UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E DA COMUNICAÇÃO MESTRADO EM DESENVOLVIMENTO REGIONAL GESTÃO ESTRATÉGICA DE ENERGIA ELÉTRICA E SEUS REFLEXOS NO DESENVOLVIMENTO REGIONAL SANDRO GERALDO BAGATTOLI BLUMENAU 2005 SANDRO GERALDO BAGATTOLI GESTÃO ESTRATÉGICA DE ENERGIA ELÉTRICA E SEUS REFLEXOS NO DESENVOLVIMENTO REGIONAL Dissertação apresentada ao Colegiado do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional do Centro de Ciências Humanas e da Comunicação da Universidade Regional de Blumenau, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento Regional. Prof. Eduardo Deschamps - Orientador BLUMENAU 2005 GESTÃO ESTRATÉGICA DE ENERGIA ELÉTRICA E SEUS REFLEXOS NO DESENVOLVIMENTO REGIONAL Por SANDRO GERALDO BAGATTOLI Dissertação aprovada para a obtenção do título de Mestre no Mestrado em Desenvolvimento Regional, pela banca examinadora formada por: Presidente: ________________________________________________ Prof. Dr. Eduardo Deschamps – Orientador, FURB Membro: ________________________________________________ Prof. Dr. Ivo Marcos Theis, FURB Membro: ________________________________________________ Prof. Dr. C. Celso de Brasil Camargo, UFSC Coordenador do MDR: _________________________________________ Prof. Dr. Oklinger Mantovanelli Jr. BLUMENAU, 11DE MARÇO DE 2005. Dedico este trabalho à pessoa que teve todo o trabalho de suprir minha falta no lar enquanto eu próprio me dedicava ao trabalho: minha esposa Márcia. AGRADECIMENTOS Muitas foram as pessoas que me auxiliaram, direta ou indiretamente, na consecução desse objetivo, nem todas aqui expressamente mencionadas, mas nem por isso menos importantes. Agradeço, em primeiro lugar, a Deus, por ter me destinado tal dádiva de possuir condições físicas, mentais e materiais de atingir os objetivos a que tenho me proposto. Por reconhecer o pilar central dessa dádiva, agradeço e tenho orgulho das pessoas às quais fui confiado nessa existência, meus pais Mário e Luzia, a quem credito uma formação exemplar. Especificamente quanto a esse mestrado, gostaria de agradecer, sob uma ordem quase cronológica da minha participação neste curso: Ao orientador deste trabalho, Prof. Eduardo Deschamps, por sua postura serena e pragmática, que muito contribuiu para a melhorar a objetividade e a clareza da abordagem realizada nessa dissertação. Ao Prof. Ivo Marcos Theis, pelo apoio e contribuições em fases decisivas dessa empreitada. Ao Prof. Marcos Mattedi, pela amizade e consideração. À Profª. Griseldes Boos e ao Prof. Altamir Ronsani Borges, à frente do Centro Tecnológico e do Departamento de Engenharia Elétrica, aqui representando igualmente os demais servidores e professores do Departamento de Engenharia Industrial Elétrica, os quais propiciaram o importante apoio institucional da FURB à minha pessoa. Ao Prof. Pedro Paulo Bramont pela disposição em colaborar e trazer novas informações. Aos demais professores do Mestrado, assim como à secretária do Curso e também colega Laurete, pela compreensão, seriedade e competência no desempenho de suas atividades. À Centrais Elétricas de Santa Catarina – CELESC, nas figuras do engenheiro Régis Evaloir da Silva, que deu condições à iniciativa da pesquisa de campo ora aqui concluída; e do engenheiro Fernando Garcia Ribeiro, cuja participação foi fundamental para o desenvolvimento da mesma; Ao companheiro celesquiano Jorge Zimmermann, pelo apoio irrestrito que vêm emprestando desde o início de minha carreira como professor da FURB, no que tange aos seus conhecimentos na área comercial de energia elétrica. Não desista, insista! SUMÁRIO AGRADECIMENTOS .............................................................................................................5 SUMÁRIO .................................................................................................................................8 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ...........................................................................13 LISTA DE SÍMBOLOS .........................................................................................................15 LISTA DE FIGURAS .............................................................................................................16 LISTA DE TABELAS ............................................................................................................17 LISTA DE EQUAÇÕES ........................................................................................................17 LISTA DE ANEXOS ..............................................................................................................19 RESUMO.................................................................................................................................20 ABSTRACT.............................................................................................................................21 1. INTRODUÇÃO................................................................................................................22 1.1. PROBLEMA DE PESQUISA.........................................................................................26 1.2. PERGUNTAS DE PESQUISA.......................................................................................26 1.3. PRESSUPOSTOS ...........................................................................................................27 1.4. OBJETIVOS....................................................................................................................27 1.4.1. Geral 27 1.4.2. Específicos 27 1.5. JUSTIFICATIVA/ RELEVÂNCIA ................................................................................27 1.5.1. Relevância prática 27 1.5.2. Relevância teórica 28 1.6. ESTRUTURA DO TRABALHO....................................................................................28 2. METODOLOGIA ............................................................................................................31 2.1. MÉTODOS DE ABORDAGEM E DE PROCEDIMENTO ..........................................31 2.2. POPULAÇÃO E AMOSTRAGEM ................................................................................32 2.3. TÉCNICA DE COLETA DE DADOS ...........................................................................34 2.4. HISTÓRICO DOS PROCEDIMENTOS DE COLETA DE CAMPO ...........................35 2.5. TABULAÇÃO DOS DADOS ........................................................................................36 2.6. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS...........................................................37 2.7. LIMITAÇÕES DA PESQUISA......................................................................................38 3. ENERGIA ELÉTRICA E DESENVOLVIMENTO.....................................................39 3.1. ENERGIA ELÉTRICA NO CONTEXTO ECONÔMICO-ENERGÉTICO ..................39 3.2. DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E CONSUMO DE ENERGIA ELÉTRICA ..47 3.3. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, ECONOMIA ECOLÓGICA E ENERGIA ELÉTRICA......................................................................................................................51 3.4. CONSERVAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA NA AGENDA DO DESENVOLVIMENTO .................................................................................................58 3.4.1. Gerenciamento pelo lado da demanda 64 3.4.1.1. Novos usos e melhoria da eficiência energética (conservação de energia) .............. 65 3.4.1.2. Gerenciamento da carga ........................................................................................... 66 3.4.1.3. Políticas tarifárias ..................................................................................................... 67 3.4.1.4. Geração pelos consumidores .................................................................................... 69 4. GESTÃO ESTRATÉGICA DE ENERGIA ELÉTRICA ............................................71 4.1. INTRODUÇÃO ..............................................................................................................71 4.2. ELABORAÇÃO CONCEITUAL...................................................................................71 4.3. A ANÁLISE SISTÊMICA DOS ENFOQUES DE GESTÃO DE ENERGIA ELÉTRICA......................................................................................................................75 4.3.1. Análise de alternativas. 78 4.3.2. Eficiência energética de equipamentos e processos 81 4.3.3. Gerenciamento de carga, tarifação e fornecimento de energia elétrica 82 4.3.3.1. Projeto elétrico e pedido de carga ............................................................................. 83 4.3.3.2. Gestão dos itens submetidos à obrigações contratuais e tributárias ......................... 85 4.3.3.3. O gerenciamento do fator de carga ........................................................................... 89 4.3.3.4. O gerenciamento do fator de potência ...................................................................... 91 4.3.3.5. 4.3.4. Análise de enquadramento tarifário .......................................................................... 93 Composição técnico-econômica de fornecedores diversos 94 4.3.4.1. Autoprodução de energia elétrica ............................................................................. 95 4.3.4.2. Composição de fontes diversas................................................................................. 99 4.4. CONCLUSÕES DO CAPÍTULO .................................................................................102 5. GESTÃO ESTRATÉGICA DE ENERGIA ELÉTRICA E O DESENVOLVIMENTO REGIONAL ......................................................................107 5.1. INTRODUÇÃO ............................................................................................................107 5.2. GESTÃO ESTRATÉGICA DE ENERGIA ELÉTRICA, COMPETITIVIDADE EMPRESARIAL E REGIONAL ..................................................................................107 5.3. A GEEE E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL............................................115 5.4. CONCLUSÕES DO CAPÍTULO .................................................................................121 6. ANÁLISE DOS RESULTADOS DA PESQUISA DE CAMPO................................124 7. CONCLUSÕES DA PESQUISA ..................................................................................129 8. RECOMENDAÇÕES PARA TRABALHOS FUTUROS .........................................134 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................138 APÊNDICES .........................................................................................................................150 APÊNDICE A - O MERCADO DE ENERGIA ELÉTRICA...........................................151 1 CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS DO PRODUTO ENERGIA ELÉTRICA.....151 1.1 DEMANDA E OFERTA DE ENERGIA ELÉTRICA. ................................................154 1.2 ESPECIFICIDADES DA OFERTA DE ENERGIA ELÉTRICA ................................156 1.3 O COMPORTAMENTO ECONÔMICO DOS AGENTES DA OFERTA DE ENERGIA ELÉTRICA. ................................................................................................161 2 HISTÓRICO INSTITUCIONAL-LEGAL DO SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO .......................................................................................................................................165 2.1 A PRIMEIRA FASE, ATÉ 1930. .................................................................................165 2.2 DE 1930 A 1964............................................................................................................166 2.3 DE 1965 A 1990............................................................................................................167 2.4 DE 1990 A 2004............................................................................................................170 2.5 SITUAÇÃO ATUAL E MUDANÇAS PREVISTAS. .................................................175 3 A COMERCIALIZAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA NA ATUAL ESTRUTURA DO SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO ..................................................................178 3.1 O CONSUMIDOR NO PROCESSO DE COMPRA DE EN ERGIA ELÉTRICA.......181 3.2 O CONSUMIDOR NO PROCESSO DE VENDA DE ENERGIA ELÉTRICA .........183 3.3 O CONSUMIDOR E A FIGURA DO AGENTE COMERCIALIZADOR .................185 APÊNDICE B - GERENCIAMENTO DE CARGA..........................................................189 1 INTRODUÇÃO..............................................................................................................189 2 CARGA E DEMANDA.................................................................................................190 3 FATORES DE DEMANDA E DE DIVERSIDADE...................................................193 4 CURVA DE CARGA.....................................................................................................198 4.1 CURVAS DE CARGA TÍPICAS .................................................................................198 4.2 CURVA DE CARGA – ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES ........................................202 4.3 CARGA MÉDIA E DEMANDA MÉDIA. ...................................................................205 5 FATOR DE CARGA .....................................................................................................207 6 FATOR DE POTÊNCIA...............................................................................................212 APÊNDICE C - TARIFAÇÃO E FORNECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA......215 1 INTRODUÇÃO..............................................................................................................215 2 TARIFAS DE ENERGIA ELÉTRICA........................................................................217 2.1 CONCEITO DE TARIFA.............................................................................................217 2.2 NÍVEL TARIFÁRIO.....................................................................................................218 2.3 ESTRUTURA TARIFÁRIA.........................................................................................221 3 3.1 SISTEMA BRASILEIRO DE TARIFAÇÃO .............................................................225 CLASSIFICAÇÃO DO CONSUMIDOR DE ENERGIA ELÉTRICA........................225 3.1.1 3.1.2 Classes de consumo Tensão de fornecimento 226 226 3.2 GRUPOS TARIFÁRIOS...............................................................................................228 3.2.1 Grupo B 228 3.2.2 Grupo A 229 3.2.3 Mudança de grupo tarifário 230 3.3 TIPOS DE ESTRUTURAS TARIFÁRIAS EXISTENTES NO BRASIL ...................231 3.3.1 Tarifa convencional 231 3.3.2 Tarifas horo-sazonais 232 3.4 OS CONTRATOS DOS CONSUMIDORES DE ENERGIA ELÉTRICA..................236 3.4.1 Mudanças previstas para os contratos do grupo A 238 4 4.1 FATURAMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA .........................................................239 CONCEITO E DESCRIÇÃO DOS PRINCIPAIS ELEM ENTOS DA FATURA DE ENERGIA ELÉTRICA.................................................................................................239 4.2 CONSUMO DE ENERGIA ATIVA.............................................................................240 4.2.1 Consumidor do grupo B 241 4.2.2 Consumidor do grupo A – convencional 242 4.2.3 Consumidor do grupo A - horo-sazonal 243 4.2.4 Mudanças previstas para o faturamento de consumo do grupo A 243 4.3 DEMANDA DE POTÊNCIA ELÉTRICA ATIVA......................................................244 4.3.1 Consumidor do grupo A - convencional 245 4.3.2 Consumidor do grupo A - horo-sazonal 245 4.3.3 Mudanças previstas para o faturamento de demanda 246 4.4 DEMANDA DE ULTRAPASSAGEM ........................................................................246 4.4.1 Mudanças previstas para o faturamento de ultrapassagem de demanda 247 4.4.2 Consumidor em alta tensão – convencional 248 4.4.3 Consumidor em alta tensão – horo-sazonal 248 4.5 EXCEDENTES DE REATIVO: DEMANDA DE POTÊNCIA E CONSUMO DE ENERGIA .....................................................................................................................249 4.5.1 Consumidor em baixa tensão 252 4.5.2 Consumidor em alta tensão - convencional - sem medição apropriada 253 4.5.3 Consumidor em alta tensão - horo-sazonal ou convencional - com medição apropriada 256 4.5.4 Mudanças previstas para o faturamento dos excedentes de reativo 258 4.6 PERDAS DE TRANSFORMAÇÃO ............................................................................258 4.7 IMPOSTOS INCIDENTES SOBRE O FATURAMENTO .........................................259 4.8 ILUMINAÇÃO PÚBLICA...........................................................................................260 4.9 TAXAS DIVERSAS .....................................................................................................260 4.10 MULTAS ......................................................................................................................261 4.11 SITUAÇÕES ESPECIAIS – COBRANÇAS OU DEVOLUÇÕES. ............................261 5 5.1 CONTRATOS E FATURAMENTO DO CONSUMIDOR LIVRE OU AUTOPRODUTOR ....................................................................................................263 CONSUMIDOR LIVRE ...............................................................................................263 5.2 CONSUMIDOR AUTOPRODUTOR ..........................................................................268 ANEXOS ................................................................................................................................269 APÊNDICE D - PLANEJAMENTO E OPERAÇÃO DA PRODUÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA..................................................................................................................274 1 INTRODUÇÃO..............................................................................................................274 2 ASPECTOS TÉCNICOS ..............................................................................................277 2.1 ATENDIMENTO À DEMANDA REQUERIDA PELA CARGA ..............................277 2.2 ATENDIMENTO À ENERGIA REQUERIDA PELA CARGA .................................279 3 INTEGRAÇÃO TÉCNICO-ECONÔMICA ...............................................................283 3.1 DETERMINAÇÃO DOS CUSTOS DE GERAÇÃO ...................................................283 3.1.1 Centrais termoelétricas 286 3.1.2 Centrais hidroelétricas 288 3.2 COMPARAÇÃO ECONÔMICA DE ALTERNATIVAS DE GERAÇÃO .................291 3.3 APLICAÇÃO DAS CURVAS DE DURAÇÃO DE CARGA (CDC) .........................297 3.3.1 Conceito, interpretação gráfica e obtenção da CDC. 297 3.3.2 Planejamento utilizando a CDC 304 3.4 APLICAÇÃO DAS CURVAS DE CARGA-ENERGIA (CCE) ..................................317 3.4.1 Conceito, interpretação gráfica e obtenção da CCE 317 3.4.2 Planejamento e operação utilizando a CCE 321 APÊNDICE E – QUESTIONÁRIO DE PESQUISA.........................................................328 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABRACEEL – Associação Brasileira dos Agentes Comercializadores de Energia Elétrica ANEEL – Agência nacional de energia elétrica ACL – Ambiente de Contratação Livre ACR – Ambiente de Contratação Regulada art – artigo CC – Curva de Carga CCD – Contrato de Conexão de Distribuição CCE – Contrato de Compra de Energia CCE – Curva Carga- Energia CCEE – Câmara de Comercialização de Energia Elétrica CCPE – Comitê Coordenador do Planejamento e da Expansão dos Sistemas Elétricos CCT – Contrato de Conexão de Transmissão CDC – Curva de Duração de Carga CELESC – Centrais elétricas de Santa Catarina S/A CNAEE – Conselho Nacional de Águas e Energia Elétrica CI – Carga Instalada ou ainda Capacidade Instalada CICE – Comissão Interna de Conservação de Energia Elétrica Cmg – custo marginal CNPE – Conselho Nacional de Política Energética CNPJ – Cadastro Nacional das Pessoas Jurídicas CPF – Cadastro Nacional das Pessoas Físicas CPFL – Companhia Paulista de Força e Luz CUSD – Contrato de Uso dos Sistemas de Distribuição CUST – Contrato de Uso dos Sistemas de Transmissão Dmax – Demanda máxima Dmin – Demanda mínima DNAE – Departamento Nacional de Águas e Energia DNAEE – Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica e – custo unitário do kWh ELETROBRÁS – Centrais elétricas brasileiras ESCO – Energy Services Company EUA – Estados Unidos da América Fc – Fator de carga Fc – Fatura de consumo Fcap – Fator de capacidade Fd – Fator de demanda Fd – Fatura de demanda Fdiv – fator de diversidade Fm – fator de potência médio Fs – fator de serviço FP – fator de potência FURB – Universidade Regional de Blumenau Fut – fator de utilização GEEE – gestão estratégica de energia elétrica GLD – Gerenciamento pelo lado da demanda HS – Horo-Sazonal ICMS – Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços IUEE – Imposto único sobre a Energia Elétrica MAE – Mercado Atacadista de Energia Elétrica MERCOSUL – Mercado Comum do Sul MME – Ministério de Minas e Energia MVI – médio vale do Itajaí O&M – Operação e Manutençao ONS – Operador Nacional do Sistema elétrico p – custo unitário do kW P – potência PCH – Pequena Central Hidroelétrica PIB – Produto interno bruto PIE – Produtor Independente de Energia pm – preço médio Pmax – potência máxima Pmed – potência média PNB – Produto nacional bruto PROCEL – Programa Nacional de conservação de energia PROINFA – Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de energia elétrica PURPA – Public Utility Regulatory Policy Act t – tempo T – período de tempo Tmax – tempo de operação à plena capacidade Trafo – transformador TUSD – Tarifas de Uso do Sistema de Distribuição TUST – Tarifas de Uso do Sistema de Transmissão UHE – Usina Hidro-Elétrica UTE – Usina Termo-Elétrica LISTA DE SÍMBOLOS * – asterisco (multiplicação) $ – cifrão ? – delta (parcela) / – barra ou divisão kV – quilovolt kVA – quilovolt-ampére kVAr – quilovolt-ampére reativo kVArh – quilovolt-ampére hora reativo kW – quilowatt kWh – quilowatt-hora h – hora ? – integral = – maior ou igual que = – menor ou igual que < – menor que > – maior que MW – megawatt MWh – megawatt-hora no – número § – parágrafo % – percentual + – soma ? – somatório - – subtração tg – tangente ? - teta (ângulo) V – volt LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Gestão estratégica de energia elétrica e desenvolvimento ...................................... 25 Figura 2 - O subsetor de energia elétrica e suas interações com o setor energético e a macroeconomia.................................................................................................... 44 Figura 3 – Composição do mercado brasileiro de insumos energéticos em 1996 .................... 47 Figura 4 - Relação PNB x Consumo de eletricidade ................................................................ 50 Figura 5 – Expectativas da demanda por energia em 2020. ..................................................... 59 Figura 6 – GEEE em ação ........................................................................................................ 75 Figura 7 – Heurística da abordagem da GEEE....................................................................... 104 Figura 8 – Estrutura do setor elétrico brasileiro após as reformas. ........................................ 175 Figura 9 – Condições de comercialização de energia elétrica ................................................ 187 Figura 10- Energia consumida por cargas instantâneas.......................................................... 190 Figura 11 – Consumidores ligados à mesma fonte ................................................................. 195 Figura 12 – Curva de carga residencial .................................................................................. 199 Figura 13 – Curva de carga comercial.................................................................................... 199 Figura 14 – Curva de carga industrial..................................................................................... 200 Figura 15 – Curva de carga da iluminação pública ................................................................ 201 Figura 16 – Curva de carga – pontos importantes .................................................................. 203 Figura 17 – Curva de carga medida em intervalos ................................................................. 204 Figura 18 – Variação do preço médio da energia elétrica com o fator de carga .................... 211 Figura 19 – Triângulo de potências ........................................................................................ 213 Figura 20 – Sistema brasileiro de tarifação de energia elétrica .............................................. 236 Figura 21 – Diagrama explicativo da cobrança sobre reativos excedentes ............................ 251 Figura 22 – Custos totais unitários por kW ............................................................................ 295 Figura 23 – Custos totais unitários por kWh.......................................................................... 296 Figura 24 – Curva de carga x curva de duração de carga ....................................................... 298 Figura 25 – Interpretação gráfica da curva de duração de carga ............................................ 299 Figura 26- Diferentes períodos representados pela CDC ....................................................... 300 Figura 27 – Curvas de carga no período semanal................................................................... 301 Figura 28 – CDC semanal....................................................................................................... 301 Figura 29 – Curva de duração percentual............................................................................... 302 Figura 30 – Processo estatístico de obtenção da CDC ........................................................... 303 Figura 31 – Composição de centrais produtoras – CC e CDC. .............................................. 306 Figura 32 – Decomposição da CDC ....................................................................................... 307 Figura 33 – Análise gráfica de planejamento com CDC ........................................................ 310 Figura 34 - Análise gráfica de planejamento com CDC – usinas existentes .......................... 315 Figura 35 – Correspondência entre as curvas de carga, de duração e de carga-energia. ........ 318 Figura 36 – Fator de carga do sistema .................................................................................... 319 Figura 37 – Fator de carga atendido por uma usina – CCE.................................................... 320 Figura 38 – Composição de usinas com a CCE...................................................................... 322 Figura 39 – Algoritmo para a obtenção da composição técnico-econômica ideal ................. 324 Figura 40 – Algoritmo de verificação da capacidade instalada a ser paga/adquirida............. 326 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Composição da amostra da pesquisa de campo ...................................................... 34 Tabela 2 – Resultados da pesquisa de campo ........................................................................... 37 Tabela 3 – Grupos e sub-grupos tarifários.............................................................................. 231 Tabela 4 – Tarifa Azul ............................................................................................................ 233 Tabela 5 – Tarifa Verde .......................................................................................................... 234 Tabela 6 – Limites de tolerância para fins de ultrapassagem de demanda ............................. 247 Tabela 7 – Itens faturados do Consumidor Livre ................................................................... 267 Tabela 8 – Exemplo de aplicação de CDC, dados das usinas ................................................ 309 LISTA DE EQUAÇÕES Equação 1 – Demanda ............................................................................................................ 191 Equação 2 – Demanda x energia ............................................................................................ 191 Equação 3 – Fator de demanda ............................................................................................... 194 Equação 4 – Fator de diversidade ........................................................................................... 195 Equação 5 – Área sob a curva de carga .................................................................................. 203 Equação 6 – Área sob a curva de carga – análise gráfica ....................................................... 204 Equação 7 – Demanda média ................................................................................................. 205 Equação 8 – Fator de carga ..................................................................................................... 207 Equação 9 – Influência do fator de carga nos custos de energia elétrica ............................... 208 Equação 10 – Preço médio da energia elétrica em função do fator de carga ......................... 209 Equação 11 – Fator de potência .............................................................................................. 213 Equação 12 – Cálculo da fatura de consumo grupo B............................................................ 242 Equação 13 – Cálculo da fatura de consumo grupo A - convencional................................... 243 Equação 14 - Cálculo da fatura de consumo grupo A – horosazonal azul ............................. 243 Equação 15 - Cálculo da fatura de consumo grupo A – horosazonal verde ........................... 243 Equação 16 - Cálculo da fatura de demanda grupo A - convencional.................................... 245 Equação 17 - Cálculo da fatura de demanda grupo A – horosazonal azul ............................. 245 Equação 18 – Cálculo da fatura de demanda grupo A - horosazonal Verde .......................... 245 Equação 19 – Cálculo da fatura de demanda de ultrapassagem - convencional .................... 248 Equação 20 – Cálculo da fatura de demanda de ultrapassagem – horosazonal azul ponta .... 248 Equação 21 - Cálculo da fatura de demanda de ultrapassagem – horosazonal azul fora de ponta .................................................................................................................. 248 Equação 22 - Cálculo da fatura de demanda de ultrapassagem – horosazonal verde............. 249 Equação 23 – Cálculo do fator de potência médio. ................................................................ 254 Equação 24 – Cálculo do consumo de energia reativa mensal............................................... 254 Equação 25 – Cálculo da fatura de energia reativa excedente – medição mensal.................. 254 Equação 26 – Cálculo da fatura de demanda reativa excedente – medição mensal. .............. 255 Equação 27 – Cálculo da fatura de energia reativa excedente – medição horária.................. 256 Equação 28 – Cálculo da fatura de demanda reativa excedente – medição horária. .............. 257 Equação 29 – Cálculo do ICMS. ............................................................................................ 260 Equação 30 – Fator de utilização ............................................................................................ 278 Equação 31 – Fator de capacidade.......................................................................................... 280 Equação 32 – Cálculo da energia produzida por uma central “à plena capacidade”. ............. 281 Equação 33 – Fator de capacidade e o tempo de operação “à plena capacidade”.................. 281 Equação 34 – Custo da capacidade instalada ......................................................................... 287 Equação 35 – Custo de energia produzida.............................................................................. 287 Equação 36 – Custo total de uma central................................................................................ 292 Equação 37 – Custo total unitário por kW.............................................................................. 294 Equação 38 – Custo total unitário por kWh............................................................................ 294 Equação 39 – Obtenção da CDC - amplitude da faixa da curva de carga .............................. 303 Equação 40 – Decomposição da potência total P em parcelas ? P ......................................... 307 Equação 41 – Energia total do sistema ................................................................................... 307 Equação 42 – Custo total de produção da parcela ? P ............................................................ 308 Equação 43 – Custo total do atendimento ao sistema elétrico................................................ 308 Equação 44 – Análise gráfica com CDC – custos totais unitários por kW ............................ 311 Equação 45 – Custo total de atendimento do sistema elétrico – exemplo CDC..................... 312 Equação 46 – Custo total unitário de produção de energia – exemplo CDC ......................... 313 Equação 47 – Dedução trigonométrica do fator de carga do sistema – CCE ......................... 319 Equação 48 – Dedução trigonométrica do fator de carga de uma usina – CCE..................... 320 Equação 49 - Custo total de atendimento (CCE) .................................................................... 327 LISTA DE ANEXOS anexo 1– tarifas para o grupo B e grupo A - convencional, sem ICMS ................................. 269 anexo 2 – tarifas para o grupo B e grupo A - convencional, com ICMS................................ 270 anexo 3 – tarifas grupo A - horosazonal, sem ICMS.............................................................. 271 anexo 4 – tarifas grupo A- horosazonal, com ICMS .............................................................. 272 anexo 5 – tarifas de serviços diversos..................................................................................... 273 RESUMO Crescimento econômico e aumento do consumo de energia elétrica são fatos históricos inquestionáveis e ainda atualmente com uma correlação muito forte em países em desenvolvimento. No entanto, a enorme apropriação dos recursos energéticos e o despejo de resíduos na natureza ocasionados pela sociedade industrial revelaram-se incompatíveis com uma necessária sustentabilidade ambiental, na qual seria respeitada a capacidade natural de recomposição das reservas de energia primária e de reciclagem dos resíduos. Mormente após as crises energéticas da década de 1970, a conservação de energia vem se estabelecer como um movimento econômico, porém com traços eminentemente ecológicos, direcionado à maior eficiência na produção e no consumo dos mercados energéticos. Na questão da energia elétrica, surge o Gerenciamento pelo Lado da Demanda (GLD), iniciativa setorial da indústria de energia elétrica, visando estimular os consumidores a racionalizar seu consumo. Por outro lado, ocorrem várias reestruturações institucionais nos setores elétricos de vários países, através da desregulamentação e do incentivo à competição no lado da oferta. A Gestão Estratégica de Energia Elétrica (GEEE) se apropria, adapta e sistematiza princípios, técnicas e visões tanto do GLD quanto do novo ambiente econômico surgido com as reformas do setor elétrico. Estabelecida sob um enfoque sistêmico de administração estratégica, busca em um primeiro plano adquirir vantagens competitivas pela redução de custos e obtenção de receitas empresariais e com isso melhorando resultados econômico- financeiros da organização. Considerando ainda uma virtual propagação de sua utilização em uma região, a GEEE pode se tornar um vetor de aumento da competitividade e da produtividade regionais, e seus benefícios serem estendidos à sociedade na forma de melhor remuneração dos fatores de produção, notadamente na questão do emprego, do recolhimento de tributos e da distribuição de renda. Na face ambiental do desenvolvimento, a GEEE pode ser reconhecida como uma técnica gerencial cujo resultado em termos de crescimento econômico não é acompanhado pelo aumento da taxa de consumo de energia e despejo de resíduos, pelo contrário, pois que sua linha de atuação se coaduna com os princípios da conservação de energia. Os consumidores empresariais de energia elétrica do médio Vale do Itajaí, submetidos à uma pesquisa descritiva que buscou identificar seu conhecimento das vantagens e aplicação de técnicas voltadas à GEEE, revelaram-se bastante desinformados sobre a maioria dos enfoques abordados, principalmente aqueles referentes às novas oportunidades do ambiente econômicolegal do setor elétrico. Tem-se como conc lusão geral dessa pesquisa, a possibilidade de a GEEE contribuir positivamente par ao desenvolvimento regional e a existência de uma razoável potencialidade latente, no sentido de ganhos de produtividade e competitividade individuais e regionais, que poderiam ser alcançados mediante o emprego da GEEE. ABSTRACT Economic growth and increase of electric energy consumption are unquestioned historical facts and even nowadays, in developing countries, with a very strong correlation. However, the huge appropriation of energy resources and the residues emission in the nature caused by the industrial society had shown incompatible with a necessary environment sustainability, in which would be respected the natural capacity in primary energy reserves replacing and residues recycling. Mainly after the 1970´s decade energy crisis, the energy conservation comes to establish itself as an economic-ecological movement directed to increasing efficiency in energy markets production and consumption. Concerning the electric energy question, the Demand-Side Management (DSM) emerges as an electricity sector initiative, which major goal is to stimulate the consumption rationalization. On the other hand, worldwide electric sectors reorganizations take place, through deregulation and incentive to competition in the supply-side. The Electric Energy Strategic Management (EESM) appropriates, adapts and systematizes principles, techniques and approaches both from DSM and the new economic electricity sector environment. Based in a strategic management sistemical approach, its first target is to acquire competitive advantages by reduction enterprises costs and increasing receipts and thus improving economic- financial results. Considering its dissemination over a region, EESM can become a regional competitiveness and productivity vector, and its benefits could be extended to the society as better production factors remuneration, specially in the employment issues, tax collect and income distribution. In the ecological face of the development, the EESM can be admitted as one management technique whose results in terms of economic growth is not followed by the increasing of energy consumption rates and residues emission, on the contrary, due its accomplishment keeps coherency with the principles of the energy conservation. Electricity companies customers of the “Médio Vale do Itajaí”, which were submitted to a descriptive research, in order to recognize their knowledge of the advantages and application of any EESM technique, manifested low level of information related to the majority of the subjects, mainly those referring new opportunities present in the economic- legal electric sector environment. The general conclusion of this research goes towards the possibility of EESM positive contribution to the regional development and the existence of an appraisable latent potentiality, in sense of individual firms and regional productivities and competitiveness, that could be reached by using EESM. 22 1. INTRODUÇÃO A correlação entre a utilização de energia e o desenvolvimento da sociedade já é dado histórico da humanidade. Neste sentido, mesmo o senso comum verificou que o aumento da complexidade social, da produção e da urbanização caminha pari passu com o incremento do consumo de energia. Goldemberg (2001, p.37-59) enfatiza a essencialidade da energia ao desenvolvimento sócio-econômico e ao crescimento econômico e principalmente do previsível aumento do consumo de energia por países em desenvolvimento, na busca pela satisfação das necessidades básicas, justamente aquelas que demandam maiores intensidades energéticas, por estarem relacionadas a projetos de infra-estrutura. Dentre as diversas formas de energia suscetíveis de aplicação e avaliação econômicas, sobressai-se a energia elétrica como uma das mais viá veis e práticas, a ponto de, comparativamente à energia gerada por combustão, ser sobremaneira predominante na sociedade moderna. As fontes de energia elétrica têm sua origem na natureza, sujeitas portanto à escassez, e por isso envolvidas por concepções econômicas, o que sinaliza aos consumidores que há que se tomar precauções em termos de análise tal como se faz para qualquer outro insumo. O estudo de formas de utilização de energia elétrica pelas empresas remete aos próprios princípios empresarias de busca por maior competitividade e melhores resultados, uma vez que o custo da energia elétrica é componente mais ou menos influente nos custos das empresas, revestindo-se seu gerenciamento de importância também nos resultados econômicos das organizações. Por outro lado, desde o final da década de 80, o setor elétrico brasileiro tem passado por diversas alterações estruturais principalmente de gestão e de regulação do setor, anteriormente quase todo sob propriedade estatal e que propiciaram a transformação da energia elétrica de um serviço estatal em regime de monopólio para um produto de mercado de certa forma concorrencial, o qual é em tese submetido também às leis de oferta e de procura. 23 Ocorre também que o fornecimento de energia elétrica passou a ser assunto popular nos últimos tempos no Brasil, devido principalmente aos surtos de racionamento e previsões nada otimistas quanto à capacidade de o sistema elétrico suportar o crescimento da demanda dos próximos anos. Neste sentido, surgiram oportunidades de os consumidores também participarem dos processos de produção e de comercialização de energia, gerando eventuais receitas, além das tradicionais possibilidades de ganhos de eficiência pela conservação de energia/eficiência energética, pela redução de custos e da manutenção de geração de reserva para enfrentar eventuais racionamentos. Ganharam os consumidores uma nova dimensão, de agentes passivos transformaramse em virtuais participantes ativos do mercado de energia elétrica como consumidores livres, autoprodutores ou produtores independentes 1 . Assim, é de se esperar que o estudo e a aplicação correta de instrumentos de gestão voltados às dimensões técnicas, econômicas e legais intrínsecas ao consumidor de energia elétrica no novo ambiente econômico do setor, ensejará obrigatoriamente um reflexo em questões microeconômicas das empresas como custos e competitividade. Com base nessas considerações, almejou-se, de certa forma, delinear uma filosofia de gestão energética, aqui denominada de Gestão Estratégica de Energia Elétrica (GEEE) que possa ser empregada como roteiro de consulta e se ramificar para inúmeras proposições de trabalhos, cada qual podendo especializar-se em construir formas de análise e soluções voltadas para casos específicos. Esta pesquisa bus cou efetivamente aumentar o conhecimento dentro da área da gestão da energia elétrica nas empresas, em um contexto multidisciplinar porém coerente e integrado, por meio da sistematização de dados secundários (bibliográficos e documentais). Multidisciplinar pois que remeteu a conteúdos de engenharia elétrica, engenharia econômica, engenharia ambiental, economia, administração e até mesmo do direito, no sentido da hermenêutica da legislação que rege as atividades do setor elétrico 2 . Pretendeu-se tornar visível a interação entre os diversos instrumentos de análise de obtenção e utilização de energia elétrica, quase sempre empregados isoladamente, e sua 1 2 Conceitos serão melhor definidos no corpo do trabalho. Conteúdo de elaboração pelo autor, presente nos apêndices A a D. 24 aplicação no sentido de redução de custos intrínsecos às suas atividades e de prospecção de novas oportunidades. Na verdade, o que se quis mostrar é a possibilidade de uma abordagem bem mais acurada e pró-ativa por parte dos consumidores, conhecendo as regras de funcionamento do mercado brasileiro de energia elétrica e utilizando fundamentos técnico-econômicos empregados por empresas dos setores elétricos mundiais, sob uma sistemática que englobe conceitos empresariais de administração estratégica e de competitividade empresarial. Diante disso, pretendeu-se também averiguar se, em nível regional, tal posicionamento das empresas pudesse ensejar uma possível melhora na produtividade e na competitividade, aumentando a potencialidade de crescimento da atividade econômica. No entanto, é necessária a lembrança de que o crescimento econômico normalmente está associado a um incremento das taxas de consumo de energia e por conseqüência de impacto ambiental. Neste âmbito, os aspectos econômicos estão envolvidos por um sistema muito mais amplo, submetido à uma concepção ecológica da qual deriva o próprio conceito da economia ecológica (MARTINEZ-ALLIER, pp. 231-248/267-278; DALY, 1991, pp. 2-21) e da assimilação dos processos entrópicos presentes na natureza. Sobre esta linha de raciocínio é que este trabalho defende a posição de que a GEEE pode promover o crescimento da atividade econômica e seus reflexos positivos no desenvolvimento ao mesmo tempo em que não contribui com o aumento do impacto ambiental relacionado ao uso de fontes primárias e ao despejo de resíduos de processos produtivos, pois que suas ações são voltadas essencialmente em termos de racionalização da produção, conservando energia e não exercendo pressão sobre a oferta de energia elétrica e mais ainda, podendo contribuir para a produção de energia através de iniciativas econômicas de agentes individuais. É verificada, pois, a idéia de que a racionalidade dos agentes econômicos voltada essencialmente para a obtenção de melhores resultados pode ser também um vetor de sustentabilidade ambiental do desenvolvimento. Em resumo, o processo de desenvolvimento seria favorecido através de duas maneiras : 25 ??Na questão do aumento da competitividade microeconômica que pode ser adquirida com a GEEE, atuando tanto do lado da demanda (consumidor – redução de custos) quanto da oferta (produtor – aproveitamento de oportunidades), atuando na direção do crescimento econômico em nível regional e nacional, sem aumento do consumo de energia. ??Na questão da sustentabilidade ambiental do desenvolvimento, em se tratando de benefícios de racionalização/diminuição do consumo de energia e conseqüentemente do uso dos recursos naturais fontes de produção de energia elétrica, auxiliando na preservação ambiental até mesmo em escala nacional. Figura 1 – Gestão estratégica de energia elétrica e desenvolvimento GESTÃO ESTRATÉGICA DE ENERGIA ELÉTRICA Conservação de EE Agente ativo no mercado de EE Produção de EE ?? REDUÇÃO DE CUSTOS / COMPETITIVIDADE. ?? OTIMIZAÇÃO DA OFERTA DE EE. ?? REDUÇÃO NA TAXA DE IMPACTO AMBIENTAL. Crescimento econômico + Sustentabilidade ambiental = DESENVOLVIMENTO Fonte: Elaboração do próprio autor. Completa-se a proposta da dissertação através de uma pesquisa descritiva que visou descobrir o grau de sensibilidade da categoria de consumidores empresariais da região do Médio Vale do Itajaí, aptos a se tornarem consumidores livres ou produtores de energia elétrica, em relação aos enfoques de gestão de energia elétrica e suas vantagens para as empresas. A pesquisa descritiva seguiu a técnica de coleta de dados por entrevista estruturada, na qual foram avaliados vários quesitos através de um questionário padrão. 26 Obteve-se como conclusão a verificação qualitativa da existência ou não de um potencial de competitividade empresarial, bem como de desenvolvimento, ligado à gestão estratégica de energia elétrica. 1.1. PROBLEMA DE PESQUISA "Em quais sentidos o desenvolvimento regional é afetado pela adoção da GEEE por parte dos consumidores de energia elétrica e qual a realidade do conhecimento por parte destes consumidores acerca das técnicas envolvidas? 1.2. PERGUNTAS DE PESQUISA a) Quais os fundamentos e aplicabilidades dos enfoques de gestão estratégica de energia elétrica? (Apêndices A, B, C e D) b) Como sistematizá- los com o objetivo de otimização técnico-econômico na obtenção, no uso e na comercialização de energia elétrica? (Capítulo 4) c) A GEEE tem repercussões positivas na produtividade das empresas e em sua competitividade? (Capítulo 5) d) A GEEE pode contribuir para elevar outputs ao mesmo tempo em que reduz os inputs energéticos? (Capítulo 5) e) A GEEE pode contribuir com o desenvolvimento regional? (Capítulos 3 e 5) f) As empresas potencialmente aptas a se tornarem consumidores livres ou produtores de energia elétrica têm consciência das vantagens competitivas que podem adquirir ao aplicar uma filosofia de gestão estratégica de energia elétrica? (Capítulo 6) g) As empresas potencialmente aptas a se tornarem consumidores livres ou produtores de energia elétrica estão aplicando alguma técnica voltada à gestão estratégica de energia elétrica? (Capítulo 6) 27 1.3. PRESSUPOSTOS São dois os pressupostos relacionados à esta pesquisa : ??A gestão estratégica de energia elétrica cria vantagens competitivas e aumenta a produtividade das organizações, reduz a pressão sobre a base energéticoambiental e com isso contribui para o desenvolvimento regional; ??Os consumidores de energia elétrica da região do Médio Vale do Itajaí ainda atuam de forma incipiente na questão. 1.4. OBJETIVOS 1.4.1. Geral O objetivo central deste estudo é contribuir para a ampliação do conhecimento acerca da gestão estratégica de energia elétrica e para a compreensão da sua relação com o desenvolvimento regional. 1.4.2. Específicos São objetivos específicos: 1. Sistematizar conhecimentos existentes sobre gestão estratégica de energia elétrica. 2. Avaliar sua contribuição o desenvolvimento regional. 3. Verificar o grau de conhecimento e aplicação da gestão estratégica de energia elétrica pelos consumidores da região. 1.5. JUSTIFICATIVA/ RELEVÂNCIA 1.5.1. Relevância prática O aproveitamento do conteúdo desta pesquisa pode se dar imediatamente por profissionais que lidam com as questões de utilização de energia elétrica pelas empresas. Desenvolvendo os conceitos e técnicas descritos, é possível a obtenção de instrumentos de análise e de implementação de ações que culminem com a efetiva redução 28 dos custos com consumo (energia) e demanda (potência) de energia elétrica 3 , obviamente sem a redução de produção da empresa e a composição de fontes convencionais e alternativas, provenientes de terceiros ou de autoprodução. 1.5.2. Relevância teórica A relevância teórica deste trabalho se define como um referencial bibliográfico para estudiosos e pesquisadores (acadêmicos ou não) de diversas áreas ligadas à engenharia, à economia, à administração e ao desenvolvimento regional. Além disso, esta pesquisa oferece pontos que podem ser aprofundados e desdobrados em outros estudos, inclusive possibilitando o desenvolvimento de modelos teóricos, matemáticos ou computacionais que se apliquem à gestão energética. 1.6. ESTRUTURA DO TRABALHO A oportunidade deste trabalho de se situar em um mestrado em desenvolvimento regional, revelou-se de forma surpreendentemente profícua pois que a GEEE compartilha de um similar grau de multi-disciplinariedade. Nesse sentido, todo um conteúdo eminentemente técnico-econômico se completa, em termos heurísticos, à uma ampla gama de informações de outras áreas do conhecimento. Assim, com relação à pesquisa bibliográfica-documental, optou-se por de certa forma compartimentalizar os conteúdos, para ampliar seu aspecto cognitivo em relação aos leitores que desejem se ater à áreas específicas, e posteriormente conjugando então as informações quando da elaboração conceitual, das aplicações e dos reflexos da GEEE no desenvolvimento. No capítulo 3, trata-se de discorrer sobre a relação do consumo energético (e da eletricidade) com os enfoques que abordam o conceito de desenvolvimento, principiando pela ótica clássica do crescimento econômico, passando pelo desenvolvimento sustentável e pela questão mais recente da sustentabilidade ambiental, fazendo afinal referência à abordagem econômico-energética compreendida nos conteúdos da economia ecológica. Desta forma, busca-se entender a relação entre a energia elétrica e o desenvolvimento, identificando os 3 Vide APÊNDICE B - título 2. 29 pontos de contato deste com o movimento relacionado à conservação de energia ou ao aumento da eficiência energética. No apêndice A aborda-se o mercado de energia elétrica, sob o enfoque do consumidor, através da explanação básica das características técnicas e econômicas do produto energia elétrica e seu comportamento quanto à oferta (produção) e à demanda (consumo). Do mesmo modo, para a melhor compreensão da atual estrutura do setor de energia elétrica brasileiro, relata-se seu desenrolar histórico- institucional, descrevendo seus principais agentes e principalmente explicitando a interação do consumidor com o atual ambiente econômico-regulamentar. O apêndice B trata de uma série de conceitos técnicos relativos ao gerenciamento de carga, cujos fundamentos são provenientes do gerenciamento pelo lado da demanda (item 3.4.1.2), mas voltando-se para fins de efetiva utilização por iniciativa dos próprios consumidores, atuando em seus sistemas elétricos (suas instalações), sem a interveniência direta ou indireta dos órgãos planificadores ou operacionais do setor elétrico. Já o apêndice C pretende dar ao leitor condições de entender a estrutura legal e normativa do setor elétrico, no que se refere a princípios de tarifação, preços, penalidades e incentivos relacionados ao fornecimento, faturamento e à forma mediante a qual é cobrada energia elétrica no Brasil. O apêndice D realiza uma compilação de métodos de análise técnico-econômicas voltadas ao planejamento e à operação da produção de energia elétrica, introduzindo também conhecimentos referentes à sua otimização pela composição de diversas fontes. No capitulo 4 é que é empreendida a elaboração conceitual da GEEE, tendo como suporte uma sistematização dos conteúdos explicitados nos apêndices A a D, envolvendo ainda conhecimentos de planejamento e administração estratégicos, bem como de métodos de análise de alternativas e tomada de decisão. Pretende-se justificar a importância de um posicionamento estratégico das empresas e discutir a importância da adoção integrada de diversos métodos aparentemente esparsos. O primeiro pressuposto dessa pesquisa é efetivamente testado no capítulo 5, onde se faz o confronto entre as informações levantadas através da pesquisa bibliográfica e a afirmação de que existe uma concatenação entre a GEEE, a competitividade empresarial e regional, e o processo de desenvolvimento amparado em sustentabilidade ambiental. 30 Os resultados da pesquisa de campo são detalhados e analisados no capítulo 6, reunindo os dados necessários que subsidiem a avaliação do segundo pressuposto. A conclusão geral dessa dissertação, que é realizada no capítulo 7, vai compreender os aspectos atribuídos à pesquisa bibliográfica e aqueles pertencentes à pesquisa de campo, além de recomendar futuros desdobramentos deste trabalho. 31 2. METODOLOGIA 2.1. MÉTODOS DE ABORDAGEM E DE PROCEDIMENTO Esta pesquisa apresenta, no que tange aos métodos científicos usualmente empregados, a característica de uma composição dos métodos dedutivo e indutivo. O problema definido no item 1.3 delimita o objeto de estudo, sendo que as hipóteses ou pressupostos que visam resolvê- lo (item 1.5) detalham as relações entre as variáveis gestão estratégica de energia elétrica e desenvolvimento. É de se enfatizar que somente a conjunção dos dois métodos propiciou a resposta ao problema, sendo que o teste das hipóteses ditou a condição de aplicação dos diferentes métodos. Por conseguinte, a resposta ao problema proposto considera a análise conjunta entre a primeira parte da pesquisa - que tem por retorno a constatação da relação entre a gestão estratégica de energia elétrica, competitividade empresarial e desenvolvimento - , e a segunda abordagem, a qual verifica se os consumidores empresariais adotam ou não enfoques de gestão estratégica de energia elétrica. O primeiro pressuposto foi testado através de uma pesquisa exploratória, de caráter bibliográfico e documental. Nos termos de Antônio C. Gil (1987, pp.45-52), sua característica principal é a de explicitar conceitos sobre um determinado problema, e com isso aumentando ou aprimorando sua compreensão. Classificando-se com base nos procedimentos técnicos a serem utilizados, uma pesquisa bibliográfica envolve a utilização de material já elaborado por diversos autores, que seriam os livros, periódicos e artigos. Já a pesquisa documental, de mesma natureza, compõese porém de materiais que não sofreram análise, como por exemplo documentações de órgãos do setor elétrico e governamentais. De fato, a pesquisa bibliográfica e documental desta dissertação buscou estabelecer uma sistematização do conhecimento sobre desenvolvimento, onde foram compilados elementos que dessem respaldo à correlação entre a gestão estratégica de energia elétrica e o desenvolvimento. 32 Além disso, o conteúdo de diversos modelos ou enfoques (instrumentalização) de gestão de energia elétrica foram compilados a partir de referências teóricas publicadas e em consonância com a experiência profissional e acadêmica do autor (apêndices A a D). Assim, o pressuposto de que a gestão estratégica da energia elétrica contribui para o desenvolvimento regional teve amparo nas premissas encontradas nos conteúdos bibliográficos que tratam, direta ou indiretamente, da gestão de energia elétrica. Logo, quanto ao teste do primeiro pressuposto, a pesquisa moveu-se dentro dos limites do método dedutivo, pois que se tentou comprovar a hipótese a partir de conhecimentos gerais e multi-disciplinares já existentes. Sua característica é a de que “toda a informação ou conteúdo fatual da conclusão já estava, implicitamente, nas premissas” (LAKATOS, 1988, pp. 88- 91). Por outro lado, quanto à validação do segundo pressuposto, a pesquisa denota um caráter eminentemente indutivo, na medida em que, de um universo a ser pesquisado, pretendeu-se analisar os resultados obtidos a partir de uma determinada amostra e inferi- los ao todo, ou seja, passar do particular ao mais geral (LAKATOS,1988, p.83). Esta pesquisa é classificada como descritiva, não-experimental ou ex post facto (KÖCHE,1999, pp.124 ; GIL, 1987, pp. 55-57) e se concentrou na obtenção de informações (levantamento) de um estrato específico dos consumidores de energia elétrica da região, aqueles que em tese estariam mais aptos a se beneficiarem de um processo de gestão estratégica: As empresas ou organizações em condições de se tornarem consumidores livres e/ou autoprodutores ou produtores independentes. Neste sentido, a hipótese foi verificada através de uma rotina de acumulação dos casos concretos afirmativos possíveis, ou seja, das respostas às solicitações efetuadas junto ao grupo mencionado. 2.2. POPULAÇÃO E AMOSTRAGEM A população alvo da pesquisa descritiva compreende as empresas (industriais e comerciais) consumidoras de energia elétrica da região do Médio Vale do Itajaí classificadas no Grupo A4 , que são, em virtude da legislação atual, os que estão em condições de optarem por serem consumidores livres ou que tenham condições de atuarem como autoprodutores ou 4 Conceito: Vide APÊNDICE C – item 3.2.2 33 produtores independentes, ou seja, aqueles que teoricamente são os que mais podem se beneficiar da gestão estratégica de energia elétrica. O Boletim Estatístico Comercial da CELESC (abr. 2003, pp. 12, 15, 18) fornece o número total de consumidores classificados no grupo A , para a região atendida pela Agência Regional de Blumenau. Alguns ajustes foram, no entanto, efetuados em relação aos dados desta publicação, pois a mesma não exibe diretamente o número de empresas público-alvo desta pesquisa, nas classes industrial e comercial, na região do Médio Vale do Itajaí. Além disto, a área de atuação da Agência Regional da CELESC em Blumenau, além dos municípios do Médio Vale do Itajaí, envolve Massaranduba e Luís Alves. Quanto à essas limitações, foram adotadas as seguintes providências: Da interpretação conjunta das tabelas constantes às páginas 12, 15 e 18 do Boletim Estatístico Comercial da CELESC, aferiu-se que o número de consumidores do grupo A classificados como industriais e comerciais respondem aproximadamente por 85% do total do Grupo para a totalidade do Estado. Aplicando o mesmo percentual para a região atendida pela Agência Regional de Blumenau, este número atinge a casa das 1163 unidades consumidoras. Em levantamento efetuado junto à concessionária, são 29 as empresas que se encaixam no perfil escolhido pela pesquisa, localizadas nos municípios de Massaranduba e Luís Alves, sendo então devidamente subtraídas da população alvo da pesquisa. Desta forma, o número total de elementos a ser considerado chega à casa dos 1144. Deve-se lembrar, porém, que existe uma ampliação constante do número de consumidores que se conectam ao sistema elétrico, fato este que apóia a decisão de se trabalhar com uma população numericamente superior ao levantamento, sem prejuízo da confiabilidade da pesquisa. Em se tratando da amostragem relativa ao universo de elementos descrito anteriormente, o procedimento a ser adotado utilizou-se de uma seleção estratificada de subgrupos que compõe a população cons iderada (GIL, 1997, p.101). Estes sub-grupos serão 34 classificados em função de sua demanda de potência contratada 5 e a amostragem foi realizada de forma proporcional à extensão desses extratos. A determinação do tamanho da amostra utilizou-se da tabela estatística definida por Gil (1997, p.101), a qual define o tamanho adequado para um nível de confiança de 95% (dois desvios-padrões). Tendo em vista o caráter qualitativo da pesquisa, cuja predominância é a descoberta de uma tendência comportamental, uma margem de erro de 10% foi considerada como a precisão estatística conveniente. Neste sentido, portanto, ficou definida a amplitude da amostra em 94 empresas consumidoras do Grupo A, relacionada à uma população total aproximada de 1500 elementos. Esta amostragem foi dividida em dois extratos de demanda de potência contratada, cujo marco divisório será a demanda de 500 kW, a partir da qual entende-se que já são empresas de porte razoável e que incorrem em um nível razoável de custos com energia elétrica, assim : Tabela 1 – Composição da amostra da pesquisa de campo Demanda contratada % do total da população Número de empresas na amostragem Até 500 kW 92,5 % 87 Acima de 500 kW 7,5 % 7 2.3. TÉCNICA DE COLETA DE DADOS A parte da pesquisa relativa ao primeiro pressuposto teve por base a coleta de dados de natureza documental e bibliográfica. Com relação à parte que trata da pesquisa de campo, destinada à validação do segundo pressuposto, a coleta de dados foi efetuada através da distribuição de um 5 Vide item 4.3 do APÊNDICE C. 35 questionário estruturado com perguntas objetivas de caráter técnico especializado (vide apêndice E), utilizando as mídias em papel e internet. As perguntas que constam do questionário fundamentalmente procuraram revelar o conhecimento de técnicas de gestão de energia elétrica por parte das empresas e das oportunidades que o ambiente econômico do setor elétrico lhes oferece. 2.4. HISTÓRICO DOS PROCEDIMENTOS DE COLETA DE CAMPO Ao se definir a forma mediante a qual seria feita a pesquisa, no caso um questionário, o intuito foi de tornar o processo dinâmico o suficiente para ser o menos complexo possível e tomar o menor tempo possível dos entrevistados 6 , haja vista que é notória a falta de disponibilidade atual das empresas e pessoas para atender assuntos extra-negócio. Além disso, contou-se com a inestimável colaboração das Centrais Elétricas de Santa Catarina S/A, por intermédio da Agência Regional de Blumenau, que auxiliou tanto na questão do suporte logístico necessário, quanto ofereceu sua própria imagem no sentido de apresentação junto aos consumidores, considerando a denominação da pesquisa como uma ação em conjunto FURB-CELESC. Nesse sentido os formulários de pesquisa foram enviados aos consumidores dentro do limite do tamanho da amostra (94 elementos) junto com a fatura de energia elétrica do mês de novembro de 2003. Até meados de dezembro de 2003, por volta de apenas 14% (13) das empresas devolveram os formulários preenchidos, número considerado extremamente baixo para dar suporte à representatividade da amostra, mas que já dava os primeiros indícios do desinteresse pelo assunto. Ato contínuo, todas as empresas que não devolveram os formulários foram contactadas por telefone, pelos pesquisadores, buscando encorajá- las a responder o questionário, sanando dúvidas e inclusive reenviando o questionário por correio eletrônico e disponibilizando a resposta pela mesma mídia. 6 Lembrando que as perguntas foram estruturadas para serem respondidas o mais objetivamente possível, tendo suas alternativas de resposta simplesmente retornando confirmação, negação ou ainda o desconhecimento do assunto. 36 Destas entrevistas por telefone, interessante foi notar que, na grande maioria dos casos, a fatura de energia elétrica, sendo entregue nos setores financeiros/contábeis, passava por pessoas que aparentemente não tinham conhecimento, disponibilidade ou ainda autoridade para responder à pesquisa, muito embora a mesma tenha sido estruturada de forma a não exagerar em termos técnicos, mas situar-se numa dimensão de estratégia empresarial, com perguntas relacionadas a “saber que existe” ou ainda “aplicação ou não de ...”. Desta feita, o percentual de respostas chegou à casa do 50%, ainda considerado insuficiente, o que demandou, em início de março de 2004, à busca por entrevistas pessoais, diretamente nas empresas que ainda não tinham respondido. Este novo procedimento revelou ainda uma bastante razoável dificuldade de acesso às empresas e às pessoas que de fato detinham as informações ou o poder de decisão, a despeito da participação da CELESC trazer uma facilidade muito maior se comparada com a iniciativa isolada de um entrevistador sem vínculo algum. Dessa forma, não foram poucas as situações que, após a identificação dos entrevistadores e de sua finalidade, ocorreram simples recusas ou ainda protelações em atendimento. Desta nova etapa, conseguiu-se um nível de atendimento geral da ordem de 74%, considerado adequado para a tabulação das respostas pois que as empresas que se abstiveram de responder ou de atender aos entrevistadores compuseram então uma variável a ser analisada, justamente aquela que deverá medir o interesse pelo assunto. 2.5. TABULAÇÃO DOS DADOS Lakatos e Marconi (1988, p.158) definem os passos de seleção, codificação e tabulação dos dados coletados. Com relação à pesquisa bibliográfico-documental, toda a informação coletada foi discriminada, disposta e relatada tendo em vista os objetivos específicos já descritos. A pesquisa descritiva, por sua vez, ao se utilizar de um questionário de perguntas objetivas, examinou preliminarmente se os entrevistados demonstraram entendimento ou interpretação coerentes com a intenção do entrevistador. Na falta destes requisitos, foram efetuadas correções e quando necessário, a reaplicação das entrevistas. 37 As treze perguntas, por serem de caráter objetivo, tiveram suas alternativas codificadas por letras ou números, podendo então ser classificadas em função de respostas negativas, positivas ou inexistentes. Por fim, cada questão ou pergunta teve sua resposta tabulada e apresentada em tabela que indica inclusive os percentuais estatísticos observados. A tabela abaixo expõe os percentuais de resposta para cada quesito formulado, além daqueles não respondidos, considerando uma amplitude amostral de 94 elementos: Tabela 2 – Resultados da pesquisa de campo PLANILHA DE RESULTADOS PESQUISA FURB-CELESC Nº DE QUESTIONÁRIOS ENVIADOS/APLICADOS = 94 (a) (b) (c) (d) (e) em branco QUESTÃO 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 abs. 64 58 39 33 32 19 9 17 7 6 5 4 6 % abs. 68,09 5 61,70 7 41,49 19 35,11 21 34,04 29 20,21 25 9,57 26 18,09 40 7,45 45 6,38 0 5,32 32 4,26 39 6,38 34 % abs. % abs. 5,32 0 0 7,45 4 4,255 20,21 11 11,7 22,34 15 15,96 30,85 8 8,511 26,60 25 26,6 27,66 34 36,17 42,55 12 12,77 47,87 44 46,81 1 34,04 32 34,04 41,49 26 27,66 36,17 29 30,85 % 1,06 abs. 1 % abs. 0 0 0 0 0 0 0 0 17 1,06 17 0 0 0 não respondeu o questionário % abs. 0 25 0 25 0 25 0 25 0 25 0 25 0 25 0 25 18,09 25 18,09 25 0 25 0 25 0 25 % 26,60 26,60 26,60 26,60 26,60 26,60 26,60 26,60 26,60 26,60 26,60 26,60 26,60 2.6. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS A análise dos dados, no entender de Lakatos (1988, p. 159) é “a tentativa de evidenciar relações existentes entre o fenômeno estudado e outros fatores”. A pesquisa descritiva tratou de verificar o segundo pressuposto, ou seja, de que os consumidores do Médio Vale do Itajaí ainda atuam de forma incipiente na questão da gestão estratégica de energia elétrica. Tida como uma região de empreendedores, o Médio Vale do Itajaí poderia também ter essa característica aferida com relação à gestão de energia elétrica. Por outro lado, as restrições impostas por um período prolongado de crises econômicas nacionais evidentemente 38 afetam as decisões empresariais que envolvam risco ou atividades que não sejam plenamente conhecidas. A interpretação dos resultados estabeleceu a ligação entre a teoria estruturada na pesquisa bibliográfica, o problema das pesquisa e as respostas resultantes da tabulação dos dados. Desta forma, analisou-se, no capítulo 6, o resultado da pesquisa procurando sua inserção na cultura empresarial e na conjuntura econômica atual, nos âmbitos regional e nacional, por se entender serem variáveis que se inter-relacionam com o assunto. 2.7. LIMITAÇÕES DA PESQUISA Dadas às características da amplitude dessa pesquisa, de sistematização de informações e de verificação de uma tendência comportamental, constituem-se em limitações aspectos referentes à obtenção de dados reais, que expusessem mais detalhadamente as relações técnicas e econômicas entre o produto energia elétrica e os seus consumidores do Vale do Itajaí. Ficaram excluídos deste trabalho, vários exemplos práticos disponíveis em relação às áreas de utilização da GEEE, mas que demandariam um vo lume físico ainda maior de informações, tendo sido então feita a opção para sua compilação em oportunidade distinta. Por outro lado, essas mesmas limitações constituem-se em campo fértil para o empreendimento de vários outros estudos, a partir do aprofundamento das questões aqui abordadas, sem prejuízo do emprego desta dissertação como um verdadeiro manual de orientação. 39 3. ENERGIA ELÉTRICA E DESENVOLVIMENTO 3.1. ENERGIA ELÉTRICA NO CONTEXTO ECONÔMICO-ENERGÉTICO A noção física do conceito de energia é usualmente expressa como sendo a capacidade de se realizar trabalho, ou seja, de modificar relações físicas de tempo ou lugar. Em outras palavras, todo acontecimento que enseja alguma mudança em relações físicas subentende uma transformação de energia (CALABI et al.,1983, pp. 2-4; GOLDEMBERG, 1998, p. 25). De acordo com Barbalho (1987, p.31), seu conceito ganhou outras conotações relacionadas aos materiais ou fontes de energia, como por exemplo: “o petróleo é uma energia...” ou “o vento é uma fonte de energia...”. Em todo o caso, a existência de todo ser vivo é dependente fundamentalmente do processamento ou da utilização de alguma fonte energética. O ser humano, como tal, experimenta a mesma dependência e, mais além, a aprofundou sobremodo em virtude do grau de comp lexidade material e social que construiu em torno de si. Goldemberg refere-se a isso como “o custo energético de satisfazer as necessidades humanas” (1998, pp. 49-52). Em vista da multiplicidade das necessidades e desejos humanos inerentes ao progresso de cada estágio de evolução material e tecnológica, a Economia examina as ações individuais e sociais ligadas à obtenção e ao uso dos elementos materiais disponíveis na natureza, entre eles as fontes de recursos energéticos. As reservas naturais, ou o fator Terra constituem a base de todo processo de produção, interando-se com os demais fatores, todos eles sujeitos à escassez de disponibilidade. A característica econômica da atividade humana leva ao entendimento de que a questão energética é indissociável da aferição em moldes de um conceito econômico, haja vista que toda atividade econômica é intrinsecamente ligada à noção de uma transformação de energia (CALABI et al., 1983, pp. 2-8; BARBALHO, 1987, pp. 18-22; GOLDEMBERG, 1998, p. 45). Na história humana, há um marco bastante bem definido a partir do qual o homem passa a dominar, dispor ou controlar processos de transformação de energia além daqueles 40 limitados pelo seu próprio organismo e, indubitavelmente, iniciou a ampliar suas potencialidades através da habilidade em converter a energia armazenada na natureza. Este primeiro passo foi o domínio do fogo, pelo qual o ser humano pôde utilizar uma energia externa ao seu organismo para processar alimentos e aquecer-se, liberando então uma parcela maior de seu tempo para outras atividades (CALABI et al., 1983, pp.5; BARBALHO, 1987, pp.14-17). Não obstante o considerável avanço no controle das fontes de energia animal e vegetal, a antiguidade humana foi absolutamente caracterizada pelo uso da energia mecânica fornecida pelo homem ou pelos animais por ele domesticados, além da energia calorífica proporcionada pela lenha (CALABI et al., 1983, p.9; BARBALHO, 1987, p.17). Martin (1992, pp. 41-47) faz ainda referência à existência de moinhos d’água e de vento nos países orientais e na China, com posterior aproveitamento pelos gregos e romanos. No entanto, o interesse neste aproveitamento foi bastante limitado até o século X, supostamente devido às limitações econômicas da época e da disponibilidade de mão-de-obra escrava ou mesmo livre que inibiam os esforços em direção à mecanização. É na Idade Média que aparecem ou são aprimoradas as técnicas de conversão de energia através da mecanização de uma série de operações industriais e da generalização dos moinhos d’água herdados da antiguidade e de alguns moinhos de vento a partir do século XVI (MARTIN, 1992, p.46-47). Reconhece-se, porém, que a estrutura da produção e do consumo de energia de fato passa para uma nova fase com o advento da primeira revolução industrial, nos idos do século XVII, quando ocorre a evolução da manufatura industrial. É uma revolução profunda e duradoura na obtenção e no uso da energia e acontece com a introdução das máquinasferramentas que vão multiplicar a força humana e permitem assim amplificar sua energia no sentido de um considerável aumento da produção. Em um segundo momento, a força física do homem e dos animais é substituída pela energia armazenada no carvão mineral, cuja queima vai imprimir movimento por intermédio de uma outra máquina (CALABI et al., 1983, p.13). A máquina a vapor de Watt desvincula o limite de localização imposto pelas quedas d’água e traz a produção para as cidades, substituindo inclusive as limitações práticas do cavalo e do vento como elementos de força motriz. Foi esta ino vação que proporcionou mais 41 uma fonte de energia externa ao homem, derivada da termodinâmica, muito diferente do que a força das águas, do vento ou dos animais, comparando-se em magnitude inovadora talvez ao próprio domínio do fogo em tempos remotos. A denominada Segunda Revolução Industrial assinala a ampliação e reforça ainda mais a predominância do homem sobre o estoque de energia acumulada na natureza. Os progressos tecnológicos conquistados desde o início da era da industrialização proporcionam, em fins do século XIX, uma nova gama de conquistas no campo de novas técnicas de conversão de energia. São as máquinas que produzem ou convertem energia a partir de uma fonte primária e que imprimem a possibilidade de criação de inúmeras aplicações econômicas (CALABI et al., 1983, pp.16-21). Neste ínterim é que, ao lado das invenções dos motores a explosão e de combustão interna, aparece a aplicação industrial da ENERGIA ELÉTRICA. Segundo Theis (1996, pp.23-24), a energia elétrica é aquela que permite ou está relacionada ao uso da eletricidade. Esta, por sua vez, é inerente às forças de atração e repulsão originadas em cargas elétricas em repouso ou em movimento. A palavra “elétrico” é derivada do grego e significa âmbar. As características deste mineral translúcido faziam com que, ao ser esfregado com um pano, manifestasse estas misteriosas ações de atração e repulsão, fenômenos eletrostáticos já observados por Tales de Mileto em 600 a.C. (MARTIN, 1992, p.57; VENNARD, 1970, p.2)) Muito embora não se tenha descoberto a natureza fundamental da eletricidade, um grande avanço ocorreu nas técnicas de sua produção e de seu uso, através das pesquisas sobre a corrente elétrica que se ampararam na maneira constante pela qual a eletricidade se comporta em determinadas situações (US NAVY, 1980, p.21). Theis (1996, p.24) afirma que “... do final do século XIX em diante, a eletricidade passou a ser utilizada em escala industrial, exercendo influência tão grande que o século XX – ao longo do qual se consolidou o uso desta forma de energia – passou a ser denominado “ o século da eletricidade”.” No mesmo sentido, Martin (1992, pp.57-60) atribui à indústria elétrica o papel de veículo do progresso científico e da inovação tecnológica, que se sucedem desde o estudo das descoberta das correntes galvânicas (Galvani), a invenção da pilha por Volta (1779), passando 42 pelo surgimento de novas técnicas, aparelhos e máquinas, produto dos estudos de Faraday (1831 - dínamo), Gramme (1873 – motor elétrico) e Edison (1881 – lâmpada de filamento). Martin (1992, p.60) ainda diz que : “A chegada da eletricidade também transforma em profundidade as localizações industriais. Novas regiões (sobretudo montanhosas) industrializam-se, atraindo fábricas grandes consumidoras de eletricidade. Paralelamente, a rede elétrica libera outras localidades de uma parte das restrições energéticas: as indústrias que só têm necessidade de força motriz podem, a partir de então, instalarse nas bacias de empregos ou dos lugares de consumo de seus produtos.”Comentando em relação às diversas forma de produção de eletricidade , Calabi et al. (1983, pp.19-23), lembra que o surgimento das primeiras centrais térmicas está relacionado à superação das limitações intrínsecas da máquina a vapor pela turbina a vapor, tendo melhores condições de manuseio de maiores potências e de controle sobre a produção do vapor e de sua transmissão. O motor Diesel, no início do século XX, aprimora ainda mais o processo de obtenção de energia elétrica pelas vantagens de entrar em funcionamento imediatamente, dispensar a caldeira e o forno e ainda empregar um combustível de tonelagem muito menor, o que fundamentou o padrão de consumo baseado no petróleo. As primeiras centrais hidrelétricas são instaladas ao final do século XIX e demonstraram, nos países com disponibilidade hidráulica, ser um elemento poderoso de produção de grandes montantes de energia para os centros consumidores, dada a facilidade de transporte e de utilização que as invenções dos geradores elétricos, dos transformadores de indução e do motor elétrico proporcionaram. A produção de eletricidade pode advir de diversas fontes energéticas, as quais também recebem diversas classificações. José Goldemberg (1998) estabeleceu a classificação em convencionais, nãoconvencionais e exóticas. Nesse sentido, as fontes de energia convencionais são aquelas com tecnologias plenamente desenvolvidas e cujos custos são aceitáveis pelos padrões atuais de consumo. Estão aqui elencadas o petróleo, o gás natural, o carvão, a hidroeletricidade (quedas d’água) e a biomassa. As fontes de energia não-convencionais são aquelas que, embora já tecnologicamente desenvolvidas, não tiveram ainda aceitação completa, por razões econômicas ou de padrões de consumo. Nesta ordem se incluem a energia disponível nas marés, nas ondas, nos ventos, 43 no xisto, bem como a energia geotérmica, a solar (para aquecimento) e a proveniente da fissão nuclear. Atualmente, porém, Goldemberg (1998, p. 141) admite que a energia eólica já apresenta um nível de evolução em diversos países, que a capacita ao consumo em escala comercial. As fontes energéticas ditas exóticas não teriam ainda sua tecnologia bem desenvolvida, tampouco a aceitação da sociedade em termos de custos ou de padrões de consumo. Aqui se incluiriam a energia solar para a produção de eletricidade, o calor proveniente dos oceanos e a fusão nuclear. Quanto à energia solar, novamente Goldemberg (1998, p. 143) já admite que as tecnologias termoelétricas e fotovoltaicas têm assimilado uma crescente eficiência técnica e econômica, o que talvez a reclassificaria como não-convencional. Jannuzzi e Swisher (1997, pp.8-11) e Martin (1992, pp.35-40) explanam que as fontes de energia podem ser classificadas como primárias, quando originadas de reservas naturais, como por exemplo petróleo, gás na tural, ventos, sol ou quedas d’água. Estas fontes geralmente devem ser transformadas em energia Secundária, a partir de centrais de processamento, após uma série de eventos que as deixam mais apropriadas ao consumo final, como por exemplo a eletricidade e os combustíveis. São ditas renováveis as fontes de energia que se relacionam com um alto grau de reposição pela natureza, no curto espaço de tempo, ou quando seu uso não causa uma variação significativa nos estoques naturais. De modo contrário, são não-renováveis quando sua reposição natural somente se efetuar em prazos muito longos ou ainda se sua reposição artificial torna-se proibitiva em função dos custos a ela inerentes. A energia elétrica é uma forma de manifestação energética bastante eclética, que pode ser produzida a partir de fontes primárias, secundárias, renováveis, nãorenováveis,convencionais, não-convencionais ou ainda exóticas. Pelas fontes primárias renováveis como a hidroeletricidade e outras formas que utilizam diretamente os recursos da natureza, em princípio com esgotamento indefinido como a energia solar, maremotriz, geotérmica ou eólica. 44 A partir de fontes secundárias não-renováveis, principalmente pelas aplicações termoelétricas, derivadas da combustão dos derivados do petróleo ou do gás natural e ainda da fissão nuclear do urânio. Segundo Goldemberg (1998, p. 96) e Martin (1992, p.24), a produção de eletricidade e responsável por aproximadamente um terço do consumo de energia primária mundial e, tendo em vista a magnitude das populações ainda sem acesso a esse serviço/produto, a tendência é de que haja uma maior expansão para as próximas décadas. A figura a seguir, comentada por Munasinghe (1984, pp. 425-426) enquadra o subsetor de energia elétrica no setor energético, este parte integrante da macroeconomia, possuindo uma série de relacionamentos entre este setor, o setor agregado da energia e o resto da economia. Figura 2 - O subsetor de energia elétrica e suas interações com o setor energético e a macroeconomia Fonte: MUNASINGHE, Mohan. Engineering-economic analysis of electric power systems. Proceedings of the IEEE. v. 72, n.4, p. 425. apr. 1984. Com referência ao consumo de energia, Calabi et al. (1983, pp.47-48) afirmam que pode ser dividido em duas categorias básicas, de certa forma estendível à energia elétrica. Enquanto insumo produtivo, a energia elétrica alimenta os processos de produção e consumo de bens relacionados à produção agrícola e industrial, influenciando seus custos em diferentes níveis. 45 Como bem de consumo, realizado diretamente pelos indivíduos, famílias e empresas, nos âmbitos doméstico, transporte ou iluminação pública, sendo um componente da despesa destes entes econômicos. Neste sentido, também Barbalho (1987, pp.24-30) salienta que o consumo de energia é necessário à fabricação de qualquer produto ou à prestação de um serviço, e estes bens podem ser de dois tipos: os ativos e os passivos. Regra geral, um bem passivo não consome energia em sua vida útil mas, com certeza absorveu algum montante daquela para sua produção. Já os bens ativos, além da energia consumida em sua obtenção, realizam ainda, para seu funcionamento, consumo de energia durante sua vida útil. O sistema que descreve o uso ou a composição das fontes de energia através de uma economia, em determinada região e período de tempo é denominado Balanço Energético ou Matriz Energética (JANNUZZI, 1997, p.13). A matriz energética mundial tem se modificado, ao longo do século XX, em nítida tendência de aumento da participação da eletricidade, tanto a partir de fontes primárias quanto de secundárias (MARTIN, 1992, pp. 42 e 60). Em dados relativos a 1990 (REIS et al., 2001, pp.239-243), a produção de energia mundial (energia primária) estaria resumida de acordo com o balanço energético a seguir : ??O petróleo, equivalente a 38% do consumo primário do mundo, como a principal fonte de energia. ??O carvão, com 28%. ??O gás natural, com 20%. ??A eletricidade, com 10,3% No contexto da energia usada no mundo, agora somando-se as de origem primária quanto secundária, a energia elétrica apresenta a tendência de um aumento de participação, atualmente na casa dos 40%. Silveira, Reis e Galvão (2001, pp.38-39) discriminam as várias características da energia elétrica que a tornaram atrativa para o uso dos diversos setores econômicos : ??Flexibilidade e confiabilidade. 46 ??Alternativas variadas para produção ambientalmente limpa. ??Limpeza nos usos finais. ??Tecnologia dominada e em franco desenvolvimento. ??Fácil integração às novas tendências e tecnologias de globalização, descentralização, informação e maior eficiência. ??Aptidão para fornecer os principais serviços de energia desejados na sociedade. O Brasil, segundo a análise histórica de Calabi et al. (1983, pp.49), não passou pela primeira revolução industrial do século XVIII, pois que seu processo de urbanização e industrialização retardatários, já no século XX, teve por base energética o petróleo e a eletricidade, elementos da segunda revolução industrial. Assim também comenta Theis (1990, pp. 24-88) ao analisar a evolução do desenvolvimento industrial brasileiro, cuja estrutura produtiva refletiu as diversas fases de desenvolvimento do país, mormente aquelas submetidas aos vários programas desenvolvimentistas, os quais sobremodo ampliaram e diversificaram consideravelmente a produção nacional e a composição energética. De todas as fontes secundárias utilizadas pela sociedade brasileira a energia elétrica vem liderando as demais fontes a partir da década de 70 (BARBALHO, 1987, p.323), com um consumo cada vez mais crescente. Após os choques do petróleo, particulamente, o Brasil, entre outros países, optou pelo atenuação de sua base energética voltada ao petróleo e privilegiando a energia elétrica. Para Theis (1990, p.140), o Modelo Energético Brasileiro propunha “... aumentar a participação da energia sob a forma elétrica na estrutura do consumo de energia primária em detrimento do setor combustível sólido e líquido, ou seja, elevar o grau de eletrificação do setor energético nacional.” De fato, o consumo de energia elé trica no Brasil cresceu rapidamente nas duas décadas a partir de 1970, em uma proporção aproximadamente três vezes maior do que o crescimento do consumo de energia e do produto interno bruto (SAIDEL et al., 2001, p.201). A ampliação de seu uso se deve em parte à substituição da lenha e do petróleo aliada ao intenso processo de industrialização e urbanização pelo que passou o país. 47 A figura abaixo refere-se à composição do mercado de insumos energéticos em 1996, mostrando a participação da energia elétrica de fontes primárias e secundárias em relação às demais fontes utilizadas no Brasil. Figura 3 – Composição do mercado brasileiro de insumos energéticos em 1996 Carvão Mineral 5,2% Outros 1,6% 10,2% Derivados da canade-açúcar 9,6% Lenha e carvão vegetal 38,3% Hidráulica e eletricidade Petróleo 35,2% Fonte: SAIDEL, Marco A. et al. A conservação de energia. In: Lineu B. Dos Reis, Semida Silveira (organizadores). Energia elétrica para o desenvolvimento sustentável. p. 201. São Paulo: Edusp, 2001. Segundo Theis (1990, pp.129-139), comparativamente a outros países, o Brasil é considerado, pelo seu consumo de energia, como um país de renda média alta, muito embora a distância que o separa, em termos de consumo per capita, dos países desenvolvidos é muito grande. Os padrões de consumo destes países considerados ricos, muito embora discutíveis do ponto de vista da prudência ambiental, são induscutivelmente modelos para os países pobres. Esta informação envolve uma questão crucial envolvendo o consumo de energia e o desejável desenvolvimento: a noção de que o desenvolvimento deve ser analisado eqüitativamente à luz das óticas do crescimento econômico e da sustentabilidade ambiental. 3.2. DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E CONSUMO DE ENERGIA ELÉTRICA 48 O tema “Desenvolvimento Econômico” vem sendo abordado sob enfoques que tratam o conceito sem unanimidade em sua consideração. Em uma primeira corrente de pensamento, existe aquela que trata o desenvolvimento como oriundo do incremento constante da utilização dos recursos disponíveis, remetendo o conceito para a definição de crescimento econômico. Em havendo acumulação de capital e o decorrente fluxo de distribuição de renda entre os detentores dos diversos fatores de produção, ocorreria automaticamente a melhoria dos padrões de vida da sociedade. Historicamente, essa visão não tem sido corroborada pelos fatos. A interação entre os mercados de bens e serviços, o de fatores de produção e o monetário, longe de proporcionar de maneira equânime os frutos do crescimento, vem apresentando fenômenos de concentração de renda e generalização de empobrecimento que desabonam as abordagens simplistas que fincam a origem do desenvolvimento na ocorrência de crescimento da atividade econômica. Assim, urgiu o aparecimento de um outro conjunto de teorias que pudessem exprimir uma ampliação do conceito de desenvolvimento, associando-o à uma mudança qualitativa positiva no modo de vida das pessoas, das instituições e das estruturas produtivas. Todaro (1997) formula um conceito que já evidencia um certo distanciamento das proposições simplificadoras que praticamente se amparavam no crescimento econômico. Assim, o conceito de desenvolvimento se refere a um processo de longo prazo, baseado na alocação economicamente eficiente de recursos e no crescimento sustentado do produto econômico agregado, promovido pelo emprego de mecanismos socioeconômicos e institucionais, com vistas ao incremento rápido e em larga escala dos níveis de qualidade de vida das massas dos países mais pobres e periféricos. Esta definição é base para o ordenamento do que se entende por países subdesenvolvidos ou, em termos ma is amenos, “em vias de desenvolvimento”, ou seja, aqueles que não têm ainda implementadas a contento todas as variáveis sócio-econômicas atribuídas ao conjunto característico dos países desenvolvidos. Os países em desenvolvimento estão passando por uma transição de uma economia de subsistência a uma economia industrializada, buscando um infra-estrutura adequada e um padrão de consumo que atendam a uma qualidade de vida considerada adequada. Pressupõese que atuem no sentido de melhorar a produtividade de seu sistema econômico ao mesmo tempo em que se melhora a distribuição da renda e os demais indicadores sociais. 49 Conquanto esta segunda corrente não credite isoladamente ao crescimento econômico o estabelecimento de um processo de desenvolvimento, ainda assim o entende como o cerne de sua estrutura. O crescimento econômico advém da expansão da produção, através da criação de atividades produtivas, inovações tecnológicas, infra-estrutura econômica e ampliação do mercado dos fatores de produção como capital, mão-de-obra e recursos naturais. O crescimento econômico, nesta ótica, é expresso como resultado do aumento da capacidade de produção, através do aumento da utilização de recursos como força de trabalho, terra, fábricas e equipamentos disponíveis. Compondo estes recursos, conforme visto nas definições dos bens ativos e passivos, evidencia-se alguma forma de energia, reafirmando-se a noção da intrínseca relação desta à toda atividade econômica. Reis et al. (2000, pp. 239-243) referem-se à energia como um dos ve tores básicos do desenvolvimento, desde a produção, a transformação, o transporte até o consumo. A relação do consumo energético com o crescimento econômico tem sido alvo de vários estudos (PAULA, 1997, pp. 37-44; SILVEIRA, REIS e GALVÃO, 2001, pp. 23-26) através de cálculos e estimativas a fim de examinar a causalidade entre a Renda Nacional e o consumo de energia (SOYTAS e SARI, 2002) assim como a quantificação do consumo energético per capita necessário ao atendimento das necessidades básicas da população. Camargo (1996, Cap. I, 1.1) apresentou o gráfico a seguir, que exprime, de acordo com o Banco Mundial, no caso específico do consumo de energia elétrica, o crescimento médio entre 1985-1991 e o seu relacionamento com o crescimento do produto nacional bruto para diversos países. 50 Figura 4 - Relação PNB x Consumo de eletricidade Fonte: CAMARGO, C. Celso. Gerenciamento pelo lado da demanda. Cap. I, 1.1. Florianópolis: 1996. Tese Doutorado – Centro Tecnológico, Universidade Federal de Santa Catarina, Disponível em <http://www.eps.ufsc.br/teses96/camargo. Acesso em 27/12/2002. No caso do Brasil e de outros países emergentes, segundo o gráfico acima, o consumo de eletricidade teve um crescimento muito superior ao do produto nacional. Theis (1990, pp.52-159), propôs-se a relacionar o crescimento econômico e a demanda de energia no Brasil. Em seu entendimento, formula a idéia de que, a despeito de, nos países desenvolvidos, principalmente após os choques do petróleo na década de 70, existirem nítidas evidências de um descolamento entre as taxas de crescimento e de aumento do consumo de energia, o caso brasileiro apresenta dados deveras convincentes de que seu processo de industrialização e de aumento da atividade econômica foram acompanhados do incremento significativo da demanda energética, da mesma forma que ocorreu nos países pioneiros na revolução industrial e sua expansão bastante acentuada no século XX. Como subsídio em direção à esta argumentação no caso da energia elétrica, o artigo da Revista Mundo Elétrico (n.346. pp. 40-43. ago. 1988) “A relação entre o PIB e o consumo das indústrias” , apresenta o fato de que o crescimento do consumo de energia elétrica do setor industrial no decêndio 1974-1984 foi inclusive muito superior ao crescimento do produto industrial, obviamente também influenciado pela mudança de base energética imposta pelas altas do petróleo. Tal comportamento de expansão do perfil de consumo baseado na energia elétrica também é confirmado por Goldemberg (2002, pp. 229-231). 51 De todo modo, do que foi exposto anteriormente, é de se firmar que todo processo de industrialização trouxe consigo, historicamente, um notável aumento do consumo de energia. Martin (1992, p.42) argumenta que a elevação do consumo de energia é indissociável do crescimento populacional e ainda mais dos efeitos das revoluções industriais dos países hoje desenvolvidos e dos que atualmente são considerados em desenvolvimento. No entanto, é consenso que, muito embora se influenciem mutuamente, o crescimento econômico e o crescimento energético não necessariamente se confundem, haja vista que a carência deste não implica de forma absoluta na impossibilidade do primeiro, antes sim impõe um limite que pode ser superado por inovações tecnológicas e por outras dinâmicas político-empresariais em direção a um modelo de desenvolvimento que tenha por base a sustentabilidade ambiental. 3.3. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, ECONOMIA ECOLÓGICA E ENERGIA ELÉTRICA O Relatório Brundtland (Nosso Futuro Comum, 1987) definiu o conceito de desenvolvimento sustentável como aquele que “satisfaz as necessidades das gerações presentes sem afetar a capacidade de as gerações futuras também satisfazerem suas próprias necessidades” (SILVEIRA, REIS e GALVÃO, 2001, pp.17-26). Tal acepção, por mais natural e simples que pareça em sua essência, revela as profundas contradições que acompanham o que se denomina por progresso. O crescimento econômico ditado pela expansão capitalista, iniciada com a revolução industrial, expôs a conclusão de que o homem, potencializado pelo progresso tecnológico, imprimiu um ritmo de absorção de recursos energéticos, renováveis e principalmente nãorenováveis, aliado ao ritmo de despejo de resíduos da atividade econômica, muito superiores à capacidade de o sistema ambiental terrestre manter sua homeostase natural, na forma como vinha fazendo no decorrer da história planetária. Assim, os últimos dois séculos têm sido palco de uma crescente deterioração ambiental, causada tanto pela devastação das fontes de recursos naturais quanto pela degradação dos sistemas ecológicos pelo acúmulo desordenado de resíduos. Nas palavras de Monestier (1998, p. 124): 52 Desde finales del siglo XIX, la relación del hombre con su medioambiente natural y construido, no tuvo en cuenta los efectos inarmónicos que originaba la generación de energía y la producción de bienes e servicios en base a recursos finitos y las urbanizaciones de creciente densidad. Tampoco sus interacciones que se manifestaban en el deterioro de la calidad de vida, entonces no perceptible. Las agresiones al medio ambiente estaban en marcha por distintas vias. Esta deterioração da base ambiental, advinda das atividades humanas em suas mais variadas dimensões, vem sendo considerada, sob o ponto de vista econômico, como uma externalidade. As externalidades, segundo Tolmasquin (1998, pp. 323-341) são efeitos do comportamento de pessoas ou empresas no bem-estar de outras pessoas ou empresas. Originase de um definição imprecisa do direito de propriedade, e tem como característica o caráter incidental e involuntário, não necessariamente do comportamento malévolo dos agentes envolvidos. Sua repercussão de certo modo difusa é ponto para a dificuldade de controle direto sobre as situações sem que com isso se incorresse em custos que não estariam diretamente envolvidos nas operações. Dito sob outra forma, externalidades são acontecimentos que, variando conforme a área atingida e o grau de impacto, acompanham qualquer empreendimento econômico sem fazer parte do eixo central do mesmo. Por assim dizer, mesmo acompanhando determinada atividade econômica, é um efeito resultante que não está incorporado na formação dos preços à ela inerente (JANNUZZI, 2000, p.4). As externalidades podem ser positivas ou negativas. Por exemplo, quando se leva energia elétrica à uma região antes desatendida, não é apenas a disponibilidade de energia como bem de consumo para a região (o eixo central) que conta, mas também a potencialização econômica da região em termos de aptidão a receber investimentos em empreendimentos que necessitem de energia elétrica para sua consecução. No entanto, quando um empreendimento é analisado em bases simplesmente econômicas, perdem-se muitos fatores que envolvem externalidades negativas, muitas vezes de difícil mensuração e legitimação, como é o caso da exploração ambiental. Por exemplo, o desenvolvimento econômico experimentado pela sociedade industrial, submetido às leis de mercado na formação de preços de produtos e serviços finais, não logrou êxito em oferecer condições de aplicação de energias renováveis para a recuperação dos outputs dos processos industriais. Tampouco foi eficiente para internalizar os 53 custos ambientais da obtenção dos inputs de insumos físicos e energéticos dos empreendimentos. Mesmo assim, muitos aspectos da exploração ambiental podem não ter sua valoração corretamente aferida, pois não há como prever qual o real valor do impacto ambiental às gerações futuras 7 . Significaria determinar qual a taxa de desconto que pode ser aplicada ao custo futuro de nossos descendentes não terem mais acesso a determinados valores culturais ou naturais, em virtude de seus antepassados terem decidido a extinção, mesmo que sob alguma racionalidade econômica, da biodiversidade ou das características sócio-culturais e históricas de determinadas áreas geográficas. Adentra-se, desta forma, em um campo que extrapola as dimensões econômicas e ecológicas, alargando-se em problemáticas culturais e éticos. É fato que a energia elétrica, em suas etapas de produção, transmissão, distribuição e consumo afeta o ambiente, o estoque de recursos naturais e eventualmente determinadas dinâmicas sócio-culturais. Segundo Jannuzzi e Swisher (1997, pp. 2-4), a questão ambiental passou a ser evidenciada e os impactos ambientais originados da produção e do consumo têm sido identificados como uma restrição potencial ao desenvolvimento. Apenas se fixando nos impactos sócio-ambientais relacionados à produção de energia elétrica, podemos relacionar (JANNUZZI e SWISHER, 1997, pp. 181-184 ; SILVEIRA, REIS e GALVÃO, 2001, pp. 27-28; GOLDEMBERG, 1998, pp. 96-105) : ??A queima de combustíveis fósseis não-renováveis inerentes à termoeletricidade, com conseqüentes emissões de gases tóxicos ou poluentes, aumento do efeito estufa e chuva ácida. ??A interferência no meio-ambiente ocasionada pelas grandes represas necessárias à hidroeletricidade, alterando a biodiversidade, o clima e os regimes pluvio e fluviométricos de regiões alagadas. ??A perda de áreas agriculturáveis, ou de valor histórico, cultural e biológico, além de problemas sociais na realocação de populações atingidas por alagamentos de usinas hidráulicas. 7 Muito embora já existam estudos e métodos sérios focados neste objetivo, citando-se os do Banco Mundial que emprega técnicas de multi-critério, área de pesquisa atual (CAMARGO, 2005). 54 ??Os potenciais riscos de acidentes e os problemas decorrentes da manutenção dos resíduos das usinas nucleares. Verifica-se, pois, que o aumento do consumo energético que alimentou a expansão econômica contínua inerente ao modo de produção capitalista (STAHEL, 1998, pp. 104-127) deve ser cuidadosamente analisado à luz da progressiva deterioração do meio-ambiente, tomando como exemplo a história dos países hoje industrializados. Depreende-se que o grau de desenvolvimento alcançado pelos países hoje ricos não é possível de ser atingido pelos países em desenvolvimento através dos mesmos mecanismos anteriormente empregados, sob pena de um eventual colapso da base de recursos naturais do planeta 8 . Diante disso, fica patente a constatação de que o processo de desenvolvimento de que os demais países do globo porventura adotem deve guiar-se por diretrizes fundamentalmente modificadas. Neste sentido, a maioria das entidades internacionais ligadas ao tema adotaram a abordagem do desenvolvimento sustentável, que se apóia em um tripé combinando crescimento econômico, justiça socia l e prudência ecológica (BRÜSECKE, 1998, pp. 29-40). A sustentabilidade do desenvolvimento, vale dizer, implica em igualmente associar o termo sustentável às transformações sócio-econômicas-espaciais e ao desenvolvimento econômico. Mesmo assim, permanece no termo desenvolvimento sustentável uma perceptível noção de vagueza e imprecisão, que contribuem para o aparecimento de contradições, inconsistências e ambigüidades. Existem críticas dirigidas aos próprios princípios norteadores do conceito de desenvolvimento sustentável, basicamente pelo fato de que o mesmo ainda evidencia o crescimento econômico sustentável, o aspecto quantitativo sendo mais importante que o qualitativo, tanto para os países em desenvolvimento quanto para as nações ricas. No mesmo sentido, ressalta Stahel (1998, p. 108): 8 Tome-se como exemplo a China e a Índia (CAMARGO, 2005). 55 Quando falamos de Desenvolvimento Sustentável, temos que considerar não só os aspectos materiais e econômicos, mas o conjunto multidimensional e multifacetado que compõe o fenômeno do desenvolvimento: os seus aspectos políticos, sociais, culturais e físicos. A sustentabilidade do todo só é possível na sustentabilidade conjunta das partes. As críticas ao informe Brundtland se reportam à percepção de que o mesmo parece ter se apegado mais à questão do impacto da pobreza ao meio-ambiente do que às posturas extremamente consumistas dos países industrializados, em virtude de seus padrões de consumo e estilos de vida (MARTINEZ ALLIER, 1998, pp. 99-141; BRÜSECKE, 1998, pp. 29-40). Parece existir atualmente, com efeito, o consenso de que o crescimento econômico de per si não se constitui na chave para o desenvolvimento de países que buscam melhores condições de existência para suas sociedades. De fato, o crescimento econômico precisa se submeter a um modelo mais restrito à uma variável qualitativa do que quantitativa, de forma que as decisões atuais também devem levar em conta as perspectivas de uma qualidade de vida futura, assegurando a preservação e a transmissão do insubstitutível capital natural. Essa visão crítica do conceito de desenvolvimento sustentável adentra às proposições da economia ecológica. O termo ecologia exprime uma série de leis que regem a relação entre os diferentes seres, orgânicos e inorgânicos, e que são freqüentemente parecidas com as da economia humana. No entanto, não se percebe na ecologia animal e vegetal a noção econômica da “exploração destrutiva” que empreende o homem sobre a Terra (LORENZ, 1974, pp. 31-40). No meio-ambiente, o equilíbrio proporcionado pela homeostase é a base de sustentação, muito diferente do ritmo de transformação que a ecologia humana imprimiu sobre a natureza, cuja progressão geométrica proporcionada pela tecnologia provocou modificações profundas e eventualmente até a supressão completa de biocenoses nas e das quais vivem os seres humanos. É na abordagem econômico-energética de Georgescu-Roegen, comentada por Martinez Allier (1998, pp. 45-62), que é inscrita a economia humana no marco biofísico representado pela problemática energética e com a qual apresenta analogias formais de natureza epistemológica. 56 Ao estudar a apropriação eficiente dos recursos de produção, dentre eles os recursos naturais, a economia mainstream (convencional) não leva em conta o sistema biofísico mais amplo de fluxos de energia, por restringir suas preocupações com o processo produtivo à dimensão financeira (GEORGESCU-ROEGEN, 1979). Este ciclo fechado, da natureza do processo econômico, segundo Daly (1991, pp. 221) está contido em um circuito energético muito mais amplo, que se desenvolve mediante a transformação de insumos de baixa entropia em energia ou outros materiais/produtos cuja devolução à natureza é sob a característica de alta entropia. A entropia pode ser definida como um estado de desorganização da matéria, sendo que quanto mais alta a entropia de determinada fonte, menor a facilidade em se extrair energia haja vista sua dispersão. Seu conceito vai ao encontro da segunda lei da termodinâmica, que pode ser interpretada como a tendência de que toda a energia se transforme de maneira qualitativa de uma energia livre ou disponível para uma energia dissipada , muito embora devido à primeira lei da termodinâmica (da conservação de energia), não ocorram perdas quantitativas. De acordo com Boa Nova, apud Theis (1996, pp.41) : [...]para a atividade humana, o aspecto que mais interessa na energia é a sua conversibilidade, ou seja, a possibilidade de se obterem formas de energia que são necessárias, a partir daquelas que estão disponíveis. Por esse motivo, o estudo científico dos fenômenos da energia está centrado sobre os processos de transformação e sobre as leis da natureza que os regem. Este constitui o campo da investigação da termodinâmica, que é considerada a ciência da energia. Daly (1991, pp. 2-21) distingue a economia ecológica por seu encargo de relacionar os elementos que compõe o processo econômico através da conservação matéria-energia, cuja escala ótima deixa de ser puramente antropocêntrica, aparentemente sem limites, para biocêntrica, esta com demarcações bastante definidas, ou em termos econô micos, com uma “curva de possibilidades de produção” não expansível. A grande maioria dos processos de obtenção de energia empreendidos pela sociedade industrial utiliza-se de fontes de baixa entropia e, a partir de sua utilização, tornam-se de alta entropia. Para retornarem ao estágio de baixa entropia, estas fontes têm que se submeter à reciclagem material contínua do planeta, mas de ritmo muito lento. A possibilidade de reciclagem significa que o ciclo ecológico não é fechado, o que tem garantido a manutenção do equilíbrio planetário contra a contínua degradação entrópica 57 desde a sua formação, pois que quanto à energia, vivemos em um mundo que se configura em um sistema aberto, haja vista as trocas ininterruptas com o exterior. Stahel (1998, 104-113) aponta inclusive que os processos vitais sempre se encarregaram de resistir ao aumento da entropia, mediante formas naturais de reciclagem. Com efeito, existem uma série de inputs energéticos de baixa entropia renováveis que têm alimentado a cadeia ecológica e econômica (SEVÁ FILHO et al., 1998, pp. 345-348), tanto no sentido de repor estoques de energia quanto de oferecer a energia necessária à reciclagem dos materiais : ??A energia solar, que incide sobre a Terra, gerando calor e operando a fotossíntese e a conseqüente energia química das plantas e outros organismos que realizam inclusive os processos naturais de reciclagem. ??O campo gravitacional da Terra, que oferece a energia potencial aproveitável por exemplo em quedas d’água. ??A energia geotérmica que produz calor para o planeta e vapor utilizáveis na geração de energia. ??O campo gravitacional lunar, responsável pelo potencial energético das marés. O problema a partir da industrialização da sociedade é que a dimensão e a velocidade da apropriação dos recursos naturais e o despejo dos resíduos dos sistemas de produção sobrepujaram em muito a capacidade regeneradora natural do planeta. É o caso da extração de fontes de energia não-renováveis como o carvão e o petróleo e da poluição ambiental derivada dos processos industriais e da urbanização. O enfoque da economia ecológica desloca o eixo do desenvolvimento em função do crescimento econômico, pois que alerta quanto à limitada capacidade de reorganização entrópica da natureza, e argumenta em direção à obrigatória revisão dos processos usuais de obtenção e uso da energia necessários ao desenvolvimento, sob pena de se atingir um ponto sem volta no que concerne à reabilitação ecológica do planeta. 58 3.4. CONSERVAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA NA AGENDA DO DESENVOLVIMENTO As concepções das teorias do desenvolvimento sustentável, ampliadas pelas considerações da economia ecológica, indicam claramente que, no mínimo há que se atenuar severamente as conseqüências do crescimento econômico relacionadas ao consumo energético e aos impactos ambientais. Nesse sentido, vale um conceito notadamente ampliado de desenvolvimento, de acordo com Redclift (1995), Brüsecke (1998, pp. 29-40) , Stahel (1998, pp. 104-127) , Daly (1991, pp. 3-21) entre outros, o qual envolve um processo de mudança de estruturas e melhorias das condições econômico-sociais, pressupondo a combinação de crescimento econômico, justiça social e sustentabilidade ambiental, através da conservação contínua da matéria-energia. Jannuzzi e Swisher (1997, p.4-7) entendem que a me lhoria da eficiência no consumo energético tem como uma de suas razões que este consumo enquanto desenfreado pode levar a conseqüências indesejáveis em nível ambiental global e regional. Este panorama indesejável pode ser evitado pelo descarte do denominado cenário “business as usual”, ou do crescimento econômico sem qualquer limitação, e pela adoção, por meio de políticas públicas adequadas do assim chamado “ecologically driven scenario”, baseado no uso de energias renováveis em um ambiente tecnologicamente sofisticado em termos de produção e consumo (GOLDEMBERG, 2002, pp. 231-232). É um fato, porém, que países em desenvolvimento, carentes nos setores estruturais da economia, têm a necessidade de expandir sua atividade econômica com o fim justamente de tentar suprir sua sociedade dos produtos e serviços básicos para um padrão de vida adequado. Mesmo mantendo seus atuais (baixos) níveis de desenvolvimento, estes países ainda assim estão permanentemente demandando expansões de suas infra-estruturas. Graça (1990, p.6) expõe que “a taxa de crescimento populacional dos países do terceiro mundo [...] exige grande quantidade de energia para a fabricação dos materiais necessários à ampliação da infra estrutura sanitária, de moradia, de saúde e dos serviços em geral que permitiriam manter a qualidade de vida hoje em níveis inadequados”. 59 Obviamente, a solução das limitações dos países pobres em atingir o status de nação desenvolvida exigiria uma alocação de recursos e uma expansão destes bens muito maior, ao que tudo indica mediante um consumo energético muito maior do que o atual. A figura abaixo compara expectativas da demanda por energia em 2020 e a comparação com anos anteriores. Figura 5 – Expectativas da demanda por energia em 2020. Fonte: CAMARGO, C. Celso. Gerenciamento pelo lado da demanda. Cap. I, 1.1. Florianópolis: 1996. Tese Doutorado – Centro Tecnológico, Universidade Federal de Santa Catarina, Disponível em <http://www.eps.ufsc.br/teses96/camargo. Acesso em 27/12/2002. Pode-se notar que a participação do consumo energético dos países em desenvolvimento aumentou progressivamente em relação aos demais países e apresenta a tendência de aumentar ainda mais. A revista The Economist (A survey of energy, 10/06/1994 apud Camargo, 1996, cap. I, 1.1) aponta o crescimento demográfico como o principal fator do aumento da demanda por energia dos países em desenvolvimento. A população mundial irá crescer dos atuais 5,7 bilhões de pessoas até alcançar 8 bilhões de habitantes por volta do ano 2020, com a Asia e América Latina contribuindo com 60% deste contingente adicional. Moreira (2001, pp. 1-9) também relaciona o crescimento populacional dos países em desenvolvimento à ascenção de sua intensidade energética em relação ao crescimento da economia, pois que ainda estão construindo sua infraestrutura, a qual é intensiva em energia. 60 Em particular no caso da eletricidade há uma tendência mundial (e também para o Brasil) de sua demanda aumentar acima dos outros energéticos (MOREIRA, 2001, pp. 1-9; UDAETA et al, 2001, p.165). Partindo do pressuposto de que, para um país como o Brasil, o crescimento econômico é de certa forma essencial e por isso inevitável, esta expansão deve ser pensada e coordenada através de um modelo que privilegie a conservação de energia, ou seja, as taxas de aumento de consumo de energia obrigatoriamente não devem acompanhar as de crescimento econômico, nos moldes do que aconteceu com os países desenvolvidos a partir da década de 1970. Para tanto, Goldemberg (1998, p. 215), defende que há que se incorporar desde cedo tecnologias eficientes e modernas, tanto na produção quanto no consumo de energia, a fim de que a enorme distância entre as estruturas produtivas dos países ricos e dos pobres possa ser vencida evitando-se repetir o caminho histórico de industrialização das nações hoje desenvolvidas, que foi a custo de um brutal impacto ambiental. Desta forma, é possível tecnicamente a obtenção dos mesmos serviços ou aplicações despendendo menores quantidades de energia, sendo que o crescimento econômico, não atrelado a um maior consumo energético, viabilizaria a melhoria da qualidade de vida através de um processo de desenvolvimento que evitaria maiores pressões sobre os ecossistemas. Também Moreira (2001, pp. 1-9) revela que no Brasil, existe a real possibilidade de se obter resultado significativos de redução da demanda de energia elétrica dado o potencial da ordem de 2% de redução em relação ao crescimento do PIB. Saidel et al. (1998, p.199), referindo-se ao conceito proposto pelo Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (PROCEL), descrevem a conservação como “a utilização de uma menor quantidade de energia para a obtenção de um mesmo produto ou serviço através da eliminação de desperdício, do uso de equipamentos eficientes e do aprimoramento dos processos produtivos”. Pode-se entender então que a conservação de energia é a condição decorrente do aumento de eficiência do uso, produção ou distribuição de energia. Historicamente, o tema “conservação” ou “uso eficiente de energia” adquiriu especial importância a partir da conjugação de diversos fatores, principalmente a partir da década de 1970. 61 Com relação ao conceito propriamente dito, Saidel et al (2001, pp. 197-235) e Berkowitz (1985) referem-se à utilização de uma menor quantidade de energia para a obtenção de produtos ou serviços, através de diferentes métodos tecnológicos, gerenciais e estratégicos, preservando o meio-ambiente através da racionalização da produção, distribuição e consumo. Segundo Graça (1990, pp.1-20), o interesse pela conservação de energia no terceiro mundo aumentou diante das dificuldades financeiras enfrentadas pelos países, decorrentes dos impactos na balança comercial pelos aumentos dos preços do petróleo, do aumento das taxas internacionais de juros, assim como pela constatação do sucesso dos programas de conservação empreendidos pelos países do primeiro mundo. A conservação de energia elétrica tornou-se então importante derivada da própria influência deste vetor energético nos processos de expansão e modernização da economia. Neri e Fantini apud Camargo (1996, CAP.II, 2.1.1) relacionam as condições externas então favoráveis ao modelo desenvolvimentista adotado pelo Brasil, orientado basicamente para o crescimento contínuo da oferta, basicamente consistindo no aproveitamento de abundantes recursos de origem hidráulica, antecipando pela expansão as necessidades estimadas do mercado: ?? ?? ?? ?? ?? ?? Uma economia internacional pujante com oferta de recursos de capital sem limitações e atraentes, com o mercado favorecendo a exportação dos produtos brasileiros. O poder político do Estado brasileiro, assumindo este o papel de promover os empreendimentos necessários ao crescimento do país, mediante empresas estatais às quais eram atribuidas a execução das políticas e estratégias previamente estabelecidas. A persistência de um regime político autocrático, fechado, não permitindo questionamentos ou manifestações contrárias ao mo delo estabelecido. A disponibilidade de um bom sistema de educação, que pode propiciar mão de obra especializada de nível adequado, e que soube se adaptar as crescentes exigências oriundas da expansão do sistema elétrico, mediante treinamento no país e no exterior, contribuindo para o estabelecimento de uma cultura profissional e empresarial equivalente a dos países industrializados. O aparecimento e/ou consolidação de importantes instituições fundamentais ao modelo de desenvolvimento pretendido, nas áreas de pesquisa, financiamento e fomento, estudos estratégicos, regulamentação institucional, industrialização e comércio, etc. Um sistema tarifário por empresa, com remuneração positiva e suficiente para uma composição equalitária tripartite (empresa, Estado e terceiros) nos investimentos. Mas, por ser de natureza capital- intensiva, a expansão da infra-estrutura ligada à capacidade de geração de eletricidade gerou enormes pressões sobre os governos de países absorvedores de capital externo, haja vista que o sistema financeiro internacional não 62 permanece mais com a mesma disposição em financiar tais empreendimentos sem uma clara visão de seus benefícios líquidos. Neste sentido, onde antes se consagrava o uso de empresas estatais como instrumento de política social hoje se fala em eficiência diante da insuficiente capacidade de poupança interna para gerar os recursos necessários à expansão do setor de energia elétrica. Logo, a conservação de energia passa a ser agente de crescimento econômico com sustentabilidade ambiental, componentes básicos do conceito de desenvolvimento. É a que se refere Camargo (1996, Cap. I, 1.1) indicando também o caso do Brasil, onde além das dificuldades enfrentadas para financiar novos empreendimentos no setor de energia elétrica, já se notavam inclusive crescentes movimentos sociais e ecológicos contra a construção de grandes obras de geração e transmissão de energia elétrica. Neste sentido, o setor elétrico brasileiro iniciou a empreender ações visando a conservação de energia elétrica ou melhoria da eficiência energética tanto do lado da oferta (supply-side management) quanto da demanda, seja otimizando a expansão do setor elétrico ou pela utilização de fontes de energia renováveis, seja em programas de gerenciamento pelo lado da demanda (demand-side management). O gerenciamento pelo lado da oferta, historicamente tradicional, teve suas diretrizes bastante influenciadas pelas próprias dificuldades econômico- financeiras enfrentadas na expansão da infraestrutura e, de forma secundária pelas políticas de conservação de energia. De acordo com Schechtman e Baum apud Camargo (1996, CAP.III, 3.1) “...a estratégia tradicional de atender ao mercado pelo lado da oferta, devido a escassez de fontes energéticas viáveis tecnologicamente, com custos e impactos ambientais reduzidos, tem levado a acentuados acréscimos no custo marginal da geração elétrica, com conseqüentes aumentos nas tarifas e no aporte de recursos financeiros elevados”. Na nova regra mundial baseada no capital volátil, investimentos de grande monta e longo prazo de retorno apresentam dificuldades de financiamento, sendo que novas políticas foram executadas sob o discurso de aumentar a eficiência dos setor energético. Assim, em vários países incluindo o Brasil, as estruturas de orga nização do setor elétrico foram reformadas no sentido de desregulamentação da indústria e redefinição do papel do Estado como principal gestor. 63 As reformas no setor elétrico brasileiro trouxeram consigo uma série de novos atores, ao introduzir a competição: ??No atacado, entre os diversos produtores (geradores) tradicionais e os produtores independentes concorrendo para vender de energia elétrica. ??No varejo, com os consumidores finais podendo negociar livremente a compra de energia elétrica com diversos fornecedores além das empresas concessionárias de suas regiões. Mas, de acordo com Jannuzzi (2000, pp. 3-104), as reestruturações institucionais do setor elétrico em vários países, desenvolvidos e subdesenvolvidos, tendo por escopo principal a maior competição e eficiência econômica, nem sempre ofereceram ou vêm oferecendo um ambiente adequado nas áreas de eficiência energética, proteção ambiental e investimentos em pesquisa, pois que o que se observa é que tais iniciativas não têm tido condições de se desenvolverem à margem de uma regulamentação pública que defina até que ponto o mercado deverá tratar das relações econômicas envolvendo os bens públicos. Jannuzi entende que a sinalização de preços não proporcionou condições atraentes para os atores envolvidos em um ambiente competitivo empenharem-se em processos de conservação e eficiência energéticas. Seria então, de certa forma, uma especulação grosseira dizer que o novo contexto do mercado do setor elétrico brasileiro seria causa suficiente de uma política de conservação de energia. Mas não seria irrealista dizer que a eficiência econômica que o mercado impõe aos competidores, no caso da energia elétrica, pode resultar em menores pressões sobre o meioambiente por uma diminuição nas taxas de apropriação dos recursos naturais necessários à produção e comercialização deste produto. Assim, este aumento da eficiência energética torna-se uma alternativa válida com relação ao planejamento energético baseado no suprimento. Por outro lado, nos trabalhos de Saidel et al. (2001, p.233) fica patente que o grande potencial da conservação de energia elétrica está justamente no uso final, ou seja, no consumidor. Udaeta et al (2001, p.161) reforçam esta posição ao comentar que provém dos usos finais de energia os maiores e mais graves problemas ambientais, porquanto ainda não 64 foram mudados hábitos e culturas ligadas ao consumo, que são os determinantes das enormes quantidades de energia despendidas pela sociedade. 3.4.1. Gerenciamento pelo lado da demanda O esgotamento do modelo tradicional de gerenciamento pelo lado da oferta foi provocado principalmente por alterações na conjuntura internacional, pelos choques do petróleo e dificuldades de financiamento, levando à necessidade de se buscar um novo enfoque de planejamento do setor ene rgético. Esta nova fase do planejamento do setor teve a incorporação do gerenciamento da demanda, o qual veio a incluir os interesses econômicos dos consumidores e por conseqüência influenciar sobremaneira os estudos até então deliberados em função da ofe rta (CAMARGO, 1996, CAP.II, 2.4, 2.6). A estratégia de gerenciamento pelo lado da demanda (GLD), originária da França e dos Estados Unidos, é o instrumento empregado pelos condutores do planejamento e da gestão de setores elétricos para reduzir os requisitos da capacidade de geração, transmissão e distribuição através da implementação de programas que estimulem os consumidores a racionalizar o consumo de energia elétrica. Ao influenciar o uso da eletricidade pelo consumidor, o GLD integra as características e particularidades do consumo final da energia elétrica às demais ações de otimização de expansão da oferta de energia elétrica, reduzindo ou adiando os acréscimos dos requisitos da capacidade de geração e transmissão de energia elétrica (LESCOEUR, 1987, pp. 458-464). Segundo Jannuzzi e Swisher (1977, pp. 83), a denominação de GLD é aplicada para as ações praticadas pelas empresas de eletricidade sendo que se implementadas por outros agentes receberiam a denominação de programas de eficiência energética. Segundo Sioshansi (1995), o termo GLD (DSM - demand-side management), também denominado de conservação de energia ou gerenciamento de conservação e de carga (conservation and load management) foi criado nos EUA em uma conjuntura que envolvia a crise do petróleo e os extraordinários aumentos e preços da geração de energia elétrica no período. Sua fase inicial proporcionou enormes economias (cost-efectiveness) mas, com o 65 passar do tempo e a retração dos preços internacionais do petróleo, as empresas concessio nárias (utilities) passaram a exigir incentivos governamentais para a implementação de programas de GLD, alegando a redução de potenciais receitas relacionadas à sobrecapacidades instaladas. Referindo-se ao livro “Terceira Onda” de Alvin Tofler, Sioshansi julga que o GLD também entra em uma terceira fase na qual as empresas do setor aferem os sinais do mercado relacionados aos interesses dos consumidores em pagar pelos tipos de programa de GLD, dentro do ambiente de competitividade que foi aplicado ao mercado energético. Denominações à parte, o GLD veio a alterar o comportamento do planejamento tradicionalmente adotado, que “...pouca ou nenhuma importância atribuía ao comportamento do mercado, bem como aos hábitos e usos da energia elétrica... com raros esforços voltados para a otimização dos sistemas elétricos através de ações interativas com os consumidores”(ZAGUIS et al. Apud CAMARGO, CAP.II, 2.4). Mas mesmo que os objetivos principais do GLD estejam afeitos principalmente na otimização da expansão física do setor e por conseqüência nos resultados econômicofinanceiros das empresas que exploram o mercado de energia elétrica (utilities), sua implantação apresenta consideráveis impactos sobre os consumidores. Os programas de GLD que são oferecidos aos usuários procuram estimular o consumo em períodos favoráveis ao sistema elétrico 9 , dificultá- lo em períodos críticos e deslocá- lo de um período para outro em determinadas ocasiões. Pode-se identificar áreas de atuação ou tipos mais usuais de tais programas, as quais no entanto podem incorporar-se umas às outras de acordo com a natureza do estudo ou da análise (WG 37.03, CIGRÉ, 1991 apud CAMARGO, 1996; Dicionário de Energia Elétrica – DUKE ENERGY; BERKOWITZ, 1985, p. 2384) . 3.4.1.1. Novos usos e melhoria da eficiência energética (conservação de energia) Neste tipo de programa as empresas concessionárias promovem descontos e atividades compartilhadas de economia na aquisição de equipamentos, iluminação e máquinas 9 Camargo (2005) enfatiza que essa ótica do GLD têm sido pouco realçada, tendo sido dado mais publicidade aos aspectos relacionados à conservação de energia. 66 elétricas mais eficientes. Também ocorrem incentivos para alterações nas instalações e nos aparelhos de energia elétrica, alterando o modo de uso através de modificações arquitetônicas e de isolamento térmico (Dicionário de Energia Elétrica – DUKE ENERGY). Visto de outra forma, trata-se de empregar da melhor forma as possibilidades técnicas de uso da energia elétrica em quantidades menores, sem diminuir o rendimento dos equipamentos e atividades empresariais. Por exemplo podemos citar incentivos financeiros à troca de lâmpadas, motores ou aparelhos de ar-condicionado por outros mais eficientes, e para a obtenção de melhores níveis de isolação em casas ou prédios comerciais e industriais (GOLDEMBERG, 1998, pp. 157162; JANNUZZI, SWISHER, 1997, pp. 129-133). Veja-se algumas comparações exemplificativas de resultados de atitudes de conservação de energia divulgados (BRANDT, 2002, p. 17; GELLER, 1994, pp. 154-156; PROCEL, 2004): ?? ?? ?? ?? ?? A substituição de uma lâmpada incandescente de 60 W por uma fluorescente compacta de 9W, possibilita, pela redução de 51 W (mantendo praticamente os mesmos níveis de luminosidade), uma redução de 30 m2 de área inundável de uma usina hidráulica, permitindo o plantio de 7 árvores, além da redução de 153 dólares em investimentos para a instalação de uma potência equivalente; O consumo de um chuveiro de 4.000 W, reduzido em 30 minutos, corresponde a 100.000 l de água que não precisam ser armazenados para passar pelas turbinas de uma usina. Quando produzimos um quilowatt em sistemas de energia renovável [fotovoltaico, por ex.] economiza-se 70 kg de carvão e evita-se que 140 kg de CO2 sejam lançados na atmosfera. Cada 1 m2 de coletor solar [aquecimento] instalado corresponde a economizar 55 kg de GLP/ano, 66 litros de diesel/ano, evitar a inundação de cerca de 56m2 para a geração elétrica ou ainda eliminar anualmente o consumo de 215 kg de lenha. Para cada unidade monetária investida em conservação de energia, pode-se aguardar 2,5 vezes mais em termos de retorno. 3.4.1.2. Gerenciamento da carga São medidas adotadas pelas empresas do setor elétrico que visam modificar o perfil do consumo de energia elétrica (JANNUZZI e SWISHER, 1997, p. 129; STOLL, 1989, pp. 241-268), deslocando carga dos períodos de ponta para outros períodos do dia ou do ano e assim evitar o aumento da capacidade de produção de eletricidade ou fa zer melhor uso do existente. No Glossário de Termos relacionados ao Gerenciamento de Carga – Load Management (IEEE, 1996), estão definidos alguns objetivos, como: Redução de 67 investimentos, melhor utilização da capacidade instalada, redução dos custos da energia elétrica, melhoria do fator de carga 10 , da eficiência e da confiabilidade do sistema elétrico. Stoll (1989, pp. 241-268) segmenta as ações de gerenciamento de carga em duas abordagens, o controle direto e o indireto de carga. No controle direto de carga (active load management) a própria concessionária realiza a operação dos sistemas elétricos de seus clientes, desligando e reconectando cargas de acordo com suas necessidades, influenciando o horário e o nível de consumo de energia elétrica (IEEE, 1996). Assim, a concessionária assume controle direto sobre a forma da curva de carga 11 de seus clientes, diminuindo a ponta (peak load - peak demand - demanda máxima), enchendo os vales (melhorando o Fator de carga) ou ainda se utilizando do conceito de carga flexível, onde o consumidor opta por diferentes níveis de qualidade do fornecimento, normalmente associado à incentivos financeiros. No controle indireto de carga (STOLL, 1989, p. 260-267), por sua vez, o setor elétrico induz os consumidores a adotarem um estilo de consumo adequado mediante a implementação de uma estrutura tarifária que recompense ações de conservação de energia mas também que penalize comportamentos de consumo em horários ou períodos em que o sistema elétrico apresenta sua capacidade comprometida. 3.4.1.3. Políticas tarifárias A energia elétrica, da mesma forma que outro bem ou serviço, possui uma determinada elasticidade-preço de sua demanda (nesse caso o conceito é econômico e não elétrico 12 ) que consiste na taxa de variação das quantidades consumidas em razão de uma variação nos preços (STOLL, 1989, p. 263). Implica dizer que, embora diferentes para cada setor da economia, existem faixas de preços a partir das quais os consumidores sentem-se impelidos a reduzir sua demanda de potência ou seu consumo de energia elétrica vislumbrando uma vantagem econômica (BITU, 1993, pp. 37-38). 10 Ver item 5 – APÊNDICE B. Ver item 4 – APÊNDICE B. 12 Vide Berkowitz (1985, p. 2385) para a confirmação dessa diferença conceitual. 11 68 Além disso, segundo Lescoeur e Galland (1987, pp. 458-464), não se pode esquecer do impacto que as tarifas públicas do setor elétrico têm sobre a economia, ou seja, sobre toda a coletividade, destinatária final dos resultados de políticas públicas. Por isso é que o binômio lado da oferta - lado da procura (supply-side – demand side) é uma representação das duas faces da infraestrutura do setor elétrico que devem ser administradas e planejadas em conjunto. A instituição de uma política de preços relacionada à energia elétrica é uma forma de controle indireto de gerenciamento de carga, que terá efeitos sobre o equilíbrio financeiro das concessionárias e dos consumidores. Neste sentido, Bitu e Born (1993, p. 38) identificam a estrutura tarifária como a que define a relatividade dos preços de energia elétrica de acordo com as características do fornecimento, dos consumidores e da forma mediante a qual consomem energia elétrica e demandam potência elétrica, sinalizando que o custo da energia não é de maneira nenhuma uniforme. Sanghvi apud Camargo (1996, CAP.II) avalia o crescente interesse das concessionárias em adotar incentivos tarifários como forma de gerenciar a demanda pelo lado do consumidor. As tarifas estariam relacionas então à variação do fornecimento no tempo, ao montante contratado ou ainda à definição de incentivos à determinadas indústrias. No Brasil, a política tarifária ainda se compõe de subsídios que objetivam incentivar o desenvolvimento de determinadas regiões ou setores econômicos, explicitando então a ação de políticas governamentais relacionadas à energia elétrica. Além disso, a legislação que rege as relações do mercado de energia elétrica prevê penalizações pecuniárias, como consumo mínimo 13 , multas por ultrapassagem e exigência de pagamento de valores contratados de demanda e energia, independentemente de sua utilização (Resolução ANEEL 456/2000, arts. 48, 49, 56). Uma estrutura tarifária adequada pode oferecer benefícios tanto para os consumidores como para as empresas de energia elétrica e para a sociedade em geral. Os benefícios auferidos pela concessionária se relacionam à redução de seus custos através de evitar a construção de novas centrais geradoras, encorajar o uso eficiente da energia elétrica e promover a imagem da empresa. 13 Vide item 3.2.1 – APÊNDICE C. 69 Para a sociedade, o comportamento racional dos agentes econômicos se volta favoravelmente à sustentabilidade ambiental do desenvolvimento, no que se refere à racionalização do consumo de energia e na diminuição das taxas de expansão do sistema e por conseqüência dos recursos energéticos disponíveis na natureza. Para os consumidores os benefícios incluem um maior controle sobre gastos com a energia elétrica e um melhor conhecimento das suas características de consumo, permitindo aos mesmos aplicar instrumentos de gestão voltados para o fim de racionalização do consumo, através de novos métodos ou tecnologias. Além disso, dentro de um ambiente de competição na geração, os preços praticados pelo mercado de energia elétrica podem sinalizar oportunidades de autoprodução e venda de energia excedente para o próprio setor elétrico. 3.4.1.4. Geração pelos consumidores A autoprodução de energia elétrica é considerada tanto como um elemento do gerenciamento de carga (IEEE, 1996) quanto um sub-programa independente de GLD, e pode ser definida como a geração de energia elétrica pelo próprio consumidor, utilizando-se freqüentemente de fontes energéticas convencionais como o petróleo, o gás natural, o carvão, a biomassa e a hidroeletricidade. Embora estas alternativas tenham sido motivadas mais pelo lucro advindo da venda da energia geradas para as empresas de energia elétrica, tais fontes foram logo consideradas como recursos disponíveis às concessionárias pelo lado da oferta, sendo o controle exercido sobre as mesmas mediante contratos ou pelo uso de incentivos tarifários. O gerenciamento pelo lado da oferta atua no conceito de geração distribuída (JANNUZZI, 2000, pp. 57-58; SAUER, 2002, pp. 206-209), onde os sistemas elétricos podem, embora com um razoável aumento de complexidade operacional, dispor de uma série de unidades independentes de produção de eletricidade mais próximas aos centros de consumo, reduzindo custos de transmissão e distribuição. Do ponto de vista da conservação de energia, a autoprodução torna-se bastante promissora quando privilegia o uso de energias renováveis e de baixo impacto ambiental, como a biomassa, a hidroeletricidade de pequenas centrais, a energia eólica ou a solar. 70 As fontes energéticas acima citadas são opções ainda mais atraentes no enfoque do uso eficiente da energia quando participam em um processo de co-geração, amparado pelo uso correto de eletrotecnologias, tanto na indústria quanto em outros setores (Jansen, DeWit e Kena, 1997, pp. 77-82). A co-geração é uma forma de autoprodução que se utiliza de alguma forma de energia primária para atendimento das necessidades térmicas, produzindo em ação combinada calor, vapor e potência na forma de energia mecânica (CLEMENTINO, 2001, pp. 21 ; JANNUZZI, SWISHER, 1977, pp.111-115; PELLEGRINI et al. , 2001, p. 99). Clementino (2001, p. 26, 31) conceitua : A co-geração, por definição, é uma instalação na qual se produz, de uma forma combinada, energia elétrica e formas usuais de energia témica (tal como calor ou vapor) utilizadas em indústria, comercio, aquecimento ou resfriamento, por meio do uso sequencial de energia a partir de um combustível. [...] pode se aproveitar do fato de que a atividade econômica já necessitar de energia térmica para produzir na linha de processo e concomitantemente produzir energia mecância, que pode acionar um gerador de ee. Verifica-se, neste sentido, que a co-geração aumenta a eficiência energética do uso de combustíveis não-renováveis, observando-se a vantagem do gás natural em relação ao carvão e aos derivados do petróleo. Sua atratividade, inclusive, vem se destacando não só para a indústria como para muitas outras atividades do setor terciário como shopping centers, hotéis ou hospitais. Sob o aspecto histórico, muito embora amplamente conhecida e utilizada desde o início do século XX, a co-geração adquiriu especial importância a partir da década de 80 derivada da desregulamentação dos setores elétricos de alguns países e a adoção de políticas de racionalização o uso de energia. 71 4. GESTÃO ESTRATÉGICA DE ENERGIA ELÉTRICA 4.1. INTRODUÇÃO Este capítulo pretende apresentar um raciocínio de coordenação da aplicação das informações e das ferramentas de análise descritas nos apêndices A a D, especificamente traduzindo a ação gerencial denominada de gestão estratégica de energia elétrica (GEEE). De início, será elaborado o conceito de GEEE, a partir de noções básicas presentes nos conteúdos da disciplina de administração, notadamente nas áreas de planejamento e estratégia. A seguir será explicado o modo de atuação da GEEE, envolvendo a definição de abordagem sistêmica entre os diversos enfoques até aqui verificados, contando também com uma revisão sucinta de métodos de análise de alternativas com vistas à tomada de decisões. Por fim serão comentadas virtuais potencialidades de otimização dos resultados empresariais dentro dessa visão sistêmica envolvendo a conservação de energia, o gerenciamento de carga, as análises tarifárias e de regras de fornecimento e a produção própria de energia ou sua composição com terceiros. 4.2. ELABORAÇÃO CONCEITUAL A palavra gestão invoca diretamente o conceito de administração, o que segundo Stoner e Freeman, (1999, p. 5) “é o processo de planejar, organizar, liderar e controlar os esforços realizados pelos membros de uma organização e o uso de todos os outros recursos organizacionais para alcançar os objetivos estabelecidos”. É de se esperar, portanto, que toda e qualquer organização, de acordo com suas finalidades, adote algum sistema de gestão a fim de coordenar seus esforços em direção à melhor eficiência de realização do objeto de sua existência. Organizações empresariais, por sua vez, são constituídas basicamente com finalidade de produzir e comercializar bens ou serviços, em geral buscando resultados econômicos de crescimento e lucro. Para tanto, a administração eficiente de seus recursos é condição fundamental para a melhoria de seus resultados, mormente sob o atual ambiente altamente desafiador em termos de competição, instabilidade e imprevisibilidade. 72 Essa característica do mundo empresarial subentende que as organizações estão constantemente sendo pressionadas a definir e adotar estratégias, tornando-se necessário posicionar-se perante essas mudanças, identificando suas ameaças e oportunidades no sentido de propiciar as chances de sucesso em seu negócio, vale dizer inovando e aperfeiçoando seus métodos de administração. Seguindo essa tendência do mundo dos negócios, mesmo o setor de infraestrutura de produção e comercialização de energia elétrica, tradicionalmente menos dinâmico em termos de mudanças institucionais, foi arremessado em um contexto de grandes transformações, a partir da aceitação cada vez mais predominante de que a energia elétrica pode ser tratada mais como uma commodity do que como um serviço (ver item 1 – Apêndice A). Uma tal dinamicidade vem sendo adquirida que realmente se pode identificar um “mercado de energia elétrica”, haja vista que o conjunto de atividades de compra e venda de energia elétrica ganhou uma complexidade muito grande em termos de agentes normatizadores, reguladores, produtores, distribuidores, comercializadores e consumidores de energia elétrica. Para esses últimos, em especial os de característica mais eletrointensiva, a energia elétrica e seu ambiente econômico-regulatório ganharam cada vez mais relevo, implicando em serem adicionados à pauta das decisões empresariais estratégicas da alta administração. Decisões estratégicas são aquelas consideradas vitais para a continuidade da organização. Dentre as diversas funções relacionadas à administração, o planejamento é sem dúvida, a fase crítica e a função inicial do administrador, em termos de se estabelecer com clareza os objetivos a serem alcançados e as linhas de ação que serão adotadas nesse intuito, através de critérios ligados à eficiência e à eficácia (STONER, FREEMAN, 1999, p. 136) 14 . Já o planejamento estratégico, diferentemente do planejamento convencional, pode ser entendido basicamente como um processo adaptativo contínuo, que permite à uma organização visualizar, preparar-se e agir em função de cenários de novos paradigmas do ambiente externo frente aos pontos fortes e fracos do ambiente interno da empresa. (PAGNONCELLI, VASCONCELLOS FILHO, 1992, pp. 8-17, 209-214; STONER, FREEMAN, 1999, pp. 133-178). 14 Para distinção dos conceitos, eficiência é a capacidade de melhora aproveitamento dos recursos (fazer mais com menos); e eficácia é a capacidade de tomar as decisões certas (maximizar resultados globais). 73 Por sua vez, a gestão ou administração estratégica é uma técnica administrativa originada mas também que evoluiu do conceito e da aplicação do planejamento estratégico nas organizações que enfrentaram o problema da sobrevivência em um ambiente econômico cada vez menos previsível. Ansoff e Hayes (1987, p.15-27), argumentam que, embora provendo as empresas de um arsenal analítico adequado para entender e preparar-se para agir quanto aos fatores externos à empresa, o planejamento estratégico não permitiu a flexibilidade de seu ambiente interno, necessária às estratégias tendo em vista mudanças cada vez mais acentuadas e rápidas por que passavam o meio externo e igualmente a configuração das forças internas à organização. Nesta linha de pensamento, Wright, Kroll e Parnell (2000, pp. 23-38), Pagnoncelli e Vasconcellos Filho (1992, p. 55; pp. 265-297) entendem o conceito de estratégia como a ação de explorar determinadas condições através da tomada de decisões racionais, considerando o ambiente e os objetivos da empresa, em que um conjunto de movimentos tenha por finalidade atingir resultados consistentes com os objetivos da empresa. Assim, a ascenção da abordagem da administração estratégica trouxe respostas, através de uma compreensão sistêmica, à dificuldade de avaliação das dimensões do problema estratégico, que ao planejamento pareciam preliminarmente solucionáveis, mas que devido à sua mutabilidade passaram a requer instrumentos tanto de percepção quanto de uma participação holística. Essa mutabilidade pode ser exemplificada, para o setor elétrico, pelas significativas mudanças em seu ambiente regulatório, a partir da década de 1990, que vieram a apresentar aos consumidores cenários de ameaças para os que não se adaptassem (como novas formas de cobrança da energia reativa, por exemplo) quanto oportunidades (consumidor livre ou autoprodutores) para os que delas se apercebessem. Tanto o planejamento quanto a administração estratégica trazem consigo a concepção de pensamento sistêmico, que é aquele que prega a convergência das análises em separados das partes, áreas ou funções de uma empresa ou para o estudo da complexidade organizada, considerando que a interação entre as mesmas e sua coordenação sinérgica podem resultar em ganhos de eficiência e eficácia muito mais expressivos (BERTALANFFY, 1975; CHURCHMAN, 1971, apud BAGATTOLI, 1995, pp. 5-7). 74 Dessa forma, as citadas dimensões do problema estratégico da empresa, representadas por Ansoff (1987, p.16), envolvem não só o processo de solução respondendo basicamente a fatores externos - o planejamento -, mas também o processo de implementação e controle respondendo também à configuração interna da empresa, tudo isso em meio a variáveis políticas, técnico-econômicas e psico-sociológicas. Nesse sentido, os temas relacionados à energia elétrica se perfilam no rol das informações técnico-econômicas de que a empresa deve dispor e manter em sintonia com suas vinculações externas. Tais variáveis, de acordo com o que enfatiza Radosevich (1987, p.173) devem ser apreciadas de forma a desenvolver as potencialidades organizacionais e administrativas, preocupando-se tanto com a eficiência quanto com a eficácia. Ora, energia elétrica representa sem sombra de dúvida uma variável que se encaixa nessa descrição, pois que a eficiência em sua obtenção (compra ou produção) e posterior utilização traz, em menor ou maior grau, impactos benéficos ao resultado econômico- financeiro da empresa. Logo, em decorrência dos entendimentos anteriores, a gestão de energia elétrica também pode ser vista como uma questão estratégica da empresa, pois energia trata-se de uma variável técnico-econômica da organização perfeitamente ajustável a um processo de administração estratégica, como denotam as etapas descritas por Wright, Kroll e Parne ll (2000, pp. 37-46) de: planejamento da empresa (formulação de estratégias de aquisição e utilização de energia, considerando as oportunidades e ameaças do ambiente externo); implementação das atividades da empresa (instalação e operação da planta empresarial, o ambiente interno, dentro de requisitos de eficiência e eficácia) e no controle destas atividades (gerenciamento do consumo e/ou da produção de energia). A GEEE, dentro desse raciocínio, pode ser descrita como uma prática técnicoadministrativa cont ínua e sistêmica, que a partir da análise dos ambientes interno e externo à organização, avalia potencialidades de projetos e atividades rotineiras, gerando alternativas e conduzindo soluções apropriadas à obtenção e à utilização da energia elétrica, buscando melhorar o resultado econômico-financeiro da empresa. 75 Figura 6 – GEEE em ação AMBIENTE EXTERNO AMBIENTE INTERNO Conservação de EE Regulamentos e normas Gerenciamento de carga Análise da legislação tarifária e de fornecimento Oportunidades de mercado Composição de alternativas de suprimento Fonte: Elaboração do próprio autor. 4.3. A ANÁLISE SISTÊMICA DOS ENFOQUES DE GESTÃO DE ENERGIA ELÉTRICA A perspectiva do consumidor, utilizando-se da GEEE, é de estabelecer ações voltadas basicamente à redução de custos e de aproveitamento de oportunidades. Voltando ao conceito de pensamento sistêmico, uma empresa pode ser vista como um conjunto de partes funcionado em direção a um objetivo comum. Essas partes ou áreas certamente são intercomunicantes mas muitas vezes não interagem, no sentido de estabelecer uma almejada sinergia. Em primeiro lugar, a análise ou o emprego dos enfoques de GEEE é sistêmica porque não se apega à tradiciona l estrutura departamentalizada por funções dentro da empresa, mas sim deriva em uma estrutura inovadora a que Menezes (2001, pp. 108-113) denomina de estrutura matricial, na qual várias áreas interagem em meio a um projeto15 comum, no caso a redução de custos e o aproveitamento de potenciais oportunidades de rendimentos com energia elétrica. 15 “um empreendimento único que deve apresentar um início e um fim claramente definidos e que, conduzido por pessoas possa atingir seus objetivos respeitando os parâmetros de prazo, custo e qualidade” (MENEZES, 2001, p. 43) 76 Nesse sentido, o departamento de manutenção de uma empresa, normalmente ligado às questões técnicas de energia elétrica deve estar em sintonia com as áreas contábil, financeira e administrativa. E mais, se a empresa quiser realmente empreender uma ação eficiente de um projeto nesse âmbito, deveria formar uma força tarefa (task force) interdepartamental, multidisciplinar e autônoma, para analisar, planejar e implementar as mudanças necessárias, com supervisão do próprio nível da alta administração da empresa, atuando como o gerente do projeto e como mantenedora do que Carvalho et al. (2003, p. 150) entendem como a política energética da empresa. Por outro lado, o marco conceitual da GEEE, visto anteriormente, toma um novo âmbito quando comparado aplicado às políticas e instrumentos empregados pela indústria de eletricidade. A GEEE é como que um espelho das ações que, do lado dos agentes do setor elétrico, compreendem o Planejamento Integrado de Recursos (JANNUZZI, SWISHER, 1997, pp. 7, 22-34; GOLDEMBERG, 1998, pp. 191-196; REIS et al., 2000, pp. 273-281) mas desta feita empreendidas pelo próprio consumidor que, conhecedor das regras legais e infralegais do setor elétrico, vai buscar integrar suas alternativas de possibilidades de aumento de eficiência energética (o equivalente ao GLD), com a análise das regras das políticas tarifárias e com geração de energia elétrica para uso próprio ou comercialização (o equivalente ao planejamento da Oferta). Assim, um projeto elaborado sob as diretrizes da GEEE pode se desdobrar em basicamente quatro subprojetos, os quais, importante também frisar, devem ser abordados também sob o escopo sistêmico: ??conservação de energia (eficiência de equipamentos e processos); ??gerenciamento de carga; ??análise da regulamentação contratual, tarifária e de fornecimento; ??composição técnico-econômica de fontes de energia elétrica. Obviamente, uma vez atingidos os objetivos propostos, o projeto dá origem a que Menezes (2001, pp. 27, 37-39) e IEEE (1996, p. 27) se referem como atividades rotineiras de controle, avaliação e administração, perfeitamente ajustáveis à GEEE. Pode-se imaginar 77 inclusive as áreas técnicas monitorando níveis de quantidade, qualidade e confiabilidade da energia elétrica e as administrativas a questão de custos, mas sem nunca perderem o elo de ligação da força tarefa, que pode voltar a ser acionada no surgimento de um novo projeto ou na readequação da situação existente. Por outro lado, a ordem dos subprojetos anteriormente relacionados tem sua razão de ser em virtude de uma lógica bem definida. Mesmo ocorrendo de forma interativa, os subprojetos subordinados à GEEE pressupõe uma certa ordem de implementação e de execução, partindo das medidas mais simples e de baixo custo em direção às mais caras e sofisticadas e que exigem o acompanhamento mais profissional, ancorado em estudos de análise de investimentos e de tomada de decisões. Ou seja, por exemplo, pode não ser plenamente eficaz trabalhar-se na questão tarifária sem ter previsto ou analisado ou implementado condições de gerenciamento de carga e sem antes ter visto como melhorar a eficiência de máquinas e processos. Na ordem disposta anteriormente, os passos preliminares correspondem à conservação e eficiência no uso de energia elétrica, fartamente abordada em publicações de entidades empresariais e do setor elétrico e que pode ser, em seu nível mais básico, a simples percepção de que energia elétrica tem um custo relacionado ao seu consumo e que é possível sua redução sem perdas de eficiência na produção da empresa. Existem hoje uma série de possibilidades de redução e racionalização do consumo de energia, relacionadas ao uso de equipamentos e processos mais econômicos em organizações industriais, comerciais e de serviços. As ações acima descritas, conquanto presentes nas diretrizes do GLD (item 3.4.1) e serem de grande importância, não estão sendo abordadas com profundidade nesse trabalho, pois que são de natureza bastante prática e tecno lógica, relacionadas principalmente aos uso finais da energia elétrica, fundamentalmente amparadas em modelos de diagnósticos energéticos voltados à conservação e ao uso racional de energia (CARVALHO et al., 2003, pp. 146-148). Concomitante a esse passo inicial é a empresa procurar conhecer o mínimo de seus direitos e deveres como consumidor, as regras básicas pelas quais lhe é cobrada a energia 78 elétrica e aquelas relacionadas aos padrões de continuidade e qualidade definidos pela legislação (CRESTANI, 2000, pp. 30-49; GARCEZ, 1990, pp. 43-45) Por outro lado, partindo de que já estão tomadas as providências anteriores, vamos nos concentrar em contextualizar e ampliar o conteúdo apresentado nos apêndices B, C e D, exemplificando as ações e os aspectos técnico-econômicos do gerenciamento de carga, análise da legislação e composição de fontes. 4.3.1. Análise de alternativas. O consumidor empresarial de energia elétrica, ao aplicar a GEEE, vai se deparar com uma série de propostas e alternativas, sendo que, dentro da visão de seu negócio, é natural que sua abordagem sempre esteja quase sempre sob os limites da análise econômico- financeira de seu empreendimento. Mesmo programas institucionais de conservação de energia, de viés assumidamente ambiental, são amparados por fundamentos de análise econômica (JANNUZZI, SWISHER, 1997, p. 222). Análise, decisão, implementação e controle de projetos em um ambiente que envolve investimentos, custos e resultados em um ambiente de recursos cada vez mais escassos, o que pode inibir os tomadores de decisão a se lançarem em novas iniciativas sob a argumentação de que “por enquanto está bom ou não é um problema relevante”. Nesse ponto, as questões relacionadas ao consumo de energia elétrica podem assumir uma dimensão mais ou menos importante, na medida em que a empresa tem condições ou interesse em focalizar o assunto e dele extrair resultados, ciente porém que sempre estarão diante de análises envolvendo riscos, custos e benefícios. Assim, uma vez determinado a seguir esse caminho, o consumidor deve definir uma sistemática de análise de alternativas e tomada de decisão, compreendendo os níveis técnico e econômico, evitando o comportamento adotado por muitos administradores, cujas decisões são tomadas com base em palpites, opiniões leigas ou ainda influenciadas por campanhas de marketing. Essa situação pode ser evitada desde que se traga ao processo de decisão empresarial um modelo de estudo que traduza as variáveis técnico-econômicas envolvidas em propostas 79 formuladas em uma mesma base de unidade monetária e temporal (CLEMENTINO, 2001, pp. 59-78). A escolha entre alternativas, tendo por variável comum a de cunho monetário, revela o conhecimento de que normalmente as melhores alternativas técnicas quase sempre são as menos viáveis economicamente. Por outro lado, escolhas intuitivas voltadas à alternativas mais baratas podem compreender limitações tecnológicas desastrosas para a eficiência e a eficácia dos processos empresariais (GRANT, IRESON, 1960, pp. 3-15, 35-54). Daí que, no caso de questões ligadas ao consumo e à produção de energia elétrica, é vital um posicionamento tecnicamente adequado aliado à verificação da viabilidade econômica de investimentos em, por exemplo, reestruturação de processos, readequação de ambientes, aquisição e substituição de equipamentos, contratação de consultoria ou de agente comercializador ou mesmo de um treinamento em contratos e tarifação de energia elétrica. Mesmo não sendo foco, neste trabalho, uma revisão bibliográfica sobre análise de investimentos, fica aqui registrada a importância de sua compreensão nos procedimentos de geração de alternativas e posterior tomada de decisão. O investimento, nos dizeres de Holanda (1983, p. 95) “é um comprometimento de recursos realizado com o objetivo e a esperança de obtenção de benefícios futuros, durante um período razoável de tempo”. Nesse sentido, a completa análise de um investimento compreende um projeto de ordenação do conjunto de informações sobre o problema, estimando seus custos e benefícios, ou seja as vantagens e desvantagens de utilizar recursos em novos empreendimentos, na ampliação ou na melhoria dos existentes. Traduzindo em termos da GEEE, é necessária a averiguação de qual o benefício atrelado ao custo de se estudar, modificar ou adquirir. Parece sensato afirmar, por exemplo, que para uma empresa de pequeno porte, o custo de se propor ações de racionalização do consumo de energia elétrica e de análise de seus contratos será plenamente suplantado pelas vantagens econômicas que advirão (CARVALHO et al., 2003, p. 148). No entanto, essa mesma pequena empresa talvez não deva se envolver com um empreendimento de geração de energia elétrica, em virtude da falta de condições práticas de caixa, endividamento ou de estrutura física (pessoal e material). Grant e Ireson (1960, pp. 77-158), IEEE (1996, pp. 41-54), Menezes (2001, pp. 4861), SECRETARIA DE ENERGIA-SP (2001, pp. 34-40) elencam e explicam alguns dos principais mecanismos de seleção de alternativas, basicamente sendo aqueles relacionados 80 com as técnicas de engenharia econômica como custo de oportunidade, valor presente, fluxo de caixa descontados ou taxa interna de retorno, que podem (e às vezes devem) ser complementados por outras análises estratégicas e operacionais. A propósito, vale aqui transcrever a seqüência de passos em um estudo econômico, formulada por Grant e Ireson (1960, pp. 197-198): ?? ?? ?? ?? ?? ?? O reconhecimento do problema que está requerendo o estudo; A identificação das possíveis alternativas a serem comparadas, assim como estimativas preliminares em relação à diferenças expressas em termos monetários, entre receitas e despesas, em datas específicas; A análise das estimativas preliminares para determinar quais justificarão gastos em aprofundamento dos estudos; O exame detalhado das alternativas selecionadas a fim de se estimar as diferenças entre os fatores monetários e não-monetários, assim como despesas e receitas no decorrer do tempo. Determinação da taxa de interesse ou de atratividade de retorno e os cálculos dos custos uniformes anuais, do valor presente e da taxa interna de retorno, exprimindo as séries monetárias em bases comparáveis; A escolha entre as alternativas, considerando a comparação financeira e também as diferenças que não foram reduzidas a termos monetários. Como visto na relação precedente, é perfeitamente possível a agregação de critérios não- monetários, simbolizando então um método multi-critério de análise de alternativas, usualmente bastante empregado (MENEZES, 2001, pp. 54-59). Pode-se colocar como exemplo a inclusão de impactos sócio-ambientais ou sociais em empreendimentos de geração de energia elétrica pelos consumidores, no que se refere à poluição ambiental, do ar ou mesmo sonora, que pode ser produzida por um grupo gerador, ou ainda a opção estratégica de se ter o gerador à disposição para enfrentar possíveis cortes de energia. Com efeito, projetos elaborados no âmbito da GEEE apresentam reflexos da diversidade e da complexidade das variáveis envolvidas, relacionadas a aspectos de engenharia, econômicos, ambientais, financeiros, administrativos e legais, intrínsecos à empresa mas também subordinados ao ambiente externo, de interação com o setor elétrico. Tal complexidade de fatores, incluindo os não- monetários e até mesmo intangíveis, mormente os ligados às questões sócio-ambientais, estão presentes na abordagem efetuada por Bramont (1996, pp. 33, 103) cuja discussão envolve metodologias que quantificam e valoram o maior número possível de custos e benefícios, externalidade positivas e negativas, para fins de consideração como critérios de desempate, o que remeteria ao nível de responsabilidade social e ambiental da empresa. 81 Obviamente, a construção de um tal compromisso organizacional depende, em um grau bastante apreciável, do suporte de políticas econômicas, sociais e ambientais em nível governamental, que valorizem tal postura e desenvolvam um ambiente propício para a disseminação cultural desse comportamento. 4.3.2. Eficiência energética de equipamentos e processos Como comentado, a melhoria da eficiência de equipamentos e processos é o passo preliminar mas também permanente na GEEE, pois que a cada nova implementação haverão reflexos nas análises dos subprojetos seguintes. Em sendo bastante diversificada e aprofundada a lista de metodologias e aspectos tecnológicos e econômicos, optou-se por reproduzir (não estensivamente) algumas ações mais comuns encontradas em publicações diversas, cujos resultados em termos de viabilidade econômica são substanciais e de curto prazo de retorno do investimento (FRANCELLINO, 2003, p.71). Na maioria das empresas, inclusive as de pequeno porte, fica bastante atraente a instituição de uma Comissão Interna de Conservação de Energia - CICE, (CNI, 1989, p. 8-11; CARVALHO et al., 2003, p. 155; PROCEL, [sd.], 65-78), a qual será a gestora de programas de controle envolvendo o dimensionamento, a operação e a manutenção de equipamentos da empresa. Assim, pode-se citar as seguintes medidas (CELESC , [sd], pp. 70-71; CNI, 1989, pp. 7-14; SECRETARIA DE ENERGIA-SP, 2001, pp. 4; CARVALHO et al., 2003, pp. 146154; GARCEZ et al., 1990, pp. 43-48, 46-50; PROCEL, [s.d.], pp. 19-71; MAMEDE, 1988, pp. 51-55; SAIDEL et al., 2001, pp. 214-221, 230-232): ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? Ênfase em projetos arquitetônicos que privilegiem a conservação de energia; Aproveitamento máximo da iluminação natural; Melhoramento de isolamentos térmicos; Otimização de sistemas de produção de calor e de frio; Dimensionamento adequado de instalações elétricas; Balanceamento das fases de todas as cargas; Criação de programas de manutenção preventiva e preditiva equipamentos elétricos, contatos e conexões; Elaboração de campanhas de conservação de energia; Verificação da voltagem (nível de tensão) e condições dos equipamentos e das instalações elétricas, sabendo que maiores níveis de tensão reduzem as perdas joule; Remoção de unidades de carga das instalações elétricas que estão fora de uso ou ineficientes e ultrapassadas 82 ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? Dimensionamento correto de motores, transformadores e capacitores; Aquisição de motores, transformadores e outros equipamentos de preferência de alta eficiência; Aproveitamento máximo da gravidade no movimento de matérias primas; Dimensionamento correto do sistema de armazenagem e bombeamento de água e ar-comprimido; Utilização de sistemas de iluminação eficientes (luminárias de descarga); Retirada do exc esso de luminárias em escritórios, hall e depósitos, instalando sensores de presença para acionamento; Controle de níveis de iluminação; Instalação de foto-células na iluminação externa; Controle de termostatos de fornos, aquecedores e de condicionadores de ar; Controle da operação e temporização de sistemas de informática 16 . 4.3.3. Gerenciamento de carga, tarifação e fornecimento de energia elétrica O gerenciamento de carga na empresa (Apêndice B) vai se ater especificamente em métodos de leitura, controle e adequação do comportamento da carga ou demanda de suas instalações. Com efeito, tanto a empresa sendo atendida pela concessionária ou por geração própria, o uso de energia e potência elétricas ativas (kWh e kW) e reativas (kVarh e kVar), o fator de carga e o fator de potência são itens onerosos que podem ser controlados ou gerenciados (IEEE, 1996, p. 75) e vinculados às disposições legais de fornecimento e faturamento de energia elétrica. As mesmas aplicações da curva de carga (item 4 do Apêndice B) de que se utiliza o setor elétrico podem ser praticadas pelas empresas quanto ao reconhecimento gráfico do comportamento de consumo ativo e reativo, assim como dos pontos ou informações mais importantes da curva como as demandas máximas e mínimas, as demandas contratadas, a demanda média e a energia consumida, em cada segmento horo-sazonal. Sobre a curva de carga conhecida, pode-se igualmente traçar as metas de redução de consumo e de demanda, os deslocamentos de carga e ainda a distribuição da energia comprada ou auto-produzida. Dessa forma, um sistema adequado de gerenciamento de carga pode oferecer importantes economias, tanto pela redução dos custos com energia, quanto pela possibilidade de aumentar a produção sem o correspondente aumento do consumo de energia. 16 Vide Saidel e Alvarez (1997, pp. 70-79), “Potencial de conservação de energia em computadores pessoais”. 83 Nesse sentido, é desejável que as ações de melhoria na eficiência dos usos finais de energia (conservação) sejam preliminarmente adotadas, para que não haja uma sobreposição indesejável de métodos. Por exemplo, se a empresa resolve trocar seu sistema de refrigeração por outro mais eficiente, a essa ação estarão relacionadas conseqüências na forma das curvas de carga ativa e reativa, da demanda máxima e da energia consumida e portanto implicando em possíveis alterações nas questões relativas às obrigações junto aos fornecedores de energia elétrica. Sem uma adequada análise, a empresa poderia, por exemplo, reduzir sua demanda máxima mas continuar a pagar por uma demanda contratada anteriormente já definida. Em verdade, o fato é que as ações de gerenciamento de carga devem ter como origem a capacidade de a empresa compreender como são apresentados e apurados os valores da sua conta de energia, o que significa ter condições de analisar o quantum advindo de cada item da fatura de energia elétrica, através do conhecimento preciso das regras dispostas na legislação, e poder posteriormente acompanhar os resultados. Nesse assunto, Garcez et al (1990, p. 43) fazem referência à obtenção de um “potencial de economia médio mensal” a partir do tratamento dado aos valores desembolsados mensalmente pela empresa em suas contas de energia. Assim, se por um lado para o consumidor do grupo B a análise de sua conta de energia possa se resumir a um simples acompanhamento mensal do consumo de energia elétrica, para o consumidor do grupo A aumentam bastante a complexidade e as possibilidades de gerenciamento (SECRETARIA DE ENERGIA-SP, 2001, p. 21), que se manifestam não só durante a operação normal da empresa mas desde as etapas de implantação ou ampliação de suas instalações. 4.3.3.1. Projeto elétrico e pedido de carga Em um primeiro momento, a empresa que está implantando seu parque fabril ou expandindo o existente, efetua um projeto elétrico de dimensionamento das instalações de conexão e de distribuição internas da energia elétrica. 84 É certo que mesmo as concessionárias de distribuição já divulgam orientações no sentido de que os projetos elétricos de instalação devem sempre procurar economia na utilização de energia elétrica (CELESC, [sd], pp. 68-71). Nessa etapa, fatores de demanda muito baixos 17 ou ainda a aplicação incorreta (ou não aplicação) do fator de diversidade (item 3 do APÊNDICE B) são indicativos de falta de planejamento adequado sobre a expansão futura dos negócios ou ainda de uma debilidade técnica do projetista, implicando em investimentos desnecessários em suas instalações elétricas 18 e o conseqüente comprometimento do fluxo de caixa no curto prazo. Mas as conseqüências não se encerram aí. Quando a empresa solicita uma nova ligação ou ainda a ampliação da sua carga para a concessionária, o levantamento de sua carga instalada vai ser condicionante de sua classificação perante a concessionária (item 3.1 do APÊNDICE C). Nesse sentido, a classificação do consumidor pode eventualmente exigir seu enquadramento compulsório no grupo A, o que obrigatoriamente abriga a cobrança da demanda (máxima) (item 3.2.2 do APÊNDICE C) atingida no período de faturamento, de medição permanente de reativos (item 4.5 do APÊNDICE C) e do pagamento por perdas de transformação (item 4.6 do APÊNDICE C). Nesse caso ainda, o consumidor terá a necessidade de estabelecer algum método de controle da demanda medida sob pena de incorrer em penalidades por ultrapassagem da demanda contratada (item 4.4 do APÊNDICE C). Por isso que, nas situações que envolvam pequenas empresas, é de se imaginar a vantagem de se evitar tais custos e riscos, por meio da elaboração de um projeto de dimensionamento preciso, situando a carga instalada de projeto em um patamar igual ou inferior a 75 kW, ou, na impossibilidade, que pelo menos fique dentro de uma capacidade de transformação de 112,5 kVA, para franquear à empresa o estudo e a opção pela tarifação monômia (item 3.2.3 do APÊNDICE C), aplicável ao consumidor do grupo B. Tanto quanto a alternativa comentada acima, as outras possibilidades de mudança de grupo tarifário do grupo A para o grupo B podem ser vantajosas na medida em que o 17 Lembrando o item 2 do APÊNDICE B: “nem toda a carga instalada é necessariamente completamente usada (Dmáx)...” 18 Muito comum o sobredimensionamento de equipamentos de entrada e transformadores, cujas capacidades não chegam a ser plenamente utilizadas durante sua vida útil. 85 consumidor tenha ou não condições de gestão de seu consumo e de sua demanda de energia elétrica, ou que realize uma análise econômico- financeira apropriada. É possível inclusive determinar o fator de carga a partir do qual é vantajosa a opção pelo faturamento monômio, através de uma inequação que compare o faturamento monômio com o binômio do grupo A. Por outro lado, ao não pagar pela demanda, o consumidor do grupo A que optou pelo faturamento do grupo B, vai pagar pela energia consumida um valor bem maior do que se estivesse sendo tarifado no grupo A (vide anexos 2 e 3). Além disso, ao consumidor do grupo A torna-se vantajosa a autorização que o art. 8º da Res. ANEEL 456/2000 lhe dá de pleitear uma tensão de fornecimento superior àquela definida pelo art. 6º, o que lhe conferiria o direito de ser cobrado por intermédio de tarifas bem mais econômicas (item 3.1.2 do APÊNDICE C). Essa faculdade, porquanto vantajosa mesmo em função de o consumidor ter que assumir os investimentos necessários, não é de simples consecução, pois que depende da anuência técnica da concessionária do sistema distribuidor ou transmissor da região. Aliás, o desconhecimento das condições técnicas da rede da concessionária pode trazer infortúnios à empresa em casos de, por exemplo, pedir ligação de energia sem se informar da disponibilidade de potência instalada naquela região, o que a tornaria refém de aguardar investimentos da concessionária ou bancá-los por conta própria. Outra situação bastante plausível é o investimento da empresa em trocar seu maquinário por aparelhos por mais sofisticados que, embora mais econômicos, não suportam as flutuações de tensão normatizadas pela legislação brasileira. Como se vê, as situações acima descritas dão a noção da importância de a empresa ter o conhecimento básico sobre a regulamentação do fornecimento de energia elétrica, que ainda vai influenciar várias situações no decorrer de suas atividades. 4.3.3.2. Gestão dos itens submetidos à obrigações contratuais e tributárias A contratação de energia elétrica pode ser assunto da mais alta relevância estratégica para o consumidor, mas nem sempre é levada nesta conta. Muitos ainda a consideram como mais uma etapa do rol de formalidades junto à obtenção dos serviços de fornecimento de 86 energia elétrica, sem atinarem para as conseqüências legais que se impõe através daquele instrumento. O fato de o consumidor do grupo A estabelecer uma relação contratual com a concessionária ou com outro fornecedor 19 , com cláusulas especificas para a demanda e/ou para a energia, implica que é altamente recomendável que o mesmo tome providências para não incorrer no pagamento de ultrapassagens ou de valores estabelecidos pelo mercado ou ainda de pagar valores contratados sem estarem sendo usados, atuando ou terceirizando em uma área denominada por Carvalho et al. (2003, p. 146) de “serviços de gestão de contratos de energia”. Quando a demanda medida estiver quase sempre implicando em ultrapassagem da demanda contratada, é recomendável ao consumidor buscar reduzir cargas e otimizar a operação de seus equipamentos elétricos20 . Por outro lado, nos casos em que, sistematicamente a demanda faturada é maior do que a medida, seria interessante rever os níveis de contratação, buscando inclusive ajustar o contrato de demanda (SECRETARIA DE ENERGIA-SP, 2001, p. 22). Em princípio, deve ser conhecida a curva de carga da instalação (PROCEL, 2001, pp. 23-27) para que se possa identificar os horários e os setores que contribuem para a demanda medida. Para tanto, é interessante também providenciar o levantamento de todas as cargas instaladas e seus respectivos horários de funcionamento, construindo uma tabela representativa semelhante a um gráfico de Gantt (CELESC, 1981, pp. 18-19). As ações mais comuns de redução da demanda medida e por consegüinte propiciando a redução da demanda contratada, são eminentemente relacionadas ao gerenciamento de carga, mas também se confundem com a conservação- uso eficiente de energia, sendo a lista abaixo complementar àquela descrita no item 4.3.2 (CELESC, [s.d.], pp. 70-71, CELESC, 1981, pp. 16-17): ?? ?? ?? ?? ?? ?? 19 Desligar equipamentos ociosos; Escalonar a partida de máquinas quando possível; Instalação de temporizadores em máquinas para evitar sua ociosidade; Programar cargas arbitrárias para fora dos picos de demanda; Evitar programar cargas elétrica desnecessariamente ao mesmo tempo; Evitar motores sem chaves compensadoras de partida ou ainda defeituosas; Ver item 5.1 do APÊNDICE C, lembrando que o contrato de energia pode ser com outro fornecedor, mas o contrato de demanda permanece com a concessionária local, sob a forma do CUSD. 20 Trata-se da conservação de energia (item 4.3.2) e do gerenciamento de carga (APÊNDICE B). 87 ?? ?? ?? Evitar partidas simultâneas de motores, influência na integração do período de demanda; Evitar o superdimensionamento de dispositivos de proteção, permitindo que altas correntes de curto-circuito possam permanecer por períodos prolongados; Evitar fugas de corrente, através de uma boa manutenção em isolamento. Mesmo tomando as precauções citadas, é possível um controle mais direto da demanda e por conseqüência da energia a ela associada, de acordo com CELESC ([sd], pp. 68-71), consistindo em fixá- la em um determinado valor e determinar quais as cargas, em que seqüência e por quanto tempo poderão ser desligadas manual ou automaticamente a fim de manter o teto estipulado na contratação. Existem vários métodos de controle, entre eles: ??o intertravamento de cargas, que pode impedir o acionamento simultâneo; ??limitações por sensores de corrente elétrica e ainda controladores eletrônicos de demanda, que comparam a cada instante com um valor pré-ficado, efetuando o desligamento de cargas conforme uma ordem de prioridade pré-estabelecida; ?? controle informatizado através de softwares específicos que além de ligar e desligar cargas, monitoram e mostram continuamente a curva de carga, tempos de desligamento e outras funções que visam dar o total suporte às atividades de produção 21 . Todos os procedimentos e métodos acima relacionados devem ser planejados com a antecedência necessária ao cumprimento dos prazos regulamentares exigidos pela Resolução ANEEL 456/2000, no que concerne à revisão contratual (item 3.4 do APÊNDICE C), pois não existe previsão legal de obrigar a concessionária à redução imediata da demanda contratada. Para se definir um novo patamar de demanda contratada, sabendo que as demandas medidas são de certa forma bastante variadas, a empresa pode lançar mão de um controle mais severo sobre suas cargas, adentrando ao próprio percentual de tolerância (item 4.4 do APÊNDICE C) incorporado à sua demanda estimada. Assim, por exemplo, se um consumidor A4 projetar uma demanda de 110 kW, poderá contratar apenas 100 kW apoiando-se no acompanhamento, manua l ou automático, ou no corte de cargas desnecessárias, para evitar que a demanda passe dos 110 kW e evitando a ultrapassagem. 21 Exemplo afim pode ser encontrado em Almeida e Oliveira (2003, pp. 196-217). 88 O contrato mais “enxuto” pode propiciar importantes economias, pois mesmo que eventualmente haja uma ultrapassagem, no cômputo de um período maior não traria maiores perdas. Dessa forma a empresa gerencia duas variáveis: a tolerância e a ultrapassagem eventual. Com relação aos contratos de compra de energia, atualmente mais relacionados aos consumidores livres (item 5.1 do APÊNDICE C) mas que brevemente serão estendidos a todos os consumidores do grupo A (item 4.2.4 do APÊNDICE C), o ponto contratual a ser gerenciado é justamente o consumo, pois que para sua ultrapassagem não existe uma penalidade fixa e sim o menor valor entre o preço médio de mercado e o valor normativo destinado àquela concessionária (item 2.2 do APÊNDICE C). O controle sobre o consumo de energia, porquanto tenha ações de redução mais afeitas ao aproveitamento máximo de oportunidades de racionalização e eficiência em equipamentos e processos (BJÖRK; KARLSSON, 1985, p. 2060-2062; item 4.3.2), se utiliza do ferramental técnico- matemático de gerenciamento de carga, bastante útil em se tratando do controle das cargas (normalmente de aquecimento e refrigeração) em função de horários préestabelecidos (os períodos diários das tarifas horosazonais – vide item 4.3.3.5), por exemplo: ??Na indústria têxtil, vapor e água quente podem ser acumulados durante o período fora de ponta – onde o custo da energia é menor - para serem utilizados durante a ponta sem então requerer mais energia da concessionária; ??Na indústria cristaleira, pode-se alterar o diagrama de carga para derreter a matéria prima do cristal nos horários em que a energia e a demanda são mais baratos; ??Em conjuntos comerciais, entram em operação máquinas de fabricação de gelo, para posterior insuflamento de ar frio durante o horário de ponta; ??Em padarias, a ligação e o desligamento dos fornos podem ser feitas aproveitandose da inércia térmica ao mesmo tempo em que se desligam os restantes de cargas; ??Empresas que podem automatizar parte de sua produção podem transferí- la para o período da madrugada, com um pequeno acréscimo no custo da mão-de-obra, mas saindo do período em que a energia é mais cara. Na questão tributária (item 4.7 do APÊNDICE C), pode-se verificar que, em função das alíquotas praticadas, é de se concordar com Fernandes Filho (2001, p. 180), quando o 89 mesmo afirma ser o ICMS (imposto sobre circulação de mercadorias e serviços) uma parcela considerável das faturas de energia elétrica. No entanto, a sistemática legal de apuração do ICMS 22 permite que consumidores industriais possam recuperar parte dos valores pagos do tributo relacionado à energia elétrica, ao tratá- la como qualquer outro insumo gerador de créditos. Utilizando-se de um percentual estabelecido em legislação, que destina ao setor de produção geralmente 80% do consumo total ou ainda um percentual maior, mediante um laudo emitido por engenheiro habilitado devidamente homologado pela concessionária, a empresa pode levar ao cômputo do saldo a pagar de ICMS os valores pagos na fatura e inclusive utilizar estes créditos para abater futuras contas de energia elétrica. Um outro aspecto que merece ser abordado, é aquele que segundo Ganim (2003, pp. 209-211) envolve decisões judiciais, impetradas por alguns consumidores, que conseguiram se isentar judicialmente do pagamento do ICMS sobre a parcela referente à demanda. Esse entendimento, porquanto entendido como errôneo pelo autor, parece ser fruto do desconhecimento dos fundamentos tarifários, em especial da tarifa binômia, pelos magistrados que julgaram tais ações e que talvez não prospere em futuras lides. 4.3.3.3. O gerenciamento do fator de carga Os procedimentos anteriormente comentados de gestão da demanda medid a e da demanda contratada trazem plenas condições de se incorporar o estudo da melhoria do fator de carga da instalação. Acompanhando o conteúdo do item 5 do Apêndice B, verifica-se que as ações tendentes a melhorar (aumentar) o fator de carga têm como base a redução do preço médio da energia 23 pagos pelo consumidor do grupo A. 22 O ICMS, por ser um imposto não-cumulativo, permite que a empresa diminua do valor a ser pago pela saída de seus produtos, o valor já pago na entrada das matérias primas. 23 No citado item foi colocada a equação que calcula o preço médio em função do Fc de um consumidor convencional. Para o consumidor horosazonal a equação se expande (JANNUZZY, 1997, p. 167): Pm ? Onde: Dp ? TDp ? TDfp 664 ? TCp x Fcp ? ? ? TCfp x Fcfp x ? Dfp ? 66 66 66 ? Dp 664 x Fcp ? Fcfp x Dfp 66 90 Por sinal, projetos envolvendo a melhoria do fator de carga e redução do preço médio também devem partir do conhecimento preciso do fator de carga atual e dos custos relacionados às ações de aumentá- lo (aquisições, modificações) dentro das limitações técnicas e financeiras da empresa e do conhecimento da redução de ganhos significativos a partir de determinado nível de fator de carga (vide figura 18 - Apêndice B). Também é interessante a lembrança de que podem ser adotadas duas visões da demanda (itens 2 Apêndice B e 4.3 do APÊNDICE C): a demanda faturável, que se relacionará diretamente com o faturamento e o preço médio, e a demanda medida que será então espelho do perfil técnico de utilização da energia elétrica pelo consumidor (SECRETARIA DE ENERGIA-SP, 2001, p. 24). Sobre a situação que envolva o aumento do consumo de energia (aumento nos valores relacionados aos kWh consumidos) implicando em aumento do fator de carga, deve ser visto sob a ótica das informações sobre a ociosidade da planta industrial, o que pode ser viável para uma análise de otimização do ativo imobilizado em máquinas e equipamentos. Considerando que o ativo imobilizado gera gastos com sua manutenção, o aumento das vendas e da produção, ao aumentar o consumo de energia, implicará um do fator de carga que não terá como resultado diminuição da conta de energia elétrica, mas pode sinalizar à empresa uma melhoria em termos de ocupação de seu capital. Mas, seguindo esse raciocínio, a conta de energia elétrica pode ser efetivamente reduzida quando a empresa identifica quais equipamentos estão operando com baixos fatores de carga e, caso existam outros em operação, reduz o número (por desativação ou venda), para aumentar o fator de carga dos remanescentes (redução de Dmáx). Outra forma de melhoria do fator de carga é a seleção e reprogramação de cargas, considerando o deslocamento do horário de ponta (fugindo das tarifas mais caras) e aumentando a diversidade entre elas, evitando a sobreposição de demandas máximas individuais (GARCEZ et al., 1990, p. 44). Para reprogramar cargas, é necessário primeiramente o conhecimento da curva de carga original e a elaboração da nova curva de carga pretendida para fins de acompanhamento p e fp = ponta e fora de ponta, respectivamente. Pm = preço médio de energia [...] 66 = n. Horas mês na ponta 91 posterior. Em seguida, distribui-se as demandas individuais, pelo deslocamento horário de processos, aumentando a diversidade entre as demandas de setores e equipamentos. 4.3.3.4. O gerenciamento do fator de potência O fator de potência, como visto no item 6 do Apênd ice B, identifica e dá a noção para a empresa de eventuais cobranças por excedentes de reativo, os quais se traduzem em uma redução da capacidade de disponibilização de energia e potências ativas pelo sistema elétrico. Por isso, publicações técnicas (CELESC , [sd], pp. 70; SECRETARIA DE ENERGIA-SP, 2001, pp. 15-17; PROCEL, 2001, pp. 12, 23) enfatizam ser o fator de potência um dos principais itens relacionados à utilização racional de energia. A partir de 1993, com mudanças na filosofia de medição e cobrança (item 4.5 do APÊNDICE C), tanto a demanda quanto a energia reativas excedentes são verificadas em períodos horários, o que implica em maiores cuidados por parte do consumidor, inclusive nos períodos em que a medição registra excedentes capacitivos. É fato que há muito tempo existem consumidores de energia elétrica inadvertidamente pagando valores referentes aos excedentes : “Pesquisa junto à concessionária revela que os consumidores de Santa Catarina pagam, anualmente, aproximadamente 6 milhões de reais de multa por fator de potência abaixo do limite definido pela legislação. Este valor poderia ser utilizado pelos consumidores para melhorias de seus processos de produção e comercialização, aumentando a produtividade e a qualidade de produtos e serviços e, com isso, a competitividade junto ao mercado globalizado, condição fundamental para o desempenho da economia nacional” (BAGATTOLI, 1997, p. 2A) A propósito, o controle do fator de potência é uma tarefa que também interage com as questões de conservação de energia, gerenciamento de carga, de tarifação e fornecimento de energia elétrica e de auto-produção. Na questão regulamentar e tarifária, é indispensável que o consumidor possa reconhecer os componentes da fatura de energia elétrica, para identificar se lhe está sendo cobrado algum valor relativo a ajustes de excedente de reativo. Em seguida, entendendo a forma de cobrança dos excedentes de reativo relacionada aos valores cobrados na fatura de 92 energia elétrica, pode identificar as causas e apurar os montantes de kVar e kVarh24 que devem ser adicionados ao seu sistema elétrico. Se no entanto o problema for generalizado, deve ser realizada a análise de viabilidade econômica do investimento de se adquirir um sistema centralizado de controle e injeção de reativos, seja por bancos de capacitores ou por meio de motores/geradores síncronos. Adentra-se, assim, no âmbito da conservação de energia e no gerenciamento de carga, utilizando-se de todas as ferramentas de controle antes mencionadas, o que não implica necessariamente em grandes dispêndios, pois, tendo visualizada a curva de carga reativa 25 , pode-se determinar a(s) causa(s) específica(s) do excedente, corrigindo-a(s), que seria o caso de um equipamento cujas características construtivas impliquem em um baixo fator de potência, ou ainda operando a vazio ou subaproveitado. Resolve-se então o problema utilizando-se equipamentos com fator de potência adequados à legislação (> 0,92) ou ainda otimizando as condições de operação com potência mais próxima à nominal, ou ainda corrigindo isoladamente in loco para cada conjunto de cargas com esse problema (SECRETARIA DE ENERGIA-SP, 2001, p. 16). Quanto à viabilidade financeira dos investimentos, em geral, de acordo com Carvalho et al. (2003, p. 154), apresenta tempos de retorno de seis a dez meses, o que parece ser razoavelmente atrativo fora de uma visão imediatista. Com relação ao enquadramento tarifário, o consumidor que estiver em processo de decisão sobre a opção pelas diversas modalidades (vide próximo item), deve atentar para o fato de que cada modalidade tem sua regra de medição e faturamento de excedentes de reativo (GARCEZ et al, 1990, p. 44). 26 No caso monômio, inclusive, ainda que seja permitido pela legislação a medição e cobrança de excedentes de reativo, são raras essas iniciativas por parte das concessionárias. Assim, fica o mesmo dispensado de promover controles sobre o horário de medição 24 Além das fórmulas matemáticas, tabelas específicas já existem para esse fim (SECRETARIA DE ENERGIASP, 2001, p. 18) 25 Ideal para as empresas com medição de excedente reativo horária, já que não e possível essa visualização diretamente na fatura (ver item 4.5.3 do APÊNDICE C) 26 Atualmente, para o enquadramento convencional, ao contrário do horosazonal, a maioria das concessionárias não têm ainda os equipamentos apropriados para a medição horária, prevalecendo a média mensal. 93 capacitiva (convencional grupo A) e, para o monômio é praticamente dispensado de se preocupar com o fator de potência. Na questão da auto-produção, o fator de potência pode ser monitorado e corrigido a partir da própria geração do consumidor, pelo controle da injeção de reativos por parte da máquina síncrona geradora, eliminando a necessidade de aquisição de bancos de capacitores (OLIVEIRA, 1999, p. 115). 4.3.3.5. Análise de enquadramento tarifário Outro estudo de grande importância é aquele relacionado à opção tarifária adequada à efetiva operação da empresa, cujos resultados são efetivamente potencializados após as ações de conservação de energia, gerenciamento de carga ativa e reativa e de análise s contratuais (PROCEL, 2001, pp. 13, 28; OLIVEIRA, 1999, pp. 112-120). Em se tratando de uma empresa do grupo A, as estruturas tarifárias existentes no Brasil dão a oportunidade da opção entre as modalidades convencional e horosazonal, que vai se refletir na celebração de contratos de demanda e/ou de energia 27 . Porém, deve haver cuidado na análise pois a estrutura horosazonal implica em pagar consumo e demanda de acordo com regras e valores diferentes, exigindo uma análise mais acurada quanto ao comportamento de utilização da energia elétrica (ativa e reativa) em função do horário (item 3.3.2 do APÊNDICE C). A comparação entre as modalidades mais complexas de tarifação (as horo-sazonais azul e verde) e as mais simples (convencionais binômia e monômia) pode empregar de forma muito satisfatória o uso do estudo do fator de carga, assim como utilizando-se de planilhas de cálculo (PROCEL, 2001, pp. 29-32). Dessa forma a noção exata da demanda média máxima (item 4.3 do Apêndice B) que um consumidor pode atingir no horário de ponta define a viabilidade da opção pela tarifação horo-sazonal verde em comparação com a tarifação convencional ou horosazonal azul, assim como para os demais horários é também possível determinar um comparativo entre as 27 Ver item 3.3 do APÊNDICE C, pois, dependendo da demanda contratada ou medida, alguns consumidores são enquadrados compulsoriamente na tarifação horosazonal, permanecendo no entanto a faculdade de opção pela tarifação verde. Já no caso do consumidor livre (item 5.1 do Apêndice A) o contrato de demanda estará atrelado ao CUSD ou CUST, mas haverá também um contrato de fornecimento de energia com a empresa fornecedora. 94 tarifações convencionais monômia e binômia (SANTOS, 1988, pp. 48-51; SECRETARIA DE ENERGIA-SP, 2001, p. 23). Tais comparações podem ser realizadas devido às diferenças entre os preços da energia e da demanda entre as modalidades em foco 28 . Na prática, consumidores que têm condições de gerenciamento do consumo em função dos horários do dia podem lidar satisfatoriamente com a tarifação azul, obtendo reduções significativas dos preços cobrados fora da ponta em relação aos da ponta. Já os que optam pela tarifação verde devem estar conscientes de que a utilização de demanda na ponta não é problema e sim o consumo de energia (item 3.3.2 do APÊNDICE C), mas que sua utilização é economicamente limitada pelo fator de carga. Regra geral, mediante a análise envolvendo o fator de carga e os valores das tarifas, verifica-se que a tarifação verde é vantajosa em relação à azul para consumidores com reduzido fator de carga no horário da ponta, ou seja, a energia consumida nesse período, representada pela demanda média, deve se situar em um patamar bastante inferior ao da demanda máxima (SANTOS, 1988, pp. 48-51). 4.3.4. Composição técnico-econômica de fornecedores diversos Sob a ótica da GEEE, quando a empresa parte para a autoprodução de energia elétrica ou ainda para a composição de fontes diversas (na qualidade de consumidor livre), assim o faz baseada em estudos que sucedem um substancial controle sobre as possibilidades de conservação de energia, sua curva de carga (ativa e reativa), além da noção exata de seus custos e de análise tarifária-contratual de energia elétrica. Na verdade, reforça-se aqui a abordagem sistêmica e contínua, pois que todas as ações descritas trazem a necessidade de serem reavaliadas as precedentes. Por outro lado, a produção independente pressupõe ainda uma determinação em diversificação de negócios, pois que a empresa deve decidir pela inversão de recursos exclusivamente destinados para a produção de energia, sob todos os riscos e oportunidades desse tipo de empreendimento. Uma vez definida a estratégia de aquisição de energia, considerando a em7presa ter a liberdade de contratar sua energia como consumidor livre, parte-se para a metodologia de 28 Vide anexos 1 a 4 . 95 composição de fontes dentre várias alternativas diferentes, podendo ainda intercalar a compra de terceiros com produção própria. 4.3.4.1. Autoprodução de energia elétrica Por oportuno é dizer que o investimento em geração própria para atender a determinada curva de carga pode levar consigo um sobredimensionamento pelo simples fato de não terem sido analisados e implantados programas básicos de conservação de energia e de redução da demanda máxima. Dito de outra forma, o potencial não aproveitado de redução dos custos com os subprogramas anteriores à geração própria vai estar embutido na capacidade instalada a ser implantada ou contratada do fornecedor. Nunca é demais lembrar que produzir energia elétrica é uma decisão importante pois se refere a investimentos que normalmente são de grande monta e de baixa liquidez. Mesmo pequenos geradores têm preços relativamente elevados, cuja imobilização, além de originar custos e despesas, retira da empresa capital financeiro que poderia ser destinado à aplicações de maior liquidez. Por exemplo, se uma simples ação de transferir cargas do horário de ponta não for feita antes da compra de um sistema gerador, a capacidade instalada desse sistema certamente englobará tal demanda, implicando em um custo maior do que o necessário. Outro caso possível é o da instalação de um gerador no horário de ponta, com opção pela tarifação horo-sazonal verde, sem os necessários requisitos técnicos de acompanhamento, quando então uma saída forçada do gerador implicará em pagamento de um custo de energia muito maior (ver 3.3.2 do APÊNDICE C e anexo 4 – tarifa de ultrapassagem HS verde). Outro exemplo interessante é que a análise econômica adequada permite ainda descobrir que um eventual investimento em geração própria pode ser menos vantajoso do que buscar contratar a energia no mercado livre, evitando-se ainda despesas futuras de acompanhamento técnico de operação e manutenção de instalações produtoras. Isto quer dizer que a autoprodução também deve estar concatenada com a melhor opção tarifária e contratual, com especial atenção para os contratos firmados como consumidor ou como produtor. 96 Solucionadas, portanto, as etapas referentes à conservação de energia, gerenciamento de carga e análise tarifária e contratual, a auto-produção poderá trazer resultados importantes para a empresa, ao fazer com que esta também se posicione no lado da oferta de energia elétrica, conforme comentado no item 3.4.1.4. Conforme visto no item 3.2 do APÊNDICE A, anteriormente às reformas, a possibilidade de uma empresa gerar energia elétrica era restrita à sua própria necessidade ou ainda de venda dos excedentes à concessionária local, mediante regras comerciais não muito claras. Nesta época, a localização da geração deveria ser obrigatoriamente situada na mesma área do parque fabril. No caso de centrais termoelétricas não se caracterizava como um empecilho mas, para os aproveitamentos hidráulicos, normalmente não havia contigüidade entre as plantas industriais e as propriedades em que se localizavam os aproveitamentos, já que a geração hidroelétrica raramente pode ser encontrada nas regiões industriais. Além disso, por não ter meios de vender a energia produzida para outrem além da concessionária, muitos consumidores que dispunham de aproveitamentos hidráulicos consideráveis, raramente investiam e quando compatibilizavam a localização da empresa junto ao sítio hidráulico, normalmente dimensionavam a central somente para o fator de carga da empresa, projetando-a como se um sistema isolado fosse (SCHREIBER, 1978, p. 40). Com a regulamentação do produtor independente de energia e do livre acesso ao sistema elétrico, as empresas podem investir em aproveitamentos hidroenergéticos ou térmicos em qualquer região do Brasil, pois terão garantia de acesso à rede. Poderão vender energia à si mesmas, para suas plantas localizadas em outro lugar e, ainda mais, podem maximizar a eficiência do empreendimento, ao projetar a usina para a potência média e máximas disponíveis do recurso hidráulico ou térmico, e vender os excedentes à quem lhes pagar o melhor preço (vide item 3.2 do APÊNDICE A; BAJAY et al., 2002, pp. 86-93; CLEMENTINO, 2001, pp. 33-40, 55-59; JANNUZZI, SWISHER, 1997, p. 114). Nesse sentido é que se pode classificar as empresas autoprodutoras em três categorias: ??Quando a autoprodução é proposta para atender à totalidade do seu sistema elétrico de uma empresa, com perspectivas de comercialização do excedente; 97 ??Quando a empresa se lança em um empreendimento independente de geração de energia, para comercialização no mercado; ??Quando a empresa investe em geração própria destinada à uma parcela de sua carga. As duas primeiras situações assumem um caráter bastante específico, pois se tratam de análises técnicas e de investimento usualmente empregadas por qualquer agente do setor elétrico voltado à geração. De acordo com Reis (2003, pp. 275-281) a visão dos consumidores investidores em geração (distribuída) depende essencialmente de variáveis econômicas. Neste caso, os estudos de implantação e operação da autoprodução podem se utilizar dos conceitos e métodos utilizados em programação e planejamento de geração, eventualmente de forma simplificada, mediante a análise técnico-econômica de alternativas, sendo que suas linhas básicas estão comentadas nos itens 2 e 3 do APÊNDICE D e 3.2 do APÊNDICE A. No entanto, as prospecções a serem realizadas pelo cand idato a produtor independente (ou para a venda dos excedentes) requerem aprofundamentos mercadológicos e situacionais muito mais detalhados, lembrando ainda que se a empresa decide vender energia elétrica no mercado, passa a fazer parte do rol dos agentes que exercem a atividade de comercialização, sujeita portanto aos atos regulatórios que regem seu funcionamento (itens 3 do APÊNDICE A e 5.2 do APÊNDICE C), os quais dizem respeito às autorizações ou licitações para produção e ainda dos custos e taxas incidentes nas transações. Trata-se fundamentalmente da empresa tomar uma decisão estratégica de “entrada em um novo negócio”, o que requer uma devida análise de riscos, custos e benefícios inerentes à indústria de energia elétrica, para o que denomina Porter (1986, pp. 313-328) de uma “entrada bem-sucedida”. Almeida, Santos e Kusevic (1997, pp. 54-64) ao analisar conjuntos interligados com o auxílio de técnicas matemáticas e da curva de duração de carga, comentam que a remuneração do autoprodutor, no momento em que se lança como PIE, deve levar em conta todos os riscos associados ao planejamento e à operação do sistema de geração e principalmente da interligação com o setor elétrico, que vai se refletir em negociações de contratos envolvendo parâmetros de confiabilidade como energia garantida e capacidade de reserva. 98 Preliminarmente, o produtor deve determinar qual será a capacidade instalada que irá construir e qual a potência média disponível (energia firme – fator de capacidade) (item 2 do Apêndice D), lembrando que desses parâmetros se originarão os custos totais do empreendimento e também conforme as características da carga que irá atender, alternativas poderão ser mais ou menos vantajosas, pois o fator de carga do sistema a ser atendido vai implicar em um fator de capacidade ou tempo de operação à plena capacidade (2.2 do Apêndice D) que poderá mudar completamente o resultado na fase da integração técnico econômica. Além disso, se o empreendimento for na área da geração hidráulica, deve ser definido se a usina a ser construída vai ser característica de operação de base ou de ponta, o que muda radicalmente a composição de seus custos para a sua operação 29 . Usinas de base térmica, como um gerador diesel, gás ou biomassa, devem ser comparadas lembrando de seu custo variável ser predominantemente associado ao combustível, com propostas promissoras em usinas de ciclo combinado (gás- vapor)30 , até mesmo em processos de co- geração. Menção à parte deve ser feita à co-geração (vide 3.4.1.4), por ser inegável sua importância na questão da autoprodução e na constatação de que, mesmo mundialmente, não ser freqüentemente usada na extensão que é disponível (vide item 3.2 do APÊNDICE A; BJÖRK, KARLSSON, 1985, pp. 2059-2060). Na GEEE, a co-geração também é analisada como uma das alternativas de fornecimento, comparável às demais e que após sua adoção trará reflexos em termos de parâmetros de gerenciamento de carga e de análise tarifária. Por sua grande potencialidade descrita em inúmeros trabalhos, parece ser uma excelente alternativa para as empresas que dispõe de alguma forma de aproveitamento concomitante a processos térmicos de diversos usos (BRANDT, 2002; CLEMENTINO, 2001, pp. 30-40; NASCIMENTO et al., 1997, pp. 84-94; PELLEGRINI et al., 2001, pp. 98-108). A terceira modalidade em comento, quando a geração própria é destinada à uma parcela da carga do consumidor, utiliza-se dos mesmos instrumentos dantes comentados, mas ainda pode aproveitar-se de outras abordagens da GEEE que se oferecem através de estudos 29 Notadamente, nos últimos anos, tem se revelado interessante os investimentos na área de pequenas centrais hidroelétricas (PCHs) (Brandt, 2002, pp. 124-128). 30 Para mais detalhes, vide Barreto, Amaral e Azola (1997, pp. 136-144) e Brandt (2002, pp. 43-88). 99 de viabilidade econômica e eventual composição com outras fontes (concessionária ou outros fornecedores). A situação mais comum atualmente é a da instalação de geradores diesel pra o suprimento de energia no horário de ponta, havendo vários estudos favoráveis de sua viabilidade econômica (CARVALHO et al., 2003, p. 154). Também figura neste rol o caso de geradores adquiridos para operação exclusiva no horário de ponta ou ainda aqueles destinados a servirem de reserva emergencial para situações de corte de fornecimento pelo sistema elétrico. Ambas as situações não primam pela eficiência de uso dos equipamentos, pois que os mesmos permanecem fora de atividade durante períodos de tempo elevados, operando com baixos fatores de capacidade, não obstante terem seus investimentos necessidade de remuneração. Nesses casos, existe a possibilidade de compor alternativas de fornecimento, próprias e/ou de terceiros, a apropriação dos conceitos desenvolvidos a partir dos itens 3.3 e 3.4 do APÊNDICE D. A essas alternativas vão se incorporar outras, a dos enquadramentos tarifários e contratuais disponíveis com a concessionária local e, na condição de consumidor livre, com os demais agentes do setor elétricos dispostos a lhe vender energia. 4.3.4.2. Composição de fontes diversas O consumidor autoprodutor, nos casos em que sua geração não é suficiente para o atendimento de sua curva de carga terá de adquirir a diferença de outrem. Caso seja um consumidor cativo, terá que recorrer à concessionária. Por outro lado, configurando-se como consumidor livre, as possibilidades aumentam, pois a curva de carga pode ser composta a partir de vários contratos bilaterais com agentes diferentes, incluindo o próprio consumidor na qualidade de participante de um empreendimento de produção independente (item 3.2 do APÊNDICE A). Nos dois casos acima, o ponto básico é que tanto um consumidor cativo quanto um consumidor livre (itens 4e 5.1 do APÊNDICE C) pode realizar uma composição ótima entre 100 as mais diversas fontes de energia elétrica, próprias ou de terceiros, utilizando-se do mesmo ferramental técnico- matemático-econômico comentado no Apêndice D. Dentre as opções disponíveis atualmente, incluindo algumas emergentes (CLEMENTINO, 2001, pp. 27-30) , pode-se enumerar: ??Energia comprada da concessionária; ??Energia comprada de outros fornecedores; ??Geração própria a gás natural; ??Geração própria a óleo (diesel ou combustível); ??Geração própria a biomassa; ??Geração própria em processos de co-geração; ??Geração própria hidroelétrica; ??Geração própria solar, eólica ou a células de combustível. Assim, valendo-se do conhecimento dos custos totais unitários (de potência e energia), devidamente equalizados no tempo (ver itens 3.1 e 3.2 do APÊNDICE D e 4.3.1) 31 , o consumidor pode comparar alternativas de variados graus tecnológicos, entre geração própria (em processo de co- geraçao ou não) com empreendimentos próprios fora de sua planta industrial (produtor independente), ou ainda com fornecimentos de outras concessionárias, produtores ou mesmo de agentes comercializadores. Em um primeiro exame, o consumidor pode buscar alocar qual a fonte mais vantajosa de ser alocada para atender completamente a um determinado bloco de energia e potência, por exemplo, no horário de ponta, considerando as opções tarifárias oferecidas pela concessionária ou por um terceiro e os custos de instalação e operação de geração própria. Nessa proposição, podem ser utilizados os estudos envolvendo os custos unitários de energia dependentes do fator de capacidade e do tempo de operação à plena capacidade (item 2.2 do APÊNDICE D). A composição entre as fontes será segmentada por horário, isto é, toda 31 A equalização no tempo é necessária, por exemplo, na comparação entre custos de geração própria e de concessionárias ou fornecedores, requerendo a transformação do custo da demanda, que é mensal, em uma base anual (vice-versa), ou ainda entre empreendimentos de vida útil e tempo de implementação diferentes. 101 a curva de carga da empresa é atendida por fontes diferentes, uma no horário fora de ponta, outra no horário de ponta. Em um nível mais elaborado de exame voltado à otimização do atendimento da necessidade de potência e energia, a empresa pode se propor a compor fontes de energia utilizando-se de instrumentos que englobem as análises das curvas de duração de carga e de carga-energia (itens 3.3 e 3.4 do APÊNDICE D). Tais enfoques, eminentemente criados para o planejamento e a operação dos setores elétricos de grande porte, oferecem a vantagem de se poder diferenciar o atendimento a cada kW elementar que compõe a curva de carga, utilizando fontes mais baratas em energia para suprir a base e aquelas mais caras para suprir a ponta do sistema. De modo análogo, fontes com baixo custo de instalação podem se tornar viáveis para atender cargas de curta duração (ponta). Exemplificando, uma empresa possui as seguintes opções: Um processo contínuo de vapor disponível para co-geração, uma usina hidroelétrica de ponta existente, a concessionária local e um terceiro. Utilizando-se das análises da curva de duração de carga e da curva carga-energia, a empresa vai descobrir quais suas cargas serão mais economicamente atendidas em função de cada fonte, chegando à conclusão de que instalará a co-geração para operar permanentemente (na base), a hidroelétrica para cargas de curta duração (ponta) e o restante (área intermediária) sendo dividida entre a concessionária local e outro agente comercializador. Desse modo, a curva de carga (e a CDC e a CCE) da empresa ficará então segmentada conforme a alocação efetuada para cada fonte, nos moldes da figura 38 constante do APÊNDICE D. Considerando o maior leque de alternativas, as vantagens para o consumidor livre são evidentes no que se refere principalmente ao preço final do fornecimento de energia elétrica 32 . Seus ganhos vão depender de sua habilidade de compatibilizar suas necessidades energéticas com os variados preços da energia, aprendendo a gerenciar riscos através de informação adequada e/ou a contratação de mecanismos financeiros de proteção, ou então contratar com empresas especialistas no ramo, que podem ser as comercializadoras de energia ou ESCOS (DUKE ENERGY, Guia do cliente livre, 2003, tema 5, pp. 1-2). 32 Recomenda-se o interessante trabalho de Oliveira, Machado e Ramos (2004, pp. 134-154) 102 Além disso, as próprias concessionárias de distribuição de energia elétrica tomaram consciência de que é necessário oferecer ao consumidor mais do que uma “cesta básica”, tanto que já existem estudos no sentido de aumentar a gama de serviços especializados à disposição de seus clientes, atraindo-os nos quesitos da confiabilidade e presteza em assuntos que antes teriam que buscar com outras empresas (FREITAS, FIGUEIREDO, 2001, pp.100-114). Obviamente não serão apenas esses três critérios (demanda, energia e custo), os definidores da decisão da empresa. Outros itens técnicos e estratégicos já comentados se perfilam como importantes, além de questões regulamentares e conjunturais. Na verdade, dentro de uma visão estratégica, a empresa pode comparar vários parâmetros para compor um quadro comparativo a ser resolvido por de métodos de tomada de decisão multi-critérios (item 4.3.1): ??Custos do kW e do kWh; ??Custos de atividades secundárias de controle: técnicas, administrativas e legais. ??Tecnologia: Facilidade de acesso, nacional ou dependente. ??Confiabilidade de suprimento: Confiabilidade do processo e dos equipamentos, riscos de falha e de redução de qualidade; ??Localização: Na própria planta da empresa, na região ou fora dela; ??Segurança: De pessoas, equipamentos e instalações; ??Capacidade de geração: Fator de capacidade, fator de utilização; ??Meio ambiente: Dificuldades de obtenção de licenças, perigos de contaminação. 4.4. CONCLUSÕES DO CAPÍTULO A gestão estratégica de energia elétrica (GEEE) pode ser considerada como uma metodologia ou uma filosofia administrativa de gestão voltada a otimizar o desempenho da organização em relação à obtenção e ao uso energético. 103 De caráter sistêmico e contínuo, a GEEE integra os dive rsos setores da empresa, buscando melhorar o resultado econômico- financeiro por meio de uma postura proativa frente aos ambientes interno e externo, relacionados à questão energética, esta entendida como uma variável estratégica de qualquer empreendimento econômico. Situando-se no âmbito do consumidor, a GEEE incorpora, por um lado, técnicas originadas no Gerenciamento pelo Lado da Demanda (GLD) mas inova ao acrescentar a análise do ambiente externo, avaliando riscos e oportunidades inerentes a um novo arranjo institucional do setor elétrico. A figura a seguir resume a heurística empreendida na abordagem da GEEE. 104 Figura 7 – Heurística da abordagem da GEEE HEURÍSTICA DA ABORDAGEM DA GEEE GLO GLD GEEE ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA EFICIÊNCIA ENERGÉTICA EFICIÊNCIA ENERGÉTICA EFICIÊNCIA ENERGÉTICA GERENCIAMENTO DE CARGA GERENCIAMENTO DE CARGA REFORMAS INSTITUCIONAIS OTIMIZAÇÃO TÉCNICO-ECONÔMICA DE PRODUÇÃO DE EE SETOR ELÉTRICO POLÍTICAS TARIFÁRIAS ANÁLISE E APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TARIFÁRIA AUTOPRODUÇÃO COMPOSIÇÃO TÉCNICOECONÔMICA DE FONTES DE ENERGIA ELÉTRICA SETOR ELÉTRICO & CONSUMIDOR CONSUMIDOR Fonte: Elaboração do próprio autor. Ao se compilar os diversos enfoques de gestão de energia elétrica de uma forma sistêmica, verifica-se que a GEEE pode se estruturar em quatro subprojetos que em princípio devem obedecer à uma certa ordem de execução, estabelecida por critérios de simplicidade e custo: ??conservação de energia (eficiência de equipamentos e processos); ??gerenciamento de carga; 105 ??análise da regulamentação contratual, tarifária e de fornecimento; ??composição técnico-econômica de fontes de energia elétrica. Cada um destes subprojetos deve ser analisado sob o crivo de uma metodologia muito bem definida, de escopo eminentemente técnico-econômico, mas que também pode ampliar-se em um método multi-critério, agregando variáveis não-monetárias, como por exemplo, dimensões sociais e ambientais. Deve-se lembrar contudo que, sempre supondo o caráter holístico da GEEE, a cada etapa de implementação de um determinado subprojeto, devem ser apreciados os reflexos nas etapas anteriores, sob pena de se obliterar ganhos já estabelecidos. No subprojeto de conservação de energia, a organização se volta para o aumento da eficiência no consumo energético em equipamentos e processos internos, muitas vezes obtendo resultados com baixos investimentos, como por exemplo em se tratando de mudanças comportamentais no uso da energia elétrica. O gerencia mento de carga, em conjunto com aplicação do conhecimento dos aspectos legais e infra- legais que regulamentam o fornecimento de energia elétrica, alça a organização a um nível em que já não é mais suficiente apenas o conhecimento técnico, mas também uma necessidade de interpretação da legislação em vigor. Tais avaliações já se iniciam desde o planejamento das atividades da empresa, ocasião do projeto elétrico que vai se refletir no pedido de carga junto à concessionária e se propagam no período de operação da empresa. Em funcionamento, a empresa deve se concentrar na gestão de itens onerosos de sua fatura de energia elétrica que estão submetidos à obrigações contratuais e tributárias, como por exemplo a demanda, o consumo e o ICMS, assim como averiguar as possibilidades de enquadramento tarifário mais atraentes, inclusive a opção de se tornar consumidor livre. Em uma etapa adicional mais elaborada, pode-se partir para diversificar o portfólio energético por meio da autoprodução ou da produção independente, ut ilizando-se de instrumentos analíticos disponíveis que determinem os níveis ideais de aquisição de energia de várias fontes. 106 Em uma situação ainda mais avançada, e desde que tenha condições técnicoeconômicas para tanto, a empresa pode ainda tornar-se ofertante de energia elétrica para o sistema interligado ou para um cliente específico, incrementando seu resultado com receitas adicionais. A consecução dos subprojetos aqui comentados leva a um estado de plenitude da GEEE, o que, sem sombra de dúvida, torna a organização muito mais preparada, em termos de flexibilidade e competência, para enfrentar mudanças e desafios cada vez mais freqüentes no ambiente do setor energético da economia. 107 5. GESTÃO ESTRATÉGICA DE ENERGIA ELÉTRICA E O DESENVOLVIMENTO REGIONAL 5.1. INTRODUÇÃO A questão que se coloca é como a GEEE, em sendo adotada por empresas da região, pode contribuir para melhorar a competitividade individual mas também impulsionando o próprio desenvolvimento regional. Resta aqui desenvolver uma linha de raciocínio que demonstre que as ações para melhorar o desempenho econômico da empresa com base na GEEE se voltam favoravelmente à sua competitividade e por decorrência trazendo subsídios para o desenvolvimento da região na qual a empresa está inserida. Enquanto que no capítulo anterior foram detalhados métodos e oportunidades do emprego da GEEE, tendo sido levantados os benefícios e oportunidades de tratar a energia elétrica em um nível estratégico da empresa, procura-se neste ponto relacionar a GEEE à aquisição de vantagens competitivas pelas empresas que a adotem e a conseqüente possível alavancagem da competitividade da região em que as mesmas se situam. Nesse sentido, vai-se explorar uma possível concatenação que forma a trilogia competitividade empresarial – produtividade empresarial e local – desenvolvimento regional, observando o conceito ampliado de desenvolvimento analisado nos itens 3.2 e 3.3, ou seja adicionando-se à base sócio-econômica a questão da sustentabilidade ambiental. 5.2. GESTÃO ESTRATÉGICA DE ENERGIA ELÉTRICA, COMPETITIVIDADE EMPRESARIAL E REGIONAL A competitividade é uma qualidade considerada como tema central da agenda das empresas, da qual têm absoluta necessidade a fim de sobreviverem nos mercados em que atuam. Sua razão de ser tem fundamento no ambiente externo à empresa, manifestada pelo nível concorrencial do mercado em que a mesma procura vender seu produto. Nessa arena competitiva certamente só sobrevivem empresas cujo grau de inserção e adaptação às 108 mudanças de regras do ambiente empresarial garanta supremacia em relação às suas concorrentes ou pelo menos mantenha o status atual. Assim, a disputa ou a concorrência por maiores fatias do mercado ou por manter as posições atuais implica em que toda a estrutura empresarial tenha necessidade de estar voltada para a busca de mais eficiência e melhores resultados, na forma de estratégias formuladas implícita ou explicitamente pelos níveis institucional e gerencial da organização (PORTER, 1986, pp. 13, 22) Com relação aos meios de aquisição de competitividade, Menezes (2001, pp. 24-26) salienta que a questão se situa em diversos âmbitos, alguns deles fugindo ao controle das empresas, notadamente os de nível político e macroeconômico (ambiente externo) 33 . Apesar da falta de gerência sobre essas variáveis, que Porter (1989, p. 97; 1986, p. 44) denomina de “fatores institucionais” ou ainda como mais uma “força na concorrência na indústria”, a empresa não deve eximir-se de buscar compreender o ambiente, traduzi- lo para suas necessidades e diagnosticar ações que observem e se aproveitem também das questões regulatórias e legais. Em outras palavras, tal ponto de vista faz parte da abordagem de Hrebiniak e Joyce (1985, pp. 336-349) que pretende tornar evidente que não existe mútua exclusão (conquanto sejam interdependentes) entre o determinismo ditado pelas mudanças ambientais (sobre as quais a organização empresarial não tem controle) e as ações de adaptação estratégica (inerentes à administração estratégica) que a mesma escolhe implantar (item 4.2). As empresas criam vantagens competitivas quando percebem novas e melhores maneiras ou métodos de fazer as coisas, muitas vezes se utilizando de idéias não totalmente novas, mas investindo em uma nova arregimentação de forças internas, voltada para apreender e desenvolver potenciais vantagens que o meio externo lhes oferece (PAGNONCELLI, VASCONCELLOS FILHO, 1992, pp. 267-269). Dessa forma, nos dizeres de Porter (1993, p. 649) “A vantagem competitiva prospera fundamentalmente da melhoria, inovação e mudança. As empresas obtém vantagens sobre seus rivais [...] porque descobrem novos e melhores meios de competir [...]. 33 Muito embora sabe-se que grandes corporações possuem seus mecanismos de influência (CAMARGO, 2005). 109 Segue Porter que “a inovação, em termos estratégicos, é definida no mais amplo sentido. Inclui não só novas tecnologias, mas também novos métodos ou maneiras de fazer as coisas que, por vezes, parecem lugares comuns.” Assim, se a conjuntura do setor elétrico tem proporcionado desagradáveis surpresas à empresas, com aumentos exagerados de preços e até racionamentos, também abriu espaço para uma nova postura estratégica em termos de aquisição e produção de energia, com boas perspectivas de resultados. Uma das formas de a empresa se posicionar estrategicamente para se tornar competitiva, é a que Porter (1989, p. 11) denomina de “estratégia voltada para a liderança no custo”, traduzindo a capacidade que a empresa tem de melhorar ou inovar procedimentos para tornar seus produtos mais baratos, e com isso adquirindo uma “vantagem competitiva” em relação aos concorrentes do mercado em que atua. Conforme Porter (1986, p. 50), a estratégia de liderança no custo exige controles rígidos e ênfase na eficiência, pois a empresa vai contar com uma vantagem de custo somente quando seu custo cumulativo de todas as suas atividades for mais baixo que o custo dos concorrentes. O ponto de partida para essa liderança é definir a cadeia de valores da empresa, entendida como um sistema de atividades interdependentes, procurando desenvolver métodos que efetivamente diminuam o custo de cada atividade. Porter (1993, 651-654) admite ainda que “a vantagem competitiva de uma empresa pode surgir de qualquer atividade na cadeia de valores”, subentendendo-se uma abordagem estratégica global. Cadeia de valores trata-se de uma reunião de atividades que são executadas para projetar, produzir, comercializar, entregar e sustentar seu produto (PORTER, 1989, pp. 31-56). A habilidade em coordenar e gerenciar estes elos é que vai se refletir em fonte de vantagens competitivas, desde que haja a habilidade em traduzir a percepção de melhorar o comportamento do custo por escolhas de estratégias adequadas. Dentre as diversas cadeias de valor, relacionadas por Porter (1989, p. 36), a energia elétrica está presente, em maior ou menor grau, direta ou indiretamente em todas, sejam atividades de apoio ou atividades primárias. 110 Nesse sentido, a energia elétrica, ou melhor definindo, a gestão do consumo de energia elétrica é indubitavelmente, é um elo fundamental da cadeia de valores das diversas atividades empresariais, pois que está intimamente relacionada aos custos intrínsecos destas (Porter, 1989, p. 81). Obviamente, é certo que a GEEE subordina-se a um espectro mais amplo (global) em termos de posicionamento estratégico corporativo, pois basicamente é uma parcela de um plano gerencial global voltado à melhoria da competitividade, sob o prisma da redução de custos. No entanto, também parece coerente afirmar que a energia [elétrica] é um dos parâmetros a ser classificado como estratégico, pois a já prevista escassez dos recursos energéticos, submetida às leis econômicas da oferta e da procura, só tem uma direção a dar, a do aumento dos preços da energia elétrica, na melhor das hipóteses; sua falta, em um cenário mais pessimista. A GEEE, conforme o conceito delineado no item 4.2, é uma atividade de caráter estratégico-operacional da empresa, contínua, principalmente submetida à uma abordagem sistêmica entre os ambientes interno e externos à organização. É fundamentalmente um processo de otimização técnico-econômica da obtenção e utilização da energia elétrica, ou seja a conjugação do atendimento aos critérios de quantidade e qualidade de potência e energia elétricas necessárias às atividades empresariais, com a racionalidade econômica de busca pela maior eficiência da utilização dos recursos, redução de custos e aumento de receitas. Não deixa de ser uma inovação no que se refere a um novo enfoque de gestão, que avalia e trabalha com os pontos fortes e fracos internos ao mesmo tempo em que está sintonizada com as ameaças e oportunidades externas do ambiente de mercado de energia elétrica, traduzidas pela conjuntura econômico-regulamentar do setor elétrico. Internamente, são pontos de força ou fraqueza a capacidade de gerenciamento de carga, de entendimento e acompanhamento das contas de energia elétrica, a adoção de políticas de conservação ou ainda a viabilidade técnica de auto-produção de energia elétrica. São ameaças ou oportunidades, por exemplo, a disponibilidade de energia para eventual atendimento de projeto expansão da capacidade de produção (PORTER, 1986, p. 299; item 4.3.3.1) , possibilidades de racionamento, abertura do mercado a consumidores 111 livres, possibilidade de comercialização da auto-produção de energia ou ainda políticas governamentais para a produção independente). Também se constata que as mudanç as voluntárias empreeendidas pelos consumidores se focam principalmente em incentivos (positivos ou negativos) que os mesmos visualizam no ambiente, no caso do setor elétrico normalmente em função de ganhos ou penalidades pecuniárias (BJÖRK; KARLSSON, 1985, p. 2058). Ganhos ou evitação de penalidades implicam diretamente nos resultados econômicofinanceiros da empresa, e são conseguidos através do conhecimento da regulamentação do setor e pelo gerenciamento do consumo de energia elétrica, resultando em economia de escala (produzir mais com menos energia) ou ainda um eventual aumento de receita não-operacional na comercialização da auto-produção de energia elétrica. Além disso, Carvalho et al. (2003, p. 146) apresentam mais uma variável interessante, a de que o controle energético dentro de uma visão integrada entre produtos processos e setores de uma mesma empresa proporciona à empresa, além de ganhos de produtividade e redução de custos, a possibilidade de preservar o meio-ambiente e de adquirir um diferencial de mercado no contexto da globalização, por exemplo ao atender aos requisitos da norma ISO 14001. Sob outra perspectiva, a redução de custos pode ser atingida não só pela racionalização do consumo (fatores técnicos internos), mas também por uma estratégia de compra, entendida como aquela definida pela empresa quando a mesma tem condições de se beneficiar da competição entre seus fornecedores (PORTER, 1986, pp. 126-129), ou seja tem poder de negociação. No caso dos consumidores livres, esse poder lhes foi dado por determinação legal, no bojo das reformas da década de 1990 (vide itens 2 e 3.1 do APÊNDICE A e 5.1 do APÊNDICE C), os quais podem dispor de um produto padronizado sendo ofertado por vários produtores ou comercializadores. Não só a empresa pode conseguir melhores preços mas também compor suas necessidades utilizando-se das técnicas descritas no capítulo 8, ou seja adquirir energia de mais de um fornecedor 34 , atingindo um nível ótimo técnico-econômico. 34 Como participante de um projeto/consórcio de produção independente, pode ainda contratar energia com preços obviamente mais acessíveis. 112 Na autoprodução, além de reduzir custos com a aquisição de energia, a empresa adquire uma proteção adicional contra indesejáveis racionamentos, o que é sem dúvida estratégico. Na eventual venda de excedentes ou ainda atuando como produtor independente, a empresa promove uma diversificação de suas atividades, explorando novas áreas de atuação (no caso a geração e comercialização de energia), pondo à prova a capacidade gestora de complementar as estratégias dos seus negócios. A GEEE pode ser também encarada como uma virtual empreendimento no que se refere à empresas especialmente formadas para atuarem nessa área, vendendo serviços terceirizados de consultoria de conservação de energia, gerenciamento de carga de gestão de contas (item 4.3.3.2) 35 , de comercialização (item 3.3 do APÊNDICE A). De acordo com Bajay et al. (2002, pp. 86-93), abriram-se às empresas novas e variadas oportunidades de negócios, não só relacionadas à produção de energia mas também em áreas de conservação e eficiência energéticas, consultoria, manutenção e gerenciamento de riscos financeiros envolvendo interrupções do suprimento. Mas, se existem indicativos de que as ações da GEEE trazem competitividade à empresa que a adote, haveria também conseqüências benéficas para a região em que essa empresa está localizada? Empresas bem sucedidas normalmente concentram-se em cidades ou regiões de um país, daí que Porter (1993, pp. 30, 189-190) afirma que os conceitos e idéias sobre competitividade dirigidas a um país “podem ser facilmente aplicados a unidades políticas ou geográficas menores [...]”. As características geográficas, culturais, econômicas e de organização do Estado dão forma ao conceito de região entendida desde o nível nacional (o Brasil), suas divisões (estados) ou ainda os níveis locais, como o caso do Médio Vale do Itajaí. O entendimento do que é a competitividade de uma região tem várias explicações conflitantes, como de origem eminentemente macroeconômica, de políticas governamentais, da mão-de-obra ou de recursos naturais abundantes, ou ainda de diferentes práticas administrativas (PORTER, 1993, pp. 3-6; COSTA, ARRUDA, 1999, p. 17). 35 Seria m o equivalente às ESCOS - Energy Services Companies. 113 Tratando as questões em um conjunto, Porter (1993, pp. 6-24) prefere firmar sua posição no sentido de que o que é realmente relevante é a produtividade com a qual os recursos nacionais ou regiona is são empregados. Partindo da constatação que não existe país em que toda a indústria é competitiva, ou seja, existe muita diferenciação nesse aspecto, pode-se afirmar que são as diferenças em estruturas econômicas, mas principalmente culturais, criadas principalmente em nível local, que contribuem para a criação de vantagens competitivas de um determinado segmento empresarial do país. Logo, é o comportamento empresarial de uma determinada região que prenuncia sua ascendência, nesse aspecto, sobre outros locais. De qualquer modo ou delimitação geográfica que se queira assumir, essa proposição interessante é novamente exposta por Costa e Arruda (1999, p. 15), de que “a competitividade sistêmica [de um país ou região] não é responsabilidade apenas do Poder Executivo, e que a empresa é o veículo fundamental da competitividade.” Não obstante o ambiente econômico, as instituições e políticas de uma nação tenham grande influência na competitividade das empresas, algumas iniciativas de caráter endógeno com certeza trazem sucesso à empresas que se dispõe a criar e melhorar seus fatores, mesmo inseridas em meios até certo ponto adversos, caracterizados por altas taxas de juros, câmbio desfavorável e até mesmo infra-estrutura deficiente (PORTER, 1993, pp. 146-148, 663-667). Se na abordagem sobre a competitividade regional o que importa é a produtividade, e são as empresas os principais veículos de sua manifestação, então é a própria produtividade empresarial a chave para a competitividade de uma região, através da apropriação e transformação eficiente de recursos naturais, humanos e de capital36 . A forma mediante a qual essa virtuosidade se processa, espelhando uma relação inequívoca entre competitividade e distribuição de renda, é a de que empresas mais competitivas absorvem maiores parcelas de mercado, distribuindo resultados na sociedade na forma de geração de mais empregos de melhor qualificação-remuneração e de recolhimento de tributos para alocação na área social (COSTA1999, pp. 364-365, 369-371; PORTER, 1993, pp. 612-633). 36 Já Camargo (2005) entende essa condição como necessária mas não plenamente suficiente, pois que existe a necessidade de uma articulação com o poder público. 114 Desse modo, atende-se aos pressupostos de sucesso de um processo de desenvolvimento econômico, ligados ao crescimento e à distribuição de renda. A outra componente do conceito de desenvolvimento, a da sustentabilidade ambiental, também é influenc iada pela GEEE, passaremos a verificar no próximo item. Ora, aumentar a eficiência em processos produtivos empresariais diz respeito mais do que evidente no que concerne à finalidade da GEEE, pois que esta lida com um dos insumos básicos (e virtualmente oneroso) de todas as cadeias produtivas, sejam elas de bens ou de serviços. Por conseguinte, se em determinada região, várias empresas ou uma grande parte adotarem métodos que aumentem sua competitividade através do aumento da produtividade, então certamente essa região terá capacidade de se sobressair em termos de potencial de desenvolvimento econômico. Exemplos que revelam possibilidades mais contundentes são aqueles que representam a ação empresarial regional organizada. Na questão da globalização, autores como AMIN (2001), exploram um veio bastante otimista em relação a como uma região pode superar as deficiências do Estados-nação de desenvolver políticas nacionais de regulação dos processos econômicos internacionais, entre outras atitudes a de focar-se na inovação e na interdependência entre empresas, relações de trocas e racionalidades de comportamento (confiança e reciprocidade), que possam se tornar vantagens para o local. Assim, podem ser estruturados consórcios de empresas para tomar ações inerentes à conservação de energia, ao gerenciamento de carga, bem como não há impedimento de empresas ou unidades diversas locais adotarem alguma forma de inter-relação de mercado, no sentido de influenciarem preços de energia, através de negociações em bloco, na qualidade de consumidores livres, mediante leilões patrocinados por agentes comercializadores, junto aos fornecedores (concessionárias e produtores). 37 37 Uma eventual expansão do MERCOSUL em termos de colocar a energia elétrica como um dos produtos dentro do acordo, poderia colocar em competição um número maior de fornecedores, favorecendo a compra de energia elétrica em períodos de escassez interna ou de alta de preços por baixa hidraulicidade. A questão da interligação energética já vem sendo alvo de entendimentos entre Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia, algo de vinte anos antes da formalização do MERCOSUL (criado em março de 1991), voltados à exploração de quedas d´água e da importação de energia elétrica e de gás natural, sendo que são enormes as potencialidades de importação e diversificação energética na América do Sul (DIAS LEITE, 1997, pp. 162-167, 358-359, 452-453; PAULA, 1997; ROSA, MIELNIK, 1983, pp. 18-28). 115 Adquire então a região uma vantagem competitiva oriunda da inter-relação entre concorrentes, por exemplo, se algumas empresas do setor têxtil da região se unissem para comprar energia (inter-relações de aquisição) ou para produzir pára si mesmas (inter-relação de infraestrutura), uma expansão conceitual do que se refere Porter (1989, pp. 296, 316, 320321) para a atuação de empresas locais como uma unidade. Em nível nacional, quando as empresas têm segurança para investir em geração (que passa a ser distribuída para fins de análise setorial), diminui consideravelmente o impacto sobre as contas públicas de investimento em infraestrutura de energia elétrica, liberando recursos para o Estado investir em áreas também primordiais para a competitividade da nação, como a educação e a saúde (GELLER, 1994, p. 163) e, na acepção de Costa (1999, pp. 377386) na redução da pobreza, o que constituiria uma “política industrial” bastante eficaz, haja vista a inclusão de grande parcela da população no mercado consumidor. 5.3. A GEEE E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Energia elétrica, como visto no item 3.1, é obtida a partir do processamento de uma energia primária, no Brasil predominantemente hidráulica mas com avanços na geração térmica e algumas iniciativas na área de energia renovável. Os efeitos sobre o meio ambiente e as ações voltadas à sustentabilidade ambiental do desenvolvimento, no que tange à produção e ao consumo de energia elétrica já foram discutidos (itens 3.3 e 3.4) e, o que importa neste ponto, é verificar como a GEEE está relacionada a esses fenômenos, em que pese sua inegável relação com o desenvolvimento econômico, na forma do aumento de produtividade/competitividade empresarial. Reduzir as taxas de aumento de consumo de energia é o desafio de um país que necessita ainda de crescimento econômico e conseqüente aumento da produção. Ou seja, respeitando a capacidade do meio-ambiente de fornecer energia de baixa entropia e de processar os resíduos decorrentes dos processos de transformação energética. Por isso, a questão ambiental parece transcender a individualidade dos agentes econômicos e requer uma posição firme da sociedade, através de regulamentos, fiscalização e de incentivos governamentais à eficiência. 116 Segundo Goldemberg (1998, pp. 171-174), as políticas para reduzir a degradação ambiental devem se adotadas pelos diversos níveis de poder, conforme os impactos locais, regionais e globais, sendo a produção assunto destinado ao nível regional; e a poluição (aquela relacionada à resíduos) inerente aos governos locais. Este intento só será atingido através do aumento de produtividade global da geração e do consumo de energia (elétrica). Dito de outra forma, aumentar a eficiência tanto no lado da oferta quanto no lado da demanda. Daí derivaram programas de gerenciamento pelo lado da demanda (GLD) e de planejamento integrado de recursos (PIR), cujas dimensões sócio-ambientais puderam ser incluídas em políticas de governo e submetidas pelo poder concedente à indústria de energia elétrica. Por outro lado, as recentes transformações na estrutura institucional-econômica do setor elétrico brasileiro (itens 2 e 3 do APÊNDICE A), enfatizando a dimensão da comercialização, permitiram o aparecimento de um mercado de energia elétrico mais dinâmico, competitivo e por isso cada vez mais dependente de maior eficiência, tanto para os agentes que vendem quanto para aqueles que compram energia elétrica. A GEEE, como visto, está interrelacionada a essas duas dimensões (conservação de energia e competição de mercado), na forma de uma visão estratégica empresarial que consiga extrair o máximo de resultado por meio da gestão da energia elétrica. Mas, diferentemente de políticas públicas específicas, a GEEE tem seu raio de ação individual bastante mais restrito no que tange à questão ambiental. Na verdade, em geral pode-se constatar que as ações empresariais que trazem benefícios ambientais assim o fazem normalmente por vias indiretas ou então respondendo a estímulos externos eminentemente econômicos. Deve-se isso ao fato de que a racionalidade das empresas tem uma composição cujo peso do econômico é substancialmente maior do que o ecológico e social, até por uma questão cultural que justifica a dificuldade de aferição mercadológica em termos de, por exemplo, “como agregar o custo do ambientalmente ou socialmente correto de um produto se o concorrente não o faz e o consumidor compra pelo menor preço”. Existem, no entanto, algumas vertentes mercadológicas que consideram a importância da gestão ambiental praticada por empresas. Nesse sentido, segundo Carvalho et 117 al. (2003, pp. 146-152), modelos de gestão energética são plenamente condizentes com as mais atuais plataformas de gestão ambiental, como por exemplo a ISO 14001, cujo teor sintoniza perfeitamente com a busca pela eficiência energética. Situando-se então a GEEE nas alegações precedentes, fato é que os benefícios em termos de sustentabilidade ambiental do desenvolvimento são estimáveis a partir de uma base bastante difusa, considerando as iniciativas individuais, mas certamente não menos apreciáveis se operadas em um conjunto de consumidores, de uma região ou país, indução de que ações individuais cumulativas passem a formar uma verdadeira cultura coletiva. No lado da demanda, os subprogramas de conservação de energia, gerenciamento de carga e análise tarifária são iniciativas individuais dos consumidores que se apropriam das ações do GLD (mediante algumas adaptações) e incorporam métodos de análise das oportunidades oferecidas pela abertura competitiva do mercado de energia elétrica, mas sem a intervenção ou iniciativa direta dos organismos planejadores e executores do setor elétrico. Com relação aos subprojetos relacionados à conservação de energia e de gerenciamento de carga, os benefícios saltam aos olhos, pois propiciam aumento de produção de bens e serviços, ou seja crescimento econômico, com cada vez menores quantidades de energia, dando ênfase ao que Saidel et al. (2001, pp. 197-202) denominam de uso eficiente ou racional. A redução do desperdício, meio pelo qual se busca melhores resultados econômicos nas empresas, incorre plenamente em práticas de eficiência energética. Mas a solução de se substituir equipamentos perdulários e de se melhorar processos de consumo pode ser considerada como trivial pela GEEE, pois que essa avança em soluções de concepção (projetos) e corretivas (controle de carga) sistematizadas com análises de enquadramento tarifário e de fornecimento de energia elétrica. Quando se opera uma redução na demanda máxima de uma empresa (principalmente no horário de ponta) evitando sobreposição de cargas e demanda máxima (gerenciamento de carga - fator de carga – fator de potência), não ocorre somente uma aquisição de vantagem de custo intrínseca à organização, mas também uma transferência direta dessa vantagem ao setor elétrico como um todo, pois em sendo seu objetivo suprir a demanda dos consumidores a cada instante através de unidades produtoras conectadas ao sistema, é beneficiado pelo deslocamento de parte da carga para horários em que o mesmo não está sobrecarregado e para 118 períodos do ano de maior disponibilidade de geração (BJÖRK; KARLSSON, 1985, pp. 20582063). Mesmo uma redução na demanda contratada (baseada na carga instalada – item 2 do Apêndice B) de um consumidor já traduz-se em menores investimentos ou em uma diminuição do custo marginal de curto prazo (item 3.1 do Apêndice D) que em termos físicos implica em uma menor taxa de ampliação das estruturas de transformação e distribuição de energia. Do Apêndice B, item 3, destaca-se: Se a concessionária e o sistema elétrico se baseassem simplesmente no conjunto dos pedidos de carga dos consumidores (estes baseados na carga instalada) para projetar a expansão de suas próprias instalações, ocorreria de fato um efeito encadeado de sobredimensionamento aumentando custos do setor e por conseqüência das tarifas de energia elétrica. Com relação ao subprograma da GEEE que envo lve a composição de fontes de energia elétrica pode-se delinear as seguintes considerações. No âmbito do mercado, a competição instaurada na oferta de energia em virtude do aparecimento dos consumidores livres, impele a um aumento da eficiência por parte dos agentes da oferta, estimulando a racionalização de seus custos pela maior eficiência em processos e por conseqüência na transformação da energia primária. Nos dizeres de Assumpção (2002, p. 39), “a experiência internacional autoriza afirmar que a melhor forma de impulsionar a eficiência energética é através de mecanismos de mercado”. 38 Dessa forma, quando o consumidor aprimora sua estratégia de compra junto ao mercado, buscando uma composição de fontes que resulte no menor preço global de energia, está por si só impulsionando o setor elétrico à uma maior eficiência intrínseca. Mas, quando essa composição envolve a autoprodução, já é um caso que merece melhor atenção, pois não é totalmente evidente que sua adoção traga reflexos positivos ao meio-ambiente. No entanto, uma assertiva parece ser inegável, a de que o aumento de produtividade na geração implica em menor impacto ambiental, ou seja, produzir a mesma quantidade com menor consumo de energia primária e menor lançamento de resíduos no meio ambiente. A geração de energia elétrica, por ser a fase que mais responde por índices de degradação ambiental, deve ser analisada também pelo enfoque legal das políticas nacionais 38 Não obstante existirem críticos como Jannuzzi (2000, pp. 3-104 – Vide Item 3.4.1) 119 voltadas ao meio-ambiente. Nesse sentido, a Constituição Federal de 1988 dedica um capítulo exclusivo ao meio-ambiente, onde se verifica a exigência de estudos ambientais prévios para a instalação de atividades causadoras de degradação ambiental. Um dos aspectos que mais importância vem assumindo nesse tipo de estudo é a análise do impacto ambiental, onde se procura harmonizar a necessidade de geração de energia com o atendimento às exigências de preservação ambiental, de caráter federal, estadual e municipal. Essa questão, trazida para a realidade das empresas consumidoras que intentam investir em autoprodução, se reflete em uma série de injunções legais que devem ser seguidas, para não deixar que a questão econômica de redução de custos se sobrepuje à natureza ambiental do empreendimento. Sem qualquer medida regulatória, considerando que a ma ioria dos processos convencionais de produção de eletricidade (item 3.1 - normalmente os utilizados pelos consumidores em geração térmica) provocam impactos ambientais, não há realmente nada que assegure que as empresas estariam espontaneamente interessadas em reduzir os impactos ambientais da geração própria em detrimento aos seus resultados financeiros. Na verdade, cabe ressaltar que o estudo de impacto ambiental do empreendimento não deve assumir um caráter meramente descritivo, mas, sobretudo, de demons tração de sua viabilidade ambiental, ou seja, que a inserção da hidroelétrica ou termelétrica no meioambiente previsto e na forma como está concebida não acarretará problemas para o seu licenciamento ambiental e que os sistemas escolhidos de fato tenham a capacidade de atender a todos os limites e condições estabelecidos pelo poder público (BARRETO, AMARAL E AZOLA, 1997, p. 140). 39 Feitas essas considerações, passa-se a analisar, sob o enfoque ambiental, a autoprodução em nível coletivo, ou no contexto geral dos consumidores e do setor elétrico, daí recaindo-se no conceito de geração distribuída. Reis (2003, p. 276) é enfático ao afirmar que “Não se pode garantir, sem uma análise mais aprofundada e específica, que os projetos de geração distribuída causem menos impactos negativos para o meio-ambiente do que as centrais geradoras convencionais, pois, para produzir a mesma quantidade de energia de uma central, são necessários vários projetos de 39 Trata-se de incorporar ao project finance o custo das externalidades negativas (CAMARGO, 2005). 120 geração distribuída, que podem ser dos mais diversos tipos”. Outra pergunta aparece: em termos de fiscalização da adequação ambiental de usinas, não seria mais eficiente para o poder público concentrar-se em menos unidades de grande porte do que em miríades de micro usinas espalhadas geograficamente ? Por outro lado, em uma avaliação positiva, Almeida, Santos e Kusevic (1997, pp. 5464) defendem a geração distribuída sob a vantagem da interligação de sistemas autoprodutores com a concessionária, melhorando a eficiência de utilização global de insumos energéticos, inclusive aumentando a confiabilidade do setor. Na comparação entre usinas hidroelétricas de grande porte e PCHs, vários autores parecem enfatizar a vantagem destas últimas em termos de alterações em regimes hidrofluviográficos, em ecossistemas, melhor aproveitamento de quedas d´água, menores áreas alagadas e menos influência sobre sociedades (TOLMASQUIN, SKLO, SOARES, 2002, pp. 141-142) . Por outro lado, a geração de base térmica, além de extrair a maior parte de seu combustível de fontes não-renováveis, sempre tem a si associada um certo grau de poluição ambiental, como é o caso do expressivo uso de geradores diesel por parte de empresas. Tais desvantagens poderiam ser minimizadas através do emprego de tecnologias mais limpas e sobretudo de fontes renováveis e não poluidoras, aumentando a eficiência em processos de co-geração. Melhor ainda se pudessem ser utilizados os próprios resíduos de processo industriais para gerar energia elétrica, como por exemplo a queima de biomassa como casca de arroz, bagaço de cana ou resíduos têxteis. Para um futuro próximo, inclusive, é de se esperar a expansão do uso das células de combustível/fotovoltaicas em conjunto com sistemas de co-geraçao, que possuem um dos mínimos impactos ambientais (CLEMENTINO, 2001, p. 29; TOLMASQUIN, SKLO, SOARES, 2002, pp. 139-151; Vide item 3.4.2.4). No Brasil, observa-se que já existe uma política estrutural voltada à maior participação de fontes altenativas e renováveis no setor elétrico (PCH, eólica, solar e biomassa), através do PROINFA, Programa de Incentivos às Fontes Alternativas de Energia Elétrica, criado em dezembro de 2001, justamente voltado a produtores independentes autônomos (PORTO, 2002, pp. 23-30). Para o consumidor é importante, pois lembrando que a demanda mínima contratada para o consumidor se tornar livre é de apenas 500 kW para todo o grupo A, quando a energia for adquirida de usinas da natureza acima descrita (item 3.1 do 121 APÊNDICE A), aumenta muito o número de consumidores aptos a ingressarem no mercado competitivo. 5.4. CONCLUSÕES DO CAPÍTULO A GEEE, uma vez que lida com um insumo presente em toda a cadeia de valores de uma empresa, a energia elétrica, assume uma característica estratégica para a organização. Ao reduzir custos com a aquisição de energia elétrica e eventualmente até conseguindo gerar receitas extras, possibilita a empresa a se posicionar estrategicamente com produtos mais baratos, adquirindo certamente uma vantagem competitiva (liderança no custo) em relação aos seus concorrentes. Assim a GEEE pode colaborar com a melhoria da eficiência organizacional, consequentemente com a maximização de seus resultados, aumentando sua competitividade e seu sucesso no ambiente de mercado em que atuam. Empresas bem sucedidas, por sua vez, são motores de crescimento econômico para as regiões em que se localizam, traduzindo-se em melhores condições sócio-econômicas a partir da geração de emprego e renda. Porém, além do incremento da atividade econômica individual e regional, pressupostos do desenvolvimento econômico, exige-se o alinhamento de outro componente indispensável ao desenvolvimento sustentável. Desenvolvimento sustentável, ao par da inclusão sócio-econômica e de cidadania, é aquele que, não abstendo-se do crescimento econômico relativo à maior disponibilização de bens e serviços à sociedade, está amparado em um sistema energético 40 e um padrão cultural de consumo adequados à prudência ecológica. 40 Conjunto de atividades relativas à (Jannuzzi, 1997, p. 8): produção e conversão de fontes em vetores energéticos (energia secundária) armazenamento e distribuição dos vetores consumo final (usos finais energéticos – serviços de energia) 122 Assim, é necessária a diminuição das taxas de exaustão dos recursos energéticos naturais não-renováveis, de forma a tornar viável técnica e economicamente a substituição por fontes renováveis 41 , sob pena de uma ruptura irreversível da base energética. Este objetivo pode ser conseguido através da adoção de sistemas energéticos mais eficientes desde a transformação de energia primária em processos de produção e distribuição até sua conversão em usos finais pelos consumidores. Neste campo, a GEEE pode influenciar a melhora da eficiência global do sistema elétrico pela transferência cumulativa das ações de redução de consumo e demanda (redução de ponta do sistema), pela inserção ativa dos consumidores nas negociações de compra de energia (estimulando a eficiência dos ofertantes) e na venda, mediante a expansão da geração distribuída, por meio da autoprodução 42 e da produção independente (liberando recursos de investimentos públicos). Uma vez disponível aos consumidores, a energia é aproveitada em aplicações diversas, as quais também devem ter sua eficiência aumentada pela utilização de equipamentos e técnicas apropriados. Neste campo, a GEEE atua nos moldes de subprogramas de conservação de energia pelo lado da demanda, pois seus projetos de eficiência energética, gerenciamento de carga e análise da legislação (fornecimento e tarifas) são iniciativas individuais dos consumidores que se apropriam das ações do GLD (mediante algumas adaptações), mas sem a intervenção ou iniciativa direta dos organismos planejadores e executores do setor elétrico. Em outro aspecto que envolve o desenvolvimento sustentável, aquele que prevê a assimilação da capacidade auto-regeneradora dos ecossistemas em relação aos resíduos despejados em função da produção e do uso da energia, a GEEE, por tratar diretamente com um dos princípios da sustentabilidade ambiental, a conservação de energia, colabora com a redução dos impactos ambientais ligados à extração de energia primária, bem como das emissões de resíduos e poluentes na natureza, tanto na produção de energia quanto no consumo de produtos ativos e passivos. 41 Mesmo recursos renováveis como a energia hidráulica, possuem limites físicos que devem ser adequadamente gerenciados. 42 Com as ressalvas comentadas anteriormente. 123 Do que foi visto, portanto, depreende-se que a adoção da GEEE por parte das empresas de uma determinada região pode ser concebida como um vetor positivo do próprio desenvolvimento regional, tanto em suas dimensões econômico-social quanto ambiental. 124 6. ANÁLISE DOS RESULTADOS DA PESQUISA DE CAMPO Preliminarmente, deseja-se passar as impressões colhidas pelos entrevistadores nos contatos telefônicos e presenciais com relação ao desenrolar da pesquisa e entrevistas e o comportamento dos entrevistados. Notadamente, as pessoas que receberam o questionário via fatura de energia elétrica ou não tinham conhecimento algum da área técnica, mas recebiam e encaminhavam o pagamento da conta de energia, ou tinham conhecimento de aspectos técnicos, mas não eram envolvidos em questões gerenciais, financeiras e estratégicas da empresa. Quase sempre, além disso, parece que a fatura de energia elétrica não é alvo de atenção direta dos níveis dirigentes da empresa, pois nas entrevistas pode-se constatar que dificilmente o nível de dirigentes se manifestou, o que indica não estar ainda a energia elétrica situada no âmbito das decisões estratégicas. Visto de outra forma, ficou comprovado que é muito tênue a interação sistêmica entre as áreas técnica, financeira e de staff, no aspecto do gerenciamento de energia elétrica. Por outro lado, a modalidade de entrevista pessoal trouxe à baila a interessante constatação do grau em que as pessoas compreenderam o teor das questões 43 , sendo que foi possível, de certa forma, a classificação em três tipos de entrevistados: Os que não entendiam o conteúdo da pergunta e mesmo assim respondiam sim ou não (em vez de desconheço o assunto), alguns ainda transparecendo absoluta falta de convicção, mas que pretendiam demonstrar conhecimento do assunto, talvez devido à presença de um funcionário da concessionária de energia elétrica. Os que perguntavam aos aplicadores o significado da pergunta e, após a explicação por parte dos entrevistadores (até por uma questão de cortesia), preenchiam suas respostas. Por fim, uma minoria que aparentemente entendia plenamente o conteúdo das questões. Voltando à análise das respostas das perguntas constantes do questionário veículo dessa pesquisa, a primeira pergunta foi elaborada no intuito de sensibilizar e atrair o 43 Lembrando que quase todas as perguntas tinham uma opção “desconheço o assunto”, preparada justamente para avaliar essa situação. 125 entrevistado, pois se refere a uma tema onipresente no ambiente empresarial: redução de custos: 1) A empresa já procurou informações de como reduzir seus custos com energia elétrica? A pesquisa segue tentando descobrir até que ponto as empresas têm conhecimento de assuntos relacionados à gestão de energia elétrica, alguns destes aprofundados nesta dissertação: 2) A empresa conhece as regras/legislação pelas quais lhe é cobrada a energia elétrica? A primeira e segunda perguntas se relacionam, pois para empreender ações no sentido de reduzir os custos com energia elétrica é necessário conhecer um mínimo da forma pela qual ela é cobrada, e esta forma está submetida a regulamentação específica, de acordo com os conceitos visto no APÊNDICE C. Com relação à análise das respostas, como esperado, a redução de custos é objetivo da grande maioria dos entrevistados que responderam ao questionário, o que pode se verificar pelos percentuais de respostas positivas à pergunta 1. Já com relação à pergunta 2, mesmo uma queda não muito significativa no percentual de respostas positivas não estimula a concluir, à guisa do já comentado anteriormente, que uma grande parte dos entrevistados conhece a legislação que regulamenta as formas de fornecimento e de cobrança de energia elétrica. As perguntas 3 a 5 dizem respeito ao gerenciamento de carga (capítulo 5), ou seja, se a empresa conhece e/ou emprega métodos de análise de seu comportamento de consumo: 3) A empresa conhece sua curva de carga? 4) A empresa realiza algum controle sobre o seu fator de carga? 5) A empresa emprega ou possui algum sistema ou método de gerenciamento de carga ou de controle sobre seu consumo de energia elétrica? Com relação às perguntas 3 a 5, seu cunho mais técnico foi decisivo para a queda nas respostas que afirmavam conhecer conceitos como os da curva de carga, do fator de carga e da utilização de processos ou equipamentos de controle da demanda. No entanto, mesmo nas entrevistas com pessoal da área técnica, notou-se alguma hesitação na compreensão da finalidade de tais instrumentos. Registre-se que o percentual positivo na faixa dos 30 aos 40 % teve participação decisiva dos grandes consumidores, os quais normalmente possuem pessoal qualificado e equipamentos de medição adequados, portanto um acompanhamento e controle da carga mais sofisticados. 126 As perguntas 6 e 7 são específicas para empresas que já procuraram evoluir em suas análises, buscando inteirar-se das figuras do consumidor livre, do autoprodutor e do produtor independente: 6) A empresa já teve conhecimento das regras/legislação do setor elétrico que falam do consumidor livre, do autoprodutor e do produtor independente? 7) A empresa já estudou a possibilidade de tornar-se consumidor livre? A pergunta 6, que intencionava descobrir até que ponto os consumidores já detinham informações sobre a regulamentação do consumidor livre, do autoprodutor e do produtor independente, figuras criadas desde meados da década de 1990, teve por respostas positivas um percentual considerado baixo, o que denota ainda um grau de informação deficiente por parte das empresas em relação às oportunidades existentes nessas áreas. Daí que, por decorrência lógica, poucos já se preocuparam em estudar a possibilidade de participar no mercado livre 44 , objetivo da pergunta 7. As perguntas 8 a 12 direcionam-se a descobrir as empresas que tenham já analisado ou dispostas a operarem como produtoras (em suas próprias instalações ou como PIE) tentando identificar quais os combustíveis ou fontes primárias em foco, inclusive a cogeração: 8) Quanto à possibilidade de geração própria, a empresa: desconhece o assunto está estudando a possibilidade já implantou 9) Caso a geração própria já esteja implantada ou em estudo: ela é/será utilizada em todos os horários ela é/será utilizada apenas no horário de ponta 10) Caso a geração própria já esteja implantada ou em estudo, o combustível utilizado para gerar energia em sua empresa é/será: gás natural biomassa - lenha óleo combustível ou diesel hidroeletricidade resíduos do próprio processo produtivo da empresa 11) A empresa estuda a possibilidade ou já utiliza processos de co-geração para energia elétrica ? 12) A empresa já estudou a possibilidade de efetuar algum empreendimento na área de energia elétrica na qualidade de produtor independente? 44 Nesse aspecto, importante é a ressalva que atualmente, devido às restrições para se tornar consumidor livre, grande maioria dos entrevistados, embora pertencentes ao grupo A, não reuniam as condições necessárias (69 kV e 3 MW) 127 A geração própria já foi implantada ou está sendo analisada pela maioria dos consumidores (pergunta 8), mas notou-se que a preocupação básica é com a continuidade do fornecimento, talvez reflexo do período de instabilidade que sofreu a oferta de energia elétrica brasileira nos anos de 2001 e 2002. Daí que, respondendo à pergunta 9, alguns fizeram referência verbal à manutenção de geradores “stand by” com a finalidade de suprir emergências, sem ligação direta com algum estudo de tarifação ou fornecimento, muito embora a maioria os utilize ou pretenda utilizá- los como substitutos da concessionária no horário de ponta, adequando-se à tarifação horo-sazonal. Com relação ao combustível em uso ou a ser utilizado na geração própria, destaca-se de forma absoluta os derivados do petróleo (óleo diesel ou combustível), sendo surpresa para os pesquisadores os níveis muito reduzidos das opções por gás natural, biomassa e resíduos próprios, principalmente quanto ao primeiro, pela facilidade de acesso à fonte. Destaque-se, por exemplo, o caso de um consumidor revendedor de gás na tural que não havia ainda estudado a alternativa de gerar energia própria com esse combustível e de várias empresas do ramo têxtil cujos resíduos (biomassa) nunca foram aventados para a produção de energia. A relativamente baixa contagem de empresas que visam a co-geração pode ser explicada pelo fato de que não são muitas as que dispõe de processos térmicos que gerem vapor, mas, de qualquer forma, pôde-se constatar in loco que não é ainda uma opção com grande aceitação. Já com relação à produção independente, a grande maioria, como já esperado, não se atém com muito interesse ao assunto, até por se tratar de área de atuação diversa do negócio principal das empresas e que envolve valores elevados, além de uma série de providências técnicas, administrativa e legais. No entanto, detectou-se algum interesse na formação de cooperativas (consórcios) para construção de usinas e produção de energia elétrica, o que pode ser um indício de um movimento empresarial regional nesse sentido. Já a pergunta 13 busca identificar quantas empresas se utilizam de alguma sistemática ou ferramenta matemático-estatística de análise e programação de fontes de energia elétrica, nos moldes dos conceitos apresentados no capítulo 8: 13) A empresa adota alguma forma de análise para compor diversas fontes de energia para o atendimento de suas instalações (outras concessionárias, autoprodução, produção independente, outras formas)? 128 As perguntas que precederam à questão 13 já indicavam que seria muito baixo o percentual de consumidores que empregassem métodos estatísticos matemáticos de análise técnico-econômica de composição de fontes de energia elétrica, nos moldes do explanado nos capítulos 7 e 8 dessa dissertação. Compreensível quando se verifica que mesmo as questões mais básicas de gestão de energia elétrica ainda estão por ser desenvolvidas pelas empresas, mas de certa forma intrigantes no sentido de saber quais são os métodos empregados para a escolha de centrais de geração própria e comparativos econômicos de seus custos com os preços da concessionária. 129 7. CONCLUSÕES DA PESQUISA Esta dissertação teve como objetivo geral contribuir para a ampliação do conhecimento acerca da Gestão Estratégica de Energia Elétrica (GEEE) e para a compreensão da sua relação com o desenvolvimento regional. Nesse aspecto genérico, julga-se que foram plenamente satisfeitas as aspirações motivadoras deste trabalho, ao conduzir-se a pesquisa sob duas abordagens distintas mas complementares entre si. A primeira delas, cumpriu os objetivos específicos de sistematizar conhecimentos existentes e avaliar a contribuição da GEEE para o desenvolvimento regional. Mais do que isso, foi intenção deste trabalho disponibilizar ao leitor um arsenal teórico, com condições factíveis de ser utilizado em sua realidade prática do dia-a-dia. A literatura e a documentação pesquisadas indicam que a adoção da GEEE pode contribuir de forma positiva para o desenvolvimento, através da criação de vantagens competitivas para as empresas da região e, simultaneamente, reduzindo o impacto sobre a base de recursos naturais da qual se originam as fontes de energia. Para tanto, foi necessário, além da construção da abordagem da GEEE, um resgate da questão da relação entre a energia elétrica e o desenvolvimento, notadamente da concepção que envolve a harmonização entre o crescimento econômico e a sustentabilidade ambiental. Neste intento, foi requisitada uma ampla gama de informações, de caráter multidisciplinar, destinada a responder às perguntas da pesquisa voltadas a reconhecer e sistematizar os fundamentos e aplicabilidades dos enfoques da GEEE, bem como de verificar os reflexos do emprego desta no âmbito do desenvolvimento regional. Os fundamentos e aplicabilidades referem-se à uma série de conceitos e instrumentos técnicos, econômicos e normativos associados à produção, ao consumo e à comercialização de energia elétrica, discriminados e discutidos sob o interesse do consumidor de energia elétrica, nos apêndices A a D e no título 4. Com relação à verificação da GEEE frente ao desenvolvimento regio nal, o caminho analítico tornou-se mais longo. A relação entre a energia elétrica e o desenvolvimento foi apreciada no decorrer do capítulo 3. No contorno do que se denomina por desenvolvimento econômico, ficou evidente que a energia elétrica tem relação estreita com o aumento da complexidade das atividades 130 sócio-econômicas do ser humano, especialmente nos processos de produção e consumo de bens e serviços, com tendência a aumentar sua já significativa participação no mercado de usos energéticos. Nesse sentido, a maior parte das atividades econômicas tem na energia elétrica um insumo de grande importância, cujos custos podem envolver somas expressivas. Por outro lado, um enfoque evoluído do conceito de desenvolvimento não prescinde da condição da sustentabilidade ambiental, a qual tem como um de seus vetores a conservação de energia elétrica, pois que sua obtenção está relacionada a impactos ambientais ligados ao processamento de energia primária além de implicações pela emissão de resíduos e poluentes na natureza. Na questão da conservação de energia elétrica, evidencia-se o aparecimento do Gerenciamento pelo Lado da Demanda (GLD), movimento que tomou vulto a partir dos anos das crises energéticas de 1970, cujas áreas de atuação foram incorporadas por vários organismos de planejamento e operação setoriais de diversas nações. Sob outro aspecto, em uma ligação aparentemente mais tênue, existe também a alegação de que as reformas institucionais de desregulamentação do setor elétrico brasileiro podem imprimir um novo encadeamento de ações de eficiência na produção (oferta) de energia elétrica, ao permitir a flexibilização dos monopólios, o aparecimento do consumidor livre e a possibilidade de comercialização da autoprodução. Para o conceito de GEEE (item 4.2), foram resgatados elementos da administração estratégica voltada para o aumento da competitividade empresarial através de uma compreensão sistêmica entre os ambientes interno e externo à empresa, no que se refere à obtenção e à utilização da energia elétrica. As ações da GEEE têm por referências fundamentais exatamente as linhas do GLD e das novas regras econômico- legais do mercado de energia elétrica. Sob um certo prisma, a eficiência energética, o gerenciamento de carga, os aspectos de tarifação e fornecimento e a composição mediante a autoprodução de energia elétrica são itens reflexos daqueles pertencentes ao Gerenciamento pelo Lado da Demanda (GLD). Por outro lado, a GEEE inova em relação ao caráter limitado de apenas otimizar o uso interno da energia, incorporando de forma mais completa a análise do ambiente externo, 131 avaliando os riscos e oportunidades que apareceram com as reformas sofridas pelo setor elétrico nacional, a partir da última década. Resumindo, entende-se que a GEEE insere-se no contexto do crescimento econômico pois gerencia um insumo primordial à atividade econômica e está também ligada ao desenvolvimento em um sentido lato, pois que suas bases conceituais estão plenamente compatíveis com políticas que têm por resultado a conservação de energia. Uma vez identificadas e sistematizadas as informações bibliográficas e documentais que relacionaram a energia elétrica [GEEE] ao desenvolvimento, e sobre aquelas que construíram o conceito de GEEE, o capítulo 5 foi destinado a verificar a relação positiva entre a GEEE, a competitividade empresarial e o desenvolvimento, ou seja, “Quais os reflexos, no âmbito do desenvolvimento regional, da adoção de uma visão de gestão estratégica de energia elétrica por parte das empresas”. A GEEE tem razoável impacto na questão da competitividade empresarial, tanto maior quanto mais eletrointensiva a empresa, ou seja, quanto maior for o peso dos custos de energia elétrica em seu orçamento. Melhorando o desempenho empresarial a partir da redução de custos e de possíveis obtenções de receitas adicionais, espera-se que o produto da empresa adquira uma vantagem competitiva em relação às suas eventuais concorrentes, aumentando sua fatia de mercado. No mesmo sentido, pode-se inferir que a disseminação cultural da GEEE em uma determinada região, traduziria-se, no geral, em um aumento da potencialidade econômica de geração de empregos, de arrecadação de tributos e de distribuição de renda, contribuindo para a diminuição da desigualdade social. Além disso, em nível macroeconômico, a liberação de parte da pressão sobre contas públicas destinadas à infraestrutura implica em maior disponibilidade de aplicação em outras áreas também fundamentais. No aspecto ambiental entende-se que, mesmo sob vias indiretas, os reflexos da GEEE não são de modo algum desprezíveis. A via indireta se explica pelo fato de que a GEEE guia-se pela racionalidade econômica dos agentes individuais, mas os reflexos advindos pela maior eficiência e produtividade são manifestos na diminuição das taxas de apropria ção de recursos naturais destinados à indústria de eletricidade e na redução do desperdício dos processos empresariais. 132 Esse efeito é de fundamental importância para a visão de atenuar a forte correlação entre crescimento econômico e o consumo de energia para um país em desenvolvimento, como o Brasil, que ainda não atingiu um patamar adequado de consumo ou de atendimento às necessidades básicas da população, ou seja ainda dependente essencialmente da expansão da atividade econômica. Mesmo na questão da autoprodução, especificamente com relação à geração distribuída, as vantagens seriam mais apreciáveis desde que submetidas a parâmetros bastante severos de controle ambiental e pelo emprego de tecnologias mais limpas, haja vista atualmente a preponderância de geração de base térmica de fontes convencionais. Por isso, é de se crer que essa diminuição na velocidade de exploração do meioambiente pode se refletir em uma dilação do tempo futuro talvez necessário para a consolidação de novas fontes alternativas e processos menos poluentes ou degradantes do meio-ambiente. Nesse sentido, os dizeres de Theis (1996, p. 69), “Como não se pode agora vislumbrar o futuro da humanidade, a parcimônia parece ser indicada para a transição rumo a fontes alternativas [de energia]...”, convergem de forma inequívoca para a ação da GEEE. Assim, pelas considerações anteriores, é concludente que a GEEE abarca vários princípios que podem promover a alavancagem econômica da empresa e da região em que a mesma se localiza, bem como servindo como agente de eficiência tanto no lado da demanda quanto da oferta de energia elétrica, favorecendo pois o processo de desenvolvimento em seu mais amplo significado. A outra face da pesquisa, de natureza indutiva e baseada em um método descritivo, atendeu ao objetivo específico de verificar o grau em que as empresas da região do Médio Vale do Itajaí têm conhecimento ou aplicam algum enfoque ligado à GEEE. A pesquisa de campo foi eleita como ferramenta de averiguação do segundo pressuposto desta pesquisa, e destinou-se a verificar se as empresas potencialmente aptas a se tornarem consumidores livres ou produtores de energia elétrica teriam conhecimento das vantagens e estariam aplicando alguma técnica voltada à gestão estratégica de energia elétrica. Constatou-se, de acordo com o capítulo 6, que a maioria das empresas da região não estão atentas para o novo ambiente econômico do setor, aparentemente não buscando se inteirar das oportunidades que o meio externo lhes oferece. 133 Desse modo, a pesquisa descritiva descortinou o elevado alheamento dos consumidores empresariais do médio Vale do Itajaí em questões que seriam de seu interesse caso se apercebessem das vantagens da adoção de algumas técnicas da GEEE. Quando muito, preocupam-se em reduzir suas contas de energia utilizando-se dos mais simples instrumentos de eficiência energética e de alteração contratual junto à concessionária, mas raramente agregam algum controle de sua curva de carga e dos fatores de carga e de potência. Deve-se ainda atentar que a pesquisa concentrou-se no segmento do grupo A, aquele que tem o perfil de maior eletrointensividade, e é cobrado através de um faturamento mais complexo e abrangente. Pode-se afirmar portanto que o desconhecimento somado ao desinteresse observado sobre o assunto demonstram que os consumidores de energia elétrica da região do Médio Vale do Itajaí, notadamente os que teriam condições de assumir uma postura estratégica em relação à energia elétrica, ainda atuam de forma bastante incipiente na questão. Por fim, tendo sido o problema da pesquisa consistentemente explorado mediante a aferição dos pressupostos estabelecidos, exsurgem-se as seguintes conclusões: ?? Ficou demonstrada, a partir da pesquisa bibliográfica-documental, a possibilidade teórica da contribuição positiva da GEEE para a criação de vantagens competitivas por parte da empresas da região que a adotem, ao mesmo tempo em que o decorrente aumento da atividade econômica regional não implicaria em maior impacto sobre a base de recursos naturais, pelo contrário, já que os fundamentos da GEEE são de justamente atuar no sentido da conservação de energia. ?? Parece patente, pois, a contribuição positiva que a GEEE pode dar ao processo de desenvolvimento da região do Médio Vale do Itajaí; ?? Na realidade, haja vista o baixo nível de conhecimento e de aplicação de técnicas de gestão de energia elétrica, existe um potencial de competitividade virtualmente inexplorado pelas empresas da região e que poderia ser incorporado ao processo de desenvolvimento regional mediante o emprego da GEEE. 134 8. RECOMENDAÇÕES PARA TRABALHOS FUTUROS Reafirma-se que todos os capítulos derivados dos objetivos desta pesquisa oferecem pontos que podem ser aprofundados e desdobrados em outras pesquisas, inclusive possibilitando o desenvolvimento de modelos teóricos, matemáticos ou computacionais, nas mais diversas disciplinas. No âmbito da relevância prática deste trabalho, o aproveitamento do conteúdo desta pesquisa por profissionais que lidam com as questões de utilização de energia elétrica pelas empresas, seria evidentemente reforçado mediante o desenvolvimento e a adaptação dos conceitos e técnicas descritos, adequando-se à situação real. Nesse sentido, surgem algumas recomendações para futuros trabalhos, ligados à casos práticos e em nível de pesquisa teórica, utilizando-se de dados já disponíveis em publicações especializadas, estatísticas e de concessionárias, cujas responsabilidades podem ser divididas entre diversos atores envolvidos na questão. Enfatiza-se sobre a importância do registro e da divulgação do conhecimento adquirido. Para tanto, entende-se primordial que os trabalhos tenham o devido acompanhamento acadêmico de pesquisadores da Universidade Regional de Blumenau (FURB). Desta forma, recomenda-se aos consumidores de energia elétrica, em conjunto com pesquisadores da FURB, as seguintes ações: ??Estudo de estruturação e acompanhamento de uma “task force” na proposição de um projeto de GEEE em uma empresa; ??Estudo que envolva melhoria da eficiência energética em usos finais (equipamentos e processos); ??Estudo envolvendo a obtenção das curvas de carga ativa e reativa, com a análise de suas informações – gerenciamento de carga; ??Estudo relacionado à análise tarifária e eventual composição de opções de fornecimento para se tornar consumidor livre; 135 ??Reconhecendo que a literatura do Apêndice D e do capítulo 4 foi basicamente voltada para as fontes convencionais (térmica e hidráulica), seria interessante o aprofundamento de técnicas de custeamento de fontes atualmente alternativas (eólica e solar), mas que se sabem estar com seus custos em declínio (GOLDEMBERG, 1998, p. 145). Tais Estudos, porém, já devem incorporar a questão do PIE e da autoprodução fora do estabelecimento do consumidor, implicando na atenção aos fatores de comercialização e do transporte da energia. ??Por outro lado, também podem ser desenvolvidos os modelos de otimização técnico-econômica envolvendo as demais matrizes energéticas, como o gás natural e a biomassa, complementando diretamente o uso da eletricidade, pois, mesmo sendo vo ltada para a energia elétrica, a abordagem dessa dissertação e alguns de seus instrumentos técnicos-econômicos, mutatis mutandis, podem ser adaptados para qualquer insumo energético; ??Outro caso interessante que merece ser estudado, mas a partir de uma situação real, é a utilização da análise da CDC e da CCE, considerando não só as cargas de ponta, mas também o horário de ponta previsto na tarifação horo-sazonal; Recomenda-se à concessionária de energia elétrica, os seguintes projetos: ??Realizar pesquisa acerca da elasticidade-preço da energia elétrica, dos diversos tipos de consumidores, a fim de encontrar os pontos de preços relativos ao lucro máximo e à receita máxima; ??Realizar pesquisa sobre os potenciais consumidores livres da região do Médio Vale do Itajaí, a fim de subsidiar negociações de preços e contratos; ??Estudo de viabilidade de investimentos em gerenciamento pelo lado da demanda, induzindo os consumidores a adotarem ações de conservação de energia; ??Estudo de viabilidade de investimento/subsídio para redução de consumo de energia reativa por parte dos consumidores; Recomenda-se a pesquisadores da FURB: 136 ??Aprofundamento em teorias de tomada de decisão para a aplicação da GEEE; ??Estudo de viabilidade econômica da criação de uma ESCO para atuar na região, ligada à própria FURB; Recomenda-se aos órgãos governamentais ligados ao desenvolvimento, em especial à Secretaria de Desenvolvimento Regional, em conjunto com a Universidade Regional de Blumenau, o efetivo envolvimento na questão energética regional: ??Estudo sobre o potencial de melhoria de indicadores sócio-econômicos ligado à ações de GEEE; ??Estudo, por categoria de atividade econômica empresarial, do percentual dos gastos com energia elétrica em relação ao faturamento bruto e ao preço final dos produtos, concluindo pelo perfil de eletrointensividade da região e mensurando a vantagem competitiva da redução de preços; ??Aferição do potencial econômico regional de redução de custos a partir do controle do excedente de reativo; ??Aferição do potencial econômico regional de redução de custos a partir da adequação documental das cargas do setor de produção, para fins de crédito de ICMS; ??Levantamento, junto à concessionária, e posterior estudo quanto ao dimensionamento incorreto em projetos elétricos e suas implicações na conta futura de energia elétrica; ??Aferição do potencial econômico regional de redução de custos a partir de adequações contratuais e opções tarifárias; ??Levantamento do potencial regional de co-geração e autoprodução, principalmente a partir de resíduos próprios; ??Levantamento qualificado das empresas aptas a se tornarem clientes livres, incluindo a opção de compra de PCHs, o que reduziria o patamar de demanda para 500 kW. Neste estudo, inclusive, pode ser abordada a hipótese da formação de consórcios de produção ou de compra de energia; 137 ??Estudos de redução de impactos ambientais relacionados à GEEE. Por fim, recomenda-se ao Mestrado em Desenvolvimento Regional da FURB a criação de uma disciplina específica destinada a estudos sobre a influência da que stão energética no desenvolvimento empresarial e regional. *********** Mesmo cônscio da imperfeição inerente ao trabalho humano, não há como não se sentir realizado ao dar forma concreta ao que dantes um turbilhão do mundo das idéias, quase um sonho. (Sandro Geraldo Bagattoli) 138 REFERÊNCIAS ABRACEEL. Associação Brasileira dos Agentes Comercializadores de Energia Elétrica. Manual do agente comercializador. Versão 30/06/2003. Disponível em: <http://www.abraceel.com.br/mac/mac.pdf>. Acesso em: 13 nov. 2003. Agência Nacional de Energia Elétrica - ANEEL. Atlas de energia elétrica do Brasil. ANEEL, Brasília, 153 p., 2002. 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Um bem, no sentido do que tem utilidade e pode satisfazer uma necessidade ou consumo, tem denominação usual no que se refere a produtos tangíveis, notadamente aqueles originados das atividades primárias e secundárias de produção. Os bens econômicos se apresentam com relativa escassez e ainda requerem diversos graus de intervenção humana em sua produção. Sob outra ótica, existem bens ditos intermediários, que são aqueles empregados na produção de outros bens ou produtos finais. Neste caso, a energia elétrica se encaixa como um bem intermediário produzido a partir de fontes primárias mas destinado tanto à produção de outros bens físicos qua nto ao consumo direto. Na etapa do consumo, a energia elétrica é perfilada na categoria dos serviços, mais especificamente públicos, os quais estão intimamente ligados ao setor terciário da economia, ou seja, diferentes daqueles produtos originados das atividades agropecuárias e industriais, de transformação e construção, pois que têm características de intangibilidade. Sandroni (1979, pp. 554, 555) enfatiza que “o setor terciário abrange os serviços em geral: (...), fornecimento de energia elétrica (...)” e que “muitos deles [serviços públicos] são pagos de forma direta (...) conforme o nível de consumo, caso da luz, água e telefone.” Assim, em sendo a atividade de produção classificada segundo a intensidade com que se dá o emprego dos fatores básicos de produção e os produtos resultantes, pode-se inferir 152 que a produção, transmissão e distribuição de energia elétrica seriam então classificadas como atividades secundárias de produção não completamente industriais, pois que também pressupõe, em certo grau, uma atividade terciária ligada ao setor de serviços. A eletricidade possui, certamente, características de produção e consumo que revestem-se de várias especificidades, a começar pela falta de tangibilidade e de visualização. Sabe-se que a energia elétrica está sendo consumida somente pela constatação do funcionamento de equipamentos e sistemas que empregam este tipo de energia. Além disso, no mesmo sentido que a indústria de transportes ou de telecomunicações, o consumidor do produto energia elétrica também é usuário de toda uma infraestrutura estabelecida para seu atendimento. Neste enfoque, a própria Constituição Federal de 1988, interpretada exaustivamente pelos principais doutrinadores (por exemplo, Meirelles, 2003, p. 320), exprime a tradição cultural e jurídica do Brasil ao considerar que o fornecimento de energia elétrica trata-se de um serviço, pois, de acordo com a letra b do inciso XII do artigo 21, a exploração dos serviços e instalações de energia elétrica e o aproveitamento energético dos cursos d´água são de competência da União que pode explorá- los diretamente ou mediante autorização, concessão ou permissão. Jannuzzi e Swisher (1997, p. 21) comentam que a energia elétrica é enfocada de uma perspectiva de “recurso” público essencial, não só por suas implicações na base da economia, mas também pela incorporação das visões sócio-ambientais que só o Estado pode legitimar através de políticas energéticas adequadas. Sem embargo, em seu artigo 175, a Constituição Federal obriga ainda que, no caso dos serviços públicos, estes sejam prestados diretamente pelo poder público, ou sob regime de concessão ou permissão, sempre através de licitação (GANIM, 2003, pp. 32-39). Esta visão também é compartilhada por Barbalho, Pimentel e Guenzburger (1992, pp. 1-43) , que também realizam suas análises sob o prisma de que para o setor elétrico, não apenas o fornecimento direto de eletricidade ao consumidor seja um serviço público, mas toda a cadeia de atividades necessária a este atendimento, incluindo as etapas de geração e transmissão. Observa-se, no entanto, que a indústria de energia elétrica, guardadas suas particularidades, difere daquelas consideradas genuinamente terciárias, como por exemplo as 153 telecomunicações, por possuir uma estruturação para o processamento de inputs - como a turbinagem de água ou a queima de um combustível - e comercialização de sua produção no mesmo sentido do que uma indústria de um bem de consumo qualquer. A indústria de energia elétrica não apenas disponibiliza uma rede física para que o usuário dela se utilize, mas entrega, por assim dizer, blocos de energia que podem ser individualmente medidos, e que serão aproveitados para os mais diversos usos finais. Destas considerações e, de acordo com Paulo R. Cavalcanti de Souza (2002, p. 74), sobremaneira com os processos de reestruturação dos setores elétricos de vários países, proveio a percepção de que a energia elétrica é bem de mercado ou uma commodity, em substituição ou ampliação do conceito de serviço público. Uma commodity pode ser produzida, substituída ou importada com facilidade, normalmente se tratando de produtos agrícolas ou minérios. Daí que, mesmo ainda dentro de uma abordagem histórica de certa forma recente e não consensual, foi empregada esta analogia de modo a facilitar a comercialização da energia elétrica sob regimes competitivos, decorrentes das reestruturações dos setores elétricos, sob os ditames das regras de mercado, ainda que em se estabelecendo tal prática, sujeitando-se a riscos de reflexos indesejáveis de contaminação pelo mercado financeiro, como a especulação inerente ao funcionamento dos mercados futuros (câmbio ou commodities). 45 Não se atendo porém, ao mérito dessa controvérsia, parece mais adequado lidar-se com essa aparente ambigüidade bem-serviço, solucionando-a partir do enfoque ou da situação sob análise. Sob o escopo econômico, portanto, como já visto no título 3 desta dissertação, a energia elétrica é produto de generalizada necessidade, aceitação e emprego diretamente pelos indivíduos, pelas famílias, nos lares e no ambiente público, em atividades de transporte, iluminação, força motriz, refrigeração, eletrotermia, radiação, “eletrônica de escritório” e outros processos descritos por Udaeta et al. (2001, pp. 161-187) como “usos finais de energia”. 45 Camargo (2005) discorda frontalmente desta abordagem, por entender ser a água um bem público e pelo fato de o parque gerador nacional estar baseado na hidroeletricidade. 154 É também o insumo de uma grande parte dos processos produtivos, de bens e serviços, influenciando sobremaneira os custos de praticamente todos os setores econômicos, haja vista que alguma parcela de energia elétrica foi incorporada às suas atividades. Munasinghe e Warford (1982, p. 245) estimaram, em estudo realizado para países em desenvolvimento, que os custos com eletricidade variam de 5 a 10% dos custos totais da maioria das empresas, podendo chegar até 30% naquelas denominadas eletrointensivas. Esta faculdade de penetração em praticamente todas as atividades econômicas e de sobrevivência modernas, sua versatilidade e eficiência conferem à eletricidade um status de fator essencial no processo de desenvolvimento (REIS e SILVEIRA, 2001, pp. 38-42). Neste sentido então, é facilmente verificável que por ser a energia elétrica um insumo básico da economia, também as variáveis macroeconômicas, como os efeitos inflacionários, a renda e o bem-estar social, têm em suas dimensões, um componente ligado à qualidade do funcionamento e à economicidade do setor elétrico. Outra característica, em se tratando de usos- finais, é que não há substitutos tecnologicamente práticos para a eletricidade no tocante ao acionamento de aparelhos domésticos, computadores e a maioria dos equipame ntos comerciais e industriais. O consumo de energia elétrica tem outra distinção que é sua natureza contínua, ainda com solicitações variadas no tempo, seja no decorrer do dia, dentro do qual ocorrem umas poucas horas de demanda de ponta (demanda máxima) 46 , ou ainda durante o ano, quando em determinados períodos ocorrem mudanças dos padrões de consumo devido à sazonalidade dos usos- finais de eletricidade (JANNUZZI e SWISHER, 1997, p.20; SMAIL, 1969, pp. 56-39). 1.1 DEMANDA E OFERTA DE ENERGIA ELÉTRICA. Para se entender a estrutura do mercado de energia elétrica, parte-se do conceito de que um mercado é um conjunto de atividades de compra (demanda ou procura) e venda (oferta) de determinado bem ou serviço, em certa região, compreendendo uma interação entre vendedores e compradores, através de regras de troca estabelecidas. A economia define a procura ou a demanda como o comportamento dos consumidores (SAMUELSON, 1979, pp. 62-66). 46 Vide item 2 do APÊNDICE B. 155 A curva da procura apresenta uma declividade negativa, representando uma conformação típica de interação entre o preço praticado e as quantidades que o consumidor estaria disposto a adquirir, vale dizer, quanto maior o preço de um bem ou serviço, menor a disposição de os consumidores continuarem a consumir o produto nos mesmos níveis, e viceversa (MANSFIELD, 1978, pp. 86-88). O grau de sensibilidade que o consumidor se comporta com relação à variação dos preços é denominado Elasticidade-preço da demanda. Um produto com alta elasticidade implica em reações de retração ou aumento de consumo proporcionalmente muito maiores que as variações de preços. O contrário também é verdadeiro, pois um consumidor que se caracteriza por uma baixa elasticidade resiste em reduzir as quantidades demandadas na mesma proporção em que o preço foi aumentado (DALGLEISH, 1969, pp. 34-39; SAMUELSON, 1979, pp. 403-409). Vários fatores podem influenciar a elasticidade-preço da procura, entre eles a essencialidade e substituibilidade do produto, seu peso no orçamento do consumidor, bem como a periodicidade de aquisição relativa aos hábitos de consumo (SANDRONI, 1999, p. 160; MANSFIELD, 1978, pp. 93-94). A energia elétrica também tem um determinado padrão de consumo ditado pela elasticidade-preço da demanda, sendo que Bitu e Born (1993, p. 37) referem-se à sua diferença principalmente de acordo com o tipo de o tipo de consumidor e seu o nível da renda (restrição orçamentária). Além disso, os consumidores de energia elétrica possuem, em maior ou menor grau, os outros determinantes da elasticidade-preço da procura, sendo ge ralmente predominantes a essencialidade do produto e a falta de substitutos diretos. Por exemplo, são setores bastantes sensíveis, ou de maior elasticidade, os de consumidores de baixa renda e as empresas eletrointensivas. O primeiro pelo fato de que a energia elétrica ocupa uma considerável porção de seu orçamento, que já é reduzido, e qualquer movimento de alta de preços impõe a redução imediata do consumo. Para as empresas eletrointensivas, por terem na energia elétrica uma grande parte da composição de custos de seus produtos, uma alta de preços pode interferir severamente na competitividade frente ao mercado em que atuam. 156 Por outro lado, os consumidores residenciais de alta renda e empresas que se utilizam de conservação térmica de alimentos, seriam de menor elasticidade, ambos influenciados pela essencialidade do produto energia elétrica e para os primeiros ainda pelo relativo pouco peso em seus orçamentos. Diferentemente do que em outros setores da economia, o produto energia elétrica é entregue ao consumidor mediante um sistema físico fixo, por meio do qual se faz o transporte de energia das fontes geradoras, através de instalações de linhas de transmissão e de distribuição de energia elétrica, ou seja, ninguém vai ao “mercado” comprar energia elétrica. O encontro entre produtores e consumidores, desta forma, é instantâneo e continuamente variável em se tratando da proporção e da freqüência do produto consumido (REIS et al., 2001, p. 148). Desse modo, fisicamente, o mercado de energia elétrica é o conjunto de um articulado e complexo arranjo de unidades produtoras e consumidoras, interligadas por sistemas de transporte de energia que viabilizam a exploração comercial da energia elétrica. 1.2 ESPECIFICIDADES DA OFERTA DE ENERGIA ELÉTRICA Oferta de energia elétrica é entendida como sendo todo o conjunto de atividades destinadas a produzir e entregar o produto energia elétrica aos consumidores, através de sua estrutura de mercado. Suas características construtivas e operacionais, bem como os recursos técnicos empregados serão os determinantes dos níveis de qualidade e de custos inerentes ao produto energia elétrica. Basicamente podem ser encontradas duas estruturas de mercado que são representativas do setor de energia elétrica: o monopólio e o oligopólio. O oligopólio é uma situação recente em que alguns ofertantes podem atender a um grande número de compradores (SAMUELSON, 1979, pp. 516, 540-545), caso que vem sendo observado após a reestruturação do setor elétrico com a figura do consumidor livre, o qual tem a prerrogativa de escolher seu fornecedor de energia elétrica, entre os vários existentes na malha brasileira. O monopólio, ao contrário, está na própria origem da indústria de energia elétrica. Dalgleish (1969, pp. 31) avalia que “não há dúvida que esta é a era dos monopólios (públicos e privados), de um ou outro tipo”. 157 Trata-se da situação em que um único produtor atende a muitos consumidores (SAMUELSON, 1979, pp. 509-545), sendo ainda nos casos da distribuição de energia elétrica, gás ou serviços de água e esgoto, considerado um monopólio natural. Os monopólios naturais, segundo Bitu e Born (1993, pp. 21-230), Samuelson (1979, p. 501) e Mansfield (1978, p. 248), são casos em que o custo médio de uma empresa diminui por intervalo suficientemente longo que permite a esta empresa produzir uma quantidade de mercadoria que atenda todo o mercado, a um custo de produção mais baixo do que o fariam duas ou mais empresas. Logo, as economias de escala são tão grandes que o mercado pode ser servido a custo mínimo por uma única empresa. As causas de sua ocorrência estão ligadas geralmente a uma combinação de fatores decorrentes do tamanho e características de custo da indústria. Um ambiente econômico deste tipo não permite a competição pois que a maior empresa pode, através do aumento do nível de sua produção, alcançar custos menores do que os de sua concorrência, levando-a eventualmente à inviabilização econômica e ao encerramento de atividades, com isso aumentando ainda mais a eficiência econômica da empresa remanescente, pela transferência da fatia de mercado da empresa extinta. A distribuição de energia elétrica é tipicamente o caso de um monopólio natural clássico. Conforme Reis et al. (2001, pp. 146-148), destina-se ao transporte de eletricidade por meio de uma rede constituída de equipamentos destinados à “ajustar” tecnicamente a energia elétrica para que o uso final possa se efetivar. Evidentes economias de escala, devidas aos custos decrescentes dentro do limite da demanda do mercado, tornam ineficiente a atividade de duas empresas distribuidoras servindo a mesma área. No entanto, a expansão horizontal não conduz necessariamente a relevantes economias de escala (BITU e BORN, pp. 21, 122). Exemplificando, não há como se viabilizar duas empresas distribuidoras de ene rgia elétrica atendendo a mesma região, com linhas e equipamentos simultaneamente ocupando os espaços públicos e cuja disputa por mais clientes leva certamente uma delas a obter vantagem de custo sobre a outra. Por outro lado, não é descabido que possam existir diversas empresas operando de forma eficiente, atendendo cada qual à regiões distintas, como se verifica no território brasileiro. 158 Deve-se frisar no entanto que, no caso da energia elétrica, a condição monopolista natural não é homogênea em todas as atividades que estruturam a oferta do mercado de energia elétrica. Além da distribuição, o setor de eletricidade tipicamente se compõe de mais dois estágios contíguos verticais, a transmissão e a geração (BITU e BORN, p. 21; MUNASINGHE e WARFORD, 1982, pp. 29-42). Os três estágios englobam o processo de condução do fluxo de carga ou de potência (load flow ou power flow) através de um sistema elétrico de potência, operando com equipamentos de diferentes níveis de capacidade e tensão (geradores, transformadores, linhas de transmissão/distribuição e uma série de equipamentos auxiliares). A geração é parte da estrutura da oferta de energia elétrica, em geral responsável por mais de 50% dos custos totais de fornecimento de eletricidade, em que as empresas não atuam em uma indústria sujeita ao monopólio natural, pois que os custos de expansão sempre são crescentes, relacionados principalmente ao tamanho da planta, o tipo de combustível e a proximidade da central em relação à sua fonte. No entanto, tampouco pode-se afirmar tratarse de um exemplo de indústria competitiva pois que os fatores econômicos acima mencionados variam de acordo com os locais de concessão de exploração e/ou os acesso a fontes de combustíveis mais econômicas (BITU e BORN, 1993, pp. 21-26, 116). A energia elétrica é um produto que não pode ser armazenado em escala adequada ao consumo de grandes blocos de energia (SMAIL, 1969, p. 55), e ainda tem que estar à disposição para consumo imediato e para acompanhar a evolução contínua da demanda mais rápida que a oferta, o que acarreta um necessário excesso de capacidade instalada para processar o combustível, incorrendo ainda em um custo adicional de estocagem. Bitu e Born (1993, p. 128), Camargo (1984, p. 2) ensinam que o fornecimento do produto energia elétrica está também consignado a desejados níveis de qualidade e de confiabilidade. Não só a energia elétrica deve ter seu fornecimento adequado a rígidos parâmetros de padronização (como por exemplo a variação de tensão e de freqüência 47 ), como também não pode conviver com interrupções, haja vista que estas apresentam conseqüências bem mais amplas (as externalidades – sub título 3.3) do que a simples suspensão da entrega da energia. 47 São parâmetros técnicos objetos de regulamentação por parte do poder concedente. 159 Com efeito, todo consumidor ou sociedade que depende da energia elétrica para a realização de suas próprias atividades enfrenta perdas econômicas ou transtornos sociais crescentes tanto quanto piores os níveis de qualidade e quanto mais longas e freqüentes as interrupções de fornecimento. Desta forma, existe um binômio custo-confiabilidade que vai orientar o preço ótimo, provavelmente além do simples custo mínimo (least-cost), segundo as escolhas sócio-políticas e econômicas que levem em conta determinados graus de risco de falha no suprimento de energia elétrica para a comunidade (BORENSTEIN e CAMARGO, 1997, pp. 30-35). Reis et al. (1997, pp. 56-61; 2003, pp. 10-15) elencam as fontes de geração elétrica, de acordo com a importância e a respectiva evolução de uso no Brasil: hidroeletricidade, termoeletricidade não-renovável, termoeletricidade renovável e novas tecnologias, compreendendo as energias eólica, fotovoltaica, oceânica e células a combustível. A geração hidráulica tem por característica que seus custos relacionam-se ao local (distância ao centro de carga), à disponibilidade de água (ciclo hidrológico) ao tamanho da central (investimentos), assim como às adequações referentes à legislação ambiental e às taxas e royalties decorrentes da utilização de cursos d´ água. Normalmente, o planejamento da expansão se atém à minimização dos custos pela ordenação da entrada de operação de centrais, de forma que as mais baratas sejam construídas antes e adicionadas ao sistema interligado (REIS, 2003, p. 251). Tanto o direito da exploração das fontes mais baratas de combustíveis (energia termoelétrica) quanto no aproveitamento hidráulico das fontes mais próximas (energia hidroelétrica) são, normalmente, assuntos de outorga de concessão pelo Poder Público, mediante processo de concorrência, baseado em futuros preços de fornecimento. A interligação do sistema elétrico impõe que, mesmo quando não estabelecidas em um curso d´água ou bacia hidrográfica comum, as centrais geradoras devem ser planejadas e operadas de um modo integrado e cooperativo, a fim de maximizar e otimizar o uso dos fluxos de água e dos reservatórios, bem como trazendo benefícios à manutenção, à confiabilidade e à diversidade hidrológica. Na geração termoelétrica ocorre uma grande diversidade entre modalidades que resultam em diferentes características construtivas, operativas e de custo. 160 Os combustíveis utilizados provêm de fontes primárias não-renováveis como as de componentes fósseis e nucleares; ou ainda de renováveis provenientes da biomassa (REIS, 2003, pp. 76-99). Assim, os custos são reflexos basicamente da escolha do combustível e do tamanho da planta, sendo que sobem na medida em que as sucessivas fontes de combustível mais barato alcancem seus máximos níveis de extração. Suas características econômicas básicas são o menor investimento inicial, menor prazo de implantação e maior flexibilidade operacional48 . Como exemplo, quanto aos custos variáveis relacionados ao consumo de combustível, Jannuzzi e Swisher (1997, p. 168) comentam que turbinas de combustão são notadamente mais caras do que centrais a carvão, sendo então destinadas a suprir cargas com menor duração (carga de pico). As termoelétricas a gás, a óleo combustível ou biomassa têm a possibilidade de implantação próximo aos centros consumidores, o que é um atrativo, mas existem limitações quanto ao porte das centrais, comprometendo a extensão das economias de escala até o ponto que possibilite o fornecimento a mercados de tamanho razoável. Com relação às denominadas novas tecnologias renováveis, Reis (2003, pp. 15-16) comenta que as gerações eólica e solar têm sofrido um processo de expansão mundial e mesmo no Brasil, seu desenvolvimento já é notado principalmente no atendimento a sistemas isolados. No entanto, suas aplicações ficam bastante vinculadas a aspectos econômicos (o alto custo das centrais solares), tecnológicos e naturais (a existência de ventos e de insolação), o que leva a planejamentos envolvendo utilizações híbridas (solar-eólico-biomassa-óleo). Uma outra opção em franco progresso de estudos e já com implantação técnica viabilizada para centrais de pequeno porte, é a utilização de células a combustível, considerada uma opção viável para o Brasil, mas também dependente de competitividade econômica em relação às outras fontes convencionais (REIS, 2003, pp. 193-214). Por fim, complementado o estudo da estrutura do setor elétrico, encontramos, fazendo a ligação do percurso entre a geração e a distribuição de energia elétrica, a transmissão de energia elétrica. A energia gerada, portanto, é transportada das fontes geradoras até os pontos de consumo, através dos sistemas de transmissão e distribuição, respectivamente (REIS et al, 2001, pp.129-159). 48 A flexibilidade operacional não é característica das centrais termonucleares e a carvão. 161 A transmissão é a extensão vertical do sistema de geração, que se compõe de um rede de linhas cuja tensão e porte físico normalmente são elevados no sentido de minimizar as perdas decorrentes do transporte de grandes níveis energia em longas distâncias. Abrangendo regiões mais extensas, faz seus escoamentos aos sistemas de distribuição através de subestações rebaixadoras de tensão (CAMARGO, 1984, pp. 1-4, 16). Stoll (1989, p. 593), Reis et al (2001, pp. 130, 135) referem-se à função da transmissão em atender às necessidades técnicas e econômicas de interligação entre fontes locais e sistemas interregionais, estruturando-se em uma rede que pode instituir múltiplos caminhos para o atendimento das diversas cargas a partir da transferência de potência de diversas fontes situadas em lugares distintos. Segundo Bitu e Born (1993, pp. 21-26), a transmissão apresenta características similares ao monopólio natural, no entanto, em grandes sistemas interligados, a existência de várias empresas cobrindo áreas adjacentes é usual, e, em geral, não contribui para aumentar os custos. No Brasil, a transmissão é fundamental para o transporte da energia elétrica de base hidráulica, cujas grandes usinas situam-se normalmente muito longe dos centros de carga (PEGADO, BERER e CHIGANER, p. 20; REIS et al, 2001, p. 135, CAMARGO, 1984, p. 16), sendo que a transmissão assume papel fundamental de equilíbrio entre regiões distantes submetidas à diversidade de regimes hidrológicos, ao propiciar a transferência de grandes blocos de energia elétrica de regiões com reservatórios cheios para aquelas que estão sofrendo secas. 1.3 O COMPORTAMENTO ECONÔMICO DOS AGENTES DA OFERTA DE ENERGIA ELÉTRICA. Notadame nte, os ofertantes de qualquer produto, no que tange à sua resposta às variações de preços, tendem a um comportamento típico representado pela curva da oferta, cuja ascendência positiva reflete a disposição em aumentar quantidades ofertadas, caso os preços aumentem, mas também de reduzi- las quando as reduções de preços se mostrarem desinteressantes em relação aos custos de produção (SANDRONI, 1999, p. 379). Sandroni (1999, pp. 199, 429) ainda expressa que, assim como a demanda, a oferta também possui variados graus de sensibilidade às variações de preços, ou seja, o 162 comportamento típico dos produtores, em tender a aumentar sua produção mediante o aumento dos preços praticados, a elasticidade, é variável de acordo com alguns determinantes. Um dos determinantes da elasticidade oferta-preço é a disponibilidade dos fatores de produção, ou seja, os diferentes graus de dificuldades em se conseguir arregimentar e coordenar recursos humanos, naturais e de capital. Outro determinante refere-se ao “fator tempo”, pois com ou sem recursos disponíveis, existe uma defasagem de tempo entre a decisão de se produzir e a real obtenção de cada tipo de produto. Neste sentido, por exemplo, a resposta dos produtores às sinalizações de preços pode ser tanto mais rápida quanto o produto a ser fabricado esteja enquadrado em um tipo de mais rápida organização da capacidade da empresa (MANSFIELD, 1978, pp. 221225). Diante do exposto, conclui-se que a oferta de energia elétrica é essencialmente inelástica no curto prazo, pois não há como alocar, de forma rápida, os recursos de produção necessários para a expansão da produção (empreendimentos civis e eletromecânicos), devido inclusive ao elevado prazo de maturação do empreendimento. No entanto, dentre as formas de geração, há que se notar que boa parte das alternativas de geração térmica, quando localizada próxima aos centros de carga e com disponibilidade de combustível, é sem dúvida bastante mais elástica e portanto mais fácil de se implementar do que a de base hidráulica, conquanto esta tenha que se localizar normalmente longe dos centros de consumo e dependendo ainda de extensões de linhas de transmissão. Continuando a análise do próprio negócio de energia elétrica, verifica-se que, pelo fato de situar-se em um mercado em constante expansão, com baixa elasticidade da oferta, necessita sempre estar posicionado com um excedente de capacidade instalada de geração, transmissão e distribuição. Na geração, além disso, existe a questão da estocagem, tanto para o armazenamento do combustível (seja a água ou derivado do petróleo) quanto para seu processamento (a geração propriamente dita). Deve-se lembrar que a estrutura de oferta de energia elétrica exige, dentro de uma política energética nacional, a aptidão em sustentar o crescimento econômico futuro, em cenários de longo prazo e de planejamento com incertezas (BITU e BORN, 1993, p. 134; SILVEIRA, RIBEIRO e PINTO, 1998; JANNUZZI e SWISHER, 1997, pp. 168-173). 163 Por isso é que se trata de um negócio grande intensividade do uso de capital financeiro (capital intensivo), implicando em que os investimentos situam-se em patamares por volta de 400% da receita anual das empresas do setor. Da mesma foram, o tempo de retorno dos investimentos em geração de energia elétrica é muito longo, comparativamente a outros setores da economia (BITU e BORN, 1993, pp. 21-26). Além disso, como já visto no título 3, o setor de eletricidade apresenta externalidades econômicas associadas à produção e ao consumo, que podem afetar positiva ou negativamente outros agentes econômicos ou a sociedade. É o caso das interferências nocivas ao meioambiente associadas à produção de energia elétrica, nos efeitos positivos da eletrificação e do incentivo ao consumo produtivo em regiões menos desenvolvidas ou ainda os efeitos das restrições ao consumo em períodos de baixa disponibilidade de energia primária. Portanto, as características particulares do produto e do mercado de energia elétrica, resumidas até aqui, são de fato motivos para que a sociedade adote alguma espécie de normatização, fiscalização ou regulamentação da atividade (BORENSTEIN e CAMARGO, 2997, p. 39-43). Parece sensato afirmar que um bem tem características que o tornam público, quanto maiores forem seus benefícios externos associados à sua produção e consumo, ou seja a ocorrência de externalidades econômicas. Um empreendimento que produz um bem privado puro, restringe sua utilidade apenas ao comprador e ao produtor. Por outro lado, muito embora de difícil avaliação precisa, os benefícios atribuídos à produção e ao o consumo de energia elétrica voltadas hipoteticamente a um determinado consumidor podem perfeitamente serem estendidos ao restante da sociedade sem alterar a relação anterior existente, desde que haja em sua concepção, as características de um bem público, e a necessária complementação dos mecanismos de mercado por parte do ente estatal. As principais justificativas para a regulamentação das atividades econômicas, restringindo ou procurando substituir o livre funcionamento das forças de mercado, dizem respeito às chamadas “imperfeições de mercado” que afetam a eficiência alocativa, destacando-se aquelas decorrentes da existência de monopólios naturais, assim como da 164 ocorrência de concorrência destrutiva, potenciais situações encontradas no setor de energia elétrica. Em se tratando da indústria da energia elétrica, o controle de preços, lucros e de qualidade de fornecimento pelo poder público é uma forma típica de regulamentação que tem sido empregada para evitar lucros exagerados em atividades monopolistas. Também a intervenção direta do Estado, retendo a propriedade de empresas produtivas pode ser vista como uma forma de ação sobre as imperfeições do mercado. Historicamente, existe uma similaridade entre o Brasil e outros países quanto às etapas ou fases institucionais do setor elétrico, desde uma origem descentralizada e de fraca regulamentação, passando por um período de forte intervenção estatal e, em seu esgotamento, sofrendo novo refluxo liberalizante, construído não só sobre problemas endógenos ao negócio mas fundamentalmente devido à uma nova conjuntura econômica internacional. 165 2 2.1 HISTÓRICO INSTITUCIONAL-LEGAL DO SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO A PRIMEIRA FASE, ATÉ 1930. Os primórdios da indústria de energia elétrica brasileira aconteciam sob uma perspectiva política e em um marco institucional liberal, onde o Estado não intervinha no setor, aguardando que os agentes privados suprissem as necessidades do mercado. Barbalho, Pimentel e Guenzburger (1992, pp. 1-43) comentam que, iniciado em fins do século XIX, o abastecimento de energia elétrica foi por muito tempo questão geralmente de âmbito municipal, sendo que a sociedade era atendida de forma bastante limitada pelos serviços de eletricidade. Conforme a jurisdição que se exercia sobre o curso d´água, cabia à União, aos estados ou aos municípios conceder a exploração, editar e fiscalizar contratos e definir novas tarifas. As empresas de energia elétrica tinham as mais diversas constituições, nacionais e estrangeiras, públicas e privadas, e incluíam autoprodutores que forneciam, além do seu próprio consumo, para a região em que se encontravam. De fato, após o centralizador Império Brasileiro, a República comportou-se de forma bastante descentralizada na outorga de poderes concessórios aos estados e municípios. Desta época data inclusive o aparecimento dos primeiros empreendimentos e ordenamentos jurídicos/legais do setor elétrico brasileiro (MELLO, 2000, p. 8). O aumento do consumo de energia elétrica, associado ao crescimento econômico do país, fomentou a expansão dos sistemas elétricos, incorporando usinas de maior porte e regiões cada vez maiores. Não tardou a se exigir uma maior sofisticação dos dispositivos regulatórios, a bem da verdade até aí esparsos e incipientes, cuja organização se consolidou no Código de Águas (Decreto 26.643, de 10/07/34), que regulamentou o aproveitamento hidroelétrico, a concessão de exploração de energia elétrica, o regime econômico- financeiro das concessionárias, as tarifas e a fiscalização dos serviços, inaugurando uma nova etapa institucional (GANIM, 2003, p. 25). 166 2.2 DE 1930 A 1964. Nessa fase ocorre um gradual aumento da intervenção Estatal, tanto na questão da expansão quanto da regulamentação. Borenstein e Camargo (1997, pp. 69-100) lembram que o Código de Águas decorreu da regulamentação da Constituição de 1934 que no capítulo Da ordem econômica e social, introduziu o conceito da intervenção estatal na exploração de riquezas naturais como minas e quedas d´água. Neste sentido, o Código de Águas estabeleceu a União como proprietária de todas as fontes de energia hidráulica existentes, bem como a necessária concessão, pelo Presidente da República, a qualquer aproveitamento, público ou privado. No que se referia aos órgãos do setor elétrico, o Código de Águas conferiu competência na área de estudos, autorizações, concessões e de tarifação ao Serviço de Águas do Departamento Nacional de Produção Mineral do Ministério da Agricultura. Importante acontecimento foi a criação do Conselho Nacional de Águas e Energia Elétrica (CNAEE) em 1939, cuja função era de apreciar, superiormente questões relativas ao aproveitamento racional do potencial hidráulico do país e estudar assuntos pertinentes à indústria de energia elétrica (BARBALHO, PIMENTEL e GUENZBURGER, 1992, p. 35). O CNAEE foi um órgão da administração pública de vida das mais longas, perdurando até o final da década de 1960. Logo em seguida, caminhou-se para a definição de que os beneficiários exclusivos das concessões seriam brasileiros ou empresas organizadas no Brasil, entendimento reflexo do movimento nacionalista que havia emergido com a revolução de 1930. Existia ainda uma parcela considerável dos setores nacionalistas que defendia a total intervenção estatal no setor elétrico, aproveitando o ambiente internacional neste sentido e tendo por outros motivos as constantes denúncias de lucros excessivos das companhias estrangeiras, as remessas de divisas para o exterior e a eliminação da autoprodução de energia elétrica por meio de geradores a óleo diesel, devido ao alto custo. Havia como exemplo inclusive a estratégia adotada pelo “New Deal” americano que, dentro de sua política de desenvolvimento energético, criou empresas estaduais, federais e até mesmo empregou as forças armadas para a construção de hidroelétricas de grande porte (MELLO, 2000, p. 14). A oportunidade chegou após o encerramento da 2a grande guerra: 167 O pós-guerra indicava uma retomada do processo de desenvolvimento econômico, iniciado em 1930, com vistas à industrialização do país. Nesse contexto, o Estado incrementava sua intervenção no setor elétrico, dando continuidade ao processo iniciado no primeiro governo Vargas, e de certa forma não implementado até o pós-guerra, por pressões dos grupos estrangeiros atuando no Brasil (DIAS, 1988; SKIDMORE, 1992 ; MEDEIROS, 1993 apud BORESTEIN e CAMARGO, 1997, p. 72). Assim, os projetos já gestados no último governo Vargas deixavam claro que um novo modelo, de plena intervenção estatal no setor elétrico, abarcaria as funções de regulamentação, planejamento, investimento, construção e operação e venda da energia elétrica. Ressalte-se, porém, que a regulamentação do Código de Águas com relação ao caráter operativo das questões da energia elétrica só foi definida pelo “Regulamento dos Serviços de energia elétrica” (Decreto 41.019 de 26/05/57) inaugurando a fase da preeminência do Estado como empresário através de concessionárias estatais e o virtual desaparecimento das grandes empresas privadas (1957-1980). O processo de intervenção estatal foi se consolidando com a criação do Ministério de Minas e Energia (MME) em 1960 e posteriormente da ELETROBRÁS em 1962. 2.3 DE 1965 A 1990. A década de 1960 assiste à estruturação de um aparelho estatal forte, atuando intensamente nas áreas institucional e financeira, nacionalizando e praticamente estatizando o setor. O MME e a ELETROBRÁS absorveram funções até então de competência do CNAEE, sendo este incorporado à estrutura do ministério. Ocorreu que, com a organização do MME, criou-se em 1965 o Departamento Nacional de Águas e Energia – DNAE, o qual iniciou a desenvolver atividades de certa forma em duplicidade ao CNAEE. Tal situação redundou, por fim, em 1969, na extinção do CNAEE e do DNAE, consistindo na transferência oficial de todas as suas atribuições para o então recém criado Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica – DNAEE. Este passa então a ser o organismo destinado a promover a regulação do setor elétrico, através do disciplinamento, direto e indireto das atividades de geração, transmissão, distribuição e comercialização. 168 De 1968 a 1976 verificou-se uma fase de grandes e acelerados investimentos no setor elétrico, de base estatal, mas também alicerçado em uma política de captação de recursos via tarifas de energia elétrica. O avanço do governo federal no setor de energia elétrica ampliou-se após as reformas econômicas implantadas durante o período 1964/67 sendo a política tarifária associada aos financiamentos internos e externos os causadores do programa de investimentos em energia elétrica do período 68/73, estimulando sobremaneira setores de materiais e serviços nas áreas de engenharia e eletromecânica. Em 1974 presencia-se o advento da política nacional de equalização tarifária em todo o território nacional, criando a Reserva Global de Garantia, mecanismo contábil- financeiro destinado a prover recursos às concessionárias, tendo por base a diferença positiva entre a remuneração da concessionária e a remuneração média do setor. O período compreendido entre a década de 70 e o início da década de 80 também foi o marco de um ciclo mundial de depressão econômica, que para a maioria dos países do terceiro mundo, ainda permanece sob reflexos resultantes das crises do petróleo e dos juros. No Brasil, é o início de um ciclo de crise econômica, implicando em insuficiência na captação de recursos, ineficiente recomposição tarifária, medidas de controle de inflação via tarifas e com isso o progressivo agravamento da situação financeira das concessionárias. Sauer (2002, p. 124) entende que a situação inicial do setor, de grandes empreendimentos e de crescimento de suas organizações, perdurou ainda até o final da década de 1970, mas a crise financeira do Estado brasileiro implicou no enorme endividamento das empresas e à paralisação de suas atividades, somando-se ainda a crescente influência política nas administrações das organizações. O setor elétrico é duramente afetado pela intervenção governamental na gestão das empresas estatais, por intermédio do controle de gastos e na contenção tarifária. As tarifas de energia elétrica eram até então calculadas como decorrência dos custos contábeis de produção, transmissão e distribuição. Segundo alguns, a fixação dos preços com base no custo do serviço tratou-se de uma intervenção direta do Estado que, ao lado da retenção da propriedade de empresas produtivas, levou à uma reduzida formação de lucros, incompatível com as necessidades de expansão do 169 próprio sistema, devido à falta de independência do órgão regulador (DNAEE) diante das pressões conjunturais e às interferências políticas nas empresas concessionárias. Diante dessa nova visão, entre 1977 e 1981, foram realizados estudos pelo DNAEE e a ELETROBRÁS para propor revisão da estrutura das tarifas de energia elétrica. Em 1981, através do Decreto 86.463, faz-se a modificação dos critérios para definição da estrutura tarifária, de base nos custos contábeis para base nos custos marginais. Essa visão equiparou a estrutura industrial do setor à da produção de um bem de consumo, uma commodity, adaptando e associando os mesmos conceitos teóricos da microeconomia, como desenvolvido pioneiramente na França e utilizados em países europeus e nos EUA, sendo esta metodologia adotada posteriormente pelo Banco Mundial (SOUZA, 2002, pp. 77-82). Borenstein e Camargo (1997, pp. 69-100) avaliam que a crise institucional do setor elétrico brasileiro, alimentada pelo estrangulamento tarifário e a diminuição dos recursos para o setor, foi agravada quando da promulgação da Constituição Federal de 1988, com a extinção de receitas até então garantidas como o Imposto Único sobre a Energia Elétrica (IUEE) e da alíquota reduzida de IR para as empresas do ramo. Sauer (2002, p. 126) expressa que, no final dos anos 80, o contexto internacional já induzia fortemente a mudança de orientação política, com o revigoramento do pensamento liberal, com maior destaque nas administrações Reagan e Tatcher. Moorhouse (1996) explica que as tendências básicas presentes nas reformas dos setores elétricos de vários países se originaram a partir do ideário denominado “neoliberal”. A desregulamentação promovida pelos EUA a partir de 1978, a privatização ocorrida na Inglaterra e a parcial reforma na Noruega foram experiências da década de 1990 que tiveram por intuito introduzir a competição nos mercados de eletricidade, originalmente composto por empresas verticalizadas (geração-transmissão-distribuição) e monopolistas. Nos EUA, em 1978, o PURPA (Public Utility Regulatory Policy Act) já definia o direito dos co-geradores e dos produtores independentes (não concessionários) de vender eletricidade às concessionárias locais. Já em 1992, a estes agentes foi estendido o direito de venda à qualquer concessionária da rede elétrica (grid), abrindo o mercado atacadista (wholesale) à competição da oferta de qualquer produtor/gerador. Contestou-se veementemente a tradicional justificativa econômica da regulação e da propriedade estatal dos monopólios naturais, cujas economias de escala e de finalidade 170 associadas às economias da integração vertical significavam que o custo unitário era declinante durante uma larga faixa de produção. Interessante é notar, contudo, que, mais do que a ênfase na redução de custos, a discussão era voltada muito mais à confiabilidade e eficiência que pequenas centrais térmicas, de risco distribuído, poderiam oferecer em relação às grandes centrais, cuja eficiência era basicamente estática em função da própria redução de custos. Na Inglaterra foi experimentada uma das mais radicais e completas transformações da regulação e da estruturação institucional de um sistema elétrico nacional, visando a competitividade de forma plana, envolvendo a transferência da propriedade do Estado para a iniciativa privada, em um processo de desverticalização da indústria que separou as atividades da geração, transmissão e distribuição. Segundo Paulo R. Cavalcanti de Souza (2002, pp. 72-82), a incerteza decorrente da crise institucional do setor, originária principalmente da falta de sustentação financeira, aliouse à disseminação das teses neoliberais e a pressão externa para a adoção dos princípios do Consenso de Washington, articulando então a ideologia que pregava a solução homogênea aos países do terceiro mundo: a privatização dos serviços de energia elétrica. 2.4 DE 1990 A 2004. Nesta época, ocorre a tentativa de efetuar a mudança de Estado-empresário para regulador de mercado. Não só o Brasil mas vários países do mundo também procuraram implementar mudanças institucionais, através de reformas de desregulamentação, estímulo à competição e tentativa de viabilização de uma maior participação do capital privado na área da infraestrutura (ROSA, TOLMASQUIM, PIRES, 1998). Borenstein e Camargo (1997, pp. 69-100), admitem que a partir de 1990 se conjugam fatores que criaram as bases para transformações institucionais profundas. À completa perda de alavancagem financeira do Estado, as práticas equivocadas de tarifa e remuneração pelo uso macroeconômico e político das empresas e sua conseqüente descapitalização aliaram-se, no processo de democratização do país, a retirada da base 171 financeira da indústria pela Constituição de 1988 e à no va ordem econômica mundial adequada ao ideário neoliberal. Desta forma, no Brasil, os anos 90 também ensejaram o início dos arranjos para um novo modelo, inspirado basicamente na experiência inglesa, cujos estudos foram encomendados à consultoria Coopers & Lybrand. O projeto recebeu profundas alterações operativas, buscando adaptá- lo às especificidades do sistema de base hidráulica, mas sem romper com os aspectos de mimetização das relações de mercado, cuja lógica era a da desregulamentação do setor e da privatização dos ativos estatais. Em 1993, por intermédio da Lei no 8.631, extingue-se a equalização tarifária e a remuneração garantida, no intuito declarado de corrigir as distorções econômico-financeiras das concessionárias, mas, além disso, com a finalidade de preparar o sistema de estabelecimento dos preços através da competição e abrir caminho para a reestruturação da indústria de energia elétrica. Sauer (2002, p. 141), a respeito da regulamentação da Lei 8.631, relata que: O marco inicial da liberalização e privatização do setor elétrico foi a aprovação, pelos Decretos 915/93, 1009/93 e pela Portaria 337/94, da criação de consórcios entre concessionárias e autoprodutores para a exploração de aproveitamentos, assegurando livre acesso à malha federal de transmissão, propiciando a competição na geração e definindo as condições de comercialização. Em 1995, porém, ocorreu um verdadeiro avanço em direção à nova ordem econômica, com a vigência da Lei 8.987, denominada Lei das Concessões, a qual definiu profundas e importantes alterações para o setor de prestação de serviços públicos brasileiros, abrindo espaços para a participação efetiva da iniciativa privada no setor de EE, envolvendo regras e prazos para a exploração das concessões, para a licitação de novos aproveitamentos e a regulamentação de direitos e deveres dos usuários. Em seguida, a Lei 9.074 introduziu não menos essenciais adições e alterações à Lei 8.987, ao legislar sobre o Produtor Independente de Energia Elétrica, figura autorizada a produzir, por sua conta e risco, energia elétrica para o comércio de toda ou parte e flexibilizou o monopólio de distribuição de energia elétrica, quebrando a exclusividade do fornecimento ao permitir que, dentro de determinadas condições, os consumidores façam a opção pelos seus fornecedores (Washington: Embaixada Brasileira, 1995). Em decorrência do estabelecimento dessa base legal, as reformas da indústria de energia elétrica prosseguiram, tendo como eixo dinâmico a intenção da rápida privatização 172 das concessionárias, advindo o anúncio da privatização de todas as empresas controladas pela Eletrobrás. Esta ação fez parte de um conjunto de princípios fundamentais da revisão do regime de serviços elétricos (MME, Reestruturação e desenvolvimento do Setor Elétrico, 1998; SAUER, 2002, pp. 141-147; PEGADO, BERER e CHIGANER, pp. 19-23; SOUZA, 2002, p. 79) : ??Considerar a energia elétrica como uma commodity, substituindo-se os monopólios regulamentados pela competição nos segmentos que não se caracterizem como monopólios naturais, a exemplo da geração. ??Desverticalização do setor, desmembrando-se as funções de geração, transmissão e distribuição. ??Livre acesso aos sistemas de transmissão e distribuição para os produtores de energia elétrica, buscando criar condições de atrair o capital privado. ??Mercado de negociação competitiva, sujeito no entanto à ação reguladora do governo por intermédio de uma agência independente. ??Direito progressivo de os consumidores, a partir de os de maior demanda, escolherem e negociarem seu suprimento livremente com os supridores (consumidores livres). ??Privatização da indústria. Em 1996, pela Lei 9427/96, é criada a Agência Nacional de Energia Elétrica ANEEL, organismo destinado a exercer a função reguladora do Estado sobre o ambiente de mercado instaurado no setor elétrico, declarando a nova postura do Estado na qual não há a intenção de deixar a regulação econômica ao mercado, mas sim de “proporcionar condições favoráveis para que o desenvolvimento do mercado de energia elétrica ocorra com equilíbrio entre os agentes e em benefício da sociedade”(SAUER, 2002, p. 144). Na mesma linha, a Lei 9648/98 e o Decreto 2655/98 passam a dispor o modo pelo qual funcionará o Mercado Atacadista de Energia (MAE) e o Operador Nacional do Sistema (ONS). 173 O MAE é o ambiente no qual se centralizam as operações mercantis e contratuais de compra e venda de energia, de todos os geradores, inclusive os Autoprodutores e os Produtores Independentes de Energia. Já o ONS deve definir os planos de operação do sistema interligado, sendo o organismo técnico de planejamento e operação do sistema interligado, mas também com funções de cálculo dos preços de curto prazo (spot), decorrentes da análise física dos fluxos energéticos presentes na rede. No âmbito das políticas setoriais, de competência governamental, foram criados ainda dois órgãos deliberativos. O Comitê Coordenador do Planejamento da Expansão dos Sistemas Elétricos – CCPE, como a entidade responsável pelo planejamento da expansão do sistema elétrico e o Conselho Nacional de Política Energética – CNPE, que tem por principais objetivos a promoção do aproveitamento racional de energia, a proteção ao consumidor em termos de preços, qualidade e oferta de produtos, a proteção ao meio-ambiente, o incremento do uso do gás natural, a utilização de fontes renováveis de energia, a promoção da livre concorrência, a ampliação da competitividade e a atração de capitais para a produção de energia. À guisa de síntese, a lista e a figura a seguir definem a proposta de reestruturação encaminhada para o setor elétrico brasileiro (SOUZA, 2002, p. 79; SAUER, 2002, p. 144; CONDE, BRANCO, 2002, p. 166): ??Desagregação vertical das concessionárias até então integradas, separando os segmentos de geração, transmissão, distribuição e comercialização ??Eliminação das anteriores restrições aos autoprodutores e produtores independentes de energia, com regulamentação própria e livre acesso à rede. ??Empresas geradoras atuando em um mercado concorrencial, todas as concessões licitadas tratando os aproveitamentos como Produtores Independentes de Energia, ao contrário das concessões de serviço público de energia anteriormente aprovadas pelo governo. ??Empresas distribuidoras mantendo monopólios regionais apenas sobre os consumidores ditos cativos, pois criou-se a figura dos consumidores livres, de status opcional, a partir de determinados pré-requisitos, cuja condição essencial é a de escolha de seus fornecedores, em contratos livremente negociados. 174 ??Manutenção inicial da rede de transmissão estatal (rede básica), com vistas a manter a equidade no transporte de energia e possibilitar a competição. ??Tarifas reguladas para consumidores cativos e preços competitivos e desregulamentados para clientes livres e suprimento das concessionárias. ??Comercialização podendo ser praticada por agentes comercializadores, com livre trânsito entre agentes produtores e consumidores, prestando serviços de corretagem, consultoria e comercialização de montantes de energia. ??Criação de agência reguladora autônoma (ANEEL), órgão implementador de políticas, regulador e fiscalizador, substituindo o DNAEE que era ligado à administração direta. ??Criação do Operador Nacional do Sistema (ONS), ente destinado à necessária e imparcial gestão técnica do sistema elétrico, objetivando o mínimo custo global da operação interligada e operacionalizando o mercado competitivo através do fornecimento dos dados necessários ao cálculo dos preços de curto prazo (spot). ??Criação do Mercado Atacadista de Energia (MAE), ambiente no qual seriam efetuados os cálculos dos preços spot e o registro das transações econômicofinanceiras de energia elétrica, alterando a prática de preços regulamentados de geração e contratos renováveis de suprimento. 175 Figura 8 – Estrutura do setor elétrico brasileiro após as reformas. Fonte: ONS - OPERADOR NACIONAL DO SISTEMA. Modelo <http://www.nos.org.br/nos/institucional/index.htm>. Acesso em: 05 out. 2003. 2.5 setorial. Disponível em: SITUAÇÃO ATUAL E MUDANÇAS PREVISTAS. Em 2001, viveu-se a confirmação de previsões de críticos de que o modelo implementado não estava conseguindo acrescer capacidade instalada em um ritmo suficiente para a tender ao crescimento do consumo. O setor privado, tido como o potencial alavancador do processo de expansão do setor elétrico após as reformas, não teve participação mais acentuada do que adquirir ativos estatais existentes e, em alguns casos, realizar empreendimentos direcionados às suas próprias necessidades, como o fizeram algumas indústrias eletrointensivas (BAGATTOLI, 2001, p. 2B; PIRES, RODRIGUES, 2001, p. A-3). De acordo com Sauer (2002, p. 149) a reforma foi feita em um momento de escassez de oferta, expondo os consumidores às pressões por aumento de preços e confirmando que nenhum mecanismo de mercado por si só pode equilibrar os objetivos intrinsecamente conflitantes da obtenção da energia mais barata assegurando a segurança do suprimento. Conde e Branco (2002, pp. 166-176), alertam para a vulnerabilidade da auto sustentação do modelo firmado em um mercado em bases puramente competitivas, haja vista o período crítico da oferta e pela forte dependência de utilização de recursos hídricos. 176 Opiniões nem tanto radicais apontam que, de fato, não houve a consolidação de todas as ações previstas nas reformas e desta forma, viveu-se uma transição sem regras claramente definidas, sem coordenação efetiva entre os órgãos governamentais de política energética, e com o governo interferindo ainda demasiadamente na gestão do setor, o que inibiu a participação do capital privado (PIRES, RODRIGUES, 2001, p. A-3; OLIVEIRA, 2001, p. A3).49 A partir de 2003, no entanto, com a assunção de um governo de discurso ideológico distinto do anterior, iniciaram-se estudos para a definição de uma nova proposta de modelo para o setor elétrico. Com efeito, ao final de 2003, através de um conjunto de atos normativos, o governo implantou as bases do que se pode chamar de “novo modelo energético” (MME, 2003) Este novo modelo estabelece mudanças cujo eixo norteador se faz presente principalmente em relação ao fortalecimento do planejamento estatal em detrimento da orientação pelo mercado, à redefinição da metodologia de cálculos de preços na geração em substituição à competição e às outorgas de concessões pela menor tarifa em substituição ao melhor preço de venda do aproveitamento energético. A produção de energia elétrica volta a ser, no dizeres de Ganim (2003, p. 253) uma atividade com maior regulação por parte do Estado. Institui-se dois ambientes de contratação de energia, um através de contratação regulada (Ambiente de Contratação Regulada – ACR), e outro livre (Ambiente de Contratação Livre), este último estimulando a iniciativa dos consumidores livres e dos agentes comercializadores. Entre suas mudanças mais significativas, está a sucessão do MAE pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), com redirecionamento para contratações de longo prazo e assumindo as funções de contabilização e liquidação de contratos no ACR e ACL. Ao invés de um mercado concorrencial total, estabelece-se um pool de contratação regulada, cuja compra de energia pelos concessionários, será feita conjuntamente, através de preços médios (rateios de custos) entre as diferentes fontes de energia elétrica, alterando a 49 Camargo (2005) adiciona que a questão do planejamento do setor foi virtualmente abandonada com a extinção do GCPS da Eletrobrás, sem que outro órgão viesse a lhe substituir naquele momento. 177 estrutura de formação de preços do mercado direcionado aos consumidores cativos (das concessionárias) mas aparentemente preservando as atuações do autoprodutor, do produtor independente e do consumidor livre. Mesmo já sofrendo críticas de vários setores políticos e econômicos, inclusive através de ações judiciais. Segundo ainda Barbosa, Barbosa e Leal (2004, p. 150), o novo modelo retrocedeu quanto à liberação do mercado a varejo, no que se refere aos “tempos de antecipação” de avisos para a troca de fornecedores, chegando a até 3 anos para aqueles consumidores com carga superior a 10 MW. De todo modo, previu-se que o novo modelo começaria a ser efetivamente testado a partir do segundo semestre de 2004, com os primeiros leilões de energia sob a nova sistemática (EFEI Energy News, 2003). 178 3 A COMERCIALIZAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA NA ATUAL ESTRUTURA DO SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO50 Já tendo abordado os aspectos institucionais e legais do setor elétrico brasileiro, passa-se ao estudo dos fluxos transacionais do sistema elétrico, relativos à operacionalidade da comercialização de energia elétrica, do ponto de vista do consumidor. É importante ressaltar que a dimensão da comercialização de energia elétrica veio justamente a ganhar destaque após as reformas ocorridas a partir de meados da década de 1990, pois que antes sua perspectiva era demasiado simplista, ocorrendo basicamente em uma relação comercial com a concessionária de energia elétrica local, seja para a compra ou para a venda de energia elétrica. A condição característica e usual anterior às mudanças nos marcos regulatórios do setor elétrico era a de que a estrutura do setor, sendo verticalizada, impunha que a concessionária local realizasse a comercialização através da estrutura de mercado característica da distribuição de energia elétrica, que é o monopólio natural, com tarifas reguladas (GOMES, 1997, pp. 136-144) . Com relação ao consumidor, não era dada qualquer opção de escolha de seu fornecimento de energia elétrica. Ao consumidor empresarial, então, restava uma atuação basicamente restrita a um gerenciamento interno voltado à eficiência do consumo de energia elétrica, reduzindo desperdícios e procurando diminuir as despesas com esse insumo, ou ainda estabelecer algum empreedimento de autoprodução de energia (DUKE ENERGY, 2003). Quanto à autoprodução de energia elétrica, segundo publicação da Embaixada Brasileira em Washington (1995), nota-se que a existência de autoprodutores no setor de energia elétrica brasileiro é bastante antiga e razoavelmente regulamentada. Vários dos concessionários de serviços públicos de energia elétrica absorvidos pelas estatais nas décadas de 1950 a 1970 haviam sido originados a partir de indústrias que, necessitando energia elétrica, investiram na sua geração para uso próprio e posteriormente para comercializar os excedentes nas regiões mais próximas de suas instalações. 50 Importante salientar que esta análise foi realizada antes da efetiva divulgação do modelo do setor elétrico ao final de 2003 e cujas conseqüências se farão sentir no decorrer de 2004. As referências de “novo modelo”, “atual” e afins, relacionam-se às regras introduzidas pelas reformas empreendidas a partir de 1995. No entanto, afora alguma reorientação mais intervencionista por parte do Estado, permanecem ainda pilares básicos de competição no varejo e no atacado, com participação do capital privado no setor. 179 O autoprodutor podia eventualmente vender seus excedentes, porém submetido à várias restrições a tal comercialização (venda prioritária para a concessionária local, tarifa limitada ao custo marginal de expansão da região, etc..). O novo arranjo institucional definiu a desverticalização das atividades de produção, transmissão e distribuição, além de criar a desvinculação da atividade de comercialização de energia elétrica. A par dos comentários de Seppälä e Lehtonen (1999, pp. 104-111), a respeito da reformas no setor elétrico da Finlândia, bem como da análise de Gomes (1997, pp. 136-144), verifica-se que o Brasil seguiu tendências internacionais comuns de reestruturação, entre elas a separação das atividades técnicas de operação do grid daquelas relacionadas à comercialização de energia, implicando em um notável aumento da complexidade de gestão do sistema elétrico, por parte das empresas do setor. Neste sentido, formulou-se uma nova dinâmica na qual o consumidor de energia elétrica se depara com novas e interessantes oportunidades, porém dentro de um ambiente muito mais complexo do que anteriomente se presenciava. O novo modelo baseia-se portanto na separação das funções de coordenação da operação energética dos fluxos físicos, a cargo do Operador Nacional do Sistema (ONS) das funções de natureza comercial, ligadas ao Mercado Atacadista de Energia (MAE) 51 . O MAE, como o ambiente de negócios de compra e venda de energia, deve viabilizar as transações de energia elétrica entre os diversos agentes do mercado, onde são registrados os contratos de compra e venda bilaterais, e efetuado o gerenciamento do mercado livre de curto prazo (spot) (MAE, 2003, pp. 19-23). Os contratos bilaterais personificam operações de compra e venda de energia elétrica livremente negociadas entre as partes, seja no curto (até 2 anos) ou no longo prazos. Assim, a criação do segmento da comercialização de energia elétrica veio a solucionar a restrição econômica dos monopólios naturais presentes na transmissão e na distribuição, ao promover a livre negociação da compra e venda de energia elétrica entre os agentes de mercado presentes no setor elétrico, abaixo relacionados: 51 Mesmo que o MAE esteja submetido à reestruturação que vai extinguí-lo como ente do setor elétrico (vide item 4.2.1), algumas de suas funções e mecanismos permanecem vigentes, do que se conclui ser importante a análise básica de seu funcionamento. 180 ??Concessionários de geração. ??Produtores Independentes. ??Importadores e exportadores de energia elétrica. ??Concessionários de distribuição de energia elétrica. ??Autoprodutores. ??Agentes comercializadores. ??Consumidor Livre (na compra). No entanto, todos os contratos bilaterais devem ser registrados no MAE, para fins de contabilização das operações de comercialização de energia. Os valores contratados obviamente são muito raros de serem atingidos, quase sempre haverá variações para mais ou para menos nos montantes efetivamente medidos pelo sistema elétrico. Para sanar esse problema foi instituído o mercado de curto prazo, ou “spot”, que vai apurar o resultado de aferições entre a energia elétrica faltante ou excedente dos contratos bilaterais, resultando em montantes de energia residuais que são liquidados mediante o “preço MAE”, em procedimentos semelhantes ao de uma bolsa de mercadorias (commodities), cuja obtenção tem por base os mecanismos de oferta e procura. Simplificadamente, o preço MAE é obtido pela inter-relação entre modelos de obtenção de custos marginais de operação (que definem os custos de curto prazo), associados à otimização da operação (programação de despacho de carga) gerenciada pelo ONS (MAE, 2003, pp. 19-23; DUKE ENERGY, Guia do cliente livre, 2003, tema 6.9). Desta forma, o preço MAE será utilizado para liquidar as transações ente os agentes de mercado, complementando os contratos bilaterais. A diferença entre a energia produzida ou consumida e a energia contratada, associadas a outros encargos do sistema, será objeto de verificação mensal, por parte do MAE, para proceder a cobrança dos agentes “devedores” ou a restituição dos “credores”. Por exemplo, se um comprador consumiu mais energia do que contratou, a diferença será cobrada pelo preço MAE `a época da contabilização e da liquidação financeira (MAE, 2003, p.60-63). 181 3.1 O CONSUMIDOR NO PROCESSO DE COMPRA DE EN ERGIA ELÉTRICA Dentro da visão de implementação da competição em nível da comercialização de energia elétrica, a flexibilização do monopólio da distribuição de energia elétrica foi efetuada através de normatização legal, tratando em separado a atividade de comercialização da parte operacional propriamente dita, haja vista que a característica de monopólio natural impede que seja feito isso fisicamente sem que os custos médios do setor aumentassem indevida e indesejavelmente. A flexibilização foi posta em prática através da lei no 9.074/95, com modificações introduzidas pela Lei no 9.648/98, a qual estabeleceu a possibilidade de os consumidores optarem por seu fornecedor de energia assegurando o livre acesso aos sistemas de transmissão e distribuição (DUKE ENERGY, Guia do cliente livre, 2003, tema 5, 1). Aparece então, a figura do consumidor livre. Também denominado cliente livre, é o consumidor de energia elétrica que pode optar pela compra de energia elétrica junto a qualquer fornecedor diverso da concessionária local, seja concessionário, permissionário ou autorizado do sistema interligado, conforme legislação e regulamentos específicos (artigos 15 e 16 da Lei no 9.074/95; inciso IV do art. 2o , da Res. ANEEL 456/2000). Em outras palavras, é o que reforça Fernandes Filho (2000, pp. 108-110), entendendo que o consumidor livre poderá adquirir energia elétrica de qualquer vendedor do sistema elétrico, seja de uma concessionária (além da local), de um produtor independente de energia, de um autoprodutor ou ainda de um agente comercializador de energia, mediante contratos livremente negociados. Assim, pode buscar as melhores condições econômico- financeiras na aquisição de energia elétrica do sistema elétrico, dadas a garantia de livre acesso aos produtores deste insumo. Oliveira, Ramos e Machado (2002, p. 2; 2004, pp. 134-137) registram que, a partir de 08/07/1998, desde que uma de suas demandas contratadas fosse maior ou igual a 10 MW, e sua tensão de fornecimento 52 fosse igual ou maior que 69 kV, o consumidor de energia elétrica poderia optar pela condição de consumidor livre. A lei também dispôs sobre um cronograma de “libertação” dos consumidores. 52 Vide item 3.1.2 do APÊNDICE C. 182 Atualmente, o consumidor, para se tornar livre, precisa adequar-se à uma das seguintes situações, sendo que estão previstas modificações no sentido de tornar ainda mais abrangentes as condições (FERNANDES FILHO, 2000, pp. 104-111): ??Para os já ligados antes de 08/07/1995, deverão possuir demanda contratada, em qualquer segmento horo-sazonal, de no mínimo 3 MW e tensão de fornecimento de 69 kV 53 . ??Para os ligados após a data citada, deverão possuir a mesma demanda contratada, porém em qualquer tensão. ??Para os que optem pela compra de energia elétrica de pequenas centrais hidroelétricas (PCHs), desde que haja demanda contratada mínima de 500 kW. ??Conforme a Lei 10.438/02, também para aqueles conectados aos sistemas interligados que adquirirem energia de fontes eólicas, biomassa ou solar e, se pertencentes a sistemas isolados o limite da demanda passa para 50 kW (OLIVEIRA, MACHADO e RAMOS, 2004, p. 136). Além disso, deve-se lembrar que mesmo o consumidor livre somente tem essa prerrogativa quanto à compra de energia mas continua de certa forma cativo quanto à demanda, por meio de taxas de conexão que devem ser pagas à concessionária local54 . O consumidor livre pode se associar ao MAE, mas não é obrigatório. No entanto, deverá se fazer representar quando do registro dos contratos bilaterais celebrados, seja pela distribuidora, pelo produtor de energia ou por um agente comercializador que intermediar a transação. É certo, porém que, não ocorreu uma total transformação do modus operandi dos consumidores de energia elétrica, sendo que ainda permanecerá por um bom tempo a figura do consumidor cativo, nos moldes do que vem ocorrendo nos países que já iniciaram reformas semelhantes (BARBOSA, BARBOSA e LEAL, 2004, pp. 140-150). Primeiro porque não há previsão concreta de se estender essa prerrogativa a todos os consumidores, independente de sua tensão de fornecimento e, além disso, provavelmente nem todos os consumidores em condições de se tornarem livres possuem intenção ou condições de fazê-lo. 53 54 Conceitos que serão vistos no APÊNDICE C desta dissertação. Será melhor detalhado no item 5.1 do APÊNDICE C. 183 Assim, até porque compõe a ampla maioria numérica - por volta de 40 milhões de unidades ao final do ano de 2000, divididos em várias classes e atendidos tanto em baixa quanto em média tensões - o consumidor cativo ainda terá bastante peso na questão técnicoeconômica do setor elétrico brasileiro (FERNANDES FILHO, 2001, pp.170-180). 3.2 O CONSUMIDOR NO PROCESSO DE VENDA DE ENERGIA ELÉTRICA Deve-se frisar que não há óbices a que o próprio consumidor empresarial ou mesmo pessoa física busque tornar-se um agente ativo do setor de energia elé trica, seja como autoprodutor em suas próprias instalações fabris ou como produtor independente, através de um empreendimento específico. No Brasil, a produção e comercialização de energia pelos consumidores está regulamentada pela legislação que trata do produtor independente e do autoprodutor de energia elétrica (art.2o do Decreto no 2.003/1996, que regulamentou a Lei no 9.074/95): Art. 2o - Para fins do disposto neste Decreto, considera-se : I – Produtor Independente de Energia Elétrica, a pessoa jurídica ou empresas reunidas em consórcio que recebam concessão ou autorização para produzir energia elétrica destinada ao comércio de toda ou parte da energia produzida, por sua conta e risco ; II – Autoprodutor de Energia Elétrica, a pessoa física ou jurídica ou empresas reunidas em consórcio que recebam concessão ou autorização para produzir energia elétrica destinada ao seu uso exclusivo. Do ponto de vista legal, no Brasil, autoprodutor e produtor independente são figuras distintas dentro do mercado de energia elétrica. No entanto, tratam-se de agentes produtores de energia que não se revestem da condição de concessionários de energia elétrica (utilities). Nascimento et al. (1997, pp. 84-94) argumentam que anteriormente às reformas de 1995, a situação para os autoprodutores não se mostrava muito confortável, pois que operavam em uma estrutura de monopsônio, isto é, só podiam vender energia à concessionária local, em geral por preços não muito atrativos. Na década de 80, a venda de excedentes de energia foi permitida com a promulgação do Decreto-Lei no 1.872, mas reservada apenas à concessionária local mediante regras que não incentivaram tais empreendimentos (CLEMENTINO, 2001, p. 36; ELETRICIDADE MODERNA, 1998, pp. 112-118). 184 A desregulamentação das atividades de geração resultou, na prática, no livre acesso a todos os interessados em produzir energia elétrica, instituindo a competição através da quebra de monopólios, o que resultou em maiores facilidades de entrada para os autoprodutores e produtores independentes, devidamente regulamentados através da Lei no 9.074/1995 e pelo Decreto no 2003/96. Em referência a Bajay et al. (2002, pp. 86-93), os quais referem-se às novas oportunidades para empresas geradoras no setor elétrico brasileiro, pode-se verificar que o novo ambiente organizacional estimula a geração distribuída, e com isso existem potencialidades de empreendimentos, pelos consumidores, em autoprodução e produção independente, inclusive com interrelações com o fornecimento de gás natural. De acordo com Westberg (2002, p.126), a atividade de produção independente já responde, em 2002, por quase 20% da potência total instalada do setor elétrico brasileiro, só não se expandindo em maior velocidade por conta da indefinição e obscuridade regulatórias. Este dado, mesmo de cunho positivo, ainda é muito aquém de países como os EUA, Índia e China, onde os PIE já respondiam, em 1997, por nada menos que 50% dos investimentos em expansão do setor (NASCIMENTO et al., 1997, p.92). Um implicação interessante é a de que as empresas de geração de energia e consórcios que produzem eletricidade para seu próprio consumo podem se adequar à figura do autoprodutor de energia elétrica, mediante autorização da ANEEL, com permissão para alimentar instalações de seu grupo econômico, mesmo que não contíguos fisicamente à unidade geradora. Isto significa que um consumidor pode fazer um investimento em geração de energia elétrica fora da área de seu parque fabril, tendo garantido o “caminho” da energia produzida (disponível em <http:/ /www.aneel.gov.br/arquivos/pdf/tarifas_conceituacao.pdf>). Quanto à autoprodução, esse contexto, de acordo com Pellegrini et al. (2001, pp. 98108), inclusive reforça a potencialidade de injeção de energia elétrica no sistema advinda da geração distribuída em processos de co-geração, cuja tecnologia já é amplamente difundida no Brasil. Segundo Nascimento et al. (1997, pp. 84-94) e Clementino (2001, pp. 30-32), a atividade de co-geração enquadra-se como produção destinada ao uso exclusivo, ou autoprodução. Predominam como co-geradores, os setores de siderurgia, petroquímica, papel 185 e agricultura, mas existem outros ligados a hotéis, shopping centers, bancos e outros estabelecimentos comerciais e pequenas indústrias. 3.3 O CONSUMIDOR E A FIGURA DO AGENTE COMERCIALIZADOR Segundo a ABRACEEL (Associação brasileira dos agentes comercializadores de energia elétrica), “o agente comercializador é a pessoa jurídica que, preenchendo os requisitos estabelecidos na Res. ANEEL nº 265/98, foi autorizada a atuar na compra e venda de energia elétrica no âmbito do MAE”. Não obstante todas as empresas geradoras e distribuidoras sejam automaticamente agentes de comercialização, a configuração mais comum deste tipo de empresa é aquela que se aproxima de uma corretora de bolsa de valores ou de mercadorias, que vai buscar os melhores negócios para seus clientes, gerenciando riscos de mercado, intermediando operações ou revendendo direitos de compra ou venda. Nota-se, pois, que não necessariamente o comercializador de energia precisa possuir ativos ligados à indústria de energia elétrica (ABRACEEL, 2003, pp. 6-24), ou seja, sua capacidade de operação não se limita à estrutura física de equipamentos elétricos. Este novo elemento de mercado trouxe- lhe mais uma parcela de dinamicidade na medida que impactou a formação dos preços no setor elétrico, influenciando o planejamento e a gestão das empresas tradicionais já constituídas, em suas relações com os consumidores de grande porte. Estes, por sua vez, evidentemente direcionam-se no sentido de maximizar seus interesses e pagar a menor tarifa que lhe proporcione um fornecimento de qualidade e confiabilidade, sendo então os agentes comercializadores seus instrumentos de prospecção mercadológica (SILVEIRA, RIBEIRO e PINTO, 1998, pp. 50-57). É ainda incipiente, mas já detectável, que este novo espectro de negócios trouxe ao consumidor de energia elétrica a disponibilização, pelos agentes comercializadores (principalmente as concessionárias) de uma série de serviços ancilares 55 , tudo com o objetivo de atrair fidelizar o consumidor, que se estendem além da simples corretagem de operações 55 Serviços ligados à operação do sistema como controle de tensão, freqüência e carga, necessários à transferência confiável de energia entre produtor e consumidor (disponível em: <http://www.nol.org/home/NEO/phase1/glossary.htm>. Acesso em: 21 ago. 2001). Este conceito pode ser estendido ainda à uma série de serviços que a concessionária pode prestar ao consumidor, em suas próprias instalações, com as mesmas finalidades de manter ou melhorar os níveis de qualidade do fornecimento. 186 mercantis, incluindo a consultoria em gerenciamento e conservação de energia, em auxílio em projetos de expansão de carga, manutenção de equipamentos, redes de fibras óticas, aluguéis de equipamentos e outras áreas (BAJAY, 2002, pp. 86-93; FREITAS, FIGUEIREDO, 2003, pp. 100-114). Nada impede ainda que, na eventualidade de um consumidor especializar-se de tal forma na leitura e aplicação das regras do setor elétrico, poderá até ampliar suas atividades constituindo uma empresa para ser exclusivamente comercializador de energia, atendendo então a um novo nicho de mercado potencialmente lucrativo. A figura a seguir pretende sumarizar as condições de comercialização de energia elétrica, relacionando os dispositivos legais em vigor que as regulamentam: 187 Figura 9 – Condições de comercialização de energia elétrica Fonte: Manual do Agente Comercializador. Disponível em: <http://www.abraceel.com.br/mac/mac.pdf> Acesso em: 13 nov. 2003. 188 (1) Concessionárias de geração e PIEs podem comprar para cobrir eventuais exposições no MAE . Para compor seus portfólios necessitam autorização da ANEEL, como é o caso de FURNAS comprando da Térmica de Cuiabá. (2) Concessionárias de distribuição, quando parte de uma empresa verticalizada, podem comprar até 30% de suas necessidades (self-dealing) com as concessionárias de geração e/ou comercializadora do grupo (Lei n.º 10.604/02, artigo 2º). (3) O concessionário de distribuição pode vender para consumidor livre, inclusive fora da sua área de concessão, desde que nas mesmas condições de preço/tarifa praticadas para consumidores cativos similares, de acordo com a Lei n.º 10.438/02 (4) Todo agente de mercado que atenda consumidores finais tem que demonstrar que possui cobertura, em contrato de longo prazo, para, no mínimo, 95% de suas necessidades, de acordo com a Resolução ANEEL n.º 91/2003, de 27 de fevereiro de 2003, que substitui a Resolução ANEEL n.º 511/2002. (5) A negociação pode ser feita por intermédio de contrato bilateral, dispensado o leilão, se a contratação for entre sociedades coligadas, dentro dos limites estabelecidos em legislação, ou se a concessionária/permissionária atuar no sistema isolado, ou mesmo se o objeto do contrato for a compra e venda de energia produzida por fontes eólica, solar, PCHs ou biomassa, conforme artigo 2º da Lei n.º 10.604/02. (6) Os Agentes Comercializadores podem adquirir energia de geradores fora do ambiente do MAE. Basta registrar os contratos. Deve-se observar que, além de o processo de mercado não ter se estruturado totalmente, já está sendo modificado substancialmente quanto à comercialização de energia entre a geração e as concessionárias (MME, 2003). Não havia, mesmo ainda em 2002, uma sistemática de comercialização plenamente transparente, o que era reclamado pelos agentes do ramo (AVILA, 2002, pp. 106-107). Seguirá portanto um período de adaptação e de consolidação, mas que parece não retirará dos comercializadores suas prerrogativas de “ligar” os consumidores livres aos seus fornecedores, principalmente os autoprodutores e produtores independentes, dentro do ambiente de contratação livre, mantido na proposta apresentada ao final de 2003. Por outro lado, é mister destacar que, seja qual for a modelagem do setor elétrico a se consolidar no Brasil, um posicionamento estratégico por parte do consumidor não pode prescindir dos fundamentos de gerenciamento de carga, fornecimento e faturamento de energia elétrica, que serão melhor detalhados a seguir. 189 APÊNDICE B - GERENCIAMENTO DE CARGA 1 INTRODUÇÃO Neste capítulo sobrevém a questão do gerenciamento de carga, item básico do gerenciamento pelo lado da demanda (item 3.4.2.2), desta feita voltando-se para a compreensão dos principais conceitos envolvidos pelo tema, para fins de efetiva utilização por iniciativa dos próprios consumidores, atuando em seus sistemas elétricos (suas instalações), sem a interveniência direta ou indireta dos órgãos planificadores ou operacionais do setor elétrico. 190 2 CARGA E DEMANDA Nota-se, mesmo na bibliografia especializada em eletrotécnica e em publicações de concessionárias, uma certa confusão entre os conceitos de carga e demanda. Em princípio, desde que o leitor atente para o enfoque apresentado (normalmente em projetos elétricos de dimensionamento), não há maiores problemas em se designar carga como demanda, e viceversa, até porque suas unidades são idênticas, relacionando-se à potência em kW. No entanto, a rigor, são conceitos diferentes 56 , a saber: Carga (load) é definida como a potência elétrica requisitada ou disponibilizada em pontos de conexão de consumidores e seus equipamentos de uso, ao sistema elétrico (BERKOWITZ, 1985, p. 2388; NEO, 2001, p. 5) 57 . Em uma instalação, existem cargas que, embora existentes e conectadas ao sistema elétrico, não representam consumo de energia elétrica, por não estarem temporariamente em efetiva operação (ligadas). Seu conjunto é conhecido como carga instalada ou conectada e compreende a soma das potências nominais, expressa em quilowatt (kW), de cada equipamento elétrico que esteja instalado na unidade consumidora, pronto a ser ligado e consumir energia elétrica (não computando os aparelhos comprovadamente em reserva) (NISKIER, MACINTYRE, 1986, p. 72; BERKOWITZ, 1985, p. 2388; CELESC, 1981, p. 6). Uma vez em efetivo uso junto ao sistema elétrico, essas cargas vão representar um determinado consumo de energia associada à potência elétrica que representam: Figura 10- Energia consumida por cargas instantâneas C1………… * Cn……………………………………* Co…… * C2……………………* to t1 t2 … tn período To Fonte: Elaboração do próprio autor. 56 “demand should not be confused with load” (NEO, 2001, pp. 2,5) Lembrando que a carga também pode ser reativa, derivada da existência de componentes indutivos e capacitivos, cujo assunto será abordado no item 6 do APÊNDICE B. 57 191 Da figura anterior e do conceito de energia, pode-se afirmar que o consumo de energia associado ao uso das cargas Ci é : E = C * t, ou seja, a multiplicação da potência ou carga pelo intervalo de tempo em que a mesma é solicitada. Daí a origem do conceito de demanda (demand), que é entendida, da mesma forma, por vários autores. “A demanda é a média das potências elétricas ativas ou reativas, solicitadas ao sistema elétrico pela parcela da carga instalada em operação na unidade consumidora, durante um intervalo de tempo especificado” (Art. 2º, VIII, Res. ANEEL 456/2000). Em outras palavras, a demanda é “a média das potências elétricas instantâneas solicitadas, por consumidor ou concessionário, durante um período especificado” (DUKE ENERGY, 2001, p. 34; MUNDO ELÉTRICO, 1990, p. 43; COTRIM, 1992, p. 203; TARBOUX, 1962, p. 1200). Das observações anteriores chega-se à fórmula que exprime a demanda: Equação 1 – Demanda n Demanda ? ? i? 0 Ci ? ti To Onde: Demanda é dada em kW ou sob outra denominação em kW médios. Sob outra interpretação, a demanda é considerada como “a taxa mediante a qual a energia elétrica é entregue ou consumida por um sistema, expressa em kW, em um determinado instante ou como a média de um determinado período de tempo” (BERKOWITZ, 1985, p. 2383; DUKE ENERGY, 2001, p. 34; NEO, 2001, p.2; SMAIL, 1969, p. 55) levando à conclusão de que a demanda multiplicada pelo período total To corresponde à energia entregue ou consumida: Equação 2 – Demanda x energia Demanda ? _______ kW ? Energia ? _______ kW ? To (em kWh) No Brasil, o intervalo de medição ou integralização da demanda para fins de faturamento é de 15 minutos, ou seja, a cada 15 minutos o equipamento de medição efetua a 192 média ou a integralização das cargas ou potências atingidas pelo consumidor, registrando-a para eventual cobrança (CELESC, 1981, p. 6; PROCEL, p. 5; Art. 2º, XII, Res. ANEEL 456/2000). Segue que, não obstante a demanda ter a mesma unidade (kW) relativa à carga ou potência, só pode ser confundida com as mesmas desde que o período de sua averiguação seja instantâneo, onde a média vai ficar igual à carga instantânea. Essa aproximação é bastante útil para algumas análises, sempre devendo ser entendida, porém, as diferenças entre os dois conceitos. 193 3 FATORES DE DEMANDA E DE DIVERSIDADE Em uma determinada instalação consumidora de energia elétrica, existe um montante de carga instalada pronta para entrar em funcionamento. São motores, aparelhos diversos, tomadas, iluminação, calefação ou refrigeração. Observa-se, porém, que nem todas as cargas de um consumidor estarão ligadas ao mesmo tempo, o que implica dizer que a carga “em uso” (ou a demanda instantânea) varia no tempo e, num certo momento, atinge seu máximo, o que se dá quando há maior solicitação de carga por parte deste consumidor. A este valor denomina-se demanda máxima, ou seja “a maior de todas as demandas da carga em uso, verificada em um determinado período de tempo” (BERKOWITZ, 1985, p. 2383; DUKE ENERGY, 2001, p. 36). Além disso, uma boa parte da carga usualmente nem é utilizada, permanecendo como uma reserva técnica de dimensionamento de projeto (CREDER, 1984, p. 26). Logo, desde que nem toda a carga instalada de um equipamento ou de uma instalação é necessariamente completamente usada, e mesmo assim a parcela utilizada não fica ligada durante todo o tempo em que os mesmos estão conectados, a demanda (mesmo a máxima) é normalmente diferente da carga instalada (no limite, poderia ser igual - nunca maior -, considerando que a carga instalada é a máxima potência que pode ser requerida pela instalação) (MAMEDE, 1987, p. 16) 58 . O fator de demanda vai indicar, portanto, quanto da carga instalada está efetivamente em uso. Berkowitz (1985, p. 2384) apresenta a definição do fator de demanda como sendo “a razão entre a máxima demanda em um determinado período de tempo e a carga total conectada em um certo sistema elétrico”. Niskier e MacIntyre (1986, pp. 61-62), Mamede (1987, p.16), Cotrim (1992, p. 207), referem-se ao fator de demanda de uma instalação como a relação entre a demanda máxima (potência demandada ou potência de alimentação) e a potência instalada ou potência nominal de um setor, de uma instalação ou de um circuito (soma das potências nominais dos equipamentos de utilização, inclusive tomadas, efetivamente conectados ao sistema). 58 Convém atentar para SKROTZKI e VOPAT, 1960, p. 581: “If all devices ran to their fullest extent simultaneously, the maximum demand of the consumer would equal his connected load” 194 A fórmula do fator de demanda é apresentada abaixo, como a relação entre a demanda e a carga instalada, usualmente para o horário em que se verifica a demanda máxima: Equação 3 – Fator de demanda Fd ? D max C arg a Instalada A identificação de um baixo fator de demanda em uma determinada instalação permite afirmar que houve, em certo grau, um superdimensionamento de projeto, implicando em custos desnecessários e dificilmente recuperáveis. Por outro lado, a constatação de que a Dmax de um consumidor é, em geral, inferior à sua carga instalada, permite concluir que quando um grande número de consumidores é considerado, a potência das unidades que fornecem energia para estes consumidores pode ser dimensionada bem aquém da soma das cargas instaladas. O quanto aquém dependerá dos levantamentos estatísticos disponíveis para a categoria de consumidores que está sendo considerada. Sendo, a rigor, instantâneo, pois a cada momento há uma demanda, existe a necessidade de se estimar um fator de demanda para cada tipo de instalação (tomadas, iluminação, aque cimento, etc...) e de consumidor (ex: padaria, malharia, hotéis, escritórios, etc..). Além das considerações feitas em torno do conceito de fator de demanda, existe outro conceito que, se bem avaliado e aplicado, pode resultar em economia adicional no dimensionamento e no planejamento da expansão dos circuitos elétricos alimentadores. É o caso da diversidade, que se relaciona com o fato de que nem todos os componentes que compõe uma carga instalada, estarão em funcionamento (ligados) simultaneamente; A diversidade existe dentro de uma mesma instalação, entre equipamentos da mesma natureza (iluminação, por exemplo), entre equipamentos diferentes (iluminação e motores, por exemplo). A diversidade também ocorre entre diferentes consumidores, pois, devido à naturezas, padrões e hábitos de consumo diferentes, suas demandas máximas não se verificarão no mesmo momento (CPFL, p. 6; BERKOWITZ, 1985, p. 2384, 2388). 195 Por isso, a soma das demandas máximas individuais de um conjunto de equipamentos ou de consumidores será diferente da demanda máxima do próprio conjunto. Por exemplo, tome-se três consumidores A, B e C, alimentados por uma fonte comum, representados pela figura a seguir, com demandas máximas idênticas de 5 kW registradas, respectivamente, às 18h, 19h e 20h, sendo que nos horários restantes do dia suas demandas foram de 1, 2 e 3 kW. Figura 11 – Consumidores ligados à mesma fonte Consumidor A Consumidor B Consumidor C Fonte: Elaboração do próprio autor. O somatório das demandas máximas individuais é 15 kW mas, evidentemente, não é a demanda máxima do conjunto haja vista que não ocorrem simultaneamente (neste caso seria 5 (A) + 2 (B) + 3 (C) = 10 kW, ocorrendo às 18 h59 ). Define-se o fator de diversidade como a relação entre a soma das demandas máximas de cada consumidor ou carga e a demanda máxima do conjunto de consumidores ou cargas (BERKOWITZ, 1985, p. 2384; SROTZKI, VOPAT, 1960, p. 581). Ou, no entender de Cotrim (1992, p. 210), o Fdiv é definido para um determinado ponto de distribuição de energia elétrica, “sendo igual à razão da soma das demandas máximas dos diversos conjuntos de cargas ligadas a este ponto, para a demanda máxima do ponto de distribuição”. Assim, a fórmula do fator de diversidade fica sendo: Equação 4 – Fator de diversidade Fdiv ? 59 ? D max individuais D max conjunto Este resultado é mais facilmente constatado através da construção e análise de uma curva de carga, a ser visto no item a seguir. 196 Como a demanda máxima do conjunto nunca será maior que a soma das demandas máximas individuais, tem-se que o fator de diversidade deverá ser maior ou excepcionalmente igual a 1. Mamede (1987, p. 18) faz suas alusões à diversidade das cargas de modo inverso, tratando de enfatizar o conceito da simultaneidade (fator de simultaneidade), o que para fins práticos, resulta na mesma idéia. 60 Na prática realiza-se a aplicação dos fatores de demanda e diversidade, a fim de prever a não simultaneidade da ocorrência das demandas máximas, o primeiro entre equipamentos de uma instalação, o segundo entre consumidores de um mesmo ramal (ou entre instalações distintas de uma mesma planta industrial, por exemplo), ainda na fase de projeto de implantação ou de ampliação de uma unidade consumidora ou de uma subestação de energia elétrica. Utiliza-se o Fd e o Fdiv disponíveis em livros de eletrotécnica, normas, publicações e manuais de concessionárias de energia elétrica, dados em tabelas especiais para projetos elétricos. Tanto para o consumidor quanto para a concessionária, o objetivo é o da racionalização de custos cujo dispêndio será definitivo, ou seja, normalmente empregado em capital imobilizado de difícil ou nenhuma liquidez. Se a concessionária e o sistema elétrico se baseassem simplesmente no conjunto dos pedidos de carga dos consumidores (estes baseados na carga instalada) para projetar a expansão de suas próprias instalações, ocorreria de fato um efeito encadeado de sobredimensio namento aumentando custos do setor e por conseqüência das tarifas de energia elétrica. Este raciocínio pode ser aplicado no âmbito interno do próprio consumidor, ou seja, o superdimensionamento de circuitos e equipamentos alimentadores também implica em dispêndios mais elevados a serem imobilizados com materiais, equipamentos e mão-de-obra. Para se ter uma idéia das reduções possíveis, para a aplicação conjunta de um fator de demanda usual, de 0,86 e um fator de diversidade de 1,3 60 61 , teríamos uma demanda Apenas lembrar que, enquando o Fdiv não pode ser menor do que 1, o Fs não pode passar de 1. Valores tomados a partir das tabelas existentes em Creder (1984, pp. 26-27). Exemplo mais complexo pode ser visto em Skrotzki e Vopat (1960, pp. 583-584) 61 197 máxima estimada para o atendimento de um determinado grupo de cargas, calculada em percentual da carga instalada: D max conj ? 0,86 * CI ? 66% da c arg a instalada 1,3 Para registro, na questão dos projetos em eletrotécnica, existem ainda outros fatores, como o de serviço 62 , que indicam a capacidade de o equipamento suportar sobrecargas contínuas em sua operação, sem que isso lhes diminua a vida útil, relacionados às características construtivas de transformadores (de potência ou de corrente), motores... Já o fator de utilização 63 leva em conta que o regime de funcionamento dos equipamentos normalmente é tal que a potência realmente absorvida é menor que a nominal. Para fins de gerenciamento de carga, ou seja, etapa posterior ao projeto em que a instalação já está em funcionamento, é possível, se bem que tomados alguns cuidados em casos específicos, restarem os fatores de serviço e de utilização englobados pelo Fd e Fdiv. 62 Fator pelo qual pode ser multiplicada a potência nominal de um motor, para operação de modo contínuo, sem aquecimento prejudicial, porém com queda do rendimento (CREDER, 1984, p. 135; MAMEDE, 1987, p. 164). 63 Fator pelo qual pode ser estimada, para equipamentos, a potência máxima efetivamente atingida em relação à potência nominal, aproximadamente 0,75 no caso de motores e 1 no caso de iluminação (COTRIM, 1992, p. 207) 198 4 CURVA DE CARGA Como visto anteriormente, as cargas de um consumidor nem sempre estão ligadas, tampouco em simultaneidade, sendo que a cada instante pode ser solicitada uma carga (demanda instantânea) diferente. No mesmo sentido, uma subestação de energia elétrica cujo barramento de saída alimente uma cidade, possuirá consumidores residenciais, comerciais e industriais, cada qual tendo sua maneira própria de consumir energia. Por exemplo, a carga de consumidores residenciais tem sua variação afetada de maneira marcante pela iluminação e pelo acionamento de chuveiros elétricos, então, a tendência de ocorrer a demanda máxima para estes consumidores é ao final do dia. Já os consumidores industriais e comerciais em geral apresentam consumo mais uniformemente distribuído dentro de seu período de funcionamento, entre 8 h e 12 h e entre 14 e 18 h. Caso se deseje verificar graficamente o comportamento das demandas de um consumidor ou de uma subestação, durante um determinado período, está-se diante da construção de uma curva de carga, que é a representação ou o registro gráfico cronológico das cargas ou das demandas em seus horários de ocorrência (CELESC, p. 43; SROTZKI, VOPAT, 1960, p. 584; TARBOUX, 1962, pp. 1200-1202). 4.1 CURVAS DE CARGA TÍPICAS Como já mencionado anteriormente, cada consumidor ou classe de consumidores possui hábitos e padrões distintos de consumo de energia elétrica, que podem ser representadas por suas correspondentes curvas de carga. (CPFL, pp. 22-44) Com base em estudos efetuados pela CPFL – Companhia Paulista de Força e Luz, na década de 1980 (pp. 22-44), bem como nos dados apresentados por Skrotzki e Vopat (1960, pp. 584-588), pode-se verificar as diferentes conformações das curvas de carga, de acordo com o tipo de consumidor avaliado, assim como nos períodos da semana ou do ano. A curva visualizada na figura a seguir é aquela tipicamente encontrada em residências (dwelling load), referente às cargas de iluminação e outros usos em eletrodomésticos e aquecimento, onde se constata nitidamente um aumento de consumo a partir das 6h e salto a partir do início da noite: 199 demanda Figura 12 – Curva de carga residencial 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 h Fonte: CPFL. Análise da curva de carga. Fig. 4.11. p. 30. [s.l.]: CPFL, [s.d.]; VENNARD, 1970, p.60. Já o comércio tradicional, bancos e ainda prestadores de serviços, por permanecerem em atividade normalmente até o final do dia (horário comercial), têm suas curvas de carga denotando o início e paralisação gradativa das atividades entre 8 e 18 h64 , mas ainda sofrendo um aumento do consumo em função do aumento da temperatura ambiente à tarde e da adição da carga de iluminação no início da noite: demanda Figura 13 – Curva de carga comercial 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 h Fonte: CPFL. Análise da curva de carga. Fig. 4.13. p. 33. [s.l.]: CPFL, [s.d.]. A curva de carga industrial (industrial load) apresenta ainda uma diferença entre o regime de operação das empresas. De acordo com Mamede (1987, p.15), os diferentes setores 64 Atualmente, no entanto, o aumento do número dos “shopping centers” seguramente fez deslocar mais para a noite a ponta da demanda de energia elétrica do setor comercial. 200 de produção de uma determinada instalação industrial terão curvas de carga que vão variar em função da operação e coordenação das atividades ali desenvolvidas. As grandes indústrias normalmente operam em regime de produção contínuo (durante o dia e mesmo finais de semana) e têm uma maior atenção e controle quanto ao consumo de energia, o que leva à uma curva de carga com formato mais plano. Por outro lado, pequenas e médias indústrias quase sempre operam em regime descontínuo, normalmente acompanhando o horário comercial (mas iniciando e paralisando as atividades mais cedo). A conjugação destes dois regimes origina a curva de carga industrial: demanda Figura 14 – Curva de carga industrial 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 h Fonte: CPFL. Análise da curva de carga. Fig. 4.16. p. 35. [s.l.]: CPFL, [s.d.]. A iluminação pública (street lighting), que compõe uma parcela razoável da carga total do sistema, tem sua curva bastante peculiar, por não ter definida uma demanda de ponta, até porque sua carga apresenta uma razoável simultaneidade: 201 demanda Figura 15 – Curva de carga da iluminação pública 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 h Fonte: CPFL. Análise da curva de carga. Fig. 4.19. p. 38. [s.l.]: CPFL, [s.d.]. Quanto aos diferentes períodos da semana ou do ano, as curvas de carga refletem inclusive comportamentos de setores econômicos e sociais, atividades da população e eventos específicos. Desse modo, encontram-se significantes diferenças sazonais ent re a carga dos dias de semana e a dos finais de semana, ou ainda, por exemplo, nas curvas de carga do período de safra de uma determinada região agrícola, de uma região balneária de verão ou ainda, em países tropicais como o Brasil, o aumento de carga de ar-condicionado no verão. Existe ainda a representação, via curva de carga, do comportamento de consumo de energia reativa, dispondo-se cronologicamente as demandas reativas medidas no decorrer de um período (MAMEDE, 1987, p. 114) A composição das curvas individuais, com sua devida diversidade, vai acumulandose em direção à uma curva de carga do sistema elétrico como um todo, cujas características podem ser visualizadas na primeira figura do item 5.3.2, a seguir 65 . Tal é a importância da análise das curvas de carga para o setor elétrico dos países, que são desenvolvidos estudos sistemáticos sobre o assunto, empregando equipamentos específicos de medição e modelos estatísticos e matemáticos. Esses estudos permitem diversas aplicações, dentre elas: a) Supervisão, previsão e programação (planejamento) do atendimento de carga do sistema elétrico interligado no curto, médio e longo prazos; 65 Entre essas características, estão a baixa carga no horário da madrugada, o crescimento ao raiar do dia, uma pequena queda ao meio dia e a ponta do sistema entre as 20 h e 22 h. Camargo (1984, pp. 12-13), também mostra a forma desta curva de carga típica. 202 b) Dimensionamento de sistemas de transmissão e distribuição: potência máxima, diversidade, sazonalidade e interligações; c) Acompanha mento e avaliação de efeitos de políticas tarifárias dirigidas, modificações no perfil de consumo assim como no horário de verão; d) Análise de confiabilidade (ex: demanda suprida e não suprida); e) Análise econômico- financeira e determinação de custos marginais; f) Regulação automática de tensão no sistema; g) Operação controlada de transformadores em regime de sobrecarga; 4.2 CURVA DE CARGA – ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES Mesmo a maior parte dos consumidores empresariais não tendo a forma de curva de carga visualizada a seguir, ela é a mais adequada para a apresentação didática dos instrumentos de análise envolvidos no gerenciamento de carga. Segundo Skrotzki e Vopat (1960, p. 589), para o planejamento e operação de um sistema elétrico 66 , é necessário o conhecimento da forma que varia a demanda no decorrer do período de tempo sob análise, das demandas máximas e mínimas 67 que ocorrem e da energia consumida no período. Estas informações importantes podem ser extraídas a partir dos dados que constroem a curva de carga, sendo mostradas na figura a seguir (REIS, 2003, pp. 219-220): 66 E aqui podemos entender também o sistema elétrico relativo às instalações de um consumidor. O conhecimento da demanda ou carga mínima ou de base (base load) também é importante pois que é a maior demanda que permanece todo o tempo sendo solicitada, podendo ser representada por uma linha constante ao longo da curva de carga, o que a diferencia da carga intermediára (intermediate) e da máxima ou de ponta (peak ). (NEO, 2001, p.5) 67 203 Figura 16 – Curva de carga – pontos importantes Carga (Demanda) Demanda Máxima n ? Pi dt i ?1 Demanda Mínima Horas Fonte: Elaboração do próprio autor. Em uma curva de carga existem três regiões, nem sempre muito bem definidas, que tratam das cargas de ponta, das cargas intermediárias e das cargas de base. Por isso as definições de ponta, para as cargas de curta duração 68 , e de base, para as cargas que têm maiores tempos de duração, em especial aquelas iguais ou inferiores à demanda mínima (que aparecem durante todo o tempo) (SMAIL, 1969, pp. 56-59). Verifica-se que a área sob a curva da curva de carga, obtida a partir da integração das diversas cargas ou demanda no decorrer do período, exprime um valor que representa a energia elétrica consumida durante o período: Equação 5 – Área sob a curva de carga To Área ? ? P (t) dt ? energia t ?0 68 A duração das cargas é uma abordagem que será melhor apresentada no item 3.3 do Apêndice D, nas aplicações das curvas de duração de carga. 204 Ocorre que é impraticável a determinação da equação da curva de carga, o que faz a obtenção da área ser mais usual a partir de uma análise gráfica: Equação 6 – Área sob a curva de carga – análise gráfica ? Área n ? P( i) ? ? t ? energia i? 1 Na prática os valores de curvas de carga obtidos a partir dos equipamentos medidores existente não são contínuos, porém lidos a intervalos de 15 minutos, a fim de se adequarem à legislação brasileira específica de faturamento (vide item 4.3 do APÊNDICE C). Podem ainda referir-se a outros intervalos (½ em ½ hora ou 1 em 1 hora) 69 , mas sempre sob o pressuposto de que essa integração é feita imaginando-se que o valor lido permaneça durante todo o intervalo até a próxima leitura, de acordo com a figura exemplificativa a seguir: Figura 17 – Curva de carga medida em intervalos (MW) CURVA DE CARGA 300 250 200 150 100 50 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 (Hora) Fonte: Elaboração do próprio autor. 69 Tamb ém fazem esse comentário Skrotzki e Vopat (1960, p. 591-592), designando uma curva obtida a partir de medições horárias como “hourly-averaged-load curve” 205 Neste caso, o cálculo da área sob a curva de carga (e por conseqüência da energia consumida) trata-se da soma das áreas de diversos retângulos, multiplicando-se os valores de demanda pelos intervalos de leitura e fazendo a soma destas multiplicações. 4.3 CARGA MÉDIA E DEMANDA MÉDIA. A demanda média (Dmed) é a média das demandas ocorridas num período considerado ou, ainda, é a relação entre a energia ativa consumida durante um intervalo de tempo especificado (CELESC, p. 44; CELESC, 1981, p. 6; DUKE ENERGY, 2001, p. 37). A expressão que permite o cálculo da Dmed é: Equação 7 – Demanda média T Dmed ? 1 T ?P (t ) . dt 0 onde: P representa a variável demanda ao longo de t. To representa o período sob análise Na verdade, como já visto anteriormente, a própria demanda já é uma média das cargas solicitadas durante um período ou ainda a taxa mediante a qual a energia é consumida. Aqui não se pode fazer confusão de aplicação: muito embora a forma de cálculo seja a mesma, quando se fala em demanda média, entende-se estar tratando da média das demandas verificadas nos intervalos de medição, que podem ser quaisquer (na prática 15’). Por exemplo, na curva de carga da figura 14, se estivéssemos representando medições feitas com registradores da concessionária, ou seja, de 15 em 15’, cada barra seria a demanda medida em cada intervalo, obtida por integralização (média) da energia consumida pelas cargas verificadas no período de 15’. Já a demanda média do dia seria a média das demandas medidas ou a relação entre a energia consumida por essas demandas sobre o período. Outra forma de entendimento da natureza da demanda média pode ser vista pelo seguinte conceito: 206 É a demanda que, permanecendo constante ao longo de um certo período, consome a mesma energia relacionada à demanda variável (funcionamento normal do sistema) na curva de carga do período em questão (COTRIM, 1992, p. 205). Ou seja, se tomarmos o valor da demanda média multiplicado pelo período To, obteremos o valor da energia consumida durante aquele período, daí a importância e a relação direta que se faz entre a Dmed e a energia, quando esta pode até ser referenciada em kW médios. 207 5 FATOR DE CARGA O fator de carga (Fc) é um índice que demonstra como está sendo utilizada a energia elétrica colocada à disposição de um consumidor, refletindo a racionalidade e economicidade do consumo e do funcionamento de suas instalações (CELESC, p. 43; CELESC, 1981, p. 11; CNI, 1989, p. 20; SECR. ENERGIA-SP, 2001, p. 23). Exibindo uma medida do grau de variação ou de uniformidade da carga (entre zero e 1, ou ainda em termos percentuais), o fator de carga (load factor) é obtido pela razão entre a carga média em quilowatts suprida durante um determinado período, e a carga máxima ou de pico verificada neste mesmo período (BERKOWITZ, 1985, p. 2388; SKROTZKI , VOPAT, 1960, pp. 592-593; VENNARD, 1970, pp. 30-34). Considerando E como a energia consumida durante um período de tempo T, e se Dmax for a demanda máxima atingida no período T, o fator de carga para o período T pode ser definido a partir do conceito de demanda, podendo-se então atribuir ao Fc a relação entre a demanda média e a demanda máxima (BERKOWITZ, 1985, p. 2388; CELESC, p. 43; CELESC, 1981, p. 11; MAMEDE, 1987, p. 16-17; NEO, 2001, p. 5): Equação 8 – Fator de carga Fc ? Fc Fc Cmed C max E 1 ? To D max ? ? Dmed D max onde: Cmed = carga média verificada Cmax = carga máxima ou de pico E (kWh/h) é a demanda média (Dmed) para o período de tempo T. To Dmax = demanda máxima no período. 208 O fator de carga é um dos mais importantes índices que se usa para caracterizar o consumo de energia elétrica, refletindo obviamente na análise do produtor, em projetos de centrais e sistemas de transmissão e distribuição. O fator de carga pode ser calculado para diferentes períodos de tempo, podendo ser avaliado para um dia, um mês, um ano, etc, bastando que se divida a demanda média no período considerado pela demanda máxima ocorrida no mesmo período, podendo ser expresso em valores absolutos como também percentuais. Usualmente o índice do fator de carga usado é o de base mensal, para fins de análise dos preços médios de energia pagos pelo consumidor. Um fator de carga baixo significa que a demanda máxima do período (pico ou ponta) é significativamente maior do que a média verificada (CNI, 1989, p. 20; SECR. ENERGIA-SP, 2001, pp. 28-30). Para os consumidores, a análise do fator de carga de suas instalações é importante pois o mesmo influi no custo unitário de energia adquirida. Por outro lado, para os produtores que os atendem, à medida em que o Fc se torna elevado, suas instalações são utilizadas de uma forma mais completa, e os custos de produção tornam-se menores por unidade de energia vendida (FORTUNATO et al.,1990, p. 191; VENNARD, 1970, p.p. 184-186). De fato, o preço pago pelos consumidores dos grandes consumidores, principalmente as empresas, é composto de duas parcelas: a parcela proporcional à Dmax ocorrida e a parcela proporcional à quantidade de kWh (energia) consumida no período considerado 70 (CELESC, pp. 44-47). Equação 9 – Influência do fator de carga nos custos de energia elétrica Preço pago = p . Dmax + e . E onde: 70 Aqui apresentado preliminar e simplificadamente. O detalhamento do assunto Tarifação será efetuado no APÊNDICE C desta dissertação. 209 Fc ? Dmed D max ? E To ? D max ? ? D max E To ? Fc assim , preço pago ? p? E ? e? E To ? Fc p = preço do kW e = preço do kWh Em cálculos de base mensal, normalmente To é substituído por 730 h, período de tempo de um mês médio [(365 dias x 24 horas) / 12 meses] (CELESC, 1981, pp. 12-15), ou ainda para os horários de ponta (66 h) e fora de ponta (664 h) 71 (SECR. ENERGIA-SP, 2001, p. 23) A análise da equação anterior leva à conclusão de que quanto maior for o fator de carga, menor é a parcela paga pela demanda e por conseqüência o preço unitário ou médio (preço/kWh) pago por unidade de energia (kWh) (JANNUZZI, 1997, p. 167) 72 : Equação 10 – Preço médio da energia elétrica em função do fator de carga Pr eço Médio ? preço pago energia ( kWh) ? p ?e To * Fc Neste sentido, o ideal seria que a demanda máxima se aproximasse o possível da demanda média, ou seja, uma curva de carga o mais plana possível, implicando em um fator de carga o mais próximo de 1 e o menor preço médio possível. As principais causas de um baixo fator de carga estão relacionadas à uma má distribuição ou programação de utilização de energia elétrica, normalmente através do 71 72 Vide item 3.3.2 do APÊNDICE C e nota 23. Também pode ser calculado o preço médio para a tarifação horosazonal (item 3.3.2 do APÊNDICE C) 210 funcionamento desnecessário e/ou simultâneo de várias cargas 73 (CELESC, pp. 46-47; CELESC, 1981, pp. 16-17). Para melhorar o fator de carga, inicia-se por ações de natureza funcional, evitando a partida simultânea de motores e efetuando manutenção preventiva nas instalações. Após a correção dessas distorções, pode-se analisar ainda duas opções (CELESC, p. 47-51; CELESC, 1981, pp. 18-20; CNI, 1989, pp. 20-21; MAMEDE, 1987, p. 15-17): a) Aumentar o consumo, sem aumentar a demanda: Esta opção só faz sentido se a empresa constatar um aumento do volume de vendas/produção que implicaria no aumento de consumo de energia elétrica. Neste caso, o consumo adicional deve ser alocado em períodos em que a demanda esteja menor que a máxima. 74 . b) Reduzir a demanda, preservando o consumo: É a atitude mais natural, haja vista que o baixo fator de carga vem do fato de que a demanda máxima é bem maior que a média 75 . Assim, podem ser deslocadas e reprogramadas cargas do horário de ponta, reduzindo a demanda máxima, aplainando a curva de carga, reduzindo o custo médio da energia e portanto o custo total. Estas medidas de melhoria do fator de carga implicam inclusive, para uma empresa industrial, na melhor utilização da sua capacidade operacional, pelo melhor aproveitamento de seus equipamentos (FORTUNATO et al., 1990, p. 192). Na verdade, haja vista que toda ação da empresa no sentido de se adequar a um melhor fator de carga pode requisitar investimentos e custos adicionais, é interessante a informação de que, para fins de redução do preço médio de energia elétrica, não é absolutamente imprescindível se chegar a um Fc para muito próximo da unidade. Em Camargo (1984, p. 14) encontra-se a curva análoga à mostrada a seguir, obtida a partir da equação 6, cujas relações entre seus componentes geralmente leva à uma forma característica, onde se verifica que o preço médio realmente sofre reduções significativas para 73 Também podem ser elencados problemas com partidas de motores, curto-circuitos e fugas de corrente. Para fins de faturamento de demanda, lembrar do período de 15 minutos de integralização (ver item 4.3.1 do Apêndice B e nota 118) 74 Seria um “preenchimento de vales” da curva de carga, tornando-a mais plana (JANNUZZI, 1997, p. 128). 75 Ver curva de carga figura 16. 211 melhorias (aumento) do fator de carga até a faixa dos 70%, aproximadamente, o que pode servir de balizador para estimar-se um limite de investimentos e gastos. Figura 18 – Variação do preço médio da energia elétrica com o fator de carga Preço Médio 0,1 0,2 0,3 0,4 0,5 0,6 0,7 0,8 Fc Fonte: CAMARGO, C. Celso. Transmissão de energia elétrica. Florianópolis: Editora da UFSC, 1984. p. 14; VENNARD, 1970, p. 226. 212 6 FATOR DE POTÊNCIA Ao gerenciar a carga de suas instalações, o consumidor deve se ater ao fato de que não estão presentes somente a demanda (kW) e energias (kWh) ativas, ou seja, aquelas que realizam trabalho através da geração de calor, luz ou movimento. Na maioria dos casos, existe um outro componente que se soma à parte ativa, compondo a potência total ou aparente (kVA), relacionado à parte reativa das cargas (kVar), que em função das características construtivas e operacionais dos equipamentos, tem a necessidade de criar e manter campos eletromagnéticos. É o caso das cargas indutivas como motores, transformadores, lâmpadas de descarga, fornos de indução, equipamentos de controle e automação, entre outros (PROCEL, 2001, p. 12; CNI, 1989, pp. 15-18). Cabe lembrar que quer-se aqui apresentar os fundamentos de análise e providências relacionados ao assunto, baseados em bibliografias de cunho básico, lembrando de que existe toda uma bibliografia técnica especializada para um estudo mais aprofundado. Quanto aos aspectos legais e práticos de medição e faturamento de reativos dos consumidores, será assunto a ser abordado no item 4.5 do APÊNDICE C desta dissertação. O parâmetro mediante o qual se verifica qual o percentual da potência total fornecida que efetivamente é utilizada como potência ativa é denominado Fator de Potência (FP), cuja visualização gráfica se dá através do “triângulo de potências” (CODI, p. 5; CELESC, p. 38; MAMEDE FILHO, 1987, p. 107; NISKIER, MACINTYRE, 1986, pp. 284-285; CREDER, 1984, p. 198): 213 Figura 19 – Triângulo de potências Potência ativa (kW) f Potência total ou aparente (kVA) ativa (kW) Potência reativa (kVar) Dos conceitos trigonométricos aplicados à figura acima, extrai-se a expressão que exprime o fator de potência, que é a relação entre a potência ativa e a potência total76 : Equação 11 – Fator de potência FP ? kW ? kVA kVar ? ? cos ? ? cos ?arctg kW ?? ? Onde: kW = potência ativa kVA = potência total ou aparente. kVar = potência reativa. O fator de potência também pode também ser capacitivo, o que normalmente ocorre em períodos de baixa carga, com a injeção de reativo pelas linhas de transmissão e distribuição, por bancos de capacitores que não são desligados pelas empresas. O fator de potência (indutivo ou capacitivo) em níveis baixos implica na circulação, entre fonte e carga, de uma energia reativa que não está executando trabalho, conquanto esteja ocupando a capacidade do sistema elétrico. 76 Para questões de faturamento de energia elétrica, a resolução 456/2000 trata, em seus artigo 2o , incisos XIV e XX, dos conceitos de energia elétrica reativa e de fator de potência, respectivamente: “XIV - Energia elétrica reativa: energia elétrica que circula continuamente entre os diversos campos elétricos e magnéticos de um sistema de corrente alternada, sem produzir trabalho, expressa em quilovolt-ampére-reativohora (kVArh). [....] XX - Fator de potência: razão entre a energia elétrica ativa e a raiz quadrada da soma dos quadrados das energias elétricas ativa e reativa, consumidas num mesmo período especificado” (conceito também derivado do triângulo de potências) 214 O baixo fator de potência ocorre principalmente na existência de motores e trafos77 em elevado número, operando a vazio ou com pequenas cargas, níveis de tensão da instalação acima do normal, iluminação de descarga (vapor de mercúrio, fluorescentes, etc...) sem correção individual de FP (CELESC, p. 40; PROCEL, p. 14-15; CREDER, 1984, pp. 197; COTRIM, 1992, pp. 783-784). Os problemas decorrentes da operação com baixo fator de potência, ou seja, em um percentual elevado de reativos, refletem-se na rede elétrica através de uma corrente elétrica78 bem maior do que a necessária para gerar trabalho, aumentando as perdas de energia dentro da instalação, redução da capacidade e da vida útil dos transformadores e outros equipamentos, aquecimento de condutores, quedas e flutuações de tensão e implicando na sub- utilização da capacidade instalada do próprio sistema elétrico, cuja legislação permite a cobrança de penalidades pecuniárias (CODI, pp. 7-10; CELESC, p. 40; CNI, 1989, p. 16-17). A correção do baixo fator de potência é alcançada pela eliminação das suas causas (dimensionamento e utilização corretos de equipamentos elétricos, acerto no nível de tensão) e pela injeção de energia reativa através da instalação de capacitores ou motores síncronos superexcitados diretamente sobre as cargas indutivas (compensação) (CODI, pp. 11-15; CELESC, pp. 41-42; CNI, 1989, p. 18, MAMEDE, 1987, pp. 120-127; COTRIM, 1992, pp. 796-803). Cuidados adicionais devem ser tomados em função da presença de distorções harmônicas 79 produzidas por vários tipos de equipamentos como fornos a arco, conversores estáricos e outros, as quais podem interagir com os bancos de capacitores instalados, agravando problemas de aquecimento e perdas em máquinas e interferindo em equipamentos eletrônicos, de comunicação e de proteção de circuitos elétricos (CODI, p. 15; COGO, 1993, pp. 3, 19-25). 77 Abreviação usual para transformador. Grandeza elétrica relacionada ao fluxo de elétrons em um condutor, expressa em ampéres (A) (NISKIER, MACINTYRE, 1986, p. 3). 79 Provocadas por ondas que possuem freqüências múltiplas da freqüência fundamental (60 Hz), de natureza não senoidal. 78 215 APÊNDICE C - TARIFAÇÃO E FORNECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA 1 INTRODUÇÃO Políticas tarifárias de energia elétrica, além de sua função precípua de remuneração do produto, são também formas de controle indireto do consumo de energia elétrica, inseridas no contexto maior do Gerenciamento pelo Lado da Demanda 80 . Aproveitando-se da racionalidade econômica dos consumidores, uma política tarifária adequada os induz à gestão eficiente do uso e do aproveitamento energéticos, e com isso obtém uma melhor alocação econômica dos recursos do setor elétrico. Neste sentido, as transformações da estrutura de mercado do setor elétrico vêm mudando o senso comum dos consumidores de energia elétrica em relação à sua interpretação sobre o produto energia elétrica. A visão de que a energia elétrica é um serviço a ser disponibilizado pelo governo foi ampliada e incluiu a dimensão de produto-bem, que tem que ser produzido e distribuído sob a ocorrência de custos, dentro de uma estrutura de mercado típica para o setor elétrico e cujos preços que os consumidores terão de arcar. Desta forma, saber como e quanto se pagará pela energia elétrica torna-se elemento estratégico para a obtenção de resultados pelas empresas, notadamente quanto maior sua eletrointensividade. Conhecer o funcionamento do mercado, os aspectos legais da comercialização, a estrutura tarifária em vigor e a forma de cobrança em função dos preços praticados reveste-se então de importância fundamental para os que terão a incumbência de planejar e operar sua interação junto ao setor elétrico, seja como consumidor (cativo ou livre) ou produtor (autoprodutor ou produtor independente). Munasinghe e Warford (1982, pp. 10-11), comentam que não só observa-se implicações intrínsecas ao setor elétrico no âmbito político e de planejamento econômico da operação e expansão de seus sistemas mas, por reflexo, nas próprias estruturas microeconômicas das empresas e das famílias, ou seja consumidores dos diferentes setores da economia. 80 Vide item 3.4.1 do corpo do trabalho. 216 Neste capítulo, portanto, pretende-se fornecer uma visão geral da estrutura legal e normativa pela qual os consumidores recebem a sinalização de preços (tarifas), penalidades e incentivos, os quais se inserem em um amplo processo legislativo de instituição normativa específica para o setor. Além disso, tem-se por objetivo examinar, distinguir e demonstrar as formas mediante as quais os consumidores de energia elétrica são cobrados pelo uso do sistema elétrico e pelo consumo da eletricidade. 217 2 TARIFAS DE ENERGIA ELÉTRICA 2.1 CONCEITO DE TARIFA O serviço público é aquele prestado direta ou indiretamente pela Administração Pública ou por quem lhe faça as vezes sob regime de Direto Público, para atender direta ou indiretamente os residentes no país, tendo a si dedicados estudos de doutrinadores de reconhecido mérito como Meirelles (1990, pp. 318-388). O fato de que, cada vez mais, a energia elétrica ser considerada imprescindível para a vida normal das pessoas e das empresas, intui a sociedade a questionar sobre a natureza obrigatória de serviço público, ou simplesmente a opcionalidade de uma commodity, assunto esse de caráter eminentemente político, com resquícios evidentes ao jurídico e jurispridencial. No entanto, sob os auspícios do direito administrativo brasileiro, a energia elétrica, no sentido da prestação de um serviço de fornecimento, é remunerado mediante uma tarifa ou preço público, que é a forma de remuneração de serviços públicos ditos de utilidade pública ou facultativos (não essenciais, nem de necessidade), pois que serão utilizados se e quando o cidadão assim desejar (MEIRELLES, 1990, pp. 320, 376). Nota-se, no entanto, que a questão das tarifas submete-se à tradicional atividade regulamentadora estatal, que pode ser mais ou menos ativa em função do sistema econômico que adote para o setor elétrico. Quanto mais liberal e voltada ao mercado, menor sua atuação no sentido da formação dos preços, como se verifica no caso dos contratos livremente negociados entre os consumidores livres e seus fornecedores. Neste caso, no que tange à energia elétrica ativa, não há submissão à uma tarifa quanto ao consumo, e sim o preço acordado. No entanto a demanda e outras cobranças permanecem com tarifas regulamentadas 81 . Assim, nas situações em que a legislação dispuser, a tarifa de energia elétrica relaciona-se ao preço estabelecido pelo poder concedente para a prestação do serviço público de energia elétrica (ABRACEEL, 2003, p.31). 81 Será visto no item 4 deste Apêndice – Faturamento de energia elétrica. 218 Sob um conceito mais detalhado, a tarifa de energia elétrica é o preço da unidade de energia elétrica consumida (tarifa de consumo) e/ou de potência à disposição (tarifa de demanda (MUNDO ELÉTRICO, 1990, p. 44). 2.2 NÍVEL TARIFÁRIO Segundo Bitu e Bo rn (1993, p. 37), o nível tarifário é o valor geral dos preços da energia elétrica, definido pelo seu preço médio. Em sua definição são usualmente observados vários quesitos, que compreendem a obediência aos aspectos legais, o equilíbrio financeiro da concessionária, as políticas de governo, a renda dos consumidores e a influência nos custos das empresas. Lescoeur e Galland (1987, pp. 458-464) argumentam que as tarifas não podem, como seria desejável, refletir todas as diferenças de preços entre as mais diversas formas de produção e de consumo de energia elétrica, sob pena de se tornarem assunto de complexidade inibidora inclusive da racionalização dos sistemas de medição e controle. Devem, no entanto, trazer embutidas em sua formulação, a busca pela eficiência econômica do setor e conseqüentemente dos objetivos de desenvolvimento do país. Bitu e Born (1993, p. 38) salientam ainda que “a tarifa deve satisfazer às necessidades financeiras das concessionárias (nível tarifário) e, ao mesmo tempo, atender aos objetivos de alocação eficiente de recursos, igualdade e justiça social, estabilidade relativa de preços, simplicidade e uso racional de energia elétrica (estrutura tarifária)”. De acordo com Fortunato et al. (1990, pp. 185-209), o cálculo das tarifas de energia elétrica englobam diversos fatores econômicos, financeiros, políticos, técnico e operacionais, que o torna bem mais complexo do que o cálculo de preços de outros produtos. As definições anteriores eram referências conceituais para a tarifa pelo custo do serviço 82 , tradicionalmente empregada no Brasil até meados da década de 1990. Esta tarifa é definida com base no custo do serviço prestado, obtida a partir de dados e informações de origem contábil e com base nos custos marginais a partir da década de 1980. As condições de formação de preços eram determinadas através de uma fórmula paramétrica, 82 “Custo necessário para assegurar um serviço técnica e economicamente adequado às necessidades dos consumidores” (MUNDO ELÉTRICO, 1990, p. 42). 219 na seguinte composição de custos verificados no período, submetendo o pedido ao poder concedente para homologação: ?? Custos de exploração: operação e manutenção dos bens e instalações em serviço. ?? Custos de conservação dos ativos: depreciação dos bens e instalações em serviço ?? Rentabilidade do capital: percentual sobre o custo de investimento nos bens e instalações em serviço (remuneração legal). O nível das tarifas é fixado alocando-se os custos de capital (fixos) ao componente de potência, decorrentes da carga máxima 83 solicitada ao sistema e que devem remunerar as despesas diretamente ligadas ao investimento. Do mesmo modo, os custos variáveis são relacionados ao componente de energia, que será obtido mediante gastos com a prestação do serviço propriamente dita, envolvendo pessoas, matérias primas utilizados na produção, transmissão e distribuição. Em um primeiro critério a determinação das tarifas era feita com base nos custos contábeis (históricos), que realiza uma estimativa baseada nas informações dos componentes das contas patrimoniais e de resultados das demonstrações financeiras de períodos contábeis passados. De acordo com o DNAEE 84 (1989, p. 40), tal metodologia não se demonstrou compatível com os objetivos de racionalização, equidade e neutralidade determinados pela legislação regente, pois que não refletia diferenças de custos entre horários e períodos de consumo. Assim, a partir da década de 1980, introduziu-se na análise princípios econômicos e probabilísticos, ao considerar os custos marginais 85 provocados pelo aumento de demanda em cada categoria de consumidores e período de consumo. Apoiando-se na teoria microeconômica de curto e longo prazo, o conceito do custo marginal da energia elétrica é entendido como sendo o custo requerido para atender a um aumento marginal de carga (FORTUNATO et al., 1990, pp. 193-199; MUNASINGHE, WARFORD, 1982, pp. 15-24). Em outras palavras, a tarifação de energia elétrica associada à 83 Demanda de ponta ou pico. Departamento Nacional de águas e Energia Elétrica, substituído em 1995 pela ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica. 85 “Variação do custo total decorrente da adição ou subtração de uma unidade de demanda ou energia, em um determinado momento.” (MUNDO ELÉTRICO, 1990, p. 42). 84 220 metodologia dos custos marginais têm condições de sinalizar ao consumidor as vantagens e/ou desvantagens de seu hábitos de comportamento de consumo. Em um crescente número de países, entre os quais o Brasil (a partir de 1982), prevaleceu o método de obtenção da tarifa de energia elétrica com base nos custos marginais ou tarifa integrada (BITU e BORN, 1993, pp. 42-43, 158-164 ; FORTUNATO et al. , 1990, pp.199-207) Decursiva dos princípios da tarifação ao custo marginal, a tarifa integrada, não obstante guardar a maior coerência possível com os custos marginais, leva em conta outros princípios de caráter operacional, político e social atribuídos ao setor elétrico, como a consideração sobre o equilíbrio econômico- financeiro das concessionárias e do setor elétrico, aspectos operacionais de medição e faturamento e não menos importantes, as políticas macroeconômicas e sociais, como por exemplo subsídios para tarifas industriais e para consumidores de baixa renda. Entrementes, as mudanças decorrentes das reformas institucionais proporcionaram o aparecimento de um novo sistema de tarifação, notadamente para os novos empreendimentos (concessões), pressupondo uma completa transição para um mercado livre e competitivo. A este regime denominou-se tarifa pelo preço (price-cap), que é aquela que não está subordinada à taxas de rentabilidade mas estabelecida em função do preço apresentado na proposta vencedora de uma licitação para a outorga da concessão do serviço, aprovada pelo poder concedente, podendo ser exigido o emprego de técnicas de custos marginais. Bitu e Born (1993, p.116) comentam que essa modalidade se fortaleceu em nível mundial, sendo que os preços praticados ficam então submetidos à fiscalização de um órgão regulador. No Brasil, a partir da edição da Lei 8.987/95, que trata do regime de concessão e permissão da prestação de serviços públicos, o regime tarifário com base no “serviço pelo custo” passou então para o de “serviço pelo preço”, revisado e reajustado periodicamente conforme disposição do contrato de concessão ou permissão, a ser devidamente fiscalizado pelo órgão concedente, no caso a ANEEL ( FERNANDES FILHO, 2001, p. 178). Comentando de modo simplificado, a concessionária pode solicitar seus reajustes anualmente a partir de variações de custos parte controlados pela ANEEL (custos gerenciáveis), parte devidos à compra de energia elétrica e outros encargos (custos não- 221 gerenciáveis). No entanto, mesmo com relação aos custos não gerenciáveis, a Resolução ANEEL nº 266/98, atualizada pela Res. nº 248/2002, estabelecem limites de repasse de aumentos de custos de compra de energia elétrica às tarifas de fornecimento, por conta de um custo de referência denominado “valor normativo”. Não se trata ainda do descarte da análise feita pelo custo do serviço, pois que seus princípios ainda estão sendo utilizados pela ANEEL na avaliação dos preços da transmissão e da distribuição de energia elétrica (PIMENTEL, 2001, pp. 25-27). No entanto, cabe aqui ressaltar que não existe ainda um arcabouço regulamentar claro e preciso que defina as regras das novas relações de natureza concorrencial e negocial a que se submete a formação de preços do setor elétrico brasileiro, pois que não se consolidou totalmente o modelo do setor implementado a partir de 1995 antes que, em finais de 2003, nova reforma institucional estivesse em andamento. 2.3 ESTRUTURA TARIFÁRIA Os preços da energia elétrica (tarifas) são estruturados e discriminados mediante uma estrutura tarifária 86 , que vai então definir a relatividade dos preços segundo os componentes de nível de tensão de fornecimento, classe de consumo, demanda, consumo, estação do ano, horário do dia e a localização do consumidor. De acordo com o DNAEE (1989, p. 41) “dentro de uma estrutura tarifária, o nível tarifário pode ser o nível de preços praticados pelo setor elétrico hoje ou o nível dos custos marginais”. Assim, a determinação da estrutura tarifária pelo custo do serviço pode ser obtida tanto com base nos custos contábeis como nos custos marginais. Nos dias atuais, para os consumidores cativos, a estrutura tarifária com base nos custos marginais tem se demonstrado a mais empregada, a qual estabelece os preços relativos entre consumidores participantes do sistema elétrico, analisando as variações de custo segundo o nível de tensão em que os consumidores são servidos e a sua forma de consumir (PIMENTEL, 2001, P. 15) 86 “Conjunto de tarifas aplicáveis às componentes de consumo de energia elétrica e/ou de demanda de potências ativas de acordo com a modalidade de fornecimento” (Art. 2º, XV, Res. ANEEL 456/2000). 222 Uma das formas mais usuais de estrutura tarifária pelo custo do serviço encontra-se na tarifa monômia, também denominada de tarifa plana, situação em que o preço faz referência somente à unidade de energia (kWh) consumida, computando-se um total ao longo de um período. As tarifas planas surgiram com a invenção dos medidores de energia, ao final do século XIX, revolucionando o método anteriormente empregado, o do tipo “forfait”, que não se utilizava de medidores e calculava o consumo mediante uma estimativa em função da carga instalada, aliás método hoje ainda utilizado para a medição do consumo de boa parte da iluminação pública. No Brasil, os consumidores ligados em baixa tensão 87 , residenciais e outros, são incluídos nesta estrutura. Sua evolução foi representada pelas tarifas em degraus e pelas tarifas em blocos 88 , que diferenciam o preço em função de patamares de consumo (FORTUNATO et al. 1990, pp. 187-193). Atualmente, a tarifa em blocos somente é utilizada para os consumidores residenciais de baixa renda e para fins de cálculo do ICMS dos consumidores residenciais. 89 A inclusão do custo da demanda de potência na composição da tarifa também tem sua origem no século XIX, na criação da tarifação binômia, proposta por Wright (1886) e aperfeiçoada por Hopkinson (1892), sendo atualmente largamente aplicada sobretudo nos consumidores de maior porte. As tarifas binômias ou de Hopkinson dividem-se em um componente de preço da energia e outro da potência (kW), sendo então cobrados, dentro de um determinado período, o total de energia consumida e a máxima demanda de potência atingida. É a modalidade adotada no Brasil para os consumidores ligados em alta tensão 90 . As tarifas horo-sazonais (time of use-seasonal tariff structure), por sua vez, são tarifas binômias mas com a especificidade de que os preços se diferenciam em função do período do ano ou horário do dia (DUKE ENERGY, 2001, p. 48). 87 Ver item 3.2 deste Apêndice. “Modalidade tarifária em que se aplicam tarifas diferentes para cada um dos blocos sucessivos pré-fixados, em que é subdividido o consumo total.” (MUNDO ELÉTRICO, 1990, p. 45) 89 Será melhor detalhado no item 4.7 deste Apêndice. 90 Tanto os consumidores cativos quantos os consumidores livres têm essa composição nos preços de energia elétrica. 88 223 O período do ano define diferentes tarifas de consumo para um regime hidroelétrico, reflexo dos ciclos hidrológicos que interferem na afluência de água para os reservatórios das usinas. O atendimento ao mercado no período de menor disponibilidade hídrica só é possível mediante a acumulação de água durante a fase de maior afluência, necessitando maiores investimentos em barragens. Já o horário do dia é indicador para que seja cobrado um maior preço pela energia e pela demanda nos horários de ponta do sistema elétrico, que são aqueles em que a rede assume maior carga. Segundo Souza (2002, p. 95), esta estrutura tarifária originou-se da alteração da visão do custo pelo serviço pelo enfoque microeconômico dos custos marginais, a partir da década de 1960, na França. No Brasil, a implantação da estrutura horosazo nal data de 1982. Até 1981, portanto, não havia um sistema tarifário que permitisse ao consumidor perceber os reflexos decorrentes de seu comportamento quanto ao uso da energia elétrica. Em termos de custos, não havia diferença se o consumo ocorresse de madrugada ou ao final da tarde, ou ainda se no mês de junho ou de dezembro. Segundo Bitu e Born (1993, pp. 43-45) encontra-se ainda outros tipos de tarifas: ?? Tarifas interruptíveis : São preços substancialmente mais baixos em função da concordância do consumidor em ser desconectado em caso de necessidade do supridor. ?? Tarifas em função do tempo de utilização: Em função do fator de carga 91 do consumidor. Podem ser divididas em de curta , média ou longa utilização. ?? Tarifas em função do preço do produto final do consumidor, notadamente em eletro- intensivos ?? Tarifas instantâneas : Ou tarifas spot, que variam em períodos curtos de tempo e definidas a partir do CMg de curto prazo. São freqüentemente resultantes da livre comercialização de energia e no Brasil estão presentes nos processos de compra e venda do Mercado Atacadista de Energia. 91 Item 5 do APÊNDICE B. 224 ?? Tarifa pelo Passivo: obtida com base no balanço de resultados de uma empresa, composto pelas parcelas do Passivo, que correspondam aos custos de exploração, administrativos, financeiros, dividendos (rendimento do capital empregado) e royalties. Dessa forma, a partir de informações contábeis, o nível da tarifa é definido com base no valor médio dos custos. No Brasil temos o exemplo de cálculo de tarifa pelo passivo na geradora Itaipu Binacional (BITU e BORN, 1993, p. 41). ?? Encargos ou taxas: Relacionados ao custo de atendimento aos consumidores, independente de consumo ou demanda. Por exemplo, encargos de ligação, desligamento, leitura, cobrança e outros serviços. Podem também estar relacionadas a consumo extra de combustível em usinas térmicas, royalties, taxas especiais e empréstimos compulsórios. 225 3 SISTEMA BRASILEIRO DE TARIFAÇÃO A regulamentação das relações entre concessionárias e consumidores cativos foi realizada pela ANEEL, exercendo sua competência para elaborar e implementar as normativas que dispõe sobre os direitos e deveres do consumidor cativo junto ao setor elétrico, cuja interface é a concessionária de energia elétrica. Com a publicação da Resolução ANEEL no 456, de 29 de nove mbro de 2000, foram consolidadas as disposições infralegais referentes ao fornecimento de energia elétrica, tendo em vista a profunda alteração constitucional e legal de que foi alvo o setor e seu conseqüente impacto na regulamentação (FERNANDES FILHO, 2001, p. 170). A Resolução 456/2000 contempla a regulamentação da estruturação tarifária, as regras de fornecimento e faturamento de energia elétrica, e visa o relacionamento entre os agentes responsáveis pela prestação do serviço público de energia elétrica, ou seja, a oferta do produto energia elétrica, e os consumidores do produto, inclusive os consumidores livres, no que lhes couber. Da análise da Resolução 456/2000 e da legislação que lhe é correlata, o consumidor vai compreender seus direitos e deveres perante o sistema elétrico, seu enquadramento tarifário e a forma mediante a qual lhe é cobrada a energia elétrica. A importância de seu conhecimento é reforçada por Fernandes Filho (2001, p. 172) : “[...] todos os responsáveis pelo gerenciamento de energia elétrica das unidades consumidoras atendidas em tensão primária de distribuição, [...] deveriam ter uma cópia dela em seus arquivos.” 3.1 CLASSIFICAÇÃO DO CONSUMIDOR DE ENERGIA ELÉTRICA São duas as principais classificações pelas quais passa o consumidor para fins de enquadramento nas estruturas tarifárias vigentes. A primeira diz respeito à sua finalidade ou atividade econômica, cujas possibilidades são bastante variadas em função da complexidade do sistema sócio-econômico, denominadas de classes de consumo. 226 A segunda reporta-se à tensão de fornecimento (voltagem) que é aquela disponibilizada pela concessionária no ponto de entrega 92 do produto energia elétrica ao consumidor. 3.1.1 Classes de consumo O consumidor, ao solicitar sua ligação ao sistema elétrico, será catalogado pela concessionária nos termos do art. 20 da resolução 456, que assenta as diversas classes e subclasses para efeito de aplicação de tarifas, resumidamente expostas a seguir: a) Residencial - caracterizado principalmente pelo conjunto de domicílios familiares; b) Industrial - congrega uma grande variedade de consumidores, que se distinguem pela grandeza de consumo (pequenos, médios e grandes) e pela atividade econômica desenvolvida, conforme o Cadastro Nacional de Atividades Econômicas (CNAE); c) Comercial - consumo de estabelecimentos comerciais e prestadores de serviço; d) Rural - consumidores não urbanos e cooperativas; e) Poderes Públicos - prefeituras, governo e outros órgãos públicos integrantes da estrutura administrativa do Estado; f) Iluminação Pública - cargas de iluminação; g) Serviços Públicos – atividades econômicas sob concessão estatal; h) Consumo próprio – consumo e perdas próprias da concessionária. 3.1.2 Tensão de fornecimento As tensões de fornecimento aos consumidores estão regulamentadas observando os limites e demais disposições dos art. 6o , 7o e 8o . 92 “Ponto de conexão do sistema elétrico da concessionária com as instalações elétricas da unidade consumidora, caracterizando-se como o limite de responsabilidade do fornecimento.” (Art. 2º, XXVI, Res. ANEEL 456/2000) 227 O art. 6º define três limites a serem estabelecidos quando do pedido de fornecimento 93 por parte de um consumidor : a) Tensão secundária de distribuição 94 , quando a carga instalada 95 na unidade consumidora for igual ou inferior a 75 kW; b) Tensão primária de distribuição 96 inferior a 69kV, carga superior a 75kW e a demanda contratada 97 ou estimada pelo interessado para o fornecimento, for igual ou inferior a 2500 kW; c) Tensão primária de distribuição igual ou superior a 69kV, demanda contratada ou estimada acima de 2500 kW. No entanto, são elencadas no art. 7o situações nas quais os limites expostos acima são ignorados, pois que a concessionária pode estabelecer a tensão de fornecimento sem se ater aos patamares de carga e demanda contratada ou estimada, aludidos no art. 6º. Exemplos disso são vistos quando o consumidor, mesmo com carga instalada abaixo de 75 kW, possui algum tipo de equipamento (normalmente motores de alta potência), cuja corrente de partida pode afetar a qualidade do sistema de distribuição. Logo a seguir, a Resolução 456/2000, no art. 8º, estende ao consumidor um direito que anteriormente só era dado à concessionária: Artigo 8o – O responsável por unidade consumidora pode optar por tensão diferente, desde que, havendo disponibilidade técnica do sistema elétrico, assuma os investimentos adicionais ao atendimento no nível de tensão pretendido. Este artigo estabelece o direito de, por exemplo, um consumidor em 23kV conseguir ser ligado em 138kV, desde que haja a viabilidade técnica desta conexão e que o mesmo assuma os investimentos necessários. 93 “Ato voluntário do interessado que solicita ser atendido pela concessionária no que tange à prestação de serviço público de energia elétrica, vinculando-se às condições regulamentares dos respectivos contratos.” (Art. 2º, XXV, Res. ANEEL 456/2000) 94 “Tensão disponibilizada no sistema elétrico da concessionária com valores padronizados inferiores a 2,3 kV.” (Art. 2º, XXVIII, Res. ANEEL 456/2000) 95 “Soma das potências nominais dos equipamentos elétricos instalados na unidade consumidora, em condições de entrar em funcionamento, expressa em quilowatts (kW).” (Art. 2º, I, Res. ANEEL 456/2000). Ver também item 2 do APÊNDICE B. 96 “Tensão disponibilizada no sistema elétrico da concessionária com valores padronizados iguais ou superiores a 2,3 kV.” (Art. 2º, XXIX, Res. ANEEL 456/2000) 97 A demanda contratada é definida como “a demanda de potência ativa, com valor e período de vigência especificados em contrato, a ser obrigatória e continuamente disponibilizada pela concessionária, no ponto de entrega, conforme valor e período de vigência fixados no contrato de fornecimento e que deverá ser integralmente paga, seja ou não utilizada no período de faturamento, expressa em quilowatts (kW).”(Art. 2º, IX, Res. ANEEL 456/2000; MUNDO ELÉTRICO, 1990, p. 43). 228 Não raro é a situação de que, partindo do estudo econômico adequado, o consumidor descobre ser bastante atrativa a mudança de tensão de fornecimento, não só da ótica operacional como também econômico-financeira, pois consegue recuperar seus investimentos em instalações em prazo relativamente curto dado à diferença das tarifas entre os níveis de tensões. 98 3.2 GRUPOS TARIFÁRIOS A partir da classe de consumo e da tensão de fornecimento que lhe são atribuídas, o consumidor é consignado a um determinado grupo tarifário. No Art. 2o , incisos XXII e XXIII da Resolução ANEEL 456/2000, encontra-se a definição dos grupos e subgrupos tarifários em que são alocadas as unidades consumidoras. Importante é salientar que esta classificação vai se refletir nos níveis tarifários e na estrutura tarifária a ser aplicada ao consumidor, com diferentes valores de preços. Além disso, não menos importante é o fato de que o grupo tarifário é base para o enquadramento do consumidor nas condições que o permitem tornar-se livre 99 . 3.2.1 Grupo B O inciso XXIII do art. 2º, a Resolução 456/2000 registra a definição do grupo B (de “baixa tensão”), como sendo “o grupamento composto de unidades consumidoras com fornecimento em tensão inferior a 2,3 kV [...], caracterizado pela estruturação tarifária monômia [...]” Observa-se que para o grupamento B, a sub-classificação decorre basicamente do tipo de atividade ou finalidade da unidade consumidora: a) Subgrupo B1 – residencial ou residencial baixa renda; b) Subgrupo B2 – rural, cooperativa de eletrificação rural ou serviço público de irrigação; 98 Como pode ser verificado nas tabelas de preços constante dos anexos 1 a 4, que serão melhor detalhadas em itens posteriores (Vide também item 4.3.3.2). Além disso, como exemplo, vide Herzberg (1997, pp. 98-104). 99 Vide item 4.3.1 – tensão 69 kV e demanda contratada 3 MW. 229 c) Subgrupo B3 – demais classes; d) Subgrupo B4 – iluminação pública; No Brasil, os consumidores do grupo B são atendidos normalmente em tensão de 127, 220 ou 380 V (alguns casos em 440 V). São as residências, lojas, agências bancárias, pequenas indústrias, unidades de edifícios residenciais e comerciais (PROCEL, 2001, p. 6 ). Conforme ainda sua conceituação, a estrutura ou modalidade tarifária destinada ao consumidor do grupo B será monômia, ou seja, será cobrado somente um valor, referente ao consumo de energia elétrica medido. 100 3.2.2 Grupo A O grupo A (de “alta tensão”) refere-se ao “grupamento composto de unidades consumidoras com fornecimento em tensão igual ou superior a 2,3 kV, [...] caracterizado pela estruturação tarifária binômia [...]” (Res. ANEEL 456/2000, art. 2o ) . O inciso XXII relaciona os seguintes subgrupos, notadamente derivados das diferentes tensões de fornecimento de energia elétrica: a) Subgrupo A1 – tensão de fornecimento igual ou superior a 230 kV; b) Subgrupo A2 – tensão de fornecimento de 88 kV a 138 kV; c) Subgrupo A3 – tensão de fornecimento de 69 kV; d) Subgrupo A3a – tensão de fornecimento de 30 kV a 44 kV; e) Subgrupo A4 – tensão de fornecimento de 2,3 kV a 25 kV; f) Subgrupo AS – tensão de fornecimento inferior a 2,3 kV (subterrâneo). No grupo A, a predominância é de indústrias e estabelecimentos comerciais de médio e grande porte, geralmente no sub- grupo A4 (PROCEL, 2001, p.6). A exceção do sub- grupo AS refere-se aos consumidores atendidos por redes subterrâneas, em baixa tensão. Note-se também que a modalidade de tarifação do grupo A é binômia, ou seja são cobrados distintamente o consumo de energia e a demanda de potência 101 . 100 Vide item 3.2.1. 230 3.2.3 Mudança de grupo tarifário Deve-se notar que as possibilidades de mudança de grupo tarifário são condicionadas às situações previstas na legislação, as quais, salvo melhor juízo, devem ser interpretadas literalmente, no intuito de se manter a padronização exigida pelo setor elétrico. Neste sentido, retornando ao conceito do Grupo B, verifica-se que é possível ao consumidor do Grupo A mudar sua opção tarifária pois que fazem parte do grupo B “[...] unidades consumidoras [...], ou ainda, atendidas em tensão superior a 2,3 kV e faturadas neste Grupo nos termos definidos nos arts. 79 a 81 [...]”. Ou seja, por sua opção, o consumidor permanecerá ligado em “alta tensão” mas será faturado nos moldes destinados ao consumidor de “baixa tensão”. Logo, os artigos 79 a 81 são os que tratam da mudança de grupo tarifário das unidades consumidoras do grupo A, autorizadas a optar pelas tarifas do grupo B quando : ?? estiverem localizadas em área legalmente reconhecida de veraneio ou turismo e explorem a atividade de hotelaria. ?? com potência instalada de transformação igual ou inferior a 112,5 kVA (750 kVA para cooperativas de eletrificação rural) ?? com instalações permanentes para práticas desportivas ou parque de exposições agropecuárias, desde que a potência instalada em iluminação seja igual ou superior a 2/3 da carga instalada ) Outra mudança que pode ser efetuada é aquela referente à possibilidade de um consumidor ligado em baixa tensão ser faturado no subgrupo AS, desde que atenda aos requisitos do art. 82 da Resolução ANEEL 456/2000, pois, o conceito do grupo A esclarece “grupamento composto de unidades consumidoras [...] ou ainda, atendidas em tensão inferior a 2,3 kV a partir de sistema subterrâneo de distribuição e faturadas neste grupo nos termos definidos no art. 82 [...]”. Desta forma, a situação referenciada pelo art. 82 diz respeito à possibilidade de o consumidor ligado em tensão secundária de distribuição em área servida por sistema subterrâneo, optar pelas tarifas do subgrupo AS, tendo consumo mínimo de 30 kWh ou contrato de demanda igual ou superior a 150 kW. 101 Item 3.2.2. 231 Finalizando o item 3.2, o quadro a seguir pretende resumir a classificação dos grupos e sub- grupos tarifários : Tabela 3 – Grupos e sub-grupos tarifários GRUPO SUB-GRUPO A Tensão de fornecimento (kV) A1 Igual ou superior a 230 A2 De 88 a 138 A3 69 A3a 30 a 44 A4 2,3 a 25 AS Subterrâneo, inferior a 2,3 kV, art. 82 B1 - resid B1 – resid baixa renda B2 – rural B Inferior a 2,3 kV B2 – coop de eletr B2 – serv. Púb de irrig Exceção arts 79 a 81 B3 – demais classes B4 – ilum. pública 3.3 TIPOS DE ESTRUTURAS TARIFÁRIAS EXISTENTES NO BRASIL Conforme a combinação entre as diversas classes de consumo e a classificação dos consumidores em grupos tarifários, podem ser aplicadas estruturas tarifárias variadas, como se verá a seguir. 3.3.1 Tarifa convencional Nesta estrutura tarifária não há diferenciação de preços conforme a utilização de eletricidade durante as horas do dia e períodos do ano (Inciso XVI do artigo 2º da Res. ANEEL 456/2000) 102 . Pode ser caracterizada como: 102 Para se verificar os preços, vide anexos 1 e 2 – Os valores das tarifas são homologadas pela ANEEL através de resoluções específicas, por concessionária, e podem ser obtidas através da internet, no endereço http://www.aneel.gov.br. 232 a) Monômia (Inciso XXXV), quando os consumidores que utilizam a maioria da energia não têm grandes demandas individuais, podendo, desta forma, o custo do kW ser incorporado ao custo do kWh, obtendo-se uma tarifa simplificada. b) Binômia (Inciso XXXVI), quando existe um preço para a demanda de potência (kW) e um preço para o consumo de energia (kWh). A tarifa convencional binômia é aplicada às unidades consumidoras do grupo A, atendidas em tensão inferior a 69 kV e com demanda contratada menor do que 300 kW, facultando-lhes a opção pelas tarifas horo-sazonais (Art. 53, IV). Quanto à tensão de fornecimento, verifica-se que se refere aos consumidores A3a, A4 e AS. Com relação à demanda contratada, no entanto, se a mesma for superada por uma demanda medida igual ou maior que 300 kW durante três registros consecutivos ou seis alternados nos últimos 11 ciclos de faturamento, resultará na aplicação compulsória da tarifação horo-sazonal azul (art. 53, III, b). Por outro lado, pelo § 1o deste mesmo artigo, o consumidor poderá retornar à modalidade convencional se ficar por nove registros alternados ou não, com demandas medidas inferiores à 300 kW. 3.3.2 Tarifas horo-sazonais A estrutura tarifária que compreende as tarifas horo-sazonais é caracterizada pela aplicação de tarifas diferenciadas de consumo de energia elétrica e/ou demanda de potência de acordo com as horas de utilização do dia e dos períodos do ano (art. 2o , incisos XVII e VIII) 103 . Os critérios de inclusão nas modalidades que compõe esta estrutura estão elencados no art. 53 da Resolução 456/2000, incisos II a IV. Resumidamente : 103 “[...] c) Horário de Ponta (P) : período definido pela concessionária e composto por 3 horas diárias consecutivas, exceção feita aos sábados, domingos e feriados nacionais, considerando as características do seu sistema elétrico. (Para a CELESC, compreende o horário das 18:30 às 21:30 h) d) Horário fora de Ponta (F) : período composto pelo conjunto de horas diárias consecutivas e complementares àquelas definidas no horário de ponta. e) Período úmido (U) : Período de 5 meses consecutivos , compreendendo os fornecimentos abrangidos pelas leituras de dezembro de um ano a abril do ano seguinte. f) Período seco (S) : Período de 7 meses consecutivos, compreendendo os fornecimentos abrangidos pelas leituras de maio a novembro.” (Art. 2º, VIII, Res. ANEEL 456/2000) 233 ?? ?? ?? ?? Tensão de fornecimento superior a 69 kV. Demanda contratada superior a 300 kW. 3 Demandas medidas consecutivas ou 6 alternadas nos últimos 11 ciclos de faturamento, com valores iguais ou maiores que 300 kW (sendo que poderá retornar à convencional se ficar por 9 registros alternados ou não, inferior a 300 kW) Opcionalmente por consumidores do Grupo A não obrigados à tarifação horo-sazonal. Tarifa Azul A Tarifa Azul é a modalidade de tarifa horosazonal estruturada para aplicação de tarifas diferenciadas de consumo de energia elétrica e de potência demandada de acordo com as horas de utilização do dia e os períodos do ano (art. 2o , XVII, a). Sua aplicação é compulsória para as unidades consumidoras atendidas em tensão de fornecimento igual ou superior a 69 kV, o que implica dizer que todos os consumidores enquadrados nos sub-grupos A1, A2 e A3 são automaticamente tarifados mediante esta modalidade. Com efeito, a tarifação azul cobra preços diferenciados para a demanda de potência e consumo de energia conforme os segmentos horo-sazonais, os quais são as combinações dos intervalos de ponta e fora de ponta com os períodos úmido e seco, conforme pode-se observar pela tabela abaixo: Tabela 4 – Tarifa Azul Horário Período DEMANDA CONSUMO PONTA SECO FORA DE PONTA ÚMIDO Demanda na Ponta Consumo na Consumo na Ponta no Ponta no SECO ÚMIDO Demanda Fora de Ponta Consumo fora Consumo fora de Ponta no período Seco período úmido período Seco de Ponta no período úmido Pode-se observar pelas tabela dos anexo 2 a 5, que os preços da demanda (kW) para o horário de ponta são maiores do que a demanda para o horário fora de ponta e ainda que, o 234 preço da energia (kWh) para o período úmido são menores do que o preço da energia para o período seco. 104 Tarifa Verde A tarifação verde segue os mesmos princípios da estrutura horo-sazonal, diferenciando-se, no entanto, pela aplicação de uma única tarifa de demanda de potência (art. 2o , XVII, b). Em sua concepção, a tarifa verde foi destinada, basicamente, aos consumidores de médio porte (entre 50 e 500 kW de demanda – DNAEE, 1989, p. 41). Enquanto que na tarifa azul cobra-se diferenciadamente em todos os segmentos horosazonais, a tarifação verde tem um único preço para a demanda, independentemente do horário de sua medição, permanecendo as mesmas diferenciações para o consumo, de acordo com a tabela a seguir: Tabela 5 – Tarifa Verde Horário Período PONTA SECO DEMANDA CONSUMO FORA DE PONTA ÚMIDO D e m Consumo na Consumo na Ponta no Ponta no SECO a n d ÚMIDO a Consumo fora Consumo fora de Ponta no período Seco período úmido período Seco de Ponta no período úmido Tendo em vista que, não obstante o preço da demanda na ponta ser o mesmo que fora da ponta, o preço do consumo na ponta é bastante superior ao fora da ponta (vide anexos 3 e 4). Tarifa Amarela A tarifa amarela é notadamente uma tarifa horo-sazonal, porém ainda não está devidamente regulamentada e implantada no setor elétrico brasileiro, não obstante sua utilização já ter sido estimada para 1989 (BITU, 1989, p. 42; DNAEE, 1989, p. 42). 104 Esta diferenciação de preços reflete a aplicação da abordagem marginalista – vide neste Apêndice, item 2.2. 235 Espera-se que seja oferecida aos consumidores de pequeno porte (inferior a 50 kW105 ), atendidos basicamente em baixa tensão, nas seguintes modalidades: a) Residencial e Rural ?? Básica: monômia em energia e progressiva por bloco de consumo, destinada a consumidores de pequeno e médio porte (até 300 kWh); ?? Opcional: monômia em energia, com preços para o período de ponta e fora de ponta, destinada principalmente aos consumidores de maior porte (acima de 300 kWh). b) Comercial, Industrial e Outros ?? Básica: monômia em energia, uniforme; ?? Opcional: monômia em energia, com preços para o período de ponta e fora dele. c) Iluminação Pública ?? Monômia em energia, diferenciada em função da propriedade do sistema. Observa-se que, mesmo não tendo sido implantada de forma generalizada, a tarifa amarela ainda está presente nas discussões especializadas do setor pois, em 2002, através do relatório de progresso no 2 do Comitê de Revitalização do Modelo do Setor Elétrico, é feita referência à importância da adoção de tarifas horo-sazonais para unidades consumidoras do grupo B, para que estes consumidores também sejam sensibilizados quanto à sazonalidade da disponibilidade de energia primária, ou seja, tarifas que diferenciem os períodos seco e úmido (FILIPPO FILHO, 2002, p. 156). Concluindo o item 3, a figura a seguir pretende demonstrar as estruturas tarifárias atualmente em vigor no Brasil: 105 Ou 75 kW pela atual classificação de baixa tensão. 236 Figura 20 – Sistema brasileiro de tarifação de energia elétrica TARIFA CONVENCIONAL ALTA TENSÃO BAIXA TENSÃO BINÔMIA A3A – 30 A 44 kV A4 – 2,3 A 25 kV AS - Subterrâneo HORO-SAZONAL ALTA TENSÃO MONÔMIA Tensão < 440 V B1 – residencial B2 – Rural B3 – Demais classes B4 - Ilum. Pública MONÔMIA ? ? Hotel veraneio/ turismo ? ? Trafo = 112,5 kVA ? ? Prát desp/exposições BINÔMIA PERÍODO DO DIA PONTA SECO FORA DE PONTA ÚMIDO PERÍODO DO ANO = 69 kV = 300 kW Grupo A AZUL obrigatório obrigatório opcional VERDE opcional opcional opcional Fonte: Elaboração do próprio autor. 3.4 OS CONTRATOS DOS CONSUMIDORES DE ENERGIA ELÉTRICA A partir da publicação da Resolução ANEEL 456/2000, ficou definido que todos os consumidores de energia elétrica teriam suas relações com os agentes comercializadores reguladas mediante um contrato (arts. 22 a 25). 237 Quanto aos consumidores do grupo B, é celebrado um contrato de adesão, com uma forma mais simplificada. Posteriormente, a Resolução ANEEL 515/2002 regulamenta seu conteúdo, denominando-o formalmente de “Contrato de prestação de serviço público de energia elétrica para unidades consumidoras atendidas em baixa tensão”. Para os consumidores em alta tensão 106 , são efetivados contratos de fornecimento, que contém, entre outros detalhes (art. 23 da Res. 456/2000): ?? Tensão de fornecimento; ?? Demanda contratada, com respectivos cronogramas e especificada por segmento horo-sazonal: A demanda mínima a ser contratada pelo consumidor convencional ou em pelo menos um dos segmentos horo-sazonais é de 30 kW (§ 3o do art. 23). Quanto ao cronograma o mesmo deverá definir as demandas contratadas para os períodos do ano 107 . ?? Energia elétrica ativa contratada , se houver; ?? Condições para revisão do contrato: A concessionária deverá renegociar o contrato de fornecimento quando o consumidor comprovar ter implementado medidas de conservação e eficiência (art. 24), assim como, com uma antecedência de 180 dias, o consumidor solicitar redução da demanda contratada (§ 4o do art. 23) . ?? Início do fornecimento e prazo de vigência: Prazo mínimo de 12 meses, ou 24 meses se houver necessidade de investimento por parte da concessionária, podendo ser prorrogado automaticamente por igual período, caso não haja manifestação expressa com antecedência de 180 dias. ?? Horário de ponta e fora de ponta; ?? Condições de aplicação da tarifa de ultrapassagem. Ademais, os contratos entre consumidores e concessionárias farão, obviamente, toda a alusão aos dispositivos da Resolução 456 no que tange às responsabilidades comuns, causas de suspensão e/ou encerramento dos contratos. 106 Para os consumidores livres, ver item 5.1 deste APÊNDICE. De acordo com o art. 55 da Res. ANEEL 456/2000, a concessionária deve permitir ao consumidor um período de testes não inferior a 3 ciclos de faturamentos (aproximadamente 90 dias). 107 238 3.4.1 Mudanças previstas para os contratos do grupo A Já em 2002 a Medida Provisória no 64 108 previa a substituição dos contratos de fornecimento dos consumidores do grupo A, que não exerceram a opção de serem consumidores livres, por contratos equivalentes de conexão (CCD), de uso dos sistemas de transmissão e distribuição (CUST ou CUSD) e de compra de energia elétrica (CCE). Obviamente tal procedimento visou trazer maior transparência para os consumidores que, em princípio, são os que têm ou terão condições de se tornarem livres, sendo- lhes demonstrado a mesma composição da fatura de energia elétrica que teriam caso fossem livres. 109 Finalmente, coube à ANEEL estabelecer a devida regulamentação necessária à aplicação dos dispositivos, sendo que o fez de acordo com a Resolução ANEEL no 665/2002. Sua plena efetividade, no entanto, ainda se encontra suspensa, por problemas operacionais e falta de clareza regulamentar, mormente após as modificações do final do ano de 2003 (Solicitação de Ouvidoria ANEEL n. 0100125980350, de 25/11/2003). Ao ser efetivamente implementada (prevê-se o início da modificações para meados de 2004), no entanto, trará ainda importantes modificações no que diz respeito ao faturamento de consumo e de demanda, mas coexistindo com as regras da Res. 456/2000 enquanto não completado o cronograma de substituição dos atuais contratos (até o final de 2005). 108 109 Seguem-na a Lei 10.604/2002,e os Decretos 4.413/2002, 4.562/2002 e 4.667/2003. Vide item 5.1 – especificidades do faturamento do consumidor livre. 239 4 FATURAMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA Neste assunto pretende-se identificar os principais itens da fatura de energia elétrica, abordando especificamente os critérios de cálculo das parcelas que compõe o valor final pago pelo consumidor. Mesmo se abstendo de uma análise detalhada de todos os itens da fatura, é importante mencionar que alguns deles são representativos de uma série de informações relativas à índices de qualidade de fornecimento e demais direitos do consumidor, por vezes ligados diretamente às prescrições do Código de Defesa do Consumidor, e que devem ser de conhecimento dos usuários dos serviços de energia elétrica (CRESTANI, 2000, pp. 30-49). 4.1 CONCEITO E DESCRIÇÃO DOS PRINCIPAIS ELEM ENTOS DA FATURA DE ENERGIA ELÉTRICA A fatura de energia elétrica, conforme o art. 2o , inciso XXI da Resolução ANEEL no 456/2000, é a nota fiscal que apresenta a quantia total que deve ser paga pela prestação do serviço público de energia elétrica, referente a um período especificado, discriminando as parcelas correspondentes. O art. 83 da Resolução elenca as informações que deverão estar constantes da fatura de energia elétrica, cada qual com sua aplicabilidade e importância: ?? Nome do consumidor, Número do CNPJ ou CPF e código de identificação, bem como a classificação da unidade consumidora e seu endereço: São esses dados cadastrais que identificam o consumidor para efeitos de cobrança e eventual execução judicial; ?? Número dos medidores de energia elétrica ativa e reativa com as respectivas constantes de multiplicação, necessários para o consumidor verificar a realidade física dos aparelhos medidores; ?? Data das leituras anterior e atual dos medidores, bem como da próxima leitura prevista; ?? Data da apresentação da fatura e do vencimento, que devem ser considerados para fins de suspensão do fornecimento em caso de inadimplência; 240 ?? Componentes relativos aos produtos e serviços prestados, discriminando as tarifas aplicadas; ?? Parcela referente a impostos incidentes sobe o faturamento realizado, multas e valor total a pagar (vide itens 4.7 e 4.10 deste APÊNDICE); ?? Indicadores de qualidade do fornecimento (vide item 4.11 deste APÊNDICE); ?? Avisos e informações diversos, inclusive com espaços que podem ser locados; ?? Pagamento de juros do empréstimo compulsório da ELETROBRÁS; ?? Indicação do respectivo desconto sobre a tarifa, quando houver; ?? Indicação de faturamento com base na média, se houver, em casos de avaria de medidores; ?? Percentual do reajuste tarifário, o número da resolução que o autorizou e a data de início de sua vigência nas faturas em que o reajuste incidir; Dependendo ainda da classificação do consumidor, a fatura de energia elétrica terá forma e disposições diferentes. Assim, a fatura do consumidor do grupo A é diferente da do grupo B, assim como as faturas de cons umidores horosazonais verdes ou azuis terão informações adicionais em relação às do grupo A convencionais. 4.2 CONSUMO DE ENERGIA ATIVA O consumo de energia ativa é representado por kWh e corresponde ao montante de energia elétrica consumida em determinado período e que foi convertida em outras formas de energia (Res. ANEEL 456/2000, art. 2o , XIII ). A medição do consumo, em termos técnicos, é a mesma para qualquer classe de consumo ou classificação de consumidor, diferenciando-se todavia quanto ao equipamento adotado ou o tipo de ligação (em baixa ou alta tensão)110 . 110 Para uma melhor compreensão das questões técnicas envolvendo medição de energia e demanda, vide (MEDEIROS FILHO, 1986). 241 O Art. 49, inciso II, estabelece que o consumo de energia elétrica também pode ser faturado nos casos em que houver contratação de energia elétrica, sendo que, dentre o consumo medido e o contratado, será faturado o maior. O faturamento de consumo obedece praticamente ao mesmo procedimento em relação aos grupos A e B, conforme descrito a seguir: 4.2.1 Consumidor do grupo B A ligação deste consumidor na rede elétrica pode ser monofásica, bifásica ou trifásica, ou seja, dependendo do número de condutores de seu ramal de entrada. De acordo com essa ligação, o consumidor se sujeita ao pagamento de um consumo mínimo 111 , nos termos do art. 48 da Res. ANEEL 456/2000: ?? Monofásico e bifásico a dois condutores (fase e neutro): 30 kWh ?? Bifásico a três condutores (duas fases e neutro): 50 kWh ?? Trifásico (três fases e neutro): 100 kWh Além disso, no grupo B encontramos um subgrupo denominado de “residencial baixa renda” (Lei 10.438/2002), o qual ainda tem um escalonamento dos preços com desconto em função do nível de consumo (tabela progressiva de consumo): ?? Até 30 kWh ?? De 31 a 100 kWh ?? De 101 a 150 kWh ?? De 151 a 160 kWh A iluminação pública, como consumidora, tendo como responsável o poder público municipal ou a própria concessionária, tem suas especificidades comentadas nos arts. 25 e 114 a 116 da Res. ANEEL 456/2000. 111 Menor consumo favorável a um consumidor ou concessionário, em um período especificado, mesmo que não tenha sido efetivado (MUNDO ELÉTRICO, 1990, p. 42). 242 A ANEEL estabelece que cabe às prefeituras a iniciativa de implantar, operar e efetuar a manutenção das instalações de iluminação pública, diretamente ou por intermédio da própria concessionária, mediante contrato. O tempo de consumo mensal para fins de faturamento é de 360 horas, sendo que a prefeitura poderá solicitar estudos técnicos para determinar o tempo exato de uso da energia. O cálculo do faturamento do consumo do grupo B será obtido mediante o produto do consumo medido 112 pela respectiva tarifa 113 de acordo com a fórmula a seguir: Equação 12 – Cálculo da fatura de consumo grupo B Consumo medido = (leitura atual – leitura anterior) . K Fc = C . Tc onde: C = consumo em kWh. K = fator de multiplicação da fatura de energia elétrica.114 Fc = fatura de consumo em R$. Tc = tarifa de consumo grupo B. 4.2.2 Consumidor do grupo A – convencional O consumidor do grupo A tem a mesma equação de cálculo do consumo, variando porém quanto à forma de medição 115 , à possibilidade de estar enquadrado na estrutura horosazonal e ainda, de ter contratado montantes de energia. Como mencionado anteriormente, em todas as situações, a fatura de energia elétrica apresenta o campo destinado ao fator de multiplicação, que será doravante omitido das fórmulas mas que deve ser lembrado para os cálculos que efetivamente forem comprovar os valores de faturamento. 112 A medição, neste caso, é direta, ou seja, a energia passa integralmente pelo medidor (CELESC, p. 15) Vide anexos 1 e 2. 114 Existe ainda um fator de multiplicação derivados dos próprios equipamentos de medição de energia elétrica, mas que, para esta finalidade, já foi levado em consideração para a transcrição das medições para a fatura. 115 Para o consumidor ligado em alta tensão, a medição é indireta, utilizando-se de equipamentos auxiliares como transformadores de corrente (TC) e de potencial (TP), que possibilitam “tensões e correntes primárias sejam transformados em valores secundários, apropriados para o uso de medidores, além de permitir o isolamento do circuito primário (alta tensão) do secundário (baixa tensão) de medição” (CELESC, pp. 16-17). Outrossim, o posicionamento da medição antes ou depois do trafo vai identificar a ocorrência ou não das perdas de transformação (vide item 4.6 do APÊNDICE C) 113 243 Equação 13 – Cálculo da fatura de consumo grupo A - convencional Fc = C . Tc onde: Fc = fatura de consumo em R$ C = consumo contratado ou medido (leitura atual – anterior) em kWh. Tc = tarifa de consumo grupos A4 ou A3a 4.2.3 Consumidor do grupo A - horo-sazonal A fatura de consumo é calculada em função das medições de energia consumida em cada segmento horo-sazonal, multiplicada pelas respectivas tarifas de cada segmento (anexos 3 e 4), de acordo com as expressões abaixo: Equação 14 - Cálculo da fatura de consumo grupo A – horosazonal azul Fc = Cp . Tcp + Cfp . Tcfp Equação 15 - Cálculo da fatura de consumo grupo A – horosazonal verde Fc = Cp . Tcp + Cfp . Tcfp onde: Fc = valor do faturamento do consumo total em R$ Cp = consumo contratado ou medido no horário de ponta, durante o ciclo de faturamento, em kWh. Tcp = tarifa de consumo horo-sazonal no horário de ponta Cfp = consumo contratado ou medido no horário fora de ponta, durante o ciclo de faturamento, em kWh. Tcfp = tarifa de consumo horo-sazonal no horário fora de ponta. 4.2.4 Mudanças previstas para o faturamento de consumo do grupo A Quando da vigência plena das regras da Res. 665/2002, os consumidores cativos do grupo A celebrarão contratos de compra de energia com a concessionária local, discretizados por períodos mensais, com prazos variando de 1 a 4 anos. Para unidades consumidoras com demanda contratada superior a 300 kW o faturamento da energia será realizado nos termos dos incisos VII e VIII do art. 3o (para as demais, pela energia medida - § 3o do art. 3o ). 244 Haverá tolerâncias (art. 3o , VII) em relação ao montante contratado, dentro dos quais o faturamento será realizado pelo valor medido: ?? ?? 90 a 110% para unidades consumidoras atendidas em tensão de fornecimento inferior a 69 kV; 95 a 105% para as demais. Assim, uma vez que as medições se situem dentro das faixas descritas, o consumidor vai pagar sua fatura de consumo pelos valores efetivamente medidos. Caso extrapole tais limites, podem ocorrer as seguintes situações (art. 3o , VIII). Consumindo mais do que contratou, além do limite de tolerância, o consumidor vai pagar pelo desvio mensal positivo maior valor entre o preço médio publicado pelo MAE e o valor normativo 116 . Por outro lado, se consumir menos do que o limite de tolerância, o consumidor terá direito a um crédito em sua fatura de energia, referente ao desvio mensal negativo apurado, apurado financeiramente mediante o menor valor entre o preço médio MAE e o valor normativo. 4.3 DEMANDA DE POTÊNCIA ELÉTRICA ATIVA A cobrança da demanda (kW) não alcança o consumidor do grupo B pelo fato de o mesmo ser faturado da forma monômia, isto é, somente lhe é cobrado a energia consumida, onde no custo do kWh já está embutido o custo da demanda. Também não pagam a demanda os consumidores do grupo A que preencherem os requisitos dos art. 79 a 81 e optarem pelas tarifas do grupo B. Para os consumidores do Grupo A, tanto convencionais quanto horo-sazonais, a Resolução 456 determina, em seu art. 49, inciso I, que a demanda de potência ativa a ser paga será a maior, dentre as seguintes, denominada de Demanda Faturável117 : ?? A demanda contratada, exclusive unidades rurais ou sazonais; ?? A demanda medida 118 ; 116 Vide penúltimo parágrafo do item 2.2 deste Apêndice. “Valor da demanda de potência ativa, identificado de acordo com os critérios estabelecidos e considerada para fins de faturamento, com a aplicação da respectiva tarifa, expressa em kW.”(art. 2º, inciso XI, Res. ANEEL 456/2000) 117 245 ?? 10% da maior demanda medida , nos 11 ciclos de medição anteriores, para unidades rurais ou sazonais convencionais. ?? 10% da maior demanda contratada, para unidades rurais ou sazonais incluídas na estrutura horo-sazonal. 4.3.1 Consumidor do grupo A - convencional Forma de Cálculo: Equação 16 - Cálculo da fatura de demanda grupo A - convenciona l Fd = DFAT . Td Onde: Fd = fatura de demanda DFAT = demanda faturável Td = tarifa de demanda 4.3.2 Consumidor do grupo A - horo-sazonal As formas de cálculo das faturas de demanda horosazonais azul e verde são mostradas a seguir: Equação 17 - Cálculo da fatura de demanda grupo A – horosazonal azul Fd = DfatP . Tdp + DfatFP . Tdfp onde: Fd = valor relativo ao faturamento de demanda, em R$. DfatP = demanda faturável no horário de ponta, em kW. Tdp = tarifa de demanda horo-sazonal azul de ponta DfatFP = demanda faturável no horário fora de ponta, em kW. Tdfp = tarifa de demanda horo-sazonal azul fora de ponta Equação 18 – Cálculo da fatura de demanda grupo A - horosazonal Verde Fd = Dfat . Td 118 É a máxima demanda verificada durante o mês, medida ou integralizada em intervalos de 15 minutos, aplicável também nos respectivos segmentos horo-sazonais (PROCEL, 2001, p. 11) 246 Onde : Dfat = demanda faturável, em kW. Td = Tarifa de demanda horo-sazonal verde 4.3.3 Mudanças previstas para o faturamento de demanda Com a substituição do contrato de fornecimento pelo contrato de conexão (CCD ou CCT) e pelo contrato de uso do sistema (CUSD ou CUST), ins tituída pela Resolução ANEEL 665/2002, o faturamento da demanda sofrerá alterações significativas em sua forma, não obstante a base de medição física (a demanda) permanecer a mesma. Assim, confirmando a visão de tentar posicionar o consumidor cativo de forma que o mesmo possa se comparar àquele que optou por ser livre, a Res. 665/2002 remete a regulamentação do CCD e do CUSD diretamente à Res. 281/1999, que é a mesma a tratar das condições de contratação do acesso ao sistema elétrico pelos consumidores livres. 119 , pois que estes terão que arcar com estes custos diretamente com a concesionária local. 4.4 DEMANDA DE ULTRAPASSAGEM Atualmente, todos os consumidores classificados no grupo A são obrigados a estabelecer um contrato de demanda com a concessionária que os atende. A legislação prevê que, em caso de ultrapassarem ao estipulado no contrato, ou seja, quando a demanda medida ultrapassar a demanda contratada, será cobrada a tarifa de ultrapassagem sobre a parcela que exceder a demanda contratada, denominada de demanda de ultrapassagem. Assim, a tarifa de ultrapassagem é a tarifa aplicada sobre a diferença positiva entre a demanda medida e a contratada, quando exceder os limites estabelecidos (art. 2o , incisos IX, X , XII E XXXVII). As tarifas de ultrapassagem para cada subgrupo horosazonal do grupo A estão nos anexos 3 e 4. Já tarifa de ultrapassagem do grupo a convencional é correspondente à 3 vezes a tarifa normal (PROCEL, 2001, p. 8) 119 Desta forma, seu detalhamento será realizado no item 5.1. 247 A ocorrência da demanda de ultrapassagem respeita os seguintes limites de tolerâncias, sendo que para os consumidores na estrutura horosazonal a tarifa de ultrapassagem será cobrada para cada segmento em que ocorrer a ultrapassagem (art. 56): Tabela 6 – Limites de tolerância para fins de ultrapassagem de demanda Tolerância Tensão de fornecimento 5% = 69 kV 10% < 69 kV Explicando melhor, digamos que um consumidor A4 que contratou 100 kW de demanda na ponta e 200 kW fora de ponta, apresentasse uma leitura de medição de 110 kW na ponta e 241 kW fora de ponta. Com relação ao horário de ponta, vai pagar a tarifa normal sobre 110 kW, já que não extrapolou a tolerância de 10% para sua tensão de fornecimento. No entanto, para o horário fora de ponta, por ter superado tal limite, toda a ultrapassagem em relação ao contrato (41 kW) será cobrada mediante a tarifa de ultrapassagem. 4.4.1 Mudanças previstas para o faturamento de ultrapassagem de demanda Ao consumidor cativo ligado em alta tensão estarão sendo aplicadas regras similares às destinadas ao consumidor livre. Assim, de acordo com o art. 15 da Res. 281/1999, a ultrapassagem de demanda se refletirá apenas no Contrato de Uso do Sistema de Distribuição (CUSD), aplicando-se uma tarifa de ultrapassagem de valor igual a três vezes a tarifa de uso estabelecida para cada período, mas ainda submetida à uma tolerânc ia de 5% do montante contratado (Solicitação de Ouvidoria ANEEL n. 0100125980350, de 25/11/2003). 248 4.4.2 Consumidor em alta tensão – convencional Este consumidor realiza um contrato de fornecimento estipulando apenas um velor de demanda, que servirá de base para uma eventual ultrapasagem. Equação 19 – Cálculo da fatura de demanda de ultrapassagem - convencional Fd = DCON . Td + ( DMED - DCON ) . Tu Onde : Fd = fatura de demanda, em R$. DCON = demanda contratada, em kW. DMED = demanda medida, em kW. Td = tarifa de demanda Tu = tarifa de ultrapassagem 4.4.3 Consumidor em alta tensão – horo-sazonal As condições de ultrapassagem e as respectivas tarifas de ultrapassagem são verificadas tanto para o horário de ponta quanto para o horário fora de ponta para o consumidor horosazonal azul. Equação 20 – Cálculo da fatura de demanda de ultrapassagem – horosazonal azul ponta Fdp = DCP . Tdp + ( DMP – DCP ) . Tup onde: Fdp = Fatura de demanda na ponta, em R$. DCP = Demanda contratada na ponta, em kW. Tdp = Tarifa de demanda na ponta - azul DMP = Demanda medida na ponta, em kW. Tup = tarifa de ultrapassagem na ponta - azul Equação 21 - Cálculo da fatura de demanda de ultrapassagem – horosazonal azul fora de ponta Fdf = DCFP . Tdfp + ( DMFP – DCFP ) . Tufp onde: Fdfp = Fatura de demanda fora da ponta, em R$. DCFP = Demanda contratada fora da ponta, em kW. Tdfp = Tarifa de demanda fora da ponta - azul 249 DMFP = Demanda medida fora da ponta, em kW. Tup = tarifa de ultrapassagem fora da ponta - azul Para o consumidor horosazonal verde, como só existe a cobrança de um único valor de demanda, somente este será o parâmetro para a verificação da questão da ultrapassagem, através de uma fórmula similar à do consumidor convencional. Equação 22 - Cálculo da fatura de demanda de ultrapassagem – horosazonal verde Fd = DCON . Td + (DMED – DCON) . Tu onde: DCO N = demanda contratada, em kW. DME D = demanda medida, em kW. Tu = tarifa de ultrapassagem verde 4.5 EXCEDENTES DE REATIVO: DEMANDA DE POTÊNCIA E CONSUMO DE ENERGIA Quando uma determinada instalação elétrica apresenta um comportamento de consumo associado a um baixo fator de potência (item 6 do Apêndice B), diz-se que existem uma demanda de potência e um consumo de energia reativas excedentes. Haja vista os problemas decorrentes do baixo fator de potência, o setor elétrico brasileiro já vem há algum tempo desenvolvendo mecanismos tarifários no intuito de induzir o consumidor a evitar tal comportamento, através de um conjunto de normas aplicáveis na forma de uma tarifa para energia e demandas reativas. Até 1993, o conceito para a cobrança era a multa por baixo fator de potência, a qual era estipulada através de um ajuste dos importes de consumo e demanda em função da relação entre o fator de potência medido e o de referência. A partir daí, no entanto, instituiu-se um controle mais apurado do uso da energia reativa, através do aumento do limite do FP de 0,85 para 0,92; do faturamento desmembrado entre a demanda e o consumo, inclusive para os excedentes de reativo capacitivos e da redução do período de avaliação de mensal para horário (1996) (CODI, p. 3; CRESTANI, 1994, pp. 26-34). 250 O fator de potência de 0,92 implica que, para cada kWh de energia ativa consumida, a concessionária deve permitir, sem qualquer ônus, a utilização de 0,425 kVarh de energia reativa, indutiva ou capacitiva (CODI, p. 16). No ano de 2000, a Resolução ANEEL 456/2000 incluiu toda a legislação relativa às disposições sobre fator de potência, consumo de energia e demanda de potência reativas. Quanto ao faturamento propriamente dito, está elencado nos artigos 64 a 68 da citada resolução. A cobrança do ajuste de excedente de reativo é o meio empregado para, através da imposição sobre o consumidor, conseguir implementar o uso racional de energia elétrica e, com isso, liberar capacidade do sistema elétrico com as conseqüentes melhorias nas condições operacionais do mesmo. É o faturamento pelo excedente de reativo (capacitivo ou indutivo), a ser computado nos períodos de medição de energia, de acordo com o fator de potência de referência estabelecido aos consumidores. Na verdade, não é uma tarifa aplicada ao kVar (potência) ou kVarh (energia) excedentes ao nível explicitado pela legislação, mas sim utiliza-se das tarifas de energia e demanda ativas, pois esta cobrança pode ser entendida como sendo o valor das capacidades reprimidas do sistema em kW e kWh causadas pelo consumidor que utilizou a energia elétrica reativa acima do nível permitido pelo fator de potência exigido, conforme a figura 19: 251 Figura 21 – Diagrama explicativo da cobrança sobre reativos excedentes CAPACIDADE REPRIMIDA DO SISTEMA P - Potência Ativa fr kW ?P Q – Potência Reativa f kVAr Potência Reativa Excedente ? cos? r ? ? P ? P ? ?? ? 1?? cos ? ? ? Onde : Cos f r = fator de potência de referência = 0,92 Cos f = fator de potência da instalação O Art. 34 da Resolução 456/2000 diz que o fator de potência das instalações da unidade consumidora, para efeito de faturamento, deverá ser verificado pela concessionária por meio de medição apropriada, observados os critérios para os consumidores em baixa tensão e os em alta tensão. As medições serão referidas aos intervalos de (art. 65): 252 ?? 6 horas consecutivas entre as 23:30 h e 06:30 h (a critério da concessionária), quando serão considerados fps abaixo de 0,92, capacitivos. ?? Nos horários restantes, indutivos. Nestes períodos, será observado o intervalo de integralização reativa de 60 minutos (medição horária) Já o Art. 64 estabelece o nível do O fator de potência de referência “fr”, indutivo ou capacitivo, terá como limite mínimo permitido, para as instalações elétricas das unidades consumidoras, o valor de fr = 0,92. O Art. 67 define que para fins de faturamento de energia e demanda de potência reativas excedentes serão considerados somente os valores ou parcelas positivas das mesmas, assim como que nos faturamentos relativos a demanda de potência reativa excedente não serão aplicadas as tarifas de ultrapassagem. 4.5.1 Consumidor em baixa tensão O consumidor em baixa tensão está sujeito à medição do fator de potência, conforme o inciso II do art. 34, “de forma facultativa, sendo admitida a medição transitória, desde que por um período mínimo de 7 (sete) dias consecutivos.” Tal disposição é confirmada pelo Art. 47, quando expressa que “o faturamento de unidade consumidora do Grupo “B” será realizado com base no consumo de energia elétrica ativa, e, quando aplicável, no consumo de energia elétrica reativa excedente, devendo, em ambos os casos, ser observada as disposições específicas estabelecidas nesta Resolução.” O Art. 68 define os procedimentos que a concessionária deverá tomar quando quiser efetuar a verificação do fator de potência de uma unidade consumidora do grupo B, que tenha sido aferido por meio de medição transitória nos termos do inciso II do art. 34, e o eventual faturamento correspondente ao consumo de energia elétrica reativa indutiva excedente : I - a concessionária deverá informar ao consumidor, via correspondência específica, o valor do fator de potência encontrado, o prazo para a respectiva correção, a possibilidade de faturamento relativo ao consumo excedente, bem como outras orientações julgadas convenientes; II - a partir do recebimento da correspondência, o consumidor disporá do prazo mínimo de 90 (noventa) dias para providenciar a correção do fator de potência e comunicar à concessionária; III - findo o prazo e não adotadas as providências, o fator de potência verificado poderá ser utilizado nos faturamentos posteriores até que o consumidor comunique a correção do mesmo; e 253 IV - a partir do recebimento da comunicação do consumidor, a concessionária terá o prazo de 15 (quinze) dias para constatar a correção e suspender o faturamento relativo ao consumo excedente. 4.5.2 Consumidor em alta tensão - convencional - sem medição apropriada O Art. 34 em seu inciso I define que as unidades consumidoras do Grupo “A” deverão ter seu fator de potência verificado de forma obrigatória e permanente, para fins de faturamento do excedente de reativo. O consumo de energia elétrica e demanda de potência reativas excedentes serão faturados quando o fator de potência da unidade consumidora, indutivo ou capacitivo, for inferior a 0,92 (Art. 49). A existência de medição apropriada, citada no art. 65, para todos os consumidores do Grupo A não é comum na atual situação das concessionárias brasileiras, por isso o Art. 66 vem ao encontro da situação real de que poucas são as concessionárias que possuem suficiente número de equipamentos disponíveis para medições horárias de fator de potência, tendo em vista que são equipamentos mais caros. Algumas, como a CELESC, por enquanto fazem esta medição apenas para os consumidores horo-sazonais, sendo que para os demais do grupo A utiliza-se de medidores comuns de energia e demanda os quais, através de uma determinada ligação, apuram uma medição mensal de “Qh”, que é um artifício fasorial derivado daquela ligação especial, com a qual pode-se apurar apenas o fator de potência indutivo médio da instalação 120 . Assim, para as unidades consumidoras faturadas na estrutura tarifária convencional, enquanto não forem instalados equipamentos de medição que permitam a aplicação das fórmulas fixadas no art. 65, a concessionária poderá realizar o faturamento de energia e demanda de potência reativas excedentes utilizando das equações a seguir descritas. O cálculo do fator de potência médio (fm) é obtido a partir das medições de energias ativa e reativa, esta representada pelo Qh, conforme demonstram as fórmulas abaixo: 120 “Registrado por um medidor de kWh normal com deslocamento de 60° (sessenta graus) das componentes de tensão em relação ao medidor de energia reativa” (CELESC, p. 13). Para aprofundamento no assunto, vide Medeiros Filho (1986, pp. 337-382). 254 Equação 23 – Cálculo do fator de potência médio. kWh fm ? ? 2 Qh ? kWh ? kWh 2 ? ?? ?? 3 ? ? 2 ? 100 Equação 24 – Cálculo do consumo de energia reativa mensal kVArh ? ?2 Qh ? kWh ?? 3 3 Onde : kWh = energia ativa medida kVArh = energia reativa indutiva Qh = total de Qh Uma vez calculado o fator de potência, é possível a determinação das parcelas referentes ao consumo de energia e demanda de potência reativas excedentes, na forma do disposto no art. 66: Equação 25 – Cálculo da fatura de energia reativa excedente – medição mensal. ? fr ? FER ? CA ? ?? ? 1?? ? TCA ? fm ? onde: FER = valor do faturamento total correspondente ao consumo de energia reativa excedente à quantidade permitida pelo fator de potência de referência, no período de faturamento; CA = consumo de energia ativa medida durante o período de faturamento; fr = fator de potência de referência igual a 0,92; fm = fator de potência indutivo médio das instalações elétricas da unidade consumidora, calculado para o período de faturamento; TCA = tarifa de energia ativa, aplicável ao fornecimento; Havendo montantes de energia elétrica estabelecidos em contrato, o faturamento correspondente ao consumo de energia reativa, verificada por medição apropriada, que exceder às quantidades permitidas pelo fator de potência de referência “fr”, será calculado de acordo com a seguinte fórmula: 255 ? fr ? FER ? ?? CA ? ? CF ?? ? TCA fm ? ? onde: FER = valor do faturamento total correspondente ao consumo de energia reativa excedente à quantidade permitida pelo fator de potência de referência, no período de faturamento; CA = consumo de energia ativa medida durante o período de faturamento; fr = fator de potência de referência igual a 0,92; fm = fator de potência indutivo médio das instalações elétricas da unidade consumidora, calculado para o período de faturamento; CF = consumo de energia elétrica ativa faturável no período de faturamento; e TCA = tarifa de energia ativa, aplicável ao fornecimento Note-se que nas fórmulas antecedentes ocorre um ajuste do consumo ativo através da correção do fator de potência médio medido para o fator de potência de referência. Ou seja, quanto mais próximo de 0,92 for o “fm”, menor será a parcela a ser cobrada de energia reativa excedente. Quanto à demanda, após o ajuste descrito anteriormente, ainda é realizada a comparação com a demanda faturável, ou seja, aquela que será cobrada do consumidor em virtude de seu contrato de fornecimento e/ou de eventual ultrapassagem. Por exemplo, pode acontecer que mesmo tendo provocado um excedente de demanda reativa, este tenha ocorrido em um nível de demanda aquém daquele que o consumidor já seria obrigado a pagar por disposição contratual ou por ultrapassagem, não ocorrendo assim a cobrança em duplicidade. Equação 26 – Cálculo da fatura de demanda reativa excedente – medição mensal. ? fr ? FDR ? ?? DM ? ? DF ?? ? TDA fm ? ? Onde : FDR = valor do faturamento total correspondente à demanda de potência reativa excedente à quantidade permitida pelo fator de potência de referência, no período de faturamento; DM = demanda medida durante o período de faturamento; DF = demanda faturável no período de faturamento; e TDA = tarifa de demanda de potência ativa aplicável ao fornecimento. 256 Outro direito do consumidor, previsto no art. 69, é o de que a concessionária deverá concedê- lo um período de ajustes, com duração mínima de 3 (três) ciclos consecutivos e completos de faturamento, objetivando permitir a adequação de sua instalações elétricas às normativas, nos casos em que ocorrer inclusão espontânea ou compulsória na estrutura horosazonal, ou em novas ligações. Durante este período de ajuste, que pode ser ainda ampliado, o faturamento será realizado com base no valor médio do fator de potência, conforme disposto no art. 66. 4.5.3 Consumidor em alta tensão - horo-sazonal ou convencional - com medição apropriada O Art 34 em seu inciso I define que as unidades consumidoras do Grupo “A” deverão ter seu fator de potência verificado de forma obrigatória e permanente, para fins de faturamento do excedente de reativo. A forma permanente horária requer a utilização de medidores apropriados, fundamentalmente diferentes dos utilizados para a medição mensal, por terem sua base de construção eletrônica. O consumo de energia elétrica e demanda de potência reativas excedentes serão faturados quando o fator de potência da unidade consumidora, indutivo ou capacitivo, for inferior a 0,92 (Art. 49), nos respectivos segmentos horo-sazonais de acordo com as fórmulas a seguir (art. 65): Equação 27 – Cálculo da fatura de energia reativa excedente – medição horária FER ? ? ? fr ?? ?CAt ? ?? ? 1??? ? TCA?p ? t?1 ? ? ft ?? n ? onde: ?? ?? ?? ?? ?? FER(p) = valor do faturamento, por posto horário “p”, correspondente ao consumo de energia reativa excedente à quantidade permitida pelo fator de potência de referência “fr”, no período de faturamento; CAt = consumo de energia ativa medida em cada intervalo de 1 (uma) hora “t”, durante o período de faturamento; fr = fator de potência de referência igual a 0,92; ft = fator de potência da unidade consumidora, calculado em cada intervalo “t” de 1 (uma) hora, durante o período de faturamento, observadas as definições dispostas nas alíneas “a” e “b”, § 1º, deste artigo; TCA(p) = tarifa de energia ativa, aplicável ao fornecimento em cada posto horário “p”; 257 Havendo montantes de energia elétrica estabelecidos em contrato, o faturamento correspondente ao consumo de energia reativa, verificada por medição apropriada, que exceder às quantidades permitidas pelo fator de potência de referência “fr”, será calculado de acordo com a seguinte fórmula: ?? n CAt ? fr ? ? ?? ? CF ?p ?? ? TCA? p ? FER? p ? ? ??? ? ft ? ?? t ?1 ? onde : FER(p) = valor do faturamento, por posto horário “p”, correspondente ao consumo de energia reativa excedente à quantidade permitida pelo fator de potência de referência “fr”, no período de faturamento; CAt = consumo de energia ativa medida em cada intervalo de 1 (uma) hora “t”, durante o período de faturamento; fr = fator de potência de referência igual a 0,92; ft = fator de potência da unidade consumidora, calculado em cada intervalo “t” de 1 (uma) hora, durante o período de faturamento, observadas as definições dispostas nas alíneas “a” e “b”, § 1º, deste artigo; CF(p) = consumo de energia elétrica ativa faturável em cada posto horário “p” no período de faturamento; e TCA(p) = tarifa de energia ativa, aplicável ao fornecimento em cada posto horário“p”. Com relação ao faturamento de energia reativa excedente, nota-se que o consumo ativo é ajustado da mesma forma que no item anterior. O que difere, no entanto, é que os ajustes são horários e cumulativos. Desta forma, a cada hora ocorre a medição e a comparação do fator de potência com a referência de 0,92, sendo que serão cobradas, ao final do ciclo de faturamento mensal, o montante total das vezes em que ocorreram estes ajustes. Para a cobrança da demanda reativa excedente (potência), a fórmula de cálculo segue: Equação 28 – Cálculo da fatura de demanda reativa excedente – medição horária. ? ? ? fr ? FDR ? ?MAX tn?1 ?? DAt ? ?? ? DF ?p ?? ? TDA?p ? ft ? ? ? ? onde: 258 FDR(p) = valor do faturamento, por posto horário “p”, correspondente à demanda de potência reativa excedente à quantidade permitida pelo fator de potência de referência “fr” no período de faturamento; DAt = demanda medida no intervalo de integralização de 1 (uma) hora “t”, durante o período de faturamento; DF(p) = demanda faturável em cada posto horário “p” no período de faturamento; TDA(p) = tarifa de demanda de potência ativa aplicável ao fornecimento em cada posto horário “p”; MAX = função que identifica o valor máximo da fórmula, dentro dos parênteses correspondentes, em cada posto horário “p”; t = indica intervalo de 1 (uma) hora, no período de faturamento; p = indica posto horário, ponta ou fora de ponta, para as tarifas horo-sazonais ou período de faturamento para a tarifa convencional; e n = número de intervalos de integralização “t”, por posto horário “p”, no período de faturamento. 4.5.4 Mudanças previstas para o faturamento dos excedentes de reativo A Resolução 665/2002, é bastante econômica ao tratar assunto de tal relevância, dispondo em seu art. 9o que “a energia e demanda reativas excedentes serão calculadas conforme regulamentação vigente, tendo seu faturamento vinculado ao CUSD ou CUST”. Na falta de maiores esclarecimentos formais, as informações obtidas junto à concessionária local e ANEEL levam à conclusão que a metodologia de apuração e cobrança dos excedentes de reativo para os consumidores cativos não tem previsão de mudança a curto prazo, devendo-se aguardar regulamentações posteriores que devem certamente esclarecer melhor a matéria. 4.6 PERDAS DE TRANSFORMAÇÃO O art. 35 da Res. 456/2000 menciona que quando a concessionária instalar seus equipamentos de medição no lado da saída dos transformadores (secundário), deverá instalar equipamentos de medição das perdas de transformação ou fazer acréscimos aos valores medidos de demandas de potência e consumo de energia elétrica ativa e reativa excedentes de que trata o art. 58 , nos seguintes percentuais : ?? 1% para fornecimento > 44 kV ?? 2,5% para fornecimento = 44 kV. 259 Importante ressaltar que os acréscimos devidos às perdas de transformação incidem sobre todas as demandas e consumos, ativos ou reativos excedentes, em todos os segmentos no caso horo-sazonal. 4.7 IMPOSTOS INCIDENTES SOBRE O FATURAMENTO A incidência do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), cuja competência foi constitucionalmente atribuída aos estados, reflete em um substancial aumento da fatura de energia elétrica em todas as modalidades tarifárias, por incidir praticamente em todas as operações envolvendo a energia elétrica, seja na geração, transmissão e distribuição (GANIM, 2003, pp. 205-217). Por ser um imposto estadual, suas alíquotas podem variar para cada unidade da federação. As concessionárias apresentam suas tabelas de tarifas incluindo o ICMS e sem o mesmo, para fins de verificação pelo consumidor. No caso dos consumidores do grupo B1 (residencial), existe um escalonamento na cobrança do ICMS : ?? 12% para consumo até 150 kWh ?? 25% para o consumo além de 150kWh Para os demais consumidores a cobrança se dá em função do total das faturas (importe 121 ) de consumo e demanda ativos e reativos excedentes, em todos os segmentos horo-sazonais quando for o caso. A forma de cálculo do ICMS gerou, preliminarmente, uma série de questionamentos pelos consumidores que não entenderam os preceitos legais de sua apuração, constatando assim que, por exemplo, a alíquota de 25% encarecia a fatura de energia elétrica em 33%. No entanto, esta situação ocorre com todos os produtos sujeitos ao ICMS, qual seja, a de ser aplicada a alíquota sobre o valor total da nota fiscal, aí incluindo o próprio imposto, daí a expressão “ICMS incluso no preço”. 121 “Valor em moeda nacional de um fornecimento, resultante da aplicação das tarifas e, quando aplicável, do ajuste do fator de potência (reativo excedente)” (MUNDO ELÉTRICO, 1990, p. 44) 260 A equação a seguir definida exprime a forma correta de se apurar o valor do ICMS a ser cobrado sobre determinado importe. Além disso, as concessionárias costumam divulgar os preços de energia e demanda “com” e “sem” ICMS (vide anexos 1 a 5, 1 e 3 – sem ICMS, 2 e 4 – com ICMS), o que facilita a verificação. Equação 29 – Cálculo do ICMS. ICMS = Soma das faturas ? ALIQUOTA 100 ? ALIQUOTA Onde : Soma das faturas = consumo e demanda , ativos e reativos excedentes 4.8 ILUMINAÇÃO PÚBLICA A cobrança da taxa ou contribuição para a iluminação pública é de responsabilidade do poder público municipal, o qual através de lei, institui a cobrança para cada consumidor de energia elétrica. Existem algumas formas em uso, entre elas por faixa de consumo, por testada do imóvel ou ainda sobre o consumo. 4.9 TAXAS DIVERSAS Os arts 109 e 110 elencam os serviços cobráveis, a pedido do consumidor e cujos valores serão definidos por meio de resoluções específicas da ANEEL, conforme pode se constatar no anexo 5, sendo que os valores destes serviços podem ser revistos quando dos reajustes tarifários: ?? vistoria ?? aferição de medidor ?? verificação do nível de tensão; ?? religação normal; ?? religação de urgência; ?? emissão de 2a via de fatura. 261 4.10 MULTAS Para todos os grupos tarifários, quando do atraso no pagamento da fatura é cobrada multa de, no máximo 2% sobre o total da fatura em atraso (art. 89). Esta disposição da Resolução 456 é fruto da sua submissão à Lei Complementar que instituiu o Código de Defesa do Consumidor. 4.11 SITUAÇÕES ESPECIAIS – COBRANÇAS OU DEVOLUÇÕES. Existe ainda uma série de situações e informações que decorrem das relações de consumo de energia elétrica e da legislação em vigor. Dentre estas, algumas serão a seguir sumariamente comentadas, sem supor, evidentemente, uma menor importância comparativamente ao já abordado. A cobrança do Encargo de Aquisição de Ene rgia Emergencial foi instituído pela Lei 10.438/2002 e destina-se a cobrar, nas faturas de energia elétrica de todos os consumidores do país (com algumas isenções), valores destinados ao custeio do acionamento de usinas termoelétricas em caso de necessidade de atendimento. Mesmo de impacto financeiro reduzido (aproximadamente 2 % do total da fatura), o encargo emergencial é mais um acréscimo a onerar os consumidores de energia elétrica, estando inclusive sendo questionado judicialmente em várias instâncias. A concessionária pode ainda realizar cobranças de atrasados em caso de suspensão do fornecimento, por constatação de irregularidades ou avarias no medidor, por impedimento ao acesso para leitura, ou ainda por classificação incorreta decorrente de informações inexatas (arts. 36, 90 a 94, 70 a 75, 104 a 106). Por outro lado, a concessionária deverá providenciar a devolução de valores cobrados a maior, por erro do medidor (arts. 76 a 78). Outro item que pode aparecer nas faturas dos consumidores do grupo A é a “Devolução de empréstimo compulsório”. O Empréstimo Compulsório, até 31/12/1994, era cobrado dos consumidores industriais com consumo acima de 2000 kWh e de autoprodutores que utilizavam derivados de petróleo (FORTUNATO et al., 1990, pp. 213-214). 262 Outra situação que pode ocorrer é aquela relacionada ao fato de que o consumidor pode ser ressarcido em caso de violação das metas de padrões de qualidade e de continuidade do fornecimento de energia elétrica destinadas à cada concessionária, através de multas que podem chegar até a 1% de seu faturamento. Estas metas devem obrigatoriamente aparecer nas faturas de energia elétrica para que o consumidor possa acompanhar e tomar as devidas providências caso se reconheça prejudicado por um eventual atendimento de má qualidade. Segundo Crestani (2000, pp.30-49), comentando a Resolução ANEEL no 24/2000122 , passa a ser obrigatória a informação dos indicadores “de forma clara e auto-explicativa”, que demonstrem, no conjunto e individualmente, a freqüência de interrupções sofridas (FIC e FEC), o tempo acumulado desta interrupções (DEC e DIC) e a duração máxima de interrupção (DMIC), verificados dentro de determinados períodos. Também os níveis de tensão de energia elétrica cuja influência é significante na operação dos equipamentos domésticos, comerciais e industriais, devem ser informados na fatura de energia elétrica, expressos em volts (V) ou quilovolts (kV). Caso tenha havido variações na tensão superiores ou inferiores às permitidas pela classificação da Resolução ANEEL 505/2001, e não sendo regularizado o nível adequado, cabe ao consumidor ser restituído mediante a fórmula do art. 20, sem prejuízo de ser ressarcido por perdas e danos causados pelo serviço inadequado. 122 Esta Resolução merece ser estudada no intuito de se conhecer melhor os direitos do consumidor quanto à informação e a qualidade do serviço de distribuição de energia elétrica. 263 5 CONTRATOS E FATURAMENTO DO CONSUMIDOR LIVRE OU AUTOPRODUTOR 5.1 CONSUMIDOR LIVRE Com a publicação da Resolução ANEEL nº 264, de 13/08/1998 (ver item 3.1 do APÊNDICE A), os consumidores livres passaram a ter sua relações contratuais, formas de medição e de faturamento de energia elétrica praticamente desvinculadas da Resolução ANEEL no 456/2000, não obstante a mesma também regulamentar, no que couber, os procedimentos e demais características no que se refere às Condições Gerais de Fornecimento de Energia Elétrica para os consumidores livres (§ único do art. 1o ). O art. 5o da Resolução ANEEL 264/98 assegura “o livre acesso aos sistemas de transmissão e de distribuição mediante pagamento dos encargos de uso, serviços e conexão envolvidos”. Para tanto, a comercialização de energia elétrica a consumidores livres fica condicionada à celebração dos seguintes contratos: ?? Contrato Bilateral de Compra e Venda de Energia; ?? Contrato de Conexão com a rede elétrica de distribuição ou transmissão (CCD ou CCT); ?? Contrato de Uso do Sistema de Distribuição e ou Transmissão (CUST ou CUSD). Os contratos bilaterais de compra e venda de energia, como já visto anteriormente, são contratos financeiros entre agentes do sistema interligado que vão especificar, ao longo do dia ou do ano, montantes de energia a serem transacionados mediante preços, formas de pagamento e penalidades (de ultrapassagem ou de não utilização) livremente pactuados. Devem conter, entretanto, cláusula referente à suspensão do fornecimento por inadimplência do consumidor. Assim, um consumidor livre tem a prerrogativa de compor sua curva de carga 123 , no que se refere à energia, a partir de vários contratos bilaterais com agentes diferentes, em vários horizontes de tempo e diferentes contratos (OLIVEIRA, RAMOS, MACHADO, 2002, p. 4; 2004, p. 137). 123 Vide item 4 do APÊNDICE B. 264 No entanto, se optar por comprar energia diretamente no MAE124 , o consumidor livre deve estar particularmente informado do mecanismo de formação de preços e das regras de compra e venda, pois é possível a ocorrência de fortes oscilações, como se verificou no ano de 2001, em que se presenciou um elevado déficit de energia e por conseqüência um enorme aumento dos preços. Ao contrário, quando é registrado um contrato bilateral no MAE, as partes evitam as flutuações automáticas do preço, em relação aos montantes contratados (DUKE ENERGY, Guia do cliente livre, 2003, tema 6.9). Esta questão vale também para os casos/horários/períodos em que o consumidor livre houver consumido além de seu contrato, pois que o MAE cobrará do mesmo a diferença pelo preço spot do período de ocorrência. É de se salientar novamente que a liberdade assegurada ao consumidor livre está vinculada à compra de energia elétrica (kWh), pois que persiste sua situação de cativo com a concessionária local, para as compras de demanda (kW), dada a natureza da conexão física à rede (FERNANDES FILHO, 2000, p. 107). Significa dizer que o consumidor, permanecendo conectado ao sistema elétrico a partir de sua localização física, solicitará seus montantes de demanda (potência), em um ponto de conexão pertencente à concessão de uma determinada empresa de energia elétrica. Além disso, para o transporte de energia entre o vendedor e comprador, poderão ser usadas instalações de transmissão e distribuição de várias empresas diferentes, implicando em custos diferenciados conforme o “trajeto percorrido”. Por isso é que foram implementadas as regras de uso e de conexão aos sistemas de energia elétrica, por meio da Resolução ANEEL nº 281/99. Nos termos da Resolução ANEEL nº 281/99, o Contrato de Conexão à Rede de Distribuição (CCD) 125 deverá ser celebrado após livre negociação entre o consumidor livre e a concessionária proprietária do sistema elétrico que fornecerá a conexão. Os encargos de conexão são oriundos dos custos de projeto, construção, equipamentos, operação e manutenção do ponto de conexão, ou seja, a interligação elétrica das instalações do consumidor e os da concessionária de distribuição. 124 Lembrar que o MAE deve ser extinto a partir das reformas empreendidas ao final de 2003, mas que perdurará o Ambiente de Contratação Livre (ACL) (ver item 2.5 do APÊNDICE A) 125 Também é previsto o Contrato de Conexão à rede de Transmissão, para consumidores com tensão de fornecimento iguais ou maiores que 230 kV, cuja quantidade no Brasil se limita à umas poucas dezenas e não sendo encontrado nenhum no Vale do Itajaí. 265 A medição deste encargo é de responsabilidade técnica e financeira da concessionária de distribuição, independente da venda de energia e, importante é ressaltar que não poderá haver exigências discriminatórias ao consumidor livre relativas as condições técnicas da conexão se compradas aos demais usuários da rede de distribuição. Além do detalhamento dos pontos de conexão e das instalações, devem também ser mencionados no contrato: a capacidade de demanda da conexão, a localização dos medidores, os procedimentos de medição e informações de dados, os índices de qualidade das instalações de conexão como também as penalidades pelo não cumprimento destes índices. Da mesma forma que o CCD, o Contrato de Uso do Sistema de Distribuição (CUSD) 126 também tem suas condições gerais estabelecidas pela Resolução no 281/99 e é celebrado entre a concessionária local e o consumidor livre. Neste caso, entretanto, as tarifas de uso dos sistemas de distribuição (TUSD) são reguladas pela ANEEL, pois devem corresponder ao custo de disponibilidade da rede ou do sistema elétrico para o consumidor, de acordo com a tensão de fornecimento mediante a qual o consumidor estabelece sua conexão. No CUSD são relacionadas as condições gerais do serviço prestado e as condições técnicas e comerciais assumidas entre as partes, das quais destacam-se, de acordo com o art. 11 da Resolução 281/99: ?? ?? ?? ?? ?? ?? As quantidades de uso dos sistemas de distribuição, definidas como as potências máximas transportadas, contratadas para os horários de ponta e fora de ponta; Os procedimentos para solicitação de alteração dos valores contratados. Os índices de qualidades relativos aos serviços de distribuição a serem prestados, como também as penalidades relativas ao não atendimento dos referidos índices; O local e os procedimentos de medição; As tarifas a serem aplicadas aos montantes de uso para faturamento; O prazo de vigência do contrato Segundo Oliveira, Ramos e Machado (2002, p. 5), não obstante o consumidor livre também se utilizar da rede de transmissão para efetivar seu consumo de energia, não é necessário que o mesmo celebre um contrato de uso dos sistemas de transmissão, mas deverá pagar por esse encargo em linha separada na sua fatura, cujos valores também são definidos pelo órgão regulador para cada concessionária de distribuição. 126 Também é previsto o Contrato de Uso do Sistema de Transmissão, para consumidores com tensão de fornecimento iguais ou maiores que 230 kV, cuja quantidade no Brasil se limita à umas poucas dezenas e não sendo encontrado nenhum no Vale do Itajaí. 266 Tanto o encargo do uso do sistema de transmissão quanto o de distribuição são calculados em função das demandas contratadas pelo consumidor. A diferença é que, enquanto cobra-se o encargo de uso do sistema de transmissão em função da maior entre as demandas medida ou contratada, exclusivamente no horário de ponta, o encargo de uso do sistema de distribuição obedecerá a tal regra também no horário fora de ponta. A partir da publicação da Resolução no 152/03, a ANEEL alterou a metodologia par ao cálculo das tarifas de uso dos sistemas de distribuição: ?? O componente fio é aplicado à demanda de potência para cada segmento horosazonal (ponta e fora-de-ponta). ?? O componente encargo é calculado sobre a energia consumida em todo o período de medição. ?? E a tarifa de uso da rede básica é a denominação para a cobrança do uso dos sistemas de transmissão, devendo aparecer em separado na fatura de energia elétrica. Com relação à cobrança de ultrapassagem em relação aos montantes de demanda contratados no CUSD, a mesma será efetuada de acordo com o art. 15 da Resolução 281/99, a partir da extrapolação de uma tolerância de 5% entre o valor medido e o contratado, sendo então aplicada uma tarifa correspondente a três vezes a tarifa de uso estabelecida para cada período. Quanto à energia e demanda reativas excedentes, segundo contato telefônico com a ANEEL (0800, 26/11/2003, 18:30h, atendente Neuma) não existe ainda regulamentação específica, devendo o assunto ser estabelecido no contrato entre o consumidor livre e o contratado fornecedor de energia, ou seja no CCE. Ainda em caráter informal, obteve-se da concessionária e de empresas que já realizaram negociações na qualidade de consumidores livres, a informação de a concessionária está realizando a medição e a cobrança dos excedentes de reativo como se o consumidor cativo fosse. Com referência à medição de energia e demandas, os equipamentos de medição serão de propriedade do concessionário de distribuição ao qual o consumidos livre está conectado, sendo permitido, a critério do consumidor ou agente comercializador, a instalação de 267 equipamentos adicionais de propriedades dos mesmos, visando garantir a confiabilidade das informações necessárias ao faturamento (art. 8o da Res. 264/98). Nos casos em que o fornecimento de energia for realizado por outro agente e não a distribuidora local, esta deverá disponibilizar sinal de pulsos para o consumidor ou para o fornecedor da energia e enviar ao fornecedor, no prazo de 24 horas após a realização das leituras, em arquivo magnético, os dados relativos ao fornecimento realizado (OLIVEIRA, RAMOS, MACHADO, 2002, p. 5) Desta forma, o consumidor livre terá em suas faturas, dependendo da quantidade de fornecedores que tiver, itens que estarão relacionados à energia ativa consumida e as demandas de energia ativa verificadas, além das eventuais cobranças de excedente de demanda e energia reativos. A tabela a seguir apresenta os itens faturados para uma situação de consumidor livre não pertencente ao MAE, com fornecedor de energia que não é a concessionária local (OLIVEIRA, MACHADO e RAMOS, 2004, p. 148). Tabela 7 – Itens faturados do Cons umidor Livre Item Base para faturamento Energia ativa do contrato bilateral Consumo medido ou Livremente negociada contratado com condições entre o consumidor e o livremente negociadas comercializador inclusive ultrapassagem ou sobra do valor contratado. Valor negociado entre consumidor e concessionário de distribuição. Demanda de ponta Regulada pela ANEEL, medida ou contratada, o cada unidade da federação que for maior. tem a sua. Conexão Uso da transmissão com conexão à rede de distribuição (Uso da rede básica) Uso do sistema de distribuição Ultrapassagem – CUSD Energia Reativa excedente Demanda Reativa excedente Demandas de ponta e fora de ponta, medidas ou contratadas, o que for maior (componente FIO) Consumo total medido (componente ENCARGO) Tarifa Regulada pela ANEEL, para cada concessionária de distribuição e por nível de tensão. Regulada pela ANEEL, para cada concessionária de distribuição e por nível de tensão. Art. 15 Res.281/99 Res. 456/2000 Res. 456/2000 Agentes Emitentes das faturas Comercializador de energia. Concessionário de distribuição. Concessionário de distribuição. Concessionário de distribuição. Concessionário de distribuição. Concessionário de distribuição. Concessionário de distribuição. Concessionário de distribuição. 268 5.2 CONSUMIDOR AUTOPRODUTOR O consumidor livre pode adquirir energia elétrica de uma empresa, que por sua vez também é consumidora de energia elétrica, mas dedica-se também à autoprodução ou mesmo participe em um empreendimento de produção independente O consumidor pode não só produzir parte ou toda a energia elétrica que necessita, em sua planta ou em um empreendimento independente, mas também pode comercializá- las com outros agentes do setor elétrico, de forma permanente ou ainda temporária. Segundo o Manual do Agente Comercializador (2003, p.11), a comercialização dos excedentes temporários do autoprodutor deve ser submetida à autorização da ANEEL. Ou seja, é permitido que o autoprodutor venda eventuais excedentes de energia desde que receba a necessária autorização e se enquadre nas prescrições da Lei no 9.074/95 e do Decreto no 2003/96. Em um primeiro caso, Fernandes Filho (2000, pp. 111-112) comenta que, quando o consumidor produz toda ou parte de sua energia, deverá celebrar com a concessionária local um Contrato de Reserva de Capacidade, de periodicidade anual, destinado a prover a concessionária de garantias para a confiabilidade da operação de seu sistema elétrico. Além disso, caso o consumidor produtor resolva vender energia a terceiros (através de um contrato bilateral de compra e venda de energia), utilizando-se das instalações do sistema elétrico, deverá arcar com os encargos de uso dos sistemas de transmissão ou de distribuição (art. 14 da Res. ANEEL 281/99), celebrando o CUSD com a concessionária local. Além dos custos comentados, incidem sobre as transações e compõe os preços estabelecidos pelos agentes vendedores outros custos diretos ou indiretos relacionados a (MANUAL DO AGENTE COMERCIALIZADOR, 2003, p.10; GANIM, 2003, pp. 53-55): ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? Conta de consumo de combustíveis – CCC; Taxa de fiscalização de serviços de energia elétrica – TFSEE; Pesquisa e desenvolvimento – P&D; Eficiência energética; Encargo de serviços do sistema – ESS; Encargo de capacidade emergencial; Conta de desenvolvimento energético; Reserva global de reversão – RGR; Compensação financeira pelo aproveitamento de recursos hídricos. 269 ANEXOS anexo 1– tarifas para o grupo B e grupo A - convencional, sem ICMS TARIFAS DE ENERGIA ELÉTRICA N.º RESOLUÇÃO TIPO DATA EMISSÃO DATA VALIDADE ABREVIATURA 421/I Fornecimento 06/08/2002 07/08/2002 FORN 421/I Fornecimento 06/08/2002 07/08/2002 FORN 002 Fiscal Nacional (MWh) 04/01/1996 05/01/1996 TFN GRUPO B1 CLASSIFICAÇÃO Residencial Baixa Renda * TARIFAS EM R$ SEM ICMS DEMANDA CONSUMO Até 30 kWh - 0,08002 De 31 a 100 kWh - 0,13713 De 101 a 150 kWh - 0,20573 De 151 a 160 kWh - 0,20573 Residencial Normal - 0,22859 Rural Não Cooperativa - 0,13582 Rural Irrigação - 0,00000 Comercial, Serviços e Outras Atividades - 0,21670 Industrial - 0,21670 Poder Público - 0,21670 Água, Esgoto e Saneamento (Redução 15%) - 0,18420 B4 Iluminação Pública - 0,11164 A3a Todas as Classes 7,86 0,11516 Água, Esgoto e Saneamento (Redução 15%) 6,68 0,09789 Rural Não Cooperativa (Redução 10%) 7,07 0,10364 Cooperativa de Eletrificação Rural (Redução 50%) 3,93 0,05758 Todas as Classes 8,17 0,11940 Água, Esgoto e Saneamento (Redução 15%) 6,94 0,10149 Rural Não Cooperativa (Redução 10%) 7,35 0,10746 Cooperativa de Eletrificação Rural (Redução 50%) 4,09 0,05970 Subterrâneo 12,03 0,12495 B2 B3 A4 AS A2 = 88kV a 138kV A3 = 69kV A3a = 30 a 44kV ( * ) Enquadramento segundo Portaria 437/95, de 03/11/95 Validade a Partir do Razão 05 Faturamento Agosto/2002. Percentual de 14,89% A4 = 2,3 a 25kV 1 270 anexo 2 – tarifas para o grupo B e grupo A - convencional, com ICMS TARIFAS DE ENERGIA ELÉTRICA N.º RESOLUÇÃO TIPO DATA EMISSÃO DATA VALIDADE ABREVIATURA 421/I Fornecimento 06/08/2002 07/08/2002 FORN 421/I Fornecimento 06/08/2002 07/08/2002 FORN 002 Fiscal Nacional (MWh) 04/01/1996 05/01/1996 TFN GRUPO B1 CLASSIFICAÇÃO CONSUMO Até 30 kWh - 0,09093 De 31 a 100 kWh - 0,15583 De 101 a 150 kWh - 0,23378 De 151 a 160 kWh - 0,27431 Residencial Normal Até 150 kWh - 0,25976 Residencial Normal Acima de 150 kWh - 0,30479 Rural Não Cooperativa Até 500 kWh - 0,15434 Rural Não Cooperativa Acima de 500 kWh - 0,18109 Rural Irrigação Até 500 kWh - 0,00000 Rural Irrigação Acima de 500 kWh - 0,00000 Comercial, Serviços e Outras Atividades - 0,28893 Industrial - 0,28893 Poder Público - 0,28893 Água, Esgoto e Saneamento (Redução 15%) - 0,24559 B4 Iluminação Pública - 0,14885 A3a Todas as Classes 10,48 0,15355 Água, Esgoto e Saneamento (Redução 15%) 8,91 0,13051 Rural Não Cooperativa Até 500 kWh (Redução 10%) 9,43 0,11778 Rural Não Cooperativa Acima de 500 kWh (Red 10%) 9,43 0,13819 Coop Eletrificação Rural Até 500 kWh (Red 50%) 5,24 0,06543 Coop Eletrificação Rural Acima de 500 kWh (Red 50%) 5,24 0,07677 Todas as Classes 10,89 0,15920 Água, Esgoto e Saneamento (Redução 15%) 9,26 0,13532 Rural Não Cooperativa Até 500 kWh (Redução 10%) 9,80 0,12211 Rural Não Coop Acima de 500 kWh (Redução 10%) 9,80 0,14328 Coop Eletrificação Rural Até 500 kWh (Red 50%) 5,45 0,06784 Coop Eletrificação Rural Acima de 500 kWh (Red 50%) 5,45 0,07960 Subterrâneo 16,04 0,16660 B2 B3 A4 AS Residencial Baixa Renda * TARIFAS EM R$ COM ICMS DEMANDA Validade a Partir do Razão 05 Faturamento Agosto/2002. Percentual de 14,89% 2 271 anexo 3 – tarifas grupo A - horosazonal, sem ICMS TARIFAS DE ENERGIA ELÉTRICA N.º RESOLUÇÃO TIPO DATA EMISSÃO DATA VALIDADE ABREVIATURA 421/I Fornecimento 06/08/2002 07/08/2002 FORN 421/I Fornecimento 06/08/2002 07/08/2002 FORN 002 Fiscal Nacional (MWh) 04/01/1996 05/01/1996 TFN TARIFAS DE FORNECIMENTO EM R$ SEM ICMS HORO SAZONAIS - AZUL SEGMENTOS HORO SAZONAIS SUBGRUPOS A2 A3 A3a A4 AS COMPONENTES Todas Demanda as Classes Consumo Todas Demanda as Classes Consumo Todas Demanda as Classes Consumo Todas Demanda as Classes Consumo Todas Demanda as Classes Consumo PONTA SECA ÚMIDA FORA DE PONTA SECA 13,24 0,07440 0,06942 0,05332 17,78 0,08431 0,07474 0,05809 0,12618 0,06484 0,05728 7,17 0,13080 22,54 0,14793 0,05013 6,93 21,54 0,14134 0,04890 4,84 20,79 0,13632 ÚMIDA 3,03 0,06722 0,05939 11,04 0,13690 0,07035 0,06216 HORO SAZONAIS - VERDE SEGMENTOS HORO SAZONAIS SUBGRUPOS A3a A4 AS COMPONENTES Todas Demanda as Classes Consumo Todas Demanda as Classes Consumo Todas Demanda as Classes Consumo PONTA SECA ÚMIDA FORA DE PONTA SECA 0,61693 0,60681 0,06484 0,63959 0,05728 7,17 0,62911 0,66933 ÚMIDA 6,93 0,06722 0,05939 11,04 0,65836 0,07035 0,06216 DE ULTRAPASSAGEM DA DEMANDA - AZUL SEGMENTOS HORO SAZONAIS SUBGRUPOS COMPONENTES PONTA SECA ÚMIDA FORA DE PONTA SECA ÚMIDA A2 Todas as Classes 49,08 11,21 A3 Todas as Classes 65,98 18,03 A3a Todas as Classes 69,91 23,29 A4 Todas as Classes 64,66 21,54 AS Todas as Classes 67,68 33,05 DE ULTRAPASSAGEM DA DEMANDA - VERDE SEGMENTOS HORO SAZONAIS SUBGRUPOS COMPONENTES PONTA SECA ÚMIDA FORA DE PONTA SECA ÚMIDA A3a Todas as Classes - 23,29 A4 Todas as Classes - 21,54 AS Todas as Classes - 33,05 Validade a Partir do Razão 05 Faturamento Agosto/2002. Percentual de 14,89% 3 272 anexo 4 – tarifas grupo A- horosazonal, com ICMS TARIFAS DE ENERGIA ELÉTRICA N.º RESOLUÇÃO TIPO DATA DATA EMISSÃO VALIDADE ABREVIATURA 421/I Fornecimento 06/08/2002 07/08/2002 FORN 421/I Fornecimento 06/08/2002 07/08/2002 FORN 002 Fiscal Nacional (MWh) 04/01/1996 05/01/1996 TFN TARIFAS DE FORNECIMENTO EM R$ COM ICMS HORO SAZONAIS - AZUL SEGMENTOS HORO SAZONAIS SUBGRUPOS COMPONENTES A2 A3 A3a A4 AS Todas Demanda as Classes Consumo Todas Demanda as Classes Consumo Todas Demanda as Classes Consumo Todas Demanda as Classes Consumo Todas Demanda as Classes Consumo SECA PONTA ÚMIDA FORA DE PONTA SECA ÚMIDA 17,65 0,09920 4,04 0,09256 0,07109 23,71 0,11241 0,09965 0,07745 27,72 0,18176 0,16824 0,08645 0,17440 0,08963 0,18253 0,09380 0,07637 9,56 30,05 0,19724 0,06684 9,24 28,72 0,18845 0,06520 6,45 0,07919 14,72 0,08288 HORO SAZONAIS - VERDE SEGMENTOS HORO SAZONAIS SUBGRUPOS COMPONENTES A3a Todas Demanda as Classes Consumo Todas Demanda A4 as Classes Consumo AS Todas Demanda as Classes Consumo PONTA ÚMIDA 0,82257 0,80908 0,85279 0,83881 0,89244 0,87781 SECA FORA DE PONTA SECA ÚMIDA 9,24 0,08645 0,07637 9,56 0,08963 0,07919 14,72 0,09380 0,08288 DE ULTRAPASSAGEM DA DEMANDA - AZUL SEGMENTOS HORO SAZONAIS SUBGRUPOS COMPONENTES PONTA SECA FORA DE PONTA ÚMIDA SECA ÚMIDA A2 Todas as Classes 65,44 14,95 A3 Todas as Classes 87,97 24,04 A3a Todas as Classes 93,21 31,05 A4 Todas as Classes 86,21 28,72 AS Todas as Classes 90,24 44,07 DE ULTRAPASSAGEM DA DEMANDA - VERDE SEGMENTOS HORO SAZONAIS SUBGRUPOS COMPONENTES PONTA SECA FORA DE PONTA ÚMIDA SECA ÚMIDA A3a Todas as Classes - 31,05 A4 Todas as Classes - 28,72 AS Todas as Classes - 44,07 Validade a Partir do Razão 05 Faturamento Agosto/2002. Percentual de 14,89% 4 273 anexo 5 – tarifas de serviços diversos TARIFAS DE ENERGIA ELÉTRICA N.º RESOLUÇÃO DATA DATA ABREVIATURA EMISSÃO VALIDADE TIPO 421/I Fornecimento 06/08/2002 07/08/2002 FORN 421/I Fornecimento 06/08/2002 07/08/2002 FORN 002 Fiscal Nacional (MWh) 04/01/1996 05/01/1996 TFN SERVIÇO EXECUTADO GRUPO A ( R$ ) GRUPO B ( R$ ) MONOFÁSICO BIFÁSICO TRIFÁSICO Vistoria da Unidade Consumidora 2,72 3,89 7,77 23,34 Aferição de Medidor a Pedido 3,50 5,83 7,77 38,90 Verificação de Nível de Tensão 3,50 5,83 7,00 38,90 Religação de Unidade Consumidora 3,10 4,27 12,83 38,90 15,55 23,34 38,90 77,81 1,16 1,16 1,16 2,33 Religação de Urgência Emissão da 2ª Via de Conta EFST/ETST - VER TABELA COMPLETA DE TARIFAS Observações: Tarifa de Fornecimento Expressa em kWh Tarifa Fiscal Nacional (MWh) R$ 64,48 ICMS: Lei Estadual n.º 7.547, de 27/01/89, art. 24 Importe x Alíquota * ICMS = --------------------------------100 - Alíquota ICMS: Deverá Ser Calculado Conforme a Fórmula * Alíquota: - Classe Residencial: Primeiros 150 kWh = 12% 0,1363636363 - Classe Residencial Acima de 150 kWh = 25% 0,3333333333 25% 0,3333333333 - Demais Classes = - Classe Rural: Primeiros 500 kWh = 12% 0,1363636363 - Classe Rural Acima de 500 kWh = 25% 0,3333333333 5 274 APÊNDICE D - PLANEJAMENTO E OPERAÇÃO DA PRODUÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA 1 INTRODUÇÃO Este capítulo pretende enfocar alguns aspectos quanto à geração pelos consumidores, que, como visto no item 3.4.1.4 do corpo da dissertação, é mais uma diretriz de atuação do gerencia mento pelo lado da demanda. Neste caso, pretende-se estruturar uma série de conceitos técnico-econômicos empregados em planejamento e operação de setores elétricos (ou seja instrumentos de análise do lado da Oferta – item 1.2 do APÊNDICE A) e transferilos de forma simplificada a um entendimento básico através do qual os consumidores possam empregá- los em um eventual estudo de investimento em autoprodução. Nesse sentido, foi compilada e resumida uma extensa gama de informações para então extrair ou interpretar uma base teórica compatível com estudos preliminares a serem realizados pelo consumidor, sem que isso signifique que não seja necessário um aprofundamento na bibliografia técnica e econômica específica. A produção de energia elétrica, como discutido anteriormente, é a transformação de uma determinada fonte primária de energia em eletricidade, a ser disponibilizada para diversos usos finais. Para tal constituição da oferta de energia, são necessárias estruturas físicas de geração, transmissão e distrib uição de energia elétrica, cujo objetivo é fazer a entrega da eletricidade desde sua fonte até o consumidor (MUNASINGHE, 1979, p. 87). Essas estruturas são dimensionadas em função da capacidade instalada do sistema (kW) e sua capacidade de gerar energia (kWh), as quais por sua vez têm por origem na procura estimada (load estimates127 ) pelo produto energia elétrica. As estimativas ou prospecções sobre o comportamento futuro da procura pelo produto energia elétrica (demand forecasting) são fundamentais em um setor com a característica de alta intensidade de capital, onde a subutilização do sistema elétrico provou resultar em prejuízos econômicos de larga monta (SMAIL, 1969, pp. 54-56). 127 Lembrando da subdivisão entre as estimativas de demanda de potência (kW) e de consumo de energia (kWh). 275 A previsão das curvas de carga permite então estimar as demandas a serem requeridas pelo consumidor, as quais são normalmente variáveis no decorrer de um período, atingindo, em determinados momentos, valores máximos e mínimos, e também consumindo um determinado montante de energia no decorrer deste período. Obviamente, se estivermos realizando o projeto de uma usina de energia elétrica devemos levar em consideração o comportamento da carga a ser atendida em relação às condições construtivas da usina em termos de produção de energia e de potência instalada. Este comportamento pode ser traduzido pelo fator de carga de um mercado ou de uma instalação, o qual, como já visto, é a relação entre a carga (demanda) média e a carga máxima (demanda máxima). Todo esse processo ocorre subordinado a parâmetros que podem ser classificados em duas linhas gerais de análise: técnica e econômica. Nesse sentido, este capítulo não tem a pretensão de esgotar um assunto de tal envergadura, que pode envolver um alto grau de complexidade 128 , mas tão somente fornecer uma base teórica simplificada que permita ao leitor reconhecer os pontos mais importantes relacionados ao tema 129 . Tecnicamente, o produto energia elétrica, para suprir a carga de um determinado consumidor, deve provir de uma fonte capaz atender aos requisitos de demanda ou potência (demanda máxima) e de energia (demanda média) 130 (SKROTZKI, VOPAT, 1960, p. 580). Lembrando os dizeres de Reis (2003, p. 219): Dois requisitos básicos podem ser associados à carga suprida por um sistema elétrico: ?? ?? Os requisitos de energia, relativos ao consumo durante um intervalo de tempo; Os requisitos de demanda máxima, associados a cada momento de vida do sistema de potência. Sob o ponto de vista econômico, é evidente que a todo empreendimento estão relacionados custos. Logo, espera-se que a estrutura alocada para realizar as atividades de produção e entrega da energia seja planejada para operar no menor custo possível, ou ainda, 128 Turvey (1981, p. 317) refere-se textualmente à essa complexidade, mormente na análise de sistema hidro térmicos integrados. A ótica desta dissertação, no entanto, é a do consumidor produtor, cujo sistema nunca atingirá proporções de integração e de regulação (repartição de carga) de uma rede. 129 Nas palavras de Munasinghe e Warford (1982, p. 37), entende-se como questões básicas em projetos de geração o tamanho, oportunidade, tipo ou mix de centrais e suas localizações, que envolverão aspectos econômicos a serem equacionados. 130 Outros fatores técnicos como projeto técnico de dimensionamento e proteção de equipamentos, dimensionamento da central em função do crescimento contínuo da carga , controle de tensão e de freqüência, análise de perdas, confiabilidade e segurança, igualmente importantes e concorrentes simultaneamente, não serão aqui abordados. 276 segundo Januzzi e Swisher (1997, p. 147), “satisfazer a demanda projetada pelo menor preço de fornecimento”. Por outro lado, não será eficaz a escolha da fonte mais barata em energia e potência, se essa mesma fonte não for capaz de suportar as contínuas variações de carga, sua demanda máxima e a energia necessária ao funcionamento no período (os requisitos técnicos). Concorre lembrar ainda que, de acordo com o título, far-se-á referência ao planejamento e operação de geração de energia elétrica (produção), lembrando que as outras etapas envolvendo a transmissão e distribuição também são objeto de estudos técnicoeconômicos específicos (transmission and distribution economics), mas que para fins de simplificação, serão considerados englobados na geração. 277 2 ASPECTOS TÉCNICOS Mesmo com relação às características de potência e energia, há que se ter análises diferenciadas, haja vista que, embora relacionadas, têm abordagens distintas. Escolher uma alternativa que represente o atendimento pleno à demanda máxima, ou seja, a capacidade instalada do gerador ser igual ou maior do que a potência máxima a ser atingida pela carga, não é suficiente se não houver também o atendimento da energia, ou seja, que esse gerador tenha combustível (energia primária) suficiente para mantê- lo em funcionamento durante o tempo em que a carga estiver sendo solicitada, dentro de seu comportamento de consumo. Neste âmbito, é recomendável que se faça preliminarmente a análise do atendimento à demanda e à energia em separado, para depois partir para a integração com a análise econômica. 2.1 ATENDIMENTO À DEMANDA REQUERIDA PELA CARGA A capacidade instalada ou potência máxima 131 depende fundamentalmente das características construtivas do gerador e da fonte primária a ele acoplada. Assim, se for uma usina de base hidráulica, a capacidade instalada estará relacionada à altura da queda e da vazão d´água, bem como da motorização (tamanho e núme ro de geradores) empregada. Em centrais térmicas é o tamanho dos geradores e suas instalações que vai determinar a potência máxima que poderão atingir. É certo que , não obstante saber-se da variabilidade das cargas, uma central deve ser projetada com uma capacidade instalada suficiente para a tender à demanda máxima do sistema a ela acoplado (SMAIL, 1969, pp. 55; SOUZA, FUCHS, SANTOS, 1983, pp. 123127; VENNARD, 1970, pp. 245-247). 131 Para fins de distinção da mudança de enfoque para o produtor, quer-se diferenciar potência instalada (relativa à produção) de carga instalada (relativa ao consumidor), embora suas quantificações e unidades (kW) sejam idênticas. 278 Neste sentido, pode ser definido um parâmetro que diferencia a capacidade instalada de uma central da potência máxima que a mesma poderá atingir, sem prejuízo de sua integridade física e operacional. Denomina-se fator de utilização (Fut) a relação entre a demanda máxima de um sistema ou parte deste ocorrida em um determinado período de tempo e a capacidade instalada do mesmo (BERKOWITZ, 1985, p. 2385; DUKE ENERGY, 2001, p. 51; SKROTZKI, VOPAT, 1960, p. 594) A expressão fator de utilização é muito adequada na informação do grau em que uma instalação está sendo utilizada: Equação 30 – Fator de utilização Fut ? Pmáx Capacidade Instalada O fator de utilização pode ser expresso tanto em % como em valores unitários. Se o fator de utilização for comparado com o fator de demanda, notar-se-á que são muitos semelhantes, na medida em que medem o grau em que as respectivas instalações, no que se refere à potência elétrica, estão sendo utilizadas. A diferença está somente no fato de que o fator de utilização se aplica a equipamentos e instalações que compõe parte do sistema elétrico que está fornecendo energia a partir de um determinado ponto do sistema, enquanto que o fator de demanda se aplica a consumidores ou a centros de consumidores. Normalmente, os equipamentos elétricos como geradores, transformadores ou linhas de transmissão têm definida a sua capacidade instalada como sendo sua potência nominal, ou seja, a potência para a qual foram projetados para operar, em condições normais. Acontece que estas máquinas ou instalações têm uma certa margem adicional de potência, uma disponibilidade extra que lhes permite, por limitados períodos de tempo, exceder à respectiva potência nominal. Esta capacidade adicional depende do projeto e da construção da instalação. Conforme seu dimensionamento e suas características construtivas, va riará para mais ou para menos o percentual que poderá ser imposto adicionalmente sobre sua potência nominal, como também o período de tempo durante o qual ela ficará sujeita à estas condições de sobrecarga. 279 Em vista disto, o fator de utilização poderá resultar em um valor maior que a unidade ou maior que 100%. Para um motor, o Fut pode ser comparado ao fator de serviço que é multiplicado pela potência nominal, sem aquecimento prejudicial, porém com queda do fator de potência e do rendimento (CREDER, 1984, p. 135). Outrossim, para fins de análise para o projeto de um sistema produtor, o fator de utilização pode perfeitamente servir para ajustar a capacidade instalada, mantendo esta como parâmetro para as etapas subseqüentes. Ou seja, de posse dos dados construtivos (dados de placa) dos equipamentos, o planejador pode determinar qual a potência máxima que poderão atender, definindo-a daí para a frente como a capacidade instalada de sua fonte. 2.2 ATENDIMENTO À ENERGIA REQUERIDA PELA CARGA Uma central de geração (ou aproveitamento energético) de energia elétrica, além de possuir uma determinada capacidade instalada possível ou projetada (que vai determinar sua condição em atender a demanda máxima em kW de um sistema elétrico), deve apresentar uma certa capacidade de manter, por um determinado período, sua potência máxima ou capacidade instalada em efetiva operação. Ou seja, a possível produção de energia tem a ver com o tempo em que a central consegue manter operando os kW que compõe sua capacidade instalada. Esta condição de as centrais gerarem energia se origina de especificações técnicas de projeto ou ainda de restrições naturais. Para tanto, centrais térmicas dependem de um suprimento adequado de combustível, seja óleo, carvão ou gás, cuja combustão proporciona a produção de energia, a qual pode ser expandida até o limite logístico de obtenção do combustível. Já as centrais de base hidráulica dependem fundamentalmente das condições hidrológicas 132 do sítio em que estiverem sendo locadas, sem qualquer possibilidade de expansão, pois que se trata de armazenamento de água a ser turbinada (REIS, 2003, p. 221; SOUZA, FUCHS, SANTOS, 1983, pp. 127). 132 Segundo Souza, Fuchs e Santos (1983, p. 81), a hidrologia é a ciência que trata do estudo da água na natureza, abrangendo as propriedades, fenômenos (quedas e precipitações), distribuição e escoamento desse elemento. 280 A disponibilidade e o fluxo de combustível, ou então as condições específicas de projeto em relação à energia a ser produzida, é que vão determinar os níveis do indicador denominado fator de capacidade, a qual vai medir a razão entre a energia elétrica produzida e aquela que poderia ter sido produzida caso a central, no mesmo período, permanecesse operando com sua capacidade total (continuous ful power operation). Considerando que a energia, em um determinado período, é equivalente à potência média 133 verificada, o fator de capacidade pode então ser definido como a razão entre a potência média disponível pela usina e sua capacidade instalada (DUKE ENERGY, 2001, p. 49; GRANT, IRESON, 1960, pp. 277-278; REIS, 2003, p. 221; SKROTZKI, VOPAT, 1960, p. 593), assim : Equação 31 – Fator de capacidade Fcap ? E 1 ? To P max ? Pmed Capacidade instalada Onde: Fcap = fator de capacidade To = período sob análise E = energia produzida no período considerado Pmax = CI = potência máxima da central = capacidade instalada Pmed = potência média da central no período considerado. O fator de capacidade aplica-se principalmente a um aproveitamento energético e às centrais de produção de energia elétrica, contadas todas as suas unidades produtoras, mas também pode ser calculado individualmente para cada unidade, dependendo da análise em foco, sendo expresso tanto em valores percentuais como unitários. Assim, pode ser calculado um Fcap relativo ao potencial de produção de energia de um determinado aproveitamento, e, após a entrada em operação da central produtora propriamente dita, um outro Fcap relativo ao seu regime de operação pode ser obtido. Como o fator de capacidade relaciona-se à potência média verificada em determinado período sob consideração, pode ser calculado ou avaliado para diferentes períodos de tempo, apresentando valores distintos conforme seja diário, semanal, mensal, anual ou plurianual. 133 Novamente, note-se a mudança da notação de demanda média para potência média, lembrando que na realidade tratam-se de conceitos básicos idênticos. 281 Por isso, no fator de capacidade está embutido o conceito de “energia firme” (firm energy - NEO, 2001, p. 3), que é um parâmetro atribuído a um aproveitamento energético ou à uma usina, que reflete a potência média ou disponibilidade de energia que pode ser obtida dentro de um período sob análise, não só em função das características construtivas como também de outras variáveis como a confiabilidade dos equipamentos que compõe a usina. Segundo Reis (2003, p. 222) o fator de capacidade “pode ser também estabelecido em função de um a relação entre seu tempo de operação e do período total de operação considerado pelo sistema”. Este tempo de operação à potência máxima ou à plena carga (tiempo de utilización, Tmax) é o tempo necessário a se produzir a energia total do período, desde que a usina estivesse trabalhando à sua potência máxima ou capacidade instalada (BUCHHOLD, HAPPOLDT, 1966, p. 41; TARBOUX, 1962, p. 1214) 134 . Explicando: Se um certo montante de energia E = 100 MWh fosse suprido por uma usina em um período de 10h (To), encontraríamos uma potência média (energia firme) de 10 MW. Supondo a capacidade instalada da central fosse de 50 MW, o tempo necessário (Tmax) que esta CI teria que durar (a operação a plena capacidade) para se produzir a energia descrita anteriormente seria de 2h. Dessa forma, a energia pode ser calculada, para um determinado período: Equação 32 – Cálculo da energia produzida por uma central “à plena capacidade”. E ? Pmed ? To ? CI ? T max A equação anterior permite ainda deduzir a relação a seguir: Equação 33 – Fator de capacidade e o tempo de operação “à plena capacidade” Fcap ? 134 E 1 ? To CI ? CI ? T max To ? CI ? T max To Estes autores realizam sua abordagem com relação ao fator de carga e sua influência sobre as centrais, o que no entanto se submete ao mesmo raciocínio aqui explicitado, pois se a demanda máxima for o parâmetro para o valor da capacidade instalada e a demanda média = Pmed, a usina será projetada para atender especificamente à uma determinada demanda máxima e energia (independente da potencialidade da fonte energética), o que fará com que o Fcap seja igual ao Fc. 282 Nota-se então que o fator de capacidade pode ser expresso pela comparação, em determinado período, entre o tempo de operação à potência máxima, necessário para a produção de energia naquele período, e o período total (To) em operação. Podem ainda ser encontradas menções ao fator de capacidade como indicador de desempenho operacional, onde são comparados os fatores de capacidade de usinas, unidades produtoras ou mesmo turbinas e geradores, dentro de um mesmo intervalo de tempo, servindo como um parâmetro de qualidade informado por fabricantes para promoverem seus produtos. 283 3 INTEGRAÇÃO TÉCNICO-ECONÔMICA Uma vez determinados e atendidos os parâmetros técnicos necessários à análise do atendimento de um determinado sistema elétrico, é necessário agora entender dos aspectos econômicos, ou seja, objetivar atender à carga no menor custo possível. Para tanto, primeiramente necessita-se precisar os custos relativos a cada empreendimento sob exame, identificando-os em função dos custos de potência e de energia associados ao funcionamento da central de energia elétrica. Em seguida pode-se então efetuar a comparação entre as diversas opções para se encontrar qual a melhor alternativa ou qual a melhor composição delas, para atendimento à carga, no sentido de realizar uma otimização técnico-econômica entre os componentes de geração sob análise (REIS, 2003, p. 223). 3.1 DETERMINAÇÃO DOS CUSTOS DE GERAÇÃO Cada empreendimento de geração de energia elétrica terá uma composição de custos característica, relacionada a cada kW de potência em sua capacidade ($/kW) e à cada kWh de energia ($/kWh) disponibilizadas 135 . Segundo Smail (1969, pp. 51-55), a escolha da fonte primária de energia e a forma mediante a qual será convertida em energia elétrica é que vai determinar o nível de custos de geração. Assim, carvão, óleo, gás natural, energia nuclear, hidráulica, solar ou ainda eólica são exemplos de fontes primárias que, para gerarem eletricidade, devem passar pelas suas respectivas estruturas de produção, cada qual envolvendo característica típicas de custo de extração, transporte e conversão. Nesse sentido, Gross, Garapic e McNutt (1988, p. 368) reforçam a idéia de que a determinação dos custos de geração ou produção de energia (production costing) é ferramenta básica para a análise de alternativas entre as diversas fontes ou recursos energéticos disponíveis. Genericamente, segundo Holanda (1983, p. 225), os custos podem ser classificados das mais diferentes maneiras, de acordo com os objetivos analíticos que se tem em vista. 135 São os chamados custos marginais, aqueles considerados como os incrementos no custo total causados pela produção ou pela aquisição de uma unidade adicional (MANSFIELD, 1978, pp. 164-170). 284 Sob uma interpretação extensiva, os custos de produção de energia elétrica podem ser entendidos como uma composição de todos os custos alocados ao fornecimento de energia elétrica ao consumidor, sejam de investimentos, juros, combustível ou ainda de operação e manutenção (REIS, 2003, pp. 223-224). Isto implica que, nestes custos, as fases de geração, transformação, transmissão e distribuição têm suas próprias parcelas incorporadas. Em uma primeira simplificação, tratar-se-á destes custos de forma englobada aos custos de geração, não influenciando, no entanto, o objeto da análise, já que o que se pretende é a avaliação técnico-econômica do fornecimento de energia elétrica ao consumidor, abstraindo-se de etapas internas do processo de produção de energia elétrica. Além disso, também podem ser considerados englobados os denominados custos de saída forçada (forced outage) ou de saída planejada (planned outage) e outros relativos a tributação ou confiabilidade (NEO, 2001, p. 5; REIS, 2003, p. 277). Em análise econômica, a distinção mais importante é entre custos fixos e variáveis, conforme estes sejam ou não independentes do volume de produção ou do grau de utilização da capacidade produtiva (HOLANDA,1983, p. 227; MILLER, MALINOWSKI, 1994, p. 64; VENNARD, 1970, pp. 220-224). Na geração de energia elétrica, os custos de potência e de energia estão associados a custos fixos e variáveis, ou seja, custos independentes ou dependentes do funcionamento da central. Outra distinção importante é aquela que diferencia as escalas de produção de um empreendimento em função do tempo, referindo-se ao curto e ao longo prazos (HOLANDA, 1983, p. 181). O curto prazo é, pois, identificado com o período de tempo em que os equipamentos, a planta ou outros insumos não têm condições de expansão, isto é, não existe a possibilidade de se aumentar capacidades, número ou tamanho. No setor elétrico o curto prazo pode ser entendido como sendo a operação das usinas existentes (ou também de usinas de construção muito rápida). No curto prazo, portanto, existe a fixidez da estrutura física destinada à produção de energia e ao atendimento da demanda de potência (terrenos, edificações, equipamentos, parte do pessoal empregado, etc...), sendo que existem insumos variáveis cujo incremento reflete-se diretamente no aumento da produção. 285 O curto prazo tem relação direta com a operação do sistema elétrico, também denominado de despacho de carga, cuja finalidade, além da questão técnica, é a de alocar a demanda do sistema às unidades geradoras disponíveis no objetivo se obter o menor custo global de produção de energia (economic dispatch - NEO, 2001, p. 5) Nesse caso, tanto em usinas termoelétricas quanto em hidroelétricas, genericamente, o custo fixo é aquele inerente aos investimentos e juros relativos a instalações e equipamentos dos sistemas elétricos, tais como custos de projetos, consultorias, desapropriações, construções, maquinário, subestações, linhas de transmissão e distribuição. Relaciona-se também com os custos mínimos de operação e manutenção básica das instalações, pessoal, pagamentos de financiamentos e depreciações e é normalmente é expresso em $/kW instalado (SCHREIBER, 1977, pp. 230-231; MILLER, MALINOWSKI, 1994, p. 64; SMAIL, 1969, p. 67). Já o custo variável é afetado pelo carregamento das unidades de geração, ou seja, dependente da produção da usina, e controlados pela operação do sistema elétrico, cujo item mais efetivo é o gasto em combustíveis, normalmente expresso em $/kWh (MILLER, MALINOWSKI, 1994, p. 65; SMAIL, 1969, p. 68; SKROTZKI, VOPAT, 1960, p. 561-563). No longo prazo, como todas os fatores de produção são variáveis (MANSFIELD, 1978, pp. 226-229; SAMUELSON, 1979, pp. 495-497)), pode-se entender então a análise como sendo de planejamento de usinas, ou seja, as centrais não estão em operação. O que se dispõe são aproveitamentos energéticos limitados em sua capacidade de atender potência e energia elétrica, cujos custos vão variar de acordo com as dimensões, os preços dos fatores produtivos e da tecnologia a ser empregada. Assim, dispondo das características da carga a ser atendida, pode-se planejar a construção da central de forma a obter o melhor ajuste econômico entre capacidade instalada e energia firme. Nesse sentido, pode-se afirmar que os custos da energia e da potência são definidos em fixos ou variáveis dependendo do alcance temporal sob avaliação. Assim, o curto e o longo prazo, ou a operação e o planejamento, se efetivam sob premissas que influenciam a classificação de custos fixos ou variáveis. 286 Em razão do exposto, vai-se constatar que existem diferenças conceituais em relação à origem dos custos fixos e variáveis para centrais mais comuns, as termoelétricas e as hidroelétricas 136137 . 3.1.1 Centrais termoelétricas As centrais termoelétricas são aquelas que produzem eletricidade a partir da energia química (ou nuclear) liberada em processos de combustão, utilizando-se de fontes como derivados de petróleo (óleo, gasolina), gás natural, carvão, biomassa (madeira), ou ainda urânio, a qual converter-se-á em energia mecânica que vai acionar geradores elétricos (MILLER, MALINOWSKI, 1994, pp. 30-33; REIS, 2003, p. 97, 99-113; SOUZA, FUCHS, SANTOS, 1983, pp. 11-13, 41; SKROTZKI, VOPAT, 1960, pp. 117-150). Para uma usina térmica, o custo de potência (capacidade instalada) depende essencialmente da motorização (número e tamanho de máquinas) que se queira implementar, pois esta implica em maior tamanho das instalações e equipamentos (BUCHHOLD, HAPPOLDT, 1966, p. 17; REIS, 2003, p. 226). Os gastos relacionados à capacidade instalada não se alterarão em função da usina produzir ou não energia, pois são advindos de uma imobilização de capital que terá que ser pago independente da central fornecer ou não energia elétrica. Neste sentido então, é que o custo da capacidade instalada de uma central termoelétrica vai implicar em gastos fixos no decorrer de sua vida útil. Assim, para um custo unitário de instalação de 1kW correspondente a p unidades monetárias, o custo total de instalação da capacidade instalada em kW, será representado pelo custo fixo total (em $): 136 Não obstante não se configurarem como alternativas representativas para a região do Médio Vale do Itajaí, haja vista os baixos graus de aproveitamento das fontes primárias (ANEEL. Atlas de energia elétrica do Brasil, 2002, pp. 9, 66), atualmente já são bastante difundidas no Brasil as tecnologias de geração solar (fotovoltaica) e principalmente eólica, o que seria interessante para a análise por eventuais consumidores livres da região ou ainda interessados em atuar como PIE em outra região. Ambos os aproveitamentos, guardadas suas particularidades técnicas, têm bastante similaridade com as fontes hidráulicas, pois que dependem fundamentalmente de um regime de fluxo de energia (de radiação solar ou de ventos) para seu dimensionamento e, uma vez em operação, o custo de seu “combustível” é praticamente inexistente (REIS, 2003, pp. 151-179). 137 Munasinghe e Warford, (1982, pp. 52-65) realizam estudos sobre o custo marginal de longo prazo não só isoladamente de sistemas hidroelétricos e termoelétricos mas também da composição entre essa duas modalidades (mixed hydro-thermal systems). 287 Equação 34 – Custo da capacidade instalada CP ? p ? CI Onde: CP = custo de capacidade instalada ou de potência ($) p = custo unitário para 1 kW ($/kW) CI = capacidade instalada ou Pmax (kW) Uma vez destinada à responder por um determinado montante de energia (ou seja, possuir uma Pmed disponível), uma usina termoelétrica terá custos que vão variar de acordo com o tempo em que permaneçam produzindo. Isso é claramente perceptível na proporção em que existem gastos referentes à produção de energia elétrica, incorridos no caso em que a central esteja em funcionamento, produzindo uma certa quantidade de energia. Dizem respeito direta e principalmente ao combustível, mas também têm influência dos gastos com pessoal e materiais envolvidos na operação e manutenção da central, (Custos de operação e manutenção (O&M), ainda denominados por Smail (1969, p. 69) de outros custos de produção (other-work costs)) (KIRCHMAYER, 1958, p. 10). Depreende-se então que os custos de produção de energia são gastos variáveis, que podem ser determinados em função do tempo de operação da central, normalmente expressos em $/kWh. Deve-se lembrar que a energia pode ser calculada em função da Pmed ou da Pmax. Normalmente, para fins de análise econômica, faz-se alusão à energia através da multiplicação entre a potência máxima ou capacidade instalada (CI) e ao tempo de operação à plena capacidade (Tmax), implicando que o custo da energia produzida será: Equação 35 – Custo de energia produzida CE ? E?e CE ? T max ? CI ? e Onde: CE = custo da energia ($) E = energia produzida pelo atendimento das cargas variáveis dentro de um determinado período. e = custo unitário por kWh gerado ($/kWh) CI = capacidade instalada ou potência máxima (kW) 288 Tmax = tempo de operação à plena capacidade. Comparativamente, entre as usinas térmicas, as nucleares e as a carvão são as usinas de altos custos de investimentos (p) e baixos custos variáveis (e) se comparadas às usinas a gás ou a óleo. Por isso, usinas nucleares e térmicas a carvão são indicadas para operação na base enquanto as de gás natural e óleo combustível na ponta (REIS, 2003, p. 226) 138 . 3.1.2 Centrais hidroelétricas As equações anteriores também se aplicam às usinas hidráulicas sob análise no curto e no longo prazos mas, para este, muda substancialmente o enfoque de obtenção de “p” (custo unitário do kW) e de “e” (custo unitário do kWh). Uma usina hidroelétrica (UHE) existente, ou seja, em operação, tem um comportamento de custos de potência e energia idêntico ao de uma usina termoelétrica, ou seja, suas instalações físicas originam custos fixos e sua operação de produção provocam custos variáveis. No entanto, os custos variáveis de uma usina hidroelétrica existentes são bastantes reduzidos (pois o custo de combustível é zero) 139 , aparecendo em função de mão-deobra e materiais alocados à operação e manutenção (BUCHHOLD, HAPPOLDT, 1966, p. 45; STOLL, 1989, p. 427; TARBOUX, 1962, p. 1215). Quando se refere ao planejamento, contudo, verifica-se que o longo prazo comporta certas particularidades que têm a ver exatamente com o fator de capacidade que será estabelecido para a futura central o que implica em uma abordagem de custos que privilegie o atendimento da energia (BITU, BORN, 1993, pp. 151-153). Dito sob outra forma, as hidroelétricas são dependentes de propriedades aleatórias e estatísticas relacionadas às vazões naturais dos rios conjugadas com a capacidade instalada (REIS, 2003, pp. 68-70). Sabe-se que um aproveitamento hidráulico dispõe de dois parâmetros para se estimar sua aptidão de potência e energia. Através do binômio vazão e altura de queda, é calculada a 138 Essas usinas apresentam severas restrições de facilidade de partida/parada (setup), quesito indispensável para a operação na ponta. 139 Para fins de simplificação. Porém no Brasil exis tem custos relacionados à energia destinados ao pagamento de royalties ao município em que se localiza a usina, além da mais recente cobrança do custo da água, cuja regulamentação pode ser encontrada na página da ANA – Agência Nacional de Águas. 289 potência máxima a ser extraída de um certo aproveitamento energético de base hidráulica (BUCHHOLD, HAPPOLDT, 1966, p. 29; REIS, 2003, p. 81; SKROTZKI, VOPAT, 1960, pp 489-505; SOUZA, FUCHS, SANTOS, 1983, pp. 6-11, 127-128). A energia que se pode extrair do aproveitamento é o produto do binômio pelo tempo em que se pode manter seu resultado de potência, ou seja, a partir da queda e do fluxo d´água disponíveis, sendo expressa então em uma potência média ou “energia firme” (SCHREIBER, 1977, pp. 9, 27-31; SKROTZKI, VOPAT, 1969, p. 662). Ainda de acordo com Schreiber (1977, p. 17), em um planejamento voltado para a operação econômica, essa interdependência entre vazão, queda e tempo enseja a atenção que permita em primeiro lugar o aproveitamento máximo da água afluente, onde então os aproveitamentos de diferenciam em função da capacidade em manter a afluência. O que acontece então é que as usinas hidroelétricas podem ser planejadas para operar como usinas de base ou de ponta, dependendo de restrições hidrológicas ou por opção do planejador. Usinas a fio d´água (sem ou reduzido reservatório, run-of-river hydro, água fluyente) aproveitam quase que diretamente a água do rio enquanto usinas de represamento (pondage hydro, água embalsada) podem regularizar a vazão do curso, promovendo um maior controle sobre a vazão necessária à geração de energia (BUCHHOLD, HAPPOLDT, 1966, pp. 34-40; REIS, 2003, pp. 65-67; SKROTZKI, VOPAT, 1960, pp. 495-504, 521-523). Pelas suas características construtivas, usinas a fio d´água são indicadas para operação de base enquanto usinas de represamento podem ser operadas como usinas de ponta (SCHREIBER, 1977, p. 39; STOLL, 1989, p. 427-429). A instalação de usinas para funcionamento na ponta ou na base traz reflexos imediatos sobre os custos totais da usina. Em verdade, um determinado aproveitamento hidráulico pode receber uma UHE cuja potência terá um limite definido pela vazão e pela queda, mas cuja energia está definida independentemente da capacidade instalada da usina, ou seja, mesmo que se optar por uma potência inferior à possível, a afluência de água e a decorrente energia firme permanecem constante. Os custos relativos à energia, portanto, independem do funcionamento ou não da central, pois têm como componentes os gastos com aquisições de terras, barragens, túneis, vertedouros e outras obras civis correlatas para a regularização da afluência de água, 290 considerados então como custos fixos (REIS, 2003, p. 226-229; SKROTZKI, VOPAT, 1960, p. 664). Reforçam essa afirmação Bitu e Born (1993, pp. 151-153), quando admitem que os custos marginais de energia e potência em sistemas predominantemente hidroelétricos trazem implicações de alocação diferenciada, pois não é possível a alocação do custo de investimento, por exemplo de reservatório, apenas à componente de demanda. No entanto são considerados variáveis os custos de instalação, pois, para uma energia firme constante, quanto maior a capacidade instalada da central, menor o tempo em que essa poderá operar, pois a água armazenada ou o fluxo de água disponível é limitado por condições naturais (hidrológicas + tamanho de barragem), mas maiores serão os custos totais decorrentes do aumento da capacidade instalada. Por outro lado, quando se diminui a capacidade instalada (aumentando o Fcap), gasta-se menos com motorização (kW), implicando em maior tempo de operação disponível para turbinar a água (REIS, 2003, p. 226229). Esta relação energia disponível/tempo de operação/capacidade instalada subentende que, em usinas de base, é previsto um alto fator de capacidade na operação, com uma alta relação entre a potência média e a potência máxima, o que faz com que suas instalações sejam utilizadas de uma forma mais completa, mas implicando também em maiores custos fixos. Isso é proveniente dos altos investimentos em acumulação de água (obras civis) que somente serão satisfatoriamente diluídos se a central operar por muito tempo. Já as usinas de ponta privilegiam o uso da capacidade instalada (muitas vezes por pouca ou irregular disponibilidade de água) operando com baixo fator de capacidade, com uma Pmed bastante inferior a Pmáx. Podem utilizar, em geral, uma alta motorização relativa à energia firme, dispondo normalmente de poucas unidades, a fim de reduzir custos relativos à baixa utilização percentual dessas máquinas 140 . Daí que, comparativamente, uma UHE de base é mais econômica se projetada para operar com altos Fcap. Ao contrário, uma UHE de ponta é aquela econômica para baixos Fcap (REIS, 2003, p. 227). 140 Segundo Schreiber (1977, pp. 185-186) e Smail (1969, pp. 66-67), quanto maior o número de máquinas em que se divide a capacidade instalada de uma usina hidroelétrica, maiores seus custos, pois máquinas maiores tendem a ter maiores eficiências globais. 291 Assim, conclui-se que uma UHE, em planejamento, não possui custos variáveis reduzidos e sim, proporcionais à motorização pretendida e ao fator de capacidade para o qual foi projetada. Outrossim, entre as UHEs disponíveis, as usinas de base são as que possuem os maiores custos fixos mas menores taxas de aumento do custo total em função do aumento das horas de operação. Ao contrário, as usinas de ponta subentendem um valor menor de custos fixos e maior de custos variáveis. Em Reis (2003, pp. 224-231) pode-se verificar a demonstração, para uma UHE, da obtenção do custo unitário de energia “e” (também denominado de custo marginal de energia pura), dado em $/kWh que vai proporcionar a obtenção do custo de energia “CE”; e do custo unitário de potência “p” (custo marginal de ponta pura), dado em $/kW, necessário para a obtenção do custo de potência ou capacidade instalada “CP”. Daí que, em planejamento, não é incomum encontrar-se parcelas relacionadas ao custo produção (kWh) de uma UHE relativamente significativos, ao contrário do curto prazo ou usinas existentes, quando “e” pode ser aproximado de zero. 3.2 COMPARAÇÃO ECONÔMICA DE ALTERNATIVAS DE GERAÇÃO Uma vez determinados os custos relativos à capacidade instalada (CP) e à produção de energia (CE) das usinas ou centrais, térmicas ou hidráulicas, em operação ou planejamento, pode-se passar à análise de alternativas para fins de estabelecer qual a central mais adequada à situação. Deve-se lembrar que estes custos são obtidos a partir de uma normalização dos custos marginais de energia (e) e de capacidade instalada (p) (JANUZZI , SWISHER,1997, p. 148; BITU, BORN, 1993, p. 147). O custo total de um fornecimento de energia elétrica será a soma dos custos de potência e de energia, correspondendo ao custo dos investimentos (capital charges), custos de combustíveis (fuel costs) e outros custos (O&M) (SMAIL, 1969, pp. 67-69; SKORTOZKI, VOPAT, 1960, pp. 563-577), sendo que pode se apresentar de maneiras distintas. Absolutos, em unidades monetárias: 292 Equação 36 – Custo total de uma central CT ? CP ? CE CT ? p ? CI ? e ? E Onde: CT = custo total da usina ($) CP = Custo total da capacidade instalada ($) CE = Custo total da energia ($) P = custo unitário de potência ($/kW) E = custo unitário de energia ($/kWh) Antes de se fazer qualquer comparação, é importante lembrar que as opções de centrais devem estar com seus custos devidamente equalizados quanto à vida útil e ao período de análise 141 Pois, conforme o período sob análise (To) e a vida do empreendimento da central (construção + vida útil), as relações de custos se alteram, e isso se dá pelas diferenças entre as apropriações dos custos totais no decorrer das vidas úteis dos investimentos, o próprio tempo das vidas úteis, e os diferentes custos unitários de potência (p) e energia (e), lembrando que os custos de investimentos não são incorridos de uma só vez, sendo distribuídos por conta dos tempos de construção, de amortização de empréstimos, etc... Quanto à vida útil do empreendimento, existem flagrantes diferenças de tempos de construção e de operação das centrais, tanto para usinas de base térmica quanto as de base hidráulica, existindo diferenças entre os tempos de construção (de 1 a 6 anos) e de vida útil (de 45 até 80 anos), segundo Smail, (1969, p. 62). Quanto ao período sob análise, altera-se princ ipalmente o custo da energia CE, pois que quanto maior o tempo de operação, maior a produção de energia e por conseqüência seu custo. Smail (1969, p. 73) e Turvey, Anderson (1981, p. 317) consideram ser mais interessante trabalhar-se com uma base temporal de análise dos custos unitários por ano. Essa equalização se dá normalmente através da anualização dos custos (ou seja, To = 8760 h), através de métodos de equivalência financeira de transformar os custos totais dos 141 Para um ma ior aprofundamento, vide Holanda (1983, pp. 337-342), Grant, Ireson (1960, pp. 76-95), Reis (2003, pp. 224-226, 300-306). 293 empreendimentos primeiro em um valor presente e depois anualizado para um período total padrão. Na realidade, leva-se em conta ainda a distribuição desses custos ao longo da vida útil do empreendimento 142 , através de uma transformação dos custos totais incorridos em uma série de pagamentos constantes destes custos no decorrer do fluxo de caixa, remunerando ou amortizando o capital total investido, por meio de uma certa taxa de juros. Assim, conforme o período de análise (normalmente anual) aplica-se um percentual “f” de apropriação dos gastos totais em investimentos e em operação para se calcular valores fixos periódicos (SMAIL, 1969, pp. 67-69). Uma vez realizada a equalização, pode-se ainda mudar o período sob análise, de um ano para um mês, por exemplo, para comparar com as tarifas praticadas pela concessionária de energia elétrica, normalmente de base mensal. Uma concessionária pode ser vista como uma usina pronta, ou seja, o custo de potência é fixo e o da energia variável. A energia consumida durante o ano terá um preço que não vai mudar em função de ser analisada mensalmente, ou seja, cada kWh consumido durante o ano representará um acréscimo de “e” unidades monetárias. Mas, para a capacidade instalada, decorre um custo fixo que é diferente, em bases financeiras, dependendo do período sob aná lise. Assim, a diminuição do período para um mês reflete uma distribuição dos gastos com instalações em intervalos menores, portanto também de menor valor, devidamente corrigidos financeiramente. Inversamente, esta relação pode ser útil na determinação dos custos anuais do kW fornecido por uma concessionária, que é de base mensal. A comparação entre os diversos tipos de usinas, para fins de escolha da central mais adequada, se faz através da verificação do comportamento dos custos totais unitários, em relação à potência instalada ($/kW) ou em relação à energia produzida ($/kWh). O custo total unitário de potência instalada por kW, será: 142 Em análise financeira, a vida útil (financial life) dos diversos tipos de centrais varia de 25 a 30 anos. A vida útil física, no entanto, chega a 45 anos para as térmicas e é bem maior para as usinas hidroelétricas, 80 anos ou mais (Smail, 1969, pp. 62-63) 294 Equação 37 – Custo total unitário por kW cp ? CT Capacidade Instalada p ? CI e ? E ? CI CI cp ? CP ? CE Potência Máxima ? ? p ? e ? T max ou ainda , cp ? p ? e ? Fcap ? To Onde: cp = custo total unitário de potência instalada ($/kWh) Fcap = fator de capacidade To = período sob análise, normalmente igual a 8760 horas (1 ano) Tmáx = tempo de operação à potência máxima Já o custo total unitário de produção de energia por kWh será: Equação 38 – Custo total unitário por kWh ce ? CT E ? CP ? CE Pmed ? To ce ? ce ? ? CP ? CE CI ? T max p ?e T max ou ainda , p ?e To ? Fcap Onde: ce = custo total unitário por kWh ($/kWh) Pmed = potência média ou energia firme da central To = período sob análise Pmax = potência máxima ou capacidade instalada da central Analisando-se as equações acima, pode-se constatar que tanto o custo total unitário por kW quanto o custo total por kWh guardam relação com o tempo de operação à plena capacidade instalada da central e, por conseqüência, com seu fator de capacidade, para um determinado período sob análise. A última fórmula, inclusive, mostra que o gasto de produção 295 de 1 kWh é tanto mais baixo quanto maior for o tempo de utilização da central ou seu fator de capacidade (BUCHHOLD, HAPPOLDT, 1966, p. 46; TARBOUX, 1962, p. 1214). As figuras a seguir dão a visualização da variação dos custos unitários totais em função de Tmax ou Fcap 143 : Figura 22 – Custos totais unitários por kW $/kW 0 10 00 20 00 30 00 40 00 50 00 60 00 70 00 80 00 87 60 Usina B Usina C Usina A tempo de operação - Tmax (h) Fontes: SKROTZKI, Bernhardt G. A. ;VOPAT, William A. Power station engineering and economy. New York: McGraw-Hill book company, 1960. p. 665.; BUCHHOLD, TH.; HAPPOLDT, H. Centrales y redes eléctricas. 2ª ed. Barcelona: Editorial Labor, 1966. p. 46. 143 Em Jannuzzi e Swisher (1997, p. 168) pode-se ver figura representativa de várias diferentes opções de usinas em função do fator de capacidade. 296 Figura 23 – Custos totais unitários por kWh 0 10 00 20 00 30 00 40 00 50 00 60 00 70 00 80 00 87 60 $/kWk Usina A Usina B Usina C Tempo de Operação - Tmax (h) Fontes: SMAIL, G. G. Economics of generation. In: TAYLOR, E. Oppenshaw; BOAL, G. A. (orgs). Power system economics. London: Edward Arnold, 1969. p. 71.; SKROTZKI, Bernhardt G. A. ;VOPAT, William A. Power station engineering and economy. New York: McGraw-Hill book company, 1960. p. 665.; BUCHHOLD, TH.; HAPPOLDT, H. Centrales y redes eléctricas. 2ª ed. Barcelona: Editorial Labor, 1966. p. 46. Os gráficos anteriores demonstram que à medida em que Tmáx aumenta (e por conseqüência o Fcap), ocorrem variações dos custos totais unitários que são diferentes para cada tipo de usina. Esta análise envolvendo o Fcap é destinada a avaliar os custos decorrentes do atendimento de um determinado sistema de potência (Dmax e E), tendo por alternativas diversos tipos de centrais ou aproveitamentos energéticos. Matematicamente, para encontrarse os valores limites de tempo, em que se igualam as centrais do ponto de vista econômico, é necessário simplesmente apurar a intersecção das curvas de custos unitários, fazendo cp, ce de A = cp, ce de B = cp, ce de C (BUCHHOLD, HAPPOLDT, 1966, p. 47). Voltando-se novamente aos gráficos, partindo-se do pressuposto de que já se atendeu tecnicamente a totalidade da carga, pode-se averiguar que das três usinas A, B e C, a usina A é a que tem o menor custo para operação com altos fatores de capacidade (então para operar na base) enquanto que a usina C é aquela indicada para baixos Fcap (indicada para operação na ponta), tendo a usina B como intermediária. 297 Januzzi e Swisher (1997, p. 168) dão exemplos que ilustram o raciocínio acima exposto, atribuindo à usinas com turbinas de combustão baixos custos de capital, mas altos custos operacionais e de combustíveis (ideais para a ponta), enquanto que hidrelétricas 144 e centrais a carvão, têm custos de capital mais altos mas custos de operação variáveis e de combustível mais baixos, são usadas para atender a carga de base. A afirmação anterior, na verdade, só pode ser categórica desde que amparada em simplificações quanto à necessidade em se manter capacidade de reserva e ainda de apuração dos custos de saídas forçadas (outage costs) (SMAIL, 1969, pp. 63-65). Além disso, para a localização dos vários tipos de usinas no diagrama de carga, é de grande importância o tempo necessário para por em marcha a unidade, já que em centrais térmicas de grande porte pode levar até 5 horas, o que inviabiliza sua operação na ponta (SCHREIBER, 1977, p. 39)145 . Avançando um pouco mais em termos de instrumentos analíticos, é possível tentar compor fontes de energia elétrica no sentido de usar as mais baratas em energia para suprir a curva de carga na região de maior consumo (a base) e as mais baratas em potência para suprir a ponta (onde a relação kW/kWh é maior) e isso pode ser bem melhor visualizado a partir do emprego das curvas de duração de carga e das curvas de carga-energia. 3.3 3.3.1 APLICAÇÃO DAS CURVAS DE DURAÇÃO DE CARGA (CDC) Conceito, interpretação gráfica e obtenção da CDC. Genericamente, curvas de duração são expressões gráficas encontradas em estudos de hidrologia- fluviometria, ali denominadas curvas de duração de fluência de água (flow duration curve) ou simplesmente curvas de permanência, de persistência ou de freqüência de vazões, as quais mostram a que ponto um determinado fluxo de um rio ou curso d´água (stream flow) foi igualado ou excedido em algum período (BUCHHOLD, HAPPOLDT, 1966, p. 48; REIS, 2003, p.56; LANNA, 1993, pp. 84-89; SKROTZKI, VOPAT, 1960, p. 495; SOUZA, FUCHS, SANTOS, 1983, pp. 94-96 ). Sob esse mesmo raciocínio também fazem parte de estudos relacionados à duração das forças dos ventos (wind power duration curve) (SKROTZKI, VOPAT, 1960, p. 528). 144 Não esquecer da existência de hidroelétricas projetadas para a ponta, em caso de planejamento, como visto no item anterior. 145 Vide comentário sobre usinas termonucleares e a carvão em 3.1.1 deste Apêndice. 298 As curvas de duração de carga (load duration curves, curvas estadísticas de carga) são obtidas através de um tratame nto estatístico das parcelas de potência (carga) requeridas por um determinado sistema elétrico, evidenciando então a duração temporal das mesmas, não cronológica, dentro de um determinado período (CAMARGO, 1984, p.15; NEO, 2001, p. 5; TURVEY, ANDERSON, 1981, pp. 287-290). Sob outro aspecto, a curva de duração de carga é a representação gráfica da disposição das demandas que compõe uma curva de carga, segundo sua ordem decrescente, desde a demanda máxima até a demanda mínima (SKROTZKI, VOPAT, 1960, p. 589), compondo o que se pode chamar de uma curva de cargas classificadas, nada mais do que uma curva de carga rearranjada. As curvas de carga e de duração têm a mesma expressão analítica P= f (t), porém, a interpretação de t é diferente. Na curva de carga, o tempo t está plotado na ordem cronológica, isto é, os períodos de tempo que correspondem a cada um dos valores de demanda estão indicados no eixo das abcissas na ordem cronológica de ocorrência. Na curva de duração, o tempo não tem relação com a ordem crono lógica, mas sim representa simplesmente o espaço de tempo da ocorrência, ou a duração, de cada nível de demanda. A figura abaixo esclarece a natureza das duas curvas: Figura 24 – Curva de carga x curva de duração de carga CURVA DE CARGA 70 70 60 50 40 30 20 10 0 Demanda 60 50 40 30 20 10 0 0 4 8 12 horas Fonte: Elaboração do próprio autor. 16 20 0 4 8 12 horas 16 20 Demanda CURVA DE DURAÇÃO DE CARGA 299 Pela própria natureza da curva de duração de carga (CDC), conclui-se que existem três pontos comuns entre esta curva e a curva de carga (CC): ??o valor de demanda máxima é o mesmo; ??o valor de demanda mínima é o mesmo; ??os valores das áreas sob ambas as curvas, para qualquer nível de demanda, são idênticos, logo: E (CC) = E (CDC) A interpretação gráfica da CDC permite verificar qual a parcela do período considerado na qual ocorrem valores de demandas (cargas) iguais ou superiores a determinados níveis de demanda da curva de carga (TURVEY, ANDERSON, 1981, p. 287). As figuras abaixo esclarecem melhor esta interpretação: Figura 25 – Interpretação gráfica da curva de duração de carga CURVA DE CARGA T22 60 70 60 T21 50 40 30 D2 20 50 40 30 20 Demanda 70 Demanda CURVA DE DURAÇÃO 10 0 10 0 0 4 8 12 16 20 horas 0 4 8 T1 12 horas 16 20 T2 T1 A figura representativa da curva de duração indica que, durante a parcela T1 do tempo total T, ocorrem demandas cujos valores são superiores ao nível de demanda 30. Da mesma forma, T2 é o intervalo de tempo no qual ocorrem valores de demandas no mínimo iguais ao nível de demanda D2. 300 Pode-se afirmar também que demandas acima do nível 30 duram T1 horas dentro do período considerado e que demandas inferiores a este nível duram mais tempo, por exemplo as de nível D2. Por outro lado, demandas do nível 10 duram todo o período, ou seja, são solicitadas o tempo todo (cargas de base - base load). Sob outra análise, a curva de duração pode também representar o somatório de diferentes períodos, por exemplo, ser derivada de uma curva de carga semanal, mensal, anual ou plurianual. Curvas de carga no período semanal poderiam ter o aspecto da figura abaixo: Figura 26- Diferentes períodos representados pela CDC Fonte: SMAIL, G. G. Economics of generation. In: TAYLOR, E. Oppenshaw; BOAL, G. A. (orgs). Power system economics. London: Edward Arnold, 1969. p. 57. Sob outra representação, curvas de carga no período semanal poderiam ter o aspecto da figura a seguir: 301 Figura 27 – Curvas de carga no período semanal Segunda a Sexta Sábado Domingo 14 14 12 12 12 10 10 10 8 8 8 6 6 6 4 4 4 2 2 2 14 0 0 3 6 9 12 15 18 21 0 0 24 0 3 6 9 12 15 18 21 0 24 3 6 9 12 15 18 21 24 A correspondente curva de duração seria, então, adotando-se a mesma escala para o eixo das abcissas: Figura 28 – CDC semanal demanda 16 2 15 3 14 4 13 5 12 6 11 7 10 8 99 90 81 72 63 54 45 36 27 18 9 0 14 12 10 8 6 4 2 0 horas Fonte: Elaboração do próprio autor. No entanto, se representarmos a curva de duração em uma escala percentual, recairíamos em sua forma comum: 302 Figura 29 – Curva de duração percentual % Dmax 100,0 90,0 80,0 70,0 60,0 50,0 40,0 30,0 20,0 10,0 0,0 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 % T Fonte: Elaboração do próprio autor. Muito embora a própria essência da curva de duração já defina um processo para sua obtenção gráfica, ou seja, a simples ordenação decrescente dos valores das demandas que ocorrem em um determinado período de tempo (SKROTZKI, VOPAT, 1960, p. 589), a aplicação de um método estatístico padroniza a obtenção em escala percentual, além de permitir a escolha do número de pontos com que se deseja representá- la graficamente. Em termos estatísticos, a CDC pode ser descrita como uma distribuição de freqüências relativas acumuladas, cujos dados estão agrupados em intervalos, advindos de uma série temporal ou cronológica, que é a curva de carga (BONINI, 1972, pp. 38-39; LEVINE, 2000, pp. 60-73). Como existe a possibilidade de se lidar com muitas leituras, a idéia básica segue os princípios de obtenção da curva de permanência de vazões (da hidrologia), consistindo em dividir a gama de variações das demandas que compõe a curva de carga em um certo número arbitrário de faixas com amplitude ? (intervalos de classes) (LANNA, 1993, pp. 84-86). A figura a seguir mostra um exemplo hipotético de uma curva de carga diária, com 24 leituras horárias: 303 Figura 30 – Processo estatístico de obtenção da CDC CURVA DE CARGA ?i Fonte: Elaboração do próprio autor. Desse modo, seja N o número de faixas arbitrado, a amplitude de cada faixa será: Equação 39 – Obtenção da CDC - amplitude da faixa da curva de carga ? ? D max ? D min N Deve-se atentar para o fato de que “uma tabela de distribuição de percentagem acumulada é construída primeiramente registrando-se o limite inferior de cada classe a partir da distribuição de percentagem e depois inserindo um limite extra ao final” (LEVINE, 2000, p. 70). Assim, cada uma das faixas terá um limite inferior e um superior, de modo que cada valor de demanda ocorrido no período considerado possa ser encaixado em uma e somente uma faixa. Além disso, deve-se manter a Dmax como o limite inferior de uma faixa adicional, que será a primeira faixa a ser ordenada em forma decrescente. 304 Para caracterizar cada faixa, é necessário estabelecer um critério, e, para tanto, será adotado o seu valor mínimo, o seu limite inferior, ou seja, todas as demandas encontradas entre o valor mínimo da faixa (inclusive) e o valor máximo da faixa (exclusive) serão representadas pelo primeiro, no caso Di. Como cada valor de demanda ocupa um mesmo espaço de tempo, ou seja, tem a mesma duração, quanto maior for o número de demandas contido em uma mesma faixa, maior será o período de duração da faixa. Por exemplo, a faixa ? i indicada na figura anterior contém seis valores de demanda, estes 6 valores indicam que a faixa mencionada tem um período de duração de 6 em 24, ou seja, 25% do tempo ou período total. Por outro lado, se tomarmos em consideração o conjunto das faixas desde a superior até a ? i inclusive, obteremos 13 dos 24 pontos da curva de carga, ou seja, demandas iguais ou superiores ao nível Di têm uma duração de 13 em 24, ou 54,17% do período. O traçado da curva de duração é assim obtido com a representação de todos os níveis de demanda (no eixo y) com suas respectivas durações (no eixo x), que se acumulam partindo da faixa adicional (da Dmáx) até a demanda mínima, que, obviamente, terá uma duração de 100% do período. Deve-se lembrar ainda que, do mesmo modo que para uma curva de carga cronológica, a plotagem pode ser feita tanto por pontos quanto por patamares (stepped curve) (MUNASINGHE, 1979, p. 150; SKROTZKI, VOPAT, 1960, pp. 619-620) 3.3.2 Planejamento utilizando a CDC A curva de carga e a curva de duração são duas diferentes formas de representação das demandas requeridas pelo mercado consumidor em um determinado período de tempo T. Evidentemente, o sistema elétrico que as atende deverá dispor de um conjunto fornecedor (usinas, transmissão, distribuição e/ou concessionária) com capacidade (potência) instalada total suficiente para suportar a demanda máxima e ao mesmo tempo capaz de produzir a energia necessária às solicitações do sistema no período considerado. Este 305 atendimento deve ser conseguido através da forma mais racional de aproveitamento dos recursos disponíveis. Em outras palavras, com o menor custo. Nesta procura é que a curva de duração de carga revela-se como um instrumento importante (MUNASINGHE, 1979, p. 97 146 ; JANUZZI E SWISHER, 1997, pp. 168-173, GROSS, GARAPIC e McNUTT,1988, pp. 368-374147 ; VENNARD, 1970, pp. 265-268). Ainda de acordo com Smail (1969, p. 58), Miller e Malinowski (1994, p. 65), a operação conjunta de um grupo de estações certamente leva à uma grande economia comparada com a mesma carga sendo atendida individualmente por centrais independentes, principalmente pelo fato de que as centrais de menor custo (seja de potência ou energia) possam ser utilizadas ao máximo de sua capacidade, acompanhando as diferentes partes da curva de duração (ponta, intermediária ou base). A curva de duração propicia as condições de verificação da composição técnicoeconômica ótima para o atendimento de um determinado consumidor, pois, conforme Turvey e Anderson (1981, p. 259), os modelos envolvendo as curvas de duração de carga permitem, além da verificação do momento em que ocorrem as demandas, a visualização os tempos de operação de cada central envolvida no atendimento da carga, podendo-se da mesma forma encontrar a energia entregue por cada estação através das área sob a CDC. A figura a seguir mostra um exemplo de composição de centrais produtoras, utilizando-se do modelo curva de carga – curva de duração: 146 Munasinghe (1979, pp. 148-152) também utiliza a CDC em estudos sobre os efeitos das saídas (outages) no sistema. 147 O estudo feito por esses autores já é uma sofisticação do uso da CDC relacionada a aprofundamentos matemáticos e estatísticos, com uma abordagem entre carga e probabilidade. 306 Figura 31 – Composição de centrais produtoras – CC e CDC. Fonte: TURVEY , R.; ANDERSON, D. Electricity economics. Washington: World Bank Publications, 1981, p. 262. A seguir, será exposto um raciocínio baseado em exemplos encontrados em Buchhold e Happoldt (1966, pp. 48-49), Munasinghe (1979, pp. 97-99), Munasinghe e Warford (1982, pp.327-330), Skrotzki e Vopat (1969, pp. 635-637), Stoll (1989, pp. 501-505). O primeiro exemplo será relacionado à programação de usinas em planejamento (capacity scheduling) para atender a um mercado de energia elétrica representado por sua curva de duração conhecida para um horizonte de tempo To à frente. Em seguida, a mesma programação será efetuada considerando a existência de uma usina já construída ou em operação. Como visto anteriormente, a curva de duração demonstra por quanto tempo, dentro de um período To, serão requisitados as demandas de sistema, baseada nas diversas curvas de cargas deste período: 307 Figura 32 – Decomposição da CDC 100% Dmax 100% Dmax CURVA DE CARGA CURVA DE DURAÇÃO ?P P 100% T t 100% T Fonte: MUNASINGHE, M. WARFORD, J. J. Electricity pricing. World Bank: 1982, p. 328. A potência total P, equivalente à demanda máxima do sistema em representação, é aquela que o sistema produtor deverá disponibilizar, podendo ser decomposta em todos os kW unitários (?P) que a compõe , de modo que: Equação 40 – Decomposição da potência total P em parcelas ? P ? ?P ? D max do sistema ? P Verifica-se que cada uma dessas fatias elementares ?P possui uma determinada duração t de solicitação pelo sistema elétrico, conforme nos mostra a visualização das curvas de carga e de duração acima, o que implica em um consumo de energia que, se somado aos provenientes dos outros kW elementares, resultarão na energia total solicitada pelo sistema elétrico em questão durante o período sob análise: Equação 41 – Energia total do sistema Esistema ? ? P1 ? t ? P1 ? ? P2 ? t ? P 2 ? ? ? ? PN ? t ? PN ( kWh) 308 A este kW elementar que é solicitado durante o tempo t pode-se associar os custos já descritos anteriormente, lembrando sempre que estamos fazendo a análise para um determinado período T, usualmente anual: p = custo da potência instalada elementar ?P em $/kW, anual; e = custo da energia produzida em uma hora pela potência ?P, em $/kWh . O custo total de produção (CT) da potência instalada ?P ao longo do período To será (MUNASINGHE, WARFORD, 1982, pp. 327-330): Equação 42 – Custo total de produção da parcela ? P CT (? P) = p * ?P + e * t * ?P ($) onde a parcela p * ?P representa o custo fixo e, a parcela e * t * ?P , o custo variável em relação ao tempo de operação de ?P. Se forem somados os custos de todos os ?Ps possíveis até completar a potência máxima instalada (que também pode ser representada pela capacidade instalada CI) necessária para atender a demanda máxima do sistema e a energia que o mesmo exige no período total To, tem-se o custo total relativo ao atendimento do sistema elétrico em questão: Equação 43 – Custo total do atendimento ao sistema elétrico CT = p * CI + e * E ($) Observa-se que, se o sistema elétrico for atendido apenas por uma usina, as equações são idênticas às empregadas em função dos tempos de operação à capacidade instalada (item 2.2 deste Apêndice). Porém, se for possível a composição de mais de uma usina para se chegar ao custo mínimo, a energia E descrita na equação acima é a energia total requerida pelo sistema elétrico, que se dividirá entre as centrais sob análise. 309 Assim, dispondo-se de dois tipos de usinas, 1 e 2 148 , com custos em função do tempo de operação, fixos e variáveis diferentes, pode-se analisar o problema de forma a se encontrar a melhor composição que atenderá o mercado com o menor custo de produção no período: Tabela 8 – Exemplo de aplicação de CDC, dados das usinas Usina custo fixo custo variável ($/kW) ($/kWh) 1 p1 e1 2 p2 e2 Obs.: p1 > p2 e1 < e2 Nota-se, pela observação efetuada, que o custo do kW da usina 1 é maior do que o da usina 2, ou seja o custo de instalação de 1 kW é mais caro se efetuado para a usina 1. Por outro lado, o custo do kWh relativo à produção de energia realizada pela usina 1 é menor no que aquele efetuado pela usina 2. O gráfico superior da figura a seguir mostra as retas referentes aos custos unitários totais por kW, para cada tipo de usina, ou seja, o custo de instalação de um kW (p) e o custo de produção dos kWh (e) que o mesmo consumirá, em função de seu tempo de solicitação: 148 A análise pode, obviamente, ser efetuada para mais de dois tipos de usinas, porém a um esforço de processamento inerente à utilização de técnicas computacionais mais complexas e poderosas. Concordam com essa afirmação Miller e Malinowski (1993, p. 75): “ The proper integration of hydro and thermal generation for minimum overall costs is quite complex […]. Even with a computer, the number of calculations can be so great that considerable computer time is required to obtain a correct solution to the problem.” 310 Figura 33 – Análise gráfica de planejamento com CDC $/kW CT2 CT 1 I12 p1 ?1 CT ? p ? e? t ?P e ? tg ? p2 ? ? CT ? P ? t ?2 t CT1 > CT2 P2 CT2 > CT1 E2 P 12 P1 E1 t12 T Fonte: MUNASINGHE, Mohan. Engineering-economic analysis of electric power systems. Proceedings of the IEEE. v. 72, n.4, p. 434. apr. 1984; MUNASINGHE, M. WARFORD, J. J. Electricity pricing. Washington: World Bank, 1982, p. 39; STOLL, H. G. Least cost utility planning. New York: John Wiley, 1989, p. 503. 311 Lembrando da notação de que 1 kW = ?P, pode-se obter as equações dos custos totais unitários por kW, para cada tipo de usina: Equação 44 – Análise gráfica com CDC – custos totais unitários por kW CT1 ?P ? p1 ? ? p2 e1 ? t e CT 2 ?P ? e2 ? t As equações acima referem-se à retas cujos coeficientes lineares são p1 e p2 e os coeficientes angulares são e1 e e2, estes equivalentes à tangente do ângulo que a reta forma com o eixo x (tg ?). Analisando-se o coeficiente angular e, constata-se que e2 > e1 , o que implica dizer que tg ? 2 > tg ? 1 ou ? 2 > ? 1 , comprovando que a inclinação de CT1 é menor do que CT2. Quanto ao coeficiente linear p, observa-se que p1 > p2 , o que informa que o ponto de intersecção com o eixo y da reta CT1 é superior ao da reta CT2. Importante verificar que até o ponto de intersecção I12 , o custo unitário por kW atendido por usinas do tipo 2 é menor do que se atendido por usinas do tipo 1. Dito de outro modo, usinas do tipo 2 são mais econômicas no atendimento aos kW elementares (?P) para períodos de tempo menores do que t12 . A parte inferior da figura 12, a curva de duração, mostra a duração ou o período de tempo de solicitação de cada ?P (kW unitário ou elementar) que compõe a demanda máxima de um sistema elétrico. Note-se que a escala de tempo (eixo x) é a mesma do gráfico dos custos unitários por kW. Como já visto anteriormente, cada ?P terá um custo total, que vai variar de acordo com a usina que lhe atende, compondo-se do custo capacidade instalada a ser disponibilizada (1 kW) e, do custo da energia que o mesmo consumirá (?P * t ? P ). 312 A se depreender da conclusão do gráfico superior (custos unitários), de que até t12 os custos unitários por kW de usinas do tipo 2 são menores, e considerando a mesma escala de tempo da curva de duração, deduz-se que todos os ?P (kW unitários) que “durarem” até t12 horas serão mais economicamente atendidos por usinas do tipo 2. Dedução semelhante pode ser feita para períodos de tempo superiores a t1 2 , onde serão mais econômicas usinas do tipo 1. O limite de tempo t12 estabelece, na curva de duração, o patamar P12 que é um nível determinante da repartição da demanda máxima do sistema P em seus kW a serem atendidos pela usina 1 (P1 ) e os restantes pela usina 2 (P2 ), sendo que P1 + P2 = P. P2 compreende todos os kW com duração inferior a t12 e, de modo complementar, P1 é o somatório de todos os kW cujos tempos de solicitação pelo sistema são maiores que t12: P2 ? P1 ? ? ? P (0 ? t ) 12 ? ? P ( t ? To ) 12 ? capacidade instalada ? capacidade instalada de de P2 P1 O nível P12 também divide a área da curva de duração, implicando em uma repartição da energia total do sistema, definida pela área sob a curva de duração ou o somatório de todos os produtos ?P * t encontrados. Assim, na falta de qualquer limitação técnica, é mais econômico utilizar unidades tipo 1 para cobrir a parte inferior do nível P12 da Curva de Duração da figura 12 e unidades tipo 2 para cobrir a parte superior. A potência total instalada do tipo 1 a ser utilizada seria P1 e a energia sob sua responsabilidade no período T seria E1, correspondente à área da curva de duração abaixo do nível Y P12 . Por outro lado, a potência ins talada total do tipo 2 e a energia sob sua responsabilidade seria E2, correspondente à área sob a curva de duração acima do nível P12 . P1 + P2 = P cobre toda a demanda máxima do sistema, enquanto que E1 + E2 = E corresponde à energia total requerida pelo sistema no período T. O custo total do atendimento ao sistema ao final do período T, resultado da operação das unidades 1 e 2, seria: Equação 45 – Custo total de atendimento do sistema elétrico – exemplo CDC 313 CT( P1 + P2 )= p1. P1 + e1 . E1 + p2 . P2 + e2 . E2 (em $) O custo unitário de produção de energia elétrica no mesmo período To, seria: Equação 46 – Custo total unitário de produção de energia – exemplo CDC c ( P1 ? P 2) ? CT E ( em $ / kWh) O ponto de intersecção I12 do gráfico superior da figura 12 pode se alterar em função dos parâmetros de custos, como por exemplo um aumento do custo fixo p1 ou diminuição do custo variável e2. Neste caso, deverá haver um aumento de participação da usina tipo 2 e uma diminuição na do tipo 1 para que o custo mínimo de produção no período T seja alcançado. Análises semelhantes podem ser feitas para outras posições do ponto de intersecção que vão refletir diferentes tipos de usinas e seus correspondentes custos de instalação e operação. A influência de usinas existentes É muito comum, no planejamento, estar-se com o sistema elétrico já sendo atendido por um determinado tipo de fornecimento. Neste caso, se o sistema considerado no exemplo anterior já dispuser de uma usina, com capacidade instalada Pe, custo fixo pe e custo variável ee, então ela tem que ser levada em consideração na análise, partindo de um pressuposto bastante claro, descrito a seguir. Em se tratando de planejamento do atendimento a um sistema elétrico, pode-se adquirir, na proporção técnico-econômica ideal, quaisquer níveis de capacidade instalada de quaisquer formas de geração disponíveis. Para a usina existente essa prerrogativa se anula pelo simples fato de que já ocorreu a implantação desta unidade geradora, com uma capacidade instalada e custos decorrentes conhecidos. Segundo Januzzi e Swisher (1997, p. 192), para usinas já construídas, o valor de custo fixo marginal é praticamente zero, pois em tal caso os custos de capital estão 314 amortizados (ou em vias de amortização), logo seus custos operacionais fixos devem ser pagos sem considerar o quanto a usina está produzindo. Independentemente do arranjo das usinas, sempre haverá o custo (fixo) referente à totalidade da CI da usina existente. Assim, algumas são as opções que o planejador dispõe, com relação à usina existente. Pode ser planejado seu desligamento quando do início de operação das novas centrais, arcando com sua manutenção e demais custos fixos ou simplesmente o abandono. Por conseguinte, volta-se à situação do exemplo anterior, porém somando-se ao custo total de atendimento os gastos fixos da usina existente. De modo diverso, incorporar a usina existente ao planejamento com os demais tipos de usinas em estudo implica em, como o custo fixo da usina existente já foi ou está sendo incorrido, não existir a possibilidade de tomar a decisão de não fazê- lo, de onde se conclui que a capacidade da usina existente, a priori, deveria ser totalmente utilizada, pois para cada kW atendido por outra usina, existindo disponibilidade de Ue, significa pagar o custo do kW de Ue somado ao kW da outra (MUNASINGHE, WARFORD, 1982, pp. 327-330). No entanto, dependendo de seu custo variável, a usina existente poderá ser alocada de forma a produzir energia dentro do contexto de otimização econômica da composição das usinas. O gráfico superior da figura a seguir representa, além, dos custos referentes às usinas tipo 1 e 2, o custo variável ee da usina existente Ue, através da linha tracejada que passa sobre o ponto O. 315 Figura 34 - Análise gráfica de planejamento com CDC – usinas existentes $/kW Ce CT2 CT 1 t P2 E2 Pe P2e Ee Pe1 P1 E1 t2e te1 T Fonte: MUNASINGHE, Mohan. Engineering-economic analysis of electric power systems. Proceedings of the IEEE. v. 72, n.4, p. 434. apr. 1984; MUNASINGHE, M. WARFORD, J. J. Electricity pricing. Washington: World Bank, 1982, p. 39. 316 A inclinação desta linha traduz o custo variável ee. Se esta reta for deslocada paralelamente a si mesma, os pontos de intersecção com as retas das usinas 1 e 2 afastar-se-ão ou aproximar-se-ão entre si. Pode-se comprovar analiticamente que, quando Pe, no gráfico inferior da figura anterior (a CDC) alcançar o valor da capacidade instalada da usina existente, e a reta do custo total de Ue estiver abaixo das outras usinas, a solução de menor custo terá sido encontrada. Isto porque não haverá capacidades instaladas de P1 ou P2 pagas sem necessidade e ainda o custo da energia assumida por Ue, dentro do período encontrado pela curva de duração, será o menor. Neste caso a usina existente tomará parte das potências P1 e P2 que seriam adquiridas anteriormente, na proporção indicada no gráfico da CDC, assim: P2 ? ? ? P (0 ? t ) 2e Pe ? ? ? P (t ? t ) 2e e1 P1 ? ? ? P ( t ? To ) e1 ? capacidade instalada ? ? capacidade instalada capacidade instalada de de de P2 Pe P1 Deve-se lembrar que, mesmo Pe sendo menor que CIe (no caso em que não se encontre posicionamento econômico para usar toda CIe), o custo fixo a ser apropriado para a usina existente será relativo à sua capacidade instalada. Mas, além disso, dentro do intervalo de tempo te encontrado na curva de duração, Pe deve estar associada ao menor custo de energia, enquanto seu custo total (variável) da figura superior for menor (energia mais barata), de forma que a composição de seus custos de potência e energia sejam economicamente atraentes na composição do custo total de atendimento ao sistema elétrico. Esta dificuldade analítica em termos de considerar usinas existentes no planejamento pode ser melhor tratada utilizando-se de um outro instrumento de enfoque, a curva de cargaenergia. 317 3.4 APLICAÇÃO DAS CURVAS DE CARGA-ENERGIA (CCE) 3.4.1 Conceito, interpretação gráfica e obtenção da CCE Segundo Skrotzki e Vopat (1960, p. 591) existe a necessidade, principalmente em sistemas elétricos atendidos por geração hidráulica, de se saber a quantidade de energia relacionada a determinados níveis de demanda da curva de carga. Para tanto, a obtenção de um diagrama em que se pudesse visualizar tais parâmetros revestiu-se de grande importância. Nesse sentido, Turvey e Anderson (1981, pp. 257-296), ao escreverem sobre modelos de simulação no planejamento de investimentos no setor elétrico, referem-se à curva carga-energia como originária de uma integração direta (integrated load function) da curva de carga ou da curva de duração, em um modelo desenvolvido por H. P. Jacoby para analisar a otimização técnico-econômica de sistemas híbridos termo-elétricos. A utilidade da cur va CE verifica-se tanto em estudos operacionais como de planejamento 149 . Nos operacionais, considera os custos das usinas à disposição para cobrir os requisitos do mercado. Nos de planejamento, considera não só os custos operacionais, mas também os de investimentos para as futuras usinas, juntamente com os operacionais das já construídas, para então decidir quais as que serão agora construídas a fim de obter-se o menor custo unitário marginal. Esta visualização torna-se bem mais fácil ao se construir a curva de carga-energia (load-energy curve), a partir das curvas de carga e de duração. A curva CE relaciona a energia E consumida em relação a cada nível de carga C (ou demanda) de um determinado sistema elétrico, conforme pode-se observar pela figura a seguir: 149 Munasinghe (1979, pp. 148-152) também utiliza a CCE em estudos sobre os efeitos das saídas (outages) no sistema 318 Figura 35 – Correspondência entre as curvas de carga, de duração e de carga-energia. Fonte: SKROTZKI, Bernhardt G. A; VOPAT, William A. Power station engineering and economy. New York: McGraw-Hill book company, 1960, p. 590. Na figura anterior pode-se observar que, nas curvas CC e CDC, para cada nível de demanda existe um valor para a energia, medida pela área abaixo desse nível (integral). Na CCE, no entanto, essa visualização é observada no eixo x. Outra informação gráfica importante é a que permite verificar qual o fator de carga do sistema. Tal constatação vem do fato de que, sendo a demanda mínima constante para todo o período, o fator de carga deste nível de demanda é obrigatoriamente igual a um. Desta forma, ao se prolongar uma reta tangente ao ponto relativo à demanda mínima, mantém-se a tendência dessa relação Dmin = Dmax e a intersecção desta reta prolongada até o eixo y reflete o fator de carga de todo o sistema elétrico (TARBOUX, 1962, p. 1201), conforme pode-se ver pela figura e a posterior dedução trigonométrica a seguir: 319 Figura 36 – Fator de carga do sistema % Dmax K L H J FC G Dmin B O A C I %E Equação 47 – Dedução trigonométrica do fator de carga do sistema – CCE Seja o nível de c arg a L qualquer , o ponto na curva CE, H e sua respectiva energia C. Dmed OC ? ke I ? ? onde ke, kd convertem % em kWh e kW D max To CH ? kd AB GC OA ? CG tg? ? ? ? OC ? (1) OA OC AB OA ? ke ke AB ? AB ? kd ? ? (2) To kd ? To OA CG (1) e ( 2) em Fc CH ? Fc CH ? que é o Fc para o nível de c arg a L. CH Deslocando ? se CH para a direita , G tende ao ponto FC e H ao ponto K , neste caso : Fc CH ? Fc SISTEMA ? I ? FC IK ESEik ? 100% ? FcSISTEMA ? FC ( lido diretament e no eixo ) Assim, comprova-se a referência de Skrotzki e Vopat (1960, p. 591) ao afirmarem que o fator de carga de todo o sistema equivale ao valor da carga ou demanda que representaria o consumo total de energia caso a curva fosse plana. Sob outra verificação gráfica, é possível se detectar qual o fator de carga de qualquer nível de demanda analisado, o que é relevante no sentido de se encontrar o fator de carga atendido por uma determinada usina que compõe aquela curva CE. Nesse sentido, a figura a seguir e a dedução dessa fórmula: 320 Figura 37 – Fator de carga atendido por uma usina – CCE % Dmax M H USINA ?P B O C ?E I %E Equação 48 – Dedução trigonométrica do fator de carga de uma usina – CCE Dmed ? E ? ke 1 CI ke 1 ? ? ? ? ? (1) ? P e ? P em % D max To ? P ? kd IH kd To OI ? ke 1 Fc SIST ? ? (2) To IM ? kd IM CI Combinando ? se (1) e ( 2) : Fc US ? Fc SIST ? ? OI IH e se IM e OI ? 100%, então : ?E Fc US ? Fc SIST ? ?P Fc US ? Conforme visto anteriormente, uma usina operando sob o nível da Dmin implicaria no atendimento de um fator de carga igual a 1. Mas outra usina (a da figura, por exemplo) atenderia a um fator de carga que seria proporcional à Dmáx que esta usina disponibilizaria (em % da Dmáx, do sistema) e à energia que a usina produziria no período T (em % da energia requerida pelo sistema). Quanto mais em direção à ponta do sistema elétrico, menor o Fc atendido, por maior ser a parcela de potência em relação à parcela de energia. Uma conclusão que se obtém é a de que as usinas com custos de produção mais altos devem ser levadas a operar para o lado direito e superior da curva C-E (a ponta) pois aí terão maior aproveitamento da capacidade instalada associada à uma menor geração de energia (o raciocínio inverso seria destinado às usinas com baixos custos variáveis (a base)). De acordo com Turvey e Anderson (1981, pp. 260-265), a abordagem que se utiliza das curvas C-E realiza sua construção através da integração da curva de duração de carga e sua plotagem em relação à demanda de potência total. Em Tarboux (1962, p. 1201) existe 321 outra referência à CCE como sendo uma “curva de carga modificada” a qual é obtida a partir do conhecimento de três fatores: a produção de energia; a demanda máxima e a demanda mínima, considerando-se o ramo da curva CE, a partir do ponto da Dmin, como uma parábola. Assim, para obter a curva CE, após dividir-se a CDC em um número arbitrário de faixas, cada qual representativa de um certo nível de demanda, procede-se ao cálculo da área de cada faixa, lembrando que até o nível da demanda mínima, trata-se da área de um retângulo. Parte-se, na curva de duração de carga, do nível de demanda D = 0, subindo gradativamente, através de sucessivas integrações das áreas referentes à cada faixa de nível de demanda, passo a passo, até o nível máximo, ou seja, Dmáx, quando então a energia E será total, ou 100% (SKROTZKI, VOPAT, 1960, pp. 591-592, 636). Para os níveis de demanda acima da Dmin, a dificuldade em se lidar com uma CDC contínua vai se consis tir em calcular as áreas nos trechos de demandas variáveis (mais precisamente pela equação a ser integrada), fato esse que se resolveria utilizando-se uma CDC traçada por patamares. Para cada área de faixa encontrada, portanto, pode-se então acumular o resultado sendo que ao final teremos um valor que corresponderá à energia total (em %). Calcula-se então a percentagem que cada valor acumulado das faixas representa em relação ao somatório total, obtendo-se então os pontos Carga x Energia, a exemplo da figura 32 e 33.150 3.4.2 Planejamento e operação utilizando a CCE A leitura da curva CE permite facilmente verificar a disposição de usinas em relação à ponta e à base de um sistema elétrico, identificando suas respectivas parcelas de potência e energia (TURVEY, ANDERSON, 1981, p. 264). 150 Em Munasinghe (1979, pp. 149-151) aparece um exemplo de obtenção da CCE a partir da CDC, porém com uma representação gráfica um pouco diferente. 322 Figura 38 – Composição de usinas com a CCE Fonte: TURVEY, R.; ANDERSON, D. Electricity economics. Washington: World Bank Publications, 1981, p. 264 A operacionalidade do modelo de Jacobi é a de se utilizar de sistemas computacionais para fazer a alocação de diversos tipos de usinas ao atendimento de um sistema elétrico, conjugando o atendimento à demanda máxima e à energia totais dentro de uma estrutura algorítmica direcionada para o menor custo. Ou seja, cada usina disponível possui uma determinada capacidade instalada e seu fator de capacidade (potencial ou existente), cujo conjunto deverá atender à totalidade do sistema elétrico, representado por sua demanda máxima e seu fator de carga. Além disso, cada usina terá custos de potência e energia específicos, os quais contribuem para o custo total de fornecimento à medida em que a usina é colocada para operar mais à esquerda (ponta) ou mais à direita (base) da CCE, não esquecendo das limitações de ordem técnica. Por isso que, como pode-se constatar pela figura anterior, usinas a gás (de custo do kWh mais alto) são colocadas para a tender à energia na ponta do sistema (lado direito da CCE), pois ali a relação entre a demanda do sistema e a energia consumida é bem maior 323 (medir os trechos dos eixos x e y). Ou seja, nesta região, mais kW são atendidos em relação aos kWh consumidos. Ao contrário, uma usina nuclear com características de usina de base, assume a parcela do eixo x (de energia) mais à esquerda, no qua l a relação é mais uniforme. Raciocínio semelhante pode ser empregado para a alocação de usinas hidroelétricas a fio d´água em tempos de alta fluviosidade (base), centrais de acumulação (intermediárias) e centrais de energia térmica a combustível (ponta). Isto é importante para o “start” de um algoritmo de iterações de cálculo, pois que o objetivo de convergência (do custo mínimo) só será alcançado se dispusermos de uma alocação inicial que em tese, coloque as mais caras em energia na ponta e as mais baratas na base (ou ainda fazendo com a potência), calculando-se os custos de cada disposição específica. A figura a seguir pretende demonstrar um algoritmo simplificado que permita a composição (sem o auxílio de métodos computacionais) de duas ou três fontes de fornecimento. 324 Figura 39 – Algoritmo para a obtenção da composição técnico-econômica ideal DECISÃO DE DISPOSIÇÃO NA CURVA C-E ALTERNATIVA 1 USINA Por ordem crescente ENERGIA DEMANDA do menor custo de energia A 1.1. Esgotar a energia 1.2. Após a alocação na curva PmedA CIA disponível (Pmed) da usina C-E, encontrar a demanda mais barata. requerida pelo sistema 1.3 Ajustar a capacidade instalada disponível da usina, ou seja, se para a energia alocada para usina, a mesma possui CI disponível. Se não houver, retorna para 1.1, senão passar para 1.4 B 1.4 Suprir a energia restante Repete–se os procedimentos a Pmed B CIB pela próxima usina mais barata partir de 1.2. Somatório 100 % da Energia do sistema 100% da Demanda do sistema USOU-SE TODA A ENERGIA E CAPACIDADE INSTALADA DISPONÍVEIS DAS USINAS MAIS BARATAS ? (pois é possível haver um posicionamento em que toda a CI também seja usada) OUTRO ARRANJO NA CURVA C-E ALTERNATIVA 2 Fonte: Elaboração do próprio autor. NÃO SIM MENOR CUSTO 325 A facilidade da utilização da curva CE na composição de usinas existentes e em planejamento, em relação à curva de duração de carga implica em uma etapa posterior de verificação que diz respeito à capacidade instalada de cada usina a ser adquirida. Uma especial atenção deve ser dada, após a composição na curva CE, para se definir qual o montante de kW a ser comprado, construído ou pago, pois que existem diferenças, nesta questão, para usinas existentes, em planejamento ou ainda em se referindo à uma concessionária. Se a usina alocada no diagrama CE for existente, não importa qual a carga que a mesma atenderá, pois seu custo sempre será função da capacidade instalada existente (paga-se de qualquer forma). Por outro lado, se o atendimento à demanda foi realizado através de uma concessionária, será paga a demanda contratada ou a demanda atingida, de acordo com o verificado nos itens 3.4 e 4.3 do APÊNDICE C. Caso diverso, para usinas em planejamento, têm-se disponíveis, em princípio, faixas de capacidade instalada e de energia disponíveis em função das características de projeto que lhes serão atribuídas. Em suma, de acordo com o algoritmo desenvolvido a seguir, a CI a ser adquirida ou paga pode ser diferente do ? P encontrado através da composição de usinas na CCE: 326 Figura 40 – Algoritmo de verificação da capacidade instalada a ser paga/adquirida Usinas existentes: Paga-se pela CI, independentemente da potência alocada à CCE Concessionária: Paga-se pela demanda medida ou contratada Usinas em planejamento USINA N, com FcapN e CIN, implicando em uma PmedN = FcapN * CIN COMPOSIÇÃO NA CURVA CARGA-ENERGIA USINA ENERGIA DEMANDA N Dmed P Qual a CI a ser adquirida ? 1. Se Dmed = PmedN então Adquire-se CIN, pois que é necessário atender à Dmed 2. Se Dmed < PmedN 2.1 Se P = CI então Adquire-se CIN, pois é necessário o atendimento a P. CIN * FcapN = PmedN > Dmed 2.2 Se P < CIN Se P * FcapN = Dmed Senão Então adquire-se CIN = P Adquire-se Dmed , que é a potência FcapN necessária para gerar Dmed Fonte: Elaboração do próprio autor. Por fim, o custo total de produção no período considerado será obtido em função de cada parcela de energia e potência atendidas pelas usinas, assim: 327 Equação 49 - Custo total de atendimento (CCE) CT = [(E) * (?EA . e A + ? EB . eB + ... + ? EN . e N )] + [(P) * (? P A . pA + ? P B . pB + ... + ? PN . pN )] Onde: CT = custo total do fornecimento ($) E = energia total do sistema elétrico a ser atendido (kWh ou kW médios) P = potência ou carga ou demanda total do sistema elétrico a ser atendido (kW) ? E = parcela da energia total atendida pela usina (%) e = custo unitário de energia da usina no período ($/kWh) ?P = parcela da carga total atendida pela usina (%) p = custo unitário de potência da usina no período ($/kW) 328 APÊNDICE E – QUESTIONÁRIO DE PESQUISA Prezado Senhor, A Universidade Regional – FURB e as Centrais Elétricas de Santa Catarina – CELESC estão realizando uma pesquisa que visa conhecer o comportamento do consumidor de energia elétrica relativo a determinados assuntos. Para isso solicitamos sua colaboração no sentido de responder ao questionário abaixo, registrando que suas respostas serão CONFIDENCIAIS e utilizadas única e exclusivamente para fins estatísticos. INSTRUÇÕES a) b) c) d) Não há necessidade de identificação pessoal ou da empresa. Assinale apenas uma das alternativas, com exceção da questão 10. A resposta às questões é livre, não sendo obrigatório responder todas as questões. O questionário respondido será recolhido diretamente na empresa por um dos pesquisadores, indicados abaixo, ou poderá ser devolvido na Agência Regional da CELESC, em Blumenau, aos cuidados do Eng. Fernando Garcia Ribeiro. e) Qualquer dúvida entrar em contato com: Eng. Fernando Garcia Ribeiro CELESC – Blumenau Fone: (47) 331-3000 e-mail: [email protected] Prof. Sandro Geraldo Bagatoli FURB – Depto. Engenharia Elétrica Fone: (47) 9953-7648 e-mail: [email protected] QUESTÕES 1) A empresa já procurou informações de como reduzir seus custos com energia elétrica? sim não desconheço o assunto 2) A empresa conhece as regras/legislação pelas quais lhe é cobrada a energia elétrica? sim não desconheço o assunto 3) A empresa conhece sua curva de carga? sim não desconheço o assunto 4) A empresa realiza algum controle sobre o seu fator de carga? sim não desconheço o assunto 5) A empresa emprega ou possui algum sistema ou método de gerenciamento de carga ou de controle sobre seu consumo de energia elétrica? sim 329 não desconheço o assunto 6) A empresa já teve conhecimento das regras/legislação do setor elétrico que falam do consumidor livre, do autoprodutor e do produtor independente? sim não desconheço o assunto 7) A empresa já estudou a possibilidade de tornar-se consumidor livre? sim não desconheço o assunto 8) Quanto à possibilidade de geração própria, a empresa: desconhece o assunto está estudando a possibilidade já implantou 9) Caso a geração própria já esteja implantada ou em estudo: ela é/será utilizada em todos os horários ela é/será utilizada apenas no horário de ponta 10) Caso a geração própria já esteja implantada ou em estudo, o combustível utilizado para gerar energia em sua empresa é/será: gás natural biomassa - lenha óleo combustível ou diesel hidroeletricidade resíduos do próprio processo produtivo da empresa 11) A empresa estuda a possibilidade ou já utiliza processos de co-geração para energia elétrica ? sim não desconheço o assunto 12) A empresa já estudou a possibilidade de efetuar algum empreendimento na área de ENERGIA ELÉTRICA na qualidade de produtor independente? sim não desconheço o assunto 13) A empresa adota alguma forma de análise para compor diversas fontes de energia para o atendimento de suas instalações (outras concessionárias, autoprodução, produção independente, outras formas)? sim não desconheço o assunto