Volume 9, Número 2, 2009 Editores Gardênia Abbad Universidade de Brasília Sônia Gondim Universidade Federal da Bahia Narbal Silva Universidade Federal de Santa Catarina Revista Psicologia: Organizações e Trabalho ISSN 1984-6657 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009 Associação Brasileira dos Editores Científicos de Psicologia http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009. http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho SUMÁRIO EDITORIAL Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, Volume 9, Número 2, jul-dez 2009......................3 - 6 por: Sônia Gondim ARTIGOS v v v v v v v v v Áurea de Fátima Oliveira & Sinésio Gomide Júnior Inventário de Cultura Organizacional: Adaptação e Validação de um Instrumento de Diagnóstico para o Contexto Brasileiro............................................................................................................................................................... 8-21 Edgar Pereira Junior & Maria Elisabeth Salvador Caetano Implicações do Teletrabalho: um Estudo sobre a Percepção dos Trabalhadores de uma Região Metropolitana...... 22-31 Maíra Gabriela Santos de Souza, Lísian Camila Vasconcelos & Jairo E. Borges-Andrade Pesquisa sobre Mudança nas Organizações: a Produção Brasileira em Micro Comportamento Organizacional........32-46 Sylvia Constant Vergara & Luiz Ernesto Fonseca Alves Compartilhamento do Conhecimento nas Organizações: Possibilidades e Limitações....................................................47-59 Luís Fernando Santos Corrêa da Silva & Daniel Gustavo Mocelin Satisfação com o Emprego em Call Centers: Novas Evidências sobre o Emprego Trampolim..............................60-71 Luciana Mourão & Jesiane Marins Avaliação de Treinamento e Desenvolvimento nas Organizações: Resultados Relativos ao Nível de Aprendizagem......72-85 Karine Moreira de Almeida, Lúcia Azambuja de Souza & Mary Sandra Carlotto Síndrome de Burnout em Funcionários de uma Fundação de Proteção e Assistência Social...............................86-96 Aline Bogoni Costa & Dulce Helena Penna Soares Orientação Psicológica para a Aposentadoria....................................................................................................97-108 José Vieira Leite, Mário César Ferreira & Ana Magnólia Mendes Mudando a Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho....................................................................................109-123 RESENHA DA OBRA Rego, A. & Cunha, M. P. e. (2009). Manual de Gestão Transcultural de Recursos Humanos. Lisboa: Editora RH. Novas Perspectivas na Gestão Transcultural........................................................................124 - 130 por: Antonio Caubi Ribeiro Tupinambá Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 3-6. http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho EDITORIAL Revista Psicologia: Organizações e Trabalho Número 9, Volume 2, jul-dez 2009 por: Sônia Gondim* * Editora da rPOT na Universidade Federal da Bahia (UFBA). [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/9725833775313298. 4 Gondim, S. M. G. E ste número da rPOT é bastante ilustrativo do crescimento da diversidade e da riqueza da produção nacional na área de Psicologia do Trabalho e das Organizações. Nele, o leitor encontrará conteúdos de natureza variada, tanto para quem se dedica à Psicologia do Trabalho, quanto para quem atua e estuda organizações. O artigo de Áurea de Fátima Oliveira e Sinésio Gomide Júnior sobre a validação de um inventário de cultura organizacional para o contexto brasileiro reafirma a importância de estudos de adaptação de instrumentos, dadas as variabilidades culturais entre países. No caso específico do Organizational Culture Inventory (OCI), proposto por Cooke e Lafferty (1989), os autores supracitados não encontraram a mesma estrutura fatorial, o que aponta a necessidade de mais estudos de validação de escalas pela sua importância no diagnóstico e na tomada de decisões em organizações. O artigo de Sylvia Vergara e Luis Ernesto Fonseca Alves oferece uma reflexão crítica sobre as limitações e possibilidades de compartilhar conhecimentos em organizações. Discutem as contradições de organizações que, apesar de defenderem o princípio do compartilhamento, adotam práticas altamente competitivas que inibem a cooperação e a troca de conhecimento. Valendo-se também dos estudos das fases do desenvolvimento de grupos, alertam para o fato de, em determinados momentos, o grupo não se encontrar receptivo à troca de experiências, como no caso da fase de reafirmação do status social de cada membro no grupo, enquanto, em outros momentos de informalidade, as trocas ocorrerem mais facilmente. Enfim, interesses conflitantes, disputa pelo poder e políticas contraditórias dificultam mais que facilitam a troca de conhecimentos, mesmo em organizações que dizem privilegiar a gestão do conhecimento. produção nacional sobre as percepções e crenças dos membros das organizações sobre as mudanças organizacionais e suas consequências. Foram analisados 23 artigos publicados no período de 1996 a 2007. As principais conclusões indicam que o interesse pelo estudo das mudanças organizacionais no nível individual cresceu ao longo dos anos, principalmente nos periódicos da área de Administração. Os artigos analisados mostram a relevância do tema para a realidade organizacional e, de alguma forma, tentam compreender a relação da mudança com algum aspecto individual (comportamentos, crenças, resistência, relações de poder, percepções de cultura). Estudos de caso representam um pouco menos que a metade dos artigos encontrados, o que sugere estar a preocupação direcionada para a compreensão de contextos específicos de mudança, como o do setor terciário, o mais pesquisado. O artigo de Luís Fernando Santos Corrêa da Silva e Daniel Gustavo Mocelin discute os resultados de uma pesquisa empírica levado a cabo na região sul do país, do qual participaram três empresas de call-center. Com base em um estudo empírico, os autores defendem a tese de que o trabalho em teleatendimento oferece possibilidades de inserção temporária no mercado de trabalho, em concordância com Mocelin e Silva (2008), que afirmam serem os postos de trabalho, nessa área, ocupados por trabalhadores jovens, escolarizados ou em processo de escolarização, não sendo, portanto, atrativos profis-sionalmente pelas poucas chances de ascensão profissional que oferecem. Essa conclusão é fortalecida visto que os resultados da pesquisa sinalizam também que o aumento tempo de permanência no emprego é acompanhado do aumento do nível de insatisfação com o trabalho. O artigo de Luciana Mourão e Jesiane Marins analisa cursos de capacitação O artigo de Maíra Gabriela Souza, Lísian oferecidos por cinco empresas localizadas no Vasconcelos e Jairo Borges-Andrade analisa a Rio de Janeiro com o objetivo de avaliar as Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 3-6 rPOT, 9, 2, jul-dez 2009 variáveis preditoras do nível de aprendizagem dos treinandos. Foram realizadas medidas antes e depois de concluído o curso de capacitação de 126 participantes, e os principais preditores encontrados foram a experiência prévia com cursos de capacitação, o tipo de treinamento (natureza cognitiva ou comportamental), o tipo de instrutor (interno ou externo à instituição), o número de funcionários das organizações e a reação ao treinamento. O treinamento voltado para o aprendizado de conteúdos e que envolve avaliação cognitiva oferece mais aprendizado que os de natureza afetivo-comportamental. O instrutor externo é mais efetivo na promoção da aprendizagem do que o interno, o que nos leva a crer que, independentemente da competência do instrutor interno, variáveis psicológicas podem influenciar na re-cepti-vidade do conteúdo ministrado. A empresa de maior porte proporciona mais aprendizado que a de menor porte, sugerindo que, prova-velmente, a primeira deve adotar critérios mais rigorosos para o treinamento, além de acumular mais experiência, o que permite aperfeiçoamentos. Por último, a avaliação positiva do treinamento se relaciona positivamente com o nível de aprendizagem, o que também sinaliza para a dimensão afetiva como um aspecto importante na motivação para a aprendizagem. 5 para o trabalhador presencial, seria a distração familiar, seguida do controle do tempo pessoal e da ação coletiva. Esses resultados sugerem que há mitos sobre o teletrabalho que podem inibir a escolha por essa modalidade de trabalho, que não são compartilhados pelos trabalhadores que a ele se submetem. O artigo de Karine Moreira de Almeida, Lúcia Azambuja de Souza e Mary Sandra Carlotto estuda a Síndrome de Burnout entre 73 funcionários que atuam em abrigos e casas de atendimento de uma fundação de proteção e assistência social. Os resultados obtidos sinalizam índice médio em exaustão emocional, fase inicial do processo de Burnout, de acordo com o modelo processual de Maslach, e está presente entre os mais jovens, principalmente pela sua imaturidade profissional em lidar com situações de trabalho de alta demanda emocional. A experiência familiar com filhos diminui a incidência da exaustão, provavelmente pelas mesmas razões apontadas acima, ou seja, o aprendizado em lidar com situações que exigem manejo emocional. Em concordância com os resultados de Maslach (1978), o nível de estresse profissional de trabalhadores de atendimento se encontra susceptível à qualidade de interação com o cliente, daí a importância do monitoramento da síndrome O artigo de Edgar Pereira Junior e Maria Elisabeth Salvador Caetano comparou as entre profissionais de assistência. respostas de 24 teletrabalhadores e 23 O artigo de Aline Costa e Dulce Soares, por trabalhadores presenciais para avaliar as crenças sua vez, versa sobre um tema que cresce em sobre o teletrabalho. O estudo descritivo popularidade, o da orientação psicológica para a realizado em uma consultoria da região aposentadoria. Baseando-se suas reflexões metropolitana de São Paulo sinaliza que há críticas no aumento da expectativa de vida convergências na percepção dos dois grupos mundial, nas lacunas no atendimento às sobre o teletrabalho. As principais vantagens demandas da população aposentada e nas novas seriam a flexibilidade de horário e proximidade tendências do processo de aposentadoria, as da família. A crença de não haver supervisão autoras apresentam uma proposta de orientação direta no teletrabalho não é sustentada pelos psicológica para a aposentadoria. Tal proposta, próprios teletrabalhadores. Para eles, a maior nas palavras das próprias autoras, não considera dificuldade é o isolamento social, ao passo que, apenas as consequências negativas que surgem Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 3-6 6 Gondim, S. M. G. de aposentadorias mal sucedidas, mas, ao contrário, visa a atuar de forma "preventiva", trabalhando os aspectos psicológicos de evolução da carreira, e respeitando as diferenças individuais. prazer e sofrimento presentes na sua relação com o trabalho, mantendo a sua saúde (psicodinâmica do trabalho). Uma das principais conclusões aponta para as contradições presentes entre os princípios e valores de vanguarda presentes em tais políticas de QVT e O artigo de José Vieira Leite, Mário César as práticas vigentes. e Ana Magnólia discorre sobre uma experiência de pesquisa e intervenção em Qualidade de Nós, editores da rPOT, esperamos que a Vida no Trabalho numa organização bancária do publicação de mais este número seja apreciada setor público. Os autores analisam as ações de QVT do referido banco para identificar os pela nossa comunidade de leitores e colaboraindicadores críticos de QVT, usando o referencial dores e proporcione uma frutífera troca de coda ergonomia da atividade, e também para nhecimentos que venha a fomentar a pesquisa e inferir aspectos do processo de subjetivação que a prática profissional em Psicologia do Trabalho permite ao trabalhador lidar com as vivências de e das Organizações. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 3-6 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009. http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho ARTIGOS v v v v v v v v v Áurea de Fátima Oliveira & Sinésio Gomide Júnior Inventário de Cultura Organizacional: Adaptação e Validação de um Instrumento de Diagnóstico para o Contexto Brasileiro (8-21). Edgar Pereira Junior & Maria Elisabeth Salvador Caetano Implicações do Teletrabalho: um Estudo sobre a Percepção dos Trabalhadores de uma Região Metropolitana (22-31). Maíra Gabriela Santos de Souza, Lísian Camila Vasconcelos & Jairo E. Borges-Andrade Pesquisa sobre Mudança nas Organizações: a Produção Brasileira em Micro Comportamento Organizacional (32-46). Sylvia Constant Vergara & Luiz Ernesto Fonseca Alves Compartilhamento do Conhecimento nas Organizações: Possibilidades e Limitações (47-59). Luís Fernando Santos Corrêa da Silva & Daniel Gustavo Mocelin Satisfação com o Emprego em Call Centers: Novas Evidências sobre o Emprego Trampolim (60-71). Luciana Mourão & Jesiane Marins Avaliação de Treinamento e Desenvolvimento nas Organizações: Resultados Relativos ao Nível de Aprendizagem (72-85). Karine Moreira de Almeida, Lúcia Azambuja de Souza & Mary Sandra Carlotto Síndrome de Burnout em Funcionários de uma Fundação de Proteção e Assistência Social (86-96). Aline Bogoni Costa & Dulce Helena Penna Soares Orientação Psicológica para a Aposentadoria (97-108). José Vieira Leite, Mário César Ferreira & Ana Magnólia Mendes Mudando a Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho (109-123). Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 8-21. http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho Artigo Inventário de Cultura Organizacional: Adaptação e Validação de um Instrumento de Diagnóstico para o Contexto Brasileiro Áurea de Fátima Oliveira1 Sinésio Gomide Júnior2 1. Universidade Federal de Uberlândia. Rua Prof. Ciro de Castro Almeida, nº. 1905, Bl. D., apto 22, Bairro Custódio Pereira Uberlândia (MG). CEP 38405-250. [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/6810179033600929. 2. Universidade Federal de Uberlândia. [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/4009207630066676. Resumo A cultura organizacional, conceito claramente multifacetado, atualmente tem sido investigada de maneira intensa, tanto nacional como internacionalmente. Duas grandes linhas de pesquisa podem ser identificadas nessas investigações: conceituação e mensuração e estudos correlacionais com critérios de desempenho organizacionais. Representante da primeira linha, este trabalho adaptou e validou, para o contexto brasileiro, o Organizational Culture Inventory (OCI), proposto por Cooke e Lafferty (1989). Hum mil e trinta e dois empregados de empresas públicas e privadas da região do Triângulo Mineiro, com idade média de vinte e oito anos, sendo 33,9% do sexo masculino, participaram do estudo. Para análise de dados, utilizou-se análise fatorial exploratória, que não confirmou a estruturação da cultura organizacional proposta por Cooke e Lafferty (1989). Os resultados apontaram uma estrutura composta por três escalas distintas, com cargas fatoriais que variaram de 0,30 a 0,72, com índices de confiabilidade de 0,75 a 0,91 e porcentagens de variâncias explicadas entre 25,29 e 37,50. Os resultados são discutidos à luz de diferenças metodológicas e culturais, sugerindo-se uma agenda de pesquisas da qual constam redefinições conceituais e operacionais e a utilização do instrumento em modelos explicativos relacionados a critérios de desempenho organizacionais. Palavras-chave: cultura organizacional, crenças normativas, expectativas comportamentais, tipos de cultura. Abstract Organizational Culture Inventory: Adaptation and Validation of an Instrument for Diagnosis in the Brazilian Context Nowadays, organizational culture - a multifaceted concept - has been intensively studied both nationally and internationally. Two research lines can be identified in these investigations: conceptualization and measurement, and also correlational studies with organizational performance criteria. This work, representative of the former, has adapted and validated the Organizational Culture Inventory (OCI), proposed by Cooke and Lafferty (1989), for the Brazilian context. One thousand and thirty-two employees from state and private companies in the region of Triângulo Mineiro took part in the study. The average age of these employees was 28, and 33.9% of them were men. Exploratory factorial analysis was used for the data analysis but it did not confirm the structure of the organizational culture proposed by Cooke and Lafferty (1989). The results pointed to a structure comprised of three distinct scales with factorial factors that vary from 0.30 to 0.72; with reliability index from 0.75 to 0.91, and variance percentages explained between 25.29 and 37.50. The results are discussed in the light of methodological and cultural differences, and a research agenda is recommended to include suggestions regarding conceptual and operational redefinitions, in addition to the use of the instrument in explanatory models related to organizational performance criteria. Keywords: organizational culture, normative believes, behavioral expectations, types of cultures. Oliveira & Gomide Jr. Validação do Inventário de Cultural Organizacional Recebido em: 15.01.2008 Aprovado em: 02.11.2009 Publicado em: 22.03.2010 Validação do Inventário de Cultural Organizacional P or considerar a cultura organizacional como um fenômeno multifacetado, Paz e Tamayo (2004) assinalam a dificuldade de se representarem, de forma adequada, seus numerosos componentes, bem como a interação entre eles. Esses autores também salientam a existência de uma acentuada variabilidade conceitual, como ilustrada nos trabalhos de Ott (1989) e Freitas (1991). Entre as definições identificadas na literatura, algumas são consideradas clássicas, com destaque para aquela proposta por Schein (1991): 9 múltiplas facetas da cultura organizacional. Assim, a cultura representada por estórias organizacionais, mitos e heróis foi investigada por Martin, Feldman, Jo Hatch e Sitkin (1983) e Fleury (1987). Trice e Beyer (1984, 1987) propuseram uma tipologia de ritos organizacionais da qual constavam os ritos de passagem, de reforçamento, de degradação, de integração, de redução de conflitos e de renovação. Em 1991, Lange investigou a ocorrência desses ritos organizacionais e concluiu que as organizações estudadas apresentavam comportamentos altamente ritualizados, nos quais o envolvimento dos empregados nas cerimônias os fazia com...padrão de pressupostos básicos - invenpartilhar valores comuns. Oliveira (1997) investados, descobertos, ou desenvolvidos por tigou o papel desempenhado por ritos e tamum dado grupo, quando aprende a lidar bém por valores organizacionais na predição do com seus problemas de adaptação externa comprometimento organizacional afetivo, conCultura e integração interna - que têm funcionado cluindo que valores relativos à interação no traOrganizacional suficientemente bem para serem considebalho e ritos de degradação se constituíam nos Schein (1991) rados válidos e, dessa forma, ensinados melhores preditores daquela variável. aos novos membros como modo correto No que se refere à mensuração da cultura, de perceber, pensar e sentir em relação Ferreira, Assmar, Estol, Helena e Cisne (2002) àqueles problemas. (p. 494). desenvolveram um instrumento para avaliação da cultura organizacional, pautando-se nas Trompenaars (1994) parece concordar proposições de Hofstede, Nueijen, Ohavy e com Schein (1991) ao afirmar que a cultura Sanders (1990), de acordo com as quais é por organizacional revela como os grupos se orga- meio das "práticas que ela (cultura) afeta os nizaram para resolver os problemas e os membros da organização, razão pela qual as desafios a eles apresentados no decorrer do percepções compartilhadas das práticas diárias tempo. Não obstante a ausência de uma constituem a essência da cultura organizadefinição universal de cultura organizacional, cional." (p. 273). Ott (1989) aponta para um consenso geral A consulta à literatura indica claramente a sobre alguns aspectos que a constituiriam, ampliação dos estudos que envolvem a cultura como valores, crenças, pressupostos, per- organizacional. Por exemplo, Porto e Tamayo cepções, normas de comportamento, artefatos (2005) investigaram que tipos de valores organizacionais se relacionam a civismo nas organizae padrões de comportamento. Apesar da discussão ainda enfática em torno ções, destacando os valores de autonomia como do conceito, a partir da década de 80 do século preditores importantes. O estudo de Horta passado, os estudos relativos à cultura organiza- (2006) se propôs a realizar a análise funcional do cional proliferaram, abordando suas diferentes for- comportamento como uma estratégia da cultura mas de expressão, o que resultou em avanços no organizacional baseando-se no modelo de Schein. conhecimento acerca desse fenômeno. Em um estudo mais recente, Franco (2008) investigou as relações entre valores pessoais e Cultura nas Organizações Tanto a literatura internacional como a nacional organizacionais e a compatibilidade entre eles relatam contribuições de estudiosos sobre as (denominada encaixe pessoa-organização - P-O) Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 8-21 10 Oliveira & Gomide Jr. na qualidade de vida no trabalho (QVT) de funcionários do setor médico-hospitalar. Os resultados apontaram que os valores organizacionais se relacionam de maneira mais acentuada com a QVT do que os valores pessoais. O estudo de Sarris e Kirby (2007) examinou a cultura organizacional da Estação Antártica australiana, utilizando o Inventário de Cultura Organizacional (Cooke & Lafferty, 1989), e a confiabilidade das escalas para a amostra variou de 0,70 a 0,87. Os resultados indicaram a predominância de uma cultura orientada para a satisfação, caracterizada por estilos de humanismoencorajamento, afiliação, autoatualização e realização. Os autores identificaram também que estilos baseados nas normas de segurança-pessoa (aprovação, convenção e dependência) apresentaram correlações positivas com conflito de papéis e acomodação, ocorrendo reações inversas com ajustamento e recomendação da organização. As indicações da literatura sugerem que apreender a cultura organizacional implica a necessidade de se investigar uma multiplicidade de expressões (Ott, 1989; Borges, Argolo, Pereira, Machado & Silva, 2002). A partir dessa perspectiva, investigar normas e expectativas comportamentais como forma de manifestação da cultura organizacional seria não apenas apropriado e atual, mas representaria uma contribuição à compreensão do fenômeno. Na concepção de Cooke e Lafferty (1989), a cultura organizacional pode ser medida com relação às crenças normativas e expectativas comportamentais compartilhadas pelos membros das organizações. As crenças normativas são cognições mantidas pelos indivíduos em relação às expectativas de outros membros organizacionais quanto ao papel a ser desempenhado naquele contexto. Já as expectativas comportamentais compartilhadas são aquelas crenças comuns que são mantidas pelos membros do grupo. Em conjunto, normas e expectativas especificam o modo pelo qual todos os membros de uma organização devem lidar com seu trabalho e interagir com os outros. Essas pres- crições comportamentais são vistas como um elemento importante da cultura organizacional, uma vez que elas refletem pressupostos básicos, crenças e valores compartilhados pelos membros da organização. Assim, o Organizational Culture Inventory (Inventário de Cultura Organizacional), proposto por Cooke e Lafferty (1989), um instrumento diagnóstico do tipo autorrelato, planejado para medir crenças normativas e expectativas comportamentais compartilhadas nas organizações, pode se constituir em fonte de investigação da cultura tanto para pesquisadores quanto para profissionais. Este estudo tem, portanto, o objetivo de adaptar e validar esse instrumento para o contexto brasileiro. Bases Teóricas do Inventário de Cultura Organizacional De acordo com Cooke e Szumal (1993), o Inventário de Cultura Organizacional (Organizational Culture Inventory - OCI) foi desenvolvido para identificar pressões que atuariam sobre os membros organizacionais de forma a tornar seus comportamentos disfuncionais, afetando atividades de desenvolvimento ou de mudanças organizacionais. Considerando a existência de forças culturais mantenedoras de estilos disfuncionais exibidos pelos membros organizacionais, bem como a necessidade de identificá-las para posteriormente alterá-las, é que Cooke e Lafferty (1989) se propuseram a criar o OCI, que tem por objetivo medir a força das normas e expectativas para o mesmo conjunto de estilos avaliado pelo Inventário de Estilo de Vida (Lafferty, 1973). De forma semelhante ao Inventário de Estilo de Vida, o Organizational Culture Inventory avalia doze estilos de crenças normativas e expectativas comportamentais definidas a partir de duas dimensões: 1) tarefa-pessoa e 2) satisfação-segurança. "Estas dimensões determinam o foco de normas e comportamentos específicos e a extensão em que eles são recompensados ou punidos pelo grupo." (Cooke & Russeau, 1988, citados por Sarris & Kirby, 2007, p. 710). Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 8-21 Validação do Inventário de Cultural Organizacional Cooke e Szumal (1993), ao apresentarem as bases teóricas do instrumento, afirmam que "a primeira dimensão distingue entre preocupação com as pessoas versus preocupação com as tarefas. Esta dimensão tem sido enfatizada consistentemente não somente na literatura sobre cultura organizacional, mas também naquela relativa à interação grupal, liderança e orientação pessoal." (p.1302). Blake e Mouton (1992) sustentam o Grid Gerencial a partir dessas dimensões e fundamentam sua utilização ao discutirem o papel dos pressupostos na orientação do comportamento do líder. As premissas, certas ou erradas, "se tornam parte das crenças e atitudes de um gerente, orientando comportamento. Constituem uma teoria pessoal de liderança. Se alguém tivesse de agir sem premissas, o comportamento seria aleatório, dispersivo; não teria sentido nem seria previsível." (p.6). Os autores acrescentam que os pressupostos operam de forma silenciosa, mas isso não diminui a necessidade e importância de compreendê-los. A preocupação com a produção (resultados, desempenho, lucros ou missão) e a preocupação com as pessoas (subordinados e colegas) indicam a força dos pressupostos presentes nos estilos de liderança. A segunda dimensão sobre a qual se apoia o Inventário de Cultura Organizacional, satisfação-segurança, origina-se da literatura sobre cultura organizacional, embora não haja menção explicita a essa dimensão (Cooke & Szumal, 1993). Os autores assumem o trabalho de Maslow (1954) como referencial. De acordo com Sampaio (2009), "A hierarquia das necessidades (fisiológicas, segurança, pertença e amor, estima, auto-realização ou auto-atualização, desejo de saber e entender e estéticas) surge como conceito à medida que Maslow (1954, p. 83) classifica suas categorias como superiores e inferiores." (Sampaio, 2009, p. 9). Sampaio (2009) afirma que Maslow confere maior destaque à motivação para o crescimento em contraposição à motivação baseada nas deficiências de caráter organicista e fisiológico, pois a primeira pode orientar melhor o entendimento do funcionamento psíquico. 11 A motivação de crescimento tem como característica ampliar a excitação mesmo diante da gratificação. O crescimento em si é recompensador e incentiva o indivíduo a buscar desafios e realizações. Conforme Sampaio (2009), como as pessoas se acham gratificadas e são motivadas com o próprio resultado do trabalho, elas passam a não mais realizar as atividades para obter as recompensas concretas, que virão satisfazer às suas necessidades de deficiência. O trabalho pioneiro de Maslow, embora não esteja voltado para cultura organizacional, constituiu-se na segunda base teórica do instrumento. As implicações do trabalho de Maslow são apresentadas por Schein (1982), ao discutir a motivação e suas implicações gerenciais. A representação das dimensões tarefapessoa e satisfação-segurança é realizada dividindo-se um círculo com um xis (linhas representativas do diâmetro do círculo). As necessidades de satisfação são dispostas em um dos dois polos extremos da linha representativa do diâmetro e as necessidades de segurança são representadas no outro polo. O mesmo ocorre com a orientação para a tarefa em relação à orientação para as pessoas. Em função da proximidade conceitual em relação a cada uma das dimensões, doze estilos de crenças normativas e expectativas comportamentais se distribuem dentro do círculo, sendo que cada quatro deles representam um tipo de cultura, totalizando, assim, três tipos de cultura: construtiva, defensiva-passiva, defensiva-agressiva. Esse tipo de modelo configuracional é caracterizado por um ordenamento circular dos estilos, no qual a distância entre eles reflete seu grau de similaridade e correlação. Estilos similares estão dispostos próximos uns dos outros no círculo. Estilos que são mais distintos ou independentes estão dispostos em outra posição. A posição dos estilos se assemelha ao relógio no sentido horário e, por isso, a cada um deles é atribuída uma posição nomeada conforme a posição horária. A cultura construtiva (cultura da satisfação), representada pelos estilos humanismo- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 8-21 12 Oliveira & Gomide Jr. encorajamento, afiliação, realização e autoatualização, indica uma cultura na qual os membros são estimulados a lidar com as tarefas e interagir com os outros de modo a ajudá-los a satisfazer suas necessidades de ordem mais elevada. Os quatro estilos relacionados à cultura construtiva são: A.1 realização (posição: 11 horas): uma cultura voltada para a realização caracteriza organizações que procuram desenvolver bem suas atividades e valorizar os membros que estabelecem e realizam seus próprios objetivos. Espera-se de seus membros que eles estabeleçam objetivos desafiantes e reais, elaborem planos para alcançarem esses objetivos e busquem, com entusiasmo, realizá-los. evitados e as relações interpessoais são agradáveis, mas superficiais. Os membros sentem que devem concordar com os outros, obter aprovação e ser queridos. B.2 convenção (posição: 4 horas): essa cultura descreve organizações que são conservadoras, tradicionais e controladas burocraticamente. Espera-se de seus membros conformidade, obediência às normas e a manutenção de uma boa impressão. B.3 dependência (posição: 5 horas): organizações caracterizadas por esse estilo são controladas hierarquicamente e administradas de forma não-participativa. A tomada de decisão é centralizada, levando os seus membros a fazer somente o que é ordenado e decidido pelos A.2 autoatualização (posição: 12 horas): essa superiores. cultura caracteriza organizações que valorizam a B.4 esquiva às normas (posição: 6 horas): nessa criatividade, a qualidade em detrimento da cultura, a organização falha em recompensar o quantidade, o crescimento e a valorização do sucesso, mas os erros são punidos. Esse sistema indivíduo. Os membros são encorajados a obter de recompensa negativo leva os empregados a prazer à medida que desenvolvem seu próprio transferirem responsabilidades para os outros e trabalho e assumem tarefas novas e interes- a evitar a possibilidade de serem culpados por santes. um erro. A.3 humanismo-encorajamento (posição: 1 hora): essa cultura caracteriza organizações que são administradas de forma participativa e têm as pessoas como o centro das atenções. Esperase de seus membros que sejam protetores, construtivos e que tenham abertura para o entendimento. A cultura agressivo-defensiva, representada pelos estilos oposição, competição, poder e perfeccionismo, indica uma cultura na qual se espera que os membros lidem com as tarefas de modo eficaz, protegendo seu status e segurança. Seus estilos são: C.1 oposição (posição: 7 horas): esse estilo descreve organizações nas quais a confrontação A.4 afiliação (posição: 2 horas): caracteriza organizações que priorizam relações interpessoais e o negativismo são recompensados. Os memconstrutivas. Espera-se que seus membros bros adquirem status e influência por serem sejam amigáveis, abertos e sensíveis à satisfação críticos e, dessa forma, são reforçados a fazer oposição às ideias dos outros. de seu grupo de trabalho. A cultura defensivo-passiva, representada pelos estilos aprovação, convenção, dependência e esquiva às normas, indica uma cultura na qual os membros acreditam que devem interagir com outros de modo a não ameaçar sua própria segurança. Constituem-se estilos relacionados à cultura defensivo-passiva: B.1 aprovação (posição: 3 horas): esse estilo descreve organizações nas quais os conflitos são C.2 poder (posição: 8 horas): a cultura do poder descreve organizações estruturadas com base na autoridade inerente às posições de seus membros. O indivíduo acredita que será recompensado por assumir responsabilidades, controlar subordinados e, ao mesmo tempo, atender às demandas dos superiores. C.3 competição (posição: 9 horas): nessa cultura, vencer significa valorização e os membros são Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 8-21 Validação do Inventário de Cultural Organizacional recompensados por superarem uns aos outros. Os membros atuam no esquema vencer-vencer, e acreditam que precisam ser melhores que seus colegas no trabalho para serem percebidos. 13 III) dividiram cargas fatoriais no fator passivodefensivo. Em relação às escalas da cultura passivo-defensiva, houve evidência de validade convergente, porém as escalas de esquiva às norC.4 perfeccionismo (posição: 10 horas): a cultura mas e convenção apresentaram cargas fatoriais perfeccionista caracteriza organizações em que que oscilaram entre 0,42 e 0,53 no fator agressia persistência e trabalho árduo são valorizados. vo-defensivo. As evidências encontradas refletem, Os membros sentem que devem evitar qualquer segundo Cooke e Szumal (1993), a similaridade erro, sempre "manter a linha" e trabalhar longas horas para alcançar objetivos bem delimitados. entre os fatores defensivos, o que confirma que esses estilos fazem a ligação entre normas passiO Inventário de Cultura Organizacional, vas e agressivas, ambas associadas à defensiviproposto por Cooke e Lafferty (1989), apresendade. tou índices de consistência interna (Alpha de Cronbach) que variaram de 0,67 a 0,95, em suas No geral, a estrutura dos fatores e o padrão três formas originais. Cada uma das formas foi das cargas fatoriais são consistentes com a aplicada em amostras distintas com 1.375, 183 e estrutura teórica subjacente ao inventário. 859 participantes. A Tabela 1 mostra o coefiEstes resultados apoiam a validade de conciente Alpha de Cronbach das escalas originais. struto das doze escalas, porém muito mais A validade do construto, verificada por com respeito à validade convergente que à meio da análise fatorial, indicou a presença de validade discriminante. (p.1316) três fatores - construtivo, agressivo-defensivo e passivo-defensivo -que, em conjunto, A partir da visualização sobre a estrutura explicaram 65% da variância na forma I e 65,7% conceitual do instrumento, algumas questões e 72,9%, respectivamente, nas formas II e III. A cultura construtiva obteve as maiores cargas relativas à seleção de análise de dados se fazem fatoriais (maiores que 0,80). Para as escalas da necessárias. cultura agressivo-defensiva, embora os resultados tenham sido consistentes, escalas como Parâmetros para a escolha da análise de oposição (forma I) e perfeccionismo (formas II e dados do Inventário de Cultura Organizacional Segundo Acton e Revelle (2004), alguns modelos Tabela 1. Coeficiente Alpha de Cronbach para as escalas psicológicos podem ser definidos pela ausência de do Inventário de Cultura Organizacional uma estrutura simples, sendo esse o caso do modelo circumplexo. A representação de dados psicológicos nem sempre se ajustam a uma estrutura simples (itens com carga fatorial não-zero somente em um fator). Os autores relatam que esse modelo se aplica a variáveis tais como: habilidades cognitivas, valores interpessoais, desordens de personalidade, estados afetivos, entre outras. O conceito circumplexo foi introduzido por Guttman (1954), que o descreve como "um sistema de variáveis que tem um ordenamento circular" (citado por Gurtman & Pincus, 2000, p. 374). O modelo geométrico relaciona duas variáveis similares (correlação) com suas respectiNota: dados extraídos de Cooke e Szumal (1993). vas posições em torno de um círculo. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 8-21 14 Oliveira & Gomide Jr. Gurtman e Pincus (2000) descrevem três tipos de modelos circumplexos: representação espacial, ordenamento circular e correlação circulante. Cada um dos modelos oferece uma prescrição para determinar uma dada estrutura. Tratando-se do OCI, foi utilizado o modelo da representação espacial, que consiste em combinar a estrutura de uma medida desenhada no espaço euclidiano com a topologia do círculo ou dimensionalidade ideal. À medida que as relações entre as escalas se conformam à configuração circular, o modelo recebe apoio empírico. A Smallest Space Analyses - SSA - (Análise do Menor Espaço) é uma forma não-métrica da Análise Multidimensional (MDS) apropriada para identificar uma estrutura circumplexa, se ela existir. No entanto, por se tratar de uma técnica não-métrica, os pressupostos não são tão robustos. Tamayo (1997) ressalta a indeterminação estatística dessa técnica. Os índices de "bondade de ajuste" da SSA referem-se à dimensionalidade do espaço onde serão representadas as distâncias entre as variáveis reveladas pelas correlações. Posteriormente, cabe ao pesquisador traçar linhas que reúnam as variáveis que supostamente representam uma categoria teorizada previamente, o que certamente dificulta a rejeição do modelo teórico (Tamayo, 1997). A comprovação empírica de um modelo teórico requer técnicas estatísticas mais sofisticadas, com índices de ajustes que permitam refutar o modelo quando os dados empíricos não se ajustam a ele. De acordo com Gurtman e Pincus (2000), os modelos do ordenamento circular e de correlação circulante apresentam pressupostos mais rigorosos. Contudo, há maior possibilidade de refutação do modelo quando se empregam "índices de bondade" de ajustes bastante exigentes, como é o caso da análise fatorial confirmatória. De acordo com Cooke e Szumal (1993), "estudos baseados na análise dos componentes principais, análise de cluster e Análise do Menor Espaço têm consistentemente identificado esses fatores subjacentes ou clusters empíricos." (p. 1303). Esse modelo foi aplicado aos estilos culturais, obtendo resultados que os confirmaram (Cooke & Fisher,1985, citados por Cooke & Szumal, 1993). Considerando o objetivo deste estudo, a análise fatorial se mostra apropriada para verificar a validade de construto do instrumento. Segundo Pasquali (1999), o instrumento é uma hipótese a ser testada empiricamente. Gouveia, Martínez, Meira e Milfont (2001), ao analisarem as técnicas de Análise do Menor Espaço (SSA), análise fatorial exploratória e análise fatorial confirmatória, afirmam, acerca da função desempenhada pela segunda técnica, que se trata de uma técnica mais criteriosa que a SSA, pois fornece indicadores da estrutura do conjunto dos itens, porém "não permite estabelecer a priori e comprovar uma estrutura teórica definida; o que fornece são indicadores sobre como os itens podem ser reunidos em fatores, segundo a resposta de um grupo de participantes." (p. 134). Segundo Tabachnick e Fidell (2001), "a análise fatorial exploratória é geralmente realizada em estágios iniciais da pesquisa, quando se constitui em uma ferramenta para consolidar variáveis e gerar hipóteses sobre processos subjacentes." (p. 584). Desse modo, a análise fatorial, devido ao seu caráter exploratório, porém criterioso, parece ser mais adequada, visto que não se procura, com este estudo, confirmar o modelo original, mas verificar a validade do instrumento e, consequentemente, analisar como escalas que compõem cada tipo de cultura se definirão em realidades culturais distintas. Utilizando essa fundamentação teórica e as considerações feitas sobre a análise de dados, este trabalho se deteve na verificação da confiabilidade e validade de construto do Inventário de Cultura Organizacional. MÉTODO Participantes Participaram do estudo de validação 1.046 voluntários, todos eles empregados em organizações públicas e privadas de Uberlândia e região (400 participantes), de Brasília (206 participantes), de Belo Horizonte (182 participantes) e de Goiânia (258 participantes). Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 8-21 Validação do Inventário de Cultural Organizacional Dos participantes deste estudo, 350 eram do sexo masculino (33,9%) e 670 do sexo feminino (64,9%), com idade média de 28 anos (DP = 8,08). Contudo, 12 (1,2%) participantes não informaram o sexo, e 19 (1,8%) não forneceram informações sobre a idade. A coleta de dados ocorreu em instituições de ensino e organizações. Em ambos os contextos, os pesquisadores solicitaram permissão dos dirigentes para ter acesso aos participantes, que foram esclarecidos a respeito do objetivo do estudo. Os questionários foram entregues à área de recursos humanos de cada uma das organizações, que providenciou sua distribuição e recolhimento. No caso das instituições de ensino, prevaleceu a aplicação coletiva em sala de aula, com autorização dos professores e anuência dos alunos. Assegurou-se aos participantes o sigilo de suas respostas e a não identificação de sua organização ou instituição. Aproximadamente 606 questionários (58% do total) foram obtidos em instituições de ensino médio e superior. Procedimentos O Inventário de Cultura Organizacional foi validado, no contexto brasileiro, de acordo com as seguintes etapas: (1) tradução; (2) validação semântica e (3) validação empírica. Na primeira etapa, o instrumento foi traduzido pelos autores com a colaboração de um especialista em língua inglesa, com os objetivos de assegurar a integridade do conteúdo dos itens, preservar o significado das palavras e alcançar um sentido bastante similar em uma cultura distinta daquela em que o instrumento foi originalmente criado. No segundo momento, os itens foram submetidos à validação semântica com o objetivo de garantir a compreensão de cada item por parte dos respondentes. Um grupo composto por 20 pessoas, com grau de escolaridade variado (primeiro, segundo e terceiro graus), respondeu ao questionário e, posteriormente, comentou suas dúvidas com relação a alguns termos. A partir dessa apreciação, foram realizadas correções na redação de alguns itens, de modo que se asse- 15 gurasse a mesma compreensão do conteúdo entre os participantes do estudo. Dois itens cujos conteúdos estavam retratados em outros foram eliminados. Assim, o instrumento submetido à análise fatorial passou a conter 118 itens. A instrução contida no instrumento - "usando as opções de resposta, indique o quanto, na sua organização, é esperado que as pessoas..." era seguida pelos itens, e o respondente indicava o quanto uma crença ou expectativa estaria presente em sua organização de trabalho. Para essa indicação, ele dispunha de quatro opções de resposta, distribuídas em uma escala de quatro pontos: 1 (nunca), 2 (raramente), 3 (quase sempre) e 4 (sempre). A escala original utilizava o sistema de cinco pontos de Likert, mas, conforme Pasquali (1999), o número de pontos usados na escala parece ser algo irrelevante, uma vez que estudos indicam que o número de pontos da escala, bem como a existência ou não de um ponto neutro, não afetaria a consistência interna de uma escala desse tipo. Assim, optou-se pelos quatro pontos em função de uma tentativa de se evitar o erro conhecido como "tendência central" das respostas (Pasquali, 1999). Para responder ao questionário, o participante deveria usar a escala de resposta apresentada, escolhendo a alternativa que julgasse adequada. Por se tratar de um estudo de validação, procurou-se assegurar a variabilidade dos dados por meio de uma amostra heterogênea em relação ao porte ou área de atuação da organização, bem como ao cargo ocupado pelos respondentes. Com relação ao período de tempo do participante na organização, os pesquisadores adotaram como critério o tempo mínimo de permanência em uma mesma organização igual a um ano, de modo que o participante tivesse maior familiaridade com a cultura de sua organização. RESULTADOS Para a análise dos dados, utilizou-se, separadamente, o programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), especificamente as técnicas análise dos componentes principais (PC) e análise fatorial exploratória (PAF - Principal Axis Factoring) com rotação Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 8-21 16 Oliveira & Gomide Jr. dos componentes principais para verificar a fatoriabilidade da matriz. Os valores de KMO (KaiserMeyer-Olkin Measure of Sampling Adequacy) variaram de 0,87 a 0,96, e os testes de esfericidade foram significativos (p<0,001), indicando a adequação do uso da análise fatorial. Adotaramse como critério de extração cargas fatoriais mínimas iguais a 0,30. Os resultados das análises e a confiabilidade das escalas são apresentados considerando os três tipos de cultura propostos pelos autores, cada qual composto por quatro fatores previstos teoricamente - os estilos. Posteriormente, a confiabilidade de cada uma das escalas de estilo foi calculada pelo Alpha de Cronbach. A Tabela 2 mostra os resultados relativos à cultura passivo-defensiva. Na Tabela 2, são apresentadas as cargas fatoriais, as comunalidades, a variância explicada pelos fatores individualmente e Tabela 2. Cultura passivo-defensiva: cargas fatoriais, comunalidades, o coeficiente de precisão (Alpha de porcentagem de variância dos fatores e Alpha de Cronbach Cronbach). Como pode ser observado, a cultura passivo-defensiva é representada por 23 itens distribuídos em três fatores (estilos). Os coeficientes de precisão, que variam entre 0,75 e 0,78, são satisfatórios quando se adotam os critérios de Pasquali (1999), que classifica índices superiores a 0,70 dessa maneira. A análise fatorial identificou quatro fatores, porém apenas três apresentaram índices de confiabilidade satisfatórios: Fator 1 - Fuga de conflitos (5 itens): esse fator apresentou cinco itens que se referem à expectativa da organização, visando à conformidade dos empregados, o que significa evitar situações de confronto e manter uma boa impressão. Esse fator é composto por itens relativos às escalas de convenção e esquiva às normas. oblíqua, para cada um dos três tipos de cultura previstos. A análise exploratória dos dados foi realizada com o objetivo de verificar a precisão do arquivo de dados e pressupostos necessários à aplicação das técnicas. Os valores ausentes foram substituídos pela média de cada item. Não se observou padrão entre esses dados; os percentuais de respostas ausentes foram menores que 5%. Os questionários incompletos (14) foram eliminados, permanecendo 1.032 respondentes. Pasquali (1999) postula que o número de participantes depende do número de itens do instrumento, sendo cinco o número mínimo para cada item, e 10, o ideal. Neste estudo, foi possível obter oito casos por item. Assim, a recomendação da literatura especializada foi atendida. Na primeira etapa, foi realizada a análise Fator 2 - Aprovação (8 itens): a aprovação mostra a valorização, por Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 8-21 Validação do Inventário de Cultural Organizacional parte da organização, de relações interpessoais agradáveis, porém superficiais. Seus membros acreditam que devem concordar com os outros para serem aceitos e se sentirem queridos. Os itens desse fator, originalmente, compõem a escala de aprovação, indicando a busca de concordância do indivíduo com os membros de seu grupo e de sua aceitação por meio de um relacionamento que destaca os aspectos positivos dos outros. 17 ção de relacionamentos construtivos entre colaboradores. Espera-se deles que sejam amigáveis, abertos, íntegros e sensíveis à satisfação das necessidades de seu grupo. Dentro desse estilo, o trabalho deve ser fonte de prazer. Assim, espera-se também que o empregado demonstre interesse pela área de atuação da organização, bem como pela valorização da qualidade em detrimento da quantidade. Os Fator 3 - Acomodação do empregado (10 itens): itens dessa escala, originalmente, compõem as o conteúdo desse fator refere-se a formas de evi- escalas de afiliação e autoatualização. A variântar riscos. Para tanto, o empregado evita assumir cia explicada é de 33,3%, percentual superior ao responsabilidades e desagradar os colegas no do próximo fator (4,20%). ambiente de trabalho. As normas da organização Fator 2 - Humanismo-encorajamento (12 itens): são usadas como meio de proteção do emprega- revela um estilo cultural que caracteriza organido. O descompromisso e não-envolvimento do zações cuja administração é participativa, vaempregado estaria apoiado por mecanismos cri- lorizando as contribuições de seus colaboados pela própria organização. A necessidade de radores. O foco central da organização seria o segurança predomina nesse fator. desenvolvimento das pessoas, a exploração de Os resultados não confirmam Tabela 3. Cultura construtiva: cargas fatoriais, comunalidades, porcenta hipótese dos autores em relação agem de variância dos fatores e Alpha de Cronbach aos quatro estilos culturais. Notase que a escala de aprovação é a que mais se aproxima da concepção original. A Tabela 3 apresenta os resultados da segunda análise fatorial relativa à cultura construtiva. Na Tabela 3, são apresentadas as cargas fatoriais, as comunalidades, a variância explicada pelos fatores individualmente e o coeficiente de precisão. A cultura construtiva é representada por 29 itens que compõem dois fatores (estilos) cujos coeficientes de precisão são 0,91 e 0,87. Os resultados dessa análise revelaram três fatores, mas apenas dois com confiabilidade satisfatória. Em conjunto, os fatores explicam 37% da variância. Os conteúdos dos fatores são descritos a seguir: Fator 1 - Relações interpessoais cooperativas (17 itens): caracteriza um estilo cultural que prioriza a valorização das pessoas e a construRevista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 8-21 18 Oliveira & Gomide Jr. alternativas de ação e a resolução de conflitos de forma construtiva. Estimula-se o oferecimento de apoio entre colegas e incentivo ao crescimento. O resultado confirma empiricamente a escala de humanismo-encorajamento proposta pelos autores, com índice de precisão bastante satisfatório (0,87). Em síntese, no que tange à cultura construtiva, não se confirmou a estrutura com quatro estilos distintos. A escala de humanismo-encorajamento foi confirmada. Por outro lado, a escala de realização deve ser reavaliada e novos itens construídos, a fim de se alcançar um índice de precisão adequado. Por fim, um quarto fator, que conteve somente dois itens, não se mostrou preciso e foi eliminado. A seguir, a estrutura da cultura agressivodefensiva foi verificada na terceira análise fatorial. As escalas propostas pelos autores não se configuraram da forma prevista, conforme mostra a Tabela 4. Somente dois fatores (estilos), nominados controle do trabalho e competição, alcançaram índices de confiabilidade satisfatórios (0,80 e 0,76). Em conjunto, eles explicam 25,29% da variância. O conteúdo dos fatores, ou seja, os estilos culturais são descritos a seguir: Fator 1 - Controle do trabalho (10 itens): referese ao trabalho realizado de forma eficaz, ao cuidado pessoal com os detalhes, à busca do melhor desempenho, à lealdade e à abertura para criticar e ser criticado. Os empregados, de forma objetiva e imparcial, podem buscar formas mais adequadas para realizar seu trabalho, fazendo críticas quando for necessário. Originalmente, os itens componentes desse fator pertencem às escalas perfeccionismo, competição e poder. Apesar das escalas distintas, os itens formam uma unidade semântica que mostra o foco no trabalho eficaz cujo controle estaria no próprio empregado. Fator 2 - Competição (9 itens): caracteriza organizações em que os membros são recompensados por superarem uns aos outros. A regra do jogo é vencer-vencer, competindo contra os colegas, procurando superá-los e manter uma imagem de superioridade. Alcançar o topo e ser o alvo das atenções é a meta do empregado, incentivado pela própria organização. Para obter uma posição privilegiada, é permitido que o empregado faça política e procure impressionar as pessoas no ambiente de trabaTabela 4. Cultura agressivo-defensiva: cargas fatoriais, comunalidades, lho. Nesse fator, predominam, porcentagem de variância dos fatores e Alpha de Cronbach claramente, os itens originais da escala de competição, exceto por dois itens relativos ao poder. Entretanto, competição e poder são estilos similares, pertencentes ao mesmo tipo cultural. Competir pode ser um modo de se alcançar o poder dentro da organização. DISCUSSÃO Podem-se observar redundâncias nos tipos de culturas e nos estilos neles contidos, que acabam por afetar a operacionalização dos itens. Por exemplo, na cultura construtiva, especificamente nas escalas de realização e autoatualização, a valorização do indivíduo Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 8-21 Validação do Inventário de Cultural Organizacional no caso o empregado - está presente em ambos os estilos. Uma diferença sutil é observada ao se tratar dos objetivos. No estilo de realização, espera-se dos indivíduos que eles estabeleçam objetivos desafiantes e reais, enquanto que, na autoatualização, o esperado é que eles assumam tarefas novas e interessantes. De acordo com Cooke e Szumal (1993), os estilos de realização, autoatualização e humanismo-encorajamento são similares em função da posição dos estilos na circunferência, mas eles também possuem características que os tornam únicos. Certa similaridade pode ser vista na comparação entre os estilos de humanismo-encorajamento e afiliação. Por exemplo, os itens que mostram preocupação com os outros e em ser um bom ouvinte, a princípio, poderiam pertencer a qualquer uma das escalas. Essa argumentação dos autores foi confirmada empiricamente por meio da fusão dessas escalas. Ao se referir à cultura passivo-defensiva, Cooke e Szumal (1993) admitem a similaridade entre os estilos convencional e dependente, apesar de enfatizar que o primeiro destaca a observância de regras, procedimentos e tradições, enquanto o segundo está centrado em seguir ordens e solicitações de superiores. No estilo cultural de esquiva às normas, os itens parecem não o retratar com precisão, principalmente, quando se trata do sistema de recompensa negativo e de punições. O último tipo, a cultura agressivo-defensiva, tem como foco a realização das tarefas, mas compartilha com a cultura defensiva-passiva o aspecto de proteção e segurança do indivíduo. Uma análise dos estilos dessa cultura sugere que as escalas de poder e perfeccionismo poderiam ser mais bem definidas, e consequentemente, seus itens operacionalizados de forma mais objetiva. Nota-se que as definições são bastante amplas, e os itens não retratam seu conteúdo. Assinale-se, ainda, que os estilos perfeccionista, competitivo e de realização apresentam similaridades por abordarem tarefas e objetivos. Na realização, os objetivos são baseados no desempenho passado do indivíduo; na competição, os objetivos estão relacionados ao desempenho dos outros; e as normas perfeccionistas levam o 19 indivíduo a lutar pela realização de objetivos irreais e desnecessariamente difíceis. Sem dúvida, contemplar todas as especificidades de cada estilo, e ainda manter as similaridades postuladas, é um trabalho complexo. Os dados apresentados por Cooke e Lafferty (1989) relatam que isso foi conseguido com êxito. Contudo, os resultados obtidos no contexto brasileiro não confirmaram os resultados obtidos pelos autores. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho teve por objetivo validar o Inventário de Cultura Organizacional no contexto brasileiro. Todavia, os resultados não confirmaram a estrutura do inventário de acordo com a qual os três tipos de cultura seriam formados por quatro estilos culturais. Na cultura construtiva, as escalas de afiliação e autorrealização se fundiram, resultando na escala de relações interpessoais cooperativas. As escalas de humanismo-encorajamento e realização foram confirmadas, embora a última apresente índice de precisão insatisfatório, tornando sua aplicação não recomendável. Assim, somente duas escalas dessa cultura são confiáveis, podendo ser usadas para fins de pesquisa e diagnóstico. Entretanto, deve-se ressaltar que elas não abrangem toda a extensão conceitual da cultura construtiva. No que concerne à cultura agressivodefensiva, duas escalas, controle do trabalho e competição, se mostraram com índice de precisão adequado, o que não ocorreu com as escalas de poder e perfeccionismo. E ainda, o estilo de oposição não se confirmou empiricamente, e seus itens passaram a integrar a escala de controle do trabalho. A natureza dessa cultura encontra-se preservada na estrutura fatorial, considerando as expectativas da organização quanto à eficácia na realização da tarefa (Controle do Trabalho), assim como na necessidade de proteção do status quo que ocorre por meio da competição. Por último, a cultura passivo-defensiva também não se configurou da forma prevista. As escalas fuga de conflitos, acomodação do Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 8-21 20 Oliveira & Gomide Jr. empregado e aprovação podem ser utilizadas para fins de pesquisa, considerando suas confiabilidades. As escalas esquiva às normas, convenção e dependência, embora não tenham sido confirmadas, tiveram seus itens retidos. De certa forma, a natureza dessa cultura é preservada nos fatores identificados. Os resultados obtidos neste estudo de validação podem, em parte, ser atribuídos às diferenças culturais existentes entre a realidade dos trabalhadores brasileiros e aquela dos americanos. A análise fatorial, também usada pelos autores, permite a identificação da estrutura latente, mas não daquela estrutura postulada. A estrutura fatorial identificada é a seguinte: cultura agressivo-defensiva, composta por controle do trabalho e competição; cultura construtiva, composta por relações interpessoais cooperativas e humanismo-encorajamento; e cultura passiva, composta por fuga de conflitos, aprovação e acomodação do empregado. Os resultados obtidos mostram a necessidade de redefinições conceituais e operacionais que possam traduzir com clareza cada um dos tipos culturais e, consequentemente, seus estilos, no contexto brasileiro. A partir desse refinamento, novos estudos de validação serão necessários até o momento em que seja apropriado realizar a análise fatorial confirmatória (PASQUALI, 1999). Apesar dessa consideração, a estrutura empírica do instrumento e os índices de confiabilidade verificados tornam seu uso recomendável. Seus resultados poderão indicar a presença de crenças normativas e expectativas comportamentais cuja influência sobre a dinâmica organizacional poderá ser disfuncional. Portanto, os autores sugerem, como agenda futura de pesquisa, a confrontação desse instrumento com outros já validados que envolvam constructos de mesma natureza para a confirmação de sua validade discriminante. Além disso, sugerem sua utilização em investigações que façam uso de modelos explicativos para critérios de desempenho organizacionais com o intuito de verificação do poder preditivo do construto. Adicionalmente, com vistas ao planejamento da mudança cultural, sugerem a vali- dação para o contexto brasileiro do Organizational Effectiveness Inventory - OEI (que investiga o clima organizacional), posto que as estruturas e os métodos gerenciais de uma organização afetam sua cultura. Ante a perspectiva atual de abordagem multinível dos fenômenos organizacionais, os autores sugerem, ainda, a validação, para o contexto brasileiro, dos outros instrumentos propostos pelo Centro de Pesquisa Aplicada Human Synergistics, que abordem os níveis individual, grupal e organizacional, o que pode permitir uma maior compreensão dos fenômenos e possibilitar não somente o diagnóstico, mas também o planejamento de ações que lidem de maneira mais efetiva com a cultura das organizações. REFERÊNCIAS Acton, G. S. & Revelle, W. (2004). Evaluation on ten psychometric criteria for circumplex structure. Methods of Psychological Research Online, 9, 1, 1-27. 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Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 8-21 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 22-31. http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho Artigo Implicações do Teletrabalho: um Estudo sobre a Percepção dos Trabalhadores de uma Região Metropolitana Edgar Pereira Junior1* Maria Elisabeth Salvador Caetano2* 1. Graduado em Psicologia. Universidade Metodista de Piracicaba - UNIMEP. [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/1183945584659659. 2. Professora da Universidade Metodista de Piracicaba - UNIMEP. [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/7423783247874516. * Endereço para correspondência: Rua Joaquim Líbano Pires, 217, Vila Miranda, CEP 13170-330, Sumaré (SP), Brasil. Resumo Este estudo buscou identificar, por meio de questionários, as percepções de trabalhadores, convencionais e teletrabalhadores sobre as implicações do teletrabalho, forma de produção não-presencial nas organizações, em uma região metropolitana do estado de São Paulo. A pesquisa indicou que, na perspectiva dos teletrabalhadores, os resultados e a produtividade melhoraram; a avaliação realizada pelo superior e pela família sobre sua condição de trabalho era compreendida como positiva; e, além da satisfação por serem teletrabalhadores, consideravam como boa ou ótima a qualidade de vida pessoal. Por outro lado, os trabalhadores convencionais reconheceram os benefícios do teletrabalho, mas se mostraram pouco interessados em migrar para ele, divergindo também quanto às dificuldades em ser um teletrabalhador e as competências necessárias ao teletrabalho. As implicações psicológicas e sociais consequentes do excesso de carga de trabalho e do isolamento social, mesmo que tais fatores tenham sido reconhecidos por todos os participantes, foram minimizadas pelos praticantes, sugerindo que o teletrabalho poderá revelar consequências ainda não identificadas, inclusive para aqueles que hoje o aprovam. Palavras-chave: psicologia e informática, tecnologia, trabalho, globalização. Abstract The Telework Implications: a Study About the Perception of Workers in a Metropolitan Region This study searched to indentify the perceptions of workers, conventional and teleworkers, by using questionnaires about the implications of the Telework, a way of production without presence in organizations, in a metropolitan region of São Paulo state. The research indicated that, in teleworkers perspective, results and productivity improved; they understood as positive, the manager and family assessments about their work condition; and considered themselves satisfied being a teleworker and as good / great their work-life balance. On the other hand, conventional workers recognized the benefits of Telework, but were little interested in migrating to it; also disagreeing about the difficulties of being a teleworker and the necessary skills to be one. The psychological and social implications in consequence of excessive work and the social isolation, even that these factors had been recognized by all participants, were minimized by practitioners, suggesting that the Telework might reveal consequences not yet identified, including for those approving it nowadays. Keywords: psychology and computer sciences, technology, labour, globalization. Pereira Junior & Caetano. Implicações do Teletrabalho Recebido em: 26.01.2009 Aprovado em: 30.09.2009 Publicado em: 22.03.2010 Implicações do Teletrabalho A partir do final do século XX, modernas tecnologias, nas áreas de telecomunicação e informática, têm promovido transformações em alta velocidade na sociedade. A revolução tecnológica e da Informação vem sustentado a ideia de mundo globalizado e, consequentemente, produzindo novos hábitos, comportamentos e formas de interagir no ser humano (Bauman, 1999; Castells, 2000; Cebrián, 1998; Levy, 1999; Nicolaci-da-Costa, 2004). Segundo um dos principais analistas dessa revolução, Castells (2004), as mudanças mais profundas ocorreram na economia (com a flexibilização da gestão e a globalização do capital, da produção e docomércio) e na sociedade (com a valorização da liberdade e da comunicação aberta). A noção de liberdade se dá principalmente através da internet, a rede mundial de computadores, onde é possível alcançar uma autonomia que traz à imaginação uma amplitude de fronteiras (Cebrián, 1998) e encoraja um estilo de relacionamento quase independente de lugares geográficos e de tempo (Levy, 1999). Transformações psicológicas também estão sendo produzidas, "gerando a emergência de uma nova organização subjetiva menos centrada, mais superficial, mais ágil, menos presa a projetos de longo prazo" de acordo com Nicolaci-da-Costa (2002). A difusão tecnológica mais rápida e ampla se deu no setor da sociedade que é a principal fonte de riqueza de capital: as empresas privadas. O uso da tecnologia passou a ser fundamental para a competitividade e a produtividade de qualquer empresa, em qualquer lugar do mundo (Castells, 2004). Nesse contexto, emergiu uma nova estrutura ocupacional que dá maior valorização às posições claramente informacionais (administradores e profissionais especializados de ensino superior), bem como às profissões ligadas a serviços, sistemas e vendas, em detrimento do profissional operacional - seja ele rural ou industrial (Castells, 2000). Castells (2004) afirma que o trabalho humano continua a ser a fonte de produtividade e competitividade, mas salienta que, com a 23 evolução da revolução tecnológica, somente serão valorizados, nas empresas, os profissionais que têm a capacidade de organizar, focalizar e transformar toda informação em conhecimento para a produção de inovação e de riqueza. Isso cria uma maior pressão para o trabalhador, exigindo dele maior nível de qualificação, aprendizado constante, iniciativa e autonomia. Dentre as características da nova organização social e econômica, duas impactam diretamente o trabalhador: a tendência mundial de administração empresarial descentralizadora e o declínio constante do emprego formal tradicional, com consequências para o crescimento do trabalho flexível, temporário, de meio expediente, terceirizado, autônomo e à distância (Castells, 2004). O Teletrabalho Como resultado das novas experiências sobre a utilização do tempo e do espaço na pós-modernidade, surge o conceito de teletrabalho na prática empresarial (Araújo, 2002; Kugelmass, 1996). Segundo Almeida (apud Mello, 1999, p. 4), o teletrabalho "... é o ato de exercer atividades em um domicilio ou local intermediário, visando competitividade e flexibilidade nos negócios", ou seja, forma de produção não-presencial, com utilização de tecnologia disponível. Os meios tecnológicos portáteis, cada vez mais potentes, possibilitam a multiplicidade do espaço de trabalho, já que é possível ter acesso ao escritório de casa, do carro, do restaurante, do aeroporto, do hotel, à noite, nas férias, etc.. A alta tecnologia, aliada às dificuldades de espaço e de transporte nas grandes metrópoles, fez com que o teletrabalho fosse avançando, inicialmente em grandes empresas dos segmentos de telecomunicações, informática, consultorias, auditorias e publicidade, multiplicando-se, em seguida, para os mais diversos segmentos e portes organizacionais (Castells, 2004). Dentro das empresas, esse sistema de trabalho é mais usual nas áreas de vendas e prestação de serviços, nas quais os profissionais já passam parte do tempo fora do escritório. Entretanto, as áreas administrativas, informa- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 22-31 24 Pereira Junior & Caetano cionais e gerenciais também atuam como trabalhadores à distância, mas de maneira parcial, de um a três dias na semana, em meio expediente ou de maneira esporádica, a depender da empresa, do trabalho e das necessidades ou características pessoais e familiares do trabalhador (Mello, 1999). Castells (2000) apresenta três categorias de teletrabalho: . Integral: trabalho com emprego regular à distância, em 90% a 100% do tempo; . Autônomo: trabalho on-line realizado totalmente em domicílio, sem vinculo empregatício; . Complementador: trabalho do escritório convencional, realizado em domicílio, de maneira esporádica ou em meio expediente, por trabalhadores regulares. O teletrabalho pode ser praticado em qualquer lugar, mas seu ambiente mais usual é o chamado home office, a residência do trabalhador, na qual o profissional, com um telefone e um computador, tem acesso à empresa. Essa forma de trabalho é, muitas vezes, estimulada pela empresa por meio de "presentes", como um telefone celular e um notebook (Mello, 1999). Na literatura especializada (Araújo, 2002; Boonen, 2002; Castells, 2000; Cebrián, 1998; Costa, 2006; Kugelmass, 1996; Mello, 1999), são encontradas algumas implicações positivas e negativas do teletrabalho. Para a empresa, ele é considerado como positivo pela imediata queda dos custos, dos índices de absenteísmo, do turnover e da alta de produtividade dos trabalhadores. Indiretamente, são implicações citadas a melhoria da qualidade dos serviços prestados ao cliente, a satisfação do empregado e os benefícios ambientais. Já para o trabalhador, são consequências benéficas mencionadas: a maior qualidade de vida, a proximidade da família, a flexibilidade de horários, o menor estresse, a satisfação profissional proporcionada pela sensação de autossuficiência e a autoimagem de profissional responsável e comprometido. A mesma literatura também aponta dificuldades que podem ser encontradas pelos teletraba- Categorias de Teletrabalho Castells (2000) lhadores: a individualização das atividades, o isolamento social, a perda da ação coletiva, o gerenciamento falho do tempo, o aumento da carga de trabalho (e, consequentemente, da pressão emocional e do estresse), a distração e a invasão familiar ao ambiente profissional. Salienta-se, porém, que tais impactos do teletrabalho são manifestações ainda não confirmadas em estudos empíricos, e autores, como Levy (1999) defendem o aumento das redes sociais e a diminuição do individualismo no mundo tecnológico. Outra importante implicação do teletrabalho levantada na bibliografia consiste nas características de personalidade e competências comportamentais que são exigidas dos trabalhadores que atuam à distância, como maior autonomia, proatividade, criatividade, automotivação, autodisciplina, espírito inovador, concentração, planejamento, flexibilidade, elevado nível de autoestima, comprometimento e responsabilidade (Boonen, 2002; Costa, 2006; Mello, 1999; Rodrigues, 2007). A passagem da cultura gerencial "paternalista" para o gerenciamento por resultados, com metas e feedbacks, também modifica a relação entre empresa e trabalhador (Kugelmass, 1996; Mello, 1999; Rodrigues, 2007). Relações de emprego e trabalho transbordam da esfera profissional para o bem-estar social e influenciam o estilo de vida das pessoas (Araújo, 2002). Novos espaços, como os proporcionados pelo teletrabalho, geram novas necessidades, demandas, regras, formas de agir e viver que vão compor um novo ser (Nicolaci-daCosta, 2004). De acordo com Castells (2000) e Nicolaci-da-Costa (2004), observa-se a necessidade da produção de conhecimento para compreender essa realidade que se apresenta com mudanças tão velozes. Entretanto, ainda são poucos os trabalhos nacionais que analisam os efeitos da revolução tecnológica em andamento, e menor ainda é a quantidade de estudos sobre o teletrabalho. A partir da Psicologia Organizacional e do Trabalho, buscou-se compreender as implicações do teletrabalho sobre os indivíduos, na Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 22-31 Implicações do Teletrabalho percepção dos próprios trabalhadores, sejam eles ainda convencionais ou já teletrabalhadores de uma região metropolitana do interior do estado de São Paulo, centro produtivo do Brasil. Este artigo procurou investigar algumas das implicações do teletrabalho, identificando: as variáveis do teletrabalho que promovem mudanças positivas e negativas nas esferas pessoais e profissionais, segundo a perspectiva dos trabalhadores (convencionais ou teletrabalhadores); a percepção dos participantes da pesquisa sobre as características pessoais e competências comportamentais que são diferenciais exigidos dos teletrabalhadores; a comparação entre trabalhadores convencionais e teletrabalhadores relativa aos objetivos anteriores; e como os teletrabalhadores e as pessoas que estão próximas a eles percebem a interferência do teletrabalho nas suas vidas. MÉTODO Com base na revisão bibliográfica realizada e nos objetivos propostos, foi desenvolvida uma pesquisa que contou com a participação de 24 teletrabalhadores e 23 trabalhadores convencionais, totalizando 47 participantes. A escolha pela inclusão de trabalhadores convencionais na amostra coletada visava a comparar suas respostas com as dos teletrabalhadores. Não houve predefinição do número de participantes, apenas do período da coleta dos dados: os meses de dezembro de 2007 e janeiro de 2008, definidos por conveniência. O campo de coleta de dados foi uma consultoria de seleção de profissionais especialistas em suas áreas e de executivos, localizada em uma região metropolitana do interior de São Paulo. Essa definição tinha como perspectiva obter pluralidade de áreas de trabalho, cargos, segmentos, portes e nacionalidades das empresas dos participantes. Pela característica da consultoria, a população atendida foi composta por profissionais de áreas e cargos de nível superior, tidos na bibliografia como os de maior emergência, em se tratando de usuários de sistemas tecnológicos. Os participantes foram convidados pelo pesquisador quando compareciam à 25 recepção da consultoria para participar da entrevista para algum processo seletivo. Só participaram aqueles que responderam e devolveram o questionário no momento do convite, após a leitura e assinatura do Termo de Consentimento, que continha breve apresentação sobre o tema e os objetivos da pesquisa, conforme estabelecido pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos. Entretanto, compreende-se a limitação do campo e dos resultados obtidos por este estudo, pela possibilidade de viés vinculado ao fato de a população estar num contexto de processo seletivo para emprego, apesar de o pesquisador não estar envolvido com a seleção, os pesquisados não estarem concorrendo diretamente à cargos de teletrabalho e o caráter voluntário e sigiloso da pesquisa. Considerando também o número de participantes da amostra, é possível identificar que as contribuições deste trabalho podem ser aproveitadas, mas as frequências devem ser avaliadas com ressalvas. O questionário, com roteiro estruturado a partir dos dados levantados na pesquisa bibliográfica, elaborado e aplicado pelo pesquisador, tinha questões objetivas que se referiam a sexo, idade, escolaridade, cargo atual e segmento da empresa; categoria de teletrabalho (com instruções segundo as definições de Castells (2000) apresentadas na introdução: integral, complementador e autônomo); nível de transformação que a revolução tecnológica gerou; dependência de pares e da equipe nos resultados do trabalho; a quem o teletrabalho beneficia; características de personalidade que diferenciam teletrabalhadores dos trabalhadores convencionais; vantagens e dificuldades do teletrabalho; e o interesse em se tornar ou continuar como teletrabalhador. Exclusivamente aos teletrabalhadores foi questionado o porquê da opção em ser teletrabalhador; equipamentos tecnológicos utilizados; evolução da produtividade no trabalho; mudanças na carga horária de trabalho; sua avaliação sobre ser um teletrabalhador, a do seu superior e a da sua família. A análise dos dados foi realizada através Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 22-31 26 Pereira Junior & Caetano que o teletrabalho tem cada vez mais se tornado presente no mercado de trabalho da região pesquisada. Ao analisar os dados de identificação reRESULTADOS E DISCUSSÃO A maioria dos 47 participantes foi composta por ferentes aos 24 teletrabalhadores, confirmaramprofissionais do sexo masculino (68,1%), com se as frequências médias dos dados de identififaixa etária predominante entre 25 a 45 anos cação da população geral, com a maioria dos (72,3%) e com formação superior completa teletrabalhadores situada na faixa entre 25 e 45 (85,1%). Quanto à atual situação profissional, a anos de idade (62,5%), formação superior commaioria ocupava as funções de analistas, consul- pleta (91,7%) e atuando como analistas, consultores e afins (53,2%) ou supervisores, coorde- tores e afins (58,3%), ou supervisores, coordenadores e gerentes (27,7%), nos mais diversos nadores e gerentes (29,2%) em suas empresas. segmentos de negócios (20 foram citados). Os Destaca-se, nesses dados, a predominância do dados de identificação confirmaram a expectati- sexo masculino (75%) entre os teletrabava, descrita na metodologia, sobre a população lhadores, o que parece indicar menor identifido campo escolhido para a pesquisa, ou seja, a cação das mulheres participantes desta pesquisa de possuir escolaridade e cargos de nível superi- com os cargos relacionados ao trabalho à distânor e representar diversos segmentos de negó- cia. Esse é um resultado que surpreende e deve ser investigado em novas pesquisas com difecios. É importante salientar que profissionais rentes campos de coleta, pois, ao se pensar em com nível superior ainda não representam a algumas características inerentes ao teletrabamaioria dos trabalhadores brasileiros. A força de lho - liberdade para a escolha da hora em que as trabalho predominante, segundo informações atividades serão desenvolvidas e do local, que do próprio mercado de trabalho, apresenta pode ser a própria residência da pessoa -, seria pouca qualificação profissional, pois é formada esperada presença de mulheres, pelo seu compor um sistema de ensino que não acompanha, promisso, em nossa sociedade, com uma jornana mesma velocidade, as exigências de capaci- da dupla de trabalho, o que não ocorreu neste tação profissional. Isso embasa a tese de Castells estudo. Embora o teletrabalho seja apontado (2000) sobre o porquê de a estrutura ocupacional informacional emergente apresentar difi- como uma nova tendência na forma de proculdade em encontrar candidatos com perfil dução, a região pesquisada parece guardar, em para as suas demandas, numa época em que o parte, a cultura do trabalho coletivo, socialmente partilhado e sob controle da organização. desemprego é alto. Dos participantes entrevistados, 48,9% Isso pode ser deduzido do fato de a maioria dos eram trabalhadores convencionais e 51,1% tele- teletrabalhadores atuar na categoria teletrabatrabalhores. Mesmo sendo uma pequena dife- lho complementador (54,2%), ou seja, com vinrença e considerando os limites estatísticos do culo formal com a empresa e atuação regular no estudo - que não possibilitam a afirmação de escritório, embora trabalhando à distância espoque essa porcentagem represente a realidade do radicamente ou em meio expediente. mercado -, o fato de a maioria ser constituída de Trabalhavam completamente à distância os perteletrabalhadores parece indicar a tendência a tencentes à categoria teletrabalho integral essa forma de trabalho entre profissionais que (20,8%), que, apesar do registro formal em possuem nível superior, o que corrobora a carteira, desenvolviam atividades em outros expectativa mundial apresentada na introdução locais fora dos escritórios e os autônomos (25%), teórica. A participação na pesquisa de profis- que trabalhavam em casa sem vinculo empresionais dos mais diversos segmentos de negó- gatício formal. Esses dados indicam que as cios também contribui para a constatação de empresas e os profissionais ainda têm adotado a do método quantitativo, com a leitura das respostas e organização de tabelas. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 22-31 Implicações do Teletrabalho manutenção do vinculo de trabalho mais convencional, com seus colaboradores presentes no interior das organizações, mesmo que em parte do expediente diário. A absoluta maioria de trabalhadores convencionais (95,7%) e teletrabalhadores (91,7%) respondeu que a revolução tecnológica mudou muito ou mudou completamente o seu dia a dia de trabalho, demonstrando que percebem as mudanças que vêm enfrentando, decorrentes dessa "revolução". Ao serem questionados sobre "quem é o maior beneficiado pelo teletrabalho?", 91,3% dos trabalhadores convencionais e 91,7% dos teletrabalhadores acreditavam ser o teletrabalho um benefício tanto para a empresa como para o trabalhador. Ou seja, em geral, trabalhadores percebiam a influência do teletrabalho no seu cotidiano, mas uma influência positiva, com benefícios para eles e para as empresas. Essa visão positiva dos teletrabalhadores sobre seu trabalho é confirmada quando se observa a resposta à pergunta sobre se havia interesse do participante "em continuar sendo um teletrabalhador". Nesse caso, verifica-se que 91,7% deles apresentaram interesse em continuar nessa condição. Esse resultado significativo parece revelar um alto nível de satisfação desses profissionais. Por outro lado, os trabalhadores convencionais se dividiram quanto a esse interesse, e 56,5% responderam que não gostariam de adotar esse tipo de trabalho à distância no futuro. Aqui se tem um dado de reflexão interessante, já que, apesar de ambas as categorias (trabalhador convencional e teletrabalhador) considerarem o teletrabalho como um benefício para a empresa e para o trabalhador, e de praticamente a totalidade daqueles que se encontram nesta condição ter interesse em nela permanecer, observa-se que os trabalhadores convencionais apresentaram certa resistência para assumi-la. Seria importante a continuação de um trabalho que investigasse os motivos dessa resistência frente à opinião de que ele seria benéfico, mas não para si próprios. Considerando-se os 43,5% dos trabalhadores convencionais que responderam ter interesse em se tornar teletrabalhadores, um questiona- 27 mento poderia ser feito: essa modalidade de trabalho seria atrativa, ou seria vista como inevitável? Isso porque os constantes avanços na tecnologia da informação e a realidade de economia de custos sugerem que o teletrabalho logo se tornará uma necessidade para as empresas que quiserem continuar competitivas (Kugelmass, 1996). Para Cebrián (1998), na medida em que uma concepção de globalização é espalhada, aumenta o individualismo entre os trabalhadores. Nesse processo, imposto pela revolução tecnológica, as distâncias se encurtam, e é possível ter acesso a mais pessoas, a espaços e a informações (mais de uma ao mesmo tempo), mas as relações tornam-se mais frágeis (Castells, 2004). Nesse sentido, quando se observa a opinião dos participantes sobre "quem é o responsável pelo resultado do trabalho?", confirma-se, em parte, esse individualismo. Nela se observa que 39,1% dos trabalhadores convencionais e 45,8% dos teletrabalhadores têm a percepção de que o resultado depende apenas dele próprio, apesar de estar conectado em rede com muitas pessoas; ou seja, cada um realiza seu trabalho de forma individual e solitariamente. Para esses participantes, a equipe não parece importante para a sua produtividade, indicando um padrão de independência e fragilidade, na relação com os pares, tanto dos que trabalham à distância como dos que trabalham somente na empresa. Tal fato parece combinar com o processo de reestruturação das empresas e das organizações imposto pela tecnologia que tem no trabalho individual e na relação entre homem e máquina um maior valor (Araújo, 2002). Mas, se compararmos outro dado para a mesma questão, de que 39,1% de trabalhadores convencionais responderam ser o resultado um produto do trabalho em equipe, com os 29,2% dos teletrabalhadores que possuíam essa mesma interpretação, verificamos que, apesar de o trabalho individual ser comum à população em geral, no teletrabalhador isso é ainda mais acentuado, talvez pelo isolamento social e pela individualização do trabalho ser ampliada. Teletrabalhadores e trabalhadores con- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 22-31 28 Pereira Junior & Caetano vencionais tiveram avaliações próximas quanto às implicações positivas de ser um teletrabalhador. Em ambas as avaliações, representadas na Tabela 1, a maioria dos respondentes indica melhor qualidade de vida (68% dos teletrabalhadores e 52,2% dos trabalhadores convencionais), maior proximidade com a família (75% e 65,2% respectivamente) e, principalmente, a maior flexibilidade de horários (91,7% dos teletrabalhadores e 100% dos trabalhadores convencionais) como os benefícios desse tipo de atividade. No item "ausência de controle presencial", 56,5% dos trabalhadores convencionais consideraram como algo positivo, enquanto apenas 33,3% dos teletrabalhadores tiveram a mesma avaliação. Essa constatação parece indicar que nem sempre não ter um "chefe por perto" é bom; a figura do superior, ao mesmo tempo que significa controle, pode significar também apoio, respaldo, direção. Nesse sentido, uma pesquisa que buscasse compreender o Tabela 1. Avaliação das "Vantagens" e das "Dificuldades" em ser teletrabalhador, segundo a percepção dos 47 participantes do estudo papel de controle exercido pelos gestores no teletrabalho seria de grande importância para o processo de gestão de pessoas. Quanto a outros fatores, observou-se a unanimidade das respostas negativas em relação à melhora dos níveis de estresse e de pressão, indicando que essa modalidade de trabalho não difere das contingências aversivas e invasivas da forma de produção presencial. Na avaliação das implicações negativas impostas pelo trabalho fora do escritório, observa-se que há discrepância na percepção dos trabalhadores convencionais em relação à dos teletrabalhadores. A maioria dos teletrabalhadores via como dificuldades a serem enfrentadas o isolamento social (70,8%) e a maior carga de trabalho (50,0%). Já os trabalhadores convencionais minimizaram as consequências da maior carga de trabalho (39,1%) e do isolamento social (52,2%) e potencializaram a distração e invasão familiar (82,6%) versus 45,8% das respostas emitidas pelos teletrabalhadores a esse item. A avaliação mais crítica das dificuldades, apresentada nas respostas dos trabalhadores convencionais, repetiu-se em relação aos itens perda de ação coletiva (56,5%) e o falho gerenciamento do tempo (56,5%), que foram apontadas por apenas 41.7% e 25%, respectivamente, dos teletrabalhadores. De um modo geral, as dificuldades relativas ao teletrabalho foram potencializadas pelos trabalhadores convencionais, o que indica sua visão sobre essa forma de desempenhar atividades laborais como a menos agradável e satisfatória do que as formas como as desempenhavam no momento. Essa concepção pode ter sido um dos fatores responsáveis pelo fato de 56,5% dos trabalhadores convencionais não demonstrarem interesse em se tornar teletrabalhadores, indicado anteriormente. Por outro lado, é possível inferir que os teletrabalhadores consideram menores as implicações negativas e, por isso, a sua opção por continuar nessa condição de teletrabalho (91,7%), apesar do reconhecimento do isolamento social e da maior carga de trabalho. Analisando as relações entre homem e trabalho, e trabalho e sociedade, Castells (2004) Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 22-31 Implicações do Teletrabalho considera que a perda de parte da proteção institucional leva a uma crise da relação entre o trabalho e a sociedade, tornando os trabalhadores mais dependentes de suas condições individuais. Devido ao isolamento da equipe, essa dependência das condições individuais torna-se mais evidente para aqueles que trabalham à distância. Os 47 participantes da pesquisa avaliaram 17 características pessoais e competências comportamentais citadas na bibliografia pesquisada como importantes ao trabalhador moderno, e aos teletrabalhadores foi solicitado que identificassem cada uma delas como mais importante para o teletrabalhador, para o trabalhador convencional ou para ambos, independentemente de desenvolverem suas atividades presencialmente na empresa. As respostas demonstraram que nenhuma competência ou característica foi indicada pelos dois grupos como mais importante para o trabalhador convencional. A maioria dos participantes pertencentes às duas populações concordou que as competências organização, pró-atividade, aprendizado constante, capacidade de negociação, criatividade, concentração, planejamento, sociabilidade, autoestima, comprometimento, responsabilidade e ética são importantes tanto para teletrabalhadores como para os trabalhadores convencionais. Assim, pode-se dizer que os participantes viram tais competências como fundamentais ao profissional moderno, e consideraram-nas importantes no dia a dia do trabalhador, estando ele no escritório ou não. Em relação às competências mais importantes e cobradas àqueles que praticam o teletrabalho, não houve consenso entre os teletrabalhadores e trabalhadores convencionais. Os teletrabalhadores responderam que as competências autonomia (66,7%), capacidade de adaptação (45,8%), flexibilidade (54,2%), automotivação (45,8%) e autodisciplina (75%) eram fundamentais e mais importantes no teletrabalho; já para os trabalhadores convencionais, era necessária, para o teletrabalho, apenas maior autonomia (56,5%) e autodisciplina (43,5%). É possível inferir que os teletrabalhadores, como estavam vivenciando a condição de trabalho à distância, 29 tinham maior clareza sobre as competências que seriam mais exigidas e avaliadas pelas empresas. As respostas ao questionário final específico destinado aos teletrabalhadores mostraram que, para a maioria deles (62,5%), o motivo de terem começado a trabalhar à distância foi resultante de negociação de interesses entre a empresa e o próprio trabalhador. Essa negociação demonstra que trabalhadores e empresa puderam avaliar antecipadamente a situação como positiva. Dentre os equipamentos tecnológicos utilizados pelos teletrabalhadores, os mais citados foram o laptop (70,8%) e o celular (83,3%), sugerindo que as empresas estimulam seus funcionários a realizarem o trabalho fora do escritório. Computador e telefone doméstico mostraram-se comuns para respectivamente 50% e 41,7% dos teletrabalhadores, enquanto o smartphone era realidade para apenas 16,7%. A análise das respostas dos teletrabalhadores mostra ainda que, para 75% deles, os resultados e a produtividade melhoraram com o teletrabalho, mesmo que 79,2% das respostas indicassem um aumento na carga de trabalho. Apesar do aumento de trabalho, a maioria dos teletrabalhadores (87,5%) considerou que a satisfação em ser teletrabalhador e a sua qualidade de vida pessoal era boa ou ótima, assim como foi positiva a avaliação recebida do superior na empresa (88,9%) e de sua família sobre a condição de trabalho à distância (75%). CONCLUSÃO A partir dos resultados do estudo bibliográfico e da pesquisa realizada, é possível pressupor que essa nova forma de trabalho não-presencial nas organizações deve se consolidar no mercado da região metropolitana do interior de São Paulo pesquisada, com perspectiva de crescimento no futuro próximo, especialmente dentre os profissionais jovens e com ensino superior. Apesar do elevado índice de satisfação apresentada pelos teletrabalhadores em relação à sua atual condição e das avaliações positivas recebidas das organizações e de seus familiares, implicações negativas foram evidenciadas, como o parcial isolamento do ambiente social do Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 22-31 30 Pereira Junior & Caetano escritório e do aumento da carga horária de trabalho. Essas alterações parecem contribuir para o individualismo e a perda da ação coletiva, ainda que isso seja pouco reconhecido pelos teletrabalhadores. Frente à necessidade de as empresas mesclarem escritório e casa, na busca de melhores resultados, como é a prática dos teletrabalhadores complementadores, parece ser essa uma forma de equilíbrio tanto para o social quanto para o psicológico dos teletrabalhadores, que passam a ter possibilidades de usufruir das implicações positivas de melhor qualidade de vida, de estar mais próximo da família e de ter flexibilidade de horários, sem perder o elo com o social na empresa. Essas condições de trabalho foram percebidas como benefícios do trabalho à distância pelos teletrabalhadores e pelos trabalhadores convencionais. Apesar de reconhecerem tais benefícios, os trabalhadores convencionais demonstraram pouco interesse em migrar para o teletrabalho. Sobre as competências comportamentais necessárias para o desenvolvimento do teletrabalho, verificou-se que o teletrabalhador tem mais clareza do perfil exigido para essa forma de produção do que o trabalhador convencional. Assim, faz-se necessário orientar o trabalhador convencional para o desenvolvimento das competências autonomia, adaptação, autodisciplina, automotivação e flexibilidade, quando da opção por essa modalidade de trabalho; já outras competências, como organização, negociação, criatividade, proatividade, planejamento etc., parecem indispensáveis ao profissional moderno, estando ou não no escritório. A escolha de qual delas constituirá um determinado perfil varia de cargo para cargo e de empresa para empresa. Os praticantes do teletrabalho se consideram bem avaliados por seus superiores e por suas famílias, com implicações consideradas positivas, como bem estar psicológico e melhor qualidade de vida, embora as implicações sociais sejam preocupantes para o futuro desses profissionais em termos de isolamento social e de individualismo. Este estudo possibilita concluir que os participantes veem o teletrabalho como benéfico; que os teletrabalhadores desejam continuar nessa condição, mas os trabalhadores convencionais não o desejam. Mesmos os praticantes do teletrabalho não conseguem perceber como o aumento na carga de trabalho, o isolamento social e o individualismo decorrentes dessa prática impactam ou impactarão em sua vida social e pessoal, em médio e longo prazo. Cabe ressaltar que, devido à escolha metodológica de abordar profissionais em situação de processo seletivo para uma vaga de emprego, é de grande importância o desenvolvimento de novos estudos com outras metodologias que propiciem o aprofundamento dos resultados desta pesquisa e a verificação de eventuais vieses da população estudada. CONSIDERAÇÕES FINAIS Segundo Cebrián (1998): ...a sociedade global da informação é um fato que está aqui, que pertence a nós e ao qual nós pertencemos de maneira indiscutível, que nos rodeia por todos os lados, nos esmaga com seus excessos, nos seduz com suas promessas e nos agride com suas incógnitas. (p. 142). Essa afirmação alerta para o fato de que a revolução tecnológica é indiscutível e irreversível, mas devemos atentar para os excessos, promessas e incógnitas que ela produz. Isso se evidencia nos resultados deste estudo, segundo os quais indivíduos praticantes do teletrabalho mostraram-se contentes com os benefícios dessa modalidade para sua vida particular e profissional, independentemente do aumento da carga e do horário de trabalho, bem como do parcial isolamento social que ele proporciona. Além disso, veem a aprovação de seus superiores e de sua família como um incentivo a mais para a continuidade dessa prática nessas condições. O exercício do teletrabalho é muito recente e pode ter consequências ainda não conhecidas ou imprevisíveis até para aqueles que hoje aprovam esse contexto. Especialmente as implicações que o excesso de carga de trabalho e de isolamento social, com o aumento do individualismo e da perda da ação coletiva Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 22-31 Implicações do Teletrabalho poderão produzir nos teletrabalhadores, implicações que ainda não podem ser compreendidas em toda sua amplitude, devido ao pouco tempo de sua implantação. A emergência do virtual cria uma sociedade mais universal (extensa, interconectada, interativa). O virtual e a velocidade que ele propicia não fazem com que o espaço real desapareça, mas que espaços informacionais, relacionais ou concretos mais amplos sejam explorados e aproveitados (Levy, 1999). Conviver, ao mesmo tempo, com o velho e o novo e ver-se diante da impossibilidade de acompanhar a velocidade das mudanças são situações que tornam tudo muito confuso. Estudar para melhor compreender o mundo do trabalho é uma tarefa interdisciplinar. Assim, cabe também à Psicologia analisar mais profundamente as implicações ainda não visíveis das alterações mais frequentes no dia a dia de adeptos ao teletrabalho, bem como outros impactos que a revolução tecnológica causa a todos. Estudar o mundo do trabalho tem sido primordial e urgente, pois, afinal, o trabalho na contemporaneidade é um forte determinante para a construção de muitas das formas de se viver em sociedade, e o homem se constitui a partir dos referenciais dados por sua atividade laboral. A saúde física e mental das pessoas é fortemente influenciada pelo trabalho, e a sociedade se estrutura a partir dele. Assim sendo, este estudo é o início de um longo trabalho, e torna-se necessário continuá-lo, para que se possam produzir conhecimentos que possibilitem compreender melhor as implicações dessa nova forma de trabalho (semipresencial ou não-presencial) nas organizações, com o uso de outras metodologias e de outras questões de estudo como as apontadas na discussão dos resultados, na perspectiva de contribuir para a saúde dos trabalhadores, das empresas e da sociedade como um todo. REFERÊNCIAS Araújo, E. R. (2002). Teletrabalho e Aprendizagem: Contributos para uma problematização. Portugal: Fundação Calouste Gulbenkian. Bauman, Z. (1999). Globalização: as Consequências Humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 31 Boonen, E. M. (2002). As várias Faces do Teletrabalho. Retirado em 03 de novembro de 2007, no World Wide Web: http://www.iceg.pucminas.br/espaco/revist a/art7n45.pdf. Acesso em:. Castells, M. (2000). A Sociedade em Rede. São Paulo: Paz e Terra. ________________. (2004). 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Analista da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA. SHIN CA 11, lote 06, casa 03, Lago Norte, CEP 71 503 511, Brasilia (DF) . [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/5622494198374714. 2. Mestre em Psicologia Social e do Trabalho pela Universidade de Brasília. SENAI-DF. lattes http://lattes.cnpq.br/3226527010920922. 3. Ph.D. em Sistemas Instrucionais pela Florida State University. Professor titular no Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília. [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/3622720842959126. Resumo O presente trabalho analisa a pesquisa brasileira sobre mudanças nas organizações, no âmbito do micro comportamento organizacional. O período investigado foi de 1996 a 2007. O foco dessas pesquisas foi em percepções e crenças dos membros das organizações sobre essas mudanças e nas conseqüências das mesmas para esses membros. Os artigos incluídos na análise necessitavam ser baseados em coletas de dados feitas no Brasil e ter seu objeto de estudo claramente enunciado. Foi utilizado o julgamento de pares de juízes, com base num sistema padronizado, previamente desenvolvido e já descrito na literatura, de análise e categorização de investigações empíricas sobre micro comportamento organizacional. Foram encontrados 23 artigos. Os resultados indicaram que não há uma linha de pesquisa nacional na área e que as principais variáveis estudadas foram: cultura, poder e processos psicológicos, comunicação e gestão de pessoas na compreensão da mudança organizacional. A partir das lacunas encontradas, é proposta uma agenda de pesquisa que sugere, dentre outras coisas, a construção de instrumentos de medida e mais pesquisas sobre cultura e poder. Palavras-chave: mudança organizacional, percepção e crenças sobre mudança, conseqüências das mudanças organizacionais, revisão bibliográfica, micro comportamento organizacional. Abstract Research on Change in Organizations: The Brazilian Production on Micro Organizational Behavior The present text analyses the Brazilian research on organizational change, in the context of micro organizational behavior, between 1996 and 2007. The focus was on perception and believes of organizational members about these changes and on their consequences for these members. The criterion for inclusion of the articles in the analysis was that they reported data collection made in Brazil, with a clear statement of their intended aim. They were analyzed by pairs of judges, based on a standardized system which had been previously developed and has been already described for the review of micro organizational behavior. The results, based on 23 articles, show that there is not a clear national research line in this area. The major variables that have been studied on organizational change are: culture, power and psychological processes, communication and personnel management. Based on the gaps which have been found, a research agenda is proposed. It suggests, among other things, the construction of measurement instruments and more research related to culture and power. Keywords: organizational change, perception and believes about change, consequences of organizational changes, literature review, micro organizational behavior. Souza, Vasconcelos & Borges-Andrade. Produção Empírica em Mudança Organizacional Recebido em: 16.12.2008 Aprovado em: 30.09.2009 Publicado em: 22.03.2010 Produção Empírica em Mudança Organizacional O objetivo do presente trabalho foi analisar de modo sistemático a produção empírica no Brasil sobre mudança organizacional a partir da revisão da literatura nacional existente na área. O foco da análise foram as mudanças relacionadas a fenômenos micro organizacionais. São inicialmente apresentadas as principais definições necessárias para delimitar o trabalho. Em seguida, é apresentada a revisão da produção empírica com os resultados encontrados, que são analisados e discutidos. Por fim, é proposta uma agenda de pesquisa para a área. O comportamento organizacional O campo de Comportamento Organizacional foi reconhecido na década de 70 como disciplina independente e, desde então, diversas definições foram apresentadas no Annual Review of Psychology na tentativa de estruturar e delimitar a área. Apesar de não haver consenso em relação a sua definição (Siqueira, 2002), a produção teórica e empírica tem se destacado o suficiente para despertar a atenção de diversos pesquisadores e auxiliar na explicação de comportamentos no âmbito das organizações, como pode ser verificado nas revisões de Rousseau (1997) e Brief e Weiss (2002). De acordo com Siqueira (2002), é possível encontrar definições que focam em diferentes aspectos da disciplina, como níveis de análise e variáveis de resultados. Essa autora apresenta diferentes conceituações para a área e adota uma definição que considera o entendimento do comportamento organizacional a partir de três níveis de análise, micro, ênfase nos indivíduos, meso, grupo/equipes, e macro, organização. Estes níveis de análise são, há várias décadas, mencionados nas revisões periodicamente publicadas pelo Annual Review of Psychology. Tendo em vista que o foco do presente trabalho não é uma revisão profunda acerca das definições e do desenvolvimento da disciplina Comportamento Organizacional, não serão discutidas diferentes definições existentes. A definição adotada para Comportamento Organizacional neste trabalho segue a mesma linha de Siqueira (2002) e considera que essa disciplina busca 33 investigar o comportamento dos indivíduos e dos grupos nos contextos organizacionais, bem como o comportamento da própria organização em relação a seu ambiente externo e interno. O Micro comportamento organizacional estuda os comportamentos individuais e os processos através dos quais estes influenciam e são influenciados pelos sistemas organizacionais. A quantidade de pesquisas em Comportamento Organizacional é considerável e tem sido influenciada pelas mudanças ocorridas no mundo do trabalho (Rousseau, 1997). Essas mudanças refletem, sobretudo, a maneira como os construtos de interesse são definidos e mensurados. De acordo com a revisão apresentada por Rousseau (1997), em relação às mudanças organizacionais, observa-se que estas ações têm se voltado para a implementação e institucionalização de novas tecnologias, cultura e práticas organizacionais. As pesquisas, sobretudo as norte-americanas, buscam compreender as conseqüências dessas mudanças para o comportamento dos indivíduos no trabalho, por exemplo, por meio do estudo de esquemas mentais e de percepção de justiça. O presente trabalho buscou analisar a produção empírica nacional sobre mudanças organizacionais, no âmbito da disciplina Comportamento Organizacional. O foco adotado foi o nível micro de análise que enfatiza os aspectos psicossociais do indivíduo e as dimensões de sua atuação no contexto organizacional. Na categoria de mudanças, o nível micro analisa as percepções e crenças dos indivíduos sobre as mudanças e as conseqüências destas para estes membros das organizações de trabalho. A seguir serão apresentadas conceituações fundamentais sobre o foco de análise da presente revisão. A mudança organizacional A mudança é uma característica de toda organização. É um fenômeno multidimensional devendo ser apreendido nos diversos níveis em que ocorre. O tema está presente na literatura há anos e o ritmo e a força com que as condições do ambiente têm mudado atribuem Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 32-46 34 Souza, Vasconcelos & Borges-Andrade uma velocidade de mudança cada vez maior às organizações (Lima & Bressan, 2003). Isto tem chamado a atenção dos autores e diversas definições são encontradas para o tema. Este artigo adotará a definição de mudança proposta por Lima e Bressan (2003), uma vez que esta aborda o conceito de um ponto de vista abrangente e complexo. A mudança é definida como: Crenças, percepções individuais e consequências da mudança para trabalhadores Armenakis e Bedeian (1999) realizaram uma revisão sobre a teoria e pesquisa na área de mudança organizacional nos anos 90. Boa parte das pesquisas na área foca o nível macro de análise, estudando como os fatores de sucesso e fracasso afetam a efetividade organizacional, como as organizações têm reagido às mudanças ambientais e quais são as melhores maneiras de implementar mudanças. Alguns pesquisadores, ...qualquer alteração, planejada ou não, entretanto, têm estudado atitudes individuais nos componentes organizacionais - pesfrente a estas. Modelos mostram que é possível soas, trabalho, estrutura formal, cultura Mudança identificar estágios nos comportamentos dos Organizacional ou nas relações entre a organização e seu Lima & indivíduos que vivenciam situações de mudança ambiente, que possa ter conseqüências Bressan como negação, resistência, exploração e, por fim, relevantes, de natureza positiva ou negati(2003) comprometimento (ou não). Identificam-se duas va, para a eficiência, eficácia e/ou sustendências de pesquisa, uma que estuda reações tentabilidade organizacional. (p.25). afetivas às mudanças e outra que estuda reações Esta definição considera características comportamentais. Segundo esses autores, pesquisas mostram organizacionais (macro) e individuais (micro) das mudanças e aspectos interno e externo que algumas mudanças produzem alterações nos (contextuais) às organizações. Considerando níveis de lealdade, comprometimento e estresse o nível micro da disciplina Comportamento dos empregados, que, por sua vez, influenciam Organizacional, é fundamental compreender taxas de rotatividade, cinismo, satisfação e motia influência que as mudanças, externas, inter- vação. As pesquisas sobre afeto tradicionalmente nas, micro e macro, exercem no comporta- têm investigado variáveis como comprometimenmento dos indivíduos que fazem parte das to e satisfação, mas é comum encontrar estudos organizações, já que, de acordo com Lima e com variáveis menos tradicionais como Bressan (2003), é praticamente impossível depressão, ansiedade e exaustão. Além disso, em que essas mudanças não afetem as pessoas termos comportamentais, as estratégias de enfrentamento, resistência, adaptação são objeto nos seus locais de trabalho. Assim sendo, será considerada aqui qual- de estudo. Cabe ressaltar que a revisão de quer mudança organizacional que afete o com- Armenakis e Bedeian (1999) focou na produção portamento dos indivíduos no trabalho, geran- empírica internacional, sobretudo as publicações do reações positivas ou negativas, resistências norte americanas. No contexto brasileiro não foi e adaptações. Além disso, considerar-se-ão encontrada revisão sistemática publicada em petambém as percepções e as crenças individuais riódicos sobre a produção científica nessa área, o sobre os processos de transição, uma vez que que fundamenta a relevância do presente trabaessas também poderão influenciar as atitudes lho para o estudo do fenômeno. Em relação às crenças e às percepções, de individuais frente à mudança. A literatura sobre mudança organizacional acordo com o modelo clássico da estrutura triparé vasta e abrange distintas disciplinas. Por esse tite de atitude, crenças são um de seus compomotivo, é fundamental delimitar o foco de nentes (Weiss, Nicholas & Daus, 1999) e represenanálise, já que praticamente qualquer alteração tam a informação que a pessoa tem sobre o objeque afete a organização pode ser considerada to da atitude. A crença vincula um objeto a um como sendo uma mudança. atributo, o objeto pode ser uma pessoa, um grupo Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 32-46 Produção Empírica em Mudança Organizacional de pessoas, uma instituição, um comportamento, por exemplo. O atributo associado ao objeto pode um traço, uma propriedade, uma qualidade, uma característica, um resultado ou um evento (Ajzen & Fishbein, 1980). No presente trabalho, o objeto da atitude é a mudança organizacional e os atributos seriam os diversos aspectos sobre os quais a mudança poderia ser vista pelos indivíduos. A percepção é a maneira como os indivíduos organizam e interpretam suas impressões sensoriais, a fim de dar sentido ao seu ambiente (Robbins, 1999). A percepção de mudança organizacional seria a forma como o funcionário organiza e interpreta as impressões sensoriais sobre a mudança para dar sentido ao ambiente organizacional em transição. Bressan (2001) destaca que a percepção é um aspecto fundamental para reação dos indivíduos à mudança, mesmo que a percepção seja diferente do que de fato ocorre na organização. O tema relacionado à mudança organizacional aqui abordado foi escolhido pela importância do mesmo nas revisões internacionais. Por exemplo, Rousseau (1997) orientou sua revisão de literatura tendo como base as mudanças que vêm ocorrendo no mundo do trabalho e nas empresas de maneira geral. Tais questões revelam a pertinência de se verificar, de modo sistemático, como aspectos do nível individual têm sido investigados nas pesquisas nacionais. A seguir são apresentados o método utilizado nesse estudo e os resultados encontrados. Por fim, esses são discutidos e uma agenda de pesquisa na área será proposta. 35 MÉTODO Como já foi informado, o foco do presente trabalho foi o estudo das mudanças organizacionais no nível individual. Para alcançar tal objetivo, realizou-se uma revisão bibliográfica sistemática da produção empírica sobre Comportamento Organizacional nos principais periódicos nacionais (Tabela 1), existente numa base de dados previamente produzida e organizada por Borges-Andrade, Coelho Jr. e Queiroga (2006). As categorias de análise formuladas por estes autores foram baseadas nas revisões publicadas no Annual Review of Psychology, desde a metade do século passado. Os periódicos escolhidos para integrar esta base de dados deveriam ser indexados e apresentar avaliação satisfatória (classificação A ou B, nacional ou internacional) conforme critérios da CAPES (sistema QUALIS de classificação). Revisões sistemáticas, isto é, que utilizam critérios claros e prévios para definição do universo de artigos a ser investigado, para seleção e classificação dos artigos relevantes e para julgamento dos mesmos por meio de juízes independentes, são raras na literatura brasileira. Um método objetivo e padronizado para realizá-las foi proposto por aqueles autores e gerou uma base de dados que é periodicamente atualizada. Revisões sobre distintos temas de comportamento organizacional foram recentemente produzidas no Brasil, utilizando esse método e essa base, mas faltava uma sobre mudança nas organizações. As revisões teóricas sobre comportamento organizacional de Brief e Weiss (2002), Rousseau Tabela 1. Descrição dos periódicos nacionais analisados Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 32-46 36 Souza, Vasconcelos & Borges-Andrade (1997) e Siqueira (2002) foram utilizadas para delimitar melhor o foco do estudo e servir de referencial para a análise dos juízes. O período de análise investigado foi de 1996 a 2007 e incluiu todos os números dos periódicos referentes ao mencionado período de doze anos (353 artigos registrados). A seleção dos artigos foi feita com base nos seguintes critérios, previamente definidos, como o fato do estudo relatar análise de dados coletados no Brasil e discutidos dentro dessa realidade, clareza do objeto de análise e relevância temática. Os critérios de análise de cada artigo podem ser observados na Tabela 2. Tabela 2. Critérios de análise dos artigos Posteriormente, em função do objetivo deste estudo, foram selecionados para análise os artigos que se referissem à categoria "mudança organizacional", no que diz respeito às percepções e crenças sobre mudanças, aos comportamentos de reação, adaptação e resistência às mudanças. Apesar do material revisado ser bastante específico, acredita-se que tal decisão possibilita uma análise aprofundada e realística da produção científica sobre mudança organizacional. Além disso, lembra-se que internacionalmente já existe uma linha de pesquisa que busca compreender o comportamento dos indivíduos em situações de mudança organizacional (Armenakis & Bedeian,1999), o que justifica o recorte e delimitação feitos. Do total de 33 artigos encontrados sobre mudança organizacional na base de dados, 23 de alguma forma se enquadraram na categoria estabelecida. A análise deles será descrita a seguir. RESULTADOS A apresentação dos resultados está organizada em três partes. Inicialmente é feita uma análise geral das características dos autores e dos periódicos onde as pesquisas são publicadas. Posteriormente são apresentados os aspectos metodológicos utilizados nos artigos e, por fim, as principais variáveis estudadas. Em relação ao período de tempo considerado para análise no presente trabalho, é possível observar um aumento da quantidade de publicações ao longo dos anos. No primeiro quadriênio (1996 a 1999) foram publicados três artigos; no segundo (2000 a 2003) e no terceiro (2004 a 2007), foram encontrados dez artigos em cada um. Como se pode observar, com o passar dos anos parece ter aumentado o interesse dos pesquisadores em estudar aspectos micro- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 32-46 Produção Empírica em Mudança Organizacional organizacionais relacionados à mudança. Em relação aos periódicos, observa-se que os artigos estão distribuídos em diversas revistas, sendo que, do total de vinte e três, cinco foram publicados na RAC, cinco na O&S, quatro na RAP, quatro na RAE, dois na RAUSP, dois na rPOT e um na Psicologia: ciência e profissão. Há, portanto, claramente uma predominância de publicações em periódicos da área de administração (20 artigos), assim como há uma quantidade maior de autores (dezessete) com titulação em Administração e dez possuem titulações em Psicologia. Da mesma forma, não há predominância de alguma instituição de ensino, nem de um tipo de pesquisa. Os autores são de diversas Unidades da Federação e instituições, não sendo possível verificar tendências quanto a essa distribuição dos pesquisadores da área. Apesar disso, quatro autores aparecem em mais de um artigo: Maria José de Brito, Carmem Lígia Iochins Grisci; Maria das Graças Torres da Paz; Mariana Viana dos Santos, além da parceria José Roberto Gomes da Silva e Sylvia Constant Vergara, que publicou dois artigos encontrados na base de dados investigada. Dos vinte e três artigos analisados, cinco são relatos de experiência e dezoito tratam de pesquisa com desenho. Dezoito adotaram o survey como método de investigação e dois, pesquisa experimental. A maioria coletou os dados em organizações prestadoras de serviços (setor terciário da economia). Apenas quatro pesquisas foram feitas no setor secundário (Chaves, Santos & Morais, 2004; Bastos & Santos, 2007; Oltramari & Piccinini, 2006; Fleig, Pereira, Grzybovski & Brito, 2005) e uma no setor primário (Ichikawa, 2004). Em relação à amostragem, dez artigos se referem a estudos de caso sendo que destes nove adotaram uma metodologia qualitativa e um adotou metodologia quantitativa, a maioria combinou diferentes instrumentos de coleta de dados. Feuerschütter (1997), por exemplo, utilizou tanto entrevistas como observações e análises documentais. Verifica-se que apesar da 37 combinação de instrumentos, a maioria das pesquisas qualitativas utilizou em algum momento entrevistas para coletar os dados. Dos demais artigos, todos estudaram amostras populacionais, sendo que seis adotaram métodos qualitativos, três utilizaram métodos quantitativos, e quatro utilizaram uma combinação de técnicas qualitativas e quantitativas (quali-quanti). Seabra (2001) e Chaves et al. (2004) utilizaram tanto questionários como análise documental em suas pesquisas, enquanto Haak (2000) e Dias (2000) coletaram os dados por meio de questionários e entrevistas. Nas pesquisas qualitativas predomina o uso de análise de conteúdo e nas pesquisas quantitativas análises descritivas e inferenciais. Destaca-se que não é possível afirmar a preferência por estudos de amostra, uma vez que há certo equilíbrio na produção científica quanto à natureza da amostragem (13 estudos de amostra e 10 estudos de caso). Vinte e um artigos utilizaram dados primários, ou seja, coletados pelo próprio autor. Deste total, três pesquisas também analisaram dados secundários (documentos, atas de reuniões e relatórios), enquanto que Faria (2002) analisou somente dados secundários. Apenas três pesquisas (Martins & Paz; 2000, Grisci, Cigerza, Hofmeister & Becker; 2006 e Neiva & Paz; 2007) podem ser consideradas longitudinais, uma vez que os autores coletaram os dados antes e após o processo de mudança. A seguir, serão apresentados os resultados dos artigos analisados. Esses resultados foram categorizados de acordo com os fenômenos relacionados ao estudo da mudança, ou seja, os temas apresentados foram definidos a posteriori, com base no conteúdo de cada estudo analisado. Em geral, observa-se que há uma variedade considerável em relação às variáveis pesquisadas no âmbito da área de mudança organizacional. Motivação e processos psicológicos O tema mais abordado nas pesquisas é a relação entre as mudanças e os processos psicológicos Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 32-46 38 Souza, Vasconcelos & Borges-Andrade como motivação, vivência de sofrimento no trabalho, ansiedade e estresse. A mudança organizacional é, essencialmente, algo que mobiliza as emoções dos indivíduos (Silva & Vergara, 2003). Caldas e Hernandez (2001), citados por Chaves, Santos e Morais (2004), destacam que um sentimento prontamente relacionado a momentos de mudança é a ansiedade. Essa variável foi objeto de estudo em quatro dos artigos analisados. No artigo de Chaves e cols. (2004), ansiedade foi uma das categorias mais evocadas. Os autores comentam que o temor em relação à mudança pode diminuir a eficácia das mudanças ou provocar sintomas indesejados nos atores organizacionais. Nas organizações analisadas por Silva e Vergara (2003), observou-se que na instituição bancária os indivíduos expressam maior ansiedade e maior sentimento de impotência diante da mudança e são mais intensas as queixas com relação à falta de oportunidade para que os sentimentos possam ser explicitados. Não parece ser circunstancial o fato de a empresa farmacêutica ser a que os indivíduos manifestam maior nível de tranqüilidade e conseguem expressar suas percepções sobre o discurso da organização. Ou seja, os autores sugerem uma relação entre oportunidade de se expressar e nível de ansiedade. Outro artigo escrito pelos autores, em 2000, encontrou que a maior fonte de angústia foi a percepção de que esse rompimento é involuntário, gerado por motivos alheios à própria vontade da organização e das pessoas que dela participam. Oltramari e Piccinini (2006) estudaram indústrias têxteis e encontraram que a implementação de mudanças provocou sobrecarga de trabalho, tensão, ansiedade, ausência de perspectivas de crescimento. Além disso, um artigo enfatizou o sofrimento psíquico dos trabalhadores em função de um processo de modernização de um banco (Grisci, Cigerza, Hofmeister & Becker, 2006). Dois artigos estudaram a motivação no âmbito da mudança organizacional. Haak (2000) observou que a mudança gerou um aumento na motivação dos funcionários que participaram do programa de qualidade total. Já Dias (2000), ao investigar a influência da motivação na resistência ao uso de computador por gerentes, encontrou que a motivação atuou como uma variável antecedente fundamental na explicação do uso deste. Os resultados dessa pesquisa, entretanto, devem ser analisados com cautela em função do reduzido número de observações utilizadas nas análises de regressão. Por fim, dois artigos, estudaram o impacto das mudanças do mundo do trabalho para os indivíduos. Kilimnik (1998) buscou identificar as conseqüências dessas mudanças para profissionais constantemente sujeitos a ameaças de demissões e os já desempregados. A autora encontrou que, apesar dos distúrbios, como estresse e ansiedade, ocorreu melhoria no conteúdo do trabalho e no amadurecimento profissional em situação de desemprego. Fleig, Pereira, Grzybovski & Brito (2005) estudaram as representações sociais construídas pelos exoperários de uma organização do setor metalúrgico sobre o processo de demissão, as percepções do trabalho e os significados do desemprego. Os resultados apontaram que o trabalho é representado socialmente como eixo central que orienta as ações sociais, promove elos entre a realidade, a subjetividade humana e o cotidiano social do trabalhador. O desemprego representa perdas em vários sentidos, mas também emerge como impulsionador pela busca de alternativas como o estabelecimento do próprio negócio. Finalmente, um artigo (Bastos & Santos, 2007) estudou os significados associados ao processo de privatização em uma indústria petroquímica. O estudo focou cognição social e redes informais. Os resultados indicaram que os gestores possuem percepções positivas (crescimento profissional e pessoal, melhores resultados), os empregados, percepções positivas e negativas (insegurança, incerteza, expectativa de melhorias, remuneração) e os terceirizados, percepções relacionadas à segurança, saúde e qualidade de vida. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 32-46 Produção Empírica em Mudança Organizacional Esses resultados indicam que os processos micro organizacionais podem estar associados tanto a mudanças internas à organização, como mudanças do mercado e do ambiente em que estas estão inseridas. Aspectos individuais devem ser considerados uma vez que os processos de mudança afetam as percepções das pessoas, podendo impactar tanto positivamente como negativamente nas suas vivências. Além disso, alguns processos psicológicos, como a motivação, podem funcionar como variáveis antecedentes que facilitam ou dificultam a aceitação da mudança. Gestão de pessoas No processo de mudança, é natural que ocorram alterações no modo como as políticas e práticas de gestão de pessoas são concebidas. A implementação de propostas de revisão dos modelos de gestão são elementos-chave na efetivação das mudanças (Brito, Melo, Monteiro & Costa, 2004 e Silva & Vergara, 2000). Na pesquisa de Chaves e cols. (2004), a mudança é percebida como transformações na gestão de pessoas e está associada a novas formas de gerenciamento das atividades e dos relacionamentos. Brito e cols. (2004) sugeriram que mudanças nos modelos de gestão dos hospitais propiciavam a revisão dos modelos de gestão e interferiam nas condições e na organização do trabalho, nas relações hierárquicas, no tipo de estrutura organizacional, no controle dos resultados e nas políticas de gestão de pessoal. Junquilho (2004), analisando o novo papel do gerente em uma organização pública, encontrou que o gestor se caracteriza por apresentar características como habilidade para conjugar o convívio informal com o conjunto de legislação formal; liderança construída por meio de um misto entre carisma e autoridade formal; capacidade criativa e/ou empreendedora para resolução de problemas imediatos. Quando a gestão de pessoas não acompanha as mudanças propostas pela organização, a mudança dificilmente será bem sucedida. No estudo de Seabra (2001) mesmo com a mudança, a cadeia de comando hierárquico 39 aparentou não ter sofrido alterações significativas, permanecendo com características do modelo burocrático clássico. Apesar de mudanças no sistema de recompensas, os respondentes não se sentiam motivados com o novo sistema de desempenho adotado. O pagamento não se tornou uma recompensa eficaz ao bom desempenho. Brito, Cappelli, Brito e Cramer (2002) estudaram a mudança de equipes mono-disciplinares para equipes multi e interdisciplinares. Paradoxalmente, o modelo de gestão utilizado nas equipes premiava e promovia as ações individuais. Essa dissonância provocou resistências ao trabalho em equipe e dificuldades relativas à apropriação dos resultados, possibilitando emergirem ações oportunísticas no momento de dividir as responsabilidades e os resultados do trabalho em equipe. No estudo de Chaves e cols. (2004), as representações dos participantes retrataram a ausência de um modelo gerencial consistente e estruturado como uma realidade ainda existente na organização. Os autores sugerem que, possivelmente, essa indefinição colaborou com outras representações negativas e a instabilidade. Lima e Queiroz (2003) destacam que as formas como são conduzidas e monitoradas as ações transformacionais, por parte dos gestores, se constituem como empecilhos à implementação de um novo programa. Xavier e Dornelas (2006) estudaram o papel do gerente em um processo de implantação de CRM (customer relationship management) em uma empresa de tecnologia da informação. Os resultados mostraram que os gerentes exercem papéis específicos no processo de mudança e que sua postura influencia o negócio. Foi identificado que ocorreu resistência à mudança quando não houve a percepção de vantagem coletiva ou individual no uso do sistema. Silva e Vergara (2000) ressaltam que indefinições quanto ao processo de gestão de pessoas não favorecem o desenvolvimento de um senso comum e de uma ação coletiva eficaz nem asseguram uma preparação adequada de todos para os novos tempos. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 32-46 40 Souza, Vasconcelos & Borges-Andrade É fundamental, pois, considerar que determinadas mudanças exigem alterações nas práticas de gestão de pessoas e que estas podem gerar impactos tanto negativos como positivos para os indivíduos. Haak (2000), ao estudar as conseqüências da adoção de um programa de qualidade total, encontrou que houve um aumento na motivação dos funcionários, assim como aumento no significado do trabalho para os participantes, indicando que nesse estudo a mudança exerceu uma influência positiva para os indivíduos. Já no artigo de Grisci (2003), a modernização do trabalho bancário trouxe aumento no ritmo de trabalho; exigências quanto a produtividade, complexidade e competitividade e sofrimento psíquico, exercendo, assim, uma influência negativa. Nova Administração Pública Muitos artigos investigaram mudanças ocorridas no Setor Público. Os autores destacam que a globalização afeta o papel do Estado, impondo a necessidade de redefinir suas funções e sua burocracia (Crubellate & Machado-da-Silva, 1998; Lima & Queiroz, 2003). O maior desafio do governo é transformar o Estado de forma a adaptá-lo às novas demandas da contemporaneidade, aumentando sua efetividade (Lima & Queiroz, 2003). Junquilho (2004) e Seabra (2001) estudaram a influência das práticas da nova administração pública nas condutas dos funcionários e identificaram que essa mudança provocou alterações nos comportamentos dos funcionários públicos, exigindo uma postura mais pró-ativa e dinâmica. O Estado vem repensando sua forma de atuação e deixando de agir como gestor para atuar mais como regulador das atividades (Crubellate & Machado-da-Silva, 1998; Faria, 2002). Passou a ser imperativo que o Estado se organize, adotando critérios relativos à gestão capazes de reduzir custos, buscar maior articulação com a sociedade, definir prioridades democraticamente e cobrar resultados (Lima & Queiroz, 2003). Nos artigos revisados, foram identificados dois documentos do governo relacionados a essas mudanças: O Programa Qualidade no Serviço Público (1997, citado em Lima & Queiroz, 2003) e o Plano Diretor da Reforma do Estado (1998, citado em Seabra, 2001). Ambos estariam orientando o movimento para a transformação gerencial no setor público brasileiro. Nas organizações deste setor, o processo se sustenta em premissas econômicas relacionadas à necessidade de padrões adequados de eficiência e eficácia em face da escassez de recursos (Crubellate & Machado-da-Silva, 1998). O governo tem por objetivo tornar mais ágil a administração pública, tornando seus serviços mais acessíveis e de melhor qualidade, além da intenção de reduzir drasticamente o déficit público (Faria, 2002). Frente a esse cenário, as empresas estatais brasileiras estão passando por processos de privatização (Faria, 2002) ou buscando no mercado apoio financeiro para desenvolver seus projetos (Ichikawa, 2004). Comunicação A comunicação é um dos elementos mais importantes no processo de implementação da mudança estratégica. Ela é um instrumento para anunciar e explicar as transformações; preparar as pessoas para seus efeitos positivos e negativos; elevar a compreensão e o comprometimento com o processo; reduzir a confusão de significado e a resistência à inovação; o; sustentar o processo de mudança; obter feedback sobre percepções e crenças dos membros da organização e preparar as pessoas para as alterações nas suas atitudes e comportamentos (Silva & Vergara, 2000). Essas autoras, em 2003, destacaram que o problema da implementação da mudança estaria na atitude das pessoas e na forma como ela é comunicada pela organização. Para ser possível criar um processo de mudança em que haja engajamento das pessoas da organização, é preciso que cada uma delas esteja engajada como um ator que se apropria do sentido de coletividade. É importante que haja comunicação entre os indivíduos. Para desenvolver mecanismos capazes de integrar indivíduos, equipes e processos, o papel Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 32-46 Produção Empírica em Mudança Organizacional da gerência passa a ser o de divulgar estratégias igualitariamente, em todos os níveis e para os diferentes membros, que facilitarão o esforço necessário para a implementação da mudança (Brito et al., 2002). O estudo de Brito e cols. (2004) aponta que intensificações nos fluxos de comunicação são marcas incontestáveis das organizações. Nesse contexto, percebe-se que as práticas gerenciais assumem um caráter muito mais coletivo do que individual e que a equipe de trabalho tem sido considerada um fator determinante para a sobrevivência e o desenvolvimento da organização. Silva e Vergara (2003) sugerem que o aspecto que mais parece contribuir para a autodescoberta como sujeito é a possibilidade de fazer uso da palavra. A comunicação pode também reforçar as barreiras para aprendizagem e a incorporação de mudança (Argyris, 1994 citado por Silva & Vergara, 2000). Brito e cols. (2002) enfatizam que problemas de comunicação e falta de diálogo promovem resistência ao processo de mudança, pois proporcionam restrições que dificultam o alcance de um consenso quanto às posturas teóricas e metodológicas a serem adotadas pelos trabalhadores. Os achados de Seabra (2001) sugerem que os indivíduos são menos propensos a mostrar comportamentos próativos, cooperativos e/ou inovadores em um ambiente organizacional caracterizado por um processo formalístico de comunicação interna e rigidez de procedimentos. Quanto maior o nível de flexibilidade para tomada de decisão e do processo de comunicação informal na organização, maior é a preocupação com qualidade. Silva e Vergara (2000) indicam que dificuldades no processo interno de comunicação não favorecem o desenvolvimento de um senso comum e de uma ação coletiva eficaz nem asseguram uma preparação adequada de todos para os novos tempos. Lima e Queiroz (2003) destacam também que um dos obstáculos à implementação de um novo programa é o modo como são compreendidos e disseminados os princípios que orientam tais práticas. 41 Cultura e Poder O gerenciamento da mudança envolve a necessidade de alterar políticas, procedimentos e estruturas promovendo novas formas de comportamento dos indivíduos e equipes. Para que a mudança tenha chances de ser bem sucedida, é preciso que seja vista como um processo de construção coletiva de novos significados acerca da realidade, de desenvolvimento de uma nova cultura organizacional (Silva & Vergara, 2000). A cultura incorpora as ambigüidades e as divergências existentes entre grupos na organização. O caráter dinâmico da cultura resulta em desafios para a gerência das organizações, em especial quando esta precisa lidar com contextos sociais em rápida transformação (Crubellate & Machado-da-Silva, 1998). A análise dos artigos mostra que o estudo da cultura e do poder tem estado diretamente relacionado ao estudo da mudança organizacional. Crubellate e Machado-da-Silva (1998) verificaram, num contexto de redução de verbas, a influência da cultura e do poder na reação de professores frente à postura adotada por seus departamentos (diversificação ou manutenção das atividades), de tal forma que as dependências de poder (interesses) foram mais decisivas do que a cultura (crenças/valores) na definição da postura de adaptação organizacional nas unidades pesquisadas. Feuerschütter (1997) estudou a influência das mesmas variáveis na reação dos funcionários frente à mudança estrutural de uma organização privada. Os resultados destes trabalhos, entretanto, são divergentes. No primeiro o poder atua positivamente para a aceitação da mudança e no segundo negativamente. Em relação à cultura, no primeiro, há variações quanto a sua influência e no segundo ela facilita a implementação da mudança. Seabra (2001) observou uma ligeira mudança na cultura organizacional, passando para uma cultura "mais gerencial", na qual maior flexibilidade para tomada de decisão apresentou correlação significativa com a parte relacionada ao perfil gerencial dos indivíduos. Houve uma significante associação entre Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 32-46 42 Souza, Vasconcelos & Borges-Andrade redução de barreiras burocráticas no processo de comunicação com mudanças tanto na parte da cultura relacionada com comportamento gerencial quanto naquela relativa a valores compartilhados na organização. A pesquisa de Martins e Paz (2000) verificou que a mudança ocorrida na organização estudada não afetou os níveis de comprometimento e manteve as configurações de poder, havendo apenas uma alteração na qualidade desse vínculo, que passou a ser mais calculativo e menos afetivo. Em outro estudo, Neiva e Paz (2007) encontraram resultados que indicam que, após o processo de mudança, houve alteração nas configurações de poder na empresa estudada (de autocracia e arena política para autocracia, sistema autônomo e missionário). Não houve mudança de valores organizacionais percebidos e desejados e o grau de insatisfação com os valores organizacionais diminuiu. Apesar de observar-se que essas variáveis são importantes no processo de mudança, sobretudo na reação dos indivíduos às mudanças, não é possível ainda afirmar, a partir dos estudos citados, exatamente qual é o papel da cultura e do poder na aceitação ou na resistência à mudança organizacional, uma vez que os resultados das pesquisas são divergentes e ora a cultura atua como facilitadora, ora como característica que dificulta os processos de mudança. DISCUSSÃO A análise dos resultados permite concluir que, em geral, a categoria "mudança organizacional", sobretudo no que tange a comportamentos individuais, foi pouco estudada por pesquisadores com formação em psicologia. Apesar da literatura indicar a relevância das mudanças no mundo do trabalho e conseqüente mudança nas organizações, para os indivíduos (Rousseau, 1997; Brief & Weiss 2002), parece que esse tema especificamente ainda não despertou interesse desses pesquisadores no Brasil. As pesquisas realizadas por estes, no âmbito da disciplina Comportamento Organizacional, têm como foco alguns processos psicológicos que, muitas vezes, estão relacionados a processos de mudança. Nota-se que a pesquisa na área está em desenvolvimento e há uma tendência de crescimento. Além disso, é claramente perceptível a ausência de uma linha de pesquisa nacional cujo interesse seja a compreensão e o estudo dos micro fenômenos relacionados às mudanças organizacionais. Não existe ainda um corpo teórico comum ou um paradigma dominante. A área está se construindo havendo a necessidade de criação de uma rede de comunicação entre os pesquisadores interessados. No entanto, certo amadurecimento pode ser notado quando se observa algum direcionamento nas pesquisas em relação às variáveis estudadas. Parece haver interesse pelo estudo de processos psicológicos (10 artigos), da gestão de pessoas (10 artigos), da cultura e do poder (6 artigos) e da comunicação (6 artigos) na compreensão da mudança organizacional. Verificase também uma tendência a estudar o comportamento ou a conduta das pessoas envolvidas em mudanças, sobretudo na administração pública (6). Nota-se que um conjunto de artigos esteve incluído em mais de uma categoria. Os artigos analisados mostram a relevância do tema para a realidade organizacional e, de alguma forma, tentam compreender a relação da mudança com algum aspecto individual (comportamentos, crenças, resistência, relações de poder, percepções de cultura). A questão da mudança despertou o interesse de alguns pesquisadores, a partir de suas experiências práticas, os levando a se interessar pela compreensão do fenômeno. A diversidade metodológica observada reflete mais uma vez a ausência de uma organização dos pesquisadores em termos de uma ou mais linhas de pesquisa e dificulta a comparação dos resultados encontrados. Muitas investigações adotaram amostras de conveniência, que dificultam a generalização dos resultados. Entretanto, não surpreendentemente, a maioria das pesquisas foi feita em organizações prestadoras de serviços, indicando que é o setor terciário que pode estar passando por maiores transformações. Mas, segundo Borges e Pinheiro (2002), as dificuldades na coleta de Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 32-46 Produção Empírica em Mudança Organizacional dados com trabalhadores de baixa renda podem ser um fator que reduz a produção empírica no setor primário, por exemplo. Além disso, a organização da área exige uma delimitação melhor do fenômeno em estudo. A revisão de Armenakis e Bedeian (1999) indicou que há uma diferenciação quanto ao nível de análise estudado nas pesquisas sobre mudança. Diversas adotam um nível de análise macro em que a mudança é estudada a partir das reações organizacionais frente às alterações do contexto. A análise da produção nacional apontou essa tendência, uma vez que foram encontrados vários artigos que se referiam a aspectos macro da mudança no âmbito do Comportamento Organizacional (Machado-daSilva & Fernandes, 1998; Corrêa & Prochno, 1998; Eboli, 1997). A clareza no nível de análise e delimitação do objeto é fundamental para estudo e compreensão do fenômeno e revela certo amadurecimento da área, como pode ser verificado em pesquisas multinível sobre equipes de trabalho (Puente-Palacios & Borges-Andrade, 2005). Por fim, verifica-se que as pesquisas analisadas utilizaram diferentes tipos de mudança (inovações tecnológicas, alterações estruturais, programas de qualidade) e isso impossibilita, mais uma vez, a generalização dos resultados, tendo em vista que essas mudanças podem ser percebidas pelos indivíduos de maneiras distintas. É pertinente considerar que as reações dos trabalhadores poderão ser diferentes em função do tipo de mudança ocorrido. Grande parte dos artigos realizou a coleta de dados depois que a mudança foi implantada. Como já exposto, a percepção é um aspecto fundamental para reação dos indivíduos à mudança (Bressan,2001). Além disso, para formar novas atitudes ou para modificar atitudes já existentes, as intervenções passariam, necessariamente pela aquisição de novas informações sobre o objeto, isto é, pela reconfiguração das crenças (Freitas & Borges-Andrade, 2004). Tendo em vista que os artigos revisados investigam percepção, crenças, reações e resistências às 43 mudanças, seria recomendável também realizar a coleta de dados antes da implementação da mudança. Apesar de ser bastante conhecido que a participação dos sujeitos no processo de mudança é importante, algumas organizações não os envolvem, nem proporcionam oportunidade para os funcionários se expressarem. Uma mudança radical implica necessariamente em uma mudança na gestão. Caso não ocorra percepção sobre tais mudanças, o processo pode ser prejudicado. A partir do exposto anteriormente e com o objetivo de direcionar o desenvolvimento da área, o presente artigo será concluído com uma sugestão de agenda de pesquisa para os próximos anos. AGENDA DE PESQUISA A criação de instrumentos que mensurem reação e adaptação a diferentes tipos de mudança organizará a área e facilitará a comparação entre resultados de pesquisas. Será possível também comparar se há diferenças nas reações dos indivíduos em função dos diversos processos de mudanças por quais passam as organizações. Em relação à criação de instrumentos, foi encontrado o trabalho de Fischer e Lima (2005) que trata da validação de medida para diagnóstico de condições facilitadoras de mudança organizacional, o que já contribui para o avanço da área. É necessária a realização de mais pesquisas sobre cultura e poder, uma vez que os resultados encontrados são divergentes e inconclusivos. É preciso continuar estudando o impacto da proposta da nova administração pública no comportamento dos servidores e na realização do trabalho. Como os artigos indicaram a importância de uma boa disseminação das informações, sugere-se investigar a relação da comunicação na organização com as seguintes variáveis: nível de ansiedade dos membros; diminuição de barreiras culturais para a implantação da mudança; engajamento dos membros da organização no processo de mudança e eficácia dos sistemas de gestão de pessoas. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 32-46 44 Souza, Vasconcelos & Borges-Andrade É importante analisar a relação entre as percepções dos indivíduos e o sucesso da mudança organizacional. Algumas possibilidades são o desenvolvimento de estudos sobre crenças acerca das mudanças organizacionais e o sucesso destas. Essas primeiras propostas sugerem relacionar indicadores subjetivos (percepção e crenças) com indicadores "duros" do sucesso de mudanças. Isto será um grande avanço, se as medidas daqueles indicadores estiverem validadas. Será preciso verificar quais estratégias de implementação da mudança são mais eficazes para promover o engajamento dos funcionários no processo. Armenakis e Bedeian (1999) identificaram essa lacuna também na produção internacional. Seria interessante, portanto, em próximos estudos, adotar desenhos de pesquisa experimental ou "quasi-experimental", utilizando diferentes táticas para diferentes grupos. Conforme já apontado por Rousseau (1997), é fundamental desenvolver pesquisas, no contexto brasileiro, sobre as conseqüências, tanto positivas como negativas, do desemprego para os trabalhadores. Apenas dois artigos abordaram o tema (Klimnik, 1998 e Fleig e cols., 2005). Apesar da dificuldade metodológica, as pesquisas longitudinais possibilitam analisar todo o processo envolvido na mudança, assim como suas conseqüências. Os resultados são mais ricos e permitem comparações. A realização de tais estudos precisa ser intensificada, para apontar direções para novas pesquisas. Ainda em relação ao método, como essa área está se estruturando, é importante continuar realizando pesquisas qualitativas, pois estas possibilitam análises aprofundadas dos fenômenos. Entretanto, paralelamente, há a necessidade de aumentar significativamente a produção empírica com pesquisas quantitativas, uma vez que estas permitem analisar com mais segurança as relações entre as variáveis envolvidas nos fenômenos e podem ampliar a generalidade dos achados. REFERÊNCIAS Ajzen, I. & Fisbein, M. (1980). Understanding attitudes and predicting social behavior. Englewood Cliffs, New Jersey: Prentice-Hal. Armenakis, A. A. & Bedeian, A. G. (1999). Organizational change: a review of theory and research in the 1990s. Journal of Management, 25, 293-315. Bastos, A. V. B. & Santos, M. V. (2007). Redes sociais e informais e compartilhamento de significados sobre mudança organizacional. Revista de Administração de Empresas. 47 (3), pp.: 27-39. Borges, L. de. O. & Pinheiro, J. Q. (2002). 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Mestre em Gestão Empresarial pela FGV/EBAPE, perito criminal federal da Diretoria Técnico-Científica, Departamento de Polícia Federal. [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/4642796113877414. Resumo A literatura tem sido pródiga a respeito da gestão do conhecimento e, nela, do compartilhamento do conhecimento. Afirma a existência de uma era do conhecimento e a importância da captura e transferência do conhecimento individual e coletivo. De tão repetidas, essas ideias revestiram-se de legitimidade, pouco provocando discussões acerca das circunstâncias que suportam o compartilhamento e dos motivos grupais que podem, ou não, fazê-lo acontecer. Eis aí a lacuna percebida que motivou o presente estudo. Baseado em uma metodologia desconstrucionista, ele levanta a seguinte questão: que circunstâncias e motivos podem facilitar ou dificultar o compartilhamento do conhecimento nas organizações? Em outras palavras: quais as possibilidades e limitações de tal compartilhamento? Com base na extensa literatura clássica e contemporânea a respeito de grupos na organização, assim como na pesquisa de campo levada a efeito em duas organizações, o estudo conclui que grupos, indivíduos e organizações sofrem e exercem, permanentemente, ações contraditórias e que ações organizacionais que visam ao compartilhamento do conhecimento devem admiti-las. Elementos polares, como cooperação e competição, individualidade e conformidade, liberdade de expressão e inibição de sentimentos caracterizam circunstâncias e motivos que podem, de um lado, se apresentar como possibilidades de compartilhamento do conhecimento e, de outro, como limitações. Palavras-chave: desconstrução, vontade, disponibilidade, contradição, polaridade. Abstract Knowledge Sharing in Organizations: Possibilities and Delimitations The literature has been prodigal regarding knowledge management and share of knowledge. It states the existence of an age of knowledge and the relevance of capture and transference of individual and collective knowledge. Due to its continued repetition, these ideas have been legitimated, not establishing, however, a debate upon the circumstances that support the share of knowledge and which collective reasons can stimulate sharing the knowledge. Here is the perceived gap that motives the present study. Supported by a deconstructive methodology, it raises the following question: which circumstances and reasons can facilitate or difficult the share of knowledge within organizations? In other words, what are the possibilities and limitation of this share of knowledge? Based on extent classic and contemporaneous literature which address focus on groups within organizations, as well as on a field research conducted inside two organizations, the study concludes that groups, individuals and organizations suffer and exercise contradictory actions, so that organization initiatives aiming the share of knowledge can not disregard them. Polar elements, such as cooperation and competition, individuality and conformity, freedom for expression and inhibition of feelings characterize circumstances and reasons that can be seen as possibilities and also limitation for sharing knowledge. Keywords: deconstruction, will, availability, contradiction, polarity. Vergara & Alves. Compartilhamento do Conhecimento nas Organizações Recebido em: 08.10.2008 Aprovado em: 25.01.2010 Publicado em: 22.03.2010 48 Vergara & Alves O termo conhecimento abriga diversas definições de inúmeros pensadores. Davenport e Prusak (1998), por exemplo, referem-se ao conhecimento como a soma das experiências, valores, informação contextual e insights, com origem e aplicação na mente de seus possuidores. Acrescentam que o conhecimento é fruto da informação e esta, dos dados. Gestão do conhecimento, por sua vez, é uma expressão que abriga questões relativamente diversas e concernentes à aprendizagem individual e coletiva, criação, integração e compartilhamento de conhecimentos, inovação, pesquisa e desenvolvimento, métodos de mensuração do capital intelectual e de ativos intangíveis, e tecnologia da informação. A gestão do conhecimento pode ser definida como um processo consciente e sistemático de captura, organização, análise e compartilhamento do conhecimento, aqui entendido como a agregação de informações, experiências e valores, em suas dimensões individual e coletiva (Bontis & Fitz-enz, 2002; Davenport & Prusak, 1998; Hackett, 2002; Nonaka & Takeuchi, 1997). Da gestão do conhecimento destaca-se, neste estudo, a questão do compartilhamento do conhecimento (Nonaka & Takeuchi, 1997; Oliveira e col., 2001; Salim, 2005; Senge, 1990). Se a literatura tem sido vasta no que concerne às diferentes composições da gestão do conhecimento, pouco, porém, discute o compartilhamento do conhecimento, de um ponto de vista crítico. Em geral, a literatura parte do pressuposto de sua necessidade, assim como dos benefícios daí advindos, porém pouco questiona acerca da vontade e disponibilidade das pessoas para compartilharem conhecimento. Vontade diz respeito ao arbítrio de alguém para, nas tarefas, incluir o compartilhamento do conhecimento. Pode ser facilitada ou obstada por uma infinidade de valores e sentimentos. Disponibilidade envolve as condições de trabalho nas organizações e pode ser impedida por condições adversas ou facilitada por condições estimuladoras. A questão que, então, se coloca é: que circunstâncias e motivos podem facilitar ou dificultar o compartilhamento do conheci- mento nas organizações? Em outras palavras: quais as possibilidades e limitações de tal compartilhamento? Para responder à questão formulada, justificada pela contribuição que sua resposta possa trazer à pouca discussão acerca do tema, do ponto de vista teórico não só resgataram-se autores clássicos, como contemporâneos. Do ponto de vista metodológico, utilizou-se o método da desconstrução, tanto na análise da literatura resgatada, quanto na pesquisa de campo levada a efeito. O estudo está aqui exposto em seis seções, além desta Introdução. A seção 1 especifica o método empregado. A segunda seção discorre acerca da dinâmica de grupo, enquanto a terceira seção discute a formação e o comportamento dos grupos. A seção 4 aborda a questão dos interesses conflitantes, da competição, da dominação e poder. Na quinta seção, são apresentadas reflexões alimentadas pela pesquisa de campo. A última seção expõe as conclusões a que o estudo permitiu chegar, suas implicações para a prática nas organizações e para as teorias existentes, assim como propõe uma nova agenda de pesquisa. A respeito do método utilizado no estudo O estudo nutre-se das provocações da desconstrução, método que se insere na perspectiva pós-modernista e que foi introduzido por Jacques Derrida no início da segunda metade do século passado, destinado à análise de textos filosóficos e literários. Para Derrida, textos são polissêmicos, logo, admitem múltiplas interpretações (Calás & Smirch, 1991; Martin, 1990). Os trabalhos de Derrida foram posteriormente seguidos por autores que utilizaram o método em contextos distintos, como no estudo da burocracia, na linguagem das organizações e na prática da psicologia. A utilização da desconstrução avançou, portanto, para outros contextos, não se limitando à linguagem do texto, mas podendo estender-se para os contextos sociais e políticos nos quais o texto se insere (Kilduff, 1993). É nesse entendimento que se apoia o presente estudo. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 47-59 Compartilhamento do Conhecimento nas Organizações O objetivo da desconstrução é o de quebrar o poder do autor de afirmar sua primazia com relação a uma narrativa particular e, dessa forma, impor significados ao leitor (Burrell, 1999; Calás & Smircich, 1991). Se Cooper (citado por Burrell,1999) chama a atenção para o fato de que qualquer representação é capaz de permitir mais de uma leitura e interpretação, Vergara (2008), por sua vez, assevera ser a desconstrução um método adequado à exposição das contradições ou dicotomias presentes em qualquer texto. Desconstruir um conceito ou uma ideia não implica destruí-los (Calás & Smircich, 1991); implica, como observado por Hassard (1993), analisar relações entre elementos polares (masculino e feminino, por exemplo) e, dessa forma, revelar ambiguidades. Veja-se, por exemplo: em organizações que defendem a necessidade do compartilhamento do conhecimento e, ao mesmo tempo, incentivam fortemente a competição e a luta pelo poder, pode o compartilhamento ocorrer? Essas e outras questões são aqui analisadas do ponto de vista desconstrucionista, cuja prática requer a confrontação de pontos de vista distintos, objetivando a revelação de possíveis contradições. Já que a literatura pouco discute a vontade e a disponibilidade dos grupos em compartilharem conhecimento, o método de desconstrução parece útil. Começa-se com questões relativas à dinâmica de grupo. A dinâmica de grupo Quando se fala em dinâmica de grupo, é possível que se esteja referindo tanto a grupos formais, quanto aos informais. No caso desses últimos, Castoriadis (citado por Enriquez, 1997) defende a ideia segundo a qual sentimentos de solidariedade por eles abrigados energizam a luta em relação às determinações da organização. A tão conhecida investigação de Mayo (1933) aponta a possibilidade de a solidariedade ser nutrida pela satisfação com a tarefa. Comenta Enriquez (1997) que a pesquisa de Mayo acentuou alguma humanização da empresa, assim como a importância do sistema de relações e comunicações, o significado da afe- 49 tividade, os sentimentos e a consideração frente às necessidades dos indivíduos e grupos. Mas revelou também o surgimento de elementos de solidariedade em torno de reagrupamentos de produção e luta. Aí está um exemplo da possibilidade de dupla interpretação na leitura de um texto, como argumenta o método da desconstrução (Burrell & Cooper, 1988; Calás & Smircich, 1991; Hassard, 1993; Kilduff, 1993; Vergara, 2008). Com base nesses estudiosos, poder-se-ia dizer que o compartilhamento do conhecimento é possível em grupos que se organizam informalmente, geram equilíbrio interno e proteção externa e se sentem satisfeitos com sua tarefa? O que pode acrescentar ao nosso entendimento os estudos que tratam da dinâmica de grupo? Ao falarmos em dinâmica de grupo logo nos vem à mente as figuras de Kurt Lewin, Jacob Levy Moreno e Wilfred Ruprecht Bion. Aqui destacamos Bion (1961), para o qual o grupo opera ora no nível da tarefa, que valoriza a ordem e a organização e na qual a cooperação e a colaboração coexistem conscientemente, ora no nível dinâmico, em geral inconsciente. O grupo, então, divide-se entre grupos de refinamento e de primitivismo. Enquanto o primeiro valoriza a aprendizagem, disposto a reformular suas regras e aberto para aprender, o segundo permanece avesso à experiência, não desejando o aprendizado, pois isso pode questionar pressupostos e comportamentos internalizados. É possível haver compartilhamento do conhecimento nesses momentos em que o grupo está avesso à experiência, não desejando o aprendizado? Quando não deseja questionar pressupostos e comportamentos internalizados? William C. Schutz (1978) também estudou a dinâmica dos grupos. Para ele, o ser humano tem necessidades interpessoais básicas de inclusão e afeição. A primeira identifica a necessidade de o indivíduo sentir-se considerado pelo outro, como alguém que existe. A segunda está associada ao sentimento recíproco de amar e ser amado. Essas ideias prenunciam a predisposição dos indivíduos ao relacionamento interpessoal, podendo-se dizer que as pessoas possuem, ori- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 47-59 50 Vergara & Alves ginalmente, a vontade de compartilhar. Conclui Schutz que tais relacionamentos dependem, contudo, de equilíbrio e de mecanismos de defesa minimizados, um processo de caráter notadamente individual (Weil e col., 1967). O resgate da obra de Amitai Etzioni (1961) a respeito de organizações, por sua vez, permite perceber que o autor introduziu os conceitos de polos de envolvimento nas organizações: o compromisso (envolvimento positivo) e a alienação (envolvimento negativo). Organizações sadias (e, por analogia, grupos sadios) são aquelas nas quais o compromisso prevalece sobre a alienação. Segundo Etzioni, a alienação ocorre quando a organização trata os indivíduos e grupos como unidades abstratas, meros instrumentos passivos que, em troca de salário e remuneração, cumprem tarefas segundo especificações autocraticamente determinadas. Diante da posição de Etzioni, vem mais uma pergunta: como se dá o compartilhamento do conhecimento, se isso for possível, quando o grupo está alienado, negativamente envolvido? Reforçando o pensamento de Etzioni, Erich Fromm (1958) argumenta que a organização formal despersonaliza o trabalho, levando o trabalhador a acreditar que, aos olhos da administração, é uma unidade facilmente substituível. O trabalhador assume o sentimento de ser um indivíduo anônimo, somente uma peça da engrenagem, sentindo-se impotente e insignificante, notadamente aqueles que atuam com maior frequência na execução de tarefas operacionais, automatizadas. Se a estruturação do trabalho provoca alienação do trabalhador, ou o sentimento de ser facilmente substituível, como garantir o compartilhamento do conhecimento entre indivíduos que se sentem impotentes e insignificantes? Como fazê-los se sentirem membros de um grupo? Formação e comportamento do grupo A existência de propósitos comuns e o engajamento nos processos que conduzam à sua realização são aspectos basilares da constituição dos grupos que têm necessidades e aspirações às quais procuram satisfazer convertendo-as em objetivos. A escolha dos meios para alcançá-los resulta da interação de muitas forças interiores de cada membro do grupo e do produto de pressões internas e externas. Enquanto as primeiras originam-se de experiências passadas e de conhecimentos, de necessidades, de motivações e de expectativas diferentes dos membros, as últimas surgem das relações de conflito, de cooperação ou de competição com outros grupos ou indivíduos e dos estímulos vindos da estrutura social, da situação econômica, política ou institucional e da lealdade dos membros a outros grupos internos ou externos à organização (Minicucci, 1982). A coesão dos grupos apoia-se na força do vínculo de dependência de seus membros, sendo a adesão pessoal resultante de fatores como o conhecimento mútuo, confiança, incorporação pessoal dos objetivos e assimilação das regras do grupo (Mucchielli, 1979). Uma vez que nos grupos a produção não é unicamente individual, necessário se torna um entendimento entre as pessoas. No entanto, elas podem não estar preparadas para a cooperação, o que as leva a um desgaste prematuro das energias utilizadas na superação ou reorientação de determinados conflitos (Luft, 1972). Argyris (2000) defende uma tese em relação a grupos. Afirma que, neles, há ações esposadas e ações em uso. As primeiras são aquelas mencionadas pelas pessoas quando questionadas a respeito das regras que seguem. As outras referem-se ao comportamento verificado na prática. Argumenta Argyris que a contradição entre ações esposadas e ações em uso é inconsciente. Estaria nas ações esposadas o discurso segundo o qual há compartilhamento do conhecimento nas organizações, ao mesmo tempo em que as ações em uso desconstroem o discurso? Enriquez (1997) percebe as contradições existentes nos grupos, que são por ele definidos como comunidades nas quais é possível a coexistência voluntária e simultânea da união e das diferenças, dos acordos e dos desacordos, onde Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 47-59 Compartilhamento do Conhecimento nas Organizações as contradições não geram sofrimento e as tensões são os pontos de partida de novas criações. Se cooperação, conflito, forças interiores, pressões externas, ações esposadas e ações em uso conformam a formação e o comportamento dos grupos, que papel possui a liderança, tema tão recorrente na literatura referente à gestão? Admitindo-se que a liderança tem por propósito fazer o grupo locomover-se eficientemente em direção aos seus objetivos, ajudandoo a definir caminhos que devem ser percorridos, se ela deve procurar intensificar a coesão e a interação, facilitando a ação grupal (Bennis, 1972; Blau & Scott, 1970; French & Snyder, 1959; Lewin, 1948, 1965; Lewin e col., 1939), teria um líder maiores chances de obter o compartilhamento do conhecimento entre os integrantes do grupo? Teria mais chance de reorientar interesses conflitantes? E como ficaria a questão da dominação e poder (Crozier & Freidberg, 1977; EtzionI, 1961; French & Raven, 1960, Weber, 2000)? Interesses conflitantes, competição, dominação e poder Alguns grupos possuem estrutura formal, consubstanciada por estatutos ou regimentos; outros são espontâneos e informais, como estudos diversos resgatados da ampla literatura já argumentaram. Mas, em todos, o conflito é inevitável. De forma generalizada, há uma luta permanente entre os binários cooperação versus competição, individualidade versus conformidade e liberdade de expressão versus inibição dos sentimentos (Hearn citado por Luft, 1972). Individualidade deve aqui ser entendida como a possibilidade de livre arbítrio. Enriquez (1997) enfatiza: ao mesmo tempo em que preconizam o espírito de equipe, que permite a competição e a melhoria dos desempenhos, as organizações sabem que, se esses grupos conquistarem uma identidade fortalecida, poderão questionar os ideais da organização e transgredir as normas. Ficam, então, as organizações divididas entre o desejo de ver cada grupo reforçar a sua autonomia e o temor de que esses grupos tenham projetos de 51 mudanças radicais ou abandonem a organização e formem uma organização concorrente. Uma característica essencial na análise weberiana da burocracia é a dominação por meio do conhecimento técnico (Weber, 1968). Muito criticada pelos teóricos das organizações, essa interpretação evidencia as dificuldades do compartilhamento do conhecimento nas organizações burocráticas. Nessa visão, se conhecimento é poder, compartilhar conhecimento diminui o poder de quem o possui? Retoma-se, aqui, o pensamento de Enriquez (2001), segundo o qual o controle do ser humano é preocupação constante dos homens do poder, impedindo as pessoas de perceberem o que lhes acontece, submetendoas e tornando-as satisfeitas em sua submissão ou, pelo menos, prontas a aceitá-la. Pensar no compartilhamento do conhecimento a partir da compreensão dos posicionamentos aqui mencionados leva à aceitação de que a probabilidade de ocorrer o compartilhamento parece menos provável em um ambiente de dominação. Em um ambiente de resistência não desejada pelas organizações, não raro elas se valem da coerção, com mecanismos de regulamentação e da coação, por meio de ameaça de privações. Compartilhar conhecimento, portanto, parece requisitar um ambiente organizacional norteado por regras mais flexíveis, no qual a dominação seja aceita a partir de atitudes positivas e haja predisposição para o convencimento e a aceitação consciente dos objetivos e dos meios para que sejam atingidos. Parece difícil pensar em um compartilhamento do conhecimento entre grupos em organizações nas quais prevalece o controle do ser humano e sua submissão passiva ou mesmo dotada de alguma resistência. Nas abordagens aqui apresentadas para entendimento do poder, fica claro o distanciamento entre os que o exercem e os que a ele se submetem. No entanto, não se deve esquecer que compartilhamento requer proximidade. Se não há condições de estabelecimento de relações de cooperação conscientes, volun- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 47-59 52 Vergara & Alves tárias, se a organização limita a cooperação entre trabalhadores e incentiva conflitos e competição individual, impedindo, igualmente, a libertação dos trabalhadores em relação à dominação que os aliena, mesmo considerando-se a época contemporânea de mais fácil acesso a informações, como aceitar a probabilidade, ou mesmo a possibilidade de ocorrência de um compartilhamento do conhecimento na organização? Questões como a contradição entre binários, o poder como fruto do conhecimento, o controle do ser humano, a submissão passiva, o incentivo aos conflitos, o poder de atitudes positivas ensejam destacar alguns pontos sensíveis observáveis na literatura que orientou a pesquisa de campo apresentada a seguir. A pesquisa de campo levada a efeito A orientação buscada no método desconstrucionista permitiu uma reflexão acerca da literatura existente e acerca do discurso que domina a cena empresarial, construído, notadamente, pelo desejo de afirmar não só a importância, como a existência de compartilhamento do conhecimento. No presente estudo, convém lembrar, associa-se compartilhamento à vontade e à disponibilidade das pessoas para que tal ocorra. Na pesquisa de campo, a implementação do método objetivou buscar considerações e desconsiderações acerca dessa vontade e disponibilidade das pessoas. Tal se deu em duas organizações estabelecidas no Rio de Janeiro e engajadas na gestão do conhecimento, a que se teve acesso. São elas: (a) federação patronal de indústrias, que congrega mais de 100 sindicatos industriais e cerca de 4.000 funcionários, onde a prática da gestão do conhecimento é um projeto em fase de maturação, ou seja, em estágio avançado; (b) banco de varejo, de capital estrangeiro, com cerca de 20.000 funcionários, 75% dos quais atuantes na área comercial. Nessa última organização, a gestão do conhecimento é um projeto que ainda se encontra em um momento inicial, ou seja, recém implementado, e conta com o incentivo da Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN). Com relação à federação de indústrias, apesar de criada sob os auspícios do setor público e dele ter recebido prerrogativas para conformação da receita, configura-se como uma empresa privada. O banco de varejo é também uma organização privada. Ambas as organizações buscam maximizar seus resultados a partir de um orçamento anual de receitas e despesas, possuem, em seus escritórios centrais, as operações responsáveis por garantir a administração do empreendimento e a gestão do marketing, das finanças e das pessoas. A estrutura comercial de prestação dos serviços está implantada em unidades de negócios de abrangência nacional no banco de varejo, e estadual, na federação de indústrias. Nessa última, as unidades de negócio sempre existiram, ainda que sob outras denominações. Nessas unidades, os indivíduos possuem como objetivo principal as vendas e o atendimento aos clientes, apesar de executarem, igualmente, serviços de apoio e serviços administrativos, como tesouraria, controle de contas a receber, estoques, gestão de inadimplentes e promoção de eventos. Nessas duas organizações, foram realizadas, entre julho e setembro de 2006, entrevistas focalizadas com 10 profissionais de cada, totalizando 20 indivíduos em uma amostra por acessibilidade. Como ressaltado por Vergara (2009), entrevistas são interações verbais, diálogos, conversas, troca de significados e, por serem assim, foram consideradas adequadas à coleta de dados para este estudo. A ênfase quanto aos entrevistados recaiu nos profissionais atuantes em unidades de negócios, voltadas a vendas e diretamente responsáveis pelos resultados financeiros. Na federação de indústrias, entretanto, houve também participação de profissionais de áreas de apoio. As entrevistas foram realizadas no próprio local de trabalho. Optou-se por entrevistas individuais por três razões: (a) grupos são formados por indivíduos que têm ou não vontade e disponibilidade para compartilhar conhecimento; (b) entrevistas coletivas, embora pertinentes, nem sempre permitem obter profundidade no tema que se ques- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 47-59 Compartilhamento do Conhecimento nas Organizações tiona; (c) ao contrário das entrevistas individuais, que permitem sua marcação conforme as agendas individuais dos entrevistados, as coletivas requerem uma compatibilização de agendas, o que, no caso, mostrou-se muito difícil. Nas entrevistas, buscou-se obter dos indivíduos informações de caráter individual, bem como relativas ao funcionamento dos grupos. Com relação às primeiras, as questões formuladas versaram a respeito do indivíduo, seus anseios pessoais e profissionais, sua disposição para interagir com os pares, a confiança depositada no gestor e na organização, a vontade de contribuir para o aprendizado coletivo, entre outras questões. Para melhor avaliar o funcionamento dos grupos, as questões elaboradas procuraram identificar sinais de possível cooperação entre os integrantes de determinado grupo, de disponibilidade efetiva de condições favoráveis ao intercâmbio de ideias e ações e centrou esforços na investigação dos sentimentos de aceitação e rejeição nas equipes de trabalho. Os entrevistados, na federação das indústrias, compunham o nível gerencial e o técnico, tinham entre 28 e 60 anos de idade, 8 a 35 anos de experiência profissional, 1 a 20 anos de tempo na empresa e escolaridade que variava entre especialização e mestrado. No banco de varejo , os respondentes também compunham o nível gerencial e técnico, possuíam entre 23 e 38 anos de idade, 4 a 20 anos de experiência profissional, 4 a 15 anos de tempo na empresa e escolaridade que variava entre graduação e especialização. A cultura organizacional é bastante relevante no ambiente empresarial voltado à gestão do conhecimento. Na organização bancária, o depoimento dos entrevistados permitiu a identificação de uma cultura voltada para resultados, que privilegia a competição em detrimento da cooperação. Não foi percebido apoio da hierarquia para o compartilhamento do conhecimento; muito pelo contrário, percebeu-se uma ação oposta, reforçando a dominância do termo competição na análise do binário cooperação versus competição. Na federação das indústrias, por sua vez, 53 identificou-se uma cultura sintonizada com a busca e o desenvolvimento do conhecimento, fruto do papel educador que diversas entidades integrantes do sistema, tal como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e do Serviço Social da Indústria (Sesi) realizam cotidianamente. Ações de apoio desenvolvidas pela hierarquia superior, média e alta gerência, que auxiliam os funcionários no compartilhamento do conhecimento foram percebidas nos depoimentos dos entrevistados, confirmando os estudos de Davenport e Prusak (1998), Pfeffer e Sutton (1999) e Sveiby (2000). Ao longo das entrevistas, foi possível perceber a existência de grupos refinados, que se caracterizam por valorizar a cooperação para o aprendizado, e grupos primitivos, cujos integrantes se mantêm avessos ao aprendizado, confirmando os estudos de Bion (1961), autor que definiu tais grupos há quase meio século. De um modo geral, os grupos refinados, a partir das respostas dos entrevistados, foram percebidos como existentes com maior intensidade na federação das indústrias, ao passo que os grupos primitivos o foram no banco de varejo. Igualmente, foi percebida a existência de indivíduos positivamente envolvidos, nos quais prevalece o compromisso, e indivíduos negativamente envolvidos, com o predomínio da alienação, conceitos desenvolvidos nos célebres e clássicos trabalhos de Amitai Etzioni (1961). Alguns técnicos de ambas as organizações também mencionaram o sentimento de despersonalização do trabalho, da fragilidade de sua permanência ou continuidade na organização, do sentimento de impotência e de insignificância, elementos presentes nos estudos de Erich Fromm (1958). Em ambas as empresas, os conflitos divergências de entendimento - surgem a todo o momento. A competição afronta a cooperação, com maior destaque, no banco de varejo. O depoimento de um profissional dessa organização reflete o pensamento de Enriquez (1997), Hearn (1955), Morgan (1966) e Schutz (1978), quando ele diz que procura cumprir sua meta Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 47-59 54 Vergara & Alves superando-a, se possível, para "ficar bem na foto". O gosto de competir e ficar na frente dos outros é estimulante. Se ninguém coopera com ele, como diz, não vê porque cooperar com os "adversários". Falas como essas também espelham a incidência do binário individualidade versus conformidade. A individualidade diz respeito ao livre arbítrio. Aquele que se conforma reprime, em parte, sua individualidade. Em ambas as organizações pesquisadas, esse fato pôde ser percebido, segundo os entrevistados. A conformidade dos indivíduos faz o grupo aceitá-los melhor, mas embota a capacidade de o grupo criar, segundo um gerente da federação de indústrias, ao afirmar que os que se conformam são mais bem aceitos nos grupos, pois não discutem as estratégias adotadas pelos líderes. Quem perde é o grupo, disse ele, pois a ausência do debate compromete o ato criativo. O cerceamento do ato criativo e a valorização da repetição arrefecem o ímpeto para a formação do conhecimento e, em última análise, seu compartilhamento. A análise dos depoimentos obtidos no campo gerou indícios de que, na federação de indústrias, certos grupos são levados a validar algo já anteriormente deliberado pela alta administração. Trata-se, na verdade, de uma simulação, pois a organização faz de conta que está pedindo a opinião, e os funcionários, por sua vez, fazem de conta que a dão. O que pode explicar tal comportamento de convergir a opinião individual para aquela que representa a opinião da organização, conformando-se e perdendo a individualidade, é um interesse específico: preservar o emprego. Poder-se-ia atestar o surgimento do binário liberdade de expressão versus inibição dos sentimentos, na medida em que os indivíduos sentem-se constrangidos em comunicar o que efetivamente pensam, sabem e sentem. Em alguns grupos formados no banco de varejo, a partir dos depoimentos dos entrevistados, percebeu-se a existência de elementos presentes no estudo clássico de Mayo (1933). Questionados a respeito da capacidade de os grupos superarem determinados objetivos organizacionais, muitas vezes arbitrados em patamares muito elevados, informaram os entrevistados que não raro emergiam sentimentos que se opunham à crítica recebida da chefia, quando o desempenho parecia não corresponder a tais objetivos. Nesses casos, diferentemente do ocorrido na pesquisa de Mayo, a solidariedade é nutrida mais pelo sentimento do orgulho ferido que pela satisfação com a tarefa. Um gerente da federação de indústrias afirmou que as organizações cumprem o papel fundamental de tornar tangível para o funcionário o sentimento de pertencimento a um grupo, de constituir-se em cidadão que participa e constrói. Aí está a necessidade de inclusão e de afeição proposta por Schutz (1978). Contudo, pertencer a um grupo pode fazer o indivíduo sentir-se incluído, mas não o bastante para sentir-se amado. A entrevista concedida por uma técnica da federação de indústrias mostra todo o seu desencanto ao dizer que perde totalmente a vontade de colaborar com o grupo quando não se sente valorizada pelo chefe. Nessas condições, se fica difícil compartilhar informação, o que dizer de compartilhar conhecimento? Um gerente da federação utilizou-se de metáfora para expressar o que entende por vontade de compartilhar. Disse ele: "a vontade de compartilhar requer que as pessoas abram brechas nas suas engrenagens para que as engrenagens dos colegas possam acoplar". É um fenômeno complexo, que pressupõe desprendimento e arrefecimento dos mecanismos de defesa, novamente confirmando o pensamento de Schutz (1978). Por outro lado, resultados da pesquisa trouxeram elementos que parecem, a princípio, contrariar a conclusão de Schutz (1978), citada em Weil e col (1967), o qual afirma que minimizar mecanismos de defesa é um processo de caráter notadamente individual. Alguns profissionais, em ambas as organizações pesquisadas, reputaram a seus respectivos gestores o mérito de terem conseguido reduzir os mecanismos de defesa dos integrantes dos grupos, por meio do Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 47-59 Compartilhamento do Conhecimento nas Organizações reconhecimento explícito da contribuição de cada profissional para o resultado da produção coletiva. A minimização de mecanismos de defesa continua sendo um processo eminentemente individual, porém cabe ao gestor provocar, nos integrantes do grupo, o estímulo necessário para o enfraquecimento de tais mecanismos. O desprendimento mencionado por Schutz (1978) surge a partir do reconhecimento do esforço dos membros do grupo por parte do gestor, bem como pela autoconfiança que eles passam a nutrir em relação à sua capacidade de alcançar os objetivos da organização. Aparece aqui o fenômeno da liderança eficaz, aquela que é tida como a responsável pela direção do grupo aos seus objetivos, ajudando-o a definir as metas que devem ser percorridas para que os fins sejam alcançados. Ela procura intensificar a coesão, aspecto fundamental que propicia o vínculo de dependência positiva dos integrantes, consubstanciado por fatores como conhecimento mútuo, confiança e assimilação das regras, o que confirma os trabalhos de Mucchielli (1979). Quando se fala em liderança, ela é vista com reserva, principalmente no banco de varejo, pois não se evidencia preocupação do líder com a formação das pessoas, como Bennis (1972) afirma ser o papel de um líder. Um dos entrevistados disse que "os cursos ensinam que a diferença entre líder e chefe está na ênfase que o líder coloca nas pessoas, enquanto o chefe enfatiza a tarefa. O líder orienta, o chefe exige. O líder influencia, o chefe manda. O líder encoraja, o chefe quer ver resultado". Isso implica que liderança é uma atividade que extrapola os limites da função chefia. Em que pese a contundência desse depoimento, outros foram ouvidos, ainda que em pequena proporção, demonstrando haver chefes que também são líderes, pessoas preocupadas em desenvolver equipes de trabalho e que se utilizam de métodos menos autoritários e mais participativos, como explicitado no pensamento de diversos autores clássicos (Blau & Scott, 1970; French & Snyder, 1959; Lewin, 1965; Lewin e col., 1939, Lippitt, 1940; Lippitt & White, 1943). 55 Com relação a poder e dominação, um gerente da federação de indústrias manifestou seu pensamento ao dizer que o poder pessoal é fruto da capacidade de influenciar e da competência individual. Ele pode ser "positivo ou negativo", entendido o primeiro como uma força capaz de contribuir para o desenvolvimento das pessoas, compreendendo suas possibilidades e limitações, ao contrário do segundo. As organizações de hoje dizem valorizar mais o poder pessoal positivo, mas, segundo esse gerente, geralmente são aqueles que apresentam poder pessoal negativo - opressor ou dissimulador - os que mais crescem profissionalmente. Essa opinião revela a crença do entrevistado em um modelo de gestão autoritário como trampolim para alcance de metas arrojadas e, em consequência, crescimento para postos mais importantes na hierarquia organizacional. Contrariam-se, aqui, as pesquisas de Bennis (1972), Blau & Scott (1970), French & Snyder (1959), Lewin (1965), Lewin e col. (1939), Lippitt (1940), Lippitt & White (1943), as quais demonstraram mais eficiência e melhor relacionamento interpessoal nos modelos de gestão menos autoritários. A literatura oferece exemplos a respeito de como as pessoas não percebem as regras que utilizam para planejar seu comportamento, bem como para compreender o comportamento alheio. Pode divergir em muito, portanto, o discurso supostamente adotado, da ação efetivamente praticada. Alguns dos entrevistados confirmaram esse fato. Com efeito, parece que os indivíduos, normalmente, não percebem as regras de seu comportamento, pois a crítica é sempre direcionada para a chefia imediata, independentemente do nível hierárquico do profissional. Parece ser inconsciente o "paradoxo da ação", pois o indivíduo, notadamente o ocupante de cargo gerencial, reproduz o discurso da organização, evidenciando ter assimilado os significados que sua empresa pretendia impingir, abstendo-se, todavia, de reproduzi-los na prática cotidiana. Poder-se-ia aqui aventar a materialização do já mencionado poder pessoal negativo, ainda que Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 47-59 56 Vergara & Alves menos opressor do que o dissimulado. Aparecem, nesse momento, as ações esposadas e as ações em uso, abordadas nos estudos de Argyris (2000). Haverá uma tendência humana universal no sentido de planejar as próprias ações de acordo com alguns valores decorrentes da luta pela manutenção do espaço e poder conquistados? A esse respeito, alguns depoimentos de profissionais do banco de varejo esclareceram que, quando fazem um grande negócio, é muito importante divulgar para todos na empresa, pois "o que não é visto não vale de nada. Não basta ser bom, tem que parecer bom. Há que se usar a vitória como trampolim para voos mais altos". Esse parece ser um discurso que não avança rumo ao compartilhamento, pois sua intenção primeira é a de enaltecer o feito de alguém, para impressionar o grupo. Por outro lado, quando as coisas não funcionam tal qual o desejado, os profissionais do banco de varejo fazem de tudo para minimizar o impacto negativo, não deixando que seus erros sejam divulgados, prevenindo a crítica, fortalecendo seus mecanismos de defesa. Eles ficam quietos e jogam o problema para bem longe, segundo vários profissionais entrevistados. Os erros ficam, então, escondidos, suprimidos, e tal prática impede que se aprenda com eles. Como pensar no compartilhamento do conhecimento em uma organização onde os indivíduos mascaram seus erros e, assim agindo, privam-se de aprender por meio de práticas melhores, confirmando a teoria de Argyris (2000) acerca da maximização de vitórias e minimização de derrotas? Para concluir Como mencionado, a justificativa para o presente estudo está na constatação de que, a despeito de a literatura ser relativamente pródiga no que diz respeito à gestão do conhecimento, pouco discute, de um ponto de vista crítico, a questão do compartilhamento do conhecimento. Quais as possibilidades e limitações de tal compartilhamento? Eis aí o problema de pesquisa definido no presente estudo. Para respondê-lo, o método escolhido foi o da desconstrução. Com base em autores clássicos e contemporâneos, assim como em entrevistas concedidas por gerentes e técnicos de duas empresas, chegou-se à conclusão de que, nessas empresas, embora o compartilhamento do conhecimento possa acontecer, as circunstâncias que o facilitam são menos representativas do que as que o dificultam. No que concerne ao grupo, os resultados da pesquisa de campo permitiram perceber que a informalidade na construção do grupo, associada à satisfação com a tarefa, configura-se como circunstância facilitadora do compartilhamento. Grupos são formados por indivíduos, e suas características afetam decisivamente o compartilhamento, pois, apesar de existirem fortes necessidades interpessoais, como necessidade de inclusão e de afeição, outros fenômenos psicológicos afetam o comportamento dos indivíduos, condicionando suas ações nos grupos. No interior dos grupos, a vontade e a disponibilidade dos indivíduos os impele a se mover na direção do compartilhamento, tanto quanto na direção oposta. Aceitou-se a tese de Schutz (1978), segundo a qual as pessoas desejam proximidade, afeição e compreensão; todavia este estudo, com base nas entrevistas realizadas em uma federação de indústria e em um banco de varejo, permitiu concluir que, ao se agruparem, as próprias pessoas podem desmantelar as conexões, impedindo, assim, o relacionamento participativo. Pontos de vista divergentes e, muitas vezes, antagônicos, desconfiança generalizada entre os membros do grupo, falta de reconhecimento do desempenho individual, falas que não se materializam na prática diária do trabalho, presença do poder pessoal negativo e da competição acirrada no seio do grupo são aspectos que ajudam a compreender o porquê da ruptura de conexões aparentemente desejadas pelas pessoas. Formas de organização, coordenação, execução e controle do trabalho que privilegiam a competição interna agressiva, a luta pelos me- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 47-59 Compartilhamento do Conhecimento nas Organizações lhores cargos e a disputa pelo poder resultam em grande probabilidade de inexistência do compartilhamento do conhecimento. Papel de destaque assume a liderança. Alguns dos entrevistados, em ambas as organizações, asseveram que líderes preocupados em desenvolver equipes de trabalho e que se utilizam de métodos menos autoritários e mais participativos pendem positivamente para a consecução do compartilhamento do conhecimento. Indicou a pesquisa ser necessária, mas não suficiente, a presença de um líder eficaz. Se a organização deixa de criar condições para o estabelecimento de relações de cooperação conscientes por incentivar constantemente conflitos destruidores, inibindo a libertação dos grupos em relação à dominação que os aliena, torna-se difícil aceitar a possibilidade de indivíduos e grupos compartilharem seu conhecimento. Do ponto de vista da organização, portanto, compartilhar conhecimento parece requisitar um ambiente organizacional norteado por regras mais flexíveis, no qual poder e dominação sejam aceitos a partir de atitudes positivas e haja predisposição para o convencimento e a aceitação consciente dos objetivos e propósitos comuns e dos meios para que sejam alcançados. As informações obtidas nas entrevistas mostraram, então, que o compartilhamento do conhecimento é constituído por um tripé, cujas bases estão assentadas no grupo, no indivíduo e na organização. Resta, segundo Hassard (1993), analisar as relações entre elementos polares, ou binários, conforme Hearn (citado por Luft, 1972), que revelem ambiguidades com o objetivo maior de desconstruir um conceito sem, contudo, destruílo (Calás & Smircich, 1991). No caso estudado, encontrou-se o paradoxo inserido no binário cooperar versus competir, pelo fato de as organizações defenderem a necessidade do compartilhamento do conhecimento, por um lado, e incentivarem a competição e a luta pelo poder, de outro. Outro binário, individualidade versus conformidade, criou um segundo paradoxo rele- 57 vante nas organizações estudadas, visto que apregoam um discurso em prol do desenvolvimento da criatividade dos indivíduos, mas exigem, por outro lado, sua conformação a modelos preconcebidos, nos quais o ato criativo parece apenas coadjuvar. O cerceamento do ato criativo arrefece o ímpeto para a formação do conhecimento e, em última análise, seu compartilhamento. Um terceiro binário, liberdade de expressão versus inibição dos sentimentos, mostrou o conflito a que estão sujeitos os indivíduos nas organizações, na medida em que a liberação de suas ideias e a consequente exposição de seus sentimentos pode fragilizar suas posições no jogo do poder. Compartilhar conhecimento em uma organização é uma tarefa multifacetada, que recebe influências diversas. Acreditar que compartilhar é decorrente das decisões corporativas e que os grupos estão prontos para o ato é simplificar um processo de relacionamento humano cujos primeiros estudos remontam há três quartos de século e, ainda hoje, permanecem desafiadores. A reflexão desconstrucionista aqui apresentada coloca interrogações sobre a possibilidade e as limitações de compartilhamento de conhecimento nas organizações. A conclusão a que se chega, com base na literatura consultada e nas falas dos entrevistados do presente estudo, é a de que grupos, indivíduos e organizações sofrem e exercem permanentemente ações contraditórias e, muitas vezes, conflitantes. Portanto, ações organizacionais que visam ao compartilhamento de conhecimento não podem deixar de admiti-las. Se esta é uma implicação dos achados do presente estudo para a prática nas organizações, para as teorias existentes acerca da gestão do conhecimento, incluindo seu compartilhamento, uma das possíveis implicações é revelar a complexidade de que tal compartilhamento se reveste, pelas contradições que abriga. Logo, contradições e ambiguidades não podem ficar de fora em estudos que digam respeito ao tema. A pesquisa aqui apresentada tem limitações, como qualquer pesquisa. Embora a Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 47-59 58 Vergara & Alves desconstrução não diga respeito a generaliza- Enriquez, E. (1997). A organização em análise. Petrópolis (RJ): Vozes. ções estatísticas e, portanto, admita amostras reduzidas, seria útil que outros pesquisadores se _____. (2001). Instituições, poder e "desconheciinteressassem pelo tema e realizassem outras mento". In Garcia, J.N.; Carreteiro, T.C. entrevistas em organizações distintas. Elas podeCenários sociais e abordagem clínica. São riam corroborar ou, ao contrário, refutar o que Paulo: Escuta. aqui foi apresentado e, dessa forma, enriquecer o processo de investigação sobre comparti- Etzioni, A. (1961). A Comparative analysis of complex organizations: on power, involvement lhamento do conhecimento. REFERÊNCIAS Argyris, C. (2000). Ensinando pessoas inteligentes a aprender. Rio de Janeiro: Campus. Bennis, W.G. (1972). Desenvolvimento organizacional: sua natureza, origens e perspectivas. São Paulo: Edgard Bleicher. Bion, W. R. (1961). Experience in Groups and other Papers. Londres: Tavistock Publications. Blau, P. & Scott, W.R. (1970). 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Sociólogo, bacharel em Ciências Sociais e mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutorando em Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/6855371859011719. Resumo Este estudo busca revelar novos elementos que comprovem a tese do emprego-trampolim, com base na satisfação com o emprego em call centers. Para a pesquisa que deu origem ao estudo, foram selecionadas três empresas de call center situadas na região metropolitana de Porto Alegre (RS). A pesquisa se apoiou em procedimentos metodológicos quantitativos, tendo sido aplicados 212 questionários entre os trabalhadores das referidas empresas. Os call centers são organizações empresariais de prestação de serviços de telemarketing. Seus operadores são trabalhadores com escolarização elevada frente aos níveis do mercado de trabalho brasileiro, o que apontaria para uma profissionalização da atividade. Paradoxalmente, as condições de trabalho, caracterizadas pela intensificação e baixa remuneração, mas com exigência de qualificação média, influenciam as estratégias e os sentidos desse emprego para jovens trabalhadores, acabando por defini-lo como "emprego-trampolim", que responde apenas a uma superação transitória da condição material e simbólica, e não a busca de profissionalização e estabilidade, mesmo com as exigências de conhecimentos técnicos especializados e reciclagem constante. Palavras-chave: emprego-trampolim, sociologia do trabalho, call centers, perfil sócio-ocupacional de trabalhadores, rotatividade do emprego. Abstract Satisfaction about Job in Call Centers: New Evidences about the Trampoline Job The present study aims to reveal new elements to prove the "trampoline job" thesis based on the satisfaction about job in call centers. Three call center companies placed in the metropolitan region of Porto Alegre/RS have been selected for the research that originated the study. The research is based on methodological and quantitative procedures with the application of 212 questionnaires among workers in the referred companies. Call centers are enterprising organizations in telemarketing service render. Its workers usually have a higher scholarization level compared to the Brazilian job market, what indicates the professionalization in such activity. Paradoxically, working conditions - characterized by enhancing work and low salaries, but with average qualification demands - have influence on strategy and directions about such job for young workers, by finally defining it as a "trampoline job", which only answers to a transitory overcome of the material and symbolic condition but not to the quest for professionalization and stability, even with technical and specialized knowledge demands, as well as continuous recycling. Keywords: trampoline job, sociology of work, call centers, workers' social occupational profile, job turnover. Silva & Mocelin. Novas Evidências sobre o Emprego Trampolim Recebido em: 26.05.2009 Aprovado em: 02.02.2010 Publicado em: 22.03.2010 Novas Evidências sobre o Emprego Trampolim T elemarketing consiste na atividade laboral desempenhada pelos empregados em call centers e está entre as ocupações que mais geraram empregos nos últimos anos no mundo. Um destaque empírico é a ampla expansão de call centers na Índia, que "inaugurou" a concepção dos serviços offshore, atendendo a chamados de outros países, especialmente dos Estados Unidos, e promovendo mudanças importantes na inserção internacional e no mercado de trabalho daquele país. A atividade de telemarketing e os call centers parecem configurar um desafio analítico para as mais diversas questões teóricas que envolvem as relações laborais emergentes, pois, nessas empresas, seria executado um trabalho parcelado, mas que exige algum grau de qualificação. Estudos demonstraram que, nessas empresas, tem se constituindo um nicho ocupacional híbrido e heterogêneo, tendo, por um lado, trabalho parcelado e, por outro, trabalhadores qualificados ou em processo de qualificação (Silva, 2006; Mocelin e Silva, 2008). Hannif, Burgess e Connel (2008), por exemplo, estudaram a qualidade do emprego no segmento de call center e argumentam que essa atividade está na vanguarda dos debates sobre o emprego, devido ao crescimento rápido e ao desenvolvimento dessas novas formas de organização do trabalho, ao longo das últimas duas décadas. Em razão disto, Hannif e seus colegas afirmam que tais empresas chamam a atenção dos estudiosos, pois os call centers seriam frequentemente descritos, na literatura, como atividades com baixo lucro e pouco valor agregado, caracterizando empregos com baixos salários e condições precárias de trabalho, mão-de-obra descartável, alta rotatividade, e de aplicação de princípios tayloristas na organização do trabalho. Em análises recentes realizadas no Brasil, aponta-se para uma tendência à não-profissionalização dos empregados nesse tipo de ocupação, devido ao pouco tempo de permanência desses trabalhadores no emprego. Com base nisso, autores apontaram a constituição de um paradoxo, uma vez que se observa que os operadores de telemarketing são trabalhadores razoavelmente instruídos, quando comparados aos níveis 61 gerais do mercado de trabalho no Brasil, fato que poderia pressupor certo grau de profissionalização nessa atividade. Contudo, o perfil sócio-ocupacional dos operadores de telemarketing não segue o padrão das atividades em que os trabalhadores estão mais organizados, como nas empresas de setores tradicionais, nem mesmo segue o padrão do mercado de trabalho em geral, pois apresenta especificidades vinculadas à natureza do trabalho executado em call centers e às aspirações dos trabalhadores. Na atualidade, o mercado de call centers tem sido objeto de estudos realizados no âmbito da psicologia e da sociologia do trabalho. Entretanto, se os primeiros estudos realizados relacionavam-se a uma abordagem generalista do trabalho nos call centers, destacando, sobretudo, a repetitividade do trabalho e o excesso de controle dos trabalhadores (por exemplo, Del Bono, 2000; Venco, 1999; Oliveira, 2004; Braga, 2006 e 2007; Rosenfield, 2007a e 2007b), seria possível afirmar que, na atualidade, outros aspectos são considerados para a compreensão das situações concretas de trabalho, tais como: a posição que ocuparia o call center nos processos da empresa; a importância econômica do telemarketing para a empresa que utiliza esse serviço, a natureza das operações desenvolvidas, se relacionadas ao telemarketing ativo ou receptivo; o segmento de mercado atendido; o tamanho da empresa; a complexidade e o ciclo de trabalho. Tais aspectos, incorporados ao debate acadêmico, possibilitaram o surgimento de uma abordagem relacional do trabalho realizado nessas empresas (Kerst e Holtgrewe, 2001; Taylor et. al., 2002; Glucksmann, 2004; Hannif, Burgess e Connel, 2008; Mocelin e Silva, 2008). A pesquisa de Hannif, Burgess e Connel (2008) apresenta uma novidade metodológica, visto que se dedicou ao estudo dos call center considerando as características da atividade econômica no seu contexto. Para determinar o quadro de análise dos call centers, os pesquisadores revisaram a literatura e as categorias de análise que foram previamente usadas para examinar o emprego em diferentes setores, indústrias e países. Segundo o estudo, grande Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 60-71 62 Silva & Mocelin parte das investigações atuais sobre call center tem incidido sobre aspectos isolados, tais como o stress, o esgotamento emocional e laboral, o gênero, a fiscalização e vigilância, a formação e o desenvolvimento, os quais, apesar de importantes para discutir a satisfação com o emprego nesse setor, não abordam o fenômeno em sua multidimensionalidade. Apesar da tendência internacional dos pesquisadores de realizar estudos vinculados à matriz relacional quando abordam a temática dos call centers, análises ancoradas na abordagem generalista têm se difundido nas investigações sobre o mercado brasileiro de call centers. Exemplos nesse sentido são os estudos desenvolvidos por Venco (1999), Oliveira (2004), Braga (2007) e Rosenfield (2007a e 2007b). Por outro lado e com base numa abordagem relacional, Mocelin e Silva (2008) abordaram a temática dos call centers no Brasil numa perspectiva inovadora, ao formular o conceito de "emprego-trampolim". O estudo demonstra que esse tipo de ocupação apresenta tendência de elevada rotatividade voluntária no emprego, resultante não só da baixa remuneração, mas também da caracterização de um contingente de trabalhadores com baixa média de idade e com escolaridade relativamente elevada e (ou) escolarização crescente. Segundo os autores, a atividade de telemarketing tem se caracterizado como uma ocupação no sentido preciso do termo: os trabalhadores dos call centers estão nesses empregos "temporariamente", e os call centers têm se constituído como empresas de passagem. Essa seria uma tendência que tem perpassado a realidade do telemarketing, mesmo quando se observam diferentes condições de emprego, segundo o tipo ou a forma da atividade de telemarketing, que se distingue entre empresas e, às vezes, no interior de uma mesma empresa. Mocelin e Silva (2008) recorreram a uma análise sobre aspectos objetivos do emprego em call centers para fundamentar a concepção do emprego-trampolim, analisando elementos sobre o conteúdo da atividade do telemarketing, associados ao perfil dos trabalhadores e às condições de trabalho nessas empresas. Contudo, os autores não abordaram uma análise sobre a satisfação com o emprego, aspecto que pode conter explicações fundamentais à dinâmica evidenciada nesse setor, podendo dar maior sustentação empírica ao conceito de emprego-trampolim para caracterizar tal realidade. Essa lacuna pode ser completada com os dados reunidos no presente estudo, tendo em vista saber se percepções subjetivas podem ampliar a concepção do empregotrampolim nos call centers. A hipótese sugerida por Mocelin e Silva (2008) supõe que as atividades de telemarketing configurariam empregos-trampolim, ou seja, postos de trabalho temporariamente ocupados pelos trabalhadores, mas que não são atrativos profissionalmente, sendo descartados quando o trabalhador encontra uma melhor oportunidade ou concluem seus estudos, sua formação técnica ou sua graduação. O ambiente favorável para a emergência do emprego trampolim congregaria duas dimensões fundamentais: por um lado, exige um trabalhador jovem, escolarizado, qualificado e criativo e, por outro, oferece baixos salários, poucas possibilidades de ascensão profissional, ritmo intenso de trabalho, flexibilidade em horários e preocupações com ergonomia. Condições estruturais do mercado de trabalho influenciam o aumento do índice de rotatividade nas empresas, a falta de identificação dos trabalhadores - com a atividade que desempenham e com a sua "categoria profissional" - e a descrença na eficácia do movimento sindical. De acordo com os autores, essas condições influenciam a reelaboração dos sentidos do "estar empregado" e do "estar desempregado", uma vez que o foco das estratégias que definem o empregotrampolim não estaria fundado na obtenção da estabilidade, e sim na superação transitória e individual das condições materiais e simbólicas dos atores sociais envolvidos. O objetivo do presente estudo é buscar revelar novos elementos que comprovem a tese do emprego-trampolim, com base na avaliação da satisfação com o emprego em call centers. Para tanto, são analisados elementos relativos ao perfil sócio-ocupacional dos trabalhadores empregados em call centers, associados com percepções Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 60-71 Novas Evidências sobre o Emprego Trampolim sobre aspectos de satisfação com o emprego, mais especificamente com relação a: a) oportunidade de aprender, b) atividade interessante, c) oportunidades de promoção e d) reconhecimento dos méritos. Nesse sentido, buscar-se-á, através da realização de análise de regressão linear, determinar em que medida variáveis relativas ao perfil sócio-ocupacional dos teleoperadores - como sexo, idade, escolaridade, faixa de rendimentos, tempo de emprego, tipo de atividade realizada e complexidade do atendimento se relacionam à satisfação com o emprego. Para a realização da pesquisa que deu origem ao estudo, selecionaram-se três empresas prestadoras de serviços de call center, situadas na região metropolitana de Porto Alegre: uma do ramo financeiro, especializada em operações ativas; uma que presta serviços para uma distribuidora de energia elétrica, especializada em operações receptivas; e outra que presta serviços de cobrança e help desk, especializada tanto em operações ativas quanto receptivas. Os critérios utilizados para a seleção das empresas foram a natureza das operações, se telemarketing ativo ou receptivo1 , e o segmento de mercado atendido, ou seja, cada empresa deveria atender um diferente segmento de mercado. A adoção de tais critérios sustenta-se na revisão da literatura sobre o tema. Segundo parte da literatura especializada, as relações de trabalho nos call centers seriam condicionadas por aspectos como o tipo de operações realizadas, a complexidade e o ciclo de trabalho, bem como o segmento de mercado atendido2. A coleta dos dados apoiou-se em procedimentos metodológicos quantitativos. Foi realizado survey com amostras de teleoperadores oriundos das três empresas prestadoras de serviços de call center. Foram distribuídos, nas três empresas 63 investigadas, 240 questionários autoaplicáveis, dos quais 212 retornaram. A Tabela 1 apresenta dados relativos à população, amostra e número de questionários respondidos, por empresa. Tabela 1. População, amostra e número de retornos, por empresa A satisfação com o emprego como evidência do emprego trampolim A literatura tem indicado que a satisfação com o emprego condicionaria as atitudes do trabalhador frente ao emprego. Nesse sentido, deve-se pensar a influência da satisfação como potencial causa de algumas questões no contexto dos call centers. Com base na concepção do empregotrampolim, poderíamos sugerir como hipótese que a insatisfação ou a redução da satisfação possa influenciar na alta rotatividade nas atividades de telemarketing, mais do que qualquer outro elemento, como tipo de telemarketing, sexo ou idade, por exemplo. Para Handel (2005, p. 75-76), a satisfação com o emprego seria mais fortemente associada com o trabalho interessante, seguido por relações com gerentes e colegas e oportunidades de promoção, além de diversas características que incluem a avaliação subjetiva do pagamento, da segurança, do trabalho independente e das relações entre colegas. López (1988) afirma que a concepção de satisfação com o emprego advém da psicossociologia, como uma resposta afetiva 1 No telemarketing ativo, o operador toma a iniciativa do contato com o cliente através da realização de uma chamada telefônica. Normalmente, o telemarketing ativo está relacionado à venda de produtos e serviços, bem como à cobrança, fidelização de clientes e pesquisas de mercado. Em sentido oposto, no telemarketing receptivo, a iniciativa do contato é do cliente, que realiza a chamada telefônica. Estão relacionados ao telemarketing receptivo os serviços de atendimento ao cliente, sobretudo através dos serviços de 0800 e 0900, serviços de reclamações e sugestões, prestação de informações diversas, cobrança, suporte técnico e vendas (Mocellin e Silva, 2003, p. 10). 2 Ver Taylor et al. (2002); Kerst e Holtgrewe (2001). Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 60-71 64 Silva & Mocelin do trabalhador sobre diferentes aspectos do seu emprego. Para López, as respostas sobre satisfação com o emprego seriam condicionadas pelas circunstâncias do trabalho e as características de cada pessoa. Nesse tipo de abordagem, o foco seria medir como são satisfeitas determinadas necessidades do trabalhador e o grau em que ele sentiria "realizadas as diferentes aspirações que teria em seu emprego", sejam elas de tipo social, pessoal, econômico ou higiênico. Segundo o autor, "um estado de necessidade leva à busca de soluções e esta seria a iniludível conexão entre satisfação com o emprego, motivações e conduta ou ação". Alguns estudos demonstram que os trabalhadores não se comportam da mesma maneira em relação ao trabalho, e isso tem repercussão sobre a satisfação com o emprego (Kóvacs, 2004, 2005). Tal fato implicaria que a satisfação com o emprego poderia variar antes em razão das expectativas do indivíduo quanto ao emprego do que em razão das condições específicas do seu emprego. Kovács (2005) demonstrou que, para os trabalhadores com emprego flexível, não há dimensão com alto nível de satisfação. A autora constatou maior satisfação na relação com os colegas e superiores (nível médio/bom), tempo livre e possibilidade de escolher o horário (nível médio) e condições de trabalho (nível médio). Kovács também ressalta o baixo nível de satisfação com as oportunidades de promoção, com a estabilidade e segurança quanto ao futuro profissional, com a participação nas decisões e com a autonomia no trabalho. Os dois estudos de Kóvacs revelam que os trabalhadores com emprego estável estariam mais satisfeitos com aspectos sociais (relação com colegas), de contrato de trabalho e de estabilidade profissional. No entanto, trabalham em excesso, sobretudo os quadros superiores e os técnicos especializados, frequentemente 40 a 50 horas por semana. Não é por acaso que a sua maior insatisfação diz respeito à falta de tempo livre e à impossibilidade de escolher o horário de trabalho. Valenzuela (2000) relaciona qualidade do emprego e satisfação com o emprego de acordo com a Tabela 2. O autor define a satisfação com o emprego como a percepção do trabalhador sobre uma série de características objetivas do emprego, ponderadas pelas preferências, normas e expectativas do trabalhador. A satisfação do trabalhador com o emprego dependeria, assim, do êxito dessa combinação de elementos, os quais seriam independentes da qualidade dos empregos. Segundo Handel (2005, p. 73), alguns estudos enfatizam dimensões como recompensas materiais (pagamento, segurança, oportunidades de promoção), recompensas intrínsecas (trabalho interessante, autonomia), outras condições relativas aos empregos (stress, carga de trabalho, esforço físico) e a qualidade das relações interpessoais (relação entre gerência e empregados, relação entre colegas de trabalho). Como afirma López (1988), a pergunta "você está satisfeito com seu emprego?" pode suscitar leituras muito diversas, porque a resposta "estou satisfeito" pode ter razões diversas. De acordo com Farné (2003): Tabela 2. Dimensões da qualidade do emprego Fonte: Adaptado e traduzido de Valenzuela (2000 p. 35). Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 60-71 Novas Evidências sobre o Emprego Trampolim Al depender del estado psicológico de los individuos, es intuitivo que la satisfacción en el empleo pueda experimentar modificaciones sin que se altere la calidad del empleo. Hasta aspectos no directamente relacionados con el trabajo de los individuos pueden modificar la satisfacción en el empleo. Por ejemplo, la disponibilidad en el barrio de mejores servicios para la infancia puede mejorar la percepción que tiene una trabajadora de su puesto. En este caso, evidentemente, su satisfacción crece mientras que la calidad de su empleo no sufre ninguna modificación. (p.13). Segundo Carty (1999), deve-se destacar que o "sentimento" de satisfação laboral para um trabalhador pode variar segundo a etapa de sua vida profissional. Para um indivíduo jovem e solteiro, por exemplo, o mais valioso poderia ser lograr um maior nível de qualificação ou educação, e os empregos precisariam ser condizentes com suas aspirações profissionais. Para alguém com família ou para um indivíduo próximo a se aposentar, a estabilidade do seu emprego poderia significar o fator mais importante. Frente a tais conexões teóricas, o contexto dos call centers é emblemático para avaliar o que implicaria a satisfação com o emprego, considerando as características do perfil dos trabalhadores em call centers e o contexto das condições de trabalho nesse segmento ocupacional. Perfil dos trabalhadores entrevistados Considerando o conjunto dos teleoperadores entrevistados, constatou-se que as mulheres são maioria, pois representaram 164 dos 208 indivíduos que responderam a essa pergunta, conforme demonstrado na Figura 1. Os dados refletem a realidade dos call centers como um todo, em que as mulheres se encontram em maior número, bem como confirmam achados de pesquisas anteriores. 65 Figura 1. Distribuição dos empregados por sexo (n = 208) Em relação à idade, a maior parte dos entrevistados são pessoas bastante jovens: dos 211 entrevistados que responderam a essa pergunta, 148 têm até 24 anos de idade. Há ainda trabalhadores menores de idade, que possuem vínculo de trabalho como estagiários na empresa especializada em serviços de cobrança e help desk. O Gráfico 2 mostra que somente 14 entrevistados têm 35 anos de idade ou mais, o que evidencia a inserção predominante de trabalhadores no início da vida laboral. Figura 2. Distribuição dos empregados por faixa de idade (n = 211) Por seu turno, a escolaridade dos entrevistados pode ser considerada elevada, sobretudo quando comparada à média do mercado de trabalho no Brasil, de acordo com a Figura 3. Entre os 212 entrevistados que responderam a essa pergunta, 178 disseram possuir escolaridade equivalente ao ensino médio completo, ensino Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 60-71 66 Silva & Mocelin médio técnico, superior incompleto ou completo. Para ingresso no emprego, muitas empresas adotam como exigência mínima o ensino médio completo. Entretanto, foi possível constatar que 5 teleoperadores entrevistados possuíam somente o ensino fundamental e 29 responderam ter ensino médio incompleto. Segundo o gerente de recursos humanos de uma das empresas investigadas, isso ocorre, por um lado, devido à alta rotatividade da mão de obra e, por outro, em razão da carência de mão de obra compatível com as exigências mínimas para admissão. Outro aspecto que contribui para a existência de trabalhadores com escolaridade inferior ao ensino médio completo relaciona-se, conforme já mencionado, aos estagiários que atuam em uma das empresas investigadas, visto que eles cursam o ensino médio, obrigatoriamente. Merece destaque que apenas seis trabalhadores afirmaram possuir escolaridade superior, reforçando a perspectiva apontada por Mocelin e Silva (2008) sobre a não-permanência de trabalhadores de qualificação mais elevada nas empresas de call center. É interessante observar que o número de empregados com ensino superior incompleto é significativa, segunda faixa mais populosa na amostra, mas que some quando poderia ocorrer a passagem de nível, o que se justifica pela provável mudança de emprego quando o trabalhador se profissionaliza. Uma peculiaridade do mercado de trabalho dos call centers refere-se à alta rotatividade da mão de obra, como é destacado por diversos estudos Figura 3. Distribuição dos empregados por escolaridade (n = 212) (Oliveira, 2004; Braga, 2007; Rosenfield, 2007a e 2007b; Mocelin e Silva, 2008). Poucos empregados possuem elevado tempo no emprego, conforme Figura 4. Apenas 23 dos 210 entrevistados que responderam a essa pergunta disseram ter mais de 24 meses de tempo de emprego. O pequeno número de trabalhadores há mais de 24 meses no emprego contrasta com o grande número de trabalhadores com até um ano de emprego: 147. Esses dados reforçam a ideia de que os empregados em call centers não ficam muito tempo no emprego, configurando uma situação de emprego-trampolim. Figura 4. Distribuição dos empregados por faixa de tempo de emprego (n = 210) Em termos salariais, pode-se constatar, na Figura 5, predomínio das faixas inferiores de remuneração. Apesar de apresentar dados obtidos no ano de 2005, em que o salário mínimo no Brasil equivalia a R$ 300,00, o Gráfico 5 mostra que a maioria dos teleoperadores entrevistados auferia salários inferiores a R$ 600,00 - ou dois salários mínimos do período. Esses dados contrastam com a elevada escolaridade dos entrevistados. Figura 5. Distribuição dos empregados por faixa de rendimentos (n = 197) Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 60-71 Novas Evidências sobre o Emprego Trampolim A maioria dos entrevistados realiza atendimentos relacionados ao telemarketing ativo, como pode-se notar na Figura 6. Segundo a literatura, os teleoperadores ativos permaneceriam por menor tempo no emprego, devido à elevada pressão por produtividade, seja em número de atendimentos realizados, seja por metas de vendas de produtos ou serviços. 67 rotineiro. A maioria dos entrevistados realiza atendimento complexo. Os achados relativos ao perfil sócio-ocupacional dos teleoperadores entrevistados coincidem com os encontrados nas diversas pesquisas sobre o tema, como no estudo de Mocelin e Silva (2008), quando se observou que há predomínio de empregados do sexo feminino, jovens, com escolaridade relativamente alta, baixa remuneração e alta rotatividade no emprego. Por fim, procurou-se dividir os atendimentos segundo sua complexidade, de acordo com a Figura 7. Os atendimentos considerados complexos são: recuperação de crédito, venda de cartão de crédito e atendimento técnico de distribuidora de energia elétrica, visto que exigem capacidade de negociação e (ou) conhecimentos técnicos. Por sua vez, os atendimentos considerados não-complexos são: agendamento de visitas, qualificação de serviços e informações sobre conta telefônica, por possuírem conteúdo mais repetitivo e Satisfação com o emprego Neste estudo, o grau de satisfação com o emprego é entendido como percepção subjetiva do empregado em relação à sua ocupação. Entre diversas possibilidades de tentar apreender a satisfação com o emprego, foram selecionados quatro indicadores: trabalho interessante, oportunidade de aprender, reconhecimento dos méritos e oportunidade de promoção. A escolha dos quatro indicadores sustenta-se nos objetivos do estudo, que visava a avaliar a influência do perfil sócio-ocupacional do empregado no seu grau de satisfação, levando em consideração aspectos que estivessem relacionados à caracterização do emprego-trampolim, ou seja, que contribuíssem para a permanência ou não no emprego. A satisfação relacionada à possibilidade de realização de trabalho interessante apresentou índices relativamente elevados de satisfação, conforme Figura 8. Somente 26 teleoperadores se declararam insatisfeitos frente a esse quesito. Em contrapartida, constataram-se índices Figura 7. Distribuição dos empregados por complexidade do atendimento (n = 210) Figura 8. Grau de satisfação dos empregados - trabalho interessante (n = 208) Figura 6. Distribuição dos empregados por tipo de atendimento realizado (n = 210) Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 60-71 68 Silva & Mocelin semelhantes entre entrevistados que disseram estar razoavelmente satisfeitos ou satisfeitos com esse aspecto, totalizando 182 entrevistados. O indicador relativo à satisfação com a oportunidade de aprender, apresentado na Figura 9, foi o que apresentou maior percentual de entrevistados que se consideram satisfeitos, bem como o menor percentual de insatisfação. Nesse sentido, acredita-se que as frequentes mudanças tecnológicas e de conteúdo do trabalho realizado colaborem para os elevados índices de satisfação encontrados. reconhecimento dos méritos. Isso se explica na medida em que, passado algum tempo, o teleoperador percebe limitada a possibilidade de seguir carreira na empresa, pois não foi promovido ao cargo hierarquicamente superior, o de supervisor. Aspecto semelhante ao anterior, a satisfação em relação à oportunidade de promoção foi a variável que apresentou níveis mais reduzidos de satisfação, de acordo com a Figura 11. Somente 45 dos 207 entrevistados se disseram satisfeitos com as oportunidades de promoção. Por sua vez, o indicador "razoavelmente satisfeito" reuniu 95 entrevistados e os insatisfeitos somaram 67. Assim como no caso da variável anterior (reconhecimento dos méritos), quanto maior o tempo de emprego, maior a insatisfação com a oportunidade de promoção. Figura 9. Grau de satisfação dos empregados - oportunidade de aprender (n = 211) Em relação à satisfação com o reconhecimento dos méritos, foi possível constatar índice de insatisfação mais elevado vis-à-vis os aspectos anteriores, conforme demonstrado na Figura 10. Constatou-se também que quanto maior o tempo de emprego, maior a insatisfação com relação ao Figura 10. Grau de satisfação dos empregados - reconhecimento dos méritos (n = 207) Figura 11. Grau de satisfação dos empregados - oportunidade de promoção (n = 207) Paralelamente à análise descritiva dos indicadores, realizou-se regressão múltipla linear, de acordo com a Tabela 3, estabelecendo relação entre o perfil sócio-ocupacional dos entrevistados e seu grau de satisfação com o emprego. Como o intuito de tornar mais homogênea a variável dependente do estudo, as quatro variáveis relativas à satisfação com o emprego foram agrupadas em uma única variável, através de recurso à análise fatorial. As variáveis independentes, oriundas dos indicadores relativos ao perfil sócio-ocupacional dos entrevistados - sexo, idade, escolaridade, faixa de rendimentos, tempo de emprego, tipo de atividade realizada e complexidade do atendimento - foram relacionadas à satisfação Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 60-71 Novas Evidências sobre o Emprego Trampolim 69 regressão prova que, para cada unidade de tempo de emprego (meses), a satisfação diminui em 0,434. Estes resultados são apresentados na Tabela 4. Por fim, decidiu-se estabelecer a correlação entre o tempo de emprego e o indicador de satisTabela 3. Resumo da regressão fação obtido na análise fatorial. Os resultados encontrados sugerem forte correlação entre as variáveis, atingindo índices mais potentes que os encontrados no modelo de regressão e alcançando -,495 na correlação de Pearson, de acordo com Em relação à significância, constataram-se a Tabela 5. melhores índices nas seguintes variáveis independentes: tempo de emprego (,000); faixa de rendiDISCUSSÃO mentos (,098); escolaridade (,132); e tipo de Os resultados apontam que o tempo de emprego atendimento (,182). é o principal indicador explicativo da satisfação ou O modelo de regressão demonstrou que a insatisfação com o emprego. Nesse sentido, o variável que condiciona, de modo mais significati- argumento de que a atividade de telemarketing vo, a satisfação com o emprego é o tempo de seria um emprego-trampolim pode ser confirmaemprego, que possui uma relação inversa com a do pelo fato de que quanto maior o tempo de persatisfação, ou seja, quanto maior o tempo de manência no emprego, maior a insatisfação, o que emprego, menor a satisfação em relação a ele. A motiva o desligamento voluntário do trabalhador com o emprego, essa a variável dependente do estudo. O R² obtido com o modelo foi de 0,200, ou seja, as variáveis independentes do estudo explicam, conjuntamente, 20% da variação da satisfação com o emprego. Tabela 4. Coeficientes obtidos na regressão Tabela 5. Análise de correlação entre o tempo de emprego versus o indicador global de satisfação obtido através de análise fatorial Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 60-71 70 Silva & Mocelin quando ele se qualifica ou encontra emprego melhor. Quando a insatisfação com o emprego é associada a uma condição objetiva sabidamente não muito boa e ao perfil de um trabalhador jovem e em formação, pode-se averiguar que o emprego em call center tende a se caracterizar, de fato, como ocupação ou emprego de passagem, ou seja, um emprego temporário para suprir uma situação que o próprio empregado considera como transitória. Portanto, confirma-se a hipótese sugerida por Mocelin e Silva (2008) quanto a serem as atividades de call center um emprego-trampolim, pois seriam postos de trabalho ocupados por trabalhadores jovens, escolarizados ou em processo de escolarização, mas que não seriam atrativos profissionalmente, tendo em vista as poucas chances de ascensão profissional. Handel (2005), por exemplo, considera as oportunidades de promoção uma variável decisiva para a mensuração da satisfação com o emprego. Os achados de nossa pesquisa confirmam a perspectiva defendida pelo autor, visto que, tomando as quatro variáveis de satisfação analisadas, os índices mais elevados de insatisfação com o emprego foram observados no quesito "oportunidades de promoção". A perspectiva de Carty (1999) também encontrou apoio empírico na pesquisa por nós realizada. Segundo o autor, a satisfação no emprego sofreria variação conforme a etapa da vida laboral em que o trabalhador se encontra. Indivíduos jovens tenderiam a buscar maior qualificação ou educação, e os empregos necessitariam ser condizentes com suas aspirações profissionais. O emprego em call centers seria um bom exemplo nesse sentido, pois emprega, sobretudo, trabalhadores jovens e em processo de escolarização e (ou) qualificação profissional. Mocelin e Silva (2008) afirmaram ser problemático recorrer a categorias analíticas tradicionais para explicar a situação específica das atividades de telemarketing ou o trabalho em call centers, tais como identidade, filiação sindical ou estabilidade, como o fizeram Venco (1999), Oliveira (2004), Braga (2006 e 2007) e Rosenfield (2007b). O uso de tais critérios revelou invariavel- mente a precarização do trabalho na atividade de telemarketing. Nosso estudo sobre a satisfação laboral nos call centers reforça a perspectiva de que tais categorias analíticas são pouco representativas nesse caso. Em relação à identidade profissional, por exemplo, parece frágil argumentar acerca de uma identidade provisória ou transitória do trabalhador em call centers (Rosenfield, 2007b), pois eles não almejam essa identidade e buscam tais empregos convencidos disso. No caso da filiação sindical, não há interesse significativo por parte dos empregados em participar de mobilizações por melhorias nas condições de emprego, uma vez que, quanto mais tempo ficam nestes empregos, menos têm perspectivas profissionais. No caso da estabilidade, os trabalhadores consideram que um emprego desse tipo que fosse "estável" não seria interessante para eles, pois a ocupação de teleoperador limitaria outras oportunidades, o que é recorrente no meio do telemarketing, e, além disso, o trabalho seria intenso e repetitivo, bem como limitador, não atendendo às aspirações sociais e profissionais de trabalhadores em processo de qualificação. CONSIDERAÇÕES FINAIS Para o contexto dos call centers, foi possível constatar que a variável tempo de emprego condiciona, de modo significativo, a insatisfação com o emprego, o que não ocorre com tanta força nos aspectos sexo, escolaridade, idade, tipo de atividade e complexidade do atendimento e faixa de remuneração. Tais evidências reforçam a ideia de que os call centers são empregos de passagem e que, na medida em que os trabalhadores permanecem mais tempo no emprego, suas expectativas em relação a oportunidades de promoção, trabalho interessante, oportunidade de aprender no trabalho e reconhecimento dos méritos influenciam sua percepção sobre a satisfação e reforçam a tendência a que deixem o emprego, fato que aumenta a rotatividade voluntária no setor. Os resultados estatísticos do presente estudo confirmam os achados de estudos anteriores e reforçam o entendimento de que o conceito emprego-trampolim é um avanço teórico considerável para compreender a realidade das atividades de call center. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 60-71 Novas Evidências sobre o Emprego Trampolim 71 Mesmo sem ter a pretensão de propor uma Kerst, C. & Holtgrewe, U. (2001). Flexibility and customer orientation: where does the slack come nova agenda de pesquisas, considera-se que um from? Paper presented at the 2001 "Work, próximo passo no estudo do mercado de trabalho employment and society" conference. notdos call centers poderia ser o de analisar a satistingham, 11-13 september 2001. (digital) fação no emprego a partir de um leque mais amplo de itens de satisfação ou insatisfação, incor- Kovács, I. (2005). Flexibilidade do emprego no setor de porando tanto aspectos subjetivos, relativos às tecnologias da informação e comunicação. experiências dos trabalhadores, quanto aspectos Porto Alegre: Convênio Capes / Grices / Ufrgs objetivos, pertinentes aos contextos econômicos / Universidade Técnica de Lisboa. ou empresariais em que se situa cada call center _____. (2004). Emprego flexível em Portugal. em particular. Sociologias, 6, 12, 32-67. REFERÊNCIAS Braga, R. (2007). Crônicas de autômato: o infotaylorismo como contratempo. In Maciel, M. l. & Albagli, S. Informação e Desenvolvimento: Conhecimento, Inovação e Apropriação Social (pp.355-384). Brasília: Unesco-Ibict. _____. Uma sociologia da condição proletária contemporânea. Tempo social, Revista de sociologia da USP, 18, 1, 133-152. Carty, L. (1999). El debate sobre la calidad del empleo: el caso de los estados unidos de américa, 1970-1990. In Infante, R. (ed.) La calidad del empleo: la experiencia de los países latiniamericanos y de los estados unidos. Santiago: OIT. Del Bono, A. (2000). Call centers, el trabajo del futuro? El caso de estratégia telefónicas S. A. (Estratel). Sociologia del trabajo, 39, 3-61. Glucksmann, M. (2004). Call configurations: varieties of call centre and divisions of labour. Work, employment and society, 18, 4, 795-811. Farné, S. (2003). Estudio sobre la calidad del empleo em Colombia. Lima: OIT/Oficina subregional para los países andinos. Handel, M. J. (2005). Trends in perceived job quality, 1989 to 1998. Work and occupations, 32, 6694. Hannif, Z., Burgess, J. & Connell, J. (2008). 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Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 60-71 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 72-85. http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho Artigo Avaliação de Treinamento e Desenvolvimento nas Organizações: Resultados Relativos ao Nível de Aprendizagem Luciana Mourão1 Jesiane Marins 2 1. Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO. Estrada de Itacoatiara, 101, Cond. Jardim Itacoatiara, Casa 04, CEP 24348-000, Niterói (RJ). [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/2558400549506524. 2. Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO. [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/2960657385493339. Resumo A área de Treinamento, Desenvolvimento e Educação (TD&E) tem recebido cada vez mais investimentos nas organizações, ampliando-se também o interesse por conhecer os resultados derivados de tais ações. Contudo, apesar dos altos investimentos na área de capacitação para o trabalho, há poucas pesquisas sobre o nível de aprendizagem na literatura nacional de TD&E. O presente estudo objetivou investigar a influência de variáveis relativas ao indivíduo, ao treinamento e à organização sobre a aprendizagem derivada de cursos de capacitação. Para tanto, foram avaliados cursos de cinco empresas privadas no Estado do Rio de Janeiro, com uma amostra de 126 treinandos. Foram feitas análises estatísticas descritivas e inferenciais, dentre elas correlação de Pearson, regressão e teste t para comparação das médias antes e depois dos eventos de capacitação. Os resultados apontaram cinco preditores para a aprendizagem em cursos de treinamento e desenvolvimento: a experiência prévia com cursos de capacitação, o tipo de treinamento (cursos de natureza cognitiva ou comportamental), tipo de instrutor (interno ou externo à instituição), o número de funcionários das organizações e a reação ao treinamento. Os resultados foram discutidos à luz de outros achados empíricos que os confirmam e foram apontadas suas implicações práticas. Palavras-chave: treinamento e desenvolvimento, avaliação, aprendizagem, características da clientela, características do treinamento. Abstract Evaluation of Training and Development in Organizations: Results on the Level of Learning The area of training, development and education has been receiving more and more investments in organizations. So, the interest in knowing these results is increasing too. However, despite high investments in training for work, there is little research on the level of learning in the TD&E's brazilian literature. This study aimed to investigate the influence of individual, training and organizational variables on the learning derived from training. Thus, five courses were evaluated by five private companies in the Rio de Janeiro with a sample of 126 participants. The data analysis included statistics descriptive and inferential (Pearson correlation, regression and t test to compare means before and after training events). The results showed five predictors for learning: the previous experience with training, the kind of training (cognitive and behavioral), the kind of instructor (internal or external to the organization), the number of employees and the reaction's training. The results were compared with others empirical studies and confirmed them. Practical implications were discussed. Keywords: training and development, evaluation, learning, characteristics of trainees, characteristics of the training. Mourão & Marins Lopes. Avaliação de Treinamento no Nível da Aprendizagem Recebido em: 23.01.2009 Aprovado em: 22.12.2009 Publicado em: 22.03.2010 Avaliação de Treinamento no Nível da Aprendizagem O rganizações dos diferentes setores econômicos vêm buscando, dia após dia, novos meios para se manterem competitivas no mercado globalizado. Um dos caminhos encontrados para a competitividade está na qualidade da prestação de serviços ou na produção de bens, por meio de ações de capacitação. Não há dúvida de que algumas organizações ainda interpretam Treinamento, Desenvolvimento e Educação (TD&E) como custo, mas tem sido crescente o número que aposta nas ações de educação corporativa como um investimento na busca de melhor desempenho individual e organizacional. Ou seja, as ações de treinamento têm sido cada vez mais consideradas como uma das variáveis capazes de contribuir para o diferencial competitivo das organizações. Aguinis e Kraiger (2009) apresentaram uma revisão da literatura de treinamento e desenvolvimento relativa ao período de 2000 a 2009, a qual enfoca os benefícios do treinamento e desenvolvimento para indivíduos e equipes, organizações e sociedade. A partir de uma perspectiva global, multidisciplinar e multinível, os autores demonstram que as atividades de treinamento e desenvolvimento nas organizações de trabalho podem produzir importantes benefícios para os diferentes stakeholders, sendo, portanto, uma estratégia central para as organizações. Essa alteração na percepção da área de TD&E tem provocado muitas mudanças, entre elas mais estímulo para desenvolver tais atividades e também maior valorização da avaliação dos resultados de treinamento (Aguinis & Kraiger, 2009; Mourão, Borges-Andrade & Sales, 2006; Salas & Cannon-Bowers, 2001). Mas, apesar da importância das ações educacionais e da área de TD&E, na literatura ainda há poucos estudos que demonstram resultados palpáveis das ações de treinamento. E, dentre os estudos que são realizados, há um predomínio das medidas de reação e, mais recentemente, de impacto do treinamento no nível do cargo (Mourão, Borges-Andrade e Sales, 2006), sendo reduzidos os estudos brasileiros que buscam avaliar os resultados relativos à aprendizagem em eventos de capacitação para o trabalho. O tema aprendizagem, apesar de 73 muito estudado no âmbito da Psicologia, ainda recebe menor ênfase nas pesquisas da área organizacional. Ocorre que a aprendizagem é um dos níveis mais importantes num processo de capacitação e está presente nos diferentes modelos de avaliação de TD&E, entre eles os modelos de Kirkpatrick (1976), Borges-Andrade (1982) e Abbad (1999). E o fato de estar presente nesses modelos é bastante justificável, uma vez que a aprendizagem - em seus diversos níveis - é, sem dúvida, um dos benefícios esperados com a realização de ações de TD&E. Contudo nem sempre as ações educacionais produzem a aprendizagem que delas se espera. Por isso, pesquisas têm sido desenvolvidas com o intuito de averiguar quais são os fatores que mais contribuem para a aprendizagem no sistema de TD&E. Porém ainda há poucas evidências de que as organizações estejam realmente aplicando os resultados de pesquisas científicas na elaboração de seus programas de treinamento. Salas e Cannon-Bowers (2001) acreditam na chegada de uma nova era na área de Treinamento e Desenvolvimento, na qual haveria maiores trocas entre pesquisas empíricas e sua aplicação nas organizações. A presente pesquisa objetivou investigar que variáveis individuais e organizacionais influenciam a aprendizagem em cursos de capacitação ofertados aos funcionários pelas instituições, com uma preocupação de contribuir para uma atuação mais eficiente por parte das organizações. Aprendizagem como resultado de ações de TD&E Há diferentes formas de aprendizagem, e elas podem ser categorizadas em aprendizagem natural ou induzida, e ocorrem no nível individual, com possíveis efeitos para as equipes e para a organização (Abbad e Borges-Andrade, 2004). Os autores consideram que a aprendizagem consiste em um processo de mudança de comportamento obtido por meio da experiência construída por fatores emocionais, neurológicos, relacionais e ambientais. Ou seja, destacam que aprender é o resultado da interação entre estruturas mentais e o meio ambiente. Assim, Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 72-85 74 Mourão & Marins Lopes Abbad e Borges-Andrade (2004) esclarecem que, numa abordagem cognitivista, a aprendizagem seria uma mudança de comportamento provocada pela interação com o meio ambiente, mas essa interação antes resultaria em processos mentais ou na aquisição de conhecimentos, habilidades e atitudes. Para os autores, "o conceito de aprendizagem envolve, além de aquisição e retenção, a generalização e a transferência" (Abbad & Borges-Andrade, 2004, p. 239). Segundo Vargas e Abbad (2006), a expressão "desenvolvimento de recursos humanos" tem uma única e identificada função: refere-se à promoção de aprendizagem para empregados (ou não), visando a ajudar a organização no alcance de seus objetivos. Na mesma linha, Pilati (2006) analisa que, no campo de Treinamento, Desenvolvimento e Educação (TD&E), o que se busca é a facilitação da aprendizagem e competências relacionadas ao desempenho ocupacional. A área de TD&E tem uma pluralidade de termos que merecem distinção no estudo da aprendizagem induzida nas organizações. O primeiro conceito a ser explorado diz respeito à própria concepção de treinamento, que dá ênfase ao caráter sistêmico da área. Para BorgesAndrade (1996), trata-se do: ...conjunto de partes coordenadas entre si, [que] tem como referencial o modelo sistêmico de compreensão do fenômeno organizacional, que possui três componentes que são interdependentes entre si: avaliação de necessidades de capacitação, planejamento e execução do Treinamento e avaliação do Treinamento. (p. 131). Assim, segundo Borges-Andrade (2002), o treinamento se insere no contexto organizacional, sendo os outros componentes da organização influenciados e influenciadores do treinamento. Ou seja, o autor reforça a visão sistêmica da área e a sua interação com as outras áreas da organização. Já nas palavras de Pilati (2004): Treinamento pode ser definido como uma ação tecnológica controlada pela organização, composta de partes coordenadas, inseridas no sistema organizacional, calca- Treinamento Pilati da em conhecimentos advindos de diversas (2004) áreas, com finalidade de promover a melhoria de desempenho, capacitar para o uso de novas tecnologias e preparar para novas funções. ( p. 9). Em ambas as definições apresentadas, Borges-Andrade (1996) e Pilati (2004) não se referem a ações específicas de treinamento como uma das possíveis estratégias de aprendizagem induzida, mas sim ao conjunto das ações de educação corporativa as quais, durante anos, receberam o nome de treinamento e desenvolvimento ou simplesmente treinamento. Porém, em função das distinções entre as ações de capacitação, passou-se a adotar uma nova nomenclatura subdividida em cinco conceitos centrais, a saber: informação, instrução, treinamento, desenvolvimento e educação (Vargas e Abbad, 2006). De acordo com essa divisão, Informação seria o nível mais básico e de menor complexidade dentre as ações corporativas e corresponderia ao repasse de informações acerca dos procedimentos de trabalho, sem um planejamento instrucional sistemático. Assim, a partir do momento em que as pessoas buscam informações, sejam elas em qualquer meio de comunicação, já existem ações que ensejam um tipo de aprendizagem. Para Vargas e Abbad (2006), o nível da informação diz respeito a módulos ou unidades organizados de conteúdo, disponibilizados em diferentes meios, com ênfase nas novas tecnologias da informação e da comunicação, como jornais eletrônicos, bibliotecas virtuais, links, entre outros. A instrução, por sua vez, já conta com a definição de objetivos e o consequente planejamento instrucional, indicando processos formais e institucionalizados por meio dos quais a Educação é ministrada até a adoção de uma profissão (Pontual, 1978, citado por Bastos, 1991). Nas organizações, a instrução seria utiliza- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 72-85 Avaliação de Treinamento no Nível da Aprendizagem da para transmitir conhecimentos ou habilidades simples por intermédio de eventos de curta duração como aulas e similares. Em relação a treinamento, várias definições foram desenvolvidas, mas sem grandes divergências. Wexley (1984, citado por Vargas e Abbad, 2006, p.140) define treinamento como um "esforço planejado pela organização para facilitar a aprendizagem de comportamentos relacionados com o trabalho por parte de seus empregados". De acordo com Borges-Andrade e OliveiraCastro (1996), "o Treinamento de pessoal é caracterizado pelo esforço despendido pelas organizações para propiciar oportunidades de aprendizagem aos seus integrantes." (p.128). Já para UK Department of Employment (1971, citado por Latham, 1988) "Treinamento é o Desenvolvimento sistemático de padrões de comportamentos, atitudes, conhecimento-habilidade, requeridos por um indivíduo, de forma a desempenhar adequadamente uma dada tarefa ou trabalho". Finalmente, Goldstein (1991, citado por Vargas e Abbad, 2006) define treinamento como "uma aquisição sistemática de atitudes, conceitos, conhecimentos, regras ou habilidades que resultem na melhoria do desempenho no trabalho." (p.140). Em relação ao conceito de desenvolvimento, Nadler (1984) compreende a "aprendizagem voltada para o crescimento individual, sem relação com um trabalho específico." (p. 16). Bastos (1991) ressalta que a crescente utilização do termo desenvolvimento prende-se à dinâmica das próprias organizações em sua trajetória de tratar de forma mais abrangente os seus recursos humanos. Já segundo Vargas (1996), treinamento e desenvolvimento são agrupados em uma única definição, significando "...aquisição sistemática de conhecimentos capazes de provocar, a curto ou longo prazo, uma mudança de ser e de pensar do indivíduo, através da internalização de novos conceitos, valores ou normas e da aprendizagem de novas habilidades." (p. 127). Na mesma linha de Vargas (1996), BorgesAndrade (2002) afirma que a separação dos conceitos treinamento e desenvolvimento está cada dia mais tênue, devido ao aumento da demanda 75 cognitiva nos postos de trabalho, o que leva à sofisticação das exigências de aprendizado de cada tarefa, levando à quase extinção das ações puramente de treinamento. Finalmente, o conceito de educação referese a uma aprendizagem mais ampla que aquelas denominadas como treinamento e desenvolvimento. Pontual (1978, citado por Bastos, 1991) define educação como "todos os processos pelos quais as pessoas adquirem compreensão do mundo, bem como capacidade para lidar com seus problemas". Para Nadler (1984), o conceito de educação implica aprendizagem para a organização, não como efeito imediato, mas podendo ter o objetivo de uma futura promoção, possivelmente com melhores salários. Nessa linha, o autor define educação como "aprendizagem para preparar o indivíduo para um trabalho diferente, porém identificado, num futuro próximo." (p. 142). A respeito desses cinco conceitos, cumpre esclarecer que, no Século XXI, eles têm sido vistos não mais como um custo ou mesmo um mero investimento tecnológico, mas também como investimento comportamental e cognitivo. Assim, as ações de educação corporativa têm a intenção de proporcionar aos treinandos um aperfeiçoamento por meio da aprendizagem e a preocupação de mensurar se, de fato, a aprendizagem está ocorrendo e se está sendo transferida para as atividades de trabalho. A avaliação de treinamento tem, portanto, recebido papel de destaque nas pesquisas da área (Salas e Cannon-Bowers, 2001; Mourão, Borges-Andrade e Sales, 2006). Segundo Borges-Andrade (2002), a avaliação é a principal responsável pelo provimento de informações que garantem a retroalimentação e, portanto, o aperfeiçoamento constante do Sistema TD&E. Vários modelos teóricos de avaliação de treinamento, nacionais e estrangeiros, foram criados e validados. No Brasil, o Modelo de Avaliação Integrado e Somativo (MAIS), construído por BorgesAndrade (1982), é o mais difundido. O MAIS propõe a avaliação de cinco componentes: insumos, procedimentos, processos, resultados e ambiente, sendo esse último subdividido em qua- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 72-85 76 Mourão & Marins Lopes tro subcomponentes: avaliação de necessidades, suporte, disseminação e efeitos em longo prazo. Mais recentemente, foi também desenvolvido o Modelo Integrado de Avaliação do Impacto do Treinamento no Trabalho (IMPACT) (Abbad, 1999), com foco principalmente no impacto do treinamento no trabalho. Nele encontram-se sete componentes integrados: percepção de suporte organizacional, características do treinamento, características da clientela, reação, aprendizagem, suporte à transferência e impacto de treinamento no trabalho. O modelo internacional clássico e que permanece sendo o mais utilizado mundialmente (Salas e Cannon-Bowers, 2001) foi desenvolvido por Kirkpatrick (1976) e tem quatro níveis de avaliação: reação, aprendizagem, comportamento no cargo e resultados organizacionais. De acordo com o autor, esses níveis estariam fortemente relacionados entre si. Contudo, Alliger e Janak (1989) apontaram que os resultados de pesquisas têm mostrado que as correlações nos níveis de avaliação nem sempre são positivas e significativas; pelo contrário, os níveis tendem a estar fracamente correlacionados entre si. Na mesma linha, pesquisas realizadas por Goldstein (1991) e Tannenbaum e Yukl (1992) concluíram que a aprendizagem é uma condição necessária, mas não suficiente, para a transferência e o impacto de treinamento no trabalho. Considerando esses modelos, cumpre esclarecer que o presente estudo focou no segundo nível do modelo de Kirkpatrick, ou seja, os resultados em termos de aprendizagem, embora também tenha trabalhado com a reação ao treinamento como possível variável preditora. Como variáveis preditoras, serão consideradas variáveis relativas à organização, ao indivíduo e ao treinamento, o que está de acordo com os dois modelos nacionais, o MAIS e o IMPACT. acerca do sistema de treinamento e percepção de reação ao treinamento), características da organização (número de funcionários) e características do treinamento (tipo do treinamento e tipo de instrutor). Em relação às características dos treinamentos, não foram encontradas ações com característica psicomotora. Portanto, os treinamentos foram divididos em cursos de natureza cognitiva e cursos de natureza comportamental. O tipo de instrutor foi classificado como instrutor interno à instituição que promoveu o treinamento e instrutor externo. Para a realização da pesquisa, adotou-se o seguinte conjunto de definições constitutivas e operacionais para as variáveis: Crenças - Definição constitutiva: "Crenças são proposições que, na sua formulação mais simples, afirmam ou negam uma relação entre dois objetos concretos ou abstratos, ou entre um objeto e algum atributo possível deste." (Krüger, 1995, p.57). Definição operacional: escala sobre crenças em relação ao sistema de treinamento, desenvolvida e validada por Freitas e BorgesAndrade (2004). Reação - Definição constitutiva: segundo Abbad, Gama e Borges-Andrade (2000, p.26), a reação consiste no nível de satisfação dos participantes com a programação, o apoio ao desenvolvimento do curso, a aplicabilidade, a utilidade e os resultados do treinamento. Definição operacional: escala sobre reação aos cursos de Treinamento, desenvolvida e validada por Abbad, Gama e Borges-Andrade (2000). Aprendizagem - Definição constitutiva: de acordo com Gagné (1985) citado por Pilati e Abbad (2005), "a aprendizagem em TD&E seria a demonstração, por parte do treinando, da capacidade de executar, ao final de um treinamento, os comportamentos definidos nos objetivos instrucionais." (p.2). Definição operacional: diferença entre a nota obtida no pós-teste e no pré-teste MODELO DE PESQUISA Assim, o modelo deste estudo tem como variável (escores de ganho), ambos elaborados pelos critério a aprendizagem gerada a partir de even- instrutores dos cursos com itens distintos em tos de treinamento e desenvolvimento, e como cada teste, mas com equivalência no grau de difivariáveis antecedentes as características da clien- culdade do pré e do pós-teste. tela (experiência com cursos de TD&E, crenças As provas continham oito questões, valendo um Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 72-85 Avaliação de Treinamento no Nível da Aprendizagem ponto cada uma, ficando, portanto, com uma escala de variação entre zero e oito. MÉTODO O delineamento metodológico é de um estudo correlacional, de análise multivariada, uma vez que há um conjunto de variáveis antecedentes e uma variável-critério. A coleta de dados foi feita em momentos distintos, com pré e pós-teste para mensuração da aprendizagem nas ações de TD&E, pois, segundo Abbad e Borges-Andrade (2004), para verificar a aprendizagem em Treinamento seria desejável utilizar pré e póstestes elaborados para os conhecimentos, habilidades e atitudes (CHAs) esperados. A seguir, serão detalhadas as informações relativas aos participantes, aos instrumentos e aos procedimentos de coleta de dados. Participantes A amostra foi composta por 126 funcionários, em cinco empresas privadas no Estado do Rio de Janeiro. Como a maior parte das pesquisas de TD&E realizadas no Brasil adota como universo de pesquisa sujeitos com escolaridade superior, neste estudo, buscou-se pessoas com escolaridade predominantemente entre ensino fundamental e médio. Todos os respondentes foram voluntários e concordaram em participar da pesquisa, com direito a acesso aos seus resultados gerais, e assinaram o termo de livre consentimento, tendo sido o projeto da pesquisa aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO). O perfil predominante dos participantes da pesquisa foi de homens (59,1%), com ensino médio (63,8%), com experiências em treinamento em outras organizações (63,6%), com mais de um ano de trabalho (51,8%), idade média de 31 anos (DP < 8,97) e salário na faixa de cinco salários mínimos. Sobre a adequação do tamanho da amostra, foram utilizadas, para uso da regressão, as duas fórmulas de Green (1991) apresentadas por Tabachinick e Fidel, sendo o tamanho da amostra adequado segundo as duas fórmulas. A 77 primeira fórmula exige que a amostra mínima deva ser de 50 + 5 vezes o número de variáveis independentes (50+30=80). A segunda fórmula postula que são necessários 110 sujeitos (104 + o número de variáveis independentes) para o teste de preditores individuais. Como a amostra foi de mais de 120 respondentes, esse critério foi atendido. Em relação ao tipo de treinamento, dos sete cursos avaliados, dois tinham natureza claramente técnica, três referiam-se a atendimento a clientes e os outros tinham natureza mais comportamental. O tempo de duração dos treinamentos variou de 6 a 20 horas, tendo sido treinados ao todo entre 15 e 600 funcionários. Em relação aos instrutores que atuaram nesses cursos, apenas dois eram instrutores internos, sendo os outros cinco ministrados por instrutores externos. Instrumentos A pesquisa usou duas escalas previamente validadas - escala de crenças sobre o sistema de treinamento e escala de reações ao treinamento, além de dois testes aplicados antes e depois da participação no treinamento, com vistas a checar a aprendizagem dele decorrente. A escala de crenças sobre o sistema treinamento foi desenvolvida por Freitas e BorgesAndrade (2004) e tem como principal característica a avaliação de percepções e informações que as pessoas possuem acerca do treinamento em uma determinada organização. A Escala possui 36 itens aos quais os participantes atribuíram uma pontuação de 1 a 10, sendo 1 ancorado na afirmação "Não acredito" e 10 na afirmação "Acredito totalmente". Essa escala foi originalmente testada por Freitas e Borges-Andrade (2004) em uma amostra de aproximadamente 385 funcionários do Banco do Brasil, e os autores identificaram a presença de três componentes ou fatores na escala: Fator 1 - crenças sobre as contribuições do treinamento para o indivíduo e para a organização; Fator 2 - crenças sobre o processo de levantamento de necessidades de treinamento; e Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 72-85 78 Mourão & Marins Lopes Fator 3 - crenças sobre os resultados e o processo de treinamento. Os coeficientes de fidedignidade (Alfa de Cronbach) reportados para esses fatores foram 0,94, 0,84 e 0,82, respectivamente. No presente estudo, foram utilizados os mesmos fatores sugeridos por Freitas e Borges-Andrade (2004), de forma que a aplicação da escala produziu três escores. Os coeficientes de fidedignidade (Alfa de Cronbach) observados neste estudo para os três fatores foram adequados e semelhantes aos reportados nos estudos originais: 0,93, 0,85 e 0,87, respectivamente. A escala de avaliação de reação aos cursos foi desenvolvida e validada por Abbad, Gama e Borges-Andrade (2000). A principal característica desse instrumento é que ele permite a avaliação do nível de satisfação de participantes com a qualidade do treinamento (programação, suporte organizacional dado ao desenvolvimento do curso, aplicabilidade, utilidade e resultados do treinamento). A escala possui 24 itens, associados a uma escala de cinco alternativas de respostas: ótimo (5), muito bom (4), bom (3), regular (2), ruim (1). A escala foi originalmente testada por Abbad, Gama e Borges-Andrade (2000) em uma amostra de aproximadamente 4.000 servidores públicos participantes de 229 cursos de curta duração oferecidos. Os autores identificaram a presença de dois componentes ou fatores relacionados na escala: Fator 1 - reações aos resultados, aplicabilidade e expectativas de suporte; e Fator 2 - reação à programação e ao apoio organizacional. Os coeficientes de fidedignidade (Alfa de Cronbach) reportados para esses fatores foram 0,95 e 0,92, respectivamente. No presente estudo, não foram utilizados os mesmos fatores sugeridos por Abbad e cols. (2000), por ter-se encontrado correlação muito alta entre os dois fatores (coeficiente de Pearson acima de 0,8). Assim, trabalhouse com uma estrutura de escala unifatorial, sendo o coeficiente de fidedignidade (Alfa de Cronbach) observado neste estudo adequado e semelhante aos reportado no estudo original: 0,92. Para a avaliação de aprendizagem, foram utilizados pré e pós-testes. Esses testes e os seus respectivos gabaritos foram elaborados pelos instrutores responsáveis pelos conteúdos do treinamento, com oito questões fechadas cada um, sendo a primeira avaliação diferente da segunda, mas com o mesmo nível de dificuldade, para que se pudessem comparar os resultados obtidos em ambos. Procedimentos de coleta e análise de dados A coleta de dados desta pesquisa foi feita por meio de dois questionários. Antes do início do treinamento, foram aplicadas as escalas sobre crenças em relação a TD&E e o teste inicial de conhecimentos. Após o treinamento, foi aplicada a escala de reação e o teste final de conhecimentos. Os questionários foram aplicados pelos pesquisadores responsáveis por esta pesquisa e foram identificados para que se pudesse fazer o pareamento dos dados relativos ao pré e ao pós-teste. Porém foi esclarecido, antes da aplicação, que os instrutores e as pessoas responsáveis pela área de treinamento nas organizações de origem dos participantes somente teriam acesso aos resultados consolidados da pesquisa, sendo garantida a confidencialidade das informações prestadas. Tanto para o questionário como para o pré e o pós-teste, não foi estabelecido tempo de resposta, tendo sido o tempo-médio de preenchimento do questionário e dos testes de cerca de 10 minutos, tanto no pré como no pós-teste. O tratamento dos dados foi feito utilizandose o software SPSS, versão 15.0. Na primeira etapa da análise de dados, foi feita a limpeza do banco de dados, com o objetivo de identificar possíveis valores incorretos na digitação dos dados, bem como a presença de dados omissos (missing values). Foram ainda examinadas as distribuições univariadas e bivariadas por meio de métodos gráficos (diagrama de ramo e folha, boxplot) e numéricos (medidas de simetria), com o objetivo de avaliar normalidade, homogeneidade de variância e a presença de dados extremos (outliers, três desvios-padrões acima ou abaixo da Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 72-85 Avaliação de Treinamento no Nível da Aprendizagem média ou que apresentaram valores acima dos valores máximos permitidos nos parâmetros da Distância Mahalanobis). As variáveis relativas aos fatores 1 e 3 das crenças sobre o sistema de TD&E tiveram de ser transformadas. O critério numérico utilizado para avaliar a necessidade de transformações foi ancorado na simetria. Variáveis foram transformadas sempre que o escore Z para simetria (simetria/erro padrão de medida da simetria) foi maior que 1,96 (Tabachnick & Fidell, 1996). As transformações resolveram satisfatoriamente os problemas de simetria, de curtose e de heterogeneidade de variância. Após as transformações, foram identificados três casos de valores extremos univariados. Esses escores foram seletivamente excluídos das análises. As demais variáveis não apresentaram anomalias dignas de nota. As variáveis transformadas foram utilizadas em todas as análises de correlação e regressão. Para clarificar a interpretação dos resultados, são apresentadas as médias e os desvios-padrão das variáveis antes da transformação (Tabachnick & Fidell, 1996). Para a regressão, também foram avaliadas, além da normalidade, a homogeneidade de variância, a multicolinearidade e a análise de resíduos. Em relação à multicolinearidade, encontrou-se alta correlação entre os fatores de crenças (coeficientes de Pearson de 0,63 a 0,74). A solução encontrada para não incorrer no erro de multicolinearidade foi a de trabalhar com modelos separados para cada um desses fatores. Porém os resultados indicaram que nenhum dos fatores de crença tem correlação 79 significativa com a aprendizagem, e apenas o Fator 1 das crenças sobre o sistema de treinamento contribui para melhorar o modelo de regressão testado. Por esse motivo, os resultados da regressão somente se referem ao Fator 1 da Escala de crenças sobre o sistema de treinamento. RESULTADOS Os resultados obtidos com a aplicação do questionário de crenças sobre o sistema de treinamento, sobre a reação e sobre a aprendizagem em termos de valores mínimos, máximos, média e desvio-padrão são apresentados na Tabela 1. A análise dos escores da escala de crenças sobre o sistema de treinamento permitiu concluir que os treinandos possuem uma crença positiva em relação às ações educacionais. Foi possível observar esse resultado a partir da média obtida tanto nos escores da escala geral (M = 7,9), como nos escores dos três fatores: crenças sobre contribuições do treinamento, crenças sobre levantamento de necessidades e sobre resultados e crenças sobre os processos e os resultados do treinamento. A reação ao treinamento foi mensurada por uma escala tipo Likert de cinco pontos, sendo que quanto mais próximo de cinco, mais favorável foi a reação do treinando, e quanto mais próximo de um, menos favorável foi a reação. As respostas mostram que, em geral, as pessoas que participaram do treinamento apresentaram satisfação de moderada a alta com os cursos, pois a nota média para essa escala foi de 3,6 (DP = 0,63). Tabela 1. Escores da escala de crenças e de seus fatores Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 72-85 80 Mourão & Marins Lopes Para avaliar a aprendizagem dos partici- ferir o pressuposto de independência do covaripantes dos cursos de treinamento, considerou-se o ante, já que os dados do pré-teste apresentaram que o aluno aprendeu durante o período do curso, interação com os resultados do pós-teste. isto é, o escore de ganho. O valor médio do escore As análises de correlação de Pearson de ganho obtido por meio da diferença das notas entre a variável aprendizagem e as variáveis final e inicial dos participantes foi de 4,6 (DP= 1,99), crenças (fatores 1, 2 e 3) não se mostraram sigo que significa que os treinandos responderam nificativas. Entretanto, encontrou-se correlação mais eficazmente às provas depois que partici- significativa entre aprendizagem e reação (r = param dos treinamentos. O resultado também 0,19; p<0,001), como mostra a Tabela 2. mostra que os participantes conseguiram Tabela 2. Correlações entre aprendizagem e as variáveis crenças sobre o sistema de TD&E e reação ao treinamento aprender o que foi transmitido e aumentar seus conhecimentos sobre o assunto, pois a nota média antes do curso foi 1,97 ** Significativas para p < 0,01 (DP < 1,06), enquanto Corroborando os resultados das correa nota média após o curso foi 7,13 (DP < 0,92). Assim, para a avaliação das variáveis que lações, também na análise de regressão linear, a influenciam na aprendizagem, considerou-se o reação explicou a aprendizagem (B =0,20), porém escore de ganho. Os resultados da ANOVA, con- apenas o Fator 1 das Crenças sobre o sistema de siderando o pré e o pós-teste, foi significativo treinamento ajuda a aumentar o poder explicati(F(5,107)=24,2; p<0,001). Esse resultado já era vo do modelo (R² ajustado = 0,25), conforme esperado, pois quem tem um conhecimento mostra a Tabela 3. Ainda em relação às variáveis prévio menor tem maiores possibilidades de absorver novos conteúdos e, portanto, apresentar individuais, a experiência em outros cursos de um valor de aprendizagem (escore de ganho entre treinamento também foi benéfica para a aprenpós e pré-teste) mais elevado. O teste t para dizagem (Beta = 0,22), isto é, quem já participou amostras pareadas também apontou diferenças de outros cursos de capacitação apresenta maior significativas entre os escores médios do pré e do tendência à aprendizagem. pós-teste (t(112) = -42,90), com correlação signiEm relação ao número de funcionários, as ficativa entre ambos (r = 0,18; p < 0,05). Em outras organizações participantes da pesquisa foram claspalavras, a análise desses resultados permite dizer sificadas em cinco categorias, considerando interque houve, de fato, aprendizagem durante os valos desde uma empresa com até 50 funcionários períodos dos cursos. Uma Tabela 3. Resultados da regressão com a VD aprendizagem das opções de análise aventadas para identificar possíveis explicações para a aprendizagem foi a análise de covariância (ANCOVA), considerando os valores de pré e pósteste e, como covariantes, as variáveis crenças e reações. Porém tal análise não pôde ser feita, por * p < 0,05; ** p < 0,01. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 72-85 Avaliação de Treinamento no Nível da Aprendizagem até outra com mais de mil. O resultado da regressão mostrou que quanto maior a empresa, maior a tendência de aprendizagem nos treinamentos dos quais os funcionários participam (Beta = 0,48). Em relação às variáveis relativas ao tipo de treinamento, foram incluídas duas variáveis dummy, a saber: cursos de natureza cognitiva e não-cognitiva e cursos ministrados por instrutores internos ou externos. Os resultados mostram que treinamentos de natureza cognitiva tendem a propiciar maior aprendizagem que os cursos de natureza não-cognitiva (Beta = - 0,38). Vale registrar que, no caso desta pesquisa, seguiu-se a taxonomia de Bloom (1956, citado por Rodrigues Jr, 2006). Mas, como não havia cursos de natureza psicomotora entre os cursos avaliados, os cursos não-cognitivos compreenderam apenas cursos cujos objetivos instrucionais eram de caráter afetivo-comportamentais. Em relação ao tipo de instrutor, os cursos ministrados por instrutores externos tenderam a apresentar resultados melhores em termos de aprendizagem (Beta = 0,29). DISCUSSÃO Os escores da escala de crenças sobre o sistema de treinamento indicam crenças positivas dos trabalhadores das cinco empresas em relação às ações educacionais. Resultado semelhante em termos de escores foi obtido por Freitas (2005), que, ao contrário da presente pesquisa, focou uma instituição de natureza pública. Em relação à aprendizagem, o presente estudo evidencia altas médias nos escores de ganho de aprendizagem, sinalizando que, de fato, houve a aquisição de conhecimentos entre o momento do início do curso e o momento do final do curso, pois, enquanto a nota média do teste inicial foi 1,97 (DP < 1,06), a nota média final foi 7,13 (DP < 0,92), ambas numa escala de 0 a 8, o que representa um aumento nos conhecimentos relativos aos conteúdos do curso da ordem de 362%. Portanto, uma das conclusões importantes deste trabalho é que os treinamentos cumpriram uma de suas funções iniciais de promover a aprendizagem, embora o fato de haver aprendizagem não seja garantia de melhoria no desempenho dos profissionais treinados (Alliger & Janak, 1989 e Abbad, 1999). Embora possa parecer óbvio que as ações 81 de treinamento levaram a um escore de ganho positivo, isso nem sempre ocorre. Na pesquisa realizada por Klink, Gielen e Nauta (2001), em um banco holandês, as notas não aumentaram no pós-teste, ou seja, o resultado obtido no pré-teste foi muito próximo do resultado do pós-teste, podendo-se concluir que o conteúdo dado no treinamento não resultou em aprendizagem dos participantes. Já a pesquisa realizada por Herold, Davis, Fedor e Parsons (2002), em um treinamento multiestágios na Academia de Aviação Federal dos Estados Unidos, corrobora os resultados do presente estudo, pois os autores encontraram ganhos de conhecimento entre o pré e o pósteste. Eles encontraram que a estabilidade emocional e o bom desempenho na primeira fase do curso eram determinantes para o sucesso na segunda fase. Em relação às variáveis preditoras, encontrou-se que a experiência prévia com treinamento, o número de funcionários, o tipo de treinamento, o tipo de instrutor e a reação ao treinamento contribuem individualmente para a explicação da aprendizagem, enquanto as crenças sobre o sistema de treinamento contribuem para o conjunto do modelo, embora não apresente contribuição de forma isolada. O fato de a reação ao treinamento ser uma das variáveis que explica a aprendizagem (Beta = 0,20) permite uma discussão interessante, pois se constatou uma relação significativa e positiva entre os níveis de reação e aprendizagem, conforme previsto no Modelo de Kirkpatrick (1976). Sobre essa relação entre os níveis de reação e de aprendizagem, a literatura em TD&E mostra resultados inconsistentes sobre o relacionamento das variáveis de reações ao treinamento, aprendizagem e impacto no nível do comportamento no cargo. Alliger e Janak (1989) alertaram para o fato de os relacionamentos entre reações e impacto no cargo nem sempre serem significativos ou encontrados na direção prevista pelas abordagens mais tradicionais de avaliação. Ou seja, nem sempre uma avaliação de reação positiva corresponde a escores mais altos de aplicação no trabalho daquilo que foi aprendido. Embora a relação entre reação e aprendizagem seja confirmada por alguns estudos (como o de Sallorenzo, 2000), o fato de haver reação positiva e alto grau Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 72-85 82 Mourão & Marins Lopes de aprendizagem pode não gerar resultados diretos na melhoria do desempenho, uma vez que a literatura aponta que o suporte dos colegas e da chefia é o principal preditor do impacto do treinamento no trabalho (Abbad, 1999; Salas & Cannon-Bowers, 2001, Abbad e Pilati, 2005). Analisando resultados de pesquisa no Brasil, Abbad e cols. (2000) retomam a discussão proposta por Alliger e Janak (1989) sobre a proposta de Kirkpatrick (1976) de que os quatro níveis de avaliação de treinamento estão articulados entre si em uma sequência hierárquica de produção de informações sobre a eficácia de um treinamento. Embora o resultado da presente pesquisa sinalize uma relação significativa e positiva entre reação e aprendizagem, não há evidências empíricas que sustentem a relação encadeada entre reação, aprendizagem e impacto. Com relação ao fato de variáveis de características da clientela (experiência com cursos de TD&E, crenças acerca do sistema de treinamento e percepção de reação ao treinamento), características da organização (número de funcionários) e características do treinamento (tipo do treinamento e tipo de instrutor) atuarem como preditoras dos resultados do treinamento, tais resultados corroboram os modelos propostos por Abbad (1999) e por Alvarez, Salas e Garofano (2004) e os achados de Salas e Cannon-Bowers (2001). Esses dois modelos pressupõem que os resultados de treinamento sejam explicados por um conjunto de variáveis que considerem esses três grupos: variáveis individuais, variáveis do treinamento e variáveis organizacionais; o que é também confirmado pela revisão internacional feita por Salas e Cannon-Bowers. O fato de a experiência em outros cursos de treinamento ser benéfica para a aprendizagem (Beta = 0,22) é um fato importante para os profissionais que atuam na área de TD&E, pois sinaliza que o investimento em capacitação nas organizações possa ter efeito progressivo, ou seja, a participação em cursos anteriores deixa a pessoa mais predisposta para a aprendizagem em cursos futuros. Marins (2008) também encontrou um resultado que corrobora essa conclusão, pois o modelo testado pela autora mostra que quem já participou de outros cursos de capacitação tende a apresentar maior motivação para aprender em cursos realizados em organizações de trabalho. Na presente pesquisa, um dos resultados refere-se ao fato de que cursos de natureza cognitiva tendem a propiciar maior aprendizagem que os cursos de natureza não-cognitiva. Isso pode ser explicado pelo fato de a aprendizagem cognitiva ser mais facilmente mensurável em testes de múltipla escolha, além também de ser mais fácil de perceber os resultados de cursos cognitivos do que afetivos (Gonçalves, 2008). Em relação ao tipo de instrutor, o fato de os resultados apontarem que cursos ministrados por instrutores externos tendem a apresentar resultados melhores em termos de aprendizagem pode sinalizar, para os profissionais que atuam em TD&E, a necessidade de melhor preparar os instrutores internos para os cursos que ministram. Porém não se pode descartar a possibilidade de maior credibilidade atribuída aos instrutores externos pelos participantes dos cursos pelo simples fato de serem membros externos à organização, pois a crença de que "santo de casa não faz milagre" é um fenômeno conhecido no mundo organizacional. Finalmente, é preciso discutir o fato de os participantes dos treinamentos das organizações com maior número de empregados terem apresentado resultados de aprendizagem mais favoráveis. Possivelmente, a razão para tal resultado reside no fato de organizações de maior porte apresentarem mais oportunidades de capacitação e também maior estruturação desse tipo de atividade (Campos e cols., 2004 e Mourão, 2009). Resultados de pesquisa mostram que as organizações de médio e de grande porte tendem a investir mais em capacitação tanto do ponto de vista de valor do investimento como de estruturação das ações de TD&E, sendo esperado, portanto, que consigam produzir melhores resultados em termos de aprendizagem. Esse resultado possivelmente sinaliza, para os profissionais que atuam na área, o quanto é fundamental a estruturação do sistema de treinamento com atenção para todos os seus subsistemas. Ou seja, é preciso repensar o sistema de treinamento desde a análise de necessidades até a avaliação, sem esquecer-se da importância dos Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 72-85 Avaliação de Treinamento no Nível da Aprendizagem 83 processos relativos ao planejamento e implemen- pouco (cerca de 20%) dos resultados de aprentação dos cursos, pois características do treina- dizagem, talvez pela própria natureza mais operamento também se mostraram como preditoras cional dos cursos realizados. dos resultados de aprendizagem. Em relação às contribuições do presente estudo, além da contribuição teórica, no sentido CONCLUSÃO de apontar as variáveis preditoras da aprendizaÉ cada vez mais comum encontrar, nas organiza- gem, também há uma contribuição metodológições, a demanda por processos de aprendizagem ca, pois a amostra foi diferenciada em termos de continuada, o que as tem levado a investirem em escolaridade, uma vez que os estudos brasileiros ações de capacitação e buscarem compreender sobre TD&E, na sua grande maioria, focam funos seus resultados e como eles podem ser melho- cionários de nível superior. rados. Ou seja, as organizações desejam conhecer Entre as limitações deste trabalho, enconnão apenas o grau de resultado obtido - seja em tra-se a amostra reduzida e o fato de ela estar termos de reação, aprendizagem ou impacto -, focada em empresas do Estado do Rio de Janeiro. como também as possíveis variáveis capazes de Em parte, tais aspectos se justificam pela dificulexplicar esses resultados. Ou seja, há um inter- dade de realização de uma pesquisa dessa esse genuíno em se conhecer melhor as variáveis natureza, uma vez que demanda a colaboração que explicam a aprendizagem decorrente dos dos instrutores na elaboração de dois testes de cursos oferecidos pelas organizações. conhecimento com igual grau de dificuldade, sem O presente estudo pretendeu enriquecer o qualquer tipo de remuneração adicional. Além debate sobre a influência de características da disso, alguns professores se sentiram receosos de clientela, do treinamento e da organização sobre entregar os testes preenchidos para os a aprendizagem em eventos de treinamento e pesquisadores. Outra dificuldade da aplicação dos desenvolvimento. Há muitos estudos sobre avali- testes foi o fato de as pessoas não poderem levar ação de reação ao treinamento e são crescentes as provas para casa e nem sempre haver tempo os estudos sobre o impacto do treinamento no disponível, nos cursos, para responder à prova initrabalho (Salas & Cannon-Bowers, 2001 e cial e à final. Mourão, Borges-Andrade & Sales, 2006). No que diz respeito aos testes estatísticos, é Contudo, o nível da aprendizagem ainda carece preciso considerar como limitação a violação de de mais investigação e debate. Para ampliar as alguns pressupostos, com a independência do possibilidades de interpretação dos resultados covariante e a linearidade, que impediram a reaobtidos nesta pesquisa, os seus achados foram lização de algumas análises, especialmente a comparados com os da literatura da área, con- ANCOVA, para melhor compreensão do fenôsiderando trabalhos de autores como Alliger e meno aprendizagem, e a regressão linear com os Janak (1989), Sallorenzo (2000); Abbad (1999); fatores 2 e 3 da escala de crenças sobre o sistema Freitas (2005); Herold e cols. (2002) e Klink e cols. de treinamento. (2001). Uma proposta para pesquisas futuras de No que se refere às crenças sobre o sistema pesquisa seria investigar cursos com diferentes de TD&E, os resultados da presente pesquisa graus de complexidade, a fim de verificar se a apontam crenças positivas por parte dos treinan- influência de variáveis como reação ao treinados e uma reação positiva aos cursos, com avali- mento e crenças sobre o sistema de TD&E varia ação de satisfação de moderada a alta. No que diz de acordo com a natureza do curso. Outra possirespeito à aprendizagem, os escores encontrados bilidade para futuras pesquisas seria a de levantar foram bastante altos, o que pode sinalizar que os as crenças em relação à imagem do professor ou cursos realizados, de fato, agregaram algum nível instrutor e em relação à organização em que o de conhecimento a seus participantes. Contudo, o trabalhador se encontra inserido, verificando se fato de o trabalhador ficar mais ou menos satis- essas crenças possuem influência sobre a aprenfeito com o curso (reação ao treinamento) explica dizagem. Como o suporte do supervisor tem sido Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 72-85 84 Mourão & Marins Lopes considerado um dos aspectos mais importantes para o impacto do treinamento no trabalho, poder-se-ia investigar se as crenças sobre o sistema de TD&E mediam ou moderam os efeitos desse suporte sobre os níveis de avaliação do treinamento (reação, aprendizagem e impacto). Por fim, considerando que o modelo final incluiu variáveis de características da clientela, características da organização e características do treinamento, espera-se que os resultados da presente pesquisa suscitem questionamentos nos profissionais que atuam na área de TD&E e contribuam para aperfeiçoar os processos de aprendizagem induzida nas organizações. 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Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 72-85 Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 86-96. http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Uma publicação da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho Artigo Síndrome de Burnout em Funcionários de uma Fundação de Proteção e Assistência Social* Karine Moreira de Almeida1 Lúcia Azambuja de Souza2 Mary Sandra Carlotto3 * Trabalho apresentado à Universidade Luterana do Brasil como pré-requisito para a conclusão do curso de Psicologia. 1. Acadêmica do curso de Psicologia da ULBRA/Canoas. Rua Honório Silveira Dias, 1501, apto 403, Bairro São João, CEP 90540-060, Porto Alegre (RS). [email protected]. 2. Acadêmica do curso de Psicologia da ULBRA/Canoas. [email protected]. 3. Psicóloga, mestre em Saúde Coletiva (ULBRA-RS). Doutora em Psicologia Social (USC/ES). Professora do Curso de Psicologia (ULBRA/Canoas). [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/1719199468870466. Resumo Burnout é um fenômeno psicossocial resultante da tensão emocional crônica, vivenciada pelos profissionais cujo trabalho abrange o relacionamento intenso e frequente com pessoas que necessitam de cuidado e (ou) assistência. O objetivo deste estudo foi avaliar a relação entre as dimensões de Burnout e variáveis demográficas, laborais, psicossociais e sintomas de estresse em funcionários que atuam em abrigos e casas de atendimento de uma Fundação de Proteção e Assistência Social. Foram utilizados, como instrumentos de pesquisa, o Maslach Burnout Inventory (MBI) e um questionário para o levantamento das demais variáveis. A amostra foi constituída de 73 funcionários de uma Fundação de Proteção e Assistência Social. Os resultados apresentam um perfil de risco caracterizado por trabalhadores jovens, com filhos, que trabalham também em outro local, insatisfeitos com seu trabalho, salário, higiene local, possibilidade de promoção e participação e que percebem como fatores de estresse aspectos intrínsecos de seu trabalho, carga horária, escala, tipo de público a que atende, relação com superior e colegas, que têm de conciliar trabalho e família. Todos os sintomas de estresse foram relacionados às dimensões da síndrome. Sugestões para futuros estudos finalizam o artigo. Palavras-chave: síndrome de burnout, estresse ocupacional, MBI. Abstract Burnout Syndrome in Employees of a Foundation for the Protection and Welfare Burnout is a psychological phenomenon resulting from chronic emotional stress, experienced by professionals in the work that covers the frequent and intense relationship with people in need of care and / or assistance. This study aimed to evaluate the Burnout Syndrome on employees who work in shelters and homes to care for a Foundation for the Protection and Welfare. It also sought to identify associations of the dimensions of burnout with demographic variables, employment, psychosocial and symptoms of stress. Were used as instruments to search the MBI - Maslach Burnout Inventory and a questionnaire for the lifting of other variables. The sample consisted of 73 employees of a Foundation for the Protection and Welfare.The results obtained revealed a risk profile characterized by yourger workers, who have children, work in another institution, dissatisfied with his tasks, remuneration, hygiene in the workplace, promotion opportunities and that perceive as stress intrinsic factors of their work, workload, working hours, type of client, relationship with supervisor and co-workers, and to harmonize work and family. All symptoms of stress were related to the dimensions of the syndrome. Suggestions on further studies finish the job. Keywords: burnout syndrome, occupational stress, MBI. Almeida, Souza & Carlotto. Síndrome de Burnout Recebido em: 11.12.2008 Aprovado em: 18.01.2010 Publicado em: 22.03.2010 Síndrome de Burnout A Síndrome de Burnout (SB) é um fenômeno psicossocial resultante da tensão emocional crônica vivenciada pelos profissionais que, em seu trabalho, mantêm relacionamento intenso e frequente com pessoas que necessitam de cuidado e (ou) assistência (Maslach & Jackson, 1981). O exercício das profissões assistenciais caracteriza-se por uma relação com o cliente permeada de ambiguidades, tais como a de conviver com a tênue distinção entre envolver-se profissional e não pessoalmente na ajuda ao outro (Borges, Argolo & Pereira, 2002). De acordo com Maslach e Leiter (1997), Burnout é o resultado de um desequilíbrio crônico, quando o trabalho exige mais do que o indivíduo pode dar e proporciona menos do que ele precisa. Harrison (1999) assinala essa síndrome como um tipo de estresse de caráter duradouro, vinculado a situações de trabalho, resultante da constante e repetitiva pressão emocional associada ao intenso envolvimento com pessoas por longos períodos de tempo. Trata-se de uma experiência subjetiva interna, que gera sentimentos e atitudes negativas no relacionamento do indivíduo com o seu trabalho (insatisfação, desgaste, perda de comprometimento), corroendo, assim, aos poucos, o seu desempenho profissional e trazendo consequências indesejáveis à organização (absenteísmo, abandono de emprego, baixa produtividade) (Tamayo & Tróccoli, 2002). Maslach, Schaufeli e Leiter (2001) definem a SB como um conceito multidimensional que envolve três dimensões: 1) a exaustão emocional, que se caracteriza pela falta ou carência de energia e um sentimento de esgotamento emocional, que ocorre quando o indivíduo percebe que não pode dar mais de si mesmo em nível afetivo e sente que sua energia e recursos emocionais estão esgotados em decorrência do contato diário com seus próprios problemas e os de outras pessoas; 2) a despersonalização, caracterizada pelo desenvolvimento de uma insensibilidade emocional, que faz com que o profissional trate clientes, colegas e a organização de maneira fria e impessoal, sendo essa uma forma 87 de o profissional defender-se perante a carga emocional proveniente do contato direto com o outro; e, 3) a baixa realização profissional, dimensão na qual ocorre uma tendência de o profissional avaliar-se negativamente, o que causa um sentimento de insatisfação com a realização do seu trabalho, originando a sensação de incompetência e de baixa autoestima. Independentemente de já existir um consenso sobre seu conceito, é importante diferenciar Burnout do estresse. Burnout tem sido considerado um tipo de estresse ocupacional (Cordes & Dougherty, 1993). É a intensificação da sintomatologia própria do estresse (Kyriacou & Sutcliffe,1978). Ao se percorrer o caminho do estresse ao Burnout, segundo Benevides-Pereira (2001), observa-se uma mudança de perspectiva acentuada no sentido de que houve uma evolução do plano predominantemente individual para o social, isto é, para o relacional. Gil-Monte (2009) pontua que trabalhar em contato com os usuários de serviços faz com que os trabalhadores fiquem expostos, com frequência, a riscos psicossociais, tais como agressões e conflitos interpessoais, sobrecarga de casos para atender, conflito e ambiguidade de papel, percepção de iniquidade nos intercâmbios sociais, falta de controle sobre os resultados, etc. Tais condições de trabalho favorecem o desenvolvimento do Burnout. No exercício profissional dos funcionários de uma Fundação de Proteção e Assistência Social, existem diversos fatores de estresse psicossocial, os quais, ao persistirem, podem levar ao desenvolvimento da SB. Esses profissionais atuam em programas e serviços que promovem direitos e a inclusão dos cidadãos que estão em situação de risco e vulnerabilidade social. Atendem a crianças e adolescentes, famílias, moradores de rua, idosos e pessoas com deficiência, de forma articulada com uma grande rede de atendimento, composta por unidades próprias e organizações nãogovernamentais conveniadas. Faz parte de suas atribuições realizar atividades de apoio, de recreação e de acompanhamento diurno e noturno da clientela. Executam atividades Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 86-96 88 Almeida, Souza & Carlotto diárias, lúdicas e recreativas, trabalhos educacionais de artes diversas; acompanhamento em passeios, visitas, festas e festividades sociais. Auxiliam na higiene pessoal, devendo estar atentos para a observação da saúde e do bemestar da clientela, levando-a, quando necessário, para atendimento médico e ambulatorial. Ministram medicamentos conforme prescrição médica e prestam primeiros socorros, cientificando o superior imediato da ocorrência. Segundo Gil-Monte, Carretero, Roldán e Núñez-Román (2005), esses trabalhadores têm de realizar com frequência seu trabalho em condições que exigem altos níveis de trabalho emocional e manejo de conflitos, devem regular a expressão das emoções, estabelecer e manter empatia, bem como manejar frustrações vinculadas à atividade laboral. Estudo realizado pelos autores, com uma amostra de 154 monitores e educadores que trabalham em centros para pessoas com vulnerabilidades sociais, identificou que 11,70% dos sujeitos apresentavam níveis elevados de Burnout. Os autores identificaram associação entre a SB e fatores psicossociais relacionados à organização do trabalho. A SB tem sido considerada um sério processo de deterioração da qualidade de vida do trabalhador, tendo em vista suas implicações para a saúde física e mental (Sávio, 2008). O profissional afetado se sente exausto, frequentemente, está doente, sofre de insônia, úlcera, dores de cabeça (Maslach, 1976), tensão muscular, fadiga crônica (Maslach & Leiter, 1997), cefaleia, ansiedade, depressão e problemas cardiovasculares (Gil-Monte, Nunes-Román & Selva Santoyo, 2006). Assim, tendo em vista que o trabalho desenvolvido nesse tipo de instituição e com esse público é bastante complexo, pois envolve o relacionamento intenso e frequente com pessoas que necessitam de cuidado e (ou) assistência, estando os trabalhadores expostos a diversos estressores psicossociais, o presente estudo, de caráter observacional-analítico de corte transversal (Grimes & Schulz, 2002), buscou avaliar a relação entre a SB e variáveis demográficas, laborais, psicossociais e sintomas de estresse em funcionários de Fundação de Proteção e Assistência Social. MÉTODO População e amostra A população do estudo é composta por 135 funcionários que desempenham suas funções em cinco abrigos e duas casas de atendimento vinculados a uma Fundação de Proteção e Assistência Social, localizada em uma cidade de grande porte, no estado do Rio Grande do Sul. A amostra não-probabilística foi composta por 73 sujeitos (54,4% da população) pertencentes aos cinco abrigos e às duas casas de atendimento. Ocorreram 16 perdas de sujeitos devido ao fato de estarem em licença para tratamento de saúde. Outros 46 sujeitos não aceitaram participar, com os seguintes argumentos: receio de sofrerem perseguições políticas ou da própria instituição, medo de serem identificados em virtude da assinatura do termo de consentimento de pesquisa e falta de tempo, tendo em vista a sobrecarga de trabalho. Os profissionais que constituíram a amostra são, na sua maioria, mulheres (72,6%), solteiros, separados ou viúvos (68,5%), possuem filhos (58,9%), cursaram ensino superior completo (63%) e têm idade média de 42 anos e 6 meses (DP=11,76). A maioria trabalha somente na instituição (68,5%). Com relação à carga horária, realizam semanalmente, em média, 40 horas (DP=11,76), atendendo a uma média de 56 pessoas por dia (DP=38,26). Possuem uma média de 13 anos e 7 meses (DP=9,37) de experiência profissional e 4 anos e 10 meses (DP= 3,68) de experiência no local e função. Instrumentos Para o levantamento das variáveis demográficas (sexo, idade, estado civil, filhos), laborais (tempo de experiência profissional na instituição, tempo neste local de trabalho, número de pessoas que contata diariamente, carga horária semanal de trabalho), psicossociais (satisfação com o trabalho, com a salubridade do lugar de trabalho, com as oportunidades de promoção, com a supervisão recebida, com a participação nas decisões Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 86-96 Síndrome de Burnout institucionais; percepção de fatores de estresse como a profissão, a carga horária, escala de trabalho, tipo de público atendido, relação com superior imediato, convívio com colegas de trabalho, necessidade de conciliar trabalho e família) e sintomas de estresse (dificuldade de respirar, agulhadas no peito, dores no estômago, crise de ansiedade, náuseas ou vertigens, enxaqueca ou dores de cabeça, problema de saúde por causa do trabalho, dificuldades para dormir, contraturas ou dores musculares), foi utilizado um questionário construído pelas autoras do estudo e baseado no referencial teórico sobre a SB. Para todas as questões, foi utilizada uma escala de intensidade que variava de 1 (nada) a 5 (muito). A avaliação da SB foi realizada através do Maslach Burnout Inventory (MBI) de Maslach e Jackson (1986), traduzido e adaptado por Benevides-Pereira (2001). O instrumento avalia como o sujeito vivencia seu trabalho. É composto de 22 itens avaliados e distribuídos em três subescalas: exaustão emocional (9 itens), despersonalização (5 itens) e realização profissional (8 itens). As opções de respostas estão disponibilizadas em escala tipo Likert, que indica a frequência das respostas. Utiliza-se, neste estudo, o sistema de pontuação de 1 a 5, também usado por Tamayo (1997) na adaptação brasileira do instrumento, pois foi verificado que os sujeitos apresentavam dificuldades para responder muitos itens do instrumento devido à especificidade da escala original, que utiliza 7 pontos. Assim, utiliza-se 1 para indicar "nunca", 2 para "algumas vezes ao ano", 3 para "algumas vezes ao mês", 4 para "algumas vezes na semana" e 5 para "diariamente. O MBI é um instrumento utilizado exclusivamente para a avaliação da síndrome, não levando em consideração os elementos antecedentes e as consequências de seu processo. Ele avalia índices de Burnout de acordo com os escores de cada dimensão, sendo que altos escores em exaustão emocional e despersonalização e baixos escores em realização profissional (essa subescala é inversa) indicam alto nível de Burnout (Maslach & Jackson, 1986). Estudo das características psicométricas do MBI 89 em uma amostra multifuncional, realizado por Carlotto e Câmara (2007), indica seu uso em amostras brasileiras. Procedimentos Primeiramente, foi realizado um contato com a direção da instituição para apresentar os objetivos do estudo a fim de obter-se a autorização e o apoio para a aplicação dos instrumentos. Após aprovação, fez-se contato com os gerentes dos sete abrigos e das duas casas de atendimento, para combinar a forma mais adequada de aplicação em cada local. Os instrumentos foram aplicados individualmente ou em pequenos grupos, durante o expediente de trabalho, de acordo com a disponibilidade dos funcionários. No momento da aplicação, foram fornecidas as informações sobre os objetivos da pesquisa, o preenchimento dos instrumentos, bem como o termo de consentimento livre e esclarecido. Foi esclarecido aos funcionários e gerências das instituições tratar-se de uma pesquisa sem quaisquer efeitos avaliativos individuais e (ou) institucionais e que as respostas seriam anônimas e confidenciais. A pesquisa teve aprovação do Comitê de Ética de afiliação das autoras, tendo sido realizados os procedimentos éticos, conforme resolução 196 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), no que diz respeito à pesquisa com seres humanos (Ministério da Saúde, 1997). O banco de dados foi digitado e posteriormente analisado em pacote estatístico. Foram calculadas médias e desvios padrão das dimensões de Burnout e realizada prova de correlação de Pearson e t de student para verificar associação entre as dimensões da SB e variáveis demográficas, laborais, psicossociais e sintomas de estresse. RESULTADOS Quanto aos índices de Burnout, verificou-se que a exaustão emocional foi a dimensão que atingiu maior índice médio (M=2,26; DP=1,18), seguida pela dimensão baixa realização profissional (M=2,04; DP=0,77), sendo que a de menor índice foi despersonalização (M=1,93; DP=1,10). A matriz de correlação, apresentada na Tabela 1, Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 86-96 90 Almeida, Souza & Carlotto evidencia associação negativa entre a exaustão emocional e a idade, satisfação no trabalho (tarefa, salário, higiene, promoção, supervisão, participação nas decisões); e positiva com a percepção de estresse (trabalho, carga horária, escala, tipo de público, relação com superior, relação com colegas, conciliar trabalho e família) e com todos os sintomas de estresse (agulhadas no peito, dores no estômago, crise de ansiedade, náuseas e vertigens, enxaqueca ou dor de cabeça, problemas de saúde relacionados ao trabalho, dificuldades para dormir, contraturas ou dores musculares). A despersonalização asso- ciou-se negativamente às variáveis de satisfação no trabalho, com exceção do salário; e, positivamente, às variáveis de percepção de estresse, com exceção da relação com o superior imediato. Também positiva foi a associação com todos os sintomas de estresse. A realização profissional evidenciou associação positiva somente com a satisfação com o trabalho; e negativa com a percepção de que o tipo de público que atende é estressante e com os sintomas de estresse de ansiedade, náuseas e vertigens, enxaqueca e dores de cabeça, dificuldades para dormir, contraturas e dores musculares. Tabela 1. Matriz de correlação entre as dimensões de Burnout e variáveis demográficas, laborais, psicossociais e sintomas de estresse * Correlação significativa em nível de 5% ** Correlação significativa em nível de 1% EE: Exaustão Emocional; DE: Despersonalização; RP: Realização Profissional Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 86-96 Síndrome de Burnout Com relação às variáveis quantitativas, de acordo com a Tabela 2, verificou-se que os sujeitos que têm filhos apresentam menor despersonalização e maior realização profissional. Os que trabalham somente na instituição pos- 91 suem maior realização profissional. Já os sujeitos que tiveram afastamento por problemas de saúde apresentam menor desgaste emocional, menor distanciamento da clientela e realização com o trabalho. Tabela 2. Relação entre dimensões de Burnout e variáveis qualitativas *Diferença significativa em nível de 5% EE = Exaustão Emocional; DE= Despersonalização; RP = Realização Profissional DISCUSSÃO Os resultados obtidos foram de maior índice médio em exaustão emocional, seguida pela dimensão de baixa realização profissional, sendo que a de menor índice foi despersonalização. Esse resultado pode indicar uma fase inicial do processo de Burnout, de acordo com o modelo processual de Maslach. Segundo o modelo, Burnout é um processo em que a exaustão emocional é a dimensão precursora, sendo a que, inicialmente, apresenta índices mais elevados. Essa situação pode ser agravada ao considerar-se o elevado número de sujeitos que não se dispuseram a responder o instrumento e os motivos informados. Alguns pesquisadores (Lee & Ashforth, 1993; Heus & Diekstra, 1999; Benevides-Pereira, 2002) levantam a possibilidade de que a alta taxa de não-respostas a instrumentos pelos quais se investiga a SB como um indicativo de alto nível de Burnout deva-se ao fato de que o indivíduo possa estar em tal estado de desgaste, que a situação de responder a uma pesquisa significa mais uma tarefa, considerada excessiva. No que diz respeito às variáveis demográficas, verifica-se que quanto menor a idade, maior é a exaustão emocional. Cherniss (1980) e Cordes e Douguerty (1993) entendem que profissionais jovens apresentam maiores níveis de SB devido ao seu entendimento irrealístico sobre o que podem ou não fazer, sendo, portanto, frequentes as frustrações profissionais. Segundo Maslach (1982), jovens precisam aprender a lidar com as demandas do trabalho e, por essa razão, podem apresentar maiores níveis de Burnout. Na literatura, não há uma concordância quanto à influência do tempo de exercício da atividade laboral no processo de Burnout, embora alguns autores acreditem que a pouca experiência na profissão poderia desencadear a SB, por não terem sido ainda desenvolvidas formas de enfrentamento adequadas à situação, ou ainda por fatores associados à pouca idade (Benevides-Pereira, 2002). Os sujeitos que têm filhos apresentam menor despersonalização e maior realização profissional. Estudos realizados por Maslach e Jackson (1981) e Bontempo (1999) encontraram Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 86-96 92 Almeida, Souza & Carlotto resultados semelhantes, visto que a vida familiar pode propiciar maior experiência em lidar com outras pessoas e seus problemas. Trabalhadores com filhos desenvolvem, em função de sua vida pessoal, mais paciência e desenvoltura para lidar com as pessoas que têm atender em seu trabalho (Maslach & Jackson, 1985). Pode-se pensar que, no caso da clientela atendida pelos profissionais da amostra, esse resultado seja relevante, pois o profissional interage com pessoas que apresentam problemas bastante sérios e de difícil resolução, não raras vezes tendo de desempenhar papéis sociais e familiares, como os de cuidado, proteção e acolhimento. Na análise das variáveis laborais, resultados indicam que os sujeitos que trabalham somente na instituição apresentam maior realização profissional. Esse resultado pode estar relacionado ao fato de, ao trabalharem somente na instituição, os profissionais podem visualizar melhor seus resultados, na medida em que se dedicam apenas a esse trabalho. Profissionais que atuam em uma única organização tendem a envolver-se e comprometer-se mais com os objetivos e organização de trabalho (Cornelius & Carlotto, 2007). Essa questão pode proporcionar uma maior identificação com o trabalho, seu significado, além de uma maior possibilidade de verificar o grau de impacto que seu desempenho causa nas pessoas às quais atende. A satisfação no trabalho, em todos os seus fatores, associou-se negativamente com a exaustão emocional. Quanto maior é a satisfação no trabalho, com o salário recebido, com as condições de higiene e segurança, com a supervisão recebida, com a possibilidade de promoção e de participação nas decisões da instituição, menor é o sentimento de desgaste emocional. O mesmo resultado foi encontrado com relação à despersonalização, com exceção do fator salário recebido. Já a realização profissional apresentou relação somente com a satisfação pelo conteúdo, aspecto intrínseco ao trabalho. Esse é um resultado que já vem sendo consolidado em vários estudos (Kahn & Carlotto, 2008; Jenaro-Río, Flores-Robaina & GonzálezGil, 2007; Silva & Carlotto, 2003). No entanto, cabe destacar que, no grupo estudado, somente a satisfação com o conteúdo do trabalho relaciona-se ao sentimento de desenvolvimento e realização no trabalho. Hackman e Oldham (1980) destacam a importância do conteúdo e significado do trabalho para a motivação interna e a realização profissional. Essa questão pode indicar questões vocacionais importantes nesse tipo de trabalhador, conforme refere Sávio (2008). Esse profissional é idealista, motivado e tem necessidade de acreditar que suas ações são significativas. Seu trabalho tem um sentido existencial (Pines, 2000). Nas duas casas de atendimento, os funcionários atendem à população de rua, oferecendo apoio à sua organização pessoal, fazendo abordagem nas ruas, convidando-a para entrar na rede de atendimento, tendo como objetivo de trabalho desenvolver, no público-alvo, a vontade de sair da rua e elaborar um novo projeto de vida. Nos abrigos, são oferecidos atendimentos noturno ou integral a adolescentes, adultos, idosos, famílias e crianças em situação de rua. Todos os fatores de estresse revelaram associação positiva com a exaustão emocional. Assim, na medida em que aumenta a percepção de que o tipo de trabalho, carga horária e escala realizada, tipo de público atendido, relação estabelecida com a chefia e com colegas, assim como conciliar trabalho e família são estressantes, aumenta a sensação de desgaste emocional pelo trabalho. O desgaste emocional, geralmente, está associado a fatores de estresse relacionados à sobrecarga de trabalho (Maslach & Jackson, 1981). O trabalho, nesse tipo de instituição e com esse público, é bastante complexo, pois envolve relacionamento intenso e frequente com pessoas que necessitam de cuidado e (ou) assistência. Os funcionários tendem a criar vínculos com os usuários devido ao papel que desempenham, pois têm de educar, impor limites e cuidar do seu bem-estar. Nesse contexto, convivem com o desemprego, falta de planejamento familiar, álcool, drogas, doenças, abusadores, abusados, violências, desesperanças, brigas, miséria, criminalidade, agressões verbais e físicas. Assim, os fun- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 86-96 Síndrome de Burnout cionários esperam alguma forma de retorno dos usuários em relação ao serviço prestado (gratidão, desejo de melhorar, colaboração, respeito) e raramente essas expectativas são satisfeitas, pois muitos usuários acreditam que cuidar é um dever deles. Bakker, Killmer, Siegrist e Schaufeli (2000) afirmam que o desequilíbrio entre os investimentos realizados e as recompensas recebidas se associa ao Burnout. Cherniss (1980) salienta que a tendência existente na sociedade moderna para a individualização e para a desintegração do tecido social conduz a um aumento da pressão nos serviços sociais e, por consequência, a um acréscimo da necessidade de os técnicos resolverem os problemas. Os clientes geralmente estão com problemas, com dificuldades de cuidarem de si ou experimentando algum tipo de dificuldade ou adoecimento. Esse foco em informações negativas faz com que a interação entre eles seja frequentemente carregada de fortes emoções, como constrangimento, medo, frustração, ressentimentos de ambas as partes. A regularidade desse tipo de relação torna o trabalhador assistencial vulnerável ao Burnout. A expectativa de obter bons resultados no atendimento ao cliente e não atingi-los, lidar situações graves e o intenso processo de empatia podem ser fatores estressantes que levem a Burnout (Maslach, 1978). Essas questões são importantes, pois, de acordo com Rublescki (1994), para o funcionário que trabalha em instituição semelhante de proteção e assistência, achar que está ajudando o usuário é uma maneira de obter satisfação e de tornar-se indiferente aos aspectos áridos do seu trabalho. Conforme Morales, Gallego e Rotger (2004), os obstáculos dos sistemas de proteção causam desgaste profissional em pessoas que trabalham com vítimas de diferentes tipos de violência, constituindo uma junção de estressores. Dessa forma, o estresse e o Burnout são comumente conhecidos para descrever as reações desses profissionais. O mesmo resultado ocorre com a despersonalização, com exceção do fator relacionamento com a chefia. Pode-se supor que a chefia 93 desempenhe um papel de suporte, não se constituindo em fator de estresse e gerador de distanciamento e impessoalidade. Suporte social envolve empatia, identificação, cooperação e interação harmoniosa com o outro. Trabalhadores que recebem de sua chefia feedback sobre o desempenho, elogiando e orientando suas atividades, apresentam menor possibilidade de desenvolver a SB (Gil-Monte & Peiró, 1996). Já a realização profissional somente apresentou relação com o tipo de público atendido, indicando que quanto maior é a percepção de que esse é um fator de estresse, menor é o sentimento de que o trabalho é fonte de realização. Em consonância com Maslach (1978), na relação entre profissionais que desenvolvem atividades de ajuda a seus clientes, o tipo de interação e o papel desempenhado pelo cliente possuem forte influência sobre o nível de estresse emocional do profissional. O tipo de problema do cliente, a natureza da relação entre eles, o papel de controle, a posição e a reação do ocupante do cargo são elementos do papel do cliente que contribuem para o desenvolvimento da SB. É importante destacar que, para muitos profissionais de ajuda, a oportunidade de auxiliar seus clientes é a principal razão de escolha da profissão, motivo de satisfação no trabalho e realização profissional. A totalidade dos sintomas de estresse investigada (agulhadas no peito, dores no estômago, crise de ansiedade, náuseas e vertigens, enxaqueca ou dor de cabeça, problemas de saúde relacionados ao trabalho, dificuldades para dormir, contraturas ou dores musculares) indicou associação positiva com a exaustão emocional e com a despersonalização; e negativa com a realização profissional. Nessa última, verificou-se que quanto menor a frequência de crise de ansiedade, náuseas e vertigens, enxaqueca ou dor de cabeça, dificuldades para dormir, contraturas ou dores musculares, maior é o sentimento de realização profissional. Harris (1998) assevera que profissionais com Burnout apresentam fadiga crônica e falta de energia, distúrbios de sono, aumento de tensão muscu- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 86-96 94 Almeida, Souza & Carlotto lar, pois fazem movimentos rápidos e acelerados, ocasionando operações negligentes que podem legitimar o afastamento do trabalho e o aumento da suscetibilidade a doenças. O estudo aponta para um quadro complexo de variáveis que pode prevenir ou ocasionar Burnout no grupo de trabalhadores investigado, principalmente variáveis demográficas, psicossociais e sintomas de estresse. Esse resultado aponta para ações importantes em termos de prevenção da SB. É necessário destacar que a literatura sobre Burnout em trabalhadores, nesse contexto, ainda é incipiente (Carlotto & Câmara, 2008), dificultando, desse modo, a comparação com outros estudos. Profissionais que atendem a clientela com sérios e graves problemas, pelas especificidades de seus trabalhos, devem ser inclusos na agenda de pesquisas sobre Burnout. Nesse sentido, torna-se importante a realização de novos estudos com outros delineamentos, variáveis e contextos de trabalho em instituições que atendam a essa clientela. O estudo apresenta algumas limitações que devem ser consideradas na análise de suas conclusões. A primeira limitação é que ele tem delineamento transversal, o que impede conclusões em termos de causalidade. É importante considerar o efeito do trabalhador sadio, questão peculiar em estudos transversais em epidemiologia ocupacional que, muitas vezes, exclui o possível doente (Mc Michael, 1976). Essa é uma situação que pode subestimar o tamanho dos riscos identificados, porque os mais afetados não conseguem manter-se no emprego, afastando-se por licenças para tratamento de saúde. A segunda é que são utilizadas apenas medidas de autorrelato, o que pode ocasionar algum viés devido à desejabilidade social que algumas questões abordam, no caso deste estudo, as questões relacionadas à dimensão de despersonalização, pois é difícil para o trabalhador admitir que se distancia e trata de forma impessoal as pessoas a que atende. Por fim, deve-se ter cautela com relação aos resultados obtidos neste estudo, pois são decorrentes de uma amostra não-probabilística, não sendo, portanto, passíveis de generalizações para outras instituições ou profissionais. REFERÊNCIAS Benevides-Pereira, A. M. T. (2001). A saúde mental de profissionais de saúde mental. Maringá: EDUEM. ______. (2002). Burnout: Quando o trabalho ameaça o bem estar do trabalhador. São Paulo: Casa do Psicólogo. Bakker, A. 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Administradora pela Universidade do Estado de Santa Catarina e Psicóloga pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestre e Doutoranda em Psicologia pela UFSC. [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/3523792206757754. 2. Doutora em Psicologia Clínica na França. Professora do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina. Bolsista Produtividade do CNPq. [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/0390877386572540. * Endereço para correspondência: LIOP - Laboratório de Informação e Orientação Profissional. Departamento de Psicologia - Centro de Filosofia Ciências Humanas. Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Caixa Postal 5194, CEP 88040-970, Florianópolis (SC). Resumo O presente artigo propõe reflexões sobre o papel da Psicologia na orientação para a aposentadoria e as novas possibilidades de atuação profissional do psicólogo. A discussão fundamentou-se na apresentação de três realidades vinculadas à população aposentada: as mudanças demográficas devidas ao aumento da expectativa de vida mundial, a deficiência evidente no atendimento às demandas da população aposentada e as novas tendências do processo de aposentadoria. O olhar da Psicologia para essas três realidades vincula-se à centralidade do trabalho na vida dos sujeitos e às diversas mudanças ocasionadas pela ruptura com as identificações do trabalho quando da aposentadoria. A partir das reflexões realizadas, propõe-se a ampliação das possibilidades de orientação psicológica para a aposentadoria, que consiste no acompanhamento psicológico durante toda a carreira dos sujeitos, levando-se em conta a trajetória profissional, as escolhas realizadas ao longo da vida, a satisfação pessoal ou não em sua atuação. Palavras-chave: aposentadoria, psicologia, atuação profissional, orientação. Abstract Psychological Guidance for Retirement This paper proposes on the role of psychology in the Guidance for Retirement and the new possibilities of action of such professionals. The discussion was based on the presentation of three realities to the retired population: demographic changes due to increased life expectancy worldwide, the apparent deficiency in meeting the demands of retirees and new trends in the retirement process. The look of Psychology for these three realities linked to the centrality of work in the lives of individuals and the various changes caused by the rupture identification about the work when he retired. From the reflections, it is proposed to expand the possibilities of Psychological Guidance for Retirement, which consists of counseling throughout the career of the subject, taking into account the career, the choices made throughout life, personal satisfaction or not of their own. Keywords: retirement, psychology, professional performance, guidance. Bogoni & Soares. Orientação Psicológica para a Aposentadoria Recebido em: 09.07.2009 Aprovado em: 19.02.2010 Publicado em: 22.03.2010 98 Bogoni & Soares E ste artigo foi elaborado com o objetivo de trazer reflexões sobre o papel da Psicologia na orientação para a aposentadoria e propor novas possibilidades de atuação profissional do psicólogo nessa área. Abordar o tema aposentadoria requer a discussão de alguns aspectos e cenários que com ele se entrelaçam, aqui delimitados pelos aspectos demográficos, socioeconômicos e pela própria relação identitária do homem com o trabalho, a partir dos quais o contexto da aposentadoria e de ser aposentado é construído. Primeira realidade: mudanças demográficas devido ao aumento da expectativa de vida mundial. A população idosa mundial apresenta um crescimento nunca antes visto na história. Estima-se haver 476 milhões de pessoas com 65 anos ou mais de idade (Lima-Costa, Matos & Camarano, 2006). No Brasil, os censos demográficos de 1991 e 2000 mostraram a diminuição da mortalidade e da fecundidade, delineando um novo padrão com predominância da população adulta e idosa para a próxima metade deste século e indicaram um crescimento da população com 65 anos ou mais na ordem de 3,98% no período da pesquisa (IBGE, 2008). Em 2008, o IPEA publicou levantamento onde se evidencia a aproximação da expectativa de vida população brasileira aos números de países desenvolvidos e, segundo os dados, projeta-se que a população brasileira com 60 anos ou mais duplicará entre 2007 e 2025, ou seja, em um período de dezoito anos. Comparativamente, esse mesmo aumento ocorreu ao longo de 140 anos na França e em 86 anos na Suécia. Esses dados corroboram, também, as projeções das Nações Unidas as quais indicam que, em 2050, 23,6% da população brasileira será de adultos idosos, e o Brasil será um dos cinco países do mundo com mais de 50 milhões de idosos (Paskulin & Vianna, 2007). Ainda, o número de centenários, pessoas que atingem um século de vida ou mais instigam profissionais da área da saúde em estudos sobre longevidade, que têm crescido em grande escala nos últimos anos. Ao mesmo tempo em que a expectativa de vida aumenta, aumentam também os benefícios concedidos pela Previdência Social Brasileira. No período entre 2000 a 2008, o total de benefícios concedidos cresceram em mais de 40%. Atualmente, 87,45% dos benefícios concedidos pelo Regime Geral de Previdência Social1 são relativos a aposentadorias por idade, por tempo de contribuição e por invalidez. Interessa, neste artigo, as aposentadorias concedidas por idade2 e tempo de contribuição3 (INSS, 2008). A partir desses dados, observa-se que, devido ao aumento da expectativa de vida, as pessoas têm permanecido na condição de aposentadas por um significativo período de suas vidas. Comparativamente às previsões de expectativa de vida, alguém aposentado aos 55 1 Há dois sistemas de previdência no Brasil, o estatal e o privado. Na previdência estatal, obrigatória para todos os trabalhadores, há dois regimes: 1) o Regime Geral de Previdência Social (RGPS), operado pelo Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) para os trabalhadores da iniciativa privada e os funcionários públicos não-concursados, e 2) os regimes especiais, para servidores públicos concursados, militares e membros dos poderes Judiciário, Legislativo e Executivo, entre outros. 2 Têm direito ao benefício de aposentadoria por idade os trabalhadores urbanos do sexo masculino aos 65 anos e do sexo feminino aos 60 anos de idade. Os trabalhadores rurais podem pedir aposentadoria por idade com cinco anos a menos: aos 60 anos, homens, e aos 55 anos, mulheres. Para solicitar o benefício, os trabalhadores urbanos inscritos a partir de 25 de julho de 1991 precisam comprovar 180 contribuições mensais. Os rurais têm de provar, com documentos, 180 meses de trabalho no campo. 3 Para ter direito à aposentadoria integral por tempo de contribuição, o trabalhador homem deve comprovar pelo menos 35 anos de contribuição e a trabalhadora mulher, 30 anos. Para requerer a aposentadoria proporcional, o trabalhador tem de combinar três requisitos: tempo de contribuição, pedágio e a idade mínima. Os homens podem requerer aposentadoria proporcional aos 53 anos de idade e 30 anos de contribuição (mais um adicional de 40% sobre o tempo que faltava em 16 de dezembro de 1998 para completar 30 anos de contribuição). As mulheres têm direito à aposentadoria proporcional aos 48 anos de idade e 25 de contribuição (mais um adicional de 40% sobre o tempo que faltava em 16 de dezembro de 1998 para completar 25 anos de contribuição).Para os segurados inscritos até 24/07/91 que implementaram todas as condições para se aposentar no ano de 2006, a carência exigida é de 150 contribuições. Essa carência aumenta em 6 contribuições a cada ano (sendo de 156 em 2007, 162 em 2008 e assim por diante, até chegar a 180). Para os segurados inscritos após 24/07/91, a carência é sempre de 180 contribuições mensais. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 97-108 Orientação Psicológica para a Aposentadoria anos de idade terá, pelo menos, mais 20 anos de vida. Mas, quais as condições do aposentado que, hoje, vive mais? Se, por um lado, as perspectivas demográficas e a evolução crescente do número de benefícios concedidos impressionam, a comparação do Brasil com França e Suécia em padrões socioeconômicos, por outro lado, traz sérias preocupações no que tange ao atendimento das necessidades da população com 60 anos ou mais. Os desafios a enfrentar são especialmente econômico-previdenciários, em que se destaca o valor ínfimo dos benefícios de aposentadoria e a manutenção do sistema previdenciário público, de saúde e a estrutura das cidades. Desses desafios, constrói-se uma segunda realidade: a deficiência de atendimento às demandas da população aposentada. Verifica-se que mesmo os atuais adultos jovens não têm dado a importância necessária aos indicadores de expectativa de vida, no sentido de intensificar as discussões e o planejamento sociogovernamental com o objetivo de propiciar o atendimento às necessidades resultantes dessa mudança populacional. Terceira realidade: novas tendências do processo de aposentadoria. Percebe-se, aqui, a existência de uma dicotomia: a situação da previdência pública que, em muitos países, não atende à condição mínima do aposentado, fazendo com que ele continue a trabalhar formal ou informalmente para a manutenção da vida. Entretanto, há os que têm condições de se aposentar com uma boa renda e poderiam deixar de trabalhar, mas sentem dificuldade em fazê-lo, por não encontrarem outros lugares, em suas vidas, desvinculados do trabalho. Trata-se aqui da própria relação do homem com o trabalho, que se pretende dar enfoque neste artigo. O entendimento das realidades que envolvem a população aposentada é fundamental ao psicólogo que pretende trabalhar com questões relativas à aposentadoria. Em resumo: 99 tempo na condição de aposentadas, embora, com a aposentadoria, a situação econômica e de serviços básicos não seja a melhor; 3) muitos aposentados continuam trabalhando para garantir a qualidade de vida, embora existam aqueles que, mesmo alcançando uma boa renda, ao se aposentar, sentem dificuldade de se afastar das atividades laborativas devido às mudanças psicológicas que aposentadoria costuma trazer. A primeira e a segunda realidade acabam se justificando por meio dos dados estatísticos e pelas tendências apresentadas. Poder-se-ia dizer que já são realidades em si. Entretanto, o entendimento da terceira realidade, especificamente quanto à dificuldade de desvinculação do trabalho, requer olhar atento para o lugar do trabalho e sua influência na constituição da identidade humana, para o lugar da aposentadoria na visão do homem contemporâneo, bem como para seus significados construídos socialmente. TRABALHO E APOSENTADORIA: OLHAR DA PSICOLOGIA A valorização do trabalho, na sociedade atual, necessita de análise em uma dupla dimensão. Antunes (2006) afirma que, se, por um lado, o trabalho emancipa, de outro, também pode alienar; se tem capacidade para libertar, pode, igualmente, escravizar. Esses aspectos remetem a uma questão crucial de dar sentido ao trabalho humano e tornar a vida fora do trabalho também dotada de sentido. De acordo com Diogo e Coutinho (2006), as mudanças do setor produtivo, como a extinção de postos de trabalho, a estrutura que não absorve a todos os trabalhadores, o desemprego, entre outras facetas, não permitem a investigação da realidade sem realizar um movimento entre o todo e as partes e sem considerar a contradição como essencial. A discussão sobre a centralidade do trabalho para o homem e para a sociedade é 1) as pessoas estão vivendo mais tempo; polêmica. Há estudiosos que a defendem e 2) há mais aposentadorias sendo concedidas e, entendem o trabalho como fundamental, por isso, as pessoas estão vivendo mais enquanto outros contrariam essa posição, ao Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 97-108 100 Bogoni & Soares preconizarem o fim do trabalho. Dentre os que assumem a posição de concordar com a centralidade do trabalho, seguindo a concepção marxista, destacam-se Antunes (1995, 2005), que discute e reafirma a importância da categoria trabalho para a sociedade atual, e Codo (1997), ao tratar dos significados complexos produzidos na transformação do homem e da natureza promovida pelo trabalho e das dificuldades quando do rompimento com esses significados. Offe (1985), Gorz (1987) e Habermas (1983) opõem-se ao entendimento de que o trabalho é central para o homem. Offe (1985) entende o trabalho como não sendo mais estruturante da sociedade e norteador das relações sociais, devido à perda de sua coerência, de sua unidade, resultado da diversidade de formas com que se apresenta. Compartilha do mesmo pensamento Gorz (1987), com o entendimento de que o trabalho adquire caráter acidental e provisório, basicamente devido à automação e à informatização, constituindo trabalhadores que realizam tarefas indiferentes. Já Habermas (1983) apregoa que somente por meio da categoria trabalho social ou da razão instrumental não é possível se especificar a forma de vida humana, e essa especificação não se dá a partir de uma ontologia, mas sim a partir de uma antropologia. A abordagem teórica deste artigo se ampara na concordância de que o trabalho ocupa lugar de centralidade na vida humana. Inclusive, parte-se desse entendimento para justificar as dificuldades de os sujeitos lidarem com as rupturas quando da aposentadoria. A temática importância da categoria trabalho para a sociedade atual é abordada por Antunes (1995), a partir de dois questionamentos principais. Primeiro: “a categoria trabalho não é mais dotada de estatuto de centralidade, no universo da práxis humana existente na sociedade contemporânea?” Segundo: “o trabalho não é mais estruturante de uma nova forma de sociabilidade humana?” (p. 10). As conclusões do autor são negativas frente a tais questionamentos, ou seja, é reafirmada a importância da categoria trabalho para o homem e para a sociedade. Antunes (2005) continua a discussão acerca da relevância do trabalho e defende a tese do seu não-desaparecimento. Afirma que o desafio é o de se compreender o mosaico de formas como se configura a classe trabalhadora atual, considerando o seu caráter polissêmico e multifacetado. Apresenta uma conformação da classe-que-vive-do-trabalho atualmente como sendo mais complexa, heterogênea e fragmentada. A partir dessa visão de conformação do trabalho, considera-se importante compreender a distinção entre trabalho e emprego, sendo que o primeiro vincula-se às atividades de produção, remuneradas ou não, e o segundo, às atividades remuneradas realizadas por meio de contrato legal. Nessa compreensão, o trabalho engloba o fato de se ter ou não se ter um emprego e está presente no cotidiano das pessoas com o poder de transformar as relações humanas e de ser transformado por essas relações, enquanto o emprego pode ou não ter essa relação (Morin, 2001). No caso da aposentadoria, comumente se evidencia, em decorrência da perda do trabalho, a dificuldade de os sujeitos vislumbrarem outras atividades de produção (remuneradas ou não), permeadas de sentido para si próprios e de sentido social (Soares & Bogoni, 2008). A importância e a valorização dada ao trabalho pelo homem se justificam no entendimento de que ele se constitui em uma de suas principais fontes de significados. Segundo Zanelli e Silva (1996), por meio do trabalho, o indivíduo reconfigura a percepção de si mesmo e do seu ambiente, possibilitando, com isso, seu crescimento e desenvolvimento pessoal. O trabalho é, pois, uma categoria central não somente para a organização da vida social, mas também na dimensão psicológica, pois é fundamental para os processos de autodescrição e autoavaliação. Compartilham desse entendimento, Soares e Bogoni (2008), ao afirmarem que o trabalho constitui-se como Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 97-108 Orientação Psicológica para a Aposentadoria determinante para a organização e inserção social e está articulado às relações humanas, intrínseco à constituição da própria identidade do homem. Por isso, o lugar do trabalho na vida humana é privilegiado de tal maneira, que o homem é, muitas vezes, reconhecido pelo que faz, identificado pelas marcas da profissão. Acerca da participação central do trabalho na constituição da identidade, evidencia-se o ambiente social como estruturante, tendo em vista ser por meio das instituições que se dá a participação do sujeito em grupos sociais com o estabelecimento de papéis, o reconhecimento ou não, a satisfação e a realização pessoal. E ainda: o valor econômico que resulta desse trabalho consiste em segurança e independência para os sujeitos (Santos, 1990). Além disso, as vivências compartilhadas entre os trabalhadores abrangem dimensões cognitivas, afetivas e políticas, possibilitando a construção de representações de si diretamente ligadas às situações e relações de trabalho, que consistem na percepção do sujeito de si próprio, ou seja, são atributos definitórios de um “eu”, de articulação com a construção da identidade (Jacques, 2002; Garcia, 2005; Veronese, 2007). Na contemporaneidade, para entender a identidade a partir do trabalho, é preciso ter em mente tratar-se de relações complexas, devido à diversidade de formas com que o trabalho é criado e recriado a todo o tempo. Nessa diversidade, novas formas têm impactado nos modos de vida, como o teletrabalho, os contratos de trabalho temporários e de terceirização, o desemprego estendido por longos períodos e as mudanças frequentes de tipo e local de trabalho (Garcia, 2005). Se, por um lado, essas formas têm vinculação com as formas de emprego, de outro, transitam e modificam o próprio conceito de trabalho. Para Coutinho et al. (2007), as intensas modificações no desenho do trabalho a partir da prevalência do valor econômico com características como precariedade, vulnerabilidade e fragmentação resultam em dificuldades na identificação dos sujeitos com sua atividade, e, por consequência, na construção das identidades profissionais. 101 Continuando nessa linha de pensamento, muitos autores afirmam tratar-se de um momento em que o trabalho está em crise e obstáculos são impostos aos sujeitos (Antunes, 1995; Frigotto, 2002; Garcia, 2005; Vieira, 2007). Se a conformação do trabalho está em frequente mutação, é certo que as identificações dos sujeitos também passam por transformações. Entretanto, por melhor ou pior que esteja o mundo do trabalho, as influências e a importância dessa categoria para os sujeitos continua a ser central. Para compreender as implicações da mudança, faz-se necessário repensar as articulações entre trabalho e identidade no passado e buscar novas compreensões para o presente e o futuro. Admitida a centralidade e a importância do trabalho para os sujeitos, mesmo face às mudanças conjunturais contemporâneas, a aposentadoria pode resultar na perda de identificações, ou em uma ruptura identitária. É possível “reorganizar” a identidade? O que representa a aposentadoria na trajetória identitária do sujeito, como o vivenciar da perda de papéis? A saída do mundo do trabalho quando da aposentadoria implica diversas mudanças na vida do sujeito, pois que, explica Santos (1990), tal fato representa, ao mesmo tempo, a perda do lugar no sistema de produção, a necessidade de reorganização espacial e temporal (tempo e lugar de trabalho e tempo e lugar não-trabalho) e de reestruturação da identidade. Nesse sentido, a aposentadoria, argumenta a autora, sempre vem acompanhada de: perdas de estratégias devido ao afastamento de comportamentos habituais, já organizados e conhecidos pelo sujeito; perdas de poder e reconhecimento; e perdas da identidade socioprofissional, ou seja, da profissão e de relacionamentos. Mas quais os significados de aposentadoria? A análise etimológica da palavra aposentadoria apresenta sua vinculação a duas ideias centrais. A primeira é a de retirar-se aos aposentos, de recolher-se ao espaço privado de não-trabalho, sendo tal compreensão associada Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 97-108 102 Bogoni & Soares ao status depreciativo de inatividade e abandono que, muitas vezes, envolvem o tema. A segunda ideia é a de jubilamento, que acarreta uma perspectiva otimista, com uma conotação de prêmio, recompensa e contentamento (Carlos, Jacques, Larratea & Heredia, 1998). Normalmente, devido à perda de referência do trabalho, a aposentadoria é compreendida de forma contrária à significação de júbilo. Não esquecendo o lugar de onde se fala, muma sociedade capitalista, o aposentar-se tende a ser acompanhado por valores negativos como inutilidade, incapacidade e envelhecimento. Por conseguinte, o aposentado é quem não possui mais utilidade para a manutenção do sistema produtivo. Ao aposentar-se, o individuo experiencia um processo de inatividade, isto é, precisa lidar com perdas, com oconflito de sentir-se produtivo e capaz e, por outro lado, com o estigma da nãoação cobrado pela sociedade, onde o aposentado é aquele que não precisa fazer nada. “Assim, o aposentado vê-se desprovido de um lugar e, ao mesmo tempo, é substituído por alguém com todas as capacidades que ele foi obrigado a abdicar ou teve que reprimir” (Soares, 2002, p.36). Rodrigues (2000) corrobora essa discussão ao afirmar a existência de dois pontos fundamentais nas definições de aposentadoria: a inatividade após um tempo de serviço e a remuneração por essa inatividade. Qualquer que seja a definição, a presença da palavra “inatividade” conduz a reflexão acerca do lugar social do aposentado em uma sociedade onde o produzir é muito valorizado. Zanelli e Silva (1996) consideram o termo “inativo” equivalente à asserção “se você não mais trabalha, deixa de ter importância”. Por isso, o aposentar-se costuma ser acompanhado pela marca social do envelhecimento e se ampara na visão de homem socialmente inútil. Na mesma compreensão, Santos (1990) contribui ao tratar a inatividade como sinônimo de vazio, vinculada à ideia de morte. Diante disso, há reconhecimento para as pessoas na condição de aposentadas? Witczak (2005) afirma não se falar em mundo da aposentadoria como espaço socialmente reconhecido, mas simplesmente em aposentados. Devido a essa falta de “lugar”, os aposentados habitam “lugares” inexistentes ou não-reconhecidos. Zanelli e Silva (1996) comparam a aposentadoria com o “descarte da laranja”, um “papel sem papel”, devido à perda de posição, dos amigos e do núcleo de referência, a transformação dos valores, das normas e das rotinas... Enfim, coloca-se em xeque a identidade. Fala-se, frequentemente, em mundo do trabalho, mas não se ouve falar em mundo da aposentadoria ou do não-trabalho devido à aposentadoria. Então, qual o lugar das pessoas nessa condição? O direito à aposentadoria, por outro lado, sempre esteve presente nas lutas da classe trabalhadora, e não há como negar que o desejo do júbilo se constitui em uma espera para muitos. Dessa forma, Rodrigues (2000) apresenta uma contradição no entendimento da instituição social aposentadoria, pois, de um lado, alguns a vivem como um tempo de liberdade, de possibilidade de realizações e de fazer aquilo que não teve tempo de fazer durante o tempo em que trabalhava; de outro lado, outros a consideram como um tempo de nostalgia e de enfado. Tal contradição é difícil de enfrentar, especialmente quando não ocorre uma preparação na trajetória do sujeito para a aposentadoria, ou não se busca compreender suas implicações. Para esses, segundo Carlos et al. (1999), o que se constata é a ocorrência de uma “dupla aposentadoria” no plano subjetivo: a primeira é a legal, por tempo de serviço, e a segunda, nem sempre com reconhecimento oficial, mas determinada, em geral, pelos limites impostos pelo corpo (doença ou idade) e pelo processo de exclusão do mundo do trabalho. Ainda acerca das contradições, para Santos (1990), o afastamento do trabalho em razão da aposentadoria costuma gerar sentimentos ambíguos, uma vez que o sujeito se depara tanto com o sentimento de liberdade quanto com o de crise. A autora apresenta duas formas, geralmente Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 97-108 Orientação Psicológica para a Aposentadoria concomitantes, de lidar com esse evento: liberdade, sentimento resultante da busca pelo prazer em atividades de lazer e concretização de planos anteriormente impossíveis de realização; crise, pela recusa em aceitar a condição de aposentado, especialmente pela imagem estigmatizada de ser inativo, conferida por tal condição. Witczak (2005) emite opinião semelhante, ao afirmar que os sentimentos são antagônicos com relação à saída definitiva do mundo do trabalho: por um lado, as pessoas sentem-se libertas do relógio e, por outro, pesalhes a falta da rotina de tantos anos. Assim, falar em aposentadoria é falar em uma transição de perdas e ganhos que dependerá da perspectiva individual e social que for percebida e sentida. Entretanto, há explicações para as ambiguidades? Durante vários anos, o sujeito aprende a dividir seu tempo entre o trabalho e o nãotrabalho (descanso, lazer, esportes etc.) e, de um momento para outro, só lhe resta o tempo de não-trabalho. Nesse sentido, continuando a falar em ambiguidades, a imagem da aposentadoria tende a alternar-se entre o descanso, a liberação do trabalho e a possibilidade de ser mais feliz, e a aposentadoria como vagabundagem, vazio e solidão. Conforme Santos (1990) e França (2008), normalmente as pessoas não têm o hábito do tempo livre. Então, mesmo os aposentados mais favorecidos economicamente tendem a não descobrir novos interesses. Para muitos sujeitos, trabalhar é igual a viver, a única atividade útil, pois as demais são perda de tempo e desperdício. Nesse contexto, a ruptura com as identificações do trabalho ocasiona diversas mudanças na vida do sujeito e, por vezes, elas contribuem para o aparecimento de problemas psicológicos (Super & Junior, 1980; Zanelli & Silva, 1996; Amarilho, 2005; Witczak, 2005; França, 2008). Para muitos, a aposentadoria significa a perda do sentido dos objetivos, da rotina que organiza a vida e do papel que concede a uma pessoa um lugar na sociedade (Super & Junior, 1980). Se efetuada de modo abrupto, sem planejamento, torna-se um momento fortemente propício a episódios amargos. Por isso, são 103 comuns relatos de separações conjugais, doenças severas e até suicídios nos primeiros anos ou meses da aposentadoria. Normalmente, as perspectivas de futuro são permeadas por desinformação e resignação, bem como por temores frente aos problemas e ameaças que virão (Zanelli & Silva, 1996). Além disso, a expectativa de afastamento, ou o parar de trabalhar, está diretamente relacionada ao sentimento de fim da vida. Se trabalhar é viver, a vida sem trabalho denota finitude, simbolizando a impossibilidade de continuar interagindo, participando, vivendo em sociedade (Amarilho, 2005; Witczak, 2005; França 2008). Entretanto, entende-se que a aposentadoria não deve ser vista como o fim dos projetos, mas sim como um recomeço no qual a dimensão temporal da identidade alterada precisa ser reestruturada. Para tanto, é necessário resgatar outras atividades, as quais podem, inclusive, propiciar mais prazer do que as anteriores, estabelecer novos laços afetivos, descobrir ou redescobrir desejos, enfim, ter novos projetos de futuro. O papel do psicólogo como orientador, durante a carreira do sujeito e no momento da aposentadoria, adquire fundamental importância. Witczak (2005) aborda as dificuldades encontradas na aposentadoria e aponta para a necessidade de acompanhamento psicológico. Para o autor, a passagem de “trabalhador” para “aposentado” é como desembarcar na Lua. Afirma que, ao ingressar no mundo do trabalho, a maioria das pessoas possui grandes projetos: pretende constituir família, comprar uma casa, progredir profissionalmente, etc. Tais projetos se concretizam ou não. Ao se aposentar, no entanto, os planos da juventude, na medida do possível, estão realizados, e o presente assume outra dimensão: identificar-se com o que passou. Por esse motivo, na aposentadoria, comumente torna-se mais difícil projetar o futuro, e o sentimento de desamparo e de ruptura com o estabelecido é pesado e penoso, tendo em vista que, para muitos, o ambiente de trabalho é um verdadeiro lar. Nesse contexto, o trabalho psicológico de orientação para a aposentadoria é necessário como forma de valorizar o sujeito Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 97-108 104 Bogoni & Soares nesse novo momento e mostrar-lhe outras alternativas saudáveis de projetos de vida, para além das representações do mundo do trabalho. UMA PROPOSTA: A ORIENTAÇÃO PSICOLÓGICA PARA A APOSENTADORIA França (2008) observa o quão raro é alguém se preparar para o futuro na aposentadoria e, no caso dos brasileiros, ainda é pior, devido à cultura do imediatismo. Entretanto, a falta de preparação para a aposentadoria é uma realidade capaz de levar muitas pessoas do trabalho (lugar conhecido) diretamente para um lugar desconhecido. Mas o que se tem feito para alertar as pessoas e incentivar a busca de orientação para a aposentadoria? A realização de alguns eventos nivelem âmbito mundial fomentaram estudos e atividades sociogovernamentais sobre aspectos relativos ao envelhecimento e à aposentadoria. Na Espanha, quando da realização do Congresso de Gerontologia em 1974, definiu-se a necessidade de serem desenvolvidas atividades de orientação para a aposentadoria nos últimos cinco anos de vida laborativa, com o objetivo de orientar os sujeitos para novas atividades e para o mercado de trabalho, bem como para questões relacionadas à saúde e às dificuldades que poderão ocorrer no período pós-aposentadoria (Muniz, 1997). Após esse evento, as discussões tiveram continuidade, a exemplo das Assembleias Mundiais sobre o Envelhecimento, em Viena, no ano de 1982, considerada como um marco para o estabelecimento de políticas públicas para a população idosa, e em Madri, no ano de 2002, quando foi elaborado um plano de ação com a definição de prioridades a serem implementadas em âmbito mundial quanto à promoção da saúde e do bem-estar para todo o ciclo da vida, a criação de contextos e políticas orientadas para a família e a comunidade como bases para um envelhecimento seguro (Pessini, 2002). No campo de atuação da Psicologia, os Programas de Preparação para Aposentadoria (PPAs) ainda são a iniciativa mais conhecida e com maior histórico. Quando os PPAs tiveram inicio, a abordagem voltava-se especialmente para questões relativas a investimentos, promoção de saúde, uso do tempo e algumas considerações familiares, em encontros de curta duração. Atualmente, esses programas são realizados de dois a cinco anos antes da aposentadoria, com encontros periódicos, normalmente mensais, e conteúdos em que são abordados temas como educação, trabalho e produtividade. Outra característica é o interesse cada vez maior de trabalhadores mais jovens nos programas e no tema (França, 1999). No Brasil, os PPAs tiveram como precursor o SESC de São Paulo, com a realização de palestras, seminários e troca de informações sobre a questão do envelhecimento, de recursos socioculturais e de serviços à comunidade (Magnani, Mendes, Mello, Barbosa & Bueno, 1993, citado por Muniz, 1997). Numa busca realizada em endereços eletrônicos das entidades de previdência complementar fechada do Brasil, os quais estão disponíveis no site da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Privada (ABRAPP), foram verificadas poucas indicações quanto à existência de PPAs como projetos de empresas, pois, das 263 entidades de previdência pesquisadas, apenas trinta e duas mencionavam, em seus endereços eletrônicos, a realização de atividades vinculadas à preparação para a aposentadoria. Muitas empresas não disponibilizam essas informações em seus sites, o que pode indicar uma carência de tais programas. Diante disso, recentemente, psicólogos da área de Orientação Profissional (OP)4 têm se envolvido mais diretamente na realização de estudos e na orientação grupal para a 4 A Orientação Profissional (OP) é um campo de atuação em Psicologia, vinculado a Psicologia da Educação e à Psicologia do Trabalho. Em algumas abordagens, costumou-se vincular a OP às Técnicas Psicométricas, com o intuito de colocar o "homem certo no lugar certo". O desenvolvimento teórico e prático mais intensivo da OP iniciou-se no século XX. Teve destaque nos Estados Unidos, quando da Segunda Guerra Mundial, onde homens eram selecionados e classificados para servir às forças armadas. Adiante, com a Teoria Desenvolvimentista, de Ginzberg, construiu-se a ideia de que a escolha vocacional inicia-se no final da infância e encerra-se no início da idade adulta, possibilitando novos estudos na área da Psicologia Vocacional (Levenfus, 1997). Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 97-108 Orientação Psicológica para a Aposentadoria aposentadoria. Trata-se de uma proposta de atuação semelhante à dos Programas de Preparação para Aposentadoria, os tradicionais PPAs, embora envolvam as técnicas e a metodologia de acompanhamento psicológico características da OP. Essa atuação é consequência dos estudos desenvolvidos pelos profissionais de OP nas últimas décadas, o que tem resultado em uma nova abordagem da OP em trabalhos voltados aos momentos de escolha profissional na vida dos sujeitos. Conforme Carvalho (1995), além da vinculação à Psicologia da Educação e à Psicologia do Trabalho, a OP têm se desenvolvido no campo da escolha de uma profissão e da re-escolha. Trata-se de uma nova maneira de pensar a OP, na qual se trabalha com a ideia autonomia de escolhas. Definida como o processo pelo qual o indivíduo é ajudado a escolher e a se preparar para entrar e progredir numa ocupação, a OP propicia o desenvolvimento do autoconhecimento, aplicando essa compreensão às ocupações (Super & Junior, 1980). Na situação de escolha, deve-se estar consciente de que a liberdade humana precisa ser uma liberdade situada, não modelada adaptativamente, tampouco alienada em um sistema pré-determinado (Bohoslavsky, 1998). Assim, chegou-se a uma compreensão mais ampla da OP como um trabalho psicológico com o objetivo da “facilitação das escolhas” no âmbito profissional (Soares, 2002). As iniciativas de pesquisar e trabalhar com questões psicológicas relativas à aposentadoria, entretanto, ainda são raras5, apesar da demanda por essa atuação apresentar tendência de crescimento, justificado pelas três realidades discutidas no inicio deste texto, 105 especialmente pela dificuldade de os sujeitos se adaptarem ao novo momento de vida. Dessa forma, se, por um lado, os poucos programas de preparação são facilitadores, os psicólogos que atuam nessas atividades não podem entendê-los como a única forma de intervenção. Recentemente, houve um avanço da legislação nesse sentido, ao ser previsto, no Estatuto do Idoso, Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, artigo 28, que a preparação para a aposentadoria é uma obrigação a ser estimulada pelo poder público. Quanto ao tempo para o planejamento da aposentadoria, concorda-se com França (2008), ao compreendê-lo como um processo de educação continuada, relacionado com o planejar da vida e, portanto, que deve ser do interesse de pessoas de todas as idades. Acredita-se no desenvolvimento da orientação para a aposentadoria como um trabalho de longo prazo, com o planejamento para o futuro, a discussão sobre as maneiras de lidar com perdas, a manutenção de projetos de vida e o resgate de sonhos passados, a fim de transformá-los em novos projetos, a partir das escolhas dos sujeitos. A partir dessa compreensão, a proposta de trabalho para a Psicologia torna-se mais ampla, com acompanhamento ao longo da carreira dos sujeitos e envolvimento sócio-organizacional: das empresas e organizações de trabalho, com a atuação no desenvolvimento de atividades de planejamento da carreira, orientação em grupos sobre os sentidos do trabalho e o que é o não-trabalho, a qualidade de vida no trabalho, bem como a elaboração e disseminação de programas de preparação para a aposentadoria. Entende-se que o psicólogo, em especial com formação em Orientação Profissional, possui preparo para a 5 Tal afirmação é fundamentada por busca realizada em 11/07/2009, em endereços eletrônicos com bases de dados de produção científica Index Psi Periódicos Técnico-Científicos, Index Psi Periódicos de Divulgação Científica, Index Psi Teses, LILACS - Literatura Latinoamericana e do Caribe em Ciências da Saúde, PEPsic - Periódicos Eletrônicos em Psicologia e Scielo, com a combinação das palavras-chave: aposentadoria, preparação, Psicologia. Primeiramente, com as palavras aposentadoria e preparação, a busca obteve um total de dez resultados, sendo quatro referentes à temática do envelhecimento humano e seis direcionados à preparação para aposentadoria, dos quais se destacam, devido à vinculação também com a Psicologia, os estudos de França (1999) e de Rodrigues (2000). Combinando-se os descritores aposentadoria e psicologia, obteve-se um total de quarenta e quatro estudos (dos quais quatro iguais ao da primeira busca), cujas temáticas, na grande maioria, são voltadas para as questões relativas à saúde do idoso e envelhecimento. Destacam-se, desse grupo, os estudos de Witczak (2001), de Amarilho (2005), de Both (2004) e Soares & Bogoni (2008), por terem relação com esta proposta de trabalho. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 97-108 106 Bogoni & Soares realização desse tipo de acompanhamento ao longo da carreira dos sujeitos. da sociedade e organizações governamentais, para a elaboração de políticas públicas que visem à qualidade de vida após a aposentadoria, com a busca de conscientização sobre a necessidade de melhorias nas estruturas que atendem à população aposentada e idosa, como, por exemplo, a identificação de necessidades na estruturação das cidades, e realização de projetos voltados para educação e cultura, e projetos preventivos de saúde e bemestar social, preparando a sociedade para lidar com aposentados (de meia idade e idosos). das famílias, onde o psicólogo pode atuar em terapias direcionadas ao grupo familiar quando ocorre a aposentadoria, para a redefinição de lugares, em especial para minimizar as dificuldades conjugais que tendem a ser uma das preocupações tanto de homens quanto de mulheres. Além disso, pode auxiliar no planejamento de novas atividades, na descoberta e redescoberta de possibilidades de realização pessoal. das universidades, onde docentes e estudantes podem realizar trabalhos de pesquisa sobre aposentadoria e o tema pode estar presente nos currículos da graduação, como forma de construir os fundamentos da atuação profissional em Psicologia. A essa proposta de atuação da Psicologia para a aposentadoria, com o acompanhamento de carreira realizado durante toda a vida dos sujeitos, mediante envolvimento da família, da sociedade, das empresas, de órgãos governamentais e de universidades, denominouse de Orientação Psicológica para a Aposentadoria. Assim, a Orientação Psicológica para a Aposentadoria não visa apenas a tratar dos “sintomas” ou doenças que surgem de aposentadorias mal sucedidas. Objetiva, primeiramente, atuar de forma preventiva, trabalhando os aspectos psicológicos de evolução da carreira, percebendo cada sujeito como diferente, pois cada um alcançará o momento da aposentadoria de forma desigual. Portanto, a Orientação Psicológica para a Aposentadoria comporta novas possibilidades de atuação e volta-se para a criação de condições objetivas de se trabalhar com maior abrangência e qualidade as questões que envolvem a aposentadoria. REFERÊNCIAS Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência – ABRAPP. Link Entidades Associadas. Retirado em 01/06/2009 no World Wide Web: www.abrapp.org.br. Amarilho, C. B. (2005). As Implicações da Perspectiva de Afastamento do Trabalho e Projeto de Vida no Discurso do ExecutivoEmpreendedor-Idoso. Dissertação de mestrado não publicada. Instituto de Psicologia, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS. Antunes, R. (1995). Adeus ao trabalho? 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[email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/5833453038151889. 3. Pós-Doutora pelo Conservatoire National des Arts et Métiers (CNAM), Paris. Professora no Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília. [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/2763241614261951. Resumo O objetivo deste trabalho é analisar uma experiência sobre Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) ocorrida no âmbito da Empresa X. O enfoque utilizado busca a integração entre a pesquisa (diagnóstico com fundamentos científicos) e a intervenção nas organizações. Ele é resultado de diálogo interdisciplinar entre as abordagens teóricas e metodológicas oriundas da Ergonomia da Atividade e da Psicodinâmica do Trabalho, incorporando, ainda, a crítica de Simone Weil à Opressão do Trabalho. O método utilizado foi o de Análise de Discurso. O principal resultado alcançado foi a produção de análise a respeito do Fórum de QVT da Empresa X e de seus mais significativos desdobramentos, a Política de QVT da Empresa X e as Doze Ações Imediatas em QVT da Empresa X. A principal conclusão obtida é a da existência, na atualidade, na Empresa X, de Política de QVT que pode, por certo, ser dita de vanguarda, nas áreas privada e pública, nacional e internacional, em convivência com uma realidade teórico-prática de QVT localizada, não poucas vezes, em contradição com as prescrições, princípios e valores presentes em tal política. Palavras-chave: qualidade de vida no trabalho, ergonomia da atividade, psicodinâmica do trabalho, opressão do trabalho. Abstract Changing Quality of Work Life Management The goal of this work is to analyze a Quality of Work Life (QWL) experience placed inside the Company X environment. The used approach seeks the integration between research (diagnosis with scientific backgrounds) and intervention in the organizations. It results from the interdisciplinar dialogue between the theoretical and methodological approaches originated from Activity Ergonomics and Work Psychodynamics, incorporating, still, Simone Weil´s critics to Work Oppression. Our method was Speech Analysis. The main results were the production of analysis regarding the QWL Forum of the Company X and its more significant consequences, the Politics of QWL of the Company X and the Twelve Immediate Actions in QWL of the Company X. The most important conclusion is the existence, in the present time, at the Company X, of a QWL Politics that could, surely, to be said as of vanguard, in the private and public, national and international areas, sharing with a theoretician-practical reality of QWL located, not few times, in contradiction with the prescriptions, principles and values occurring in such Politics. Keywords: quality of work life, activity ergonomics, work psychodynamics, work oppression. Leite, Ferreira & Mendes. Mudando a Gestão de QVT Recebido em: 13.02.2009 Aprovado em: 25.02.2010 Publicado em: 22.03.2010 110 Leite, Ferreira & Mendes O objetivo deste trabalho é analisar uma experiência sobre Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) ocorrida no âmbito da Empresa X, instituição de grande destaque no contexto da sociedade brasileira – e também internacional – da atualidade. O foco é o papel de um fórum que teve relevante significado para a mudança de práticas de QVT até então implementadas na Empresa, considerados os desdobramentos concretos, até os tempos atuais, de tal iniciativa. Preliminarmente, é necessário assinalar que a relevância da temática da QVT na atualidade manifesta-se, inicialmente, na dimensão mais geral da sociedade. O valor da qualidade de vida encontra-se hoje incorporado a relações travadas em todos os quadrantes da vida social. É preciso dispor de boa qualidade de vida quanto ao corpo, à mente e ao espírito, quanto às relações estabelecidas com o meio ambiente e com os demais seres humanos e quanto aos diversos produtos e serviços que consumimos. Particularmente no que diz respeito ao mundo do trabalho, a ideia de qualidade de vida assume, presentemente, no mínimo, um papel de amplamente difundido como instrumento de gestão de pessoas por parte de um conjunto crescente de empresas, muitas das vezes com o foco da aplicação da ideia de QVT como ferramenta de incremento de produtividade de quem trabalha. Todavia são muitos os conceitos de QVT ora utilizados. Ferreira (2006) aponta a evolução histórica do conceito de QVT: em 1972, era tratada como uma variável; em 1973, a ênfase recai na abordagem; em 1975, a ênfase se volta para o método; em 1980, é considerada como um movimento; e, em 1985, uma panaceia. Ferreira, Alves & Tostes (2009) assinalam as proposições de Hackman (1975), que aludem à motivação interna, ao enriquecimento do cargo, à satisfação e ao comprometimento como principais elementos constitutivos do conceito de QVT; de Walton (1973), que remetem a equilíbrio entre trabalho e outras esferas da vida, papel social da organização e produtividade com QVT; e de Limongi-França (2003), que consideram a QVT como um conjunto das ações e melhorias e inovações gerenciais, tecnológicas, estruturais. Observadas a evolução histórica do conceito de QVT e as contribuições de Hackman, Walton e LimongiFrança, pode-se sugerir a localização dos conceitos de QVT ora utilizados predominantemente no universo da conservação das formas dominantes de condições, organização e relações socioprofissionais do trabalho, desempenhando, majoritariamente, o papel social de mecanismo de manutenção de um sentido do trabalho que apequena o ser humano. A atuação em QVT vem sendo fundamentada por diferentes enfoques teóricos e metodológicos, com contribuições de estudiosos pertencentes a vários campos científicos, como, por exemplo, a medicina, a ecologia, a ergonomia, a psicodinâmica do trabalho, a psicologia, a sociologia, a economia, a administração, a engenharia. De todas essas contribuições, a concepção da administração é uma das mais utilizadas nas organizações. Ela tem bases em teorias centradas nas pessoas, particularmente relacionadas à Escola Humanista, cujos fundamentos estão ancorados na Psicologia Organizacional. Essa concepção, na maior parte das vezes, é fortemente influenciada (especialmente na década de 1990) pelas políticas e programas de qualidade total, certificação ISO9000 e outros métodos centrados, sobretudo, na satisfação do cliente. As ferramentas administrativas utilizadas exigem ainda mais dos trabalhadores para o sucesso da implantação desses programas, assentados no modelo toyotista de gestão do trabalho. No final da década de 90, associados a esses programas, surgem os programas de QVT como uma proposta para democratizar o trabalho e, ao mesmo tempo, com a intenção de transformar QVT em um meio para dar suporte ao aumento da lucratividade e à dominação dos trabalhadores por parte das gerências. Contrapondo-se a essa perspectiva, surgem, conforme Ferreira, Ferreira, Antloga e Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 109-123 Mudando a Gestão de QVT Bergamaschi (2009), movimentos científicos para o estudo e a gestão da QVT com outras bases teóricas e novas perspectivas. Eles preconizam que um programa de QVT requer a construção de um espaço organizacional que legitime e valorize a intersubjetividade, com base na premissa de que os trabalhadores devem ser os sujeitos do seu trabalho e não objetos de produção. A perspectiva é de redesenhar os modelos de gestão para que os trabalhadores transitem da posição histórica de mera mão de obra para a posição futura de ter a obra em suas mãos. O enfoque aqui utilizado para QVT busca a integração entre a pesquisa (diagnóstico com fundamentos científicos) e a intervenção nas organizações. Ele é resultado de um diálogo interdisciplinar entre as abordagens teóricas e metodológicas oriundas da ergonomia da atividade e da psicodinâmica do trabalho, incorporando, ainda, a crítica de Simone Weil à opressão do trabalho. REFERENCIAL TEÓRICO Ergonomia da Atividade Grandjean (1998) registra que ergonomia é palavra originalmente grega, composta pelos termos ergon, que tem o significado de trabalho e nomos, que significa legislação, o que conduz à ideia de busca de formas adequadas de exercício do trabalho. Iida (2005) assinala que a Ergonomics Society Research define a ergonomia, em meados do século XX, como o estudo do relacionamento entre o homem e seu trabalho, equipamento, ambiente, e, particularmente, a aplicação dos conhecimentos de anatomia, fisiologia e psicologia na solução dos problemas que surgem desse relacionamento. Já a ergonomia da atividade, segundo Ferreira e Mendes (2003), investiga a relação entre os indivíduos e o contexto de produção, sendo seu objetivo principal a compreensão dos indicadores críticos presentes nesse contexto, para transformá-los com base em uma solução de compromisso que atenda às necessidades e aos objetivos dos trabalhadores, gestores, usuários 111 e consumidores (Ferreira, 2008). Este artigo busca identificar alguns dos indicadores críticos quanto à QVT presentes no contexto de trabalho investigado. Psicodinâmica do Trabalho Segundo Mendes (2007), é objeto da psicodinâmica do trabalho o estudo da dinâmica que perpassa as relações entre a organização do trabalho e os processos de subjetivação. Esses processos são caracterizados pelas vivências de prazer-sofrimento, pelas estratégias de mediação do sofrimento frente às contradições da organização do trabalho e pelas patologias provocadoras de adoecimento. Essa dinâmica requer a mobilização da inteligência prática, da subjetividade e da cooperação, como elementos que, articulados, ajudam os trabalhadores a enfrentar a “loucura” do trabalho e manter a sua saúde. Tal mobilização se insere em um coletivo, uma vez que os investimentos individuais ocorrem, mas não são suficientes para mudar a realidade de trabalho. São fundamentais as oportunidades oferecidas pela organização do trabalho, de modo que prevaleça a liberdade de expressão pela fala e ação na realidade, o que leva ao prazer, à emancipação do sujeito e à QVT. No entanto, a depender das exigências da organização do trabalho, os modos de subjetivação podem se transformar em ferramentas úteis, explorados em nome de uma ideologia produtivista, do desempenho, da excelência. Nesse contexto o sofrimento se mantém, falham as mediações, e se desenvolvem patologias como perversão, violência e servidão, comprometendo a qualidade de vida dos trabalhadores. A exploração ocorre pelas características contraditórias do sofrimento, o qual pode, ao mesmo tempo, assumir a função de mobilizador de saúde e de instrumento para obtenção da produtividade. Nesse sentido, “O trabalho não causa o sofrimento, é o próprio sofrimento que produz o trabalho.” (Dejours, 1993, p. 103). O que é explorado pela organização do trabalho Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 109-123 112 Leite, Ferreira & Mendes não é o sofrimento em si mesmo, mas, principalmente, as estratégias de mediação utilizadas contra esse sofrimento. Um exemplo é a autoaceleração, que é um modo de se evitar contato com a realidade que faz sofrer e uma ferramenta usada pelos gestores da organização do trabalho para aumentar a produção. Nessas bases, para a psicodinâmica do trabalho, a QVT implica espaço de fala e escuta do sofrimento dos trabalhadores. O sofrimento deve ser compreendido, interpretado, elaborado e reelaborado num espaço público de discussão. Esse espaço é a possibilidade de (re) construção dos processos de subjetivação e do coletivo, uma vez que falar do sofrimento leva o trabalhador a se mobilizar, pensar, agir e criar estratégias para transformar a organização do trabalho. Desse modo, essa mobilização que resulta do sofrimento se articula à emancipação e à reapropriação de si, do coletivo e da condição de poder do trabalhador. Nesse sentido, “ser sofrente” é constituinte do humano e do trabalho, não sendo um mal em si mesmo; o mal é a negação do próprio sofrimento e do sofrimento do outro. O sofrimento, como parte da condição humana, opera como um mobilizador dos investimentos para a transformação da realidade. Isso implica que a psicodinâmica do trabalho é uma abordagem para além da teoria e da pesquisa, sendo também um modo de ação na organização do trabalho. Desvelar o sofrimento pela fala permite resgatar a capacidade de pensar sobre o trabalho, é um modo de desalienação, uma possibilidade de apropriação e dominação do trabalho pelos trabalhadores, aspecto fundamental para ter início a construção do coletivo com base na cooperação e nas mudanças da organização do trabalho. Nessa direção, a psicodinâmica do trabalho é uma abordagem de pesquisa e ação sobre o trabalho. É um modo de fazer análise, crítica e reconstrução da organização do trabalho e das relações socioprofissionais estabelecidas a partir dela, uma vez que são inexoravelmente as provocadoras de sofrimento e do fracasso das mediações, e, consequentemente, dos prejuízos à qualidade de vida dos trabalhadores. O presente artigo foi construído com base na escuta de trabalhadores – por intermédio do Fórum de QVT da Empresa X –, visando ao entendimento da dinâmica que envolve a organização do trabalho e a QVT dos trabalhadores da Empresa X. Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) Ferreira e Mendes (2004) afirmam que a QVT é resultante do conjunto de ações individuais e grupais levadas a efeito nas organizações, com vistas ao alcance de um contexto de produção de bens e serviços no qual as condições, a organização e as relações sociais de trabalho contribuem para a prevalência do bem-estar de quem trabalha. Por condições de trabalho entende-se o ambiente físico, como sinalização, espaço, ar, luz, temperatura, som; instrumentos, ferramentas, máquinas, documentação; equipamentos materiais arquitetônicos, aparelhagem e mobiliário; a matéria-prima e informacional; o suporte organizacional como informações, suplementos e tecnologias; e a política de remuneração, desenvolvimento de pessoal e benefícios. A organização do trabalho contempla a divisão hierárquica, técnica e social do trabalho, metas, qualidade e quantidade de produção esperada; as regras formais, missão, normas e procedimentos; a duração da jornada, pausas e turnos; ritmos, prazos e tipos de pressão; controles como supervisão, fiscalização e disciplina; a natureza, conteúdo e características das tarefas. As relações sociais de trabalho englobam as interações hierárquicas, interações coletivas intra e intergrupos e interações externas com clientes, usuários, consumidores, representantes institucionais e fornecedores. Este artigo, lançando o olhar para o Contexto de Produção de Bens e Serviços da Empresa X, propõe uma leitura da QVT praticada em tal organização. Com base no que aqui foi anteriormente afirmado a propósito do enfoque para QVT adotado neste estudo, é sustentada a tese de que o êxito de um programa de QVT é, por Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 109-123 Mudando a Gestão de QVT definição, uma tarefa complexa, pois depende de uma articulação combinada de inúmeros fatores e o engajamento de diversas pessoas. De partida, alguns pressupostos devem orientar o planejamento, a execução e a avaliação de uma política de QVT nas organizações: – Alterar positivamente as práticas em QVT, no sentido de se redesenhar o fazer dos protagonistas envolvidos (agir diferentemente), requer transformar mentalidades (pensar diferentemente), ou seja, modificar concepções comumente cristalizadas. – É fundamental romper com a dicotomia entre bem-estar e produtividade, fortemente presente nos modelos de gestão do trabalho; a produtividade deve ser um componente inseparável do bem-estar (ser produtivo é um dos modos de ser feliz). 113 diversa, o engajamento ou compromisso de gestores em diversos escalões hierárquicos e a realização de parcerias intersetoriais. – A QVT tem como um de seus desafios a construção de um espaço organizacional que promova a valorização dos trabalhadores como sujeitos do seu métier e em que a flexibilidade seja um ingrediente fundamental da organização do trabalho. – A cultura organizacional (crenças, valores, ritos organizacionais etc.) deve ser orientada para o desvendar do potencial criativo dos trabalhadores, criando condições para sua participação efetiva no planejamento de tarefas e nas resoluções de problemas e, sobretudo, no processo de tomada de decisões que afetam o bem-estar individual e coletivo. Em consonância com os pressupostos apresentados, a abordagem de QVT utilizada no presente trabalho enfatiza os indicadores que são centrais, tanto para a compreensão (diagnóstico) da perda e (ou) redução de QVT, quanto para o planejamento de ações no âmbito organizacional. Para uma visão sucinta e global, – O sucesso de um programa de QVT impõe uma esses elementos e suas articulações estão sinergia organizacional que envolve a esquematizados na Figura 1, apresentada a cooperação de profissionais de formação seguir. – As ações em QVT devem ter como alvo, a médio e longo prazo, a prevenção de agravos à saúde, primando por criar um ambiente social de trabalho que estimule e propicie a “produtividade positiva” e as vivências de bemestar. Figura 1. Aspectos fundamentais para a compreensão de QVT (Ferreira & Mendes, 2004) Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 109-123 114 Leite, Ferreira & Mendes Opressão do Trabalho Para Weil (1991), citada por Leite (2004), a opressão do trabalho ocorre quando a organização da produção, por certo impotente para eliminar as necessidades naturais e a pressão social daí resultante, avança para muito além disso, passando a esmagar os espíritos e os corpos dos trabalhadores. A opressão deriva, portanto, não do trabalho em si, mas de modos determinados de organização da produção, os quais, eles sim, geram a opressão na maioria das vezes associada ao próprio trabalho. Nesse contexto, a verdadeira liberdade não se define como uma relação entre o desejo e a satisfação, mas como uma relação entre o pensamento e a ação; seria totalmente livre o homem cujas ações, todas elas, procedessem de um juízo prévio sobre o fim a que ele se propõe e o encadeamento dos meios próprios que levam a esse fim. É amplamente aceito, na atualidade, que a mais relevante característica do ser humano é a capacidade de criação. Tanto é assim que a opressão do trabalho é compreendida, por Weil, entre outros pensadores, como produzida não pela supressão do espaço para a criação – situação vivenciada, dia após dia, pelos que hoje trabalham, sob a égide do taylorismo e do modelo toytotista de produção flexível –, mas sim pelo fato de que, submetido a tal antihumana restrição, o homem, ainda assim, não consegue não pensar, não sentir, não criar, enfim. Como a quase totalidade dos seres humanos não encontra ambiente favorável, no mundo do trabalho contemporâneo, para a manifestação de sua capacidade de criação, instala-se, então, em tal locus social fundamental, uma inafastável circunstância de opressão. Tal circunstância está em oposição, pelo vértice, a uma realidade em que, no espaço humano de existência, se constroem mais e melhores processos e produtos, com agentes sociais – pessoas, empresas, sociedades – que ampliam seu espaço de utilização de criatividade, incorporando à vida cotidiana a chama luminosa da criação. O presente artigo intenta apontar alguns aspectos da opressão do trabalho presentes no dia a dia da empresa estudada. Tal opressão é derivada da ausência de um juízo prévio sobre o fim a que os trabalhadores se propõem e do nãoencadeamento dos meios próprios que levam a esse fim. Ou, dito de outra forma, do grau de participação dos trabalhadores na gestão de seu trabalho – no processo coletivo de criação, enfim –, o que, por evidente, afeta diretamente a QVT de quem trabalha. ASPECTOS METODOLÓGICOS, CONTRIBUIÇÕES, LIMITAÇÕES E IMPLICAÇÕES DO ESTUDO As informações abordadas neste estudo foram tratadas com base em parâmetros da técnica de análise do discurso. Tais parâmetros podem ser sinteticamente descritos como a assunção da consciência de que não há neutralidade possível de ser alcançada, ainda que nos encontremos, por exemplo, no campo social da prática do discurso científico. As dimensões do simbólico, dos sentidos, do político estão sempre presentes no dia a dia de qualquer ser humano, ou seja, estamos sempre interpretando, e não meramente reproduzindo a realidade sob observação, como afirmado por Orlandi (2001). Foram compulsados dois papers da Empresa X – Política de QVT da Empresa X e Fórum de QVT da Empresa X. Foram ainda acompanhados, pari passu, o processo de realização do Fórum de QVT da Empresa X, o de implantação da Política de QVT da Empresa X e o das Doze Ações Imediatas em QVT da Empresa X, o que permitiu aos autores do presente artigo a formação de posicionamento crítico acerca de tal processo. Entre as contribuições deste estudo, podem ser elencadas a relevância social da organização estudada, a utilização de referencial teórico de natureza interdisciplinar, o foco em processo de construção de uma política de QVT que pode, por certo, ser dita inovadora, tanto nas áreas privada e pública, quanto nacional e internacionalmente. Entre as limitações deste estudo, podem Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 109-123 Mudando a Gestão de QVT ser indicadas: a não-incorporação de outras disciplinas, como, por exemplo, a Sociologia do Trabalho, ao referencial teórico; a não-utilização de instrumento específico para proceder-se à avaliação dos resultados mudancistas eventualmente alcançados; a apresentação tão somente inicial das causas mais solidamente enraizadas na cultura organizacional das dificuldades hoje existentes quanto à aplicação teórico-prática da Política de QVT da Empresa X. Entre as implicações deste estudo, podem ser elencadas: a atualidade e relevância do tema (QVT) abordado; a apresentação de Figura Aspectos Fundamentais para a Compreensão da QVT, que sintetiza a concepção de QVT adotada neste artigo e pode ser utilizada como recurso didático de tranquila exposição e fácil compreensão; a possibilidade da aplicação do estudo como subsídio de análises e intervenções a serem possivelmente efetuadas junto a outras organizações privadas e públicas, nacionais e internacionais. 115 nacional, de um caminho para a QVT na Empresa. Com o objetivo inicial de consolidar e aprimorar a ação de QVT na Empresa X, foi promovido, pelo Programa Empresa X Integral e pelo Departamento de Gestão de Pessoas – instâncias organizacionais da Empresa X –, uma ação configurada não como um projeto-piloto, mas como uma ação de intervenção, institucionalmente patrocinada, com vistas a atingir a totalidade do universo organizacional, nos dias 24 e 25 de maio de 2004, em Brasília (Sede da Empresa): o Fórum Qualidade de Vida – Trabalhando e Vivendo com Qualidade. Entre os múltiplos aspectos relevantes, presentes na realização do Fórum, destacam-se: – Colocar em debate, com todos os participantes do evento (aí incluído o fornecimento prévio, a todos, de materiais que embasaram o debate), três tipos de informações: o estado da arte de QVT no mundo, com base em exposições efetuadas por dois professores especialistas no tema, sendo proposto, inclusive, um modelo teórico de RESULTADOS abordagem de QVT; experiências de sucesso na Fórum de QVT da Empresa X implantação de QVT em três organizações públicas Como em muitas das organizações do presente, cuja realidade, de algum modo, se aproximava da a Empresa X contava, já há algum tempo, com Empresa X (Banco do Brasil S.A., Superior Tribunal ações de incremento de QVT sendo realizadas de Justiça e Conselho Nacional de Desenvolvimento em pelo menos algumas das dez capitais de Científico e Tecnológico); inventário crítico das Estados brasileiros onde dispõe de ações de QVT até então praticadas na Empresa X. representação (Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, – Utilizar um método de discussão (estação cibernética) em que os participantes percorrem São Paulo, Curitiba e Porto Alegre). Tais ações – de que são exemplos diversas estações de trabalho, propondo ações atividades como ginástica, yoga, dança de salão – concretas quanto aos diferentes temas podem ser localizadas no terreno da QVT de enfocados. Foram criadas as seguintes estações: natureza assistencialista e compensatória (em estrutura, mobilidade, avaliação; segurança do significativa diferenciação em relação à QVT de trabalho e instalações prediais; assistência natureza preventiva), uma vez que buscam tão psicossocial e atendimento ao público interno; somente atenuar os efeitos de uma baixa QVT, e medicina do trabalho; treinamento e não a alteração das causas que produzem tais desenvolvimento; responsabilidade social e terceirizados; Programa Empresa X Integral; efeitos. Essas ações eram efetuadas de modo parceiros. O uso de tal método possibilitou a pulverizado pelos servidores das diferentes produção de mais de setecentas sugestões que, representações da Empresa X, sem que posteriormente consolidadas e hierarquizadas houvesse adequada comunicação, troca de quanto à relevância, urgência e possibilidade de experiências e formulação coletiva, em âmbito efetivação, passaram a integrar o Plano de Ação Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 109-123 116 Leite, Ferreira & Mendes 2004-2005 de QVT da Empresa X. – Ter o permanente acompanhamento, desde a concepção do Fórum (a partir do início de 2004) até a produção de seus mais relevantes desdobramentos (que alcança o fim de 2005), de dois consultores externos em QVT, professores especializados na matéria. Isso permitiu tanto um processo quanto um produto referidos a um denso lastro teórico e também a superação de dificuldades de natureza prática já enfrentadas em outras organizações nas quais atuaram na implantação de projetos de QVT. Tal trabalho de acompanhamento por parte dos consultores externos foi realizado em diferentes etapas, a saber: concepção do fórum; participação no momento mesmo de realização do evento; tratamento das sugestões apresentadas durante o fórum; apresentação pública dos principais resultados obtidos com a promoção do evento; implementação de algumas das doze ações Imediatas em QVT da Empresa X, mais adiante abordadas. – Contar com a participação ativa de cerca de cento e vinte pessoas, oriundas das dez representações da Empresa X de todo o país, todas elas já realizando ações de QVT ou de alguma forma envolvidas com o tema. Isso permitiu, com base na diferença de olhares e práticas, a construção de mosaico representativo da realidade de QVT da Empresa. – Dispor, na qualidade de participantes, da adesão de personalidades e entidades de grande relevo no contexto da Empresa X, como dirigentes de destaque da organização, o que assegurou apoio político e acesso a recursos materiais (passagens aéreas e diárias, por exemplo), indispensáveis para a obtenção do caráter nacional do fórum. Participaram ainda: representantes dos três sindicatos de servidores da Empresa, o que conferiu credibilidade ao evento; representantes de entidades socioculturais, esportivas e assistenciais de servidores e aposentados da Empresa, o que incrementou a proposta de parceria presente no fórum. – Incluir, com idêntico direito de manifestação detido pelos demais participantes do evento, segmentos até aquele momento desprovidos de maior reconhecimento institucional: STARNET, rede informal e crítica de comunicação, e, talvez de modo ainda mais significativo, o expressivo contingente de trabalhadores terceirizados – técnicos de informática, vigilantes, estagiários, menores aprendizes etc. – que prestam serviços à Empresa. Com isso, foi possível afirmar o conceito comunidade Empresa X, para dizer do significativo grupo de pessoas que, em seu dia a dia de trabalho ou de aposentadoria, relaciona-se com a organização. Tal conceito supera, à larga, o entendimento, ainda hoje dominante na Empresa, sobre a existência de diversas castas (servidores, aposentados, terceirizados, etc). Política de QVT da Empresa X Em 2 de dezembro de 2004, em teleconferência transmitida para as estações de trabalho em todo o país, o diretor de Administração da Empresa X anunciou a aprovação da política de QVT da Empresa X e das doze ações imediatas em QVT da Empresa X, a nosso juízo, os principais produtos do Fórum. Algumas proposições alcançaram elevado nível de consenso entre os participantes do Fórum: as ações de QVT constituem uma responsabilidade institucional; as ações de QVT são uma tarefa de todos; o modelo de gestão organizacional deve primar pela compatibilidade entre bem-estar dos servidores, desempenho funcional e missão institucional; a superação de ações localizadas, dispersas e isoladas em QVT impõe a formulação de um mecanismo orientador das ações, proposição essa materializada na política de QVT da Empresa X. Tal política contribuirá para aprimorar as condições, a organização e as relações sociais de trabalho, agregando efetividade à missão institucional da Empresa X na estrutura do Estado brasileiro. Ela está em consonância com o planejamento institucional da Empresa (Voto Empresa X no 029/2004) e busca operacionalizar um dos objetivos estratégicos da Diretoria Colegiada: fortalecer a governança e a gestão corporativa da Empresa X, com ênfase (também) em qualidade de vida dos servidores. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 109-123 Mudando a Gestão de QVT 117 alternativos, incrementando a integração A Política de QVT da Empresa X apresenta, dos servidores e disseminando informações como sua Concepção Institucional: A QVT na que propiciem um clima organizacional Empresa X é um preceito de gestão organizacional centrado em valores de QVT. que se expressa por um conjunto de normas, diretrizes e práticas no âmbito das condições, da G. A disponibilização de suporte organizacional organização e das relações socioprofissionais de aos servidores deve pautar-se por uma trabalho que visa à promoção do bem-estar coletivo, adequabilidade dos meios de trabalho que o desenvolvimento da Comunidade Empresa X e o busque a compatibilidade entre as exigências exercício da cidadania na função pública. do trabalho, as características dos ambientes e O planejamento, a execução e a avaliação de as necessidades ou expectativas de servidores programas de QVT na Empresa X devem ser e usuários-cidadãos, contemplando, inclusive, operacionalizados com base nas seguintes diretrizes: as pessoas com necessidades especiais. A. As ações em QVT se fundamentam nas premissas de responsabilidade institucional, H. O monitoramento da incidência de doenças e a prevenção de riscos à saúde e à segurança responsabilidade social, de compromede servidores devem se apoiar em pesquisas timento de dirigentes em todos os níveis fidedignas, ações de controle médico e de hierárquicos, de parcerias inter-setoriais e da assistência psicossocial – com ênfase na participação efetiva dos servidores. realização sistemática e impostergável de B. A disseminação de uma cultura organiza“Exames Médicos Periódicos (EMP)” – e ações cional do bem-estar coletivo deve ser de engenharia de segurança do trabalho no ancorada em pressupostos da prevenção de âmbito dos riscos físico-ambientais. riscos para a saúde, segurança e conforto dos servidores, do desenvolvimento do I. As ações complementares de natureza assistencial, voltadas para atividades de funcionalismo e da valorização da função combate à fadiga ou de atenuação do pública como vetor de cidadania. desgaste proveniente do ambiente de C. A concepção e as práticas de gestão trabalho, devem ser consideradas nos organizacional devem primar pela edificação programas de QVT. de um ambiente social de trabalho que promova a saúde, a segurança e o conforto J. A política de educação corporativa, em especial todas as iniciativas de desenvolvimento de dos servidores, bem como convivências de competências individuais e coletivas, deve ser bem-estar e relações harmoniosas com os compatível com a concepção e as diretrizes de usuários-cidadãos dos serviços da Empresa X. QVT da Empresa X. D. As concepções e as práticas de gestão do trabalho devem se orientar pelo exercício responsável da autonomia, cooperação, Doze ações Imediatas em QVT da Empresa X flexibilização do processo de trabalho e Juntamente com a Política de QVT da Empresa X, valorização de competências dos servidores. foram aprovadas doze ações imediatas em QVT da Empresa X, que serão apresentadas e analisadas a E. O planejamento de tarefas, os critérios de posteriori. produtividade e a avaliação de desempenho dos servidores devem ser concebidos em ANÁLISE DOS RESULTADOS sintonia com a política de QVT da Empresa X. O trajeto metodológico percorrido, ancorado na F. O desenvolvimento de uma política de abordagem teórica adotada, produziu resulcomunicação interna deve proporcionar a alavancagem das ações de QVT, fortalecendo os canais existentes, criando canais tados significativos. Fórum de QVT da Empresa X A realização do Fórum de QVT da Empresa X, Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 109-123 118 Leite, Ferreira & Mendes considerado o que é descrito no item 4.1, representou, em si mesmo, um significativo avanço em relação à teoria e à prática de QVT até então levadas a efeito no contexto da organização. Do ponto de vista da ergonomia da atividade, o Fórum significou um momento privilegiado de compreensão e também de construção de condições de possibilidades de transformação positiva dos indicadores críticos da relação entre indivíduos e contexto de produção. A elaboração da política de QVT da Empresa X e a definição das doze ações Imediatas em QVT da Empresa X são exemplos do que aqui é afirmado. Do ponto de vista da psicodinâmica do trabalho, o Fórum significou um momento privilegiado de investigação da relação entre modos de organização do trabalho e vivências de prazer e sofrimento. Não foi possível a construção do coletivo e do espaço da fala e da escuta, como prescreve a abordagem, embora alguns ganhos tenham sido produzidos na forma utilizada para a estruturação da participação dos presentes ao evento. A montagem de oito espaços de proposição, as assim denominadas estações cibernéticas, envolvendo temas de grande interesse para a QVT da Empresa X, possibilitou o debate sobre as diferentes realidades de trabalho provocadoras de vivências de prazer ou sofrimento. A elaboração da política de QVT da Empresa X e a definição das doze ações Imediatas em QVT da Empresa X ocorreram à luz do que aqui é afirmado. Do ponto de vista do conceito de QVT aqui adotado, o Fórum significou um momento privilegiado de aferição do estado da arte do conjunto de ações que contribuem para a prevalência do bem-estar de quem trabalha na Empresa. A elaboração da política de QVT da Empresa X e a definição das doze ações Imediatas em QVT da Empresa X espelharam o que aqui é afirmado. Do ponto de vista da crítica weiliana à opressão do trabalho, o Fórum significou um momento privilegiado da verificação da existência de tal opressão. Com base em relatos de participantes, constatou-se a ocorrência de opressão do trabalho, principalmente no que respeita às dimensões da organização do trabalho e das relações sociais de trabalho. A elaboração da política de QVT da Empresa X e a definição das doze ações Imediatas em QVT da Empresa X consideraram importantes elementos do que aqui é afirmado. Política de QVT da Empresa X Tal Política incorpora algumas das proposições centrais da ergonomia da atividade, da psicodinâmica do trabalho, do conceito de QVT aqui adotado e da crítica weiliana à opressão do trabalho. Quanto à ergonomia da atividade, destaca-se a Diretriz G (ver p. 117). Adequabilidade, compatibilidade são valores essenciais da ergonomia da atividade, aplicados, na citada diretriz na qual se trata não apenas quem – servidor, trabalhador terceirizado etc. – trabalha na Empresa X, mas também quem com a Empresa estabelece relação na qualidade de usuário-cidadão, aí incluídas pessoas com necessidades especiais. Quanto à psicodinâmica do trabalho, avulta em significado a Diretriz H (ver p.117). O tema da saúde psíquica dos trabalhadores é o foco da psicodinâmica do trabalho, tema esse destacadamente presente na política de QVT da Empresa X, com a inclusão da assistência psicossocial, por exemplo, como uma das áreas relevantes de atuação. Quanto ao conceito de QVT aqui adotado, conquista relevo a concepção institucional da política (ver p. 117). A definição de QVT na Empresa X afilia-se, claramente, ao conceito de QVT aqui adotado, devendo ser destacada a finalidade última da QVT, que inclui bem-estar, desenvolvimento e exercício de cidadania, com a superação de dicotomias falsificadoras do real, tais como individual versus coletivo, produtividade do trabalho versus prazer no trabalho, organização versus sociedade. Quanto à crítica weiliana à opressão do trabalho, apresenta significativa presença a Diretriz D (ver p. 117). Autonomia, cooperação, flexibilização e valorização, presentes na Política de QVT da Empresa X, são meios adequados Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 109-123 Mudando a Gestão de QVT 119 com vistas a se atingir a efetiva participação do trabalhador na concepção e na prática de gestão de seu trabalho, tornando possível, assim, a participação criativa, negadora da opressão do trabalho, por parte de quem trabalha. – Criação do comitê de gestão da política de QVT da Empresa X – ação realizada, padecendo, todavia, de desdobramento. O comitê foi criado em dezembro de 2004, permanecendo atuante até fins de 2005. A partir desse momento, não mais veio, até agora, a reunir-se. Doze ações imediatas em QVT da Empresa X Tais ações – que apresentaram, em linhas gerais, até o presente momento, os resultados a seguir descritos em sua implementação – podem ser examinadas à luz do modelo analítico de contexto de produção de bens e serviços, adotado neste artigo, que propõe três nichos de classificação do trabalho, a saber: condições de trabalho, organização do trabalho e relações sociais de trabalho. No campo das condições de trabalho, encontramos as seguintes ações: – Revitalização dos prédios – ação que vem sendo implementada, em escala nacional, pela administração da Empresa X. – Criação de uuvidoria Interna – colocação da proposta em audiência pública. Ação parcialmente realizada. Após haver sido colocada em audiência pública junto à comunidade Empresa X, e apesar da inexistência de restrição, de qualquer natureza, à proposta, a iniciativa não logrou, até o momento, continuidade. – Realização do fórum de QVT no Departamento do Meio Circulante. Ação realizada, padecendo, todavia, de desdobramento em relação a diversas deliberações tomadas por ocasião do evento. – Realização da pesquisa “Trabalho e Riscos para a Qualidade de Vida no Trabalho”. Ação – Construção de instalações adequadas para alimentação – ação que vem sendo realizada, padecendo, todavia, de desdoimplementada, em escala nacional, pela bramento. – Promoção do curso “Desenvolvimento de administração da Empresa X. – Melhoria da acessibilidade – atendimento e Gestores em QVT da Empresa X”. Ação realizada instalações – para pessoas com necessidades nas representações da Empresa X no Rio de especiais, ação que vem sendo implementada, em Janeiro e em São Paulo, padecendo, todavia, de escala nacional, pela administração da Empresa X. desdo-bramento. Na esfera da organização do trabalho, – Produção de campanha de divulgação da política de QVT na Empresa X. Ação localizamos a seguinte ação: parcialmente realizada, interrompida ainda – Flexibilização do horário de trabalho – ação durante o processo de proposição, pela instância não realizada. Foi a principal demanda colocada organizacional institucionalmente responsável no Fórum, mas foi constituído um grupo de por fazê-lo e por alternativas para sua retrabalho encarregado do exame das condições e alização. possibilidades de sua implantação. Contando inicialmente com a participação do principal – Administração das questões específicas das sindicato dos servidores da Empresa X – que se regionais. Ação não efetivamente localizada no desligou do grupo por discordar de sua atuação âmbito de atuação do Comitê de Gestão da –, o grupo de trabalho encerrou sua tarefa Política de QVT da Empresa X. concluindo pela impossibilidade, em decorrência – Criação de Canal permanente de de restrições legais, de implementação da acompanhamento, pela comunidade Empresa X, flexibilização do horário de trabalho na Empresa. da Aplicação da Política de QVT. Ação realizada, No universo das relações sociais de padecendo, todavia, de desdobramento. A trabalho, podem ser listadas as seguintes ações: página na intranet da Empresa, criada com essa Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 109-123 120 Leite, Ferreira & Mendes intenção, por exemplo, deixou, a partir de fins de 2005, de ser adequadamente atualizada. Observado o acima exposto quanto às doze ações imediatas em QVT da Empresa X, temos: A. Uma distribuição significativamente diferenciada das ações, do ponto de vista quantitativo, entre os três nichos de classificação do trabalho: três ações no campo das condições de trabalho, uma ação na esfera da organização do trabalho e oito ações no universo das relações sociais de trabalho. Isso indica a existência de uma realidade organizacional que pode ser descrita como razoavelmente atendida quanto às condições de trabalho, claramente definida no que diz respeito à organização do trabalho e amplamente questionada relativamente às relações sociais de trabalho. política e das ações – contou com o lastro teórico-prático da ergonomia da atividade, da psicodinâmica do trabalho, do conceito de QVT aqui adotado e da crítica weiliana à opressão do trabalho. Ao examinar-se a realidade atual da aplicação das teorias e práticas de QVT derivadas da realização do fórum, imperativa se torna a constatação da ocorrência de não poucas nem pouco expressivas dificuldades quanto ao assunto, tanto do ponto de vista quantitativo, quanto do ponto de vista qualitativo. Tais pontos de vista, considerados em conjunto, até porque eles se revelam indissociáveis no mundo real – ou seja, de uma parte, a distribuição quantitativa das doze ações imediatas (três ações no campo das condições de trabalho, uma ação na esfera da organização do trabalho e oito ações no universo das B. Uma distribuição significativamente diferenrelações sociais de trabalho), e, de outra parte, a ciada das ações, do ponto de vista distribuição qualitativa de tais ações, no que qualitativo, no que respeita à sua respeita ao ritmo de sua implementação –, implementação. Em que pese o fato de as permitem sugerir a existência de: doze ações serem ditas, em sua totalidade, imediatas, verifica-se um ritmo muito A. Uma estrutura material, no geral, satisfatória – se considerados os parâmetros diferenciado de sua implantação e de sua dominantemente em vigor no serviço aprovação até o presente momento. De um público brasileiro – quanto às condições de modo geral, aquelas referentes às condições trabalho. As dificuldades existentes quanto a de trabalho contam com uma mais tranquila condições de trabalho derivam, implementação, enquanto que a que se principalmente, de restrições orçamentárias encontra situada no terreno da organização há muito existentes e só recentemente do trabalho, e, especialmente, as que se suavizadas no âmbito do serviço público. As localizam no campo das relações sociais de três ações relativas às condições de trabalho trabalho, veem postergada, no tempo, sua – revitalização dos prédios, construção de implantação. instalações adequadas para alimentação e melhoria da acessibilidade e atendimento CONCLUSÃO com instalações para pessoas com A análise do fórum de QVT da Empresa X necessidades especiais (1/4 do total de ações permite afirmar o relevante significado de tal Imediatas sugeridas) – vêm encontrando, um evento para a mudança da gestão da QVT até modo geral, tranquila implementação. então vigente naquela destacada organização. A implantação da política de QVT da Empresa X e B. Uma organização do trabalho solidamente das doze ações Imediatas em QVT da Empresa X estabelecida, com praticamente todos os exemplificam, adequadamente, tal afirmação. quadrantes de atuação organizacional A quase totalidade do processo – da definidos, normatizados e manualizados. O trabalho prescrito, dessa forma, envolve a concepção do fórum à implementação inicial da Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 109-123 Mudando a Gestão de QVT organização como um todo, e quase tudo que é realizado vem sendo feito segundo padrões, normas e regras preestabelecidos. Qualquer proposta de mudança, portanto, em relação ao status quo, conta com não pequena reação, embasada na conservadora cultura organizacional. Não por acaso, uma única ação – apenas 1/12 das ações imediatas propostas – diz respeito à organização do trabalho. Foi ela, a flexibilização do horário de trabalho, que, ao se constatar a existência de restrições legais para a sua implantação, teve sustado o debate sobre sua implementação, ao invés de, por exemplo, haver sido buscada, no Congresso Nacional, uma alteração da legislação que viesse a permitir a prática de tal flexibilização, amplamente considerada, na atualidade, um ponto crucial de incremento positivo de QVT. C. Uma relevante demanda quanto a mudanças nas relações sociais de trabalho, expressa pela escolha de oito ações – 2/3 das ações Imediatas aprovadas – atinentes a tal esfera da produção. Em todas elas, um traço em comum, hoje: a descontinuidade, relativa ou absoluta, de sua implantação. Cinco delas – criação do comitê de gestão da política de QVT da Empresa X, realização do fórum de QVT no Departamento Y, realização da pesquisa “Trabalho e Riscos para a Qualidade de Vida no Trabalho”, promoção do curso “Desenvolvimento de Gestores em QVT da Empresa X” e criação de canal permanente de acompanhamento, pela comunidade Empresa X, da aplicação da política de QVT – foram realizadas, padecendo, todavia, de desdobramentos. Duas delas – criação de ouvidoria interna e colocação da proposta em audiência pública e produção de campanha de divulgação da política de QVT na Empresa X – foram apenas parcialmente realizadas, não logrando efetiva implementação. Uma delas – administração das questões específicas das regionais – não chegou a ser 121 efetivamente localizada no âmbito de atuação do comitê de gestão da política de QVT da Empresa X. A descontinuidade, relativa ou absoluta, da implantação de tais ações, guarda relação – mormente em empresas de cultura organizacional conservadora, das quais a Empresa X é um exemplo, até mesmo em decorrência da natureza de seu papel institucional – com a circunstância de ser a dimensão das relações sociais de trabalho o locus social privilegiado, em qualquer organização, do embate mudança versus conservação. É em tal locus social onde encontra privilegiada localização a mais central das questões, no que diz respeito à QVT: a questão da distribuição do poder, ou, dito o mesmo de outro modo, da definição teórico-prática acerca do quanto alguém pode vir a exercer poder, e, ainda, acerca do como alguém pode vir a exercer poder. A política de QVT da Empresa X apresenta como uma de suas diretrizes: “- As ações em QVT se fundamentam nas premissas de responsabilidade institucional, responsabilidade social, de comprometimento de dirigentes em todos os níveis hierárquicos, de parcerias intersetoriais e da participação efetiva dos servidores”. Entre tais premissas, destaca-se aqui a da participação efetiva dos servidores (e demais integrantes da Comunidade Empresa X). Existente, de algum modo, durante a realização do fórum e ao longo do período inicial de implantação das ações imediatas – além da participação direta dos presentes ao fórum (muitos deles eleitos representantes de setores de trabalho) –, a Comunidade Empresa X era razoavelmente informada a respeito do andamento da implementação das ações. Entretanto, a participação foi paulatinamente decrescendo, em decorrência da insuficiência crescente da comunicação acerca das ações. No limite do processo, o que aconteceu foi a ausência de qualquer manifestação por parte da administração da Empresa X quanto à QVT. Isso teve como uma Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 109-123 122 Leite, Ferreira & Mendes de suas consequências o reforço do desencanto da comunidade Empresa X frente a experiências mudancistas, uma vez que já ocorreram, na organização, muitos episódios antecedentes em que o sepultamento de uma proposição renovadora se dava pela prática do mais absoluto silêncio em torno daquela proposição. A política de QVT da Empresa X apresenta como outra de suas Diretrizes: “O desenvolvimento de uma política de comunicação interna deve proporcionar a alavancagem das ações de QVT, fortalecendo os canais existentes, criando canais alternativos, incrementando a integração dos servidores e disseminando informações que propiciem clima organizacional centrado em valores de Qualidade de Vida no Trabalho”. Como visto no parágrafo imediatamente anterior, o que ocorreu, no decorrer do processo de implantação das ações imediatas, foi exatamente o oposto do que havia sido proposto na diretriz, ou seja, a política de comunicação interna proporcionou, não somente a não-alavancagem das ações de QVT, como também, e até principalmente, sua desalavancagem. Em qualquer momento da história do homem, e muito particularmente na era do conhecimento, tempo histórico em que nos é dado existir, é tautológica a reafirmação do lugar privilegiado socialmente ocupado pela comunicação. No caso concreto da aplicação teórico-prática dos principais produtos do fórum de QVT da Empresa X, a comunicação, mantendo seu status de condição sine qua non do fazer humano, vem contribuindo decisivamente para a obtenção dos resultados até o momento presente verificados. A Gestão de QVT na Empresa X experimentou radical – na acepção de “ida à raiz” – transformação, com a realização do fórum de QVT da Empresa X. A reflexão e a aprovação coletivas, ocorridas no fórum, de diversas iniciativas trouxeram mudança positiva na cultura organizacional, reforçando os valores do bem-estar coletivo, do desenvolvimento pessoal e profissional da comunidade Empresa X e do exercício da cidadania na função pública. Em que pese o conjunto de dificuldades hoje existentes em torno da transformação positiva da QVT da Empresa X, há, por certo, luz no fim do túnel: indução de mudanças, catalisação de anseios, propulsão de uma cultura de participação, cooperação, integração, horizontalização, aproximação de pessoas, construção coletiva do futuro pessoal e organizacional. Esses são alguns dos resultados possíveis no futuro com base na mais adequada incorporação à comunidade Empresa X e à organização que a acolhe, a Empresa X, das proposições de vanguarda que tiveram no fórum o solo fértil de sua semeadura. Utopia? Talvez não. E aqui, lançando mão do esclarecimento de Cortella (2000) – mais que oportuno, para os tempos que correm –, registra-se que utopia não significa, em seu sentido de origem, lugar inatingível, mas, sim, lugar que tão somente ainda não foi possível atingir. REFERÊNCIAS Carneiro, T. L. & Ferreira, M. C. (2007). Redução de jornada melhora a Qualidade de Vida no Trabalho? A experiência de uma organização pública brasileira. Psicologia, 7, 131-158. Cortella, M. S. (2000). Existirmos, a que será que se destina? Quem somos nós, após estes 2000 anos? Em ABRH – Nacional & Racional Consultoria (Org.), Poten-cialização de Talentos na América Latina. [Vídeo]. Gramado: LC Vídeo Produções. Dejours, C. (1993). Pour une Clinique de la Médiation entre Psychanalyse et Politique: la Psychodynamique du Travail. Retirado em 08/01/2009, no World Wide Web: http://mapageweb.umontreal.ca/scarfond/T 3/3-Dejours.pdf. 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Novas Perspectivas na Gestão Transcultural NEW PERSPECTIVES IN TRANSCULTURAL MANAGEMENT por: Antonio Caubi Ribeiro Tupinambá* Recebido em: 21.01.2010 Aprovado em: 12.02.2010 Publicado em: 22.03.2010 Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará. Av. da universidade, 2762, Bairro Benfica, CEP 60020-180, Fortaleza (CE). [email protected]. lattes http://lattes.cnpq.br/7504965698434271. Manual de Gestão Transcultural de Recursos Humanos 125 Cada caminho, cada espaço, cada país, cada cultura exigem sandálias próprias. As organizações podem usar o mesmo tipo de calçado em todos os espaços onde operem. Mas parece pouco curial que usem as mesmas sandálias. É essa a metáfora principal deste livro (p. 505). P ara compreender os requisitos da liderança transcultural, é necessário partir de uma caracterização do mosaico multicultural. Essa demanda vai nos levar ao aporte teórico sobre cultura e suas implicações para a gestão das organizações, sobre dimensões culturais e seus diferentes modelos e autores e, finalmente, sobre a abordagem fundamental dos estudos contidos no projeto Globe (Global Leadership and Organizational Behavior Effectiveness) (House, Hanges, Javidan, Dorfman e Gupta, 2004), que veio sintetizar diversos elementos, de certa forma ainda descoordenados, sobre temas e estudos interculturais de âmbito organizacional. A partir daí se delineiam as contribuições dos autores do livro ora resenhado sobre gestores estrangeiros, expatriação de talentos, sua repatriação e temas correlatos. Vale salientar a originalidade do trabalho, que vem preencher uma lacuna na área de gestão de recursos humanos (GRH) em perspectiva intercultural, transcultural e no âmbito de diferentes culturas nacionais. A originalidade do trabalho e a sólida fundamentação teórica e empírica para a construção do conhecimento sobre esse tipo de gestão bem como o rico material gerado para ser utilizado em perspectiva tanto acadêmica como profissional nos obrigaram a resenhá-lo, para assim poder estimular sua divulgação, o que, certamente, dada a sua importância e a sua visibilidade iminente, terá voo próprio no universo dos estudos e das práticas sobre as organizações, as culturas e as lideranças na academia e fora dela. Os experientes autores, professores Arménio Rego e Miguel Pina e Cunha, respectivamente da Universidade de Aveiro e da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, sempre atentos a questões de natureza humana no mundo do trabalho e das organizações, o que pode ser facilmente apreendido da vasta lista de suas publicações nesse campo, são os responsáveis pela construção cuidadosa do texto atual, objeto de nossos comentários. Nomeados autores não consideraram o assunto novo na Europa, embora, para eles, o seja em países europeus mais periféricos, como Portugal. Dessa forma, abordam-no de maneira multitemática e diversificada, para que corresponda, adequadamente, ao que se conhece hoje sobre internacionalização de empresas entre os mais diversos contextos e nações. A questão dos expatriados e temas correlatos forma, contudo, apenas uma parte do livro, que traz também uma série de tópicos essenciais à sua discussão, nomeadamente a liderança, passando pela cultura e pela globalização, até aportar em determinados lugares, para evitar a excessiva abstração no tratamento das culturas e de suas relações com os processos gerenciais e organizacionais. Com a consideração desses lugares reais, nos quais ocorrem os movimentos de transferência de pessoas e de organizações, podem ser apresentadas especificidades de gestão de pessoas e sua relação com diferentes contextos culturais nacionais. A obra se divide em um livro impresso, objeto de nossos comentários atuais, e de um CD de apoio que o complementa, com mais quatro capítulos dedicados, especificamente, à originalidade de determinados procedimentos de gestão de pessoas em diferentes países. Mundialização ou globalização, em dependência da tradição francofônica ou anglosaxônica, não pode mais ser descolada da atuação das organizações em diferentes pontos do planeta. A expressão, cunhada por McLuhan na década de 1960 para designar o movimento das comunicações globalizadas, se atualiza e se fortalece com o passar do tempo. No presente, para se tornar um gerente global, essencial na economia, deve-se pensar em habilidades globais que o ajudarão em países culturalmente diversos ou em empresas com pessoas dessas diferentes cul- Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 124-130 126 Tupinambá, A. C. R. turas (Kinicki e Kreitner, 2006). Mas, nessa "aldeia global", não se perdem as especificidades culturais. A pergunta sobre até que ponto teorias gerenciais norte-americanas, por exemplo, se aplicam a outros países é facilmente respondida com um "não muito bem." "Para que sejam efetivos, os gerentes em tais situações multiculturais precisam desenvolver habilidades globais" (Kinicki e Kreitner, 2006, p. 71). A dialética entre o específico e o global persegue os gerentes expatriados em seu movimento transcultural. A tentativa de se evitarem as anunciadas catástrofes mundiais, a exemplo da que ocupou o tempo e as pessoas na Conferência Internacional de Copenhague em 2009, a COP 15, ilustra como assuntos eventualmente restritos a remotos países se ligam ao mais central dos eventos em pontos estratégicos do planeta. Nada mais merece o status de fenômeno isolado. As caravelas que partiram da Europa para iniciar ou acelerar o processo de formação e integração das nações no século quinze culminam, hoje, com a realidade das trocas de informação em velocidade e dimensões antes inimagináveis. Transporte e internet contribuem para a aceleração e a requalificação desses processos no mundo hodierno, com inevitáveis consequências de acirramento dos movimentos de globalização. Os homens e suas organizações terão de saber lidar com a realidade que se lhes impõe. As relações e experiências de trabalho, para aqueles que vivenciam essa nova organização mundial, estão postas, principalmente para as forças gerenciais. A gestão das pessoas passa a fazer parte do complexo de competências previsto e exigido no âmbito das relações organizacionais interculturais. Aprender a gerir nesse contexto, isto é, como gerir a aldeia global e o mosaico multicultural que a ela corresponde é o destino principal do livro em questão. A sugestão do mundo como uma aldeia global, conceito já cunhado em outros contextos, e como um mosaico multicultural caracterizará o primeiro capítulo do livro. Introduz-se, com base na ideia de que é necessário, para qualquer pessoa em mobilidade cultural, saber lidar satisfatoriamente com essa realidade multicultural inerente. Daí surge o conceito de "inteligência cultural", recurso essencial ao bom desempenho de gestores que se lancem no mundo. Não se trata apenas de gestores de organizações com operações internacionais, mas de pessoas que lidam com situações nas quais haja um tangenciamento com outras realidades culturais às suas. Há poucos gestores que, no seu dia a dia, lidem somente com uma realidade cultural específica. O texto desse capítulo aponta também saídas para as contradições organizacionais no mundo globalizado que impedem ou dificultam esse lidar com situações culturais que se relacionam entre si. De um lado, exigências globais, de outro, exigências locais, mas todas com implicações para a eficácia de modelos gerenciais adotados nas diferentes situações que se apresentam nas organizações e nas sociedades. O conceito de "inteligência cultural" é central nesse primeiro capítulo. Talvez pela força do conceito para explicar o tipo de desempenho dos expatriados. Trata-se de uma aptidão e uma competência vital para aqueles que desejam melhor compreender os modos e ritos sociais dos países anfitriões: ...a inteligência cultural é uma macro competência que engloba três aspectos: cognitivo, físico e emocional/motivacional [...] Os indivíduos cognitivamente inteligentes são capazes de captar sinais de envolvente tendo em vista compreender as particularidades culturais locais. Mediante as interacções e a observação dos outros, conseguem identificar o que é ou não culturalmente aceitável. (p. 58-59). Ações que resultam da compreensão cultural estariam no âmbito do que se caracterizou como aspecto físico da inteligência cultural. Através desse aspecto físico, o indivíduo é capaz de agir de modo apropriado e concitar a confiança dos autóctones. No que tange ao aspecto emocional e motivacional, seguem alguns esclarecimentos dos autores: Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 124-130 Manual de Gestão Transcultural de Recursos Humanos A adaptação a uma nova cultura implica a capacidade para vencer obstáculos e insucessos. Para tal, é essencialmente relevante acreditar na sua própria eficácia, ser perseverante perante os desafios, estar motivado e denotar confiança. A pessoa pouco crente na sua capacidade de compreender verdadeiramente as pessoas de outras culturas rapidamente esmorecerá, atenuará os seus esforços de adaptação, sentirá desconforto e poderá ser alvo de hostilidade e incompreensão dos autóctones (p. 60). Muito próximos à realidade gerencial exposta encontram-se os temas da "boa" ou da "má" liderança. Essa questão, que é abordada no segundo capítulo, foi amplamente estudada no projeto Globe, no qual se buscou desenvolver uma teoria com base empírica para relacionar variáveis culturais e liderança e processos organizacionais, bem como sua eficácia. Quanto esse novo estudo sobre cultura e liderança no âmbito do projeto Globe, trata-se de uma sucessão dos estudos anteriores desenvolvidos em outros projetos sobre organizações e cultura, a exemplo do que fez Geert Hofstede (2001)? Esse paradigma é lembrado pelos autores e encontra novas perspectivas de discussão e aplicação para ajudar aquelas pessoas que se aventuram na experiência de gerência transcultural ou de gestão internacional. Dando prosseguimento a questões acerca do caráter internacional dos processos de liderança organizacional, os autores abordam, no capítulo três, a comunicação dos líderes em diferentes realidades culturais. Há características pessoais desses líderes que podem contribuir ou dificultar sua atuação em contextos transculturais ou no âmbito de um trabalho, por exemplo, com equipes multiculturais? Como se desenvolvem tais características e quais as implicações do conhecimento acerca dessas características para um eventual projeto de formação de líderes globais? Para Kinicki e Kreitner, (2006, p. 67), "os gerentes de hoje, quer trabalhem em casa para uma empresa estrangeira ou trabalhem real- 127 mente em um país estrangeiro, precisam desenvolver uma mentalidade global". Para os autores, como é também sentido no texto de Rego e Cunha, existe a possibilidade de se aprender a ser um gerente global. A realidade da globalização traz um novo desenho organizacional, no qual se inclui uma "vocação organizacional internacional" diferenciada daquela que se limita a uma endogenia cultural, que reflete procedimentos de gestão circunscritos culturalmente. Gestores que não consideram diferenças culturais para decidir sobre sua prática ajudam a empresa a adotar estratégias e políticas inapropriadas: "Os gestores, por seu turno, tomam fracas decisões, colidem com as culturas locais, experimentam grande desajustamento cultural e acabam por ser mal sucedidos." (p. 34). É a partir dessas constatações que nascem, no capítulo quatro, questões acerca das práticas organizacionais multinacionais em diferentes contextos culturais, lançando luz, principalmente, nas relações entre cultura e práticas de gestão de recursos humanos (GRH). Tendo em vista se tratar de discussões sobre práticas gerenciais, elas podem ter grande utilidade não somente para o desenvolvimento de estudos acadêmicos na área, mas também para auxiliar gestores que pretendam ou estejam em missão em outras realidades culturais. A matéria do capítulo cinco alude ao que se pode compreender por "ajustamento sociocultural de gestores expatriados". Do ponto de vista da organização, questionam-se quais poderiam ser as vantagens ou desvantagens de se expatriar ou se trabalhar com gestores locais e como e por que alguns indivíduos se adaptam melhor, ou quais são as razões para haver o desajustamento daqueles que, apesar de boas condições de trabalho, sofrem desajustamento ao serem expatriados. Além disso, são abordadas questões relativas ao desempenho das pessoas que estão atuando em novas realidades culturais. Outros autores já afirmaram que somente com um olhar sobre distinções culturais pode-se oferecer boa qualificação a expatriados (Kinicki e Kreitner, 2006). Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 124-130 128 Tupinambá, A. C. R. No capítulo seis, novos conceitos são introduzidos para descrever movimentos de expatriados no âmbito da gestão internacional. Há, dentro do universo de expatriados, os impatriados e os flexpatriados: Os impatriados são os indivíduos oriundos dos países de destino das multinacionais que exercem atividades na casa-mãe, numa base permanente ou semi-permanente. Por exemplo, uma multinacional portuguesa com operações na China coloca, em Portugal, gestores chineses [...] Os flexipatriados são os colaboradores que circulam prolixamente entre países, em estadas de curta duração. Não se fazem acompanhar pela família e respondem às necessidades de flexibilidade das empresas. São porventura mais frequentes em empresas de pequena e média dimensão com operações internacionais. Contribuem para a criação da competência global da empresa, mas não se lhes requer o mesmo nível de imersão cultural exigido aos expatriados e aos impatriados (p. 344). Quais são as competências conhecidas ou previstas para uma seleção eficaz de gestores expatriados? Como as competências interculturais imprescindíveis para a missão dos colaboradores que estão à frente dessas empreitadas internacionais podem ser identificadas? O capítulo sete trata, com especificidade, do potencial dos candidatos à expatriação. Parte-se do pressuposto de que tais potencialidades podem ser relacionadas à capacidade de essas pessoas compreenderem o contexto cultural, mensagens não-verbais dos anfitriões e outros elementos locais que dependem de muito mais do que o domínio linguístico, que geralmente é exigido dos candidatos à expatriação. Há possibilidade de serem traçadas políticas empresariais de expatriação que são abordadas levando-se em conta diversos elementos individuais, culturais e organizacionais, sem se ignorar, portanto, a complexidade da matéria. Diversos fatores são, para tanto, considerados, a saber: a relação entre a estratégia de negócios da empresa e suas políticas de expatriação; as políticas de seleção, formação e desenvolvimento dos expatriados e os riscos de fracasso ou sucesso das missões. A partir daí, são sugeridas cinco categorias de políticas de expatriação: 1) global: "Essa política tende a caracterizar as multinacionais de grande dimensão, com décadas de existência. A empresa global toma a expatriação como um facto indissociável da sua actividade à escala global" (p. 374); 2) emissária: "A empresa emissária tem mercados internacionais bem estabelecidos, em função dos quais actua a longo prazo" (p. 374); 3) profissional: "Este modelo corresponde às empresas cuja expatriação está assente em parâmetros profissionais e especializados. Implica, por regra, o recurso a profissionais externos à empresa que possam suprir as necessidades desta em operações internacionais" (p. 375); 4) periférica: "Este modelo caracteriza as empresas 'periféricas' que operam em determinados nichos de mercado e estão afastadas do centro de actividade (seja geográfica ou mentalmente). Empresas multinacionais de pequenos países constituem um caso ilustrativo. A atitude predominante é a da necessidade de 'expansão para o estrangeiro' - mais do que uma estratégia transnacional/global" (p. 376); 5) expediente: "As empresas com este perfil tendem a ser as recém-chegadas ao jogo internacional e que tentam desenvolver as suas políticas e práticas internacionais. O processo de expatriação é, por conseguinte, ad hoc e pragmaticamente orientado para responder a necessidades específicas, pontuais" (p. 377). Esse mesmo capítulo ainda apresenta uma grade de decisão para a escolha entre líderes expatriados ou locais, conforme os tipos de atividades empresariais pretendidos. O modelo relaciona o tipo de atividade com o tipo de gestor ideal correspondente, o que pode ajudar na delicada decisão de escolha entre líderes locais ou expatriados para cada missão organizacional em terras estrangeiras. Questões clássicas de natureza psicológica, como características de personalidade, traços e competências e motivação de líderes a serem expatriados, são tratadas, no capítulo Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 124-130 Manual de Gestão Transcultural de Recursos Humanos sete, em relação a perspectivas de sua identificação anterior, por exemplo, por meio de procedimentos seletivos. O desenvolvimento e a formação que sucedem a escolha em função de características e competências dos expatriáveis são assuntos recorrentes no capítulo seguinte. Os dois capítulos abordam os domínios da formação e do desenvolvimento desses líderes selecionados para expatriação com base em questões de natureza eminentemente psicológicas. Temas relativos ao momento posterior à escolha, mais especificamente aqueles relacionados à competência intrínseca ou desenvolvida por esses indivíduos para trabalhar em perspectiva intercultural, fazem parte do "cardápio" psicológico do capítulo oito. Por essa abordagem, fica mais claro como poderão ser concebidos e planejados, baseando-se principalmente em critérios de competência, os procedimentos de seleção de potenciais expatriáveis, a exemplo do que vem sendo descrito no capítulo sete. O livro usa adequadamente do recurso das grades de decisão para a sistematização de diferentes assuntos à guisa de modelos para estudos teóricos e práticos. Tal acontece também no que tange a modelos de seleção de gerentes. A gestão de desempenho dos expatriados segue os passos de práticas tradicionais de GRH nessa área e engloba, portanto, aspectos como a definição de objetivos, a avaliação de desempenho, a formação, o desenvolvimento e a compensação. Os sistemas de compensação internacional talvez sejam, entre esses diferentes aspectos, o que há de mais característico e diferenciado, recebendo, portanto, grande atenção, especialmente no que tange à filosofia subjacente a nomeados sistemas. Repleto de metáforas que complementam a linguagem técnica e científica predominante do livro, o capítulo nove encerra a exposição sobre o complexo e, para a realidade brasileira, muito atual tema da expatriação. Aspectos abordados ao longo do livro são sintetizados nesse capítulo, sugerindo a viabilidade de uma leitura em "duas mãos". O capítulo em questão pode servir tanto de introdução para aqueles que prefiram ter uma panorâmica dos diferentes conteúdos desenvolvidos ao longo do livro quanto de conclusão e síntese, para aqueles que, depois 129 de se aprofundarem nos diferentes conteúdos, desejem concluir com os autores. Nesse capítulo final da parte impressa do livro, é possível apreender lições para uma gestão global complexa, como sugere, na abertura, o próprio título do livro. Há, na maneira como foi organizado o texto da obra, o cuidado de apontar linhas de pesquisa para cada temática. O livro permite também a apropriação de técnicas e modelos viáveis para profissionais que atuam ou pretendam atuar na área da gerência de expatriados, ou para os próprios profissionais que vivem ou pretendam vivenciar a experiência da expatriação. Conhecimentos obtidos por meio de pesquisas, estudos de caso e análise de relatos de experiências em organizações as mais diversas que tenham tido algum espaço para o gerenciamento ou o trabalho de expatriados ajudam a ilustrar, vividamente, a experiência da expatriação, enriquecendo os resultados de pesquisas e a teoria abordada na área. Com esse trabalho, ganham profissionais, pesquisadores, estudantes, professores, empresas e empresários, cujas preocupações tangenciem, de algum modo, a temática da expatriação e da experiência de trabalho transcultural. Além do cientista social, o viajante, o andarilho ou o globetrotter, aquele com o desejo de desvendar os mistérios da vida e do trabalho nas diferentes organizações e culturas, a dinâmica da troca e da interculturalidade, se habilitará a ser um leitor interessado do livro ora resenhado. No mundo, as possibilidades de ação e atuação multicultural hodiernas não podem mais ser ignoradas por quem quer que esteja em uma organização ou simplesmente por quem não queira dispensar a riqueza da troca e do compartilhamento. Os autores trazem, com seu trabalho, uma contribuição técnica e profissional para as organizações e seus gerentes em ações transculturais, mas contribuem, também e principalmente, para a atualização e o conhecimento sobre o entendimento global a partir das trocas organizacionais, algo imprescindível nas práticas de trabalho contemporâneas e indispensável para a promoção do entendimento entre as pessoas em escala global. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 124-130 130 Tupinambá, A. C. R. REFERÊNCIAS Hofstede, G. (2001). Culture's consequences: Comparing values, behavior, institutions and organizations across nations. Thousand Oaks: Sage. House, R. J., Hanges, P. J., Javidan, M., Dorfman, P. W. & Gupta, V. (2004). Culture, leadership, and organizations. The Globe study of 62 societies. Thousand Oaks: Sage. Kinicki, A. & Kreitner, R. (2006). Comportamento organizacional. São Paulo: McGraw-Hill. Rego, A. & Cunha, M. P. e. (2009). Manual de Gestão Transcultural de Recursos Humanos. Lisboa: Editora RH. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 9, 2, jul-dez 2009, 124-130 O Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações da Universidade de Brasília (PG-PSTO/UnB) é participante da rPOT. http://www.psto.com.br SobreSobre o Periódico o Periódico O Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal da Bahia (POSPSI/UFBA) é participante da rPOT. http://www.pospsi.ufba.br O Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Revista Psicologia: Organizações e Trabalho Revista Psicologia: Organizações e Santa Trabalho Catarina (PPGP/UFSC) é particiISSN 1984-6657 pante da rPOT. http://www.cfh.ufsc.br/~ppgp Missão Temos o objetivo de tornar disponível a produção inédita do conhecimento dentro da temática ampla do comportamento humano no trabalho e dos processos organizacionais que o envolvem. Foco & Escopo A revista destina-se a profissionais e acadêmicos de Psicologia Organizacional e do Trabalho (PO&T) e áreas afins que estejam dispostos a contribuir para o enriquecimento do debate crítico, da pesquisa e do ensino em PO&T. Política de Direitos Autorais Os direitos autorais dos artigos publicados na Revista Psicologia: Organizações e Trabalho pertencem ao periódico. A reprodução total dos manuscritos aqui publicados está condicionada à autorização escrita da editoria da rPOT. Pessoas interessadas em reproduzir parcialmente os artigos desta revista (partes do texto que excederem 500 palavras, tabelas, figuras e/ou outras ilustrações) deverão ter permissão escrita do(s) autor(es). Política de Avaliação de Manuscritos A análise dos artigos submetidos é realizada no sistema blind review. São designados dois avaliadores (avaliação por pares) por manuscrito. Caso haja pareceres divergentes, um terceiro avaliador é escolhido. A avaliação dos artigos versa sobre o mérito científico do trabalho, sobre sua forma e conteúdo e ainda sobre seu enquadramento nas normas editoriais da revista. Periodicidade A Revista Psicologia: Organizações e Trabalho é publicada semestralmente somente em meio eletrônico. A revista é de acesso aberto. Corpo Editorial Ana Margarida Passos - O Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa Lisboa, Portugal Jesus Salgado - Universidad de Santiago de Compostela - Santiago de Compostela, Espanha Antonio Caetano - O Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa - Lisboa, Portugal José Carlos Zanelli - Universidade Federal de Santa Catarina - Florianópolis, Brasil Antonio Virgílio Bittencourt Bastos Universidade Federal da Bahia - Salvador, Brasil Arturo Juárez García - Universidade Autônoma do Estado de Morelos - Cuernavaca, México Jose Luis Alvaro Estramiana - Universidad Complutense de Madrid - Madri, Espanha José Roberto Montes Heloani - Fundação Getúlio Vargas - São Paulo, Brasil Maria José Chambel - Universidade de Lisboa - Lisboa, Portugal Jairo Eduardo Borges-Andrade Universidade de Brasília - Brasília, Brasil Saul Neves de Jesus - Universidade do Algarve - Faro, Portugal Javier Labarthe - Universidad Católica del Uruguay - Montevideo, Uruguai Sigmar Malvezzi - Universidade de São Paulo - São Paulo, Brasil http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index EXPEDIENTE Editoria Gardênia da Silva Abbad, Universidade de Brasília (UnB) Sônia Gondim, Universidade Federal da Bahia (UFBA) Narbal Silva, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Assistência Editorial Rodrigo R. Ferreira, Universidade de Brasília (UnB) Marcela Nicoletti, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Revisão Ortográfica, Gramatical e de Forma Ana Luz, Universidade Federal da Bahia (UFBA) Diagramação e Arte Final Rodrigo R. Ferreira, Universidade de Brasília (UnB) CONTATO Revista Psicologia: Organizações e Trabalho Universidade de Brasília Instituto de Psicologia Departamento de Psicologia Social e do Trabalho Campus Universitário Darcy Ribeiro - ICC Sul CEP 70910-900. Brasília (DF) ( 55+61 3307-2625 Ramal 222 + [email protected] Fax: 55+61 3272-2293 ____________________ Revista Psicologia: Organizações e Trabalho (rPOT) http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index ISSN 1984-6657 Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho (SBPOT) www.sbpot.org.br Associação Brasileira de Editores Científicos de Psicologia (ABECIP) http://newpsi.bvs-psi.org.br/abecip/abecip.htm