REFLEXÕES ÉTICAS SOBRE A FIDELIDADE EM CZECHOWSKYParte 1
ETHICAL REFLECTIONS ON THE FIDELITY IN CZECHOWSKY - Part 1
Shênia Soraya Soares Louzada 1
Heloisa Moulin de Alencar
2
Shênia Soraya Soares Louzada - Especialista em Psicopedagogia. Doutoranda do
Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP) da Universidade Federal do
Espírito Santo (UFES).
Heloisa Moulin de Alencar - Doutora em Psicologia.Docente da UFES.Coordenadora do
PPGP.
Resumo:
Em sua obra “Fidelidade: um horizonte, uma troca, uma memória“ (1992) Nicole
Czechowsky apresenta dezesseis textos escritos por diversos autores, que tratam do
tema da fidelidade. Selecionamos para este artigo alguns daqueles que tratam da
fidelidade no relacionamento amoroso. Já no prefácio, Cécile Wajsbrot menciona a
espera de Penélope por Ulisses e o abandono de Ariadne por Teseu sendo consolada
por Dionísio no meio dos deuses no Olimpo. A autora questiona se a fidelidade de
Penélope não a teria feito perder o sentido da vida e se Ariadne não teria preferido ficar
com Teseu mesmo sem a fidelidade deste. Em o “Divisor de águas”, Daniel Sibony
enfoca a fidelidade como relação de troca na qual sedução e traição são seus opostos.
“Para o que der e vier” é um texto, escrito por Ruth Stegassy, que apresenta
1
Especialista em Psicopedagogia.Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP) da
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
2
Doutora em Psicologia.Docente da UFES.Coordenadora do PPGP.
depoimentos de pessoas sobre a (in) fidelidade na vida a dois. Thérèse Moureau
escreveu “A megera domada” que trata da educação da mulher para a fidelidade no
século XIX e de como ela era vista por escritores, pela igreja, por educadores, pela
medicina, pela sociedade e pelos artistas. Andras Zempleni em “A amiga e o
estrangeiro” conta uma viagem à Costa – do - Marfim, em uma sociedade matrilinear
onde homens e mulheres só se encontram à noite. Nesse contexto, o homem
(estrangeiro) passa o dia em casa de sua mãe e à noite vai à casa de suas mulheres
(amigas).
Palavras-chave: fidelidade, relacionamento amoroso, masculinidade, feminilidade.
Abstract:
In its workmanship “Fidelity: a horizon, one change, a memory“(1992) Nicole
Czechowsky present sixteen texts written for diverse authors, who deal with the subject
of the fidelity. We select for this article some to that they deal with the fidelity in the
loving relationship. No longer has preface, Cécile Wajsbrot mentioned the wait of
Penelope for Ulysses and the abandonment of Ariadne for Teseu being consoled by
Dionysius in the way them gods in the Olympus. The author questions if the fidelity of
Penelope would not have made it to lose the direction of the life and if Ariadne would not
have preferred to be with same Teseu without the fidelity of this. In the “Watershed”,
Daniel Sibony focuses the fidelity as exchange relation in which seduction and treason
are its opposites. “For what to give and to come” is a text, written for Ruth Stegassy,
who presents depositions of people on the (in)fidelity in the life the two. Thérèse
Moureau wrote "Domesticate Shrew" that it deals with the education of the woman for
the fidelity in century XIX and to as it was seen for writers, the church, educators, the
medicine, the society and the artists. Andras Zempleni in his paper “The friend and the
foreigner” counts a trip to the Coast-of-Ivory, in a related to the female line in succession
society where men and women alone if find at night. In this context, the man (foreign)
passes the day in house of his mother and at night he goes to the house of his wives
(friends).
Key words: fidelity, loving relationship, masculinity, femininity.
Nicole Czechowsky organizou uma obra que decidiu chamar de Fidelidade: um
horizonte, uma troca, uma memória. Dos dezesseis textos que compõem o livro,
selecionamos apenas os que tratam da fidelidade e/ou suas implicações no
relacionamento amoroso.
Já no prefácio, Cécile Wajsbrot menciona a espera de Penélope por Ulisses e o
abandono de Ariadne por Teseu sendo consolada por Dionísio no meio dos deuses no
Olimpo. A autora questiona se a fidelidade de Penélope não a teria feito perder o
sentido da vida e se Ariadne não teria preferido ficar com Teseu mesmo sem a
fidelidade deste.
Em o “Divisor de águas”, Daniel Sibony enfoca a fidelidade como relação de troca na
qual sedução e traição são seus opostos. É uma relação paradoxal onde aquele que é
seduzido por alguém ou alguma força acaba sendo infiel à sua origem pela fidelidade
ao seu sedutor.
Fidelidade pressupõe confiabilidade mútua, sendo que a confiabilidade é um terceiro
elemento da relação. Fidelidade é um valor quando dividido, quando não exclui o outro,
quando é um acesso ao outro e não um valor em si ou uma manobra. A fidelidade é a
manutenção de um vínculo, é o amor à aliança e também transmite esse vínculo. Tal
vínculo tem um correspondente na Bíblia: a fidelidade ao divino, apesar dos paradoxos
revela uma aliança sempre aberta ao recomeço que admite a hipótese tanto da
infidelidade como da fidelidade.
A fidelidade não impede que haja lembranças, o que traz em si a infidelidade de
lembrar. Nem sempre o que se chama fidelidade o é, pois pode ser uma fixação
produzida por impulsos e desejos. Mas a fidelidade é também “uma produção de
pensamento, de desejo, feita para atravessar a morte; não a morte real, mas as feridas
do tempo que se evadem: como atravessar os instantes em que o ser amado está
perdido, mesmo por um tempo? Trata-se de reencontrá-lo, de atravessar esta linha de
perda-sendo a linha de perda máxima a morte” ( SIBONY,D.,1992,p. 20). A fidelidade
só é fidelidade quando conhece a prova da falta.
Quanto à fidelidade a si, ela não é um algoz que força a pessoa a se explicar com o seu
passado por ter mudado de idéia. O fato de mudar de idéia é uma fidelidade a si não às
idéias que porventura se defendia. Ela implica em agir de acordo com o que se acredita
naquele momento.
Traição é uma forma de fidelidade em relação às origens. Quando traímos nossas
origens somo-lhes fiéis porque voltamos a ela, confirmamos que ela existiu. Fidelidade
e traição se misturam. Se alguém decide não crer mais em Deus o está traindo e, ao
mesmo tempo, demonstrando que ele existe. Ninguém rejeita algo que não existe. Este
tipo de fidelidade não é voluntário, mas demonstra que uma certa fidelidade faz parte
do nosso ser. Quando alguém trai está sendo fiel àquilo que crê, ao seu pensamento,
ao inconsciente. A fidelidade é o divisor de águas seja na relação com o outro, com a
história ou com o divino.
Para o que der e vier é um texto, escrito por Ruth Stegassy, que apresenta
depoimentos de pessoas sobre a (in) fidelidade na vida a dois. Nestes depoimentos, a
relação com o outro é tratada de maneira diferente: o sujeito trata de fidelidade a partir
de si e do seu compromisso enquanto o outro aparece no discurso de infidelidade. A
fidelidade é um sintoma do amor, subordinada a ele sem ser uma condição para sua
existência. Ela serve para indicar como anda o amor e o casal. Para os sujeitos
apresentados por Stegassy, fidelidade aparece ligada ao compromisso amoroso, à
segurança do casal, à cobrança social. Entretanto, sobre a infidelidade, os sujeitos têm
dúvidas se ela se dá em relação ao compromisso ou à pessoa. A concepção de
fidelidade mudou com a concepção de casal e do acordo que ele tem. Os deslizes
passaram a ser sintomas de que o casal não vai bem e a infidelidade ruim somente
quando é traição.
Nestes assuntos se misturam ideologias: fidelidade é confiança e a infidelidade,
perniciosa para o casal e até para a sociedade; infidelidade acidental não é destruidora
se há amor; fidelidade não vem do amor, mas de outros valores da idade média e o que
deve ser combatido é o ciúme; é necessário ser fiel mesmo quando não se sabe o por
quê; a fidelidade não é “garantia de duração para o casal” (p. 35); a base para o casal é
o desejo e não a fidelidade; o amor não pode trazer sofrimento e nem ser uma
obrigação; a fidelidade que vale é a fidelidade ao amor e assim a infidelidade é
inaceitável; o amor exige exclusividade; a fidelidade é um valor que serve para separar
o casal do restante da sociedade; fidelidade não é um valor, mas a transparência traz
conforto pessoal porque a mentira despende muitas energias.
Thérèse Moureau escreveu A megera domada que trata da condição da mulher no
século XIX, de como ela era vista por escritores, pela igreja, por educadores, pela
medicina, pela sociedade e pelos artistas. Este foi um período em que se preocupou
com a educação da mulher visando a sua fidelidade porque se cria que, após a
puberdade, a mulher era capaz de conduzir o homem ao abismo pela sua natureza
impura, sexual. O adultério da mulher era motivo de divórcio em qualquer situação
embora, o do homem, só em casos específicos. O medo, a repressão e a ignorância
eram os recursos para domar a natureza feminina que enquanto ingênua não se
depravava. O estupro passou a ser recomendado como terapia para a loucura das
mulheres. As mais belas eram consideradas as mais perigosas. Acreditava-se que
desigualdade inicial no ato sexual pela posição física do homem acabava quando este
ejaculava visto que a ejaculação tira-lhe todas as forças. O homem era assim, uma
vítima das mulheres e era orientado a não gastar suas energias nos jogos amorosos,
pois precisava delas para o trabalho. O ato sexual era recomendado duas vezes por
semana, entretanto, a mulher pertencia ao homem que poderia satisfaze-la todas as
noites. Se o macho não a satisfazia, a infidelidade da mulher originada em seus genes
não deveria ser considerada como tal, admite Moureau.
A medicina considerando o dever do ato sexual como apenas procriador fazia com que
o casamento fosse uma frustração para a mulher. O jogo amoroso não deveria ser
aprimorado para que a virtude da mulher fosse conservada e ela não se tornasse
viciada e perdida. A mulher tinha o dever de proteger a filha e o filho e para cumprir
esse dever e por isso, caía na armadilha de ceder a um homem. A natureza feminina
não poderia ser mudada, mas deveria ser domada. A mulher deveria manter a
aparência de ser casta. Como? Os pais deviam zelar pela virgindade da filha e o marido
responsabilizar-se pela fidelidade da mulher. Uma mulher jamais pronunciaria nomes de
peças íntimas ou que lembrassem sexualidade. As meninas tinham um horário rígido a
cumprir durante o dia, sem tempo para higiene pessoal e para o exercício físico; a
recreação era feita em companhia da mãe para não ficarem desocupadas e serem
protegidas de seus maus instintos, ficando o maior tempo possível impossibilitada de
conhecer seu corpo e a própria vida. A fidelidade conjugal era prevenida mantendo a
ignorância da mulher ou até com uma extirpação do clitóris (clitoridectomia). Mas
quando uma mulher evitava o contato com seu marido em virtude de tê-lo conhecido
abruptamente ou depois de cumprir sua obrigação de dar-lhe filhos, isso servia de
justificativa para a infidelidade masculina.
Michelet também defende a fidelidade da mulher não por meio da sua ignorância, mas
sob pressão de ser abandonada pelo marido caso não lhe seja doce e obediente. A
esposa modelo para Michelet e outros de sua época era Grisélidis (uma moça pobre
que foi escolhida por um homem rico para que agradecida eternamente lhe desse filhos
e devoção por tê-la escolhida entre tantas). A utopia de mudar as mulheres reflete-se
na intenção de Michelet em dobrá-las, de Fourier em glorifica-las e de Comte em anulálas. A família e a herança não poderiam ser atingidas, a ordem social tinha que ser
mantida. Para isso, a mulher deveria ter uma conduta que dessa tranqüilidade ao
marido sobre a paternidade, pois só ela poderia dizer quem era o pai de seu filho.
Na escola são-simoniana, reconheceu-se a igualdade religiosa, moral e política dos
sexos, porém, esta igualdade traria para o casal casado a incumbência de ser o chefe
de uma sociedade responsabilizando-se ambos pela castidade e fidelidade. Nesta
escola, as discussões abrigavam outras perspectivas sobre a igualdade dos sexos e a
fidelidade. Enfantin, por exemplo, acreditava na existência de pessoas estáveis e
instáveis. Para os instáveis, o remédio era o divórcio enquanto os estáveis tinham um
casamento para sempre. Se ambos (estáveis e instáveis) seguiam suas naturezas a
sociedade não poderia mais se guiar pelos artifícios do cristianismo para preservar
aquelas virtudes. Tanto o prazer físico quanto o pudor tem essência divina e a
igualdade de direitos substitui a hipocrisia pela franqueza. Defendia ainda que só a
mulher tinha o direito decidir sobre a fidelidade por causa da questão da paternidade.
Bazard, outro pai da escola são-simoniana defendia uma única lei moral para ambos os
sexos e que o casamento indissolúvel era um ideal a ser perseguido com fidelidade e
exclusividade.
As teorias de Comte baseadas nas ciências (Biologia e Sociologia) e de Michelet foram
colocadas em prática no Segundo Império e terceira república. Como Gall apresentara
a filosofia de que a zona do cérebro feminino mas desenvolvida era a afetiva, esta
deveria dedicar-se à santa missão doméstica de aperfeiçoar filhos e marido. Assim, o
casamento baseado no positivismo de Comte não tinha a finalidade de prazer sexual e
nem de procriação. Os casais, após um ano de casados poderiam ficar castos
voluntariamente. Como a expectativa de vida das mulheres era menor, a viuvez eterna
fazia o homem pensar na mulher como uma deusa e dedicar-se à sociedade e ao outro.
A maneira de amar do homem era considerar a mulher como sua propriedade, como
um móvel ou uma criada a exemplo da concubina Agar (figura bíblica que foi despedida
com seu filho pelo seu senhor Abraão), os quais não exigem fidelidade. No século XIX a
lei inglesa protegia o homem libertino por considerar que sua mulher não sabia
satisfaze-lo. A investigação da paternidade era proibida quando a moça raptada
concebia. Seu raptor era considerado o pai. Paradoxalmente, isso protegia às moças,
mas dava também liberdade aos estupradores para agir inconseqüentemente. A
mesma lei deixava a mãe sem possibilidade de exigir do pai auxílio para a educação do
filho se ele não o quisesse reconhecer. Sua alternativa era viver na pobreza ou casarse com um homem mais velho que lhe quisesse. As jovens deviam permanecer castas
e os jovens livres.
O casamento indissolúvel e a falta de amor entre esposos passaram a ser vistos como
causa da infidelidade. As mulheres passaram a reivindicar a igualdade, o direito de
escolher o marido, o direito de ter uma profissão, o divórcio e o casal passou a ter
nestes expedientes a possibilidade de uma fidelidade seqüencial já que não seria para
sempre.
Em todo século XIX as mulheres protagonizam este quadro estereotipado que degrada
a relação entre os sexos, e que faz com que as próprias mulheres se sintam culpadas
de criarem os filhos livres e as filhas castas. O código penal francês (mas não só o
francês) durante o século XIX dá ao marido o direito de assassinar a esposa e o
amante quando pegos em flagrante (talvez a única forma de domar a megera).
Andras Zempleni conta uma viagem à Costa –do- Marfim, numa sociedade matrilinear
onde homens e mulheres só se encontram à noite mas ainda assim a fidelidade é
questionada. Sob o título de A amiga e o estrangeiro o texto apresenta uma outra
cultura onde um homem (estrangeiro) passa o dia em casa de sua mãe e à noite vai à
casa de suas mulheres (amigas).
A sociedade nafara é matrilinear, na qual a mulher sustenta e educa os filhos mas a
autoridade da família está com o homem da linhagem materna. Homens e mulheres
vivem do nascer ao morrer na família ma6terna a não ser quando em tempo de guerra a
mulher tenha que procurar seu “marido” para refugiar-se. O estrangeiro não é
responsável pelo cuidado e sustento dos filhos e nem pelas suas amigas já que cada
um vive nas aldeias maternas, cuidadas pelos irmãos e tios. Em caso de enfermidade o
tio ou irmão é quem autoriza o tratamento e acompanha a doente. Na sociedade nafara
todos pertencem a alguém.Quando é abandonado o homem não tem mais nenhum
compromisso com a mulher e os filhos pois é a família materna quem cuida do sustento
e o problema alimentar da mulher abandonada é responsabilidade dos tios e irmãos.
À tarde os homens saem em direção às casas de suas amigas e as mulheres
preparam-se para recebe-los com a melhor refeição que eles têm no dia. O fato de ser
alimentado pela amiga garante a sua fidelidade e isso é uma forma de manipulação
feminina. Vão chegando e entrando discreta e dissimuladamente nas cabanas das
mulheres. Os iniciantes chegam bem mais tarde quando a família da amiga já dorme.
Existe um pudor para com a família das mulheres e ele não pode encontrar-se e nem
cumprimentar a sogra, mas é ela quem deve ser agradada pelo estrangeiro. Se a amiga
sabe de infidelidade deixa o fogo apagado, sem a refeição e encontra-se deitada. O
homem então vai embora em jejum e permanecendo assim até o amanhecer para que
os estrangeiros de suas irmãs não sejam incomodados ou para que a notícia de sua
questão conjugal se espalhe.
Pela manhã os parceiros devem lavar-se para tirar o fonro, a contaminação do ato
sexual que pode adoecer toda a família da mulher. Mas todas as mulheres nafara são
controladas por uma entidade chamada sàndòògò de sua família, a qual o homem deve
fazer um pagamento sacrificial para eliminar o que foi deixado pela relação sexual. Se
um vidente identificar um fonro virulento a mulher terá o pior destino social nafara, pois
não poderá mais trabalhar na terra e terá que exibir sua lubricidade. A mulher é
submissa a sàndòògò e essa submissão controla a fidelidade feminina. Entretanto, uma
relação não pode ser muito duradoura e intensa porque pode ameaçar a sociedade
matrilinear e durante sua vida a mulher troca de companheiro duas a três vezes e pode
receber até oito estrangeiros nesse período. Os homens são monogâmicos quando
muito velhos ou muito jovens mas geralmente são poligâmicos e na idade madura
podem ter até três amigas vivendo em aldeias diferentes. Tendo mais de uma amiga o
homem não vai à cabana de sua amiga todas as noites, nem vai nos dias de funerais,
nem no dia em que o homem dedica ao seu espírito. Quando a amiga mora muito
longe, ele prefere permanecer com ela várias noites seguidas, passando o dia em casa
de amigos para depois deixá-la tranqüila o resto do mês. Nesses períodos acontecem
as infidelidades dos dois. A mulher é que deixa o amante e ele apressa-se a roubar
outra antes que ela o rejeite ou buscar nos funerais onde a mulher é autorizada a sair.
E o homem é que tem a iniciativa de buscar nova amante que pode inclusive ter ainda
um marido. A mulher então toma providências para dar um sinal ao seu pretendente de
que está livre ou não, mostrando sua cesta vazia ou colocando uma pedra perto de sua
cabana. Antes, porém o estrangeiro precisa comprar o silêncio e a colaboração da
sogra com presentes. O horário de o amante chegar é vigiado pela família que se cala,
mas mesmo que contasse ao marido isso não teria valor, pois este precisar pegar a
mulher em flagrante delito para reclamar com o tio, chefe da família que não pode
obrigar a sobrinha a receber seu marido. Cumpre-se um ritual e então o amante é
autorizado a visitar a mulher depois de pagar uns pintinhos à família. Se a mulher
deseja que seu homem retorne, ela prepara uma comida especial, enrola num pano e
leva a aldeia desse homem, Deixa no portal de sua casa e à noite ele pode retornar.
Referências
CZECHOWSKY, N. (Org.). A fidelidade: um horizonte, uma troca, uma memória. Trad.
Moacyr Gomes Júnior. Porto Alegre: L & PM, 1992.
MOREAU, T. A megera domada. Em: CZECHOWSKY, N. (Org.). A fidelidade: um
horizonte, uma troca, uma memória. Trad. Moacyr Gomes Júnior. Porto Alegre: L & PM,
1992.
SIBONY, D. Divisor de águas. Em: CZECHOWSKY, N. (Org.). A fidelidade: um
horizonte, uma troca, uma memória. Trad. Moacyr Gomes Júnior. Porto Alegre: L& PM,
1992.
STEGASSY, R. Para o que der e vier.Em: CZECHOWSKY, N. (Org.). A fidelidade: um
horizonte, uma troca, uma memória. Trad. Moacyr Gomes Júnior. Porto Alegre: L& PM,
1992.
WAJSBROT, C. Prefácio. Em: CZECHOWSKY, N. (Org.). A fidelidade: um horizonte,
uma troca, uma memória. Trad. Moacyr Gomes Júnior. Porto Alegre: L& PM, 1992.
ZEMPLENI, A. A amiga e o estrangeiro. Em: CZECHOWSKY, N. (Org.). A fidelidade:
um horizonte, uma troca, uma memória. Trad. Moacyr Gomes Júnior. Porto Alegre: L &
PM, 1992.
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