A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO O ESPETÁCULO DOS GRAMADOS: DISCURSOS PELA FINANCEIRIZAÇÃO DO FUTEBOL BRASILEIRO E A TRANSFORMAÇÃO DA PRÁTICA ESPORTIVA EM MERCADORIA THE GRASS SPECTACLE: SPEECHES ABOUT THE BRAZILIAN FOOTBALL FINANCIALIZATION AND TRANSFORMATION OF SPORTIVE PRACTICE IN MERCHANDISE PATRÍCIA VOLK SCHATZ1 Resumo: Durante a década de 1970 o futebol brasileiro passou por um processo de transição que o projetou como uma mercadoria a partir de discursos que destacavam a necessidade de modernização e financeirização da prática. Assim, observa-se que a ampliação do marketing esportivo, a formação de parcerias econômicas e o estabelecimento de fluxos de investimentos e de capitais promovem distinções geográficas referentes à dinâmica dessa economia do esporte no território nacional. A área dos esportes busca o dinamismo econômico e o controle do mercado através das empresas promotoras do espetáculo esportivo que são capazes de transformar práticas lúdicas em artigos de alta lucratividade. Assim, esse artigo visa discutir os principais fatores que historicamente contribuíram para a transformação do futebol em mercadoria e a inserção da prática no movimento de financeirização da economia. Palavras-chave: futebol; financeirização; mercadoria. Abstract: During the 1970s, the Brazilian football has passed through a transition process that designed it as a commodity from speeches that highlighted the need for its modernization and financialization. Thus, it is possible to observe that sports marketing expansion, economic partnerships formation and the establishment of investments and capital flows promote geographical distinctions regarding the dynamics of that sports economy, in the country. The sports arena looks for economic dynamism and market control through sportive promoting companies that can transform playful practices in high profitability articles. Therefore, the paper discusses the main factors that have historically contributed to the football transformation into merchandise and the practice inclusion within the economy‟s financialization movement. Key-words: football, financialization, merchandise. 1 Acadêmica do Programa de Pós Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina. Email: [email protected] 6294 1- Introdução Este artigo apresenta discussões preliminares acerca do problema de pesquisa em desenvolvimento junto ao Programa de Pós Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina em nível de doutorado. Mascarenhas (1999) aponta para a necessidade de se observar o futebol como uma mercadoria quando este é oferecido como espetáculo de consumo. Notase que o esporte envolve investimentos financeiros, firma parcerias e promove distinções geográficas. É nesse sentido que torna-se fundamental considerar o futebol como um negócio capaz de mobilizar finanças e gerar diferenciações no território. Observa-se que a transformação do futebol em mercadoria é um processo histórico ligado as transformações do capitalismo mundial e as mudanças internas de gestão e política do esporte. Dessa forma, o presente artigo apresenta a conjuntura brasileira das décadas de 1970 e 1980 referentes ao futebol que promoveram a intensa transformação da prática em negócio. Também serão apresentados alguns dados que revelam a importância do esporte bretão para a economia nacional e seus desdobramentos sobre a diferenciação territorial. 2. Discursos pela financeirização do futebol brasileiro O processo de transformação do futebol em mercadoria de consumo desenvolveu-se em âmbito mundial. Segundo Hilário Junior (2007) à medida que o capitalismo industrial ia sendo superado pelo capitalismo financeiro a situação do esporte transformava-se de forma que “cada mercado consumidor local ou nacional pesava sempre mais no produto futebol” (2007; p. 112). 6295 No caso brasileiro as mudanças internacionais no futebol e o quadro político interno observado nas décadas de 1970 e 1980 foram determinantes para o tratamento legado ao esporte nacional. Durante o regime civil-militar brasileiro (1964-1985) o futebol passou por tentativas de apropriação política e ideológica que visavam legitimar as práticas dos governos militares. A conquista do tricampeonato mundial em 1970, a montagem de um campeonato nacional de clubes no ano seguinte e a disputa da Taça Independência em 1972 formam a tríade futebolística do governo Médici.2 Esses eventos destacam-se por seu significado, sobretudo a criação do campeonato brasileiro de clubes de 1971 que inseriu-se no projeto militar de integração nacional ao propor que a competição relacionasse as regiões sul-sudeste e norte-nordeste. Com o anúncio da abertura política realizada pelo governo Ernesto Geisel em 1974 observam-se mudanças relacionadas ao futebol. A redemocratização brasileira constituiu-se como um caso excepcional em que a transição lenta, gradual e segura, conforme discurso oficial, foi realizada pelos próprios militares. Nota-se que áreas de interesse como a dos esportes passam lentamente por um processo de transformação que pretendeu desvincular a imagem dos militares do futebol nacional ao propor a criação da Confederação Brasileira de Futebol. A gestão do futebol brasileiro esteve a cargo da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) desde a década de 1920. Com a eminencia da abertura política nacional e por conta das exigências da FIFA (Fédération Internationale de Football Association) é proposta a criação da CBF como uma possibilidade real de modernização e financeirização da prática. O cronista e ex-técnico da Seleção Brasileira João Saldanha destacou a necessidade de especializar a prática do futebol no Brasil: 2 O futebol foi apontado inúmeras vezes como um manipulador social durante os governos civilmilitares. No entanto, essas suposições desconsideram a capacidade da população de reação às arbitrariedades do regime. Para o debate ver: RAMOS, Roberto. Futebol: Ideologia do Poder. Petrópolis: Vozes, 1984; FASSY, Amaury. Brasil: tetra campeão mundial? Brasília: Horizonte, 1982. 6296 [...] Mas duas coisas serão necessárias, além da formação da CBF, para que o futebol brasileiro consiga uma posição sólida: em primeiro lugar a formação de novas bases. As federações ainda são dirigidas por elementos carcomidos e também terão de deixar de ser ecléticas. Uma nova estrutura terá de ser formada com critério seletivo por Estados ou regiões, agrupando dois ou até mais Estados e formando verdadeiras divisões (primeira, segunda, terceira ou quantas possíveis), com o escalonamento pelo critério esportivo do acesso e rebaixamento dos clubes competidores. [...] (Revista Placar, 20 de abril de 1979, p. 24.) Saldanha preconiza algumas mudanças que acompanhariam a criação da CBF como a formação de séries com acesso de decesso dos clubes em competição. Ao final de 1979 a nova entidade gestora do futebol é oficializada com as promessas de melhoria do campeonato nacional e modernização da prática no país. Com a administração da CBF as principais mudanças verificadas relacionamse ao campeonato de clubes no intuito de evitar que o escrete somasse 94 clubes como acontecerá em 1979.3 Os discursos posteriores revelam questões com a adequação do futebol brasileiro com a conjuntura internacional desportista: Mas a pobreza do nosso futebol está principalmente em que também não estamos sabendo reagir ao mercado futebolístico mundial. Francamente não temos sequer a ameaça italiana. Afirmo que isto não é problema como nem a Espanha foi. Dizem: “Se a Itália abrir mesmo suas portas, aqui não ficam nem os porteiros dos clubes”. Não duvido. [...] O dirigente italiano da Juventus, o poderosíssimo senhor Agnelli, foi dizendo num almoço: “Para não perder tempo, coisa que não tenho, dou 500 mil dólares por Garrincha”. O diretor do Botafogo e eu, fazendo coro, respondemos: “O senhor não tem dinheiro para comprar Garrincha.” Ora, 500 mil dólares na época era uma fortuna. Mas ante nossa resposta insólita e atrevida, o homem mais rico da Itália e um dos dez mais da Europa bufou, quase botou a comida para fora. E berrou: “Tenho sim”. (João Saldanha, Placar, 01 de fevereiro de 1980, p. 24-25) 3 O último presidente da CBD foi o almirante e presidente da ARENA Heleno de Barros Nunes. Sua gestão é marcada por tentativas de usar seu cargo como promotor eleitoral do partido do governo. Muitos clubes eram acrescidos ao campeonato nacional de clubes por conta de acordos ou favores políticos e esse quadro resultou em acréscimos anuais no número de clubes que participavam da competição. Em 1979 o campeonato brasileiro contou com 94 clubes em disputa o que prejudicava financeiramente essas entidades que arcavam com altos gastos com os itinerários de jogos e com os departamentos médicos. Com a CBF esse quadro é alterado e já em 1981 o campeonato contou com 44 clubes, uma redução significativa. 6297 O caso europeu de financeirização do futebol precedeu o fenômeno no Brasil. Para Hilário Júnior (2007) os títulos da Copa dos Campeões Europeus revelam a mudança do quadro continental à medida que o capitalismo industrial era superado pelo capitalismo financeiro. Entre 1956-1966 onze títulos foram conquistados por clubes latinos4 e entre 1967 e 1984 a competição foi vencida oito vezes por clubes ingleses relevando a “ascensão futebolística dos clubes mais avançados” (2007; p. 112). Contudo, a formação de uma consciência econômica sobre o futebol ainda revelava-se a passes lentos. O próprio João Saldanha destacou em suas crônicas esportivas essa posição afirmando que “fazer dinheiro é mais próprio para bancos, mercados, financeiras ou outros ramos do comércio lucrativo. [...] A questão econômico-financeira é com outra turma”. (Placar, 01 de fevereiro de 1980, p. 25) Se o discurso de Saldanha ainda era resistente a transformação do esporte em mercadoria e da prática em negócio, o que se observa nas décadas seguintes é a inevitabilidade desse processo. O fim da proibição de contratações de jogadores estrangeiros por países como Espanha em 1973 e Itália em 1980 abriram novas possibilidades para os jogadores brasileiros. O futebol recebeu gradativamente maior visibilidade através dos meios de comunicação e do desenvolvimento do marketing esportivo. Ainda nos anos de 1970 empresas multinacionais como a Coca-Cola e a Philips Morris passaram a patrocinar campanhas esportivas mundiais enquanto que a nova ESPN (Rede de Programação de Esportes e Entretenimento) foi responsável pela ampliação da visibilidade sobre os esportes. Já na década de 1980 a empresa alemã Adidas passou a comercializar a imagens e marcas junto a FIFA e ao COI (Comitê Olímpico Internacional) e norteamericana Nike começou a utilizar comercialmente a imagem de atletas. As tendências mundiais em transformar o futebol em negócio tornaram a prática em um significativo ramo da economia. Logo, no caso do Brasil além das 4 Hilário Júnior (2007) destaca os casos de sucesso dos clubes Milan do presidente Andrea Rizzoli um importante empresário do setor editorial e o caso da Internazionale do presidente e empresário do petróleo Angelo Moratti entre as décadas de 1950 e 1960. 6298 disposições internacionais observa-se a relevância do quadro político interno que através da nova CBF preconizava pela modernização e financeirização do futebol brasileiro. 3. A importância econômica do futebol Segundo Hilário Júnior “a mentalidade liberal e mercantil transformou o futebol em negócio mundial, sujeito a flutuações como qualquer outro” (2007; p. 116). Observa-se que o futebol envolve atividades que formam fluxos de investimentos, firmam parcerias, geram capitais e determinam distinções geográficas referentes à dinâmica desta economia. No caso brasileiro o eixo sul-sudeste é o mais representativo do futebol concentrando os clubes mais ricos do país. Nesse sentido, Mascarenhas (2014) destaca como a dinâmica econômica do futebol reflete-se sobre o território nacional. O autor trata de uma metropolização do futebol, ou seja, as metrópoles estariam relacionadas e seriam determinantes na transformação do esporte bretão em mercadoria e espetáculo de consumo: A força de seu mercado consumidor interno garante maior aporte de investimentos de propaganda nas camisas, bem como maior consumo de produtos dos clubes, maior cota de televisão etc. Por isso, o Sudeste participou com 27,5% das vagas no grande campeonato de 1979 e, atualmente (desde 2003), se mantém com o dobro desse percentual. De todas as regiões, a maior „perdedora‟ foi o Nordeste, o que se explica por duas razoes fundamentais: no plano político, a fragmentação da malha federativa favorecia a maior presença de clubes pelo sistema de representação; no plano econômico, a debilidade do mercado local dificulta, atualmente, a formação de equipes competitivas. (MASCARENHAS, 2007; p. 194) O que Mascarenhas (2014) pretende demonstrar é que a base espacial metropolitana oferece condições propicias ao desenvolvimento das atividades esportivas. 6299 O mercado futebolístico envolve as transações de atletas, a exploração dos estádios, receitas de times e federações, negociações sobre marcas, patrocínios e venda do espetáculo. Em relação a economia nacional do futebol destaca-se a sua relevância para o Produto Interno Bruto (PIB). O valor do PIB brasileiro de 2012 foi de RS 4,1 trilhões de reais sendo que deste montante 1,6% são referentes a prática dos esportes5, ou seja, R$ 67 milhões de reais. As perspectivas de crescimento do setor projetam um aumento de 22% entre 2011 e 2016 representando 1,9% do PIB. 6 As práticas esportivas são oferecidas como espetáculos com a ação de atores, expectadores, espaços, promotores e canais de divulgação. O futebol é formado por redes empresariais que movimentam enormes montantes financeiros e sustentam perspectivas positivas para o crescimento do setor nos próximos anos. Referências Bibliográficas BRENKE, K.; WAGNER, G. G. The Soccer World Cup in Germany: A Major Sporting and Cultural Event – But Without Notable Business Cycle Effects. DIW Berlin Weekly Report. v. 2, n. 3, p. 23-31, 2006. CHESNAIS, François. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996. CHOAY,F. O Urbanismo. São Paulo: Editora Perspectiva, 1992. DaCOSTA, L. et. all.(Eds.), Legados de Megaeventos Esportivos. Brasília: Ministério do Esporte/ Sistema CONFEF/CREFs, 2008. DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. (1967). Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. 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