Mito dos gêmeos Guarani: imagens do Ego-Self
Ana Luisa Teixeira de Menezes1
Gelson Luis Roberto2
Resumo
Desenvolvo o mito dos gêmeos Guarani com um olhar da psicologia Junguiana,
buscando uma interlocução entre os personagens divinos, humanos e animais para pensar os
processos de individuação, de encontro com o Self e de conhecimento na cosmologia
Guarani. O diálogo nas aldeias Guarani que venho realizando desde 2002, pesquisando acerca
da dança e, mais atualmente, com a infância e a educação Guarani, no Mestrado em Educação
da UNISC e na formação no Instituto Junguiano de Porto Alegre levou-me a buscar um
aprofundamento do mito dos gêmeos, a partir da versão descrita por Pierre Clastres.
O nascimento dos gêmeos na psique
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Ñandevurussu, o pai, o grande, veio só e deixou-se ver no coração das trevas.
Trouxe a madeira cruzada originária, colocou-a na direção do sol nascente, andou sobre
ela e começou a fazer a terra. Até hoje, a madeira cruzada é o sustentáculo da terra. Se
tirar esse apoio, a terra cairá. Em seguida trouxe a água.
Mais tarde Ñandevurussu encontrou a seu lado Ñanderu Mbaekuaa, o pai que sabe
as coisas. Ñandevurussu disse a Mbaekuaa para fazer uma mulher na panela e assim fez
uma panela de barro e cobriu-a. Mbaekuaa partiu e experimentou a mulher. Não queria
misturar seu sêmen ao de Ñandevurussu; assim, depositou-o à parte. E de uma só mãe
formou-se o filho de Ñandevurussu e o de Mbaekuaa, no ventre de sua mãe. Ñandevurussu
foi embora.
Ñandevurussu preparou então sua plantação. À medida que a preparava, ela
enchia-se de espigas de milho. Voltou para casa, para comer. Disse à sua mulher para ir à
plantação e trazer milho macio para comerem. Esta reclamou o fato dele estar tão pouco
tempo trabalhando e já querer dar ordens a ela. E retrucou afirmando que o filho que
trazia no ventre não era de Mbaekuaa!
1
Doutora em Educação pela UFRGS e professora de Psicologia e do Mestrado em educação da
UNISC. Candidata à analista Junguiana.
2
Psicólogo clínico; analista Junguiano, presidente da Associação Junguiana do Brasil. Orientador do
artigo.
3
Essa versão é descrita a partir de Pierre Clastres no livro A fala sagrada. No decorrer do texto, fiz
alguns cortes mantendo a história contada no livro. Nesse artigo as partes que falam do mito estarão
em itálico.
1
Ñandevurussu pegou então seu boldrié de plumas, sua maraca de dança e também
a madeira cruzada. A coroa de plumas colocou-a na cabeça. Saiu, deu uma volta em torno
da casa e se foi. Chegado ao caminho dos jaguares originários, enfiou a madeira cruzada
na terra, a fim de desviar assim seus próprios rastros.
Sua esposa de volta da plantação, chegou a casa. Ñandevurussu não estava mais.
A mulher pegou a cabaça de água, muniu-se de seu bastão de dança, saiu, deu uma volta
em torno da casa e partiu no rastro de seu marido.
A saída de Ñandevurussu remete a um movimento de libido necessário ao
processo de individuação, uma tensão de opostos, uma autoprovocação do Self para dar
início ao processo de deintegração do mesmo para uma futura reintegração. É o
processo inicial para um começo de surgimento do ego. Conforme afirma Debus in
Downing (1991, p.64), o “Self é um alvo móvel, um arquétipo da individuação”:
O Self tanto contém como é o conteúdo da pessoa completa; o Self inclui o ego e,
não obstante, Self e ego podem travar um diálogo como respectivos representantes
da pessoa completa e da personalidade consciente mais limitada; o Self está oculto
mas adora ser conhecido; o Self tem um valor supremo como “ pérola psicológica de
preço elevado” mas está presente no fluxo da vida de todo dia, “na palha e no
estrume”, como dizem os alquimistas (1991, p.65).
Ñandevurussu despista seus rastros, com o que antes era a âncora. Há uma inversão
para que a mulher possa seguir por novos caminhos, em busca do Self. Ir à busca do
marido representa o princípio do feminino com seu papel de ser conduzido e gerar a partir
do movimento, para que o processo gere uma tensão necessária de força para a
deintegração
do
Self.
Ela tinha caminhado um pouco quando sua criança pediu-lhe uma flor. Ela colheua para sua criança e prosseguiu em seu caminho. Mais tarde, bateu na morada de seu
filho e perguntou-lhe ao filho por onde havia ido seu pai. Seu filho respondeu. Andou um
pouco mais e a criança tornou a pedir-lhe uma flor. Colheu-a, mas uma vespa picou-a. Ela
ficou braba e questionou o desejo de seu filho que ainda estava no ventre. A criança ficou
furiosa e, quando encontraram a madeira cruzada indicou o caminho dos jaguares
originários.
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Há um início do processo de deintegração, com os primeiros resquícios
do nascimento do arquétipo da criança, que se apresentam de forma contraditória, entre a
incongruência e o divino. A criança que orienta o caminho dos jaguares, num estado de
confusão. Como diz Jung (1991, p.155) “um estado psicológico original de não
reconhecimento, isto é, de escuridão ou penumbra, de não diferenciação entre sujeito e
objeto, de identidade inconsciente”.
Andando por ele, chegou à morada dos jaguares. A avó escondeu-a das suas
crianças, cobrindo-a com uma grande panela. No final da tarde, as crianças chegaram.
Traziam grandes pedaços de porco selvagem para sua avó. E, pulando sobre a panela,
quebraram-na. Ato contínuo, mataram a esposa de Ñandevurussu. A avó jaguar quis
comer os gêmeos e pediu para os seus netos que os mergulhassem na água quente. Mas a
água esfriou. Colocaram-nos sobre as brasas e elas também esfriaram.
O irmão mais velho já abria um pouco os olhos. Então a avó dos jaguares disse:
eles serão meus netos.
O nascimento dos gêmeos revela o parto misterioso e milagroso encontrado no
arquétipo da criança (Jung ,2007). A travessia do nascimento dos gêmeos fala do que
Howard Teich in Downing (1991, p.127) refere a uma duplicidade de temor e divinização,
enaltecimento e banimento e no caso dos “gêmeos masculinos solar-lunar que servem para
nos tornar conscientes da tendência de nossa psique para atrair em duas direções
aparentemente contrárias”. É a revelação de um modo cíclico em nosso psiquismo que não
se expressam como opostos, mas como equilíbrio.
Colocaram-nos ao sol, sobre a peneira. Não se tinha passado muito tempo, quando
nosso irmão mais velho começou a levantar-se, e o caçula, pôs-se a engatinhar. No
crepúsculo, o mais velho quase já conseguia manter-se em pé. Pediu então o necessário
para matar pequenos pássaros.
O jaguar fez-lhe a flecha. O garoto ia aos arredores da casa, matando pequenas
borboletas. Quando ficou mais forte, ele pôde ir aos velhos jardins, com seu irmão caçula,
para matar pequenos pássaros.
A avó jaguar lhes dizia para não irem para o outro lado, e foram nessa direção
proibida. Encontraram um pássaro jacu, flechou-o, e este, juntamente com um papagaio,
o avisaram que foi a avó quem matou sua mãe!
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O caçula pôs-se a chorar. Descobriram o esqueleto de sua mãe, e caçula quis
mamar nela: no mesmo momento, a mãe se decompôs. Foi então, que o irmão mais velho
foi fazer frutas para seu irmão.Ele andou sobre uma árvore e assim fazendo fabricou
frutos yvapuru. Fez guaviraete e guaviraju, fruta com caroço grande e bem doce.
A dimensão lunar da consciência representada pelo irmão mais novo, expressa o
desejo de retornar à mãe, de dissolver-se num estado de indiferenciação e o irmão mais
velho buscando soluções práticas, efetivas e simbólicas para superar a carência da mãe, do
feminino.
Retomaram o caminho. Eles voltaram frequentemente ao antigo jardim. Montaram
nele uma pequena armadilha, com uma espiga de milho a guisa de isca e mataram muitos
jaguares. Só restou uma mulher.
Quando os gêmeos foram enfrentar o último jaguar, o mais novo sentiu medo das
águas agitadas, tendo em vista que estes lançavam-se às águas que os transportavam para o
abismo originário. As forças o amedrontaram e fizeram com que o irmão caçula virasse a
ponte, antes do tempo que necessitava para que os vorazes habitantes devorassem todos os
jaguares. Restou uma que estava grávida. A dinâmica dos gêmeos também representa o
movimento de regressão e progressão da libido nesse processo de formação do eixo egoSelf.
Mais tarde, descobriram o fogo e criaram o sapo, destinado a engolir o fogo. Em
seguida deitou-se e tornou-se fedorento. Os corvos reuniram-se e acenderam o fogo. Estes
queriam matar e comer os gêmeos na fogueira. Ao jogarem o irmão mais velho na
fogueira este sacudiu-se e espalhou as brasas, causando temor e a fuga dos corvos.
Para Hilman (2011) “a alquimia começa no desejo; o desejo precisa de direção... a
essência do fogo é: fora do controle” (p.73). Assim como o fogo transforma a matéria,
expressando uma mudança, a natureza material também submete-se ao espírito, podendo
ser transmutada e elevada, ou ainda mesmo purgada.
Pegaram-no por uma perna, pela cabeça e jogaram-no no fogo. Então, nosso
irmão mais velho sacudiu-se, espalhando as brasas. Os corvos tiveram medo e o
chefe gritou: cuidado com o fogo! Nosso irmão mais velho perguntou ao sapo, se
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não tinha engolido o fogo e este respondeu que só um pouquinho, mas agora ele
deve ter-se apagado. O sapo vomitou. Então, ele acendou o fogo.
A vivência com o fogo interno e externo produz mudanças e Hilman (2011, p.78 a
81) destaca cinco características do fogo: ascensão, transmutação, iluminação,
intangibilidade e insaciabilidade. O irmão mais velho passou pela prova da ascensão, na
medida que foi jogado na fogueira pelos corvos e espalhou as brasas, como “a salamandra
que sobrevive ao fogo, a fêniz que renasce das cinzas”. O Gêmeo viveu a transmutação no
instante que conseguiu fazer acender o fogo que ilumina a escuridão, uma preparação para
as mortes, os caminhos. Essa é intangibilidade, o que não pode ser tocado diretamente. A
insaciabilidade que leva os gêmeos que vive em nós a seguir nossos impulsos. “Como o
espírito, o fogo está numa missão, acender outros fogos por aí afora, convertendo os dias
em combustíveis para engordar suas próprias chamas”.
Von Franz (1980) refere-se à esfera do fogo, como um momento de conservar o
chumbo e sufoca-lo, engolir o próprio veneno para curar-se:
Em seguida, fez uma serpente a partir de uma tocha. Fez-se picar por ela. Caçula
partiu em busca de remédio, trouxe-o e cuidou de seu irmão mais velho: este
recobrou a saúde. Em seguida criou as vespas e também se fez picar por elas; mas
não ficou muito doente por isso. Tendo sido mordido por outra serpente, morreu.
Caçula soprou então o topo da cabeça de seu irmão mais velho e fê-lo reviver.
O irmão mais velho e o mais novo: criar e cuidar
Os gêmeos partiram para mais longe, e o caçula disse:
Partiram para muito longe. Caçula perguntava ao irmão:
- Realmente não existe gente como nós nesta terra, meu irmão mais velho?
- Sim, existe. Andou sobre um cedro carregado de frutos e fez quatis:
- Agora suba em uma árvore, meu caçula!
O irmão mais velho entrega-se às novas experiências, simbolizando o princípio
criativo, que se lança às aventuras e que possibilita um movimento diferenciado, solar e o
irmão mais novo, cuida e o faz reviver. Demonstra um aspecto mais lunar, que revive
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permanentemente o desejo de mamar, o movimento de indiferenciação, os sentimentos
difusos que dão espaços para o retorno dos jaguares, das sombras.
Os dois dirigiram-se para casa. Os irmãos sopraram um na cabeça do outro, fazendo
surgir flores. Na sequência, o mais velho criou a planta mandasaia. O tempo passava,
e Caçula tornava-se cada vez mais vigoroso. O mais velho algum tempo depois
perfurou uma cabaça para fazer com ela seu chocalho de dança. Queria seguir os
passos de seu pai. Estavam em marcha, quando nosso irmão mais velho zangou-se
com o pai. O caçula, só pensava em mamar. Nosso irmão mais velho pediu suas
insígnias ao pai. Ele as deu ao filho e desapareceu de sua vista, para impedir as
coisas más. Pois frequentemente o jaguar azul rosnava. Nosso irmão mais velho existe
acima de nós. Agora, ele ocupa-se da terra; é ele que mantém o apoio da terra. Se
soltá-lo, a terra afundará. Agora ela é velha, essa terra!
Nossos netos não prosperam mais nela! Iremos rever todos aqueles que morreram. Ao
cair da noite, o morcego descerá para acabar com todos os habitantes desta terra. E o
jaguar azul desce entre as trevas, desce para devorar-nos! Os jaguares mataram
nossa mãe, e Ñanderuvusu veio para levar consigo sua alma-palavra. Agora ela vive
novamente; ele a fez forte outra vez.
No percurso, os gêmeos, o mais velho descobre que pode manter o apoio da
terra. É o momento de descoberta do Self como centro, da realização do si mesmo, do
encontro com o deus que mora em cada um de nós.
Então, a via manifesta-se ao Ñanderu: se alguém mereceu, o caminho revela-se a ele.
E nós nos colocamos em marcha, neste caminho, “do lado do nosso rosto”4.
Atingimos a água original. Ñanderú atingiu-a saltando por cima. Quanto a nós, seus
inúmeros filhos, atravessamos no seco, pois as águas se afastam.
O encontro com Ñanderu é o encontro com a força seminal do Self com o "pai
que sabe as coisas", um princípio gerador de consciência. O mito dos gêmeos é uma
imagem arquetípica da individuação, do Self, que tem orientado a vida dos Guarani e
4
No lado leste.
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que abre inúmeras possibilidades para pensarmos nossos caminhos, nossas
encruzilhadas no encontro com o mais sagrado e mais misterioso de nós mesmos.
Bibliografia:
CLASTRES, Pierre. A fala sagrada: mitos e cantos sagrados dos índios Guarani.
Tradução Nícia Adan Bonatti. Campinas, SP: Papirus, 1990.
DEBUS, David. O Self é um alvo móvel – O arquétipo da individuação. (In)
DOWNING, Chistine. Espelhos do Self. As imagens arquetípicas que moldam a sua vida.
Tradução: Maria Silvia Mourão Netto. São Paulo: Cultrix,1991.
FRANZ, Marie-Louise Von. Alquimia. Introdução ao Simbolismo e à Psicologia.
Tradução: Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 1980.
HILLMAN, James. Psicologia Alquímica. Tradução de Gustavo Barcellos.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.
JUNG, Carl Gustav. O arquétipo da criança. (In) DOWNING, Chistine. Espelhos do
Self. As imagens arquetíicas que moldam a sua vida. Tradução: Maria Silvia Mourão
Netto. São Paulo: Cultriz,1991.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 5ª. Ed. [tradução Maria
Luiza Appy, Dora Mariana R. Ferreira da Silva]. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.
JUNG, Carl Gustav. Seminários sobre sonhos de crianças: sobre o método de
interpretação de sonhos. Tradução: Lorena Kim Richter. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.
TEICH, Howard. Os gêmeos: uma perspectiva arquetípica (In) DOWNING, Chistine.
Espelhos do Self. As imagens arquetíicas que moldam a sua vida. Tradução: Maria Silvia
Mourão Netto. São Paulo: Cultriz,1991.
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