Serviços Hoteleiros, Turismo de Negócios, Eventos e Organização Espacial Serviços Hoteleiros, Turismo de Negócios, Eventos e Organização Espacial Lélio Galdino Rosa Auro Aparecido Mendes Conselho Editorial Av. Carlos Salles Block, 658 Ed. Altos do Anhangabaú, 2º Andar, Sala 21 Anhangabaú - Jundiaí-SP - 13208-100 11 4521-6315 | 2449-0740 [email protected] Profa. Dra. Andrea Domingues Prof. Dr. Antonio Cesar Galhardi Profa. Dra. Benedita Cássia Sant’anna Prof. Dr. Carlos Bauer Profa. Dra. Cristianne Famer Rocha Prof. Dr. Fábio Régio Bento Prof. Dr. José Ricardo Caetano Costa Prof. Dr. Luiz Fernando Gomes Profa. Dra. Milena Fernandes Oliveira Prof. Dr. Ricardo André Ferreira Martins Prof. Dr. Romualdo Dias Profa. Dra. Thelma Lessa Prof. Dr. Victor Hugo Veppo Burgardt ©2014 Lélio Galdino Rosa e Auro Aparecido Mendes Direitos desta edição adquiridos pela Paco Editorial. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação, etc., sem a permissão da editora e/ou autor. R7101 Rosa, Lélio Galdino, Auro Aparecido Mendes Serviços Hoteleiros, Turismo de Negócios, Eventos e Organização Espacial/ Lélio Galdino Rosa; Auro Aparecido Mendes. Jundiaí, Paco Editorial: 2014. 172 p. Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-8148-423-5 1. Hotelaria 2. Turismo 3. Eventos 4. Economia I. Rosa, Lélio Galdino, II. Mendes, Auro Aparecido. CDD: 910 Índices para catálogo sistemático: Geografia Economia 900 330 IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL Foi feito Depósito Legal Agradecimentos Ao Grande Arquiteto do Universo, Deus. Às nossas famílias, que souberam entender nossa ausência nos períodos de “mergulhos” e “imersões” para conclusão deste estudo. Nosso muito obrigado a todos que, direta ou indiretamente, nos auxiliaram. Esperamos ter a mesma nobreza e competência de retribuir a todos a ajuda a nós dedicada. Que consigamos, de forma justa e perfeita, contribuir para a formação de alguém e também ensinar a “lapidar pedras” que porventura surjam em vossos caminhos. 5 Sumário Prefácio..............................................................................9 Introdução.......................................................................................13 CAPÍTULO I Globalização e a Organização do Espaço.................................21 CAPÍTULO II Campinas: de núcleo urbano a metrópole..................................39 CAPÍTULO III Cidade e Turismo no Contexto das Transformações Contemporâneas.......................................................................75 CAPÍTULO IV Os Serviços Hoteleiros e o turismo de negócios em face à nova dinâmica socioespacial de Campinas...........................113 Considerações Finais....................................................................145 Referências......................................................................................151 Prefácio É comum hoje em dia lermos em jornais e revistas, impressos ou on line, que o turismo é uma importante atividade econômica e social, que gera renda, que transforma o entorno e os destinos e que modifica o meio no qual está inserido e ocorre. Em publicidades de agências de viagens e operadoras de turismo também identificamos propaganda variada que nos faz desejar conhecer a “ensolarada Itália”, a “romântica França”, a “multicultural Nova York” e a “mística Índia”. São os novos tempos do dolce far niente, do slow travel ou do turismo de experiência, tal como denominam alguns pesquisadores. Certo é que muitas vezes o turista – e nós nos incluímos neste grupo – compra tal pacote, tal imagem e nem ao menos reflete sobre o pano de fundo necessário para que tal ação – o sair em viagem – seja possível. Ou, como também é comum, viajamos por necessidade econômica, tal como participar de exposição, reunião de trabalho ou evento de treinamento profissional. Neste último item está o turismo de negócios. Assim, existem dois elementos que nem sempre estão manifestados no senso comum e na folheteria e propaganda turística, quais sejam: 1) a análise de como o espaço da cidade foi modificado por uma necessidade turística e como uma necessidade turística foi criada pela modificação do espaço da cidade e; 2) as viagens não são motivadas apenas por lazer, mas também por questões de trabalho. Esses dois itens são abordados neste livro. O primeiro item de forma mais direta; o segundo de forma implícita, não diretamente. Rosa e Mendes apresentam em Serviços hoteleiros, turismo de negócios, eventos e organização espacial a essência da tese de doutoramento em Geografia, orientada pelo segundo, defendida com sucesso pelo primeiro, na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP, em 2009. O texto foi escrito a partir de trabalho de campo e com dados atuais, revisão de literatura, coleta de imagens, e é rico em quadros explicativos e figuras. 9 Lélio Galdino Rosa e Auro Aparecido Mendes O objetivo do livro, nas palavras dos autores, é analisar “as implicações do turismo de negócios no município de Campinas, a partir de sua configuração como sede de uma região metropolitana, por meio de um estudo de seu setor hoteleiro.” Os objetivos secundários foram compreender os processos ocorridos e analisar as características do setor hoteleiro local. O turismo se relaciona com os diversos setores econômicos. Indústrias atraem pessoas; pessoas pedem serviços. Entre tais serviços estão os relacionados ao turismo: mobilidade, alimentação, entretenimento, hospedagem. Assim, numa via dupla os autores trabalham - especialmente com o tema da hospedagem -; pois ao mesmo tempo em que analisam as transformações da cidade de Campinas que proporcionaram a implantação de um parque hoteleiro voltado para o turismo de negócios e eventos, eles analisam como o turismo de negócios e eventos influenciou a criação de um parque hoteleiro e como este último modificou e se implantou na cidade. Baseado na análise do espaço proposta por Milton Santos, qual seja, forma, função, estrutura e processo, os autores demonstram e analisam as mudanças do espaço e as novas funções que as estruturas adquirem, criando uma nova configuração espacial. Mas não só Milton Santos participa do diálogo como base teórica. Dele fazem parte Giddens, Castells, Le Corbusier e Lacoste, entre outros, que analisam os usos dos espaços, a sociedade em rede, com seus desafios, problemas, expectativas e idiossincrasias. Assim o turismo não foi um tema analisado de forma isolada, mas sim com um fenômeno relacionado com as diversas atividades humanas. Articulando temas da geografia, urbanismo, arquitetura, cidade, história e turismo, os autores apresentam o turismo sem ufanismo, mas sim com reflexão que põe o leitor a pensar sua prática e as práticas que o cercam. Deste modo, o livro deixa emergir ao leitor mais atento como a concentração do capital limita a disseminação de boas práticas turísticas e a prática do turismo a um número maior de pessoas. De outro lado, emerge o tema que essa mesma concentração de capital permite a implantação da infraes10 Serviços Hoteleiros, Turismo de Negócios, Eventos e Organização Espacial trutura que viabiliza tais práticas turísticas. De fato, um paradoxo que já foi abordado por muitos economistas do turismo. Em um dos capítulos os autores relatam e analisam aspectos históricos da cidade de campinas, com destaque para os aspectos econômicos e de como a cidade se tornou uma metrópole no interior do estado de São Paulo. Daí surge a análise crítica da cidade como destino de turismo de negócios e de eventos, o que leva a mudanças urbanas e no setor hoteleiro. Uma das constatações que colabora com a afirmação acima é feita pelos autores na seguinte passagem: “Camadas da população de classe média, geralmente residentes de grandes e médias cidades, passaram a consumir produtos turísticos que, anteriormente a esse período, era um privilégio de camadas mais abastadas, financeiramente, da sociedade brasileira. Outros fatores que colaboraram para o aumento do consumo deste tipo de produtos, os produtos turísticos, em especial a hotelaria de categoria econômica, foram a estabilidade de taxas de inflação e a expansão dos negócios para o interior do país, como está destacado nesta investigação, na cidade de Campinas.”. Desta forma, os autores desnudam o surgimento de uma nova dinâmica socioespacial em Campinas, a partir da implantação de novos hotéis, forçada pela transformação da cidade como destinos de negócios e eventos. Assim, o turismo se torna agente reorganizador do espaço da cidade, nas palavras deles. Na hotelaria, em especial, uma reorganização com novas construções horizontalizadas, vista como um fator diferencial. Todos os hotéis investigados, num total de 21, oferecem espaços para eventos e ou reuniões diversas. Além do mais, destacam a forma como os hotéis na atualidade estão trabalhando para atrair cada vez mais os clientes e garantir a qualidade dos serviços, sempre em busca da maximização dos resultados positivos. Deste modo, novos serviços e categorias de serviços surgem, ou resurgem, tais como os Health-Clubs e os Fitness Center. São as novas demandas da cidade turística e a adaptação dos espaços para uso do que vem de fora. 11 Lélio Galdino Rosa e Auro Aparecido Mendes Essa grande expansão, na opinião de Rosa e Mendes, trazem problemas ao turismo e também afetam o segmento hoteleiro, esses problemas “originaram elevados custos de manutenção, baixa qualidade e produtividade, maior influência da sazonalidade e baixa taxa média de ocupação, tudo isso contribuindo para que alguns produtos turísticos brasileiros ainda registrem preços elevados, tornando-se, assim, pouco competitivos em nível internacional.” Aqui, está em destaque, a partir do focado exemplo de Campinas, um dos gargalos do turismo brasileiro: a duvidosa qualidade do serviço e os preços elevados. As transformações sofridas ou ocorridas em Campinas ao longo de sua história, levaram a outras transformações necessárias, como num círculo do qual já não é mais possível escapar. A rede hoteleira, planejada agora não só para hospedar, mas também para suportar e oferecer serviços e estrutura para a realização de eventos. Essa rede dinamiza de forma contundente a economia local, posicionando a cidade como importante polo de turismo de eventos do Brasil. É isso o que diz a conclusão do estudo, apresentando a cidade de Campinas com características para o desenvolvimento do turismo de negócios, e que com a redefinição de seu setor hoteleiro, considera o “setor de serviços fundamental à fluidez da metrópole”. Por fim, destaco que o leitor tem em mãos um estudo que lança luzes sobre o tema de como o turismo vem modificando e é modificado pela configuração das cidades. Sem dúvida, trata-se de um importante exemplo de configuração da hotelaria nacional em áreas de metrópole. O estudo soube harmonizar com elevada qualidade a relação do espaço da cidade com o espaço turístico, mesmo que em reiteradas vezes estes dois espaços fundem-se num só, mesclados e amalgamados pelas relações sociais, políticas, econômicas, culturais, etc., que neles se desenrolam. São Paulo, abril de 2014. Alexandre Panosso Netto - Livre-Docente e professor com dedicação exclusiva na EACH-USP. 12 Introdução O turismo tem sido avaliado como um dos fenômenos que mais cresce em nível mundial. A World Tourism Organization (WTO, 2010) afirma que este crescimento encontra-se na ordem de 6,8% ao ano, enquanto que outros setores, como agricultura e indústria, apresentam, respectivamente, um crescimento de 2,3% e 3,0% ao ano. O turismo se destaca como uma das maiores fontes geradoras de desenvolvimento e riqueza, nas mais diversas regiões, sendo até considerado por Longanese (2007, p. 12) como “fonte inesgotável de recursos econômicos, geradora de milhares de empregos e uma fonte de melhoria da qualidade de vida da população”. A importância do setor no panorama global pode ser percebida pelo fato de o índice de crescimento do turismo ser superior ao do PIB mundial, conforme afirma a Associação Brasileira de Empresas de Eventos (Abeoc, 2007). O turismo como atividade econômica concentra 10% da mão de obra mundial, o que representa 204 milhões de trabalhadores atuando na área. No Brasil, dados do Banco Central (Bacen) demonstram que, desde 2002, os gastos anuais de visitantes estrangeiros cresceram 116%, e que esses turistas deixaram no país, no primeiro semestre de 2010, US$ 1,7 bilhão, cifra esta que corresponde a um aumento de 12,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. Segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT, 2010), o Brasil é a 33ª nação que mais recebeu visitantes em 2009. A Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav, 2011) demonstra que 6,9% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional correspondem à atividade turística, o que equivalente a R$ 32,7 bilhões. O Turismo constitui-se, assim, uma importante fonte de renda para muitos países, inclusive para o Brasil. Desse modo, exige que o mesmo apresente-se de forma organizada, possibilitando que diferentes localidades do território nacional possam ser ex13 Lélio Galdino Rosa e Auro Aparecido Mendes ploradas, simultaneamente, suprindo as preferências de diversificado público, respeitando e valorizando também as peculiaridades regionais. Nesse sentido, o turismo passa a ser um fenômeno capaz de interferir na dinâmica da organização social, econômica e espacial dos lugares e, portanto, objeto de estudo da Geografia. Para facilitar e promover o desenvolvimento deste setor “é necessário organizar internamente o país com uma infraestrutura hoteleira, de transportes, de distrações, apta a receber estes fluxos, não só externos como também internos” ao país (Bastos, 1990, p.194). Em uma análise e percepção contextualizadas de forma ampla, nota-se que os destinos turísticos, em níveis internacionais, nacionais, regionais e locais, necessitam de diferenciais que os tornem atrativos ao consumidor. Diante da competitividade existente, Kotler e Gerter (2004, p. 112) afirmam que “lugares turísticos – países, regiões ou municípios – precisam criar e administrar uma marca de forma estratégica, posicionando-a perante os públicos de maior potencialidade”. Silva (2005, p.82) garante que “cada lugar turístico precisa definir o seu futuro para consolidar a posição competitiva mediante os demais destinos turísticos”. A competitividade no turismo se expande tanto em relação aos destinos quanto às organizações que o realizam, dependendo de constante inovação que, normalmente, vincula-se à utilização de modernos meios de comunicação e da tecnologia da informação. Na busca da superação e do destaque, diante da competitividade existente, os agentes ofertantes e organizadores do turismo necessitam proporcionar excelência nos serviços e produtos disponíveis, o que exige um conhecimento profundo do principal interessado, o consumidor, que, por sua vez, procura maximizar a própria satisfação. Assim, a OMT (2003, p.112) destaca que: Para concorrer no mercado turístico, as organizações dos setores público e privado devem saber quem são seus clien14 Serviços Hoteleiros, Turismo de Negócios, Eventos e Organização Espacial tes e o que querem, devem ser capazes de comunicar a disponibilidade dos produtos e serviços turísticos aos potenciais clientes e convencê-los a tornarem-se clientes de fato, ou seja, a viajarem até um destino ou atração que tenha sido trabalhado ou a comprarem produtos e serviços. Partindo deste raciocínio de atender às necessidades específicas do mercado, portanto, de segmentos, lembramos que para Ansarah (2005, p. 286): os mercados são compostos de compradores que diferem entre si em um ou mais aspectos, empresas que estão optando por segmentar em grupos de pessoas nas suas preferências e necessidades, e compradores com comportamentos de compra homogêneos quanto a gostos e preferências. De acordo com Wanderley (2004), no mercado turístico, durante os últimos anos, as empresas têm percebido que uma única estratégia já não consegue atender àqueles que buscam produtos específicos. Surge, então, a necessidade de segmentar o mercado. O aumento da concorrência é um fator determinante para a segmentação e a empresa que melhor conhecer o seu mercado potencial obterá maior vantagem nas vendas, podendo, desta maneira, direcionar seus recursos financeiros e adequar os seus produtos ao mercado. Ansarah (2005) afirma que na segmentação existem bases relacionadas à natureza dos fatores de homogeneidade, permitindo considerar vários consumidores como pertencendo a um mesmo grupo. Portanto, a segmentação de mercado, como estratégia de marketing, pode ser considerada como um processo que conduz a empresa à escolha de estratégias alternativas que, não raramente, podem ser utilizadas como mecanismo concorrencial. Na ótica da qualidade para uma melhor competitividade surge o segmento de Turismo de Negócios (TN), que para Poza (1993 p.267) constitui-se de 15