Teatro · PEÇAS NA POLITÉCNICA
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| DOMINGO · 21h30
TEATRO DA POLITÉCNICA
Armazém
Armazéns são espaços imensos, às vezes vazios, às vezes cheios, de coisa nenhuma
para uns, de vidas desfeitas para outros, de pedaços de vidas, de histórias
perdidas. A peça gera-se a partir de um acontecimento real – remete-nos para
o êxodo dos Portugueses das ex-colónias. Era um mundo que se desmoronava,
eram histórias de vida que ruíam e os protagonistas desta tragédia não sabiam
se estavam no fim ou no início da História: sabiam-se, apenas, perdidos, com as
suas vidas suspensas, reféns de um destino que não escolheram.
A autora | Vânia
Cosme (Angola, 1962)
É docente na Academia Contemporânea do Espectáculo (ACE) do Porto e Produtora do Teatro
do Bolhão. Foi jornalista da RTP durante 18 anos. Licenciada em História, variante de Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e pós-graduada em Realização
Televisiva / Documentário pela Escola das Artes da Universidade Católica do Porto, possui
um vasto currículo na área da televisão, da escrita de teatro, como autora e dramaturgista.
Algumas das suas peças de que destacamos são Caleidoscópio ou Vermelho, já encenadas pelo
Teatro Bruto.
O grupo |
TEB (Bragança, 1991)
Da história que construímos já fazem parte, para além dos Cursos de Iniciação Teatral realizados no início de cada ano, espectáculos como: Três Farsas Medievais de anónimo francês,
em 1992; Cada terra com seu uso cada roca com seu fuso, a partir de O noivado do defunto, de
Almeida Garrett; Arlequim polido pelo amor de Marivaux; Histórias mínimas, de Javier Tomeo;
Ida ao teatro, e outros textos, de Karl Valentin; Antes que a noite venha, de Eduarda Dionísio;
Fragmentos... Humor em quotidiano negro, a partir de textos de Herberto Helder; Solstício de
Verão, em 2004... O TEB tem mostrado ao longo destes 14 anos, como vertente principal do
seu reportório, textos de autores contemporâneos com conteúdos que interesse dar a conhecer
ao público e se enquadrem no seu universo estético social e cultural. Participa no FATAL pela
primeira vez.
A encenadora |
Tertúlia
A seguir ao espectáculo, no bar
do teatro. O público à conversa
com actores encenadores
e convidados especiais.
CONVIDADOS ESPECIAIS
Silvina Pereira
Helena Genésio (Bragança, 1961)
Mestre em Estudos Portugueses–Literatura Portuguesa Contemporânea, pela Faculdade de
Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em 2000 assumiu a docência
na Escola Superior de Educação de Bragança do Módulo Literatura Dramática, e, actualmente,
exerce o cargo de Directora do Teatro Municipal de Bragança. Em 1983, tornou-se sócia efectiva do Teatro Universitário do Porto e entrou no elenco da companhia como actriz, trabalhando
com António Capelo, Mário Feliciano, Castro Guedes... Em 1991, divulga o projecto de formação de um grupo de Teatro de Estudantes em Bragança – TEB. Assume em 1992, e até hoje, a
Direcção Artística do grupo.
FICHA TÉCNICA Assistente de Direcção Ana Vaz | Interpretação Alexandra Vaz, Ana Lopes, Ana Pimentel, Ana Vaz, Catarina Correia, Cecília Ferreira, Daniela
Costa, Inês Luís, João Veloso, Lisa Condeça, Nadiry Diniz, Sara Pinto, Sérgio Afonso, Sérgio Lopes, Sónia Batista, Verónica Tiago | Operação e Desenho de Luz Miguel
Ângelo Ferreira | Maquinista de Cena António Ramião | Figurinista Virgínia Tiago | Produção e Criação de som Joaquim Cavalheiro
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TEB | INSTITUTO POLITÉCNICO DE BRAGANÇA
Processo Criativo
Esta peça é dedicada à minha irmã Ariana.
Não é uma dedicatória gratuita, nem está aqui por acaso. O
Prólogo imediatamente a seguir, cuja indicação de fala é a da
personagem G, mas que, na realidade, é o alter-ego da autora,
justifica a dedicatória e apresenta-nos um acontecimento real:
Em 1975, crianças ainda, vivemos juntas a experiência dramática do “Armazém”. Durante uma semana inteira procurámos,
sozinhas, por entre milhares e milhares de malas, sacos e caixas,
as duas malas da avó Joaninha. Nunca as tínhamos visto. Ao
fim de oito dias conseguimos descobri-las através das etiquetas.
Corria o mês de Outubro e o êxodo dos portugueses das ex-colónias estava a chegar ao fim... Desses dias terríveis apenas recordo o Armazém, o meu choro ininterrupto e o calor da mão da
minha irmã a que eu me agarrava desesperadamente com medo
de me perder... O momento histórico evocado remete-nos para
o êxodo dos portugueses das ex-colónias. Era um mundo que
se desmoronava, eram histórias de vida que ruíam e os protagonistas desta tragédia não sabiam se estavam no fim ou
no início da História, sabiam-se apenas perdidos, com as vidas suspensas, reféns de um destino que não escolheram. É a
partir deste acontecimento real que se gera toda a peça; a voz
criadora inicia através da escrita uma viagem a um passado
vivido, para o recriar dramaticamente. A matéria narrativa
é quase exclusivamente constituída por um longo percurso,
através da memória, onde o importante não é a sequência cronológica dos acontecimentos, mas sim, o significado do tempo
passado garantido pela memória. Memória que se transforma
em memória criativa e geradora de sentidos. Por isso, em vez
de se apresentar como uma autobiografia que supõe a fabricação de uma narrativa de vida, o texto é uma divagação permanente sobre os estados de alma, as interrogações, as dúvidas,
os medos, onde se cruzam reflexões éticas, morais, filosóficas,
uma constante deriva mas sobretudo, uma profunda interrogação sobre a existência. O acto da criação resulta assim de
um caminho misterioso, interior, feito através de palavras,
traduzindo a expressão de um sentir, de uma visão particular
do mundo. A memória do Armazém é o início de uma viagem
que permite à autora uma revisitação de um acontecimento
real situado numa infância longínqua: o regresso de África e o
drama de todos os que chegam na procura incessante dos seus
haveres; na sua recriação literária O Armazém é o fim de uma
viagem sem regresso, é o espaço onde as personagens vivem
uma farsa, uma tragédia. Une-as um sentimento de perda,
sentem-se náufragas, impotentes, inadaptadas, desenraizadas, apáticas, enlouquecidas. As personagens estão dentro do
Armazém e todas elas procuram algo. Não se conhecem. Não
se reconhecem, perderam a identidade. A história de um corte
abrupto que deixa uma imensa marca de vazio, de perda, e, ao
mesmo tempo, que lança as personagens (ou a autora?) numa
constante e incessante busca desse “paraíso perdido” que é, no
fundo a marca do homem sobre a terra – homo viator.
Helena Genésio
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Armazém - FATAL 2007