Argumentação e Dinâmica Textual – algumas considerações Ana Caldes ABSTRACT: In this paper we intend to approach the argumentative phenomenon from the point of view of the structural dimension of texts, as far as advertisements are concerned. Therefore, we will take as a departure point the assumption that the argumentative construction of any text is directly connected to the organization of its compositional units, regarding the text genre which it belongs to. In this process, two remarks have to be considered: on the one hand, we must bear in mind that text genres are able to define the argumentative courses of texts, leading them towards a specific communicative aim – the one which the text genre is associated to; on the other hand, we accept that the compositional organization of texts is, in some cases, responsible for the creation of dynamic argumentative courses, I mean, those which do not always occur in a plain and predictable way. interfere ou é condicionador Assumindo que a razão de ser de um da elemento construção qualquer texto é a de cumprir um argumentativa específica de um dado determinado fim comunicativo, pode texto, tendo em conta o género (textual) aceitar-se que a organização textual não em que se inscreve. Para tal, centrar- se processa, por si só, de forma gratuita; nos-emos, ainda que sumariamente, na neste sentido, diremos que o trabalho de análise de um exemplar de texto construção textual é, fundamentalmente, pertencente um trabalho de selecção do material publicitário, de modo a dar conta das linguístico − ou, na perspectiva em que unidades nos situamos, do material semiótico − composicionais que, fazendo parte da passível de integrar cada texto único e constituição do texto, constroem, em singular. simultâneo, o seu próprio percurso Considerando este facto, ao e género / anúncio ou processos importa reflectir, no contexto deste argumentativo, trabalho, de que forma e por que meios consideração que este é, em todo o caso, o um processo de construção textual 31 percurso levando orientado para em uma finalidade pragmática que socialmente a argumentação, enquanto reconhecida e associada ao género fenómeno linguístico, se reveste, por textual em causa – a persuasão. assim dizer, de uma dimensão formal – aquela que dá conta do modo como, em cada situação particular, os argumentos 2. Argumentar – o(s) conceito(s) Na perspectiva de Grize (1990), se apresentam e se organizam tendo em o acto de argumentar pode ser entendido vista uma determinada conclusão ou em duas acepções distintas: do ponto de tese. vista corrente, em que segundo o autor, Na sequência do que se acaba de «argumenter (…) c´ est fournir des dizer, importa assumir que o estudo da arguments, donc des raisons, à l´ appui argumentação ou à l´ encontre d´une thèse. Ansi linguístico impõe, argumenter conceptuais e renvoie à justifier, enquanto fenómeno em termos metodológicos, a expliquer, étayer» (Grize, 1990: 40); e necessidade de uma dupla abordagem – de um ponto de vista mais abrangente, seja do ponto de vista da sua vertente em que se considera a argumentação processual, isto é, a forma como a enquanto «(…) démarche qui vise à argumentação se concretiza (ou, se intervenir sur l´ opinion, l´ attitude, quisermos, como ela toma forma ao voire le comportement de quelqu´ un.» nível dos textos empíricos), seja do (1990: 40). ponto de vista dos efeitos que a mesma A possibilidade de se admitir visa obter junto do outro a quem se ambas as abordagens e, além disso, de destina ou para o qual se argumenta. No as de seguimento desta necessidade há que complementaridade, impõe-nos tecer as levar ainda em linha de conta o papel seguintes considerações: por um lado, que os textos − enquanto veículos trata-se de aceitar que o acto de materiais argumentar decorre, na sua essência, de linguisticamente, a passagem da forma um acto de comunicação e que, assim aos efeitos – possuem ao nível da sendo, está dotado de uma natureza configuração de diferentes interpessoal e dialógica que lhe é possibilidades de realização intrínseca − no sentido em que ambos se argumentativa, determinando-as. encarar numa relação que asseguram, Ora é precisamente nesta linha constituem enquanto actos dirigidos e visam, portanto, intervir e agir sobre o que outro. Por outro lado, interessa pensar considerações que se seguem. Tendo 32 situaremos doravante as presente a dupla concepção de Grize (Bronckart, 2005: 61). Por outro lado, mencionada no início deste ponto, impõe-se considerar, além da dimensão pretende-se reflectir sobre o fenómeno social que acabámos de referir, a da argumentação inserindo-o numa dimensão estrutural que de forma perspectiva textual ou, o mesmo é dizer, inevitável está associada à constituição uma perspectiva que leve em linha de de qualquer texto, uma vez assumido conta a necessidade de encarar os textos enquanto todo coeso e organizado. Assim, para uma abordagem da como objectos complexos − os palcos de acção em que têm lugar escolhas complexidade deliberadas, considerar dois planos fulcrais que a mais ou menos textual, importa à justificam: o plano das práticas sócio- concretização de fins comunicativos comunicativas e o plano composicional, específicos, em situações de interacção sendo particulares. simultâneo para dar conta do carácter (in)conscientes, com vista que ambos contribuem em estrutural dos textos ou, se assim quisermos, constituem-se como os seus 3. O texto como objecto complexo Definir os textos como objectos factores Para estruturais. complexos significa tomá-los na sua efectivamente acepção mais lata – aquela que rejeita a sociais – decorrentes das interacções ideia de que estes são produtos de uma entre os indivíduos de uma determinada simples ou comunidade de falantes – necessitam de proposições, que se combinam entre si se realizar necessariamente enquanto para formar um todo maior. De facto, práticas aceitar comunicativas, sendo a linguagem a sucessão tal de unidades complexidade exige ocorram, linguísticas e / dos textos e, com isso, o seu vínculo à concretização. Logo, no sentido em que dimensão humana de que se revestem o linguístico e o social se determinam todas as práticas sociais. Daí que, como mutuamente, refere o autor, o trabalho de reflexão comunicativas organizam-se, de uma sobre eles não possa ser realizado senão forma geral, num determinado espaço e numa perspectiva descendente, isto é, tempo históricos, sob a forma de «das actividades sociais às actividades géneros de texto definidos, segundo de linguagem, destas últimas aos textos Bronckart e aos seus componentes linguísticos» «produtos de configurações de escolhas (2005: práticas 62), a ou condição as para práticas considerar, à partida, a natureza social 33 essencial as que sua sócio- enquanto por entre as possíveis, momentaneamente que são cristalizadas ou produção textual obedece, de forma mais ou menos (in)consciente, a estabilizadas pelo uso». A estabilidade determinados padrões ou critérios de que podemos atribuir aos géneros selecção das unidades de composição textuais advém, em primeira mão, do do texto motivados, na sua essência, facto pelas indexações sociais de que os de categoria se assumirem que agrupa enquanto textos géneros com textuais se encontram características típicas semelhantes entre afectados. Ao produzirmos um texto de si. Mas, além disso, essa estabilidade acordo com um determinado género deve-se igualmente às representações (textual), ou ao termos intenção de o colectivas que os sujeitos possuem fazer, estamos a aceitar que esse texto relativamente a cada género de texto em reúna, na sua composição, os traços particular (relativamente) e que lhes permitem estabilizados que diferenciá-lo de todos os outros; é nesta justificam a sua inscrição nesse género. perspectiva que dizemos que os géneros À partida, cada género textual admite de texto são portadores de diversas (de forma mais ou menos flexível / indexações quais rígida) agenciamentos específicos de estabelecem, para cada um, o seu unidades que, como atrás se referiu, se conteúdo (de que fala este texto?), a organizam segundo diferentes critérios, forma de interacção estabelecida com o a saber, de natureza (unidades verbais / possível destinatário (que propósito não verbais), de disposição (unidades de comunicativo visa estabelecer?) e o seu disposição central / periférica ao nível respectivo valor de uso (para que da organização global do texto) e de serve/que obter?). prototipicidade (unidades prototípicas / Abordados os aspectos relativos ao não-prototípicas associadas ao género plano das práticas sócio-comunicativas, em causa). passemos sociais, efeitos a as pretende algumas Tais considerações agenciamentos, sobre o que designamos ser o plano condicionados pelas características do composicional. género em que o texto se inscreve, revestem-se de uma importância fulcral No que respeita a este plano, questões para a organização estrutural do texto, relativas ao agenciamento das unidades ao mesmo tempo que são determinantes de composição do texto. Considera-se, para portanto, que o trabalho de construção / argumentativo, do ponto de vista das colocam-se em foco as 34 o seu funcionamento duas possibilidades conceptuais situation dans apontadas por Grize no que concerne ao imposent (…)» fenómeno linguístico aqui em estudo. sublinhado meu). laquelle (Grize, elles s´ 2002:15, O percurso argumentativo de um texto é marcado por três dimensões 4. Texto(s) e Argumentação Argumentar significa, na sua fundamentais, a saber, as dimensões essência, influenciar o outro de alguma intencional, formal e institucional. A forma, levando-o a inferir e a aceitar dimensão intencional dá conta da como válida uma dada conclusão. No finalidade comunicativa / teleológica âmbito de uma perspectiva textual da que subjaz à produção de qualquer texto argumentação, em que nos situamos, e diremos o “descodificada” no momento da sua argumento(s) e a conclusão que ele(s) recepção, de modo a serem cumpridos justifica(m) é estabelecida, no texto, os através da construção do que se designa pretendidos. ser o seu percurso argumentativo. Por argumenta, “percurso argumentativo” entende-se, determinado fim, e este facto constitui assim, o processo linguístico/semiótico um factor determinante da orientação que permite assegurar, do ponto de vista que toma o percurso argumentativo textual, a passagem dos argumentos à construído para um determinado texto, respectiva tendo em conta a situação sócio- que a relação conclusão entre ou, num que deve, objectivos Logo, portanto, ser comunicativos quando argumenta-se para se um comunicativa em que ele se enquadra. movimento inverso, da conclusão aos argumentos que a suportam enquanto A dimensão formal constitui a tal. No entanto, segundo Grize, muito dimensão relativa ao agenciamento mais do que viabilizar esta passagem, linguístico e / ou semiótico das unidades necessária, aliás, a todo o acto de do texto justificando-se a designação de argumentação, trata-se, antes de mais, “semiótico” pela necessidade de se de instaurar um quadro situacional e considerar, no contexto da presente comunicativo que a legitime. Refere o abordagem, o verbal e o não-verbal autor, a propósito: «Une argumentation como elementos de composição textual. répond à un projet bien précis: amener Por conseguinte, no que respeita à son destinataire à approuver certaines dimensão formal que caracteriza o theses. Il ne s´ agit pas de les processo de argumentação, diremos que démonstrer, mais de montrer une quer 35 a natureza das unidades na percurso argumentativo de um texto (ou constituição do texto, quer o modo a sua construção) resulta, assim, em como elas aí se organizam, constituem última instância, dos nexos relacionais factores determinantes na construção e que colocam “em diálogo” as três na orientação que toma o seu percurso dimensões mencionadas, sendo que argumentativo. Na sequência do que se deste “diálogo” deriva a dinâmica disse, é de todo o interesse tomar como interna do texto. Para esta dinâmica em relevante que determinados géneros muito contribui a forma como as textuais, unidades composicionais que pelas suas entram características, de composição textual sejam propícios ao desenvolvimento de interagem entre si − cooperando e / ou determinado confrontando-se tipo de percursos − com vista argumentativos, tendo em conta as concretização possibilidades de argumentativo do texto que está, sempre previstas cada para agenciamento género do à percurso e em todo o caso, orientado para em cumprir particular. um comunicativo. Considerando que o percurso determinado Além disso, fim é de argumentativo de qualquer texto se salientar que, tanto em produção como encontra determinado pelo quadro de em recepção, o percurso argumentativo interacção comunicativa em que o texto de se insere, admitimos, portanto, que ele determinado pelas representações que se os sujeitos possuem relativamente à reveste institucional. de É uma no dimensão âmbito qualquer situação desta de texto se encontra interacção sócio- dimensão que se encontram definidas comunicativa em que ele se enquadra. não só as normas, os direitos e os Refere Grize: «(…) Une argumentation deveres que regulam a interacção entre relève os dada enchaînement, une combinaison ou como une confrontation d´ énoncés ou de indivíduos, situação perante uma sócio-comunicativa, du raisonnement [i.e.] un também os parâmetros que estabelecem representations, a adequação de cada géneros textual a contraintes internes susceptibles d´ être uma dada situação de interacção, de explicitées et conduit en fonction d´ un acordo com as indexações sociais de but.» (Grize, 2002: 15-16, sublinhado que ele é portador. meu). Tendo em conta os aspectos mencionados, considera-se que o 36 respectant des De notar também a presença e a 5. Análise textual força O texto em análise é introduzido, argumentativa do logótipo segundo uma leitura que se processa de institucional localizado na parte inferior cima para baixo e da esquerda para a direita do texto em que se pode ler “ direita, por uma unidade composicional Sem seguro não é seguro! / Fundo de constituída por um flash que contém a Garantia Automóvel”, funcionando esta expressão “Perca um automóvel!”. Esta unidade expressão apresenta, por sua vez, um argumento valor semântico-lexical (associado ao concretização uso do imperativo) pouco típico do comunicativo do texto – convencer o género leitor a adquirir um seguro automóvel. textual em causa, o que composicional de enquanto autoridade do para a objectivo certa De um modo geral, podemos dizer que estranheza, por parte do leitor. Por outro o texto adopta como unidades de lado, composicional motivação para a leitura do texto as três estabelece uma relação de confronto e / unidades composicionais que acabámos ou imagem de mencionar – flash, imagem de fundo apresentada como fundo: um automóvel e logótipo – as quais se destacam, aliás, – aparentemente do ponto de vista gráfico e cromático. apelativo – partindo-se do princípio ser Após esta primeira abordagem, são do senso comum a ideia de não de se então querer perder algo percepcionado como claramente belo / bom e, portanto, algo ao qual está argumentos capazes de suscitar a adesão associado um valor positivo. Este facto do leitor ao produto pretendido – a coloca, assim, em acção, um argumento obrigatoriedade do seguro automóvel e de cariz axiológico. Ainda no que a responsabilização e a penalização respeita à unidade de abertura do texto, legal para os indivíduos que não são verifica-se duas portadores do referido seguro. Em expressões centrais que estabelecem suma, poderá dizer-se que o percurso entre elas uma relação imediata de argumentativo deste texto, tem por base causa / efeito, traduzindo, ao mesmo, uma argumentação de tipo semiótico um argumento de valor lógico: são elas (típica do género em causa) que coloca as expressões “Perca um automóvel!” em jogo argumentos assentes em pré- (efeito) e “É fácil, basta conduzir sem construídos seguro” (causa). aqueles que vivem da ideia comum e motivará, à esta de em partida, unidade contraste bom com estado, que uma esta a contém 37 apresentados, em periférica, culturais – posição outros no fundo, socialmente aceite que privilegia o 7. Bibliografia consumo do belo / bom e que o ADAM, J.-M. e BONHOMME, Marc (1997) L´ argumentation publicitaire. Rhétorique de l´ éloge et de la persuasion. Paris : Nathan BRONCKART, Jean-Paul (2005) Os géneros de texto e os tipos de discurso como formatos das interacções de desenvolvimento. In F. MENENDEZ (org.). Análise do Discurso. CLUNL/Hugin Editores, pp. 39-79. CORTES, Ana Caldes (2005) Textos, Géneros e Composicionalidade – para uma abordagem do anúncio publicitário. Dissertação de mestrado, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas / Universidade Nova de Lisboa. GRIZE, Jean-Blaise (1990) Logique et langage. Paris: Ophrys, pp. 40-45. GRIZE, Jean-Blaise (2002) “Les deux faces de l´ argumentation. L´ inférence et la déduction” In M. FORNEL e J.-C PASSERON. L´ argumentation: preuve et persuasion. Paris: École des Hautes Études en Sciences Sociales, pp. 13-27. MOESCHLER, Jacques (1985) Argumentation et conversation – Élements pour une analyse pragmatique du discours. Paris: Hatier-Credif, pp. 45-77 apresenta como uma mais-valia para o indivíduo. 6. Conclusão Enquanto fenómeno linguístico, a argumentação é sensível aos objectivos do género textual em causa. No caso do anúncio publicitário, verifica-se que o tipo de argumentação mobilizado é de natureza semiótica, o que coloca em interacção, no espaço textual, não só unidades de natureza distinta, como também permite que se criem entre elas determinados nexos relacionais que se encontram orientados para um fim específico – persuadir. Além disso, uma abordagem às questões de argumentação textual implica considerar o texto enquanto objecto complexo, revestido de uma dinâmica própria, a que não podem ser alheios os aspectos relativos ao cumprimento da função sócio-comunicativa de acordo com a qual é concebido. 38 Anexo 1 (In Correio da Manhã, 10 Maio 2005, p.7) 39