PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) ENTRE ARQUÉTIPOS E IMAGINÁRIOS: considerações acerca das possibilidades socioculturais da constituição de sentido1 Victor Hugo Lima Alves2 Universidade Metodista de São Paulo Resumo Há uma miríade de vetores para a constituição de sentido da comunicação do consumo na contemporaneidade, que buscam explicar como as mensagens revestem-se de sentido à medida que se reproduzem na sociedade. Uma delas é a vertente psicológica do arquétipo em que se pleiteia a identificação de narrativas inconscientes expressas por personagens ou imagens, que incorporadas à comunicação da empresa buscam ser identificadas pelos consumidores e conquistá-los. Esta é a expressão de como se têm pensado as relações de consumo acerca de sua comunicação. Contudo, à medida que se toma consciência do ativo papel do consumidor na apropriação de formas simbólicas e na geração de sentido em seu meio social, as pesquisas assumem outros paradigmas explicativos. Destarte, busca-se pôr em paralelo a apreensão teórica de arquétipo das vertentes psicológica e cultural, aventando a possibilidade de tornarse manancial para a constituição de sentido na comunicação a partir do consumo como prática social. Palavras-chave: Comunicação; Consumo; Arquétipo; Imaginário. A perspectiva social do consumo A perspectiva de que o consumo é uma atividade de toda e qualquer sociedade humana independentemente se para a satisfação das necessidades básicas ou supérfluas desdobra-se em um pressuposto teórico da Sociologia do consumo, de reconhecimento do consumo como central no processo de reprodução social de qualquer sociedade, ou seja, todo e qualquer consumo é essencialmente cultural, pois inclusive as atividades mais triviais e cotidianas reproduzem e estabelecem mediações entre estruturas de significados e o fluxo da vida social por meio das quais identidades, relações e 1 Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho 06: Comunicação, Consumo e Subjetividade, do 4º Encontro de GTs - Comunicon, realizado nos dias 08, 09 e 10 de outubro de 2014. 2 Mestre (Doutorando) em Comunicação Social pela UMESP. Professor Assistente A da Universidade Federal de Roraima. Pesquisador dos Grupos de Pesquisa ECOM (Estudos de Comunicação e Mercado) e COLING (Estudos em Comunicação e Linguagem). Contato: [email protected] PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) instituições são formadas, mantidas e alteradas ao longo do tempo (BARBOSA, 2010, p. 13). Embora seja uma perspectiva sociológica, uma análise mais cuidadosa desta afirmação pode levar a discussão para uma visão antropológica da noção de cultura para o consumo. Se o consumo é uma atividade cotidiana, trata-se de uma prática do processo socio-histórico, então, apreensível como prática cultural; e se o consumo reproduz e estabelece mediações entre estruturas de significados e o fluxo da vida social ele é um processo social de circulação de sentido, constituinte do significado, apoiado em relações ativas e indissolúveis entre elementos e práticas inter-relacionadas (HALL, 2003, p. 127-128). Por estruturas de significado entende-se os aspectos socioculturais compartilhados pelos sujeitos na sociedade e, por fluxo da vida social, as práticas cotidianas dos sujeitos, inclusive, a prática do consumo. Deste modo, o consumo pode ser apreendido como uma prática cultural constituidora de sentido, comunicação em sua acepção mais elementar, a partir do ponto de vista da característica de partilha destes sentidos e significados. Além disso, vai ao encontro da afirmação de Lima (2004, p. 29) ao observar, apropriando-se de uma citação de Stuart Hall, que as teorias comunicacionais contêm necessariamente, implícita ou explicitamente, uma teoria social. É nesta vertente que esta argumentação se desenvolve, no intuito de discutir possibilidades outras de constituição de sentido para a comunicação inerente ao consumo – ou a comunicação do consumo – na sociedade contemporânea. Entre arquétipos e imaginários O conceito psicológico de arquétipo vem sendo amplamente utilizado por diversos autores na comunicação inerente ao consumo, seja na publicidade, seja na marca, para a constituição de sentido. Todavia, em muitos dos casos, entende-se que tal conceito é levado tanto ao extremo reducionismo quanto ao deslocamento de seu eixo teórico a ponto de não refletir a fundamentação teórica seminal proposta em Jung (2002), em Os arquétipos e ο inconsciente coletivo. PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) Não somente como casos ilustrativos, mas representativos do que se pretende argumentar, parte-se da observação de situações as quais o arquétipo é dado como um conteúdo, em formatos de personagem ou imagem, que fundamentam a prática comunicacional. Incisivamente, o arquétipo em si não torna-se um personagem ou imagem tendo em vista que esta ótica o caracteriza em conteúdo, portanto diametralmente oposta a sua pré-condição de forma. Esta pré-condição está explicitamente reiterada em Jung (2002, p. 15-17) para o qual o inconsciente coletivo repousa sobre uma camada mais profunda, em que não tem sua origem em experiências ou formulações pessoais, sendo inata. É coletivo, porque não é de natureza individual, mas universal. O autor demarca, pontualmente, que é contrário à psique pessoal tendo em vista que ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. "Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos, constituindo portanto um substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal que existe em cada indivíduo" (JUNG, 2002, p, 15). Supõe-se que os autores tenham se valido deste entendimento para afirmar que o arquétipo é um conteúdo, uma situação mundialmente conhecida, representadas por personagens ou imagens, embora sem condições de precisar o que possa ocasionar esta interpretação, que considera-se errônea no que se refere ao teor “conteúdo”. Partindo da concepção de Agostinho, em que a ideia de arquétipo está contida em sua formulação, apesar de não utilizar-se deste termo, Jung (2002, p. 16) explana que os conteúdos do inconsciente coletivo tratam-se de tipos arcaicos, quer dizer, primordiais, no sentido de referirem-se à imagens universais que existiram deste os tempos mais remotos. Continua sua explanação colocando o conceito de representações coletivas (représentations collectives), de Levy-Brühl, como aplicável aos conteúdos inconscientes tendo em vista que ambos têm praticamente o mesmo significado, pois estas representações designam "as figuras simbólicas da cosmo-visão primitiva" (JUNG, 2002, p. 16-17). Contudo, esclarece que estes conteúdos referem-se a PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) ensinamentos tribais primitivos em que os arquétipos são tratados de um modo peculiar, mas que na realidade, eles não são mais conteúdos do inconsciente, pois já se transformaram em fórmulas conscientes, transmitidas segundo a tradição, geralmente sob forma de ensinamentos esotéricos. Estes são uma expressão típica para a transmissão de conteúdos coletivos, originariamente provindos do inconsciente. (JUNG, 2002, p. 17). Portanto, o que Jung (2002, p. 17) relativiza é que estes ensinamentos esotéricos são formas de expressão dos arquétipos, assim como o são os mitos e os contos de fadas nas diversas culturas, pois o conceito de arquétipos (archetypus) "só se aplica indiretamente às représentations collectives, na medida em que designar apenas aqueles conteúdos psíquicos que ainda não foram submetidos a qualquer elaboração consciente" (JUNG, 2002, p. 17, grifo do autor). Neste sentido, "o arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo matizes que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta", mais perceptível quando se expressa pelo mito, pelo ensinamento esotérico ou pelo conto de fada, mas ainda assim de difícil fundamentação psicológica (JUNG, 2002, p. 17). A partir desta introdução ao pensamento junguiano sobre os arquétipos, demonstra-se mais inteligível a imbricada confusão entre forma e conteúdo que, em diversos momentos e autores, denota a inexata correlação, como se pode verificar ipsis litteris neste autor a fim de expô-la em termos definitivos. Sempre deparo de novo com o mal-entendido de que os arquétipos são determinados quanto ao seu conteúdo, ou melhor, são uma espécie de 'idéias' inconscientes. Por isso devemos ressaltar mais uma vez que os arquétipos são determinados apenas quanto à forma e não quanto ao conteúdo, e no primeiro caso, de um modo muito limitado. Uma imagem primordial só pode ser determinada quanto ao seu conteúdo, no caso de tornar-se consciente e portanto preenchida com o material da experiência consciente. Sua forma, por outro lado, como já expliquei antes, poderia ser comparada ao sistema axial de um cristal, que pré-forma, de certo modo, sua estrutura no líquido-mãe, apesar de ele próprio não possuir uma existência material. (JUNG, 2002, p. 91, grifo do autor [aspas simples] e grifo meu [itálico]). PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) Em outras palavras, sempre de acordo com o que postula Jung (2002, p. 53-54), o inconsciente coletivo é um segundo sistema psíquico 3 de caráter coletivo e não pessoal no qual os arquétipos são as estruturas psíquicas presentes em todo tempo e em todo o lugar. E como estrutura é aquilo que sempre é dado, isto é, o que sempre preexistiu, uma condição prévia (JUNG, 2002, p. 109). Em termos do senso comum, seria comparável a uma fôrma de bolo. Os arquétipos, ou estruturas arquetípicas, são os conteúdos do inconsciente coletivo, mas elementos vazios e formais em si, uma faculdade pré-formativa, uma possibilidade dada a priori da forma da sua representação. Consequentemente, como o inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, mas é herdado, e os arquétipos são as suas estruturas psíquicas, o que é legado são as formas e não as ideias (JUNG, 2002, p. 54 e 91), imagens, personagens ou quaisquer outros elementos que seja possível entender como um "preenchimento dado". Estas estruturas psíquicas apenas secundariamente podem tornar-se conscientes, conferindo uma forma definida aos conteúdos da consciência (JUNG, 2002, p. 54). E, mesmo assim, como uma existência psíquica, "só pode ser reconhecida pela presença de conteúdos capazes de serem conscientizados. Só podemos falar, portanto, de um inconsciente na medida em que comprovarmos os seus conteúdos" (JUNG, 2002, p. 16) na mesma medida em que somente se pode falar em instintos quando os mesmos são postos em ação in concreto. Portanto, uma questão empírica que se trata de saber se tais formas universais existem ou não (JUNG, 2002, p. 55 e 91, grifo do autor). Finalmente, pode-se asseverar que o que é atemporal são as estruturas psíquicas do inconsciente coletivo, os arquétipos, como formas a serem materializadas na experiência consciente, impossível de reducionismos a uma simples fórmula. Nenhum arquétipo pode ser reduzido a uma simples fórmula. Trata-se de um recipiente que nunca podemos esvaziar, nem encher. Ele existe em si apenas potencialmente e quando toma forma em alguma matéria, já não é mais o que era antes. Persiste através dos milênios e sempre exige novas interpretações. O primeiro sistema psíquico – a psique – é o consciente pessoal ainda que lhe seja acrescentado como apêndice o inconsciente pessoal; segundo o autor, a única psique passível de experiência (JUNG, 2002, p. 54). 3 PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) Os arquétipos são os elementos inabaláveis do inconsciente, mas mudam constantemente de forma. (JUNG, 2002, p. 179). Destarte, entende-se que a ideia inicial não encontra paralelo no conceito do autor seminal em que se baseia, pois, como já se espera que tenha ficado claro, o arquétipo não se consubstancia em qualquer especificidade ou particularidade como um personagem ou uma situação transcendente a qualquer época, cultura ou quaisquer outras condições, analogamente como Jung (2002) observou para as experiências descritas por Levy-Brühl (apud JUNG, 2002). Estas especificidades ou particularidades são expressões arquetípicas, ou seja, elaborações conscientes que não pertencem mais ao inconsciente coletivo, mas às formulações conscientes, portanto, ao nível do consciente pessoal, que é a única psique passível de experiência, de acordo com o que preconiza Jung (2002, p. 53-54). Somente deste modo, reitera-se, como formas conscientes, têm condições de serem transmitidas atemporalmente, ao menos naquelas formas indicadas propriamente por Jung (2002), como o ensinamento esotérico, o mito e o conto de fada. É a que se refere o autor quando aduz que o arquétipo é imagem primordial que só pode ser determinada quanto ao seu conteúdo ao tornar-se consciente, ou seja, preenchida com o material da experiência consciente individual (JUNG, 2002, p. 91). Buscando outras referências complementares, afirma-se com Durand (2002, p. 17) que o entendimento dos autores que se utilizam dos arquétipos como explanado alinha-se a uma forma de colonialismo intelectual. Considerar os valores privilegiados da sua própria cultura como arquétipos normativos para outras culturas é sempre dar mostras de colonialismo intelectual. A única coisa normativa são as grandes reuniões plurais de imagens em constelações, enxames, poemas ou mitos. (DURAND, 2002, p. 17). Esta busca por outros autores que referenciem o inconsciente coletivo não é arbitrária, mas essencial tendo em vista a pluralidade destes estudos em diversas ciências, assim como o próprio Jung (2002) reconhece em sua formulação psicológica. Encontram-se contribuições profícuas no modo de pensar os arquétipos em uma PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) perspectiva social de modo a tornar possível a sua adoção como possibilidade de constituição de sentido da comunicação inerente ao consumo. A partir da concepção de arquétipo como imagem primordial, de Jung (2002), se pode estabelecer a conexão com a perspectiva antropológica em que Durand (2002) assenta e classifica o seu trabalho sobre o trajeto antropológico do imaginário. [...] o Imaginário – ou seja, o conjunto das imagens e relações de imagens que constitui o capital pensado do homo sapiens – aparece-nos como o grande denominador fundamental onde se vêm encontrar todas as criações do pensamento humano. O imaginário é esta encruzilhada antropológica que permite esclarecer um aspecto de uma determinada ciência humana por um outro aspecto de uma outra. (DURAND, 2002, p. 18). Considerando que Durand (2002, p. 41) define este trajeto antropológico como a "incessante troca que existe ao nível do imaginário entre as pulsões subjetivas e assimiladoras e as intimações objetivas que emanam do meio cósmico e social", o autor assinala que Jung evidenciou claramente em sua obra o caráter de trajeto antropológico dos arquétipos ao dizer que a imagem primordial deve incontestavelmente estar em relação com certos processos perceptíveis da natureza que se reproduzem sem cessar e são sempre ativos, mas por outro lado é igualmente indubitável que ela diz respeito também a certas condições interiores da vida do espírito e da vida em geral... (JUNG apud DURAND, 2002, p. 60). É essencialmente neste interstício, entre as pulsões subjetivas e as intimações objetivas, que o autor acredita incontestável a instalação da pesquisa antropológica haja vista solucionar o problema de anterioridade ontológica prescrita em alguns autores, porque ao basear-se em incessante troca, entende que haja uma gênese recíproca, em termos do autor, para o qual define que afinal, o imaginário não é mais que esse trajeto no qual a representação do objeto se deixa assimilar e modelar pelos imperativos pulsionais do sujeito, e no qual, reciprocamente, [...], as representações subjetivas se explicam 'pelas acomodações anteriores do sujeito' ao meio objetivo. (DURAND, 2002, p. 41, grifo do autor). PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) Consequentemente, baseando-se nas conclusões de diversos estudos, Durand (2002, p. 42) afirma que a pulsão individual sempre tem um leito social no qual corre facilmente, ou contrariamente, contra os obstáculos do qual se rebela, e que nestes encontros se formam os complexos de cultura que rendem os complexos psicanalíticos. De interessante para esta elaboração teórica, é que, deste modo, o "trajeto antropológico pode indistintamente partir da cultura ou do natural psicológico, uma vez que o essencial da representação e do símbolo está contido entre esses dois marcos reversíveis" (DURAND, 2002, p. 42), contudo sem prescindir das condições materiais e imateriais do meio em que está inserido. Na perspectiva social, é exatamente no universo da representação e do símbolo que se encontra a força instituidora do imaginário social na formação das sociedades. Como toda sociedade é um sistema de interpretação do mundo, ainda que este termo seja impróprio e insuficiente, o sistema simbólico nela admitido corresponde ao sistema de suas significações imaginárias, que, por sua vez, não correspondem a (e não se esgotam em) referências a elementos “racionais” ou “reais” e porque são introduzidas por uma criação compartilhada entre sujeitos, mas impessoal e anônima, por isto coletiva. É nesta perspectiva simbólica que Durand (2002, p. 31 e 59) intenta colocar o estudo dos arquétipos fundamentais da imaginação humana uma vez que entende que a concepção simbólica da imaginação postula o semantismo das imagens, ou seja, conterem materialmente, de algum modo, o sentido. Sobre isto, Jung (2002, p. 47) havia assinalado que o processo simbólico é uma vivência na imagem e da imagem e, conforme complementa Bachelard (apud DURAND, 2002, p. 19), ela somente pode ser estudada por si mesma. Do ponto de vista da imagem como uma vivência simbólica emerge um rico material de estudo do contemporâneo tendo em vista a profusão de imagens deste tempo, nas quais em muito se fundamenta tanto o consumo quanto, e consequentemente, a sua comunicação em sociedades em que ele preenche funções além das necessidades materiais. PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) Antes do encerramento desta ideia, deve-se considerar-se ainda que não é somente o fenômeno comunicacional estabelecido na relação estrutural entre a instância de produção e a instância de consumo que ocupou lugar central neste processo, mas inclusive os fenômenos comunicacionais que se desenvolvem cotidianamente no estabelecimento das relações de consumo dos sujeitos os quais, há muito, deixaram de ser passivos, se é que um dia o foram, devido à crescente produção e disseminação de conteúdo relacionados ao consumo e socializados por meio de diversas plataformas tecnológicas. Neste sentido, a presença das imagens como “alma”, força vital, dos fenômenos comunicacionais contemporâneos no escopo supracitado carrega-os de uma expressão simbólica constituidora de sentido distintiva, com força capaz de espelhar os períodos socio-históricos em que existiram do mesmo modo como afirmou McLuhan (1995, p. 262) ao conceder aos anúncios publicitários de uma época o status de registro fiel de um tipo de sociedade organizada em torno do consumo para conceber e retratar o funcionamento de seus setores de atividades. Prosseguindo com a proposta de correlação entre as posições teóricas, acrescenta-se que, de certo modo, a terminologia relacionada ao imaginário por Durand (2002) difere da postulada por Jung (2002), que exige algum nível de formulação teórica, mas perfeitamente cambiáveis. Para tanto, e nos limites deste texto, o fundamental é apreender que para o inconsciente coletivo os arquétipos são estruturas psíquicas que agem como estruturas do pensamento e uma vez preenchidas com o material da experiência consciente se materializam em qualquer das formas anteriormente descritas, mas que deixam a sua condição de “arquétipo”. Já o imaginário é uma estrutura antropológica, ou seja, o imaginário coletivo se estrutura e uma das formas de estruturação são os esquemas mentais que geram formas de imaginação, entre elas, os arquétipos. Esquema (schema = forma ou figura) é uma generalização dinâmica e afetiva da imagem constituindo sua factividade e a não substantividade do imaginário (DURAND, 2002, p. 60), ou seja, a sua existência e não o seu conteúdo. São PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) representações mentais de um procedimento da imaginação que propicia a formação da imagem de um conceito vivido ou aprendido. Neste sentido, dos esquemas resultam conceitos que podem tomar a forma de arquétipo, assim como estereótipos, papéis sociais, visões de mundo4. Nos termos de Durand (2002, p. 60-61), o arquétipo é um intermediário entre os esquemas subjetivos e as imagens fornecidas pelo ambiente perceptivo. Estas implicações teóricas permitem, se não concluir, colocar em suspeição, tanto por uma via quanto por outra, a efetividade do uso dos arquétipos para a substantividade da constituição de sentido do fenômeno comunicacional circunscrito socialmente como reprodutora de formas simbólicas linearmente reprodutíveis em esfera global simplesmente sob a prerrogativa de ser imbuído de um caráter inato (na perspectiva psicológica) e coletivo (em ambas), que também seria verdadeiro na perspectiva social, pois cada sociedade organiza-se de modo ímpar visto a particularidade de seu processo socio-histórico. Admite-se que, ainda que se encontrem "fôrmas de bolo" intrinsecamente carregadas nos seres humanos, a experiência consciente remete ao repertório de imagens localizadas no continnum espaço-temporal da história vivida ou aprendida do indivíduo, da mesma maneira observada por Durand (2002, p. 62) ao asseverar que "os arquétipos ligam-se a imagens muito diferenciadas pelas culturas nas quais vários esquemas se vêm imbricar", e Jung (2002), em diversas passagens, das quais entendese a seguinte como representativa e definitiva, em última instância, em relação à cultura. Quer o homem compreenda ou não o mundo dos arquétipos, deverá permanecer consciente do mesmo, pois nele o homem ainda é natureza e está conectado com suas raízes. Uma visão de mundo ou uma ordem social que cinde o homem das imagens primordiais da vida não só não constitui uma cultura, como se transforma cada vez mais numa prisão ou num curral. (JUNG, 2002, p. 102). 4 Como esclarecimento, Durand (2002) faz um inventário de terminologias de imagens baseado em diversas pesquisas. Desenvolve algumas em sua teoria e afasta outras, em geral, com as devidas justificativas. PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) Por esta perspectiva, mesmo em uma determinada época, ainda que os elementos arquetípicos comuns (a fôrma de bolo – arquétipo do herói, da mãe, da roda) possam ser identificados por diferentes indivíduos em diferentes culturas, os símbolos gerados (os conteúdos – a personificação de herói, qual a concepção, papéis sociais, etc., de mãe, da roda) serão diferentes devido às experiências conscientes. Em termos imaginários, a ligação entre o social e o natural resultará num conteúdo sociocultural. É o elemento da construção social do imaginário. Por ser uma construção social, o conteúdo da fôrma de bolo será determinado pelas culturas, o qual se pode exemplificar pela maior quantidade de heróis do que heroínas, que pode ser entendida como uma dimensão sexista que vê a mulher como um ser frágil ou submissa5. Consecutivamente, por esta concepção, entende-se que os arquétipos sejam, ao menos, de difícil aplicação para a constituição de sentido do fenômeno comunicacional inerente ao consumo, com a finalidade de produção de sentido único para a pluralidade das culturas que se desenvolvem socialmente. Esta é uma situação recorrentemente identificada que remete aos pressupostos da ligação histórica desta comunicação ao paradigma funcionalista pragmático, especificamente a corrente denominada de Pesquisa em Comunicação de Massa (Mass Communication Research) da positivista Escola Americana, que tem como eixo o estudo dos efeitos dos meios de comunicação. Decerto, sem a necessidade de uma posição conclusiva, mas indicativa de uma abordagem, pensa-se que os mitos sejam os conteúdos mais bem alinhados a este intento devido a tendência natural à formulação narrativa consonante a sua conformação na constelação imaginária. Há indícios de que Sal Randazzo, em A criação de mitos na publicidade, tenha encontrado a resposta ao afirmar que a imagem arquetípica de Jung é a chave para que se possa entender a conexão entre a mitologia e a psique humana (RANDAZZO, 1996, p. 65), como caracterizada em Durand (2002). Entendemos por mito um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos e esquemas, sistema dinâmico que, sob o impulso de um esquema, tende a compor-se em narrativa. O mito é já um esboço de racionalização, dado que 5 Informação verbal da disciplina Comunicação e Construção do Imaginário, ministrada pela profª. Drª. Magali do Nascimento Cunha, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP. PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em idéias. O mito explicita um esquema ou um grupo de esquemas. Do mesmo modo que o arquétipo promovia a idéia e que o símbolo engendrava o nome, podemos dizer que o mito promove a doutrina religiosa, o sistema filosófico, [...], a narrativa histórica e lendária. (DURAND, 2002, p. 62-63). E, acrescenta-se, por fim, também como um destes sistemas simbólicos, o sistema do consumo, no qual a sua comunicação age como o laço social que preenche as lacunas da necessidade imaterial, subjetiva, pela atribuição de algum elemento para além do consumo como satisfação material, como status, satisfação, poder, etc. À guisa de considerações finais Em conclusão da ideia inicial de paralelismo entre os conceitos de arquétipos, pode-se dizer que há similaridades especificamente quanto a tratar-se de estruturas. O arquétipo de Jung são estruturas psíquicas inatas inerentes a todos os indivíduos, de presença universal, por isto coletivo, que agem como estruturas de pensamento. É o conteúdo do inconsciente coletivo, contudo ele próprio não possui conteúdo, é um elemento vazio e formal em si, é uma pré-condição. Como faculdade pré-formativa de um modo de representação, é uma forma determinada, embora ainda assim o seja de modo muito limitado. Já o arquétipo imaginário de Durand decorre de uma estrutura antropológica, o imaginário. O imaginário coletivo que se estrutura em esquemas mentais, entendidos como formas ou figuras, geradores de formas de imaginação, as quais se consubstanciam em vários tipos imaginários, como os arquétipos e os mitos, símbolos, as imagens, dentre outras. Neste sentido, ambos são como estruturas de modos de representação, em que para o primeiro todo pensamento repousa em imagens primordiais – formas primitivas – que determinam inconscientemente o pensamento enquanto que para o segundo são representações mentais de um procedimento da imaginação que favorece a formação da imagem de um conceito vivido ou aprendido. PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) Em relação ao modo de representação, reafirma-se que na abordagem psicológica o arquétipo é uma imagem primordial, um conteúdo inconsciente, que modifica-se por meio de sua conscientização e percepção do material da experiência consciente de acordo com a consciência individual na qual se manifesta; neste momento, esta pré-condição torna-se, ela própria, conteúdo, deixando de ser arquétipo para tornar-se expressões arquetípicas nas diversas culturas como os mitos, os contos de fadas e os ensinamentos esotéricos para citar apenas os enumerados no texto. O contato com o material da experiência consciente se dá, obviamente, ao nível do consciente pessoal, quer dizer, no nível das experiências da consciência individual. O repertório destas experiências pode ser rico e variado tendo em vista a generosidade do ambiente quanto à riqueza de materiais e recursos simbólicos à disposição da interação com o sujeito e, possivelmente, de sua assimilação. Mais um fator que renova a constante mutação do arquétipo junguiano, conforme descrito anteriormente, e a sua pluralidade de expressões arquetípicas, porém individualizada a sua representação. Complementarmente, deve-se demarcar que esta compreensão equivale a afirmar que o social impregna a assimilação das expressões simbólicas no nível das experiências da consciência individual. Em contrapartida, o arquétipo imaginário é uma significação imaginária criada e compartilhada entre os sujeitos, que constitui um sistema decorrente do universo de representação e do símbolo constituinte do imaginário social – coletivo, impessoal e anônimo, o sistema de interpretação do mundo. Enfim, como já observado, em termos imaginários, a ligação entre o social e o natural resultará num conteúdo sociocultural. Esta constituição cultural liga o arquétipo à constelação de imagens do período socio-histórico da experiência vivida ou aprendida em que o imaginário é que determina a constelação de imagens e não o contrário. Sendo assim, são várias as possibilidades de significações imaginárias, como visões de mundo, estereótipos, mitos, símbolos, imagens, conforme a cultura a que estiver relacionada. O cotejo destas perspectivas quanto ao modo de representação evidencia o caráter coletivo de constituição social do arquétipo imaginário em relação à experiência PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) psicológica do arquétipo junguiano, embora a constatação mais importante seja que até mesmo este arquétipo não prescinde da cultura de seu período social e histórico tendo em vista que não se pode separar o homem de sua natureza. É importante refletir ainda sobre a indicação de que os mitos sejam os conteúdos mais adequados ao intento deste fenômeno comunicacional por sua tendência natural à formulação narrativa, como delineado. Primeiro, pois apesar de os adeptos da vertente psicológica privilegiarem a concepção de simetria nos processos comunicacionais, pela qual seria possível obter integralmente o efeito desejado, há um sólido entendimento acerca da utopia de concretização deste projeto (WOLTON, 2004). Segundo, mesmo considerando o arquétipo imaginário, ele mesmo uma significação imaginária juntamente com o mito, os símbolos, etc., como uma possibilidade para a constituição de sentido da comunicação inerente ao consumo, a necessidade de alimentação constante deste tipo de comunicação exige um repertório incessante de novas imagens para manter-se viva na mente dos receptoresconsumidores; sendo assim, os mitos atendem melhor a esta prerrogativa tendo em vista a sua organização dinâmica corresponder muitas vezes à organização estática do que se denomina de constelação de imagens (DURAND, 2002, p. 63), nos moldes como prescrito anteriormente por este mesmo autor. Esta percepção decorre da compreensão de que o arquétipo imaginário é universalmente constante, adequado ao esquema e carece de ambivalência, em que, na exemplificação oferecida por Durand (2002, p. 62-63), a roda é o grande arquétipo do esquema cíclico visto que não se percebe outra significação imaginária adequada enquanto a serpente é apenas o seu símbolo, mas um símbolo polivalente, que pode servir a outras significações; ou ainda em que o esquema ascensional e o arquétipo do céu permanecem imutáveis, embora seu simbolismo pode transformar-se de escada em flecha voadora ou avião supersônico nas diversas culturas em que se possa circular. Deste modo, a constituição inadequada da mensagem ou a má disposição de apenas um elemento, como a imagem, pode aprofundar a lacuna entre a constituição do sentido entre as instâncias de produção e de recepção da mensagem com resultados PPGCOM ESPM // SÃO PAULO // COMUNICON 2014 (8 a 10 de outubro 2014) imprevisíveis na constituição do significado. Portanto, pensa-se que seja possível a utilização do arquétipo imaginário como argumento axial do fenômeno comunicacional inerente ao consumo não obstante o seja com a sobriedade e cuidado necessários em relação ao escopo de seu alcance na cultura em que se insere. Cabe dizer, finalmente, que traçar, ainda que em panorama, sobre perspectivas tão densas de autores clássicos é desafiador, mas extremamente necessário na medida em que tais construtos são apresentados sob uma fórmula, esquema ou modelo para cumprir estritamente uma finalidade empírica. Portanto, a intenção é incitar à discussão para que se possa sedimentar novos caminhos para a análise da constituição de sentido do fenômeno comunicacional inerente ao consumo. Referências BARBOSA, Lívia. Sociedade de Consumo. 3.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. BAUDRILLARD, J. A sociedade de consumo. Rio de Janeiro: Edições70, 2007. BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. 33. ed. Petropólis, Vozes, 2011. CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário: introdução à arquetipologia geral. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. HALL, Stuart. Codificação/Decodificação. In Da diáspora. Identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2003. JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 2. ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 2002. LIMA, VENÍCIO A. Mídia: teoria e política. 2. ed. São Paulo: Perseu Abramo, 2004. McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1995. RANDAZZO, Sal. A criação de mitos na publicidade: como os publicitários usam o poder do mito e do simbolismo para criar marcas de sucesso. Rio de Janeiro: Rocco, 1996. WOLTON, Dominique. Pensar a Comunicação. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2004.