TENHO ALGO A DIZER
TENHO ALGO A DIZER:
memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Maria Ribeiro do Valle
Clodoaldo Meneguello Cardoso
Antonio Celso Ferreira
Anna Maria Martinez Corrêa
1ª edição - Bauru, 2014
Copyright © 2014 Editora Unesp
Direitos de publicação reservado à
Fundação Editora da Unesp (FEU)
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Printed in Brazil 2014
981
T283
Tenho algo a dizer : memórias da Unesp na ditadura
civil-militar (1964-1985) / Maria Ribeiro do Valle ...
[et al.]. – São Paulo : Cultura Acadêmica, 2014.
240 p. ; 23 cm.
ISBN 978-85-7983-623-7
Inclui bibliografia
1. Ditadura militar. 2. Brasil-História militar.
3. UNESP-História. I. Valle, Maria Ribeiro do. II. Título.
Copyright© Cultura Acadêmica, 2014
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA
“JÚLIO DE MESQUITA FILHO”
Realização
CEDEM – Centro de Documentação e Memória da Unesp
OEDH – Observatório de Educação em Direitos Humanos / Unesp
Apoio
PDI – Unesp / Programa de Desenvolvimento Institucional
FAAC – Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação / Bauru
FCL – Faculdade de Ciências e Letras / Araraquara
Reitoria da Unesp
Equipe de editoração
Apoio técnico de gravação
Evandro Douglas Guidelli
Desgravação
Aline Ramos
Gustavo Zuccherato
João Vitor Campos dos Reis
Nathalia Perillo Mendes de Vasconcellos
Leonardo C. Manffré
Vinícius de Almeida Martins
Revisão
Clodoaldo Meneguello Cardoso
Maria Ribeiro do Valle
Waltair Martão
Capa
Inky Design / Unesp-Bauru
Projeto gráfico e diagramação
Canal 6 Editora / Bauru
Impressão
Avalon Gráfica Digital / Bauru
A todos(as) aqueles(as)
que lutaram contra o arbítrio institucional na Unesp
e que demonstraram (e ainda demonstram) sua indignação
contra as políticas e práticas de violação dos direitos humanos
na ditadura militar e no Brasil de hoje.
Sumário
Abertura .............................................................................................................. 11
DIZERES 1 – Os pesquisadores
Pelo direito à memória e à verdade na Unesp.......................................... 13
Clodoaldo Meneguello Cardoso
A universidade nos tempos da Guerra Fria e da Ditadura Militar:
contestação e repressão ............................................................................. 27
Antonio Celso Ferreira
Institutos Isolados, Unesp e a ditadura .................................................... 41
Anna Maria Martinez Corrêa
Tenho algo a dizer sobre a ditadura na Unesp......................................... 55
Maria Ribeiro do Valle
DIZERES 2 – Os depoentes
Depoimento 1 – Onosor Fonseca ............................................................. 69
Depoimento 2 – Ulisses Telles Guariba Neto .......................................... 75
Depoimento 3 – José Roberto Tozoni Reis............................................... 93
Depoimento 4 – João Francisco Tidei Lima............................................. 113
Depoimento 5 – Antônio Quelce Salgado ................................................ 129
Depoimento 6 – Luís Carlos da Rocha ..................................................... 133
Depoimento 7 – José Sterza Justo ............................................................. 145
Depoimento 8 – William Saad Hosne ...................................................... 169
Depoimento 9 – Reinaldo Ayer de Oliveira ............................................. 185
Depoimento 10 – Antônio Luiz Caldas Júnior ....................................... 205
Depoimento 11 – Luis Carlos Ferreira de Almeida ................................. 227
Nota final............................................................................................................. 239
Abertura
E
ste livro é o resultado do projeto de pesquisa: Tenho algo a dizer: memórias
da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985) realizado pelo CEDEM –
Centro de Documentação e Memória e pelo OEDH – Observatório de Educação em Direitos Humanos, da Unesp, em 2013 e 2014.
Participaram da equipe os professores da Unesp: Antonio Celso Ferreira
(CEDEM/IBILCE-S. J. do Rio Preto) e Clodoaldo Meneguello Cardoso (OEDH/
FAAC-Bauru) – coordenadores; Anna Maria Martinez Corrêa (CEDEM) – consultora; Solange de Souza (CEDEM) – apoio técnico; Maria Ribeiro do Valle
(FCL-Araraquara) – pesquisadora-bolsista.
A pesquisa foi realizada em fontes documentais do CEDEM e por meio
de depoimentos de (ex) professores e ex alunos da Unesp, gravados durante
mais de 20 horas, em áudio e/ou vídeo. O período pesquisado abrangeu acontecimentos ocorridos pós-1964 nos Institutos Isolados de Ensino Superior do
estado de São Paulo, que deram origem à Universidade Estadual Paulista ‘Júlio
de Mesquita Filho’, criada em 1976.
O projeto: Tenho algo a dizer recebeu apoio e financiamento da Reitoria
da Unesp por meio do PDI – Programa de Desenvolvimento Institucional, na
linha 13: Memória Social.
Agradecemos a todos e a todas que direta ou indiretamente contribuíram
para a realização deste projeto.
A equipe
DIZERES 1
OS PESQUISADORES
PELO DIREITO À MEMÓRIA E
À VERDADE NA UNESP
Clodoaldo Meneguello Cardoso
O direito à memória e à verdade é condição para superar o legado de
violência de tempos de arbítrio e garantir o fortalecimento de instituições com valores democráticos.
Antecedentes
A
liberdade e a democracia, que temos – ainda muitas vezes apenas formal –,
foram conquistadas com muita luta e sofrimento de grupos organizados
de trabalhadores, estudantes, intelectuais, religiosos, artistas e políticos contra
a ditadura civil-militar (1964-1985). Passados 50 anos do golpe de 64, ainda
ouvimos ecos desse passado sombrio num país, em que grande parte da
população ainda não tem acesso aos bens econômicos, sociais e culturais.
Emprego, moradia, saúde e educação, para muitos ainda são dramas cotidianos a serem superados em novas lutas.
O que a geração, que lutou contra a ditadura, tem a dizer aos jovens de
hoje? E o que tem a ouvir deles? Como preservar as conquistas e avançar rumo
a uma sociedade democrática plural, participativa e igualitária? Como superar
a cultura autoritária e as desigualdades sociais que se perpetuam no país? Essas questões nortearam um conjunto de atividades de extensão, ensino
e pesquisa que o Observatório de Educação em Direitos Humanos (OEDH) da
Unesp desenvolveu a partir de 2012 para culminar em 2014 – cinquentenário
do Golpe militar. O objetivo principal estava com o foco na juventude atual
para pensar o Brasil de hoje e o sentido da cidadania ativa, e fazer avançar
da democracia liberal representativa para uma democracia social participativa,
14 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
capaz de superar a miséria e as desigualdades sociais, alicerce dos demais problemas estruturais do Brasil.
O momento histórico, com a criação da Comissão Nacional da Verdade,
instituída pela lei nº 12.528 de 18 de novembro de 2011 e instalada em maio de
2012, exigia um esforço de toda sociedade brasileira de revistar o triste período
da ditadura civil militar para trazer à luz aquilo que ainda está ocultado. Somente com isso, pode-se suavizar as cicatrizes do sofrimento passado, entender
mais profundamente a sociedade embrutecida que a ditadura nos legou e alimentar a luta por uma democracia social, participativa e igualitária.
Atento a este contexto, OEDH da Unesp iniciou suas atividades, organizando, em abril de 2012, a II Jornada de Direitos Humanos de Bauru, sob a
temática: Memória, verdade e cidadania, hoje. Realizada em parceria om diversos órgãos municipais, estaduais e federais, a Jornada estendeu-se por 10 dias,
com intensa programação acadêmica, cultural-artística e política dirigida para
públicos diversos. Além de palestras e mesas-redondas militantes e ex-presos
políticos, merecem destaques:
• sessão da Caravana da Anistia do Ministério da Justiça, julgando em
Bauru, algumas dezenas de casos;
• oficina “Memória e cidadania, hoje” para professores e diretores da
Rede Estadual, em parceria com o Memorial da Resistência de São
Paulo e Diretoria de Ensino de Bauru;
• exposição Direito à memória e à verdade da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República;
• peça teatral Filha da Anistia, com sessões para 2.000 estudantes do
2º grau; e
• a presença do, então, deputado estadual Adriano Diogo, presidente da
Comissão Estadual da Verdade (CEV) da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, na sessão extraordinária da Câmara Municipal de Bauru, em que foi oficializada a Comissão de Direitos Humanos da Câmara
como colaboradora da CEV. Foi este o embrião que gestou a Comissão
Municipal da Verdade de Bauru, instalada em maio de 2012, como grupo
de apoio à Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal.
Também diversas universidades movimentaram-se nesse sentido, criando
suas comissões da verdade para passarem a limpo a sua história no período
da ditadura e revelar o arbítrio institucional e os movimentos de resistência,
Pelo direito à memória e à verdade na Unesp 15
Clodoaldo Meneguello Cardoso
em que se vitimaram professores, funcionários e alunos. Vigilância, controle,
censura, demissões, aposentadorias compulsórias e até mesmo prisões estão
agora sendo reveladas; até então estavam ocultadas em arquivos empoeirados,
em dossiês trancados e principalmente no silêncio das vítimas mudas e aprisionadas nas paredes da memória.
Projeto em construção
Para estimular o debate no interior da Universidade Estadual Paulista, o
OEDH elaborou, em agosto de 2012, um pré-projeto de pesquisa, com o título:
“Peço a palavra”, perseguindo objetivos semelhantes aos das Comissões da Verdade já existentes em algumas universidades brasileiras. Assim o OEDH daria
sua contribuição para uma possível futura Comissão da Verdade da Unesp.
O pré-projeto “Peço a palavra!” já previa um cronograma de execução em
três fases distintas e com metodologias específicas. A primeira restringia-se à
divulgação do projeto em toda comunidade acadêmica, convites de participação e inscrição dos depoentes entre professores, funcionários e alunos perseguidos pela ditadura, no interior dos “Institutos Isolados de Ensino Superior”
que deram origem à Unesp, criada em 1976.
A segunda fase caracterizava-se pela pesquisa de campo, ou seja, coleta de
dados, documentos em arquivos e de depoimentos por escrito, em áudio ou em
vídeo. Os depoimentos teriam dois focos principais: a repressão institucional e
as ações de resistência. Nesta fase havia duas preocupações metodológicas próprias de pesquisa histórica: uma relacionada aos métodos de manuseio e seleção
de análise de fontes documentais e outra específica de captação de depoimentos
pela metodologia de “história oral”. O segundo expediente metodológico a ser
utilizado nessa primeira fase seria de ordem psicológica. Como se tratam de
situações vividas em momentos de grande sofrimento, os depoentes seriam acolhidos com profundo respeito, afeto e sensibilidade ética para que não sofressem
nenhuma pressão ou incômodo psicológico ao dar seu testemunho totalmente
voluntário e livre de direcionamento por parte do pesquisador e entrevistador.
Na terceira etapa, as atividades estavam voltadas para o campo da linguagem e, portanto, com metodologias específicas dessa área. Aqui o trabalho
envolveria atividades de gravações em áudio e vídeo, de transcrição e, poste-
16 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
riormente, a adaptação da linguagem oral para a linguagem coloquial escrita,
necessária para edição e publicação do texto. A realização do projeto, portanto,
iria requerer o trabalho de equipe multidisciplinar com profissionais de História, Ciências Políticas, Psicologia, Língua Portuguesa, atuando diretamente
na equipe ou por meio de consultoria. Também a pesquisa deveria contar com
alunos bolsistas, em especial, da área de Jornalismo.
O tempo de execução do projeto foi previsto inicialmente para 1 ano (fevereiro de 2013 a fevereiro de 2014), com a participação de 2 alunos bolsistas e
voluntários. Apresentado o pré-projeto para alunos participantes e professores
consultores do OEDH, o projeto ganhou caraterísticas mais amplas.
Agora, com o título de “Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)”, o OEDH apresentou o projeto ao CEDEM – Centro de Documentação e Memória da Unesp, instalado em São Paulo, propondo
parceria. Caminho bastante natural, uma vez que o CEDEM é um importante
centro aglutinador de acervos documentais, arquivos e coleções históricas, de
informações, de referências e de estudos e pesquisas sobre a Unesp e sobre a
história política contemporânea brasileira. Abriga coleções e arquivos produzidos, acumulados ou publicados por pessoas, organizações, partidos políticos e
demais entidades, identificadas como formadoras e integrantes das esquerdas
brasileiras. Em reunião no dia 13 de novembro de 2012, foi aceita, de pronto, a
proposta de parceria do OEDH, pelo – então coordenador do CEDEM – prof.
Antonio Celso Ferreira.
De imediato incorporam-se à equipe do projeto as pesquisadoras do CEDEM:
Anna Maria Martinez Corrêa, coordenadora do projeto Memória da Unesp I e
Solange de Souza, do Acervo e Gestão Documental e a secretária Rosimeire Aparecida Francelin. A seguir o projeto ganhou forma institucional com previsão
orçamentária para bolsas de pesquisadores, viagens para coleta de dados, bolsas
para alunos estagiários e publicação.
Em fevereiro de 2013 apresentado na Reitoria da Unesp, à professora Tânia
Regina de Luca, coordenadora do PDI – Programa de Desenvolvimento Institucional, o projeto: Tenho algo a dizer, foi avaliado e aprovado, no Programa
PDI/13, Memória Social.
Agora o projeto contava com o apoio financeiro do PDI da Unesp, por meio
de duas bolsas para professores pesquisadores do quadro de docentes da Unesp
para realizar a pesquisa no período de maio a dezembro de 2103.
Pelo direito à memória e à verdade na Unesp 17
Clodoaldo Meneguello Cardoso
Viabilizando a pesquisa
Em 2 de abril, o CEDEM e o OEDH publicaram edital público, com ampla
divulgação na comunidade acadêmica unespiana para inscrição e seleção de
docentes-pesquisadores.
O edital contemplou 1 bolsa de pesquisa para docente doutor da Unesp
da área de História e 1 bolsa para docente da área de Ciência Política, com a
finalidade de colher informações sobre eventuais impactos da ditadura civilmilitar de 1964-1985 entre discentes dos antigos Institutos Isolados de Educação Superior do Estado de São Paulo e posteriormente na Unesp desde 1976.
Divulgou-se o edital com a seguinte justificativa:
O CEDEM e o Observatório de Educação e Direitos Humanos da Unesp (OEDH) também firmaram parceria para elaboração do projeto “Tenho algo a dizer”, que visa obter depoimentos de docentes e ex-docentes, servidores técnicos e ex-servidores
técnicos afetados direta ou indiretamente pelo regime nesse período da nossa história recente.
Com a implementação da Comissão Nacional da Verdade (Lei Federal nº. 12528 de 18/11/2011) será possível conhecer muito do que está ocultado no período compreendido entre
1964 a 1985, em relação às graves violações aos direitos humanos cometidos durante a ditadura civil-militar, bem como as
lutas individuais e coletivas de resistência ao arbítrio.
Pretende-se, assim, participar da reconstrução histórica do período da ditadura militar relacionada à Unesp, em consonância
com os esforços da Comissão Nacional da Verdade e de outras
comissões estaduais, municipais e institucionais criadas e em
fase de criação, atualmente no Brasil.
O projeto envolverá a coleta de depoimentos voluntários e documentos, para publicação, que revelem experiências vividas
por docentes e funcionários (e ex) da Unesp e dos, então, “Institutos Isolados”, relacionadas à ditadura civil-militar do período de 1964 a 1985. Dessa forma, o projeto “Tenho algo a di-
18 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
zer” também contribuirá com a construção da própria história
da Unesp. (Edital disponível em: <http://www.cedem.unesp.
br/#!/editais/>. Acesso em: 10 set. 2014.)
Ainda no edital estavam previstas as seguintes atividades do projeto:
a) pesquisa nos depoimentos existentes no CEDEM para indicação de possíveis contatos;
b) definição dos fundamentos teóricos e metodológicos das entrevistas, do
grupo de entrevistados, da preparação do campo de trabalho, das rotinas de transcrição e de conferência e arquivamento;
c) contatos com entrevistados, agendamento das entrevistas e viagens;
d) realização de aproximadamente 30 entrevistas, totalizando 120 horas de
gravação em áudio e/ou em vídeo; e
e) elaboração de texto para publicação.
Seguindo as normas do Edital, foram contempladas com as bolsas as professoras Maria Ribeiro do Valle e Eliana Maria de Melo Souza, ambas da Faculdade de Ciências e Letras, câmpus da Unesp de Araraquara.
Com a equipe completa, iniciaram-se em maio de 2013 as reuniões de estudos de fundamentação teórico-metodológica e de planejamento para execução
da pesquisa. Posteriormente, a professora Eliana solicitou seu desligamento do
projeto, por motivos de ordem pessoal. Com isso o projeto sofreu uma significativa redução no número de entrevistas previsto, cujo trabalho foi feito apenas
por uma única professora bolsista Maria Ribeiro do Valle. Mesmo assim, devido à excelente qualidade dos depoimentos/testemunhos coletados, os objetivos
da pesquisa foram plenamente atingidos.
A pesquisa realizada na Unesp teve como referências teóricas o conjunto
de publicações sobre o direito à memória e a verdade, da Secretaria de Direitos
Humanos da Presidência da República e do Ministério da Justiça. Atuou-se em
sintonia o esforço nacional – e das muitas comissões da verdade espalhadas
pelo Brasil – em resgatar os fatos ocultados no período da ditadura.
As narrativas do passado, alegres ou tristes, modulam nossa identidade,
nos ensinam a viver com consciência o presente e a preparar o futuro. É fundamental manter a memória viva para que as lindas histórias nunca se acabem e
as tristes, jamais voltem a acontecer. Mas nem todos pensam assim. Os poderosos que causaram o sofrimento injusto procuram apagar ou ocultar o passado
Pelo direito à memória e à verdade na Unesp 19
Clodoaldo Meneguello Cardoso
para enfraquecer o espírito do povo. Eles sabem que povo sem memória viva
é um povo culturalmente frágil. Por isso, o esforço do resgate da memória de
tempos sombrios é sempre uma luta de resistência, uma luta de libertação.
Sob a orientação dos professores de história participantes da equipe, debateram-se aspectos importantes metodológicos da pesquisa histórica, que neste
caso seria prioritariamente, por meio de entrevistas. Optou-se pela metodologia de “história oral”, considerada mais adequada para colher informações por
meio de testemunhos voluntários. Esta metodologia prioriza a não interferência do pesquisador no direcionamento das respostas do entrevistado, embora
aquele tenha um objeto formal específico na coleta das informações, que neste
caso centrava-se no arbítrio institucional e nos movimentos de resistência. Outro aspecto metodológico da “história oral”, debatido, foi a importância sobre
a preparação do campo de trabalho antes da entrevista, ou seja, o pesquisador
deve realizar uma ambientação inicial para que o entrevistado esteja um clima
de tranquilidade confiabilidade e naturalidade. Assim garante-se um depoimento mais espontâneo possível. Também se definiram as orientações sobre
o trabalho de transcrições das entrevistas, a ser feito em duas etapas, como
de praxe: na primeira, transcreve-se a linguagem oral, pra num segundo momento realizar a adaptação da linguagem oral escrita para a linguagem escrita
coloquial, própria para publicação e/ou arquivamento.
Um segundo momento de estudos foi sobre a conjuntura histórica nacional
e internacional em que ocorreram os fatos relacionados com a ditadura civil-militar. Houve também uma explanação, da profa. Anna Maria Martinez, sobre a
política de criação de unidades universitárias, pelo poder público, entre 1956 e
1964, no interior do estado de São Paulo. Essas unidades denominadas Institutos
Isolados de Ensino Superior foram, em parte reunidas numa universidade, em
1976, dando origem à Unesp. No período pós Golpe de 64, houve fatos marcantes
de repressão da ditadura e de resistência no interior de alguns dos Institutos Isolados como: Assis, São José do Rio Preto, Botucatu e outros. Daí a importância de
a pesquisa Tenho algo a dizer abranger um período anterior ao da existência da
Unesp. A história dos Institutos Isolados é parte intrínseca da própria história da
Unesp, como mostra o grande Projeto Memória da Universidade, desenvolvido
pelo CEDEM sob a coordenação da Profa. Anna Maria Martinez.
Outra diretriz estabelecida para a pesquisa refere-se à pesquisa/análise,
antes mesmo de dar início às entrevistas, de dois acervos do CEDEM, como
20 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
fontes documentais: a) partes de depoimentos colhidos no projeto Memória
da Universidade e b) processos sofridos por docentes, técnico-administrativos e pesquisadores da Unesp por motivação política. Desse último arquivo, a
pesquisa contou com uma listagem de 23 professores que foram demitidos ou
compulsoriamente aposentados pela ditadura. O dossiê destes processos estava
sob a guarda do Conselho Estadual de Educação do Estado de São Paulo, já
transferida para o CEDEM. Do projeto Memória da Universidade foram selecionadas 17 entrevistas para estudos e levantados 71 nomes que potencialmente poderiam ser entrevistados no projeto Tenho algo a dizer.
No planejamento da pesquisa foram previstas 30 entrevistas, totalizando
60 horas de gravação audiovisual e perfazendo um total de 40 dias de trabalho
e viagens durante o ano de 2013. Programou-se, inicialmente, uma divulgação
do projeto em toda comunidade acadêmica da Unesp, abrindo inscrições para
quem se despusesse relatar memórias na Unesp no período da ditadura. Também foram feitos convites individuais para docentes previamente selecionados.
A pesquisa de campo foi efetuada, durante todo o ano de 2013, pela professora Maria Ribeiro do Valle, realizando entrevistas em diversas cidades do
estado de São Paulo. O custeio das viagens teve o apoio da FCL-Unesp de Araraquara, onde atua a docente.
Conforme previsão no projeto, as transcrições das entrevistas ficariam a
cargo de alunos bolsistas a serem contratados para este fim sob a supervisão de
professores da equipe do projeto. Como não foi possível a liberação de bolsistas
para o projeto, o trabalho de transcrição das entrevistas foi realizado, em parte,
por bolsistas do Observatório de Educação em Direitos Humanos, com sede no
câmpus de Bauru. Em parte, pois com a greve ocorrida na universidade, ele foi
concluído por uma profissional na área, contratada com verba da Capes, obtida
pela profa. Maria Ribeiro do Valle.
Concluídas as entrevistas e suas transcrições no final de 2013, ficou para
2014, a organização o material coletado, a produção de textos, as revisões e a
normalização e a produção do livro-relatório a ser publicado. Devido a imprevisto, como paralizações na universidade, este trabalho estendeu-se até o
final do ano.
Pelo direito à memória e à verdade na Unesp 21
Clodoaldo Meneguello Cardoso
Jornada de abril: 50 anos do golpe
O projeto de pesquisa: Tenho algo a dizer foi concebido no interior de atividades de extensão universitária, de caráter acadêmico-político e, por isso, tem
características teóricas e práticas indissociáveis. Tal é o perfil do campo de atuação em direitos humanos. Pensar os direitos humanos – como, por exemplo, o
direito à memória – em seus fundamentos teóricos, implica em realizar também
intervenções sociais, especialmente, no campo da educação formal e informal.
Por esta razão, uma questão nos desafiava em 2013: de que modo a temática do projeto Tenho algo a dizer, a ditadura, poderia ser refletida e vivenciada
pela comunidade acadêmica da Unesp, no decorrer da própria pesquisa? Buscando a resposta, o OEDH propôs ampliar a parceria com o CEDEM, com a
realização de um grande evento em abril de 2014, pela passagem do cinquentenário do Golpe de 64. Concebeu-se uma jornada de eventos, articulada pelo
OEDH, durante todo o mês de abril, com atividades simultâneas em São Paulo
e em cidades do interior do estado, em que há a presença da Unesp.
Pensar o Golpe militar – 50 anos depois, a partir da memória, da história e
dos direitos humanos foi o foco que norteou a organização dos eventos, na jornada de abril/2014. Conferências, mesas, debates, vídeos, rodas de conversas,
apresentação de trabalhos acadêmicos e manifestações culturais e artísticas
ofereceram subsídios e/ou estimularam reflexões sobre a ditadura civil-militar
no Brasil (1964-1985) e sua relação com a realidade dos dias atuais.
Por que memória, história e direitos humanos?
A memória. Em primeiro lugar, é preciso resgatar a memória das vivências
e as lembranças daqueles que travaram a luta contra o arbítrio e sofreram diretamente a repressão violenta do regime. Milhares de brasileiros foram vítimas
da ditadura em prisões arbitrárias, torturas, assassinatos, desaparecimentos e
exílios. É preciso dar voz para toda essa dor contida em décadas de silêncio.
Falar publicamente e dar testemunhos sobre as torturas, desaparecimentos e
sobre as perdas de entes queridos expurgam o sofrimento tatuado na alma das
vítimas e recuperam o mínimo de equilíbrio para caminhar na vida. Apesar de
triste, manter viva essa memória é condição primeira para que o terrorismo de
Estado jamais volte a acontecer. A memória dos fatos, dos sentimentos e das vivências pessoais é o fermento de nossa identidade e o alicerce para a construção
de nossos sonhos pessoais e coletivos.
22 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
A verdade. Torna-se também imperativo conhecer as verdades históricas
desse período, muitas vezes ocultado na educação das novas gerações. E o conhecimento histórico passa pela pesquisa nas fontes e em bibliografia especializada, que oferece subsídios para análises e interpretações mais globais a partir
de uma cadeia de relações dos acontecimentos isolados. Este é o caminho para
a análise conjuntural e estrutural. Na primeira, o conhecimento histórico do
Golpe de 64 e da ditadura vai além do mosaico de informações sobre os fatos
da época. É preciso analisar a conjuntura histórica nacional que, na época, desenhava a construção de uma democracia social no Brasil. Com grande apoio
e participação popular, o governo de João Goulart propunha reformas de base
na política, no acesso a terra, na educação e em outras áreas, causando grande
incômodo ao contexto político dominado por partidos conservadores. A análise
conjuntural do Golpe exige ainda um olhar para o cenário internacional daquele
momento histórico, marcado pela Guerra Fria entre os EUA e a URSS. Esta divisão maniqueísta do mundo foi o grande álibi para o imperialismo econômico
e cultural das duas grandes potências centrais em relação aos países periféricos.
Na América Latina, por exemplo, os EUA, em nome do combate ao comunismo,
arvoraram-se no direito de intervir em políticas nacionais, sustentando golpes
de Estado e apoiando a implantação de ditaduras em países que buscavam democraticamente soluções para a superação das brutais desigualdades sociais.
Por sua vez, a análise estrutural tem como referência a longa duração da história, um tempo de séculos, com ritmo lento de mudanças, em que se formam
as estruturas da vida material e cultural de um povo. Neste prisma, o Golpe de
64 foi mais um dos fatos históricos decorrentes da estrutura social conservadora
e autoritária das elites nacionais, que – desde o Brasil colonial – são os donos
da terra, do trabalho e do poder político. Na longa duração, a história do Brasil
apresenta poucas e curtas experiências de vida política democrática e mais raras
ainda, de governos voltados realmente para a emancipação humana da população mais pobre e excluída. O que se vê, em seus 500 anos, é uma estrutura
socioeconômica, no campo e na cidade, construída a partir dos interesses das
elites que, sem pudor, escravizaram índios e negros, exploraram mão-de-obra
dos imigrantes e, hoje, dos nordestinos. E sempre que não foi possível abafar a
ferro e fogo os movimentos sociais – como na Guerra dos Canudos ou no Golpe
de 64 – as elites souberam realizar acordos de cúpula, mantendo-se no poder,
mesmo com nova roupagem – como na Proclamação da República ou na aber-
Pelo direito à memória e à verdade na Unesp 23
Clodoaldo Meneguello Cardoso
tura lenta, gradual e segura pós-ditadura, na década de 1980. Todavia, o que
predomina na história do Brasil é o perfil estrutural de uma sociedade, marcada
pelas desigualdades sociais e pelo autoritarismo virulento. A ditadura civil-militar, sob as lentes da longa duração, não foi um regime de exceção, mas de regra.
Com as análises conjuntural e estrutural, o conhecimento da verdade histórica do Golpe proporciona-nos uma compreensão mais ampla e profunda
não apenas do referido período histórico, mas também da sociedade brasileira
atual. E essa é condição para a construção de qualquer processo de superação
de seus problemas estruturais.
Os direitos humanos. Pensar a dignidade humana na sociedade brasileira
é repensar o sentido de cidadania, hoje. Construir uma cidadania ativa e vivenciá-la a cada dia passa primeiramente pela desconstrução do pálido conceito
de cidadania, ainda bastante difundido na mídia e na educação. Para essa cidadania formal, ser cidadão é possuir legalmente direitos individuais e deveres
sociais já estabelecidos. A posse de direitos legais e o cumprimento dos deveres
sociais, somados ao caráter moral e ético do indivíduo constituem o tripé da
cidadania passiva, uma vez que essa nos tira a dimensão de sujeito das transformações sociais. Tal conceito de cidadania, na realidade, está muito mais relacionado à possibilidade de acesso ao consumo de bens supérfluos, do que
propriamente àqueles bens sociais coletivos que tornam digna a vida humana
como: educação, saúde, trabalho, moradia, transporte, cultura, lazer etc. Esses
são conquistas de uma cidadania ativa.
Como o próprio nome expressa, a cidadania ativa trata-se de uma a ação
coletiva da população organizada para concretamente conquistar, proteger e
ampliar direitos individuais e coletivos fundamentais. É a chamada luta pelos
direitos humanos.
Com o resgate da memória das vivências passadas e da compreensão crítica
dos seus processos históricos, podemos, por meio da cidadania ativa, caminhar
em direção a uma democracia social e participativa, capaz de transformar as
estruturas sociais brasileiras geradoras da miséria, da pobreza e de outras formas de desigualdades e exclusão social.
A jornada de abril/2014 envolveu 10 unidades da Unesp que aceitaram o
convite, aderindo ao projeto: Araraquara, Assis, Bauru, Botucatu, Ilha Solteira, Marília, Presidente Prudente, Rio Claro, Registro e São José do Rio Preto.
Também houve atividades em São Paulo, em parceria com o CEDEM, com o
24 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Memorial da Resistência de São Paulo e Memorial da América Latina. Em cada
local, organizou-se um evento (ou mais) sobre o tema a partir de suas especificidades acadêmicas ou culturais. As diversas propostas foram articuladas
em reuniões preparatórias, coordenadas pelo OEDH-Unesp, câmpus de Bauru.
Realizar uma jornada de eventos articulados tematicamente foi uma experiência inédita e exitosa na Unesp, uma universidade multicampi. E mais. Durante
a preparação da Jornada, ocorreram reuniões – no câmpus de Marilia – para
debater sobre criação da Comissão da Verdade na Unesp, com adesão de professores de várias unidades da Unesp.
A abertura das atividades da jornada “Golpe militar – 50 anos: memória,
história e direitos humanos” aconteceu no dia 31 de março de 2014, na reitoria
da Unesp. Na sessão, a vice-reitora no exercício da reitoria, a profa. Marilza
Vieira Cunha Rudge, e a pró-reitora de Extensão Universitária, profa. Mariângela Spotti Lopes Fujita, deram posse à Comissão da Verdade da Unesp,
presidida pela professora Anna Maria Martinez Corrêa, ex-coordenadora do
CEDEM. Comissão da Verdade da Unesp foi instituída em 18/3/2014 a partir de
Portaria nº 88, de 24 de fevereiro de 2014. Após a cerimônia de posse, realizouse a mesa-redonda: “Ditadura civil-militar: história, verdade e legado social”,
com a participação do historiador Antônio Celso Ferreira, então coordenador
do CEDEM; Marco Aurélio Nogueira, diretor do Instituto de Políticas Públicas
e Relações Internacionais (IPPRI) e a profa. Angélica Lovatto, representando o
prof. Marcos Del Roio (FFC-Marília), convidado para a Mesa. A coordenação
da Mesa ficou a cargo do docente Clodoaldo Meneguello Cardoso, coordenador do OEDH. Toda a programação dos eventos sobre a ditadura militar ocorridos em unidades da Unesp e pelos parceiros de São Paulo está registrada no
site do Observatório de Educação em Direitos Humanos da Unesp.
Em síntese
Foi assim, então, que a ideia-força ‘Unesp na ditadura’, concebida no OEDH
-Unesp, ganhou sua primeira expansão com a realização, em abril de 2012, da
II Jornada de Direitos Humanos de Bauru: memória, história e cidadania, hoje.
Posteriormente a ideia desdobrou-se no pré-projeto de pesquisa: Peço a palavra,
posteriormente renomeado como: Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na
Pelo direito à memória e à verdade na Unesp 25
Clodoaldo Meneguello Cardoso
ditadura civil-militar (1964-1985). Em novembro de 2012, o projeto de pesquisa
ganhou a parceria do CEDEM e recebeu apoio da Reitoria, pelo PDI – Programa
de Desenvolvimento Institucional da Unesp. Como interface prática da pesquisa desenvolvida em 2013/2014, realizou-se uma ampla jornada de eventos, em
abril de 2014, pelo cinquentenário do Golpe Militar de 64, em São Paulo e em
dez unidades da Unesp. Na abertura da jornada na Reitoria, foi instalada a Comissão da Verdade da Unesp.
Das pesquisas, reflexões e debates da jornada de eventos, em abril de 2014,
produziram-se, na Unesp, vários livros sobre diversos aspectos do período da
ditadura e seus desdobramentos históricos na política, na economia, na educação e na cultura em geral. É uma contribuição da Unesp ao esforço nacional –
do poder público progressista, das comissões da verdade e de vários setores da
sociedade – em resgatar as memórias e revelar verdades ocultadas, deste período sombrio de nossa história. Somente assim podemos perceber o triste legado
social da ditadura na sociedade brasileira atual, marcada por uma cultura de
violação dos direitos humanos individuais e sociais. Apesar dos avanços sociais nos governos progressistas pós-ditadura, o Estado brasileiro continua, em
grande parte, sob a tutela das elites conservadoras. Então, convivemos ainda
com a cultura da tortura, justiçamentos, ditadura midiática, criminalização
dos movimentos sociais e exclusão de grande parte da população aos direitos
de justiça, salário digno, moradia, alimentação, saúde, educação gratuita, lazer... São os traços das desigualdades e do autoritarismo de nosso país.
Clodoaldo Meneguello Cardoso
Possui graduação em Filosofia e Letras. Mestre e doutor em Educação pela
Unesp-Marília. Como pesquisador associado ao LEI – Laboratório de Estudos sobre a Intolerância – FFLCH/USP, realizou o Pós-Doutorado em História Social. É
professor aposentado do Departamento de Ciências Humanas, Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, Unesp-Câmpus de Bauru, onde desenvolve atividades de pesquisa e extensão como: coordenador do OEDH – Observatório de
Educação em Direitos Humanos, e coeditor da RIDH – Revista Interdisciplinar de
Direitos Humanos. É autor, dentre outros, do livro: Tolerância e seus limites, Editora
da Unesp. [email protected]
A UNIVERSIDADE NOS TEMPOS DA
GUERRA FRIA E DA DITADURA MILITAR:
CONTESTAÇÃO E REPRESSÃO
Antonio Celso Ferreira
O
s impactos da ditadura militar nos Institutos Isolados do Ensino Superior
do Estado de São Paulo e na Unesp1, além do contexto nacional, devem
ser compreendidos no complexo quadro internacional do pós-guerra, coincidente com os anos da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. Eric
Hobsbawm designou esse período como a Era do Ouro (1945-1990), marcada
tanto por uma enorme expansão das economias capitalistas centrais, quanto
por movimentos de descolonização, revolução e modernização nos países então
considerados pertencentes ao Terceiro Mundo, entre eles o Brasil2.
A Era do Ouro foi caracterizada por um conjunto de processos que abalaram
os modos de vida das sociedades locais, embora de maneira desigual nos vários
continentes e nações. Os mais importantes foram a grande explosão demográfica, a “morte do campesinato”, a urbanização acelerada e a expansão da alfabetização básica – ainda que se mantivessem índices alarmantes de analfabetis-
1
Os Institutos Isolados do Ensino Superior do Estado de São Paulo foram criados nas
décadas de 1950 e 1960, tendo sido integrados à Universidade Estadual Paulista “Júlio de
Mesquita Filho”, implantada em 1976 com a junção daquelas faculdades e de novos campi
fundados pelo governo do Estado. O assunto é desenvolvido no próximo capítulo, por Anna
Maria Martinez Correa.
2
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Ver, especialmente, a parte dois: A Era do Ouro, p. 223-392.
28 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
mo nos países pobres –, aumentando significativamente a demanda pelo ensino
médio e pela educação superior. Como diz o historiador britânico no livro Era
dos Extremos, “hoje é evidente que a Era do Ouro pertenceu essencialmente aos
países capitalistas desenvolvidos, que, por todas essas décadas, representaram
cerca de três quartos da produção do mundo e mais de 80% de suas exportações
manufaturadas [...]. Apesar disso, a Era do Ouro foi um fenômeno mundial, embora a riqueza geral jamais chegasse à vista da maioria da população do mundo”3.
Em escala global, a educação despontou como valor universal e o principal
meio para aumentar a renda familiar e elevar o status social, especialmente
para as camadas sociais médias. Como decorrência da expansão do sistema
educacional, ampliou-se o número de estudantes e professores nos diversos
níveis de ensino, multiplicaram-se os cursos superiores, inclusive nos países
dependentes, como Brasil, nos quais a criação de universidades passou a ser
vista como símbolo de independência nacional. Foi nessas circunstâncias que
a juventude, sobretudo estudantil, emergiu como camada social relativamente
autônoma nas várias partes do globo, ainda que “numa posição meio incômoda
em relação ao resto da sociedade”, uma vez que “ao contrário de outras classes
ou agrupamentos sociais mais velhos e estabelecidos, eles não tinham, nela, um
lugar determinado nem um padrão de relações”.4
As universidades tornaram-se lócus de uma cultura própria – aquilo que
se chamou de uma cultura jovem transnacional –, bastante impactada pelas
novas tecnologias de comunicação e pela nascente indústria cultural do cinema
e da música, ainda em sua fase de vanguarda. Nesse ambiente confrontaramse valores tradicionais e modernos no tocante aos comportamentos, conflitos
geracionais e relações entre os sexos, como também se difundiram vários projetos de transformação da ordem social, em diferentes graus de radicalidade e
abrangência. Nelas também repercutiram fortemente os sucessos das revoluções cubana e chinesa, bem como das lutas anticoloniais das nações africanas,
asiáticas e latino-americanas, levando milhares de jovens ao redor do mundo a
se identificarem, embora muitas vezes de forma difusa, com valores anticapitalistas e contrários à organização tecnocrática da sociedade.
3
HOBSBAWM, E., op. cit., p. 255.
4
Idem, p. 295
A universidade nos tempos da Guerra Fria e da Ditadura Militar: contestação e repressão 29
Antonio Celso Ferreira
Dos fins da década de 1950 a 1968, ano que marcaria simbolicamente o ápice da contestação juvenil, proliferaram mundo afora diversas formas de protesto e resistência, em sua maioria, reprimidos com violência. Os campi e cidades
universitárias tornaram-se lugares de novos modos de reflexão, expressão e
práticas políticas. Em países da Europa Ocidental, como a França, foram radicalmente questionadas as estruturas centenárias e obsoletas da universidade,
incapazes de corresponder às expectativas dos jovens. Em alguns deles, como
na própria França e na Itália, o movimento estudantil chegou a impulsionar
o movimento operário, tendo sido construídas algumas alianças esporádicas
entre esses dois setores. Nos Estados Unidos, os movimentos estudantis assumiram formas de resistência às guerras imperialistas, como a do Vietnã, e de
apoio às lutas pelos direitos civis dos negros, das mulheres e dos homossexuais.
No Brasil, as lutas travadas na universidade pautaram-se, sobretudo, pelo
ideário do desenvolvimento nacional autônomo e das reformas sociais e, a partir de 1964, representaram o mais importante foco de resistência à ditadura militar instalada no país. Uma parte significativa da população estudantil identificou-se com os projetos de transformação defendidos por organizações da
esquerda socialista e comunista ou pelos católicos de esquerda, mobilizando-se
em torno das propostas da reforma universitária e de outras reformas estruturais, mormente a reforma agrária e o movimento pela erradicação do analfabetismo. Ainda que as expressões artísticas, políticas e culturais das vanguardas
europeias e norte-americanas também encontrassem eco na vida universitária
brasileira, foram mais valorizadas as manifestações da cultura nacional-popular que, desde os anos 50, eram temas centrais do Cinema Novo, do teatro
politicamente engajado e da música popular brasileira, em franca expansão.
A partir de meados dos anos 60, alguns setores do movimento estudantil se
radicalizaram aderindo à luta armada contra a ditadura militar, no que foram
respondidos por brutal repressão policial e militar.
Não é preciso dizer que, dos finais dos anos 60 a meados da década seguinte, tais movimentos, no Brasil e no exterior, já haviam sido duramente penalizados ou mesmo dizimados, marcando o ocaso das rebeliões dos jovens e o fim
de uma era universitária.
Nesse contexto, as universidades, o movimento estudantil e a rebelião dos
jovens tornaram-se objeto de reflexão intelectual de pensadores vindos de dife-
30 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
rentes linhas e tradições teóricas, tais como Herbert Marcuse, Hannah Arendt5,
Guy Debord, Cornelius Castoriadis, Michel Foucault e até mesmo Jean-Paul
Sartre, filósofo já então consagrado como o mais importante pensador engajado nas causas revolucionárias. O maoísmo e o guevarismo também ganharam
a simpatia de muitos desses movimentos, sem falar das ideias contraculturais
que se expandiram com força notadamente nos Estados Unidos6.
No caso brasileiro, o pensamento de Sartre, muito mais do que os outros autores citados, teve grande repercussão na universidade, assim como o maoísmo,
o guevarismo e as obras dos teóricos marxistas, tanto os clássicos – Marx, Lenin,
Trotsky, Gramsci – quanto os pensadores marxistas estruturalistas Althusser e
Poulantzas. Os pensadores e líderes da contracultura, entretanto, somente alcançariam alguma influência, entre nós, mais tarde, à altura da década de 1970.
Desde a década de 1930, intelectuais brasileiros como Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, entre outros, fundaram o movimento
da Escola Nova que colocou em debate a necessidade da reforma da educação
nacional nos níveis fundamental e médio. O movimento tinha como meta a
construção de um sistema estatal de ensino público, laico, livre e aberto – o
único meio efetivo de combate às desigualdades sociais da nação. Suas propostas tiveram desdobramento a partir dos anos 50 nas obras e na atuação política
de pensadores como Darcy Ribeiro, Álvaro Vieira Pinto, Florestan Fernandes e
Emília Viotti da Costa – para citar apenas alguns dos mais importantes intelectuais que então se envolveram na luta pela reforma universitária. Essa questão
passou a ser considerada prioritária para o desenvolvimento nacional autônomo no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960) e, sobretudo, no de João
Goulart (1961-1964), quando integrou a pauta das Reformas de Base, combatidas pelas forças conservadoras e que levariam à queda de Goulart. Nesses anos,
o debate sobre a reforma universitária teria grande ressonância não só entre
intelectuais progressistas como também entre os estudantes.
Não era para menos, uma vez que a universidade brasileira surgiu tardiamente e desvinculada de projetos nacionais consistentes: no período monár5
A propósito desses dois autores, consultar VALLE, Maria Ribeiro. A violência revolucionária em Hannah Arendt e Herbert Marcuse. São Paulo: Editora da Unesp, 2006.
6
A respeito do assunto, consultar ROSZAK, Theodore. A Contracultura. 2. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1972.
A universidade nos tempos da Guerra Fria e da Ditadura Militar: contestação e repressão 31
Antonio Celso Ferreira
quico (1808-1989), a Coroa implantou algumas escolas superiores autônomas
para a formação de profissionais liberais, especialmente nos campos da medicina, do direito e da engenharia; e na Primeira República (1889-1930), o sistema foi descentralizado, o que possibilitou o surgimento de algumas faculdades
públicas e privadas – estas geralmente confessionais – nos estados economicamente mais dinâmicos. Somente depois de 1930 é que foram criadas as primeiras universidades públicas no país: A Universidade Nacional do Rio de Janeiro,
a efêmera Universidade do Distrito Federal – ambas pelo governo federal – e a
Universidade de São Paulo, implantada pelo governo estadual.
Nos anos 50 e 60 ampliou-se o número de faculdades estaduais ou municipais, como, por exemplo, os já referidos Institutos Isolados do Ensino Superior
do Estado de São Paulo. Nos primeiros anos da década de 1960, sob o governo
Goulart, e como parte das tentativas de remodelação das estruturas universitárias
nacionais, foi criada a Universidade de Brasília, projetada por Darcy Ribeiro, que
seria seu primeiro reitor. Concebida de maneira inovadora, integrada e voltada
para o desenvolvimento científico e tecnológico nacional, a UnB foi uma das primeiras a sofrer um processo de desmontagem desde o golpe civil-militar de 19647.
À altura da década de 1960, os principais diagnósticos dos educadores indicavam a incapacidade do sistema em absorver as novas gerações de estudantes saídos do ensino médio, bem como o arcaísmo, os modelos copiados do
exterior e a fragmentação das estruturas universitárias existentes. Em seu livro
A universidade necessária, escrito no período do exílio e publicado em 1969,
Darcy Ribeiro sintetiza com rara lucidez os dilemas da universidade brasileira
e latino-americana nos tempos da Guerra Fria, bem como a submissão das elites políticas e intelectuais do continente ao Império norte-americano:
Nas nações historicamente atrasadas, os sintomas desta crise
conjuntural, surgem como efeitos reflexos, entre os quais sobressai o de desafiar suas universidades – que fracassaram na
tarefa de absorver, aplicar e difundir o saber humano atingido
nas últimas décadas – a realizar a missão quase impraticável de
auto-superar suas deficiências para dominar um saber novo que
se amplia cada vez mais, ou ver aumentar progressivamente sua
7
Consultar RIBEIRO, Darcy. UnB: invenção e descaminho. Rio de Janeiro: Avenir Editora, 1978.
32 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
defasagem histórica em relação às nações adiantadas. [...] A política de desenvolvimento autônomo exige [...] o máximo de lucidez
e intencionalidade, tanto em relação à sociedade nacional como
em relação à universidade. E só pode ser executada através de um
diagnóstico cuidadoso de seus problemas, uma planificação rigorosa de seu crescimento e uma escolha estratégica de objetivos
necessariamente opostos aos de uma modernização reflexa. [...]
A política autonomista aspira a transfigurar a universidade como
um passo em direção à transformação da própria sociedade, a fim
de lhe permitir, dentro de prazos possíveis, evoluir da condição
de um ‘proletário externo’ destinado a atender as condições de
vida e de prosperidade de outras nações, à condição de um povo
para si, dono do comando de seu destino e disposto a integrar-se
na civilização emergente como uma nação autônoma”8.
Tal diagnóstico resultara da experiência do autor no exílio como convidado por diversos governos para analisar e propor reformas universitárias em
países como o Uruguai, Costa Rica, Venezuela, Peru e Argélia. Nessa época,
contudo, um a um, os países da América Latina seguiriam o mesmo destino do
Brasil, com seus governos populares derrubados pelo imperialismo norte-americano em aliança com os setores nacionais retrógrados e ultradireitistas. Essa
escalada não se deu pacificamente, ao contrário, encontrou forte resistência de
setores nacionalistas e socialistas, particularmente nos movimentos estudantis. Ao longo dos anos 60 e meados de 70, as universidades foram os principais
bastiões de luta contra os regimes ditatoriais.
O movimento estudantil brasileiro organizou-se a partir da década de 1930,
com significativa presença no interior das faculdades e das entidades estudantis
– como as casas de estudantes, centros e diretórios acadêmicos –, desaguando na fundação da UNE em 1937/1938, durante o Estado Novo, com apoio de
Getúlio Vargas. Desde então, participou ativamente da mobilização da opinião
pública na luta contra o nazi-fascismo e da entrada do Brasil na Segunda Guerra
Mundial para combater aqueles regimes. Apesar disso, as relações com Getúlio nem sempre foram consensuais, sobretudo nos anos finais do Estado Novo,
8
RIBEIRO, Darcy. A universidade necessária. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969, p. 8-10.
A universidade nos tempos da Guerra Fria e da Ditadura Militar: contestação e repressão 33
Antonio Celso Ferreira
quando vários setores estudantis passaram a defender a redemocratização do
país. Nessa época, os comunistas perderam a hegemonia no movimento, que
passou também a ser disputado por estudantes ligados às vertentes liberais capitaneadas pela UDN, e por simpatizantes do socialismo democrático9.
Malgrado as acirradas disputas políticas no interior da UNE, no decorrer
dos decênios de 1940 e 1950, a militância estudantil exerceu grande protagonismo político, ampliado ainda mais pelo surgimento de entidades estudantis
secundaristas por todo o país. A época foi marcada por numerosas manifestações – greves, passeatas, comícios, quebra-quebras – que reivindicavam tanto
a melhoria das condições de vida dos alunos – como a diminuição dos preços
das passagens de bonde e outras pautas de natureza econômica e assistencial –,
quanto questões diretamente políticas, como a democracia interna nas escolas,
as reformas curriculares e a maior presença dos estudantes na vida pública.
Em fins dos anos 40, sob a direção das tendências comunistas, a UNE liderou
campanhas nacionais contra a alta do custo de vida, pela indústria siderúrgica
nacional e pelo monopólio estatal do petróleo.
A mobilização estudantil cresceu ainda mais a partir do final dos anos 50,
numa conjuntura ideológica e político-partidária cada vez mais tensionada.
Com a vitória dos setores de esquerda – comunistas e católicos progressistas –
na direção da entidade, ganhou corpo o discurso anti-imperialista e favorável
a reformas estruturais do país. Em contrapartida, disseminou-se também o
discurso anticomunista no movimento estudantil, alinhado à UDN e apoiado
por entidades empresariais.
Na época também foram fundados alguns institutos formados por intelectuais, empresários e representantes da sociedade civil, cujas teses polarizavam
os debates e repercutiam fortemente no meio estudantil. O Instituto Superior
de Estudos Brasileiros – ISEB, criado em 1955 e vinculado ao MEC, aglutinou os
intelectuais progressistas – comunistas e nacionalistas –, defensores do desenvolvimento nacional autônomo e das reformas estruturais do país. No campo
liberal e conservador surgiram o Instituto Brasileiro de Ação Democrática –
IBAD (1959) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais – IPÊS (1961), financia-
9
Um panorama amplo e bem documentado das disputas políticas no interior da UNE até a
derrubada do governo Jango é exposto no livro recentemente publicado de MATTOS, André
L. R. Uma história da UNE (1945-1964). Campinas, SP: Pontes Editora, 2014.
34 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
dos por agências e fundações norte-americanas, que pregavam o alinhamento
e a subordinação do Brasil às políticas norte-americanas. Além destes, a Escola
Superior de Guerra já funcionava desde 1949, expressando o anticomunismo da
Guerra Fria que se disseminava a partir dos Estados Unidos10.
A UNE teria presença marcante na campanha pela posse de João Goulart,
em 1961 e, durante seu governo, desenvolveu nacionalmente ações pela Reforma
Universitária, pensada nos termos de uma universidade popular, democrática e
nacional. Em alguns estados, os estudantes apoiaram as Ligas Camponesas em
sua luta contra o latifúndio e também participaram dos movimentos de alfabetização de adultos e educação popular, orientados pelo método de Paulo Freire.
Além disso, a UNE organizou uma greve nacional reivindicando participação
paritária nos colegiados das faculdades, o que despertou forte reação da hierarquia universitária. A mobilização estudantil foi ainda muito expressiva no
campo cultural, com a criação do Centro Popular de Cultura e a UNE Volante,
que percorreram o país em caravanas de teatro, literatura, música e artes11.
Entretanto, como observa Rodrigo Patto Sá Motta em seu recente livro:
[...] entre os professores universitários a situação não era a mesma, e as ideias de esquerda não encontravam tanta receptividade. Nos meios acadêmicos eram fortes os laços com valores
conservadores, em alguns casos até com a extrema direita. Em
geral as faculdades de direito e medicina eram baluartes conservadores, apesar de certas exceções, e, de maneira geral, o
corpo docente pendia politicamente para o centro12.
Desfechado o golpe civil-militar de 1964, o ambiente universitário foi seriamente abalado. Faculdades seriam invadidas pelos agentes da repressão, a
10
Sobre o assunto, consultar TOLEDO, Caio N. ISEB fábrica de ideologias. Campinas, SP:
Unicamp. 1997, e DREIFUSS, René A. 1964: a conquista do Estado. 6. ed. Rio de Janeiro:
Vozes, 2006.
11
De uma vasta bibliografia, consultar BERLINCK, Manoel T. O Centro Popular de Cultura
da UNE. São Paulo: Papirus, 1984.
12
MOTTA, Rodrigo P. S. As universidades e o regime militar: cultura política brasileira e
modernização autoritária. Rio de Janeiro: Zahar, 2014, p. 25.
A universidade nos tempos da Guerra Fria e da Ditadura Militar: contestação e repressão 35
Antonio Celso Ferreira
perseguição aos estudantes ocorreria de maneira implacável com a participação paramilitar de militantes do CCC – Comando de Caça aos Comunistas,
tendo sido incendiada e depredada a sede da UNE, no Rio de Janeiro, e sua
direção posta na ilegalidade.
Inicia-se a Operação Limpeza das universidades – expressão traduzida da
Operation Clean-up que revela a participação direta dos organismos da inteligência militar dos EUA em parceria com os militares brasileiros na repressão. A
operação, que ganhou ares de um verdadeiro terrorismo cultural, desencadeou
uma onda de prisões de cientistas e intelectuais de esquerda, intervenção nas
reitorias de várias instituições (UFPB, URGS, URRJ, UFES, UFG, entre outras),
invasão de editoras e expurgos de livros considerados subversivos. As ações repressivas mais intensas atingiram inicialmente a Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, algumas unidades da USP, e, sobretudo a UnB, cujo câmpus foi transformado num verdadeiro
cenário de guerra. Dos Institutos Isolados de Ensino Superior do Estado de São
Paulo, a Faculdade de Filosofia de São José do Rio Preto foi a mais afetada13. Das
áreas mais prejudicadas pelos expurgos, além das Ciências Humanas, destacouse a Física, fato que revela as estratégias imperiais norte-americanas, contrárias
ao desenvolvimento científico autônomo brasileiro, respaldadas pelo silêncio
omisso, ou mesmo pela franca adesão dos acadêmicos conservadores locais.
É preciso dizer, portanto, que “houve grande apoio à derrubada de Goulart
entre professores e intelectuais, que, afinal, eram membros dos grupos sociais
atemorizados pelos riscos de ‘comunização’, e que se aproveitaram da situação
para garantir seus interesses e espaços de poder na hierarquia universitária”14.
13
O assunto será melhor analisado nos capítulos seguintes deste livro.
14
Uma boa síntese da escalada repressiva logo após o Golpe de 64, com documentação inédita
pesquisada nos Estados Unidos, é dada por Motta, Rodrigo P. S. (op. cit., p. 23-64). O autor
relata a perseguição a vários cientistas, como os físicos Mário Schenberg, José Leite Lopes
e Plínio Sussekind, além de educadores e intelectuais como Perseu Abramo, José Albertino
Rodrigues, Paulo Freire, Luiz Costa Lima, entre muitos outros. Em contraponto, não foram
poucas as manifestações de solidariedade ao golpe e às intervenções na universidade por
parte de professores universitários que passariam a servir de esteio ao novo regime, como
Eremildo Viana, Djacir Menezes, Zeferino Vaz, Roque Spencer Maciel de Barros, Luiz An-
36 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
O novo capítulo da repressão e da resistência nas universidades brasileiras
iria se desenrolar até 1968, ou ainda estendendo-se a 1973, período turbulento
em que o novo regime tentou, com enormes titubeios, viabilizar seu projeto
de modernização conservadora do país, que incluía também a modificação da
estrutura do ensino superior conforme um modelo tecnocrático norte-americano. Na primeira fase do regime, durante o governo de Castello Branco e
início da administração de Costa e Silva, a orientação federal oscilou “entre
assumir-se claramente como ditadura e respeitar alguns preceitos das instituições liberais”15. Tal oscilação perdurou até dezembro de 1968, quando a edição
do AI-5 mostrou de modo incontornável sua face ditatorial.
Mas, apesar do controle imposto pelo MEC nos primeiros anos dos governos militares, a UNE e as UEEs continuaram a atuar na clandestinidade, mobilizando-se pela abertura de mais vagas nas universidades a fim de solucionar o
problema dos excedentes (candidatos aprovados nos vestibulares, para os quais
não havia vagas suficientes, especialmente nos cursos mais procurados, como
medicina e direito) e contra o projeto de reforma universitária da ditadura, formulado pelo convênio MEC-USAID16. De 1965 a 1968, as passeatas e os protestos estudantis retomaram as ruas, ganhando contornos explosivos nesse último
ano, a par do levante internacional da juventude, como já foi dito. Essa época foi
marcada, ademais, por grande efervescência cultural e pelo engajamento político dos artistas do teatro, do cinema e da música popular, sobretudo, que angariaram crescente apoio dos setores médios urbanos, cada vez mais descontentes
com os rumos do novo regime. A música de protesto tornou-se a expressão mais
eloquente da contrariedade desses setores em relação aos governos militares17.
tônio Gama e Silva, Alfredo Buzaid, Esther Ferraz, Gilberto Freyre e Manuel Nunes Dias,
muitos dos quais ocupariam altos cargos de direção na estrutura universitária desde então.
15
Motta, Rodrigo P. S., op. cit., p. 27.
16
Acordos negociados secretamente e vindos a público em novembro de 1966 após intensa
pressão política e popular, estabelecidos entre o MEC a United States Agency for International Development (USAID) para reformar o ensino brasileiro de acordo com
padrões importados dos EUA.
17
De uma profusa bibliografia sobre o tema, ver: HOLLANDA, Heloisa B. de; GONÇALVES,
Marcos A. Cultura e participação nos anos 60. São Paulo: Brasiliense, 2. ed. 1982; MELLO,
Zuza H. de. A era dos festivais: uma parábola. Rio de Janeiro: Editora 34, 2003; e RIDENTI,
A universidade nos tempos da Guerra Fria e da Ditadura Militar: contestação e repressão 37
Antonio Celso Ferreira
A morte do estudante do estudante Edson Luís de Lima Souto, em março de
1968, durante uma manifestação contra o fechamento do restaurante universitário Calabouço, no Rio de Janeiro, comoveu os estudantes nacionalmente e boa
parte da opinião pública, desencadeando uma nova onda de mobilização. Desde
então, sucessivas passeatas e protestos alastraram-se pelas principais capitais
do país, chegando mesmo a ameaçar a estabilidade do governo Costa e Silva, de
resto já debilitado, além disso, por disputas internas pelo poder no aparelho militar. Em outubro do mesmo ano, o cerco ao XXX Congresso da UNE, realizado
clandestinamente em Ibiúna (SP), levaria a uma nova vaga de prisões que tiraria
de circulação as principais lideranças do movimento estudantil, entre eles José
Dirceu, Vladimir Palmeira, Franklin Martins e Jean Marc van der Weid.
Com o cerceamento das liberdades imposto pelo AI-5, já referido, e pelo
decreto 477, de fevereiro de 1969, o ambiente universitário se tornou irrespirável. Além dos novos expurgos de professores e alunos, as universidades passaram a ser diuturnamente vigiadas por espiões das agências de informações do
regime (SNI, DSI e ASI), ao mesmo tempo em que a censura se abateu sobre a
imprensa, dificultando a denúncia dos atos arbitrários dos governos. De 1970
a 1973, sob o governo do general Médici, a ainda no governo Geisel, no quadriênio seguinte, o aparato repressivo se fortaleceu levando ao encarceramento
e ao assassinato de diversos militantes comunistas, muitos deles provenientes
dos movimentos estudantis.
Criaram-se assim as condições para a implantação definitiva da reforma universitária da ditadura, concebida de maneira tecnocrática e em grande parte fiel
aos planos estabelecidos pelos acordos MEC-USAID. A nova legislação, colocada
em prática mediante sucessivos decretos, orientou-se pela ideia de racionalização
dos recursos públicos e pela centralização das decisões no MEC, que passou a ser
gerido por técnicos e empresários leais ao regime ditatorial. Objetivava-se, fundamentalmente, transformar a universidade em formadora de recursos humanos para a modernização do país conforme os preceitos capitalistas do Império.
Para isso, o sistema de ingresso dos estudantes nas universidades foi unificado sob o modelo do vestibular classificatório, pondo fim ao problema dos
excedentes. A partir de então, ampliaram-se as vagas para os cursos superiores
Marcelo. Em busca do povo brasileiro: artistas brasileiros, do CPC à era da TV. São Paulo:
Editora Unesp, 2014.
38 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
com a abertura de um grande número de universidades federais e outras estaduais – muitas das quais criadas para atender à clientela política dos governos
-, sem falar do setor educacional privado que cresceria desmedidamente nas
décadas seguintes. No ensino fundamental e médio foram implantadas as disciplinas de Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política do Brasil,
assim como a disciplina de Estudos dos Problemas Brasileiros nos cursos superiores, que funcionariam como formas de propaganda do regime e de combate ao pensamento da esquerda. A criação das licenciaturas curtas foi outra
medida destinada a formar recursos humanos em ampla escala para o ensino
fundamental e médio. A expansão do sistema universitário serviu para minar o
descontentamento de amplas parcelas das classes médias, o que contribuiu ainda mais para a derrocada do movimento estudantil, que só retornaria à cena,
com novas lutas e novos impasses no final dos anos 70.
A reforma universitária extinguiu as cátedras e implantou o sistema de departamentos, conforme o modelo das universidades norte-americanas, criando também uma nova carreira docente, que, em muitos aspectos, correspondeu
aos antigos pleitos dos professores universitários, neutralizando posturas oposicionistas. Tais medidas foram fartamente divulgadas na imprensa juntamente com a intensa propaganda dos sucessos dos governos militares à época do
chamado Milagre Brasileiro18.
Desde a década de 1970, os novos planos federais incluíram também o estímulo à pós-graduação, financiada por agências de fomento e fundações privadas norte-americanas, que cresceria exponencialmente nos decênios subsequentes, igualmente de modo centralizado, passando a moldar a universidade dos nossos dias19.
A Unesp, criada em 1976, e da qual trata este livro, entre várias outras
instituições, foi uma das criações da ditadura, como se poderá depreender da
leitura dos próximos capítulos. Da sua criação aos anos oitenta, não foram pou-
18
Um quadro expressivo dessa conjuntura é dado por ALMEIDA, Maria H. T. NOVAIS. “Carro-zero e pau-de-arara: O cotidiano da oposição de classe média ao regime militar”. In. Novaes,
Fernando e SCHWARZ, Lilian. A história da vida privada no Brasil. São Paulo, Companhia
das Letras, 1998, Vol.4.
19
Motta, Rodrigo P. S., op. Cit., especialmente o capítulo 6 – “Os resultados das reformas”,
p. 242-287.
A universidade nos tempos da Guerra Fria e da Ditadura Militar: contestação e repressão 39
Antonio Celso Ferreira
cos nem irrelevantes os esforços dos movimentos universitários no sentido de
democratizá-la, mas esses objetivos foram apenas parcialmente alcançados.
Nascia então a assim chamada universidade operacional, tão bem caracterizada por Marilena Chauí20, modelo que se alargaria nacionalmente nas décadas de 1980 e 1990, época de apogeu do neoliberalismo. Esse modelo de universidade, apesar de já esgotado, ainda vige e nos vigia no presente.
Antonio Celso Ferreira
É professor titular de História do Brasil pela Unesp, câmpus de Assis. Mestre e
Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo. Coordenou do Centro
de Documentação e Memória da Unesp – CEDEM –, de 2011 a 2014. É autor dos
livros “Um eldorado errante: São Paulo na ficção histórica de Oswald de Andrade”
e “A epopeia bandeirante: letrados, instituições e invenção histórica (1870-1940)”,
ambos pela Editora Unesp, além de outros livros, capítulos de livros e artigos em
revistas especializadas.
20
Chauí, Marilena. Escritos sobre a universidade. São Paulo: Editora Unesp, 2001.
INSTITUTOS ISOLADOS,
UNESP E A DITADURA
Anna Maria Martinez Corrêa
A
Universidade Estadual Paulista (Unesp) foi criada em 1976, em pleno regime militar, ficando sensivelmente marcada pelas condições de sua origem. Ela resultou da aglutinação de escolas isoladas, os chamados Institutos
Isolados de Ensino Superior do Estado de São Paulo, criados em fins da década
de 1950 e inícios de 1960. No Centro de Documentação e Memória da Unesp
(CEDEM), tivemos a oportunidade de realizar pesquisas sobre a criação dessas escolas isoladas e sobre sua posterior integração numa universidade. Esses
estudos possibilitaram a formação de um acervo que compõe hoje o projeto
Memória da Universidade. Esse acervo guarda parte considerável dos registros
que marcam a trajetória histórica da Unesp. A coleta e o arranjo desse material
contaram, além do apoio institucional, com a colaboração da Fapesp.
Todos os dados referentes a essas pesquisas encontram-se disponíveis no
acervo do Cedem sob a rubrica – Memória da Universidade. Este relato que me
proponho a desenvolver está fundamentado em dados coletados nesse acervo.
Os Institutos Isolados de Ensino Superior Público do Estado de São Paulo
resultaram da política desenvolvida pelo governo do Estado de São Paulo conforme a proposta contida na Constituição Paulista de 1947 de desenvolvimento
do ensino superior público no Estado de São Paulo. Estava aí implícita a necessidade de expansão do ensino superior, com a criação de escolas no interior do
Estado com a visão clara de expansão da cultura no sentido do interior. Após
a atenção que havia sido dada à criação do ensino secundário, com a criação
42 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
de ginásios estaduais, logo ficou revelada a carência de pessoal docente para a
implementação daquelas escolas. Ainda que o número de escolas secundárias
não fosse suficiente, um primeiro passo havia sido dado e era necessário implementar essas escolas com profissionais competentes. Daí a preocupação de
ampliar a criação de faculdades visando à formação de profissionais aptos para
essa finalidade. Ao mesmo tempo houve o cuidado para a formação superior de
profissionais especializados como engenheiros, farmacêuticos, dentistas, médicos, etc. Imediatamente começaram a surgir reivindicações de várias cidades do
interior, quando todas elas queriam uma escola superior para atender a grande
expectativa de seus jovens. Essa busca tornou-se uma verdadeira competição
por parte dos políticos locais que começaram a ver na criação de faculdades
uma grande oportunidade de ganhos eleitorais. Nem todos puderam ver seus
pedidos atendidos e é difícil perceber quais foram os critérios utilizados para a
escolha das cidades contempladas com a criação de uma faculdade. O fato é que,
no espaço de tempo de 1957 a 1963 foram criadas as faculdades que vieram compor os Institutos Isolados que se distribuíram pelo interior do Estado. Além das
novas faculdades criadas, tratou-se igualmente da incorporação de duas escolas
ao patrimônio público, a Faculdade de Farmácia e Odontologia de Araraquara e
a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto.
Entre essas escolas foram criadas seis faculdades de filosofia tendo como
um dos objetivos a formação de pessoal docente para as escolas secundárias.
Essas escolas estiveram em seus momentos iniciais sob a custódia da Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Em fins de janeiro
de 1958, a Congregação dessa Faculdade nomeou uma comissão encarregada
de propor ao governador do Estado uma relação de nomes de futuros diretores
das recém criadas faculdades. Deveriam ser titulados da própria USP que iriam
compor o quadro de docentes. O corpo administrativo seria organizado a partir
das possibilidades locais. O corpo discente ficava sujeito a uma seleção realizada
em exames vestibulares. Em algumas faculdades adotou-se o recurso da realização de uma ação prévia mediante o funcionamento de cursos preparatórios.
Em tempos de dificuldades de circulação da informação seria uma forma de divulgar a abertura daquelas faculdades. Quanto aos locais escolhidos para o funcionamento dessas escolas foram principalmente edifícios públicos, conforme
as disponibilidades locais. Da mesma forma, procurou-se imediatamente criar
uma infraestrutura mínima para tornar possível seu funcionamento. Para essas
Institutos Isolados, Unesp e a ditadura 43
Anna Maria Martinez Corrêa
atividades preparatórias houve um grande apelo à comunidade local, que estava
recebendo do governo do Estado um bem que merecia cuidados especiais. Talvez venha daí um sentimento de posse que acabou dominando entre os moradores das cidades contempladas, a ponto de, em algumas situações, permitir certas
ingerências na vida dessas instituições, ingerências que, tendo em vista a visão
muitas vezes conservadora dessa sociedade local vieram a agravar as imposições
do regime autoritário que passou a vigorar a partir de 1964.
Essas faculdades, assim criadas tiveram da parte do governo do Estado, no
momento de sua instalação, ampla liberdade de escolha de seu próprio caminho
dependendo, no entanto, da atuação de seus diretores, responsáveis pelos projetos pedagógicos e pelas opções curriculares. Embora centralizadas por uma
administração única, sob os cuidados da Secretaria da Educação, essas escolas
criaram sua própria personalidade conforme as relações com a comunidade
que as acolhia. Desde então, a comunidade local passou a ver nessas escolas um
patrimônio próprio havendo razões para uma relação cordial e amistosa. No
entanto, essa acolhida nem sempre se fez de modo amigável. Havia uma velada
esperança de uma troca de favores. O patrimônio adquirido pela comunidade
local deveria ser gerido por ela ou estar de acordo com as suas perspectivas.
Criou-se a expectativa de preenchimento de cargos públicos. No entanto, na
composição do quadro docente, que era da responsabilidade do diretor nomeado, não estava prevista a contratação de profissionais locais. Os primeiros
professores que vieram compor os quadros docentes eram procedentes, na sua
maior parte, da Universidade de São Paulo, geralmente recém-formados que
poderiam realizar sua carreira acadêmica nas novas instituições. Houve também em muitas unidades a colaboração de professores titulados que aceitaram
o desafio de participar do projeto de expansão cultural do interior do Estado.
Lembramos os casos da Faculdade de Assis e da Faculdade de Medicina de Botucatu. Essas duas faculdades resultaram de trabalho meticuloso, de estudos de
especificidades de suas áreas, embora em datas diferentes. Nos dois casos houve a preocupação de reunir profissionais dispostos a realizar o desafio de uma
proposta singular. Isso não quer dizer, no entanto, que nas outras faculdades
criadas nesse momento também não houvesse preocupação semelhante. Assim
foi com Rio Preto, Rio Claro, Marília, Araraquara, Presidente Prudente, unidades que desde o início puderam contar com especialistas visando a formação de
44 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
cursos de qualidade. A Faculdade de Medicina também foi produto de estudos
prolongados resultando daí uma nova concepção de ensino da Medicina.
Havia uma ideia generalizada, em relação às faculdades de Filosofia, em
torno de um modelo que era a USP, principalmente de sua Faculdade de Filosofia, criada em 1934, voltada, naquela ocasião, para a formação de uma elite
intelectual apoiada na colaboração de profissionais estrangeiros. Esse modelo,
no entanto, talvez não estivesse mais na expectativa dos agentes responsáveis
pelas novas instituições. Os tempos eram outros, os objetivos diferentes e os
futuros estudantes talvez tivessem outras expectativas.
Para compor o quadro docente, o governador nomeava o diretor, geralmente profissional titulado pela Universidade de São Paulo que ficava em carregado
de indicar os integrantes das disciplinas indicados nos currículos. Esses professores em sua maioria jovens imbuídos dos acontecimentos do momento, de fins
dos anos 50 e começo dos 60, principalmente da área de Humanidades estavam
atentos às grandes reivindicações do momento, recém saídos de períodos mais
duros da guerra e da ditadura varguista viam-se abertos às reivindicações democráticas de um mundo mais aberto a novas reivindicações sociais. Talvez
não estivesse em sua expectativa repetir o modelo da USP mas a possibilidade
de criar algo novo poderia ser atraente e, ao mesmo tempo, um grande desafio.
Essa forma de pensar que nem sempre encontrava eco nas comunidades
mais conservadoras do interior. Se para os novos docentes estava aberta a possibilidade de inovação, por outro lado, seria preciso ter havido um cuidado
maior, em conhecer o terreno sobre o qual iriam estender suas criações. Em
algumas dessas cidades, desde algum tempo já havia uma tradição cultural
estabelecida que pode ser identificada, por exemplo, no funcionamento de escolas confessionais de conhecida reputação no interior do Estado, a ação da
Igreja Católica ciente de seus cuidados sobre questões morais. Mas, acima de
tudo, seria preciso reconhecer a ação de uma elite intelectual, ciosa de sua autoridade, assumindo sua ação de liderança sobre a organização dessas escolas
adotando uma postura de autoridade sobre elas.
Os estudantes ingressantes, muitas vezes procedentes de outras cidades,
distantes da tutela familiar passaram a encontrar nessa nova vivência uma possibilidade de ampliação de seu horizonte de vida. Daí a constatação de um primeiro distanciamento entre as comunidades locais, ainda muito conservadoras
e uma aproximação entre estudantes e docentes ambos interessados num con-
Institutos Isolados, Unesp e a ditadura 45
Anna Maria Martinez Corrêa
vívio mais aberto em busca de ideais mais democráticos. Era a época em que se
discutiam as propostas de reformas de base do governo federal, com o apelo à
tomada de consciência da situação existente no país, premido pelo alto índice
de analfabetismo, pela situação de subdesenvolvimento, levando os jovens a
olharem a si próprios, seu ambiente de vida, seus problemas mais próximos.
Os acontecimentos internacionais obrigavam a uma reflexão maior a respeito
do momento vivido no país. Para a comunidade local, especialmente para uma
certa “elite” culta local, a escola passou a adquirir o aspecto de uma entidade
revolucionária provocando inquietações e aquilo que era considerado um patrimônio seu, começava a ser visto com uma certa desconfiança.
Aliada a essa situação, apesar de ser responsável pela composição dos primeiros corpos docentes, a Universidade de São Paulo não chegou a dispensar o
merecido crédito a essas escolas. A seu ver, a expansão do ensino superior pelo
interior do estado de São Paulo poderia comprometer a qualidade do que era
considerada o seu mais precioso bem – a formação da intelectualidade paulista.
Os principais locais de discussão onde a USP demonstrava sua opinião eram
nos órgãos administrativos da Universidade, nas Congregações e no Conselho
Universitário e em outros órgãos, como no Conselho Estadual de Educação
cujos integrantes eram frequentemente docentes titulados da Universidade de
São Paulo. Com a criação do Conselho Estadual de Educação, em 1963, os Institutos Isolados que estavam sob a tutela da Secretaria da Educação, tiveram no
CEE um órgão gerenciador responsável pelas contratações e escolha do pessoal
docente daquelas escolas. A composição do quadro docente dos Institutos precisava de uma aprovação dessas entidades, o que nem sempre ocorria de modo
tranquilo. Além disso, o jornal O Estado de São Paulo, espécie de porta voz dessa maneira de pensar, deu total apoio às críticas feitas aos Institutos Isolados.
Logo às primeiras notícias do projeto de criação dessas faculdades, o jornal
anunciou sua fúria. No editorial de 20 de junho de 1957, Alteração que se impõe
– chama esse acontecimento de “medida descabida e insensata”. Ainda, em seu
editorial de 7 de abril de 1960 – Abusos têm de acabar, agride de forma violenta
a qualidade dessas escolas. Sem permitir um tempo de implantação e de amadurecimento, para escolas recém criadas, o jornal atacava indiferentemente escolas públicas e privadas. O principal argumento, a par da crítica à qualidade
do trabalho desenvolvido, era a questão orçamentária. A criação dos Institutos
Isolados vinha absorver verbas que deveriam estar alocadas na Universidade
46 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
de São Paulo, ainda com muitas carências em sua organização. O editorial, extremamente ofensivo, foi respondido por docentes de Presidente Prudente, de
Araraquara e pela Câmara Municipal de Rio Claro numa demonstração de que
se iniciava uma forma de resistência às imposições de um modelo conservador.
Apesar dessas críticas, os Institutos Isolados assumiram e levaram adiante
sua tarefa de promover a expansão do ensino superior público pelo interior
do Estado contribuindo, ainda, de maneira eficaz para melhores condições de
vida cultural nos espaços a seu alcance. Assim, foram responsáveis pela criação
em diversos pontos do Estado, de clubes de cinema proporcionando à sociedade local não só a exibição de filmes de qualidade como também uma série de
discussões a respeito dessa arte. Em Assis, por exemplo, o professor e cineasta
Jean-Claude Bernadet ministrou durante algum tempo, um curso sobre cinema e a teatróloga Haydée Bittencourt, um curso de teatro. Em São José do Rio
Preto, houve a formação de um grupo de teatro, o GRUTA, nos moldes dos
Centros Populares de Cultura mantendo uma ligação com o Teatro de Arena
de São Paulo. Ainda em Assis, em 1961, o II Congresso de Crítica e História
Literária reuniu especialistas de todo o país contando ainda com a presença
de profissionais do exterior. Em Marília, em outubro de 1961, o diretor da
unidade, professor Eurípedes Simões de Paula reuniu professores de História
de várias universidades brasileiras para a formação de uma entidade para o
desenvolvimento da pesquisa Histórica, a Associação Nacional de Professores
Universitários de História a ANPUH. Ao mesmo tempo, o professor Eurípedes
havia organizado em Marília uma das mais completas bibliotecas de História
do país. Outras manifestações culturais ocorreram ainda em várias localidades sob a orientação dos Institutos que se encarregaram de demonstrar suas
atividades a conferencistas e pesquisadores. O procedimento que se tornou
habitual, de convidar pesquisadores de renome para a abertura do ano letivo
em suas aulas inaugurais ou para participação em formaturas, contribuiu em
muito para divulgar a qualidade dessas escolas.
Por outro lado, muitas das ações dos Institutos tiveram repercussão internacional, como a passagem por Araraquara dos filósofos Jean Paul Sartre
e Simone de Beauvoir, em 1960, acompanhados por Jorge Amado. O evento
chamou a atenção de intelectuais de várias partes do país, de estudantes e militantes políticos que se fizeram presentes nas duas conferências proferidas por
Sartre, uma delas na Faculdade de Filosofia de Araraquara e outra no Teatro
Institutos Isolados, Unesp e a ditadura 47
Anna Maria Martinez Corrêa
Municipal da cidade. A conferência no Teatro Municipal havia gerado uma
grande expectativa tanto no sentido de aguardar os relatos dos intelectuais
franceses sobre sua recente passagem por Cuba e também sobre seus contatos
com os integrantes do movimento das Ligas Camponesas do nordeste brasileiro. Havia um interesse especial da parte de docentes de Araraquara e de São
José do Rio Preto que vinham estudando a movimentação das Ligas Camponesas de Santa Fé do Sul tendo levado a questão à reunião com Sartre. Por outro
lado, grupos mais conservadores liderados por um religioso local, também se
manifestaram no sentido de contestar e reprimir a realização desses eventos.
Um acontecimento de grande importância para essas novas escolas foi a
criação, em 1962 da FAPESP. A nova instituição vinha dar um alento aos jovens
pesquisadores abrindo-se a possibilidade do desenvolvimento e da realização
de suas pesquisas visando complementar sua carreira acadêmica. As novas faculdades precisavam de docentes titulados e pelas condições iniciais elas não
estavam ainda em condições de formar seus próprios quadros. O recurso foi
a busca de titulação fora, com muita frequência, no exterior. Nesse ponto a
FAPESP representou uma grande ajuda quer na concessão de bolsas, de promover facilidade de deslocamentos ou ainda pela ajuda na montagem de uma
infraestrutura para o desenvolvimento da pesquisa.
Em razão da situação política vivida no momento coincidente com as origens
dos Institutos Isolados, as críticas levantadas pelo O Estado de São Paulo eram
agravadas pelas acusações de “comunização” divulgadas pelo próprio jornal,
numa acusação aos docentes que vieram compor os quadros dessas escolas. Um
exemplo disso foi a notícia publicada em janeiro de 1964 a propósito do vestibular em Araraquara que para cujas provas teriam sido indicadas leituras de autores comunistas. As ações reacionárias que precederam o golpe de 1964 levaram
muitos moradores de cidades que abrigavam os Institutos Isolados a manifestarem publicamente suas opções anticomunistas como a “Marcha da Família com
Deus” que empolgou a muitos com a participação efetiva dos setores religiosos.
Nesse quadro geral, ocorreu o golpe de 31 de março de 1964 que trouxe
uma série de restrições aos trabalhos dos Institutos com questionamentos a
respeito das posições políticas de muitos de seus membros. Sob a alegação de
“comunistas” docentes passaram a ser perseguidos, investigados e muitas vezes
presos. Para essas prisões muito contribuiu a formulação de denúncias da própria comunidade local que via com desconfianças o posicionamento de pro-
48 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
fessores e de estudantes. Em algumas localidades, os delegados se dispuseram
a não aceitar essas denúncias, a não ser que o autor da acusação registrasse a
denúncia responsabilizando-se pela autenticidade daquela afirmação. Em razão disso, muitos delatores desistiram das acusações.
As principais críticas eram endereçadas à realização de cursos sobre a realidade brasileira, a adoção do programa de erradicação do analfabetismo pelo
método Paulo Freire, a realização de palestras sobre reforma agrária, sobre o
movimento das ligas camponesas ou simplesmente pela participação em reuniões, consideradas por esses grupos como tendo caráter subversivo. Em função disso foram feitas prisões em Araçatuba, Assis, Marília, Araraquara, São
José do Rio Preto, Rio Claro. A situação mais grave ocorreu em Rio Preto,
onde houve uma verdadeira devassa, com prisões de professores e estudantes.
Os profissionais tiveram seus mandatos cassados, demitidos ou tiveram de se
abrigar em outras localidades.
Essa ação repressiva não se fez sem uma ação contrária, como resistência
àquelas ações. A forma encontrada foi inicialmente o recurso à imprensa apesar
da forte resistência encontrada principalmente pelas proposições jornal O Estado
de São Paulo que com suas argumentações de defesa de um certo tipo de cultura,
de elite, vinham fragilizar a ação dos Institutos. De início, o jornal se colocou
francamente a favor do golpe, apoiando a “Marcha da Família com Deus” e identificando essa ação com os ideais de 32. Ainda assim, alguns docentes e entidades
locais, endereçaram cartas a vários jornais expondo a indignação provocada pela
forma de tratamento desenvolvida pelo O Estado de São Paulo que vinha, de certa forma, apoiar a política repressiva representada pelo golpe de 64.
Uma das primeiras manifestações de uma vontade política procedente dos
Institutos ocorreu com o movimento dos estudantes da Faculdade de Medicina
de Botucatu, realizando, em 1967, a chamada “Operação Andarilho” que veio a
fazer coro com a já iniciada movimentação estudantil da capital. O movimento
consistiu numa marcha pelo interior de São Paulo até a capital, com o objetivo
de demonstrar a insatisfação dos estudantes. Pediam recursos para a implantação definitiva da Faculdade de Medicina e para que ela fosse equipada devidamente; pediam a valorização do tempo integral e sua adoção definitiva nas
escolas do interior e eram contra o “professor viajante” que, residente em São
Paulo, passava poucos dias com seus estudantes. As críticas diziam respeito às
dificuldades de aparelhamento da Faculdade, sua falta crônica de recursos, a
Institutos Isolados, Unesp e a ditadura 49
Anna Maria Martinez Corrêa
necessidade de um local para a realização da etapa final do curso, a residência.
Somando-se a isso havia ainda a questão dos excedentes, questão que estava
alimentando protestos em São Paulo, em várias faculdades, aos quais vieram
se somar os “andarilhos” de Botucatu. A forma escolhida foi a marcha pelo
interior do Estado de São Paulo e que, da mesma maneira que as passeatas da
capital, vinha dar visibilidade aos problemas dos estudantes do interior.
O movimento estudantil adquiriu uma expressão maior em fins de 1967 e
1968 sendo o principal tema a crítica ao processo de Reforma Universitária ao
qual vieram se juntar as queixas dos estudantes pela falta de recursos, ou pela
grande questão do momento, a dos excedentes. Não só as passeatas que marcaram a presença do estudante e suas manifestações de protesto, mas também pelos “Fóruns de Debate” que levaram para o interior das faculdades a motivação
das passeatas. Em meados de 1968, o governador Abreu Sodré, visando tirar os
estudantes das ruas determinou a realização dos Fóruns de Debate. A finalidade era levar para dentro das faculdades os temas apresentados sob a forma
de protestos nas ruas. Que professores e alunos discutissem seus problemas
em assembleias e formulassem conclusões que seriam remetidas ao governo do
Estado que procuraria assim obter soluções.
Em algumas unidades, por iniciativa de estudantes, houve o levantamento
de questionamentos a respeito dos cursos, da metodologia utilizada, principalmente da questão da reforma universitária, as interferências externas, enfatizando-se a necessidade de uma maior politização e de uma vinculação maior
com a realidade vivida naquele momento. De acordo com alguns observadores,
essas discussões contribuíram para projetar lideranças que passaram a ser vigiadas pelos órgãos controladores do poder. Em algumas unidades a realização dos fóruns foi bastante criativa resultando daí a elaboração de projetos
para novos caminhos para a vida universitária. Principalmente nas unidades
de Ciências Humanas esse foi o sentido dos fóruns. Na maior parte, porem, as
discussões dos fóruns ocorreram no interior das congregações e tiveram um
aspecto meramente burocrático sem qualquer outra repercussão.
Nas faculdades de Humanidades, esses fóruns contribuíram para uma
maior aproximação entre os estudantes não só entre os Institutos mas também
com outras universidades o que possibilitou uma maior socialização das questões em discussão. Quanto aos docentes, essa aproximação possibilitou o início
de uma ação mais concreta, cujos termos acabaram sendo expostos em A Carta
50 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
de Araraquara, de agosto de 1968. Esse documento estabelecia os princípios
fundamentais para uma ação comum entre os Institutos Isolados, lançando
assim os fundamentos de uma forma de associação entre os docentes com os
rudimentos de uma universidade democrática.
Quanto aos estudantes, a participação nos fóruns também proporcionou
formas de associação que os preparou para uma atuação coletiva, que infelizmente terminou com o desmonte dessa atuação, por ocasião da queda do Congresso de Ibiúna. Ao todo foram 15 estudantes indiciados pela participação do
Congresso de Ibiúna, procedentes dos Institutos de Araraquara, Assis, Botucatu, Franca, Guaratinguetá, Marília, Rio Claro, Rio Preto e Presidente Prudente.
Desde a sua criação, em 1963, o Conselho Estadual de Educação vinha se
preocupando com os Institutos Isolados, sendo estudadas várias propostas
para sua administração. Os integrantes do Conselho eram na sua maioria procedentes da Universidade de São Paulo e nesse sentido em geral participavam
da opinião crítica do Conselho Universitário e também do jornal O Estado de
São Paulo. Entre as soluções apontadas constava a criação de uma universidade, ou de uma federação de escolas, ou a criação de universidades regionais.
Em 1969, com a criação da CESESP, os Institutos passaram a ser regidos por
essa coordenação. Havia nela um poder superior decisório capaz de reger as
contratações ou não contratações.
Em 1968 a Secretaria da Educação havia realizado um levantamento da
situação dos Institutos Isolados numa avaliação de sua infraestrutura, suas
edificações, principalmente laboratórios e bibliotecas, número de docentes, de
estudantes, funcionários, questões como grau de procura e de desistência. Esse
levantamento foi feito de acordo com as normas autoritárias do momento, sem
nenhuma participação de seus integrantes. Os dados resultantes desse levantamento foram utilizados na definição dos destinos dos Institutos Isolados, sem
que se procurasse saber suas aspirações, suas inquietações, suas expectativas,
as características que vinham assumindo desde a sua criação. Nem mesmo os
resultados dos Fóruns de Debate, que havia sido uma proposta governamental,
foram levados em conta. Nessas circunstâncias começam as especulações a respeito da criação de uma universidade.
Em 1975 tomou posse como secretário da Educação, José Bonifácio de Oliveira Coutinho que, já em seu discurso de posse, em março daquele ano, sugeriu a retirada dos Institutos Isolados da Secretaria da Educação. Desde então
Institutos Isolados, Unesp e a ditadura 51
Anna Maria Martinez Corrêa
passou a tomar corpo a ideia da criação de uma universidade o que agradava
aos integrantes dos Institutos embora sempre houvesse uma desconfiança a
respeito dos rumos a serem tomados. Durante todo o ano de 1975, a questão
foi debatida, sendo apenas privilégio do grupo participante das reuniões da
CESESP, distante das opiniões da comunidade acadêmica.
A ideia de universidade foi sendo gestada longe dos olhos da comunidade
acadêmica, junto à cúpula administrativa da Secretaria da Educação, promovida pela CESESP que, de certa maneira, já funcionava com uma reitoria e pelo
Conselho Estadual de Educação. O fundamento básico da nova entidade já estava prescrito na Lei 5.540 enquanto que a universidade real, concreta, vinha
sendo gestada desde os acontecimentos de 1968 que haviam levado a uma reflexão sobre as relações entre os vários segmentos, suas responsabilidades, seus
objetivos a busca de relações com novos campos do conhecimento. Passaram
a ser pensadas novas formas de relacionamento, propostas de novas metodologias de ensino e de pesquisa, e uma grande inovação seria a apresentação
de formas de interdisciplinaridade. Essas reflexões trouxeram a exigência de
aproximações, de busca de formas associativas com disciplinas como antropologia, sociologia, filosofia. No caso específico das Humanidades insistia-se na
não compartimentação, na fusão de áreas. Toda essa ação teria que ser respaldada pela aproximação de interesses comuns que viriam preparar a formação
da Adunesp. Essa busca de formas associativas, de complementação de interesses teve na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência um forte respaldo.
Até que, em outubro, o governador Paulo Egydio apresentou à Assembleia o
projeto de criação da Universidade Estadual Paulista. Havia entre os integrantes
dos Institutos uma grande expectativa em torno da criação de uma universidade. Ao mesmo tempo havia desconfianças quanto ao que se podia esperar
de um governo comprometido com uma administração nada democrática. O
momento era de inquietação. A morte de Herzog trazia a marca desse momento.
O silêncio perdurou até a notícia da criação da Unesp, em 31 de janeiro de
1976 tendo como seu primeiro reitor, indicado pelo governador, o professor
Luiz Ferreira Martins, procedente da USP e até então, coordenador da CESESP.
A Universidade trazia a aglutinação dos Institutos Isolados que seriam regidos
por um Conselho Universitário Provisório composto pelos diretores das diversas unidades, sem que houvesse representação da comunidade universitária. A
essa universidade foi atribuído o nome de Júlio de Mesquita Filho, segundo o
52 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
governador Paulo Egydio, como homenagem ao grande educador Paulista. Ao
atribuir essa homenagem, o governador não levou em conta o desprezo, a crítica arrasadora que o jornal, de propriedade do homenageado, moveu contra as
escolas integrantes da nova Universidade, crítica que continuou a ser mantida
por anos afora. Quer dizer, o prêmio não foi suficiente para aplacar a ira dos
senhores editores. Além disso, o governador não respeitou a vontade da comunidade acadêmica – por várias vezes tripudiada por este jornal – não sendo
chamada para opinar sobre a escolha desse título.
O Conselho Provisório foi responsável pela elaboração do primeiro Estatuto
que regeria a nova Universidade. Para informar a respeito de sua estrutura foi
apresentado um documento contendo os princípios que deveriam fundamentar
a caracterização da Unesp. Nesse documento está expressa a maneira de ver a
universidade segundo a ótica de seus criadores. A fundamentação técnica esteve
representada na pesquisa efetuada em anos anteriores que dava conta das questões relativas à infraestrutura. Outra fonte foi proporcionada pelos dados dos
vestibulares. Percebe-se uma motivação contábil no sentido de reduzir despesas
há uma crítica com relação ao número de vagas oferecidas e as realmente ocupadas, também está presente uma preocupação em atender ao mercado, que as
vagas fossem proporcionais às necessidades do mercado. Daí uma forte crítica
às Ciências Humanas que passariam a ter seu campo de ação limitado. O documento Fundamentação do Anteprojeto do Estatuto da Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho” trazia como ponto central de sua argumentação, seu item 3 – No processo de reestruturação inicial e na expansão da futura
Universidade não se admite em uma mesma região duplicação de meios para o
mesmo fim baseando-se sempre na aglutinação de recursos humanos criando-se
assim condições para os trabalhos universitários em sua plenitude.
Na exposição da motivação básica da criação da Universidade, está implícita a forma autoritária de seu funcionamento. A marca mais evidente está na
anulação da vontade da comunidade acadêmica que não foi chamada a colaborar no processo de criação da Unesp. Não só isso mas desprezou-se igualmente aquilo que vinha sendo construído desde os estudos sobre a Reforma
Universitária. O documento trazia ainda uma proposta de organização dos
câmpus universitários com as respectivas faculdades. Essas propostas traziam
restrições às áreas de Ciências Humanas. Antes de ser uma proposta de caráter
acadêmico, de incentivo à criação no campo do conhecimento, era uma forma
Institutos Isolados, Unesp e a ditadura 53
Anna Maria Martinez Corrêa
burocrática de ver a universidade, ressaltando o aspecto quantitativo demonstrando desconhecimento da realidade daqueles Institutos que já haviam criado
uma vida própria. A nova proposta trazia o fechamento de cursos, transferência de cursos e de docentes, sem atentar para as relações que haviam sido estabelecidas entre cursos de diferentes especialidades, sem respeitar os vínculos
estabelecidos com as comunidades locais. Num momento de acirramento das
relações entre Estado e comunidade universitária, a aplicação do novo estatuto,
sem o comprometimento da comunidade universitária provocou indignação
geral e um clima de revolta tomou conta de todo o Estado de São Paulo.
No decorrer desse processo, aqueles que se sentiram mais tocados pelas
novas determinações procuraram se unir fazendo gerar uma grande força por
toda a universidade mostrando assim seu potencial de dinamização e de organização. Foi o processo de formação da Associação dos Docentes da Unesp
(Adunesp) que contou com forte apoio dos estudantes das localidades mais
atingidas e funcionários na medida de suas possibilidades.
Por toda Universidade começaram a surgir protestos. Essa ação foi severamente reprimida pelo governo paulista, repressão que encontrou apoio nas
palavras do jornal O Estado de São Paulo. Em editorial do dia 30 de novembro de 1976, intitulado Tropicalismo Universitário, o jornal não só apresentou
seu apoio às restrições propostas pelo Estatuto como foi muito além, alegando
serem elas tímidas e propondo o fechamento de cursos. Desqualificou a ação
daqueles que, num evento realizado em Presidente Prudente, protestavam contra a proposta de fechamento de vários cursos daquela unidade universitária.
Desse evento fizeram parte não só docentes, funcionários e estudantes da própria Unesp como também muitos professores, titulares de várias áreas vieram
se solidarizar com os unespianos. No entanto, apesar de toda resistência da
comunidade acadêmica, embora houvesse naturalmente aqueles que concordavam com essas formas discricionárias, na própria universidade, o Estatuto
acabou sendo aprovado em fins de 1977. Na imposição do novo Estatuto o fator
mais grave era a reestruturação dos câmpus e suas unidades universitárias. Daí
as manifestações claras dos descontentamentos.
No entanto, as vozes que protestavam na Unesp não eram as únicas no
país. A política da ditadura exercia sua força retratada na invasão do câmpus
da Universidade de Brasília. Em São Paulo, a PUC sentia o peso dessa ação. Na
Unesp a invasão do câmpus de Botucatu provocou uma grande comoção. O
54 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
movimento estudantil, apesar das muitas baixas sentia-se recrudescer. Os protestos que marcaram os anos de 1977 e 78, tiveram a mesma motivação. Os descontentamentos, os desencontros da aplicação de um Estatuto centralizador,
restritivo quanto às liberdades democráticas, vieram a constituir manifestação
evidente de desagrado pela criação de uma forma de Universidade autocrática,
gerada em pleno regime discricionário.
Anna Maria Martinez Corrêa
Possui graduação em História e Geografia pelo Instituto Sedes Sapientiae Pontifícia Universidade de São Paulo e mestrado em História Social pela Universidade de
São Paulo. Tem doutorado e Livre Docência em História pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, câmpus de Assis-SP. É professora adjunta
aposentada e pesquisadora colaboradora Centro de Documentação e Memória da
Unesp (CEDEM), em São Paulo.
TENHO ALGO A DIZER SOBRE
A DITADURA NA UNESP
Maria Ribeiro do Valle
E
m primeiro de abril de 1964, os primeiros atos da ditadura militar no mesmo dia do golpe já explicitam os seus principais alvos: os sindicatos, as
organizações dos trabalhadores rurais e as instituições universitárias que supostamente tinham se tornado o locus privilegiado da ameaça comunista e das
propostas revolucionárias, recrutando quadros para a esquerda. As universidades passam a ser vistas como a expressão viva do perigo iminente de que o Brasil deveria ser salvo: a “comunização” da esquerda em curso no Brasil. Apesar
do alarmante “perigo vermelho” alardeado pelos golpistas, são de fato notórios
o aumento dos movimentos sociais no campo, a força crescente dos sindicatos
e a esquerdização dos estudantes universitários particularmente devida à influência que os comunistas tinham entre as lideranças estudantis. Tanto assim
que o grupo mais forte no movimento estudantil pré-golpe era vinculado à
esquerda católica, a chamada Ação Popular (AP), embora os professores com
posições de esquerda e com militância no PCB passem a ter mais expressão
depois de 1964. Nos Institutos Isolados de Ensino Superior que comporiam
futuramente a Universidade Estadual Paulista, os seus professores e alunos por
serem considerados subversivos, sofrem a repressão da ditadura, mas também
são palco da luta de resistência às arbitrariedades do governo militar que muitas vezes encontraram eco na própria comunidade acadêmica.
56 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
São José do Rio Preto
A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto (FAFI)
é a primeira faculdade a ser invadida no Brasil pela polícia já no dia primeiro
de abril de 1964, imediatamente após a instalação do regime ditatorial. Sua
história, já contada por Florido, merece destaque aqui por ter sido alvo privilegiado da repressão e por isso mesmo ser também emblemática das violações
aos direitos sofridas, quer pelos demais Institutos Isolados, quer por outras
universidades brasileiras. O movimento pela democratização que acompanharemos de perto é, sem dúvida uma resposta a tais atrocidades.
A FAFI se destacou desde o início de sua criação em 1955 por sua experiência de “Reforma Universitária interna”, que incluía a organização em departamentos (já em 1957), a participação paritária do corpo acadêmico nos
espaços organizativos e deliberativos e a relação estreita dos professores, recém
formados na USP, com os estudantes. Docentes e alunos estiveram unidos na
Campanha em Defesa da Escola Pública, durante os debates sobre a Lei de
Diretrizes e Bases para a Educação (LDB/1961), no Projeto nacional de Alfabetização, nos programas de alfabetização pelo Movimento Popular de Cultura
(MPC) com os trabalhadores rurais da região e nas apresentações artísticas
pelo Grupo Universitário de Teatro Amador (GRUTA).
Talvez residam aí os motivos que desencadearam a abertura. Ainda no dia
primeiro de abril, o Inquérito Policial Militar (IPM)1 que interrompe o projeto
Institucional inovador da FAFI – considerada como pioneira em relação às
decisões políticas, contando com a representação estudantil nos órgãos cole-
1
Os Inquéritos Policiais Militares foram instrumentos existentes antes de 1964 e previstos no
Código de Justiça Militar, abertos com a finalidade de se instalar um processo sumário, onde
os envolvidos eram indiciados por atividades ilícitas, sem direito à defesa, e julgados em um
curto período. Existentes desde a ditadura varguista, esses inquéritos funcionavam como
dispositivos de perseguição política, principalmente contra os comunistas. Com a instalação
do regime civil-militar de 1964, os IPMs foram indiscriminadamente utilizados pela Justiça
Militar como estratégicos no “controle das áreas políticas, militares e psicossociais”.
O decreto lei n.53.987 de 27 de abril de 1964 regulamentava os IPMs previstos pelo AI-1
que constituíam um mecanismo legal para a busca sistemática de segurança absoluta e a
eliminação do inimigo interno, através da repressão de qualquer atividade política civil.
Tenho algo a dizer sobre a ditadura na Unesp 57
Maria Ribeiro do Valle
giados e no desenvolvimento de propostas acadêmicas como a interdisciplinaridade. O processo criminal é então instaurado contra os seus protagonistas
– professores e estudantes, considerados “inimigos da ordem democrática”.
Não por acaso eles pertenciam ao departamento de Pedagogia que era fruto
de uma experiência inovadora: os estudantes tinham igualdade de votos nas
decisões departamentais, além de contar com comissões em cada série para
avaliar o aproveitamento do curso. O departamento de Pedagogia fica totalmente desfalcado a partir da denúncia de que seus professores defendiam uma
“ideologia extremista”.
O IPM nº 183/64 é o processo criminal no qual se insere a sindicância da
FAFI constituído pelo material apreendido no MPC, no Centro Acadêmico de
Filosofia (CAF) e na casa do professor Franz Wilhelm Heimer, particularmente
os textos que serviriam de base para a constituição da AP no Brasil, bem como
para as suas orientações políticas e filosóficas. O indiciamento é realizado pelo
delegado de polícia José Domingos Ferreira e culmina no exercício da direção
da FAFI por um juiz da comarca da cidade.
Os professores universitários da FAFI são, então, investigados por práticas revolucionárias: Franz Wilhelm Heimer – indiciado como mentor e líder
dos projetos subversivos em andamento na Faculdade; Flávio Vespasiano Di
Giorgi, Jacob Lebenszteyn, Orestes Nigro, Joacyr Badaró, José Aluysio Reis de
Andrade, João Jorge da Cunha, Casemiro dos Reis Filho, Ary Neves da Silva,
Pedro Bonilha Regueira, Newton Ramos de Oliveira, Lélia Rodrigues Banozzi, José de Arruda Penteado, Hélio Leite de Barros e Maurício Tragtemberg.
São indiciados e considerados foragidos os professores Wilson Cantoni, Maria
Edith do Amaral Garboggini, Mary Amazonas Leite de Barros, Sarah Rottemberg e Norman Maurice Potter. Maria de Lourdes Heimer, esposa do professor
Heimer, também foi presa por coordenar o MPC, embora não pertencesse ao
quadro docente da FAFI. Eles perderam seus cargos e/ou foram demitidos pela
faculdade, após terem sido presos, interrogados, e alguns indiciados, ficando
impedidos de assumir funções públicas. Ao todo trinta estudantes e ex-estudantes também foram detidos. Os fatos considerados gravíssimos, ou seja, as
práticas subversivas citadas no processo eram relacionadas ao CPC – Centro
Popular de Cultura, ao movimento católico: AP – Ação Popular, ao CAF e ao
GRUTA. Esses, que supostamente eram ligados ao PC, levando levavam a “palavra de Moscou” inclusive às áreas rurais sob a forma de teatro ou de alfabeti-
58 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
zação de adultos, com o agravante de contarem com a presença de participantes da Igreja Católica.
São José do Rio Preto era um dos municípios que compunham uma das
regiões de atuação da AP e o professor Heimer tinha feito parte de sua direção
em São Paulo, depois de ter tido participado da Juventude Universitária Católica (JUC) e da Juventude Estudantil Católica (JEC), destacando-se como uma
importante referência intelectual. Em seu depoimento durante a sindicância,
afirmou que a AP não tinha ligações com João Goulart e segundo Florido:
[...] além de negar qualquer financiamento da AP vindo do governo federal, confirmou que o MPC tinha recebido dinheiro
para a realização do projeto de alfabetização em parceria estabelecida com o MEC, a PUC-SP e o Movimento de Cultura
Popular da capital, e que o MEB seria um dos parceiros para
a realização do trabalho no Centro de Formação Sindical que
estavam planejando. (FLORIDO, p. 117)
Heimer reafirmou em seus depoimentos todos os princípios filosóficos e estratégia da AP, constantes no documento de base, que
acreditavam na possibilidade de se transformar a realidade histórica brasileira através da organização dos trabalhadores, sua
conscientização e mobilização pacífica, acreditando no homem
como verdadeiro personagem da sociedade. (FLORIDO, 118)
Contudo, segundo Florido, os policiais rasuram o documento de base
apreendido para incriminar os professores de incitação à violência, enquadrando-os dentro da Lei de Segurança Nacional.
Por sua vez, os estudantes e professores acusados afirmam que o CAF, o
MPC e a GRUTA não teriam articulação formal com a AP – fato confirmado
pela ausência de referências aos mesmos nas cartas e informes apreendidos –,
apesar da convergência com suas ideias e argumentos políticos. Em seu depoimento, Maria de Lourdes Heimer esclarece que o MCP em São José do Rio
Preto contava com o apoio dos professores Franz Heimer, Flávio Di Giorgi
e Aluysio Reis de Andrade e com estudantes alfabetizadores que fizeram o
curso do método Paulo Freire com o próprio pedagogo. Ela afirma que o MCP
não tem vínculo com a AP e nem com o GRUTA, recebendo apoio financeiro
Tenho algo a dizer sobre a ditadura na Unesp 59
Maria Ribeiro do Valle
da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e do Movimento de
Educação de Base (MEB).
O programa de alfabetização foi colocado em prática pela primeira vez no
Grupo Escolar “Asilão” que ficava no bairro Esplanada, na periferia de São José
do Rio Preto. Uma outra iniciativa teve início na fazenda Nossa Senhora Aparecida de Olavo Fleury e foi interrompida com o golpe de 1964, com invasão
da sede do MPC, sem que tivesse sido concluída a programação prevista para
40 dias. É importante ressaltar que na ocasião em que o inquérito resultante
da invasão foi revisto pela justiça comum, em 1968, os colonos desmentiram
a acusação de que os professores tenham tentado colocá-los contra o patrão.
Em seu depoimento, Ledercy Gigante, estudante vinculada ao projeto de alfabetização com o Método Paulo Freire, afirma ser impossível qualquer tipo de
incitamento dos trabalhadores rurais à participação em sindicatos tanto por
se tratar de uma “fazenda modelo”, quanto pelo fato de que os familiares dos
proprietários e empregados domésticos assistiam as aulas.
Já o GRUTA tinha ligações estreitas com o Centro Popular de Cultura (CPC)
da UNE que promovia a cultura popular, criticando a realidade brasileira, mantendo assim uma forte identidade com o MCP e o CAF. Todavia, o professor
Orestes Nigro afirmava que o grupo de teatro não tinha vínculo com qualquer
movimento ou grupo político-partidário. No entanto a delação dos integrantes
dessas entidades partiu de seus próprios colegas segundo pesquisa de Florido:
Os estudantes Yvone de Moura, João Paulo de Oliveira e Amélia
Fernandes de Souza testemunham no IPM (1964, vol. 2) indicando nomes de colegas que se pronunciavam como da esquerda e que faziam parte das atividades do CAF, MPC e GRUTA.
Eudete Focchi, Ledercy Gigante, Aparecida Barco Soler, Marisa
Jorge Ramos, Maria de Lourdes Cápua, Mara Jorge ramos, Maria Isabel Cápua, Maria Edna Mugayar e Marisa Jorge Ramos
prestaram depoimentos em seguida, defendendo-se das acusações dos colegas, negando seus propósitos comunistas e a articulação entre as entidades. (FLORIDO, 127)
60 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Já o Centro Acadêmico da FAFI apoiava as Reformas de Base, particularmente, a Reforma Universitária, assim como a União Estadual dos Estudantes
(UEE) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), fato que o torna alvo da invasão policial no dia primeiro de abril de 1964, sendo seus integrantes presos
e interrogados. A detenção dos estudantes ocorre durante uma assembleia em
que eles decidiram encaminhar um telegrama manifestando solidariedade a
Jango, apoiando as reformas e repudiando qualquer ato arbitrário que impedisse o projeto democrático em curso. Dos estudantes presos, apenas Ledercy
Gigante é indiciada e processada até o fim. A brutalidade da repressão policial
acaba por intimidar vários deles que, constrangidos, passam a delatar colegas
e professores durante os interrogatórios policiais. O depoimento do professor
assistente de Geologia, Samir Felício Barcha, ex-aluno, também contribui para
culpabilizar o CA de subversão.
A faculdade passa a ser vista como um foco de atividades comunistas, embora segundo o exame de Florido ocorra apenas o expurgo dos professores,
uma vez que
[...] não seria do interesse das autoridades locais punir os estudantes e referendar a ideia de que a subversão vinha dos cidadãos rio-pretenses. O objetivo era culpar os professores “forasteiros” que pensavam diferente das pessoas da cidade e que
representavam uma ameaça para a ordem local, acusando-os
assim de infiltração na instituição, em nome do comunismo internacional. (FLORIDO, p. 133)
As investigações do Departamento de Ordem Política e Social (DEOPS) na
FAFI contaram com a manifestação de solidariedade e com o apoio integral ao
regime por parte dos professores Celso Abbade Mourão, Fahad Arid, Luiz Dino
Vizotto, Samir Barcha, Edoardo Querin, dentre outros. Esses docentes solicitaram um rigoroso inquérito para apurar as responsabilidades dos subversivos,
sendo testemunhas de acusação, respaldados pela Lei de Segurança Nacional
de 1953. O delegado Domingos Ferreira encaminha para o DEOPS de São Paulo, no dia 24 de abril, o pedido de acompanhamento do processo uma vez que
tinha sido confirmada a existência de “atividades subversivas na FAFI” que
visavam a transformação da estrutura sócio- econômica do país pela violência.
Tenho algo a dizer sobre a ditadura na Unesp 61
Maria Ribeiro do Valle
Se por um lado, a FAFI abrigava um grupo de professores articulados com os
movimentos de esquerda a com governo João Goulart, particularmente pelo
apoio às Reformas de Base, com destaque à Reforma Universitária, por outro
parece que havia um exagero por parte dos delatores com relação à dimensão
atribuída ao perigo que eles apresentavam para a ordem local e nacional por
meio da organização de insurreições armadas. Catalogados como “inimigos
da ordem” e “ameaça à segurança nacional”, os professores que passaram pela
prisão foram obrigados a assinar um “Termo de Fé Democrática”.
A construção e a identificação do inimigo interno na FAFI pelos militares, por grupos dominantes da comunidade e por parte significativa de seus
docentes tinham por intuito a destruição do projeto político-pedagógico da
FAFI. O professor João Dias da Silveira foi demitido e substituído pelo juiz da
2ª vara criminal e interventor José de Castro Duarte, que designa uma comissão para elaborar um novo regimento para a Faculdade. Todos os professores
presos e processados foram demitidos pelo governador Adhemar de Barros no
dia 19 de maio de 1964.
Os professores Franz W. Heimer, Orestes Nigro, Newton Ramos de Oliveira, João Jorge Cunha, Flávio V. Di Giorgi, Wilson Cantoni, Sarah Rosemberg e
Joacyr Badaró tiveram seus contratos rescindidos no dia 20 de maio, enquanto
o professor Maurício Tragtemberg em julho, sendo todos demitidos em 9 de
outubro pelo Governador Adhemar de Barros.
Em 11 de maio de 1970, a promotoria pública do Ministério Público Federal, encerra o processo justificando a “extinção de punibilidade” dos acusados
por estar tramitando entre a Justiça Militar e Justiça Comum há mais de cinco
anos. (Cf. FLORIDO, p. 24)
O destino de vários desses professores será a emigração para universidades
do exterior: Norman Maurice Potter vai para os EUA, Franz W. Heimer para a
Alemanha, Wilson Cantoni, o mais citado nos depoimentos de acusação, para
o Chile. Os que permanecem no Brasil conhecerão o chamado “exílio branco”,
as perseguições administrativas ou serão processados pela Lei de Segurança
Nacional. Não podemos deixar de registrar aqui que o professor Wilson Cantoni foi dispensado das funções a partir de 1º de abril de 1964 pelo Ato do diretor, expedido com autorização do governador, tendo sido publicado no Diário
Oficial do Estado de São Paulo de 20/05/1964. Quando foi promulgada a lei da
Anistia, em agosto de 1979, ele já tinha falecido no exílio.
62 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Marília
Em Marília o golpe de 1964 acirrará as posições políticas no interior mesmo da faculdade, dividindo o corpo docente e o discente. O professor Antônio
Quelce Salgado é preso, temporariamente afastado e reintegrado. Da comissão
processante faziam parte dois professores da USP. Suas acusações eram justificadas pelo curso sobre a realidade brasileira, ministrado pelo professor, em
que ele abordava a realidade da indústria farmacêutica, o problema da reforma
agrária e o da mortalidade infanto-juvenil. Esses cursos eram ministrados em
conjunto com o professor Ubaldo Puppi e abertos à comunidade; sendo, portanto, considerados reuniões subversivas, fato que os levou a serem ameaçados
de morte pelo presidente da Associação Rural Mariliense.
O professor Zeferino Vaz, na época secretário da Coordenadoria do Ensino Superior do Estado de São Paulo (CESESP) responsável pelos Institutos
Isolados, demite o professor Ubaldo Puppi como punição exemplar. Ele é reintegrado em 1965, depois de ter sido cassado, respondido a processos, IPMs, e
expulso do ensino público. Outra acusação importante que o professor Quelce
sofria era a divulgação que fazia do Método Paulo Freire. As ligações dos dois
professores com a AP – Ação Popular levam-nos novamente à prisão em 1969.
Um dos processos sofridos pelos docentes Quelce e Puppi chega até o Supremo
Tribunal Federal, mas devido ao contato que tinham com o destacado jurista
Sobral Pinto, por intermédio de Alceu Amoroso Lima, são absolvidos.
Algumas outras vítimas da ditadura na Unesp
Em Assis, serão presos por resistência ao golpe, o professor Onosor Fonseca acusado de politização dos alunos e o estudante Antônio Dimas
As prisões e demissões voltam à cena com o AI-5: o professor Percy Sampaio Camargo da Faculdade de Odontologia do câmpus de Araçatuba é demitido e apenas reintegrado com a Lei da Anistia. O professor Percy conhecerá a
clandestinidade e o exílio por ter sido demitido pelo Médici. Apenas volta ao
Brasil com a anistia depois de um “período muito difícil”, passando por três
países, um dos quais o Chile onde também é preso e refugiado.
Tenho algo a dizer sobre a ditadura na Unesp 63
Maria Ribeiro do Valle
Em Araraquara o professor Pedro Calil Padis também demitido com base
no Ato Institucional nº 5, vindo a falecer exatamente um mês depois de ser
anistiado e de ter ficado por dez anos afastado de suas funções.
A criação da Unesp
Assim como o golpe militar de 1964 desarticula projetos acadêmicos, afastando os professores de seus cargos, pesquisas e alunos, a criação da Unesp, em
1976, reeditará esta página trágica da história através do fechamento e transferência de vários cursos. Consequentemente vários professores dos Institutos
Isolados que passariam a fazer parte dessa nova Instituição de Ensino Superior,
foram demitidos.
Para a maioria dos entrevistados é quase consensual o fato de que a criação
da Unesp, durante a ditadura militar, ocorre no seu compasso, de forma totalmente autoritária. A unidade de Presidente Prudente foi a que mais sofreu retaliação, perdendo o maior número de cursos que por sua vez eram da área de
humanas. Há um ato público contra o fechamento dos cursos, acompanhado
de greves de alunos e, em contrapartida, a demissão – pelo reitor Luiz Ferreira
Martins – dos professores Rafael Campos Ferreira (Biologia Animal), Francisco Teotônio Mendes Neto (Política), José Carlos Tartaglia (Economia) e Mauro
José Alves (Filosofia). As teses da professora Maria da Conceição D’Incao sobre
os boias-frias e do professor José Ferrari Leite sobre o Pontal do Paranapanema
são considerados escritos subversivos e apreendidos pelo governo.
O ato público de Presidente Prudente já faz parte de uma grande agenda de
mobilização contrária à criação da Unesp que receberá apoio de diversas unidades: Araraquara, Marília, São José do Rio Preto, Assis, Botucatu. Estava em
germe a criação da Associação dos Docentes da Unesp – primeira associação de
docentes do Estado de São Paulo. O seu primeiro presidente foi o professor de
Assis Ulisses Telles Guariba, casado com Heleny Guariba, também professora
em Assis. Ela passa a participar da luta armada, sendo presa e torturada. Hoje
faz parte da lista de nossos desaparecidos políticos.
A Unesp é criada pelo governador Paulo Egydio Martins, tendo como primeiro reitor o professor Luiz Ferreira Martins e como vice o professor Armando Ramos. Segundo entrevista, do então reitor, dada à professora Anna Ma-
64 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
ria Martinez Correa2 (Ver CORRÊA (Org.), Unesp, 30 anos), as reuniões mais
difíceis que ele realizou para a exposição do estatuto da Unesp nos diversos
campi foram exatamente as de Marília, Assis, Presidente Prudente e Botucatu.
Segundo os entrevistados do Projeto Tenho algo a dizer, existia na universidade
um ambiente conservador e pessoas eram capazes de desempenhar o papel de
interventores. Assim desencadeou-se uma sucessão de atos arbitrários, de perseguições, demissões e de transferência de professores que discordassem da reitoria e dos diretores a ela alinhados. Apesar de tudo, a Associação de Docentes
de Botucatu e a Adunesp, criada em 1976, refletem a abertura que começa a ser
vivida pela sociedade. Elas passam a defender as seguintes palavras de ordem:
democratização da Universidade, reformulação dos estatutos e regimentos da
Unesp, eleições diretas para diretor e reitor, mais verbas para saúde e educação.
A luta pela constituinte no nível nacional, se traduzia na Unesp na luta por uma
“estatuinte”. A reintegração dos cassados, defendida, em 1981, pelo professor
Aziz Nacib Ab’Saber3, contra a maioria dos integrantes do Conselho Universitário (CO) e do reitor, revela o descompasso entre a organização da comunidade
universitária e os seus dirigentes partícipes da ditadura civil-militar.
O projeto Tenho algo a dizer ouviu os principais atores que, tendo sido
alvos ‘privilegiados’ da ditadura militar na Unesp, foram, ao mesmo tempo,
expoentes da luta pela construção da democracia na universidade. Os episódios destacados permeiam duas eleições paritárias, a primeira para diretor do
câmpus de Assis em 1983 e a segunda para reitor em 1984, mostrando o pioneirismo da comunidade unespiana composta por três segmentos – alunos, professores e funcionários – em um exercício de democracia que até hoje é inédito
na história das universidades brasileiras.
Contudo, não podemos perder de vista que estávamos em pleno regime
de exceção e nossa universidade se torna palco, então, de invasões policiais,
atos repressivos por parte das autoridades políticas e também das acadêmicas
que unidas atuam no sentido de calar as vozes que se opõem ao arbítrio. Esse
movimento que intercala atos de repressão e resistência ecoa também na socie-
2
Então coordenadora do CEDEM – Centro de Documentação e Memória da Unesp, onde
desenvolve o projeto: Memória da Universidade.
3
Então diretor do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas de São José do Rio Preto.
Tenho algo a dizer sobre a ditadura na Unesp 65
Maria Ribeiro do Valle
dade mais ampla, onde a aprovação da Lei de Anistia de 1979 traz os primeiros
indícios da possibilidade da abertura política.
Parece que a Unesp e a sociedade brasileira estão em compasso, uma vez
que os fatos vivenciados em uma parecem interferir direta ou indiretamente na outra. O movimento das ‘Diretas Já!’ tem, simultaneamente, início em
1983, ano da eleição do professor Antônio Quelce Salgado para diretor do
câmpus de Assis. Segundo nossos entrevistados há uma sensação de que a luta
pela democratização ocorre dentro e fora da universidade, simultaneamente,
dando a sensação de que seus atores estão juntos numa luta comum. O professor William Saad Hossne, da medicina de Botucatu, é eleito da mesma forma para assumir o cargo mais alto da reitoria da Unesp, em 1984, parecendo
até mesmo que nossos personagens se antecipam na concretização de ideais
de emancipação política. Contudo, nossos candidatos eleitos são obviamente
impedidos de tomar posse. E o outro lado da moeda, o regime autoritário, se
revela ainda com toda a sua força dentro da Unesp, dando a sensação de que
o arrefecimento da ditadura é ali, mais lento e gradual do que na conjuntura
brasileira mais ampla.
Ouvimos particularmente os professores e alunos de Assis e Botucatu, acreditando que os episódios de violação dos direitos humanos que vivenciaram,
desde o primeiro dia do golpe militar, repercutem em todas as unidades da
Unesp e revelam, embora não esgotem, uma parte de sua história ainda não conhecida, desvelada e contada. Protagonistas das eleições paritárias para diretor
e reitor, eles têm muito a dizer a respeito da Ditadura Militar e seu enraizamento
na Unesp desde os seus primórdios nos Institutos Isolados. Seus relatos lançam
luz aos acontecimentos desencadeados pelo golpe militar em 1964, pelo endurecimento do regime em 1968 com o Ato Institucional nº 5, bem como para a
redemocratização, que tem como um dos marcos a Lei de Anistia. Tais datas
revelam que, em 1976, tanto a criação da Unesp, como a da Adunesp estão estreitamente ligadas à luta de resistência contra a ditadura militar no passo e no
compasso de um jogo de forças contraditórias que mesclam movimentos ora no
sentido da democratização, ora no da repressão política.
Nos depoimentos da segunda parte desta obra, regataremos fatos marcantes, como a prisão do professor Onosor Fonseca em Assis em 1964. Veremos
que ela desembocará na sua inclusão na sindicância instalada após a eleição do
professor Quelce para diretor de Assis em 1983. Também ouviremos a história
66 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
do aluno Luís Carlos Ferreira de Almeida que vivencia a dura repressão da Polícia durante a visita de Maluf ao câmpus de Botucatu, em 1984, sendo também
indiciado por participar de ações políticas do Centro Acadêmico. Ele é hoje
professor do câmpus de Registro da Unesp. Veremos que o movimento de Assis
recebe apoio de professores e alunos dos mais diversos campi, de outras universidades públicas e privadas brasileiras e de importantes meios de comunicação.
Acompanharemos também a luta pela democratização da universidade durante a campanha para a eleição do professor William Saad Hossne, de Botucatu,
demandou reuniões em todos os campi nas quais eram debatidas as propostas
que ele representava.
Assim, com uma pequena, mas consistente amostra de depoimentos, conseguimos compreender que a história dos alunos e dos professores da Unesp
por nós entrevistados, perpassa todos os períodos de nossa ditadura milita. Ela
é tecida pelos avanços e recuos não apenas do Estado de Exceção no Brasil, cuja
mesma oscilação ocorre nos movimentos da comunidade unespiana rumo ao
rompimento com ele. Podemos dizer que a Unesp encontra-se, então, como um
cabo de guerra disputada pelas forças de repressão e de resistência. Os professores e alunos entrevistados ou ficaram na Unesp até a aposentadoria ou ainda
fazem parte de seu quadro de servidores, podendo tecer considerações sobre as
repercussões desse período turbulento na Unesp de hoje.
Embora a trama que envolve as eleições diretas de 1983 e de 1984 na Unesp
seja o nosso fio condutor, a vivência de seus atores extrapola essas datas, trazendo à tona episódios que por vezes a antecedem e a ultrapassam, enriquecendo nosso enredo. Faz parte dela outras pessoas que, por meio das memórias
registradas a seguir, passam também a ter as suas histórias contadas.
Referências
CORRÊA, Anna Maria Martinez (Org.). Unesp 30 anos: memórias e perspectivas. São Paulo: Editora da Unesp, 2006.
FLORIDO, Caroline Maria. Da efervescência cultural ao obscurantismo ditatorial: a história da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio
Preto sob o olhar de intervenção em 1964. Faculdade de Educação da Unicamp,
Campinas, 2013. (Dissertação de Mestrado)
Tenho algo a dizer sobre a ditadura na Unesp 67
Maria Ribeiro do Valle
--DEPOIMENTOS. Entrevistas com (ex) professores da Unesp e/ou dos Institutos Isolados de Ensino Superior, transcritas na 2ª parte desta obra.
Maria Ribeiro do Valle
Graduada em Ciências Sociais pela FFLCH-USP e História, é mestre e doutora em
Educação pela Unicamp. Realizou o Pós-Doutorado em Ciência Política no IFCH
– Unicamp. É professora do Departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências
e Letras da Unesp – câmpus de Araraquara. É autora dos livros “1968: O Diálogo é a violência – movimento estudantil e ditadura militar no Brasil”, Editora da
Unicamp; e “A violência revolucionária em Hannah Arendt e Herbert Marcuse”,
Editora da Unesp.
DIZERES 2
OS DE POE NTES
DEPOIMENTO 1
Onosor Fonseca
Professor aposentado da Unesp de Assis-SP. Depoimento dado em 9 de outubro
de 2013.
Instituto Isolado e comunidade
Q
uando o Instituto Isolado veio para Assis, a cidade teve uma certa prevenção contra a faculdade. Logo no início duas alunas engravidaram e
isto serviu de motivo para que a cidade acoimasse o Instituto Isolado de antro
de descaminhos das moças, antro de prostitutas. Coitadas das moças, eram
alunas, e daí? E ninguém foi perguntar na cidade quantas outras moças, não
alunas da faculdade, engravidaram na época. Isso ninguém foi fazer estatística, mas como elas eram da universidade, elas ficaram marcadas e marcaram o
Instituto Isolado.
O golpe militar de 1964
Em 1964 houve o golpe e um núcleo de resistência no Rio Grande do Sul
comandado por Leonel Brizola. O Brizola instalou aquilo que ele chamava de
cadeia da liberdade ou alguma coisa semelhante e foi apoiado pelo general Ladário Pereira Telles lá no Rio Grande do Sul. Sobre o general Peri Beviláqua que
atuava em São Paulo, posso dizer que houve um momento em que a gente teve
a impressão de que ele balançava entre apoiar o Leonel Brizola na cadeia radiofônica da liberdade ou pender mais para o golpe mesmo. Minas capitaneou
70 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
uma investida contra o Rio de Janeiro; desceu para o Rio com tropas e com o
apoio do Nordeste. Em todo o restante do Brasil, o pessoal acabou apoiando o
Magalhães Pinto.
O golpe, professores e alunos na FAFIA
Em face desse reboliço no país, eu tinha acabado de terminar meu curso
aqui na FAFIA1, em 1963. Fiz o primeiro ano de Letras em São Paulo e me
transferi para Assis, onde me formei em 1963. Em 1964 já era professor, mas
não tinha dado nenhuma aula, fui contrato correndo. Os estudantes fizeram
uma reunião na sala do diretório e convidaram os professores para fazer um
depoimento a respeito do golpe e sobre o que eles deviam fazer. Eu estou tentando me lembrar do nome dos professores. Lívia Ferreira era professora da
Educação; o professor José Ferreira Carrato, o professor de filosofia Leones
Regenberger, o professor Prado, o Virgílio Noya Pinto e finalmente o João de
Almeida que também fazia parte desse grupo. Então nós atendemos ao pedido
dos alunos para dar o nosso depoimento. Eles queriam saber que atitude deveriam tomar diante do golpe. Todos nós fomos unânimes em dizer o seguinte:
“a melhor atitude que vocês têm que tomar agora é não tomar partido porque a
repressão que vier, virá violentamente contra os mais fracos e vocês são a parte
mais fraca. Professores e alunos que forem resistir ao golpe agora vão sofrer
uma dura repressão. Então, fiquemos um bocadinho na expectativa para ver
conforme a evolução e eventualmente a gente possa até, se por acaso os golpistas sofrerem derrotas, a gente possa depois até tomar partido mais abertamente. Mas a conveniência mesmo é não nos manifestar porque é uma questão de
autodefesa”. Foi isso que eu fiz nessa época, aliás, eu não, todos nós fizemos.
Quando eu vim para Assis, com essa discussão de direita / esquerda, o meu
posicionamento sempre foi de esquerda. Isso eu nunca escondi e me manifestava lá no salão da faculdade. Toda manifestação que eu tinha oportunidade
de desancar a direita, eu fazia mesmo e isso de certo influenciou [os alunos].
Eu era ex-aluno, mas depois me tornei professor e isso deve ter tido alguma
1
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis.
Depoimento 1 – Onosor Fonseca 71
influência nos meus alunos. O Antônio Dimas, meu aluno, sempre muito generoso; ele acha que eu tive uma influência muito grande sobre a vida dele.
Eu e o Dimas fomos presos. Ele ficava numa cela e eu em outra aqui em Assis. E para nós nos comunicarmos não havia como, porque a cela ficava assim
num corredor e ele estava numa cela e eu na outra. Então nós conseguimos um
espelho cada um e aprendemos a linguagem dos mudos para nos comunicar.
Olha que coisa curiosa, a gente se comunicava desse jeito. Quanto tempo nós
estivemos presos? Eu fiquei eu acho que 18 dias.
Todos os professores eram visceralmente contrários ao golpe. Isso ficou
bem claro, mas aconselhamos os alunos a se manterem numa posição de muito
cuidado porque se viesse uma repressão violenta, eles seriam violentamente reprimidos. Bem, acontece que, na época aqui em Assis, o delegado era Antônio
Colezi, que convocou nós seis professores para depoimento. Cada um ia lá e
fazia o seu depoimento. Quando chegou a minha vez, ele me pressionou muito
e queria saber se eu era financiado pelo Partido Comunista. Falei “eu não sei de
onde o senhor tirou isso”, e ele falou “ah, mas o senhor começou o curso em São
Paulo e veio depois pra cá; que explicação se dá para isso? Além disso, a idade
dos seus colegas é muito menor do que a sua. Por que o senhor está fazendo o
curso agora?”. Ele estava com certas indagações desse tipo; então expliquei para
ele o seguinte: “olha, acontece que ingressei no ensino secundário em 1955,
apenas com meu diploma de professor primário, e por que pude fazer isso?
Porque eu tinha ganho em concurso uma bolsa na Aliança Francesa, estagiei
um ano em Paris, quando voltei, prestei concurso e me efetivei”. Lecionando
em São Sebastião, vejo uma propaganda do Instituto Isolado de Assis, comandado pelo professor Antônio Soares Amora que oferecia a oportunidade de
o professor secundário que não tivesse feito faculdade ser comissionado para
fazê-la. Então, entrei em contato com o professor Amora e terminei os outros
três últimos anos aqui na faculdade de Assis. E imediatamente depois de eu ter
me formado, o professor de língua e literatura francesa Vitor Ramos vendo o
meu trabalho e minha desenvoltura ao falar, escrevia correntemente francês,
sugeriu a minha contratação e o professor Amora me contratou. Só que eu não
cheguei a dar aula nenhuma porque veio a repressão.
O que mais eu teria a dizer? Esse Antônio Colezi, na verdade, queria achar
um jeito para extorquir alguém e ele achou que era comigo que devia ser feito
isso porque “afinal de contas é estranho que uma pessoa da sua idade venha
72 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
pra cá depois de ter feito faculdade um ano em São Paulo e seus colegas são
muito mais novos; você deve estar financiado”. Se o escrivão de então se dispusesse a falar, não vou citar nome para não comprometê-lo, ele presenciou
isso tudo. O Colezi querendo saber quanto eu tinha no banco, de onde vinha
esse dinheiro. Falei “não há segredo nenhum, eu recebo do meu trabalho”, mas
no fundo ele estava querendo mesmo era extorquir. Bom, eu não dei chance. E
para os outros, ele diz que fez todo um processo contra nós e eu como agente
comunista, evidentemente.
E a coisa se complicou um pouco para mim porque eu fiz a campanha do
petróleo na época em que falar ou publicar alguma coisa com “o petróleo é
nosso” era ser comunista. Eu fui preso em São Carlos por causa disso e eu já tinha uma ficha portanto no DOPS em São Paulo de 1953, 1954, nem me lembro.
Estava escrevendo “o petróleo é nosso” na sarjeta com os meus amigos e a polícia em cima da gente. Me prendeu e fui parar no DOPS em São Paulo, fichado
como comunista porque estava fazendo a campanha do petróleo é nosso. Olha
o absurdo da época. Daí é que vem essa história de que o Onosor é um agente
comunista. Por causa da campanha do petróleo.
Acontece que toda pessoa que fizesse campanha do petróleo naquela época
era taxado de comunista, então acabei sendo preso e mandado para São Paulo. Saí dali poucos dias depois, por uma circunstância curiosíssima; porque,
primeiro, o prefeito de São Carlos era um ex-professor meu e me queria muito
bem e o diretor do DOPS em São Paulo era de uma família de São Carlos também; era o Elpídio Reali, secretário de segurança pública. Acontece que meu
ex-professor, o Luís Augusto de Oliveira foi para São Paulo falar com o Elpídio
Reali mesmo, [dizendo] que era um absurdo o que estava acontecendo, o fato
de me prenderem. Daí cinco dias eu fui dispensado, não antes de ele botar uma
pessoa na mesma cela que eu para me contar histórias dele, do trabalho dele,
querendo saber a minha. Eu falei “eu não tenho história”.
Quando eu vim pra Assis, houve essa reunião e houve portanto todo um
processo contra nós, em que o principal acusado era eu. A acusação era que eu
era um subversivo, que eu era um agente comunista aqui em Assis. Aí o tempo
foi passando e o processo correndo, eu fui, por duas vezes, retirado da sala de
aula. Eu dava aula em Cândido Mota, era professor efetivo de francês; fui retirado de lá para fazer novos depoimentos aqui, “eu vou repetir aquilo que eu
já tinha dito, estava cansado de dizer”. Olha a pressão que faziam contra mim.
Depoimento 1 – Onosor Fonseca 73
Mas esse processo teve andamento e quatro ou cinco anos depois, terminado
o processo policial, houve a manifestação pela promotoria pública e uma das
coisas mais dignas que eu vi na minha vida, foi a coragem de, em plena repressão, o promotor público dizer o que disse, citando a Constituição, que é livre a
manifestação de pensamento, quem quer que manifestasse ideias de direita, de
esquerda, tinha a garantia da Constituição.
Depois outra acusação era ter livros em casa. Isso fez parte da acusação
que o Colezi fazia contra mim. Eu tinha livros marxistas, eu tinha livro nazista
também. Eu tinha as minhas posições políticas e a direita estava muito organizada, a tal ponto que eles imprimiram durante alguns anos, financiados pelos
Estados Unidos, um jornalzinho que era mandado para todas as escolas, para
todo lado, em São Sebastião e aqui, em todas as cidades. Era uma propaganda
descarada da direita e do golpe. Ter livros nazistas, comunistas é um direito e
até mesmo um dever de todo intelectual que queira estar informado, portanto,
isso não é crime, é coisa garantida na Constituição. Portanto, o doutor Nilton
Calazans achava que era extemporânea a minha prisão ou a decretação da minha prisão. No fim, o seu parecer a meu favor foi para um juiz substituto. Ele
era de Presidente Prudente e respondia pela vara de Assis; César Laerte dá um
despacho exemplar, mandando arquivar o processo e aí termina essa história
da perseguição do Colezi contra mim.
Mas não termina a história do próprio Colezi. Isso foi noticiado pelo jornal. A Folha de S. Paulo publicou inclusive, na época da repressão quando eu
fui preso, o meu nome. E, por sorte, um ex-aluno meu de São Carlos, advogado,
lendo a Folha, anotou bem essa história e procurou entrar em contato comigo,
contando a seguinte história: “sabe quem é o Colezi? O Colezi foi delegado em
São Carlos, nomeado pelo Ademar de Barros. Sabe o que aconteceu lá em São
Carlos? Ele vendia pneus e peças dos carros das viaturas. Acabou sendo demitido a bem do serviço público e o Ademar o reintegrou e ele foi delegado aqui
em Assis”. No fim, se eu não me engano, ele foi morto, foi baleado num bairro
muito violento, Capão Redondo, em São Paulo.
DEPOIMENTO 2
Ulisses Telles Guariba Neto
É professor aposentado do Departamento de História da Faculdade de Filosofia
da USP e dirige a Fundação Educacional do Município de Assis (FEMA). O
professor Ulisses teve uma atuação expressiva nos episódios que envolveram
a violação dos direitos humanos na Unesp durante a ditadura civil-militar de
1964 a 1985 e vai nos dar um depoimento a respeito disso. O professor Ulisses
Telles Guariba veio da USP e esteve desde a fundação do instituto isolado de
Assis em 1968 até 1977.
Antecedentes
E
u vim para a universidade muito cedo, nos anos 1960. Era na USP, na Rua
Maria Antônia, em São Paulo. Fiquei lá durante uns cinco anos. Depois
obtive uma bolsa para o exterior, fui contratado por uma professora assistente,
e fiquei dois anos fazendo Ciência Política e Metodologia das Ciências Humanas na França. Voltei em 1967, no momento em que a contestação ao Regime
Militar adquiria uma dimensão grande.
A universidade teve um papel fundamental nisso porque o movimento estudantil e a mobilização dos docentes deram um destaque a favor da movimentação política que levou às greves do ABC, depois à contestação do Parlamento e ao
seu fechamento em dezembro de 1968. Aí começa outra história, a mais difícil.
Nesse período que vai de 1964 a 1968, havia a Universidade de São Paulo,
a USP, ensino público, com todas as suas escolas tradicionais: Direito, Engenharia, Medicina e a velha Filosofia, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, que nasceu em 1934. Em torno dela foram criadas várias unidades
de ensino. Nesse ano já havia a reserva da Cidade Universitária; não havia ne-
76 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
nhum prédio ainda construído, apenas um Instituto de Estudos Educacionais,
que hoje é a Faculdade de Educação.
Ali se chegava por uma estrada no meio do mato, no largo de Pinheiros. Só
existia ali a Cidade Universitária, que começava a ser construída. O prédio da
Reitoria era elaborado; começava a se planejar a Universidade. As unidades estavam todas no centro de São Paulo. Até 1964, portanto, a USP era hegemônica.
Mas o ensino público universitário começava a se expandir para o interior.
Isso começou a ocorrer no final da década de 1950, nos governos de Carvalho Pinto e de Jânio Quadros. Foi quando se criaram os institutos isolados que
deram depois origem a Unesp. Foram criadas as Faculdades de Filosofia, de
Odontologia, de Engenharia de Guaratinguetá. Foram criadas por uma forte
demanda política municipal e regional. Essas regiões tinham mais representação política no Governo do Estado, e conseguiram esses institutos isolados, que
eram uma grande ambição.
Havia passado aquela fase mais aguda, do final dos anos 1940, início dos
anos 1950, quando a demanda do poder político local do interior eram escolas
secundárias. Antigamente queria-se uma escola de Educação para formar uma
professora, uma intelectual, para as filhas. Depois foram as escolas secundárias
que se mutiplicaram.
Se pegar os dados, a ampliação da rede do ensino médio no Estado de São
Paulo foi imensa no final dos anos 1950 e durante os anos 1960. É nesse cenário
que aparece a demanda para a expansão do ensino superior público gratuito.
Logo que entrei na faculdade, nos primeiros anos, participei de um movimento que foi muito importante em São Paulo, o Movimento pela Escola
Pública. Estava-se votando, depois da Constituição de 1946, depois de tantos
anos, uma Lei de Diretrizes e Bases, LDB, da Educação. Em todo aquele tempo
passamos sem lei! Quem dirigia eram as secretarias municipais e o Ministério
da Cultura, o MEC, que tinha um poder desmedido; preocupava-se com o ensino médio, primário, secundário e o universitário.
O que concorria com o poder público, quem queria o dinheiro do poder
público? Não eram as privadas, naquele tempo eram as confessionais, as escolas católicas, evangélicas... Elas queriam que constasse lá na LDB um famoso
artigo. Nós queríamos que tivesse a redação, dizendo que dinheiro público será
aplicado no ensino público. Aí, essas escolas diziam: “não, o dinheiro público
será aplicado ‘preferencialmente’ no ensino público”.
Depoimento 2 – Ulisses Telles Guariba Neto 77
Isso motivou uma grande campanha em São Paulo, da qual participaram
Florestan Fernandes, Roque Spencer Maciel de Barros, todo o pessoal da Educação, inclusive o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que na época
era professor.
Publicaram um livro famoso, sobre lei orçamentária e sua relação com a
campanha da escola pública, publicação organizada pelo Roque Spencer Maciel de Barros. Ele era do curso de Pedagogia. O João Villa-Lobos, que tinha
sido meu professor do secundário, também participou dessa campanha. Foi
importante, pois se discutiu a democratização do ensino. Ou seja, o caráter que
deveria ter as universidades, como é que deveria ser gerenciado esse dinheiro
público, que modelo de universidade que se deveria ter.
Naqueles anos, a universidade era comandada pelos catedráticos, que, de
certa forma, dirigiam toda a universidade. Não havia departamento, nada. Existiam áreas de saber. Eu, por exemplo, fui da última turma. Eu poderia ter sido
psicólogo, pois tínhamos um curso de Psicologia e uma multidão de Psicologia.
Não existia um departamento de Psicologia, que só foi criado em 1965, por aí.
Eram unidades em si – História com Geografia –, depois separavam os dois;
Filosofia com Psicologia com as outras disciplinas, esses códigos tradicionais e
as especialidades que apareceram fundamentalmente na Faculdade de Filosofia.
A novidade da Faculdade de Filosofia é que ela introduziu um sistema
de ensino tradicional. Havia três grandes escolas: Medicina, Engenharia e
Direito. Ela introduziu as áreas de especialidades: Biologia, Geologia, Física,
Química. Foram criadas as áreas que compunham essa Faculdade de Filosofia, tal como ela tinha sido projetada, pensada em 1936 pela Missão Cultural
Francesa e implantada pelo governo paulista. Como dizia o Antônio Candido, “querendo” de alguma forma, tendo perdido a Revolução de 1932, ganhar
a liderança do processo político nacional, pelo saber, conhecimento, desenvolvimento da ciência, da cultura.
1964 -1968: as universidades sob a mira da repressão
O cenário de 1964 era mais ou menos esse: os institutos isolados [de ensino
superior] no interior eram comandados pelo Conselho Estadual de Educação.
A LDB previa a organização dos Conselhos Estaduais também – os “consumi-
78 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
douros” Conselhos Estaduais. O de São Paulo veio de 1935. Mas os institutos
isolados eram comandados pela Câmara do Ensino de 3º Grau. Há uma forte
expansão da rede pública de ensino secundário, uma demanda crescente por
vagas na universidade, no final dos anos 1960.
Lembro quando, em 1965, fui para a França. Quando voltei, em 1968 – comecei no Departamento de História. [Antes] havia classes de 10, 12, 15 alunos
e quando eu voltei, as classes já eram de 100, 150, porque tinham sido abertas
as vagas, pois havia a crise dos excedentes.
No auge, em 1968, houve um debate muito importante sobre o destino da
universidade, a discussão sobre a Reforma Universitária de 1967 e 1968, quando se pensou muito sobre o futuro da universidade.
Éramos criados nesse clima. Eu tinha voltado da Europa, com as experiências acadêmicas universitárias de lá, e vim para cá, para a realidade; era criar
um curso de Filosofia em Assis – o que era mais ou menos surrealista naquele
tempo. Os institutos isolados, todos eles, estavam crescendo.
Os institutos isolados e o golpe
A USP tinha um “cobertor de proteção” muito grande. Ela praticamente
formava a elite. Toda a elite política tinha passado pela USP de alguma forma:
Faculdade de Direito, Medicina, Escola Politécnica... Os filhos das lideranças
faziam parte [da USP]. Os institutos isolados, não. Eles eram um pouco à parte
na sociedade. Mas tinham uma atividade política muito intensa, porque a resistência em 1964 ao Golpe foi progressivamente crescente. Ou seja, muita gente
resistiu em 1964. Houve um domínio hegemônico do golpe com mobilização
da sociedade, das classes médias, pelo movimento da ‘revolução’, mas progressivamente voltou a renascer a oposição ao regime militar, à ditadura.
Isso brotou, nos sindicatos e nas organizações partidárias de esquerda, os
movimentos socialistas, trotskistas, comunistas... Portanto, havia uma atuação
muito grande entre os ferroviários, no interior, e entre os metalúrgicos, em São
Paulo, que tinham estrutura sindical grande. Começava a renascer a oposição
no regime militar.
Depoimento 2 – Ulisses Telles Guariba Neto 79
Os institutos isolados no interior, nos locais onde eles foram mais ativos,
foram reprimidos fortemente. Por exemplo, em São José do Rio Preto, na época,
houve a demissão de 18 professores. Não deveria ter mais que 30 professores.
São José do Rio Preto foi o primeiro instituto isolado invadido. Em 1964,
havia aquela mobilização local, do setor conservador. Lá havia uma atividade
intensa de mobilização de professores e de alunos contra o Golpe e eles foram
castigados em 1964. A USP não; se manteve. Fizeram uns inquéritos, mas houve uma certa proteção – a USP sempre foi protegida. Em 1964 teve os inquéritos, depois, em 1969, teve gente cassada, depois da morte do ex-presidente
general Castello Branco e quando o Regime se fechou com o Ato Institucional
nº 5, o AI-5. Foi depois do AI-5 que vieram as cassações: na Faculdade de Medicina, na Faculdade de Engenharia, na Faculdade de Filosofia. Foram: Fernando
Henrique, Octavio Ianni, Florestan Fernandes. Era um outro contexto.
Em 1964, os institutos que tinham movimentos políticos e de oposição,
como Assis, tinham uns professores secundários ligados aos movimentos sindicais, caso dos ferroviários, e acabavam sendo chamados na polícia. Não chegavam a ser demitidos, mas foram presos durante um certo tempo para interrogatório, foram ameaçados, aquela coisa toda que ocorreu um pouco em cada
lugar. Em algumas cidades mais, outras menos, mas isso fez com que brotasse
no seio da própria Universidade uma insatisfação contra a Ditadura.
De fato, os institutos isolados no interior foram os locais onde de certa forma se “gestou” e se produziu oposição ao Regime Militar, que foi mais intenso
a partir do golpe de 1968. Houve o fechamento do Governo, a repressão passou
a ser visível. Os policiais frequentavam os campi e houve também uma conversão: muita gente foi participar de movimentos ligados à luta armada – mais ou
menos intensamente. Houve em São Paulo uma classe inteira de pessoas que se
voltaram para os movimentos de luta armada.
A universidade foi castigada mesmo depois do AI-5. Na USP e também no
interior houve várias cassações. Quem ficou manteve-se de uma forma subterrânea atuando contra o Regime. Desaba a repressão sobre o movimento de
luta armada – que se organizaria a partir de 1967 e logo houve confronto direto
com as forças de repressão.
Havia muito improviso na luta armada e também na repressão. Quando
se organizou a Operação Bandeirantes, a OBAN, o DOI-Codi, era um grau de
improvisação igual ao que tinha a organização dos guerrilheiros do PCdoB que
80 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
queriam fazer focos de luta na zona rural. Também havia focos de luta urbana,
que eram os outros grupos, como o Partido Operário Comunista.
Essas pessoas, muitas vezes professores universitários, em virtude dessas
participações mais amplas, eram triadas e a universidade passou a ser mais
investigada. Por exemplo, quando dava aula na USP, dizia: “moçada! Turma do
DOPS! O tema hoje é esse, anotem aí direitinho”. Escrevia na lousa: “anotem
direito para não mandar essas informações erradas para o DOPS!” Ali as brincadeiras eram normais. Eles estavam lá assistindo à aula.
Esse foi o cenário pós-1968. Havia uma repressão externa da universidade? Não, havia uma fiscalização. O foco da repressão estava nos movimentos
sindicais e também na vigilância dos estudantes. Então os episódios – mesmo
aquela história de Ibiúna, no congresso da União Nacional dos Estudantes, a
UNE – não tinha nenhum perigo; tanto que prenderam todo mundo. Era uma
forma de mostrar o poder do Estado que se organizava como repressão, e de
certa forma impedir que houvesse uma expansão dos movimentos de oposição.
Vale lembrar de um fato importante. O Abreu Sodré era o governador paulista em 1968. Logo depois foi substituído pelo Laudo Natel. O período Abreu
Sodré, apesar do reconhecimento do Regime no plano federal, protegeu muito
a universidade: “quem manda no Estado sou eu”. Ele não era um radical, obscuro. Era uma “elite ilustrada”. Ele, de certa forma, segurava a repressão. Ele não
pode mais quando assumiu o Costa e Silva e daí veio o AI-5. Houve a punição
exemplar da universidade para que houvesse uma espécie de “registro” da repressão e todo mundo andasse na linha.
O governo Abreu Sodré deu uma cobertura grande às universidades paulistas. Por exemplo, no Rio de Janeiro, sofreu-se maior repressão do regime,
mais que a USP. Era mais direta: expulsava, mandava embora e acabou. Não
tinha muita ‘finura’. O Abreu Sodré, não. De alguma forma, ele protegeu esse
patrimônio cultural universitário. Isso é bom que se registre. Depois, o período
dos anos seguintes foram anos muito bons, em 1971, 1972.
Depoimento 2 – Ulisses Telles Guariba Neto 81
Os anos do milagre econômico e as universidades paulistas
Pois é, os efeitos do milagre se faziam sentir nas contas públicas, o Sodré
coordenou a universidade melhor, acertou salários, criou tempos integrais, regularizou a universidade. Em 1969, foi aprovada a Lei de Reforma Universitária, a
5540. A universidade acabou sendo “bem tratada”, pelo menos em São Paulo. Os
salários melhoraram, apareceu o tempo integral. Tanto é que eu era professor da
USP e do instituto isolado [de Assis], podendo optar por tempo integral na USP
ou no instituto isolado. Só que na USP não saía, pois o Departamento de Filosofia
era mal visto pelo Governo do Estado. Então, não dava dinheiro para a Filosofia.
Era difícil conseguir tempo integral na Filosofia da USP, mas no interior,
não. Era fácil conseguir no Instituto Isolado de Assis. Então me ofereceram
tempo integral lá e fui fazer minha tese de doutorado em Assis, em 1971 até
1974. Esse era o quadro.
Não sei se isso explica alguma coisa mas, nesses anos mais duros, houve
muitos episódios ligados à militância externa na universidade. Agora, o que
houve sempre dentro das instituições foi a cooptação dos professores. O Governo Militar tinha um poder grande de cooptação. Cooptou todo mundo em
1964 e cooptou depois nos anos 1970.
Havia, dentro das universidades, resistentes e favoráveis ao Regime. Em
Assis mesmo, a maioria dos velhos professores titulares era absolutamente favorável a ‘revolução’, ao que acontecia, como o “milagre” econômico. As vozes
divergentes eram minoritárias. Havia o Movimento Estudantil, que se fortaleceu muito no final da década de 1960. Também teve a briga pela Reforma
Universitária. Foram anos agitados, entre 1967 e o início de 1969. A partir daí,
acabou a farra e o Regime se fechou.
A luta passou a ser fora da universidade, e às vezes quem era atingido é
quem também militava fora. Esse foi o cenário do fechamento do Regime. Claro que a USP votou a Reforma Universitária em 1969. O Zeferino Vaz chamou
até um cassado amigo dele de São José do Rio Preto para organizar a Unicamp.
Esse cara fez um excelente trabalho e votou em 1968 o Estatuto da Unicamp,
que era modelar na época. Foi melhor do que o da USP, reformulado em 1969.
Era mais democrático, mais voltado para o horizonte da pesquisa, do fortalecimento da instituição como unidade. O Estatuto da Unicamp era modelar, o da
USP seria reformulado em 1969.
82 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
A Unesp era um problema: o que fazer com esse monte de institutos isolados? Houve muitas ideias em discussão na época, inclusive integrá-las à USP. O
Hélio Lourenço, que foi reitor também, fez um debate sobre a Reforma Universitária e um projeto, chamado de “USPão”, era a grande Universidade de São Paulo, integrando todos esses institutos. Seriam todas as instituições de ensino superior organizadas em polos regionais, para que houvesse uma descentralização
e uma integração funcional de professores, administrativos, com um conselho
gestor político e forte, formado basicamente por representantes do corpo docente, mas também com representação das várias categorias, dos funcionários, da
sociedade civil. Seria um conselho político forte que daria orientação política à
força da USP. Depois, os conselhos técnico-administrativos, que gerenciariam a
graduação e a pós-graduação, viriam como órgãos gestores dessas várias regiões
administrativas. Todas seriam integradas num sistema de ensino superior.
Isso nunca foi adiante. As iniciativas acabaram sendo fragmentárias. Ou
seja, Zeferino Vaz querendo criar uma Universidade em Campinas; a USP muitas vezes multiplicando cursos e assumindo uma feição com “vários tentáculos”
pelo interior afora, e sobravam os institutos isolados. E o que fazer com eles?.
A criação da Unesp
O Luiz Ferreira Martins tinha sido do Conselho Estadual de Educação, na
época do 3º grau, e foi ser secretário de Educação do Paulo Maluf. Foi aí que ele
vendeu a ideia para o Maluf de transformar esses institutos isolados numa universidade. Era uma ideia que ninguém necessariamente era contra. Ganhar o
status de universidade e entesourar-se era um ganho. Isso porque antes eles [os
institutos isolados] eram administrados pelo Conselho Estadual de Educação
3º Grau e dependia da força política local para conseguir verba do governador.
Era isso que fazia criar essas unidades. Nenhum desses institutos isolados foi
criado por interferência do poder político local. Era o Governo Estadual que
liberava os recursos para eles.
O que fazer? Fazer uma universidade foi a proposta do Luiz Ferreira Martins. Ele juntou um grupo – de titulares, catedráticos – e transformou esse grupo
numa “clientela” de amigos dele. Eles elaboraram um projeto de Estatuto. Primeiro fizeram a média política. “Maluf: O nome da faculdade terá que ser ‘Júlio
Depoimento 2 – Ulisses Telles Guariba Neto 83
de Mesquita Filho’, porque você vai ter o Estadão do teu lado”. E o jornal era contra! O Estadão tinha uma tradição, fazia editoriais contra os institutos isolados.
Fizemos algumas concentrações regionais. Por exemplo, tivemos uma famosa que foi em Presidente Prudente. Reunimos num ginásio em Prudente
mais ou menos umas cinco mil pessoas: professores, alunos e a comunidade. A
cidade inteira foi para o estádio apoiar, com o prefeito Constantini Brasili. Foi
um evento em defesa da Faculdade de Filosofia de Prudente. O cidadão João
Eduardo Villa-Lobos publicou um editorial no Estadão dizendo “imagine o
pedreiro, a empregada doméstica, todo mundo reunido discutindo os destinos
da universidade. É ridículo, universidade não se faz assim…”
Tem uma história famosa e verdadeira. Um deputado chegou no portão dos
Mesquita e disse: “Consegui uma faculdade para minha cidade”. E a resposta: “Lamento. Pêsames! Porque vocês estão, ao criar esses institutos, enterrando o ensino
público da USP”. Ele era defensor da USP e não queria que o dinheiro público fosse para outras unidades, achava que tinha que ser concentrado na USP. Era uma
visão dele, do Roque, do João Villa-Lobos – que eram redatores, editorialistas do
Estadão na época. Havia outro que foi reitor de Brasília, que era do mesmo grupo,
também jornalista do Estadão. A ideia de pôr “Júlio de Mesquita” era exatamente
para ter o apoio do jornal para formação dessa nova universidade.
Os tempos eram outros e não tinha mais sentido falar dos institutos isolados,
pois era outra realidade. Queríamos que a universidade fosse fundamentalmente
democrática e o que havia como ideário na época era o Estatuto da Unicamp.
Mas na criação da Unesp foi feito um tremendo de um fechamento – uma ação
entre amigos. Fecharam cursos e distribuíram cursos em função de interesses
puramente locais. Diziam alguns mais afoitos que visavam privilegiar as escolas
privadas; então não queriam alguns cursos universitários porque na localidade lá
tinha uma escola que estava crescendo, então eles eram transferidos para outra.
De fato houve remanejamentos em função de interesses locais: “esses sociólogos aqui de Prudente estão nos incomodando, mande-os para Marília”; “os
filósofos aqui de Assis incomodam pra caramba. Aqui é um curso de Letras e
não pode ter um curso de Filosofia que só atormentam nossos alunos; leva o
curso de Filosofia para Marília”. Coisas assim. Tiraram um curso de São José
do Rio Preto e mandaram para Marília. Enfim, arranjos internos da faculdade.
Sempre houve uma ala progressista dentro da universidade, que foi se avolumando nos anos 1970, como um sinal em todo o resto da sociedade. As
84 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
eleições de 1974 marcaram uma trajetória – depois de 1974 ficou muito difícil
o governo se mexer – optando-se pela transição lenta, gradual e segura. Veio o
pacote de abril de 1977. Todo mundo pensou que seria uma contrarrevolução,
um novo 1968; no entanto, em 1978 não foi aquele estouro da oposição nacionalmente. Em 1982 acabaram sendo eleitos os governadores: 20 governadores
do MDB foram eleitos, o que de certa forma colocou o governo do general
Figueiredo na “retranca”.
Não havia alternativa a não ser criar os mecanismos de transição. Dentro do
partido da oposição, duas coisas se ordenaram desde cedo: o grupo do Tancredo
Neves, dizendo “nós queremos a eleição indireta” para renovar o governo federal, e o grupo do Ulysses Guimarães que queria a eleição direta. Não foi direta,
perdeu no Congresso, teve a eleição do Tancredo, indireta. Com a morte dele,
assumiu o José Sarney como presidente da transição para a Nova República.
Esse trajeto impactante todo fez também com que, na formação da Universidade, o Luiz Ferreira Martins ganhasse a parada. Montou a Universidade do
jeito que ele queria. Só que a resistência era terrível.
Assis
Por exemplo, em Assis, em 1980, renovou-se o mandato do diretor. Nós
tivemos o bumbo enorme tocando durante seis meses, dia e noite no câmpus:
BUM! BUM! BUM! Os alunos batiam aquele bumbo das seis da manhã até a
meia-noite. Foi durante seis meses na porta do diretor.
Foi feita a eleição direta em toda a universidade para reitor. Nosso candidato
foi o William Saad Hossne, que ganhou estourado. Mandou o nome pro C.O. –
ele fazia parte do Conselho Universitário, representando Botucatu. O C.O. não
incluiu o nome dele na lista tríplice. Era o Montoro o governador. Havia um grupo – nós éramos do MDB e sempre nos reuníamos – pessoal da Unicamp, pessoal
da USP, tinha o André Montoro, que era da assessoria dele. Reunia-se um grupo
de uns 12, que trabalhavam no Governo e na Secretaria de Assuntos Políticos.
Éramos chamados para dizer o que fazer com a Universidade. Aí decidimos
que a solução não era nomear ninguém. Daí, chamamos o Fábio Prado, que foi
sempre o cabeça da USP: “Fábio, e se o governador não nomear ninguém?” Ele
disse: “se não nomear ninguém, fica sem reitor. O que acontece? A lei não diz
Depoimento 2 – Ulisses Telles Guariba Neto 85
que é obrigado a ter um reitor, fica sem reitor. O Conselho Universitário vai
indicar alguém provisoriamente”. De fato indicou.
O Fábio Prado disse: “O ideal seria fazer uma intervenção na Universidade.
A gente vai ao Tribunal [de Justiça], faz um trabalho político com o presidente
do Tribunal e os desembargadores para que eles reconheçam que é uma via
razoável e que não entrem com liminar”. Se entrar com uma liminar, o C.O.
mantém o seu reitor.
Foi feito esse trabalho todo e, em um dia de 1984, o Montoro nomeou o
professor Jorge Nagle. Dentro desse grupo, que discutia as questões da universidade, nós queríamos que tivesse sido o Saad porque ele era membro do C.O.,
tinha sido o votado, mas nas avaliações disseram: “Não, o Nagle é o homem
do confronto. Se ele for reitor vai ser uma encrenca permanente. Então vamos
arrumar outro nome mais conciliador”. Foi a posição do Serra que prevaleceu,
e venceu o Nagle, que foi indicado interventor.
De fato, ele ficou um ano como interventor, e em seguida chamou o C.O. para
indicar uma nova lista tríplice, se colocou como candidato, foi indicado na lista tríplice, e o Montoro o indicou como reitor e regularizou – passou a ser reitor de fato
– e aí o Nagle fez um trabalho importante, inclusive refazer o Estatuto da Unesp.
Melhorou bastante, apesar de ter muitos problemas. Isso foi um ponto histórico.
A criação da Adunesp
Nós, em 1976, quando a oposição tomou corpo, organizamos a Associação
de Docentes da Unesp, a Adunesp. Exato, fui o primeiro presidente. Foi assim:
convocamos os conhecidos de todos os campi – fomos todos para Araraquara,
em primeiro lugar – e o grande mentor disso foi o Waldemar Saffioti. Ele foi o
“pai da criança”; ajudou a chamar o pessoal das áreas técnicas. Ele tinha muito
prestígio como professor. Nós chamamos o pessoal da Filosofia e marcamos
uma grande reunião em Araraquara e lá fundamos a Adunesp. Depois a eleição, se não me engano, foi em Araraquara.
A fundação foi em Araraquara; assinamos lá os documentos. A festa de
comemoração foi em Marília. Lá, estava o Waldemar, a Heleieth Saffioti, a Vera
Botta. Tinha o pessoal de Rio Claro, de Guaratinguetá, de Botucatu, de Assis, Prudente, Marília e São José do Rio Preto. Não tinham representação nem
86 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
odontólogos de São José dos Campos nem os de Araçatuba. Depois tivemos um
ou dois de Araçatuba, que se inscreveram. Organizou-se o “Fundo Adunesp”.
Estabeleceu-se uma linha de ação conjunta com a Associação de Docentes
de Botucatu. É que lá eles tinham uma antiga associação de docentes, dos médicos, que era corporativa, ligada às atividades profissionais, faziam contratos.
Era uma associação bem avançada para a época. Trabalhamos muito em conjunto com o pessoal de Botucatu.
Essa movimentação foi de agitar, fazer debates, discutir, apresentar artigos,
publicar. Nós tivemos cobertura da imprensa. Tínhamos muito apoio do Perseu Abramo. Ele era editor de Educação da Folha. Ele e a Irede Cardoso, que
depois foi vereadora e deputada estadual pelo PT, muito amiga nossa, colega de
escola. Havia esse apoio, com declarações, publicação de artigos nos jornais,
textos. Marcávamos reuniões em cada lugar.
A reunião de Presidente Prudente
Em Presidente Prudente, houve uma reunião com cinco mil pessoas. Com
a Aracy Balabanian! O Armen Mamigonian, agora professor aposentado de
Prudente, é irmão da Aracy. Mas ela esteve lá, apareceram artistas, teve música,
muita gente... Foi uma festa e tanto! Havia essas mobilizações. Alguns professores que não tiveram contrato renovado – foram uns dois que estiveram em
Prudente. Houve isso em outros locais também.
O Luiz Ferreira Martins, que também não era bobo, era esperto, dizia
assim: “Eu vou levar o Estatuto para ser discutido em cada lugar”. Então ele
marcava: segunda-feira às 8 da manhã em Assis, às 11 em Presidente Prudente, às 14 em Marília, às 15 em São José do Rio Preto, às 16 em Araçatuba...
vamos supor, um dia assim. Só que ele ia de avião, a gente, de carro. Tinha que
acompanhar esse debate em cada lugar e iam dezenas, centenas de alunos, de
professores, que contestavam todo o projeto. Ele abria o debate, a gente falava
contra, ele fechava o debate, encerrava a discussão, e dizia que o projeto ia ser
esse mesmo e ia embora, tomava vaia. Chegava em Prudente a gente já estava
lá. Corríamos o Estado inteiro atrás do Luiz Martins. Às vezes nos dividíamos,
porque tinha áreas diferentes. Foi uma grande mobilização.
Depoimento 2 – Ulisses Telles Guariba Neto 87
Essa mobilização permitiu, depois, discutir as questões na Universidade e buscar uma solução na época do governo Montoro, que foi o novo
Estatuto. Aquelas ideias todas foram discutidas de alguma forma o Nagle
colocou no Estatuto.
O pioneirismo da Adunesp e a organização das demais ADs
Agora, o movimento das associações também tem uma pequena história:
nós fundamos a Adunesp antes da Adusp – do renascer da Adusp. Um ou dois
meses antes. Eu participava das duas. Isso em 1976. Eles ficam bravos quando
a gente fala, mas nós fizemos antes, em Araraquara.
Depois desse período, quando eu saí da Unesp, fui coordenador da Adusp
na Filosofia por dois anos e era também representante dos assistentes na Congregação. A Adusp tinha um projeto: quando ela se formou, nós achávamos
que essas associações deveriam ser feitas em todas as universidades brasileiras.
Então nós saíamos com o Luiz Carlos Guedes, da Física; tinha um grupo da
Adusp que ia às universidades. Eu fui em algumas.
Eu ajudei a organizar na Universidade Estadual de Londrina. Depois tivemos um grande debate na Federal do Rio, depois estive em Belo Horizonte, depois em Florianópolis, depois em Vitória, para organizar as ADs dessas faculdades. Depois estivemos na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência,
a SBPC, e nós organizamos uma associação na Universidade Federal do Ceará.
A de Pernambuco estava mais avançada.
Assim foram organizados núcleos de ADs. Realizamos em 1977 um encontro da SBPC na PUC-SP e fizemos uma coalizão, um debate das associações de
docentes. Tivemos naquele ano dez associações organizadas no Brasil inteiro.
Vinte e duas em núcleos, em processos de organização. Já eram mais de 30.
O Antônio Cândido esteve conosco em vários debates. Na verdade, queríamos
discutir qual a estratégia política dessas associações, o que elas teriam que fazer.
A Associação deveria primeiramente, ser profissional: lutar por salários,
regras bem estruturadas na carreira, ter uma função quase que sindical. Segunda função: ser o “aríete” contra as formas autoritárias de ordenação na universidade, bater naquilo que não é forma democrática. Até os limites. Por exemplo,
tinha gente que queria eleição direta para reitor. Nós nunca defendemos isso.
88 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Achamos que tinha que ter um equilíbrio entre a representação docente, que
faz a alma da universidade, a representação funcional, que é funcional, e a representação do aluno, que é o consumidor do saber. Mas nunca uma alegoria
dos docentes, não podia ter. “Vota todo mundo!” – isso nós não concordamos.
Tinha que ser um “aríete” contra as formas de organização conservadora, democratizando-a, fazendo os departamentos funcionarem de forma mais
democrática, tendo representação do aluno, estabelecendo formas de diálogo
mais adequadas entre professores e alunos, pensando no fundamento, no regimento e na qualidade de ensino, essencial, e nas formas de avaliação. Essas
eram as funções das associações de docentes: discutir isso.
Por último, fazer um plano da Reforma Educacional do governo. Tínhamos que pensar uma universidade para o final do século, ou seja, começar
a discutir a questão da estrutura, do funcionamento das universidades brasileiras em prol das mudanças aceleradas que estavam ocorrendo no mundo.
Esse era o projeto que deveria orientar as ações dos docentes. Cumpriu bem
a função de se contrapor, as funções profissionais, mas nunca conseguiu formular um projeto original e novo de universidade. Principalmente porque ela
começou a se atrelar a partidos.
Antes, por exemplo, nós tivemos o aparelhamento típico – pelo PT, pela
Central Única dos Trabalhadores. O aparelhamento dessas associações acabou
virando um apêndice partidário e não um órgão de reflexão interna da própria
universidade sobre ela mesma. Esse foi o grande equívoco dessas associações.
Tanto é, que perderam representatividade, porque não tinha uma proposta que
mobilizasse a comunidade universitária em direção a objetivos maiores de organização, de reformulação de seus horizontes.
Aquilo que existe hoje é a mais urgente necessidade de se repensar o projeto de universidade para o Brasil. Houve avanços, lógico. Mas naqueles anos
se avaliou muito pouco a importância do ensino técnico e ensino científico;
as universidades avançaram por conta própria, mas você não tem uma clara
formulação de uma política científica e tecnológica na universidade. A organização das pesquisas, a formação – tanto é que isso foi totalmente deslocado
do eixo da universidade pro CNPq, para a Finep, para a Capes. Ou seja, para o
Governo Federal, que é hoje o dono da grana.
As universidades ficaram muito dependentes desses órgãos centrais de gestão, quando isso deveria estar muito mais ligado à gestão própria da universi-
Depoimento 2 – Ulisses Telles Guariba Neto 89
dade. Esse é um exemplo. Veja a avaliação do ensino tecnológico hoje, em São
Paulo, por exemplo. Existe um tremendo programa de ensino tecnológico em
expansão. Nos anos 60 era mal visto, se dizia que estava se formando “mão-de
-obra para as empresas, para o avanço do capitalismo”. Era muito curioso isso.
Hoje não, hoje é uma realidade que tem que ser enfrentada, discutida, aprofundada e desenvolvida, quer dizer, esses são dois exemplos no ensino tecnológico.
A gente vê o Governo fazer uma coisa que é um escândalo, o ProUni: entregam o dinheiro público para as escolas particulares, que fajutam um curso
de quinta categoria. Mas eles cooptam os empresários do ensino, eles se enriquecem, repassam dinheiro. Tem gente aí que organiza escola só para receber
dinheiro do ProUni. Evidentemente, com todos os compromissos de corrupção
envolvidos. Quando é que se poderia – nos anos 1960, 70 e 80, imaginar um
governo que fizesse o despejo do dinheiro público sobre as escolas particulares.
Essas pessoas deveriam ser pelo menos fuziladas, segundo nossa ótica daquele tempo. Fazem isso com maior descaramento e ninguém protesta. Para ver
como as coisas mudaram. É preciso repensar todos esses projetos nacionais.
Ainda sobre a criação da Adunesp
A criação da Adunesp era uma forma de mobilização e de organização dos
professores, para discutir o que iria acontecer na universidade – já que se falava
numa universidade nova – como organizar uma seção para discutir essa universidade. Ela tinha função fundamentalmente de mobilização dos professores
para discutir, para participar do processo de elaboração da Unesp.
A crítica ao anteprojeto do professor Luiz Martins
Dizíamos o tempo todo sobre o estreitamento do Conselho Universitário,
as regras de sucessão fechadas, tudo dirigido por uma organização da cúpula.
Não havia representatividade da comunidade. Por exemplo, os diretores eram
nomeados pelo C.O. Não havia, sequer se pensava em eleição, em indicação,
era tudo [decidido] nas congregações. Os titulares eram membros permanentes
90 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
dessas congregações. Havia uma ou duas representações; era uma estrutura
muito fechada. O Luiz Martins estava sempre à frente.
Quando o Luiz Martins apresentou o Estatuto, disse: “vou fazer uma consulta”. Ele fez uma consulta relâmpago. Em poucos dias. É verdade que os estudantes e professores participavam deste debate, mas sua participação acabava
sendo dizer que não era da forma como estava sendo proposta que eles queriam. Acabou havendo polarização entre os professores em todo lugar.
Havia o pessoal com assentos nas mesas, que eram os favoráveis, e os que
estavam fora das mesas, que eram contrários, junto com os estudantes. Havia
discussões, debates. Como eu disse anteriormente, abria-se a discussão, a comunidade falava e o Luiz Martins respondia. Do lado dele tinha o Armando
Ramos, que também respondia, embora fosse agressivo – eu brigava muito com
ele. Os alunos aplaudiam, diziam que não era o que queriam. E o Luiz Martins
terminava: “já fiz a consulta, vou embora”.
Repressão à diretoria da Adunesp
Eu fui processado algumas vezes pelo Ferreira Martins, por entrevistas que
eu dava na Folha de S. Paulo. Quem me defendeu foi o Freitas Nobre, que era
meu advogado. Eu o conhecia pela vida política, partidária e também foi advogado da Folha – que passava a também ser ré no processo. Mas esses processos
nunca foram para frente, não deram em nada, foram arquivados. Eu lembro até
que um dos processos foi tão mal feito pelo Miguel Reale Jr., contratado pelo
Luiz Martins, que o Rangel Pestana, advogado da Folha, disse: “esse é tão ruim
que eles não têm nenhuma vontade de te incriminar”. O Luiz Martins não gostava do debate, que era o que sempre propus nas entrevistas. Ele geralmente se
sentia ofendido. Daí, vinha processo por calúnia e difamação.
Da universidade para a sociedade: a formação de quadros
políticos
Em Prudente houve uma movimentação importante. O pessoal da Unesp
resolveu tomar o MDB dos “bandidos” que havia por lá. Tinha dois grupos,
Depoimento 2 – Ulisses Telles Guariba Neto 91
o grupo do Senado e o grupo da Arena. E tinha um MDB que ninguém dava
bola. Eram uns picaretas, que na época tinham as famílias como membro e vendiam apoio. Nunca funcionou direito. O pessoal da Unesp dizia: “vamos tomar
o MDB”. Daí, todo mundo se filiou. Renovaram o partido, fizeram um MDB
novo e lançaram candidato, que foi eleito. Só para ilustrar, era o Mauro Bragato,
então presidente do diretório acadêmico. Ele foi eleito, em 1978, deputado estadual, o que mostra que o debate da universidade estava atingindo a sociedade.
Todos nós – o MDB –, em 1977, praticamente todo mundo foi fazer a campanha do Fernando Henrique. Graças a isso, acabamos nos filiando ao partido,
militando mais diretamente na política. Eu mesmo, de 1978 a 1982, fui presidente do MDB de Assis.
O atual prefeito – já foi prefeito três vezes – e também foi deputado, em
1982 foi trabalhar comigo na Secretaria Estadual da Educação no início, quando nós formamos o Marcelo Barbieri – ele era do MR-8 e queria trabalhar com
movimentos sociais. Eu falei com o filho do Montoro, que disse: “ah, pode levá
-lo, é por sua conta.” Ele só queria fazer trabalho social, mobilizar estudantes,
tinha boas ideias, mas acabou não ficando.
Fiquei três meses na Secretaria – não dei certo com o Paulo de Tarso – e depois fui trabalhar na Secretaria de Assuntos Políticos. Após a eleição, em 1982,
fui trabalhar com o Governo Montoro. Trabalhei dois anos na Secretaria de
Assuntos Políticos, enquanto existiu, depois fui assessorar o Serra na Cetesb e
no DAEE [Departamento de Águas e Energia Elétrica]. Depois teve a eleição do
Quércia. Eu fui trabalhar com o Tidei na Secretaria da Agricultura. Ele me convidou para fazer a assessoria política dele. Fiquei lá nos dois anos que ele ficou.
Quando voltou para o Congresso, fui ser diretor do CEPAM [Centro de Estudos
e Pesquisas da Administração Municipal], aquele órgão que dá assessoria política para prefeito, vereador. Na eleição do Fleury, fizemos a campanha. O vice
do Fleury era o atual senador Aloysio Nunes. Fui assessor dele por quatro anos.
Ou seja, fiquei praticamente 12 anos trabalhando no Palácio dos Bandeirantes em funções diferentes. Acumulava isso com a Universidade: dava aula,
autorizado pela Universidade, desde que não houvesse prejuízo da atividade
docente. Isso dá uma ideia de que a gente acabou sendo “empurrado” para a
área política – da universidade para a sociedade, porque mudou o quadro.
92 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
A visita de Paulo Maluf em Assis e a prisão de João Francisco
Tidei Lima
Nós fizemos uma grande passeata na cidade. Juntamos os estudantes e professores e fizemos a famosa “passeata silenciosa” e demos ali duas voltas na
delegacia seccional, depois descemos a avenida principal protestando contra
a prisão do professor João Francisco e contra a visita do Maluf, as duas coisas.
Não sei por que foi silenciosa, alguém deve ter dado a ideia e pegou. Lembro
assim: todo mundo, quase dois quarteirões de gente então, bastante gente na
passeata. Esse foi também um episódio que era rescaldo daquele conflito do
final dos anos 1970. A situação indicava a realização de eleição para os governadores. O Paulo Maluf, governador de 1978 a 1982, era muito mal visto.
A eleição do Quelce para diretor em Assis
Participamos deste momento. Foi eleição para diretor. As sucessões sempre
foram muito tumultuadas. Alguns diretores foram nomeados pelo reitor, se não
me engano, o professor Joãozinho e depois o Manoel de Mendonça. O Quelce
foi eleito diretor, mas não foi escolhido. Daí é que veio a mobilização dos estudantes, o tal bumbo. Você não imagina o que é um bumbo tocando o dia inteiro.
Primeiro o Manoel assumiu – tocou lá o bumbo por uns quatro meses,
defronte à sala dele, das seis da manhã à meia-noite. O Mendonça era um conservador. Ele nunca olhou com bons olhos para o setor mais progressista da
Faculdade, mas também não era um puxa-saco do Bartini. Ele queria é o cargo
de diretor para incorporar no salário dele as vantagens do cargo; a preocupação dele era essa. Ele era um professor de Literatura. Só que não era o que a
comunidade queria. Ele só estava interessado na função, era despolitizado. O
Mendonça passou um mal bocado, ele sofreu o que o diabo pode sofrer. Ele
nem precisava daquilo. Ele corre atrás de prestígio, de vantagens. Então, aquilo
que fica pobre diante do objetivo maior da comunidade que era ter um processo mais democrático e ele era um conservador típico: “Faço. Quem tá no poder
manda, eu obedeço”. Na ditadura, então, era cheio de mandantes.
DEPOIMENTO 3
José Roberto Tozoni Reis
Botucatu, 12 de setembro de 2013.
Atualmente é professor voluntário aposentado da Faculdade de Medicina da Unesp
de Botucatu. O professor José Roberto Tozoni Reis teve uma importante atuação
nos episódios que envolveram a violação aos dos direitos humanos na Unesp durante a ditadura civil-militar e ele vai nos dar um depoimento a esse respeito.
Comentário inicial
E
m 1968, quando ocorreu o Ato Institucional número 5, eu era presidente
do diretório acadêmico da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, ainda um Instituto Isolado. Eu estudei em Assis, no curso de Psicologia, de
1967 até 1970. Retornei depois como professor em 1974, onde fiquei até 1989.
Fiquei 15 anos, sendo transferido, incorporado a Botucatu, para a Faculdade
de Medicina, fiquei mais 15 anos até me aposentar, e continuo até hoje como
professor voluntário. Então, eu acompanhei a história da Unesp desde a sua
criação, em 1976.
São três momentos importantes. O primeiro para mim é a vida estudantil,
em Assis. O segundo momento importante que vivi foi o da criação da Unesp,
que significou uma intervenção significativa do regime ditatorial, criando praticamente um modelo de universidade que era para ser perene. Acho que a
pretensão dos que criaram também era a dos que criaram o Terceiro Reich, era
para durar mil anos. Porque ela foi construída por uma estrutura de poder que
era para ser imutável.
94 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
E o terceiro momento importante foi o da reviravolta desse modelo. A partir da democratização do país e, digamos, da conjuntura favorável à democratização da universidade, ocorreu em um movimento em 1984 que se iniciou
com a contestação aberta a um modelo de poder instituído em Assis, em 1983.
Parte I: Estudante em Assis
1968: O movimento estudantil na FFCL de Assis, nos institutos isolados e no Brasil
Entrei como estudante no curso de Psicologia em 1967, fui da segunda turma. A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis foi criada em 1958,
como Instituto Isolado. Era parte da política de interiorização do ensino superior, da criação de polos culturais. A faculdade de Assis foi uma das primeiras, como instituto isolado. Há outras mais antigas, mas que funcionavam não
como instituto isolado do Estado, mas tinham outra personalidade jurídica.
Era um projeto daquele momento.
Como se criavam os cursos? Um curso era formulado por professores que
eram da USP. No caso de Assis, foi o curso de Letras. Então, os primeiros professores foram da USP. Em Botucatu, foi o curso da Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas; em Marília, foi a Faculdade de Filosofia; em Guaratinguetá,
foi a Faculdade de Engenharia. Enfim, cada local tinha a sua especificidade.
Depois se ampliava. O curso de Letras foi criado em 1958; depois o segundo curso foi História, na década de 60; depois Psicologia, em 1966; e Filosofia
em 1967. Eram os cursos existentes até 1976, quando foi criada a Unesp.
Eu era da segunda turma de Psicologia, no momento em que nós estávamos no primeiro período da Ditadura e o movimento estudantil ainda era um
movimento forte. Grande parte da contestação à Ditadura era feita a partir das
universidades. Quando eu entrei, no primeiro ano, digamos, a principal atividade política estudantil era se articular em torno das reivindicações ligadas às
questões de ensino. Eram reivindicações de melhoria das condições de ensino
e era uma diretriz dos grupos que militavam no movimento estudantil, sendo
valorizar as questões específicas das reivindicações relativas às condições dos
cursos. Isto era muito forte, no ano que eu entrei, em 1967.
Depoimento 3 – José Roberto Tozoni Reis 95
No final de 1967, o Diretório Acadêmico encaminhou à direção da faculdade, depois de um processo de assembleias com os alunos, o chamado Memorial, em que descrevia o que era tido como as carências relativas ao ensino
e propondo alterações. Isso foi entregue no final de 1967, já existiam os quatro
cursos. Tinha o de Letras, que era o mais antigo, tinha algumas turmas formadas; História também; Psicologia, que estava na segunda turma. E o curso de
Filosofia, que estava na primeira turma.
A Direção da Faculdade prometeu responder, e não respondeu. Naquela
época, os diretores eram nomeados diretamente pelo governador. Em geral
eram professores também da USP. O primeiro diretor foi o professor Soares
Amora, que era o professor do curso de Letras; o segundo foi o professor Júlio
Garcia Morejón, que era também do curso de Letras. Nesse período, o diretor
era o professor Rolando Morel Pinto.
Quando se iniciou o ano de 1968, as lideranças estudantis fizeram uma
mobilização. Aquilo que havia sido entregue à direção não só não tinha sido
respondido, como o diretor havia se afastado, estava na Europa. Também o
vice-diretor. Então, não se tinha a quem se dirigir, nem com quem buscar interlocução. O que as lideranças estudantis fizeram? Uma manifestação. Naquela
época não podia fazer pichações no prédio. Fizemos a pichação na entrada da
faculdade, no piso, na rua, no asfalto.
No primeiro dia de aula, chegaram os professores e alunos, e aquilo chamou muita atenção, mais ou menos 200 metros todo com pichações, com as
reivindicações específicas que haviam sido entregues à direção. Criou-se uma
situação de muita perplexidade. Era a primeira vez, alguns professores falavam isso, que se levava para fora do câmpus as coisas que devem ser resolvidas
dentro. Mas que também não seriam resolvidas, porque a direção não só não
respondeu como não estava presente.
Criou-se uma situação de pressão tal que o governador nomeou um diretor
pró-tempore porque a faculdade estava acéfala. Foi o professor Virgílio Noia
Pinto, do curso de História. Foi o primeiro diretor que não era professor do
curso de Letras da USP.
O professor Virgílio chegou e a primeira coisa que ele fez, surpreendentemente para aquela época, foi convocar os alunos numa assembleia, no anfiteatro, para ouvir por que estava acontecendo aquilo. Ele fez duas reuniões
porque os cursos eram matutinos e vespertinos. O professor saiu chocado das
96 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
reuniões. Ele até teve uma frase assim “quando alunos calouros fazem reivindicações com essa tendência, a gente até entende que é coisa da juventude. Mas
quando aqueles que estão no final do curso dizem que estão saindo frustrados
porque não tiveram o ensino que esperavam ter, que já são pessoas maduras,
alguma coisa está acontecendo”.
Ele atendeu à reivindicação e criou uma comissão para fazer um levantamento de todos os problemas, uma comissão paritária. A briga aí era então
quem iria eleger quem, porque os estudantes queriam eleger os seus pares, mas
os professores, não. Existia um clima de antagonismo entre professores e alunos na questão se os professores seriam eleitos somente pelos pares ou pelos
alunos também. Eu não me lembro qual foi a solução, mas os professores também eram os que tinham uma postura mais crítica ou pelo menos que eram
mais abertos a receber as críticas.
Essa comissão fez um trabalho, ouviu depoimentos de representantes de
classe, de chefes de departamento. As pessoas falavam livremente o que achavam que poderia ser feito para melhorar as condições de ensino na faculdade.
Havia depoimentos livres para quem quisesse dar seu depoimento. Essa comissão trabalhou vários dias e depois fez um relatório e entregou para o diretor.
Eu não me lembro mais as datas corretamente, mas sei que esse relatório
depois foi praticamente desconsiderado porque o diretor titular e o vice voltaram da turnê na Europa. Tornou-se secundário com o que aconteceu no país
naquele momento, porque essa comissão trabalhou no começo de abril de 1968.
O assassinato de Edson Luís no Rio de Janeiro pela polícia militar
No final de março aconteceu um episódio que, digamos, unificou as manifestações estudantis no Brasil, que foi a morte do Edson Luís, no Calabouço,
no dia 28 de março. A partir daí, a mobilização estudantil ganhou nova dimensão, estritamente política ou especificamente contra a ditadura. Não era o foco
principal, mas a partir daí passou a ser.
Eu lembro que nós organizamos pela primeira vez em Assis uma passeata.
Isso ocorreu em várias cidades do interior em que existiam institutos isolados.
Eles foram, em seu projeto original, concebidos para levar, para mexer, dinamizar a vida cultural da cidade. Existia um choque de valores, é uma cidade
Depoimento 3 – José Roberto Tozoni Reis 97
basicamente agrícola, existe um antagonismo. Foi a primeira vez que teve uma
passeata de estudantes, e com o apoio da população.
O que mobilizou muito naquela época era um slogan “mataram um estudante que poderia ser seu filho”. A população, parte da população, podia ser
conservadora, mas a morte do estudante era uma coisa muito chocante. Então
foi, a partir daquele momento, o que aconteceu? No Brasil todo, o movimento
estudantil cresceu até chegar a passeata dos 100 mil.
Aconteceria no final de agosto a eleição para o diretor acadêmico. Nesse
tempo também, além das questões ligadas ao confronto com a ditadura, os institutos isolados começaram também a se articular quando surgiu a ideia de ter
uma universidade, deles serem integrados, se falava numa integração naquela época. Em relação aos professores, não existia uma entidade representativa
porque a Adunesp foi criada para combater a criação da Unesp nos moldes que
ela estava sendo criada. Foi uma reação à criação da Unesp.
O Congresso de Araraquara, o de Rio Claro e o de Ibiúna
As lideranças dos professores e estudantes se articularam e convocaram
um congresso, em Araraquara. O congresso era para discutir o que se falava
de integração dos institutos isolados, porque eles eram dispersos e eram literalmente isolados. Isso fez o congresso de Araraquara ser marcado por uma
certa tensão inicial. Era no mesmo período em que aconteciam paralelamente
várias atividades e os congressos estaduais clandestinos. A União Nacional dos
Estudantes, a UNE, era clandestina e preparava um congresso em Ibiúna, em
outubro daquele ano.
Havia um clima de contestação no país, principalmente nas universidades.
Existia clara repressão policial, tudo muito misturado. Era um congresso, era
um evento, era público. Os congressos da União Estadual dos Estudantes, da
UEE, eram clandestinos. Mas esse congresso dos representantes dos institutos
isolados era um congresso público, com divulgação, aberto. Existia uma tensão
no começo com o boato de que não se realizaria e que haveria intervenção policial, o que não ocorreu. Depois dos primeiros dias, foi mais tranquilo.
Esse congresso terminou com uma proposta de criação de uma universidade do interior do Estado, que fosse uma universidade democrática, portanto,
98 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
que tivesse uma estrutura de poder que contemplasse a participação nas decisões, principalmente de professores e funcionários. Importante lembrar que
esse congresso foi paritário também, ele tinha o mesmo número de representantes dos alunos e de representantes dos professores.
Esse congresso, por limitações de tempo, não pode terminar suas deliberações. Então, foi marcada uma continuidade e definido que seria em outubro,
em Rio Claro. Nesse meio tempo aconteceu a eleição do diretório acadêmico
em que eu fui candidato a presidente. A eleição não era por chapa, era por cargo, então aconteceu algo muito insólito: os membros eram da chapa composta
por duas tendências do movimento estudantil.
Uma tendência que naquele momento era ligada originalmente ao Partido
Comunista Brasileiro, mas que não era mais do Partido Comunista, e, sim, das
dissidências do Partido Comunista. Em nível nacional tinha como representante no Estado o ex-ministro José Dirceu. Ele foi presidente da UEE em São
Paulo. A outra parte do movimento estudantil se originou da Ação Popular,
que foi um movimento que nasceu dentro da Igreja Católica, mas que depois
virou a Ação Popular Marxista Leninista, e que tinha uma aliança, naquele
momento, mais próxima com o PCdoB.
Em Assis, nós não tínhamos ligações orgânicas com essas correntes, com
esses partidos, com essas organizações, tínhamos ligações de afinidade. Nós
organizamos uma chapa que contemplava as duas forças de esquerda do movimento estudantil. E havia outra chapa com os alunos mais despolitizados e que
estavam ligadas a professores mais conservadores. Foram eleitos parte de uma
chapa e parte de outra.
Eu me lembro que o secretário e o tesoureiro eram das chapas opostas e as
duas vice-presidentes eram da nossa chapa. Eu era candidato a presidente e deu
empate! A comissão era composta também pelo professor Ênio Fonda, que era
um professor conservador, mas amigo dos estudantes de esquerda, pessoa das
Letras, embora dizia-se que ele era informante policial infiltrado. O terceiro
era o secretário da faculdade. Naquela época, a administração tinha um poder
muito forte, não o corpo administrativo como um todo, mas aqueles do topo da
administração. Ele sugeriu: “vamos resolver isso logo, pelo critério universal”.
Qual é o critério universal? Quando você tem um empate em todos os critérios
de uma eleição, é a idade.
Depoimento 3 – José Roberto Tozoni Reis 99
Eu tinha 20 anos, tinha aparência de menino. Em relação ao outro, eu era
um mês e meio mais velho e ele achou que fosse o contrário. Então o presidente
convocou uma assembleia do Diretório Acadêmico para decidir se acatava ou
não a decisão da comissão eleitoral. Eu assumi, contrariando a direção da faculdade. Chegou-se a fazer uma ameaça de não liberar os recursos destinados
ao diretório. Houve um certo confronto, liberaram a verba e reconheceram o
resultado da eleição.
Na realidade, eu só fui destituído na prática em dezembro, quando baixou o Ato Institucional nº 5, o AI-5. Mas isso ocorreu entre o Congresso de
Araraquara e o de Rio Claro. Foi por causa desse de Rio Claro, que não fui pra
o congresso da UNE. Tinha também umas questões pessoais. Eu trabalhava
e estudava e, como o Congresso da UNE era clandestino, você tinha que se
deslocar da sua cidade três ou quatro dias antes, que tinha uns esquemas de
despistamento para chegar até o Congresso. Então nós não íamos diretamente
até o local do Congresso. Cada um ia para um lugar e isso demorava em torno
de três dias. Então, tinha que se ter muito tempo.
Decidimos, na diretoria, que iria a vice-presidente e eu iria para de Rio Claro. O que aconteceu? Eu estava em Rio Claro quando houve toda a repressão do
Congresso de Ibiúna. Eu me lembro que eu saí da reunião e fui para São Paulo
contratar advogados para fazer a defesa da colega que havia sido presa no Congresso, a Isabel Perón Andrade, vice-presidente do diretório. Ela fazia História
e, até onde sei, dava aula na USP. Ficou presa por mais de duas semanas.
Eles foram fazendo as filtragens e mantiveram presas as lideranças nacionais e regionais importantes. Eram o Travassos, que era presidente da UNE,
o José Dirceu, presidente da UEE, e o Vladimir Palmeira. Na época, haveria a
eleição da nova diretoria durante o evento. O Vladimir Palmeira estava concorrendo. Outras lideranças regionais importantes também ficaram presas. De
qualquer forma, a Isabel foi solta.
A ocupação das faculdades
A palavra de ordem naquele momento é que, se houvesse algum tipo de
repressão, os estudantes deveriam ocupar as faculdades e, no interior, quem
cumpriu fomos nós, em Assis e Botucatu, que tinha o movimento mais forte de
100 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
todos os Institutos Isolados. No interior de São Paulo, várias faculdades foram
ocupadas, inclusive na USP. Nós mantivemos a ocupação por mais de uma semana e depois o câmpus foi sendo paulatinamente desocupado.
O AI-5
Tivemos depois, em dezembro, o AI-5. Ou seja, isso aconteceu concomitantemente à passeata dos cem mil, em 1968. Depois teve o famoso discurso do
deputado Márcio Moreira Alves, que as moças não se casassem com os cadetes.
O governo da época já era do general Costa e Silva e ele propôs a cassação do
mandato do deputado Moreira Alves de maneira com que o próprio Congresso
o cassasse, por decoro parlamentar, porque ele tinha ofendido as forças armadas. A câmara negou e depois, em resposta a isso, veio o AI-5 e as cassações
poderiam ser feitas sem passar por nenhum órgão, nem pela Justiça, suspendeu
todos os direitos individuais e os direitos políticos.
Nesse momento houve um refluxo no movimento estudantil e nos movimentos sociais que também combatiam a Ditadura, foram acuados. Houve
uma desmobilização. Eu costumo dizer que trouxe pra mim um ganho profissional, porque, com a diminuição da atividade política, eu me dediquei mais
ao estudo. Não que eu não estudasse, estudava muito, mas os estudos eram
voltados para a formação política e havia empenho nisso.
Para denegrir o movimento estudantil diziam que quem participava eram
alunos que não queriam estudar e que tinha notas baixas. É que existia também, isso antes da Ditadura, os que eram chamados estudantes profissionais.
Falavam isso pejorativamente, porque eram militantes que ficavam nas entidades e que obviamente, quando assumiam entidades estaduais ou nacionais, se
afastavam das atividades de ensino. Falavam que era estudante profissional pejorativamente. Mas eu lembro que todos os meus companheiros do movimento
estudantil, do ponto de vista acadêmico, eram bons alunos. Ninguém descuidava dessa parte, só que a gente dedicava muito tempo à formação política.
Parece que o tempo durava mais naquele momento. Dava tempo para tudo.
Meu curso era das 7 da manhã ao meio-dia, eu trabalhava. No final do primeiro ano da faculdade eu prestei um concurso pra funcionário público municipal,
na Prefeitura. Do meio-dia às seis. Como era estudante, tinha tolerância pra
Depoimento 3 – José Roberto Tozoni Reis 101
chegar mais tarde, 30, 40 minutos, era o tempo de comer correndo e ir. E à noite
dava tempo para fazer política e boemia, de ouvir o rádio, ler e estudar. Isso era
das 11 às 2 da manhã. O dia parecia mais longo.
A repercussão da invasão da UnB, em Assis
Nesse momento, surgiu uma questão importante para o ensino superior.
Em agosto, houve a invasão da Universidade de Brasília, a UnB. Coincide com
o discurso do Márcio Moreira Alves na tribuna do Congresso.
Em Assis existia um deputado do MDB que era de um grupo progressista
do MDB chamado de autênticos, que era do deputado Santilli Sobrinho. Ele
morava lá e o filho era estudante da UnB. Ele foi lá, fazer a intervenção como
parlamentar e acabou sendo alvo da repressão, tomou muitas cacetadas.
Na época nós estávamos no período de eleição para prefeito, e tinha um
candidato do MDB que ganhou. Ele foi lá, era deputado da região, chamado
para ser homenageado, era uma sessão de desagravo na Câmara, por ele ter
sido alvo da repressão policial. Ele era inclusive o autor do projeto que criou
a faculdade, quando era deputado estadual. Ele tinha essa identificação com
o movimento estudantil. Eu fiz um discurso, como presidente do diretório
acadêmico. Eu era funcionário da prefeitura, e o prefeito um dia me chamou:
“Tozoni, eu não sei o que eu faço com você. Me chamaram em São Paulo, no
DOPS; tinham gravado o discurso que você fez e me fizeram ouvir o discurso. Eu não tenho nada com isso, você é meu funcionário, e o discurso foi na
Câmara, no Poder Legislativo. Mas as coisas que você falou, cada coisa que
você falava, o quepe do coronel até subia na cabeça. Por favor, pare com isso.”
Depois ele falou: “Mas, de qualquer forma, eu fiz um acordo com ele de que
eu seria avisado se você fosse preso. Então fique de malas prontas, eu te aviso
e você some, e reaparece algum dia”. Ele foi muito humanitário, embora fosse
da Arena, tinha boas relações com os funcionários. Com a desmobilização do
movimento estudantil, às vezes ele falava “Olha, tem alguma coisa aí, mas não
tem ordem de prisão”. Foi uma situação de muita apreensão, mesmo já não
tendo mais a militância aberta. Era uma época mais de resistência.
Mas o diretório acadêmico continuou. O diretório foi criado logo depois
do Golpe Militar. Ele coexistiu às vezes de forma antagônica, era centro aca-
102 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
dêmico e diretório acadêmico. Nós só tínhamos o diretório acadêmico. O que
houve foi que, se não fui destituído, acabou hibernando, vamos dizer assim. A
direção não recebia mais nenhuma ajuda. Foi a partir do AI-5. Isso foi no dia
13 de dezembro, estava no final do período de aula. Quando nós voltamos em
março, não conseguimos continuar, mas não houve uma destituição formal.
Na realidade, a gente não tinha mais o poder de mobilização para confronto,
estava todo mundo muito assustado, com muito medo. As lideranças não conseguiam nem fazer assembleia.
O movimento realizado pelos estudantes da Unesp no interior do estado
foi muito importante, saiu um pouco do eixo Rio e São Paulo. Em 1968, estávamos na discussão e na resistência à implantação da reforma universitária que
tinha os compromissos com o Banco Mundial, com o MEC-USAID.
Parte II: Professor em Assis
A criação da UNESP
A criação da Unesp em 1976 aconteceu no governo do Paulo Egydio. Foi a
proposta da Assembleia Legislativa, de tramitação muito rápida, e já na criação
da lei cria-se um Conselho Universitário provisório.
Nessa época, o Luiz Ferreira Martins era o coordenador da Coordenadoria
do Ensino Superior do Estado de São Paulo, CESESP, que fazia a coordenação
dos diversos institutos isolados. Ele era professor na USP em Bauru, formado
Faculdade de Veterinária de Botucatu. Quando foi nomeado o primeiro reitor,
devendo ser provisório, convocou o Conselho Universitário, composto por ele,
pelo vice-reitor e pelos diretores de unidades, todos nomeados, para fazer o
Estatuto da Unesp.
Eles fizeram o estatuto, que, segundo o professor Maurício Tratenberg, não
tinha nada a ver com a Unesp. Ele se manifestava: “a utopia burocrática concretizada”. Eles fizeram coisas que nunca se imaginou ser possível fazer de tão
burocrático que era. Era assim: para ocupar qualquer cargo na Universidade
tinha que ser titular e eram poucos os titulares. Inclusive, eles eram titulares
na condição anterior, nos institutos isolados não existia uma carreira, então
era professor “regente” ou “assistente”. Todos os regentes se transformaram em
Depoimento 3 – José Roberto Tozoni Reis 103
titulares. Tinha muito titular que não tinha nem doutorado. Então todos os
cargos para sair dependiam de uma lista tríplice de três titulares eleitos pela
congregação dos quais o reitor escolhia um. E os cargos de titulares eram distribuídos de acordo com as afinidades. Os titulares que passaram a ser concursados depois que a Unesp foi criada eram sempre aliados do reitor.
Enfim, eu me lembro que na composição da Congregação da Faculdade havia cinco representantes dos professores titulares, o diretor tinha que ser titular
e o vice-diretor tinha que ser titular, porém nunca havia cinco representantes,
porque não tinha titular em geral. Aí, eram cinco titulares, sendo um dos doutores, um dos assistentes e um dos auxiliares de ensino.
Eu mesmo entrei como auxiliar do ensino, sem mestrado e nem pretendia ir
para a Universidade. Eu tinha me formado em São Paulo, terminei na PUC-SP
e estava me preparando para fazer carreira como psicólogo. Então me convidaram para dar aula, pois precisavam, e eu me interessava desde aquela época pela
Psicologia de grupos. Convidaram-me para uma disciplina que estava sendo
criada, sobre dinâmica de grupo. Em 1973, eu fui procurado para ministrar
uma disciplina em tempo parcial. Era para as licenciaturas. Eu fiquei um mês
e meio como substituto e depois fui convidado para dar a disciplina no quinto
ano de Psicologia, que estava sendo implantado.
Prestei concurso, naquela época não era concurso para provimento de cargo, era tipo um concurso público. Mas éramos contratados como celetistas.
Passei e fui pressionado pelo chefe de departamento a assumir imediatamente.
Eu falei: “eu não quero assumir, eu quero resolver a minha vida em São Paulo”.
Eu estava me direcionando para outra coisa, embora eu fosse ficar apenas um
dia só. Aí eu assumi no começo de 1974. Eu voltei como docente concursado
em tempo parcial em 1974.
Militância e docência
Quando eu fui estudante, não havia nenhum professor militante, a não ser
o Onosor Fonseca. Alguns poucos, como o Almeida Prado, eram simpatizantes
na época, tinham boas relações. Ele era professor de Letras, tinha participado
do grupo do jogral, coordenava atividades culturais, mas teve resistência na
congregação, uma resistência minoritária.
104 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Meu currículo, embora eu tivesse dois anos de formado, era dirigido à área
de grupos e relações humanas. Eu acabei ficando e não me interessei muito por
pesquisa, mas já tinha experiência como professor de Psicologia no colegial.
Enquanto eu terminava o curso, dei aula em um grande colégio público de
São Paulo, o segundo maior, o colégio Marina Cintra. Eu tinha trabalhado lá e
tinha gostado. Fui para a universidade e gostei muito, e fui seduzido para ficar
em tempo integral.
Antes eu trabalhava em tempo parcial, um dia eu dava aula e ia embora,
voltava para São Paulo, onde morava. Eu não fiz mestrado, fazia as pesquisas
regulares que tinha que fazer. Mas a maior parte do envolvimento era com
docência, com assistência, tinha uma clínica psicológica e eu gostava muito de
atender também, e fui retomando, como docente, a atividade política.
Eu voltei em 1974 e, em 1976, quando foi criada a Unesp, eu atuava em
período integral. Então, por esse projeto mirabolante da Ditadura, organizado
pelo Luiz Ferreira Martins, foi criada esta estrutura de poder em que para se
disputar qualquer cargo você tinha que ser titular, para ser titular você tinha
que ser aliado do poder central. Para fazer lista tríplice para diretor, a congregação é que fazia. Com essa estrutura, ela era majoritariamente conservadora.
Para fazer a lista tríplice ou a lista sêxtupla para reitor, tinha que ser o Conselho
universitário. Quando nós conseguimos eleger um representante dos docentes
que não era do “grupo”, digamos, do grupo da Reitoria, foi o João Francisco
Tidei. Foi a primeira vez que isso aconteceu.
Criou-se a situação de não só se emprestarem docentes para chefe de departamento dentro da unidade, como emprestar de um instituto para outro, de
uma faculdade para outra. Eu me lembro de um professor lá de Assis, Mário
Masquerpi, que era diretor em Marília porque eles não tinham titulares.
Tinha que ser diretor e tinha que ser confiável ao reitor. Alguns, por exemplo, o Mário, não eram do grupo do reitor, mas eles eram toleráveis porque não
eram pessoas que confrontavam. Em Presidente Prudente, por exemplo, até
existia um ótimo diretor, mas a Reitoria levou um professor de Araçatuba para
ser diretor lá. Ou seja, eles tinham o controle absoluto, de cima para baixo. Era
para ser imutável.
Depoimento 3 – José Roberto Tozoni Reis 105
Parte III: Criação da Adunesp no compasso da democratização
A Adunesp foi criada como associação porque era proibido aos servidores
públicos se sindicalizarem. Mas, na verdade, esse é o sindicato dos professores.
Tinha uma lei da ditadura que proibia, os servidores públicos não podiam se
sindicalizar; hoje pode, por isso a associação. Tanto que a Associação Nacional
dos Docentes do Ensino Superior, a Andes, virou sindicato bem depois.
Com isso, a resistência aumentou e a Unesp começou de uma forma bastante autoritária e com muita resistência. Foi a Adunesp que mobilizou naquele momento a resistência. Foram criados núcleos em cada câmpus, exceto
naqueles câmpus em que o poder era exercido de forma mais absoluta ainda.
Por exemplo, Franca era o quintal do Manuel Nunes Dias, que era professor
da USP. Eles não tinham na Unesp professores disponíveis e foram pegar o
Manuel Nunes Dias, que era professor da USP. Muito polêmico, ele era bem
direitista, então era alvo de muito embate. Tinha sido diretor da ECA, na época
em que a Escola foi criada.
Franca, por exemplo, não era nem da Unesp, vinha gente de fora mais conservadora ainda. O Manuel Nunes Dias era o troglodita. Tanto que o apelido
dele era “Manequim Salazar”, ele era salazarista. Então era essa a estrutura, a
criação da Adunesp, que trouxe uma possibilidade de se organizar a militância
política dentro da Universidade.
Eu fiz parte da articulação para criar a Adunesp, junto com o Tidei, mas
eu não fiz parte da diretoria no início. Ela foi a primeira, a da USP veio depois.
Quem tinha o poder de articular eleições para o Conselho Universitário? Não
existia uma entidade. Tinha que ser uma articulação espontânea, era muito difícil. Com a Adunesp, não. Toda vez que tinha eleição para o C.O. e para representantes docentes acontecia um embate, tanto que aos poucos conseguimos
eleger representantes. Primeiro foi o João Francisco Tidei, que era representante dos professores assistentes, depois conseguimos, na segunda vez, eleger
o representante dos auxiliares de ensino. Depois representantes de professores
doutores. Só não chegamos a eleger representantes de titulares.
A representação estudantil era limitada também, mas passou a ter uma articulação entre os representantes docentes, os estudantes e alguns dos setores
administrativos. Botucatu tinha uma militância muito forte no setor administrativo. Porque aqui, muitas vezes, os movimentos, por exemplo, de greve, de
106 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
ocupação, eram unificados. As assembleias que decidiam não eram assembleias
por categorias, alunos, professores, era uma assembleia geral de todos. Mas, na
maioria dos campi, a alta burocracia tinha muito privilégio sobre o setor administrativo, e eles tinham controle sobre a maioria dos servidores. Então, entre os
alunos não havia nenhum apoio, entre os professores, o apoio era bem dividido.
Entre os funcionários havia apoio quase total, exceto em Botucatu.
Nesse momento, em 1976, começa a avançar o processo de democratização
do país. A eleição em 1982, a primeira eleição direta para governador depois de
1966, elegeu o Montoro, em São Paulo; o Brizola, no Rio de Janeiro; e o Tancredo, em Minas Gerais. Eram Estados com a maior densidade eleitoral e eram
candidatos da oposição. O Montoro se elegeu e começou imediatamente com a
campanha das diretas para presidente. Com a eleição do Montoro se potencializou a perspectiva. Isso foi em março de 1983.
A eleição de Quelce em Assis e a recondução do Mendonça
Em agosto haveria a sucessão da direção em Assis, onde o diretor era o professor Fernando Mendonça. Desde o começo do ano se articulou uma pressão
para se fazer uma eleição direta. O Quelce, que era professor de Biologia em
Marília, já tinha ido para Assis em 1981.
O Quelce tinha um histórico de militância, tinha sido preso em 1964, era
geneticista e no curso de Psicologia tinha algumas disciplinas de Ciências Biológicas. Ele estava desgastado lá e pediu transferência para Assis. Então o Departamento de Psicologia passou a ter um professor titular.
Imagina só, ele vinha de Marília, era de esquerda e era o único titular.
Não tinha como não ser chefe de departamento. Isso ampliou muito as possibilidades de luta, inclusive na congregação. Continuamos sendo minoria, mas
ameaçando. Começamos também com articulações, inclusive jurídicas, para
garantir direitos. O diretor falava assim: “é isso o que vocês estão querendo
só que não pode! Não é permitido pelo Estatuto. Pronto, é isso”. Então tem o
estatuto, tem a assessoria jurídica.
O Quelce se tornou, naturalmente, o candidato da esquerda, porque ele
era titular. Foi muito bem recebido em Assis, menos pela extrema direita. Havia uma polarização do corpo docente. A maioria dos professores tinha uma
Depoimento 3 – José Roberto Tozoni Reis 107
posição intermediária. Pode-se dizer que nas coisas fundamentais a esquerda
tinha o apoio da maioria, mas nos órgãos colegiados e congregações, não tinha.
Então se começou a campanha por uma eleição direta, paritária. O estatuto
não permitia, mas e se a congregação se comprometesse e fazer a lista que a
comunidade elegesse e os professores aceitassem? A nova estrutura foi criando
uma certa pressão sobre os titulares.
Fizemos a eleição; o Quelce teve 26% dos votos, segundo colocado. O Mendonça o sexto ou sétimo. Foi a primeira experiência. Como o voto era paritário,
o setor administrativo também tinha peso importante, eles tinham um terço
dos votos e assim mesmo o Mendonça teve menos de 10%. A congregação fez a
lista e nós já conseguimos, com a pressão, ter o controle da congregação. Não
de evitar que o Mendonça estivesse na lista. Fizemos votações sucessivas. Na
primeira votação, só o Quelce teve maioria para poder marcar bem.
O professor Fernando Mendonça não chegou a ter a maioria. Era mês de
férias, final do semestre até agosto. O que ele fez nas férias? Ele renunciou ao
final do mandato, mandou a lista para o reitor, que o nomeou para o segundo
mandato. Foi uma manobra, muito bem articulada. Eu não sei se foi no começo
das férias, isso se divulgou e os alunos começaram a mandar cartas, algumas
anônimas para o Fernando Mendonça. Mandavam para a casa dele e ele ficou louco. Quando os alunos voltaram, começou o movimento pela renúncia.
A mobilização era muito forte. O grande elemento que aí se encadeou foi o
bumbo. Os alunos saíam com instrumentos musicais e tinha um bumbo que
eles iam batendo. Passando, ninguém conseguia ter aula. Passaram-se alguns
minutos e o Mendonça chamou a polícia. A polícia veio, tirou os estudantes e
isso originou a ocupação.
A ocupação de Assis
Naquele dia eu estava em São Paulo, representando os docentes, e nós tínhamos ido negociar, com o deputado Márcio Santilli, um ex-aluno de Filosofia em Assis, filho do ex-prefeito e ex-deputado. Só por curiosidade, a Filosofia tinha sido um curso que, na criação da Unesp, eles tiraram de Assis e
mandaram para Marília. O diretor da época tinha muita antipatia pelo pessoal
108 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
da Filosofia e ele queria se livrar, fizeram aquele remanejamento para fechar
cursos, racionalização burocrática. Os professores de História de Marília vão
para Assis e os da Filosofia vão para Marília, um acordo entre eles, segundo os
afetos e desafetos, que passavam, obviamente, pelas relações políticas.
Mas aí estávamos em São Paulo e tínhamos conseguido uma audiência,
junto com o Márcio Santilli e representantes dos alunos e professores, com
o Secretário de Segurança. O objetivo era garantir que não haveria repressão
policial, porque a situação estava ficando mais tensa. Aí, os alunos passam tocando bumbo, o Mendonça fica atormentado, chama a polícia, “o bumbo, o
bumbo”. Aquilo foi considerado crime!
A sindicância
Foi feita uma sindicância que propunha demissão, expulsão de aluno, demissão de docentes. A polícia veio, não sei se prendeu quem estava tocando
bumbo, aí os alunos invadiram. No dia do bumbo, houve só prisão, a invasão veio depois. Uma vez, ao chegar de uma viagem, um oficial de justiça me
entregou uma intimação de reintegração de posse. O Mendonça me colocou
como um dos responsáveis pela ocupação, junto com os alunos. Afinal eu era
sempre representante do auxiliar de ensino na congregação e ele ficava muito
incomodado. Ele não podia mais entrar mais no câmpus. Ele não dizia que era
de direita. Falava que saiu de Portugal fugido por perseguição política. Outra
versão dizia que ele saiu fugido por estelionato, mas ele sempre foi de direita
O apoio era basicamente dos servidores. Professores, que apoiavam o Mendonça diretamente eram só alguns, eram titulares, poucos. Quando ele foi
diretor pela primeira vez, teve até um certo apoio, porque o anterior era tão
repressivo que chegou a colocar nas portas de aula uma janelinha de vidro para
os bedéis olharem os professores que estavam dando aula e prestarem atenção
no que eles estavam falando.
O Mendonça entrou na congregação se propondo a articular, com um grupo da esquerda, vários compromissos. Do ponto de vista interno, ele criou uma
distinção, mas depois ficou muito ligado ao reitor. Tinha uma posição de direita, embora fosse liberal em termos pessoais, tinha uma convicção salazarista.
Depoimento 3 – José Roberto Tozoni Reis 109
Nesse momento ele participa, articula o golpe todo. Nem sei se está correto
juridicamente ele renunciar antes para ser reconduzido.
Por causa da ocupação, ele não podia entrar, mas as atividades continuaram normalmente. Foi chegando a uma situação de desespero até que o reitor
proibiu que as aulas ocorressem. Nós, professores, uma pequena parte parou,
mas a maior parte ainda continuou dando aula e registrando. Algumas coisas
que não funcionavam, como o refeitório dos estudantes, passaram a funcionar.
A vida ficou melhor e ele não podia entrar.
Era também uma situação tensa porque o corpo administrativo, principalmente os chefes intermediários, era muito ferrenho na aliança com ele. A
ocupação foi na sala da direção e da congregação. Os alunos dormiam lá, se
revezavam. Eles fecharam o prédio maior, que era o prédio 2, onde funcionavam a Letras, a Psicologia e a História, porque o prédio 1, onde estavam os
estudantes, não conseguiram fechar. Começou a haver ameaça da sindicância,
de colocar todos para fora.
Muitos professores recuaram e as aulas passaram a ser não mais aulas específicas de cada curso, mas que tivessem um interesse mais amplo para a especificidade dos cursos, um tema que pudesse ser interessante para todos os cursos,
também eram temas políticos. Funcionava como uma universidade livre. É interessante que, na prática, foram superadas as divergências das muitas tendências da esquerda. Toda a briga na época de tendências do PT, PCdoB e PDT. As
brigas no movimento eram muito fortes e desapareceram naquele momento.
As aulas contavam agora com um cronograma, com calendário e eram dadas na congregação; porque, quando se decretou isso em relação às aulas, muitos alunos foram embora e só ficaram os militantes. O tempo passou, foram
dois ou três meses de ocupação, foi se desgastando e os alunos não queriam
perder o ano, até que decidiram entregar a sala.
O Mendonça continuou na direção, teve embate, porém, não com uma
pressão de massa. O movimento foi se enfraquecendo, não havia muita perspectiva de mudança. Chegava o final do ano e muitos alunos queriam se formar. Ele não teve paz, mas terminou o mandato.
A luta foi mais em torno da universidade. Teve também muita participação,
mas o foco já era mais amplo. Esse processo todo gerou uma interlocução com
outras Unidades, que vinham dar apoio, em delegações; vinham de Araraquara,
de Botucatu. A partir da Adunesp e da entidade dos estudantes, foi acalentada
110 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
a ideia da escolha do reitor no ano seguinte. Naquele momento houve uma unificação e daí, então, no ano seguinte, se começou a campanha pelas entidades
para a eleição direta para reitor, já neste novo momento que o Montoro assumia
em campanha, a eleição direta pra presidente. Tinha um lema de umas congregações no palácio que era “diretas urgentes para reitor e presidente”.
A eleição para reitor
Isso foi crescendo, começou a campanha, apesar das dificuldades por causa das demissões, por exemplo, em Assis. Foi feita a eleição e apareceram dois
candidatos: o Carlos Aldrovandi, que tinha sido professor em Assis e estava em
Araraquara na época, e o William Saad Hossne, que tinha passado por uma
experiência de reitor na UFSCar. O Saad, embora nomeado na ditadura – ele foi
nomeado pelo Delfim, no fim da ditadura –, era muito progressista. São Carlos
o projetou como acadêmico progressista em termos de gestão.
A maior parte dos congregados votou e isso foi acuando o grupo, que já
não era mais liderado pelo Luiz Martins, pois foi o Armando Otávio Ramos,
de Botucatu, que assumiu a Reitoria. Ele saiu para ser secretário do partido
do Maluf e usou a marca de reitor para ser candidato a deputado federal. O
Luiz Martins teve um mandato de deputado federal. Eles foram sentindo-se
acuados e se democratizaram, lançaram uma consulta. Havia até uma carta
dele manuscrita dizendo por que ele estava fazendo aquilo, queria respeitar a
vontade da comunidade.
Qual era o pensamento estratégico eleitoral deles? Eles não vão participar e
quem vai participar da nossa consulta? Eles vão boicotar. Quem vai participar?
As pessoas que são do nosso time, principalmente os funcionários. Nós vamos
ter um resultado para apresentar ao governador. O C.O. pressionava para fazer
a lista, para que a comunidade elegesse fazendo esse mesmo esquema. Ou seja,
colocar em primeira votação só o eleito e depois os outros para complementar
a lista. O Montoro certamente nomearia, pois não havia mais a ditadura.
Então, seria o mais votado, era esse o compromisso do Montoro. Eles deram esse golpe: “vamos fazer um processo democrático oficial, a universidade
vai consultar”. Então já tínhamos feito nosso processo, tínhamos eleito o Saad:
“vamos dar um golpe neles também, nós vamos participar e votar no Saad”.
Depoimento 3 – José Roberto Tozoni Reis 111
Vitória estrondosa. O Saad foi eleito na consulta da comunidade, mas não incluíram o nome do Saad na lista para o governador. Mais do que isso, eles não
tinham seis nomes de confiança, do grupo mesmo, incluindo o próprio reitor,
o Armando Otávio Ramos, que foi o sexto nome. Esse foi o pretexto jurídico
para o Montoro devolver a lista. Por quê? A lei que criou a universidade dizia
que o mandato do reitor era de um ano, proibida a recondução sucessiva. Se ele
não podia ser reconduzido, ele não poderia estar na lista. O Montoro usou isso
como argumento, “essa lista está invalidada”.
Começou a pressão, que durou quase um semestre. Aí, acabou o mandato
do reitor, assumiu o vice-reitor que era de Araraquara, Raphael Lia Rolfsen. O
cabeça, no entanto, era o Armando e o Luiz Martins mesmo. Dizem até que ele
era meio simplório, eu não o conheci pessoalmente: “só quero ficar aqui, quero
ficar na minha casa”. Acabou o mandato dele, então quem assume, na ordem
de sucessão, na ausência do reitor e vice-reitor, é o pró-reitor. As pró-reitorias
não eram assim como são hoje, com um pró-reitor. Hoje ele é escolhido como
reitor para ser responsável por uma área da administração. Os pró-reitores
eram apenas votados no C.O., em ordem de sucessão nesses casos. Então assumiu o Manoel Nunes Dias, que foi reitor.
DEPOIMENTO 4
João Francisco Tidei Lima
O professor João Francisco Tidei Lima foi muito atuante nos episódios que
envolveram a violação dos direitos humanos na Unesp durante a ditadura civil-militar de 1964 a 1985. Aqui ele fala sobre sua atuação, como professor, e a
trajetória da própria Universidade durante aquele período. O professor dá uma
visão mais ampla das relações políticas e sociais no Brasil e como elas repercutiram na Unesp.
E
u cheguei a Assis em agosto de 64. Tomei posse na disciplina de História
no Instituto de Educação Clybas Pinto Ferraz. A partir daí, comecei a fazer
contatos com professores da faculdade que também repartiam o seu tempo de
trabalho com o Ensino Médio. Um deles era o Onosor Fonseca, ex-preso político, logo depois do golpe de 1964. Ele era professor de Francês e ficou preso por
algum tempo com o vereador Norberto Ferreira, um líder ferroviário. Onosor
era militante de intensa atividade política nos anos 1950 em São Paulo. Participou do Movimento pela Nacionalização do Petróleo no Brasil e da fundação
da Petrobrás, em 1953.
Em 1968, o Governo decretou o Ato Institucional nº 5, radicalizando ainda
mais a Ditadura Militar. Em 1970, a convite dos professores Luís Antônio Moura Castro e Nilo Odália, assumi a disciplina de História Moderna na Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, futuro câmpus da Unesp. Inicialmente,
em tempo parcial. Lecionava simultaneamente com aulas da mesma disciplina
na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Tupã, uma instituição particular.
Em dezembro de 1973, passei a trabalhar exclusivamente em regime de
tempo integral na Faculdade em Assis, quando era diretor Manoel Lelo Belot-
114 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
to. A atividade acadêmica compreendia também frequência no curso de PósGraduação em História Social na USP, sob orientação de Eduardo d’Oliveira
França. Paralelamente, Caio Navarro de Toledo, meu colega do curso de Filosofia de Assis, e eu começamos a reorganizar o Clube de Cinema na Faculdade.
Formalmente era uma atividade cultural, mas, naquele momento, um precioso
local para discussão política.
O Clube de Cinema se torna referência na cidade
Era o tempo da feroz ditadura chefiada pelo general Emílio Médici. Inicialmente fazíamos sessões semanais no auditório chamado Salão de Atos. Alugávamos filmes, bitola de 16 mm, diretamente em São Paulo. Depois fizemos
acordo com o Cine Pedutti em Assis, para organizar aos sábados um programa
na sessão das 22 horas. Buscávamos os filmes na distribuidora em Botucatu.
Infalivelmente em todas as sessões, tanto na Faculdade quanto no Cine Pedutti,
distribuíamos textos para discussão após a projeção. Os textos eram elaborados também com a participação de professoras do Curso de Letras, como Letízia Zini Antunes e Marzia Vezentini.
O debate, após a exibição dos filmes, ia longe. Numa das sessões, em pleno
Cine Pedutti, exibimos o filme “Os Deuses Malditos”, de Lucchino Visconti,
clássico italiano de forte conteúdo político. A projeção acabou pouco depois de
meia-noite. Aí, abrimos uma discussão coordenada pelo Wilcon Joia Pereira,
já falecido, professor do Departamento de Filosofia. Nós convidávamos professores de diferentes áreas, dependendo do assunto, para coordenar o debate.
Nessa noite, fomos até duas e meia da manhã, cerca de 80 pessoas presentes!
Tamanha era a vontade de refletir politicamente sobre a realidade do país.
Mantivemos o Clube de Cinema durante muitos anos, com presença numerosa de alunos e professores. Numa pequena sala do câmpus, preparávamos
os textos, em seguida eles eram mimeografados e depois distribuídos, antes
das sessões.
De modo geral, naquele tempo os filmes lançados em São Paulo demoravam até dois anos para chegar a Assis. Em 1974, era muito celebrado “Cabaret”,
de Bob Fosse, estrelado por Liza Minelli. Era aparentemente um musical, mas,
a rigor, um belíssimo filme de conteúdo político marcante e inesquecível, am-
Depoimento 4 – João Francisco Tidei Lima 115
bientado em Berlim, em 1931, antevéspera da chegada do nazismo ao poder na
Alemanha. Não pensamos duas vezes, fomos buscar o filme em São Paulo para
exibi-lo na Faculdade, com ampla divulgação pela cidade. Fizemos sessões nos
três períodos. Salão de Atos superlotado, distribuímos textos a todos, e concluímos cada sessão com debate.
Também convidávamos palestrantes especialistas em cinema. Um deles,
Jean Claude Bernardet, belga naturalizado francês, com passagens pela Universidade de Brasília, onde foi demitido pela Ditadura Militar, e pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Lá ele também foi punido por ordem da Ditadura.
Em 1973, levei o Jean-Claude para falar aos meus alunos da Faculdade em Tupã.
Levávamos o Jean-Claude Bernardet a Assis principalmente na exibição
de filmes nacionais. Um deles, “O Caso dos Irmãos Naves”, do diretor Luís
Sérgio Person, no qual o Jean-Claude foi um dos roteiristas. Tratava de um
erro judiciário durante a ditadura do Estado Novo (1937-45) que custou prisão
e torturas para dois irmãos. Outros filmes foram “Vidas Secas” e “São Bernardo”, baseados em obras de Graciliano Ramos, ambos retratos vigorosos do
seu realismo crítico contundente. Graciliano, como se sabe, esteve filiado ao
Partido Comunista Brasileiro nas décadas de 1940 e 1950.
O funcionamento do Clube de Cinema não disfarçava sua visível preocupação
política. Claro, não éramos ingênuos a ponto de supor que não estávamos sendo
vigiados. Anos depois, em 1981, quando fui preso, durante visita a Assis do governador Paulo Maluf, ligado à ditadura militar, no interrogatório o delegado se
referiu às atividades do Clube de Cinema como “um instrumento de subversão”.
Além do Clube de Cinema, o Caio Navarro e eu organizávamos conferências na Faculdade em Assis, em 1975. Primeiro conferencista, o grande sociólogo Florestan Fernandes, demitido da USP anos antes por ordem da Ditadura.
Teve passagem pelos Estados Unidos, a convite da historiadora Emília Viotti
da Costa, que também tinha sido demitida da USP. Emília estava como professora na Universidade de Yale, em New Haven, e programou cursos a serem
ministrados pelo Florestan. Depois de certo tempo, ele quis retornar ao Brasil,
preocupado com a situação política daqui. O Caio e eu buscamos Florestan em São Paulo, organizamos palestras em
Assis e o levamos até o câmpus de Presidente Prudente, onde o chefe do Departamento de Geografia, Armén Mamigonian, preparou um encontro dele com
alunos e professores.
116 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
A criação da Adunesp e o envolvimento político dos
professores
Naqueles anos de 1975 e 1976, lutávamos também contra a forma autoritária de criação da Unesp, juntando os antigos institutos isolados. Dessa luta
resultou a fundação da Associação de Docentes da Unesp, a Adunesp, primeira
associação a reunir professores do ensino superior no País. Era um testemunho
da resistência contra a truculência dos agentes oficiais liderados pelo professor
Luiz Ferreira Martins, indicado para ser o futuro reitor da nova universidade.
Nós, professores reunidos nessa espécie de resistência, marcávamos encontros nas cidades dos antigos institutos isolados. Presidente Prudente era uma
delas. Ali liderava a organização dos professores o Armén Mamigonian. Hoje
ele mora em Florianópolis, mas ainda leciona no curso de Pós-Graduação de
Geografia da USP. Em Prudente havia seis cursos, no entanto, no projeto de
reorganização de Luiz Martins, perderia quatro, ficando apenas com dois.
Para mobilizar a cidade, o Armén organizou uma reunião em 1975, no ginásio de esportes, e convidou para integrar a mesa de trabalhos sua irmã, a
atriz Aracy Balabanian. Ela sentou-se ao lado do professor Eduardo d’Oliveira
França, meu orientador na Pós-Graduação da USP. O Armén organizou também seguidos encontros – dos quais participei – com o jurista Goffredo da
Silva Telles em São Paulo, para consultas sobre possíveis embargos jurídicos
que pudessem evitar a forma ditatorial de organização da Unesp.
Outra cidade mobilizada era Botucatu, onde a Faculdade tinha vários cursos, como o de Medicina, e com professores há anos filiados à associação de
docentes do câmpus. Era um pessoal aguerrido, que justificava a fama de a cidade ser uma espécie de “Vietnã da Unesp”. Ali, no ginásio de esportes superlotado, ouvimos o discurso do respeitado historiador e militante marxista Jacob
Gorender, falecido em 2013. Ele apoiava integralmente a luta dos professores,
criticando a forma como a Universidade era organizada.
Araraquara, onde o câmpus abrigava vários cursos, sediou seguidas reuniões dos professores, incluindo um dos líderes, Waldemar Saffiotti fundador
do curso de Química. Foi justamente em Araraquara, no início de 1976, que se
chegou à decisão de fundar a Adunesp. Lembro que nós ficávamos sempre hospedados na chácara do Waldemar e de sua esposa, a socióloga Heleieth Saffioti,
orientanda do professor Florestan Fernandes. Convivi com o casal, inclusive na
Depoimento 4 – João Francisco Tidei Lima 117
dolorosa passagem da perda do filho único, ao qual eles homenageariam mais
tarde doando a chácara à Unesp. Em Araraquara, trabalhava também, em uma
das disciplinas de História, José Ênio Casalecchi, futuro diretor do câmpus.
Fizemos uma sólida amizade, revigorada nos encontros de protestos contra a
Ditadura Militar e a forma autoritária de organização da Unesp. Decidida a fundação da Adunesp, vieram as consultas para organizar a primeira diretoria, eleita em encontro no câmpus de Marília em 1976: presidente,
Ulysses Telles Guariba Neto, meu colega de Assis; secretário, Celestino Alves,
de Presidente Prudente; tesoureiro, Telmo Correia Arrais, também de Assis.
Todos os presidentes dos núcleos regionais eram considerados vices da Associação central. Eu, por exemplo, respondia pelo núcleo de Assis. Eu estava muito envolvido politicamente no interior da Universidade. Repartia as horas com a leitura e a discussão de textos marxistas. Participava de
um grupo de estudos formado pelo professor Pedro de Alcântara Figueira e
Fanny Goldfarb, um casal do Rio de Janeiro. Eles tiveram uma passagem pelo
Chile quando o então presidente Salvador Allende acenava com a chegada do
país ao socialismo, pela via institucional. Com o Golpe Militar de 1973 e a
ditadura imposta por Augusto Pinochet, Pedro e Fanny retornaram ao Brasil
e se instalaram em Assis, na casa da professora Letízia Zini Antunes, local das
reuniões do grupo de estudos. Com a intermediação do professor da USP Fernando Antônio Novais, Pedro de Alcântara tornou-se orientando de Eduardo
d’Oliveira França, então diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, a FFLCH, da USP. Ele era também meu orientador. O professor
França obteve uma bolsa da Fapesp, uma das pré-condições para redigir e defender sua tese de doutoramento em Assis.
Fernando Novais sempre foi fonte de nossas consultas metodológicas. Por
diversas vezes foi nosso convidado para conferências no câmpus de Assis. Outro
palestrante sempre lembrado foi o sociólogo Chico de Oliveira, da Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da USP. Esteve em Assis pela primeira vez em 1974,
convidado pelo professor Nilo Odália, chefe do Departamento de História.
118 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Militância durante a Revolução dos Cravos, em Portugal
Fui a Portugal em 1975, durante a Revolução dos Cravos, para conhecer o
movimento e, se possível, participar daquela experiência. Nós vivíamos uma
década fortemente ideologizada. Havia uma bipolarização em nível mundial,
comandada pelos Estados Unidos e a antiga União Soviética. Antecipei o encerramento do semestre em junho de 1975 e embarquei. Levava comigo uma dupla incumbência: localizar em Portugal o ex-preso político
da nossa ditadura, o teatrólogo José Celso Martinez Corrêa, irmão da minha
amiga e colega de departamento Anna Maria, e conseguir notícias de outro
exilado, Celso Guimarães, antigo professor do Departamento de Filosofia. Ele
possivelmente vivia na França.
Desembarquei em Portugal com um pacote de alimentos brasileiros, preparado pela mãe do Zé Celso, para entregar pessoalmente a ele. Localizei sua
moradia em Lisboa, mas não o encontrei porque ele fazia um filme na África,
sobre a independência de antigas colônias portuguesas.
Anos mais tarde, já de volta ao Brasil, o Zé Celso, a convite do Clube de
Cinema, levou o belo documentário “25”, filme premiado por academias francesas. Por falar na França, naquele ano de 1975 cheguei também a Paris. Atendi
a um pedido dos pais do Celso Guimarães, exilado político. Havia meses ele
não mandava notícias à família que morava em Bragança Paulista. O Celso
vivia em uma casa alugada juntamente com o historiador Arnaldo Contier,
meu colega de departamento. O Arnaldo relatou que ele teve que fugir para a
Europa, pois era caçado por agentes policiais da Ditadura. Durante alguns meses, em solidariedade, colegas de departamento, como Ulysses Guariba, Caio
Navarro, Carlos Arthur, Álvaro Martins e Wilcon Joia, assumiram suas aulas
não oficialmente. Os salários do Celso continuaram a ser pagos. O dinheiro era
entregue à família, que o remetia a Paris. O diretor da Faculdade, Manoel Lelo
Belotto, também foi solidário.
Em Paris, localizei o hotel onde o Celso se hospedava, próximo à Sorbonne.
Mostrei foto e dados pessoais na portaria. Informaram que ele tinha deixado
o hotel havia quase um mês. Ele só retornaria ao Brasil anos depois, quando
começava a anistia aos presos políticos.
Depoimento 4 – João Francisco Tidei Lima 119
Portugal
O país estava literalmente sacudido pela Revolução dos Cravos. Gente que
esteve por décadas no exílio agitava as bandeiras do Partido Comunista, liderado por Álvaro Cunhal, e do Partido Socialista de Mário Soares e de outros
segmentos partidários. Participei de diversos debates, como, por exemplo, no
Largo do Rossio, em Lisboa, entupido de gente até a madrugada. Estive também na ocupação de edifícios pertencentes a banqueiros que davam sustentação ao salazarismo. Devidamente informado por brasileiros exilados, logo que desembarquei em Lisboa, localizei em alguns cinemas filmes proibidos havia anos pela
ditadura brasileira e que não conseguíamos exibir no Clube de Cinema. Por
exemplo, “Johnny Vai à Guerra”, vigorosa abordagem antimilitarista de Dalton
Trumbo, célebre roteirista e diretor norte-americano perseguido pelo macarthismo em seu país até meados da década de 1950. A propósito, demorei um
pouco para localizar esse filme por conta das “diferenças” entre o português do
Brasil e o de Portugal. Nos Estados Unidos, o nome do filme era “Uma Arma
para Johnny”. Depois de muito procurar, descobri o filme em um cinema da
Av. Liberdade, com este título: “E Deram-lhe Uma Espingarda”!!! Outro filme
que localizei, também proibido por aqui, foi “Estado de Sítio”, do diretor grego
Costa Gavras. Denunciava a ditadura brasileira e seu aparato repressivo.
Entre os exilados que encontrei em Portugal, estava Flávio Roberto de Souza, Ele era um dos 40 presos políticos trocados pelo embaixador alemão sequestrado no Rio, em junho de 1970. Fui apresentado a ele, nos tornamos amigos e fui visitá-lo durante dias seguidos num hospital público, onde passara por
cirurgia. Falamos, por exemplo, do então sargento Darcy Rodrigues, um bauruense conhecido meu, companheiro de prisão do Flávio, no Brasil, e também
no grupo dos 40. Rodrigues integrava a tropa do capitão Carlos Lamarca na
guerrilha do Vale do Ribeira. Deitado no leito de uma enfermaria, Flávio Roberto, experiente na militância política, me passava detalhes e perspectivas do
processo revolucionário em Portugal. Ele descartava qualquer esboço socializante da Revolução dos Cravos. Os fatos depois confirmariam seu diagnóstico.
Outro dos 40 presos trocados pelo embaixador, e que eu conheceria muitos
anos mais tarde, era Apolônio de Carvalho. Morto em 2005, aos 93 anos, era
um histórico comunista, casado com Renée, uma francesa que ele conheceu
120 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
combatendo o nazismo na França em 1943. Isso, depois de passar pela guerra
civil na Espanha contra o fascismo do general Franco. Conheci Apolônio e Renée em São Paulo e convivi durante anos com Raul, um dos seus filhos, e a nora
Izabel, em Assis. Este casal também fora preso pela Ditadura e, em meados da
década de 1970, se instalou em Assis, em uma casa cedida pelo casal italiano
Andréa e Márzia Vezentini. A Márzia era professora de Língua e Literatura Italiana, juntamente com a Letizia Zini, mais tarde mulher de Benedito Antunes,
antigo aluno e professor da Faculdade.
Durante minha permanência em Lisboa, reencontrei também um jornalista brasileiro, Jorge de Figueiredo, cuja família residia em São Paulo. Eu era amigo de seus pais e sempre circulava por sua casa, na Rua Oscar Freire. Lá, por
sinal, cruzei várias vezes com Therezinha Zerbini, mulher do general Euryale
Zerbini, cassado pela Ditadura logo após o Golpe de 1964. Militante política
até hoje, Therezinha, depois do AI-5 em 1968, passou oito meses no Presídio
Tiradentes, lado a lado com a militante Dilma Roussef.
Quanto ao Jorginho Figueiredo, como era conhecido, antes de rumar
para Portugal trabalhou durante anos na extinta revista Visão, que, ao longo
da sua história, teve diferentes orientações editoriais. No início de 1971, com
uma ditadura feroz entre nós, a Visão defendia as liberdades democráticas.
Na equipe de jornalistas coordenada por Vladimir Herzog, estava, entre outros, o português antisalazarista Miguel Urbano Rodrigues. Ele fora enviado
especialmente à Bolívia para cobrir, durante o governo do general Juan José
Torres, a instalação da Assembleia Popular, saudada por vários segmentos de
esquerda como o primeiro soviete das Américas. Mas Rodrigues alertava em
uma reportagem de capa que “1971 é bem diferente de 1917 (data da Revolução Russa) e o desfecho poderá ser cruento”. Como acabaria acontecendo,
em agosto de 1971 o coronel Hugo Banzer, com apoio da ditadura brasileira,
comandou um sangrento golpe militar. Em Portugal, em 1975, o Jorginho Figueiredo, monitorado por Rodrigues,
acabaria tendo intensa participação na revolução que também sacudia a imprensa portuguesa. Pelo que sei, ainda vive por lá.
Depoimento 4 – João Francisco Tidei Lima 121
De volta ao Brasil
De volta a São Paulo e à nossa mídia, durante a Ditadura Militar, o antigo
companheiro do Jorginho na Visão, Wladimir Herzog, integrava, em 1975, a
equipe de jornalismo da TV Cultura, do Governo do Estado. Foi preso, torturado e assassinado nas dependências do DOI-CODI, órgão repressor subordinado ao 2º Exército em São Paulo. Em outubro, foi organizado um ato ecumênico na Catedral da Sé, em homenagem à memória de Herzog. Não esqueço,
porque eu estava lá junto com 8 mil pessoas. Não foi fácil chegar à catedral.
Fiquei um bom tempo na casa da família do Jorginho em São Paulo e, no percurso, tivemos que encarar o bloqueio de mais de 500 policiais dificultando o
acesso. Em prédio vizinho, ostensivamente agentes da ditadura filmavam as
pessoas nas escadarias da catedral.
Ainda em 1975, a Anna Maria Martinez Corrêa, o Arnaldo Contier e eu
convidamos nosso orientador Eduardo d’Oliveira França para uma homenagem em Assis. Isso foi logo após ele se demitir do cargo de diretor da FFLCH
da USP, por não aceitar a presença de coronel do Exército em uma sala ao lado
do seu gabinete.
Universidade de Yale
Em janeiro de 1976, a convite de minha colega Lumna Maria Simon, amiga
e então namorada e professora da área de Letras em Assis, passei 15 dias na
Universidade de Yale, em New Haven, Estados Unidos, onde ela cumpria bolsa
de estudos, regendo uma disciplina. Ali conheci pessoalmente a historiadora
Emília Viotti da Costa, demitida da USP e cassada pelo AI-5 em 1969. Emília
coordenava cursos na área de História e me indicou para participar, ao lado
de outros historiadores, de uma discussão sobre a Historiografia Brasileira da
Escravidão e Urbanismo na América Latina. Conheci também naqueles dias
um casal de exilados argentinos, que deixaram seu país ameaçado pela Aliança
Anticomunista Argentina, a Triple A, esquadrão da morte de extrema direita
que tinha apoio financeiro e logístico da americana CIA.
122 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
USP
Quando frequentei o curso de mestrado na área de História Social na USP,
eu me ligava às atividades culturais e políticas inerentes. Acabei encontrando
um antigo exilado, o sociólogo Darcy Ribeiro, em sessão da Sociedade para o
Progresso da Ciência, SBPC, em 1978. O encontro estava marcado inicialmente para o auditório no prédio da Geografia e História, mas, devido à multidão
interessada em ouvir Darcy, teve que ser transferido para o auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, um espaço mais amplo. Não esqueço a
euforia e a ansiedade de todos. Era um corre-corre na travessia das quadras
da Cidade Universitária para conseguir lugar e ouvir o grande Darcy Ribeiro.
Valeu a pena, claro!
A criação da Unesp
Voltando a 1976, quando nasceu a Unesp, aquele foi o ano também da consolidação da Adunesp, enfatizo, a primeira entidade docente do ensino superior no país. Era o resultado da nossa resistência à forma ditatorial de organização e instalação da Universidade, que tinha à frente Luiz Ferreira Martins, o
primeiro reitor. A Associação nasceu oficialmente a partir de uma assembleia
liderada por Waldemar Saffiotti, em Araraquara, em junho de 1976.
Após a eleição da primeira diretoria, começamos a mobilização para a tentativa de participação no primeiro Conselho Universitário, o C.O. O que estava
funcionando era provisório, biônico, como dizíamos criticamente na época.
Era nomeado pelo reitor Luiz Martins e composto apenas pelos diretores, sem
participação docente e discente. A elaboração do estatuto na época era afinada
com a conjuntura da ditadura.
Organizamos uma chapa para concorrer em todas as representações docentes no Conselho Universitário. Sob clima ditatorial, intimidador para muita
gente, a chapa da Adunesp foi amplamente derrotada. Fui a exceção, me elegi
como representante dos professores assistentes. A minha categoria era a mais
mobilizada. Participei do C.O. em 1977 e em 1978. Logo após a primeira reunião, elaborei uma circular para endereçar aos núcleos da Associação de toda
a Universidade. No texto, eu dava ciência da instalação do Conselho e do seu
Depoimento 4 – João Francisco Tidei Lima 123
funcionamento sob a direção ditatorial de Luiz Martins, auxiliado pelo vice
-reitor Armando Octávio Ramos, do câmpus de Botucatu. Informei aos meus colegas que relataria as reuniões integralmente. Na votação das matérias, eu ficava sempre com os representantes dos alunos. Esclareci aos colegas que era o máximo que poderia fazer, informar tudo o que
acontecia nas reuniões, para que eles pudessem cobrar dos seus diretores. Claro
que eu fazia as minhas intervenções, mas as minhas cobranças no interior do
Conselho tinham repercussão minimizada. Eu erguia o braço, pedia a palavra.
O reitor demorava para me concedê-la. Quando o fazia, perguntava meu nome:
“Como o senhor se chama, mesmo?” Em represália, eu não me dirigia a Luiz
Martins chamando-o de magnifico reitor. Braço erguido, eu repetia: “Professor! Professor!” Alguns diretores sentados ao meu lado se incomodavam e me
assediavam: “João, por favor, fale magnífico reitor!”
Essas obrigações institucionais eram simultâneas com outras atividades.
Por exemplo, cumpri os dois anos como representante dos assistentes no CO da
Unesp e, em fins de 1978, tornei-me mestre na área de História Social da USP,
sob orientação de Eduardo d’Oliveira França. Fui indicado por Nilo Odália,
então presidente da Adunesp, para fazer um curso de especialização no Institut
Européen des Hautes Etudes Internationales – Université de Nice. Dez anos
antes, ele havia frequentado cursos por lá. Fiquei de outubro de 1979 a maio de
1980 em Nice, e apresentei uma monografia manuscrita sob o título “Amérique
Latine – Democratie et Crise”. Justifiquei o tema sustentando que o Brasil tinha inaugurado em 1964 um novo modelo de ditaduras na América Latina,
sendo seguido por Uruguai e Argentina na década de 1970. Era uma ditadura
diferente do caudilhismo tradicional, com novos fundamentos sociais e econômicos e aparelhamento político e militar.
A década de 1980 em Assis
Em maio de 1980, após concluir minha bolsa na França, retornei e reassumi a disciplina de História Moderna em Assis. Em 12 de junho de 1981, o
governador Paulo Maluf, ligado à ditadura, estava na cidade. Ele tinha como
secretário da Educação nosso antigo reitor Luiz Ferreira Martins. Por volta de
6 horas da manhã, fui chamado até o portão de casa por agentes do DOPS. Fui
124 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
levado por uma viatura policial à delegacia e fiquei preso, com mais três estudantes. Na edição de 13 de junho de 1981, os principais jornais paulistas, Folha
de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, deram destaque em primeira página: “Maluf
vai para Assis e a polícia prende quatro”.
Os mesmos jornais noticiaram os protestos do deputado estadual Hélio César Rosas e do deputado federal Tidei de Lima, meu irmão, ambos do
PMDB. Eles divulgaram também uma nota repudiando a prisão, assinada pelo
presidente do diretório do PMDB de Assis, meu colega Ulysses Telles Guariba
Neto. Fui interrogado durante todo o dia.
Os delegados fizeram um levantamento das minhas atividades políticas
passadas, destacando as sessões do Clube de Cinema e a fundação da Adunesp. Tudo era classificado como “atividade subversiva”. O delegado que me
interrogou disse que eu e os estudantes tínhamos distribuído panfletos “ofendendo o governador”, e que só seriamos liberados depois que Maluf deixasse
a cidade. Isso aconteceu no final da tarde, depois de um habeas corpus impetrado pelos advogados Humberto de Carvalho, Luís Gonzaga de Campos e
Francisco Maldonado Júnior. Entramos em 1983, o país agitava-se pela volta das eleições diretas para
presidente da República. Concentrações no Nordeste, no Sul, no Sudeste... Em
Assis, eu estava casado com a Anadir, pai do Carlos Frederico, nome escolhido em homenagem a Marx e Engels. Anos depois nasceu Verena, nome que
homenageava a alemã Verena Stolcke, autora de livros sobre a mulher e as
relações de trabalho. Eu participava com colegas de reuniões para a escolha do próximo diretor do Instituto de Letras, História e Psicologia da Unesp de Assis. Em maio,
distribuímos um boletim informativo proclamando a necessidade de eleições
diretas para diretor. Era um critério, diga-se, ainda inédito nas universidades,
mas inteiramente afinado com as necessidades liberalizantes de um país ainda
em camisa de força.
No dia 17 de junho, comparecemos todos, professores, alunos e funcionários, ao Salão de Atos e votamos. Os seis mais votados ficaram na seguinte
ordem: Antônio Quelce Salgado, Manoel Lelo Belloto, Mário Mascherpe, José
Ribeiro Jr., o então diretor Fernando Mendonça e Alvaro Lorencini. Em nome
da Adunesp, fizemos a campanha de Quelce, chefe do Departamento de Psicologia. Ele proclamou a legitimidade das eleições diretas na vida pública brasi-
Depoimento 4 – João Francisco Tidei Lima 125
leira, inclusive no interior das universidades. Na reunião da congregação, com
a presença de José Roberto Tozoni Reis, representando os assistentes, e do representante dos auxiliares de ensino, defendemos a escolha de Quelce.
O reitor Armando Octávio Ramos ignorou a votação dele (26,6%) e escolheu Mendonça, o penúltimo colocado, com 8%, exatos 37 votos entre 940
votantes. O núcleo local da Adunesp, presidido por Clélia Jubran, publicou
nota repudiando a escolha e conclamando imediata mobilização. Na Câmara
de Assis, nosso colega e vereador Onosor Fonseca defendeu a legitimidade da
escolha direta. Ao lado dos alunos, organizamos manifestações pela cidade e
nos reunimos seguidamente na Faculdade, inclusive durante as férias de julho.
Repressão policial e ocupação
Logo no retorno às aulas, em 1º de agosto, Mendonça decidiu chamar a
polícia militar para invadir o diretório acadêmico e impedir que os alunos se
manifestassem com instrumentos musicais. Lembro de estar em minha sala
de trabalho e ser alertado para o que acontecia. Fui à sede do diretório. O presidente, Leonardo Colosso, era meu aluno no curso de História. Eu disse ao
diretor que a presença da polícia no câmpus era inconcebível. Ele, então, convocou a Congregação. O diretório decidiu que os alunos deveriam se postar
em frente da sala da Congregação. Contra o nosso protesto, Mendonça pediu
reforço militar para expulsar os alunos do saguão. Lá estavam também Quelce
e José Sterza Justo, seu colega de departamento.
No dia seguinte, o jornal A Voz da Terra estampou na primeira página:
“Violenta tarde no câmpus”. Em assembleia no Salão de Atos, sob a presidência
de Leonardo Colosso, o diretório acadêmico decidiu pela ocupação da diretoria
do câmpus, ação que se estendeu até setembro. Em represália, o diretor Fernando Mendonça convocou dias depois, na sua
residência, Celso Camilo Costa, locutor e repórter da Rádio Cultura de Assis,
que passou aos ouvintes os detalhes do encontro. Com a palavra, o locutor:
“O professor Mendonça me dizia de alguns professores que estão por trás
de tudo isso: Antônio Quelce Salgado, Wanderley Codo, José Roberto Tozoni
Reis, José Sterza Justo, Odair Sass, João Francisco Tidei Lima, Cristina Amélia
Luzzio. Eles estariam manobrando os alunos em cima de tudo isso!”
126 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
A Adunesp, presidida por Clélia Jubran, imediatamente contratou um advogado junto à Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo para
interpelar o diretor e o locutor, “para que expliquem no prazo de 48 horas o que
pretendiam dizer quando usaram as expressões terroristas, vândalos e subversivos para identificar sete professores universitários da cidade”.
O reitor Armando Octávio Ramos decidiu, ainda em agosto, formar uma
comissão de sindicância, integrada, entre outros, pelo historiador Manuel Nunes Dias, do câmpus de Franca. Recebi no dia 26 de agosto notificação para
comparecer em 1º de setembro à reitoria e prestar esclarecimentos. Semanas
depois, a comissão sugeria demissões, suspensões, rescisões contratuais e cancelamento de bolsas, atingindo dezenas de professores e funcionários.
A repercussão teve resposta imediata. A Folha de S. Paulo e O Estado de
S. Paulo, por exemplo, publicaram alguns artigos a respeito. Um deles era assinado pelo professor Caio Navarro de Toledo, antigo colega de Assis e agora
na Unicamp, e pela professora Marilena Chauí, da USP, protestando contra as
punições. Eles signataram também um documento, ao lado de Florestan Fernandes, Antônio Cândido, Paulo Freire, Dalmo Dallari, Paul Singer, José Arthur Gianotti, Gilda de Mello e Souza, Octavio Ianni, Fernando Novais, Carlos
Guilherme da Motta, Elza Berquó, Eunice Durhan, Gabriel Cohn, Maria Lygia
Coelho Prado, Modesto Florenzano, Sandra Nitini e Maria Helena Capelato,
entre outros, publicado na imprensa da Capital, no qual concluíam que, “pelas
suas consequências, a ameaça dessa reitoria constitui-se num intolerável atentado à liberdade intelectual e aos direitos humanos em nosso país”.
De Brasília, inteirado dos fatos, meu irmão Tidei de Lima expediu uma
nota: “É inadmissível essa estúpida repressão na Unesp de Assis. Ainda em setembro tive encontro com o governador Franco Montoro e lhe sugeri a criação
de uma assessoria para assuntos universitários. O governo do estado de São
Paulo tem que agir com desassombro e firmeza, avalizando por um lado a escolha do próximo reitor da Unesp e impedindo, por outro, essas arbitrariedades
no câmpus de Assis”.
A Adunesp de Assis, por meio da presidente Clélia Jubran, contatou o advogado Hélio Pereira Bicudo, há anos conhecido pelas suas denúncias contra
o Esquadrão da Morte. Ele assumiu a defesa dos professores, funcionários e
alunos punidos. As punições foram posteriormente anuladas.
Depoimento 4 – João Francisco Tidei Lima 127
A Unesp e a redemocratização
Nos diferentes campi da Unesp, a mobilização continuou. Na Reitoria comandava o antigo vice de Luiz Martins, Armando Octávio Ramos, sem mudanças nas diretrizes e com mandato que iria se encerrar em março de 1984.
A Adunesp propôs consulta direta à comunidade universitária. Entre os candidatos, o médico William Saad Hossne, professor na Medicina de Botucatu
e ex-reitor da UFSCar. Outro candidato, Nilo Odália, ex-presidente da Adunesp e ex-diretor no câmpus de Araraquara. Os mais votados: Saad, 55%; Nilo,
24%. O Conselho Universitário não reconheceu e promoveu nova consulta.
Outra vitória de Saad, com 57,3%. O C.O. preferiu escolher Armando Octávio
Ramos, que obtivera 28,5%.
Professores e alunos em Assis, Marília e outros campi ocuparam as diretorias. Em São Paulo, alunos fizeram o mesmo na Reitoria. O governador Montoro nomeou como reitor pró-tempore Jorge Nagle, respeitado pedagogo do
câmpus de Araraquara. Ele logo em seguida seria candidato a mandato efetivo. Participei por um tempo da administração de Nagle, ao lado de José Ênio
Casalecchi, Nilo Odália, Telmo Arrais e outros colegas. Fui presidente, durante
um ano, da Fundação para o Vestibular da Unesp, a Vunesp, sem prejuízo da
minha atividade docente. Em 1987, estive com meu irmão Tidei de Lima pedindo a incorporação do câmpus universitário de Bauru, uma fundação municipal, à Unesp, o que se concretizou em 1987 e 1988.
A crise na Unesp, motivada pelo estatuto autoritário e pelas gestões truculentas de Luiz Ferreira Martins e Armando Octávio Ramos, começou a ser
resolvida na gestão do governador Franco Montoro. Com o fim do mandato
de Armando Octávio Ramos, Montoro nomeou um reitor pró-tempore, o pedagogo Jorge Nagle, do câmpus de Araraquara, de 1º de agosto de 1984 a 16
de janeiro de 1985.
Nagle era muito respeitado no meio universitário e empenhado na ampliação do ensino superior público gratuito. Participei, em 1986, da sua gestão, ao
lado de José Ênio Casalecchi. Presidi a Vunesp, participando, inclusive, de encontros interestaduais no Rio e em Minas. Simultaneamente, acompanhei o
trabalho legislativo de meu irmão Tidei de Lima, que se empenhava em estatizar a Universidade de Bauru e o seu Colégio Técnico e Industrial, até então
uma fundação municipal, com mais de 5 mil alunos e centenas de professores
128 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
e funcionários. Na área do ensino superior público gratuito, Bauru possuía somente a Faculdade de Odontologia da USP.
Na condição de professor da Unesp, estive com meu irmão nos contatos
iniciais com o Jorge Nagle. Em uma madrugada de 1987, em seu apartamento,
em São Paulo, depois da autorização do governador para esta conversa, fui direto ao assunto:
— “Professor Jorge Nagle, a comunidade deseja a Unesp em Bauru!”
Ele respondeu imediatamente:
— “Tidei, sou o reitor, mas não o dono da Universidade. É uma decisão
que compete ao Conselho Universitário, formado por diretores e representantes docentes e discentes de todos os 14 campi. Vocês podem e devem percorrer
cada câmpus e explicar as qualidades da Universidade de Bauru e que, em última análise, justificam a pretendida incorporação pela Unesp.”
Uma comissão do Conselho Universitário também esteve em Bauru para
levantar as potencialidades do câmpus. Em outubro de 1987, o C.O. aprovou a
incorporação da Universidade de Bauru e do seu colégio técnico. Em novembro, o governador Orestes Quércia oficializou no Palácio dos Bandeirantes a
proposta de incorporação. Em 12 de agosto de 1988, perante 5 mil pessoas em
praça pública, ao lado do reitor Jorge Nagle, o governador assinou o decreto que
autorizava a instalação da Unesp em Bauru, beneficiando 4.300 alunos universitários, 900 alunos do colégio técnico e centenas de professores e funcionários.
DEPOIMENTO 5
Antônio Quelce Salgado
O professor Antônio Quelce Salgado teve uma importante atuação nos episódios que envolveram a violação aos direitos humanos na Unesp durante a
ditadura civil militar e ele vai nos dar um depoimento a esse respeito.
A ditadura faz parte da história da Unesp
I
nfelizmente, sim. A reitoria conduzida com princípios de ditadura começou
um pouco antes da ditadura militar no Brasil e isso foi se consolidando ao
longo de muito tempo. Mesmo depois de a ditadura perder a força no Brasil, a
Reitoria continuou ainda por algum tempo exercendo o mando ditatorial.
Houve muitas brigas entre reitores, pró-reitores, diretores de unidades,
chefes de departamentos das diversas unidades. Em Assis, o movimento foi
muito expressivo, com muita gente trabalhando, atuando violentamente contra
aquele estado de coisas. Violentamente no bom sentido, claro. Um bom exemplo são os professores José Roberto Tozoni e João Francisco Tidei Lima.
Iniciou-se na universidade da discussão para mudanças, com reflexos em
nível nacional. Naquela época, eu era presidente da Associação dos Docentes
da Unesp, a Adunesp. A participação foi muito grande dos professores, com
momentos altos e baixos. Havia muito contato entre os diversos campi e muitas
pessoas da própria Reitoria se engajavam para engrossar o movimento, inclusive pela eleição para diretor e reitor. Eu não tive politicamente uma atuação
muito destacada, mas participei dos movimentos pela democratização da universidade e pela formação da própria Unesp, em 1976.
130 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Prisão em Marília
Fui preso por atividade subversiva. É o que diziam na época. Liderávamos
o movimento estudantil e de alguns professores. Eu fazia parte da esquerda de
Marília, posso dizer assim. Recebíamos pressão contrária e favorável de alguns
diretores. Isso, numa época em que qualquer respiração mais profunda soava
em todos os lugares do Brasil. Inclusive em Marília. Cada vez que nos envolvíamos em alguma ação nova éramos chamados para prestar esclarecimento
na delegacia. Tinha até um preconceito contra a camisa vermelha. Um diretor
uma vez me aconselhou a usar roupas de outras cores, menos a vermelha.
Tive que ir muitas vezes à delegacia. Lembro que a última vez que isso aconteceu eu voltava de São Paulo, onde havia ficado preso, no DOPS, diga-se de passagem. Logo que eu cheguei a Marília e tive que prestar depoimento na delegacia.
Fiquei sete horas sendo entrevistado pelos policiais. Foi sorte eu ter saído de lá.
Eu tinha um amigo que era reserva do exército e ele interferiu. Eu havia ficado uma semana preso, sem ser ouvido. Quer dizer, era para ir a Marília, ser
ouvido e continuar preso. Ele chegou na delegacia e falou ao delegado: “vocês vão
ouvir os professores agora, senão eu vou tirá-los de lá”. Quem estava por cima da
carne seca eram os “milicos” mesmo, não é? Então, fomos ouvidos e liberados.
No quartel da polícia, vivíamos quase uma vida de príncipe. Tínhamos um
quarto para dois e podíamos jogar basquete do lado de fora, recebíamos visitas
sem objeção. O bispo de Marília foi nos visitar algumas vezes, dom Antônio.
A igreja e o movimento
A igreja não se posicionou, não se manifestou, com exceção do bispo de
Marília. Ele brigou um pouco por nossa causa, sim. Inclusive fez um documento muito interessante que mandou ao DOPS para nos ajudar. Mas é que havia
também muita perseguição, muita exposição na mídia, muitas entrevistas, e a
pessoa acaba, mesmo sem querer, sendo ligada ao movimento.
Na segunda vez em que fui preso, em 1969, um aluno meu, que era tenente
da polícia, foi me buscar em casa. Todo constrangido, falou que estava lá porque tinha sido mandado. Aí, me levou para o quartel do exército em Lins.
Depoimento 5 – Antônio Quelce Salgado 131
Somando tudo, acho que fiquei um mês preso. Em São Paulo foi mais, uns
15 ou 20 dias. Ficamos o professor Ubaldo Puppi e eu um pouco nervosos daquela vez porque há uma lei que diz que você não pode faltar as suas atividades
funcionais por mais de um mês sem autorização. Então, fazíamos de tudo para
sair logo da prisão, apressávamos os trâmites para ver se conseguíamos sair
antes de completar um mês. E deu certo. Aí voltávamos para Marília e reassumíamos. A Aurora Pantaleão, diretora na época, mesmo sendo de direita, era
muito boa, decente com a gente. Ela ficava sempre de olho para tentar nos tirar
o mais rapidamente possível da prisão.
Participação política
Eu participava, sim, juntamente com o Ubaldo Puppi, da Ação Popular, um movimento de esquerda que se reunia para discutir os destinos da Nação. Depois veio
a Unesp. O reitor da época inventou de fazer a Universidade e fechou alguns cursos,
transferindo os professores para outros lugares. Eu fui um deles e vim para Assis.
Eu estava em um curso de formação de professores em três anos. Era um
curso de Ciências Físicas e Biológicas. Eu mesmo ajudei a fundar. Aí ele fechou
o curso lá em Marília e me transferiu para Assis, em 1982. Eu conhecia um
pouco da cidade, pois me reunia com algumas pessoas de vez em quando, sempre discutindo essas questões de esquerda e direita. O professor Tozoni era um
deles. Mas foi, no fundo, algo positivo, pois, como eu era professor titular, foi
para o grupo de esquerda uma espécie de avanço, pois não havia na época nenhum professor nesta condição. Havia uma burocracia da direita, que só dava
vantagens de administração aos mais graduados.
Logo que cheguei a Assis me tornei chefe do Departamento de Psicologia e
assim fiquei por alguns anos. Em 1983 começaram as reuniões pra ver o andamento político do chamado grupo de esquerda. Culminou com o lançamento da
minha candidatura para diretor da faculdade. Mas antes disso eu havia passado
por Franca e cheguei a ser diretor da Faculdade lá. Também em Franca fui presidente da Adunesp.
Franca tinha um problema muito grave de direita. O Manuel Nunes Dias
era o chefe da direita da Unesp, vamos dizer assim. Ele estava lançando outro
candidato que também era de direita, mas que eu respeitava, era uma boa pes-
132 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
soa. Eles acharam que eu poderia enfrentar o candidato do Nunes e fizeram
uma coligação entre estudantes, professores e funcionários para me apoiar. Eu
ganhei a eleição. Mas como havia tido algumas discussões com o reitor à época
e seria ele a escolher o diretor, ficamos preocupados. Não sabíamos se ele iria
escolher meu nome, afinal, eu não era do grupo dele.
Mas ele acabou me escolhendo. Na verdade, ele não era de direita propriamente dita. Ele tinha origem na esquerda, parece que havia militado em um
partido comunista. Fiquei um tempo lá e acredito que tenha tido uma boa participação, em relação ao período em que fui chamado até minha saída, posso
dizer que as coisas lá mudaram da água para o vinho. Depois voltei para Assis.
Aí começou o movimento.
Eleição para diretor em Assis
Fui eleito diretor em 1983, mas não assumi. O reitor reconduziu o professor Mendonça, que já era diretor na ocasião. Isso provocou um grande movimento contrário. Provocou até uma grande invasão na Faculdade. Os estudantes invadiram a diretoria, ficaram por lá uns dois meses e meio.
Foi uma movimentação bonita. Misturaram até um pouco de sentimentalismo com o movimento. No Dia dos Pais, muitos parentes dos invasores promoveram um almoço. Teve até militar pedindo desculpas, aquela velha história
do “nós somos mandados”.
Voltando à recondução do professor Mendonça ao cargo de diretor em Assis, a partir desse acontecimento foi montada uma comissão de professores da
Reitoria para investigar os acontecimentos. Eles pressionaram muito, mas eles
também foram pressionados. Aqui foram ouvidas diversas pessoas, professores e alunos e funcionários. Acabamos sofrendo um processo de expulsão.
Éramos umas 40 pessoas envolvidas. Esta história da expulsão foi em certo
ponto positiva, pois repercutia, dava força ao movimento, provocava reuniões
do Conselho Universitário.
DEPOIMENTO 6
Luís Carlos da Rocha
O professor Luís Carlos da Rocha atua no Departamento de Psicologia Evolutiva, Social e Escolar da Faculdade de Ciências e Letras do câmpus de Assis da
Unesp. Ele teve importante atuação nos episódios que envolveram a violação
aos direitos humanos na universidade durante a ditadura imposta pelos militares. Aqui, seu depoimento a respeito desse período da nossa história.
O início da docência na Unesp
C
heguei a Assis no primeiro semestre de 1983. Em princípio, pensei que
seria uma passagem rápida, pois trabalhava na Universidade Estadual de
Maringá. Tinha ido ao Paraná em virtude da luta política, uma vez que todos
os professores da Fundação de Sociologia e Política de São Paulo, inclusive eu,
tinham sido demitidos. Houve um corte geral, a polícia política cercou a unidade e não deixava ninguém entrar. Foi um semestre inteiro sem aulas, pois os
colegas se recusavam a assumir as aulas de professores que tinham sido demitidos porque lutavam pelos direitos de se organizar, de formar uma associação
de professores. Lembro que o ministro Guido Mantega trabalhava lá, pertencia
à Associação e também foi demitido.
Em Maringá eu era professor concursado, mas pensava em voltar para São
Paulo, onde a ação política era mais dinâmica. Mas alguns amigos acabaram
me convencendo a ir para Assis. Mesmo não conhecendo a cidade, prestei
concurso e aqui fiquei. Acabei, com o tempo, me apaixonando por Assis, pois
reconheci aqui um lugar de luta, de atividade de criatividade, de pessoas de
coragem. A Faculdade é pequena, mas aguerrida. Já se passaram 30 anos, aqui
constituí família e não pretendo ir embora.
134 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
O clima político na faculdade
Quando cheguei, havia um movimento por eleições diretas para diretor.
Na época, os diretores eram indicados. A Congregação, que eu considerava
razoavelmente obediente ao diretor, formava uma lista e a apresentava ao reitor, que fazia a indicação dos novos dirigentes. Era um movimento pioneiro,
inédito no país. Nem se falava em Diretas Já. Simpatizei com aquilo e logo
me envolvi no movimento, comecei a participar de assembleias. Conseguimos
realizar uma eleição informal, na qual foi eleito o professor Antônio Quelce.
Iniciamos um movimento para que ele pudesse tomar posse, como expressão
do desejo da comunidade.
Na época, fazíamos eleições dentro de critérios paritários, com professores,
funcionários e alunos tendo um peso equivalente. Quelce ganhou em todas as
categorias. O movimento de apoio à sua eleição foi enfrentado de forma muito
forte e violenta pela direção da época e pela Reitoria. Esta, diga-se de passagem,
era muito identificada como valores da ditadura e se compunha de pessoas
remanescentes do malufismo. É até estranho falar disso, se passou tanto tempo
e esse personagem ainda hoje aparece na televisão como se nada tivesse acontecido, se colocando sempre como a melhor opção para o povo paulista.
A distensão da ditadura militar e a luta pela democracia
na Unesp
O Franco Montoro havia sido eleito governador. A ditadura caminhava para
o fim, naquele clima de distensão lenta e gradual. As forças progressistas e hegemônicas, assim, pensavam em fazer uma transição mais tênue, diferentemente
de outros países vizinhos. Na verdade, com isso acabamos sem conseguir lavar
a alma dos pecados da ditadura, até hoje. Quem sabe a Comissão da Verdade
consiga resgatar a memória deste período e fazer as reparações necessárias.
Foi uma luta dura, havia muitas paralisações. Mas houve um fato marcante
na época. A Reitoria fechou o nosso câmpus, suspendeu as aulas para evitar a
influência que esse movimento poderia ter sobre os alunos, e o que ele poderia
significar para a cidade e para outros lugares. Nós tínhamos uma mobilidade
muito grande. Montamos uma espécie de escritório em São Paulo para ficar em
Depoimento 6 – Luís Carlos da Rocha 135
contato com a imprensa, que pouco conhecia da Unesp de Assis. Procurávamos os canais de televisão, visitávamos as redações dos jornais, convocávamos
coletivas na sede da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC.
Nosso porta-voz era João Francisco Tidei de Lima, uma pessoa muito correta,
absolutamente confiável, e que conhecia todos nós pelo nome. Fazíamos assembleia com 150 pessoas e, se alguém levantava a mão, ele falava: “A voz agora
é para o professor Francisco, ou para a aluna Cleide”.
Lembro quando organizamos a primeira entrevista coletiva em São Paulo.
Alguns amigos meus jornalistas diziam que, para ver a unidade de uma universidade pouco conhecida nenhum repórter apareceria. Fizemos releases para
todos os jornais, mandamos uma comissão para cada um. Pois acabamos tendo
sete aparições na televisão. Deu certo. Tínhamos um material muito bom e
uma bela causa, que era a democracia.
A democracia acadêmica podia ser um assunto secundário, mas a população, de alguma forma, começava a ser contaminada pela ideia de um
retorno à normalidade democrática. Tanto que, um ano depois, as ruas estavam cheias de gente brigando pelas “Diretas Já”. Ou seja, estávamos certos.
Definimos uma proposta política de democracia direta num momento em
que a sociedade estava disposta a também assumir essa luta. Então, a nossa
proposta de democratização da universidade foi muito bem recebida pela mídia e pela intelectualidade.
Em uma das assembleias, eu me ofereci para visitar outras unidades e levar
nossa bandeira. Naquela época, era difícil fazer reuniões em algumas unidades, muito dominadas pelo esquema da Reitoria. Em Franca, por exemplo, o
diretor Manuel Nunes Dias era de extrema direita, tinha vindo da USP, da Escola de Comunicações e Artes, a ECA, era de um grupo tradicional de direita.
Ele tinha perseguido e ameaçado estudantes com o antigo 477, um correlato do
AI-5 pra circunstâncias estudantis que poderia expulsar alunos.
Lembro que um dos alunos mais perseguidos da ECA era o atual vereador
petista Zé Américo. Na época, ele era um garoto com menos de 20 anos, tinha
até saído da unidade para não ser preso. Nós corremos toda a ECA, fomos a
todas as salas levantando o pessoal contra o diretor, que nós não conhecíamos
muito bem, mas que era uma pessoa truculenta, o Manuel Nunes Dias.
Quando me sugeriram ir à Franca, me senti muito mais desafiado, estimulado. Eu disse: “bom, depois de tanto tempo, para mim vai ser uma satisfação
136 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
visitar como professor uma unidade que tem uma pessoa tão identificada com a
ditadura, e que agora, naturalmente, haverá a oportunidade de um debate olho
no olho”. Eu me ofereci e os colegas aprovaram: “tá bom, então vai o professor
novo”. Alguns colegas até falaram: “olha, Luís, você acabou de entrar, você não
tem muito respaldo, o seu contrato é provisório, é meio temerário isso aí”.
Na época medo não era uma coisa que nos detinha, absolutamente. Sentíamos, lógico, mas não nos detínhamos por receio. Tínhamos muito orgulho
do que fazíamos. Saímos aqui com um carro, com dois alunos, um era representante estudantil, e fomos para essas unidades. Foi muito importante. Em
Araraquara, por exemplo, a gente fez uma reunião, com a atuação muito importante do professor José Ênio; Ele ajudou a promover um belo encontro, com
cerca de 200 pessoas, que manifestaram uma grande solidariedade à luta. Depois fomos para Jaboticabal, onde disseram que nunca havia tido assembleia.
Pois fizemos uma reunião lá, também com 200 pessoas. Também apoiaram
amplamente nossa luta.
Chegou a vez de Franca. Manuel Nunes Dias poderia ter muitos defeitos,
mas a covardia não era um deles, enfrentava a situação. Ele preparou alguns
professores que deveriam fazer perguntas e colocações embaraçosas, tentando
desmoralizar o movimento. Foi uma ótima reunião, conseguimos, sem arrogância, sem imposição e de modo bastante democrático total apoio das pessoas
de lá. Grande parte dos professores preparados pelo diretor concordou conosco. A causa passou a ser comum, pode-se dizer assim. Fizemos outra reunião
no dia seguinte e o sucesso também foi grande. Acho que o Manuel Dias não
gostou nada do resultado.
No outro dia fomos convidados para um programa de rádio. Alertaram
para nós que o radialista era “perigoso”. A entrevista seria ao vivo e ele certamente nos colocaria diante de situações embaraçosas. A principal questão que
ele nos colocou foi sobre o fato de uma entidade pública, sustentada pelo dinheiro público estar parada, sem oferecer o serviço, sem oferecer as aulas. Uma
entidade com professores bem preparados, mas que não estão ensinando. Segundo ele, a população precisava e clamava por esse ensino. Nosso argumento
era muito bom. Tínhamos aprovado em assembleia que desejávamos trabalhar,
dar aula, nem que fosse nos jardins se as salas estivessem fechadas, mas era a
Reitoria que tinha ordenado o fechamento das salas. Isso o desarmou, ele não
estava preparado para essa resposta. Daí, ele tentou jogar a culpa no gover-
Depoimento 6 – Luís Carlos da Rocha 137
nador Montoro, mas nós dissemos: “não, foi o reitor, foi o reitor, por isso que
devemos ter uma reitoria identificada com a população e com a universidade,
justamente para não ter esse tipo de situação, ou seja, uma reitoria que feche as
atividades de ensino para sufocar o anseio democrático”.
Voltamos para casa orgulhosos, satisfeitos. Tínhamos feito uma viagem
cansativa, mas muito produtiva. Embora ela tenha me custado o único período
de desemprego na minha vida.
Participação política e repressão
Esta é uma longa história. Como toda pessoa que luta por causas sociais,
muitas vezes se enfrentam adversários muito mais fortes que você. Mas mesmo
na derrota, dizemos que conseguimos uma vitória moral. Na época, em 1983,
não conseguimos eleger o diretor. A unidade havia ficado parada por um bom
tempo e houve uma invasão policial. Até os professores mais conservadores
foram contra. Eles vinham para desocupar a congregação, que tinha sido ocupada. Aliás, o prédio todo estava ocupado. Também o prefeito, o Santilli, muito
identificado com a luta democrática dos autênticos do PMDB, nos foi solidário,
prometendo ficar conosco nesse momento.
Quando vimos que não era possível evitar a entrada da polícia, estabelecemos uma estratégia de resistência passiva. Deitamos no saguão e combinamos
que não nos moveríamos do local, e se a polícia quisesse, ela teria que tirar as
pessoas, carregar uma por uma para fora. Assim foi feito. Os policiais carregavam as pessoas respeitosamente, com certo cuidado, mas, quando chegavam na
porta, jogavam-nas para fora. Foi uma ação muito importante, pois o caráter
plástico da situação ficou muito favorável a nós, que estávamos convictos, pacíficos, sentados na nossa unidade e tínhamos a polícia nos retirando na marra,
nos carregando e jogando para fora do prédio como se fôssemos pacotes. Seria
difícil não ser simpático pela nossa causa. A opinião pública nos defendeu e foi
contrária à Reitoria. Mas não conseguimos vencer a luta, não tivemos a posse
do Quelce, mesmo dialogando com o governador, com secretários, com deputados estaduais.
Por sinal, a Comissão de Educação da Assembleia Legislativa fez um relatório interessante, mostrando a importância da democratização da universidade
138 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
no próprio fluxo da construção da democracia nacional, ainda muito no rascunho. Lembro um deputado que foi muito importante, o petista Paulo Frateschi.
Ele nos acolheu muito bem, tinha posições muito identificadas com a nossa luta,
sempre veio à nossa unidade e promoveu sessões especiais da Comissão para
discutir a situação que vivíamos, o que nos deu uma publicidade muito grande.
Quelce não toma posse, mas o movimento avança na luta
pela eleição do reitor
Pelo contrário. Quando nós perdemos, pensamos em dar um passo à frente. Em vez de recuar, proporíamos eleição direta para reitor. Seria uma luta que
envolveria todas as unidades. Nenhuma universidade brasileira havia proposto
ou feito uma eleição direta para reitor até aquele momento. Então, começamos
uma campanha nesse sentido. Dela participaram pessoas importantes, como o
Willian Saad Hossne, um acadêmico e um cientista amplamente reconhecido,
uma pessoa identificada com as questões democráticas, com a ideia de lisura
acadêmica, de competência. Convidamos e ele aceitou ser um dos candidatos.
Outro candidato importante foi o professor Quelce, acadêmico e pesquisador
de reconhecimento internacional. Sabia que ele dá nome a uma síndrome, a
síndrome de Quelce Salgado? Foi ele quem a identificou. Achávamos que a universidade tinha que estar nas mãos dos seus melhores quadros.
A luta pela eleição direta a reitor se fortalecia cada vez mais. O Nilo Odália foi outro candidato. Ele era um professor muito admirado, um intelectual
reconhecido. Ele também aceitou participar da eleição e foi bem votado. Não
venceu, ficou em segundo, mas deu uma contribuição importante, pois o objetivo era fazer com que as pessoas se expusessem ao jogo democrático, ao voto,
correndo as unidades, levando suas propostas, debatendo.
O Willian Saad ficou em primeiro lugar. Daí começou a luta para que essas
pessoas fossem empossadas, principalmente para que o Willian Saad assumisse a Reitoria. Foi muito difícil, porque na época o Armando Otávio Ramos,
que era um sucessor do Luís Ferreira Martins, tinha o controle do Conselho
Universitário e compôs uma lista, encabeçada por ele, para ser oferecida ao
governador. Um deles era o Manuel Nunes Dias. Ele fez também um esquema
interessante, colocando como pró-reitor o próprio Manuel Dias, pessoa reco-
Depoimento 6 – Luís Carlos da Rocha 139
nhecidamente identificada com a direita mais truculenta. Ele pensava: “O governador não pode escolher outros da lista porque são indicações gravíssimas,
pessoas muito identificadas com a direita, vai sobrar o meu”.
Era o governador quem deveria indicar, mas ele não tinha formalmente prazo para isso. Ele pensou: “ele vai usar o expediente de deixar correr o final da
minha reitoria. Numa certa altura, ao terminar o meu mandato, eu tenho que
sair e vai entrar o vice. Bom, ele vai deixar o vice correr e vai entrar quem? O prótempore. Quem eu vou colocar como pró-tempore? Manuel Nunes Dias”. Isso o
governador evitaria a todo custo porque ele sabia bem quem era Manuel Dias.
Foi isso que aconteceu. O Montoro aceitou essa estratégia, não indicou ninguém.
Assim, Manuel Nunes Dias, como pró-reitor, foi empossado reitor da
Unesp. A esta altura, já havia sido instituída uma comissão de sindicância, que
propunha a punição ou demissão de dezenas de pessoas, como o Quelce e eu,
lógico. O Hélio Bicudo se apresentou gentilmente para nos defender, mas este
processo não prosseguiu.
Criaram-se, então outros expedientes para punir os professores, aproveitando-se do fato de a Universidade ter ficado fechada. O professor Antônio
Merisse, por exemplo, foi demitido porque não apresentou o relatório de atividades. Como ele o faria com as portas das salas fechadas? No meu caso, como
havia um contrato provisório que deveria se renovar até a efetivação, no seu
término eu estaria na rua. O Manuel Nunes Dias entrou na Reitoria dizendo
que, enquanto ele estivesse no comando, eu não voltaria a trabalhar na Unesp.
O desemprego militante
Eu me senti muito honrado pelo fato de que uma pessoa com um passado
tão identificado com as piores causas tenha dito que eu deveria ficar fora da
universidade. Foi como um cumprimento para mim. Meus colegas foram muito gentis comigo. Fiquei sete meses afastado das aulas, com o salário mantido
pela contribuição dos colegas, que faziam um rateio mensal. Não chegava ao
meu salário, mas simbolicamente isso me satisfazia plenamente. Isso foi feito
também para o professor Merisse e também pude dar minha contribuição.
No final das contas, conseguimos derrubar o Manuel Dias da Reitoria. O
Montoro usou o expediente oferecido por um juiz de direito. Nós levamos esse
140 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
parecer ao governador. O documento oferecia alternativas para lidar com a
situação, ele adotou as diretrizes desse parecer e conseguiu nomear provisoriamente um reitor, retirando o Manuel Nunes Dias do cargo e indicando em
seu lugar o professor Jorge Nagle, do câmpus de Araraquara. O gesto posteriormente foi corroborado pelo Conselho Universitário para todo o mandato.
Assim que o Nagle entrou na Reitoria ele me recontratou. Eu tenho no meu
contrato uma nomeação que coloca a minha contratação em substituição ao
próprio. Eu fiquei muito satisfeito porque, enfim, é o reconhecimento de que
eu tinha um lugar na universidade. Fui conduzido para o meu preciso lugar, em
substituição a mim mesmo. O mesmo aconteceu com o Merisse.
Saad é eleito mas não toma posse
Bom, nós perdemos essa luta também, não conseguimos emplacar o reitor, nem o Saad nem o Odália. Mas de certa forma emplacamos o Nagle. Ele
era uma pessoa identificada com nosso movimento, embora não tivesse participado das eleições, não pleiteava o cargo. Foi uma solução mais do staff do
Governo para gerir aquela crise. A solução nos satisfez porque removia pessoas
como o Manuel Dias da Reitoria e colocava outra que o Governo tinha ampla
confiança de que teria tato para administrar a crise e levar a Universidade para
uma solução institucional aceitável. Montoro sempre foi muito precavido, prudente, dentro da linha de caminhar devagar, mas com segurança.
Ou seja, perdemos de cabeça erguida. Ao mesmo tempo começava uma
nova luta por eleições diretas, outra batalha que iríamos perder. Enfim, a vida
da qual nos orgulhamos foi uma sucessão de revezes, de derrotas. Sempre pretendemos mais do que conseguíamos fazer, mas acredito que a construção de
uma sociedade pautada por justiça social e democracia é realizada assim mesmo. Propomos muito, não conseguimos, mas se avança e se constrói.
Depoimento 6 – Luís Carlos da Rocha 141
A repercussão da luta pela democratização da Unesp na
sociedade brasileira
Fazendo um paralelo com o período de redemocratização do país, dá para
se dizer que a Unesp teve um papel nesta história de vanguarda. Até me dói
quando as pessoas não reconhecem isso imediatamente. Alguns colegas que
não estavam aqui em 1983, não dão o devido valor quando se fala da importância da universidade. A vida acadêmica é tão cheia de divisões. Dois professores
se candidatam, há enfrentamentos, mas uma coisa é certa: a luta de 1983 foi de
uma importância enorme na campanha de 1984 na eleição direta para reitor.
Perdemos a primeira luta, mas entramos em uma batalha muito maior, com
mais entusiasmo, com mais gente participando.
Lógico que não foi isso que estimulou o movimento das Diretas Já, mas
num certo sentido, nos antecipamos, nos deu a satisfação posteriormente de
ver e de participar de uma grande campanha nacional pela democracia. A retomada da democracia brasileira teve uma história, percorreu um longo caminho
antes de ser conquistada. Da mesma forma, o estatuto da Unesp, que não é uma
maravilha, mas está anos-luz à frente do estatuto da USP.
Por que a Reitoria da USP às vezes é ocupada? Porque lá existe um sistema
de escolha de dirigentes na qual nem sequer há uma consulta, uma lista tríplice com algum significado dentro da Universidade. O Conselho Universitário
tira os nomes que quiser do bolso do colete, sem ouvir ninguém, sem a participação ampla de todos os setores da Universidade. São dezenas de milhares
de pessoas, é muita gente.
A USP ainda não deu o passo que demos anos atrás e está pagando, tendo
que conviver ocupação da Reitoria. Fizemos a reforma do estatuto da Unesp com
ampla participação, na qual tínhamos eleições para diretor, o rebaixamento da
titulação de titular para doutor, por exemplo, ampliando muito o leque de participação da Universidade. Hoje está esgotado esse sistema de professores titulares
na Reitoria, não é necessário. É perfeitamente possível que os pleiteantes à Reitoria tenham até o título de doutor. O nosso estatuto hoje não permite e esta é
uma das ideias a implantar, tornando ainda mais amplo o trânsito na condução
da Universidade. Isso não significa que a pessoa vai ser indicada, mas que ela tem
o direito de propor um nome, um programa, propor ideias que serão discutidas.
142 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Tem também a discussão sobre a expressão de votos das categorias. Nós temos agora 70% de professores da composição do nosso funcionamento democrático, do funcionamento dos órgãos, 15% de alunos e 15% de funcionários.
É muito pouco para essas duas parcelas. Iniciamos esse processo com o voto
igualitário. Num novo ajuste, tentando ser mais realistas com a condição que
tínhamos, os percentuais foram respectivamente para 50%, 25% e 25%, o que
ainda era bem melhor que o quadro que se tem hoje. A Unicamp, por exemplo,
trabalha com representatividade de 60%, 20% e 20%.
A Adunesp
Dentro do espírito vanguardista, a Associação dos Docentes da Unesp, a
Adunesp, entra nesse bolo. É a primeira entidade dentro do Estado de São Paulo com essa característica nas universidades. No início, a Adunesp não era uma
proposta com suporte consistente. Tanto que, ao sermos demitidos, não conseguimos manter nem a associação nem nosso próprio exercício profissional lá
dentro, todos os professores associados à entidade foram demitidos. Sinal que
era uma proposta muito atrevida para a época. Ela parece simples, não é? Não
para quem conheceu a ditadura.
O balanço da luta
Enfim, fazendo uma avaliação de toda esta história, nós convivemos e dividimos a luta com grandes pessoas, conseguimos estabelecer relações de companheirismo muito sólidas, agradáveis, consistentes. Evidentemente demos a
nossa contribuição para o processo democrático, que costuma mesmo se fazer
com as sobras de algumas derrotas. Nós tivemos que passar muito tempo para
ter experiência de vitória. Particularmente, acredito que a grande experiência
de vitória da democracia brasileira, exemplar para o mundo, foi a eleição do
presidente Lula. Quem poderia imaginar, um homem com as suas dificuldades com o português pobre, um operário perseguido, sindicalista, mal visto
pela direita, eleito presidente da República? Eu me lembro da primeira eleição,
aquela em que ele foi candidato ao governo de São Paulo. Foi mais para marcar
Depoimento 6 – Luís Carlos da Rocha 143
posição, afinal só era possível por o currículo da pessoa e o dele falava em prisão, algo inaceitável para as pessoas.
Pois nós conseguimos uma eleição expressiva depois de derrotas. A direita,
na verdade, usou tudo o que podia para derrotar a esquerda. Usou todas as formas de sedução, como foi o caso do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Conseguimos, assim, ter a experiência de vitória. Um nome popular, eleito por
uma votação expressiva e que conseguiu resistir a todas as manobras da mídia,
toda pressão e projetar o País de uma forma que nós não imaginávamos. Ao
viajar ao exterior percebíamos que as pessoas começavam a tratar o brasileiro
de forma diferente. Na Argentina, na Espanha, na Itália, nos diziam que ali
era preciso um Lula também. Nos fez ter orgulho de sermos brasileiros. Conseguimos eleger uma pessoa que se tornou um nome importante da política
internacional, levou o país a uma respeitabilidade que não imaginávamos, além
de ter produzido uma coisa importantíssima, que às vezes temos dificuldade
de entender que é ter tirado do valo da miséria milhões de brasileiros. Isso parece insignificante para a classe média, mas não para as pessoas que estavam
naquela condição.
Nossa atualidade: um novo país?
Esta é a diferença entre uma vida infeliz e uma vida de esperança. Importantíssimo! Eu tenho amigos que viajam muito, jornalistas que andam pelo
país todo, e eles falam: “olha, você tá aqui em São Paulo e não imagina a transformação do país, o que aconteceu nas pequenas cidades, o que é essa bolsafamília. Tem gente que fala com despeito que isso se trata de uma esmola, mas
dinamizou relações, trouxe orgulho de pessoas que simplesmente viviam de
escambo. Num certo sentido, puderam fazer suas compras, dinamizando o comércio, ou seja, estabeleceu um patamar de dignidade que não havia no País
até então. Acredito que só uma liderança realmente de base, de raiz popular,
que tivesse a sua vida constituída nas dificuldades da população, é que teria a
disposição de olhar para esses problemas.
144 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
A Unesp hoje
Houve um arrefecimento dessas preocupações durante um tempo. Todas
as situações recentes são difíceis de serem avaliadas, a distância é que permite
você olhar as coisas com um pouco mais de clareza, quando elas começam a
tomar o seu formato. Mas temos visto o aparecimento de uma disposição de
luta que há dois ou três anos não existia. Evidentemente que ela aparece de
uma forma confusa, de uma forma não clara. As pessoas às vezes dizem: “mas,
afinal, há uma pauta de reivindicações?”. Tínhamos muita experiência política
na época, éramos capazes de fazer propostas muito bem articuladas. Havia um
aprendizado grande de resistência à ditadura.
A juventude hoje não é diferente, se formou no meio de uma democracia,
mas uma democracia de pouca participação direta. Então, quando ela começa a participar de forma direta, é natural que não saiba precisamente o que
fazer. Ela tem uma noção meio intuitiva do que é necessário, da sua própria
insatisfação, mas que não tem ainda condição de precisar as suas colocações
e as propostas viáveis. Eu vejo muita gente reclamar que as propostas não são
muito claras. É porque as pessoas estão aprendendo, engatinhando, tateando a
experiência democrática. Um dia evidentemente terão muita clareza, e espero
que tenham a mesma disposição de luta que têm hoje.
Alguns têm a visão mais clara, outros, uma disposição forte. Contra a ditadura era muito assim. O jogo democrático se compõe de uma disposição de
vontade, de anseios. Aprende-se a sua expressão mais próxima da possibilidade, mais próxima da capacidade de produzir avanços, reformas. Eu vejo com
bons olhos, estamos num momento bom, novo, difícil de ser compreendido, é
verdade, mas um momento de retomada da participação democrática. Podemos eventualmente ver problemas da participação, mas a maior dificuldade é
quando falta a participação. Para mim isso é a infelicidade da vida, a falta de
participação. Isso não só mata o cotidiano como nos deixa sem memória digna
de ter mais tarde quase nada a lembrar.
Mesmo a luta pouco regrada, confusa às vezes, ela tateia coisas importantes
e deixa como um lastro duas coisas: os elementos de experiência para as ações
mais concretas, mais efetivas na frente, e uma memória que algum dia a gente
vai precisar para ter orgulho de nós mesmos.
DEPOIMENTO 7
José Sterza Justo
Entrevista realizada em 10 de outubro de 2013.
É doutor em Psicologia Social e professor do Departamento de Psicologia Evolutiva, Social e Escolar da FCL/Unesp em Assis/SP.
A eleição do professor Quelce: Assis no compasso da
redemocratização
P
rimeiro quero dizer da importância desse projeto, dessa tentativa de resgatar nossa história, a da Unesp, e ao mesmo tempo a história do nosso país.
A propósito, eu gostaria de enfatizar o quanto a Unesp foi parte importante
da história do nosso país, precisamente no período da redemocratização. Vou
detalhar como isso aconteceu, mas já adianto que o movimento pela redemocratização no nosso país contou com uma contribuição importantíssima da
Unesp que se iniciou especificamente no câmpus de Assis com o movimento
pelas eleições diretas na universidade, isso logo no início de 1983.
Havia um clima disseminado no país pela redemocratização, mas antes de
se estabelecer as eleições diretas no país, nós deflagramos aqui em Assis um
movimento reivindicando a eleição direta do diretor do câmpus, em sintonia
com movimento nacional pela eleição direta do Presidente da República que
era o objetivo maior.
Em Assis, em 1983, mais precisamente, se inicia o movimento pela eleição
direta do diretor do câmpus. O mandato do diretor vencia neste ano; a escolha do
diretor era feita por aquele conhecido processo de elaboração, pela congregação
146 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
da unidade, de uma lista sêxtupla de nomes para livre escolha do Reitor. A congregação daquela época, era uma congregação bastante restrita com a participação de professores, poucos aliás, e um representante de alunos, não mais do que
isso. E era esse o colegiado que escolhia, dentre os professores titulares, aqueles
seis que seriam enviados ao Reitor para que ele escolhesse o seu preferido.
O que fizemos foi deflagrar então uma ampla mobilização pela eleição do
diretor da unidade, através da votação dos três segmentos, professores, alunos
e funcionários. Como o estatuto não previa eleições diretas, nós realizamos
um movimento paralelo, autônomo, independente para a eleição do diretor. O
primeiro desafio foi tentar divulgar esse movimento, divulgar esse processo
eleitoral, e fazer com que a comunidade como um todo, os professores, os funcionários e os estudantes, aderissem a ele. Nós precisávamos que esse processo
fosse um processo bastante encorpado, com uma ampla participação para que
pudesse ter força de pressão sobre os colegiados e sobre o reitor para que pudéssemos viabilizar, na prática, essa maneira de escolher o diretor.
Nós tínhamos dois grandes desafios: o primeiro era esse, no plano local, de
fazer uma eleição bastante representativa dos três segmentos. Segundo desafio,
fazer com que a congregação acatasse o resultado dessa eleição, porque nós
pensamos o processo dessa forma: fazemos a eleição, levamos para a congregação, a congregação homologa o resultado da eleição e homologando o resultado
da eleição, pressionamos o reitor para que ele escolha aquele que tivesse sido
eleito. Mas também destacando que nós achávamos importante a redemocratização da própria universidade, da estrutura política-administrativa da própria
universidade, tudo isso inserido no quadro geral do país.
E o câmpus de Assis, talvez por ser o câmpus cujo mandato do diretor se
expirava em 1983, e esse clima pelas eleições diretas já estava posto no cenário
geral do país, talvez por isso, Assis saiu na dianteira, ou seja, foi o primeiro
câmpus na Unesp que deflagrou esse movimento pela eleição direta do diretor.
Posteriormente, outros campi também fizeram o mesmo movimento, mas Assis foi o primeiro e esse movimento aqui foi um movimento realmente muito
intenso, muito forte, muito significativo, e embora, já antecipo, ele não tenha
chegado ao seu objetivo, não tenha conseguido de fato empossar aquele que foi
eleito, o processo foi muito marcante e ele se repercutiu na universidade como
um todo e, evidentemente, também demos uma contribuição pra todo o processo de redemocratização do país.
Depoimento 7 – José Sterza Justo 147
Tínhamos o cenário geral do país que favorecia e tínhamos também as
entidades todas, sobretudo a representativa dos professores e dos alunos que foram os dois segmentos evidentemente mais engajados. Os funcionários, temos
que fazer esse registro, o segmento dos funcionários, não teve uma participação significativa. Foram poucos, eu acho que não tínhamos mais do que três ou
quatro funcionários no câmpus que participaram efetivamente do movimento,
nas assembleias, nas discussões, nas ocupações, enfim, em tudo que aconteceu nesse período, mas o segmento como tal não participou, aliás, eles eram
contrários. Era um segmento aliado à direção na época, era aliado ao governo,
isso está nos documentos. Nós vamos falar provavelmente da comissão da sindicância que foi aqui instalada pelo reitor para dissuadir o movimento e punir
aqueles que eles consideravam as lideranças responsáveis por ele. E lamentavelmente tivemos depoimentos de funcionários, nessa comissão de sindicância,
delatando, uma funcionária delatando aqueles que estavam sendo considerados como líderes do movimento, delatando para essa comissão para serem punidos evidentemente. Isso era sabido, a comissão tinha esse propósito, que está
nos documentos também, de apurar os fatos e identificar os responsáveis e puni-los como, aliás, isso foi feito. Só estou dando esse como um exemplo de qual
foi o posicionamento dos funcionários nesse movimento; essa funcionária, na
época, era a chefe da sessão de graduação, ela delatou 60 e poucos alunos. Até
ficou apelidada de “sessentinha”.
Um outro episódio também que demonstra isso: quando houve a ocupação
da sala da direção, a secretária do diretor na época, se colocou como se fosse
uma leoa de chácara, uma guardiã ali na segurança da sala. Ela tentou impedir
a entrada dos estudantes para fazer a ocupação. Só para se ter ideia de quanto
os funcionários eram aliados do poder estabelecido, desse tipo de poder considerado autoritário e opressivo dentro da universidade, e eles eram completamente avessos a qualquer ideia de democracia, de democratização.
Até na participação nas eleições, se fossemos colocar em uma ordem o volume de participação desses segmentos, o maior era o dos alunos, depois o dos
professores e por último, bem por último, o dos funcionários. Essa participação foi sendo modificada ao longo do processo. Naquele momento inicial,
quando divulgamos a data da eleição, fizemos um cronograma para a eleição
e criamos um processo semelhante ao que temos hoje, ou seja, com um período para discussão dos candidatos. Detalhe, na época, só professores titulares
148 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
poderiam exercer a direção do câmpus, hoje os doutores também podem. Isso
diminuía bastante o universo de candidatos possíveis. Na realidade o câmpus
de Assis, acho que tinha algo em torno de 10 a 12 titulares. Então nesse primeiro momento da divulgação do calendário, da divulgação da eleição, houve uma
adesão bastante grande dos três segmentos. Claro, não foi tão fácil convencer
os nossos colegas professores titulares na época, a se inscreverem para a eleição,
até porque esse era o segmento mais conservador.
Na época os funcionários já eram todos concursados. Então eles tinham estabilidade diante da ditadura, assegurada pelo Estatuto do funcionalismo público. Entre os docentes, já tínhamos uma parte que era celetista e uma outra parte
que era dos concursados também. Mas havia da parte sobretudo do segmento
dos professores e dos estudantes um sentimento de segurança muito grande.
Aliás, curioso até, constatar que num período de autoritarismo muito forte, de
ameaças muito fortes, um período que ainda, bom, aí em 81, 82, 83, já nem tanto, porque já estavam num movimento bastante avançado da democratização,
mas ainda assim como pairava um clima de ameaça por conta de sindicâncias
e possibilidade de punições mais rigorosas, demissões. Mas o sentimento de
segurança era muito grande e ele decorria não de garantias legais, mas da força
e da união dos segmentos em torno dessas bandeiras, em torno dessas ações no
sentido da redemocratização. Agora me recordo de um exemplo dessa solidariedade, dessa confiança e dessa determinação pela causa, pela luta que foi o que
ocorreu com um de nossos colegas, Luís Carlos da Rocha, que foi um dos indiciados pela Comissão de Sindicância. Na ocasião, ele era professor colaborador,
havia essa figura do colaborador, que era um contrato de dois anos, renovável
por mais dois anos e essa renovação não era uma renovação automática, porque
funcionava praticamente como um contrato enquanto se aguardava a realização
de um concurso regular. Pois bem, o artifício utilizado para punir o Luís Carlos,
não foi uma demissão, um ato de demissão formal, mas o que se fez foi a não
renovação do contrato dele. O contrato dele venceu exatamente nesse período
da evolução do movimento e aí o contrato dele não foi renovado.
Mas o que nós fizemos? Nós fizemos uma cotização entre um grupo de docentes e cada um pagou uma parte do seu salário. Dividimos entre nós o salário
que ele recebia na época, e nós pagamos durante alguns meses, não lembro exatamente quantos meses, mas por alguns meses nós pagamos o salário do Luís
Carlos para que ele se mantivesse aqui e, como um gesto de total discordância
Depoimento 7 – José Sterza Justo 149
com aquela demissão e a reivindicação para que o contrato dele fosse renovado,
o que acabou ocorrendo depois, mas isso foi quando o reitor na época, o Nunes,
já tinha sido substituído pelo Nagle. Quando havia avançado a própria redemocratização dentro da Unesp. Coloco isso como um dado dessa solidariedade,
dessa força, dessa confiança, dessa segurança que havia nesse movimento, que
havia nesse enfrentamento do regime autoritário. Vivíamos num movimento de
ponta-a-ponta que era o movimento pela redemocratização do país.
Criação da Unesp
Até me arriscaria a dizer que com a ditadura ruindo aqueles que se beneficiavam dela procuraram manter os redutos que fossem possíveis de serem
mantidos em suas mãos e sob seu controle. E um desses espaços foi, sem dúvida, a Unesp. Eu diria que a Unesp foi um desses redutos do autoritarismo no
estado de São Paulo, foi um reduto do Malufismo – tomando a figura de Maluf
como figura máxima dessa adesão de políticos à ditadura militar, aos militares.
A Unesp, no meu ponto de vista, foi criada como reduto do que poderia
sobrar dessa direita, como se fosse uma premiação, como uma reserva possível
que eles poderiam ter no apagar das luzes da ditadura militar, no interior do
estado de São Paulo. A Unesp é uma filha tardia da ditadura nesse sentido.
Tentou-se fazer dela esse espaço de manutenção de privilégios daqueles que
faziam parte da universidade, daqueles que foram mais colaboradores com o
autoritarismo, com a ditadura militar.
Por isso, talvez, que a gente tenha tido um enfrentamento grande, uma
grande dificuldade, para alinhar a estrutura político-administrativa da universidade ao que estava já se esboçando no cenário geral do país, ou seja, para
redemocratizar a estrutura na universidade, para colocar o espírito democrático dentro da organização e da prática política da universidade. Aqueles que
se encastelaram na reitoria, começando com o Luiz Ferreira Martins, depois
vem o Armando, todos eles, filhotes da ditadura e do Malufismo se opuseram
ferrenhamente à democratização da Unesp. Em 1984, quando o movimento
pela eleição direta avançou para a escolha do Reitor se repetiram os mesmos
episódios ocorridos em Assis no ano anterior: eleição paralela, elaboração de
150 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
lista sêxtupla pelo Conselho Universitário sem o nome daquele que havia sido
o mais votado nas eleições diretas para Reitor.
Eu acho que isso, que se transcorreu durante praticamente todo o ano de
83 em Assis, fortaleceu muito a ideia de redemocratização da universidade.
Então, voltando a 83, se estabelece o processo eleitoral, o calendário, as inscrições. Alguns titulares se candidataram, dentre eles, aquele que depois foi o
eleito, que recebeu a maior votação, que foi o professor Antônio Quelce Salgado. A eleição foi feita e uma boa parte dos titulares, inclusive o próprio diretor da época que repudiava esse processo eleitoral, ficavam um pouco numa
berlinda, porque, claro, eles não compartilhavam com isso, até mesmo pela
posição político-ideológica, no entanto, não podiam se contrapor diretamente
a um movimento muito forte.
Ao mesmo tempo em que tinha o movimento da resistência forte, tinha
o outro lado, que era o lado da adesão, da cumplicidade, da aliança. E era do
segmento que comandava a universidade, era do segmento que estava na reitoria, era do segmento que estava na direção das unidades, porque o processo de
escolha possibilitava isso. Imagina o governador ter um leque de opção de seis
titulares na universidade, vamos destacar isso, só os titulares poderiam ocupar esses cargos de direção e de reitor. Então isso restringia bastante e, aliás,
como acontece até hoje, eles são muito bem administrados pelos poderes. Não
interessa expandir a titularidade somente como um plano de carreira, uma
trajetória de carreira profissional. Até o titular acho que prevalece o mérito
acadêmico no sentido da produção de conhecimento. Mas o concurso de titular é um concurso por vias políticas, porque vai desde a concessão do cargo, a
destinação do cargo para o câmpus, daquele concurso, daquela área, daquele
professor até a criação do próprio cargo pelo governador. Aliás, registre-se; nós
estamos dizendo então do momento do malufismo, enquanto poder hegemônico político garantido pela ditadura militar que mandava no estado de São
Paulo e consequentemente mandava na Unesp.
Unesp hoje
Hoje, aliás, faço questão de dizer isso e com muito conhecimento de causa,
hoje é exatamente a mesma coisa e digo com toda segurança que é até pior.
Depoimento 7 – José Sterza Justo 151
Aliás tive um embate recente com o reitor onde eu acho que isso apareceu com
mais visibilidade. Hoje é pior porque a Unesp está completamente subordinada aos interesses do governo do estado de São Paulo, do governo não, de um
partido político, até de uma ala de um partido político, o PSDB, que comanda
o estado de São Paulo há muito tempo e que comanda a Unesp e está gerenciando a Unesp. Aliás, nós temos hoje, um ex-reitor que é secretário de governo.
Curioso isso, não é? E já mostra a proximidade da administração da Unesp
com o governo do estado de São Paulo e que também mostra o caminho pelo
qual, hoje, os interesses do governo do estado de São Paulo penetram muito
mais facilmente na nossa universidade, pela via desse secretário, o Herman,
secretário de educação do estado de São Paulo, e do nosso Durigan, que é o
nosso reitor, que era vice-reitor do Herman e que, evidentemente, mantém com
ele uma grande ligação.
É por isso mesmo que a gente está assistindo hoje essa ampliação dos onze
cursos de engenharia. Mas a demonstração maior de subserviência é a criação
do câmpus de São João da Boa Vista. São João da Boa Vista, eu conheço. Conheço aquela região, eu conheço aquela realidade, eu conheço os deputados
daquela região que há mais de 10 anos, vinham falando, prometendo àquela
região um câmpus da Unesp. Promessa essa, com a qual eles se fortaleciam
politicamente. E isso se conseguiu exatamente agora, no momento em que o
PSDB está desesperado para manter os espaços políticos que já estão sendo
ameaçados, exatamente igual ocorria na época, lá atrás, 83 e 84.
A situação não é diferente. Lá também o malufismo, já no processo de enfraquecimento do autoritarismo procurou a todo custo se manter na Unesp.
O mesmo processo, agora, acontece com o PSDB. O problema é que a nossa
Unesp é muito vulnerável nesse sentido, o fato de ela ter unidades em todo o
estado de São Paulo torna a Unesp uma excelente moeda de barganha política
dos poderes políticos locais. Então é exatamente isso que o nosso governador e
o nosso reitor e o Herman fazem e outros antes deles também fizeram. Antes
do Herman, foram criados vários campi, Rosana, Ourinhos, Tupã, enfim, foram vários campi criados pelo interior do estado de São Paulo.
E por que isso? Porque havia uma política universitária? Evidentemente que
não. É barganha política mesmo para favorecer certos poderes locais, deputados
que pressionam o governador, fazem as negociações com a reitoria da Unesp
que se dispõe a esse lamentável papel. Então nesse sentido, acho que a história,
152 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
fundamentalmente, nos dá essa grande contribuição de visualizar, de podermos
entender o momento atual, por eventos anteriores. E esse paralelo que eu estou
fazendo aqui não é exagero. E mais ainda, sobretudo quando eu digo que a situação hoje, dessa subordinação da Unesp às políticas partidárias, hoje ela é pior,
porque lá, no período de 83, 84, e em 76 quando a Unesp foi criada, a coisa era
escancarada, a grande diferença é essa, lá a coisa era escancarada.
Visita de Maluf a Assis em 1981
O governador escolhia mesmo o reitor que ele queria, que era mais próximo à ele; era um colegiado fechado. Enfim, não se dissimulava a infiltração
do poder do governo sobre a universidade porque o governador já ia logo na
cidade do câmpus. Ele vinha visitar a cidade como ele veio em ocasião e, como
uma medida preventiva para que não houvesse manifestações, qualquer tipo
de manifestação, contra a visita dele à cidade, o serviço de segurança vinha e
prendia aquelas lideranças que supostamente poderiam organizar alguma manifestação de protesto. O João Francisco – professor do curso de História – era
uma dessas vítimas. Antes de o Maluf chegar já prenderam o professor. Mas era
curioso; nós acabávamos fazendo exatamente aquilo que eles queriam evitar.
Nós fomos lá fizemos manifestação na frente da delegacia. Aquela manifestação que eles não queriam, acabou acontecendo.
Mas nesse período a coisa era aberta, descarada; os diretores não se preocupavam em dissimular as suas ações de acordo ao reitor, ao governador, ao
regime militar; enfim, isso transparecia, a forma autoritária de gestão da universidade, ela transparecia, era muito transparente. Essas ações do governador, o uso político da universidade, da Unesp em particular, em 1976; a Unesp
foi criada para isso, para manter espaços de poder para aqueles redutos do
autoritarismo.
Unesp ontem e hoje: ditadura e sua herança
E hoje o problema é que essas coisas são mais dissimuladas. Hoje nós temos
também, talvez até mais, eu diria; é difícil a gente dizer mais ou menos, que-
Depoimento 7 – José Sterza Justo 153
rendo quantificar coisas que não são quantificáveis, a bem da verdade; mas eu
fico até em dúvida quando eu penso sobre a época da ditadura militar e hoje.
Porque agora nós estamos vendo ações e presenciando fatos, mas com consequências muito terríveis para a universidade. Não me lembro de intervenções
dessa natureza com consequências tão danosas, como agora estamos vendo
com a criação desses campi, com a criação desses cursos, como a questão das
unidades experimentais.
Outro caso recente é o da criação do curso de medicina em Bauru. O reitor
nega, veementemente, mas sabemos de toda a força política da cidade de Bauru
desde quando a Unesp encampou uma Fundação Municipal de Ensino Superior que lá havia e que acabou sendo transformada em um Câmpus da Unesp.
Então, essa ingerência sempre aconteceu, e hoje, ela está também muito forte,
embora bastante dissimulada. O Reitor tem o descaramento de dizer que nós
vivemos numa universidade democrática, que todas essas decisões de criação
de cursos, os projetos da reitoria, são projetos discutidos pelos órgãos colegiados. Tanto que eu fiz uma crítica a ele, dizendo que nós estamos vivendo um
período de neutralização dos colegiados, mas o fato é que ele conseguiu anular
os colegiados. Nosso esforço para construir isso que a gente acreditava que
fosse a democracia dentro da universidade, que foi aquela luta árdua, acabou
hoje servindo à cúpula do poder e legitimando as atuais formas de dominação.
Eleição do Quelce
Só para completar, rapidamente essa história então, a eleição foi feita, houve
uma grande participação, conseguimos até colocar o nome do Quelce – o professor eleito – na lista sêxtupla da Congregação, embora não em primeiro lugar.
A congregação já deu um primeiro golpe no resultado das nossas eleições, mas
o reitor poderia ter escolhido o Quelce, se ele quisesse prestigiar essa redemocratização, mas claro que o reitor não escolheu o mais votado na eleição, ele
reconduziu o diretor na época. Então nós tínhamos um ou outro titular que
escapava dessa elite do poder, extremamente conservadora, eram poucos, muito poucos. Então tínhamos, dentre esses que escaparam inteiramente, aliás, eu
diria foi sorte ter Quelce. Ele já veio de Marília titular. O Quelce foi uma dessas
vítimas da reestruturação que ocorreu com a criação da Unesp.
154 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Criação da Unesp e da Adunesp
Foi um projeto extremamente verticalizado; foi totalmente negociado mesmo pelas elites dominantes da universidade e do Malufismo do governo do Estado de São Paulo. Instituíram isso em projeto e decidiram o que bem entenderam
desse projeto de universidade. Claro, isso provocou um movimento também
grande, dos professores principalmente, de oposição a esse projeto autoritário
de criação da Unesp. Aliás, esse momento foi um momento muito fecundo, lá
em 1976, porque foi ali que se criou, junto com a Unesp – essa junção dos Institutos Isolados – as bases, da organização dos docentes. Talvez se não fosse esse
ato tão impositivo, autoritário de criação da Unesp, a gente não tivesse conseguido construir essa articulação dos docentes de vários campi, que criou a base
da associação dos docentes que depois foi transformada em sindicato. Ocorreram várias reuniões porque a indignação, sobretudo daqueles professores das
áreas mais críticas, mais distantes da elite do poder, ficaram muito perplexos
diante daquilo que se estava estabelecendo como sendo a estrutura da Unesp.
A reorganização dos campi significava o fechamento e a transferência de
alguns cursos e a justificativa era pífia. Falava-se, então, numa necessidade de
racionalização da organização da universidade; que não duplicasse meios para
os mesmos fins; isso significando que não se duplicasse cursos em regiões, envolvendo cidades muito próximas, como no caso aqui de Assis e Marília, são 70
km de uma cidade à outra. Então, um curso que se repetia nessas duas cidades
era o curso de letras. E situações como essa eram consideradas de duplicação
desnecessária de curso; portanto se fechava um desses cursos. E aí, claro, é
necessário fazer algum tipo de acomodação, significando isso conceder alguma compensação para aqueles que teriam o curso fechado, cursos que seriam
extintos. Vamos dar aqui o exemplo de Assis e Marília. Com relação ao curso
de Letras, então, se decidiu manter o curso em Assis e transferir o curso de Filosofia de Assis para Marília, como compensação. Nem preciso dizer que não
foi uma decisão através de discussões amplas entre os campi, que isso tudo era
negociado entre os diretores com o reitor, isso se negociava lá e se decidia nesses bastidores e a comunidade universitária era comunicada da decisão e pouco
ou nada se podia fazer contra isso pelos órgãos colegiados que, foram todos já
constituídos mesmo como órgãos para não ter nenhuma representação efetiva
Depoimento 7 – José Sterza Justo 155
do conjunto da comunidade universitária. O caminho dos órgãos colegiados
era um caminho impossível, quer dizer, não se conseguiria nada ali mesmo.
Foi isso que forçou os docentes a se organizar para fazer algum enfrentamento, através de manifestações contra essas medidas. Foi então que se criaram as bases da Associação dos Docentes, embora de imediato nada tenha sido
conquistado. Que eu me lembre, não se conseguiu deter nada dessa reorganização que foi feita nos cursos. Para os diretores também não ficava bem, inclusive
para os seus pares próximos do seu espectro político, fechar um curso. Por
exemplo, no caso de Marília, o curso de Letras também tinha docentes muito
ligados ao poder local que se opunham a essa extinção do curso. Então alguma
negociação tinha que ser feita entre eles, nesse caso particular, se transferiu o
curso de filosofia de Assis para Marília e o curso de letras de Marília foi extinto. Os docentes de lá foram sendo progressivamente remanejados para Assis.
A Unesp se fez dessa maneira, primeiro com um poder extremamente
verticalizado, com uma estrutura administrativa, aliás, muito distanciada da
realidade da Unesp, dessa realidade de câmpus em cidades muito distantes em
todo o estado de São Paulo. E se cria, então, essa administração central que
curiosamente já estava prevista. A reitoria da Unesp, nos primeiros documentos, nos primeiros projetos, estava prevista para funcionar no câmpus de Ilha
Solteira. Porque ali, veja como as coisas funcionavam, haviam instalações auspiciosas, então tinha bastante espaços lá, prédios do antigo canteiro de obras da
CESP totalmente abandonados depois da conclusão das Usinas de Jupiá e Ilha
Solteira. A localização em face dessa realidade da Unesp, dane-se. A questão
ali era uma questão estritamente econômica, assim como também se resolvia o
fechamento desses cursos também por uma questão econômica.
Imagino que essa justificativa de cursos duplicados é pífia. Aliás, esses cursos existiram juntos durante todo o período dos Institutos Isolados, isso era na
época de 59, 60, por aí, porque que só em 76 se chegou a essa constatação de que
esses cursos estavam se duplicando? A necessidade da licenciatura, sobretudo
na área de letras, na área de humanas de maneira geral, comporta cursos em
qualquer cidade, ainda mais naquele período onde essa capacidade de circulação de um estudante de uma universidade para outra era muito menor do que o
existe hoje. Então evidentemente que não era essa a razão, aliás, eram dois cursos excelentes, dois cursos tradicionais que deveriam ter sido preservados pelos
próprios quadros que eles tinham formado, pela própria produção acadêmica.
156 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Isso foi na verdade uma medida mesmo de ceifar todo o investimento que já se
havia feito desses cursos desde a criação deles.
A transferência do curso de Filosofia de Assis para Marília teve também
um significado político. Tratava-se de um curso com um corpo docente bastante politizado e crítico, por isso a direção do câmpus de Assis o rifou e sua
transferência para Marília acabou pulverizando seu quadro docente, muitos
dos professores desse curso acabaram se transferindo para outras Universidades ou se aposentaram antecipadamente porque, enfim, não estariam dispostos
a recomeçar toda uma experiência de inserção em um novo câmpus.
Então foi uma insanidade. Foi uma negociata extremamente prejudicial,
tanto para aqueles cursos que foram fechados, como também para o câmpus
de Assis. Era o único curso de filosofia, aliás como é até hoje. Jamais se poderia ter feito isso que fizeram com o curso que tinha um quadro de docentes
respeitável, muito respeitável. Era uma referência, não é exagero dizer, que a
filosofia aqui era uma referência para o estado, para as outras universidades
também. Foi esse projeto autoritário, verticalizado, que criou a Unesp e com
essas consequências.
Veja que a Unesp não surgiu dentro de um projeto de fortalecer e expandir o ensino superior do estado de São Paulo. Registre-se isso, não nos esqueçamos, surgiu isto sim, dentro de um projeto que sempre foi um projeto da
ditadura militar, de privatização do ensino no nosso país. Esse período todo
da política educacional da ditadura militar, inspirada por esses modelos norte-americanos, pela Escola Superior de Guerra foi marcado pela tentativa de se
funcionalizar a universidade para aquilo que se entendia como sendo o desenvolvimento econômico, tecnológico e industrial do país. Evidentemente que a
área de humanas, uma universidade crítica não era o que buscava a ditadura.
E esse tipo de projeto educacional, sobretudo, no nível do ensino superior, com
os interesses da iniciativa privada, conduzia para uma política de privatização,
para uma política de criação e expansão das universidades particulares, não se
tratava de fortalecer as universidades públicas. Então, as universidades públicas que já estavam estabelecidas, como era o caso da USP, tinham condições de
resistir a essa política privatizante, mas a Unesp surgiu toda já dirigida por esse
veio político ligado à ditadura militar. Ela poderia ser subordinada facilmente
a essa política de privatização.
Depoimento 7 – José Sterza Justo 157
Houve várias tentativas de privatização direta, e isso acontecia na universidade pública de maneira geral, não só na Unesp. Várias propostas de pagamento de taxa por parte dos alunos sofreram muita resistência do movimento
estudantil na ditadura, mas, veja, utilizavam-se artifícios dessa forma, claro
que o fechamento dos cursos da Unesp não era para fortalecer a Unesp, era
isso sim até mesmo diminuir o tamanho da própria Unesp. Era para, na verdade, se construir mais uma forma de comando verticalizada e centralizada,
que poderia ter uma ação mais efetiva nessas unidades isoladas que antes eram
dispersas e mais pra isso do que para expandir o ensino superior. Tanto que
a Unesp nasceu fechando cursos, não criando cursos. Se o objetivo não era
sufocar inteiramente os institutos isolados, era pelo menos mantê-los o mais
inerte possível, dentro de uma estrutura bem controlada, como era a da Unesp.
Com toda certeza, a criação da Unesp não ocorreu dentro de um projeto de
ampliação dos recursos públicos dentro do estado de São Paulo para o ensino
superior. Foi contra esse perfil de universidade que estava sendo criado que se
esboçou todo esse movimento de 1983 para a redemocratização.
Ocupação na Unesp de Assis em 1983 e suas repercussões
ainda hoje
O diretor eleito pelo sistema de votação direta aqui não foi empossado. Ele
fez parte da lista sêxtupla mas foi preterido pelo Reitor e isso deflagrou efetivamente as ações mais radicais do movimento que implicaram na ocupação da
direção, num gesto claro, que nós não queríamos aquele diretor, que nós queríamos o diretor que havia sido eleito. O sentido da ocupação da sala da direção do
câmpus por mais de 60 dias foi exatamente esse, ou seja, nós queremos o nosso
diretor, porque ele foi eleito. A reivindicação era exatamente essa; aí ficou essa
queda de braço com a reitoria. O reitor tinha escolhido o que já era diretor na
época, o professor Mendonça, que evidentemente era um grande aliado dele.
E ficamos nesse impasse adentrando o mês de julho que era o período de
recesso. Eles apostavam que no período de recesso, o movimento se enfraquecesse. Ele não enfraqueceu, ao contrário, ele também gerou muitas manifestações por cartas, telegramas que foram enviadas em um volume enorme. Aliás a
comissão de sindicância prestou também esse grande serviço; eles compilaram
158 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
todas as cartas e telegramas que foram enviados para o diretor no período de
recesso pelos alunos solicitando a renúncia dele para que o eleito pudesse ser
empossado. E ao compilar e reunir tudo isso, e anexar no processo da comissão de sindicância, eles deixaram esses documentos aqui à nossa disposição.
Seguramente, não fosse a comissão de sindicância a gente não teria esses documentos. Essas cartas e telegramas foram enviados ao endereço particular
do diretor. E mostra bem como o movimento se manteve principalmente no
período de recesso, e foi retomado logo na sequência, no mês de agosto, e se
prolongou até setembro, outubro, mais ou menos.
Até que se chegou ao ponto que se estabeleceu esse impasse. Aliás, também
uma outra lição da história, nesse confronto todo entre o movimento e o diretor da época, tivemos um episódio que foi a presença da polícia para desalojar
os estudantes que estavam sentados no saguão do prédio onde estava a sala da
congregação. A polícia foi chamada para desalojar os estudantes que estavam
ali tentando impedir a realização de uma congregação, por discordarem de
uma congregação que ia escolher o vice daquele diretor que tinha sido empossado contra o resultado das eleições. Isso soava até como um gesto de afronta.
Ora, estava-se ali pleiteando, reivindicando ainda a posse do eleito e o diretor
que havia sido reconduzido ao posto contra a vontade da maioria convocou
uma Congregação para a escolha do seu Vice.
Diante do protesto o diretor o que faz, chama a polícia para desalojar. Eu
me lembro que estávamos lá, eu e alguns outros professores, e a gente tentou
até formar um cordão de isolamento, mas nós éramos poucos, e também não
era nossa proposta enfrentar a força bruta da polícia. Mas diga-se que, apesar
de polícia ser polícia em qualquer lugar, mas naquele episódio particularmente
aconteceu um desdobramento que hoje a gente até acha ele engraçado e dá
risada. Os policiais pegaram os estudantes e colocaram fora do prédio e os estudantes retornavam no prédio e ficou esse vai e volta. Não teve uso de cacetete
nada, mas era um ato de agressão. Na verdade, bastava a presença da polícia
ali para caracterizar um ato de agressão à democracia dentro da universidade.
Mas, por fim, a congregação não tinha mesmo como ser realizada porque os
seus membros dentro daquele cenário, mesmo aqueles aliados ao diretor, não
tinham mais qualquer condição de participar da congregação depois do tumulto e a congregação então foi suspensa e com isso a polícia se retirou sob a vaia
dos manifestantes, saiu vaiada.
Depoimento 7 – José Sterza Justo 159
Depois disso a polícia não foi mais chamada, a direção ficou ocupada. Exatamente no momento em que a polícia sai vaiada, ocorre uma reunião dos próprios estudantes no saguão do prédio, onde se decide invadir, ocupar a direção,
foi exatamente nesse momento que a direção foi ocupada. E aí ficou ocupada
então por cerca de 60 dias, aproximadamente, e a polícia não foi mais chamada.
Faço questão de registrar isso, porque tivemos um episódio recente lamentável na nossa universidade e a situação de hoje é pior do que daquela época,
porque mesmo naquela ocasião como eu relatei, e foi isso mesmo, a polícia
ia lá, pegava os estudantes, carregava, colocava para fora. Tivemos esse episódio agora da ocupação da reitoria pelos estudantes em 2013, reivindicando
melhorias nos programas de auxílio à permanência estudantil e a polícia foi
chamada no dia seguinte, com uma precisão. Quer dizer, antes nós dizíamos:
o poder policial tem uma comunicação com os poderes da universidade, com
os gestores da universidade; hoje, eu diria: tem muito mais, chamam a polícia
no dia seguinte. Naquela vez chamaram e não ousaram mais chamar a polícia.
E olha, estamos falando de malufista, de gente da ditadura militar, que é capaz
de tolerar 60 dias de ocupação de uma direção. E hoje se chama a polícia no dia
seguinte; a tolerância, digamos, é muito pequena. E vivemos, como costumamos dizer, num estado de democracia.
Ou mesmo, no episódio de ocupação da reitoria no ano seguinte, em 1984;
a mesma coisa, claro que havia nas manifestações diante da reitoria aqueles
agentes de segurança infiltrados fazendo fotografias, até conseguimos identificá-los. Era um período em que se utilizava muito desse expediente, desse
sistema de informação. Em geral eram ‘arapongas’ infiltrados nos movimentos,
nas passeatas e nas manifestações. Mas nos dias de hoje, jamais poderíamos
imaginar que se poderia chamar a polícia para resolver uma contenda política
dentro da Universidade. Depois de termos avançado tanto nesse espírito democratizante, a gente foi se deparar com cenas de intervenção policial como
no período da ditadura. E essas interferências do poder político me parecem
também de uma forma muito mais ampliada, com efeitos muito mais perniciosos do que aqueles da época da ditadura militar. Porque também nós temos
um quadro político hoje que precisamos considerar. Que coisa até muito perversa, eu diria, da própria história. Se naquele período a gente tinha todo um
amordaçamento da participação política o fato é que, mesmo assim, havia um
movimento de resistência muito grande, muito fortalecido. E resistência de vá-
160 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
rias formas, desde a resistência dos grupos organizados, da resistência mesmo
da guerrilha, até outras resistências como eram as do movimento estudantil,
do próprio movimento dos docentes, que se fazia mais por essas ações de organização, sobretudo, de promoção de fórmulas de entendimento do que estava
acontecendo no cenário político e de posicionamento diante dele.
O que se fazia por vários caminhos: as assembleias, reuniões e os eventos
científicos; aliás, dentro do curso de Psicologia, tiveram muito essa função. As
chamadas Semanas de Psicologia se estabeleceram como instituição de resistência política dentro da Psicologia. Lá atrás, essas Semanas de Psicologia se
posicionavam mais politicamente; a figura da reunião científica era para se
debater problemas mais gerais do país. Então era uma reunião científico-política, em que não só se discutiam temas pertinentes à psicologia, mas também
ocorriam reuniões paralelas de grupos com a intenção de se discutir mesmo,
de discutir conjuntura e se pensar formas de ação política naquele momento.
Aqui em Assis, o Clube de Cinema também era um desses casos; então
vamos discutir cinema, fazemos sessões aqui, no cinema de Assis, de filmes de
cunho político. E na organização dessa atividade, o filme e a discussão tinham
mesmo o propósito de se entender na época, de formar consciência, de esclarecer as pessoas. Funcionava quase como um aparelho político. Havia uma
clareza do que se vivia no campo político, a opressão. Havia uma clareza da
necessidade de enfrentamento e de tentativa de transformação do cenário político do país. Havia também uma clareza dessa necessidade, especificamente,
na universidade. E o que a gente vive hoje é muito diferente do espírito dessa
época. Hoje praticamente a gente não tem mais como constituir forças de resistência; as entidades estudantis estão muito precarizadas. O movimento dos
docentes que foi tão forte e que nasceu como esse movimento de resistência
ao autoritarismo na universidade, está praticamente diluído no sindicalismo,
completamente amorfo, e quando muito consegue deflagrar alguma campanha salarial. Então de fato, nós não temos hoje forças de enfrentamento.
É por isso que o poder hoje se exerce com tanta facilidade na universidade.
Nesse sentido talvez hoje ele seja muito mais autoritário do que era naquela
época. Pelo menos naquela época o autoritarismo esbarrava em algum tipo de
resistência e hoje ele não esbarra em resistência alguma; isso torna a situação
de submissão da universidade, aos poderes constituídos, muito maior do que
antes. Esse é um dos resultados de toda essa avaliação que a gente faz nas nos-
Depoimento 7 – José Sterza Justo 161
sas conversas, sempre brincamos uns com os outros que, se soubéssemos no
que ia dar todo aquele esforço pelo projeto de uma universidade democrática,
talvez a gente não tivesse empenhado com tanta determinação naquelas lutas.
Hoje o que ocorre é que tudo o que foi criado naquele espírito de democratização é utilizado exatamente contra qualquer relação democrática no interior
da universidade.
A eleição de Willian Saad Hossne em 1984 e a posse de
Manuel Nunes
Esse estatuto que está aí foi resultado de todo o movimento pela democratização, que termina lá em 1984 com uma intervenção branca do governador que vai nomear um reitor pro-tempore, diante de um impasse que se
estabeleceu. Elegemos o Saad na eleição direta e o Conselho Universitário não
o colocou na lista enviada ao governador do Estado que já era o Franco Montoro, de um partido de oposição à ditadura. O governador esteve em Marília
e dizíamos pra ele que o nosso movimento tinha o espírito das suas posições
políticas também. E ele nos dizia, talvez com muita sinceridade, que não tinha
instrumento jurídico para empossar o eleito e nem condições políticas para
fazer uma intervenção na universidade que seria contrária à própria índole do
regime democrático que é agir com a lei e não fora da lei. Mas, assim como
não havia dispositivo para intervenção, também não havia nenhum dispositivo legal que o obrigasse a escolher um dos candidatos da lista encaminhada
pelo Conselho Universitário. Então encontraram essa saída jurídica. Venceu o
mandato do reitor da época e ele teve que deixar o exercício da reitoria e passar o cargo para o decano do Conselho Universitário como previa o Estatuto
em casos de vacância do cargo de reitor. O decano era o professor Nunes do
curso de direito de Franca, que era uma das grandes figuras da direita malufista da universidade. E já tinha sido diretor do câmpus de Franca no período
do movimento de Assis de 83.
162 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
A suspensão do contrato do professor Luiz Carlos e a
sindicância de Assis
Quando a gente estava na campanha para empossar o eleito para a direção
de Assis, visitamos vários campi da Unesp pedindo apoio e recebíamos sempre
bastante solidariedade. O nosso colega Luiz Carlos Rocha foi escolhido para
fazer a visita ao câmpus de Franca, onde o Nunes era o diretor. E, durante uma
grande reunião dos professores e alunos, expõe toda a situação do Câmpus de
Assis e faz um discurso veemente contra a ditadura e contra o autoritarismo
no território do Nunes. Imagina! Justamente nesse período o Nunes estava no
exercício da reitoria e o contrato do Luiz Carlos não foi renovado, numa clara
demonstração de perseguição e da tentativa de intimidar todos os outros que
estavam na mesma luta. O Nunes também foi o mentor da comissão de sindicância que foi criada aqui em Assis para punir os participantes do movimento
pela democratização da Unesp. Essa sindicância e outras medidas de intimidação contribuíram bastante para um fortalecimento ainda maior do ‘Movimento pelas ‘Diretas na Universidade’. Fizemos grandes mobilizações em defesa
dos nossos colegas que estavam sendo indiciados pela comissão de sindicância.
Conseguimos fazer reuniões com a grande imprensa na cidade de São Paulo
para divulgar o que estava acontecendo na universidade. Tivemos apoio do
Hélio Bicudo, respeitadíssimo como jurista. Foi ele quem defendeu os nossos
colegas nesse processo. Para se ter a dimensão da importância do que estava
acontecendo aqui em Assis, é necessário ter em mente que estávamos em pleno
processo da redemocratização do país, então, as forças democráticas, incluindo
os partidos políticos de oposição à ditadura militar emprestavam todo o apoio
e solidariedade ao movimento de Assis.
A ocupação da diretoria de Assis em 1983
Ela terminou de uma forma muito triste, com uma grande derrota de todo
esse movimento porque, a estratégia que foi adotada pelo reitor e pelo diretor a
do desgaste do movimento, deixando o tempo passar. Depois da ocupação da
sala da Direção, o diretor e o Reitor não fizeram mais nada. O calendário escolar foi suspenso, aprofundando a estratégia do desgaste com o tempo.
Depoimento 7 – José Sterza Justo 163
Quando o diretor da época percebeu que estávamos tentando fazer um
movimento de resgate das atividades acadêmicas universitárias e temendo
que nós pudéssemos ser muito bem sucedidos nisso, ele suspendeu oficialmente o calendário.
Um movimento como esse é muito heterogêneo: há aqueles participantes
muito mais empenhados e determinados, aqueles mais ou menos e aqueles
que dão apoio meio estratégico, mas que não abraçam a causa com tamanho
vigor como os outros. Então isso vai provocando as debandadas; os alunos
começam a voltar para casa. Começa a ter também a pressão da cidade e a
pressão das próprias famílias, porque sabia-se que esse tempo longo [sem aulas] ia implicar na reposição e uma parcela dos próprios professores também já
preocupados com prejuízos pessoais tais como reescalonamento de suas férias
e coisas assim. Ao cabo de 60 e poucos dias, mais ou menos, o movimento
estava bastante enfraquecido.
Também foi um esforço enorme manter a ocupação da sala da direção; era
preciso ter pessoas lá dia e noite, dia e noite. A estratégia de deixar o tempo
passar foi muito bem sucedida, porque se eles tivessem feito algumas ações
mais violentas, chamar a polícia, coisas assim, com certeza, reanimaria, reestabeleceria a força do movimento, mas não, acho que eles foram muito sábios
nesse sentido, e aí o tempo mesmo foi desgastando.
Em uma assembleia já muito pequena feita na sala da própria direção, decidiu-se desocupar a diretoria com uma entrega simbólica da chave da porta
da direção, junto com um abacaxi para o governador do estado. O chefe do
seu gabinete recebeu uma comissão que lhe entregou o abacaxi com a chave da
direção. Passado pouco tempo, acho, um ou dois anos, o diretor se aposentou,
deixou a direção, sem terminar o mandato; aí foi eleito um novo diretor.
O que ficou num primeiro momento pra gente foi uma sensação de derrota
muito grande, mas que, felizmente, logo foi sendo superada, no ano seguinte,
com o cenário das eleições pra reitoria. E aí sim, com outras unidades refazendo a experiência de Assis, se deu o ápice do movimento pela democratização da
universidade. Em 1984 com o processo eleitoral da escolha do reitor, toda essa
mobilização retorna mas, agora, dirigida para a reitoria.
164 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Eleição do Professor William Saad Hossne
Então, voltando à questão da eleição do reitor: o governador cruzou os
braços, não escolheu ninguém da lista sêxtupla elaborada pelo C.O., que não
continha do nome do mais votado na eleição direta. E ficou essa situação precária e provisória do Nunes respondendo pela reitoria até o momento em que
também se expirou o período previsto para ele poder responder como o decano da universidade pelo Conselho Universitário e aí se descobriu que a tal
lista encaminhada ao governador tinha o nome do Reitor que encerrava seu
mandato e como o Estatuto da universidade não permitia recondução a lista
foi declarada irregular e devolvida ao Conselho Universitário. Foi o artifício
forjado pelo governador para anular aquela lista. Então a lista foi devolvida
e isso criou as condições políticas pra que o governador nomeasse um reitor
pro-tempore até que se regularizasse a nova lista sêxtupla da qual ele poderia
escolher o novo reitor. Bom, nós celebramos esse ato primeiro como um ato de
vitória porque entendíamos que o núcleo duro do poder tinha sido afastado,
ou pelo menos o reitor tinha sido afastado.
Imaginávamos que o professor Nagle, escolhido pelo governador como
Reitor pró-tempore, fosse convocar outra eleição ou fazer com que o nome daquele que tinha sido eleito constasse da nova lista sêxtupla. Ele não fez nada
disso, conduziu o processo conforme previa o Estatuto da Universidade e aí ele
foi indicado na lista sêxtupla e escolhido pelo governador e acabou se beneficiando dessa situação inicial que nós apoiamos.
Enfim, o resultado disso tudo podemos até dizer que foi bastante positivo.
De qualquer maneira, mesmo considerando a estratégia do Nagle como uma
estratégia golpista, houve na sua gestão grandes avanços. Houve a revisão do
Estatuto da UNESP e a criação desse sistema que a gente tem hoje, que se aproxima razoavelmente do que pretendíamos desde 1983 ou pelo que é muito mais
avançado do que, por exemplo, o da USP que continua mantendo o sistema
da lista sêxtupla. Mas de qualquer maneira em relação ao que se pretendia e
se imaginava como uma universidade democrática, em 1983, o que acabou se
realizando foi deveras frustrante.
O câmpus de Assis, apesar de ter saído na frente na reivindicação de eleições diretas foi um dos últimos a ter, de fato, um diretor eleito. Curiosamente o
Quelce que não foi empossado aqui em Assis, quando foi eleito em 1983, acabou
Depoimento 7 – José Sterza Justo 165
sendo eleito no câmpus de Franca, quando as eleições já faziam parte do Estatuto. E depois quando o Quelce foi eleito aqui, já não tinha mais também o mesmo
sentido que teria sido a posse dele lá em 83 com o movimento das eleições.
Eu faria uma avaliação dessa forma: acho que isso, que se germinou nesse
período de 83 a 84, foi completamente absorvido e neutralizado no que tinha
da inspiração transformadora, questionadora. Houve a manutenção de um
mesmo tipo de poder que permanece centralizado e autoritário, no entanto,
travestido de democrático. Um mesmo tipo de poder funciona de uma forma
muito parecida com o que foi instituído pela ditadura militar. Ou seja, nós
temos uma elite na universidade, constituída ali pelos reitores, pró-reitores, o
que eu chamo de círculo palaciano da reitoria. E o processo para a escolha do
reitor que vai por aí: se faz a tal consulta, a eleição, nessa proporcionalidade de
70% do peso para os professores e 15% para os outros segmentos o que por si já
massacra o espírito de uma eleição equilibrada entre os três segmentos.
Aliás, registre-se também nessa história toda, o que eu até chamaria de
oportunismo dos funcionários que, naquele período mais duro para implantar
a democracia, ficaram de fora. Depois que ela foi implantada da forma como
está na universidade daí sim eles ocupam muito bem o espaço nas eleições e na
gestão da própria universidade. E ainda reivindicam uma paridade, que pode
até ser legitima, numa análise política de hoje, mas historicamente eles não são
merecedores disso, que fique o meu registro até dessa minha revolta contra o
que fizeram em 83, ou seja, o funcionário ao lado da ditadura, numa atitude de
“pelego”, como eram chamados aqueles que bajulavam o poder.
O processo todo de sindicância foi anulado e arquivado pelo Nagle, tendo
sido uma das primeiras medidas que ele tomou assim que assumiu a reitoria.
Unesp hoje
Hoje a gente tem a absorção de toda essa intenção democratizante e a colocação dela a serviço da manutenção de um poder exercido de forma igualmente
ditatorial. Nós temos um círculo palaciano que manda na universidade já há
muito tempo. A eleição propriamente dita não interfere em nada, em absolutamente nada, aliás eu acho que deveríamos acabar com as eleições na Unesp, não
tem mais sentido, é só para legitimar um exercício de poder que não tem nada
166 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
a ver com democracia, que não tem nada a ver com eleição. O vice-reitor se
candidatando a reitor, sendo eleito reitor, junto com outro vice, que será o próximo reitor. Nós até brincamos dizendo: “ah!, nós não escolhemos mais o vice,
nós escolhemos o reitor do mandato seguinte, em geral saindo dos quadros das
pró-reitorias e quem escolhe os pró-reitores é o próprio reitor”. E digo mais,
ainda se fosse assim até que não estaria mal, eu suspeito que, na verdade, nosso reitor, está sendo escolhido pelo governador do estado e não simplesmente
porque ele continua tendo a decisão final. O buraco é um pouco mais embaixo:
o chamado círculo palaciano da reitoria mantém uma profunda relação com
o outro palácio, o do governo do estado. É nesse tapete que se negocia o nome
daqueles que serão candidatos a reitor até porque entram nessa negociação as
forças político-partidárias regionais sempre muito interessadas em manter estreitos vínculos com os gestores da Unesp.
Então nesse sentido é até pior do que antes, porque, pelo menos, a lista sêxtupla era de um colegiado, tinha todas as negociações com o círculo palaciano,
mas pelo menos era tudo mais transparente. A eleição, hoje, serve apenas para
sancionar essas escolhas que saem desse círculo do poder da reitoria. E isso
aconteceu também no plano das unidades; eu não tenho acompanhado muito
bem a situação de outros campi, mas posso dizer por Assis. Há duas eleições que
a gente tem candidato único, aliás, na última eleição também para a reitoria foi
de candidato único e o reitor se gaba de ter sido eleito com 90% dos votos, sendo
um candidato ‘chapa branca’. E os professores têm 70% dos pesos dos votos.
Temos que dizer isso: o nosso sistema de gestão da universidade, de escolha
dos dirigentes, não tem nada a ver com democracia, não tem nada a ver com
eleição. Antes mesmo com todas aquelas restrições de candidatos, só titular,
nós tivemos quatro candidatos. Imagina! Hoje esse processo eleitoral que a
gente tem consolida e legitima o autoritarismo na universidade. O fluxograma
administrativo da universidade, os colegiados foram pensados pela reestruturação dos estatutos, que deu origem ao que está aí. Nós entendíamos que a
democracia na universidade dependia de órgãos colegiados representativos e
fortes. E muito foi conquistado nesse sentido, como a retirada da exigência de
titular para o exercício da direção. O que nós estamos assistindo hoje é uma
forma de gestão que neutraliza os colegiados.
Como é possível um conselho universitário aprovar com um voto só contrário uma matéria tão polêmica como a criação de 11 cursos de engenharia e
Depoimento 7 – José Sterza Justo 167
mais um câmpus em São João da Boa Vista? Mesmo que não houvesse interesses escusos o assunto seria extremamente polêmico. Essa matéria foi encaminhada na calada da noite, ou seja, quando se aproveitava o período de recesso
de fim de ano ou as primeiras reuniões dos colegiados para se aprovar no afogadilho matérias polêmicas.
Como é que o reitor consegue uma adesão tão grande como essa no Conselho Universitário numa questão polêmica? Isso mostra que ele tem controle
sobre o Conselho Universitário e nós sabemos em geral como esse controle se
constitui: é por negociatas, compra de adesão ou barganhas do tipo “toma lá,
dá cá”. Mas não bastasse esse controle que ele tem, já há tempos vem sendo
criada uma estrutura paralela de gestão de universidade e que eu acho que
ainda não está tão visível para o conjunto da comunidade universitária. São
as tais comissões assessoras. Então, temos comissão assessora de contratação
docente, comissão permanente de avaliação, e o PDI, que é onde de fato se toma
as decisões principais da universidade.
DEPOIMENTO 8
William Saad Hosne
É professor titular de cirurgia da Faculdade de Medicina do câmpus da Unesp
de Botucatu. Atualmente é professor emérito, coordenador do curso de pósgraduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado de Bioética do Centro Universitário São Camilo, em São Paulo. O professor William Saad Hosne teve uma
importante atuação nos episódios que envolveram a violação aos diretos humanos na Unesp durante a ditadura militar e nos dará um depoimento a respeito.
Preâmbulo: a revolução do conhecimento no século XX
P
ara explicar por que estou aqui, vou falar antes da gênese da criação da Faculdade de Medicina em Botucatu. O século 20 teve tamanha evolução do
conhecimento que teve cinco revoluções, diferentemente do período entre os
séculos 16 e 18, quando houve uma revolução, a científica. Mesmo levando-se
em conta o prejuízo causado por duas guerras mundiais.
Na primeira metade do século 20, tivemos a revolução atômica, que nos
deu o conhecimento do átomo, da medicina nuclear e da bomba atômica. A
partir da década de 50, com a descoberta da dupla hélice do DNA, iniciou a
chamada revolução molecular, com a nova biologia molecular e cujo auge nós
estamos vivendo agora com a engenharia genética, geneterapia, reprodução assistida. Nos últimos 40 ou 50 anos, houve duas revoluções mais ou menos simultâneas: a espacial, em que o homem saiu da Terra, trazendo novos desafios
éticos e científicos, e a das comunicações, cujo ícone é a internet, que também
mudou a dinâmica de informações e de costumes.
170 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Enfim, mais recentemente, no final do século 20 e início do século 21, assistimos a revolução da nanotecnologia, a descoberta da propriedade dos materiais em dimensão ‘nano’, que é o milionésimo de milímetro, no qual a propriedade da matéria é completamente outra, e isso está sendo aproveitado e vai
abrir perspectivas na Agronomia, na Biologia, na Medicina.
Pois bem, eu volto à segunda revolução, a molecular. Ela teria se iniciado
em 1953, quando os cientistas Watson e Crick descobriram a dupla hélice. A
partir daí, essa Biologia seria outra, uma nova Biologia, não tem nada a ver com
aquela antiga do curso ginasial. Era uma nova Medicina, uma nova Biologia
que o destino me deu a oportunidade de conhecer.
É importante lembrar a criação da Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de São Paulo, a Fapesp, em outubro de 1962. Em 1964, eu fui indicado
para ser diretor da instituição. Foi justamente no ano do Golpe que tive a
oportunidade então de ver a importância dessa revolução molecular. Eu previa, em contato com o pessoal da Genética, da Bioquímica, da Química Orgânica, o quanto isto iria interferir nas Ciências Biológicas Aplicadas. Seriam as
outras profissões da Saúde. A importância dessa mudança, desse novo quadro
da biologia molecular, não se relacionava apenas à ciência básica, mas também
à ciência aplicada.
O outro aspecto é que pouco tempo antes, o governador Carvalho Pinto
preparava o seu segundo plano de ação. O sucesso do primeiro plano premiou
a sua gestão, mas o ensino superior não fora incluído. Quando chegou a hora
de preparar o segundo, no final da década de 60, o governador pediu ao reitor
Ulhôa Cintra que fizesse um estudo sobre as necessidades da USP e dos Institutos Isolados. Naquele momento eles estavam desvinculados, então foram
vinculados à USP. Foi nomeada uma comissão multidisciplinar, com pessoas
que ocupavam posição de destaque em várias disciplinas, na Física, na Química, na Genética, tendo o Ruy Leme, da área de Engenharia de Produção, como
presidente. Uma das áreas que foi representada foi a Biomédica e o reitor me
designou para participar desse grupo representando essa área.
Depoimento 8 – William Saad Hosne 171
As necessidades do ensino superior nos anos 60
Fizemos um trabalho exaustivo, definindo as necessidades do ensino superior. Carvalho Pinto deu grande apoio e cada um de nós ficou incumbido de
propor iniciativas. Eu sugeri a criação na USP de um núcleo de pesquisa básica
e aplicada em Biologia, começando com a pesquisa para depois entrar no ensino, ao contrário do que normalmente era feito.
A ideia era congregar neste novo centro, a partir da pesquisa, sobretudo a experimental, o pessoal da área básica, que já dominava a nova Biologia, e o pessoal
da área aplicada. Certamente haveria repercussão. A partir de uma certa “alfabetização”, esses colegas que entrariam na área aplicada modificariam o ensino de
cada uma das disciplinas. Era uma ideia realmente pioneira naquele momento.
O professor Cintra se entusiasmou pela ideia e ela foi defendida no plano
de ação, que foi aprovado. Por razões, como ambição, inveja, problemas burocráticos, o centro não foi criado. Isso era início dos anos 1960. Havia naquela
época uma expansão do número de escolas de nível superior no País, sobretudo
em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Muitas faculdades foram criadas,
principalmente de Letras, Filosofia e Ciências porque, dizia-se, eram mais baratas, não por serem importantes.
A Faculdade de Medicina de Botucatu
O fato é que Botucatu reivindicou uma instituição de nível superior e pediu
uma faculdade de Medicina. Por que não, uma faculdade de Filosofia, Ciências
e Letras como acontecia em várias cidades do interior? É porque aqui seria o
lugar ideal para tratar a tuberculose, por causa do clima seco, típico de Campos
do Jordão. Era o que se acreditava na época.
Então Botucatu foi escolhida para ter um hospital sanatório para tuberculose. Foram construídos no final da década de 1950 cinco hospitais, um deles
esse de Botucatu. Demorou vários anos para o prédio ficar pronto. Quando
chegou a hora de inaugurar, o tratamento para tuberculose já havia mudado,
principalmente com o advento dos novos antibióticos. O prédio acabou fechado por vários anos, praticamente abandonado. Por isso Botucatu deveria ter
172 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
uma faculdade de Medicina, pois o mais difícil neste caso seria ter um hospital,
que já estava pronto.
O professor Cintra me chamou e disse que gostaria de ter em Botucatu
uma faculdade não apenas de Medicina, mas também de Ciências Médicas e
Biológicas. Assim nasceu a Faculdade de Medicina de Botucatu, tendo também Odontologia, Enfermagem, Agronomia e Biociências, fazendo um entrosamento entre as Ciências Biológicas básicas e as aplicadas. O que não deu para
se fazer na USP seria feito em Botucatu.
O próximo passo seria buscar os professores. O fato de estar na Fapesp me
ajudou porque eu conhecia o cenário dos cientistas do estado de São Paulo. Poderíamos vender a ideia, trazer as pessoas a Botucatu para trabalhar em tempo
integral. Seria uma nova maneira de ver a universidade, fazendo ensino, pesquisa e assistência em tempo integral e tentar reproduzir o que acontece em alguns
lugares do mundo, em que se tem a grande universidade numa pequena cidade.
Isso foi muito importante, essa filosofia e este germe que levou à criação da
faculdade. Afinal, todos que vieram para cá estavam integrados com uma nova
ideia. Não eram pessoas sem emprego, todos estavam bem colocados na USP.
Eu, por exemplo, era livre-docente, era professor adjunto, tinha uma clínica
em São Paulo. Vários professores que eu convidei vieram espontaneamente,
se identificaram com o projeto, vieram por um ideal. Para atuar em um lugar
tranquilo, em tempo integral, dedicando-se totalmente ao ensino, à pesquisa e,
sobretudo, à extensão universitária.
A extensão, por sua vez, foi encarada desde o começo não como uma mera
prestação de serviços, mas como a universidade se estendendo com a sua filosofia
de ensino e pesquisa onde ela também presta serviços. Ela não é secretaria de governo para fazer esse desenvolvimento, mas tem a obrigação de participar disso.
A criação do hospital, a da pós-graduação e a da Unesp
Quando chegamos a Botucatu, o hospital estava fechado. Não havia entrado nenhum doente. Tínhamos que montar um centro cirúrgico. Começamos
na Santa Casa, e aos poucos fomos construindo e transformando o lugar em
várias unidades. A meu ver, no entanto, essa expansão não se deu no momento
certo, talvez fosse melhor esperar mais um pouco, para haver uma integração
Depoimento 8 – William Saad Hosne 173
maior entre as unidades. De qualquer modo, este espírito se introduziu na nossa faculdade e foi o motor que impulsionou e atraiu as pessoas para esse desenvolvimento. Assim, conseguimos chegar em 1975 a ter em Cirurgia o primeiro
curso de pós-graduação credenciado pelo Conselho Federal de Educação.
Este fato foi importante para a criação da Unesp em 1976. O governador na
época, Paulo Egydio Martins, disse no seu discurso, e eu estava presente, que
ela já poderia ser uma universidade, uma vez que possuía um curso de pósgraduação. Esse curso, que eu montei em 1972; era emblemático porque tinha
por objetivo reunir na pesquisa experimental o pessoal das Ciências Básicas e
Biológicas. Não era apenas para cirurgiões, mas para experimentadores entrarem na área da pesquisa experimental e poderem se desenvolver. Ou seja, era
consequência da própria filosofia que eu contei até aqui.
Em função disso tudo que contei, compreende-se melhor por que foram
feitos determinados movimentos, por que a faculdade não aceitava arbitrariedades. Era preciso ter liberdade de criação, não podia ficar na dependência de
grupos fechados. Esse movimento vai ocorrer alguns anos depois durante a
tentativa de redemocratização da Universidade.
A criação da Unesp não desarticula este núcleo, mas traz um novo fator
para ser considerado, que era o fato de não sermos mais um instituto isolado.
Isso representou, do ponto de vista acadêmico, um avanço, pois agora aqueles
institutos formavam uma universidade. Era preciso se assumir como uma universidade que exige uma visão acadêmica de nível compatível com universidade, não apenas uma faculdade isolada. Vai se viver numa área multidisciplinar
com outras unidades, com outras pessoas, outras responsabilidades.
Esta situação abre um leque de perspectivas muito interessante e de grande responsabilidade uma vez que os institutos isolados perderam a força administrativa que tinham antes, quando eram independentes. Eles já estavam
criados, tinham a sua história, sua evolução, uma gênese, e isso tudo precisaria ser respeitado, canalizado num sentido positivo. Foi o que nós tentamos
fazer durante a campanha para a Reitoria, ou seja, dar oportunidade para os
institutos não ficarem numa guerra fraterna entre eles, mas, respeitando sua
história, abrindo-as para o futuro, sabendo trabalhar o presente, que era novo,
que era ser universidade.
Havia no princípio o temor de que, ao fazer parte de uma universidade, a
verba geral para a instituição teria que ser repartida e talvez a fatia do bolo fos-
174 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
se menor que aquela que a unidade conseguiria antes, quando estava isolada.
Existe uma lógica neste raciocínio, mas, levando-se em conta a perspectiva de
desenvolvimento harmônico das unidades, as necessidades de cada unidade
seriam respeitadas independentemente de ter poder ou não. O que precisa é
ter mérito para obter isso, não simplesmente porque é amigo do governador, é
ligado a um ou outro partido, é fora disso.
A criação da Unesp merece uma reflexão crítica. Nós tivemos na história
da universidade mundial, fenômeno que surge na Idade Média, as chamadas
universidades de geração espontânea. Aconteceu em Paris, em Oxford, por
exemplo, onde os chamados professores foram se congregando e defendendo
seus interesses, criando assim a universidade. Depois que as universidades
passaram a ter a importância, nos séculos 17, 18 e, particularmente, 19, elas
começaram a ser criadas por lei, por bula papal, pois era importante criar universidades, faculdades.
No nosso caso foi o inverso. Temos várias faculdades isoladas no interior do Estado que não se conheciam e, de repente, estão aglutinados numa
universidade. A grande mensagem é que “vocês agora são universidade, assumam essa universidade”. Alguns quiseram assumir e por isso surgiu um
movimento depois de alguns anos no sentido da redemocratização. Outros
se sentiram incomodados pelo novo desafio porque preferiram estar acomodados dentro da antiga situação.
Este fenômeno tem a ver com a história da Unesp. Estamos falando de 1976
e tudo aconteceu num momento importante na história da universidade no
mundo. Este dado é muito importante levando-se em conta o movimento em
que a gente entrou. Eu, particularmente, entrei nesse movimento não para ser
reitor, mas para contribuir para uma evolução que eu sentia ser necessária.
No Brasil nós tivemos a USP de fato como a primeira universidade. Eu sou
mais velho que a USP, quer dizer, a universidade é uma instituição que tem
quase mil anos e eu sou mais velho que a primeira universidade brasileira efetiva. Essa USP foi criada buscando pessoas intelectuais, capacitadas de fora do
País. Não tínhamos a massa crítica inicial, então foi o modelo europeu que foi
copiado, vários professores vieram da Europa. Esse pessoal trouxe o respeito
aos valores acadêmicos construídos no decorrer de quase mil anos.
O grande mérito da USP ao copiar o modelo europeu foi transplantar o
respeito à dignidade acadêmica cultivando a autonomia, o conhecimento. Isso
Depoimento 8 – William Saad Hosne 175
foi importante e deu a força à USP, que é um grande modelo para nós todos no
País. Esse modelo foi muito importante, permitiu o desenvolvimento da USP,
é a matriz. Mas a partir do final da década de 1960, ele começou a se mostrar
um modelo desgastado, exaurido. A sociedade mudou; novos desafios estavam
colocados e isso coincide com 1968 que levou a um movimento de contestação
geral e a universidade começou a também contestar porque ela sentia que tinha
que fazer mudanças.
Nesse momento, se ergueu a bandeira da reforma universitária e aí algumas pessoas, particularmente na USP, começaram a se preocupar em discutir
um novo estatuto para a universidade. As forças conservadoras perceberam
o risco que isso traria para elas. Então empunharam a bandeira da reforma
universitária e tentaram fazer uma mudança de estatuto que eu não sei se foi
reforma ou se foi remendo. O que se fez? Copiou-se, em parte, sem estudo, sem
a própria filosofia, o modelo americano.
A vigência do modelo americano de universidade e seu
desgaste nos anos 60
Um departamento se faz, por exemplo, com a ideia de coisas muito positivas, mas elas estavam mais colocadas, expostas e estruturadas em função de
luta de poder e de não mudar muito, o que tinha que acontecer. Foi necessária
a mudança? Foi. Ela trouxe algumas coisas boas? Trouxe. Mas ela não se fez na
profundidade, de certa forma esse movimento foi abortado.
Quando chega na década de 1970, passamos a viver uma fase com um modelo exaurido. A partir daí percebe-se a necessidade de se adotar um modelo
que não existe, que tem que ser construído. Mas para construí-lo é preciso
primeiro preparo, destituir-se de preconceitos, juntar as várias áreas do conhecimento, deixar de considerar que tecnologia é a ponta e as Ciências Humanas
são o rabo do leão. Pelo contrário, tudo isso tem que ser juntado e esse modelo
tem que ser construído. Isso só pode ser feito se você se dispuser a isso e tiver
liberdade para tal.
176 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
O movimento pela democratização da universidade
Então o nosso movimento não era simplesmente eleição direta para reitor,
era a liberdade para construir um novo momento, uma nova universidade. Eu
acredito que a nossa universidade brasileira é prestigiada, ocupa um lugar de
destaque. Mas também acredito que vivenciamos o fim de um fenômeno que
não foi resolvido na época, que está escondido e que não faz questão de aparecer. A universidade é muito acomodada, sem a ousadia que lhe é própria. Ela
tem medo de entrar em crise quando, para mim, a universidade é crise, ela é
crítica de tudo e a começar de si própria para poder construir. Ela tem que se
construir dentro de valores e dentro de princípios e para isso precisa de duas
condições fundamentais: a disposição e a liberdade de trabalho.
Em minha opinião, perdeu-se a oportunidade de se fazer a reforma ampla. Estava tudo amadurecido para isso e o que se fez foi uma mudança de
estatuto que não entrou no mérito das questões. Eu fiz parte desse momento,
eu fui membro dos Conselhos Universitários da USP, da Unicamp e da Unesp
e frequentemente a discussão era sobre vírgula no item do estatuto, não era a
filosofia. Havia a necessidade da reforma, teve aspectos positivos e negativos,
mas ela parou, não se aprofundou e isso levou a uma certa acomodação.
Parece estranho vindo de uma pessoa de 80 e poucos anos, mas vejo o pessoal
mais jovem acomodado, com receio de se desenvolver para não parecer incompetente. Há uma série de fatores, alguns são de natureza infantil, outros, problemas
do próprio indivíduo que não os resolveu e os projeta na sua vida universitária ou
no seu colega. As pessoas das diversas áreas não se encontram na universidade,
evitam o contato, quando, na verdade, esse contato só enriquece.
Agora começamos a falar em interdisciplinaridade, que só tem sentido se
for transdisciplinar. Não é apenas juntar o sociólogo com o cirurgião, é o cirurgião entender a linguagem do sociólogo, a sua mensagem e vice-versa. Isto
enriquece o indivíduo. É a multidisciplinaridade e tem que ser acompanhada
da transdisciplinaridade nesse processo de inter-relação. Temos o privilégio de
trabalhar na universidade, mas não podemos fazer isso porque não dá tempo,
existe uma burocracia a ser cumprida, os relatórios a finalizar, provas a corrigir, e ficamos às vezes em embates inúteis e desgastantes.
Precisamos passar por esse processo de transformação, criar condições
para que ele possa nascer de maneira sadia, se desenvolva e busque o seu ca-
Depoimento 8 – William Saad Hosne 177
minho. Não há necessariamente um único modelo de universidade, podem ser
vários modelos, que terão um tempo de vida útil e deverão depois também ser
reformulados. Costumo dizer que a universidade tem que ser subversiva, no
bom sentido, manter o que é bom e trocar o que está ruim e avançar.
A eleição direta para reitor na UFSCar
O nosso movimento das diretas para reitor foi nessa ocasião, começou em
Assis. Mas ele, num sentido amplo da palavra, foi importante na medida em
que pegou a universidade inteira. Não era mais uma situação local ou uma
unidade, era um fenômeno geral. Seria o momento oportuno para se fazer uma
reflexão sobre isso e de certa forma foi o que aconteceu.
Eu vinha de uma experiência em São Carlos, na UFSCar, onde fizemos
um trabalho com a comunidade, com liberdade para ela buscar o seu caminho. Fomentei esta situação e o trabalho foi espetacular. Mérito da comunidade, que se identificou com a proposta, discutiu e ajudou a universidade,
que estava em 32º lugar entre as federais em termos de ensino e pesquisa,
e passou para o quarto lugar. Isso mostrou um pouco para a Unesp que era
possível fazer isso na Universidade.
Antes de eu sair de São Carlos, a comunidade lá queria a eleição direta
para reitor. Isso foi importante porque teve repercussão nacional. Mas não era
uma luta simplesmente para eleger um dirigente, tinha um significado. Porque,
quando chegou em 1979, no governo do general Figueiredo, é baixada a lei
6733, pela qual os dirigentes de fundações de qualquer natureza seriam nomeados a partir daquela data por um ato do presidente da República, indicação
direta, sem mandato. Todas as universidades federais criadas depois de 1961
foram sob a forma de fundação. Portanto, todos os reitores das universidades
fundacionais não seriam mais indicados pelo Conselho Universitário.
Essa é uma agressão à autonomia da universidade e atingia uma das características mais profundas da instituição. A UFSCar sabia da importância
de uma autonomia não apenas financeira, mas de trabalho, e sentiu-se absolutamente agredida porque ela não podia sequer fazer a lista sêxtupla. Então a
comunidade achou que o único instrumento de que dispunha para protestar
contra isso seria realizando eleição direta. Ou seja, ela não surge apenas por um
178 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
movimento político, partidário, de sindicato ou de interesses. Surge do sentimento de protestar contra isso.
Eles fizeram a eleição e eu saí vencedor, apesar de não ser candidato. O Governo não me escolheu, deixou o vice, a Universidade entrou em greve. Quando acabou o mandato do vice, nomearam um reitor pró-tempore. A repercussão foi muito grande.
O movimento por eleição direta na universidade era muito mais profundo e
conceitual do que simplesmente um modismo, uma tendência. O Ministério ficou
num impasse porque queria o fim da greve, mas encontrava resistência cada vez
maior a qualquer atitude. Então a comunidade e o próprio Ministério me solicitaram, não formalmente, mas deram a entender que gostariam que eu ajudasse
nesse impasse. Eu era a figura, o eleito, a comunidade defendia o meu nome.
Fui ao Ministério da Educação de comum acordo com a comunidade e
combinei que não assumiria a Reitoria. Em troca, eles revogariam a lei 6733. O
Ministério se comprometeu a revogá-la, só não o fez de imediato para não dar
a entender que era por causa da greve.
A revogação dessa lei, que segundo informações teria sido inspirada por
um reitor de uma universidade federal que queria permanecer no poder, também foi um movimento contra a continuidade do reitor, que é o que o nosso
reitor aqui queria quando terminou a gestão dele. Daí se iniciou o movimento.
Tudo a ver com a ação em São Carlos.
O movimento pelas diretas na Unesp
O nosso movimento pelas diretas surge na década de 80. Começa aí um
processo porque o reitor queria continuar e mostrar que tinha poder junto ao
Governo do Estado para ser reconduzido, embora a lei proibisse a recondução.
Busca-se uma indicação ouvindo-se a comunidade e surge a ideia da eleição
direta, com participação de todos. Pedia-se que as pessoas se inscrevessem e
fossem falar com a comunidade, levantando propostas. Foi um momento importante de se discutir a universidade.
Na verdade, fui procurado para ser candidato. Eu estava saindo de uma
reitoria que me tinha dado muita satisfação, tinha terminado uma greve, dentro de uma luta vitoriosa, mas não queria ser candidato, não queria pedir car-
Depoimento 8 – William Saad Hosne 179
go nenhum. Eu achava que reitor não tinha que pedir, eles deveriam ouvir,
mas não fazer palestras sobre universidade para ser candidato. De qualquer
forma, acabei inscrito pela comunidade e pelas associações de docentes, a de
Botucatu e a da Unesp.
Foi feita a eleição. Houve um processo de consulta à comunidade, professores, alunos e funcionários. A Reitoria, por sua vez, achando que ganharia
esta consulta, dizia que, se fosse feita pelas entidades, não seria oficial, eles
próprios fariam a consulta. O Conselho Universitário baixou uma resolução
consultando a comunidade para elaboração da lista. Nós ganhamos a eleição. O
Conselho Universitário a anulou, com aquela alegação. Refizeram e ganhamos
de novo. Aí, fizeram a lista e não puseram o nome dos que foram eleitos. Todo
o processo teve que recomeçar.
Ficou claro que nós estávamos brigando por objetivos diferentes. Lutávamos pela Universidade, pela discussão da instituição. Ou seja, discutíamos a
Unesp enquanto eles ambicionavam o poder. Fomentávamos e alimentávamos
a possibilidade de uma discussão sobre os rumos da universidade, como ela
seria, não importava quem seria o reitor. Não mais colocar em reunião do
Conselho Universitário ou em congregação probleminhas de processos meramente administrativos e burocráticos, mas debater, no sentido de enriquecimento, de reanálise.
Era emocionante ser convidado pelas unidades e, diante de um auditório
lotado, contar a história da universidade, respondendo perguntas, interagindo
com a comunidade. Essa discussão foi muito útil porque ela deu vários frutos,
embora tenha dado outros que não deveria dar. Se esse pessoal parar pra pensar – dizer “ganhamos aquela eleição” – hoje pode-se avaliar que o processo
de discussão da Unesp foi interrompido. Um processo que não era questão de
eleger A, B ou C, mas de redemocratização.
Vivíamos a fase pré-constituinte, então era parte do processo a universidade lutar pela restituição da liberdade, evitar aqueles conchaves políticos, ambições, evitar a invasão do câmpus de Botucatu, com uma tropa de choque guiada pelo reitor, cercar os estudantes, os professores darem uma volta em torno
dos alunos. Aquele foi um momento muito importante, não foi uma questão de
eleição direta simplesmente, era algo muito mais profundo e que muita gente
provavelmente não percebeu.
180 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
O futuro da Unesp: ecos do passado
De algum modo, esse processo vai continuar, vai aflorar ainda. O modelo
atual começa a se exaurir. Vai ser necessário voltar a discutir o futuro da Unesp,
para onde vai essa instituição. Apesar de termos ganho a consulta [naquela época], eles não nos incluíram na primeira lista. Passamos a ter um reitor interino,
de Araraquara. Tenho um relacionamento amigável com ele, não o critico, mas
o grupo dele tinha me procurado quando o governador indicou um pró-tempore. Era para eu sugerir um pró-tempore. Eu disse: “eu não vou sugerir, isso é um
ato de intervenção que o governo corajosamente deve assumir”.
A experiência que eu tive com o curso de pós-graduação em Bioética – que
montei há dez anos – e a minha trajetória nesta área, me levaram a receber
recentemente o prêmio Guerreiro da Educação e me mostraram o quão importante é a mensagem que a Bioética traz. Eu coordenei um trabalho da Prefeitura de Botucatu sobre normas da ética de pesquisa em ser humano. Isso não
existia. Foi uma iniciativa feita junto com a sociedade. É bom que haja todas
as correntes de pensamento porque é dessa diversidade que a gente vai crescer,
tem que saber trabalhar com isso e não é fácil.
Esse curso de Bioética foi o primeiro do país. Formamos até agora 120
mestres. Meu alunado foge do padrão clássico da pós-graduação. Lá eu tenho
médico, advogado, jornalista, assistente social, padre, freira, engenheiro, administrador. Gente que tem 30, 40 anos ou mais, com família, emprego e sente a
necessidade de discutir esse assunto.
Discussões muito ricas surgem nas aulas por conta disso. Debates que partem de pessoas que não vão ganhar mais por que faz uma pós-graduação, mas
sai uma pessoa diferente. Lembro que em uma das bancas, o candidato para a
defesa da dissertação era um padre, que tinha paróquia, atuante. Daí, um dos
examinadores perguntou a ele para que o curso tinha servido e ele falou: “eu
achava que era um bom padre, agora sou um padre melhor”.
Hoje, todo projeto de pesquisa com ser humano em qualquer área, não apenas na Medicina, tem que ser aprovado por um comitê de ética multidisciplinar,
com médicos, filósofos, filólogos, matemáticos, cientistas sociais. Essa interação
é importante. Há 160 comitês deste tipo no Brasil, com mais de 20 mil pessoas
participando. Quanto maior a interação entre as áreas, mais as pessoas reveem
seus conceitos, suas convicções, princípios, fazem um mergulho dentro de si.
Depoimento 8 – William Saad Hosne 181
Interessante lembrar que aquele clima em São Carlos encontrava reflexo na
Unesp. O pessoal de Araraquara, que é cidade vizinha, acompanhava aquele
movimento, me perguntava muito a respeito das ações realizadas na UFSCar.
À medida que fazia palestras sobre o assunto, a receptividade ao movimento
aumentava. Encontrávamos também resistências. Em uma das unidades, havia
marcado dia e horário para a reunião, mas o diretor daquela unidade não nos
apoiava e, do nada, deu ponto facultativo. De certa forma, era sinal de que
o processo estava ganhando corpo, ficando importante. Lamento pelo outro
lado, embora respeite. Algumas das pessoas contrárias a nós conheciam a universidade, vinham de escolas onde havia um verdadeiro espírito universitário,
sabiam o que era certo e errado.
Eu não ia pedir voto, o ponto central do debate era a universidade, numa
conversa que passava de duas horas. As pessoas sentiam necessidade daquilo,
conhecer a história da universidade e promover uma reforma. A democratização tinha como principal objetivo evitar o obscurantismo e dar autonomia
para que possa se exercitar a vida acadêmica no seu sentido mais profundo. A
história da universidade oferece as ferramentas para isso.
Não era só discurso. Aliás, para mim aquela experiência de ir às unidades
e conversar com a comunidade universitária foi de uma riqueza imensa. Uma
pessoa uma vez me perguntou o que eu poderia fazer dentro da universidade
com pessoas como ela, que era analfabeta, assim como outros colegas dela.
Pois essa mesma pessoa depois coordenou um curso de alfabetização, atraiu
professores da sua unidade que montaram um curso aberto, facultativo e alfabetizaram os operários que precisavam aprender a ler e escrever.
Ninguém para e raciocina porque é importante ter eleição direta. No caso
de São Carlos, como disse, havia oposição à lei 6733. Agora, a escolha por lista
sêxtupla é a melhor? Nós estamos sendo beneficiados com essa lista tríplice?
Ou o reitor é escolhido por simpatia de algum grupo político? É ligado a um
governador, a um partido? Todo cidadão, todo homem de universidade tem que
ter a sua cidadania, suas convicções políticas, até sua militância política, o que
não pode é usar a universidade em torno de uma ideologia política partidária.
Muito bem, faz-se a eleição direta. Só que esta eleição também passou a
ser de barganha. Até o preço de refeição entrou na história. Não é por aí. Este
é um problema que também precisa ser discutido. Quem é o reitor e para que
que ele serve?
182 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Necessidade de mudanças
Vou dar um exemplo. Tínhamos em Botucatu o Departamento de Educação, onde entrava a Psicologia da Educação, Filosofia da Educação, Pedagogia.
Era algo muito importante dentro daquela ideia de uma faculdade de Ciências
Médicas e Biológicas, de integração entre as áreas. No curso de pós-graduação
de Cirurgia Experimental, havia duas disciplinas, Didática e Metodologia do
Ensino Superior, que eram dadas pelos professores do Departamento de Educação. Estávamos aprendendo muito. Mas disseram que o Departamento de
Educação tinha que sair porque dividiram as faculdades, não havia lugar para
ele. Só não foi desativado totalmente e existe ainda hoje, porque nós argumentamos que o curso de pós-graduação tinha conceito A na Capes e iria acabar se
tirasse a Educação. Ficaram com receio e mantiveram o departamento.
Essa necessidade de mudança sobre a qual estamos conversando tem a ver
com situações como essa. É preciso fazer uma avaliação mais profunda do que
estamos fazendo na Unesp e ver que caminho estamos seguindo. Vamos esquecer essa história de ranking. É mais que isso. Veja, hoje estamos envolvidos
com a chamada avaliação. Tudo precisa ser avaliado. Temos hoje até um mercado de avaliadores, com especialização no exterior! É lógico que é importante
haver um mecanismo de avaliação. Mas quem vai fazer ou propõe a avaliação
tem a obrigação ética de dizer o que, para que e por que vai avaliar. Se é para só
dar nota, não tem sentido. É avaliação por avaliação.
Outra situação que às vezes passa despercebida é a escolha do assessor. O
assessor dá parecer, é anônimo, tem o poder. Se ele não tiver caráter adequado,
maturidade, ele pode criar problemas terríveis, acabar com projetos. Assim, é
preciso analisar com cuidado a qualidade dos pareceres. Eu lia atentamente os
pareceres, abria uma discussão e, quando encontrava algo estranho, ia ver o
que estava acontecendo.
A Fapesp é um exemplo interessante. Ela estava prevista na Constituição
de 1946, mas só foi implantada em 1962, graças a um grupo de pesquisadores,
principalmente da área tecnológica, da Genética, da Biologia Molecular, que
estava se reunindo para efetivar a Fundação.
Ou seja, ela nasce de um movimento autêntico de análise. Estávamos vivendo o pós-guerra, no qual a ciência tinha se mostrado importantíssima. Tanto
que em 1951 fora criado o CNPq. Um estudo o precedeu. Quando existe uma
Depoimento 8 – William Saad Hosne 183
discussão autêntica e gente capaz para conduzi-la, o restante funciona. A universidade está cheia de gente boa, competente, mas que às vezes desiste no meio
do caminho, desanima. Tem que se criar outro clima pra que isso possa ocorrer.
A herança da ditadura
A ditadura trouxe consequências funestas. Pessoas foram exiladas, perseguidas, houve um movimento de liquidar lideranças. São gerações de pessoas
competentes que foram afastadas, e nós estamos pagando o preço agora. Não
há liderança mais. São duas ou três gerações que foram castradas, colegas que
foram parar nos Estados Unidos, perseguidos aqui e contratados lá. Tem ex
-aluno meu fazendo pesquisa de primeira linha lá.
DEPOIMENTO 9
Reinaldo Ayer de Oliveira
Hoje é dia 13 de novembro de 2013. Nós estamos aqui no Instituto Oscar Freire, no Departamento de Medicina Legal, Ética Médica, Medicina Social e do
Trabalho da Faculdade de Medicina da USP com o professor Reinaldo Ayer
de Oliveira. Ele teve uma importante atuação nos episódios que envolveram a
violação aos direitos humanos na Unesp durante a ditadura civil-militar e vai
nos dar um depoimento a esse respeito.
Na Faculdade de Medicina de Botucatu
E
ntrei na Faculdade de Medicina de Botucatu, que na época tinha o nome
de Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu, a FCMBB. O
primeiro movimento estudantil de que eu participei foi a Operação Andarilho.
Quando cheguei à faculdade, havia duas turmas que tinham iniciado a Medicina e nós não tínhamos um hospital universitário, uma estrutura adequada
de ensino; mas não só do ponto de vista estrutural como também a falta de
professores e conteúdos. Havia poucos professores. Os estudantes faziam um
movimento pela melhoria das condições estruturais e de ensino da FCMBB.
Este movimento ficou um tempo em Botucatu. Um colega nosso, em uma
das assembleias estudantis, sugeriu que fôssemos a pé para São Paulo protestar
contra o descaso com o ensino superior. Fizemos uma marcha para a Capital.
Lá, fomos recebidos pelo governador. Houve uma grande negociação e ele nos
prometeu medidas que pudessem sanear os problemas relacionados à faculdade.
Saímos do Palácio do Governo e acampamos no Parque do Ibirapuera. Ficamos um bom tempo por lá. Durante esse acampamento, tivemos contato não
186 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
só com estruturas partidárias, mas também com um movimento estudantil
mais politizado. Naquela época, em 1966, já se falava na Ditadura, quer dizer,
um regime fechado, militar, e, eu confesso, quando nós entramos na faculdade,
não tínhamos claramente essas noções de política.
Isso fez com que houvesse um crescimento muito grande dos estudantes de
Botucatu. Nós nos tornamos assim, depois de um certo tempo, uma referência
de movimento estudantil forte. Não conseguimos tudo, mas parte daquilo que
a gente pretendia foi obtida, inclusive a abertura do hospital. Quando voltamos, percebemos que tínhamos nos tornado uma força política.
Começaram os primeiros movimentos de protesto contra a Ditadura. Um
desses movimentos nós chamamos de ‘Operação Denúncia’, para exatamente
denunciar as ações que o Governo Militar vinha tomando em relação à Educação e outras áreas. Foi um movimento bem interessante, foi o passo inicial e
decisivo para a politização dos estudantes em Botucatu. O que se seguiu depois
nesses anos de 1966 e 1967 fomos nós, do interior, observando o que acontecia
em movimentos de outras faculdades, também do interior. Porque nós éramos
os chamados institutos isolados, não tínhamos nenhuma percepção clara ainda
da questão da universidade.
Nós conhecíamos movimentos em Araraquara, para nós uma referência
importante em Ciências Humanas. O mesmo acontecia em relação a Assis,
outro câmpus. A gente tinha muita vontade de ter a condição de uma universidade, uma instituição que abrangesse todos os campos do conhecimento,
ou seja, ciências exatas, humanas e biológicas. Tínhamos uma relação com os
estudantes dessas unidades também por meio de congressos estudantis, do intercâmbio de grupos de teatro, nos quais havia lideranças.
Na USP
Eu me envolvi com alguns colegas da Faculdade de Medicina da USP. Nós
trocávamos informações, mesmo porque grande parte dos professores que foram para Botucatu era da USP. Começou a haver um relacionamento entre
essas duas faculdades. Eu jamais imaginei que um dia eu daria aula na Universidade de São Paulo, mas aconteceu. Na USP, acabei me envolvendo com
alguns colegas que chegaram a ir para a luta armada. Naquela época eu tinha
Depoimento 9 – Reinaldo Ayer de Oliveira 187
dois irmãos na Escola Politécnica e pude acompanhar todo aquele movimento
de invasão do Conjunto Residencial da USP, o CRUSP.
Um dos meus irmãos tinha um apartamento que servia como ponto de apoio
para as pessoas que tinham partido para a clandestinidade, um aparelho. Eu me
lembro de uma vez que eu cheguei ao apartamento, entrei, comecei a andar lá
dentro. Sabe quando você fica incomodado, achando que tem alguma coisa? Era
uma dessas pessoas que estava há três dias dentro do apartamento sem nada para
comer. Meus irmãos tinham ido viajar e ele começou a pegar pão que estava no
lixo para matar a fome. No prédio onde a gente morava, embaixo tinha um restaurante. Desci com ele, nunca vi uma pessoa comer tanto na minha vida.
Esse foi o meu envolvimento. Um pouco depois disso eu me formei, em
1970. Depois de formado, fui fazer residência médica. Já estava casado. Meu
envolvimento político diminuiu, embora houvesse um franco confronto contra a Ditadura. O que nos movia era o regime ditatorial. Um dos meus colegas
morreu; outro foi preso. Eu nunca fui preso ou algo parecido. Mas ia sempre ver
esse meu colega que ficou preso um bom tempo. Ele sofreu muito. Hoje ele vive
tranquilo e é um médico psiquiatra, mas passou um período muito dramático.
Eu tinha outro colega, hoje professor titular aqui na Medicina da USP, que
também sofreu um processo muito pesado. Ele não chegou a ser preso, mas
acabou passando por um processo muito violento; era de deixar impressionado. Agora, frente ao que aconteceu com esse meu colega preso e ao outro que
morreu, não significou nada. Como diria aquela expressão, sofri a “ditabranda”.
Não concordo com essa palavra, mas o que aconteceu comigo foi muito
menos violento do que com outros colegas. Por isso é que eu sentia muito próximo de mim um regime ditatorial. Por conta dessas questões, eu fiquei um
tempo trabalhando com meu orientador da residência médica aqui em São
Paulo e acabei me envolvendo, como aconteceu com várias pessoas, com o chamado movimento social, com as organizações sociais.
Sempre tive muita dificuldade com os discursos dos partidos políticos. Eu
fazia uma política mais de aproximação com as pessoas que tinham esses ideais,
mais libertários. Eu participei ativamente do movimento da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC, quando ela começou a discutir a Ditadura em congresso. Neste caso, o congresso da USP e aquela reunião histórica
que teve no teatro da PUC-SP, quando a SBPC declarou-se contra a Ditadura.
188 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
O professor Oscar Sala na época era o presidente da SBPC. Então eu comecei a
militar nessas organizações que existem dentro da universidade mesmo.
A criação da Unesp
Esse tempo mais ou menos coincide com a chegada da Unesp, criada em
1976. Naquela época eu voltava para Botucatu. Eu tinha me formado médico e
completado a residência. Aí vinha essa ideia de uma Unesp de cima para baixo.
A figura da Unesp para uma série de professores e alunos também era a figura
de ditadura. Aquilo simbolizava a ditadura, ou seja, o reflexo de uma ditadura
que o País vivia num sistema universitário. Quer dizer, tinha a ver com um
estatuto que foi criado por pessoas sem nenhuma discussão. Os institutos isolados, todos eles em um crescimento intelectual muito grande, mesmo político,
e, de repente, se tira um curso daqui, põe não sei onde.
Eu considerei a criação da Unesp uma expressão do que se tinha como
estratégia ditatorial: “eu imponho, eu faço, eu ponho”. Foi na hora em que se
abriu a primeira ideia de representação, com o colega João Francisco sendo
eleito pelos docentes da Universidade para o Conselho Universitário, o C.O. O
restante do Conselho foi todo indicado. Isso me motiva a criticar os colegas que
aceitaram essas ideias.
Fiz parte da associação dos docentes. Nós nos organizávamos com outras
associações de docentes, por exemplo, de Araraquara e Guaratinguetá. Então,
começamos a organizar um movimento dentro da Unesp por meio das associações de docentes, como existia o movimento dos estudantes.
Mas o movimento dos estudantes estava se enfraquecendo, em 1977, 1978.
Começamos intensamente essa relação fundamentalmente em oposição àquela
forma como a Universidade estava sendo implantada. Uma universidade centralizadora, cujo C.O. não tinha representação democrática.
Depoimento 9 – Reinaldo Ayer de Oliveira 189
Ecos de 1968
A Operação Andarilho, os Acordos MEC-USAID, a morte do Edson Luís, a
sexta-feira sangrenta, a guerra da USP da Rua Maria Antônia. Depois, no congresso da União Nacional dos Estudantes, a UNE, em Ibiúna prendeu-se toda
a liderança, e o AI-5 em dezembro de 1968, a doença do ex-presidente Costa e
Silva. Aí, é luta armada mesmo.
O movimento estudantil deixou de existir nesse período. Por dois motivos.
Um foi a repressão violenta sobre o movimento. Eu perdi colegas nessa época.
O outro era o medo. Instaurou-se um regime de medo entre os estudantes. A
ditadura criou os diretórios acadêmicos em substituição aos centros acadêmicos. Eram os diretórios financiados pela diretoria da faculdade, como aconteceu em Botucatu.
Quando estávamos na Operação Andarilho, lembro de um momento,
quando andávamos para o Palácio dos Bandeirantes. Houve uma discussão se
a gente passaria ao lado do acampamento do movimento dos excedentes, que
estava no jóquei ou se passaríamos por fora. Houve uma assembleia para decidir isso. Decidimos por passar ao lado do movimento e isso foi uma indicação
da questão da politização do movimento do andarilho.
A greve de 1979
O movimento dos docentes também ficou muito coeso, levando à politização da Universidade como um todo, que depois resultará no processo das
eleições em 1984. A greve do funcionalismo público em 1979 indica claramente
um aumento dos conflitos de relações de trabalho mesmo, do que a Ditadura
entendia como funcionário público e o que nós entendíamos.
Isso foi no período do ex-governador Paulo Maluf. Essa greve foi muito
importante. Eu fiz parte do comando em São Paulo. Nós nos reuníamos no Sindicato dos Trabalhadores do Hospital das Clínicas. O Nilo Odália vinha muito
aqui porque ele era da Associação dos Docentes, a Adunesp, e eu também. A
Unesp teve uma participação muito importante nessa greve. Praticamente todos os campi entraram em greve. A Unicamp também.
190 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Naquela época, eu lembro que o presidente da Adunesp era o Nilo Odália
e o presidente da associação dos docentes da Unicamp era o Paulo Renato
Souza, que depois se tornou ministro da Educação. Nessa greve tínhamos o
respaldo dessas pessoas, que se tornaram expressões na vida brasileira, foi
bem interessante. Quando a greve terminou, o movimento dos docentes se
desarticulou também.
A redemocratização
Já tinha passado aquele momento da criação da Unesp. Havia claramente
em vários dirigentes dessas associações a ideia de que alguma coisa dentro da
universidade deveria ser feita para se contrapor ao Regime Militar, que tinha
esse braço de repressão dentro da Educação. Várias pessoas foram reprimidas.
Começou o movimento que vai se expressar na Unesp em 1983 e 1984, que era a
luta pela eleição direta para reitor. O reitor, na verdade, queria impor uma pessoa. O mandato dele tinha acabado. Mas o movimento começou a crescer muito,
a tal ponto que a universidade resolveu fazer uma consulta à comunidade. Neste processo, eu citaria duas pessoas extremamente importantes, os professores
William Saad Hossne e Nilo Odália, que se tornaram candidatos a reitor.
Eu tenho uma ótima relação com o professor Saad e testemunhei isso. Fomos a todos os campi da Unesp. Passávamos às vezes dois dias num câmpus,
conversando, discutindo, fazendo propostas. Ele e o Nilo são duas pessoas emblemáticas, inclusive desse movimento todo. Dispuseram-se a participar dele e
isso foi muito bom. Houve um crescimento muito grande da Unesp e eu considero que naquele momento é que se começou a construir a Unesp. De 1976 até
1984, para mim, a Unesp foi a expressão da Ditadura Militar no ensino superior,
não tenho a menor dúvida quanto a isso. Todos os cargos indicados, os diretores.
Em um desses movimentos, em 1978 ou 1979, não me recordo ao certo,
sofro um processo, porque eu fiz uma crítica a um diretor da Faculdade de
Medicina. O Sobral Pinto, advogado que fez a minha defesa, até hoje eu tenho a
defesa que esse advogado fez à mão, ele escreveu à medida que ia conversando
comigo. Até hoje eu tenho esse documento, lindíssimo.
O movimento de 1984 era não só em prol de uma educação, era em prol da
educação livre. Ou seja, pela eleição dos dirigentes das universidades pela comu-
Depoimento 9 – Reinaldo Ayer de Oliveira 191
nidade, sobre essa relação democrática entre os vários setores da universidade.
Claramente colocado como um movimento que estava nesse conjunto todo das
liberdades democráticas, que vinha lá de trás e que culminou com as eleições.
Esta palavra “eleições” dentro da Unesp foi muito interessante. Mais ou
menos nessa época foi fundada a Associação Nacional dos Docentes do Ensino
Superior, a Andes, cujo primeiro presidente foi o Newton Lima, hoje deputado.
Ele era da Unesp.
As associações convergiram para a fundação da Andes.
Apesar de tudo, nós perdemos a eleição para reitor, não obstante ter sido
nomeado uma pessoa que fazia parte desse movimento todo pela democratização da universidade, particularmente da Unesp, que foi o professor Jorge
Nagle. Então acontece a eleição do reitor da UFSCar, do Willian Saad Hossne,
numa consulta à comunidade. Essa consulta foi liderada pelo Newton Lima,
que já estava na Andes. Lembro que o Golberi do Couto e Silva no Governo deu
a carta branca para que o professor Saad fosse considerado eleito.
É lógico que não foi assim, houve um trâmite, a congregação indicou, houve a participação de um deputado, o Lauro Lima, uma pessoa de expressão
dentro do Governo. De certa forma, eu diria que a Ditadura aceitou. Todo o
movimento que houve na Unesp surtiu resultado na UFSCar.
O professor Saad era da Unesp, mas então qualquer pessoa poderia ser reitor. O professor Saad era uma pessoa muito expressiva no movimento, não só
da Educação, mas o movimento ligado a essas liberdades democráticas. Ele
tinha tido duas gestões na FAPESP e uma das gestões dele, em pleno Regime
Militar, com vários de seus assessores, como por exemplo, o Paulo Vanzolini,
conseguiu-se por meio de bolsas de estudos, de programas e pesquisas, tirar
muita gente do país que era perseguida. Vários outros professores universitários, como o Clodoaldo Pavan, Oscar Sala, Roberto Carvalho da Silva, faziam
essa articulação de aliviar professores que acabaram saindo do Brasil como se
fossem pesquisadores, mas, na verdade, estavam fugindo, para não serem cassados, por esse braço da Ditadura dentro da universidade.
O professor Saad foi para a UFSCar e fez uma gestão brilhante. Um pouco
antes dessa época, o movimento estudantil volta com aquelas várias correntes,
como a Liberdade e Luta, a Libelu. Volta no início dos anos 80 com força.
192 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
O pioneirismo da Adunesp e da Associação de Docentes de
Botucatu
A Adusp contesta, diz que nasceu nos anos 1960 e depois foi reativada. Mas
não importa, a Adunesp fez renascer, ou nascer, o movimento docente das universidades brasileiras, pois ela tem depois importância fundamental na criação
da Andes. Nós frequentamos os primeiros congressos da Andes. Tivemos uma
participação muito ativa, a Adunesp e as pessoas ligadas a ela.
Os docentes da Faculdade de Medicina formaram um grupo que era a associação dos médicos, para cuidar da questão de plantões e outros assuntos
do gênero. Aí, rapidamente, quando começaram esses primeiros movimentos,
a gente queria ver alguma ação em relação aos institutos isolados e o fato de
serem agregados numa universidade. Começou-se um movimento para que todos os docentes se unissem. Eu lembro que um dos pontos que a gente pleiteava
no início era exatamente os médicos ganharem pelo plantão, um algo a mais
em relação ao salário que se ganhava. Era uma reivindicação. Foi muito difícil
discutir isso com o pessoal da Agronomia, da Veterinária. Mas tudo bem, a
associação dos docentes foi fundada. Ela tinha um caráter um pouco reivindicatório. Inicialmente havia essa questão da política salarial, mas ela foi se fortalecendo. Quando começou essa questão mais política, a partir da greve de 1979,
a Associação se tornou mais forte. Essas questões políticas foram colocadas no
programa dessas associações.
Chegou 1976, a Unesp foi criada e se fortaleceu. Uma colega nossa, a Solange Bergamaschi, foi fundamental na história. Ela estava na Associação dos
Docentes quando chegou o movimento da Universidade. Eu fui presidente no
início dos anos 1980, um pouco antes do movimento das diretas para reitor.
Pode-se dizer que não houve uma contraposição; houve uma associação específica dos professores de Medicina, cujas lutas se somaram a uma luta mais geral,
criando-se a Adunesp.
Essa passagem para a Adunesp foi muito interessante. Houve um congresso em Araraquara, o congresso de fundação da Adunesp. Nós de Botucatu –
lembro que a Dinah Borges de Almeida estava junto, o Caldas também – fomos
a Araraquara com uma proposta de se fundar uma associação que seria uma
federação de associações. Botucatu mantinha a sua independência, assim como
Depoimento 9 – Reinaldo Ayer de Oliveira 193
Araraquara, Guaratinguetá, Presidente Prudente. Mas o Ulysses, o Nilo e o
José Ênio não concordaram, acharam que deveria ser uma associação única.
Nós saímos de Araraquara meio estranhos; havia a Adunesp e a associação
de Botucatu. Mas sempre caminhando juntos. Num determinado momento,
nós nos transformamos mesmo e aí houve até uma proposta que se chamava
Adunesp Câmpus de Araraquara, Adunesp Câmpus de Guaratinguetá e assim
por diante. Lembro que nessa época eu era secretário do presidente Quelce Salgado, o Tozoni era tesoureiro. Já havia um recolhimento de mensalidades para
a Adunesp: Botucatu, Araraquara, enfim, todas enviavam.
Depois o movimento de associações de docentes ficou um pouco enfraquecido. Aí, se começou a discutir sobre associação e sindicato. O movimento
docente como um todo abrandou. Botucatu voltou a ter uma associação de docentes, como eu acho que tem em Araraquara, por exemplo. Na época, eu acompanhava tudo o que acontecia nas Adunesps, mas hoje eu não sei como está esse
movimento de associações de docentes. Vejo em Botucatu, para onde vou sempre, hoje é mais um clube. Nada de política mais envolvida, faz-se mais o social.
A criação da Adunesp frente à criação da Unesp
Um pouco antes da criação da Unesp, percebíamos que havia movimentos
no sentido de se criarem três ou quatro universidades. Haveria uma universidade em Botucatu, cuja vocação seria basicamente nas Ciências da Saúde, e
também de Ciências Exatas. Havia a proposta de criação de uma universidade
em Assis, basicamente de Ciências Humanas. Lógico que seria uma universidade com todas as faculdades necessárias, mas com uma vocação votada para
algo mais específico.
Em Araraquara, não deixaria de existir Odontologia nem Farmácia, que na
época eram faculdades muito fortes. Botucatu tinha, além da Medicina, uma
faculdade de Veterinária, que até hoje se mantém forte, importante. Lembro
que o professor Saad fez o projeto do que ele chamava de Centro Universitário
de Saúde. Mas isso foi superado por uma imposição da reitoria.
Quando a universidade apareceu com o reitor Luís Ferreira Martins, quem
é essa universidade? Quem é essa pessoa? É que ele trouxe como vice-reitor o
194 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
professor Armando Otávio Ramos, de Botucatu, que a gente conhecia. Mas
quem eram aquelas pessoas? Era uma universidade criada do dia para a noite.
Botucatu ‘perdeu’ com a criação da Unesp
No início eu acho que perdemos. Cada instituto isolado já vinha criando
sua vocação, já sabia para onde ia. Pensavam no progresso, em métodos de
ensino diferentes. A FM de Botucatu estava inovando em termos de reformas
de currículo. Aí a Unesp veio e fixou regras, deslocou professores. Em Botucatu, na FCMBB, havia o instituto básico, por onde todos os alunos de todos os
cursos passavam. Nós estávamos evoluindo para um tipo de ensino com um ou
dois anos básicos para todas elas. Quando veio a Unesp, os cursos se separaram, houve uma divisão dentro do câmpus de Botucatu. Perdeu-se o comum.
Era como se falassem: “olha, vocês não se falem. Vocês não foram feitos para
ficarem conversando entre si. Vocês vão conversar agora com a Reitoria”. Também era um negócio antieconômico. Cada faculdade tinha uma diretoria, um
carro para cada diretor... Horrível.
Em Araraquara e Botucatu ainda havia uma estrutura onde era possível
manter a reunião dos diretores. Quando o câmpus era muito complexo, era
chamado câmpus complexo, os diretores se reuniam para criar uma administração única. A Faculdade de Botucatu tinha uma independência financeira,
negociava suas verbas diretamente com o Governo. Ela passou então a ter que
entrar no bolo da Unesp, principalmente por conta do hospital. Porque o hospital administrado pela FM, mesmo dentro daquele conjunto da FCMBB, tinha um orçamento pago pelo Estado, quer dizer, separadamente da faculdade.
Quando entrou para a universidade, o que aconteceu? O orçamento do hospital
passou a ser do orçamento da Universidade.
Eu fiz parte do C.O. por um tempo. Ouviam-se pessoas questionando: “por
que vai tanto dinheiro para a FM de Botucatu”? Tentava-se discutir isso, entre
colegas, mas as pessoas não se convenciam: “não, vocês têm que arrumar verba
de outra maneira”. Tanto é que agora, bem recentemente, o hospital saiu da
Unesp, passou a ser do Governo do Estado com um compromisso diferente.
Mas a Unesp ainda reclama porque paga os funcionários. Se você pergunta:
“como o regime ditatorial mudou a Unesp quando ela foi criada”? Ela burocra-
Depoimento 9 – Reinaldo Ayer de Oliveira 195
tizou a Unesp. Ou seja, isso aqui é disso, isso aqui é daquilo, isso aqui é uma
gavetinha que abre aqui, outra abre ali, quem abre essa gaveta é fulano, é beltrano... Tudo ficou muito compartimentado, mesmo com um C.O. Não se tem
uma ideia única: “olha, agora nós vamos atingir tais metas”. Existem esforços,
desde o início da Unesp, de algumas pró-reitorias, para tentar sistematizar de
alguma maneira, fazer uma coesão, por exemplo, da pesquisa. Nós tivemos
pró-reitores na Unesp que eram de pesquisa, por exemplo, e faziam um esforço
sobre-humano para manter um vínculo mais estável com a Fapesp.
As discussões sobre os plantões na FM eram um terror. Sempre se colocava isso porque quem pagava os plantões era a Universidade. Um professor de
Letras fala: “poxa, e eu, não posso ganhar um plantão? Um correspondente a
um plantão”? Pois nós deixamos de ser institutos isolados e nos tornamos uma
universidade onde cada um tem a sua mesinha e não fala com o outro. Efeitos
da Ditadura na criação.
Heranças da criação da Unesp
Carregamos uma herança meio complicada que foi a promessa de uma
unidade. Conseguir fazer uma união desses institutos isolados todos. Se nós
continuássemos como institutos isolados, será que estaríamos mais na frente
em termos de ensino, pesquisa e extensão universitária? Eu não sei responder
isso. As comparações que hoje faço em relação à USP. A USP, com todas essas
heranças, foi constituída com respeito. Há uma percepção de que as unidades
têm uma força muito grande. [Eles dizem:] “Nós somos USP, mas nós somos
Faculdade de Medicina. Eu dou aula no Direito; também Direito é USP, mas é
Faculdade de Direito.”
A Escola Politécnica, por exemplo, desde que foi fundada, tem personalidade própria, ela é Poli. Tem a Esalq em Piracicaba. A Filosofia tem uma personalidade grande, diferente da História e da Geografia. Então cada unidade tem
a sua personalidade, sua cara, o seu jeito, a sua roupa.
A Unesp não conseguiu fazer isso. Ela tentou isso e não conseguiu. A Faculdade de Medicina, em relação à Universidade, por exemplo, se há um movimento de greve, ela nem fica sabendo. Você pergunta aos professores: “Ah, você
soube que o pessoal ‘saiu’ da reitoria”? Eles respondem: “Ah, mas eles estavam
196 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
na reitoria”? Aqui na Medicina tem uma expressão muito engraçada: quando
um documento vai para a reitoria, dizemos que o documento desceu.
Por outro lado, a USP tem o maior orgulho pela FM e a FM tem o maior
orgulho da USP. Não sei como foi criada essa relação; é muito interessante. Na
próxima eleição [na USP] provavelmente vai haver uma consulta, mas o processo, apesar de ele ser ampliado, vai ser indireto. Tem um colega nosso de Ribeirão
Preto que é candidato. Até o escritório político dele está aqui no departamento.
Um professor da Patologia: “vamos colocar o Marco Antônio Zago lá”.
Eu gostaria muito que ele fosse reitor, mas dentro desse conjunto da universidade há um comentário: “não, mas ele é da Medicina”. Aí o pessoal: “não,
mas ele é da Medicina de Ribeirão Preto”. As pessoas acham que a Medicina
aqui é muito nariz empinado. A Medicina aqui tem um orçamento da Universidade, mas a chamada Saúde aqui dentro é do Estado, a negociação é do Estado.
Aí, a negociação sai. A USP acaba se fortalecendo porque se atravessa a rua aqui
e já se está na secretaria. Na Unesp se está muito longe.
A invasão do câmpus pela polícia em 1968
O hospital de Botucatu ia ampliar uma ala e nós, o centro acadêmico, perderíamos nossa sala. Os alunos, então, invadiram a sala para protegê-la. Não
houve negociação. Chegavam notícias de que o professor estava negociando
e, de repente, a polícia invadiu. Quer dizer, não houve conversa, ninguém foi
conversar com os alunos. Ou seja, eles invadiram. Isso foi muito ruim para a
faculdade. E poderia ser pior, se alguns colegas professores não tivessem uma
relação com os militares que estavam invadindo.
No momento da invasão, vários professores foram para a faculdade. Na
hora em que a tropa invadiu mesmo, o pessoal disse: “olha, vamos conversar;
vamos com calma”. Naquele momento houve uma negociação. Os professores
foram com o chefe da polícia: “olha, tudo bem, vocês saem pacificamente, dá
para negociar”. E os professores: “não, calma, vamos negociar”. Tanto é que foi
mantida a sala depois.
Mas essa maneira de como as pessoas, em 1968, agiam, como começavam
a assumir posições dentro da Universidade, como tinham esse relacionamento
Depoimento 9 – Reinaldo Ayer de Oliveira 197
com o Regime Militar; tudo isso foi ficando preocupante. Para nós, estudantes,
e para algumas pessoas.
Nunca conseguimos em Botucatu caracterizar se tínhamos dentro do câmpus os delatores. Não houve prolongamento disso. “Não, agora vamos revidar”.
Os estudantes, quase de modo natural, defenderam um espaço que existia dentro do hospital e isso ficou importante depois na criação da universidade. Assim se criou esse espírito dentro da universidade. Os estudantes já tinham um
movimento importante, foi logo depois de Ibiúna, em outubro.
Sobre o Paulo Maluf, houve um movimento contra a falta de verba para a
Educação, o funcionamento do hospital, da fazenda experimental. Foi um movimento de reivindicação mesmo e de protesto contra a presença do Maluf no
câmpus, porque ele tinha sido indicado pela ditadura. Ele foi para Botucatu e
ficou aquele clima: “ele vai para a faculdade, ele não vai para a faculdade”. Foi um
movimento mais de estudantes. E ele foi para o câmpus. As pessoas foram lá com
folhetos e cartazes protestar contra duas coisas, a Educação e a falta de verbas e
contra a presença dele no câmpus. Afinal, ele era um preposto da ditadura.
E, aí, do nada, os seguranças dele começaram a desmobilizar, bater nos
estudantes; aí a polícia veio e prendeu alguns. Nós estávamos no hospital, nem
estávamos lá, e aí foi desagradável. Ele tinha ido entregar um microscópio.
Eu tinha a percepção, a mesma que várias pessoas tinham. O malufismo
era de direita; quer dizer, um movimento malufista era resultado do movimento de direita e se identificava com ele. Sem dúvida, uma relação direta com a
ditadura. Talvez algumas pessoas que entraram no movimento estudantil ou
no movimento docente passaram a entender essa questão da ditadura pelo entendimento do “malufismo”, o que era o “malufismo”.
Há pouco tempo eu fiz uma matéria junto com uns alunos aqui do centro
acadêmico, por conta de eu dar aula de Bioética. Contava histórias e havia uma
menina, presidente do centro acadêmico, a Flora. Ela tem uma história de vida
impressionante. Quando tinha uns 8 anos, o pai foi preso e ficou três anos
recluso. Era professor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, o ITA, e foi
preso porque divergiu do que estava acontecendo. Na época da Ditadura, ela
tinha 1 ou 2 anos. O pai morreu há uns três ou quatro anos Ele tinha mais ou
menos a minha idade. Hoje ela tem 30 anos, no máximo. O avô dela é o José
Goldemberg, que foi ministro e secretário em São Paulo. Ou seja, ela ouvia as
histórias do avô, que foi um político, e do pai, que foi um preso político, e se
198 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
sensibilizava quando eu contava as histórias da época da ditadura. Ela se dizia
em dúvida sobre qual caminho seguir, o do pai ou o do avô. Eu falei: “ah, você
vai ter que achar o seu caminho”.
Os processos
Eu acho que foram tão insignificantes frente a coisas mais importantes. Eu
vim pra São Paulo fazer residência. O Chichinho foi preso em 1969, ficou até
1972, se não me engano. Eu ia muito visitá-lo na prisão, junto com outro amigo,
o Trajano, que era de Presidente Bernardes. O Trajano tinha feito USP e era
muito amigo do Chichinho, cujo nome era Reinaldo.
Enfim, a gente ia muito ao Presídio Tiradentes visitar o Chichinho. Eles
tinham uma ala embaixo, onde ficavam os presos políticos. Eles permitiam
que a gente ficasse lá um pouco. Eu conheci vários presos lá, era supertranquilo
[visitá-los]. Algumas pessoas começaram a sair da prisão e estavam completamente perdidas. Tinha um rapaz de Itaoca, o irmão tinha sido assassinado, era
um artista plástico. Quando ele saiu, foi para a casa da irmã, a Neide. Então,
íamos muito à casa da Neide. Não sei se houve algum tipo de denúncia, mas
um dia recebi um papel dizendo para eu ir à Justiça Militar, lá perto da Av.
Brigadeiro Luís Antônio.
Fiquei apavorado. Eu tinha uma cunhada, a Regina, que era advogada, ela
não estava exercendo advocacia, mas falou: “eu vou lá com você”. Teria ainda a
vantagem de ser uma presença feminina na conversa. Eles queriam saber qual
a minha relação com várias pessoas. É impressionante como o pessoal tinha as
informações. Bom, isso deu um processo, e eu fiquei quase três anos respondendo a isso. Depois, quando abriram os arquivos do DOPS, eu fui lá procurar
meu nome. Havia muito registro fotográfico, com marcações em vermelho, das
passeatas em que a gente ia, com marcação em vermelho.
Aí aconteceu um problema com outro amigo meu, o Lenine Garcia Brandão, que foi processado por causa desse nome, Lenine. A Regina foi advogada
dele. O Lenine falou: “não, não é nada, poxa vida”. Aí surgiu meu nome, porque
na época lá em Botucatu nós do centro acadêmico tínhamos um jornal e nele
o Lenine escrevia poesia. Eu era o diretor do jornal. Quinze dias depois, outro
processo. Fiquei também uns dois anos respondendo.
Depoimento 9 – Reinaldo Ayer de Oliveira 199
Mas eu tenho vergonha de falar isso, nem gostaria que fosse muito citado, porque é vergonhoso para nós. Que sistema era esse no país em que
se pegava um indivíduo que era amigo de outro e ficava dois anos depois
respondendo processo?
Unesp, 1985
Quando terminou o movimento [de escolha de reitor] da Unesp, em 1985,
foi indicado o Nagle para a Reitoria. Eu e minha mulher, na época, a Sílvia,
resolvemos viajar. Ela falou “Nós vamos fazer uma viagem supertranquila”.
Fomos fazer uma viagem para o Caribe de navio. Quando chegamos em San
Juan, eu falei: “por que nós não vamos para Cuba? Gostaria muito de conhecer
Cuba”. Naquela época não havia relações diplomáticas entre o Brasil e Cuba.
Enfim, fomos para Cuba. De Cuba, nós iríamos para a Jamaica e depois para o
Brasil. Mas houve um problema político na Jamaica e voltamos para San Juan.
Pegamos o visto na embaixada americana, pois eu era latino-americano. O navio também era americano.
De volta ao Brasil, havia o processo de escolha de reitor na Unesp. Começaram a me perguntar o que eu fui fazer em Cuba. Expliquei que foi uma viagem
tipo segunda lua-de-mel.
Tem vários amigos que ainda brincam comigo dessa maneira, que eu que
tinha ido para Cuba, tinha relações com Cuba e na polícia ficou essa história.
Mas para mim isso é um arbítrio muito grande. Imagine, eu estava à mercê de
qualquer coisa. Aliás, gostei muito da viagem, tive a oportunidade de assistir o
Fidel Castro falando em praça pública. Era um daqueles discursos homéricos,
longos que ele fazia.
A Associação de Docentes de Botucatu
Fui presidente da Associação de Docentes de Botucatu. Na Adunesp, eu
fiz parte da diretoria do Nilo Odália, uma pessoa admirável. Também fui da
diretoria do Quelce, junto com o Tozoni, que era o tesoureiro. Quando fomos
para Araraquara, na criação da Unesp, havia duas associações independentes.
200 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Botucatu recebia as mensalidades dos seus associados e a Adunesp criou uma
mensalidade. Nós não contribuíamos com a Adunesp. Na gestão do Nilo, não
tinha isso. Na gestão do Quelce, começou a haver uma contribuição da associação dos docentes para a Adunesp.
São Paulo, 1993
Comecei a vir muito a São Paulo a partir de 1993. Essa história de atuação
política estava meio atenuada, não gostava mais de participar. Então acabei
recuperando essa participação dentro da universidade e dos movimentos políticos, quando ingressei no CRM. Era outra forma de trabalhar, de você participar. Também voltou a questão da participação partidária, havia remanescentes
do partido comunista e tive uma militância no PT.
Quando eu vim para a USP, eu estava meio lento, pessimista, desanimado
com a questão da vida universitária, com os rumos da Unesp, uma universidade muito burocratizada. Comecei também a me distanciar das pessoas; alguns
amigos morreram. Quando vim para a USP, percebi que ela tem um detalhe,
ela é uma universidade extremamente exigente. Ela pega pelo lado, por exemplo, da pesquisa, do conhecimento. Eu acho que em cinco anos aqui publiquei
mais do que nos 15 anos em Botucatu. É exigência científica mesmo.
A USP dá muito prestígio pra você. Isso realmente acontece. Eu converso
com colegas meus, de todas as áreas. Quando eu cheguei aqui em 2000, o professor Giovane Serra me chamou e falou: “Reinaldo, muito bom, meus cumprimentos, veio para a USP, que bom, você fez o concurso e sei que o concurso foi
difícil”, desenhou um montão de coisa. “É o seguinte, Reinaldo”, e chama uma
menina: “essa aqui é fulana, nossa assessora de imprensa. Tudo o que chegar
aqui na USP sobre Bioética ela vai passar para você”. É outro mundo.
Eu tinha dado uma entrevista no programa do Jô Soares sobre terminalidade de vida, que é um tema que eu trabalho também. No dia seguinte, tinha uma
demanda. A menina: “professor, o Estadão está fazendo uma matéria, o senhor
pode falar com eles”? Tem mais, por exemplo, um congresso sobre Medicina
Fetal, tudo organizado por um sujeito aqui desta área, que eu nem conheço,
diga-se de passagem. Ele queria colocar uma discussão ética dentro, e sabe o
que ele faz? Ele perguntou para a assessoria de imprensa da USP quem deveria
Depoimento 9 – Reinaldo Ayer de Oliveira 201
ser procurado. E o repórter telefonou para mim. Essa dinâmica que existe aqui
é bem interessante.
Voltando à redemocratização da Unesp
Discutindo a luta, a participação dos professores, o câmpus de Assis é convicto de que a eleição do professor Quelce teve grande repercussão, por exemplo, em Botucatu.
Tem um detalhe naquela história que para mim é emblemática, aquela fotografia em Assis, quando a polícia invade, depois foi feito disso um cartaz,
com a mensagem: “toda vez que os justos gritam, um carrasco vem calar”. Eu
tenho dois cartazes desse. Aquilo foi muito motivador, foi esparramado para a
Universidade toda, serviu como força motriz, superinteressante...
Eu viajei por todos os campi da Unesp com o professor Saad, com o Nilo Odália, o Zé Ênio. Dormíamos no mesmo hotel às vezes e íamos para as discussões.
Na USP não acontecem essas coisas, nunca aconteceu. Aquele foi um momento
impressionante, a gente entrava junto, teatros lotados de professores e alunos.
Pois é, onde estão os professores?
A diferença no discurso era mínima. Tinha até uma coisa que eu achava
diferença e falava para eles: “mas, Saad, precisa corrigir isso, vamos mudar esse
discurso nosso”. O Saad vinha muito com aquela história: “não, eu estava muito bem, mas as pessoas vieram me chamar para fazer esse movimento. Eu, na
verdade, eu não quero ser reitor, não é meu plano de vida atual ser reitor, mas
eu acho que é importante colaborar com a democracia”...
Eu tinha inventado uma frase ótima com ele, eu chegava num determinado
lugar e falava assim: “nós estamos aqui de peito aberto, o que nós queremos é
oxigenar a universidade”. São duas expressões que eu tirei da cirurgia cardíaca,
quer dizer, abre o peito para as pessoas verem o seu coração e a oxigenação da
universidade. O Nilo, não, ele trazia um discurso mais político: “estou querendo ser reitor, estou aqui competindo com o professor Saad porque eu acho que
a universidade deve mudar, ela tem um destino”... Acabava ficando muito in-
202 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
teressante porque depois que o Saad dizia isso, ele começava a falar o que seria
uma universidade de peito aberto, oxigenada. Ele trazia a questão da pesquisa,
a experiência dele na Fapesp. O Nilo trazia a experiência política dele.
Os dois discursos entravam um no outro, se complementavam. Quem assistia pensava: “qualquer um desses pode ser reitor; essas são as pessoas que
serão o nosso reitor”. Acontecia muito de alguém se levantar e falar: “independentemente do resultado dessa consulta, é possível que os dois se comprometam a colocar o outro como vice, caso for eleito”? Era fantástico.
O Nilo era ótimo nesse aspecto. Ele falava: “não, eu estou me candidatando
a reitor, entendeu? Eu quero ganhar para ser reitor, mas o professor Saad é uma
pessoa que seguramente vai participar da minha reitoria”. Eu dizia para o Saad
que ele tinha que falar assim também. Mas o Saad era muito bacana, a postura
dele era interessante, e dispunha como acadêmico, diferentemente do Nilo.
Eu tenho saudade, um sentimento muito gostoso que eu tenho em relação
a tudo que aconteceu comigo, voltando a essa coisa de um depoimento pessoal.
Para mim foi muito enriquecedor, aprendi muito sobre universidade, conheci
pessoas incríveis na minha vida, só a universidade proporciona isso.
Eu tenho essa ideia também aqui na USP, na Faculdade de Medicina. É
muito claro isso. Você cruza no corredor com uma pessoa que ontem estava no
jornal porque operou o presidente da República, e o tratamento que há entre
as duas pessoas é universitário, de igual para igual. São amigos, são colegas.
Médicos, colegas de outros médicos. Eu digo: “poxa, soube que ontem você
operou fulano”. E a pessoa fala como médico: “Pois é, uma cirurgia difícil, foi
complicado descolar não sei o quê, mas foi tudo bem. Aliás, quem estava me
auxiliando era o fulano, um senhor cirurgião”... Fica falando assim. Aí chega
outra pessoa, ficamos conversando, vamos tomar um café. Esse espírito universitário é que mantém a universidade viva, ativa.
É o espírito universitário que está morrendo.
Isso tem que ser resgatado. Nós estamos perdendo um pouco disso. Em
algumas faculdades, essa relação com aluno é interessante. A faculdade de Medicina tem uma relação um pouco diferente, por exemplo, do que seria a faculdade de Filosofia, pois, na verdade, os alunos da Medicina são muito identifi-
Depoimento 9 – Reinaldo Ayer de Oliveira 203
cáveis, no sentido de que serão médicos, cirurgiões, que irão fazer uma cirurgia
plástica amanhã ou depois. Por que eu digo isso? Porque turmas se passaram e
um professor viu que aquele aluno que se tornou cirurgião plástico manteve a
relação de amizade com ele. Trinta anos se passaram e o sujeito pega o telefone
e fala: “professor, é o seguinte, amanhã eu vou operar uma pessoa e tenho dúvidas, qual a melhor técnica”?
Em algumas outras áreas eu vejo que isso não acontece. Esse vínculo você
não vê em outros cursos e é ruim isso. Não obstante, a faculdade de Medicina
também tem coisas complicadas. Eu tenho uma aula, projeto a fotografia do
professor Euryclides de Jesus Zerbini, um mito na nossa vida; ele fez o primeiro
transplante de coração. Ele tinha 75 anos, o homem estava operando. Chegava
às 7 horas da manhã, operava três ou quatro pacientes com aquele amor que
ele tinha pelo que fazia, pelos doentes; era um homem incrível. Perguntei para
as pessoas: “vocês sabem quem é essa pessoa”? A classe não sabia. No Instituto
do Coração da USP, onde eles fazem ou tinham feito estágio, tinha um enorme
painel com a foto dele. Um colega nosso que é de São José do Rio Preto tem lá
um grupo na internet, “alunos do professor Zerbini”.
Eu lembro de três mulheres fantásticas que conheci na Unesp, as adorava.
Uma era a Eliete Safioti. Recentemente houve um debate no CRM sobre envelhecimento, eu coordenava a mesa e, de repente, ela levantou lá no fundo e
começou a falar sobre vida urbana, envelhecimento. Eu, com os óculos meio
ruins, falei: “não é possível que seja a Safioti”. Isso foi há uns três ou quatro
anos. Ela faleceu recentemente.
Quando ela terminou a pergunta, eu falei: “professora Eliete Safioti, eu gostaria de convidar a senhora para fazer parte da mesa”. Enquanto vinha, eu fui
falando sobre ela. Eu admirava muito aquela mulher.
A outra é a Maria Conceição D’Incao. Além de ser uma mulher lindíssima,
eu ficava apaixonado pelas coisas dela. Voltei a encontrá-la várias vezes aqui
em São Paulo, mas depois desse movimento da Unesp não a vi mais. Tinha
ainda a irmã dela, que estava em Marília, a Maria Angela D’Incao. Saíamos de
Botucatu para assisti-la. Lembro de um seminário dela sobre Florestan Fernandes. Ela ainda estava casada com o Trajano.
“Isso é universidade”! Discutia-se naquela época se era possível você fazer
uma universidade mesmo com câmpus assim separado. Sim, é possível fazer
isso. Mas era preciso quebrar esse esquema meio burocratizado e elas conse-
204 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
guiam romper. Muitos anos depois eu a encontrei num avião. Ela ia para o
Amazonas, ia morar lá. Ela me deu um livro dela sobre índios. É uma pessoa
incrível. Vou começar a chorar daqui a pouco, esse pessoal me impressionou
muito na minha vida. Bom, eu era da Medicina e via essas pessoas das Humanas, comecei a ter esse contato maior, e pensei: “poxa, essas pessoas são incríveis”. Tem muita coisa boa na Universidade.
Valeu a pena ir para a universidade?
Aquilo que eu até já falei, né, eu sou uma pessoa que fiz universidade a vida
toda, vou me aposentar daqui alguns anos e tal. Me emociono até hoje com
isso. Apesar de todas as lutas, as dificuldades, os altos e baixos, eu não faria
outra coisa na vida a não ser essa vida universitária. Ser professor, ensinar, pesquisar e fazer com que essa universidade tenha um contato mais rápido, mais
direto com a sociedade. Eu não tenho a menor dúvida quanto a isso. Faria tudo
outra vez, como diz a música do Gonzaguinha: “eu faria tudo outra vez”. Eu
faria tudo... igualzinho!
DEPOIMENTO 10
Antônio Luiz Caldas Júnior
Hoje é 12 de setembro de 2013, estamos no Departamento de Saúde Pública
da Faculdade de Medicina do câmpus da Unesp de Botucatu, com o professor
assistente doutor Antônio Luiz Caldas Júnior, que atualmente também é vice
-prefeito de Botucatu. O professor teve uma importante atuação nos episódios
que envolveram a violação dos direitos humanos na Unesp durante a ditadura
civil e militar e vai nos dar um depoimento a respeito.
Na Faculdade de Medicina de Botucatu
C
heguei a Botucatu em 1975, ou seja, antes da Unesp. Vinha da Escola Paulista de Medicina, em São Paulo. Ou seja, vivi o movimento estudantil
num período pouco glamouroso e muito duro. As pessoas falam com certo
orgulho do movimento estudantil do final dos anos 1960, aquele período de
repressão e de lutas. Mas essa parte mais festiva, se é que se pode dizer assim,
perdeu totalmente essa face num período muito difícil. Eu tive um contato por
meio de colegas médicos, principalmente, e estudantes, me informando que
existia em Botucatu uma faculdade de Medicina, onde se respirava um clima
mais ameno, mais agradável. Especialmente na área de Saúde Pública, a área
em que eu queria me especializar.
Surgiu daí a motivação de ir para Botucatu. Essa cidade, onde existia um
instituto isolado, a Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu,
apresentava uma possibilidade de ação acadêmica num ambiente mais favorável do ponto de vista das relações políticas. Era uma faculdade mais nova, que
tinha motivado a vinda também de muitos professores com esse compromisso
206 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
democrático, especialmente da Faculdade de Medicina da USP, da EPM e da
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Esse era o cenário que se apresentava
e foi o que encontrei em Botucatu. Professores que militavam politicamente,
na vida universitária, estudantes mobilizados, uma situação bem diferente do
ambiente que eu tinha na minha faculdade, embora lá tivesse militado politicamente durante os seis anos de curso.
A criação da Unesp
Em 1977, eu não estava em Botucatu porque fui fazer o segundo ano de
residência médica em São Paulo. Foi nesse período que surgiu a Unesp e se
sucederam muitos fatos negativos marcantes na história da instituição. Alguns
eu acompanhei de forma testemunhal e outros por informação, porque eu era
vinculado à instituição mesmo estando em São Paulo.
Sempre tive militância política, então punha um olhar político nesses fatos
da instituição. O que mais chamou atenção nesse período foi a forma como a
Unesp foi criada, ou seja, de maneira autoritária, com absoluto desrespeito às
opiniões divergentes.
O governo do estado de São Paulo promoveu a criação de uma universidade. Foi um parto difícil. É uma comparação meio grosseira, mas é quase um
parto de alguém que foi estuprado: criança nasce, vira filho; então a Unesp hoje
é uma universidade querida de todo mundo, mas ela foi gerada de forma meio
bruta. Muita coisa de ruim aconteceu sem que as pessoas fossem ouvidas. Em
Botucatu e em toda a Unesp.
Uma história de cursos desmantelados, professores desterrados, mudados
de município por ofício, enfim, todo tipo de desmando que eu pude acompanhar na Universidade. O professor Jorge Nagle, de quem tive o privilégio de ser
aluno em curso de pós-graduação, arrepiava os alunos dizendo: “a universidade sempre é conservadora”. Ele demonstrava, e eu acredito no professor, com
sua formação política, que “a universidade tem uma velocidade de mudanças,
mas outros setores da sociedade são a vanguarda, não a universidade”.
Isso de certa forma protegeu, digamos assim, a USP e a Unicamp de algumas investidas da Ditadura. Porque alguns professores, embora fossem conservadores no ponto de vista político, eram também conservadores no sentido de
Depoimento 10 – Antônio Luiz Caldas Júnior 207
não admitir uma ingerência indevida da Ditadura Militar e Civil que havia na
universidade. Podiam ser pessoas conservadoras, mas diziam: não, a universidade não pode participar disso.
No caso da Unesp isso não aconteceu. Então a Unesp foi vítima, na sua
criação, de todos esses desmandos, de departamentos criados e fundidos sem
nenhum critério, unidades também criadas assim, atendendo ali a um misto,
a uma conivência entre as determinações políticas e certos interesses menores
de grupos de pessoas.
Para que o processo sobrevivesse era necessário encontrar esse tipo de
apoio, e algumas pessoas trocavam apoios por favorecimentos pessoais, acadêmicos, carreiras universitárias que se elegiam a toque de caixa. O sujeito
era doutor, dali a alguns meses era livre-docente, daqui a pouco era professor
titular em tempo recorde. E daqui a pouco o sujeito era diretor de unidade.
Eu vivi um período da Unesp que não era mais o período cruento da repressão política, de prisões e de perseguições, inclusive de mortes de alunos. Na
época que não era Unesp, havia os institutos isolados. Eu peguei um período
em que esse efeito autoritário e arbitrário da Ditadura se expressava muito mais
nas relações institucionais, muito menos nas prisões ou perseguições policiais.
A cumplicidade com a repressão
Gosto de dizer que a universidade, diferentemente de outras instituições
no Brasil, encontrou no seu próprio seio os agentes desse processo repressivo,
ditatorial. Certas instituições – talvez o exemplo sejam os sindicatos, as estatais – eram dirigidas por interventores, porque muitas vezes não se encontrava,
dentro do corpo daquela instituição, pessoas que se dispusessem a violentá-la.
Um trabalhador que assumisse a presidência do sindicato contra os seus companheiros de categoria profissional. Então, colocavam lá um interventor. Na
universidade, salvo exceções, os dirigentes nesse período eram professores,
eram pares, mesmo no movimento estudantil.
Logo que cheguei a Botucatu, houve um episódio muito curioso. Nós tínhamos um centro acadêmico com grande tradição de lutas, o Centro Acadêmico Pirajá da Silva. Ainda tem esse nome, mas hoje é só da Medicina. Na época havia apenas uma faculdade, a FCMBB, que englobava todos os cursos. Foi
208 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
fundado pela direção da faculdade um diretório acadêmico. Alugou-se uma
casa e um mobiliário. A FCMBB propiciou a criação desse diretório. Quem era
a diretoria? Eram estudantes. Não eram elementos externos à instituição, eram
da própria instituição. Isso era algo que criava um ambiente de acirramento
muito grande, de disputas dentro da faculdade.
O tempo passou, cada um com as suas motivações – era um período complicado. Difícil julgar, pinçar pessoas, dizer: “esse cara, aquele cara...”. Mas o
movimento geral era esse. Muitos professores argumentavam, se valiam da teoria do “menos pior” ou “do mal menor”. Valiam-se da ideia de dizer: “eu assumi
aquela função porque poderia ter sido pior ainda”. Esse é um argumento histórico, difícil de descartar.
A ditadura
Até no cárcere existia isso: tinha o torturador e tinha o que batia menos.
Dentro da faculdade nós tínhamos também pessoas que assumiam essa postura,
de ser uma via “menos trágica” do que a outra. Esse era o argumento, a defesa que
hoje é apresentada. Tem gente que ameniza nossa ditadura, dizendo que aqui foi
mais tranquilo – que poderia ter sido como no México... – a “ditabranda”!
Quando fiz no facebook uma homenagem ao Salvador Allende, um sujeito
anticomunista que conheço aqui coloca: “lá mataram dez mil, mas o Fidel Castro matou cem mil”. O cara ainda quer arrumar uma desculpa para o Pinochet.
É a chamada “ditabranda”, que poderia ter sido pior.
O clima do país era esse. Depois de um período de acirramento da repressão na época do Médici, houve uma proposta objetiva de transição feita pela
Ditadura que era a tal “abertura lenta e gradual”, do Geisel. Era um aceno à
sociedade de que era possível esse período de exceção aqui no Brasil ir se desacelerando lentamente, por meio de pequenas concessões. Tivemos aqui um ditador, o João Baptista Figueiredo. Os jornais publicavam charges, na TV havia
quadros humorísticos, de chacota, coisas que são muito comuns nas ditaduras.
Quer dizer, o Figueiredo viveu um período em que ele era um ditador, com leis
de exceção, depois veio a Anistia.
Ou seja, o Brasil viveu uma situação muito sui generis no governo Figueiredo: tinha um ditador, mas já não havia mais prisões, tudo se amenizou. No
Depoimento 10 – Antônio Luiz Caldas Júnior 209
período Geisel, não; ainda ocorreram mortes, muitas prisões e o Congresso
fechado. No Figueiredo funcionou com o Congresso aberto, ocorreram as eleições de 1982, vencidas pelo PMDB, a reorganização do movimento sindical, a
fundação do PT, o Lula, greves, tudo isso dentro de um regime ditatorial.
Esse modelo de transição lenta e gradual de certa forma também aconteceu
dentro do ambiente universitário, em que se tinha uma ditadura institucionalizada. Nada se fazia à margem da Lei. Tudo era aprovado no Conselho Universitário, nas congregações. Não eram atos de exceção.
Na época do Figueiredo, não teve nenhum ato institucional porque o Figueiredo era ditador na forma da lei. Fizeram uma constituição adulterada em
1969 e ele governava (não mais no regime de exceção) porque o AI-5 havia
sido revogado. Era um ditador institucionalizado. Dentro da Universidade era
a mesma coisa. Nós tínhamos um estatuto que permitia coisas absurdas, mas,
como a Unesp foi concebida dentro da Ditadura, ela tinha um estatuto que
admitia que tudo aquilo era feito dentro da Lei. Ninguém vai dizer “era um ato
de exceção, de arbítrio”. Não era arbítrio! Era a ditadura normatizada e institucionalizada que nós tínhamos na Unesp.
O desgaste da ditadura na sociedade e na universidade
Isso foi ficando em desacordo com o ambiente geral do país. Especialmente
a partir de 1982, com a vitória esmagadora da oposição nos governos estaduais.
A eleição de 1980 havia sido adiada, seriam eleições municipais. Os mandatos
foram protelados. Isso criou um grande impasse, uma situação de perplexidade, antes do movimento das “Diretas Já”, porque havia falta de sintonia entre
a manifestação explícita da sociedade brasileira e o regime de exceção que nós
vivíamos aqui. Era o menos mal também, porque diziam “não, o Figueiredo
era horrível, mas se fosse o grupo do general Sylvio Frota...”. Sempre existiu a
ideia de que havia militares duros que poderiam ser piores que o Figueiredo.
Isso servia quase como um “guarda-chuva”. Cada um com a sua cara-de-pau.
Eu vi uma vez o Médici dando uma declaração dizendo que “no governo
dele nenhum deputado foi cassado”. Então, como falavam que ele era um ditador? É verdade. Se você observar, o general Costa e Silva cassou muita gente e
210 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
fechou o Congresso. Mas voltou a haver cassações na mão do general Ernesto
Geisel. Cada um tem o seu critério.
Na Unesp, foi-se criando uma total dissintonia entre uma instituição universitária, que se tornava anacrônica do ponto de vista político. O estado de São
Paulo e o Brasil afora, fazendo eco com as palavras ‘sábias’ do professor Jorge
Nagle: “... essas ilhas de autoritarismo dentro da universidade”. Isso parecia uma
afronta, uma vez que as universidades nos anos 1960 e 1970, muitas vezes, se
constituíram nas ilhas de resistência à Ditadura, com muitas vítimas inclusive.
O governo de Franco Montoro
Nós tivemos a felicidade de em São Paulo termos um governador como o
Franco Montoro, que era uma pessoa dinâmica, descentralizadora. Analisando
a história, acredito que o Montoro foi um tremendo governador, um homem de
coragem política para o momento que se vivia. Às vezes ele era criticado, mas
desempenhou um papel muito importante. Tínhamos um governo de estado
democrático, progressista, com a Saúde e a Educação avançando, a administração pública se reformulando, processo de descentralização pela criação dos
Escritórios Regionais de Governo, reforma nas políticas sociais e nas atividades
meio do Estado, nas finanças, tudo.
O movimento estudantil no final dos anos 1960 e durante os anos 1970
tinha na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC, um espaço
de expressão democrática, talvez a única oportunidade na qual alguém ousaria
falar que a Ditadura era uma ditadura. Apenas como exemplo, eu conheci a alta
direção do PCdoB, partido ao qual eu era filiado havia muitos anos, em uma
reunião da SBPC, em 1982, em Campinas. Naquele local poderia haver o secretário geral de um partido proscrito. Era a ditadura da época do Figueiredo.
O sujeito vinha lá e se apresentava como o secretário geral do partido. Onde?
Dentro da universidade, numa reunião da SBPC. Uma mesa-redonda sobre assuntos políticos à qual ele poderia ir e se manifestar.
Depoimento 10 – Antônio Luiz Caldas Júnior 211
Ecos da ditadura na Unesp
A direção da Universidade era conservadora. Aí veio a Unesp, que tinha
uma tradição, pela forma como foi criada. Tínhamos tido uma sucessão de
reitores, especialmente o primeiro reitor, o Luiz Ferreira Martins, e depois o
professor Armando Otávio Ramos – aliás, saiu de Botucatu – que governaram
a Unesp com mão-de-ferro. Cabe à história julgá-los, mas foi um período de
mão-de-ferro, embora governassem “dentro do institucionalizado”, um absurdo que nós sabíamos.
Os mecanismos, mesmo de eleição, eram muito complexos, de tal forma
que as eleições sempre eram como era, aliás, o colégio eleitoral – o presidente
da República era um general não por acaso – foi montado para ser daquele
jeito. Os concursos, as representações nas congregações, tudo era feito de um
jeito que garantia esse conservadorismo. Que não era um conservadorismo,
sobretudo político, mas era a dominância, no caso da Unesp, uma universidade
dispersa, desses grupos políticos.
A USP tem um coração, que é a Cidade Universitária, embora tenha as Faculdades de Medicina em São Paulo e Ribeirão Preto, a Faculdade de Direito, a
Agronomia em Piracicaba, mas tem aquele coração, na Reitoria. E havia muitos
poderes locais. Isso é um diferencial nosso com a USP.
É lógico que tem as unidades, mas aqui não eram só unidades; havia unidades, inclusive geograficamente distintas, com histórias distintas. [...] Dentro de
cada unidade havia esses micropoderes, e, na verdade, havia ali uma congregação de interesses, de reciprocidades. Alguns até de caráter político. Era um governo de exceção, um perfil ideológico, de direita, digamos assim. Mas muitas
vezes de interesses menores, interesses de grupos em se manter no poder e as
benesses que isso trazia. Essa era nossa Unesp.
Quando chegou em 1983, foi feita uma reunião em São Paulo de professores universitários, mas não eram quaisquer professores. Eram estudantes,
funcionários e professores que tinham vinculações políticas com o movimento
democrático. Alguns nos partidos legais, como PT, PMDB, PDT, PTB e o PDS,
ex-Arena. Mas muitos deles com vinculações ou atuais à época, ou pretéritas
com organizações de esquerda, algumas até clandestinas.
Recordo que em Botucatu, em meados de 1983, foi feita uma reunião das
entidades e produzida uma carta em manifesto conclamando a Unesp a um
212 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
processo de democratização. Já começava a história das diretas para presidente.
Dois movimentos havia no Brasil: eleições diretas e constituinte. Esse manifesto teve uma presença importante de Botucatu e de outras unidades, pois isso
nasceu aqui, nós apresentamos em São Paulo. Eu participei diretamente da elaboração deste manifesto, era um documento interessante, bem fundamentado:
o Brasil se democratizava, e nós?
Nós fomos para trás do Figueiredo, que era um ditador. Nessa reunião,
realizada ali no subsolo da antiga Fatec, no antigo prédio da Escola Politécnica
da USP, na Av. Tiradentes, então uma unidade da Unesp, se reuniu um grupo
de umas 20 ou 30 pessoas, que lançaram um manifesto à comunidade universitária da Unesp. Ali havia pessoas com vinculação política e professores,
democratas sem nenhuma vinculação. Tinham essa proposta: como se aproximava a eleição de reitor, marcada para 1984, que a comunidade universitária
realizasse um processo de consulta, indicasse um nome da comunidade ao
Conselho Universitário.
Isso ganhou grande projeção em todas as unidades da Unesp. Outras universidades, pelo Brasil afora, passavam por movimentos semelhantes, mas a
Unesp foi uma das primeiras a realizar uma eleição desse porte. Mas havia
regras: os candidatos se inscreveriam e ocorreria a eleição.
A Adunesp e os centros acadêmicos na eleição direta para
reitor
Participaram também a Adunesp, com suas representações regionais e
algumas associações de docentes independentes, diretórios e centros acadêmicos, algumas organizações de funcionários – não havia ainda o Sindicato
dos Trabalhadores da Unesp, o Sintunesp, pois durante a ditadura funcionário
público não podia se sindicalizar. Essa reunião era um encontro de lideranças
e criou-se um movimento, com um comando. Começaram a aparecer nomes e
dois deles ganharam destaque, logo de cara, embora outros candidatos tenham
se manifestado: os professores Nilo Odália, de Araraquara, e William Saad
Hossne, de Botucatu, quem ganhou a eleição.
O Saad era um professor, um cirurgião que foi dirigir uma faculdade de
outras áreas – Saúde, Fisioterapia, Enfermagem –, mas sobretudo ele era uma
Depoimento 10 – Antônio Luiz Caldas Júnior 213
pessoa que tinha grande experiência na FAPESP e fez uma importante condução democrática em São Carlos, na UFSCar, que havia sido muito bem avaliada
do ponto de vista acadêmico e democrático. Ele foi um nome que correu a
Unesp, poderia trazer para cá muita experiência. Sem falar do Nilo, professor
universitário com tradição de militância política.
O professor Armando Otávio Ramos era vice reitor do Luiz Ferreira Martins, que tornou-se secretário da Educação. Então assumiu como vice em exercício da Reitoria. Isso permitiu que ele depois fosse reconduzido na Reitoria, na
gestão seguinte, mesmo com o estatuto não permitindo. O Armando era uma
pessoa com muitas habilidades. Ele então falou: “não, eu vou fazer uma consulta”. E fez aprovar no C.O. uma resolução instituindo a consulta, com suas próprias regras. Ele achava que com isso iria esvaziar a consulta da comunidade,
mas não foi o que aconteceu. No final de 1983, início de 1984, foi feita a consulta e ganhou a dupla Saad e Nilo, com uma expressão muito grande de votos.
Foi uma vitória importante do ponto de vista de números e de unidades
universitárias. Muito expressiva. Quando a consulta do Armando foi às ruas,
já tínhamos um candidato consagrado pelo voto, que era o professor Saad. O
Nilo teve a dignidade de, assim que saiu o resultado, declarar apoio ao Saad. Eu
lembro muito bem das palavras do Nilo: “a partir de hoje o meu candidato é o
professor William Saad Hossne; ele é o candidato da comunidade universitária,
alunos funcionários e docentes”.
Fomos para a eleição oficial, que permitia votar em seis nomes. A ideia era
sugerir ao C.O. a lista sêxtupla, como era na ocasião. O professor Saad ganhou a
eleição oficial de modo arrasador. A indicação das entidades era que se votasse
só no professor Saad. Mas muitos professores, alunos e funcionários fizeram
homenagem e também sufragaram o nome do Nilo, que teve também uma boa
votação. Foi quase uma homenagem, embora ele próprio dizia: “não vão diluir
voto, não votem em mim, votem no professor Saad”.
Não havia dúvida nem na votação das entidades nem na votação oficial de
que a pessoa que a Unesp queria para conduzi-la nos quatro anos seguintes era
o professor Saad. Aí se realiza a reunião do C.O., em 1984, que foi o escândalo
do autoritarismo. Quem estava ali? Pelegos sindicais, pessoas incautas, um coitado de um sujeito despolitizado que é enganado? Não, ali estavam professores
universitários, professores titulares, com toda a pompa universitária, e ali se
manifestava a perpetuação da ditadura dentro da Unesp.
214 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Acho que até o presidente Figueiredo a essa altura queria cair fora da jogada, não aguentava mais. Lógico, teve a eleição, colégio eleitoral, não passou
eleição direta, mas aí teve o Tancredo. O Sarney, que era o presidente do PDS,
fez uma aliança com o MDB. Ou seja, o país queria avançar rumo à democracia. Na Unesp, o contrário. No C.O., quem foi lá no dia? O Fleury, o torturador,
ou algum general? Não. Quem votou foram professores, alunos e funcionários
da Unesp. Tiveram a coragem de fazer uma lista, em que não figurava o nome
do professor William Saad Hossne. Um escárnio.
O governo não aceitou isso, mas o principal argumento do governador Montoro era o seguinte: “olha, quem bolou essa eleição foram vocês! Agora vocês me
colocam na saia justa de ter que escolher um nome que não é aquele que foi o
mais votado?”. Se tivesse ocorrido só a consulta, alguém poderia dizer “essa consulta é informal”, mas foi o C.O. que fez. Havia uma corrente dentro da Unesp
que dizia que ele estava cometendo uma ilegalidade em não escolher e ele dizia
“não”, porque o próprio C.O. fez a consulta e descartou o nome mais votado.
É lógico que o C.O. tem a autonomia, mas, então, para que fez aquilo? Uma
farsa, uma palhaçada? O mais cômico da história é que havia um professor, que
eu não conheço, de nome Saad, que foi incluído na chapa do professor Armando, imagino eu, para gerar confusão. A votação do C.O. não era por chapa, mas
por eleições sucessivas.
Como que se fazia a lista sêxtupla? Fazia-se uma eleição. Cada um votava
em um nome. Apurou-se, quem ganhou? Fulano. Agora vamos para o segundo
nome. Algum professor poderia dizer “olha, eu tenho meus compromissos, eu
quis votar no professor X, no professor Y”. Mas cada um daqueles professores
tiveram seis oportunidades de colocar o nome do professor Saad. Eles não precisariam tê-lo colocado na primeira, mas que pusessem na última. Não tiveram
a dignidade, nem de colocar o homem mais votado no sexto lugar.
Isso foi um fato grave de desrespeito à vontade das pessoas, uma mácula.
Essa eleição talvez seja o que de mais grave aconteceu em todos esses anos. Teve
professor perseguido, transferido, teve tudo isso. Esse fato eu acho que foi o mais
grave porque não foi um ato de um diretor, de um reitor; foi de um conjunto
de pessoas. Quando você diz: “ah, o reitor deu uma canetada”, tudo bem, é um
ato, é um ditador, é um arbitrário. Mas, não, foi a instituição, foi uma decisão
do C.O. O Conselho Universitário [atual] deveria fazer uma reunião como foi
feito há poucos dias [em Brasília]: o Congresso Nacional devolveu aos deputados
Depoimento 10 – Antônio Luiz Caldas Júnior 215
comunistas os seus mandatos, de 1947, que tinham sido cassados! Eles foram
cassados porque o PCB teve seu registro cassado. O Congresso se reuniu e esses
mandatos felizmente foram devolvidos agora, em memória: Carlos Marighella,
João Amazonas, Maurício Grabois, Gregório Bezerra. Eram todos esses e outros
deputados federais que compunham a bancada. O Prestes, senador.
Para que serve isso? É a reparação histórica. De vez em quando o papa pede
perdão por um negócio que aconteceu com os judeus em mil duzentos e não
sei quando… O C.O. deveria se reunir na Unesp e pedir desculpas públicas à
sociedade brasileira. Não os que estão lá hoje, mas a instituição, pelo que foi
feito de desagravo. O professor Saad deveria ser chamado lá na sala do C.O.
e receber um “título de reitor” nessa condição. Ele não vai assumir, como os
deputados não assumiram.
Aquilo para mim foi um reflexo patético da ditatura na Unesp. Em uma
universidade isso é uma vergonha. Se fosse em um clubinho da esquina, aceitável, mas em uma universidade? Essa novela se prolongou até 1985. O Tancredo
havia sido eleito, o país respirava novamente a democracia e a Unesp persistia
[na ditadura]! Ridículo, patético!
O governador Montoro teve um papel absolutamente nobre porque ele sabia que, se pusesse um nome fora da lista, ele estaria maculando a autonomia
universitária. Mas ele dizia: “se não tiver o nome do Saad na lista, eu não aceito
a lista”. Aí foi feita uma negociação, manobras que levaram meses. Começaram
a aparecer candidatos, as “terceiras vias”. Houve um grande acordo costurado
politicamente. Até o professor Saad percebia que nós não poderíamos entrar
numa guerra fratricida. A essa altura, o Saad era diretor da FMB [Faculdade de
Medicina de Botucatu]..., para se ver como o tempo passou.
O professor William Saad Hossne
Eu viajei muito com o professor Saad nesse período, em que ele andava pelas
unidades palestrando. Eu e outros professores nos revezávamos para levá-lo em
debates nos diversos campi. Um dia, um professor de Botucatu, o Reinaldo Ayer
de Oliveira, hoje na USP e diretor do Conselho Regional de Medicina, e eu fomos
conversar com uma pessoa que poderia nos dar um apoio político. Essa pessoa
era o senador Fernando Henrique Cardoso. FHC tornou-se senador porque ele
216 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
era o primeiro suplente do Montoro, eleito em 1978. Ele falou “fiz meu doutorado
em Sociologia nos anos 1950 na Faculdade de Filosofia da USP e, como precisava
trabalhar com dados quantitativos, me indicaram um especialista em estatísticas
na Faculdade de Medicina, o cirurgião William Saad Hossne”.
Hossne era cirurgião, veio da USP para Botucatu, organizou a pós-graduação, a primeira na Faculdade de Medicina. Foi um dos pioneiros e daqui
foi elevado a essa condição de reitor da UFSCar por um processo democrático.
Ele não era um interventor. A UFSCar precisava de um reitor com grandeza
acadêmica e ele foi cumprir esse papel lá, por opção da comunidade acadêmica.
Depois voltou para Botucatu e foi diretor. Alguns anos depois enveredou pela
área de Ética Médica, a Bioética, da qual ele se tornou uma autoridade de reconhecimento internacional.
Esse é o homem que o C.O. não teve a coragem de por mesmo com a votação que ele teve. Então, eu não vivi na Unesp o período obscuro da repressão.
Eu vivi isso na Escola Paulista de Medicina, com pessoas presas, torturadas,
mas aqui [na Unesp], não. Aqui eu vivi essa manifestação trágica, se não foi
cômica. Foi um resto da ditadura; é quando tudo vai para o campo do escárnio,
não tem nenhuma organicidade, aquele “fim de feira” da ditadura, com manifestações até hilárias. A ditadura, no final dela, na Universidade, dá para fazer
uma lista de situações hilárias, ridículas. Um período não menos violento do
que era o anterior, mas patético.
Crise na gestão de Armando Ramos e a transição
democrática com Nagle
O professor Nagle cumpriu um papel primoroso de transição, um papel
meio apaziguador para que fosse feita uma transição democrática, ninguém
queria revanchismo, tanto que ninguém foi perseguido. Eu acho que esse grupo
de democratas foi condescendente com aqueles que os perseguiram. Nenhum
professor foi vítima de processo de retaliação. Alguns inclusive, posso dizer,
se “reabilitaram”. Mesmo sem fazer uma reabilitação pública, uma autocrítica
pública, se reconduziram à vida acadêmica. Muitos professores, depois, tendo
participado desses episódios, conseguiram se recompor e até se readequar à
vida acadêmica.
Depoimento 10 – Antônio Luiz Caldas Júnior 217
Após esse período, com os professores Nagle e Landim, que cumpriram
muito bem esse papel, foi feito um novo estatuto da Universidade, com reuniões memoráveis em Araraquara e em Jaboticabal. Foi um estatuto democrático. Está aí a nossa Unesp, com sua grandeza. Mas foi um parto muito difícil,
de oito anos de luta. De um início muito conturbado, com todas as consequências que isso teve, de deformidades, algumas até hoje presentes: departamentos
criados, dissolvidos; cursos transferidos, professores transferidos... Ainda bem
que nós não tínhamos um câmpus avançado na Sibéria, porque senão alguns
professores teriam sido enviados pra lá.
Tinha um câmpus avançado, na Antártida, mas nenhum professor chegou
a ser mandado para lá, mas passou perto. Pois nós tivemos professores com
transferências totalmente violentas. Professores que adormeciam numa cidade
e acordavam com o nome no Diário Oficial transferidos para outras unidades,
uma violência, uma arbitrariedade total.
O professor Armando simbolizou essa crise na Reitoria. Ele era um bom
articulador político. Mas, na verdade, foi um conjunto de pessoas, porque ele
não foi um ditador absolutista; ele não foi aquele cara que é “eu e mais ninguém,
aqui quem manda sou eu”. Não foi. Na verdade, o Armando era o maestro de
uma orquestra conservadora que dirigia a Unesp nesse período. Fica fácil execrar [o prof. Armando], até porque ele já faleceu. Ele era uma pessoa que veio
da universidade e teve um final de vida acadêmica sumida. Ele foi diferente de
outros, como na política nacional: certos elementos que participaram dos governos ditatoriais foram execrados pelo resto da vida. Outros estão aí até hoje,
inclusive com cargos importantes.
O Armando permaneceu no comando o tempo inteiro. Em meados de
1984, acabou o seu mandato e o governador não indicou novo nome. Então
assumiu interinamente o professor Manuel Nunes Dias. Ele ficou um período,
quando houve a transição. O Armando poderia ter se recandidatado inclusive.
Talvez houvesse alguma advertência, uma discussão jurídica porque, na verdade, ele tinha cumprido o mandato. De vice, sim, mas ele assumiu [a reitoria]. É
que na Unesp até hoje é assim, quer dizer, o Tancredo morreu, o Sarney virou
presidente. O Collor saiu, o Itamar virou presidente. Agora, vamos pegar o
período democrático, de normalidade: o professor Durigan, nosso reitor atual,
ficou lá três anos, quase quatro anos como vice-reitor no exercício da Reitoria,
218 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
pelo afastamento do professor Herman. O Armando também porque o Luiz
Ferreira Martins foi ser secretário.
Mas, enfim: o Armando tinha o comando, ele era o comandante disso tudo
– ele assumia esse papel e não se importava se o xingavam ou não. Então, ele
era uma pessoa que tinha o comando dessa estrutura e estava à frente, mas era
um grupo de pessoas que sustentavam. Era uma federação do autoritarismo
porque havia as representações locais em todas as unidades. Havia algumas
unidades mais rebeldes, digamos assim, mas era minoria. Na maior parte das
unidades tocavam na orquestra do professor Armando, essa é a realidade. Nós
chegamos a ter episódios tristes. Eu me lembro pelo menos de uma intervenção
de um professor que foi incluído numa lista e não fazia parte da comunidade
universitária, se não estou enganado, em Presidente Prudente. Não era bem um
interventor porque ele entrou na lista. Dava-se um jeito de colocar a pessoa na
lista. Havia procedimentos escandalosos.
A expectativa que a população tem é que a universidade seja um ambiente
acadêmico, todo formalista, todo mundo de beca. Essas coisas são próprias de
um clube de futebol, um clube de baralho. Infelizmente isso se passou. Os regimes ditatoriais, de força, eles tendem a situações bizarras. A história está cheia
de exemplos desses. Há uma decadência e se chega num ponto que infelizmente
a Unesp teve que passar, mesmo sendo tão jovem na época.
Unesp: repressão e resistência
A criação da Unesp foi de grande relevância. Apesar de tudo, o fato de o
governador ter criado a Universidade foi bom historicamente. Mas os institutos
isolados, cada um no seu lado, se constituíram em núcleos de rebeldia mais difíceis de se debelar e isso estava em dissintonia com o movimento geral, de centralização política que havia no país. Do mando centralizado. A Unesp acabou
nascendo assim, nesse clima, entre trancos e barrancos. Tudo isso aconteceu
e ao mesmo tempo a universidade se desenvolvia, muita coisa foi feita nesse
período. Como muito foi feito no Brasil na época da Ditadura, inclusive coisas
duradouras, importantes e relevantes; é um paradoxo. Para a universidade, foi
um período difícil do ponto de vista político, mas obras e realizações também
foram feitas. Teria que haver uma barganha do poder público, do poder cons-
Depoimento 10 – Antônio Luiz Caldas Júnior 219
tituído com a universidade. Muitas unidades avançaram do ponto de vista de
obras e de instalações. Foi um período rico [em construções].
Os institutos isolados também padeciam de uma falta de proximidade com
o poder central. Com a Unesp, isso foi garantido pela presença de reitores que
iam lá, se colocavam diante do governador e negociavam. Mas essa política de
centralização [de verbas] teria sido melhor usufruída [aqui] se a Unesp tivesse
sido criada antes, entre os anos 1960 e 1970, quando o rigor da Ditadura era
muito maior. Na Unesp, o tiro [da ditadura] saiu um pouco pela culatra, porque
essa unidade também aproximou não só as direções, constituindo poder, mas
ela aproximou também a comunidade universitária. Todo esse movimento [de
resistência] talvez não tivesse acontecido se não existisse a Unesp – cada faculdade ficaria lá, cuidando de si.
São as contradições. Contradições como o capitalismo: ele vai se desenvolvendo, e se constitui também dentro dele o germe da contestação. Então os
estudantes, os professores, os funcionários dos antigos institutos isolados agora
adquiriam força, porque eles passavam a pertencer à mesma universidade.
A greve de 1979
Essa consciência foi adquirida pelos professores e pelos funcionários, especialmente em 1979, com uma greve que durou quase 60 dias. Foi uma famosa greve do funcionalismo e que nos aproximou, porque até então as unidades
eram distantes, por força da Ditadura e desorganização política da sociedade.
Essa greve cimentou as relações entre a comunidade universitária da Unesp,
pelo menos entre professores e funcionários. Foi a greve dos 70% mais 2000.
E o movimento estudantil também. Era o Maluf o governador. Ele deixou os
70% pra lá e deu 2000 para todo mundo, e concedeu um aumento em separado
para os professores.
O Maluf foi muito hábil em dividir o movimento. Ficou uma sequela durante muitos anos dos servidores técnico-administrativos, acusando os professores de os terem abandonado e traído. Eu participei ativamente dessa greve.
Ela teve uma grande importância.
Então a Unesp, por força, foi criada para ter uma reitoria forte, um comando forte no ensino superior do interior do Estado. Mas ela tinha dentro dela
220 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
mesmo o germe da organização pela qual foi um exemplo. Esse movimento na
Unesp pelo reforma do Estatuto antecedeu qualquer outro no Estado – aconteceu antes da USP e da Unicamp. Foi o primeiro ato de rebeldia organizado contra esse poder conservador, autoritário que estava instalado nas universidades
do Estado e começou exatamente pela Unesp em 1983.
Na verdade a greve de 1979 era uma greve do funcionalismo. Porque naquela época os professores e funcionários da Unesp eram mais funcionários do
que são hoje, porque o nosso aumento era comum. O governador dava um aumento para todo mundo: Educação, Saúde, universidades. Era o mesmo índice.
Depois isso foi fragmentado e hoje então a polícia tem um aumento, o professor
tem outro, as categorias de profissionais negociam em separado, como o Fórum das Seis e a APEOESP. Aliás, nem existia representação sindical, embora
houvesse associações, como a Adunesp. A negociação era mais bruta, era feita
como movimento de greve porque não tinha representação sindical. Então os
70% mais 2000 foi uma greve do funcionalismo público do Estado, não foi das
universidades. Durou quase dois meses.
A Unesp teve um peso grande na greve, com a adesão dos professores. Foi
um fator de fomento, porque tinha funcionário público universitário em Araraquara, em Assis, em todas as cidades das unidades, e isso “contaminava” todo
o funcionalismo da região. Era um exemplo que era dado pela tradição de rebeldia das universidades. 1979 foi o ano em que a UNE foi refundada e os alunos começavam um movimento de reorganização dos diretórios acadêmicos.
A Unesp carregou essa greve no interior. Foi logo no começo do governo do
Paulo Maluf, dia 17 de abril de 1979, a primeira greve de grandes proporções
no funcionalismo público estadual. Depois do Golpe foi a primeira greve de
funcionalismo com essa envergadura institucional. Ela se dava no plano dos
trabalhadores, os docentes e funcionários técnico-administrativos.
A visita de Maluf à FMB em 1981
Para não dizer que nunca houve truculência, houve dois episódios que me
recordo. Um deles foi uma invasão dentro do câmpus de Botucatu pela polícia,
com prisão de alunos, mas não posso falar muito sobre isso, pois não estava
presente. O episódio em que fui testemunha ocular foi o seguinte: o Governo
Depoimento 10 – Antônio Luiz Caldas Júnior 221
brasileiro tinha um acordo com a Alemanha Oriental – uma infiltração comunista aqui – de troca de café por equipamentos. A Alemanha Oriental produzia
alguns equipamentos na área de radiologia e, sobretudo na de microscopia. Em
1981, o Maluf veio a Botucatu entregar os microscópios. Foi feita uma reunião
no auditório do Instituto de Biociências com o alto comando das quatro unidades do câmpus para receber o governador.
O Maluf veio com uma comitiva de ônibus. Havia pouco mais de cem pessoas no auditório. Do lado de fora, estudantes fazendo manifestação, pedindo
mais verbas para a Educação e a defesa do ensino público. Professores estavam
juntos, inclusive eu. Auditório lotado, muita gente do lado de fora e, de repente,
um dos integrantes de seguranças à paisana da comitiva do Maluf, conhecido
por Kojak, irmão do ex-jogador Serginho Chulapa, investiu, com outros “seguranças”, contra os alunos e começou uma pancadaria. Os alunos cantavam um
antigo samba – “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão” – e aquilo tinha
sido a gota d’água. Os alunos fugiram, todos correndo. Foi pancadaria com o
próprio material que os estudantes usavam. Este Kojak tinha se envolvido em
outro ato violento, no bairro da Mooca, em São Paulo, dias antes.
O governador saiu por um corredor para chegar ao seu ônibus, que acabou
levando uma chuva de torrões. Foi um episódio ridículo, com repercussão na
imprensa, pois lembrava aquele na Mooca. Foi muito tenso, por sorte ninguém
se feriu. Mas são os retratos da ditadura: um governador eleito indiretamente
visitando o câmpus, uma tropa de choque, um pessoal barra-pesada acompanhando, tudo muito sinistro. Uma vez nos encontramos, professores e o prefeito de Botucatu, com o Maluf em Brasília. Ele tem uma empresa em Botucatu, a
Eucatex. Lembrou daquele fato: “gosto muito de Botucatu, mas foi uma ingratidão, fui lá entregar uns microscópios e jogaram terra, pedra”.
O malufismo e a Unesp
O Montoro entrou em 1983, todos esses episódios que vieram depois não
tinham mais o Maluf na história. Não havia o malufismo na universidade. Não
foi um governador que determinou que a Universidade fosse daquele jeito. Até
porque, quando a Unesp surgiu, nem era o Maluf o governador, ele entrou depois. Talvez alimentasse algum ato de autoritarismo, mas eu não diria que era
222 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
decorrente, porque elas estavam antes e depois do Maluf. Aliás, diga-se de passagem, essa greve de 1979 foi feita no período do Maluf.
Então, em minha opinião, o malufismo funcionou, na universidade, como
uma desculpa. Então naquele período “ah, era o malufismo”. Sinceramente, o
Maluf podia alimentar esse comportamento, mas esse comportamento era da
universidade, era da Unesp. Tinha sustentação na pessoa do Maluf. Mas e antes?
O Maluf era um cara cruento do ponto de vista do período que a gente
viveu. O Paulo Egydio “era um governador, era um democrata, era o menos
pior”. Mas o Egydio foi governador de 1975 a 1978. Foi no governo dele que
morreram o Vladmir Herzog e o Manoel Fiel Filho. Vão dizer: “ah, mas isso aí
não tem nada a ver”, mas ele era o governador. Foi criada a Unesp neste período com fortes traços de autoritarismo. Muitos dizem que o Paulo Egydio era
daqueles que resistia. Há quem diga “mataram o Herzog para por o Paulo e o
presidente Geisel em situação difícil”. Mas houve uma grande repressão, por
exemplo, na Guarda Civil do Estado em 1975, e o Paulo Egydio tem essa aura
de, como se fosse um cara mais da ditabranda, menos ditador que o Maluf. E o
Maluf, na Unesp, significou a truculência. Ele a personificou.
O Maluf acabou acirrando a greve de 1979. Foi um momento que o Maluf
conseguiu catalisar o funcionalismo. É lógico que havia lá as greves no ABC, o
ambiente político era outro. Mas ele tinha o dom, com certas frases, de propiciar a unidade de forças tão diferentes. Raras pessoas aqui ficaram à margem
da greve, foi uma unanimidade isso aqui. Tanto é verdade que não emanavam
ordens da Reitoria para cortar ponto, para punir pessoas. Nada disso aconteceu
aqui. As congregações, os diretores ficaram na deles! Alguns mais truculentos.
Mas, de uma forma geral, na greve de 1979 quem era força? Era o malufismo.
Eu não tenho a menor dúvida de que o Maluf de certa forma acobertou o autoritarismo. “Ah, era o Maluf...” não, não era o Maluf; ele tinha agentes aqui que
não eram malufistas. Já existiam antes. Mas vestiram esse manto autoritário.
Por mais que a universidade tivesse sido violentada nesse episódio, havia
um respeito. Nesse período já não entrava polícia nos campi universitários, não
fazia parte eles prenderem professores, estava fora de moda! Maluf em pouco
tempo reintroduz isso. Em 1979, aqui foi comprado um caixão para enterrar
o Maluf e alguns professores foram conduzidos à delegacia. Foi uma passeata
daquelas. Foi apreendido o caixão, o carro do professor e os professores foram
todos dar explicação na delegacia. Ninguém foi preso, mas ainda havia um
Depoimento 10 – Antônio Luiz Caldas Júnior 223
clima de resquício da ditadura. Naquela greve de 1979 houve umas 20 passeatas aqui na cidade. Alguns professores iam negociar com o delegado. Embora
emanassem do Maluf ordens para a repressão.
Aquela greve foi exemplar porque foi criado um Comando de Greve, que
de fato administrou as faculdades aqui durante dois meses. Os diretores se recolheram nos atos formais administrativos – hospital, pesquisa – o professor
ia lá no Comando..., mas muitas atividades continuaram, porque nós não podíamos fazer greve para nos prejudicar. Experimentos, atendimento do hospital, quem decidia isso era o Comando. A direção das faculdades tirou o time:
“vocês administrem aí a greve”. Foi administrada assim. E o “monstro era o
Maluf”. Nossa luta era contra o malufismo. O Maluf tem essa característica
de ser polêmico.
Tem um episódio interessante. O Maluf fez uma viagem para o Japão. Lotou um ou dois aviões de empresários e professores das três universidades, vários de Botucatu. Foi chamado “trem da alegria” e expôs muitas pessoas que
aceitaram ir, porque a imprensa denunciava que foram lá gastar dinheiro. Então, de fato, o malufismo teve uma marca importante nesse início da Unesp. Ele
depois foi embora e veio o Montoro.
Em São Paulo, com a eleição do Montoro, tudo se amenizou. O Maluf acabou sendo, nos últimos momentos da Ditadura, o baluarte – que já não era
um militar, era um civil –, que poderia ser o possível presidente do Brasil. Ele
sucederia o Figueiredo, seria algo bizarro. Ficava cada vez mais longe o período
mais duro, mais cruento, que foi o final dos anos 1960 até 1978. No Estado de
São Paulo os municípios, as prefeituras avançavam.
A Unesp na ditadura
Na Unesp houve uma polarização porque ela era muito novinha. Havia
muitos professores de esquerda que vieram para cá – eu falo por Botucatu. Professores que eram perseguidos, que sabiam que lá na USP não iriam prosperar,
e que disseram “vamos lá pro interior”. Era quase um exílio aqui. Há muitos
depoimentos de professores assim. A universidade se tornava cada vez mais
conservadora depois do Golpe. Aqui [na Unesp] tinha um projeto. Não era libertário, mas havia um projeto [político]-pedagógico.
224 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Dentro do projeto político na Faculdade de Medicina, a [área] Saúde Pública era vista por uma ótica progressista. Havia um compromisso dos professores
que não era a política oficial. Infelizmente essa disciplina era superconservadora na faculdade, os professores eram conservadores. Mesmo assim, havia contradições dentro desse conservadorismo.
A faculdade de Medicina de Botucatu: posicionamento
político
Fizemos uma greve na EPM em 1974 que durou quase um mês. [...] Nesta
greve, tivemos muitos conflitos com o diretor, que devia receber muita pressão,
mas nenhum ato de repressão foi feito. Mantivemos a greve por umas três semanas, repercussão no Jornal Nacional. O objetivo era a melhoria do financiamento do Hospital São Paulo. Uma comitiva chegou a ser recebida pelo MEC, em
Brasília. Mas era uma ousadia fazer greve, parou mesmo, não teve aula! Qual foi
a postura da universidade: nenhum aluno foi ameaçado, posto pra fora.
Então, veja só, aqui na Unesp, que foi um lugar onde vim me abrigar por ser
um espaço democrático, vi coisas aqui que eu não vi lá. E aqui, já tinha se passado certo tempo, não cabia mais um negócio desses. Em 1982, não daria para
imaginar a polícia entrar na EPM ou na USP. Não havia mais clima para isso.
Na Unesp isso durou ainda muito tempo. Aqui o embate político era explícito.
Em geral, os cursos de Humanas geram um calor maior, mas aqui na Unesp,
ao contrário de outros lugares, na Medicina o clima também era acalorado,
diferente, por exemplo, do que acontecia na EPM ou na USP.
Lembro que um programa democrático aqui era ir às formaturas no fim
do ano, porque era um evento unificado, com todas as faculdades de Botucatu. Os alunos sempre escolhiam os professores à esquerda. Esses professores,
os paraninfos, tinham a oportunidade de discursar. Os seus discursos eram
publicados, porque eram manifestos a favor da democracia, a favor da Saúde
Pública, a favor da Veterinária, da Agronomia.
Aqui nós tivemos um episódio gritante. Um professor foi afastado em fins
dos anos 1970. Armaram uma arapuca para ele. Ele foi execrado publicamente
aqui e foi de volta para a Alemanha, de onde ele tinha vindo. Criaram uma situação constrangedora para esse professor e ele foi embora. Ele acabou virando
Depoimento 10 – Antônio Luiz Caldas Júnior 225
paraninfo da turma. Voltou para isso. Imagina a cena: o diretor lá, aquele que
mandou o cara embora, e o professor, vinha lá e rasgava o verbo.
Eu me formei na EPM. Lá, na formatura, como na Faculdade de Medicina da USP, ninguém falava nada. Ficava no enaltecimento da Medicina, muito
academicismo. Enquanto que aqui não. Aqui cada formatura da Medicina era
uma tese de Sociologia, porque os alunos caprichavam, sempre homenageavam
os professores que mais radicalizavam. Defensores da democracia, da liberdade
democrática, ou do exercício ético das profissões, do compromisso acadêmico,
científico, mais libertário...; esses eram os temas. Não que agora as formaturas
não sejam assim, mas não é momento mais disso, há outras oportunidades de
expressão política. Então, aqui na Unesp, eu posso dizer que a luta política aqui
era muito mais polarizada.
A ingerência política
Aconteciam delações no interior do próprio professorado. Passou a haver
dois grupos bem distintos. Eu senti isso tanto nos professores que relataram o
que aconteceu no Golpe, quanto na criação da Unesp, que é quando há o ‘remanejamento’. As demissões com o Golpe de 1964 fazem com que os professores sejam remanejados. Professores foram para câmpus que eram considerados
mais à esquerda, mais à direita.
A USP tinha uma cara mais conservadora, porque também foi vítima de
uma repressão muito mais violenta após o Golpe de 1964. Mesmo na Medicina,
muitos professores foram cassados, demitidos ou aposentados. Como o FHC.
Fizeram uma limpa na USP, de professores, de alunos, de tudo. A Unicamp, a
gente sempre imaginava ser uma universidade mais liberal. Aqui havia muitos
professores liberais, defensores da liberdade acima de tudo. Não eram de esquerda, mas não admitiam essa ingerência ditatorial. social-democrata. Acho
que foi onde mais se acirrou essa luta entre professores.
A situação recrudesceu na Unesp justamente quando as outras universidades já estavam se estabilizando. E como era um período no qual a Ditadura
degringolava, ficou essa cara meio extemporânea. Não houve essa confusão em
1982 e 1983, nem na USP nem na Unicamp.
226 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
Eu acho que lá os reacionários eram internos. Essa coisa de o governador
intervir, meter a colher, na Unesp foi muito mais condescendente. Mesmo com
a história do malufismo. Nesse sentido tem razão de a Unesp ter se flexionado
muito mais. A Unicamp se manteve na dela, a USP não se envolvia diretamente.
Na Unesp, isso foi mais escancarado, com poderes locais, interesses, intervenção de deputado. A Unesp se devassou muito diante da Ditadura. Até pela forma como ela foi criada. Eu imagino que os caras ficavam fazendo conta: “Como
é que vai ser aqui..., vamos montar.... Ah, põe para cá, como vamos compor o
poder ali? Junta esse departamento com aquele”. Veja, não existe uma faculdade de Medicina no mundo que tenha essa composição de departamentos [como
a de Botucatu]. Isso aconteceu em todas as unidades da Unesp. Colocaram em
um departamento só uns três ou quatro, com um chefe só. Pegavam outro departamento e desmembravam. Temos unidade aqui que não tem quem junte.
O câmpus de Botucatu foi repartido em quatro. Há unidade da Unesp, como
é o caso de Araçatuba, em que o aluno se forma veterinário da Faculdade de
Odontologia. Isso tinha significados políticos dentro da Unesp. [...]
[Nos anos 80 já] havia um movimento de democratização [no país]. Na
Unesp fizeram o contrário, havia um movimento de contrafluxo. Felizmente o
Montoro falou: “não, chega!”. Estávamos elegendo o Sarney presidente e aqui ia
continuar na mesma lenga-lenga. Ainda bem que o Montoro cortou o barato e
o Nagle tornou-se reitor. Senão era capaz de ter ficado até 1988 na mesma toada
autoritária. E aqui nós tínhamos um potencial, tanto que a Unesp fez uma bela
reformulação estatutária, um movimento muito bonito. Foi aí que, de fato, a
Unesp nasceu. Rigorosamente a Unesp com dignidade, como a gente vê hoje,
que teve sua “estatuinte”, que se criou um congresso de elaboração do regimento, mudou muita coisa. Mas foi aí que a Unes passou a ter uma cara mesmo
bacana, porque o Nagle ele deu uma oxigenada democrática.
DEPOIMENTO 11
Luis Carlos Ferreira de Almeida
Professor do câmpus experimental da Unesp de Registro. Teve uma importante
atuação nos episódios que envolveram a violação aos Direitos Humanos na
Unesp durante a ditadura militar. Ele relata sua militância política no movimento estudantil, como aluno da Unesp.
Graduação em Botucatu
E
studei Agronomia em Botucatu de 1979 a 1982. Quando lá ingressei, já
tinha um pouco de formação política. Eu vinha de Osasco e, desde 1976,
tinha contato com um colega cujo pai era líder sindical, ligado à construção
civil. Com outros colegas, pois na família esta discussão passava longe, formávamos uma turma que sempre discutia política, inspirados neste sindicalista,
do qual só lembro o sobrenome, Pereira. Cheguei a participar de um grupo
que concorreu para a direção do centro acadêmico do meu colégio. Era centro
cívico na época. Lá também estudava o petista João Paulo Cunha, que depois
se tornaria deputado federal. Eu morava no bairro de Quitaúna, e me lembro
bem dos cartazes quando tinha 13 ou 14 anos: “procurado”, “terrorista”, “o cara
matou sua família”. Tive colega que desapareceu na época.
O Pereira, neste trabalho sindical, distribuía um jornal chamado Unidade
Proletária, principalmente entre os estudantes secundaristas. Lembro que eu
tinha um livro de informação política chamado Brasil Socialista. Eu era tipógrafo e, quando cheguei à universidade, trazia a ideia de que naquele lugar era
possível fazer algum tipo de política. De certa forma, era uma irresponsabilidade muito grande, pois em meados da década de 1970, a atuação política era
228 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
arriscada. Reuníamos eu, um colega chamado Daniel e outros, com um quadro
do grupo MR8, com livros e outros materiais, e, se tivesse sido pego, a história
certamente teria sido diferente para mim.
Na faculdade, eu nunca tive vontade de participar de centro acadêmico.
Para mim, a discussão já valia a pena. Para dizer a verdade, eu nunca fui uma
liderança, aquela pessoa que estivesse à frente do movimento.
Quando começou a campanha pela anistia, achávamos que tínhamos que
nos engajar nesta questão, espalhar a discussão em Botucatu. Anistia ampla,
geral e irrestrita. Para tanto, promovemos, no auge desta discussão, uma ação:
pichação. Para nós, era o instrumento mais barato, mais eficaz e de melhor visibilidade numa cidade que não tinha nenhum tipo de pichação. Era algo que eu
trazia do meio urbano. Juntamente com um colega, no dia 13 de agosto, comecei
na periferia e fui em direção ao centro. Chegamos a pichar a delegacia de polícia!
Mexemos num vespeiro. Tínhamos terminado a pichação quando passou por
nós uma rádio patrulha. Um deles falou: “esses dois aí, tão com cara muito suspeita”. Chamaram a gente, pressionando. “Não sabemos de nada, nada”, defendíamos. Mas encontraram a lata, ainda com um pouco de tinta, e acabamos presos.
O próprio movimento militar, naquele momento, estava muito tenso contra esse tipo de manifestação e qualquer situação que fugisse do controle era
vista como algo perigoso. Mesmo uma pichação. Fomos fichados, fotografados
e a informação foi parar no DOPS, em São Paulo. Para piorar, eu tinha uma
carta de uma amiga minha que nas entrelinhas daria a entender que eu tinha
algo a ver com o PCdoB. Eu nunca tive nada com esse partido. Assim, de uma
hora para outra passei a ser um membro do PCdoB que pichava pela anistia
como membro do partido. Tudo registrado em documentos que recuperei posteriormente, incluindo informações de minhas passagens por São Paulo. Para
ver como era o aparato repressor naquela época. Comecei, então, a ter a real
dimensão desse tipo de ato.
Dormimos na cadeia e fomos liberados de manhã, ordenados a nos apresentar depois e prestar um novo depoimento. Na noite em que fiquei na delegacia,
um dos delegados, que devia ser do DOPS, falava em tom ameaçador: “a sua sorte
é que essa questão da anistia está muito forte agora. Se fosse alguns meses atrás,
você iria para o Barro Branco”. Então, eu pensei: “No Barro Branco é para onde
mandam as pessoas que são pegas aqui e certamente não é para uma conversa”.
Depoimento 11 – Luis Carlos Ferreira de Almeida 229
Quando fui no outro dia prestar depoimento, saí de lá com três processos
referentes à Lei de Segurança Nacional, a LSN. E aí é que está a questão interessante: como é que se fala em anistia ampla, geral e restrita? Como é que você
fala em abertura? Como é que você fala numa série de coisas e no meio desse
processo pegam-se dois estudantes e os enquadra na LSN? Que democratização é essa? Na verdade, poderia ter pego uma pena de até oito anos de prisão
por pertencer a partido clandestino, por ofensa às forças armadas e às autoridades constituídas. Simplesmente por ter pichado uma delegacia.
Depois descobri que na mesma época tinha um outro grupo pichando na
região em Botucatu. Acharam que nós éramos um braço desse pessoal. Nosso
spray era azul e a primeira pergunta que fizeram foi: “cadê a lata do spray vermelho”? Eu falei: “desconheço”. “Não, você sabe”. Aí que veio a questão: “Fosse
antes, você iria falar quem era”. Porque não tomamos umas bolachas, não houve agressão física: “vontade era mandar você pra lá, lá você iria falar”. A questão
era bem por aí. Na Academia de Polícia do Barro Branco teria sido muito pior.
O meu colega também não tinha envolvimento político anterior, como eu.
Nunca mais o vi. Eu acabei tendo um processo, que previa uma pena de oito anos,
e ele um processo que previa uma pena de seis a quatro anos. Lembro que ele falou: “essa coisa é bem maior do que eu imaginava”. Eu sabia o que estava fazendo,
qual era o objetivo, acho que ele, não. Ele achou que fosse algo meio oba-oba.
Nessa situação tem que ter um advogado. E o delegado, no DOPS de Botucatu, falou para o meu advogado: “melhor seu amigo arrumar um bom advogado”.
A Ditadura estava enfraquecida, mas o aparato de mantê-la funcionando; de
fazer inquérito, ainda funcionava muito bem. Imagina, duas, três, quatro horas
depondo, falando “não, não sei de nada de spray vermelho”. E tinha uma coisa
assim: “me leve ao seu líder”. Eles queriam saber de uma verdade que não existia.
Nunca mais soube do Pereira. Ele desapareceu. Quando houve, em 1977,
um episódio na Lapa, muitos simpatizantes do PCdoB foram mortos, e o Pereira, que era do MR-8, diga-se de passagem, desapareceu. Mesmo porque ele não
tinha nome nem sobrenome, era simplesmente o tal do Pereira.
Aí tive que arrumar um advogado. Na verdade, quem foi o meu advogado
em Botucatu, antes de eu prestar depoimento, foi o Agostinho Torres, já falecido. Em São Paulo, havia outro advogado que estava levando à frente essas
questões da anistia. Uma vez eu saí de madrugada para São Paulo, conversei
com ele em frente ao antigo prédio do DOPS. Levei o que tinha em mãos e a
230 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
orientação que eu tive era para me manter calmo e deixar a coisa fluir. O tempo
foi passando e, veja só, a discussão da anistia correndo no Congresso. Isso é que
era mais paradoxal.
Daí, eu vim a saber depois que a anistia estava prevista para todos os crimes até o dia 31 julho. Na verdade, os eventos aqui foram em 13 de agosto.
A situação que a própria ditadura causou para ela mesma, você anistia todo
mundo até 31 de julho, zera essa conta. No dia 14 de agosto, você enquadra dois
estudantes na LSN.
Faltando uns dez dias para terminar agosto, promulgaram a Lei da Anistia,
valendo para todos os casos que estavam enquadrados até a data da promulgação. Toda essa história desapareceu. Eu fui chamado na delegacia e o delegado
falou: “nós vamos transformar isso aí só numa sindicância”. Eu nem esperei
para perguntar muito sobre como seria a tal da sindicância. Eu saí, não quis
saber muito o que era, só sei que não tinha que falar nada.
Eles zeraram tudo. Senão, como explicar dois novos processados naquela
situação de Lei de Anistia? Muito contraditório. O aparato do Estado estava
mesmo por baixo. Até que ponto ele realmente deixou de funcionar? Porque
o Estado continuava prendendo, enquadrando. Não estava claro se havia um
processo de anistia em andamento ou não. Tenho isso tudo registrado.
A movimentação política na Unesp
Toda a movimentação política se dava dentro da Unesp. Politicamente havia duas faculdades em Botucatu. Uma particular e a Unesp que, para eles era
uma coisa só. Falar que era estudante queria dizer que era da Unesp, não importa onde estudava.
A ficha que eu tenho é de 1º de setembro. Fazia um ano que tinha acontecido aquele fato e estavam atualizando minha ficha. Colocaram até a inscrição
da UNE, o que era importante, pois estava no momento de reconstrução da
UNE. Era 1980: “ouvido em declaração nos autos de investigação dois, de 1979,
do setor de ordem política e social de Botucatu no dia 14 de agosto de 1979 por
ter sido surpreendido pichando prédio da cidade utilizando azul escuro, escrevendo frases subversivas. Arquivado em 25 de agosto de 1980”.
Depoimento 11 – Luis Carlos Ferreira de Almeida 231
Essa era a tal de redemocratização, eu ainda estava na mira. Em 22 de julho
de 82, quase me formando, e, na ficha, que eu acho que tinha que sempre ser
atualizada: “consta que o nominado é procurador geral do Centro Acadêmico
Pirajá da Silva, documento na pasta de Botucatu”. O rastreamento permanecia.
E olha que tinha colegas muito mais engajados, que estavam discutindo a
UNE. Então, que tipo de ingerência ainda deveria existir para essas pessoas?
Por que, se três anos depois de uma coisa arquivada, que não teria nenhum
tipo de prosseguimento, ainda existe alguém querendo saber o que essa pessoa
faz dentro da universidade? Até meu endereço atualizaram. Aliás, eles tinham
todos os meus endereços, até meu apelido, Tuca.
O interessante disso tudo é que a gente consegue, documentalmente, por
acaso, mostrar que o aparato ainda funcionava até o início dos anos 1980. Havia a redemocratização em 1982, com as eleições para governador. Mas ainda te
acompanhavam, atualizavam seu endereço, o ano de sua turma da faculdade,
o seu cargo no centro acadêmico. Percebo, então, a Unesp alinhada totalmente
com o Governo do Estado.
Na direção do centro acadêmico em oposição ao diretório
acadêmico
Eu fui diretor por três gestões consecutivas, 1979-80, 1980-81, 1981-82. Foi
a oportunidade de me engajar melhor no movimento estudantil. A Unesp tentou criar um diretório acadêmico dentro de Botucatu e esse diretório tinha
voz dentro da Universidade. Ele era reconhecido, o centro acadêmico, não. O
centro acadêmico não tinha nem espaço dentro do câmpus. Uma certa ocasião,
tentamos negociar com o diretor a área de vivência do câmpus, não houve acordo e acabamos despejados. Nossa sede era uma sala dentro do hospital.
O diretor do Grupo Administrativo do Câmpus, o GAC, não conversava com o centro acadêmico. Ele conversava com grupos de estudantes, menos
com o centro acadêmico. Eu era o representante dos estudantes junto ao GAC
para aquela área de vivência, administrada pelo centro acadêmico. Como estudantes, não conhecíamos como funcionava o processo eleitoral da Unesp.
Pegando o Estatuto da Unesp, de quando ela foi criada, [descobrimos que] lá
232 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
dizia que se aceitavam representações oficiais, reconhecidas, como era o caso
dos diretórios acadêmicos.
Eis uma questão interessante dentro da Unesp. Havia os ‘diretórios acadêmicos’ e os ‘centros acadêmicos’. Quando se montava uma entidade e ela
era independente, chamava-se centro acadêmico. Quando ela usava o termo
atrelado à Reitoria, à legislação, ela se tornava diretório acadêmico. Durante
o movimento estudantil, havia essa discussão, a existência de duas entidades
representativas. A Faculdade de Medicina criou um D.A., que não foi pra frente. Os estudantes na época se mobilizaram e o diretório foi fechado. Mais do
que ser criada no processo da ditadura militar, a Unesp queria ser o modelo de
universidade que a ditadura militar queria dentro da representação estudantil.
Havia estudantes que se submetiam a isso. Não sei se por ingenuidade, não
posso dizer, pois foi antes de eu entrar. Mas eu sei que a Universidade quis montar
uma situação assim: “olha, nós temos uma universidade aqui com as representações estudantis sob controle, com as estruturas sob controle, tudo sob controle”.
Paulo Maluf visita câmpus de Botucatu: violência contra
estudantes
Veja só, o governador Paulo Maluf foi a Botucatu. Passou primeiro no centro da cidade, foi recepcionado por escolares uniformizados. Depois foi para
Rubião Júnior doar equipamentos para a Unesp. A Universidade vivia uma crise de verbas e ele fez uma doação em solenidade num auditório lotado. Pessoas
foram convocadas a comparecer. Havia colegas, sabíamos, que tinham sido
convocados, entende-se, mas ninguém é obrigado a bater palmas. E tinha palmas efusivas.
Estávamos todos fora, denunciando, questionando: “o que o governador,
que está sucateando o ensino superior, vai fazer? Doar equipamentos que já estão aqui há muito tempo? Um ato político, é isso”? Fazíamos uma manifestação
ao lado, onde fica hoje o Instituto de Biociências; era um descampado na época.
E um guarda da segurança dele, o mesmo que participou de um episódio de
violência na Freguesia do Ó, em São Paulo, pega os ‘pirulitos’, aqueles cartazes
sustentados por uma vareta de madeira e parte pra cima da gente.
Depoimento 11 – Luis Carlos Ferreira de Almeida 233
Estávamos andando, sem organização, de improviso, é verdade, pois o
centro acadêmico estava desprestigiado naquela época. Isso também ajudou a
fortalecer nosso C.A. Aquilo foi um ultraje, até me emociono quando lembro.
A gente apanhou dentro do câmpus. Tenho um monte de fotos daquela manifestação. Olha o pessoal descendo o barranco, o aluno sendo empurrado, Foi
algo espontâneo nosso. Veja só o papel que a Unesp cumpria naquele momento.
Havia professores engajados, ao lado do Maluf. O diretor, se não estava
engajado, era omisso. Eu não sei o que é pecado maior, se alinhar e falar: “eu
sou malufista, ponto, muito bem, acabou”. O Maluf só foi para lá porque tinha
receptividade. Um governador tão impopular encontrou em Botucatu uma forma de se promover.
Muita gente nos culpou, dizendo que estragamos a festa do Maluf. Em relação aos seguranças, não fizemos nada, nada, nada. E apanhamos com as ripas de
madeira dos pirulitos. Os seguranças, sim, fizeram isso de forma coordenada.
Eu acho que eles não tinham ideia do poder de mobilização dos estudantes.
A gente saberia que era o momento crítico da universidade, principalmente a
questão das verbas. Era 1981. Partíamos para um processo de redemocratização, para a eleição de governador. A TV Cultura estava lá. Quando o Maluf saiu
do câmpus, foi feito um corredor, que não devia ser só de segurança. O pau
comendo lá fora, ele saiu nesse corredor polonês, escoltado, pessoas aplaudindo, feliz da vida, e o repórter ainda o entrevista: “tudo bem, governador? Está
sabendo de alguma coisa”? “Não, parece que tem alguns descontentes, alguma
coisa do gênero”, e embarcou no ônibus. A Unesp queria ser essa universidade
“bonitinha” frente aos governos de então.
Estou falando da Unesp da época. O movimento estudantil dentro da Universidade ficou amarrado a esta situação. Essa questão de democratização dentro da Unesp vem desde a década de 1980, já se discutia isso. Mas onde isso
esbarrava? Ser ou não ser atrelado? Nós, por conta de todo o histórico de luta
do centro acadêmico, de uma situação que já vinha desde a criação do curso
de Medicina, nós falamos: “não, tem que ser independente por uma questão de
princípio, porque nós somos Unesp”.
O Centro Acadêmico Pirajá da Silva surgiu na Faculdade de Medicina. Depois, foram incluídos novos cursos dentro do mesmo centro acadêmico, hoje
ele pertence só à Medicina de novo, ele volta ao seu processo original.
234 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
A Unesp queria isso. Nós fizemos, em 1981, uma reunião com o reitor, o
professor Armando Ramos. Era o grupo que estava construindo o DCE da
Unesp. Estávamos no gabinete, na Praça da Sé. Aí a liderança falou: “magnífico, nós queremos lamentar os episódios de Botucatu”. O reitor, então, tirou
uma foto do bolso: “olha, veja bem, vocês em Botucatu, vocês estão enterrando
o diretor, que falta de respeito”. Ele tinha uma foto daquele episódio, tirada
pelo serviço de segurança do Maluf.
A foto tinha chegado às mãos dele. Ele sabia quem era quem, lógico que
sabia. Ele mostrava a foto. A gente, jovem ainda, tem uma presença de espírito
que às vezes deixa as pessoas meio desarmadas. Eu falei: “senhor reitor, posso
ver essa foto? Eu quero ver. Esse aqui sou eu, queria uma lembrança do momento, uma cópia dessa foto para o meu álbum de retratos, pode mandar para
Botucatu aos cuidados do Tuca que a foto chega”. Lógico que essa foto nunca
chegou. Mas foi para mostrar que não seria uma fotografia que iria intimidar,
nos constranger.
O combate ao DCE
Entre os colegas havia pessoas mais engajadas que eu. Estou colocando a
minha participação dentro desse processo. Eu era um estudante dentro de uma
universidade que se indignou com um monte de coisas que acontecia dentro
dela. O DCE não saía da Unesp porque esbarrou naquela discussão que hoje eu
considero superada. Ou seja, de ser atrelado ou não, porque naquele momento,
no final dos anos 1970, isso era uma questão de princípio.
Nós não queríamos a estrutura de representação que a Unesp queria para
nós. Mesmo porque na USP e na Unicamp havia o DCE livre. A UNE foi reconstruída em 1979. Ou seja, naquele momento em que estávamos reconstruindo as
entidades livres de representação, iríamos nos ajustar a essa representação que
a Unesp propunha? Não, não queríamos.
Na verdade, isso foi um episódio. Tive que sair fugido de uma reunião do
movimento estudantil porque se votou pelo DCE atrelado. A palavra não deveria ser essa. Aí, tinha que ter uma composição de chapas. Em um dado momento, eu falo: “não, eu quero uns 15 minutos para discutir com o grupo que está
comigo aqui e quem votou contra”. Nós perdemos em três votos. Mas quem
Depoimento 11 – Luis Carlos Ferreira de Almeida 235
perdeu? Botucatu, Fatec e outra escola que eu não lembro. Só que Botucatu e
Fatec davam 60% ou 70% da Unesp, e nossa posição era a de ser livre.
Falamos: “a gente reconhece o processo, é legítimo, só que não concordamos com o DCE atrelado e saímos do processo. O que precisar ser feito para o
congresso, apoiamos, mas não vamos indicar componente para a chapa”. Essa
reunião foi em Araraquara. Então, tirou-se o presidente. O vice-presidente tinha
que ser alguém de Botucatu. Botucatu não indicou ninguém. Alguém da Fatec?
Fatec não indicou ninguém. Tiraram o vice-presidente. Secretário geral? Botucatu tinha que estar na chapa. Botucatu não indicou ninguém. Quando chegou
no terceiro cargo, a reunião acabou. Não teve chapa, não teve composição.
O centro acadêmico, seus conflitos internos e o
autoritarismo na Unesp
O CAPJ tinha uma estrutura diferente de cargos. Havia o presidente do
centro acadêmico, o vice-presidente, o procurador-geral que era responsável
juridicamente, respondendo pela firma centro acadêmico. A liderança política era o presidente. Naquela ocasião, estávamos eu, como procurador-geral,
e um rapaz, como presidente, quando a situação ficou feia, quase partimos
para a agressão física.
Se o ensino pago entrasse na Unesp, essa responsabilidade seria nossa. Por
isso não queríamos compactuar com essa questão do diretório acadêmico, era
contra nossos princípios, não teria sentido. A minha turma de faculdade era
um pessoal muito engajado politicamente, principalmente no movimento estudantil. O diretório sempre era atuante. No final do curso, houve um problema
com um aluno reprovado por faltas. Com três reprovações se perdia o curso.
Era a única universidade que aplicava isso. Estava no nosso regimento. Só poderia voltar dali a cinco anos.
Pois bem, um colega de turma reprovou três vezes em uma única disciplina. Ele reprova numa disciplina que na primeira ocasião reprovou todo mundo
a turma inteira tirou zero. Decidimos que ninguém faria a prova, todo mundo entregaria a prova em branco, as três provas. A turma toda veio com zero.
Reprova. Fizemos a tal da recuperação especial, ele ficou. Eu acho que ele tem
uma parcela de culpa nisso. A terceira prova coincidiu com a eleição e ele estava
236 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
engajado na campanha política. Reprovou por faltas, umas duas faltas. Resultado: ele perdeu, faltando 15 dias para a formatura, ele perdeu o curso.
Era um aluno brilhante, mas perdeu o curso inteiro porque ficou em uma
disciplina; então, na Unesp assim não se forma, não cola grau. Qual a implicação disso? Tem que fazer a placa de formatura. Quem foi paraninfo da nossa
turma? Foi o Dom Paulo Evaristo Arns. Ele vai à formatura. Quem foi o patrono da turma? Foi o centro acadêmico. É quem eles não queriam nunca ouvir.
Ou seja, também tínhamos as nossas as estratégias de resistência. Aconteceu
o seguinte: na hora de fazer a placa: “ah, tem que colocar o nome do reitor, o
nome do diretor”. Falei: “não, na nossa placa não vai botar o nome de ninguém,
se não botar nome, não tem placa, então, não tem placa”. Então, a 15ª turma de
Agronomia de Botucatu não tem placa até hoje.
Era 1982. Certamente erramos muito quando éramos estudantes. Éramos
intransigentes, mas hoje vemos que para certas coisas cabia uma certa intransigência. Mas, pensando com a cabeça de hoje, certamente faríamos tudo de
novo, igualzinho. Não iríamos compactuar com a presença de um reitor indicado pelo governador na placa. É algo que está mal resolvido até hoje. Tem
gente da turma morrendo, colegas nossos perguntam: “E a placa? E a placa? E
a placa”? E não tem placa.
Estávamos entre 1979 e 1982, era um momento rico. Eu era um estudante,
me formei em quatro anos, nunca tive dependência, a não ser essa em que a sala
toda resolveu zerar a disciplina. Nunca fui um aluno brilhante, mas também
não fui um aluno ruim.
Para encerrar essa questão, e o autoritarismo na Unesp? Quando falamos
da ditadura, da relação entre as pessoas, concluo que a Unesp era um braço da
ditadura. Fizemos uma prova no dia da colação de grau, com tumulto, com um
colega que perdeu um curso como se não fosse nada de mais. Quando termina
a prova, o professor chega e fala: “dependendo do comportamento de vocês na
colação de grau, é a nota”
Bom, nosso colega terminou o curso em outra escola. Na Unesp teria que
esperar cinco anos. Como era um aluno brilhante, fez vestibular para a ESALQ,
na USP, passou. Em um ano e meio terminou o curso lá. Na minha turma tem
um aluno formado na ESALQ, que vai aos nossos encontros. Colega meu até
hoje, muito amigo, um cara brilhante.
Depoimento 11 – Luis Carlos Ferreira de Almeida 237
A Unesp ontem e hoje
Essa era a Unesp que a gente vivia na época e digo, está acabando. Mas
acredito que ainda haja coisas deste tipo por aí, dentro dos vínculos da Universidade. Ela é muito grande, às vezes eu falo que a gente tem que ter um plural
para a Unesp, tem Unesps. Vai-se a um câmpus, a outro, há várias formas de as
coisas acontecerem.
Estou na Unesp há pouco tempo como professor, indo para o terceiro ano
no câmpus de Registro, fiquei um ano como substituto em Botucatu. Esta para
mim é a prova de que a Unesp mudou. Se fosse a mesma Unesp do passado,
acho que eu não passaria nem na porta. Eu fiz doutorado na Unesp, teminei
em 1996. Para mim, voltar à Unesp foi algo difícil. Quando eu voltei para fazer
meu doutorado, em 1994, foi uma grata surpresa o quanto eu fui bem acolhido
por essa nova universidade.
Eu não queria fazer na Unesp. Tentei Unicamp, passei, mas não abriu
vaga. Trabalhava em Sorocaba, não muito longe, terminei o doutorado em
dois anos e meio. Mas acho que é uma universidade que ainda tem que amadurecer. Olhando 1979, o tempo em que fui estudante, o tempo em que fiz
o doutorado, o tempo em que eu sou professor, acho que a universidade tem
que se enxergar no mesmo nível de USP e Unicamp. Na prática, no dia a dia,
às vezes tem-se a impressão de que ela se vê como prima pobre, como se tivesse complexo de inferioridade.
Até por conta das histórias dela, do processo de criação. Está no estatuto
original, o Conselho Universitário é C.O.; você passa trinta e tantos anos, ainda
tem a mesma sigla como C.O.; não se conseguiu mudar essa sigla. Onde se viu
Conselho Universitário? Para mim demonstra que ainda tem coisas perdidas
dentro na Unesp. Precisa se reciclar com os professores novos, que não sejam
dos institutos isolados, sem tirar o mérito dos antigos professores.
Ela precisa começar a se enxergar como uma universidade que quer buscar
um lugar no futuro e deixar para trás essas histórias que contei. É importante
que as pessoas conheçam a história. Ninguém sabe em Botucatu que nós não
temos placa: “olha, pessoal, as coisas nem sempre foram assim, já teve gente
brigando, lutando”. Tem pessoas que nunca foram políticas, mas simplesmente
se indignaram num dado momento, pessoas comuns, estudantes, e que viveram essa Unesp da qual estou falando.
238 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
As prioridades do movimento estudantil hoje
Com a UNE aconteceu assim, quanto mais ela era colocada na ilegalidade,
mais os estudantes levantaram a sua bandeira, até o fim. E foi o que houve com
a gente. Quanto mais ilegal eles queriam, mais a gente lutava. Daí, quando começa a redemocratização, o próprio centro acadêmico se esvazia. O movimento estudantil como um todo. Hoje a pauta do movimento estudantil dentro da
Unesp é por moradia, transporte gratuito, não há mais as discussões políticas
de antigamente. São momentos diferentes. De qualquer forma sempre acho que
hoje é melhor que na minha época, sempre há um avanço. Por mais que às
vezes pareça que não, existe avanço. Pode parecer: “ah, não tem movimento
estudantil engajado”, mas os alunos se movimentam de outra forma.
Não conseguimos acompanhar a velocidade do Facebook. Lá existe uma
outra linguagem. Dizem que mobiliza mais, eu questiono. Em 1968, houve
uma passeata de 100 mil pessoas no Rio de Janeiro, tudo divulgado por rádio.
Tinha rádio, mas o momento era outro. Para que que você mobilizaria cem
mil pessoas hoje? Em torno de quê? O show da Shakira? Talvez em torno do
passe livre. Este é um bom exemplo, embora seja um pavio de um monte de
coisa. Tem um descompasso entre o discurso oficial e o dia a dia das pessoas.
Alguma coisa está errada.
Mas acredito na Unesp, acredito, sim. Vamos colocar aqui todos os percalços da criação, mas o que não tem remédio remediado está. Ruim ou bom,
o processo de criação é assim. Acredito que a universidade que nós temos é a
universidade onde eu trabalho e, se eu não acreditasse, seria um contrassenso:
“como, você é professor e não acredita?”, acredito. Só que é a Universidade que
tem que sentar e discutir mais.
Comparamos com a Unicamp, por exemplo, em termos de benefícios para
professor, a Unesp: “pô, vocês têm isso?”, “nós temos”, “ah, na Unesp, não”. O
trato da universidade em relação a funcionário e docente da USP e na Unicamp
mostra que a Unesp tem muito a avançar ainda. Não é só isonomia salarial
do funcionário, é outra isonomia, que está em outro campo que envolve uma
mudança de cultura. Ela precisa se ver como igual, não simplesmente burocraticamente. A Unesp tem que se enxergar como uma universidade que quer um
lugar no futuro.
Nota final
E a pesquisa não pode parar...
P
elo cronograma previsto, encerra-se o projeto Tenho algo a dizer com a
publicação deste livro-relatório; todavia, a pesquisa sobre a repressão na
Unesp e os movimentos de resistência, na época da ditadura militar, está longe
de ser concluída. O projeto deixa aqui sua contribuição revelando parte dessa
história. Há ainda mais (ex) professores, funcionários e alunos que têm algo a
dizer, e certamente serão ouvidos pela Comissão da Verdade da Unesp, que ora
inicia seu trabalho com apoio de todos nós.
Em setembro de 2014, representantes da Comissão da Verdade da Unesp
noticiaram a existência do projeto de pesquisa Tenho algo a dizer, realizado
pelo CEDEM e OEDH da Unesp, em fase de conclusão, num encontro realizado
em São Paulo com integrantes de diversas comissões da verdade. A reunião foi
promovida pela Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog da Câmara
Municipal de São Paulo, com o objetivo de trocar informações e traçar diretrizes comuns para continuar as investigações dos casos de repressão e tortura no
Brasil. Estiveram também presentes membros e assessores da Comissão Nacional da Verdade, e integrantes da Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva,
das Comissões da Verdade da USP, Unifesp, PUCSP, da Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e
da Secretaria Municipal de Direitos Humanos.
Com a Comissão da Verdade da Unesp, mais revelações sobre o passado da instituição na ditadura poderão contribuir para compreendermos e
240 Tenho algo a dizer: memórias da Unesp na ditadura civil-militar (1964-1985)
enfrentarmos os desafios da universidade, hoje, com a mesma disposição e
crença daqueles que outrora sonharam e lutaram por uma educação pública
e de qualidade social.
O resgate das memórias dessas lutas do passado subsidia a compreensão do
presente e aponta caminhos para o futuro. O momento histórico do país exige
reformas importantes socioeconômicas e política para garantir uma transformação da democracia liberal, ainda muitas vezes formal, para uma democracia
social participativa. Somente assim serão garantidos a todos os direitos sociais
econômicos e culturais além dos civis e políticos.
Na universidade, esta transformação passa por um diálogo amplo e corajoso sobre questões de fundo, dentre outras, como: “autonomia da universidade
frente ao poder político partidário”, “representação efetiva e forte nos órgãos
colegiados”, “relações democráticas”, “presença da mulher, do negro e do pobre
na universidade”, “violações dos direitos humanos”, “política cultural”, enfim,
a “dimensão política do Projeto Político Pedagógico”.
Colocar em debate a ideia de uma estatuinte na Unesp é um bom começo.
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Tenho algo a dizer - Cultura Acadêmica