Perder uma língua na infância: um estudo longitudinal sobre erosão linguística Cristina Maria Moreira Flores Universidade do Minho Abstract This article documents a longitudinal study of language attrition in a bilingual girl, who grew up in Germany, and moved to Portugal at the age of 9. The present study aims to analyze effects of language loss in German, the language which was no longer used on a daily basis after return. Data collection started 3 weeks after her immersion in the Portuguese setting and ended 18 months later. Results show first effects of language attrition after five months of reduced exposure to German; 18 months later the informant showed severe word retrieval difficulties and was unable to produce complete sentences in German. The findings, thus, confirm the conclusions of other studies on child language attrition, which suggest that there is a critical period for language retention in childhood. Keywords: Language attrition, bilingualism, German, Portuguese Palavras-chave: Erosão da língua, bilinguismo, alemão, português 0. Introdução A perda de uma língua, ou erosão linguística (Flores, 2008), é um fenómeno sócio- e psicolinguístico que pode ocorrer nos casos em que um falante bilingue sofre alterações significativas no grau e tipo de exposição a uma das duas (ou mais) línguas que adquiriu na infância. Segundo Seliger (1996: 106), erosão linguística consiste em “temporary or permanent loss of language ability as reflected in a speaker’s performance or in his or her inability to make grammaticality judgments that would be consistent with native speaker monolinguals at the same age and stage of language development”. Os contextos sociolinguísticos mais suscetíveis à ocorrência de erosão são os que advêm de situações de emigração. Uma criança, que cresce em contexto monolingue no seu país de origem e emigra com os pais para um país onde se fala outra língua, vai adquirir a língua do país de acolhimento, a sua L2, a par da sua L1, tornando-se bilingue. Porém, em regra, o momento de emigração leva a uma redução de exposição à L1, que passa a ser falada apenas em contexto familiar. Vários estudos em torno da temática da erosão linguística têm demonstrado que, nestas situações, o processo de aquisição da L2 pode co-ocorrer com um processo de declínio da competência L1 (Kaufman & Aronoff, 1991; Turian & Altenberg, 1991), sendo a idade de emigração um dos fatores mais decisivos neste processo. Quanto mais novo o falante, maior parece ser a probabilidade de ______________________ Textos Selecionados, XXVIII Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Coimbra, APL, 2013, pp. 359-381, ISBN: 978-989-97440-2-8 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA ocorrência de efeitos de erosão. Contudo, é de realçar que, nas situações descritas, o falante raramente perde por completo o contacto com a sua L1. Apesar de a exposição ser mais reduzida, parece haver um grau mínimo de input que impede a perda total da L1. Os casos em que normalmente se dá uma rutura total com a L1 da criança são as situações de adoção internacional. Vários estudos sobre crianças adotadas por famílias de outra nacionalidade, que deixaram de falar a sua L1 depois da adoção, têm demonstrado que a língua materna destes falantes perde-se por completo depois de a criança residir por algum tempo no novo ambiente linguístico (Hyltenstam et al., 2009; Ventureyra et al., 2004; Ventureyra & Pallier, 2004; Pallier et al., 2003). Situações linguísticas semelhantes aos casos dos falantes adotados são os contextos de remigração. Trata-se de casos em que uma criança cresce de forma bilingue num país de emigração, adquirindo precocemente a língua dominante do país e a língua de origem dos pais, a sua língua de herança (cf. Flores, 2013), mas a certa altura da sua vida volta para o país de origem, perdendo o contacto diário com a língua do país de emigração. O presente trabalho apresenta um estudo de caso de erosão linguística deste último tipo. A informante, que será chamada Ana, filha de emigrantes portugueses na Alemanha, cresceu no país de emigração até aos nove anos de idade, altura em que a mãe decidiu voltar a Portugal com os seus dois filhos. Até ao momento da remigração, Ana falava fluentemente alemão, a sua língua dominante, e português, a língua usada no seio da família. Depois da vinda para Portugal, Ana deixou de ter contacto com a língua alemã, perdendo progressivamente proficiência nesta língua. Este estudo pretende documentar o desenvolvimento da competência desta falante a nível da língua não usada, desde a sua chegada a Portugal até 18 meses depois, focando aspetos morfossintáticos, como a expressão do sujeito, a ordem das palavras e a marcação de género e de caso em alemão. 1. Estudos prévios sobre erosão linguística em contextos de remigração Já existem alguns estudos longitudinais que, como o presente trabalho, visam analisar a ocorrência de erosão linguística em situações de alteração do ambiente linguístico dominante durante a infância (Kang, 2011; Kaufman & Aronoff, 1991; Kuberg, 1992; Olshtain, 1986; Reetz-Kurashige, 1999; Tomiyama, 2000; Yoshitomi, 1994). Apesar de estes estudos variarem quanto a fatores fulcrais como a idade de alteração de input, o grau de exposição à língua em erosão e o período e método de observação, todos apontam para uma conclusão comum: se um falante bilingue perde o contacto regular com uma das suas 360 PERDER UMA LÍNGUA NA INFÂNCIA: UM ESTUDO LONGITUDINAL SOBRE EROSÃO LINGUÍSTICA línguas durante a infância, os primeiros efeitos de erosão linguística surgem num período máximo de quinze meses após a alteração das condições de input. Os efeitos de erosão descritos são tão variados como os próprios estudos: podem afetar os diferentes domínios linguísticos (léxico, sintaxe, morfologia e fonética) e diferentes áreas da competência linguística (a perceção e/ou produção de sons, a intuição gramatical e/ou o processamento online da língua, o acesso ao léxico). O estudo que mais se assemelha ao presente trabalho é o estudo de Kuhberg (1992), que documenta o desenvolvimento da competência linguística de duas crianças bilingues turco-alemãs, depois do seu regresso à Turquia. As informantes, que viveram até aos nove e sete anos, respetivamente, na Alemanha, tendo proficiência nativa a nível da língua alemã no momento do regresso, foram observadas num período compreendido ente um a quinze / vinte meses após a chegada à Turquia. Durante este período não tiveram qualquer tipo de exposição à língua alemã. Kuhberg (1992) apresenta diferentes estágios de desenvolvimento da proficiência destas crianças. Num primeiro estágio, que vai até aos cinco meses depois do regresso, as crianças não apresentam qualquer tipo de dificuldade no uso do alemão. O segundo estágio é caracterizado por primeiros efeitos de erosão, visíveis numa produção mais pausada, na alternância de códigos, no uso de formas verbais, artigos e preposições erradas. No terceiro estágio, ambas as falantes apresentam um alto grau de erosão, que afeta tanto o léxico, como a morfologia e a sintaxe. As crianças apresentam muitas dificuldades no acesso ao léxico alemão, evitam o uso de pronomes, na morfologia nominal marcam o número e o caso através de sufixos turcos, não flexionam corretamente os verbos a aplicam a ordem de palavras mais comum do turco (SOV) à maioria das frases alemãs. Uma das observações mais interessantes deste estudo é o facto de ambas as crianças (que não se conhecem) passarem pelos mesmos estágios de declínio linguístico. Olshtain (1986) reporta os resultados de três estudos longitudinais que incidem sobre crianças bilingues hebraico-inglês, que cresceram em países de expressão inglesa e voltaram para Israel com idades compreendidas entre os cinco e os catorze anos. Os informantes, testados periodicamente num período de seis a doze meses, tendem a mostrar dificuldades de acesso lexical, seis meses após o regresso a Israel. Além de demonstrarem problemas no uso de preposições, de formas verbais irregulares e do tempo verbal adequado, Olshtain (1986) também descreve efeitos de erosão a nível da ordem de palavras como a transferência para o inglês de estruturas de topicalização típicas do hebraico. Tomiyama (2000) observa uma criança bilingue inglês-japonês, que regressa ao Japão 361 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA aos oito anos de idade depois de ter vivido sete anos nos EUA. Tal como nos estudos já mencionados, o autor descreve a ocorrência de efeitos de erosão em vários domínios da sua competência linguística a nível do inglês. São observadas alterações estruturais na sintaxe e na morfologia, visíveis na ordem das palavras e na flexão nominal e verbal. Os estudos de Flores (2008, 2010, 2012) analisam efeitos de erosão em falantes bilingues luso-alemães que cresceram na Alemanha ou na Suíça e voltaram a Portugal com diferentes idades, perdendo o contacto regular com a língua alemã. Adotando uma metodologia transversal, que compara diferentes grupos de falantes com base na sua idade de chegada a Portugal, os resultados destes estudos mostram que os efeitos de erosão são muito mais expressivos nos falantes que regressaram a Portugal antes dos onze anos de idade, mesmo que o tempo de estada em Portugal seja inferior ao dos falantes que regressaram mais tarde. Os processos de erosão detetados afetam diferentes domínios linguísticos; mas foram focadas em especial propriedades sintáticas como a ordem das palavras na frase e a expressão do sujeito e do objeto. Apesar de demonstrar a importância do fator idade na retenção de uma língua, a metodologia transversal destes estudos não permitiu observar o desenvolvimento da competência linguística destes falantes desde o momento da perda de contacto até a um período posterior em que o falante já não tem exposição regular à língua em atrito. O presente estudo pretende, assim, colmatar esta lacuna, descrevendo o processo de erosão logo na sua fase inicial. 2. Algumas características morfossintáticas do alemão Tendo em conta os resultados dos estudos apresentados na secção anterior, o presente trabalho irá focar as propriedades morfossintáticas que parecem mais suscetíveis a efeitos de erosão. Um dos domínios mais propícios é a ordem das palavras; no caso do alemão, em especial a posição do verbo na frase. Em orações-raiz, o alemão apresenta o efeito V2. Isto significa que o verbo finito se move para a segunda posição da frase (Cº), sendo precedido por apenas uma projeção máxima. Esta poderá ser o sujeito (dando origem à ordem SVO, a ordem normal do português) ou um constituinte XP de outro tipo, como um objeto topicalizado ou um sintagma adverbial, como exemplificado em (1a). Quando a posição inicial é ocupada por um elemento não-sujeito, o sujeito da oração ocorre após o verbo, isto é, permanece abaixo de V-em-C (no domínio do IP), originando a ordem XPVS. Em orações encaixadas, por sua vez, o verbo não se move para Cº, pois esta posição está ocupada por um 362 PERDER UMA LÍNGUA NA INFÂNCIA: UM ESTUDO LONGITUDINAL SOBRE EROSÃO LINGUÍSTICA complementador. Neste caso, o verbo finito mantém-se na sua posição-base no final da oração, dando origem à ordem SOV, como no exemplo (1b). De acordo com uma visão mais clássica da sintaxe alemã, a ordem SOV nas orações encaixadas advém do facto de, no alemão, o sintagma verbal (VP) e o sintagma flexional (IP) serem projeções de núcleo final. O efeito V2 e o facto de VP e IP serem projeções de núcleo final também são visíveis em orações-raiz que contêm formas verbais complexas. Nestes casos, a forma verbal finita move-se para V2, mas a forma não-flexionada mantém-se no final da oração (exemplo 1c). (1) a. Gestern kaufte Ana ein neues Auto. ontem comprou Ana um novo carro ‘Ontem a Ana comprou um carro novo.’ b. Ich denke, dass Ana heute ein neues Auto kauft. eu penso que Ana hoje um novo carro compra ‘Penso que a Ana hoje compra(rá) um carro novo.’ c. Morgen wird Ana ein neues Auto kaufen. amanhã vai Ana um novo carro comprar ‘Amanhã a Ana vai comprar um carro novo.’ Uma segunda característica sintática do alemão que, de acordo com Flores (2008), é suscetível à ocorrência de erosão é a expressão do sujeito. Ao contrário do português, língua de sujeito nulo, no alemão o ‘parâmetro do sujeito nulo’ está fixado no valor [- prodrop]. Isto significa que o alemão não permite a omissão do sujeito nem a ocorrência de expletivos nulos. Assim, numa frase como (2), em que o sujeito da oração encaixada é coreferente com o sujeito da oração-raiz, no alemão a realização fonética do segundo sujeito é obrigatória (ao contrário do que acontece em português). (2) Hans hatte dir gesagt, dass er heute nicht kommen kann. Hans tinha te dito que ele hoje não vir pode ‘Hans tinha-te dito, que hoje não poderia vir.’ Na morfologia nominal destacam-se duas características fulcrais do alemão, que o distinguem substancialmente do português e que tornam o sistema nominal alemão bastante complexo: a marcação de caso e a marcação de género. Quanto à marcação de caso, o alemão dispõe de um sistema de quatro casos (nominativo, acusativo, dativo e genitivo), marcando o caso no determinante (por exemplo no artigo definido (3a) ou no pronome demonstrativo (3b)), por vezes no determinante e no substantivo através de um morfema flexional (3c) e no adjetivo atributivo, quando o nome é modificado por um adjetivo (3d). 363 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA (3) a. Das Auto ist neu. [caso nominativo] o carro é novo ‘O carro é novo.’ b. Ich kaufe dieses Auto heute. [caso acusativo] eu compro este carro hoje ‘Eu compro este carro hoje.‘ c. Wegen des Autounfalls gehe ich heute zu Fuss zur Arbeit. [caso genitivo1] devido (a)o acidente vou eu hoje a pé para o trabalho ‘Devido ao acidente de carro hoje vou a pé para o trabalho.‘ d. Ich fahre heute mit meinem neuen Auto in die Arbeit. [caso dativo] eu vou hoje com meu novo carro para o trabalho ‘Hoje vou trabalhar no meu carro novo.‘ A complexidade da flexão em género advém do facto de o alemão dispor de um sistema de três géneros (masculino, feminino, neutro). A atribuição do género lexical é bastante arbitrária e são escassos os indicadores morfológicos que ajudem na identificação do género. Para exemplificar a opacidade da marcação de género, veja-se as palavras Messer (‘faca’), Gabel (‘garfo’) e Löffel (‘colher’). Apesar de Gabel e Löffel terminarem em –el, esta terminação (que não é um morfema flexional) não é indicativa do género das palavras, pois Gabel é feminino, enquanto que Löffel é masculino. Já a palavra Messer é neutro. A análise incidirá ainda sobre a morfologia verbal, onde iremos focar apenas a flexão em pessoa e número, ignorando a ocorrência de erros no uso de formas verbais irregulares ou dos tempos verbais. 3. O presente estudo 3.1. Principais questões de investigação Estudos prévios sobre falantes bilingues que perdem a exposição a uma das suas línguas na infância demonstraram que o declínio de proficiência linguística começa poucos meses depois da alteração das condições de input. Em primeiro lugar, este estudo pretende confirmar estas observações, tendo como principal questão de investigação: I) Verificar se propriedades morfossintáticas como a ordem das palavras, a expressão Com exceção de algumas preposições e um número muito limitado de verbos que requerem o uso do genitivo, este caso tem vindo assumir quase exclusivamente função atributiva dentro de sintagmas nominais. Por ser pouco usado pela participante, será excluído da presente análise. 1 364 PERDER UMA LÍNGUA NA INFÂNCIA: UM ESTUDO LONGITUDINAL SOBRE EROSÃO LINGUÍSTICA do sujeito, a marcação de caso e género e a flexão verbal são afetadas por efeitos de erosão em situação de privação de contacto linguístico. Em caso afirmativo, pretende-se, então, analisar: II) quando surgem os primeiros efeitos de erosão. Confirma-se a observação de Kuhberg (1992) de que os primeiros efeitos são visíveis após 5 meses? III) se as propriedades linguísticas sob investigação são afetadas por processos de erosão de forma semelhante ou se, pelo contrário, existe alguma ordem de declínio, isto é, se há propriedades da língua que são afetadas antes de outras. Esta última questão leva-nos a testar várias sub-hipóteses, a dizer: IV) Sabendo que, na aquisição do alemão como L1, a produção da ordem V2 surge apenas depois de a criança adquirir a flexão verbal (Clahsen, 1982; Meisel, 1994), será interessante verificar se, no processo de declínio, também existe uma estreita relação entre a posição do verbo na frase e a flexão verbal. Será que a falante evidencia dificuldades na colocação do verbo ao mesmo tempo que começa a cometer erros de flexão verbal? V) Vários estudos têm demonstrado que falantes bilingues em situação de erosão ou falantes L2 com proficiência linguística muito elevada têm mais dificuldades em adquirir, reter ou processar propriedades linguísticas situadas na interface entre dois sistemas concetuais, como por exemplo a interface entre sintaxe e discurso, do que propriedades puramente sintáticas (Flores, 2012; Sorace & Serratrice, 2009; Tsimpli et al., 2004). Se as propriedades de interface forem, de facto, mais vulneráveis, esta diferença também poderá ser visível na ordem de declínio da proficiência linguística. Sendo assim, importa verificar se os efeitos de erosão afetam primeiro a expressão do sujeito, uma propriedade situada na interface sintaxe-discurso, do que a ordem do verbo, uma característica que em alemão é puramente sintática. VI) Quanto à morfologia nominal, estudos que têm analisado erosão e variação sociolinguística em línguas com sistema de caso complexo, como o russo e o alemão, têm demonstrado que um efeito de erosão ou mudança linguística é a redução do sistema de casos, geralmente no sentido de manutenção do caso nominativo e acusativo em detrimento dos outros (Altenhofen, 1996; Boas, 2009; Eikel, 1949; Polinsky, 1997). Altenhofen (1996) e Boas (2009), por exemplo, mostram que, nas variedades da língua alemã faladas por comunidades alemãs imigrantes nos EUA ou no Brasil, há uma tendência generalizada de perda do caso dativo. Será, por isso, interessante verificar se a mesma tendência é observada no caso de erosão individual, realçando a estreita relação entre a ocorrência de erosão num falante individual e o surgimento de mudança linguística 365 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA numa comunidade linguística. VII) Por fim, a análise permite ainda verificar se os efeitos de erosão afetam a marcação de caso e de género ao mesmo tempo e de forma semelhante ou se um destes domínios é mais resistente a erosão que o outro. 3.2. A informante A informante, Ana, é uma criança portuguesa, que cresceu na Alemanha no seio de uma família de emigrantes portugueses. Os seus pais decidiram emigrar para a Alemanha quando a menina tinha dezanove meses de idade. Poucos meses depois da chegada à Alemanha, Ana foi para um infantário. Aos seis anos de idade frequentou o ensino préescolar (Vorschule) e um ano mais tarde entrou na escola pública alemã (Grundschule). Ana frequentava o terceiro ano da escola primária quando os seus pais se divorciaram e a mãe decidiu regressar a Portugal com ambos os filhos. Nessa altura Ana era bilingue, falando português em casa e alemão na escola e com os seus amigos. O alemão, a língua do país de acolhimento, era a língua que a menina afirmava dominar melhor e que preferia falar, apesar de os pais usarem o português como língua de comunicação principal no seio da família. Em paralelo com a escola alemã, durante duas horas por semana, Ana frequentava um curso de ensino de português para filhos de emigrantes. Depois de regressar a Portugal, Ana entrou no terceiro ano de uma escola pública portuguesa. Apesar de sentir dificuldades em ler e escrever em português, a integração da menina na escola portuguesa não foi complicada. Sendo uma criança comunicativa, rapidamente fez amigos novos e apresentava resultados escolares muito satisfatórios. Na sequência da sua integração no novo contexto social e linguístico, Ana foi perdendo rapidamente o contacto com a língua alemã. Deixou de falar alemão com o seu irmão, o único interlocutor com o qual inicialmente ainda poderia usar a língua, já que a mãe nunca falou bem alemão. O contacto com os amigos e familiares que deixou na Alemanha também se tornou menos frequente e limitava-se a algumas mensagens de correio eletrónico ou ao facebook. Um ano depois da sua chegada a Portugal, Ana afirmava não gostar de falar alemão, considerando dominar muito melhor o português. 3.3. Levantamento de Dados A recolha de dados consistiu em quatro sessões de gravação de produção oral num período de dezoito meses. A primeira sessão realizou-se três semanas depois de Ana ter vindo para Portugal, a segunda sessão cinco meses depois, quando a informante tinha nove anos e dez meses de idade. No terceiro momento de observação, Ana vivia em Portugal há 366 PERDER UMA LÍNGUA NA INFÂNCIA: UM ESTUDO LONGITUDINAL SOBRE EROSÃO LINGUÍSTICA treze meses. A recolha de dados terminou dezoito meses mais tarde. Nessa altura, Ana tinha quase onze anos. A recolha de dados seguiu a mesma metodologia que foi aplicada nos estudos transversais descritos em Flores (2010) e (2012). Além de conversação livre sobre o regresso de Ana a Portugal e a sua vida antes da mudança de país, também foi pedido à informante que comentasse diferentes imagens e que contasse uma história. A menina recebeu instruções para usar apenas o alemão, recorrendo ao português apenas nos casos em que não se lembrasse da palavra alemã. Na quarta sessão foi aplicado um teste de produção baseado em estímulos escritos, uma vez que nesta altura Ana já não foi capaz de falar livremente em alemão por ter dificuldades extremas de acesso lexical. Todas as sessões foram gravadas e transcritas. A codificação incluiu todas as frases completas produzidas em língua alemã. Além disso, foram ainda contabilizadas estruturas de alternância de códigos, nas quais pelo menos o verbo e sujeito tenham sido produzidos em alemão. Todas as orações incompletas (sem verbo) foram excluídas. O quadro 1 apresenta uma síntese das sessões, o tempo de estada em Portugal e a idade da informante nos diferentes momentos de observação, assim como o número de orações codificadas para análise. Sessões Tempo de estada em Portugal Idade (ano; mês) 1ª sessão 3 semanas 9;05 Número de frases codificadas 186 2 ª sessão 5 meses 9;10 108 3 ª sessão 13 meses 10;06 58 4 ª sessão 18 meses 10;11 30 Quadro 1. Período de observação (tempo de estada e idade) 4. Resultados 4.1. Primeira sessão A primeira sessão de recolha de dados realizou-se três semanas depois da chegada de Ana a Portugal. Toda a comunicação decorreu em alemão, sem alternância de códigos. Ana apresentou um discurso fluente, sem qualquer tipo de problema de acesso lexical. A figura 1 mostra a percentagem dos diferentes tipos de colocação verbal produzidos nesta primeira sessão. 367 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA 60 1ª sessão 50 34,93 40 24,19 15,07 20 0 0 SVO XPVS Vfinal vOV agramatical Figura 1. Distribuição dos diferentes tipos de ordem frásica (1ª sessão, em %) Metade das orações produzidas é do tipo SVO 2; 34,93% de todas as ocorrências são orações-raiz que não se iniciam por sujeito, exigindo, assim, a ordem XPVS, corretamente produzida em todos os contextos. 15,07% das orações são encaixadas, requerendo a posição final do verbo (Vfinal). Também neste caso a participante não apresenta desvios de posicionamento verbal. Por fim, a propriedade OV também é visível no uso de formas verbais complexas. 24,19% de todas as orações-raiz produzidas contêm formas verbais complexas; todas realizadas de forma descontínua seguindo a ordem correta vOV. Resumindo, nesta primeira sessão, a informante não produz nenhuma oração com ordem frásica agramatical. Também não se verifica a omissão agramatical de argumentos, incluindo o sujeito. Na morfologia também não foram detetados erros, nem na marcação de caso, género ou número, nem na morfologia verbal. 4.2. Segunda sessão Quando foi testada pela segunda vez, Ana vivia em Portugal há cinco meses. Nesta segunda sessão, continuava muito comunicativa e mostrava-se feliz por poder falar alemão com a entrevistadora, pois tinha saudades de falar esta língua. O seu discurso continuava a ser fluente e a informante tentou seguir a instrução de falar apenas em alemão. Contudo, ao contrário do que sucedeu na sessão anterior, desta vez teve de recorrer ocasionalmente a palavras portuguesas, quando não se lembrava do vocábulo alemão. A figura 2 mostra a distribuição dos diferentes tipos de ordem frásica produzidos na segunda sessão. As frases SVO são orações V2; contudo, como o sujeito está na primeira posição, assemelham-se a orações SVO do tipo português. As orações que nos mostram se a falante de facto domina a regra V2 são aquelas que não se iniciam por sujeito. Por este motivo, as orações SVO serão contabilizadas, mas ignoradas na análise que se segue. 2 368 PERDER UMA LÍNGUA NA INFÂNCIA: UM ESTUDO LONGITUDINAL SOBRE EROSÃO LINGUÍSTICA 2ª sessão 60 40 45,45 33,33 19,23 20 15,13 9,09 0 SVO XPVS Vfinal vOV agramatical Figura 2. Distribuição dos diferentes tipos de ordem frásica (2ª sessão, em %) Quanto à posição do verbo em orações-raiz e encaixadas, nesta segunda sessão Ana continua a demonstrar competência nativa. Em todas as orações-raiz não iniciadas por sujeito é produzida a ordem gramatical XPVS (45,45%). Também as formas verbais complexas seguem corretamente a ordem descontínua vOV (19,23%). Comparando com a primeira sessão, Ana produz menos orações encaixadas (9,09% contra 15,07%), mas o verbo é corretamente colocado em posição-final (Vfinal) em todas as ocorrências. Contudo, a figura 2 mostra que 15,13% de todas as orações produzidas são sintaticamente desviantes. Os desvios são de dois tipos. Metade destas ocorrências agramaticais (8% de todas as orações produzidas) corresponde a estruturas de inversão sujeito-verbo, que não são sintática- ou pragmaticamente licenciadas. Veja-se o exemplo (4). (4) Entrevistador: Mit wem warst du denn da? ‘Com quem estiveste lá? Ana: *War ich mit die Tante von meine Mutter da. estive eu com a tia da minha mãe lá ‘Estive lá com a tia da minha mãe.’ [Correto: Ich war mit der Tante meiner Mutter da.] A frase «War ich mit die Tante von meine Mutter da» assemelha-se a uma construção de queda de tópico (topic-drop), típica do alemão falado. Nestas construções, o sujeito segue o verbo (que está na segunda posição da frase), mas a primeira posição está vazia, pois alberga um elemento tópico que foi suprimido. Estes elementos tópicos são objetos recuperáveis no contexto discursivo. Porém, a frase (6) não é uma construção de queda de tópico, pois não contém nenhum objeto tópico, recuperável no discurso. O segundo tipo de construções agramaticais produzidas nesta segunda sessão 369 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA corresponde a omissões agramaticais do sujeito, como demonstrado no exemplo (5). (5) Entrevistador: Was machst du so am Wochenende? ‘O que fazes no fim-de-semana?’ Ana: *Spiel mit meine Freunde. brinco com meus amigos ‘Brinco com os meus amigos.’ [Correto: Ich spiel(e) mit meinen Freunden.] Em 7.15% de todas as orações produzidas a informante omite o sujeito ich (‘eu’), um processo que é gramatical em português mas não em alemão. Além dos desvios sintáticos, nesta segunda sessão, Ana também começa a demonstrar problemas no domínio morfológico, sendo a marcação de caso o domínio onde ocorrem mais erros (22% de erros de declinação). No exemplo que segue, a preposição zu (“a/para”) requer o uso do dativo, marcado no pronome possessivo com a terminação –em. (6) *Die gehen zu mein Haus. eles vão a minha casa ‘Eles vão à minha casa.’ [Correto: Die gehen zu meinem Haus..] Importa referir que todos os desvios de marcação de caso detetados afetam o caso dativo, que é substituído pelos casos nominativo ou acusativo. Além da marcação de caso, também a flexão em género apresenta alguns desvios, no entanto, a taxa de erro é muito baixa (4%, correspondendo a 2 ocorrências). Em ambas as ocorrências, o género neutro é substituído pelo masculino (cf. (7)). (7) *Ist ein kleiner Schwein. é um pequeno porco ‘É um porco pequeno.’ [Correto: Es ist ein kleines Schwein.] Nesta fase, não foi detetado nenhum erro de flexão verbal. 4.3. Terceira sessão O terceiro momento de recolha de dados decorreu treze meses depois da chegada de Ana a Portugal. Nessa altura, a informante, agora com dez anos e seis meses de idade, raramente contactava com a língua alemã e tinha mudado de atitude face a esta língua. Afirmava já não se sentir confortável a falar alemão, gostando muito mais da língua portuguesa. 370 PERDER UMA LÍNGUA NA INFÂNCIA: UM ESTUDO LONGITUDINAL SOBRE EROSÃO LINGUÍSTICA Também nesta sessão, a informante recebeu instruções claras para falar exclusivamente em alemão e recorrer ao português apenas quando não fosse capaz de exprimir a sua ideia em alemão. Desta vez, porém, foi extremamente difícil manter a conversa apenas em língua alemã. Ana apresentava grandes dificuldades de acesso lexical, recorrendo frequentemente ao português para resolver estes problemas. Além de produzir muitas frases em que misturava ambas as línguas, a informante também produziu muitas orações incompletas, que foram excluídas da análise. Por este motivo, apenas 58 orações puderam ser contabilizadas. Quanto à colocação do verbo, podemos observar uma diferença significativa entre esta terceira sessão e a anterior (cf. figura 3). Relativamente às orações gramaticais, verificamos que a maioria das orações é do tipo SVO, sendo que apenas 6,9% de todas as orações produzidas seguem a ordem XPVS (contra 45,45% na sessão anterior). Mais notório é o facto de a informante não produzir nenhuma oração encaixada com posição final do verbo. Contudo, a propriedade OV é ainda visível na produção correta de estruturas do tipo vOV (13.79%). Podemos, por isso, afirmar que há um decréscimo significativo na produção de ordens frásicas sem correspondência em português (XPVS; Vfinal e vOV), mas não há uma perda total destas estruturas. 3ª sessão 60 50 43,1 40 13,79 20 6,9 0 0 SVO XPVS Vfinal vOV agramatical Figura 3. Distribuição dos diferentes tipos de ordem frásica (3ª sessão, em %) Quanto à produção de orações agramaticais, a taxa de agramaticalidade subiu, agora, para os 50%, portanto, metade das orações produzidas são sintaticamente desviantes. Além das estruturas agramaticais já observadas na sessão anterior, como a omissão agramatical do sujeito e a construção de pseudo-orações de topic-drop, nesta terceira sessão, os erros afetam também a posição do verbo, uma propriedade que até ao momento não tinha sido afetada por erosão. Os problemas com a colocação do verbo afetam tanto a posição V2 como a propriedade OV. Dez das vinte e nove ocorrências agramaticais correspondem a orações desviantes do tipo XPSV (V3), como demonstrado no exemplo (8). 371 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA (8) *Dann der Hund ist Krankenhaus für Tiere. então o cão está hospital para animais is hospital ‘Então o cão está no hospital para animais. [Correto: Dann ist der Hund im Krankenhaus für Tiere.3 ] Nesta terceira sessão, Ana também produz orações agramaticais do tipo vVO, nas quais a forma verbal não finita segue imediatamente a forma flexionada em vez de permanecer no final da oração (cf. (9)). (9) *Jemand wird geben ein Hund. alguém vai dar um cão ‘Alguém vai dar(-lhe) um cão.’ [Correto: Jemand wird (ihm) ein Hund geben.] Quanto à produção de orações subordinadas, como já foi referido, a informante não constrói nenhuma oração com posição final do verbo. Em todas as nove orações encaixadas produzidas nesta terceira sessão, o verbo moveu-se para uma posição mais elevada da estrutura frásica, em vez de se manter no final da oração (cf. exemplo (10)). (10) …, *dass die Junge und das Mädchen sich setzen auf ein Stuhl. que o rapaz e a rapariga se sentam em uma cadeira ‘...que o rapaz e a rapariga se sentem numa cadeira.’ [Correto: ..., dass der Junge und das Mädchen sich auf ein Stuhl setzen.] Tal como no domínio sintático, também no morfológico podemos observar um aumento significativo de erros neste terceiro momento de recolha de dados. A marcação de caso continua a ser a propriedade mais problemática, pois em 65,3% de todas as ocorrências, a informante opta pela declinação errada. Na grande maioria dos casos, o caso dativo é substituído pelo nominativo ou acusativo (cf. (11)). (11) Ich sehe viel Müll in die Straße. eu vejo muito lixo em a rua ‘Eu vejo muito lixo na rua.’ [Correto: Ich sehe viel Müll in/auf der Straße.] Nesta sessão, também a taxa de desvios no domínio da marcação de género subiu consideravelmente; em 54,3% de todos os contextos, é atribuído o género errado ao nome. Os efeitos de erosão também afetam o uso de preposições. Desde a segunda sessão, Ana mostra problemas na escolha da preposição certa, registando-se uma tendência crescente de omissão da preposição. Estes efeitos são descritos em todos os estudos que incidem sobre a erosão linguística na infância. 3 372 PERDER UMA LÍNGUA NA INFÂNCIA: UM ESTUDO LONGITUDINAL SOBRE EROSÃO LINGUÍSTICA Curiosamente, não é possível identificar nenhuma clara tendência de redução do sistema de três géneros para um sistema dual mais simples de masculino-feminino, como existe em português. Em vários casos, o neutro é usado em vez do masculino (cf. (12)), o que indicia uma marcação arbitrária do género. (12) *Das Mann ist braun. ONEU homem é castanho ‘O homem é castanho.’ [Correto: Der Mann ist braun.] Ao contrário do que foi observado na sessão anterior, nesta fase, também a morfologia verbal é afetada por erosão, uma vez que a informante começa a substituir a flexão em pessoa e número pelo uso do infinitivo. A forma infinitiva é usada agramaticalmente em 17,2% de todas as ocorrências verbais, como demonstrado no exemplo (13). (13) …, weil meine Mutter arbeiten acht Uhr. porque minha mãe trabalhar oito horas ‘porque a minha mãe trabalha (até às) oito horas’. [Correto: ..., weil meine Mutter (bis) acht Uhr arbeitet.] 4.4. Quarta sessão A última sessão decorreu dezoito meses depois da chegada de Ana a Portugal, quando estava perto de completar onze anos de idade. Uma semana antes desta sessão, a entrevistadora e a informante tinham já reunido para prosseguir a recolha de dados da mesma forma que nas sessões anteriores, através de conversação livre e estímulos orais. Contudo, a recolha teve de ser interrompida, sem êxito, pois Ana não conseguiu produzir nada em alemão, o que a deixou bastante frustrada e desmotivada. Afirmava não se lembrar de nenhuma palavra alemã. Para contornar os problemas de acesso lexical, que impediam a informante de produzir orações em alemão, no encontro seguinte foi-lhe dado um teste de ordenação de palavras. A tarefa da informante consistia em construir frases a partir das palavras que lhe eram mostradas. Os verbos eram apresentados na sua forma não flexionada e os nomes não apresentavam artigos, por isso, além de ordenar as palavras ainda era necessário conjugar o verbo e marcar o caso e o género. Para garantir a produção dos diferentes tipos de posicionamento verbal possíveis em alemão (V2; Vfinal; vOV), o primeiro elemento da frase estava já indicado. O teste incluiu um total de 30 frases: 10 do tipo XPVS (5 com 373 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA objeto e 5 com advérbio na primeira posição); 10 orações encaixadas que requeriam a ordem Vfinal e 10 orações SV com formas verbais complexas (fututo, o perfeito alemão [Perfekt] e construções com verbos modais), que requeriam a sequência vOV. Além do tipo de frase foi ainda controlada a flexão em número e pessoa (5 frases por pessoa/número) e foram usados verbos/preposições que requeriam casos diferentes (nominativo, acusativo, dativo). Os nomes, no singular, variavam nos três géneros (feminino, masculino, neutro). Depois de um treino inicial, com frases não incluídas no teste, a informante percebeu a tarefa proposta e conseguiu completar o teste com relativa facilidade. Relativamente à colocação do verbo (cf. figura 4), os resultados mostram que a produção de orações gramaticais co-ocorre com a produção de orações agramaticais. Das 10 orações que requerem a ordem XPVS, a informante produz 7 construções gramaticais (contra 3 agramaticais, do tipo *XPSV/V3). Quanto às orações encaixadas, são produzidas 4 gramaticais com posição final do verbo (Vfinal) 6 agramaticais em que o verbo não está em posição final (*Vnfinal). Quanto à produção de formas verbais descontínuas, Ana produz 6 gramaticais (vOV) contra 4 agramaticais. É de realçar que, também neste tipo de teste, a falante parece apresentar mais dificuldades na produção de orações encaixadas (com o verbo em posição final de frase) do que com frases V2. Contudo, apesar de construir orações com ordem frásica agramatical, a falante não perdeu o conhecimento das regras de colocação verbal, pois também é capaz de construir sequências gramaticais. 4 4ª sessão 80 70 60 60 60 40 30 40 *XPSV Vfinal 40 20 0 XPVS *Vnfinal vOV *vVO Figura 4. Distribuição dos diferentes tipos de ordem frásica (4ª sessão, em %) Quanto à marcação de caso, os resultados assemelham-se aos da sessão anterior: a taxa de desvios ronda os 56%, sendo o caso dativo o mais afetado. Esporadicamente, também se observou a substituição do caso acusativo pelo nominativo; em nenhum caso o dativo foi Este teste não permitiu testar a expressão do sujeito, pois o sujeito era indicado, o que impossibilitava a sua omissão. Além disso, o facto de o elemento inicial da frase estar indicado também impedia a produção de pseudo-construções de queda de tópico, pelo que estas estruturas não foram analisadas nesta sessão. 4 374 PERDER UMA LÍNGUA NA INFÂNCIA: UM ESTUDO LONGITUDINAL SOBRE EROSÃO LINGUÍSTICA usado em vez dos outros dois casos. Também a taxa de desvios na marcação de género é próxima da percentagem de erros da sessão anterior. Ana falha em marcar o género corretamente em 45% dos casos. A atribuição do género continua a ser bastante arbitrária, não havendo nenhuma tendência clara de perda de um os géneros. Aliás, contrariamente ao que seria de esperar, em vários casos, o género neutro é usado em vez do masculino. Quanto à flexão verbal, também nesta quarta sessão se observa uma tendência para uso de formas infinitivas em vez de formas flexionadas, tal como tinha sido observado na sessão anterior. Em 30% das ocorrências a forma verbal não é flexionada em pessoa e número, contudo, neste caso, é necessário ter em conta que o verbo era apresentado à falante na sua forma não flexionada, o que poderá ter influenciado o seu desempenho. 4.5. Síntese dos resultados A figura 5 apresenta o desenvolvimento da taxa de desvios sintáticos e morfológicos desde a primeira à quarta sessão. Sumariamente, verificamos que os primeiros erros gramaticais surgem na segunda sessão (cinco meses depois do regresso) em propriedades de interface (a expressão do sujeito e pseudo-construções topic-drop) e na marcação do caso. A marcação do género mostra efeitos de erosão apenas na terceira sessão (treze meses depois do regresso). É também nesta terceira sessão que o domínio da colocação verbal apresenta efeitos de erosão. É de realçar que estes surgem ao mesmo tempo que a morfologia verbal é afetada, verificando-se a produção de formas verbais não flexionadas. A quarta sessão, de natureza diferente por incidir sobre produção oral provocada a partir de estímulos escritos, mostra, contudo, uma tendência de manutenção (ou ligeira redução) das taxas de erro verificadas na sessão anterior. Resumindo, após dezoito meses sem exposição diária ao alemão, todas as áreas analisadas demonstram efeitos de erosão, expressos através da produção de formas agramaticais, que co-ocorrem com formas agramaticais. 80 caso 60 género 40 flexão verbal 20 propriedades de interface posição verbal 0 1ª 2ª 3ª 4ª 375 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA Figura 5. Taxa de desvios sintáticos e morfológicos (desde a 1ª à 4ª sessão) 5. Discussão final Em primeiro lugar este estudo vem confirmar os resultados de trabalhos prévios que analisaram de forma longitudinal o desenvolvimento da competência linguística de crianças bilingues após a mudança do ambiente linguístico dominante. Todos reportam a ocorrência de efeitos de erosão poucos meses depois dessa mudança. A informante, que no momento do regresso a Portugal apresentava proficiência nativa a nível do alemão, começa a mostrar sinais de erosão nesta língua cinco meses depois de imergir num ambiente dominantemente português, confirmando assim a primeira hipótese deste estudo. Em segundo lugar, o estudo mostra que há propriedades da língua que são afetadas por erosão antes de outras e, ainda, que outras parecem ser afetadas sensivelmente ao mesmo tempo, indicando existir alguma uma correlação entre elas. Neste âmbito, é de realçar que a informante começa a demonstrar dificuldades na colocação do verbo (efeito V2 e ordem OV) na mesma sessão em que começa a produzir formas verbais não flexionadas, embora a taxa de desvios na flexão verbal seja bastante inferior ao valor observado relativamente à colocação do verbo. Os efeitos de erosão observados em ambos os domínios surgem sensivelmente um ano depois de Ana ter deixado a Alemanha.5 Esta correlação entre a colocação do verbo e a flexão verbal é um dado adquirido no processo de aquisição da língua. Estudos sobre a aquisição do alemão como L1 (Clahsen, 1982; Meisel, 1994) demonstraram que a criança alemã começa a produzir orações V2, e posteriormente orações encaixadas com o verbo em posição final, depois de adquirir a flexão verbal. Ora, o facto de a mesma correlação ser observada numa situação de declínio de proficiência linguística demonstra que o processo de perda não é arbitrário. Tende, isso sim, a ser guiado por princípios maturacionais idênticos aos que guiam a aquisição da língua. Os resultados deste estudo mostram ainda que os efeitos de erosão no domínio sintático não afetam todas as propriedades sintáticas ao mesmo tempo. Vimos, pois, que os primeiros indícios de declínio de competência linguística surgiram cinco meses depois da chegada de Ana a Portugal, através da omissão agramatical do sujeito e da produção de Note-se que há um espaço temporal de quase oito meses entre a segunda e a terceira sessão. Isto significa que os efeitos de erosão observados na terceira sessão terão surgido nesse período, pelo que não seja possível verificar com exatidão se os problemas na colocação do verbo e na flexão verbal terão surgido precisamente na mesma altura. Como a falante nesse período não usou a língua alemã, o que podemos afirmar com segurança é que os efeitos se tornaram visíveis no momento em que efetivamente usou a língua num contexto comunicativo. Não sabemos o que se passou na sua mente no período em que não usou a língua. 5 376 PERDER UMA LÍNGUA NA INFÂNCIA: UM ESTUDO LONGITUDINAL SOBRE EROSÃO LINGUÍSTICA ordens frásicas que não violavam as regras sintáticas da colocação verbal, mas apresentavam inversões sujeito-verbo pragmaticamente desviantes. Ora, no primeiro caso, a falante parece aplicar ao alemão regras de omissão de sujeito típicas do português; no segundo caso produz frases que se assemelham a construções de queda de tópico típicas do alemão falado, mas sem respeitar as condições pragmáticas dessas orações. Em ambos os casos, estamos perante propriedades em que a sintaxe interage com a pragmática; a informante demonstra ter dificuldades em conjugar as regras sintáticas com as condições pragmáticas inerentes a estas propriedades. De facto, estas dificuldades parecem indiciar que as propriedades situadas na interface entre sintaxe e discurso são mais rapidamente afetadas por falta de uso da língua do que outras propriedades sintáticas, confirmando assim que, também no caso da erosão linguística infantil, há uma diferença entre propriedades de interface e propriedades puramente sintáticas, como proposto por Sorace e colegas (Sorace, 2004; Sorace & Serratrice, 2009; Tsimpli et al., 2004) para situações de aquisição bilingue. Quanto à morfologia nominal, os resultados mostram que o sistema de casos do alemão é uma propriedade linguística altamente suscetível a efeitos de erosão, pois este é o domínio que apresenta taxas de agramaticalidade mais elevadas, logo desde a segunda sessão. Esta observação vai ao encontro dos resultados de outros estudos que identificaram efeitos de erosão a nível da marcação de caso em falantes bilingues (Jordens et al., 1986; Polinsky, 1997). De facto, no caso de Ana, observamos desde cedo a tendência de redução do sistema de casos do alemão através da substituição do caso dativo pelo nominativo e acusativo. É interessante observar que a mesma tendência é descrita em estudos de variação linguística que analisam a evolução do alemão falado por comunidades imigrantes alemãs residentes nos EUA ou no Brasil (Altenhofen, 1996; Boas, 2009; Eikel, 1949), o que vem confirmar a estreita relação entre erosão individual e mudança linguística numa comunidade. A variação linguística observada em comunidades começa indubitavelmente por variação individual nos seus falantes, que pode ser um efeito de erosão por razões de alteração das suas condições de input. Por sua vez, a razão de perda do caso dativo, em vez do acusativo, estará muito provavelmente na própria natureza do sistema de casos e no seu processo de aquisição. Tracy (1984) demonstra que, em alemão L1, o dativo é adquirido bastante tarde. Depois de adquirir o nominativo e o acusativo, a criança alemã passa por uma fase em que usa o acusativo em contextos de dativo e só mais tarde distingue estes dois últimos casos. Sendo assim, parece que a redução do sistema de casos em situações de erosão afeta o caso que foi adquirido mais tarde. 377 XXVIII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA Por fim, verificamos que também a marcação de género é afetada por erosão, porém, mais tarde que o sistema de casos. Apenas na terceira sessão (após treze meses), Ana demonstra dificuldades na atribuição do género lexical. Contudo, neste caso não se observa uma tendência de redução do sistema de três géneros para apenas dois, mas sim uma escolha arbitrária dos três géneros, o que também foi observado no estudo de erosão de Schmid (2002). Isto significa que a transferência interlinguística não tem um papel relevante neste domínio da língua. O facto de o português, que passou a ser a língua dominante de Ana, possuir apenas os géneros feminino e masculino não reforça o uso destes dois géneros no alemão, levando à perda do género neutro. Pelo contrário, a falante continua a usar os três géneros, porém tem dificuldades em atribuir o género correto aos nomes, o que poderá estar relacionado com as dificuldades de acesso lexical que vão aumentando progressivamente. Como a atribuição do género em alemão é um processo bastante opaco, sem indicadores morfológicos e fonéticos muito explícitos, o género lexical é adquirido juntamente com o próprio léxico. Consequentemente, os problemas de acesso ao léxico levam a problemas de atribuição do género lexical. Concluindo, o presente estudo vem reforçar a ideia de que as crianças que são expostas a duas línguas desde cedo se tornam bilingues e adquirem proficiência nativa em ambas as línguas, porém, é necessário que a exposição a ambas as línguas se mantenha mesmo após o período de aquisição. A perda de contacto diário com uma das línguas durante a infância leva a perda de competência, que começa poucos meses depois das alterações de input e afeta vários domínios linguísticos, como o léxico, a sintaxe e a morfologia. Referências Altenhofen, C. (1996) Hunsrückisch in Rio Grande do Sul: Ein Beitrag zur Beschreibung einer deutschbrasilianischen Dialektvarietät im Kontakt mit dem Portugiesischen. Stuttgart: Steiner Verlag. Boas, H. (2009) Case loss in Texas German. The influence of semantic and pragmatic factors. In. J. Barðdal e S. Chelliah (orgs.) The Role of Semantics and Pragmatics in the Development of Case. Amsterdam/ Philadelphia: Benjamins, pp. 347-373. Clahsen, H. 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