardio, no entanto existem muitas árvores
emergentes que chegam a mais de 25m.
22
A Usina Coruripe desenvolve um programa de reflorestamento que está viabilizando a
conexão entre muitos fragmentos. Entre estes está a conexão de dois grandes
fragmentos da Fazenda Capiatã.
Em nenhum dos fragmentos visitados se observou indícios de corte ou retirada de lenha,
no entanto a gerência da usina é consciente da intrusão de caçadores nos seus
fragmentos florestais.
Na Mata do Capiatã, no Sítio Pau-brasil existe uma base avançada da Reserva da
Biosfera da Mata Atlântica. Neste local são oferecidos cursos de capacitação para
professores e aulas de educação ambiental para crianças da região. Além disso, é sede
de uma sementeira de mudas nativas para o programa de reflorestamento.
3.4 Usina Porto Rico (Anexos 1D e 2D)
Na Usina Porto Rico foi visitada apenas a Mata do Matão (9º46'12''S / 36º14'23''W),
localizada no Município de Campo Alegre. Este fragmento parece ser um dos mais
representativos da região, com c. 1.000 ha de matas em diferente estágio de
regeneração. Há muito tempo, parte deste fragmento sofreu um severo corte seletivo
para gerar energia para a usina e outros fins. Felizmente parte dela foi preservada e
grande parte apresenta uma fisionomia típica de mata primária, com árvores que
ultrapassam 30m de altura e com troncos muito grossos. Toda a extensão da mata está
situada sobre um relevo plano. Não existem grotas com declividade acentuada como nas
outras usinas investigadas.
Este fragmento apresenta mamíferos dispersores de grande porte como Guariba
(Allouata belzebu) e Macaco-prego (Cebus sp.).
Está localizado próximo à Usina
Sinimbu, local onde já foi registrado o Mutum-de-alagoas.
Não existem nascentes de água neste fragmento, no entanto, ao lado de uma das bordas
existe um pequeno riacho e um grande açude que é margeado por uma vegetação
exuberante. O riacho capta água para irrigação do canavial e também abastece o açude.
Entre a mata e a outra margem onde está o açude existe um canal de passagem de
vinhoto utilizado na fertirrigaçao do canavial. A usina instalou algumas “pontes de
passagem” sob este canal para os animais conseguirem chegar até o açude.
A Mata do Matão é rodeada por estradas, uma delas bastante utilizada para o acesso a
municípios vizinhos, com trânsito constante de caminhões e ônibus, não apenas na
época de safra.
23
Em parte da mata é possível observar muitas clareiras e uma grande quantidade de
árvores podres. Não foi encontrado vestígio de retirada de madeira nem de lenha, no
entanto há muitos arrastos de caçadores por toda a mata, apesar desta ser vigiada
constantemente e existirem placas de alerta e proibição de entrada.
3.5 Usina Serra Grande (Anexos 1E e 2E)
A Mata de Coimbra é o maior fragmento de mata situado em propriedade de usina na
região, possui cerca de 3.500 ha. As coordenadas de referência são: 9º00'02.21''S /
35º51'12.51''W, e está localizada no Município de Ibateguara.
Vários estudos já estão sendo desenvolvidos em Coimbra como subsídio para
desenvolver protocolos para a restauração da Floresta Atlântica do Nordeste. Estudos de
identificação de árvores, aves, mamíferos, abelhas e formigas que fazem parte da
dispersão e predação de sementes, polinização das plantas, herbivoria, produção de
frutos e sementes e regeneração da floresta já estão sendo desenvolvidos desde o ano
2000 por uma equipe de pesquisadores da UFPE e do CEPAN.
Na Mata de Coimbra há uma dominância de espécies produtoras de frutos como
Sapotaceae, Annonaceae, Mimosaceae, Melastomataceae, etc. No entanto é observado
que estes frutos são pouco consumidos.
Fisionomicamente e floristicamente, a Mata de Coimbra apresenta uma vegetação
exuberante, no entanto existem áreas na mata (antigos sítios de moradores) que se
encontram bastante alterados fisionomicamente e em estágios de conservação e
regeneração diferenciados. Existem
locais
com
fisionomia
de
floresta
primitiva,
principalmente nos fundos de vale. Grande parte da mata já foi cortada há cerca de 50
anos, mas já se encontram em estágio avançado de regeneração. Ainda existe corte
seletivo, mas não de árvores adultas. Estas áreas onde há corte seletivo (principalmente
perto das vilas de moradores) estão sendo monitoradas e um projeto de recuperação
florestal vai ser implementado.
São inúmeras as nascentes e riachos no interior da mata, muitas delas são perenes.
3.6 Usina Sinimbu (Anexos 1F e 2F)
Foram visitadas as matas das fazendas do Prata (9º54'08.7''S / 36º08'04.9''W) e Riachão
(9º56'26.5''S / 36º09'00.7''W). Ambas localizadas no Município de Jequiá da Praia.
24
Ambas as áreas encontram-se em estado de degradação completo. As grotas antes
florestadas encontram-se parcialmente descobertas, expondo o solo a ações de
intempéries. Foram observados vários arrastos de caçadores no interior das matas, além
disso, deparamos várias árvores cortadas, caçadores e pessoas apreendendo aves
durante a nossa visita. Não observamos vigilância ou placas de sinalização em nenhum
dos fragmentos visitados.
Na Fazenda do Prata, praticamente toda a área florestada foi cortada e posteriormente
queimada. Os fragmentos se encontram em estágio inicial de regeneração. O mesmo se
encontra a Fazenda Riachão e outras áreas ligeiramente visitadas (Fazendas Taquari,
Cacimbão, Pau Amarelo, Mangabeira e Luziápolis). A Fazenda Mangabeiras foi no
passado, área de registro do Mutum-de-alagoas (Pinto 1952).
3.7 Usina Sumaúma (Anexos 1G e 2G)
Duas matas foram visitadas na Usina Sumaúma, a Mata das Carobas (9º47'07.9''S /
35º58'49.0''W), e a Mata da Fazenda Charles (9º44'24.7''S / 35º57'00.6''W), ambas
localizadas no Município de Marechal Deodoro.
Cerca de 90 ha da Fazenda Charles foi transformado em RPPN como forma de preservar
a mata nativa e as dezenas de nascentes da área. A mata encontra-se bastante
preservada principalmente na área de recreação restrita à executiva da usina. A área
apresenta um dossel relativamente fechado e uniforme com árvores emergentes que
ultrapassam 20m. O acesso à área é restrito e existe portão com cadeado na entrada de
acesso. Localiza-se ao lado da usina, próximo à vila de moradores da usina.
Aparentemente não há caça ou retirada de madeira. Existe uma vila nas imediações.
A Mata das Carobas dista aproximadamente 20 km da usina. A mata possui cerca de 800
ha e faz divisa com matas de outras propriedades (e.g.,, Usina Roçadinho). Existem
várias estradas nas proximidades utilizadas principalmente no período de safra, algumas
estradas margeiam o fragmento. Foram observadas duas estradas de acesso à mata e
apenas uma delas apresentava portão.
A área é parcialmente vigiada, mas não impede que caçadores construam
acampamentos no interior da mata. A Mata das Carobas é, esporadicamente, alvo de
incêndios causados por estes caçadores. Além disso, muita madeira é retirada das
encostas próximo à estrada.
25
Apesar disto, a mata, principalmente no fundo da grota, apresenta uma fisionomia de
mata tardia, com muitas árvores emergentes e uma grande quantidade de epífitas,
principalmente bromélias.
Segundo informações locais, a Mata das Carobas pertenceu a uma família, da cidade de
Marechal Deodoro, que fabricavam móveis. Pode-se esperar então, que toda madeira
nobre já foi cortada desta mata. A usina assumiu a área em 1975, quando ainda existiam
Mutum-de-alagoas nesta localidade (informações de mateiros locais).
3.7 Usina Triunfo (Anexos 1H e 2H)
A Mata do Quebra Carro está localizada no Município de Boca da Mata, e as
coordenadas de referência são: 9º37'58.5''S / 36º06'44.8''W.
A mata apresenta uma área de extraordinária beleza cênica. No interior da grota há um
riacho que passa por várias quedas d água até desembocar no outro lado da mata. Toda
a da mata está situada no interior de uma grota, e possui c. 400 ha em estágio médio de
regeneração, apresentando também, em muitos pontos, áreas em regeneração inicial.
A mata ocupa o fundo do vale e as encostas são bastante íngremes na maior parte da
sua extensão, no entanto é estreita e várias trilhas cortam transversalmente a mata que é
utilizada como caminho de trabalhadores durante o período de safra.
Segundo informações obtidas na área, o riacho que corta a mata vem de nascentes do
“tabuleiro” situadas na porção mais superior. Eventualmente esta água pode estar
contaminada por resíduos de agrotóxicos e outros insumos utilizados na cultura da canade-açúcar.
Nesta área deverá ser construído o Centro de Visitação do Mutum-de-alagoas.
3.8 Usina Utinga Leão (Anexos 1I e 2I)
Foram visitados dois grandes fragmentos na Usina Utinga Leão: a Mata da Sálvia
(9º31'29.57''S / 35º49'32.3''W) e a Mata do Cedro (9º31'56.3''S / 35º54'51.5''W). Ambas as
matas localizam-se no Município de Rio Largo.
A Mata da Sálvia situa-se ao lado da estrada de acesso à usina. É uma estrada com
trânsito constante de carros, ônibus e caminhões. Esta estrada divide a mata em duas
porções. A parte de mata que fica mais próxima à usina tem várias trilhas, facilitando o
trânsito de pessoas, que as utilizam para cortar caminho até o asfalto. Esta mata ainda
26
apresenta uma linha de transmissão de energia que corta a mata no sentido transversal.
As grotas são bastante íngremes e muitas delas de difícil acesso.
Foi possível observar no interior da mata, muita madeira cortada e lenha retirada, além
disso, tiros foram ouvidos em duas ocasiões. Na borda observou-se muito lixo e não
pareciam ser doméstico. Chamou-nos a atenção, um carro depenado que foi
arremessado grota abaixo.
Apesar disto, a mata apresenta uma fisionomia de mata madura, com árvores que
chegam a c. 40m no fundo de algumas grotas, entre elas destaca-se a Terminalia
brasiliensis (mirindiba), bastante rara na região.
A Mata do Cedro e outros fragmentos muito próximos apresentam cerca de 1.000 ha.
Parte desta mata já sofreu corte seletivo e está em plena recuperação. No entanto há
grotas com árvores emergentes que chamam a atenção. Este conjunto de fragmentos e a
Mata do Cedro são cortados pelo Rio da Conceição, que também passa ao lado da usina,
no interior das matas há várias nascentes que desembocam neste rio e também no
açude. Uma tubulação de gasoduto da Petrobrás corta parte da mata. A Mata do Cedro
chama a atenção de caçadores pela grande quantidade de caça, as cotias (Dasyprocta
aguti) são abundantes nas estradas e trilhas dentro da mata.
Existe uma estrada que atravessa a Mata do Cedro, mas o acesso é restrito, existem
correntes e cadeados. Várias outras estradas de acesso às matas das proximidades
também oferecem esta resistência, que é uma forma encontrada pela usina de impedir
que pessoas, principalmente caçadores, entrem motorizadas na propriedade. Fomos
alertados pela Usina em ter bastante cuidado pelas trilhas devido a armadilhas com
canos. Vários tiros foram ouvidos durante a visita.
Há uma grande área aberta entre a Mata do Cedro e os outros fragmentos, os canaviais
estão sendo abandonados para dar lugar a pastos. Esta área é toda cercada e existem
várias áreas encharcadas (paludosas).
Para a pequena Mata do Humaitá (não visitada) já houve registro do Mutum-de-alagoas.
Hoje esta mata é um pequeno fragmento.
27
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Documento
Base
de
Referência.
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vegetação brasileira adaptada a um sistema universal. IBGE, Rio de Janeiro.
29
5. AGRADECIMENTOS
Ao IPMA (Instituto para Preservação da Mata Atlântica) e ao Fernando Pinto pelo apoio e
contato com as usinas visitadas. Às usinas pelo apoio logístico e informações: Cachoeira,
Caetés, Coruripe, Porto Rico, Serra Grande, Sinimbu, Sumaúma, Triunfo e Utinga Leão.
A Antônio Venceslau Neto, Etelminio Bastos Neto (Triunfo), Ivo Pepe (Sumaúma),
Ricardo Figueira (Utinga leão), pela gentileza em ceder algumas das fotos apresentadas.
A Marcondes Oliveira por informações sobre a flora da região. Ao Sr. Francisco Jatobá
(Fazendas Reunidas) pela atenção e permissão em conhecer a sua propriedade. A Fábio
Olmos e Luís Fábio Silveira pelas informações sobre o Mutum-de-alagoas. Ao Apoio do
IBAMA (Coordenação Geral de Fauna) e dos membros do “Comitê para Recuperação e
Manejo do Mutum-de-alagoas Mitu mitu” pelas valiosas sugestões a este trabalho.
Ao Glauco Pereira e ao Marcio Rufino pela companhia em algumas das viagem a campo.
Ao FNMA (Fundo Nacional do Meio Ambiente) e Programa Espécies Ameaçadas
(Biodiversitas/ CEPAN) por financiar nossos projetos de conservação das espécies de
aves endêmicas e ameaçadas no Centro Pernambuco. Ao CEPAN, Conservação
Internacional, UFPE (Depto. Botânica, Laboratório de Ecologia Vegetal), BirdLife
International – Programa do Brasil e Sociedade Nordestina de Ecologia pelo apoio
institucional na execução destes projetos.
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avaliação de fragmentos florestais para uma possível