AVALIAÇÃO DE FRAGMENTOS FLORESTAIS PARA UMA POSSÍVEL REINTRODUÇÃO DO MUTUM-DE-ALAGOAS EM SEU AMBIENTE NATURAL. SÔNIA ALINE RODA ANDRÉ MAURÍCIO MELO SANTOS APOIO: JULHO - 2005 2 AVALIAÇÃO DE FRAGMENTOS FLORESTAIS PARA UMA POSSÍVEL REINTRODUÇÃO DO MUTUM-DE-ALAGOAS EM SEU AMBIENTE NATURAL. SÔNIA ALINE RODA & ANDRÉ MAURÍCIO MELO SANTOS1 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 4 2. CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL GERAL DA ÁREA DE DISTRIBUIÇÃO DO MUTUM-DE-ALAGOAS ......................... 6 2.1 Localização dos registros ..................................................................................................... 6 2.2 Histórico da ocupação da área ............................................................................................. 7 2.3 Clima, solo e relevo ............................................................................................................... 9 2.4 Hidrografia ............................................................................................................................ 10 2.5 Vegetação ............................................................................................................................ 11 2.6. Unidades de conservação na área de distribuição do Mutum-de-alagoas .......................... 12 2.7 Uso dos recursos naturais .................................................................................................... 15 2.8 Indicadores de degradação ambiental ................................................................................. 15 CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL DOS FRAGMENTOS PARA A UMA POSSÍVEL REINTRODUÇÃO DO MUTUM-DEALAGOAS ............................................................................................................................................ 17 3.1 Usina Cachoeira ................................................................................................................... 20 3.2 Usina Caeté .......................................................................................................................... 20 3.3 Usina Coruripe ...................................................................................................................... 21 3.4 Usina Porto Rico ................................................................................................................... 22 3.5 Usina Serra Grande .............................................................................................................. 23 3.6. Usina Sinimbu ..................................................................................................................... 23 3.7 Usina Sumaúma ................................................................................................................... 24 3.8 Usina Triunfo ........................................................................................................................ 25 3.9. Usina Utinga Leão ............................................................................................................... 25 4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................................................... 27 5. AGRADECIMENTOS ............................................................................................................................. 29 3. 1 Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste. Rua Major Médico Vicente Fonseca de Matos, 750, 302/A, Candeias, Jaboatão dos Guararapes, PE, CEP 54440-370. E-mail: [email protected]; [email protected] 3 LISTA DE FIGURAS 1 Mutum-de-alagoas, Mitu mitu .................................................................................................... 5 2 Sítios de registros históricos do Mutum-de-alagoas ................................................................. 6 3 Distribuição potencial do Mutum-de-alagoas nos Tabuleiros Costeiros .................................... 7 4 Produção anual de lenha nos municípios da distribuição do Mutum-de-alagoas ...................... 16 5 Produção anual de carvão vegetal nos municípios da distribuição do Mutum-de-alagoas ....... 16 6 Localização das áreas inventariadas no Estado de Alagoas ..................................................... 18 7 Municípios abrangidos pela distribuição do Mutum-de-alagoas ................................................ 19 LISTA DE ANEXOS ANEXO 1 1A Fragmentos da Usina Cachoeira .............................................................................................. 30 1B Fragmentos da Usina Caeté ..................................................................................................... 31 1C Fragmentos da Usina Coruripe ................................................................................................. 33 1D Fragmentos da Usina Poro Rico ............................................................................................... 34 1E Fragmentos da Usina Serra Grande ......................................................................................... 35 1F Fragmentos da Usina Sinimbu .................................................................................................. 36 1G Fragmentos da Usina Sumaúma .............................................................................................. 38 1H Fragmentos da Usina Triunfo .................................................................................................... 40 1I Fragmentos da Usina Utinga Leão ........................................................................................... 41 2A Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Cachoeira ............................................... 43 2B Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Caeté ..................................................... 46 2C Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Coruripe .................................................. 48 2D Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Poro Rico ............................................... 50 2E Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Serra Grande ......................................... 52 2F Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Sinimbu .................................................. 54 2G Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Sumaúma .............................................. 56 2H Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Triunfo .................................................... 58 2I Caracterização ambiental dos fragmentos da Usina Utinga Leão ........................................... 60 ANEXO 2 4 1. INTRODUÇÃO O Mutum-de-alagoas (Mitu mitu) (Figura 1) é uma ave da ordem Galiforme, família Cracidae, um grupo com ampla distribuição nas florestas tropicais da América Latina. É uma espécie florestal de grande porte, que atinge c. 95 cm de comprimento e 3 kg de peso (Nardelli 1993), apresenta o bico com base vermelha e porção apical rósea, região auricular nua, e cauda com o par central das retrizes totalmente negro e as restantes com o ápice marrom (Silveira et al. 2004). É pouco conhecida quanto aos seus requerimentos ecológicos e biológicos na natureza, no entanto, assim como outros Cracidae, são frugívoros e bons dispersores de sementes (Silva & Tabarelli 2000). Originalmente, esta espécie distribuía-se nas florestas de tabuleiro (i.e., nas florestas de terras baixas ao longo do litoral) do estado de Alagoas (Teixeira 1986). O Mutum-de-alagoas foi descrito há três séculos por Linnaeus, baseado em texto e ilustração publicado em 1648 por J. Marcgrave. Esta gravura foi baseada em um exemplar proveniente de “Pernambuco” (i.e. na área do domínio holandês), no entanto foi registrado e documentado apenas para Alagoas (Pinto 1952, Vaurier 1967, Coimbra-Filho 1970, Nardelli 1993, Teixeira 1992), sendo redescoberto em Alagoas em 1951 (Pinto 1954, Sick 1997). O Mutum-de-alagoas vivia originariamente confinado às florestas costeiras ao sul do Estado de Alagoas, e sempre foi vítima, desde o tempo da colonização das ações dos caçadores e dos desmatamentos para plantio da cana-de-açúcar. Já era raro em 1951 quando Olivério Pinto esteve em Alagoas e o redescobriu nas florestas do município de São Miguel dos Campos. Com o avanço dos desmatamentos, a última colônia dos mutuns redescoberta na década de 70 e estimada por Pedro Nardelli em 60 a 80 exemplares, ficou restrita às matas dos municípios de Roteiro e São Miguel dos Campos, que na época contava ainda com aproximadamente 10.000 hectares de floresta Atlântica em bom estado de preservação. Com o advento do Pro-álcool, programa incentivado pelo governo federal, uma destilaria de álcool foi implantada nesta região e toda a floresta foi substituída por plantações de cana-de-açúcar, o que representou o completo desaparecimento do Mutum-de-alagoas na natureza. Nenhum outro exemplar foi observado então desde 1982. 5 Figura 1 – Mutum-de-alagoas, Mitu mitu. (Foto: LF Silveira) Atualmente c. 150 exemplares encontram-se confinados em criadouros científicos. Em cativeiro, esta população foi cruzada com M. tuberosa (Grau et al. 2003), e análises de variabilidade genética, através da técnica de DNA fingerprinting, realizadas em alguns destes exemplares cativos demonstraram que em dezessete destas aves há uma divergência de 2,6% com M. tuberosa, indicando que os indivíduos cativos de M. mitu são distintos de M. tuberosa (Grau et al. 2003). Sem nenhum indivíduo em estado silvestre, o que torna o Mutum-de-alagoas uma das mais raras aves do mundo, e com os indivíduos cativos restantes confinados em poucos locais, foi criado o “Comitê para Recuperação e Manejo do Mutum-de-alagoas Mitu mitu”. Este comitê tem como objetivos principais gerar informações e ações para reverter a situação pela qual a espécie atravessa no momento, tão próxima de uma extinção completa. Este relatório visa avaliar alguns fragmentos florestais existentes dentro da área de distribuição recente do Mutum-de-alagoas com o objetivo de estabelecer algumas áreas prioritárias para recuperação e uma possível reintrodução desta espécie na natureza. 6 2. CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL GERAL DA ÁREA DE DISTRIBUIÇÃO DO MUTUM-DE-ALAGOAS 2.1 Localização dos registros O Mutum-de-alagoas (Mitu mitu) é conhecido e documentado para as florestas de tabuleiro do litoral sul do Estado de Alagoas (Collar et al. 2000, Sick 1997) (Figura 2). São poucas as localidades de registro do Mutum-de-alagoas: Barra de São Miguel (Nardelli 1993), Marechal Deodoro (Silveira et al. 2003), Pilar (Silveira et al. 2003), Roteiro (Nardelli 1993) e São Miguel dos Campos (Pinto 1954) (Figura 2). Figura 2 – Sítios de registros históricos do Mutum-de-alagoas. Uma análise de distribuição potencial desta espécie (SA Roda, dados não publicados) indica que pode ter ocorrido em uma área de 9.243,43 km2 que abrange os Tabuleiros Costeiros em Alagoas, norte de Pernambuco e parte do sul da Paraíba, região de relevo plano a suave-ondulado, onde predominam solos do tipo Latossolo, e uma vegetação 7 Subperenifólia com encraves de Cerrado (ZANE 2000) (Figura 3). Esta espécie pode ter ocorrido em áreas florestadas mais interioranas e em todo o litoral de Alagoas a Pernambuco, mas provavelmente foi extinto muito antes de ter sido detectado. Figura 3 – Distribuição potencial do Mutum-de-alagoas nos Tabuleiros Costeiros. 2.2 Histórico da ocupação da área A área de domínio do sistema canavieiro nos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte compreende uma das regiões mais exploradas economicamente no Nordeste do Brasil. A estrutura econômica produtiva principal nestes estados é baseada na atividade canavieira, no entanto vários pólos industriais, próximos às grandes cidades, foram instalados na região. Consequentemente, esta área tornou-se densamente povoada. Sob o ponto de vista sucro-alcooleiro esta região é importante tanto pela expressiva produção obtida, como pela utilização de insumos modernos e quantidade de mão-deobra empregada, onde nos períodos de safra abriga mão-de-obra de regiões vizinhas como do Agreste e Sertão (Andrade 1988). 8 Ao longo dos quatro séculos de desenvolvimento da cultura canavieira no Nordeste, as áreas consideradas como as mais adequadas para o plantio da cana de açúcar de cultivo foram principalmente as várzeas e as encostas dos tabuleiros. No entanto, com a necessidade de expandir a lavoura e aumentar a produção açucareira e alcooleira passou-se a incorporar gradativamente as terras de tabuleiros. Isto se deu principalmente nos anos 50. Contudo, os tabuleiros apresentavam baixa fertilidade e conservavam até então, sua cobertura vegetal nativa: no manto arenoso denso a vegetação era menos densa e com árvores de pequeno porte; e, no manto arenoso menos denso, uma vegetação primitiva caracterizada por árvores de grande porte. A incorporação dessas áreas por canaviais apresentava vantagens como facilidade de mecanização e dispensa de técnicas como drenagem e curvas de nível, barateando a produção, apesar da intensa adubação, porém implicou num grande processo de desmatamento. A partir dos anos 60 a cultura canavieira não mais levou em conta as condições climáticas e topográficas, expandindo-se para áreas íngremes mais interioranas e provocando os mais variados impactos ambientais como a destruição de florestas, erosão dos solos e desequilíbrio ecológico de rios e riachos (Andrade 1988). Isto se deu, principalmente, pela elaboração de vários fundos e programas governamentais para aumentar a produção canavieira e abrir espaço para o comércio internacional (Andrade 1988) como: Fundo de Recuperação da Agroindústria Canavieira (1961); Fundo de Racionalização da Agroindústria Canavieira do Nordeste (1963); Fundo Especial de Exportação (1965); Plano de Expansão da Indústria Açucareira Nacional (1965); Programa de Racionalização da Agroindústria Canavieira (1971); Programa Nacional de Melhoramento da Cana-de-Açúcar/PLANALSUCAR (1971); e, Programa Nacional do Álcool – PROALCOOL (1975). Este último, o PROALCOOL, talvez o mais polêmico de todos os programas adotados pelo governo, além de não ter atingido uma das suas metas principais que era um substancial aumento de produtividade agrícola canavieira, gerou, segundo Andrade (1988) graves conseqüências sociais (i.e. houve diminuição na geração de empregos devido à modernização agrícola e industrial) e ecológicas (aumento da poluição dos rios e desmatamento). Hoje o cenário ambiental do setor sucro-alcooleiro é diferente. Com tecnologias mais modernas e variedades mais produtivas de cana-de-açúcar, as usinas conseguem uma maior produção em áreas onde antes a produção era baixa, evitando assim desmatar para aumentar sua área de produção. Aliada a isto, a legislação ambiental brasileira tornou-se mais severa e os órgãos de fiscalização mais atuantes, minimizando os impactos ambientais que esta cultura oferece. 9 2.3 Clima, solo e relevo Clima O litoral sul alagoano é predominado por ventos alísios de sudeste, conferindo estabilidade e bom tempo para quase toda a área, no entanto também é atingido por correntes de circulação secundária, recebendo influência da frente Polar Atlântica e das ondas de Leste. De modo geral, as precipitações se estendem por quase todo o ano, apresentando uma curta estação seca no verão e uma longa estação chuvosa no outonoinverno. Em função de sua localização nas baixas latitudes tropicais, esta área recebe alta taxa de insolação, fazendo com que a temperatura seja alta durante todo o ano. A ação do fluxo dos alísios no litoral, carregados de umidade e calor recebidos pela sua passagem sobre as águas de correntes marítimas quentes, mantém a regularidade da temperatura na faixa de influência oceânica (Brasil 1983, Nimer 1977). O regime pluviométrico desta região não apresenta uma homogeneidade espacial. Os totais pluviométricos decrescem do litoral para o interior, elevando-se novamente nas áreas de maiores altitudes (ANEEL 1998). Seja qual for o volume de água precipitado ao longo do ano, sua divisão sazonal é marcadamente tropical, onde há um período muito chuvoso, no inverno, e outro seco, com pouca ou nenhuma chuva, no verão (FIBGE 1985). No litoral sul alagoano o máximo pluviométrico ocorre entre os meses de março e setembro e o mínimo, entre outubro e fevereiro. Os totais pluviométricos estão entre 1.750 a 2.000mm/ano, com períodos secos entre outubro e janeiro. Solos Os solos mais bem representados no litoral sul alagoano são os Podizólico Vermelhoamarelo Distrófico e o Latossolo Amarelo Distrófico. O primeiro tipo de solo é derivado principalmente de sedimentos argilo-arenosos e areno-argilosos do Grupo Barreiras, que recobrem rochas do Pré-Cambriano. Tratam-se de solos com horizonte B textural, não hidromórfico e argila de atividade baixa. Este tipo de solo ocorre tipicamente em porções de relevo plano até montanhoso (Brasil 1983). Apesar de serem solos com baixa fertilidade, são solos utilizados para a cultura da cana-de-açúcar e pastagens (Brasil 1983). O segundo tipo de solo mais bem representado, o Latossolo Amarelo Distrófico, predomina na região. Este tipo de solo é derivado dos sedimentos do Grupo Barreiras (Terciário-Quaternário). Trata-se de um solo não hidromórfico, caracterizado pelo avançado grau de intemperismo, o que resulta na predominância de minerais de argilas. 10 São solos profundos e bem drenados, e estão localizados na faixa litorânea, em relevos planos sobre os tabuleiros costeiros (Brasil, 1983a). Estes solos foram formados principalmente por sedimentos do Grupo Barreiras onde se desenvolveram as florestas do tipo Ombrófila Aberta e Estacional Semidecidual (Brasil 1983). Apresentam uma baixa fertilidade apesar de serem bastante utilizados pela cultura da cana-de-açúcar (Brasil 1983). Relevo O relevo é dominado pela subunidade Litoral ou Planície Litorânea que corresponde à faixa ao longo da costa onde predominam afloramentos de rochas Mesocenozóicas (FIBGE 1985). Apresenta uma forte influência dos relevos interiores, das correntes marinhas e do clima (Moreira 1977). As planícies litorâneas caracterizam-se por apresentar uma grande diversidade de acidentes geográficos como dunas, lagunas, falésias e tabuleiros da Formação Barreiras (Moreira 1977; FIBGE 1985; Regis 1993). Os tabuleiros costeiros caracterizam-se pelo dissecamento em forma de colinas modeladas em rochas pré-cambrianas e os topos tabulares são formados por rochas sedimentares cenozóicas da Formação Barreiras (Brasil 1983). 2.3 Hidrografia A hidrografia do litoral sul alagoano é representada pela bacia do Nordeste Oriental (i.e., Regiões Hidrográficas, sensu Conselho Nacional de Recursos Hídricos – CNRH) (htpp:// www.cnrh-srh.gov.br/). Apesar de também englobar uma parte da Caatinga e do Cerrado, a Bacia Hidrográfica do Nordeste Oriental contempla praticamente toda a floresta Atlântica nordestina (i.e., a floresta Atlântica ao norte do rio São Francisco), possuindo várias sub-bacias costeiras. Na Região Hidrográfica Costeira do Nordeste Oriental as condições hidrológicas variam em função da alternância da permeabilidade e das estruturas sinclinais ou monoclinais que asseguram as diferentes condições de água sob pressão (FIBGE 1985). As bacias costeiras, de maneira geral, são invadidas por águas marinhas devido à grande profundidade em que se encontram as zonas de descarga e as pequenas altitudes das zonas de recarga (FIBGE 1985). Nesta região hidrográfica, destaca-se a ocorrência de lagoas litorâneas, principalmente no estado de Alagoas, onde sobressaem as lagoas de Mundaú, Mangueba, Roteio e Jiquiá (FIBGE 1985). A origem destas lagoas deve-se às oscilações do nível do mar, que a princípio provocaram uma intensa erosão fluvial e posteriormente foram fechadas por cordões litorâneos e restingas (FIBGE 1985). 11 Nas bacias costeiras observa-se uma das maiores alterações por ação antrópica sobre a vegetação nativa, comprometendo em parte a vazão dos mananciais da região (ANA 2003). Em grande parte das bacias costeiras, o uso e manejo dos solos são inadequados, principalmente em função de práticas agrícolas impactantes, que têm acarretado processos erosivos, salinização e, em alguns casos, formação de áreas desertificadas (ANA 2003). Os graus distintos de preservação das bacias e sub-bacias hidrográficas do litoral sul alagoano (Mundaú e São Miguel) ocorrem em função da presença de indústrias de açúcar existentes na região, pela presença de inúmeros núcleos ambientais (vilas e povoados) e de ações de agentes poluentes, em virtude desta bacia se localizar em zona açucareira (FIBGE 1985). As cargas poluidoras são muito variadas, sendo as efluentes industriais e os esgotos domésticos as mais importantes, destacando-se ainda o chorume escoado dos lixões e os agrotóxicos. 2.4 Vegetação Dois tipos de vegetação ocorrem na área de distribuição do Mutum-de-alagoas: a Floresta Ombrófila Aberta e em menor escala a Floresta Estacional Semidecidual. Na Floresta Ombrófila Aberta predominam árvores espacialmente bem distribuídas, com o estrato arbustivo ralo, com dominância das subformações fanerófitas ombrófilas rosuladas e lianas lenhosas (Brasil 1983). Este tipo de floresta apresenta faciações florísticas que alteram a fisionomia ecológica da floresta ombrófila densa, imprimindo-lhe claros, por isso o termo “aberta” foi adotado. Ao contrário da floresta ombrófila densa, que não possui período biologicamente seco, neste tipo de vegetação pode ocorrer mais de 60 dias seco por ano (Veloso et al. 1991). A floresta estacional semidecidual é de acordo com Veloso et al. (1991), um tipo de vegetação é constituído por fanerófitos com gemas foliares protegidas da seca por escamas (catáfilos), ou pêlos, possuindo folhas adultas esclerofilas ou membranáceas deciduais. Este tipo de vegetação está associado a um clima de duas estações, uma seca e uma chuvosa (Veloso et al. 1991; Brasil 1983). Esta dupla fase climática estacional leva a uma estacionalidade foliar das árvores dominantes, que demonstram uma adaptação à deficiência hídrica. De acordo com Brasil (1983), no caso da floresta estacional semidecidual, a porcentagem de árvores caducifólias no conjunto florestal deve situar-se em torno de 20% na época desfavorável. Este tipo de formação florestal ocorre apenas em parte do Município de Coruripe. 12 2.5. Unidades de conservação na área de distribuição do Mutum-de-alagoas A área de distribuição do Mutum-de-alagoas apresenta duas reservas ecológicas estaduais, cinco RPPNs e três APAs. Esta última é a mais em representada do ponto de vista de área ocupada. Veja os quadros abaixo. Nome da UC Reserva Ecológica de Manguezais do Roteiro Tipo Reserva Ecológica – Estadual Município Barra de São Miguel e Roteiro Área (ha) 742 Órgão gestor Relevância na região Relevância na geração de renda para comunidades locais Principais problemas e conflitos IMA Corresponde a uma das mais expressivas áreas de manguezais do Estado. Esta Reserva Ecológica propicia o desenvolvimento local da pesca artesanal para atividades produtivas. Pesca indisciplinada, sem correta orientação. Nome da UC Reserva Ecológica de Saco da Pedra Tipo Reserva Ecológica – Estadual Município Marechal Deodoro Área (ha) 5 Órgão gestor Relevância na região IMA Corresponde a uma área de sensível fragilidade ambiental, sujeita as modificações condicionadas pela dinâmica do complexo estuarino-lagunar e à influência marinha. Informação não disponível. Relevância na geração de renda para comunidades locais Principais problemas e conflitos Devido a sua beleza cênica, sofre grande pressão do fluxo turístico. Nome da UC Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Lula Lobo I Tipo RPPN – Particular Município Coruripe Área (ha) 68,6 Órgão gestor Relevância na região S / A Usina Coruripe Açúcar e Álcool. A RPPN Fazenda Lula Lobo I é integrante do Sítio do PauBrasil, um posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Esta RPPN pode ser visitada como forma de Educação Ambiental, com visitas programadas, o que pode gerar renda para a comunidade local (guia de campo, comércio ambulante) Relevância na geração de renda para comunidades locais 13 Nome da UC Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Francisco Pereira Tipo RPPN – Particular Município Coruripe Área (ha) 290 Órgão gestor Relevância na região S / A Usina Coruripe Açúcar e Álcool. A RPPN Fazenda Francisco Pereira é integrante do Sítio do Pau-Brasil, um posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Esta RPPN pode ser visitada como forma de Educação Ambiental, com visitas programadas, o que pode gerar renda para a comunidade local (guia de campo, comércio ambulante, vigilante, etc). Relevância na geração de renda para comunidades locais Nome da UC Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Rosa do Sol Tipo RPPN – Particular Município Barra de São Miguel Área (ha) 15,50 Órgão gestor Relevância na região Alfredo Durval Vilela Cortez. Proteção de amostras de floresta Atlântica e manguezais. Nome da UC Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda São Pedro Tipo RPPN – Particular Município Pilar Área (ha) 50 Órgão gestor Relevância na região Francisco José Quintella Cavalcante. Área mantenedora de nascentes. Nome da UC Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Santa Tereza Tipo RPPN – Particular Município Atalaia Área (ha) 100 Órgão gestor Relevância na região João José Pereira Lyra (Presidente do Grupo JL). A RPPN Fazenda Santa Tereza é integrante do Sítio do PauBrasil, um posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Esta RPPN pode ser visitada como forma de Educação Ambiental, com visitas programadas, o que pode gerar renda para a comunidade local (guia de campo, comércio ambulante, vigilante, etc.). Relevância na geração de renda para comunidades locais 14 Nome da UC Área de Proteção Ambiental de Santa Rita Tipo APA – Estadual Município Maceió, Marechal Deodoro e Coqueiro Seco. Área (ha) 10.230 Órgão gestor Relevância na região IMA Abrange a Reserva Ecológica de Saco da Pedra. Constitui um ecossistema onde se processa o escoamento das bacias dos rios Paraíba do meio, Mundaú e Sumaúma. A Área de Proteção Ambiental de Santa Rita possui muitas zonas de interesse ecológico e turístico como a lagoa Manguaba e seus canais interlacunares que a interligam com a lagoa Mundaú, além dos remanescentes de Mata Atlântica, de matas de restinga e de manguezais. A meliponicultura é bem desenvolvida na Área. Localizada próxima a capital. Sofre com a poluição por efluentes industriais, agrotóxicos, lixos, resíduos urbanos, esgotos domésticos, corte a aterro dos manguezais, pesca predatória e expansão imobiliária desordenada. Relevância na geração de renda para comunidades locais Principais problemas e conflitos Nome da UC Área de Proteção Ambiental do Catolé e Fernão Velho Tipo APA – Estadual Município Maceió e Satuba Área (ha) 5.415 Órgão gestor Relevância na região Principais recursos Estratégias de minimização de problemas e conflitos IMA Apresenta considerável importância devido a sua função mantenedora de um rico manancial que abastece 30% da cidade de Maceió, Vila ABC e Fernão Velho. Informação não disponível. No interior da APA está inserida a sede do Batalhão de Polícia Ambiental. Nome da UC Área de Proteção Ambiental do Pratagy Tipo APA – Estadual Município Maceió, Messias e Rio Largo. Área (ha) 13.369,50 Órgão gestor Relevância na região IMA Em sua abrangência está inclusa a bacia do Pratagy, manancial hídrico que abastece a cidade de Maceió. Na APA do Pratagy ocorrem muitas espécies de aves endêmicas e ameaçadas de extinção. Sofre intenso processo de degradação devido a proximidade de aglomerado de favelas. Contaminação por agrotóxicos decorrentes do cultivo de cana-de-açúcar e presença de lixões e aterros sanitários. Monitoramento do rio através do Instituto do Meio Ambiente (IMA), a fim de minimizar a degradação ambiental; implantação de estação coletora e de tratamento d’água de onde saem as adutoras para o abastecimento da Capital. Principais problemas e conflitos Estratégias de minimização de problemas e conflitos 15 2.6 Uso dos recursos naturais Segundo informações do IBGE (2000), o Município de Boca da Mata é o principal produtor de carvão vegetal entre os municípios da área de distribuição do Mutum-dealagoas, com cerca de 6 toneladas/ano, seguida de Coruripe com 5 tonelada/ano e Pilar com 4 toneladas/ano (Figura 4). Os municípios de Boca da Mata, São Miguel dos campos e Coruripe são os principais produtores de lenha, com 10.350, 5.920 e 5.130 m3/ano, respectivamente (Figura 5) (IBGE 2000). As madeiras mais utilizadas para diversos usos são: Byrsonima sericea (murici) - lenha e fornecimento de energia doméstica; Bowdichia virgilioides (sucupira) – lenha, fornecimento de energia doméstica, construções de cercas, manutenção das casas, pequenas pontes, etc.; e, Eschweilera ovata (imbiriba) - construção de cercas, manutenção das casas, pequenas pontes, etc. Os recursos hídricos também são utilizados para diferentes fins, como: Irrigação, geração de energia, pesca lavagem de roupas, animais, automóveis, caminhões e tratores, e também para lazer (banhos de cachoeira, rio, mar e mangue). A má utilização dos recursos hídricos pode causar vários impactos, tais como: envenenamento das águas das regiões por insumos químicos (pesticidas e adubos), represamento e conseqüente interrupção de fluxos biológicos, eutrofização e liberação de resíduos automotivos, etc. 2.7 Indicadores de degradação ambiental A incidência de incêndios tem ocorrido com bastante freqüência em vários municípios da área de distribuição do Mutum-de-alagoas. Geralmente são decorrentes da colheita de cana-de-açúcar, ocupações de terras, renovação de pastos, acidentais e intencionais. Os municípios mais afetados, de acordo com o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) (http://www.cptec.inpe.br/) entre os anos de 2000 – 2005 são: Coruripe (553 ocorrências), São Miguel dos Campos (217), Jequiá da Praia (159), Atalaia (156), Rio Largo (118), Marechal Deodoro (117), Pilar (91), e Maceió (72). 16 7 6 Toneladas/ano 5 4 3 2 1 0 Boca da Mata Coruripe Pilar São Miguel dos Campos Roteiro Municípios Figura 4 – Produção anual de carvão vegetal nos municípios da distribuição do Mutumde-alagoas. Fonte: IBGE 2000. 12000 10000 Metros cúbicos 8000 6000 4000 2000 0 Boca da Mata São Miguel dos Campos Coruripe Roteiro Pilar Municípios Figura 5 – Produção anual de lenha nos municípios da distribuição do Mutum-dealagoas. Fonte: IBGE 2000. 17 3. CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL DOS FRAGMENTOS PARA A UMA POSSÍVEL REINTRODUÇÃO DO MUTUM-DE-ALAGOAS. Foram visitadas nove usinas da região que potencialmente podem abrigar em seus fragmentos, populações do Mutum-de-alagoas, são elas: Cachoeira, Caeté, Coruripe, Porto Rico, Serra Grande, Sinimbu, Sumaúma, Triunfo, Utinga Leão (Figura 6). Um total de 19 fragmentos foi investigado. A Usina Serra Grande situa-se fora da distribuição recente do Mutum-de-alagoas, no entanto o Comitê, na sua primeira reunião em 2003, achou necessária a sua inclusão devido a apresentar um dos mais representativos e bem conservados fragmentos florestais (Engenho Coimbra) em área de usina. Os registros históricos englobam quatro (atuais) municípios dos Tabuleiros Costeiros do Estado de Alagoas: Barra de São Miguel, Jequiá da Praia e São Miguel dos Campos (Figura 7A). As áreas inventariadas reúnem dez municípios: Barra de Santo Antônio, Campo Alegre, Coruripe, Ibateguara, Jequiá da Praia, Maceió, Marechal Deodoro, Pilar, Rio Largo e São Miguel dos Campos (Figura 7B). Elaborou-se um protocolo para a aquisição das informações a ser aplicado em cada fragmento. Portanto, foram obtidas informações preliminares sobre: caracterização da estrutura da vegetação; disponibilidade de abrigos e sítios reprodutivos para o Mutum-dealagoas; forma e tamanho do fragmento; presença de predadores potenciais; presença de outros Cracídeos; segurança das áreas; pressão antrópica; aspectos hídricos; conectividade potencial entre os fragmentos; impactos ambientais decorrentes da agricultura; infra-estrutura, acesso e trilhas; ocorrência de caça e retirada de madeira. Para padronizar a caracterização da vegetação seguiram-se alguns itens da resolução do CONAMA n° 28 de 07 de dezembro de 1994 relativas à classificação dos estágios de sucessão da Floresta Atlântica como: fisionomia, estratificação, altura média da vegetação, existência, diversidade e quantidade de epífitas, existência, diversidade e quantidade de trepadeiras, ausência ou presença e quantidade de serapilheira, subosque, diversidade biológica e dominância de espécies. A presença de algumas espécies arbóreas e de predadores potenciais do Mutum-dealagoas foi apontada através de entrevista aos mateiros que acompanhavam a equipe nos diferentes fragmentos. Em alguns casos foi possível a detecção visual de alguns predadores. 18 Figura 6 – Localização das áreas inventariadas no Estado de Alagoas (Usina Cachoeira 1, Mata da Sela; 2, Mata do Raboio; 3, Barragem das Prensas; 4, Grota da Cachoeira; 5, Mata do Bamburral; Usina Caeté – 6, Fazendas Reunidas; 7, Mata das Carobas; 8, Fazenda Varrela; Usina Coruripe – 9, Mata de Riachão; 10, Mata de Capiatã; Usina Porto Rico – 11, Mata do Matão; Usina Serra Grande – 12, Mata de Coimbra; Usina Sinimbu – 13, Fazenda do Prata; 14, Fazenda Riachão; Usina Sumaúma – 15, Fazenda Charles; 15, Fazenda Carobas; Usina Triunfo – 17, Mata do Quebra Carro; Usina Utinga Leão – 18, Mata da Sálvia; 19, Mata do Cedro) e as localidades de registro histórico (A, Barra de São Miguel; B, Roteiro; C, São Miguel dos Campos; D, Usina Sinimbu). 19 A B Figura 7 – Municípios abrangidos pela distribuição do Mutum-de-alagoas. A, Distribuição histórica; B, Áreas inventariadas. 20 3.1 Usina Cachoeira (Anexos 1A e 2A) Os fragmentos visitados na Usina Cachoeira localizam-se em áreas não próximas de povoados e vilas (c. 15 km de Maceió), com exceção da Grota da Cachoeira e Bamburral, situadas próximas à usina. As coordenadas de referência são: Barragem das Prensas (9°26’09.3”S / 35°40’43.5”W), Grota de Cachoeira (9°25’51.1”S / 35°43’36.1”W), Mata do Bamburral (9°26’09.45”S / 35°43’23,5”W), Mata da Sela (9°22’S / 35°43’W) e Mata do Raboio (9°22’53.1”S / 35°40’05.4”W). Todos estes fragmentos localizam-se no Município de Maceió. De uma maneira geral os fragmentos estão associados a encostas íngremes (Grota da Cachoeira, Bamburral e parte dos fragmentos de Raboio) ou em área de proteção de mananciais (Barragem das Prensas). A Mata do Raboio é um complexo de pequenos fragmentos de formatos bastante irregulares e de diferentes tamanhos, geralmente menores que 10 ha. Visualmente é possível perceber o corte de madeira, retirada de lenha e arrastos de caçadores por toda a área. A Barragem das Prensas apresenta fragmentos isolados e de diferentes tamanhos, no entanto a maioria encontra-se em estágio inicial de recuperação florestal. Uma pequena porção de mata mais preservada próximo à barragem é cortada por um riacho que se encontra parcialmente assoreado por entulho das obras da construção da barragem. Parte da área que margeia a barragem foi reflorestada e a vegetação encontra-se naturalmente em início de regeneração. A Grota da Cachoeira e Bamburral apresentam árvores altas e de uma forma geral, a vegetação apresenta uma estrutura mais madura. Foi possível observar árvores emergentes e algumas com troncos bastantes desenvolvidos. 3.2 Usina Caeté (Anexos 1B e 2B) Os fragmentos visitados na Usina Caeté foram: Fazenda Varrela (9°42’04.5”S / 36°00’54.4”W), Mata das Carobas I (9°42’35.8”S / 36°00’09.9”W) e Fazendas Reunidas (9°42’ 2.1”S / 36°02’15.4”W). As Fazendas Reunidas não pertence à Usina Caeté, no entanto faz divisa com parte da mata pertencente à Fazenda Carobas e Usina Roçadinho. A Fazenda Varrela localiza-se no Município de Pilar, a Fazenda Carobas e Reunidas localizam-se no Município de São Miguel dos Campos. 21 O fragmento da Fazenda Varrela é parcialmente protegido, o acesso é restrito à executiva da Usina Caeté, pois existe ali um clube de campo. Existem portões com cadeados em um dos acessos. A mata apresenta uma boa estrutura, com árvores emergentes e algumas com troncos bastantes desenvolvidos, e de maneira geral a vegetação apresenta uma estrutura mais madura. Parte desta mata é uma grota íngreme e no fundo do vale existe um açude abastecido pelas nascentes da mata. Este açude é, também, utilizado para abastecer recipientes para aplicação de agrotóxicos. Foram observados vários tambores vazios ao lado do açude. Esta mata é separada da Mata de Carobas por uma grande área de pasto. A Mata de Carobas é um fragmento alongado e estreito. Nesta área foram observados uma grande quantidade de lenha cortada e vestígios de retirada de madeira. Também é bastante freqüentada por caçadores. Existe uma grande tubulação para captação de água para irrigação que corta transversalmente parte da mata. Tanto a Varrela quanto a Carobas margeiam a BR 101, em um trecho de trânsito bastante movimentado. A mata das Fazendas Reunidas é totalmente cercada e existe vigilância permanente. Segundo o proprietário, é para assegurar que não retirem madeira, pois este fragmento fica próximo da vila de moradores da Fazenda Carobas. Situa-se a c. 1 km da BR 101. A mata já foi parcialmente cortada, mas encontra-se em estágio avançado de regeneração. Apenas a área da “Grota do Niquim” apresenta árvores com fisionomia de mata tardia. Nesta grota existem bombas de captação de água que funcionam praticamente o dia todo. Um tubo de gasoduto da Petrobrás corta a mata em toda a sua extensão. 3.3 Usina Coruripe (Anexos 1C e 2C) Foram visitados dois fragmentos da Usina Coruripe, a Mata do Riachão (10º00'04''S / 36º17'18''W) e a Mata de Capiatã (10º03'32.3''S / 36º16'42.8''W), a primeira está localizada entre os municípios de Coruripe e Teotônio Vilela, a segunda no Município de Coruripe. Nestas matas já houve queimadas e corte seletivo de madeiras. Em muitas áreas no interior dos fragmentos é comum encontrar clareiras dominadas por gramíneas. As matas da Usina Coruripe apresentam uma fisionomia de matas secas devido ao tipo de floresta, a Estacional Semidecidual, aliada ao estágio de sucessão que se encontram. Grande parte da área visitada está em estágio médio-avançado de regeneração. Não se observou área de desenvolvimento mais tardio, no entanto existem muitas árvores emergentes que chegam a mais de 25m. 22 A Usina Coruripe desenvolve um programa de reflorestamento que está viabilizando a conexão entre muitos fragmentos. Entre estes está a conexão de dois grandes fragmentos da Fazenda Capiatã. Em nenhum dos fragmentos visitados se observou indícios de corte ou retirada de lenha, no entanto a gerência da usina é consciente da intrusão de caçadores nos seus fragmentos florestais. Na Mata do Capiatã, no Sítio Pau-brasil existe uma base avançada da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Neste local são oferecidos cursos de capacitação para professores e aulas de educação ambiental para crianças da região. Além disso, é sede de uma sementeira de mudas nativas para o programa de reflorestamento. 3.4 Usina Porto Rico (Anexos 1D e 2D) Na Usina Porto Rico foi visitada apenas a Mata do Matão (9º46'12''S / 36º14'23''W), localizada no Município de Campo Alegre. Este fragmento parece ser um dos mais representativos da região, com c. 1.000 ha de matas em diferente estágio de regeneração. Há muito tempo, parte deste fragmento sofreu um severo corte seletivo para gerar energia para a usina e outros fins. Felizmente parte dela foi preservada e grande parte apresenta uma fisionomia típica de mata primária, com árvores que ultrapassam 30m de altura e com troncos muito grossos. Toda a extensão da mata está situada sobre um relevo plano. Não existem grotas com declividade acentuada como nas outras usinas investigadas. Este fragmento apresenta mamíferos dispersores de grande porte como Guariba (Allouata belzebu) e Macaco-prego (Cebus sp.). Está localizado próximo à Usina Sinimbu, local onde já foi registrado o Mutum-de-alagoas. Não existem nascentes de água neste fragmento, no entanto, ao lado de uma das bordas existe um pequeno riacho e um grande açude que é margeado por uma vegetação exuberante. O riacho capta água para irrigação do canavial e também abastece o açude. Entre a mata e a outra margem onde está o açude existe um canal de passagem de vinhoto utilizado na fertirrigaçao do canavial. A usina instalou algumas “pontes de passagem” sob este canal para os animais conseguirem chegar até o açude. A Mata do Matão é rodeada por estradas, uma delas bastante utilizada para o acesso a municípios vizinhos, com trânsito constante de caminhões e ônibus, não apenas na época de safra. 23 Em parte da mata é possível observar muitas clareiras e uma grande quantidade de árvores podres. Não foi encontrado vestígio de retirada de madeira nem de lenha, no entanto há muitos arrastos de caçadores por toda a mata, apesar desta ser vigiada constantemente e existirem placas de alerta e proibição de entrada. 3.5 Usina Serra Grande (Anexos 1E e 2E) A Mata de Coimbra é o maior fragmento de mata situado em propriedade de usina na região, possui cerca de 3.500 ha. As coordenadas de referência são: 9º00'02.21''S / 35º51'12.51''W, e está localizada no Município de Ibateguara. Vários estudos já estão sendo desenvolvidos em Coimbra como subsídio para desenvolver protocolos para a restauração da Floresta Atlântica do Nordeste. Estudos de identificação de árvores, aves, mamíferos, abelhas e formigas que fazem parte da dispersão e predação de sementes, polinização das plantas, herbivoria, produção de frutos e sementes e regeneração da floresta já estão sendo desenvolvidos desde o ano 2000 por uma equipe de pesquisadores da UFPE e do CEPAN. Na Mata de Coimbra há uma dominância de espécies produtoras de frutos como Sapotaceae, Annonaceae, Mimosaceae, Melastomataceae, etc. No entanto é observado que estes frutos são pouco consumidos. Fisionomicamente e floristicamente, a Mata de Coimbra apresenta uma vegetação exuberante, no entanto existem áreas na mata (antigos sítios de moradores) que se encontram bastante alterados fisionomicamente e em estágios de conservação e regeneração diferenciados. Existem locais com fisionomia de floresta primitiva, principalmente nos fundos de vale. Grande parte da mata já foi cortada há cerca de 50 anos, mas já se encontram em estágio avançado de regeneração. Ainda existe corte seletivo, mas não de árvores adultas. Estas áreas onde há corte seletivo (principalmente perto das vilas de moradores) estão sendo monitoradas e um projeto de recuperação florestal vai ser implementado. São inúmeras as nascentes e riachos no interior da mata, muitas delas são perenes. 3.6 Usina Sinimbu (Anexos 1F e 2F) Foram visitadas as matas das fazendas do Prata (9º54'08.7''S / 36º08'04.9''W) e Riachão (9º56'26.5''S / 36º09'00.7''W). Ambas localizadas no Município de Jequiá da Praia. 24 Ambas as áreas encontram-se em estado de degradação completo. As grotas antes florestadas encontram-se parcialmente descobertas, expondo o solo a ações de intempéries. Foram observados vários arrastos de caçadores no interior das matas, além disso, deparamos várias árvores cortadas, caçadores e pessoas apreendendo aves durante a nossa visita. Não observamos vigilância ou placas de sinalização em nenhum dos fragmentos visitados. Na Fazenda do Prata, praticamente toda a área florestada foi cortada e posteriormente queimada. Os fragmentos se encontram em estágio inicial de regeneração. O mesmo se encontra a Fazenda Riachão e outras áreas ligeiramente visitadas (Fazendas Taquari, Cacimbão, Pau Amarelo, Mangabeira e Luziápolis). A Fazenda Mangabeiras foi no passado, área de registro do Mutum-de-alagoas (Pinto 1952). 3.7 Usina Sumaúma (Anexos 1G e 2G) Duas matas foram visitadas na Usina Sumaúma, a Mata das Carobas (9º47'07.9''S / 35º58'49.0''W), e a Mata da Fazenda Charles (9º44'24.7''S / 35º57'00.6''W), ambas localizadas no Município de Marechal Deodoro. Cerca de 90 ha da Fazenda Charles foi transformado em RPPN como forma de preservar a mata nativa e as dezenas de nascentes da área. A mata encontra-se bastante preservada principalmente na área de recreação restrita à executiva da usina. A área apresenta um dossel relativamente fechado e uniforme com árvores emergentes que ultrapassam 20m. O acesso à área é restrito e existe portão com cadeado na entrada de acesso. Localiza-se ao lado da usina, próximo à vila de moradores da usina. Aparentemente não há caça ou retirada de madeira. Existe uma vila nas imediações. A Mata das Carobas dista aproximadamente 20 km da usina. A mata possui cerca de 800 ha e faz divisa com matas de outras propriedades (e.g.,, Usina Roçadinho). Existem várias estradas nas proximidades utilizadas principalmente no período de safra, algumas estradas margeiam o fragmento. Foram observadas duas estradas de acesso à mata e apenas uma delas apresentava portão. A área é parcialmente vigiada, mas não impede que caçadores construam acampamentos no interior da mata. A Mata das Carobas é, esporadicamente, alvo de incêndios causados por estes caçadores. Além disso, muita madeira é retirada das encostas próximo à estrada. 25 Apesar disto, a mata, principalmente no fundo da grota, apresenta uma fisionomia de mata tardia, com muitas árvores emergentes e uma grande quantidade de epífitas, principalmente bromélias. Segundo informações locais, a Mata das Carobas pertenceu a uma família, da cidade de Marechal Deodoro, que fabricavam móveis. Pode-se esperar então, que toda madeira nobre já foi cortada desta mata. A usina assumiu a área em 1975, quando ainda existiam Mutum-de-alagoas nesta localidade (informações de mateiros locais). 3.7 Usina Triunfo (Anexos 1H e 2H) A Mata do Quebra Carro está localizada no Município de Boca da Mata, e as coordenadas de referência são: 9º37'58.5''S / 36º06'44.8''W. A mata apresenta uma área de extraordinária beleza cênica. No interior da grota há um riacho que passa por várias quedas d água até desembocar no outro lado da mata. Toda a da mata está situada no interior de uma grota, e possui c. 400 ha em estágio médio de regeneração, apresentando também, em muitos pontos, áreas em regeneração inicial. A mata ocupa o fundo do vale e as encostas são bastante íngremes na maior parte da sua extensão, no entanto é estreita e várias trilhas cortam transversalmente a mata que é utilizada como caminho de trabalhadores durante o período de safra. Segundo informações obtidas na área, o riacho que corta a mata vem de nascentes do “tabuleiro” situadas na porção mais superior. Eventualmente esta água pode estar contaminada por resíduos de agrotóxicos e outros insumos utilizados na cultura da canade-açúcar. Nesta área deverá ser construído o Centro de Visitação do Mutum-de-alagoas. 3.8 Usina Utinga Leão (Anexos 1I e 2I) Foram visitados dois grandes fragmentos na Usina Utinga Leão: a Mata da Sálvia (9º31'29.57''S / 35º49'32.3''W) e a Mata do Cedro (9º31'56.3''S / 35º54'51.5''W). Ambas as matas localizam-se no Município de Rio Largo. A Mata da Sálvia situa-se ao lado da estrada de acesso à usina. É uma estrada com trânsito constante de carros, ônibus e caminhões. Esta estrada divide a mata em duas porções. A parte de mata que fica mais próxima à usina tem várias trilhas, facilitando o trânsito de pessoas, que as utilizam para cortar caminho até o asfalto. Esta mata ainda 26 apresenta uma linha de transmissão de energia que corta a mata no sentido transversal. As grotas são bastante íngremes e muitas delas de difícil acesso. Foi possível observar no interior da mata, muita madeira cortada e lenha retirada, além disso, tiros foram ouvidos em duas ocasiões. Na borda observou-se muito lixo e não pareciam ser doméstico. Chamou-nos a atenção, um carro depenado que foi arremessado grota abaixo. Apesar disto, a mata apresenta uma fisionomia de mata madura, com árvores que chegam a c. 40m no fundo de algumas grotas, entre elas destaca-se a Terminalia brasiliensis (mirindiba), bastante rara na região. A Mata do Cedro e outros fragmentos muito próximos apresentam cerca de 1.000 ha. Parte desta mata já sofreu corte seletivo e está em plena recuperação. No entanto há grotas com árvores emergentes que chamam a atenção. Este conjunto de fragmentos e a Mata do Cedro são cortados pelo Rio da Conceição, que também passa ao lado da usina, no interior das matas há várias nascentes que desembocam neste rio e também no açude. Uma tubulação de gasoduto da Petrobrás corta parte da mata. A Mata do Cedro chama a atenção de caçadores pela grande quantidade de caça, as cotias (Dasyprocta aguti) são abundantes nas estradas e trilhas dentro da mata. Existe uma estrada que atravessa a Mata do Cedro, mas o acesso é restrito, existem correntes e cadeados. Várias outras estradas de acesso às matas das proximidades também oferecem esta resistência, que é uma forma encontrada pela usina de impedir que pessoas, principalmente caçadores, entrem motorizadas na propriedade. Fomos alertados pela Usina em ter bastante cuidado pelas trilhas devido a armadilhas com canos. Vários tiros foram ouvidos durante a visita. Há uma grande área aberta entre a Mata do Cedro e os outros fragmentos, os canaviais estão sendo abandonados para dar lugar a pastos. Esta área é toda cercada e existem várias áreas encharcadas (paludosas). Para a pequena Mata do Humaitá (não visitada) já houve registro do Mutum-de-alagoas. Hoje esta mata é um pequeno fragmento. 27 4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANA (Agência Nacional de Águas). Plano Nacional de Recursos Hídricos – Documento Base de Referência. 2003. [Disponível em] <http://www.ana.gov.br/pnrh/index.htm>. ANDRADE, M. C. 1998. Área do Sistema Canavieiro. Série Estudos Regionais nº 18. Sudene. Recife. ANNEL (Agencia Nacional de Energia Elétrica). Atlas Hidrológico do Brasil, Versão 1.0. Brasília, SRH/IBAMA/MMA, 1998. [Disponível em] <http://www.ana.gov.br/Bacias/NorteNordeste/BacAtlatrechosNorteNordeste.htm>. BRASIL. 1983. Secretaria-geral. Projeto RADAMBRASIL, Folhas SC. 24/25 - AracajuRecife; geologia, pedologia, vegetação e uso potencial da terra. vol. 30. 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AGRADECIMENTOS Ao IPMA (Instituto para Preservação da Mata Atlântica) e ao Fernando Pinto pelo apoio e contato com as usinas visitadas. Às usinas pelo apoio logístico e informações: Cachoeira, Caetés, Coruripe, Porto Rico, Serra Grande, Sinimbu, Sumaúma, Triunfo e Utinga Leão. A Antônio Venceslau Neto, Etelminio Bastos Neto (Triunfo), Ivo Pepe (Sumaúma), Ricardo Figueira (Utinga leão), pela gentileza em ceder algumas das fotos apresentadas. A Marcondes Oliveira por informações sobre a flora da região. Ao Sr. Francisco Jatobá (Fazendas Reunidas) pela atenção e permissão em conhecer a sua propriedade. A Fábio Olmos e Luís Fábio Silveira pelas informações sobre o Mutum-de-alagoas. Ao Apoio do IBAMA (Coordenação Geral de Fauna) e dos membros do “Comitê para Recuperação e Manejo do Mutum-de-alagoas Mitu mitu” pelas valiosas sugestões a este trabalho. Ao Glauco Pereira e ao Marcio Rufino pela companhia em algumas das viagem a campo. Ao FNMA (Fundo Nacional do Meio Ambiente) e Programa Espécies Ameaçadas (Biodiversitas/ CEPAN) por financiar nossos projetos de conservação das espécies de aves endêmicas e ameaçadas no Centro Pernambuco. Ao CEPAN, Conservação Internacional, UFPE (Depto. Botânica, Laboratório de Ecologia Vegetal), BirdLife International – Programa do Brasil e Sociedade Nordestina de Ecologia pelo apoio institucional na execução destes projetos.