DIABETES MELLITUS: ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR A Educação em Saúde como Tratamento Antônio Paulo André de Castro Mônica Barros Costa (Organizadores) DIABETES MELLITUS: ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR A Educação em Saúde como Tratamento Juiz de Fora 2012 © Editora UFJF, 2012 Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização expressa da editora. O conteúdo desta obra, além de autorizações relacionadas à permissão de uso de imagens ou textos de outro(s) autor(es), são de inteira responsabilidade do(s) autor(es) e/ou organizador(es). Diretora da Editora UFJF / Presidente do Conselho Editorial Nelma Fróes Conselho Editorial Ana Cristina Lima Santos Barbosa Andréa Pereira Luizi Ponzo Antonio Ferreira Colchete Filho UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA Henrique Nogueira Reis Luciana Pacheco Marques Reitor Henrique Duque de Miranda Chaves Filho Rogerio Casagrande Rubem Barboza Filho Sueli Maria dos Reis Santos Vice-Reitor José Luiz Rezende Pereira Studio Editora UFJF Projeto Gráfico, Editoração e Capa: Gabreil Schuery Revisão de Português: Jackson Leocádio da Silva Diabetes Mellitus : abordagem interdisciplinar : a educação em saúde como tratamento / organizadores, Antônio Paulo André de Castro, Mônica Barros Costa. – Juiz de Fora : Editora UFJF, 2012. 200 p. : il. ISBN 978-85-7672-090-4 1. Diabetes Mellitus-Prevenção e controle. 2. Saúde. 3. Educação médica. I. Castro, Antônio Paulo André de. II. Costa, Mônica Barros. CDU 616.379-008.64 Editora UFJF Rua Benjamin Constant, 790 Centro - Juiz de Fora - MG Cep 36015 - 400 Fone/Fax: (32) 3229-7645 (32) 3229-7646 [email protected] [email protected] www.editoraufjf.com.br SUMÁRIO Apresentação ___________________________________________ 9 Prefácio ______________________________________________ 11 Autores _______________________________________________ 13 Capítulo 1: a abordagem interdisciplinar no tratamento do diabetes mellitus 1Introdução___________________________________________ 17 2Etapas do Processo de Trabalho Interdisciplinar________________ 19 3Avaliação da Eficácia: Resultados Esperados _ ________________ 25 4Considerações Finais_ __________________________________ 26 5Referências___________________________________________ 26 Capítulo 2: o acolhimento integrado no atendimento ao paciente diabético 1Introdução___________________________________________ 29 2Importância do Acolhimento Integrado na Atenção ao Paciente Diabético______________________________________ 30 3Diretrizes do Acolhimento Integrado________________________ 35 4Referências___________________________________________ 38 Capítulo 3: aspectos epidemiológicos do diabetes mellitus 1Introdução___________________________________________ 39 2Aspectos Sócioeconômicos_ _____________________________ 40 3Aspectos do Diabetes Mellitus no Mundo_____________________ 41 4Aspectos do Diabetes Mellitus no Brasil______________________ 42 5 Fatores de Risco para Diabetes Mellitus ______________________ 43 6Considerações Finais ___________________________________ 46 7Referências___________________________________________ 46 Capítulo 4: atuação do médico em um programa de educação em diabetes 1Introdução __________________________________________ 49 2Classificação do Diabetes Mellitus__________________________ 50 3Diagnóstico do Diabetes Mellitus __________________________ 53 4Complicações do Diabetes Mellitus_________________________ 54 5Diretrizes Gerais para o Tratamento do Paciente Diabético_________ 59 6Algoritmo de Tratamento do Paciente Diabético _ ______________ 64 7Rotina de Atendimento ao Paciente Diabético__________________ 65 8Considerações Finais_ __________________________________ 67 9Referências___________________________________________ 67 Capítulo 5: atuação do enfermeiro em um programa de educação em diabetes 1Introdução __________________________________________ 71 2Teste de Glicemia Capilar ________________________________ 73 3Insulinoterapia_________________________________________ 73 4Pé Diabético__________________________________________ 75 5Diagnósticos de Enfermagem_ ____________________________ 76 6Considerações Finais_ __________________________________ 79 7Referências___________________________________________ 79 Capítulo 6: atuação do nutricionista em um programa de educação em diabetes 1Introdução___________________________________________ 81 2Avaliação Nutricional___________________________________ 82 3Planejamento Alimentar__________________________________ 87 4Objetivos do Tratamento Dietético__________________________ 88 5Necessidades Energéticas e Recomendações Nutricionais _________ 88 6Educação Nutricional __________________________________ 93 7Considerações Finais ___________________________________ 95 8Referências __________________________________________ 96 Capítulo 7: atuação do educador físico em um programa de educação em diabetes 1Introdução __________________________________________ 97 2Exercício Físico e Diabetes Mellitus _________________________ 98 3Avaliação Inicial para Recomendação da Prática de Exercício Físico_____________________________________ 100 4Conduta Frente as Complicações Associadas ao Diabetes Mellitus__ 104 5Referências___________________________________________ 108 Capítulo 8: atuação do farmacêutico em um programa de educação em diabetes 1Introdução___________________________________________ 111 2Atenção Farmacêutica: Metodologias Disponíveis_______________ 113 3Metodologia Implantada no Centro de Atenção à Saúde HU da UFJF_____________________________________ 115 4Interações Medicamentosas dos Antidiabéticos Orais_ ___________ 116 5Referências___________________________________________ 117 Capítulo 9: atuação do fisioterapeuta em um programa de educação em diabetes 1Introdução___________________________________________ 119 2Pé Diabético__________________________________________ 120 3Diabetes na Gravidez____________________________________ 125 4Diabetes Mellitus e Exercício na Gestação____________________ 127 5Referências___________________________________________ 132 Capítulo 10: atuação do cirurgião dentista em um programa de educação em diabetes 1Introdução___________________________________________ 137 2Diretrizes Gerais para o Atendimento ao Paciente Diabético _______ 139 3Rotina de Atendimento ao Paciente Diabético __________________ 147 4A Experiência do Projeto de Educação em Diabetes Mellitus do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora _ ____ 152 5Referências __________________________________________ 152 Capítulo 11: atuação do psicólogo em um programa de educação em diabetes 1Introdução___________________________________________ 155 2Diretrizes Gerais para o Atendimento Psicológico ao Paciente Diabético______________________________________ 159 3Rotina de Atendimento ao Paciente Diabético __________________ 161 4Experiência da Psicologia no Projeto Desenvolvido no Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora_ ___________ 163 5Referências___________________________________________ 164 Capítulo 12: atuação do assistente social em um programa de educação em diabetes 1Introdução___________________________________________ 167 2O Diabetes: Implicações para a Política de Saúde_ ______________ 168 3O Serviço Social e a Intervenção na Área da Saúde_____________ 170 4Bases da Intervenção do Serviço Social no Projeto “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus” __________________ 172 5A Atuação do Assistente Social no Projeto “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus” __________________ 175 6Referências___________________________________________ 178 Anexo i Interações medicamentosas – Antidiabéticos Orais _ _______________ 181 APRESENTAÇÃO O livro que apresentamos é fruto do projeto de extensão Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus, coordenado pela Profª Dra. Mônica Barros Costa e, merecidamente, premiado no Proext 2009. Seu conteúdo, sem dúvida alguma, é de extrema importância não só para o enfrentamento do Diabetes que, de caráter multifatorial, requer um trabalho multidisciplinar e com vários olhares, mas também para aqueles que se sensibilizam ao trabalho de responsabilidade social, papel fundamental da extensão universitária e tão bem expresso nesta obra. Ao longo deste trabalho, pode-se perceber como a estrutura interdisciplinar do projeto é capaz de contribuir de forma transformadora para a promoção da saúde dos indivíduos através do pensar e da possibilidade da ação de forma integrada. E, para nós, da Pró-reitoria de Extensão e Cultura da UFJF, é justamente essa possibilidade de transformação que enriquece o compromisso do projeto para com a sociedade e para com a extensão universitária, entendida, na perspectiva de Paulo Freire, enquanto um processo educativo, cultural e científico capaz de articular o ensino e a pesquisa de forma indissociável. Prof. Romário Geraldo Pró-reitor de Extensão e Cultura da UFJF Profª Maria Lúcia de Castro Polisseni Coordenadora de Extensão da UFJF PREFÁCIO Uma das epidemias que assolam o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde, é o diabetes mellitus. O que é esta doença? Sem dúvida, é um quadro poligênico no qual a hiperglicemia, quer seja por insulinopenia, quer seja por resistência insulínica, é um dos fatores preponderantes. Assim sendo, o tratamento tende a ser multifatorial. Há 50 anos milito nesta seara com Educação, Ensino e Pesquisa. No nosso setor, a Dr.ª Mônica Barros Costa iniciou sua Especialização. Não só fez o curso da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC–RIO), em “sensu lato”, como também, iniciou sua carreira acadêmica em “sensu stricto” fazendo seu mestrado e sendo aprovada com louvor. Voltando à sua cidade, Juiz de Fora, filiou-se à sua escola, na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), fazendo seu doutorado na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Em sua universidade fez sua carreira, chegando a professora adjunta e, ao mesmo tempo, coordenando o projeto de Extensão Universitária “Acompanhamento, educação e prevenção em diabetes mellitus”, no Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Este projeto é ambicioso, com metas estabelecidas a serem cumpridas, e reúne, no mesmo, médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais, professores de Educação Física, fisioterapeutas, farmacêuticos, odontologistas e funcionários administrativos. A gestão dessas categorias de profissionais, todos com pós-graduação nas mais diversas escolas do país, não é tarefa fácil; no entanto, pela avaliação dos resultados, a Drª Mônica soube fazê-lo. Hoje em dia a educação do diabético é tão ou mais importante que as outras medidas, que só atingirão seus objetivos em pacientes bem informados sobre a doença. Esta obra, ao ser posta ao alcance de todos, ajudará em muito o trabalho daqueles centros que tratam de pacientes diabéticos. Foi, sem dúvida, um trabalho difícil, e os diabéticos, entre os quais me incluo, agradecem. Parabéns, Drª Mônica e seus colaboradores! Vocês souberam fazê-lo. Prof. Luiz Cesar Póvoa Prof. Titular de Endocrinologia PUC – RJ e UFRJ Membro Titular da Academia Nacional de Medicina AUTORES Ana Carmen dos Santos Ribeiro Simões Juliano: Professora convidada do Serviço de Endocrinologia do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora. Residência em Clínica Médica na Universidade Federal de Juiz de Fora. Pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora. Título de Especialista em Endocrinologia e Metabologia pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Ana Lívia de Oliveira: Professora do Curso de Nutrição da Universidade Presidente Antônio Carlos (UNIPAC). Graduação em Nutrição pela Universidade Federal de Ouro Preto, especialista em Ciências Humanas e Saúde pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Saúde Brasileira pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Título de Especialista em Nutrição Clínica pela Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN). Antônio Paulo André de Castro: Mestrando em Aspectos Biodinâmicos do Movimento Humano (FAEFID/UFJF). Graduação em Licenciatura Plena pela Faculdade de Educação Física e Desportos da UFJF. Membro do Grupo de Estudos em Avaliação Neuromuscular – CNPq. Coordenador do Projeto de Extensão “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus” do HU-UFJF. Bruno Feital Barbosa Motta: Graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bolsista do projeto de Extensão Universitária “Acompanhamento, educação e prevenção em diabetes mellitus”. Danielle Sachetto Ribeiro: Graduação em Serviço Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Residência em Serviço Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Assistente Social do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora e do projeto de Extensão Universitária “Acompanhamento, educação e prevenção em diabetes mellitus”. Darcilia Maria Nagen da Costa: Professora Adjunta de Enfermagem da Universidade Federal de Juiz de Fora. Doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Membro efetivo da Fundação Instituto Mineiro de Estudos e Pesquisas em Nefrologia. Coordenadora Adjunta e de Ensino da Pós-Graduação em Saúde – Área de concentração em Saúde Brasileira – da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora. Débora Pinto Antunes: Cirurgiã dentista. Mestranda em Clínica Odontológica da Universidade Federal de juiz de Fora. Drusila Pinto Antunes: Graduação em Odontologia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bolsista do projeto de Extensão Universitária “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus”. Eduardo José Danza Vicente: Professor Adjunto da Faculdade de Medicina, Departamento de Fisioterapia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestrado em Ciências Biológicas-Anatomia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP – Botucatu, SP. Doutorado em Bases Gerais da Cirurgia, Microcirurgia, Reparação e Regeneração de Tecidos e Órgãos pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP – Botucatu, SP. Evandro de Toledo Lourenço Júnior: Professor associado de Periodontia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Doutorado em Periodontia pela Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo. Mestrado em Periodontia pela Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo. Francislene Juliana Martins: Farmacêutica responsável do Serviço de Informação Tóxico-Farmacológica do HU-UFJF. Graduação em Farmácia e Bioquímica pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Saúde Brasileira pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gabriela Guerra Gonze: Pcicóloga. Pcicanalista.Especialização em Saúde Mental(UFJF). Residência em PsicologiaHospitalar e da Saúde(HUUFJF).Formação permanente em Psicanálise no Ato Freudiano de Juiz de Fora.Professora do curso de especializaçãoem Psicologia Médica: Interfaces da Subjetividade e da saúde (ufjf ). Psicóloga do Hospital Universitário(HU-UFJF). Preceptora do Programa de Residência em Psicologia Hospitalar e da Saúde do Hospital Universitário (HU-UFJF) 14 Henrique Novais Mansur: Professor Substituto da Universidade Federal de Juiz de Fora. Coordenador do Grupo de Estudo em Atividade Física e Doença Renal Crônica. Mestrado em Ciência da Motricidade Humana (UCB / RJ). Doutorando em Saúde pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Gestor do curso de Educação Física da Universo Juiz de Fora. Jarbas Gaspar Filho: Enfermeiro do projeto de Extensão Universitária “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus”. Chefe do Setor de Enfermagem do Ambulatório de Diabetes do HUUFJF. José Marques Novo Júnior: Professor Adjunto do Departamento de Fundamentos da Faculdade de Educação Física e Desporto da Universidade Federal de Juiz de Fora. Coordenador do Laboratório Multidisciplinar em Pesquisa Neuromuscular no centro de Atenção à Saúde-HU-UFJF. Coordenador geral dos projetos de extensão “Programa de Caminhada Orientada” e “Projeto Luísa de Educação Física e Psicomotricidade”. Graduação em Educação Física pela Escola de Educação Física de São Carlos. Mestrado em Bioengenharia pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e Escola de Engenharia de São Carlos pela USP. Doutorado em Engenharia Elétrica pela UNICAMP. Pós-doutorado pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP. Layla de Souza Pires: Graduação em Nutrição. Colaboradora do projeto de Extensão Universitária “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus”. Livia Nara Silva Portes: Nutricionista e ex-colaboradora do projeto de Extensão Universitária “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus”. Manoel Marques Evangelista de Oliveira: Professor convidado da Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Análises Clínicas pela Fundação Oswaldo Cruz. Graduação em Farmácia e Bioquímica pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Graduação em Farmácia Industrial pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Graduação em Farmácia pela Universidade Severino Sombra. 15 Marcelo Cruzick de Souza: Título de especialista em Clínica Médica pelo Conselho Federal de Medicina. Residência em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO). Maria Helena Braga: Professora Adjunta da Faculdade de Farmácia e Bioquímica da Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestrado em Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pós-graduanda do Programa de Doutorado em Saúde Coletiva da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/ Instituto de Medicina Social. Maria Stella Tavares Filgueiras: Professora Adjunta do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Coordenadora da Residência em Psicologia Hospitalar e da Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora. Doutorado em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Mestrado em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mônica Barros Costa: Professora Adjunta de Endocrinologia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Doutorado em Endocrinologia pela Universidade Federal de São Paulo. Mestrado em Endocrinologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Coordenadora geral do Projeto de Extensão Universitária “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus” do HU-UFJF. Patrícia Teixeira Groppo de Oliveira: Graduação em Serviço Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Residência em Serviço Social na Universidade Federal de Juiz de Fora. Samuel de Castro Braga: Enfermeiro e ex-bolsista do projeto de Extensão Universitária “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus”. Simone Meira Carvalho: Professor assistente da Universidade Federal de Juiz de Fora. Graduação em Fisioterapia pela Faculdade de Ciências da Saúde do Instituto Porto Alegre Igreja Metodista. Mestrado em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. 16 CAPÍTULO 1 A ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR NO TRATAMENTO DO DIABETES MELLITUS AUTORES Antônio Paulo André de Castro José Marques Novo Júnior Mônica Barros Costa 1 introdução A necessidade do trabalho interdisciplinar nos cuidados com a saúde é reconhecida por todos e vem sendo incorporada de forma progressiva na prática diária. Objetivos múltiplos exigem diferentes abordagens, e a formação de uma equipe interdisciplinar pode proporcionar uma ação diferenciada e ampliar o sucesso do controle de muitas doenças e dos fatores de risco a elas relacionados (WAGNER, 2000; ZWAR et al., 2007). As doenças crônicas não-transmissíveis, como é o caso do diabetes mellitus, se caracterizam por terem etiologia multifatorial, envolvendo orientações voltadas para vários objetivos e que necessitam tratamento mais efetivo com a inter-relação de vários profissionais de saúde (WAGNER, 2000; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001; ZWAR et al., 2007; HARRIS, 2008). Na prática clínica, para o tratamento da grande maioria das enfermidades, o paciente não precisa entender a sua doença para que faça o tratamento de forma adequada. Todavia, no caso do diabetes mellitus, existe uma peculiaridade: por se tratar de uma doença na qual é preciso existir um equilíbrio entre as várias atividades da vida diária, o tratamento passa a ser uma atividade a ser realizada 24 horas por dia e inclui, com frequência, importantes mudanças no estilo de vida. Pode-se dizer que quanto mais um paciente diabético sabe sobre sua doença, e quanto mais entende como fazer as modificações necessárias na sua rotina de vida, mais sucesso terá no seu tratamento. Todavia, este tipo de estratégia exige coragem, determinação e contínua autocrítica para que os objetivos sejam atingidos (KEERS et al., 2005; ZWAR, 2007. HARRIS; 2008). Todo programa de atendimento e educação ao paciente diabético deve ter como objetivo criar um ambiente no qual possam ser oferecidas experiências que poderão influenciar favoravelmente a aquisição de conhecimentos, atitudes e habilidades necessárias à convivência com o diabetes. Diversos estudos têm mostrado que os resultados obtidos através da implantação de programas de educação em diabetes com estímulo ao auto cuidado e as modificações no estilo de vida são positivos ultrapassando os custos relacionados a esse tipo de intervenção (KEERS et al., 2005; BOREN, PANHALKAR e SPECKER, 2009). Todavia, as modificações nos hábitos de vida, fundamentais ao bom controle da doença, muitas vezes são trabalhosas, e a grande maioria dos pacientes se sente sobrecarregada por tantas mudanças e tantas normas de conduta. Muitos não aceitam essas recomendações, o que dificulta o bom controle da doença. Ansiedade e depressão além da diminuição da auto estima e da autoconfiança podem surgir em virtude da não aceitação da doença e gerar descompensação metabólica (KEERS et al., 2005; RHEE et al., 2005). Um programa de educação em diabetes deve ser cuidadosamente planejado pelos diversos membros da equipe interdisciplinar, que atuariam como professores ou facilitadores, e, a partir daí, ser executado junto ao paciente diabético, que participaria como estudante, que tem necessidades a serem atendidas. Cada um dos profissionais de saúde atuaria em equipe favorecendo a coparticipação de cada membro e oferecendo, ao paciente diabético, os serviços especializados (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001; KEERS et al., 2005; ZWAR, 2007; HARRIS, 2008; OSBORN e FISHER, 2008). 18 2 etapas do processo de trabalho interdisciplinar 2.1 o paciente: a Quem educar O impacto emocional do diagnóstico do diabetes mellitus, em alguns casos, se manifesta sob a forma de negação da doença que dificultará, num primeiro momento, que o paciente compreenda e aceite as informações a serem oferecidas pela equipe. Muitas vezes, é necessário um período de tempo para que ocorra adaptação à doença crônica e às modificações que serão necessárias no estilo de vida (FISHER et al., 2007). Antes de tudo, é preciso conhecer o estilo de vida do paciente, avaliar o seu grau de conhecimento sobre o diabetes mellitus além de suas atitudes e habilidades em relação à doença. Para isso, é aconselhável evitar a abordagem sob a forma de perguntas e respostas, buscando estabelecer um diálogo o mais amigável possível e um ambiente de ajuda mútua, lembrando que muitas vezes as prioridades do paciente não são as mesmas da equipe de saúde (KEERS et al., 2005; RHEE et al., 2005). Além disso, devem ser obtidas informações sobre a personalidade, as crenças sobre a saúde, o nível de educação, a ocupação (ou profissão), a situação socioeconômica e a acessibilidade aos serviços de saúde bem como a situação familiar e a necessidade ou não de um cuidador, antes de se iniciar as atividades educativas. Tais requisitos visam à elaboração de um programa o mais individualizado possível e que possa ter garantia de sucesso (KEERS et al., 2005; RHEE et al., 2005). 2.2 conteúdos do programa: o Que ensinar Uma vez avaliado o grau de conhecimento de cada paciente sobre o diabetes, sua história psicossocial e suas atitudes em relação à doença, é traçado o programa de educação, que sempre deverá ser flexibilizado e adaptado ao grupo e a cada paciente, em particular. Além dos pontos em comum, cada área poderá traçar quais são os pontos fundamentais a serem abordados para aprofundar outro tema que seja necessário para cada grupo ou cada paciente, especificamente (HARRIS, 2008). Deve ainda ser levado em conta o estágio da doença em que se encontra o paciente. No caso de diabetes recém-diagnosticado, muitas vezes o paciente está tão transtornado com o diagnóstico que será incapaz de absorver toda a informação necessária. Nesse caso, devem ser priorizadas as informações 19 principais e indispensáveis para o início do tratamento, e num segundo momento serão instituídas as outras medidas necessárias à condução de cada caso. À medida que é vencida essa primeira fase, deve-se progredir com o processo de educação, aprofundando os diversos temas de cada área. Periodicamente o grupo de pacientes deve receber atualização das informações sobre a doença, uma vez que, com a evolução do conhecimento, vão surgindo novos paradigmas que podem melhorar não só o controle da doença, mas também a qualidade de vida. Além disso, vale lembrar que as diversas intercorrências que podem surgir, como, por exemplo, a gravidez, o aparecimento de uma complicação clínica ou cirúrgica ou mesmo o surgimento de complicação crônica relacionado ao diabetes, vão levar à necessidade de modificação e atualização do programa de educação que vinha sendo desenvolvido. 2.3 métodos de ensino: como educar Os programas de educação em diabetes podem ser implantados à maneira de uma sala de aula ou através de abordagens individualizadas. O número de pessoas para os trabalhos em grupo pode variar, e podem ser utilizadas diversas técnicas como palestras e grupos de discussão, nos quais computadores e outros recursos audiovisuais podem ser incluídos. De acordo com a disponibilidade dos profissionais e as necessidades do paciente, pode ser necessária a abordagem de cada indivíduo, em separado, cabendo ao profissional de saúde traçar as estratégias para cada situação. Estudos mostram que ambas as formas de abordagem, seja individual, seja em grupo, são efetivas na aquisição de conhecimentos e habilidades por parte dos pacientes (RICKHEIM et al., 2002; OSBORN e FISHER, 2008). Um modelo de escala de atividades que é desenvolvido no Serviço de Endocrinologia da Universidade Federal de Juiz de Fora pode ser visto no quadro 1. DUraçÃo Da atIVIDaDe DIa 1 DIa 2 DIa 3 1 hora Reuniões de pacientes diabéticos com uso de técnicas de dinâmica de grupo Grupo terapêutico (supervisionado por psicólogo) Palestras em sala de espera 4 horas Consultas individuais Quadro 1 – Modelo de programa de 3 dias para atendimento ao paciente diabético 20 Não apenas as instruções formais, mas também a interação entre os pacientes, sob a supervisão da equipe interdisciplinar, devem ser valorizadas com o objetivo de facilitar a troca de experiências. Além disso, as instruções e a educação em diabetes devem ser feitas por ocasião do diagnóstico e, a partir daí, periodicamente, a intervalos regulares, lembrando que esse é um processo a ser desenvolvido durante toda a vida (KEERS et al., 2005; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001). Alguns princípios educacionais básicos devem ser aplicados buscando sempre a participação ativa do paciente e seu envolvimento em todas as etapas, inclusive nas decisões sobre o programa de treinamento e educação sobre a doença. As informações devem ser didáticas e personalizadas buscando sempre que necessário a realização de atividades práticas, sobretudo no que diz respeito às habilidades necessárias ao tratamento, tais como aplicação de insulina, exame dos pés etc. Além disso, é preciso zelar pela qualidade da informação que deve ser a mais completa e acessível possível sem perder sua aplicabilidade prática (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001; OSBORN e FISHER, 2008). A repetição e o necessário reforço sobre temas importantes devem fazer parte do programa com a inclusão de textos escritos sobre os diversos assuntos, lembrando sempre que para o grau de compreensão deve ser levado em conta tanto o nível intelectual quanto o nível educacional da população a ser atendida. 2.4 a eQuipe interdisciplinar: Quem deve educar A equipe pode ser constituída por todos os profissionais que atendem ao paciente diabético, como médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de Enfermagem, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais, professores de Educação Física, fisioterapeutas, farmacêuticos, odontologistas, funcionários administrativos e qualquer outro profissional que possa se tornar necessário para obtenção do tratamento adequado (WAGNER, 2000). Cada membro exerce papéis específicos dentro da equipe mantendo sempre o aspecto de interdisciplinaridade. A participação do médico deverá incluir: – Avaliação clínica do paciente, seja por demanda espontânea, seja por solicitação da equipe de saúde; 21 – Diagnóstico da doença e das diversas intercorrências, com ênfase na detecção precoce de complicações crônicas relacionadas à mesma; – Elaboração do plano de tratamento adequado a cada caso, com prescrição da medicação apropriada; – Encaminhamento e solicitação de acompanhamento por outros profissionais médicos e por outros membros da equipe multiprofissional; – Apoio aos demais membros da equipe, quando necessário. A participação do enfermeiro deverá incluir: – Acompanhamento do tratamento do paciente diabético; – Pesquisa de lesões cutâneas nos pés; – Orientação sobre a doença e o uso adequado da medicação prescrita pelo médico com avaliação da interação de alimentos e/ou nutrientes com os diversos medicamentos; – Orientação sobre hábitos de vida, pessoais e familiares e sobre higiene pessoal, com ênfase no cuidado com os pés; – Pesquisa de fatores de risco e hábitos de vida inadequados à saúde; – Apoio aos demais membros da equipe, quando necessário. A participação do nutricionista deverá incluir: – Disponibilização de ensinamentos sobre o preparo e o processamento dos alimentos; – Orientações gerais sobre a composição nutricional dos alimentos, rotulagem etc.; – Prescrição e orientação de dieta, considerando aspectos socioeconômicos, culturais e ambientais; – Consulta de nutrição, com realização da anamnese alimentar, avaliação da frequência, quantidade e qualidade dos alimentos consumidos e pesquisa de intolerâncias e alergias alimentares; – Acompanhamento da evolução nutricional; – Apoio aos demais membros da equipe, quando necessário. A participação do educador físico deverá incluir: – Realizar procedimentos para avaliação e acompanhamento dos níveis de aptidão física relacionada à saúde; 22 – Programação e supervisão de atividades físicas para os pacientes, sejam presenciais e/ou à distância e individuais ou em grupos, adequando-as às realidades locais e às características específicas de cada indivíduo; – Programação e execução de projetos de atividade física para prevenção de outras doenças crônicas e complicações do diabetes; – Apoio aos demais membros da equipe, quando necessário. A participação do farmacêutico deverá incluir: – Levantamento cuidadoso de todas as medicações utilizadas pelo paciente; – Orientação sobre o uso adequado da medicação prescrita pelo médico com avaliação da interação de alimentos e/ou nutrientes com os diversos medicamentos; – Acompanhamento periódico de cada caso, com reavaliações a cada mudança de esquema terapêutico; – Apoio aos demais membros da equipe, quando necessário. A participação do cirurgião dentista deverá incluir: – Realização de consulta odontológica, com avaliação clínica de cada paciente; – Encaminhamento do paciente para tratamento odontológico especializado, sempre que necessário; – Orientação quanto aos cuidados de higiene oral e medidas preventivas com ênfase na prevenção da doença periodontal; – Apoio aos demais membros da equipe, quando necessário. A participação do fisioterapeuta deverá incluir: – Orientação quanto aos cuidados com os pés, sobretudo nos casos de pé diabético; – Supervisão de programas específicos de atividades físicas para melhorar o controle glicêmico; – Fornecer orientações visando a prevenção e o tratamento de complicações relacionadas ao diabetes; – Acompanhamento pós-cirúrgico e reabilitação nos casos de amputação; – Apoio aos demais membros da equipe, quando necessário. 23 – – – – A participação do psicólogo deverá incluir: Realização de consulta psicológica com avaliação de como o paciente processa as informações quanto à saúde, para que o método de comunicação com ele seja devidamente individualizado; Avaliação e tratamento dos aspectos emocionais que interfiram na qualidade de vida do paciente, seu nível de estresse e adesão ao tratamento global; Atendimento aos familiares, para facilitar as mudanças de hábitos de vida do grupo familiar e a adesão ao tratamento; Apoio aos demais membros da equipe, quando necessário. A participação do assistente social deverá incluir: – Identificação dos aspectos socioeconômicos e familiares, visando caracterização da situação de trabalho e previdência e levantamento de expectativas sobre a doença e o seu tratamento; – Suporte ao paciente quanto a procedimentos de marcação de consulta, requisição de medicamentos e outros serviços oferecidos pelo serviço de saúde; – Atualização do cadastro de recursos sociais visando o atendimento das demandas de pacientes e familiares, que possam interferir no tratamento da doença; – Desenvolvimento de atividades visando à organização dos pacientes em associações de portadores da doença; – Realização de busca ativa de pacientes faltosos; – Apoio aos demais membros da equipe, quando necessário. Além das participações específicas de cada área, que serão vistas em detalhes nos diversos capítulos desse manual, existem atitudes comuns a serem adotadas e implantadas por toda a equipe interdisciplinar. Nesse sentido as diversas ações devem abranger os vários níveis de prevenção: primordial, primária, secundária e terciária. A prevenção primordial inclui ações em conjunto que despertem na comunidade, em geral, noções de saúde e educação. A prevenção primária, por sua vez, visa enfatizar o controle do tabagismo, da obesidade, do sedentarismo, do consumo abusivo de sal e bebidas alcoólicas e estímulo à adoção de uma alimentação saudável; programar atividades de lazer seja em nível individual como em âmbito comunitário; realizar campanhas educativas periódicas, abordando diferentes temas 24 relacionados à saúde; trabalhar no sentido da remoção de fatores de risco para a saúde geral. Uma vez detectada a presença do diabetes mellitus, deverão ser implantadas também as medidas de prevenção secundária. Toda a equipe deve trabalhar no sentido de alcançar a remissão, quando possível, das doenças crônicas não transmissíveis; evitar o aparecimento de complicações e retardar a progressão do quadro clínico. Paralelamente, devem ser lembrados os objetivos específicos da prevenção secundária como a detecção e tratamento precoce de outras doenças crônicas não transmissíveis e a identificação de fatores de risco associados, de lesão de órgãos-alvo e de co-morbidades (AMERICAN ASSOCIATION OF DIABETES EDUCATORS, 2008). No âmbito da prevenção terciária, a equipe multidisciplinar deverá atuar visando reabilitar os indivíduos já acometidos pelas complicações e buscar prevenir ou retardar o desenvolvimento de outras complicações agudas e crônicas das doenças crônicas não transmissíveis. 3 avaliação da eFicácia: resultados esperados Assim como acontece com outras doenças, a equipe de saúde se depara muitas vezes com a falta de adesão ao tratamento do diabetes mellitus, fato que não depende da escolaridade, do nível intelectual ou da situação socioeconômica. Esse fato merece destaque por gerar não só o mau controle da doença e o maior risco para complicações agudas e crônicas como também por interferir na relação entre o paciente e a equipe de saúde. Vários fatores podem interferir na adesão ao tratamento, alguns próprios da complexidade do tratamento em si, que pode ser minimizado com a oferta de informações claras, precisas, simples e personalizadas sobre o tratamento (HARRIS, 2008). Outro fator que interfere na adesão são as crenças e conceitos prévios que cada paciente tem sobre a saúde e sobre o próprio diabetes além das características de personalidade de cada indivíduo (FISHER et al., 2007). Finalmente, é de extrema importância o nível de relação entre a equipe de saúde e o indivíduo buscando sempre um contato mais próximo e mais amigável possível, reforçando aspectos positivos e estabelecendo um ambiente de ajuda e disponibilidade (WAGNER, 2000; KEERS et al., 2005; AMERICAN ASSOCIATION OF DIABETES EDUCATORS, 2008). 25 4 considerações Finais Para o adequado tratamento do diabetes mellitus, a aquisição de conhecimentos é o primeiro, mas não o principal, passo. Estes devem ser promovidos por meio de ações individualizadas, elaboradas para atender às necessidades específicas de cada paciente e de ações coletivas, ambas devendo ser mantidas em longo prazo e apresentando boa relação custobenefício. O trabalho da equipe interdisciplinar contribuirá para oferecer ao paciente e à comunidade uma visão mais ampla do problema, dando-lhes conhecimento e motivação para vencer o desafio e propiciando a adoção de mudanças de hábitos de vida e adesão real ao tratamento proposto. 5 reFerências AMERICAN ASSOCIATION OF DIABETES EDUCATORS. Position statement. Diabetes Education and Public Health Diab Educ, v. 34, n. 1, p. 45-48, Jan./Feb. 2008. BOREN, S. A. et al. Costs and benefits associated with diabetes education: a review of the literature. Diabetes Educ, v. 35, n. 1, p. 72-96, Jan./Feb. 2009. FISHER, E.B. et al. Healthy coping, negative emotions, and diabetes management: a systematic review and appraisal. Diab Educ, v. 33, n. 6, p. 1080-1103, Nov./Dec. 2007. HARRIS, M. Challenges in diabetes management. Aust Fam Physician, v. 37, n. 9, p. 716-20, Sep. 2008. HORTON, E. et al. Multidisciplinary interventions: mapping new horizons in diabetes care. Diabetes Educ, n. 34, suppl. 4, p. 78S-89S, Jul./ Aug. 2008. KEERS, J. C. et al. Cost and benefits of a multidisciplinary intensive diabetes education programme. J Evaluat Clin Pract, v. 3, n. 11, p. 293303, Jun. 2005. BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Atenção Básica. Área Técnica de Diabetes e Hipertensão Arterial. Hipertensão arterial sistêmica e Diabetes mellitus: protocolo /Ministério da Saúde. Brasília, 2001. 26 OSBORN, C.Y.; FISHER, J.D. Diabetes Education: integrating theory, cultural considerations, and individually tailored content. Clin Diab, v. 26, n. 4, p. 148-150, 2008. RHEE, M.K. et al. Barriers to diabetes education in urban patients: perceptions, patterns, and associated factors. Diab Educ, v. 31, n. 3, p. 410-417, 2005. RICKHEIM, P. L., et al. Assessment of group versus individual diabetes education: a randomized study. Diabetes Care, v. 25, n. 2, p. 269-274, Feb. 2002. WAGNER, E. R. The role of patient care teams in chronic disease management. BMJ, v. 320, n. 7234, p. 569-572, Feb. 2000. ZWAR, N. A. et al. Do multidisciplinary care plans result in better care for type 2 diabetes? Aust Fam Physician, v. 36, n. 1/2, Jan./Feb. 2007. 27 CAPÍTULO 2 O ACOLHIMENTO INTEGRADO NO ATENDIMENTO AO PACIENTE DIABÉTICO AUTORES Bruno Feital Barbosa Motta 1 introdução Mônica Barros Costa Mais importante que a quantidade de portas de entrada em um serviço de saúde deve ser sua qualidade. A forma como o usuário é recebido terá implicações diretas no rumo de seu tratamento. Segundo Teixeira (2003), a saúde pública brasileira conta com um grande número de portas de entrada e atingimos o que ele chama de “patamar crítico de atendimentos”. Com isso, o problema do acesso não depende mais do aumento do número de portas, mas da sua qualidade, ou seja, do modelo de atenção operante nos serviços de saúde. Com base nesse questionamento, foi implantado o Acolhimento Integrado no atendimento aos pacientes do projeto de extensão universitária “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus”, do ambulatório de Endocrinologia do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF). Patrícia Teixeira Groppo de Oliveira O Acolhimento Integrado pode ser visto, primeiramente, como uma prática resultante do interesse e desejo de melhoria do atendimento por parte da equipe de saúde. Além disso, possui relevância institucional e social, ao servir como exemplo para outros serviços de saúde e revestindose também de importância científica, pois, a partir dele, são desenvolvidos projetos de pesquisa relacionados ao tema com apresentação em seminários e artigos científicos. O objetivo principal do Acolhimento Integrado é intervir sobre o modelo técnico assistencial em saúde através da reorganização do trabalho da equipe interdisciplinar e, com isso, melhorar a qualidade do atendimento ao diabético. Existem também objetivos mais específicos tais como melhoria das práticas interdisciplinares, garantia de realização de um melhor atendimento à demanda dos usuários, supressão de ações repetitivas por parte dos membros da equipe, acompanhamento e registro da evolução dos casos de forma mais clara e a possibilidade de criação de ferramentas para avaliar a qualidade do serviço oferecido. O Acolhimento Integrado dentro do ambulatório tem a tarefa de reformular as práticas de atendimento ao usuário, tornando-se a nova porta de entrada do serviço e buscando maior qualidade, responsabilização, acessibilidade e integralidade no tratamento do diabético e seus familiares, garantindo ainda para o paciente o controle social de sua saúde. 2 importância do acolhimentointegrado na atenção ao paciente diabético O acolhimento ao usuário nos serviços públicos de saúde tem se apresentado como um desafio aos profissionais que atuam nessa área. Para pensarmos na superação desse problema e assim ampliarmos a qualidade de nossas portas de entrada, podemos tomar como referência o trabalho de Merhy que aponta para a criação de uma nova lógica que pense a implantação de um espaço intercessor entre o usuário e o trabalhador de saúde. Este espaço deve se abrir para um processo de escuta de problemas, para a troca de informações, para o reconhecimento mútuo de direitos e deveres e para a tomada de decisões que possibilitem intervenções pertinentes e eficazes, em torno das necessidades dos usuários finais (MERHY, 1997). O processo de acolhimento, como prática de produção de saúde, tem como 30 base a ideia de encontro, de contato, de “estar com”. Ele se transforma no espaço intercessor, orientado pela construção conjunta entre trabalhador de saúde e usuário. O Acolhimento é entendido pelo Ministério da Saúde do Brasil como uma das diretrizes de maior relevância ética, estética e política da “Política Nacional de Humanização do SUS” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2008). Relevância ética, por se pautar no reconhecimento da subjetividade do usuário; relevância estética, quando propõe a dignificação da vida e do viver; e relevância política, pelo fato de implicar o compromisso coletivo de envolver-se nesse “estar com”. A ideia de acolhimento retoma a importância da responsabilização pelo outro, desde sua chegada ao serviço de saúde. Essa responsabilização passa por sua recepção, escuta e preocupação pela resolução do problema apresentado pelo usuário. Em um serviço de atenção à saúde ao paciente diabético, a escuta utilizada pelo profissional deve ser a mais ampla possível, uma vez que, nesse caso, a necessidade de saúde pode levar ao mais diversificado tipo de demanda. Essa amplitude de demanda, que é tão comum no paciente diabético, por sua vez, exige da equipe de saúde um olhar integrado sobre o usuário. Segundo Mattos (2001), devemos “reconhecer que o paciente é mais do que aparelho ou sistema biológico com lesões e disfunções a serem silenciadas com dispositivos e técnicas disponíveis”. Mattos ainda sinaliza a importância da integralidade no olhar do trabalhador de saúde sobre o usuário como um valor e uma prática a ser sustentada e expressa na relação profissional-paciente. Foi através do acolhimento que se tornou possível romper com a ideia de fragmentação do usuário diabético e se pôde pensar em uma reorganização que possibilitasse um trabalho integrado e, consequentemente, interdisciplinar para todos aqueles que buscassem atendimento no ambulatório de Diabetes do HU-UFJF. Adicionar os princípios da integralidade ao acolhimento na atenção ao portador de diabetes mellitus constitui uma redundância, tamanha a diversidade das necessidades do diabético em seu tratamento. Mais do que ampliar a visão sobre os sintomas apresentados pelo paciente, os sentidos da integralidade, em conjunto com a proposta de acolhimento adotada, busca-se evidenciar a importância de atender ao sujeito e não simplesmente aos seus desarranjos fisiológicos. 31 Figura 1 – Ficha de Acolhimento Inicial do projeto “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus” 32 33 Figura 2 – Ficha de Acolhimento de Retorno do projeto “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus” 34 Acolher o indivíduo diabético de forma integral é redundante e, ao mesmo tempo, essencial. O acolhimento não deve se restringir ao primeiro encontro entre trabalhador de saúde e usuário, estendendo-se a todas as vezes em que o diabético retornar ao ambulatório. É a partir do Acolhimento Integrado que consolidamos o local onde se dará a escuta das demandas e desejos do atendido, bem como o entendimento e a identificação do que será o melhor (e possível) caminho para o tratamento de cada usuário, de forma individualizada. 3 diretrizes do acolhimento integrado O Acolhimento Integrado em questão foi implantado no ambulatório de Diabetes dentro do projeto de extensão universitária “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus, desenvolvido no Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF). Este projeto segue as diretrizes da Política Nacional de Humanização (PNH) do Ministério da Saúde do Brasil e se concretiza como um comprometimento com o cuidado, a recuperação, a promoção e a prática de produção de saúde. O fundamento do Acolhimento está no encontro entre o profissional de saúde e o usuário. A partir desse encontro é possível a criação de um espaço de intercessão que promova os processos de produção de saúde. Segundo Franco et al. (1999), os espaços de intercessão criados pelo Acolhimento visam à produção de relações de escuta e responsabilização, as quais se articulam com a constituição dos vínculos e dos compromissos em projetos de intervenção. Em sua ação, o Acolhimento Integrado busca a concretização de processos de produção de saúde e autonomia das pessoas implicadas, produzindo de forma conjunta saúde e subjetividade. De acordo com Teixeira (2003), mais que a construção de vínculo e responsabilização – o que é sem dúvida muito importante, o acolhimento possibilita a mudança na relação de poder técnico-usuário. O processo de operacionalização do Acolhimento retira o paciente do lugar passivo e o torna agente de seu processo de produção de saúde. Com isso, serviço e tratamento passam a se organizar em torno de sua subjetividade e sua demanda, tornando-se assim usuário-centrado. O Acolhimento, pautado na integralidade, busca não só o olhar integral sobre o usuário, reconhecendo-o além do âmbito de uma especialidade da saúde, mas também buscando uma orientação conjunta para seu tratamento. Ao somar a ideia de integralidade à de acolhimento, buscamos 35 formas mais abrangentes e ampliadas de atuar, face às necessidades do indivíduo que procura o serviço de saúde. Por isso sua operacionalização é pensada de forma articulada às outras formas de ação desenvolvidas. Articular o Acolhimento às demais práticas no ambulatório de Diabetes torna-se necessário para que exista responsabilização e continuidade do trabalho construído. 3.1 rotina do acolhimento Para a implantação do Acolhimento Integrado, primeiramente, foi criado um grupo interdisciplinar de estudo abordando as temáticas: Acolhimento, Integralidade e Saúde Pública. Após o período de levantamento bibliográfico, foi iniciada uma etapa de estudo e debate entre os membros da equipe, visando a criação do projeto de implantação do Acolhimento Integrado. Uma vez criado o esboço do projeto, o mesmo foi apresentado e debatido, mais uma vez, por toda a equipe do ambulatório e, após algumas modificações, foi testado e, enfim, colocado em prática, tornando-se a porta de entrada do paciente diabético no ambulatório. Todos os usuários que chegam ao serviço para o tratamento do diabetes, seja para primeira consulta ou para consulta de retorno, passam pelo Acolhimento Integrado antes do encontro com qualquer das especialidades. Existe, portanto, o Acolhimento Inicial e Acolhimento de Retorno. O Acolhimento Inicial é feito por ocasião da primeira consulta no ambulatório, e os dados registrados em ficha abrangem: identificação que inclui a data de nascimento do usuário; endereço, telefone, composição familiar e unidade primária de referência (figura 1). O Acolhimento de Retorno busca avaliar o que mudou da última consulta até o presente momento e indagar como está o tratamento, contemplando um número menor de perguntas (figura 2). Ambos os tipos de acolhimento são formados por perguntas básicas de cada área participante do projeto. Estas perguntas propiciam um olhar integrado sobre o usuário, além de servir como fonte para identificação das necessidades de cada indivíduo. Vale lembrar, todavia, que mais importante que as perguntas relacionadas a cada uma das disciplinas é a escuta da demanda que o usuário traz ao ambulatório. Como a concepção do Acolhimento se baseou no conceito da interdisciplinaridade, sua operacionalização também possui essa característica. O acolhimento pode ser feito por qualquer trabalhador da equipe de saúde do ambulatório, não se tornando restrito a nenhuma área de saúde. Sua prática 36 é pautada na escuta interessada dos integrantes da equipe, a fim de detectar a demanda de cada usuário e destacar a queixa de uma determinada forma de tratamento. O objetivo é escutar o sujeito em sua completitude: “sua fala deve ser privilegiada não como manifestação patológica que exige correção ou resposta imediata, mas como possibilidade de fazer aparecer outra dimensão da queixa que singulariza o pedido de ajuda” (FIGUEIREDO, 1997). O acolhimento, dessa maneira, não tem como objetivo promover respostas ou intervenções, mas a coleta de informações relevantes com o objetivo de avaliação do caso e encaminhamento aos demais membros da equipe. O profissional que acolhe o usuário passa a se responsabilizar por sua escuta e encaminhamento do usuário dentro do ambulatório. 3.2 a experiência do acolhimento A implantação do Acolhimento Integrado no Ambulatório de Diabetes do HU-UFJF proporcionou modificações significativas no atendimento ao usuário e no trabalho da equipe. Verificou-se a melhoria na qualidade da porta de entrada do serviço, garantindo, aos pacientes, acessibilidade a um número maior de especialidades. Constatou-se que a modificação no modelo técnico assistencial permitiu também o melhor acompanhamento dos casos atendidos e a possibilidade de avaliação constante do serviço prestado bem como mudanças na relação “trabalhador de saúde-usuário”, com ampliação dos espaços de intercessão entre eles. O Acolhimento possibilitou a mudança de uma estrutura de atendimento “médicocentrada” para uma estrutura “usuário-centrada”. Como o processo de trabalho passou a se organizar a partir da escuta atenta às necessidades dos usuários, o médico tem sido retirado do centro do processo, passando a figurar em pé de igualdade com os demais trabalhadores da equipe interdisciplinar. Mais do que a recepção ao diabético, o Acolhimento despertou para a importância da ampliação das práticas interdisciplinares, resultando na criação de um espaço sistematizado de discussão de casos. Observouse que a conquista da interdisciplinaridade e o atendimento usuáriocentrado, propiciado pelo Acolhimento, gerou maior rendimento dos profissionais não médicos; possibilitou maior oferta de serviços bem como o acesso a eles; elevou a motivação dos trabalhadores e, por fim, resultou em um atendimento mais integrado e não fragmentado ao usuário do serviço de saúde. 37 4 reFerências FIGUEIREDO, A. C. Vastas confusões e atendimentos imperfeitos: a clínica psicanalítica no ambulatório público. 2. ed. Rio de Janeiro: 1997. FRANCO, T. B. et al. O acolhimento e os processos de trabalho em saúde: o caso de Betim, Minas Gerais, Brasil. Caderno de Saúde Pública, v. 15, n. 2, p. 345-353, abr./jun. 1999. MATTOS, R. A. Os sentidos da Integralidade: algumas reflexões acerca de valores que merecem ser defendidos. In: PINHEIRO, R.; MATTOS, R. A. (Orgs.) Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: IMS-UERJ, 2001. p. 39-64. MERHY, E. E.; ONOCKO, R. (Orgs.) Agir em saúde: um desafio para o público. São Paulo: HUCITEC, 1997. BRASIL. Ministério da Saúde. Acolhimento nas práticas de produção de saúde. 2. ed. Brasília, 2008. TEIXEIRA, R. R. O Acolhimento num serviço de saúde entendido como uma rede de conversação. In: MATTOS, R. A.; PINHEIRO, R. (Org). Construção da Integralidade: cotidiano, saberes e práticas em saúde. Rio de Janeiro: IMS- UERJ- ABRASCO, 2003, p. 91-108. 38 CAPÍTULO 3 ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS DO DIABETES MELLITUS AUTORES: Antônio Paulo André de Castro Marcelo Cruzick de Souza Mônica Barros Costa 1 introdução Algumas características do diabetes mellitus, tais como sua natureza crônica, a gravidade de suas complicações e as peculiaridades de seu tratamento contribuem para caracterizá-la como uma doença onerosa, não apenas para os indivíduos afetados e suas famílias, mas também para o sistema de saúde. Os custos dos cuidados de saúde para um indivíduo com diabetes mellitus, é estimado em duas a três vezes superiores aos gastos com os indivíduos sem a doença. Todavia, os custos relacionados a essa enfermidade não são apenas um problema econômico, já que os custos intangíveis, como dor, ansiedade e perda de qualidade de vida também exercem grande impacto na vida das pessoas portadoras de diabetes mellitus e de suas famílias e são difíceis de serem quantificados. 2 aspectos socioeconômicos O custo efetivo dos cuidados disponibilizados pelo sistema de saúde ao paciente diabético tende a ser superior àquele destinado à assistência sanitária aos indivíduos que não possuem a doença. Paralelamente, sabe-se que as ações preventivas em indivíduos com pré diabetes são isentas de risco, de baixo custo e alto impacto sobre a história natural da doença. Todavia, uma vez instalada a doença, muitas vezes estão indicadas terapias que envolvem procedimentos de alta tecnologia e elevado custo. Com freqüência, múltiplas internações, geralmente de duração prolongada, se fazem necessárias para o tratamento das complicações crônicas da doença, tanto micro quanto macrovasculares. Sabe-se, por exemplo, que o volume de recursos destinados a indivíduos diabéticos guarda relação diretamente proporcional ao tempo de evolução, aos níveis de hemoglobina glicada e à presença de complicações macro e microvasculares (GILMER, 2005). Em 2011, cerca de 11% dos gastos com a saúde da população adulta mundial foram destinados aos cuidados com o diabetes mellitus, suas complicações e reabilitação de seqüelas (INTERNATIONAL DIABETES FEDERATION, 2011). Vários inquéritos epidemiológicos evidenciam grande aumento do número de casos de diabetes mellitus nas mais diversas populações, chegando a atingir proporções epidêmicas, sobretudo nos países considerados em desenvolvimento. Dados da população brasileira chamam atenção, ainda, para a maior prevalência da doença com o avançar da idade, atingindo 15,2% da população entre 55 e 64 anos e 21,6% da população com mais de 65 anos. Paralelamente, é maior o número de casos entre indivíduos com menor escolaridade, variando de 3,7% a 7,5%, nos indivíduos com mais de 12 anos e menos de oito anos de educação formal, respectivamente (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012). Quanto às estatísticas relacionadas à mortalidade, o número de óbitos atribuídos ao diabetes mellitus, em nível mundial, situa-se em torno de cinco milhões sendo fato bem estabelecido que esse número seja geralmente, subestimado. Freqüentemente, o diabetes mellitus não é mencionado na declaração de óbito pelo fato de serem suas complicações, particularmente as cardiovasculares e cerebrovasculares, as causas da morte, e essas são as causas que figuram nas estatísticas de mortalidade. Merece destaque ainda o fato de que a maioria desses óbitos é prematura, ocorrendo quando os indivíduos estão em fase economicamente produtiva (INTERNATIONAL DIABETES FEDERATION, 2011). Na maioria dos países desenvolvidos, 40 quando se analisa apenas a causa básica do óbito, verifica-se que o diabetes mellitus figura entre a quarta e a oitava posição (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2003). Além da mortalidade cardiovascular, das hospitalizações e do absenteísmo, as deficiências físicas decorrentes das complicações do diabetes mellitus muitas vezes impedem o indivíduo de exercer suas atividades laborativas, em caráter definitivo, o que pode ser estimado pelo indicador conhecido como anos de vida perdidos ajustados por incapacidade (DALYs – disability adjusted life years). Em 1999, o diabetes mellitus apresentava um índice de 12 por mil habitantes, isto é, a cada 1000 habitantes ocorre uma perda de 12 anos produtivos em consequência da doença, que ocupa a oitava posição e superado em ordem decrescente pelos grupos das doenças infecciosas e parasitárias, neuropsiquiátricas, cardiovasculares, respiratórias crônicas, do aparelho digestivo, neoplasias malignas e doenças musculoesqueléticas (SCHRAMM, 2004). Nessa comparação deve-se levar em conta que o diabetes mellitus, como única entidade, está sendo comparado com grupos de doenças e, ainda assim, pode ser notada a sua importância (GIMENO, 2000). 3 aspectos do diabetes mellitus no mundo A prevalência de diabetes mellitus tem aumentado em proporções epidêmicas: a doença que, em 1985, acometia cerca de 30 milhões e em 1995, 135 milhões de indivíduos, em 2005 atingiu a prevalência de 4,3 bilhões. Além disso, previsões para os próximos anos apontam que em 2030, 5,6 milhões de indivíduos em todo o mundo serão portadores de diabetes mellitus, o que corresponderia a três novos casos a cada segundo. Acredita-se, ainda, que neste mesmo ano, 398 milhões de indivíduos terão tolerância diminuída à glicose, condição clínica que evolui, na maioria dos casos para diabetes mellitus, em um período de 10 anos (WILD, 2004; INTERNATIONAL DIABETES FEDERATION, 2011). Cerca de dois terços dos indivíduos portadores de diabetes mellitus vivem nos países em desenvolvimento, onde a epidemia tem maior intensidade, com crescente proporção de indivíduos pertencentes a grupos etários mais jovens (WILD, 2004). Nos países desenvolvidos, aproximadamente 85 a 95% dos casos são de diabetes mellitus tipo 2 (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2003) e, em todo o mundo, cinco a 10% de todos os casos diagnosticados de diabetes mellitus são do tipo 1 (CENTERS FOR DISEASE CONTROL, 2005). 41 A incidência do diabetes mellitus tipo 2 é difícil de ser determinada, na grande maioria das populações, por implicar na realização de estudos prospectivos de longa duração. Dessa forma, os estudos de incidência são geralmente restritos ao diabetes mellitus tipo 1, tendo em vista ser seu início geralmente abrupto e serem suas manifestações iniciais mais características. Atualmente, sabe-se que a incidência do diabetes mellitus tipo 1 situase em torno de 3% ao ano e vem aumentando, particularmente na população abaixo de 15 anos de idade (INTERNATIONAL DIABETES FEDERATION, 2011). As regiões de maior prevalência de diabetes mellitus tipo 2 são o Kiribati (25,7%) e as Ilhas Marshall (22,2%), na Oceania. Além dos nativos de Nauru, (ZIMMET, 1990, INTERNATIONAL DIABETES FEDERATION, 2011), algumas outras populações, com predisposição genética para desenvolver diabetes mellitus quando submetidas a condições ambientais desfavoráveis, a prevalência da doença atinge proporções epidêmicas tais como os índios Pima norte-americanos (KNOWLER, 1990) e os aborígenes da Austrália (O`DEA, 1991). 4 aspectos do diabetes mellitus no brasil No Brasil, os dados epidemiológicos sobre doenças crônicas são pouco conhecidos. O estudo multicêntrico realizado no final da década de 1980 com população urbana entre 30 e 69 anos, em nove capitais do país, encontrou prevalência de diabetes mellitus tipo 2 e tolerância diminuída à glicose de 7,6% e 7.8%, respectivamente. Destes, apenas 54% se declararam portadores de distúrbios do metabolismo de glicose na ocasião da investigação, dado alarmante, tendo em vista o risco de instalação silenciosa de complicações crônicas micro e macrovasculares em indivíduos com diagnóstico tardio. (MALERBI, 1992). Estudos mais recentes apontam para taxas mais elevadas, situando-se em 12,1% no estudo de Ribeirão Preto, SP (TORQUATO, 2003). O Ministério da Saúde mantém um banco de dados alimentado pelos serviços de assistência primária do Sistema Único de Saúde, em que se cadastram indivíduos sob cuidados devido à hipertensão arterial e/ou diabetes mellitus (HIPERDIA) que embora não represente a totalidade da população, fornece alguns dados relevantes sobre a realidade nacional. No período compreendido entre janeiro de 1999 e dezembro de 2008, o cadastro incluiu mais de sete milhões de brasileiros portadores de diabetes mellitus com ou sem hipertensão arterial, com predomínio do 42 sexo feminino. Paralelamente, o Ministério da Saúde desenvolveu um sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas não transmissíveis por inquérito telefônico (VIGITEL), que corrobora com os dados do HIPERDIA. Segundo este levantamento, em 2011, 6% das mulheres e 5,2% dos homens referem o diagnóstico médico prévio de diabetes mellitus, demonstrando-se, como fatores positivamente relacionados à ocorrência da doença, a idade avançada e a menor escolaridade (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012) 5 Fatores de risco para diabetes mellitus Na gênese da crescente prevalência de diabetes mellitus estão envolvidos o crescimento e o envelhecimento populacionais, a maior urbanização, a maior sobrevida dos indivíduos diabéticos, alcançada por melhoria na assistência e na prevenção de complicações além da crescente prevalência de obesidade e sedentarismo, associados a rápidas transformações culturais e sociais (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1994). 5.1 Fatores de risco não modiFicáveis Idade A maior prevalência de tolerância diminuída à glicose e diabetes mellitus tipo 2 é descrita na faixa etária de 40 a 59 anos, e, em nível global, deve permanecer assim até 2030. Dados da International Diabetes Federation (2011) apontam que a prevalência de diabetes mellitus é maior na faixa etária de 40 a 59 anos, com mais de 132 milhões de indivíduos acometidos. A influência da idade na prevalência de diabetes mellitus e na tolerância à glicose diminuída foi também evidenciada pelo Estudo Multicêntrico sobre a Prevalência do Diabetes no Brasil (MALERBI, 1992). Corroboram estes dados, os achados do estudo VIGITEL 2011, que mostram importante variação de prevalência de diabetes mellitus quando a doença é diagnosticada entre indivíduos jovens, de 18 a 24 anos ou em idosos acima de 65 anos de idade, com cifras de 0,6% e de 21,6%, respectivamente (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012). Gênero A prevalência global de diabetes mellitus é discretamente maior nos homens. Todavia, vale lembrar que, em razão do envelhecimento da população e da 43 maior proporção, em números absolutos, de mulheres entre os idosos, existe maior número de diabéticos, entre indivíduos do sexo feminino, conforme apontam Wild e colaboradores (2004). No Brasil, segundo o estudo Vigitel, a frequência do diagnóstico médico referido de diabetes mellitus, em 2011, foi de 5,2%, em homens e 6%, em mulheres, em indivíduos acima de 18 anos de idade (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2012). Raça Entre norte-americanos não hispânicos com mais 20 anos de idade, 9,8% dos indivíduos brancos e 14,7%, dos negros têm o diagnóstico de diabetes mellitus podendo a prevalência alcançar números alarmantes em populações geneticamente selecionadas, nativas da América (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2005). Dados ajustados para a idade mostram um risco relativo para a doença de 2,2 entre nativos do Alasca, indígenas do sudeste norte-americano e, em especial, aqueles do sudeste do Arizona. No estudo longitudinal, que acompanhou os índios Pima, entre 1965 e 2007, foi evidenciada grande susceptibilidade genética para a ocorrência de transtornos do metabolismo de glicose, nessa população (KNOWLER, 1990; BAIER, 2004). No entanto, estudos a respeito do papel da dieta, do sedentarismo e outros aspectos da vida urbana sobre os transtornos do metabolismo de glicose demonstram que o impacto dos fatores de risco modificáveis supera as raízes étnicas. Dados do National Diabetes Fact Sheet (CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 2005) demonstram que a prevalência de diabetes mellitus pode atingir cifras de 27,6% entre índios Pima, que vivem no sudeste do Arizona, EUA expostos ao estilo de vida ocidental o que não ocorre entre aqueles que mantêm hábitos de sua cultura rural e vivem em Sonora, México (KNOWLER, 1990; BAIER, 2004). 5.2 Fatores de risco modiFicáveis Hábitos alimentares e sedentarismo Mudanças no estilo de vida trazem consigo a adoção de novos tipos de dieta, próprios de países ocidentais e industrializados. Existe um grande contraste entre as dietas tradicionais, pobres em gorduras e açucares, com carboidratos derivados, em sua maior parte de alimentos ricos em fibras e 44 com gorduras do tipo insaturado e as “modernas” dietas ricas em calorias, açúcares e gorduras saturadas. É crescente o número de evidências de que aspectos da vida urbana moderna, caracterizada por comportamentos de risco, tais como dieta inadequada e sedentarismo, interferem na história natural do diabetes mellitus tipo 2. Estudos conduzidos entre os índios Pima norte-americanos evidenciaram que populações indígenas sem distinção étnica, vivendo em regiões urbanas e rurais apresentam significativa diferença de prevalência de diabetes mellitus sendo descritas taxas de 11,6% e 2,4%, respectivamente (RAMACHANDRAN, 1999; SCHULZ, 2006). Outros aspectos a serem destacados são as repercussões de mudanças no estilo de vida, em curto período de tempo, em grupos de migrantes. No Brasil, estudo realizado na comunidade nipo-brasileira mostrou aumento vertiginoso na prevalência do diabetes mellitus, cuja taxa passou de 18,3% em 1993 para 34,9% em 2000, sugerindo que alterações no estilo de vida, em particular do padrão alimentar, interagindo com uma provável suscetibilidade genética estejam relacionadas ao aparecimento da doença (GIMENO, 2000). De fato, a incorporação de hábitos de vida saudáveis, incluindo dieta equilibrada, a prática regular de exercícios físicos com metas de peso adequadas mostrou-se capaz de reduzir em 58% a progressão de estados pré diabéticos para diabetes mellitus. (TUOMILEHTO, 2001). Nesse sentido, estudos de prevenção secundária demonstram que as mudanças de estilo de vida apresentaram resultados mais promissores do que a intervenção farmacológica (KNOWLER, 2002, PADWAL, 2005). Obesidade Estudos prospectivos demonstram que o índice de massa corporal e a circunferência abdominal são preditores de desenvolvimento de diabetes mellitus (NASCIMENTO, 2003). Além dos transtornos do metabolismo de glicose, a hipertensão arterial e a dislipidemia se mostraram mais freqüentes em indivíduos com excesso de peso na vida adulta (GIMENO, 2000). Dados da International Diabetes Federation e da International Obesity Task Force (IDF/IOTF) relacionam a presença de obesidade com a progressão de 58% dos casos de tolerância diminuída à glicose para diabetes mellitus (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2003). 45 Pré diabetes Em 1997, a American Diabetes Association propôs uma nova classificação para o diabetes mellitus e sugeriu a adoção de duas situações consideradas de risco estatístico para o desenvolvimento da doença (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2009). Acredita-se que, tais estados conhecidos como pré diabetes, que incluem a glicemia de jejum alterada e a tolerância diminuída à glicose antecedam a instalação do diabetes mellitus tipo 2. Todavia, como tais condições se relacionam diretamente à maior mortalidade cardiovascular ou global, torna-se fundamental a instituição de medidas de prevenção secundária tão logo se obtenha o diagnóstico de um estado pré diabético (KIM, 2008). Estima-se que, em 2011, 280 milhões de indivíduos, ou seja, 6,4% da população adulta apresentem tolerância diminuída à glicose, sendo a maioria dos indivíduos residente em países de baixa renda per capita. O mais alarmante é que, sem intervenção, grande número desses indivíduos vão progredir para diabetes mellitus tipo 2 clinicamente instalado (INTERNATIONAL DIABETES FEDERATION, 2011; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2003). 6 considerações Finais Tornam-se fundamentais iniciativas que busquem atuar seja no âmbito da prevenção primária, com a redução da incidência do diabetes mellitus, seja na prevenção secundária tentando diminuir a ocorrência das complicações crônicas relacionadas à doença ou em nível terciário, visando reduzir o impacto das complicações já instaladas sobre a qualidade de vida dos indivíduos diabéticos. 7 reFerências AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Standards of medical care in diabetes – 2009. Diabetes Care, v. 32, suppl. 1, p. S13-S61, 2009. BAIER, L. J. et al. Genetic studies of the etiology of type 2 diabetes in Pima Indians: hunting for pieces to a complicated puzzle. Diabetes, v. 53, p. 1181-1186, 2004. 46 CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. 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Diabetes Metab Rev, v. 6, p. 91-124, 1990. 48 CAPÍTULO 4 ATUAÇÃO DO MÉDICO EM UM PROGRAMA DE EDUCAÇÃO EM DIABETES AUTORES Ana Carmen dos Santos Ribeiro Simões Juliano Mônica Barros Costa 1 introdução A prevalência de diabetes mellitus tem atingido proporções epidêmicas, constituindo grave problema de Saúde Pública, tendo em vista os elevados índices de morbimortalidade e os custos para o sistema de saúde, relacionados às complicações da doença. Esse aumento da prevalência, especialmente no que diz respeito ao diabetes mellitus tipo 2, está relacionado, sobretudo, às mudanças nos hábitos de vida da sociedade moderna, com ênfase no sedentarismo e na obesidade (CEFALU, 2004; MOKDAD, 2001). O diabetes mellitus representa um grupo de transtornos metabólicos de etiologia diversa, conseqüentes à deficiência absoluta ou relativa de insulina, cujo resultado final é o aumento da glicemia. Os principais sinais e sintomas da doença incluem poliúria, polifagia, polidipsia, perda inexplicada de peso, astenia, turvação visual, dificuldade inexplicável de cicatrização e infecções, sendo importante lembrar, todavia, que a doença pode permanecer assintomática por vários anos. As alterações metabólicas características do diabetes mellitus são as principais responsáveis pelas complicações da doença. A descompensação aguda pode gerar quadros emergenciais, como a cetoacidose diabética e o estado hiperosmolar hiperglicêmico não cetótico. Por outro lado, a hiperglicemia, em longo prazo, gera complicações crônicas, tais como transtornos cardiovasculares, neuropatia, nefropatia e retinopatia. O tratamento do diabetes se baseia em quatro pilares básicos: adoção de dieta adequada; prática regular de atividade física; tratamento medicamentoso, que inclui uso de medicações por via oral e/ou parenteral e educação do paciente para o tratamento adequado. Nesse sentido, a adesão ao tratamento constitui um grande desafio na prática clínica, e a abordagem interdisciplinar da doença propicia melhor qualidade de vida, diminuição da incidência de complicações e maior sobrevida. 2 classiFicação do diabetes mellitus A classificação atual foi proposta pela American Diabetes Association em 1997, e caracteriza o diabetes mellitus em quatro tipos principais: diabetes mellitus tipo 1, diabetes mellitus tipo 2, diabetes mellitus gestacional e outros tipos específicos de diabetes (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2012). Neste Manual, devido à maior freqüência, será dada ênfase ao diabetes mellitus tipo 1 e ao diabetes mellitus tipo 2. Diabetes mellitus tipo 1 O diabetes mellitus tipo 1, que responde por cerca de 10% dos casos da doença, ocorre devido à destruição auto imune ou idiopática das células beta das ilhotas pancreáticas, levando à deficiência absoluta de insulina. Pode ocorrer em qualquer idade, mas geralmente surge antes dos 30 anos, sendo evidente a necessidade de insulinoterapia, desde o diagnóstico (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2012). É mais comum em indivíduos magros, mas também pode acometer indivíduos obesos e, na maioria dos casos, o quadro se inicia abruptamente, com poliúria, polifagia, polidipsia e emagrecimento, podendo a cetoacidose diabética ser a primeira manifestação da doença. Em adultos, a instalação da doença pode dar-se de forma mais arrastada, caracterizando o diabetes auto imune latente do adulto (LADA) (SILVA, 2003). 50 Na etiopatogenia desse tipo de diabetes, suspeita-se que fatores genéticos, mimetismos moleculares de agentes infecciosos e o tipo de amamentação, dentre outros, tenham relação com a resposta imune patológica. Porém, os mecanismos exatos que levam à agressão das células beta permanecem desconhecidos. Apesar do conhecimento crescente, a prevenção do diabetes mellitus tipo 1 é ainda um desafio. A análise genética e a identificação precoce de auto anticorpos circulantes poderiam ser interessantes, embora um perfil genético ou imunológico de alto risco não implique necessariamente no desenvolvimento da doença e um perfil de baixo risco não exclua a possibilidade de sua ocorrência. Além disso, a interrupção dos fenômenos imunológicos antes do surgimento da doença clínica é outra abordagem que possui importantes linhas de pesquisa (EUROPEAN NICOTINAMIDE DIABETES INTERVENTION TRIAL, 2004; THE EURODIAB SUBSTUDY 2 STUDY GROUP, 2004; DIB, 2008). No âmbito da prevenção terciária, a pesquisa com células tronco vem apresentando resultados promissores, tanto em animais quanto em humanos (COURI, 2009). Diabetes mellitus tipo 2 O diabetes mellitus tipo 2, conseqüência da resistência dos tecidos à ação da insulina, associada ou não à queda na produção deste hormônio é a forma mais comum da doença, responsável por 80 a 90% dos casos. Além de fatores genéticos, esse tipo de diabetes mostra íntima relação com o estilo de vida caracterizado pelo sedentarismo, adoção de dieta inadequada e, conseqüentemente, obesidade, podendo a intervenção sobre estes fatores de risco prevenir ou retardar o aparecimento da doença (MOKDAD, 2001). Esse tipo de diabetes tende a se iniciar após a quarta década, podendo acometer, todavia, indivíduos mais jovens e até mesmo crianças, sendo a maioria dos pacientes portadores de obesidade ou sobrepeso. Como o quadro é mais insidioso, pode-se notar a presença de complicações crônicas por ocasião do diagnóstico, mostrando que a doença provavelmente estava presente, de maneira assintomática, por um longo período de tempo. Na história natural, inicialmente ocorre resistência à ação da insulina e conseqüente aumento na produção desse hormônio, até que chega um momento em que este mecanismo compensatório se torna insuficiente, ocorrendo deficiência relativa de insulina e hiperglicemia. Com a evolução da doença, outros fatores contribuem para disfunção e morte das células beta, tais como glicotoxicidade, lipotoxicidade e citocinas, dentre outros (LEE, 2007). 51 No contexto de diabetes mellitus tipo 2, deve ser feita, também, referência à síndrome metabólica. Este diagnóstico engloba um grupo de comorbidades relacionadas à obesidade visceral e à resistência insulínica, como transtornos do metabolismo da glicose, hipertensão arterial e dislipidemia. A presença de síndrome metabólica implica em risco aumentado para o desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2 e em aumento do risco cardiovascular (CEFALU, 2004). Dentre os vários critérios para o diagnóstico desta síndrome, o mais aceito é o proposto pelo National Cholesterol Education Program (2002) e referendado pelo Consenso Brasileiro sobre Síndrome Metabólica (SPOSITO, 2007), segundo o qual o diagnóstico é feito pela presença de dois ou mais dos fatores relacionados no quadro 1. Obesidade central: circunferência da cintura ≥ 88 cm, em mulheres e ≥ 102 cm, em homens) Hipertensão arterial: pressão arterial sistólica ≥ 130mmHg e/ou pressão arterial diastólica ≥ 85 mmHg Glicemia de jejum alterada: ≥ 100 mg/dL ou diagnóstico de diabetes mellitus Níveis de triglicérides ≥ 150 mg/dL; Níveis de colesterol HDL ≤ 50 mg/dL, em mulheres e ≤ 40 mg/dL, em homens Quadro 1 – Critérios diagnósticos para síndrome metabólica, segundo NCEP-ATP III Diabetes mellitus gestacional É definido como qualquer grau de intolerância à glicose que seja diagnosticado durante a gestação, não incluindo, portanto, os casos de diabetes mellitus presentes antes da gravidez. A importância do diagnóstico está relacionada não só ao tratamento diferenciado que o binômio mãe feto deverá merecer ao longo da gestação, no parto e no pós-parto como também ao fato de que pacientes que desenvolvem diabetes mellitus durante a gestação possuem risco aumentado de se tornarem diabéticas no futuro, quando comparadas à população geral. Outros tipos de diabetes Esse grupo inclui várias situações clínicas em que o diabetes mellitus surge como conseqüência de outras condições, como no uso de medicamentos hiperglicemiantes (glicocorticóides, diuréticos tiazídicos, interferon etc), nas endocrinopatias (síndrome de Cushing, feocromocitoma, acromegalia etc), além de defeitos genéticos da função das células beta e doenças do pâncreas exócrino, dentre outros. 52 Rastreamento de diabetes mellitus em indivíduos assintomáticos Para que na pesquisa de novos casos de diabetes mellitus seja preservado o caráter de custo-efetividade da atenção à saúde, o rastreamento da doença em indivíduos assintomáticos deve seguir as recomendações da American Diabetes Association (2012). Recomenda-se o rastreio em indivíduos adultos, com índice de massa corporal superior a 25kg/m2 e que apresentem algum dos seguintes fatores de risco: – sedentarismo; – história familiar, em parentes de primeiro grau de diabetes; – história de filho macrossômico ou de diagnóstico prévio de diabetes gestacional; – hipertensão arterial; – níveis de colesterol HDL < 35mg/dL e/ou triglicérides > 250mg/dL; – síndrome dos ovários policísticos; – HbA1c ≥ 5,7%, glicemia de jejum alterada ou intolerância à glicose, em exames anteriores; – outras condições clínicas associadas à resistência insulínica como obesidade mórbida e acantose nigricans; – história de doença cardiovascular; – características étnicas de alto risco (África, Américas, Ásia, Ilhas do Pacífico). Na ausência dos critérios acima, o rastreamento deve ser iniciado em indivíduos acima dos 45 anos de idade. Estando os exames de triagem normais, recomenda-se repeti-los a cada três anos, ou mais freqüentemente, dependendo dos resultados iniciais e do status de risco. Em mulheres que apresentaram diabetes gestacional os testes de rastreio devem ser realizados entre seis a 12 semanas após o parto. 3 diagnóstico do diabetes mellitus Segundo as Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes, o diagnóstico de diabetes mellitus e de pré-diabetes pode ser feito com base na glicemia de jejum, no teste oral de tolerância à glicose e na glicemia casual, conforme pode ser visto na figura 1. O uso da hemoglobina glicada para diagnóstico da doença pode ser considerado, desde que o método utilizado seja devidamente certificado pelo National Glycohemoglobin Standardization Program (http:// www.ngsp.org) (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2011). 53 Figura 1 – Critérios diagnósticos de diabetes mellitus 4 complicações do diabetes mellitus 4.1 complicações agudas As três principais complicações agudas do diabetes mellitus incluem a cetoacidose diabética, o estado hiperosmolar hiperglicêmico não cetótico e a hipoglicemia. 54 Cetoacidose diabética e Estado hiperosmolar hiperglicêmico não cetótico A cetoacidose diabética, relacionada principalmente ao diabetes mellitus tipo 1, é um distúrbio no qual, devido à deficiência de insulina, o organismo passa a extrair energia através da quebra de triglicérides em ácidos graxos livres, liberando corpos cetônicos, como subproduto, na corrente sanguínea. À medida que a quantidade de corpos cetônicos aumenta, o pH sanguíneo diminui, resultando em acidose metabólica (BARONE, 2007). Os sinais e sintomas mais característicos dessa complicação consistem em poliúria, polidipsia, taquipnéia e hálito cetônico. O diagnóstico laboratorial se dá através da comprovação de acidose metabólica com anion gap aumentado (para esse cálculo, devem ser solicitados gasometria arterial e dosagens de sódio, potássio e cloretos) e através da dosagem da cetonemia. A cetonúria possui pouco valor no diagnóstico pois, habitualmente, tornase positiva em um período mais tardio da instalação da doença. No diabetes mellitus tipo 2, a cetoacidose é rara, sendo mais comum o estado hiperosmolar hiperglicêmico não cetótico, no qual a glicose se eleva a ponto de alterar a osmolaridade sanguínea. Este evento tem mortalidade mais alta que a cetoacidose diabética, uma vez que o paciente em geral é idoso e apresenta comorbidades. O tratamento é semelhante nos dois casos, com medidas de reidratação e insulinoterapia, preferencialmente por via endovenosa ou intramuscular. Quando a glicemia atinge 250 mg/dL, mantém-se a insulinoterapia e acrescenta-se soro glicosado a 5%, procurando manter a glicemia em torno de 150 a 200 mg/dL até a reversão da acidose. Após melhora do pH sanguíneo e dos vômitos, inicia-se insulina subcutânea e alimentação. Além disso, os níveis séricos de potássio devem ser cuidadosamente monitorados com reposição, estando a diurese preservada. Hipoglicemia A hipoglicemia é a complicação aguda mais comum no diabetes mellitus, especialmente nos pacientes em uso de insulina ou secretagogos de insulina. O quadro clínico caracteriza-se por palpitação, taquicardia, ansiedade, tremores, sudorese, fome, parestesias, cefaléia, irritabilidade, alterações de comportamento, alterações do nível de consciência, manifestações focais, convulsões. Pacientes compensados tendem a ser menos sintomáticos enquanto que pacientes cronicamente descompensados podem apresentar 55 sintomas de hipoglicemia mesmo com glicemias dentro dos limites da normalidade. Caso o paciente faça uso de betabloqueadores ou sofra de neuropatia autônoma, os sintomas tendem a ser mais leves. O tratamento é feito com infusão precoce de glicose a 50%, por via endovenosa. Caso não se consiga acesso venoso, pode-se usar 1 a 2 mg de glucagon, por via intramuscular. Em casos oligossintomáticos, pode ser tentada a reposição de glicose por via oral. 4.2 complicações crônicas Oftalmopatia Diabética A retinopatia diabética é a principal causa de cegueira, na faixa etária de 20 e 74 anos, nos Estados Unidos e, além disso, pacientes diabéticos têm maior risco de desenvolverem outros tipos de oftalmopatia, como catarata e glaucoma (JEGANATHAN, 2008). A hiperglicemia crônica leva à lesão da microcirculaçao retiniana, com formação de microaneurismas, exsudatos e hemorragias intrateciduais que levam à hipoxemia crônica e a consequente neovascularizaçao. Os neovasos são frágeis e com a tração do humor vítreo, podem se romper, causando hemorragia retiniana, fibrose e descolamento da retina. O tratamento para a retinopatia diabética inclui, antes de tudo, o controle da glicemia, da pressão arterial e do perfil lipídico, utilizando-se a fotocoagulação com laser em lesões já instaladas e a vitrectomia, em casos mais avançados (BOSCO, 2005). Nefropatia Diabética A nefropatia diabética está entre as principais causas de doença renal crônica no Brasil e no mundo. A história natural da doença se inicia com hiperfiltração glomerular, alterações na membrana basal glomerular e hipertrofia renal. Como consequência, inicialmente detecta-se a microalbuminúria, isto é, eliminação urinária de 30 a 300 mg de albumina em 24 horas, a qual tende a progredir para macroproteinúria, ou seja, excreção urinária de albumina superior a 300 mg/24horas e declínio na função renal. O tratamento é feito através do controle metabólico intensivo, além de controle dos níveis pressóricos, preferencialmente com uso de inibidores da enzima de conversão da angiotensina e bloqueadores dos receptores da angiotensina I, além do combate à dislipidemia e ao tabagismo (GROSS, 2005). 56 Neuropatia Diabética A neuropatia diabética inclui, principalmente, os quadros de polineuropatia, mononeuropatia e neuropatia autonômica (FREITAS, 2008). A polineuropatia é geralmente bilateral, caracterizada por hiperestesia, disestesia ou parestesia que, com a progressão da destruição das fibras nervosas, evolui para perda de sensibilidade, hiporreflexia e alteração proprioceptiva. A mononeuropatia manifesta-se como disfunção isolada de nervo periférico ou craniano, enquanto a disfunção autonômica pode se manifestar de várias formas, como taquicardia ao repouso, hipotensão postural, disfunções de trato gastrointestinal e disfunção erétil, entre outras. Também pode ocorrer perda dos sintomas adrenérgicos secundários à hipoglicemia, levando o paciente a risco aumentado de hipoglicemia grave (MEYER, 1998). No âmbito do tratamento, além das medidas gerais de controle do diabetes, devem-se suspender substâncias neurotóxicas, como álcool e tabaco e tratar deficiências vitamínicas. O controle da dor se dá através de agentes antidepressivos e anticonvulsivantes, nem sempre com bons resultados. Mais recentemente, têm sido descritos bons resultados com o ácido tióctico, agente antioxidante neuromodulador. Doença Cardiovascular Em pacientes com diabetes mellitus tipo 2, a hiperinsulinemia secundária à resistência insulínica leva a aumento da atividade simpática e a estímulo do sistema renina angiotensina, gerando alterações hemodinâmicas. Os mecanismos de hemostasia também sofrem alterações, com aumento da adesividade plaquetária e de fatores de coagulação, diminuição da fibrinólise e de fatores antiagregantes plaquetários. Todos estes fatores combinados levam a maior risco de eventos cardiovasculares, como hipertensão arterial, angina, tromboses, infarto do miocárdio e acidente vascular encefálico, nos indivíduos diabéticos (LEUTENEGGER, 1995). A prevenção dessa complicação implica na retirada de fatores de risco, como tabagismo, obesidade e sedentarismo, no controle da hipertensão arterial e da dislipidemia, além do controle adequado da glicemia. O tratamento específico inclui estabilização hemodinâmica e procedimentos de revascularização. 57 Pé Diabético O diabetes mellitus é a principal causa de amputação não traumática de membros inferiores. O risco de amputação em diabéticos é cerca de 14 vezes superior a população não diabética, devido a diversos fatores relacionados à doença, tais como neuropatia, arteriopatia e maior susceptibilidade a infecções (MALGRANGE, 2008). A neuropatia causa diminuição da sensibilidade dolorosa, alterações de equilíbrio e anidrose, predispondo ao aparecimento de lesões, que funcionam como portas de entrada para infecção. A vasculopatia leva à isquemia, dificultando o processo de cicatrização. As feridas podem evoluir com sepse e amputação total ou parcial do membro afetado. São considerados fatores de risco para úlceras a idade avançada, a presença de comorbidades, a duração do diabetes, o mau controle da doença, o uso de calçados inadequados além de más condições de higiene. Para o risco de amputação, somam-se a estes fatores a influência de ulcerações ou amputações prévias, do diagnóstico de arteriopatia e/ou neuropatia, do sexo, com predomínio no masculino e do nível socioeconômico (RICHARD, 2008). O rastreamento do pé em risco é de fundamental importância para a adoção de medidas preventivas. Além de anamnese e exame físico dirigidos para os fatores de risco de neuropatia e amputação, recomendase a realização do teste com monofilamento de 10 g. Tendo em vista a facilidade de execução e o baixo custo é o exame de triagem mais difundido e recomendado para a detecção do risco neuropático de ulceração, devendo ser aplicado, nos pacientes diabéticos, anualmente. A forma de aplicação do monofilamento e os locais de realização do exame recomendados pela Sociedade Brasileira de Diabetes podem ser visualizados na figura 2. Figura 2 – Teste do monofilamento (fonte: Sociedade Brasileira de Diabetes) 58 5 diretrizes gerais para o tratamento do paciente diabético 5.1 medidas não Farmacológicas A base do tratamento do diabetes mellitus é a mudança do estilo de vida, através da adesão a programas de exercício físico e planejamento dietético. Além disso, é importante o abandono de hábitos inadequados, como tabagismo e etilismo, e para isso é fundamental o trabalho interdisciplinar. Este aspecto do tratamento é importante em todos os tipos de diabetes. Em casos leves de diabetes tipo 2, o tratamento inicial pode ser baseado apenas nestas mudanças, deixando-se o tratamento medicamentoso para um segundo momento. A educação em diabetes é considerada um dos pilares para o manejo clinico da doença, englobando a educação de toda a comunidade envolvida, de modo a melhorar o cuidado e a vida dos pacientes, podendo auxiliar também na adesão às medidas não farmacológicas. Programa Alimentar A dieta adequada ao paciente diabético é, na realidade, aquela recomendável a todos os indivíduos, inclusive os não diabéticos, tendo como principal objetivo a melhora da qualidade da alimentação. O programa alimentar a ser prescrito precisa dar novo sentido à mudança no estilo de vida e a abordagem específica sobre o mesmo está detalhada no capítulo da área de Nutrição deste Manual. Atividade física Para iniciar qualquer programa de atividade física, o paciente deve estar com níveis glicêmicos estáveis, uma vez que o exercício pode agravar a hiperglicemia e a cetose em pacientes descompensados. Além disso, tendo em vista o risco cardiovascular, é recomendável avaliação cardiológica prévia (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2012). Por outro lado, em indivíduos compensados e em uso de insulina ou secretagogos de insulina, recomenda-se a ingestão de carboidratos, previamente ao exercício, caso a glicemia esteja abaixo de 100 mg/dL, visando prevenir a hipoglicemia. No capítulo da área de Educação Física 59 deste manual encontram-se as informações mais detalhadas em relação à prescrição de atividade física no paciente diabético. 5.2 tratamento Farmacológico Os principais medicamentos disponíveis para tratamento do diabetes mellitus são as drogas orais e a insulina, injetada por via subcutânea, intramuscular ou endovenosa. Devem ser citados também os análogos do GLP-1, como exenatide e liraglutide, que podem ser utilizados no diabetes mellitus tipo 2, por via subcutânea, estando indicados como terapia adicional em pacientes já em uso de múltiplas drogas orais, como alternativa à insulina, além do análogo sintético da amilina, denominado pramlintide, ainda não disponível para uso no Brasil, que tem sido usado no tratamento do diabetes mellitus tipo 1 e do diabetes mellitus tipo 2. O uso de insulina é mandatório nos casos de diabetes mellitus tipo 1, desde o diagnóstico da doença, enquanto que, no diabetes mellitus tipo 2, embora o tratamento se inicie com drogas orais, a insulinoterapia pode vir a ser necessária, em consequência à queda progressiva na produção de insulina nestes pacientes,. Também na gestação, o tratamento deve ser feito com insulina, estando liberados para uso, até o momento, os tipos NPH, regular, aspart, lispro e glulisina. Antidiabéticos orais A terapia oral é a primeira escolha nos pacientes com diabetes mellitus 2, juntamente com mudanças nos hábitos de vida. Há diversos agentes disponíveis: os sensibilizadores, que melhoram a ação periférica da insulina; os secretagogos, que estimulam a secreção de insulina, os inibidores da alfa glicosidase e os inibidores da enzima DPP-IV ou gliptinas. As características principais de cada uma dessas substâncias podem ser vistas no quadro 2. 60 61 Meglitinidas Sulfoniluréias CLasse hipoglicemia, ganho de peso 30 a 120 mg/dia (1x/dia) 60 mg 0,5, 1 e 2 mg Gliclazida Repaglinida 120 mg hipoglicemia, ganho de peso 1 a 8 mg/dia (1x/ dia) 1, 2,3 e 4 mg Glimepirida Nateglinida hipoglicemia, ganho de peso 2,5 a 20 mg/dia (2 a 3x/dia) Glibenclamida 5 mg gravidez, lactação insuficiência renal insuficiência hepática gravidez, lactação insuficiência renal insuficiência hepática gravidez, lactação, insuficiência renal, insuficiência hepática Contra-InDICações 120 a 360 mg/ dia (1cp, antes de cada refeição) continua gravidez, lactação, hipoglicemia (menos freqüente) disfunção renal grave cefaléia diarréia, artralgia insuficiência hepática, sintomas respiratórios idade <18 anos e >75 anos gravidez, lactação, 0,5 a 16 mg/dia hipoglicemia (menos freqüente) disfunção renal grave, (0,5 a 4 mg, antes cefaléia diarréia, artralgia insuficiência hepática, de cada refeição) sintomas respiratórios idade <18 anos e >75 anos reações aDVersas aPresentaçÃo Dose Droga 62 Droga Metformina Pioglitazona Acarbose CLasse Biguanidas Glitazonas Inibidores da alfaglicosidase conclusão 50 e 100mg 15, 30 e 45 mg diarréia, flatulência 15 a 45 mg/dia (1x/dia) 75 a 300mg/dia (3x/dia) infecção de vias aéreas superiores, hepatopatias, etilismo cefaléia, edema periférico, gravidez, insuficiência hepatotoxicidade, cardíaca classes III e IV interação com anticoncepcionais 500 a 2550 mg/ dia distúrbios da absorção intestinal, doença inflamatória intestinal, obstrução intestinal gravidez, lactação, insuficiência hepática grave, insuficiência renal grave gravidez, lactação, insuficiência cardíaca congestiva, infarto do miocárdio, insuficiência renal, insuficiência hepática, DPOC, sepse, etilismo diarréia, dispepsia, gosto metálico, redução na absorção da vitamina B12, reações cutâneas, acidose lática, 500, 750, 850, 1000 mg Contra-InDICações reações aDVersas Dose aPresentaçÃo 63 5 mg 5 mg Saxagliptina Linagliptina 50 e 100mg Vildagliptina 5 mg/dia 2,5 a 5 mg/dia 50 a 100 mg/dia 100 mg/dia Quadro 2 – Drogas orais utilizadas no tratamento de diabetes mellitus tipo 2 Inibidores da DPP-IV 100 mg Sitagliptina gravidez, lactação *corrigir dose na insuficiência renal gravidez, lactação, insuficiência hepática, insuficiência renal moderada ou grave gravidez, lactação *corrigir dose: insuficiência renal, associação com drogas que inibem fortemente o citocromo P450 3A4/5 (CYP3A4/5) gravidez, lactação, suspeita de pancreatite aguda infecção de vias aéreas superiores, neutrofilia, cefaléia, náuseas, faringite, efeitos gastrintestinais infecção de vias aéreas superiores, neutrofilia, cefaléia, náuseas, faringite, efeitos gastrintestinais infecção de vias aéreas superiores, cefaléia, infecção do trato urinário, faringite, náuseas infecção de vias aéreas superiores, tosse, alergia, pancreatite Insulina A insulina é injetada por via subcutânea, pelo próprio paciente, num regime que depende da classificação e do estágio de evolução do diabetes mellitus, sendo as vias intramuscular ou endovenosa reservadas para os casos de complicações agudas. Os pacientes com deficiência absoluta de insulina, em geral, necessitam de um esquema com várias aplicações diárias, associando-se insulinas de ação prolongada com aquelas de curta duração. Os tipos de insulina disponíveis no mercado brasileiro podem ser vistos no quadro 3. tIPo De InsULIna açÃo InÍCIo De açÃo PICo De açÃo DUraçÃo Da açÃo Lispro Ultra-rápida 5-15 minutos 0,5-1,5 hora 4-6 horas Glulisina Ultra-rápida 5-15 minutos 0,5-1,5 hora 4-6 horas Aspart Ultra-rápida 5-15 minutos 0,5-1,5 hora 4-6 horas Regular Rápida 0,5-1 hora 2-3 horas 8-10 horas NPH Intermediária 2-4 horas 4-10 horas 12-18 horas Detemir Lenta 4-6 horas Sem pico 18-20 horas Glargina Lenta 2-4 horas Sem pico 22-24 horas Quadro 3 – Insulinas disponíveis para o tratamento do diabetes mellitus 6 algoritmo de tratamento do paciente diabético Recentemente, Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) divulgou sua recomendação sobre a abordagem terapêutica inicial do paciente diabético tipo 2. No algoritmo recomendado, o tratamento pode ser iniciado com mudanças no estilo de vida e metformina, podendo-se acrescentar um 64 segundo ou terceiro fármaco caso a glicemia inicial seja acima de 200 mg/dL ou caso não sejam alcançadas as metas glicêmicas com o uso isolado desta droga. A escolha do segundo ou terceiro fármaco deverá ser individualizada, levando-se em conta o perfil terapêutico de cada droga (sulfoniluréia, inibidor da DPP-IV, análogos do GLP-1, pioglitazona, glinidas, insulina basal ao deitar). A insulinização poderá ser considerada como medida inicial naqueles casos em que a glicemia estiver acima de 300 mg/dL, ou na presença de sinais de gravidade, como perda de peso, poliúria e polidipsia significativas e cetonúria (SOCIEDADE BRASIELIRA DE DIABETES, 2011). Durante o seguimento, freqüentemente pode ser feita a conversão para a terapia com drogas orais, desde que se mantenham as metas glicêmicas. As metas glicêmicas recomendadas pela Sociedade Brasileira de Diabetes, tanto para diabetes mellitus tipo 1 quanto para o diabetes mellitus tipo 2 são glicemia de jejum abaixo de 100 mg/dL, glicemia pós prandial abaixo de 160 mg/dL e hemoglobina glicada abaixo de 7,0%, em adultos. Todavia, estes valores podem variar de acordo cada situação clínica, como por exemplo, durante a gestação, quando o controle deve ser ainda mais rígido. Por outro lado, em pacientes idosos ou com seqüelas neurológicas ou risco aumentado de hipoglicemia, valores mais elevados podem ser tolerados (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2011). 7 rotina de atendimento ao paciente diabético A rotina de atenção ao paciente diabético, do ponto de vista médico, inclui a entrevista com ênfase na sintomatologia clássica da doença e de suas complicações, seguida de exame clínico abrangente, na busca das possíveis complicações relacionadas à doença, que servirão de base à propedêutica de melhor custo efetividade. A rotina básica de atendimento ao paciente diabético pode ser vista o quadro 4. 65 • Data de início da doença • Sintomas clássicos (poliúria, polidipsia, emagrecimento) • Prurido, fraqueza, cãimbras, parestesias anaMnese • Distúrbios visuais • Candidíase de repetição • Valores das glicemias (glicemia inicial, glicemia máxima) • História familiar de diabetes e doença cardiovascular • História pessoal de tabagismo, etilismo, sedentarismo • Ectoscopia: xantomas, xantelasmas, micoses, acantose nigricans • Peso, altura, índice de massa corporal, circunferência da cintura eXaMe FÍsICo • Ausculta cardíaca, pressão arterial (supina, sentada e ortostática), palpação de pulsos periféricos • Ausculta pulmonar • Exame dos pés: lesões cutâneas, onicomicose, teste do monofilamento de 10g (pesquisa de neuropatia diabética) • Glicemia de jejum • Glicemia pós prandial (duas horas após o almoço) eXaMes CoMPLeMentares • Hemoglobina glicada: solicitada a cada três meses, nos pacientes descompensados e a cada seis meses, nos pacientes compensados • Creatinina, colesterol total, HDL, LDL, triglicérides • Fundoscopia e microalbuminúria em urina de 24 horas, anualmente • Outros exames, individualizados, de acordo com a necessidade Quadro 4 – Rotina de atendimento ao paciente diabético 66 8 considerações Finais A abordagem do paciente diabético deve ser interdisciplinar e individualizada. É necessário associar ao tratamento medicamentoso um trabalho de educação do paciente, com nutrição adequada, prática regular de atividade física, acompanhamento psicológico e outros, sempre que necessário. O diabetes exige atenção e suas complicações podem ser prevenidas. É um caminho longo, no qual paciente e equipe de saúde andam juntos, com o mesmo objetivo final, que é buscar garantir ao paciente maior sobrevida e, com qualidade. 9 reFerências AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Standards of medical care in diabetes – 2012. Diabetes Care, v. 35, n. Suplemento 1, p. S11-S63, 2012. BARONE, B. et al. Cetoacidose diabética em adultos: Atualização de uma complicação antiga. Arq Brasil Endocrinol Metab, v. 51, n. 9, p. 14341447, 2007. BOSCO, A. et al. Retinopatia diabética. Arq Brasil Endocrinol Metab, v. 49, n. 2, p. 217-227, 2005. CEFALU, W.T. Diabetic dyslipidemia and the metabolic syndrome. Diab Metab Syndr: Clin Res Rev, v. 2, n. 3, p. 208-222, 2004. COURI, C. E. et al. 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Diabetologia, v. 42, p. 51-54, 2004. 69 CAPÍTULO 5 ATUAÇÃO DO ENFERMEIRO EM UM PROGRAMA DE EDUCAÇÃO EM DIABETES AUTORES Darcilia Maria Nagen da Costa Jarbas Gaspar Filho Samuel de Castro Braga 1 introdução A Enfermagem, enquanto profissão, atingiu um grau de desenvolvimento científico que a elevou a uma categoria profissional reconhecida mundialmente. Até o final da década de 50, o termo ciência de Enfermagem não tinha o reconhecimento da comunidade acadêmica. A evolução científica consolidada através das teorias de Enfermagem e das pesquisas criou um corpo específico de conhecimentos nessa área. Esses conhecimentos foram organizados e sistematizados em teorias ou modelos teórico-conceituais, de forma a descrever, explicar e predizer fenômenos vinculados à disciplina de Enfermagem. O empirismo cedeu lugar à práxis da Enfermagem científica, expressando o amadurecimento profissional (GEORGE, 2000; CIANCIARRULLO, 2001). A atuação da Enfermagem abrange o processo de assistir, cuidar, ensinar e pesquisar. Em se tratando da atuação do enfermeiro direcionada ao paciente diabético, a dimensão do cuidado toma uma conotação de destaque pela especificidade do processo educativo essencial para a elaboração do plano de cuidado e para o desenvolvimento das ações do auto cuidado. A Teoria de Enfermagem do Auto cuidado de Dorothea Orem desenvolvida entre 1959 e 1980 baseia-se na premissa de que os pacientes podem cuidar de si mesmos. Inicialmente, foi utilizada na reabilitação e em cuidados primários, na qual o paciente é encorajado a ser, o máximo possível, independente. Faz parte dessa teoria a atividade de auto cuidado que representa a prática de atividades iniciadas e executadas pelos indivíduos, em seu próprio benefício e a exigência terapêutica de auto cuidado que constitui a totalidade de ações de auto cuidado, através do uso de métodos válidos e conjuntos relacionados de operações e ações (FOSTER & JANSSENS, 1993). Durante a consulta de Enfermagem, o enfermeiro investiga o potencial do auto-cuidado do paciente diabético, assim como seus déficits de auto cuidado, para subsidiar o julgamento clínico. O enfermeiro atua no desenvolvimento do potencial de auto-cuidado dos pacientes, nos seus diferentes graus de dependências (OREM, 1993). A consulta de Enfermagem se utiliza do conhecimento técnico, acrescida de uma abordagem humanística, na qual o paciente participa e interage, no processo saúde-doença. As orientações realizadas têm como objetivo informar e esclarecer ao paciente sobre as complicações relacionadas ao diabetes, de curto e de longo prazo, enfatizando a necessidade em reconhecer os sintomas e sinais das complicações mais frequentes como a hipoglicemia, a hiperglicemia e a cetoacidose diabética (VASCONCELOS, 2000). A importância das orientações que o paciente recebe na consulta de Enfermagem se baseia no fato de que, diante de alguma manifestação clínica, ele tenha condição de reconhecer e tomar as devidas providências. O paciente é orientado quanto à auto-monitorização do teste de glicemia capilar, a aplicação de insulina, o uso das medicações, o auto cuidado com os pés, com noções sobre a neuropatia diabética, dentre outras. A coleta de dados é a base para o julgamento clínico que possibilita ao enfermeiro a elaboração e o planejamento das intervenções de Enfermagem individualizadas para cada paciente. Dependendo do grau de dependência do paciente, as intervenções prescritas visam substituir, gradativamente, a dependência pelo auto-cuidado. A participação ativa do paciente nesse processo 72 deverá resultar numa melhoria da qualidade devida pela adaptação e aceitação da doença e das limitações a ela relacionadas (ALFARO-LEFREVE, 2005). 2 teste de glicemia capilar Os níveis de glicemia elevados estão intimamente relacionados às complicações do diabetes, sendo o acompanhamento do perfil da glicemia ou auto monitorização recomendado para todos os indivíduos diabéticos. O teste de glicemia capilar possibilita conhecer os níveis de glicemia durante o dia, em momentos que interessam para acompanhar e avaliar a eficiência do plano alimentar, da medicação oral e principalmente da administração de insulina, assim como orientar as mudanças no tratamento. O bom controle da doença com base na monitorização dos níveis glicêmicos pode reduzir os riscos de microangiopatia, seja retinopatia ou nefropatia diabéticas, neuropatia e as taxas de mortalidade relacionadas ao diabetes (STRATTON et al., 2000). De acordo com American Diabetes Association (2008), alguns fatores ajudam os diabéticos na manutenção dos valores normais das taxas de glicemia, tais como: controle no consumo de alimentos (qualidade, quantidade e regularidade de horários nas refeições); ajustes nas dosagens dos medicamentos; uso correto da medicação, seja ela insulina ou antidiabéticos orais; exercícios físicos regulares e realização de testes de glicemia capilar em horários adequados para ajuste no tratamento. Cada paciente é orientado quanto à frequência de realização da glicemia capilar, manejo do glicosímetro e o registro dos resultados. É importante também que o próprio paciente ou seu cuidador comunique se houve necessidade de complementação das doses de insulina, sintomas de hipoglicemia ou hiperglicemia; redução ou excessos alimentares, presença de infecções, vômitos, diarreia, atividade física não programada e uso de outros medicamentos. 3 insulinoterapia A insulinoterapia no diabetes mellitus, seja ele do tipo 1 ou do tipo 2, é prescrita para retardar o início ou desacelerar a progressão das complicações micro e macrovasculares associadas ao mau controle glicêmico. Nesse sentido, faz-se necessária maior atenção à precocidade e efetividade da manutenção da glicemia em níveis adequados. 73 O paciente precisa ser orientado quanto aos cuidados com o armazenamento, transporte e aplicação da insulina, de acordo com o fabricante. O frasco deve ser armazenado numa temperatura de 2°C a 8°C. O ideal é o armazenamento na geladeira, fora da embalagem térmica e em locais onde não haja muita variação de temperatura, como na gaveta de legumes ou na prateleira mais próxima desta. O frasco não deve ser colocado na porta da geladeira (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2009). A partir do momento em que o frasco for aberto para consumo, ele poderá ser conservado entre 2°C e 8°C ou na temperatura ambiente, de 15°C a 30°C, num prazo máximo de 30 dias. A insulina acondicionada sob a forma de caneta não poderá ser guardada sob refrigeração. Recomendase, ainda, não usar a insulina na presença de qualquer alteração na cor ou consistência (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2009). As seringas para aplicação devem ser usadas uma única vez e descartadas. O reaproveitamento pode causar infecção e interferir no processo de absorção. Para a insulina agir no organismo de forma esperada, deve ser aplicada no tecido subcutâneo que é rico em vasos sanguíneos, fato que permite absorção lenta e bons resultados sobre a concentração de glicose no sangue. Os locais de aplicação são: nádegas, com absorção mais lenta; face externa da coxa e braços, com absorção intermediária; e abdome, com absorção mais rápida. Variar os locais de aplicação previne a atrofia muscular e a fibrose locais. A aplicação de insulina é um procedimento técnico que requer cuidados de higienização das mãos e materiais como: algodão, álcool a 70%, seringa, agulhas específicas para injeção sub cutânea e para aspiração e frasco de insulina. Durante o preparo, recomenda-se fazer assepsia na tampa do frasco e homogeneizar o conteúdo, movimentando suavemente o mesmo. Em seguida, deve-se introduzir ar na seringa de acordo com a dosagem necessária, conectar ao frasco e inverter o mesmo para que o ar injetado leve o líquido para o interior da seringa. Em sequência, retirar o ar da seringa e conferir a dosagem prescrita. Antes da injeção, deve-se examinar o local de aplicação, fazer a antissepsia com algodão embebido em álcool a 70%. Em seguida, firmar o local, inserir a agulha num ângulo de 90 graus e aspirar. Não havendo retorno de sangue, injetar a insulina, retirar a agulha e pressionar o local com algodão embebido em álcool. A agulha deve ser descartada em recipiente apropriado tipo Descartex® ou num coletor rígido com tampa, sendo o descarte feito na unidade de saúde mais 74 próxima. Além disso, é preciso recomendar o rodízio entre os locais de aplicação da insulina. A técnica de preparo e aplicação de insulinas combinadas segue a mesma rotina descrita acima, diferenciando-se em alguns aspectos: 1) injetar ar no frasco de insulina NPH de acordo com a dose a ser aspirada; 2) retirar a agulha do frasco sem aspirar; 3) injetar ar no frasco de insulina regular equivalente à dose a ser aspirada; 4) aspirar a quantidade desejada de insulina regular; 5) voltar ao frasco de insulina NPH e aspirar a quantidade necessária, correspondente ao ar aspirado anteriormente. Quando a aspiração ultrapassar a quantidade prescrita, a dose deverá ser descartada e o procedimento realizado novamente. 4 pé diabético O termo pé diabético aplica-se ao conjunto de alterações ocorridas no pé do paciente diabético, devido ao estado fisiopatológico decorrente das complicações da doença, sobretudo a neuropatia e a vasculopatia. O exame minucioso dos pés representa um cuidado fundamental de Enfermagem, indispensável para a identificação de fatores de risco de ulceração que podem culminar em amputação. Na consulta de Enfermagem, o profissional deve discutir com o paciente a importância dos cuidados com os pés e propor um plano de cuidado baseado nos achados clínicos e nos riscos potenciais. A adesão do paciente às medidas de prevenção é indispensável no combate às complicações relacionadas às extremidades inferiores. Ao exame dos pés, a presença de calosidade, micoses e diminuição da sudorese podem ser fatores associados à diminuição da sensibilidade do membro. O aparecimento de lesões e, posteriormente, de úlceras ocorre devido a falhas no processo de cicatrização que está associado às complicações do diabetes. Estas lesões podem evoluir para a perda do epitélio do local, podendo se estender até a derme e acometer os tecidos mais profundos, como músculos e ossos. A neuropatia diabética associada ao diabetes leva à perda do componente sensitivo local, acarretando perda da sensibilidade à dor, percepção da pressão plantar bem como do estímulo térmico. A neuropatia também compromete o componente motor, ocasionando atrofia e fraqueza dos músculos, desencadeando desequilíbrio, deformidades e alterações no modo de caminhar. Além disso, a vasculopatia periférica constitui um 75 importante fator de risco para ulceração, devido ao comprometimento da perfusão sanguínea nos membros inferiores, o que priva os tecidos do adequado fornecimento de oxigênio e nutrientes, prejudicando a cicatrização das lesões, podendo consequentemente levar à gangrena. Em todas as consultas, o enfermeiro deve reforçar as orientações básicas que os pacientes diabéticos devem ter com os pés. São elas: usar calçados fechados e confortáveis, não andar descalço ou usar chinelos e sandálias, usar meias de algodão sem elástico e preferencialmente de cor branca, examinar os pés diariamente, secar bem entre os dedos após o banho, não cortar as cutículas, cortar as unhas de forma reta, procurar o ambulatório para a remoção de calosidades ou unhas encravadas, hidratar a pele dos membros inferiores com creme; porém, sem usar entre os dedos. A prevenção das complicações das extremidades inferiores está diretamente ligada à capacidade do paciente em aderir às medidas educativas e do auto cuidado, bem como a manutenção do controle glicêmico. 5 diagnósticos de enFermagem Enquanto uma etapa de sistematização da assistência de Enfermagem, o diagnóstico de Enfermagem possibilita ao enfermeiro um plano de ação, que o aproxima de seu objeto de trabalho através de ações anteriormente refletidas, utilizando os problemas identificados no paciente. Sua elaboração e execução melhoram a qualidade do processo de trabalho da Enfermagem (CROSSETTI, 1995). No atendimento dos pacientes diabéticos do projeto de extensão universitária “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus” da Universidade Federal de Juiz de Fora, a elaboração dos diagnósticos de Enfermagem, fundamentada nos dados coletados durante a consulta de Enfermagem, utiliza a taxonomia de NANDA. A seguir serão descritos os diagnósticos mais frequentes em pacientes diabéticos e as intervenções correspondentes (NANDA, 2001). 5.1 risco de integridade da pele preJudicada relacionado à má circulação e a sensações preJudicadas Intervenções: – Orientar quanto à regularidade na ingestão de líquidos, para melhor hidratação da pele; 76 – Orientar o paciente com relação à higienização corporal diária; – Orientar quanto à hidratação dos membros, com creme apropriado, diariamente, evitando o uso entre os dedos. 5.2 percepção sensorial, visual e tátil alteradas, caracterizada por mudanças na resposta usual aos estímulos Intervenções: – Orientar a aplicação de soluções umidificadoras no globo ocular, evitando ressecamento; – Orientar quanto à avaliação regular da sensibilidade dos membros inferiores bem como sobre a presença de dormências e formigamentos. 5.3 perFusão tissular periFérica ineFicaz caracterizada pela cicatrização retardada, claudicação, descoloração da pele, edema e pulsação arterial diminuída Intervenções: – Orientar quanto à higienização diária dos pés, com água morna e sabão neutro, secando bem os pés e entre os dedos; – Cortar as unhas de forma reta; – Não remover calos e unhas encravadas; – Monitorar a pulsação da artéria pediosa e a temperatura dos membros inferiores; – Não andar descalço; – Não usar calçados que apertem os pés. 5.4 conhecimento deFiciente relacionado à Falta de Familiaridade com os recursos de inFormação, caracterizado por seguimentos inadeQuados de instituições e comportamentos impróprios Intervenções: – Orientar o paciente em relação ao auto cuidado, às medidas preventivas, as complicações da doença e a terapia medicamentosa do diabetes mellitus; – Após o diagnóstico de Enfermagem, encaminhá-lo, se estiver indicado à equipe multidisciplinar: psicólogo, assistente social etc. 77 5.5 comportamento de saúde propenso a risco, relacionado a compreensão inadeQuada, caracterizada por não conseguir agir de Forma a prevenir problemas de saúde e demonstração de não aceitação das mudanças no estado de saúde Intervenções: – Orientar com relação às complicações da doença através de processos educativos que esclareçam dúvidas sobre o novo estado de saúde; – Orientar sobre as mudanças necessárias no estilo de vida habitual. 5.6 risco de Queda relacionado à diFiculdade na marcha, doença vascular, Força diminuída nas extremidades inFeriores, presença de doença aguda e problemas nos pés. Intervenções: – Avaliar o conjunto de alterações dos pés relacionadas às complicações da doença, reduzindo risco de úlceras e amputações; – Após as intervenções de Enfermagem, encaminhar o paciente ao profissional habilitado, como, por exemplo, o educador físico e o fisioterapeuta. 5.7 risco de nutrição deseQuilibrada superior às necessidades corporais, relacionado à disFunção dos padrões alimentares Intervenções: – Orientar com relação à adoção de uma alimentação equilibrada em qualidade e em quantidade; – Orientar sobre a importância da regularidade nos horários da alimentação; – Encaminhar ao profissional nutricionista. 78 5.8 risco de inFecção relacionado às deFesas secundárias inadeQuadas, doença crônica e traumas Intervenções: – Orientar quanto ao uso das medicações para tratamento do diabetes e de outras terapias medicamentosas direcionadas às doenças associadas; – Orientar quanto aos riscos de possíveis traumas físicos e/ou psicológicos; – Avaliar o perfil farmacológico das medicações em uso, que possam justificar o surgimento da defesa secundária inadequada. 5.9 disposição para aumento do conForto caracterizada por expressar deseJos de intensiFicar a resolução das Queixas Intervenções: – Incentivar a manutenção do novo estilo de vida e da aceitação da doença; – Discutir com o paciente a importância dos cuidados e construir um plano de cuidados baseado nos achados clínicos presentes. 6 considerações Finais O enfermeiro deve estimular e encorajar o paciente para a prática da atividade física e o auto cuidado, com vistas a mudanças de comportamentos e atitudes que favoreçam o controle do diabetes, o resgate da auto estima e a melhoria da qualidade de vida. O enfermeiro como membro da equipe de saúde é um elemento multiplicador de conhecimentos, atuando através da promoção da saúde, principalmente, no desenvolvimento das ações educativas direcionadas aos pacientes diabéticos. 7 reFerências ALFARO-LEFREVE, R. Aplicação do processo de Enfermagem: promoção do cuidado colaborativo. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. Classificação: 2005-2006. Porto Alegre: Artes Médicas; 2006. 79 AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Standards of medical care in diabetes – 2008 (Position Statement). Diabetes Care, 31(Suppl. 1); S12-S54, 2008. CIANCIARRULO, T. I. (Org.). Sistema de assistência de enfermagem: evolução e tendências. São Paulo: Ícone, 2001. CROSSETTI, M. G. O. Algumas reflexões sobre o diagnóstico de Enfermagem e os elementos do processo de trabalho. Texto e Contexto Enfermagem, v. 4, n. 1, p. 150-159, 1995. FOSTER, P. C.; JANSSENS, N. P. In: GEORGE, J. B. et al. Teorias de Enfermagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993. Cap. 7, p. 90-107. GEORGE, J. B. et al. Teorias da Enfermagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000. NANDA. Diagnóstico de Enfermagem NANDA, Definições e classificações, 2001-2002. Trad. Jeame L. Michel. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2001. OREM, D. E. Modelo de Orem. conceitos de enfermaria na prática. Barcelona: Masson -Salvat Enfermaria, 1993. SMELTZER, S. C. et al. Tratado de Enfermagem Médico-Cirúrgica. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Manual de Enfermagem. Departamento de Enfermagem, 2009. STRATTON, I. M. et al. Association of glycaemia with macrovascular and microvascular complications of type 2 diabetes (UKPDS 35): prospective observational study. BMJ, v. 321, n. 7258, p. 405-412, Aug. 2000. VASCONCELOS, L. B. et al. Consulta de Enfermagem como oportunidade de conscientização em diabetes. Revista Eletrônica de Enfermagem, v. 2, n. 2, 2000. Disponível em: <http://www.fen.ufg.br/revista/revista2_2/ diabete.html>. Acesso em: 28 abr. 2010. 80 CAPÍTULO 6 ATUAÇÃO DO NUTRICIONISTA EM UM PROGRAMA DE EDUCAÇÃO EM DIABETES AUTORES: Ana Lívia de Oliveira Layla de Souza Pires Livia Nara Silva Portes 1 introdução Nas doenças crônicas, ao contrário das doenças agudas, é fundamental que as indicações da equipe de saúde sejam associadas à participação do indivíduo como agente ativo que cuida da sua própria saúde. A prática da educação em diabetes deve integrar atendimento clínico, promoção de saúde, aconselhamento, manejo e pesquisa (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2007). O papel do nutricionista na equipe multidisciplinar se faz necessário para orientar e esclarecer o paciente diabético quanto ao valor nutricional dos alimentos, assim como orientá-lo a fazer escolhas saudáveis para o seu dia-a-dia. Desta forma, o profissional deve permear todas as áreas da Nutrição desde a área de Nutrição Social com apoio da educação nutricional, a área de Nutrição Clínica prescrevendo o plano alimentar até a área de Produção com o apoio da técnica dietética para orientar formas de preparo e manejo dos alimentos. A orientação nutricional é feita através de um plano alimentar que será baseado em uma avaliação nutricional individualizada, em aspectos nutricionais, psicossociais e metabólicos para que ocorra a correta distribuição de nutrientes para manter a saúde do indivíduo diabético. Nesse contexto, o acompanhamento nutricional aos pacientes diabéticos é justificado porque favorece a conscientização dos mesmos sobre a importância do consumo de uma dieta apropriada e a adesão ao tratamento, prevenindo as complicações agudas e crônicas da doença e melhorando a qualidade de vida dessas pessoas (GERALDO et al, 2008). 2 avaliação nutricional A avaliação do estado nutricional tem por objetivo diagnosticar a situação nutricional dos pacientes e possibilitar uma intervenção adequada de forma a auxiliar na recuperação e/ou manutenção do estado de saúde. As medidas antropométricas e bioquímicas são de suma importância para avaliação do estado nutricional e da evolução dos indivíduos diabéticos, já que auxiliam a monitorar as possíveis mudanças apresentadas e a traçar o tipo de tratamento dietético mais adequado. Dessa forma, ambas as medidas refletem a eficácia do tratamento e a adesão do paciente ao mesmo (DUARTE & CASTELLANI, 2002). No projeto de extensão “Acompanhamento, educação e prevenção em diabetes mellitus” do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF), a avaliação nutricional do paciente é feita através de métodos objetivos e subjetivos que compreendem: 1. Investigação dietética; 2. Investigação antropométrica; 3. Investigação bioquímica; 4. Exame físico. 2.1 investigação dietética A investigação dietética é feita através da história dietética e do recordatório alimentar de 24 horas, no qual o indivíduo é entrevistado para fornecer informações sobre os seus hábitos alimentares. Alguns cuidados devem ser tomados na entrevista com o paciente: – Evitar questionar sobre alimentos específicos; – Evitar qualquer sinal de surpresa, aprovação ou desaprovação do padrão alimentar do indivíduo; 82 – Insistir nos detalhes sem induzir, principalmente, na quantidade de alimentos ingeridos; – Não se esquecer de questionar sobre a ingestão de bebidas alcoólicas, doces, café, suplementos vitamínicos e fracionamento das refeições; – Verificar se o consumo de um determinado dia não foi atípico (CUPPARI, 2005). 2.2 investigação antropométrica As medidas antropométricas permitem estimar a gordura total, a gordura regional e sua distribuição, geralmente pela combinação de vários parâmetros avaliados. A distribuição do tecido gorduroso está associada a fatores de risco para a doença coronariana e o diabetes mellitus. As medidas antropométricas utilizadas no projeto de extensão desenvolvido no HU-UFJF, para avaliação do estado nutricional, são: peso, altura, índice de massa corpórea (IMC) e circunferência abdominal (CA). Peso: Peso atual: obtido em balança calibrada de plataforma ou eletrônica. O indivíduo deve posicionar-se em pé no centro da base da balança, sem sapatos e com roupas leves. Estatura: é medida utilizando-se o estadiômetro acoplado à balança. O indivíduo deve ficar de pé, descalço, com os calcanhares juntos, costas eretas e braços estendidos ao lado do corpo. Índice de massa corporal (IMC): é o indicador mais simples do estado nutricional, calculado a partir da fórmula: IMC = Peso atual (kg) / Altura (m²). Adota-se a classificação do estado nutricional recomendada pela World Health Organization (1997). IMC (Kg/m²) < 16 16,0 – 16,9 17,0 – 18,4 18,5 – 24,9 25,0 – 29,9 30 – 34,9 35,0 – 39,9 > 40 CLassIFICaçÃo Magreza grau III Magreza grau II Magreza grau I Eutrofia Pré-obeso Obesidade grau I Obesidade grau II Obesidade grau III Quadro 1 – Classificação do estado nutricional de adultos segundo indicede massa corporal (IMC) (World Health Organization, 1997) 83 Para idosos, recomendam-se os critérios descritos no quadro 2. IMC (kg/m²) CLassIFICaçÃo < 22 Magreza 22 a 27 Eutrofia > 27 Excesso de peso Quadro 2 – Classificação do estado nutricional de idosos, segundoindicede massa corporal (IMC) (Lipschitz, 1994) O IMC é um método simples e de baixo custo, utilizado para estimar tecido adiposo, porém não distingue alteração de massa magra ou gorda. As oscilações do peso corporal tornam menos sensíveis o uso do IMC no acompanhamento da evolução do diagnóstico nutricional, especialmente quando há necessidade de se avaliar alterações da composição corporal (ROSA et al., 2008). – Circunferência Abdominal: estudos indicam que a forma pela qual a gordura está distribuída pelo corpo é mais importante que a gordura corpórea total na determinação do risco individual de doenças. Por essa razão, em indivíduos obesos ou com tendência à obesidade é fundamental identificar a distribuição de gordura, visto que a obesidade abdominal está associada ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares e metabólicas. A World Health Organization (1998) propõe pontos de corte para a circunferência abdominal acima dos quais existe risco para as complicações metabólicas associadas à obesidade: 90cm, no sexo masculino; e 80cm, no sexo feminino. A circunferência abdominal é uma medida que deve fazer parte da avaliação nutricional do paciente diabético, pois o seu aumento pode revelar a resistência periférica à insulina, que pode levar ao agravamento e às complicações da diabetes. 2.3 investigação bioQuímica Os resultados de exames laboratoriais são muito úteis para a investigação, acompanhamento e para confirmação da avaliação nutricional. A ingestão dietética recente pode influenciar a quantidade de nutrientes encontrados no soro, plasma ou qualquer outro fluído do corpo (COSTA, 2008). O interesse pelos marcadores bioquímicos como auxiliares na avaliação do estado nutricional surge na medida em que se evidenciam, 84 precocemente, alterações bioquímicas, anteriores às lesões celulares e/ou orgânicas. No entanto, alguns fatores e condições podem limitar o uso desses indicadores na avaliação do estado nutricional, como utilização de algumas drogas, condições ambientais, estado fisiológico, estresse, lesão e inflamação. Assim, embora os parâmetros de avaliação laboratorial sejam úteis, eles não devem, de modo algum, ser utilizados isoladamente para estabelecer um diagnóstico nutricional. Em conjunto com os indicadores já citados, a análise dos dados bioquímicos pode auxiliar na avaliação do estado nutricional: – Glicemia de jejum: o resultado é considerado normal entre 70mg/dL e 99mg/dL. Se o resultado estiver entre 100mg/dL a 125mg/ dL, o indivíduo é portador de glicemia de jejum alterada, tornando-se necessária a realização do exame conhecido como teste oral de tolerância à glicose (TOTG). Ocorrendo glicemias em jejum com resultado igual ou superior a 126mg/dL, em pelo menos dois exames consecutivos, fica então confirmado o diagnóstico de diabetes mellitus. Além disso, glicemia superiores a 200mg/dL, após a ingestão de glicose anidra, no TOTG confirmam o diagnóstico do diabetes; – Hemoglobina glicada: a hemoglobina incorpora a glicose, em função da concentração desse açúcar, no sangue, e, caso as taxas de glicose apresentem níveis elevados no período, haverá um aumento da hemoglobina glicada. Sempre é necessário individualizar o valor da hemoglobina glicada, levando em conta vários dados clínicos como idade, presença de outras doenças e/ou eventos frequentes de hipoglicemia. Segundo consensos nacionais e internacionais, o valor de hemoglobina glicada mantido abaixo de 7% oferece proteção contra o surgimento e a progressão das complicações microvasculares do diabetes (retinopatia, nefropatia e neuropatia). A hemoglobina glicada é um exame essencial para avaliar se a conduta nutricional passada ao paciente está sendo seguida corretamente, uma vez que por este exame o profissional pode ter noção de como está o tratamento do paciente durante os últimos 90 dias. Segundo a American Diabetes Association (2006), existem parâmetros de bom controle para o paciente diabético com base no exame clínico e nos exames laboratoriais, conforme pode ser visto no quadro 3. A partir dos resultados encontrados em associação ao diagnóstico do estado nutricional do indivíduo é possível o encaminhamento necessário para o tratamento e recuperação da saúde, destacando-se, no caso, a intervenção dietética. 85 eXaMes Glicemia de jejum Glicemia pós-prandial Hemoglobina glicada Glicosúria (amostra isolada) Colesterol total Triglicérides Índice de massa corpórea Pressão arterial VaLores 70 – 99 mg/dL < 140 mg/dL < 7% negativo < 200 mg/dL < 150 mg/dL 18,5 – 24,9 kg/m² <130/80 mmHg Quadro 3 – Parâmetros recomendados para o bom controle do diabetes mellitus (American Diabetes Association, 2006) 2.4 exame Físico O exame físico é o método clínico utilizado para detectar sinais e sintomas associados à desnutrição. Esses sinais e sintomas apenas se desenvolvem em estágios avançados da depleção nutricional. Por essa razão, o diagnóstico da deficiência nutricional não deve se basear, exclusivamente, neste método. Além disso, algumas enfermidades apresentam sinais e sintomas semelhantes aos apresentados na desnutrição, sendo importante conhecer a história clínica do paciente para evitar o diagnóstico nutricional incorreto (CUPPARI, 2005). 2.5 anamnese alimentar É importante verificar na história clínica a ocorrência de ganho ou perda de peso recente, disfagia, anorexia, diarreia, náuseas, vômitos, perda de vitalidade, letargia e diminuição da sensação de bem-estar. A história de alteração de peso no paciente diabético descompensado no passado recente tem especial valor, pois reflete a velocidade das alterações na composição corpórea. Na anamnese, a determinação criteriosa da ingestão alimentar do paciente diabético oferece dados relevantes, especialmente quando se relaciona ao grau e ao período da perda de peso. Por meio da cuidadosa anamnese alimentar e do exame físico meticuloso, pode-se estabelecer o grau de comprometimento do estado nutricional (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2003). No projeto desenvolvido no HU-UFJF, a avaliação da alimentação dos pacientes engloba os seguintes aspectos: – Hábitos, preferências e intolerâncias alimentares; – Comportamento na dieta; 86 – – – – – – – – – – – Mastigação; Ingestão hídrica; Fibras alimentares; Uso de adoçantes; Uso de bebidas alcoólicas; Compulsão alimentar; Consumo de produtos dietéticos; Consumo de produtos industrializados; Ingestão de líquidos junto com as refeições; Quantidade de latas de óleo usadas por mês; Pessoa responsável pelo preparo da refeição no lar. 3 planeJamento alimentar Considerando que a dieta do diabético é um dos fatores fundamentais para manter os níveis glicêmicos dentro de limites desejáveis, o planejamento alimentar deve ser cuidadosamente elaborado, com ênfase na individualização. Para ser bem sucedida, a dieta deve ser orientada de acordo com o estilo de vida, rotina de trabalho, hábitos alimentares, nível socioeconômico, tipo de diabetes e medicação prescrita. A educação alimentar é fundamental para um bom controle metabólico. Os diabéticos em uso de insulina requerem a ingestão de alimentos com teores específicos de carboidratos, em horários determinados, para evitar hipoglicemia e grandes flutuações nos níveis glicêmicos. A ingestão alimentar deve estar sincronizada com o tempo e o pico de ação da insulina utilizada. Para diabéticos que não usam insulina, principalmente os obesos ou com sobrepeso, a principal orientação é a restrição da ingestão calórica total a fim de alcançar o peso adequado. Os profissionais de Nutrição estão capacitados para conduzirem a orientação dietética, devendo também os demais profissionais da equipe estar familiarizados com as noções básicas da dietoterapia do diabetes mellitus (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2003). A contagem de carboidratos também é uma opção para ser usada com os diabéticos. É um plano alimentar baseado na quantidade de carboidratos de uma refeição, cujo princípio se baseia no fato de que o carboidrato é o nutriente que possui maior impacto sobre a glicemia. Os carboidratos são contabilizados em gramas por refeição, facilitando a adesão do paciente à dieta por proporcionar flexibilidade no plano alimentar e estabilidade da glicemia. 87 Esta proposta enfatiza a relação entre alimento, atividade física, glicemia e medicação, podendo assim contribuir para uma melhor determinação da dose de insulina necessária para a adequada metabolização do carboidrato. Além disso, corrobora a importância da educação nutricional na monitoração do diabético (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2003). 4 obJetivos do tratamento dietético O tratamento dietético tem como objetivo principal auxiliar os diabéticos a realizar as mudanças nos padrões de nutrição e atividade física, conduzindo a um bom controle metabólico. Os objetivos específicos, por sua vez, incluem: – Contribuir para normalizar os níveis de glicemia; – Diminuir os fatores de risco para doenças cardiovasculares, assim como adequar os níveis de lipídios séricos; – Ofertar um plano alimentar com calorias suficientes para obtenção e manutenção do peso corpóreo adequado; – Prevenir e tratar as complicações agudas e as crônicas do diabetes; – Melhorar a saúde a partir de uma nutrição equilibrada (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2003). 5 necessidades energéticas e recomendações nutricionais A prescrição energética baseia-se nas calorias requeridas para alcançar e manter o peso desejado. Os indivíduos obesos, geralmente portadores de diabetes tipo 2, devem ser orientados a seguir uma dieta com moderada restrição calórica, associada com exercícios físicos, a fim de reduzirem o peso, gradativamente. Uma perda razoável de peso, em torno de 5 kg a 10 kg, em grandes obesos, já se mostra efetiva no controle glicêmico, mesmo que o peso ideal ainda não tenha sido alcançado. Os diabéticos com peso adequado devem ingerir calorias suficientes para mantê-lo, e os indivíduos com baixo peso, particularmente os portadores de diabetes tipo 1, que tenham perdido massa magra e gordura corporal, requerem ingestão calórica ajustada para recuperação do peso e do bom estado nutricional. As crianças e adolescentes, por sua vez, necessitam de ajustes frequentes do valor energético total, a fim de prover energia suficiente para o crescimento e desenvolvimento, dentro do esperado para cada faixa etária (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2007; MURA, 2007). 88 5.1 recomendações nutricionais A dieta indicada para pacientes diabéticos deve ser rica em fibras, com baixos teores de gordura saturada, sal e açúcares simples. A fibra solúvel favorece o controle de dislipidemias e da glicemia, por reduzir a absorção de colesterol e carboidratos no âmbito intestinal. Dietas moderadas em carboidratos e proteínas e de baixo teor lipídico são especialmente indicadas para portadores de diabetes (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2004). Carboidratos Recomenda-se que as fontes de carboidratos consistam de cereais, leguminosas e vegetais (carboidratos complexos, na forma de amido); leite e frutas (carboidratos simples como lactose, frutose, sacarose de composição e frutose de composição). Estes alimentos devem ser distribuídos em quantidades equilibradas ao longo do dia e devem representar cerca de 50% a 60% do valor calórico total da dieta. Quanto à sacarose (açúcar), alguns estudos têm mostrado que a sua ingestão em parte do plano alimentar não prejudicaria o controle glicêmico dos diabéticos, mas esta ingestão estaria condicionada ao bom controle metabólico e ao peso adequado. Alguns estudiosos estabelecem percentuais que variam de 5% a 7% de sacarose, na dieta de pacientes diabéticos compensados. Todavia, a auto monitorização domiciliar da glicemia é difícil de ser cumprida, sobretudo devido aos custos econômicos elevados, outro aspecto que deve ser lembrado, ao se propor o uso da sacarose. O assunto é controverso e requer que resultados mais concretos sejam alcançados. É também de primordial importância que sejam oferecidos a todos a educação continuada em diabetes e melhores condições para o controle clínico. Proteínas O teor de proteínas da dieta do diabético deve ser baseado nas recomendações para a população em geral. Para adultos, geralmente, é recomendado 0,8 g/kg por dia, o que representa 10% a 20% do valor calórico total. As proteínas podem ser de origem vegetal (leguminosas) ou de origem animal (carnes, leite, peixes e ovos). 89 Salientamos a importância da orientação correta das quantidades de alimentos proteicos a serem consumidos, pois, culturalmente, existe uma supervalorização das proteínas, levando ao consumo excessivo. Este excesso não é benéfico para o organismo pelo alto custo metabólico que a ingestão ocasiona e pelo risco de elevar o consumo de gorduras, normalmente associadas aos alimentos proteicos. Especial atenção deverá ser dada aos diabéticos com nefropatia, para os quais a ingestão proteica seguirá recomendações apropriadas (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2003). Lipídios Os lipídios devem representar uma quantidade inferior a 30% do valor calórico total da dieta. Em diabéticos obesos, um menor consumo de gordura contribuirá para reduzir a ingestão calórica total e para a perda de peso, principalmente quando combinada com atividade física. Considerando que o diabetes por si só representa um fator de risco para aterosclerose, um consumo reduzido de colesterol e gordura saturada é recomendável, visando prevenir a ocorrência de macroangiopatia, que atinge principalmente as artérias coronárias, cerebrais e das extremidades inferiores. Os alimentos gordurosos como carnes gordas, frituras, molhos e embutidos, entre outros devem ser evitados, assim como alimentos ricos em gorduras saturadas e gorduras trans (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2003). Fibras A fibra alimentar ou dietética é a parte dos alimentos vegetais que apresenta resistência à hidrólise pelas enzimas digestivas humanas. Não fornecem calorias, vitaminas ou minerais, mas desempenham várias funções benéficas ao organismo humano, como prevenção de doenças cardiovasculares, câncer e hipertensão arterial. As fibras são classificadas, segundo sua solubilidade em água: – fibras insolúveis: celulose, lignina e muitas hemiceluloses, cujas principais fontes são verduras e grãos de cereais. Possuem como efeitos fisiológicos o aumento do volume e do peso das fezes, melhorando o trânsito intestinal, fator importante na prevenção do câncer de cólon e da constipação intestinal. 90 – fibras solúveis: pectina, gomas, certas hemiceluloses e alguns polissacarídeos, cujas fontes são frutas, aveia, cevada, leguminosas, legumes. Como efeitos fisiológicos, retardam o esvaziamento gástrico, proporcionando maior saciedade. Além disso, grandes quantidades de fibras solúveis têm efeito positivo no controle dos lipídios sanguíneos. O consumo diário de alimentos que contenham cerca de 25 a 30 gramas de fibras dietéticas é recomendado aos diabéticos, assim como para a população em geral. Para tanto, é importante incentivar o uso de alimentos pouco cozidos e não refinados. As frutas e os vegetais devem ser ingeridos preferencialmente crus, procurando-se evitar consumi-los liquidificados, picados e fatiados. Não é recomendado o consumo habitual de bebidas alcoólicas, já que elas favorecem picos de hipoglicemia, além de fornecerem calorias vazias (CUPPARI, 2005; SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2003). Índice glicêmico Define-se o índice glicêmico como a área sob uma curva de resposta à glicose, após o consumo de 50g de carboidrato glicêmico (não incluídas as fibras) de um alimento teste, expressa como percentual de resposta para a mesma quantidade de carboidrato de um alimento padrão (pão branco ou glicose pura) ingerido pelo indivíduo. O consumo regular de alimentos de alto índice glicêmico resulta em maiores níveis de glicemia e insulinemia e maior concentração de hemoglobina glicada. As maiores elevações do índice glicêmico são observadas com batatas, cereais e pães, e as menores elevações, com macarrão e leguminosas. As diferenças podem estar relacionadas ao teor de fibras, com a forma de preparo e com variações no processo digestivo. As informações sobre o índice glicêmico poderão ser úteis na seleção dos alimentos quando estudos mais conclusivos melhor determinarem os seus benefícios na dieta do diabético. Os diversos fatores que interferem na resposta glicêmica, juntamente com o pequeno número de produtos alimentícios analisados até o momento, ainda não possibilitam indicar quais os alimentos ou combinações terão melhor efeito sobre a glicemia. De maneira geral, precisamos estimular o consumo de vegetais, legumes, alimentos integrais e não refinados e limitar a ingestão de tubérculos, carboidratos refinados e açúcares simples. Como a composição da refeição – ou seja, a quantidade de fibras, proteínas e gorduras - interfere no 91 índice glicêmico final, precisamos orientar refeições balanceadas, com a quantidade adequada de macronutrientes. No quadro 4 é apresentado o índice glicêmico (IG) de alguns alimentos, devendo ser lembrado que são considerados alimentos de alto índice glicêmico aqueles com valores superiores a 85; alimentos de moderado índice glicêmico, com valores entre 60 e 85; e alimentos de baixo índice glicêmico, aqueles com índice inferior a 60. aLIMento Bolos Biscoitos Crackers Pão branco Sorvete Leite integral Leite desnatado Iogurte com sacarose Iogurte sem sacarose Aveia Flocos de cereais Batata cozida Mingau de aveia Trigo cozido Farinha de trigo Maçã Suco de maçã Damasco seco Banana Kiwi Manga Laranja Suco de laranja Pêssego enlatado Pêra Ig 87 90 99 101 84 39 46 48 27 78 119 121 87 105 99 52 58 44 83 75 80 62 74 67 54 aLIMento Cuscuz Milho Arroz branco Arroz integral Arroz parboilizado Tapioca Feijão cozido Feijão manteiga Lentilhas Ervilhas Feijão de soja Espaguete Batata frita Batata doce Inhame Chocolate Pipoca Amendoim Sopa de feijão Sopa de tomate Mel Frutose Glicose Sacarose Lactose Ig 93 98 81 79 68 115 69 44 38 68 23 59 107 77 73 84 79 21 84 54 104 32 138 87 65 Quadro 4 – Índice glicêmico (IG) de alguns alimentos (Fonte: www.abeso.org.br) 5.2 Fracionamento de reFeições Recomenda-se fracionar a alimentação diária em seis refeições, sendo três grandes refeições – café da manhã, almoço e jantar – e três lanches intermediários, com horários e quantidades determinadas e adequadas ao tempo de ação da insulina utilizada e à prática de exercícios, a fim de evitar hipoglicemia ou hiperglicemia. 92 6 educação nutricional Diante das práticas alimentares inadequadas como o baixo fracionamento das refeições, o elevado consumo per capita diário de açúcar, sal e óleo, a baixa ingestão hídrica, dentre outros resultados, verifica-se a importância do desenvolvimento de estratégias de educação e promoção de saúde, visando a incentivar mudanças nestes hábitos. Deve-se destacar que, tendo como base as informações dos usuários, são programados atendimentos nutricionais individualizados voltados, especialmente, para a orientação de hábitos alimentares mais adequados (COTTA et al., 2009). A efetivação de uma dieta saudável pressupõe o cuidado com a alimentação, e este é um aspecto que implica em se adotar novos modos de organização do conhecimento científico para que eles possam ser colocados a serviço das pessoas, numa atitude de ajuda, zelo, atenção e compreensão. Em um momento posterior, estas pessoas que contaram com o cuidado profissional de um nutricionista cuidarão da alimentação de pessoas que estão sob sua responsabilidade também em atitude de ajuda, zelo, atenção e compreensão (BOOG, 2008). A educação nutricional deve fazer parte do trabalho dos nutricionistas em todos os campos, mas em atenção primária é uma grande ferramenta de ensino e propagação de práticas alimentares saudáveis. A seguir estão expostas experiências vivenciadas pelo grupo de Nutrição que participa do projeto de extensão universitária “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus”. Consulta individual As consultas individuais são feitas de forma dinâmica com o objetivo de reeducar o paciente. Através do recordatório alimentar e com o uso de imagens de alimentos, porções e imagens alusivas de talheres, a equipe de nutrição procura orientar e esclarecer os diabéticos sobre como se alimentar no cotidiano e em ocasiões especiais. As consultas têm sempre o propósito de esclarecer dúvidas e propagar a educação nutricional. Palestras em sala de espera Alguns temas são abordados com frequência, em sala de espera, com os pacientes do ambulatório que estejam aguardando atendimento pelos profissionais de saúde. É observado o interesse e participação dos pacientes 93 que sempre têm questionamentos quanto a questões envolvidas ao diabetes e à alimentação. Dentre os assuntos que são “trabalhados” em sala de espera, destacam-se: a) O que é diabetes, dieta balanceada e dicas de alimentação; b) Importância da alimentação para o paciente diabético; c) Aspectos motivacionais para adesão do paciente diabético à dieta; d) Hábitos de vida que ajudam a manter a dieta do diabético; e) Diferença entre alimentos diet e light; f ) Fibras alimentares; g) Comportamento alimentar do paciente diabético; h) Macro e micronutrientes no diabetes. A sala de espera é uma oportunidade de educação nutricional simples e rápida, mas que proporciona um entendimento de educação nutricional em diabetes junto ao grupo de pacientes. Reuniões de pacientes diabéticos com uso de técnicas de dinâmica de grupo Nas reuniões são abordados temas semelhantes aos apresentados na sala de espera; no entanto, com participação mais ativa dos pacientes e com maior interação nos temas. Muitas reuniões são feitas com a interação da equipe multiprofissional tratando o mesmo assunto ou assuntos diversos. A seguir citamos exemplos de técnicas utilizadas nas reuniões: Boneco A utilização de um boneco feito de papelão nas mesmas dimensões e com as roupas de um homem adulto, representando um paciente diabético, visa que os próprios pacientes ofereçam dicas sobre qualidade de vida, higiene e Nutrição. Os profissionais presentes aproveitam o momento para fazer perguntas aos pacientes, tais como: Que dicas você daria ao boneco em relação a sua alimentação? Ou Como o boneco diabético deve se comportar numa festa de aniversário? Como as perguntas e as dicas são feitas para o boneco, os pacientes não se sentem constrangidos em dizer o que pensam. Ao final das reuniões, a equipe discute os assuntos abordados e aplica os conselhos para os próprios pacientes. 94 Biscoitinhos delícia O objetivo é a criação de um biscoito diet com nome fictício visando trabalhar a questão da rotulagem nutricional e a educação nutricional, com o próprio alimento. Com esta receita são discutidos tópicos como: – Importância da leitura de rótulos; – O que encontramos nos rótulos; – Os itens da tabela de informação nutricional; – Informação nutricional obrigatória; – Atenção aos rótulos; – Receitas para pacientes diabéticos (como o biscoito diet). Após a apresentação, os pacientes têm a oportunidade de experimentar os biscoitos e conhecerem a receita. Caminhada orientada com lanche Periodicamente, o grupo interdisciplinar realiza com pacientes uma caminhada orientada que pode ser feita em parques da cidade ou no campus da própria universidade. Após a caminhada os pacientes recebem gratuitamente um pote (150g) com salada de frutas e gelatina diet ou somente frutas de baixo e intermediário índice glicêmico como maçã, laranja, pêssego, pera além de folhetos explicativos. A equipe também disponibiliza água mineral filtrada. Nestas caminhadas existe a possibilidade da interação da equipe multiprofissional junto aos pacientes. Para o serviço de Nutrição a caminhada orientada é uma oportunidade de trabalhar a educação nutricional. 7 considerações Finais Com base na necessidade de investigação e avaliação do estado nutricional para a mudança de hábitos e controle metabólico do paciente diabético, pode-se concluir a importância dos profissionais de Nutrição em projetos de Educação em Diabetes. Com a presença do profissional nutricionista na equipe interdisciplinar, é possível sanar deficiências nutricionais e oferecer informações adequadas para uma alimentação correta e específica para cada paciente. Vale ressaltar que através de uma alimentação equilibrada, o paciente diabético pode ter um maior controle de sua doença, prevenindo assim distúrbios nutricionais ou qualquer agravamento da doença, de seus sintomas e das complicações crônicas a ela relacionadas. 95 8 reFerências AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Nutritional principals and recommendations in diabetes. Diab Care, v. 27, Suppl 1, p. S36-S46, Jan. 2004. BOOG, M. C. F. Atuação do nutricionista em saúde pública na promoção da alimentação saudável. Rev Cienc Saúde, v. 1, n. 1, p. 33-42, jan./jun. 2008. COTTA, R. M. M. et al. Hábitos e práticas alimentares de hipertensos e diabéticos: repensando o cuidado a partir da atenção primária. Rev Nutr, v. 22, n. 6, p. 823-835, dez. 2009. COSTA, M. J. C. Interpretação de exames bioquímicos para o Nutricionista. São Paulo: Atheneu, 2008. COZZOLINO, S. M. F. (Org.). Biodisponibilidade de nutrientes. Barueri, SP: Manole, 2009. CUPPARI, L. Nutrição clínica no adulto. 2. ed. 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Disponível em: < http://www. who.int> Acesso em: 20 set. 2010. 96 CAPÍTULO 7 ATUAÇÃO DO EDUCADOR FÍSICO EM UM PROGRAMA DE EDUCAÇÃO EM DIABETES AUTORES Antônio Paulo André de Castro Henrique Novais Mansur José Marques Novo Júnior 1 introdução Nas últimas décadas, a busca por melhor qualidade de vida tornou-se foco de pesquisas e programas que visam buscar e/ou aprimorar o estado de saúde, a fim de reduzir a incidência e o desenvolvimento de doenças, bem como as chances de que elas conduzam a incapacidades, sofrimento crônico, morbidade e morte prematura. Certamente a inatividade física, aliada à dieta inadequada e ao tabagismo, é um dos principais fatores de risco para manifestação de doenças crônicas não-transmissíveis e suas complicações. Ao contrário, a prática regular de exercício físico, ou mesmo um estilo de vida mais ativo, tem se mostrado como fator protetor contra a ocorrência de doenças cardiovasculares e metabólicas, reduzindo não só a mortalidade cardiovascular, mas também a mortalidade por todas as causas (BLAIR et al., 1995; PATE et al., 1995; PAFFENBARGER et al., 1996). O estilo de vida sedentário em pacientes com doenças crônicas não-transmissíveis, como hipertensão arterial, doença coronariana, diabetes mellitus ou dislipidemia, está associado a um aumento no risco de mortalidade cerca de duas a três vezes maior quando comparado a um mínimo de 30 minutos por dia de atividade física, uma ou mais vezes por semana (MARTINSON et al., 2001). Tendo em vista o cenário no qual se encontra a sociedade atual, acreditamos, com base em evidências científicas, que a prática regular de exercício físico possa beneficiar e reduzir os fatores de risco envolvidos na gênese de várias doenças crônicas, inclusive do diabetes mellitus (GRUNDY, 1999; BLAIR et al., 1995; PATE et al., 1995; PAFFENBARGER et al., 1993; 1996). Dentre os benefícios gerais de um programa de condicionamento físico, podemos citar: – Auxílio na redução do consumo de álcool e tabaco; – Controle do peso corporal; – Aprimoramento da capacidade física, propiciando um estilo de vida independente, em pessoas idosas; – Melhor execução das atividades laborativas bem como das atividades recreativas e esportivas; – Melhoria da função cardiorrespiratória; – Melhoria do nível de saúde mental; – Redução da morbixdade e da mortalidade; – Aquisição de ossos e articulações mais saudáveis; – Redução do estado de ansiedade e depressão; – Redução no risco de desenvolver diabetes, hipertensão arterial, câncer de cólon e câncer de mama; – Redução nos fatores de risco para doença coronariana; – Sensação aumentada de bem-estar. 2 exercício Físico e diabetes mellitus Junto à dieta, ao tratamento medicamentoso e à educação do paciente, o exercício físico tem desempenhado papel crítico no tratamento e prevenção do diabetes mellitus. Os benefícios promovidos pelo exercício físico estão relacionados a importantes alterações metabólicas, neuroendócrinas e cardiovasculares, contribuindo para prevenção, redução e reversão de complicações metabólicas e promoção de melhora na qualidade de 98 vida (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2009; BASSUK e MANSON, 2005). A meta terapêutica para controle do diabetes mellitus é alcançar e manter os níveis de glicose próximos do normal, além de controle estrito dos lípides sanguíneos, na tentativa de prevenir ou retardar o aparecimento de complicações microvasculares, macrovasculares e neurais (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2010). A ação do exercício enquanto um dos pilares do tratamento se dá, sobretudo, pela melhoria na ação da insulina, tanto de forma aguda quanto crônica (COLBERG e GRIECO, 2009). Dentre os benefícios alcançados por portadores de diabetes mellitus do tipo 1 engajados em programas de condicionamento físico, podemos citar: – Aumento da força e flexibilidade; – Aumento do gasto de energia; – Melhora do condicionamento cardiovascular; – Melhora da sensibilidade à insulina e redução da necessidade de insulina exógena; – Melhora da sensação de bem-estar e da qualidade de vida; – Redução da glicemia durante e após o exercício. Para portadores de diabetes mellitus do tipo 2, são descritos os seguintes benefícios: – Auxílio na manutenção da massa corporal magra; – Melhora da função cardiovascular; – Melhora da sensibilidade insulínica; – Melhora do perfil lipídico e controle da hipertensão arterial; – Prevenção de complicações micro e macrovasculares; – Melhora do controle glicêmico, em longo prazo. É importante salientarmos que os benefícios que o exercício físico produz estão associados à intensidade e duração do exercício, estado fisiológico, ou seja, nível de condicionamento, tipo de exercício e individualidade. Embora as respostas possam variar entre os indivíduos, a redução dos níveis de glicose após uma sessão de exercício de leve a moderada intensidade perdura por um período de duas a 48 horas (COLBERG e GRIECO, 2009; ALBRIGHT, 2000). O exercício físico pode atuar por diferentes mecanismos intracelulares no controle do diabetes mellitus, seja aumentando a sensibilidade à 99 insulina ou reduzindo os fatores de risco para diabetes. Acredita-se que o aumento na sensibilidade insulínica seja determinado pelo aumento na captação de glicose via GLUT4 independente de insulina, melhoria no metabolismo de lípedes e redução da atividade pró-inflamatória do tecido adiposo excessivo (PAULI, 2009). A captação de glicose estimulada pelo exercício é independente da ação da insulina. O efeito do exercício sob a expressão e translocação do GLUT4 independente de insulina para membrana celular envolve os seguintes passos: 1) aumento da necessidade de energia no músculo exercitado; 2) aumento do fluxo sanguíneo para musculatura exercitada, promovendo ampla quantidade de substrato energético, em especial de glicose; 3) translocação de GLUT4 mediada por fatores autócrinos e parácrinos. Tendo em vista os benefícios que o exercício físico pode proporcionar ao portador de diabetes, fica evidente a necessidade da afirmação do exercício enquanto medida terapêutica e preventiva no tratamento da doença. Programas de condicionamento físico para portadores de diabetes mellitus devem incluir exercícios cardiovasculares e neuromusculares que visem o desenvolvimento e a manutenção da aptidão cardiorrespiratória, alterações positivas na composição corporal e aumento da força e resistência muscular. Cabe ressaltar que todas as informações descritas nesse texto são fundamentais para uma prática saudável e eficiente de atividade física pelos pacientes, como parte de um tratamento aprimorado e seguro. As informações aqui contidas são respaldadas em consensos e diretrizes publicados por entidades e pesquisadores de grande expressão e reconhecimento sobre o tema. Além dos procedimentos e cuidados necessários, o leitor deverá se conscientizar que toda e qualquer conduta, quanto ao tratamento global do diabetes mellitus, deverá estar em acordo com a terapêutica adotada por todos os profissionais envolvidos no tratamento, para que toda e qualquer informação direcionada ao paciente seja concisa e adequada. 3 avaliação inicial para recomendação da prática de exercício Físico A triagem de saúde pré-exercício físico e estratificação dos riscos deve ser a primeira etapa do processo de avaliação da aptidão física relacionada à saúde. É o processo pelo qual se busca reunir informações relevantes a respeito do paciente, desde aspectos clínicos, passando pelo tratamento 100 medicamentoso e nutricional, até a prontidão ao ingresso a um programa de condicionamento físico. As razões pelas quais os pacientes devem ser submetidos a uma avaliação de triagem para sua participação nos programas de condicionamento físico relacionado à saúde visam a identificação de pacientes com contra indicação médica; de pacientes que necessitam de supervisão constante durante a prática de exercício; de barreiras e dificuldades encontradas pelo paciente para adesão a um programa de condicionamento físico; de limitações físicas que possam requerer cuidados especiais durante a realização do exercício; de parâmetros clínicos de aptidão cardiorrespiratória e neuromuscular para uma prescrição de exercício segura e efetiva. Para isto sugerimos a elaboração de uma anamnese clínica detalhada e a aplicação de questionários e protocolos de avaliação da composição corporal, capacidade cardiorrespiratória e capacidade neuromuscular, esta abordando a força muscular e a flexibilidade articular. 3.1 a composição corporal e o diabetes mellitus A composição corporal é definida como a proporção relativa de tecido gorduroso e tecido livre de gordura. A avaliação da composição corporal tem como objetivo identificar e caracterizar fatores de risco para doenças crônicas não-transmissíveis associadas ao excesso de tecido adiposo, direcionar programas de saúde para prevenção e tratamento de algumas destas doenças, além de supervisionar os efeitos procedentes do tratamento e do programa de condicionamento proposto. A importância em se avaliar portadores de diabetes mellitus baseia-se na relação entre possíveis efeitos deletérios da doença sobre elementos da composição corporal, em especial no tecido muscular esquelético. Estudos realizados com pacientes portadores de diabetes tipo 2 demonstram que há uma redução da massa muscular esquelética quando comparados a indivíduos sem diabetes (OBERBACH et al., 2006; PARK et al., 2006; HU et al., 2006; SAYER et al., 2005). Para o acompanhamento das modificações na composição corporal, sugerimos que sejam aplicados, para pacientes não obesos, protocolos de dobras cutâneas para cálculo da densidade corporal e posterior cálculo do percentual de gordura; e para pacientes obesos, o uso da perimetria ou de equipamentos que possam fornecer análise precisa. 101 3.2 aptidão cardiorrespiratória A aptidão cardiorrespiratória está relacionada à capacidade de realizar um exercício dinâmico de intensidade moderada a alta com grandes grupamentos musculares, por longos períodos de tempo. A realização desse exercício depende do estado funcional dos sistemas respiratório, cardiovascular e musculoesquelético. O diabetes mellitus, per se, é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares; portanto, é essencial que, antes de iniciar qualquer programa de condicionamento físico, o paciente faça uma avaliação médica. As recomendações para elaboração do programa de treinamento cardiorrespiratório ao paciente diabético compreendem: – Escolher uma modalidade de treinamento que seja confortável, que exija um nível baixo de habilidade e seja segura; – Iniciar com intensidade e duração adequadas ao condicionamento inicial do paciente; – Orientar sessões com duração de 20 a 60 minutos, iniciando com durações menores e progredindo à medida que o paciente evoluir; – Manter a intensidade do exercício entre 50% e 80% do VO2 de reserva ou da frequência cardíaca de reserva; – Para pacientes em uso fármacos anti-hipertensivos que promovam déficit cronotrópico, a intensidade deverá se basear na taxa de esforço percebido; – Recomendar frequência de três a quatro vezes por semana, com o intervalo máximo entre de 72 horas entre as sessões. 3.3 aptidão neuromuscular: Força e Flexibilidade A aptidão neuromuscular engloba força e resistência musculares e flexibilidade. Trata-se de um componente relacionado à saúde em virtude da sua ampla relação com os diversos sistemas orgânicos. Níveis adequados de aptidão neuromuscular podem aprimorar ou manter o peso corporal dentro dos padrões saudáveis, ajudar na manutenção ou, até mesmo, aumentar a densidade mineral óssea, minimizar ou reverter o quadro de resistência insulínica relacionada ao diabetes mellitus, resguardar a integridade músculo-tendinosa e manter ou aumentar a capacidade de realizar as atividades da vida diária. 102 No diabetes mellitus, os sistemas músculo-esquelético e articular são afetados pela idade, pela duração da doença e pelo grau de controle glicêmico. Quando o indivíduo diabético é exposto a um período prolongado de hiperglicemia, são produzidos os chamados advanced glycation end-produts ou produtos finais de glicação avançada (AGEs), classe de moléculas heterogêneas, formadas a partir de reações aminocarbonilo de natureza não-enzimática, em processo acelerado no estado hiperglicêmico do diabetes e que estão relacionados, principalmente, à disfunção endotelial e, consequentemente, às complicações micro e macrovasculares. Estudos apontam que indivíduos diabéticos, tanto do tipo 1 quanto do tipo 2, apresentam níveis de força e flexibilidade menores que um grupo controle de indivíduos agrupados por idade, sexo e nível habitual de atividade (SAYER, 2005; CETINUS, 2005; PARK, 2006). Recentemente, o treinamento resistido tem sido proposto como uma ferramenta terapêutica útil no tratamento de várias doenças crônicas, inclusive do diabetes mellitus (ADA, 2002; ALBRIGTH, 2000; EVES & PLOTNIKOFF, 2006; ERIKKSON, 1998; HONKOLA, 1997). Para a elaboração de um programa de treinamento resistido adequado, seguro e efetivo, sugerem-se as seguintes recomendações: – Escolha de uma modalidade de treinamento resistido que seja confortável, sejam pesos, faixas elásticas, máquinas ou o próprio peso corporal; – Orientação de oito a dez exercícios para os principais grupamentos musculares (quadris, coxa, pernas, costas, tórax, ombros, braços e abdome); – Iniciar com uma série e progredir para três; – Realizar as séries até o ponto próximo de fadiga muscular; – Realizar entre 10 e 15 repetições com velocidade moderada; – Intensidade entre 40% e 60% da carga máxima; – Exercitar cada grupamento muscular por dois a três dias nãoconsecutivos por semana; – Atenção à forma correta de execução dos exercícios; – Proporcionar um período de recuperação suficiente entre as séries e entre cada exercício; – Manter um padrão respiratório normal e evitar, contrações musculares isométricas, e evitar a realização da manobra de Valsalva; – Realizar o treinamento, preferencialmente, sob a forma de circuito. 103 – – – – – – Para elaboração de um programa de flexibilidade recomenda-se: Preceder o alongamento por um aquecimento capaz de elevar ligeiramente a temperatura do músculo; Adotar uma rotina de alongamento estático que exercite as principais unidades musculotendinosas, dando ênfase aos grupamentos musculares com menor amplitude de movimento; Realizar por um mínimo de duas a três vezes por semana, de preferência todos os dias da semana; Alongar até o final da amplitude de movimento num ponto de tensão máxima sem induzir grande desconforto; Manter cada alongamento por 15 a 30 segundos; Realizar duas a quatro repetições por alongamento. 4 conduta Frente as complicações associadas ao diabetes mellitus Devido à carência de estudos exploratórios acerca dos riscos e benefícios do exercício em pacientes que apresentam complicações decorrentes do diabetes, recomenda-se cautela e avaliação periódica da progressão das lesões. 4.1 hipoglicemia O quadro de hipoglicemia pode ser definido como o grupo de sintomas consequentes a valores de glicose plasmática inferiores a 70 mg/dL (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2010). As reações de hipoglicemia relacionadas ao exercício, em diabéticos do tipo 2, são raras, ocorrendo, principalmente, em pacientes em uso de secretagogos de insulina e/ou insulina e diabéticos do tipo 1, que sejam submetidos a exercícios extenuantes e de longa duração (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2010). Para minimizar a ocorrência de episódios de hipoglicemia, é necessário que se faça adequação entre a sessão de exercício e o horário no qual a medicação foi tomada, considerando o local, dose e tipo da insulina injetada, estado nutricional antes da realização do exercício e a monitorização da glicemia antes, durante e após a sessão de exercício programada. Antes de iniciar a sessão de exercícios, é necessário que se avaliem os valores da glicemia, a fim de prevenir episódios de hipo e hiperglicemia. Para isso, deve-se levar em consideração os valores de referência apresentados no Quadro 1. 104 gLICeMIa (mg/dL) ConDUta Até 80 Não realizar exercício 80 – 100 Ingerir carboidratos e medir novamente a glicemia após um período de 10 minutos 100 – 250 Realizar o exercício Acima de 250, com cetonúria Não realizar o exercício Acima de 300 Não realizar o exercício Quadro 1 – Parâmetros glicêmicos e conduta para início do exercício físico Os usuários de insulina devem estar atentos quanto ao horário da aplicação da mesma e à sessão de exercício, não devendo se exercitar no período de ação máxima. Além disso, a aplicação deve ser realizada no local onde a musculatura será pouco exigida. Dependendo da intensidade e duração do exercício, o reajuste da dosagem de insulina deve ser realizado, aconselhando-se, de modo geral, redução de 30% a 50% da dose de insulina regular antes do exercício. Após o exercício, o ajuste deve ser baseado na monitoração da glicose e na experiência prévia com hipoglicemia pósexercício, lembrando que toda e qualquer alteração nas dosagens e horários deve ser feita pelo médico (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2002; YAMAKKITA, 2002; KOIVISTO e FELIG, 1978). tIPos De InsULIna açÃo InÍCIo De açÃo PICo De açÃo DUraçÃo Da açÃo Lispro Ultrarrápida 5-15 minutos 0,5-1,5 hora 4-6 horas Glulisina Ultrarrápida 5-15 minutos 0,5-1,5 hora 4-6 horas Asparte Ultrarrápida 5-15 minutos 0,5-1,5 hora 4-6 horas Regular Rápida 0,5-1 hora 2-3 horas 8-10 horas NPH Intermediária 2-4 horas 4-10 horas 12-18 horas Detemir Lenta 4-6 horas Sem pico 18-20 horas Glargina Lenta 2-4 horas Sem pico 22-24 horas Quadro 2 – Tipos de insulina e tempo de ação 105 4.2 retinopatia diabética Supostamente o exercício físico não apresenta efeitos adversos na progressão na retinopatia diabética não proliferativa ou edema macular. Entretanto, em caso de retinopatia proliferativa ou não proliferativa grave, tanto exercícios cardiovasculares e neuromusculares de alta intensidade podem ser contra indicados devido ao elevado risco de hemorragia no vítreo e descolamento de retina (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2010; ALBRAIGTH, 2000). Ressaltamos que antes do início de um programa de condicionamento físico o médico deve ser consultado e a avaliação oftalmológica realizada. 4.3 neuropatia diabética periFérica Esta forma de neuropatia afeta, principalmente, as extremidades, especialmente as regiões inferiores das pernas e pés, levando à perda de sensibilidade distal e podendo ocasionar desde desordens musculoesqueléticas até infecções da pele. A redução da sensibilidade das extremidades, principalmente em membros inferiores, pode resultar em risco para ulceração e infecção da pele e estimular o surgimento de deformidades do complexo tornozelo-pé, tal como a artropatia de Charcot. Na presença de neuropatia periférica grave, aconselha-se que exercícios que demandem a sustentação do peso corporal não sejam indicados e que outras atividades como natação, ciclismo ou exercícios com os braços sejam preferidas. Todo aconselhamento deve considerar os aspectos relacionados à integridade e segurança do paciente. 4.4 neuropatia diabética autonômica A neuropatia diabética autonômica pode aumentar o risco para danos induzidos pelo exercício, devido à redução na resposta cardíaca ao exercício, hipotensão postural, termorregulação inadequada devido à redução de fluxo sanguíneo para pele e produção de suor, visão noturna prejudicada decorrente da reação inadequada das pupilas, ineficiência dos mecanismos de sede, podendo resultar em desidratação, e funcionamento inadequado do sistema digestivo. A neuropatia diabética autonômica está fortemente associada a doenças cardiovasculares, e portadores desta complicação devem ser submetidos à avaliação cardiológica antes de iniciarem qualquer programa de condicionamento físico. 106 Dessa forma, diante do paciente diabético, as seguintes precauções devem ser consideradas: – Hidratação adequada; – Uso de calçados confortáveis e apropriados para prática de exercícios; – Exame diário dos pés, ficando atento a qualquer modificação na pele e nas articulações; – Na presença de algum tipo de lesão, o paciente deve ser encaminhado para avaliação médica, sendo suspensos os exercícios que demandam a sustentação corporal. 4.5 neFropatia diabética O exercício físico, de forma aguda, pode aumentar a excreção urinária de proteínas, em consequência do aumento da pressão arterial durante o exercício. De acordo com alguns estudos, portadores de diabetes mellitus e doença renal crônica devem realizar somente exercícios de baixa a moderada intensidade, que não elevem a pressão arterial sistólica acima de 200 mmHg. Estudos em animais apontam para uma redução na excreção urinária de proteínas como benefício crônico do exercício, possivelmente, devido ao controle glicêmico, redução dos níveis pressóricos e aumento da sensibilidade insulínica. Acredita-se que tanto os exercícios cardiorrespiratórios quanto os exercícios resistidos possam ser aconselhados aos diabéticos portadores de doença renal crônica. No entanto, devido à associação entre micro e macroproteinúria e doenças cardiovasculares, é importante que o paciente seja submetido a um teste de estresse cardíaco antes de iniciar um programa de condicionamento físico. 4.6 vasculopatia diabética O diabetes mellitus é o principal fator de risco para desenvolvimento de doença cardiovascular, com risco de infarto agudo do miocárdio, estando indicada uma avaliação clínica cuidadosa. Embora as atividades com sustentação do peso corporal sejam preferidas, pacientes portadores de diabetes mellitus tipo 2 com presença de doença vascular periférica, que apresentem claudicação, devem optar por atividades que não exijam, demasiadamente, a sustentação corporal, ou, então, alternar com exercícios que não exijam essa sustentação. 107 5 reFerências ALBRIGHT, F. et al. American College of Sports Medicine position stand: Exercise and Type 2 Diabetes. Med Sci Sports Exerc, v. 32, p. 1345-1360, 2000. AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. 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A Atenção Farmacêutica foi definida por Hepler e Strand como uma provisão responsável do tratamento farmacológico, a fim de alcançar resultados terapêuticos que acarretem a melhoria da qualidade de vida do paciente (ZANELLA, ASSINI, 2008). Essa nova prática visa a dispensação responsável dos medicamentos, para se alcançar a eficácia e segurança no uso da farmacoterapia (AMARAL et al., 2008). No âmbito da promoção da saúde, mudou o foco do medicamento para o paciente (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2007). O objetivo é garantir o uso racional de medicamentos, apoiando o paciente no cumprimento da farmacoterapia (REIS, 2005). A implantação da Atenção Farmacêutica significa proporcionar tratamento medicamentoso adequado, alcançando-se resultados que impactem diretamente na saúde do paciente (FLORES, 2005). Baseiase no fato de que a sociedade necessita e tem direito a um tratamento farmacológico adequado, efetivo e seguro. O profissional farmacêutico se encarregará de contribuir para a redução e prevenção da morbimortalidade relacionada a medicamentos, desenvolvendo ações centradas no usuário (REIS, 2005). A partir da inserção dessa nova metodologia de assistência, estabeleceuse um acordo entre paciente e farmacêutico, no qual as responsabilidades de cada parte ficaram estruturadas bem como foram estabelecidas a importância de sua participação e as funções comuns. Ao profissional farmacêutico cabem o compromisso e a competência. Este vínculo de confiança se faz importante para garantir uma adequada “relação terapêutica” (REIS, 2005). O farmacêutico deve atuar na seleção dos fármacos mais adequados, nas decisões para uma prescrição adequada, recomendando e aconselhando os pacientes sobre terapêutica, administração e precauções, dentro de um acompanhamento farmacoterapêutico (LYRA JÚNIOR et al., 2006; REIS, 2005). Além disso, dentro da perspectiva do cuidado à saúde, o profissional farmacêutico deve fornecer informações adequadas e suficientes sobre os medicamentos e, dessa forma, atuar como educador. Assim, o profissional promove o uso racional de medicamentos, garantindo não somente a adesão ao tratamento anti diabético como também outros benefícios da terapêutica (BALESTRE et al., 2007; FLORES, 2005). O seguimento farmacoterapêutico é a atividade fundamental da Atenção Farmacêutica. Compõe-se de três fases principais: anamnese farmacêutica, interpretação de dados e processo de orientação. Isto permite relacionar os problemas detectados com a administração de medicamentos, já que um fármaco pode ser responsável pelo aparecimento de determinados sintomas 112 e doenças ou causa de uma complicação da patogenia (CONSENSO BRASILEIRO DE ATENÇÃO FARMACÊUTICA, 2002). O paciente é atendido, avaliado e orientado em relação à farmacoterapia prescrita pelo médico, por meio da análise de suas necessidades relacionadas aos medicamentos e da detecção dos problemas relacionados à terapêutica. Desse modo, ocorre a consolidação da relação existente entre a prática e o conhecimento teórico na atuação farmacêutica com a promoção da saúde, com segurança e eficácia. O sistema corresponde a um trabalho conjunto entre o médico, o paciente e o farmacêutico e toda equipe multidisciplinar para garantir a saúde do paciente (OLIVEIRA, 2005). Por meio da identificação e resolução, por meio de intervenções e dos “problemas relacionados com os medicamentos” (PRMs), o farmacêutico torna-se responsável pela segurança e eficácia do medicamento, assim como pelo bem estar do paciente e pela adesão do mesmo à terapia. Dessa forma, une-se à equipe multiprofissional na promoção da saúde (AMARAL et al., 2008; VIEIRA, 2007). 2 atenção Farmacêutica: metodologias disponíveis Em 1999, foi desenvolvido o método Dáder de acompanhamento farmacoterapêutico pelo Grupo de Investigação em Atenção Farmacêutica da Universidade de Granada (2004). Esta metodologia baseia-se na obtenção da história farmacoterapêutica do paciente, sendo investigados os problemas de saúde que ele apresenta e os medicamentos que utiliza. É avaliado também seu estado de saúde em uma data determinada, a fim de identificar e resolver os possíveis “problemas relacionados com os medicamentos” presentes. Após esta identificação, são realizadas as intervenções farmacêuticas necessárias para resolver os “problemas relacionados com os medicamentos” e, posteriormente, são avaliados os resultados obtidos. Os “problemas relacionados com os medicamentos” são definidos como sendo problemas de saúde provenientes da terapêutica farmacológica, que acarretam em não alcance dos resultados terapêuticos esperados, bem como no aparecimento de efeitos indesejáveis (FOPPA et al., 2008; MACHUCA et al., 2003; ZANELLA e ASSINI, 2008). Os problemas relacionados com os medicamentos podem ser classificados em seis tipos que podem ser vistos no quadro 1. 113 a) InDICaçÃo O paciente não utiliza o medicamento que necessita O paciente utiliza o medicamento que não necessita O paciente utiliza o medicamento mal prescrito. B) eFetIVIDaDe C) segUrança O paciente utiliza o medicamento em dose inferior e/ou o tratamento ocorre por tempo insuficiente Idiossincrasia O paciente apresenta uma reação adversa Quadro 1: “Problemas relacionados com os medicamentos” de acordo com o Consenso de Granada a) InDICaçÃo B) eFetIVIDaDe C) segUrança O paciente necessita de tratamento farmacológico adicional O tratamento farmacológico é desnecessário Medicamento inadequado Dose do medicamento inferior à necessária Dose do medicamento superior à necessária Reação adversa aos medicamentos D) aDesÃo Adesão inapropriada ao tratamento farmacológico Quadro 2: “Problemas farmacoterapêuticos” de acordo com o Modelo de Minnesota O método de Dáder é o mais utilizado atualmente e se presta eficientemente à resolução dos “problemas relacionados com os medicamentos” (TAVARES et al., 2007), com consequente impacto positivo na qualidade de vida do paciente. Aconselha-se o emprego do método mais adequado ao ambiente de trabalho ou uma junção dos métodos buscando a adequação ao usuário, no caso, o serviço de saúde. 114 3 metodologia implantada no centro de atenção à saúde hu/uFJF O projeto “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus” conta com o atendimento farmacêutico. Durante o qual, o profissional, que executa o atendimento, realiza uma triagem e, ao suspeitar de problemas relacionados a medicamentos, propõe o encaminhamento ao farmacêutico. O atendimento se inicia com uma entrevista, na qual é possível conhecer aspectos de saúde do paciente. São registradas todas as informações como as queixas relacionadas aos problemas de saúde, os medicamentos utilizados e suas respectivas posologias. A partir daí, é realizada uma avaliação minuciosa de todos os medicamentos utilizados, incluindo indicação, dose, posologia, interações medicamentosas, adesão ao tratamento, além de reações adversas e outros problemas provenientes da terapêutica. Nesse momento, é elaborado um relatório, com os “problemas relacionados com os medicamentos” que foram detectados, e, a partir dele, são fornecidas orientações ao paciente e estabelecidas metas para seu retorno. O relatório é apresentado ao médico responsável pelo setor, para, juntamente com o farmacêutico, determinar a melhor terapia para o paciente. Ao usuário, são fornecidas orientações e metas para o seu retorno, incluindo uma tabela de orientação sobre medicamentos, conforme pode ser visto no quadro 3. Esse quadro busca intercalar os horários de administração com as refeições e serve para nortear a administração medicamentosa. Além disso, busca reunir todos os medicamentos sem interação mútua em uma mesma tomada, bem como afastar os horários de administração de fármacos com interação detectada. Ao prescritor são sugeridas substituições de fármacos ou até mesmo a sua suspensão em caso de interações que acarretem riscos ao paciente. Todas as intervenções são realizadas com o conhecimento e aprovação do médico responsável. Para os pacientes analfabetos, os medicamentos são reunidos em sacos plásticos, por horário de tomada, ao qual é colada uma figura que alerta ao período do dia, por exemplo, um sol e uma xícara, representando o café da manhã; uma lua, para a noite etc. Os pacientes são orientados a retornar após três meses da avaliação inicial ou em caso de alteração da prescrição. Tais consultas de retorno são importantes para verificação do resultado das intervenções e avaliação da solução dos “problemas relacionados com os medicamentos”. Além disso, 115 as entrevistas sucessivas permitem a realização de um plano completo de monitoramento, para evitar o aparecimento de novos problemas com a farmacoterapia. orIentaçÃo soBre os MeDICaMentos PACIENTE: ____________________________________________________ MÉDICO: ______________________________________________________ ANTES APÓS CAFÉ DA MANHà ANTES APÓS ALMOÇO ANTES APÓS JANTAR Quadro 3 – Quadro de orientação quanto ao uso dos medicamentos 4 interações medicamentosas dos antidiabéticos orais Os antidiabéticos orais apresentam diversas interações medicamentosas que deverão ser observadas no momento de realização da atenção farmacêutica. Uma boa avaliação das interações medicamentosas, no primeiro atendimento, pode solucionar os principais “problemas relacionados com os medicamentos”. Com o intuito de auxiliar os profissionais na avaliação das principais interações medicamentosas, no anexo I (ao final do livro) disponibilizamos uma tabela de acesso rápido aos grupos farmacológicos e suas principais alterações na glicemia dos pacientes que utilizam essas substâncias em associação com o antidiabético oral. 116 5 reFerências AMARAL, M. F. Z. J. et al. Intervenção farmacêutica no processo de cuidado farmacêutico: uma revisão. Revista Eletrônica de Farmácia, v. 1, p. 60-66, 2008. BALESTRE, K. C. B. E. et al. Relato de um seguimento farmacoterapêutico de pacientes portadores de diabetes do programa saúde da família de Atalaia, Paraná. Revista de Ciências Farmacêuticas Básicas e Aplicadas, v. 28, n. 2, p. 203-208, 2007. CONSENSO BRASILEIRO DE ATENÇÃO FARMACÊUTICA. Proposta. Brasília: Organização Pan-Americana de Saúde, 2002, 24p. FLORES, C. M. Avaliação da atenção farmacêutica ao paciente diabético tipo 2 no município de Ponta Grossa. 2005. 58 f. Dissertação (Mestrado Profissionalizante) – Faculdade de Farmácia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2005. FOPPA, A. A. et al. Atenção farmacêutica no contexto da estratégia de saúde da família. Rev Brasil Cienc Farm, v. 44, n. 4, p. 727-737, out./dez. 2008. GRUPO DE INVESTIGACIÓN EN ATENCIÓN FARMACÉUTICA. Programa Dáder de Implantación del Seguimento del Tratamento Farmacológico. Universidad de Granada, 2004. LYRA JUNIOR, D. P. et al. A farmacoterapia no idoso: revisão sobre a abordagem multiprofissional no controle da hipertensão arterial sistêmica. Rev Latino-Amer Enferm, v. 14, n. 3, jun. 2006. MACHUCA, M. et al. Método Dáder. Guía de seguimiento fármacoterapéutico. GIAF-UGR, 2003. MICROMEDEX. Drug interactions [2010]. Disponível em: <http://www.thomsonhc.com/hcs/librarian/ND_T/HCS/ ND_PR/Main/CS/2E0A61/DUPLICATIONSHIELDSYNC/71EFA0/ ND_PG/PRIH/ND_B/HCS/ND_P/Main/PFActionId/hcs.Interactions. FindDrugInteractions>. Acesso em: 13 jul. 2010. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos 117 Estratégicos. O ensino e as pesquisas da atenção farmacêutica no âmbito do SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. OLIVEIRA, A. B. et al. Obstáculos da atenção farmacêutica no Brasil. Brazil J Pharmal Sci, v. 41, n. 4, out./dez 2005. REIS, H. P. L. C. Adequação da Metodologia Dáder em pacientes hospitalizados com pé diabético: abordagem em atenção farmacêutica. 2005. 286 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Farmacêuticas) – Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2005. STRAND, L. M. et al. The impact of pharmaceutical care practice on the practitioner and the patient in the ambulatory practice setting: twenty five years of experience. Curr Pharm Des, v. 10, n. 31, p. 3987-4001, 2004. TAVARES, L.C. et al. Utilização do Método Dáder de seguimento farmacoterapêutico no tratamento de pacientes com insuficiência cardíaca congestiva. Rev Soc Cardiol Est, São Paulo, v.1, Supl. A, p. 15-20, 2007. VIEIRA, F. S. Possibilidades de contribuição do farmacêutico para a promoção da saúde. Ciênc Saúde Coletiva, v. 12, n. 1, p. 213-220, jan./ mar. 2007. ZANELLA, V.; ASSINI, F. L. Identificação de problemas relacionados com medicamentos em pacientes geriátricos na cidade de Concórdia – SC. Rev Brasil Farm, v. 89, n. 4, p. 294-297, 2008. 118 CAPÍTULO 9 ATUAÇÃO DO FISIOTERAPEUTA EM UM PROGRAMA DE EDUCAÇÃO EM DIABETES AUTORES Eduardo José Danza Vicente Simone Meira Carvalho 1 introdução O diabetes mellitus é considerado como uma das principais doenças crônicas no mundo (CHACRA, 1994). Calcula-se que há mais de 150 milhões de pessoas com diabetes no mundo, e no Brasil o número está perto de 12 milhões (LERCO et al., 2003). Como o diabetes é uma doença sistêmica, tornase necessário um atendimento e acompanhamento multidisciplinar deste paciente, principalmente por causa de suas complicações como doenças cardiovasculares, doenças renais, neuropatias, perda da visão e amputação das extremidades, que são causas significantes de aumento na morbidade e mortalidade entre os pacientes com diabetes (DESHPANDE et al., 2008). Como podemos perceber, trata-se de uma doença complexa e o controle da pessoa diabética passa a ser responsabilidade de uma equipe de profissionais da saúde como médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, dentre outros que deverão garantir, de forma contínua, a qualidade da avaliação, o estabelecimento de metas e intervenções e a mensuração dos resultados da terapêutica proposta (GROSSI, 1998). O fisioterapeuta pode ajudar no tratamento do paciente diabético orientando e cuidando do pé diabético, monitorando a frequência cardíaca e a pressão arterial, realizando um programa de atividades físicas para melhorar o controle glicêmico, atuando na prevenção e no tratamento das pacientes com diabetes gestacional, além de acompanhamento póscirúrgico e reabilitação dos amputados. Neste capítulo daremos ênfase no papel do fisioterapeuta no atendimento ao pé diabético e à paciente com diabetes gestacional. 2 pé diabético As úlceras do pé diabético são desencadeadas por uma tríade patológica bastante clássica que envolve a neuropatia, a doença vascular periférica e as infecções. Cada uma delas pode estar presente de forma isolada ou em combinação com as outras, tornando o quadro clínico bastante complexo. O surgimento destas complicações crônicas aumenta quanto maior for a duração e a severidade da hiperglicemia ao longo dos anos da doença (SIMMONS, 1994). A diminuição da sensação de dor e da propriocepção devido à neuropatia levam a uma descarga anormal de peso sobre os pés ocasionando áreas de pressão aumentada na base plantar. Este aumento de pressão pode levar à formação de uma pele grossa e dura (calo), que pode conduzir a um aumento adicional de pressão nas áreas afetadas. Se não forem tratadas, podem levar a lesões nos tecidos profundos (CULLUM et al., 2001). A úlcera do pé diabético frequentemente se infecta e é importante causa de admissão hospitalar (DANG; BOULTON, 2003; PINZUR et al., 2005). Em média, esses pacientes estão na faixa etária de 50 a 60 anos e têm diabetes há mais de 10 anos (BRIDGES; DEITCH, 1994). Um dos maiores temores do diabético é a perda total ou parcial do seu membro inferior por amputação, sendo este receio fundamentado, pois cerca de 50% a 75% das amputações não traumáticas dos membros inferiores estão relacionadas às complicações do diabetes (HELM et al., 1984). Estudos mostram que a úlcera no pé é reconhecida como um antecedente relevante nas amputações do membro inferior (PECORARO et al., 1991; ADLER et al., 1999). Um grupo de trabalho internacional 120 de pé diabético relatou que, a cada 30 segundos, um paciente diabético sofre amputação dos membros inferiores em algum lugar do mundo (PAPANAS; MALTEZOS, 2007). A adequada avaliação do pé, o diagnóstico correto e a elaboração de um plano de tratamento eficaz constituem aspectos fundamentais na preservação do membro (ROSSI; ROSSI, 2009). 2.1 avaliação do pé diabético O exame físico é iniciado com a análise da marcha, quando possível, seguida pela avaliação do pé. Para se observar melhor a pressão média (kgf/ km2), o pico de pressão (kgf/cm2), a superfície de contato (cm2) e a força de contato (kgf ) do pé com o solo, pode-se utilizar o aparelho baropodômetro que coleta essas variáveis por meio de 2074 captadores. Na avaliação vascular é realizada a palpação dos pulsos das artérias tibial posterior e dorsal do pé, sendo classificados como presentes, diminuídos ou ausentes. A artéria tibial posterior repousa entre os tendões do músculo flexor longo dos dedos e flexor longo do hálux. Seu pulso é difícil de palpar, no entanto, torna-se mais fácil quando o paciente se encontra relaxado e em uma posição que não suporte o peso de forma que os tendões desta área estejam desprovidos de tensão. Já a artéria dorsal do pé situa-se entre os tendões do extensor longo do hálux e do extensor longo dos dedos, no dorso do pé. Como essa artéria é subcutânea, seu pulso é mais facilmente palpado. Continuando a avaliação, deve-se observar a presença ou ausência de pelos; a temperatura da pele dorsal do pé do paciente comparando-a com a temperatura do tríceps sural, que pode estar normal, aumentada ou diminuída; a coloração da pele do pé que pode estar normal, pálida ou cianótica. A avaliação do “tempo de enchimento capilar” também deve ser feita, aplicando-se firme pressão digital à pele plantar do hálux por 5 segundos: a cor original deve voltar em até 5 segundos, para ser considerado normal. Na avaliação neurológica recomenda-se a realização do teste com monofilamento de 10g, como descrito em capítulos anteriores. Wagner (1981) apresentou uma classificação para diagnóstico e tratamento das lesões do pé diabético. Esta classificação é feita em graus e varia de 0 a 5 de acordo com a presença de úlcera, infecção ou gangrena (quadro 1). 121 graU 0 graU I graU II graU III graU IV graU V Os pés apresentam a pele íntegra Os pés apresentam úlcera superficial, comprometendo apenas a pele e tecido subcutâneo Os pés apresentam úlceras atingindo planos mais profundos como fáscias, tendões, cápsulas articulares, ligamentos ou ossos Os pés apresentam alguma infecção ativa, como abscesso, celulite, osteomielite Há gangrena do antepé Há gangrena de todo o pé Quadro 1 – Classificação para diagnóstico e tratamento das lesões do pé diabético (WAGER, 1981) 2.2 o tratamento do pé diabético na Fisioterapia Para o paciente diabético que ainda não apresenta nenhuma lesão no pé e está com a pele íntegra, o tratamento indicado é a profilaxia. Alguns cuidados importantes devem ser informados a todos os diabéticos: – Nunca andar descalço, mesmo dentro de casa; – Examinar os pés todos os dias, usando, se necessário, espelho para visualizar a região plantar procurando por ferimentos, arranhões, bolhas, irritações; – Cuidar das unhas do pé, cortá-las retas, não arredondar os cantos e evitar ferimentos; – As meias não devem ser justas demais nem enrugadas, e se possível, deve-se lavar as meias novas várias vezes até que não encolham mais e o tamanho se ajuste perfeitamente ao pé; – Evitar calçados que tenham costuras internas, remendos ou outros pontos localizados de pressão; – A aquisição de sapatos novos deve ser feita preferencialmente no período da tarde, momento no qual os pés tendem a estar mais edemaciados, evitando assim a compra de sapatos apertados; – No caso de sapatos novos, usá-los, no máximo, uma ou duas horas por dia até ficarem mais flexíveis; – Evitar o uso de calçados muito largos, pois favorecem o atrito e a formação de bolhas; – A higiene dos pés e pernas deverá ser feita diariamente com água morna corrente e sabonete neutro. Não é recomendável manter os pés mergulhados em água quente devido à possível incapacidade de discriminação térmica; 122 – Após o banho enxugar bem os pés com a toalha, sem esfregá-la ou atritá-la na pele; – Se a pele estiver seca, é recomendável o uso de creme hidratante em pequenas quantidades, tomando-se o cuidado de não permitir que o excesso de creme permaneça entre os dedos; – Os pacientes que já apresentam deformidades, calosidades ou lesões podem necessitar de palmilhas especiais ou de curativos. Para o paciente diabético que apresenta úlcera no pé, outras medidas precisam ser tomadas além da profilaxia e vão depender do grau e extensão da lesão. O tratamento pode ser conservador ou cirúrgico. No tratamento conservador os principais objetivos são alívio da dor, alívio da congestão e redução do edema, melhora da circulação geral no membro inferior e, principalmente, na úlcera para promover a cicatrização e fortalecimento dos músculos do membro inferior, especialmente o tríceps sural. Entre os métodos de tratamento conservadores que os fisioterapeutas podem realizar, incluem-se a terapia manipulativa, o ultrassom terapêutico, a energia eletromagnética de pulso (EEMP) e a “laserterapia” de baixa intensidade, sobre os quais cabem alguns comentários. Terapia manipulativa: corresponde à massagem e está indicada para os tecidos moles. Existem várias técnicas de massagem, sendo a mais indicada para os pés diabéticos a técnica de amassar. Nesta técnica, as mãos são colocadas na pele e permitem que se moldem a parte; depois elas se movem em direção circular com pressão aplicada gradualmente sobre o topo do círculo e liberada na direção do fundo. As mãos movem os músculos e tecidos subcutâneos, aplicando e liberando, alternadamente, a compressão. Em nenhum caso as mãos devem deslizar sobre a pele quando estão aplicando pressão. Para localizar os efeitos, pode se usar os dedos ou polegares onde é necessária uma pressão profunda, e uma mão pode reforçar a outra (THOMSON et al., 1994). É preciso ter cuidado se a pele for delgada, quando a técnica deve ser estacionária. Os principais efeitos da terapia manipulativa são o aumento do fluxo de sangue local para a área tratada, o estiramento da fáscia e restauração da mobilidade dos tecidos moles e o alívio da dor, obtidos pela liberação da tensão. Onde há edema crônico a massagem facilita a drenagem do líquido para os vasos linfáticos. O tempo de massagem e a frequência devem ser avaliados em cada caso, sendo contra indicada quando a úlcera está infectada. 123 Ultrassom terapêutico: tem sido aplicado a uma grande variedade de condições como: traumas, inflamações agudas e subagudas, doenças reumatoides e artríticas crônicas, tecido fibroso cicatricial excessivo e alívio da dor. O ultrassom terapêutico possui efeitos celulares térmicos e nãotérmicos. Apesar de ser um equipamento seguro, apresenta algumas contra indicações em pacientes com câncer, útero em gestação, gônadas, infecções agudas, tecido com risco de hemorragia, tecido gravemente isquêmico, trombose venosa recente, tecido nervoso exposto e olhos. Ennis et al. (2006) demonstraram que o tratamento com ultrassom terapêutico de baixa frequência ajudou na cicatrização de feridas crônicas de pacientes quando utilizado como uma ferramenta autônoma, sendo evidente a resposta ao tratamento após quatro semanas. Bell e Cavorsi (2008) sugerem que o ultrassom é uma terapia adjuvante na cicatrização de feridas que não curaram com os cuidados convencionais. Energia eletromagnética de pulso (EEMP): corresponde à produção de pequenas explosões (pulsos) de correntes de alta frequência. Os efeitos terapêuticos são similares aos produzidos pela onda curta contínua. Se a EEMP for aplicada aos tecidos, há um período de repouso relativamente longo, e durante esse tempo o calor é disperso pela circulação, produzindo, assim, efeitos não-térmicos. Quando as feridas são tratadas com EEMP, há maior organização do tecido conjuntivo e crescimento epitelial, promovendo, assim, a cicatrização (THOMSON et al., 1994). Há três variáveis principais sob o controle do terapeuta: potência de pico do pulso, duração do ciclo e potência média. Entre as contra indicações deste tratamento estão: marca-passos implantados, metal nos tecidos ou fixadores externos, sensação térmica comprometida, pacientes que não cooperam (distúrbios de movimento, problemas mentais ou alguma incapacitação ou idade), gestação, tecido isquêmico, tumores malignos, tuberculose ativa, trombose venosa recente (SCOTT, 1998). Callaghan et al. (2008) demonstraram que a terapia EEMP é capaz de acelerar a cicatrização de feridas em ratos normais e diabéticos. Esta terapia impediu a necrose de tecidos com alterações isquêmicas. Eles sugerem que a EEMP pode ser útil no tratamento de pacientes diabéticos evitando a formação de úlceras, necrose e amputação. Laser terapêutico: apresenta algumas características especiais que o diferem da luz comum como a monocromaticidade, direcionalidade e coerência, conferindo-lhe propriedades terapêuticas específicas assim como vantagens em procedimentos cirúrgicos (FERNANDO et al., 1993). O laser terapêutico de baixa intensidade é usado para distinguir as aplicações 124 de energia usadas na Fisioterapia das aplicações de alta intensidade usadas terapeuticamente para destruição tecidual. Os principais usos do laser de baixa intensidade são: cicatrização de tecidos e o controle da dor. Outra grande vantagem do laser de baixa intensidade é que não ocorre efeito térmico ao ser aplicado na pele. Schindl e colaboradores (1999) demonstram que o laser hélio-neônio de baixa intensidade pode ser uma ferramenta não invasiva de indução da cicatrização em úlceras, mas o tempo de cicatrização está associado com a causa e tamanho da úlcera. Como podemos perceber, o tratamento do pé diabético é tão complexo quanto a sua doença de origem. Desta forma, é difícil encontrar protocolos terapêuticos devido à imensa quantidade de variáveis que podem alterar as respostas aos tratamentos conservadores. Buscamos neste capítulo mostrar as possibilidades existentes e trabalhos recentes que estão sendo realizados na tentativa de buscar melhores resultados para o pé diabético antes que a amputação seja necessária. 3 diabetes na gravidez A incidência de diabetes mellitus gestacional varia entre 3% a 7%, de acordo com a população estudada e com os critérios diagnósticos envolvidos. São identificados 135.000 novos casos por ano, nos Estados Unidos, tendo uma prevalência de 1,4% a 2,8% nas populações de baixo risco, e de 3,3% a 6,1% nas populações de alto risco. No Brasil, estimase a prevalência de 2,4% a 7,2% de diabetes gestacional (SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA, 2006). A fisiopatologia do diabetes gestacional é explicada pela elevação de hormônios contrarreguladores da insulina, pelo estresse fisiológico desencadeado pela gravidez e por fatores pré-determinantes ambientais ou genéticos (SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA, 2006). Segundo Buchanan et al. (2005), as mulheres grávidas com diabetes gestacional tendem a ter resistência à insulina ainda maior do que o habitual das mulheres com gestação normal. Diversos autores citam complicações associadas ao diabetes gestacional tanto para a mãe como para o feto além de complicações neonatais (JOVANOVICHPETERSON; PETERSON, 1999; STEPHENSON; O’CONNOR, 2004; SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA, 2006; CEYSENS et al., 2009) que estão descritas nos quadros 2 e 3. 125 CoMPLICações Maternas Pré-eclâmpsia Cetoacidose diabética Abortamento Hemorragia pós-parto Trabalho de parto prematuro Recorrência do diabetes gestacional em gestações futuras Poli-hidrâmnio ou oligo-hidrâmnio Risco de diabetes tipo 2 após a gravidez Aumento nas infecções do trato urinário Mortalidade materna Quadro 2 – Complicações maternas associadas ao diabetes mellitus gestacional CoMPLICações FetaIs CoMPLICações neonataIs Malformação fetal Tocotraumatismos (fratura clavicular, lesões do plexo braquial, hemorragia intracraniana, entre outros) Retardo na diferenciação funcional pulmonar Síndrome do desconforto respiratório Hipocalcemia Hiperinsulinemismo fetal Hiperbilirrubinemia Hipoglicemia secundária Hipoglicemia neonatal Macrossomia Risco aumentado para a obesidade, intolerância à glicose e diabetes Morte fetal Mortalidade perinatal Quadro 3 – Complicações fetais e neonatais associadas ao diabetes mellitus gestacional O tratamento de rotina para o diabetes gestacional inclui a prescrição de dieta, a monitoração da glicemia e o uso de insulina, quando necessário. O suporte psicológico e o exercício físico foram adotados mais recentemente (JOVANOVICH-PETERSON; PETERSON, 1999; BUCHANAN et al., 2005; DUARTE et al., 2007). 126 Selli et al. (2005) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (2006) consideram que a prevenção ou o retardo do aparecimento de complicações do diabetes mellitus crônico pode ser realizado através da assistência adequada de uma equipe multiprofissional, educação em saúde ao indivíduo e sua família, somado a um rigoroso controle metabólico, perda de peso e realização de atividade física regular, o que implica mudanças nos hábitos de vida dos pacientes. 4 diabetes mellitus e exercício na gestação Na ausência de complicações médicas ou obstétricas, o American College of Obstetricians and Gynaecologists recomenda, para mulheres grávidas, a prática de 30 minutos ou mais de exercício moderado, diariamente ou na maior parte da semana (BUCHANAN et al., 2007), já que contribui para a redução e o controle da glicemia, evitando potenciais complicações maternas, fetais e neonatais (ARTRAL, 1999; OPPERMANN et al., 2006; SCHLÜSSEL et al., 2008). O exercício reduz o risco de complicações relacionadas à hiperglicemia e altos níveis de insulina, incluindo macrossomia, traumas ao nascimento, desconforto respiratório, hipoglicemia neonatal e hipocalcemia. Indiretamente, pode prevenir o desenvolvimento de diabetes tipo 2, a longo prazo (CEYSENS et al., 2009). Em estudos realizados com gestantes em aplicação de protocolos de atividade física leve a moderada, não foram encontradas diferenças nos resultados neonatais. Medidas de condicionamento cardiorrespiratório materno, no entanto, melhoraram os desfechos em relação ao feto (DAVIES et al., 2003; CHEUNG, 2009). 4.1 protocolo de exercícios, cuidados e orientações Vários estudos foram publicados (ARTRAL, 1999; KOSHINO, 2003; METZGER et al., 2007; OOSTDAM et al., 2009) assim como algumas revisões sistemáticas têm sido realizadas buscando avaliar os efeitos de programas de exercício em gestantes com diabetes gestacional e seus resultados maternos e/ou fetais e neonatais (DAVIES et al., 2003; DUARTE et al., 2007; SCHLÜSSEL et al., 2008; CEYSENS et al., 2009; CHEUNG, 2009) O quadro 4 apresenta uma compilação dos protocolos utilizados com seus respectivos parâmetros. 127 128 Avery et al., 1997 Lesser et al., 1996 Bung et al., 1993 JovanovicPeterson et al., 1989 estudo dieta dieta e exercício: ergômetro de braço gestantes com diabetes gestacional moderada Intensidade 70% da frequência cardíaca máxima Limite 20 minutos Duração da sessão 3 vezes por semana Frequên cia seis semanas Duração do protocolo insulina moderada bicicleta estacionária ___ ___ bicicleta ergométrica dieta moderada 70% VO2máx 60% VO2máx 50% do consumo máximo de oxigênio (VO2máx) 30 minutos 30 minutos 45 minutos 3 a 4 vezes por semana 1 vez 3 vezes por semana Resultados: não houve diferença significativa possivelmente porque a supervisão da atividade foi parcial gestantes com diabetes gestacional Resultados: não houve diferença significativa entre os grupos gestantes de baixo risco e gestantes com diabetes gestacional Resultados: manutenção da euglicemia, em ambos os grupos gestantes diabéticas dieta e exercícios: bicicleta ergométrica com recosto seis semanas sessão única ___ Resultados: o grupo experimental apresentou níveis glicêmicos mais baixos quando comparados ao grupo controle grupo Controle atividade grupo intervenção 129 15 minutos __________ 15 minutos bicicleta ergométrica ___ ___ baixa ________ moderada leve 50-60% da FCM ________ 60-70% da FCM 50-60% VO2máx 30 minutos (total) 60 minutos 1 vez ___ sessão única ___ Resultados: houve redução da glicemia incremento caminhada, de 9 superfície repouso 2 gestantes 60 minutos ___ ___ plana, ___ batimentos horas diabéticas velocidade de cardíacos p/ minuto 2,52 km/h Resultados: caminhada pós-prandial de baixa intensidade reduz nível de glicemia até 150 dieta e gestantes 3 vezes por seis batimentos exercícios, dieta ___ 30 minutos com diabetes semana semanas cardíacos por treinamento de gestacional resistência minuto Resultados: menores níveis de glicemia pós-prandial e atraso na exigência de insulina gestantes exercícios com risco 2 vezes por toda a aeróbicos e de ___ ___ ___ 60 minutos para diabetes semana gestação força gestacional Resultados: até o momento, os resultados são positivos, apontando para indicação de exercícios na gravidez (estudo em andamento) gestantes com diabetes gestacional Resultados: gestantes Quadro 4 – Estudos sobre complicações fetais e neonatais associadas ao diabetes mellitus gestacional Oostdam et al., 2009 Brankston et al., 2004 GarciaPatterson et al. (2001) Avery et al., 2001 Artral, 1999 Vale destacar a importância da elaboração do programa de exercícios adaptado às necessidades individuais e às alterações fisiológicas da gravidez, baseado na avaliação dos sistemas músculo-esquelético, cardiovascular e respiratório, entre outros. Deve-se levar em consideração também a idade gestacional, o tipo de exercício, a posição corporal, a intensidade e a frequência do exercício, o ambiente, a temperatura, a hidratação, o estado nutricional e a saúde materno-fetal (KOSHINO, 2003; OPPERMANN et al., 2006; METZGER et al., 2007; OOSTDAM et al., 2009). Para acompanhamento e monitorização da gestante, o profissional deve observar a cada sessão: sinais vitais; níveis de glicemia (antes e após a sessão); hidratação adequada; hipotensão postural (STEPHENSON; O’CONNOR, 2004; CHEUNG, 2009). Os parâmetros mais citados na literatura para reduzir os níveis glicêmicos, sem causar fadiga excessiva, são exercícios aeróbicos de intensidade moderada, regulada de acordo com a frequência cardíaca (65% a 75% da frequência cardíaca máxima) e escala de percepção do esforço, com duração de 15 a 30 minutos e frequência de três a quatro vezes por semana (DUARTE et al., 2007; METZGER et al., 2007; CHEUNG, 2009). A gestante sedentária pode ser orientada a realizar uma caminhada leve e progressiva, por até uma hora, após as refeições (FERREIRA et al., 2007; METZGER et al., 2007). A hidroterapia também é benéfica, pois elimina problemas como desconforto físico, diminuição do fluxo saguíneo uterino e elevação da temperatura corporal (STEPHENSON; O’CONNOR, 2004). Os exercícios de aquecimento e alongamento também devem fazer parte da sessão de exercício (OPPERMANN et al., 2006). Dentre os sinais de alerta para a interrupção do exercício, citam-se sangramento vaginal, dispneia antes do esforço ou excessiva “falta de ar” durante o exercício, cefaleia, dor precordial, fadiga muscular, dor ou edema na panturrilha, trabalho de parto prematuro, contrações uterinas rítmicas (mais de três contrações, em dez minutos), diminuição ou cessação dos movimentos fetais, perda do tampão mucoso e/ou líquido amniótico, náuseas e tonturas. A gestante deve identificar e relatar ao profissional a ocorrência de qualquer um destes sinais (DAVIES et al., 2003; FERREIRA et al., 2007; OOSTDAM et al., 2009) 130 4.2 contra indicações As condições listadas no quadro 5 representam critérios de exclusão relativos ou absolutos para as mulheres com gestações complicadas. Os chamados critérios de exclusão relativos referem-se às condições nas quais os riscos podem exceder os benefícios da atividade (STEPHENSON; O’CONNOR, 2004; DUARTE et al., 2007; FERREIRA et al., 2007). Contra InDICações Para o eXerCÍCIo na gestaçÃo Contra indicações relativas Contra indicações absolutas aborto espontâneo prévio rutura das membranas (bolsa amniótica) parto pré-termo prévio trabalho de parto / parto pré-termo alteração cardiovascular leve a moderada alterações hipertensivas na gravidez alteração respiratória leve a moderada incompetência cervical anemia retardo no crescimento intra uterino desnutrição ou desordens alimentares final de gestação múltipla (trigêmeos) gravidez gemelar, depois da 28ª semana placenta prévia dispneia antes da atividade física sintomas de hipoglicemia (náuseas e tonturas, por exemplo) sangramento vaginal persistente outros problemas médicos significativos diabetes tipo 1 descompensado formas graves de doença sistêmica, doença cardiovascular ou respiratória Quadro 5 – Contra indicações para a prática de exercícios durante a gravidez 4.3 conclusão Destaca-se como fundamental a abordagem multiprofissional na assistência às gestantes, visando planejar, executar e monitorar os resultados do tratamento. Esta abordagem envolve, principalmente, a participação do endocrinologista, obstetra, nutricionista, psicólogo, educador físico e fisioterapeuta, permitindo a adoção das medidas necessárias que objetivem a normalização glicêmica com resultados satisfatórios para o binômio mãefeto (SELLI, 2005). Neste contexto, o fisioterapeuta tem papel importante na equipe, podendo oferecer parâmetros para prescrição de atividades terapêuticas na gestação, reduzindo a morbimortalidade associada ao diabetes gestacional (DUARTE et al., 2007; FERREIRA et al., 2007). 131 5 reFerências ADLER, A. I. et al. Lower-extremity amputation in diabetes: the independent effects of peripheral vascular disease, sensory neuropathy, and foot ulcers. Diab Care, v. 22, n. 7, p. 1029-1035, 1999. ARTAL, R. Respostas hormonais ao exercício na gravidez. In: WISWELL, R., ARTAL, R. A.; DRINKWATER B. L. O Exercício na Gravidez. 2. ed. Manole, 1999, p.175-184. BELL, A. L.; CAVORSI, J. 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Quanto à classificação, de acordo com a American Diabetes Association (2010), são descritos: o diabetes mellitus tipo 1, que se caracteriza por deficiência na produção de insulina pelas células Ω do pâncreas, resultando em deficiência absoluta de insulina; o diabetes mellitus tipo 2, que apresenta a resistência dos tecidos periféricos à insulina; o diabetes mellitus gestacional, além de outros tipos de diabetes. O diabetes é um importante fator de risco para as doenças periodontais. A periodontite, assim como o diabetes mellitus, é também uma doença de alta prevalência na população mundial, e ambos apresentam aspectos comuns em relação à resposta inflamatória. A inter-relação entre essas doenças representa um exemplo de como uma doença sistêmica pode predispor uma infecção oral e também como uma infecção oral pode exacerbar uma condição sistêmica (MADEIRO et al., 2005). Estudos demonstram que o diabetes é um fator de risco para a gengivite e periodontite, sendo que o nível do controle glicêmico do diabetes parece ser importante nessa relação. A doença periodontal tem impacto significativo sobre o diabetes, contribuindo para agravar o controle metabólico (MADEIRO et al., 2005; MONTEIRO et al., 2002; NOVAES JÙNIOR et al., 2007). Portanto, são necessários maiores cuidados relacionados à higiene bucal dos diabéticos, pois, quando bem realizada, pode ajudar no controle glicêmico e melhorar a qualidade de vida. No entanto, muitos pacientes e profissionais desconhecem esta realidade (MADEIRO et al., 2005). A hiperglicemia, ou seja, o aumento dos níveis de glicose no sangue, causa espessamento dos vasos, que gera não só transtorno na circulação das células de defesa, mas também o comprometimento das fibras que são responsáveis pela regeneração tecidual. Assim, o meio bucal torna-se mais suscetível à placa bacteriana, causadora da gengivite e periodontite, que acomete todo o sistema de sustentação dos dentes: gengiva, osso e ligamento periodontal. O paciente diabético não controlado, ao se encontrar nesse quadro clínico, pode evoluir para outras complicações, como dificuldades na fala e na mastigação devido à perda de dentes e xerostomia (LAUDA et al., 1998). A destruição do periodonto pode ser acelerada pelo diabetes mellitus, e, em contrapartida, o tratamento periodontal ajuda a minimizar essa destruição, reduzindo a necessidade de insulina e melhorando o equilíbrio metabólico do indivíduo (FEDI JÚNIOR e VERNINO, 1998). O governo federal do Brasil oferece atendimento aos indivíduos portadores de diabetes mellitus cadastrados na rede pública. Estes, além de serem atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), também podem participar de grupos operativos compostos por diversas áreas da saúde que têm como finalidade conseguir um melhor controle da doença. 138 2 diretrizes gerais para o atendimento ao paciente diabético É de grande importância para profissionais da área de saúde o conhecimento das alterações sistêmicas provocadas pelo diabetes, bem como as manifestações bucais desta patologia (MELGAÇO, 2002). O diabetes mellitus é considerado uma das principais doenças crônicas que afetam o homem, e sua importância nas últimas décadas vem crescendo, em decorrência de vários fatores, tais como maiores taxas de urbanização e industrialização, sedentarismo, obesidade, aumento da esperança de vida e maior sobrevida dos pacientes diabéticos (TOMITA, 2002). Para o diagnóstico da doença, utilizam-se os critérios propostos pela American Diabetes Association (2010): – normoglicemia: glicemia de jejum entre 70mg/dL e 99mg/dL e inferior a 140mg/dL, duas horas após sobrecarga de glicose; – glicemia de jejum alterada: glicemia de jejum entre 100mg/dL e 125mg/dL; – diabetes mellitus: duas amostras colhidas em dias diferentes com resultado de glicemia de jejum ≥ 126mg/dL ou quando a glicemia aleatória (feita a qualquer hora) estiver ≥200mg/dL, na presença de sintomas. 2.1 sinais e sintomas As pessoas com níveis elevados ou mal controlados de glicemia podem apresentar muita sede, vontade de urinar diversas vezes, perda de peso (mesmo sentindo mais fome e comendo mais do que o habitual), fome exagerada, visão embaçada, infecções repetidas em pele ou mucosas, feridas que demoram a cicatrizar, fadiga ou cansaço inexplicável, dores nas pernas. Segundo Carrasco (2008), embora seja difícil obter conclusões sobre os sinais do diabetes no periodonto, uma variedade de alterações é descrita, incluindo tendência de crescimento gengival, formação de abscessos, periodontites e perdas dentais. Para Figueiredo (2002), muitos vasos sanguíneos, especialmente os capilares, apresentam espessamento de suas membranas basais, mesmo nas fases iniciais do diabetes. Isso pode levar a infecções, atuando como barreira para migração de leucócitos para as áreas de inflamação aguda 139 (VARON e SHIPMAN, 2000). Observa-se, também, deficiência da ação fagocitária, pelo fato de que algumas enzimas são dependentes de insulina (RYAN et al., 2003). De acordo com Lauda et al. (1998), a manifestação bucal mais comum no diabetes é a doença periodontal, que está presente em 75% dos pacientes, seguida da xerostomia, que é descrita em 54% dos portadores de diabetes mellitus tipo 2. Também podem ser observadas úlceras recidivantes, descamação da mucosa, infecções oportunistas, língua despapilada, ardor na língua, eritema e distúrbios de gustação. Além disso, diabéticos não compensados podem apresentar edema da parótida bilateral assintomático. Na cavidade bucal, os diabéticos geralmente apresentam: – Doença periodontal e gengivite Pacientes com diabetes, dependentes ou não de insulina exógena, apresentam um fator de risco para maior prevalência e severidade da doença periodontal (GREGHI et al., 2002). Inicialmente ocorre a gengivite e, com o mau controle glicêmico, o avanço para a doença periodontal (VERNILLO, 2003). – Alteração da gustação Ocorre diminuição da gustação, podendo ocorrer inabilidade de manter uma dieta correta e levar a um deficiente controle metabólico; – Hálito cetônico É uma consequência da metabolização inadequada de gorduras, na qual o fígado lança corpos cetônicos, na circulação, que são decompostos e liberam cetonas. Nos pulmões, as cetonas que são muito voláteis se desprendem e saem pela boca e nariz, dando origem ao hálito cetônico. – Hipocalcificação dentária É descrita a diminuição da calcificação das estruturas dentais em portadores de diabetes mellitus. – Diminuição da resistência tecidual Esse componente determina retardamento na reparação dos tecidos bucais. 140 – Xerostomia Corresponde à diminuição do fluxo salivar, podendo formar úlcera e descamação. Observa-se ainda aumento da acidez e da viscosidade da saliva. – Candidíase São lesões causadas por fungos oportunistas que podem se apresentar como áreas avermelhadas ou sob forma de placas ou nódulos esbranquiçados no tecido perioral. A incidência de candidíase bucal é maior em pacientes diabéticos, provavelmente devido a alterações imunológicas. – Infecção aguda bucal O maior conteúdo de glicose e cálcio na saliva favorece o aumento na quantidade de cálculos, atuando como fatores irritantes nos tecidos bucais (PREVITALI et al., 2006). Há de se ressaltar que esses sinais poderão estar presentes ao mesmo tempo ou individualmente, mas que em pacientes diabéticos bem controlados estas alterações serão observadas em menor frequência. 2.2 diabetes mellitus e doença periodontal As doenças que atingem o periodonto, em suas várias formas, afligem a espécie humana desde os primórdios da História. Hoje se sabe que estas doenças ocorrem devido a diversas etiologias, tanto exógenas quanto endógenas (TAYLOR et al. 1998). Fatores endógenos, representados em especial pelo sistema imunológico, são responsáveis pela resposta exacerbada ou atenuada do organismo diante desses fatores etiológicos predisponentes (CARRANZA, 2004). O periodonto pode ser definido como uma estrutura dinâmica composta por tecidos que apoiam e envolvem os dentes. Subdivide-se em periodonto de inserção (ligamento periodontal, cemento radicular e osso alveolar) e periodonto de proteção (gengiva). A doença periodontal ocasiona um desequilíbrio entre os microrganismos da placa bacteriana e a defesa do hospedeiro, através da destruição das fibras periodontais e do osso de sustentação, resultando em perda da saúde das gengivas. Os suprimentos vasculares e nervosos dos tecidos também são vitais para o funcionamento normal dos tecidos 141 periodontais (TAYLOR et al., 1998). Na doença periodontal ocorre um processo de infecção e inflamação que promove a destruição dos tecidos de proteção e sustentação dos elementos dentários. O processo se inicia com uma inflamação no periodonto de proteção (gengivite) que tende a evoluir para a destruição dos ossos e tecidos de suporte dentário (periodontite) (Figura 1). O desenvolvimento da periodontite está relacionado, dentre outros, a fatores como a idade do indivíduo, a resposta do hospedeiro e a presença de placa bacteriana (MELGAÇO, 2002). De acordo com Braga et al. (2007), os mecanismos pelos quais o diabetes pode contribuir para a periodontite incluem transtornos vasculares, disfunção de neutrófilos, alteração na síntese de colágeno e predisposição genética, além de mudanças na microbiota gengival. Há uma alta incidência de infecções em pacientes diabéticos, já que a resistência tanto local quanto sistêmica é reduzida. Este fato resulta de um defeito na fagocitose de células polimorfonucleares, ocorrendo também um decréscimo na resposta quimiotáxica dos neutrófilos. Além disso, a hiperglicemia e as complicações de longa duração relacionadas ao diabetes, como a doença microvascular, contribuem para a predisposição de pacientes diabéticos à doença periodontal (DUARTE, 2004). Figura 1 – Periodontite em paciente diabético 142 As principais condições inflamatórias que acometem o periodonto são a gengivite e a periodontite (figura 1). A gengivite é uma inflamação do periodonto de proteção e é clinicamente caracterizada por mudanças na coloração do tecido gengival (hiperemia) e presença de sangramento à sondagem. Normalmente, associa-se à presença de placa bacteriana no sulco gengival. Uma vez estabelecida a gengivite, se não houver interferência na formação continuada da placa bacteriana, pode se desenvolver, em indivíduos suscetíveis, um quadro de periodontite. A periodontite causa uma inflamação crônica e destrutiva que leva à perda do tecido de suporte dos dentes e, eventualmente, à perda dentária. O ligamento periodontal e o tecido ósseo são destruídos por uma resposta imunológica à presença de bactérias no sulco gengival, especialmente as gram-negativas, gerando inflamação. Essa destruição é provavelmente mediada por uma resposta alterada do hospedeiro, tornando-o suscetível ao desafio bacteriano. Ainda não está completamente esclarecido por que em alguns indivíduos a inflamação periodontal progride para periodontite e em outros restringe-se apenas à gengivite. No entanto, acredita-se que a progressão para periodontite possivelmente ocorra em virtude de uma combinação de eventos, incluindo o acúmulo de bactérias periodontopáticas, aumento dos níveis de citocinas pró-inflamatórias, enzimas proteolíticas e prostaglandina E2 (PGE2), somados a uma redução dos níveis de antagonistas de citocinas e inibidores de proteases. Alguns fatores, como o fumo, têm sido considerados modificadores da resposta imunológica do hospedeiro e podem ser determinantes na variação da suscetibilidade à periodontite (BRAGA et al., 2007; CARRANZA, 2004). Assim, a periodontite pode ser considerada uma inflamação que vai além da gengiva, alcançando o tecido ósseo subjacente, o ligamento periodontal e o cemento radicular, levando à formação da bolsa periodontal. Clinicamente, além da presença da bolsa periodontal, pode-se observar a perda da inserção periodontal e, radiologicamente, a perda de tecido ósseo. A periodontite ocorre com grande frequência em pacientes com diabetes mellitus, sendo até quatro vezes mais comum nestes pacientes do que na população em geral, e tem como possível complicação a perda do dente afetado (BRAGA et al., 2007). O diagnóstico das doenças periodontais é feito, classicamente, por meio de exames clínicos e radiográficos. No exame clínico, o cirurgiãodentista faz um exame das gengivas e dos dentes. O grau de destruição que o periodonto apresenta em determinado momento é medido por meio de 143 uma sonda graduada em milímetros (sonda periodontal) (Figura 2). Com esse instrumento, pode-se medir a profundidade do sulco gengival em seis faces por dente, bem como o nível de inserção (figura 2). Além disso, sítios que apresentam inflamação no momento da sondagem sangram com o toque do instrumento, gerando um indicador de inflamação periodontal denominado sangramento à sondagem. Figura 2 – Sondagem profunda O sulco gengival é o espaço entre a gengiva e o dente que se estende da margem gengival até o fundo do sulco sondável. Em condições normais, o sulco apresenta uma profundidade à sondagem igual ou inferior a 3mm. Quando ocorre o aprofundamento do sulco gengival, isto é, quando a distância entre a margem gengival e o fundo da bolsa ultrapassa 3mm, há formação da bolsa periodontal. A bolsa periodontal verdadeira acompanhase da perda dos tecidos de inserção. O sangramento à sondagem, o nível de placa bacteriana na superfície dental, a profundidade da bolsa à sondagem e as medidas do nível de inserção periodontal compõem os indicadores clínicos periodontais (BRAGA et al., 2007). 144 A mobilidade dos dentes também é testada no exame clínico. Essa mobilidade é normal no periodonto saudável, porém se acentua na presença da periodontite devido à destruição das fibras e do osso que sustentam os dentes. Radiografias podem também auxiliar no diagnóstico, sendo utilizadas para visualizar a perda óssea, a presença e a localização de cálculos (CARRANZA, 2004) (Figura 3). O objetivo maior do cirurgião-dentista é preservar o periodonto, intervindo por meio de recursos mecânicos, químicos ou ambos para eliminar as bolsas e evitar a proliferação de microrganismos, que inegavelmente são considerados os fatores etiológicos determinantes da doença periodontal (PALMER e FLOYD, 2000). Figura 3 – Exame radiográfico evidenciando perda óssea horizontal generalizada Nem sempre a periodontite pode ser revertida e totalmente curada e o sucesso no tratamento depende de sua gravidade. A doença pode ser classificada em periodontite leve, moderada e avançada. Quando a doença está muito avançada, os efeitos da perda de fibras e do osso de sustentação podem ser permanentes. Entretanto, o tratamento da doença e a melhora da higiene oral em qualquer estágio podem melhorar a saúde das gengivas e evitar maior destruição (CARRANZA, 2004). 145 Antes de qualquer tratamento específico, é necessário um conjunto de procedimentos que visam à eliminação do estado de doença pela descontaminação da superfície coronária denominado preparo básico periodontal. A periodontite leve geralmente é tratada com limpeza, através da raspagem periodontal supragengival que remove placa e cálculos que ficam acumulados na coroa dos dentes e das raízes dos dentes. Este procedimento deixa as superfícies dos dentes limpas, lisas e duras, dificultando a adesão das bactérias. Para realizar a raspagem periodontal, utilizamos instrumentos manuais, as curetas, sob anestesia infiltrativa local. Podem ser utilizados outros instrumentos complementares, tais como instrumentos sônicos, ultrassônicos e fio dental. Os objetivos da raspagem periodontal consistem em: – eliminar a microbiota periodontopatogênica em substituição por uma microbiota mais compatível com a saúde periodontal; – redução de bolsas patologicamente aprofundadas para um sulco gengival raso e sadio; – fornecimento de uma superfície radicular compatível com um tecido conjuntivo e epitélio juncional sadios pela manutenção ou ganho do nível de inserção à sondagem. Para bolsas periodontais de até 7,0mm, a raspagem supra e subgengival será o tratamento definitivo. Deve ser realizada a reavaliação após 60 dias do preparo básico para verificar ausência de inflamação, cálculo, sangramento e mobilidade. Em caso de insucesso, deve-se repetir a terapia básica. O tratamento da periodontite moderada pode ser iniciado com a raspagem periodontal supra e subgengival, porém muitas vezes o tratamento necessita de complementação cirúrgica. A terapia cirúrgica periodontal tem por objetivo eliminar o processo inflamatório, eliminar ou reduzir bolsas, corrigir contornos não fisiológicos, além da correção estética. Procedimentos regenerativos cirúrgicos são realizados diante de complicações causadas pela perda óssea, promovendo remodelamento das gengivas para fixar os dentes ou estimulando o crescimento ósseo através de enxerto e membranas absorvíveis (colágeno, ácido poliglicólico) ou não-absorvíveis (politetrafluoretileno expandido) (VASCONCELLOS et al., 2004). 146 Para tratar a periodontite avançada, são necessários os mesmos procedimentos citados anteriormente para periodontite moderada. Nesta fase, existe grande possibilidade de perda do dente (LINDHE, 2005). Para evitar a periodontite, deve-se fazer uma boa escovação e uso diário do fio dental, pelo menos duas vezes ao dia, além das visitas regulares ao dentista para uma limpeza mais profunda. No caso dos pacientes tabagistas, parar de fumar diminui consideravelmente o risco de periodontite. O prognóstico é bom nos casos tratados precocemente. Entretanto, quando já houver perda óssea, o prognóstico depende da severidade da perda, sendo necessário o acompanhamento por toda a vida (COHEN, 2007). Para Lauda (1998), o cirurgião-dentista também é responsável pela qualidade de vida, prevenção de complicações do diabetes e compensação da glicemia do paciente. Deve-se lembrar ainda da função de educador que o profissional deve exercer neste paciente, estando devidamente qualificado para tais funções. 3 rotina de atendimento ao paciente diabético O cirurgião-dentista deve solicitar ao médico do seu paciente um parecer do estado geral antes de realizar qualquer intervenção. Os cuidados estabelecidos devem ser aferição de pressão arterial e pulso radial, antes e após o atendimento, controle glicêmico por meio de glicosímetro (medida da glicemia capilar) realizado pelo próprio paciente. Além disso, orientações ao paciente quanto à higiene bucal, técnica de escovação, instruções de dieta e evidenciação de placa bacteriana devem ser realizadas. A adequação do meio bucal faz parte do tratamento, passando por raspagem e alisamento corono-radicular total, fazendo uso de antibioticoterapia profilática com dose única de 2g de amoxicilina ou 1g de amoxicilina com clavulanato, uma hora antes do procedimento, de acordo com a American Heart Association (2009). As sessões devem ser curtas, realizadas no período da manhã, preferindose procedimentos com o menor trauma possível. Em casos de consulta demorada, especialmente se esta se prolongar pelo tempo da refeição normal, deve-se interromper o tratamento para uma refeição ligeira. Durante o tratamento, quando ocorrem sintomas de hipoglicemia, como fraqueza, palidez, palpitações, visão turva, sonolência, dor de cabeça, confusão mental, recomenda-se ingestão de açúcar, para melhora do quadro. Para evitar flutuações dos níveis glicêmicos (elevações ou quedas), 147 deve-se medir a glicemia, a cada sessão. Deve ser lembrado ainda que o estresse provocado pela ansiedade e medo promove liberação de adrenalina e, consequentemente, aumento da glicemia. Como anestésico local, podem ser utilizadas aminas simpatomiméticas (adrenérgicas), restringindo-se o número a dois ou três tubetes, em injeção lenta, após aspiração negativa. O vasoconstritor adrenérgico tem efeito hiperglicemiante. Além disso, é importante não utilizar anestésico com epinefrina, pois o paciente diabético apresenta tendência à isquemia em decorrência da microangiopatia. Nos casos de urgência, em pacientes descompensados, recomenda-se o uso de anestésico local com felipressina. A lidocaína não é melhor escolha por ser anestésico de curta duração. As drogas de longa duração também não são uma boa escolha, porque exercem influência sobre o miocárdio (BJELLAND et al., 2002). Tratamentos eletivos só devem ser realizados após o controle de glicemia. Com a utilização da medicação profilática, os níveis séricos dos antibióticos mantêm-se altos mesmo após várias horas de sua ingestão, o que justifica a adoção do regime de dose única no protocolo da American Heart Association (2009). Porém, se possível, deve-se manter um intervalo de nove a 14 dias entre uma sessão e outra para evitar o surgimento de microrganismos resistentes à profilaxia antibiótica utilizada. Pacientes com a doença não controlada podem apresentar diminuição significativa da capacidade imunológica. Dessa forma, nas urgências odontológicas e nos procedimentos que geram bacteremia importante, mesmo na ausência de sinais de infecção, é preconizada a profilaxia antibiótica (PREVITALI ET al., 2006). O cirurgião-dentista deve aferir a pressão arterial, principalmente nos pacientes portadores de diabetes tipo 2, em função do risco de eventos cardiovasculares. É também importante conhecer a glicemia do paciente para evitar complicações durante os procedimentos odontológicos. Cabe ao cirurgião-dentista o controle da glicemia aos valores normais durante o tratamento, através da utilização de insulina regular no caso de hiperglicemia e glicose hipertônica em caso de hipoglicemia. Segundo BARCELLOS (2001), para atender o paciente com maior segurança, é importante que o cirurgião-dentista tenha em seu consultório: – Glicosímetro (determina a glicemia a partir do sangue capilar através de fitas contendo reagentes que permitem a leitura instantânea); – Fitas reagentes para medida da glicemia; – Lancetas descartáveis; – Esfigmomanômetro; 148 – Estetoscópio; – Seringas para insulina; – Solução contendo glicose a 20mg/dL. O curso das inflamações gengivais pode ser alterado na dependência dos níveis da glicose plasmática. O estado do controle metabólico do paciente diabético também exercerá influência decisiva na conduta clínica do profissional. É o controle metabólico que por vezes determinará a forma de atendimento, a protelação do procedimento ou o encaminhamento do indivíduo ao médico ou à emergência hospitalar. O tempo de duração de cada consulta, o melhor horário de atendimento e a dieta pós-operatória também merecem atenção específica, para não interferir, de maneira desfavorável, na ingestão da dieta e, consequentemente, no controle metabólico. Contudo, emergências podem surgir e a hiperglicemia pode levar o paciente ao choque ou coma diabético, havendo inversamente a possibilidade do choque hipoglicêmico que deve ter atenção especial por levar o indivíduo à hipotensão, à perda da consciência e até à morte (SANTOS et al., 2006). Três fases distintas devem fazer parte no planejamento do tratamento odontológico: – Fase pré operatória – Fase operatória – Fase pós operatória Fase pré-operatória Essa fase é realizada pelo menos dois dias antes do atendimento. Nessa fase, recomenda-se: – Solicitar ao médico do paciente parecer sobre o estado geral, contendo o diagnóstico e o tipo de diabetes e os resultados dos últimos exames de controle da doença; – Durante a anamnese, fazer perguntas específicas sobre o estado clínico, tais como duração da doença, medicamentos utilizados, reações adversas associadas ao tratamento, história de complicações do diabetes como, por exemplo, ocorrência de hipoglicemia, história de hospitalização por causa de cetoacidose, qualquer modificação no esquema terapêutico, além do nome do médico responsável; – Realizar exame odontológico clínico e exame radiográfico para ajudar no planejamento de tratamento; 149 – Na presença de processos infecciosos, deficiência no controle metabólico ou até mesmo risco de infecção secundária, deverá ser feita a antibioticoterapia; – Orientar o paciente para que mantenha sua dieta habitual. Fase operatória No atendimento ao paciente diabético, recomenda-se: – Aferir a pressão arterial e verificar a glicemia, registrando os valores da pressão arterial e da glicemia no prontuário odontológico do paciente; – Durante a anestesia, o uso de soluções anestésicas contendo adrenalina como vasoconstritor não é recomendado, pelo risco de hiperglicemia. O diabético está frequentemente sujeito à isquemia em função da microangiopatia, e essa condição torna-se particularmente agravada durante a administração de anestésicos com vasoconstritor do tipo epinefrina. Podem-se utilizar vasoconstritores sintéticos, preferencialmente a prilocaína com felipressina, ou alguns anestésicos locais sem vasoconstritores, que serão eficazes por menor tempo; – Procurar fazer consultas curtas, no meio da manhã; – Em caso de consultas prolongadas, interromper o tratamento para uma ligeira refeição (um copo de suco, por exemplo); – Administrar ansiolítico a pacientes tensos, caso seja necessário. Fase pós-operatória É imprescindível uma avaliação imediata das condições sistêmicas do paciente. Deve-se tomar cuidado especial no que diz respeito à possível presença de infecções secundárias e sangramentos. Em consultas subsequentes, antes de qualquer procedimento clínico, recomenda-se o controle supervisionado de biofilme bacteriano e bochechos com solução aquosa de clorexidine a 0,12%. As revisões odontológicas devem ocorrer a cada trimestre (TSCHIEDEL et al., 2008). Tratamento emergencial da hipoglicemia A hipoglicemia pode ser definida, do ponto de vista bioquímico, como a situação em que os níveis de glicose no plasma caem abaixo de 50 mg/dL. A hipoglicemia pode ser causada pela administração excessiva de insulina, aumento de exercícios físicos sem ajustar a dose de insulina, omissão de 150 refeições ou lanches durante o dia e consumo de álcool. Ao se diagnosticar valores menores que o normal, acompanhados de sinais e sintomas como sudorese, palidez, taquicardia, nervosismo, tremores, hiperpneia ou alterações de personalidade, cefaleia, sonolência, apatia e crise de ausência, deverá ser administrada uma solução contendo glicose, com o objetivo de reverter o quadro. Se ocorrer perda de consciência, o serviço médico de emergência deverá ser contactado. Tratamento emergencial da hiperglicemia As crises de hiperglicemia geralmente se desenvolvem quando os níveis de glicose no sangue se elevam acima de 200mg/dL. Geralmente evolui de forma mais lenta que a hipoglicemia, surgindo, na maioria das vezes, após uma elevação prolongada da glicemia. Os sinais e sintomas são revelados pela presença da sintomatologia clínica característica da doença, ou seja, poliúria (excesso de urina), polidipsia (sede excessiva) e polifagia (fome excessiva). Nestas condições é comum que o paciente apresente algum quadro infeccioso agudo. Durante o tratamento odontológico, ao diagnosticar valores de glicemia acima do normal, deverá ser administrada insulina regular, por via subcutânea. A nova determinação de glicemia, realizada após trinta minutos, geralmente mostra a reversão aos valores normais ou inferiores a200mg/dL. Constatada glicemia acima de 400mg/dL, deve-se encaminhar ao médico. Nesta condição o paciente pode revelar sinais e sintomas característicos de acidose metabólica, tais como presença de hálito cetônico, náuseas, vômitos e taquipneia/hiperpneia. Medicações que podem ser prescritas ao paciente diabético De acordo com Orso e Pagnoncelli (2002), no paciente diabético podem ser utilizadas as seguintes medicações: – Tranquilizantes: lorazepan – Relaxantes musculares: carisoprodol + diclofenaco sódico+ paracetamol+ cafeína – Hemostáticos: etansilato – Analgésicos: paracetamol, dipirona – Antibióticos: amoxicilina é a droga de primeira escolha, sendo citadas também ampicilina, cefalexina, pantomicina e penicilina V. A escolha durante a gravidez deve ser cautelosa. 151 – Anestésicos: cloridrato de prilocaína (não recomendado durante a gestação). 4 a experiência do proJeto de educação em diabetes mellitus do hospital universitário da universidade Federal de Juiz de Fora A orientação odontológica tem como objetivo promover mudança de comportamento, no sentido de prevenir complicações e aumentar a qualidade de vida dos pacientes. Quanto à parte educativa, são realizadas palestras expositivas na sala de espera do ambulatório e também reuniões mensais com os pacientes, além das orientações individualizadas. Quando é necessária intervenção odontológica, o paciente é orientado a procurar o cirurgião-dentista da Unidade Básica de Saúde local, que por sua vez poderá encaminhar para a Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Juiz de Fora, dependendo da complexidade da situação apresentada. A convivência da equipe do projeto entre si e com os pacientes proporciona crescimento pessoal a todos. 5 reFerências BARCELLOS, I. F.et al. Conduta odontológica em paciente diabético. Rev Bras Odontol, v. 57, n. 6, p. 407-10, nov./dez. 2000. BJELLAND, S. et al. Dentists, diabetes and periodontitis. Austr Dental J, v. 47, n. 31, p. 202-207, 2002. BRAGA, F. S. F. F. et al. Artrite crônica e periodontite. Rev. Bras. Reumatol, v. 47, n. 4, jul./ago. 2007. CARRANZA, N.T. Periodontia Clínica. 9. ed. 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Inseridos no contexto de equipe interprofissional, no ambulatório do Serviço de Endocrinologia do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, abordam questões como: a rotina da equipe de Psicologia no atendimento ao diabético; a relação entre crises emocionais e o aparecimento e agravamento do quadro de diabetes; o status de ser diabético; a dificuldade de alguns pacientes com respeito à dieta; a importância do atendimento psicológico ao diabético e à sua família; as representações e as mudanças psicossociais ocorridas a partir da doença; os mecanismos psíquicos que “entram em jogo” neste tipo de adoecimento; as dificuldades e embates entre o sujeito e sua enfermidade, o sujeito e sua família e entre o sujeito e a equipe de saúde. Gabriela Guerra Gonze 1.1 histórico, evolução e participação da psicologia no atendimento à saúde Nascida em 1879, no Laboratório de Psicologia Experimental de Wilhelm Wundt em Leipzig, Alemanha, a Psicologia como forma de estudo sistemático e científico vem ganhando cada dia mais espaço em nossa sociedade, seja no contexto acadêmico, nas grandes instituições, ou mesmo no cotidiano da população. No Brasil, a Psicologia enquanto profissão é muito recente. Foi somente em 1962, por força da Lei Federal n° 4.119, que a Psicologia passou a existir em seu estatuto atual. A lei possibilitou uma demarcação do território profissional do psicólogo e a prerrogativa de práticas como diagnóstico psicológico, orientação e seleção profissional, além da aplicação de testes psicológicos. Além disso, propiciou a este profissional atividades antes restritas apenas aos médicos, como estudo de casos, perícias e psicoterapias (DIMENSTEIN, 1998). Apesar da regulamentação da profissão ter se dado somente em 1962, antes disso já assistíamos ao surgimento de suas práticas no contexto hospitalar. Desde a década de 40, as políticas de saúde no Brasil se voltavam para a reprodução do modelo americano centrado nos grandes hospitais. Este modelo de caráter curativo, que tinha o hospital como maior símbolo de cura, acabou impulsionando o nascimento da Psicologia Hospitalar, tendo em vista que não existia lugar melhor para se iniciar o trabalho do psicólogo da saúde do que o hospital. Nenhuma outra forma de organização de saúde era tão acolhedora quanto os grandes hospitais nessa época. Os primeiros serviços de Psicologia Hospitalar no Brasil foram realizados de 1952 a 1954, na Ortopedia, e em 1957, na unidade de Reabilitação, ambas no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Dirigidos por Matilde Neder, esses trabalhos foram de extrema importância, não somente para a história da Psicologia Hospitalar, mas para a história da Psicologia no Brasil. Foi após o desenvolvimento da Psicologia Hospitalar que o campo da Psicologia ampliou seu alcance e redefiniu os conceitos teóricos e práticos de sua clínica (CARVALHO, 2002). Avançando no tempo, chegamos aos anos 70. Essa foi uma década de grande importância para a Psicologia Hospitalar no que diz respeito ao 156 número de psicólogos atuando em instituições públicas no Brasil, tendo como destaque os hospitais. Um dos motivos do aumento de psicólogos em instituições de saúde pública pode ser explicado pelo número crescente de faculdades de Psicologia no país. Dimenstein (1998) destaca o crescimento dos postos de emprego em Psicologia no setor de saúde muito acima da média das outras categorias, chegando a 21,47%. Na década de 80, a Psicologia Hospitalar distinguiu-se pelo volume da produção teórica e prática, além da criação de grupos de especialistas na área. Ainda nos anos 80, aconteceu o primeiro encontro nacional de profissionais da área hospitalar. Esse encontro ficou marcado como o momento inaugural da interlocução entre os vários profissionais da área, a partir do qual se desdobraram novos congressos e trocas de experiências (CARVALHO, 2002). Em 04 de junho de 1997, foi fundada a Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar, com o propósito de “criar uma Sociedade sem fins lucrativos, cujo objetivo era científico, com ênfase na publicação científica e realização de congressos e incentivo à pesquisa, visando a congregação de psicólogos clínicos com atuação em hospitais” (SOUZA 2008). Mais do que uma nova possibilidade de cura, a Psicologia praticada no hospital mostra-se como outra forma de olhar o adoecimento. Interrogando e compreendendo a doença como um fenômeno para além do biológico, dispõe-se a escutar as angústias e fantasias do sujeito enfermo, buscando também lidar com as ameaças suscitadas pelo ambiente, quase sempre estranho e cheio de mitos em que este se encontra – o hospital. A inserção do psicólogo no contexto hospitalar engloba mais do que o atendimento ao paciente, incluindo também uma atenção especializada à família e à equipe médica, a atuação no papel de interlocutor entre equipe de saúde e o paciente, além de atividades de ensino, supervisão e pesquisa psicológica. 1.2 importância da psicologia na atenção ao paciente diabético O estudo dos fenômenos do adoecimento somático do ponto de vista da Psicanálise tem no hospital geral seu lugar privilegiado (FILGUEIRAS, 2003). No tratamento do diabetes não é diferente. As fantasias, as representações e os medos desses enfermos acabam ocupando um lugar de destaque no tratameto da doença. Em alguns casos, podemos ver, de forma clara, a influência de questões psíquicas afetando a evolução da doença e 157 os cuidados necessários que esta requer. Há casos em que, devido ao alto grau de ansiedade, o paciente não consegue seguir a dieta prescrita por seu nutricionista, ou mesmo episódios nos quais o adoecimento encontrase estreitamente ligado às características do sujeito. Dito de outro modo, podem-se distinguir situações em que o aparecimento da doença associa-se a peculiaridades psíquicas do sujeito, na medida em que este não consegue lidar, no nível mental, com os conflitos gerados por certas circunstâncias de sua vida. O “peso” de ser diabético, a forma como o paciente lida com seu tratamento, a mudança nos seus relacionamentos familiares, a dificuldade de aderir a uma dieta e os mecanismos psíquicos que atuam em sua doença, todos esses são pontos que tornam inequívoca a importância do atendimento psicológico ao paciente diabético. Contudo, essa importância se torna mais clara quando pensamos no atendimento interdisciplinar. Nesse aspecto, o trabalho conjunto da Psicologia com os demais profissionais de saúde tem se revelado bastante produtivo e eficaz. Isso se deve ao fato de que esse tipo de atendimento interdisciplinar propicia um olhar mais integrado sobre o paciente, cuja doença envolve vários fatores (nutricionais, psicológicos, físicos, odontológicos, farmacêuticos, médicos e sociais) que se entrelaçam. Desse modo, é importante destacar que, ao contrário de pretendermos promover um embate contra o saber biomédico, ou apontar o saber psicológico como único caminho para o entendimento dos processos de adoecimento, queremos chamar atenção para a importância de observarmos não a doença, mas o sujeito adoecido, que é corpo e subjetividade. Outro ponto a ser destacado no atendimento interdisciplinar que envolve a Psicologia está no “transitar” do saber psicanalítico pelas demais áreas da saúde a respeito do adoecimento somático, mais especificamente, do diabetes. Acreditamos que as particularidades dos aspectos psicológicos do paciente diabético devem estar ao alcance de toda a equipe de saúde. Ou seja, o saber construído pela Psicanálise não deve se manter restrito ao psicólogo, uma vez que aspectos como a ansiedade, a compulsão, a angústia, entre outros, estarão sempre presentes em uma consulta, seja qual for a especialidade envolvida. A compreensão por parte dos demais integrantes da equipe, sobre estas questões envolvendo o diabetes, pode ajudar em 158 muito o trabalho do psicólogo, na triagem1 e no encaminhamento dos casos de urgência psicológica. O diálogo e a troca de ideias entre a Psicologia e as demais áreas de saúde têm se mostrado muito produtivos no atendimento aos pacientes diabéticos, rendendo ótimos resultados, tanto para os pacientes, quanto para a própria equipe de saúde. Podemos justificar a importância deste “trânsito de ideias” do saber psicológico, tanto por propiciar um debate que ampara, facilita e cria uma rede de suporte para o tratamento do usuário, dando maior segurança para as intervenções da equipe, quanto pelo simples fato de que é impossível deixarmos de lado a subjetividade, seja na prática de um exercício físico, no planejamento de uma dieta ou em uma orientação médica. 2 diretrizes gerais para o atendimento psicológico ao paciente diabético No trabalho com o paciente diabético, o psicólogo, baseando-se na psicossomática psicanalítica, tem como seu principal objetivo elucidar qual o significado e a dimensão que a doença toma para cada paciente. Ou seja, como o indivíduo representa sua doença e como essa enfermidade interfere em sua vida, enfim, quais as representações simbólicas e as fantasias frente ao diabetes. Procura-se, em suma, compreender a inserção da enfermidade na dinâmica subjetiva do paciente, o lugar que doença e tratamento ocupam no cotidiano do diabético. O primeiro e fundamental item nesse trabalho, segundo Ávila (1996), consiste em ouvir. O psicólogo ouve, indaga e desdobra o dito do paciente através da associação livre. A queixa deve ser desenvolvida e, a partir daí, tornar-se um discurso investigativo. No enfoque psicossomático, a escuta deve estar voltada para a queixa orgânica como primeira e parcial expressão 1 Quando um usuário chega ao ambulatório de Endocrinologia do HU-UFJF, para uma consulta no projeto de extensão “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus”, passa primeiro por um acolhimento feito por diferentes profissionais de saúde. O acolhimento tem como objetivo principal avaliar a demanda de atendimento do usuário a partir de sua fala. Nesse caso, salvo quando o usuário pede para ser encaminhado para o serviço de Psicologia, a responsabilidade de julgar a importância ou não do encaminhamento para o atendimento psicológico se transfere aos integrantes da equipe que estão no acolhimento. Por isso, estes devem saber como é o trabalho do psicólogo e em que ele está focado. É importante lembrar que o fato de assumir essa responsabilidade não significa transformar os demais integrantes da equipe em especialistas em Psicologia, mas tornar a equipe mais integrada no trabalho cotidiano com o paciente. 159 de um amplo conjunto de expressões e significações. Esta queixa inicial, que é trazida através de uma expressão orgânica, é uma demanda inconsciente, a qual se constitui como ponto de partida do trabalho do psicólogo. Estamos assim falando do que se compreende como “investigação psicossomática”. É muito importante dizer que, por ser formulada a partir da realidade subjetiva e singular de cada sujeito, a investigação psicossomática se fará também de modo único e original. Dessa forma, a tarefa do psicólogo não pode ser realizada como algo que busca um fim pré-determinado, configurando-se, em vez disso, como um lugar de possibilidade de reflexão e escolha do sujeito, originada de sua própria realidade psíquica inconsciente. O psicólogo não deve decidir o futuro de seu paciente, ou atuar “protegendo-o de todos os males”, mas buscar entender suas maiores dificuldades, sejam elas em relação à aceitação de sua dieta, às suas relações afetivas, ou aos mitos advindos do status de diabético. Tudo isso visando a possibilidade de uma melhor adesão do paciente a seu tratamento. Como foi dito anteriormente, não é papel do psicólogo escolher pelo paciente, mas propiciar a ele chances de enfrentar melhor suas angústias, abrindo espaço para a articulação entre seu desejo, sua história e sua queixa; unindo significações que permitam mobilizá-lo a encontrar uma “saída verbal”, para seus conflitos, tornando-o um indivíduo consciente de suas questões. Ao investigar as representações que o paciente diabético possui do tratamento, o psicólogo tem a oportunidade de observar que tipo de vínculo ele estabelece com a doença. Procura, então, ajudar o sujeito no reconhecimento e na elaboração de fantasias que interferem diretamente em seu tratamento. Neste sentido, o trabalho do psicólogo não deve focar apenas a eliminação do sintoma, mas propiciar ao paciente a oportunidade de refletir sobre a maneira como lida com suas questões e sua doença. Em suma, a função primordial do psicólogo é possibilitar ao paciente a compreensão de sua doença para além do biológico. O psicólogo deve reconhecer, enfim, que o paciente é mais do que um aparelho ou sistema “com lesões e disfunções a serem silenciadas com dispositivos e técnicas disponíveis” (MATTOS 2001), entendendo o usuário não de forma reduzida e fragmentada, mas de modo global e de acordo com os princípios da integralidade. Em sua prática, o psicólogo não pode dissociar o sujeito doente de sua história. Ainda sobre as diretrizes gerais do atendimento ao paciente diabético, não podemos deixar de fora a atenção à família. Muitas vezes, a escuta do familiar se torna peça fundamental para montar o quebra cabeça das dificuldades de adesão do enfermo ao tratamento. É comum, em nossas 160 reuniões de grupos com diabéticos, a presença de familiares dos pacientes. Frequentemente, este constitui um fator auxiliar importante na adesão do sujeito à dieta. Entretanto, nem sempre a interferência do familiar se dá de forma colaboradora, e nesses casos o atendimento a este se torna imprescindível. Será importante escutá-lo, procurando entender suas dificuldades e impedimentos no apoio ao paciente em questão. Há casos em que o familiar pode utilizar a dieta a ser cumprida pelo diabético como forma de controle sobre ele, ou, então, pode ocorrer que o parente não consegue levar a efeito a dieta do doente devido a pensamentos de dívida com relação a este2, devido ao fato de a diabetes ser considerada uma doença com grande carga hereditária. 3 rotina de atendimento ao paciente diabético No projeto “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus”, a Psicologia atua de diversas formas: em reuniões técnicas interdisciplinares, no atendimento individualizado ou em grupo, com pacientes diabéticos e com os familiares, nas apresentações de sala de espera, nos grupos de educação e no Acolhimento Integrado. Dentre essas diversas possibilidades, destacamos o atendimento individual ao paciente no dia do Acolhimento. Esse é o momento no qual temos o primeiro contato com o usuário e quando conhecemos sua história de vida associada ao diabetes, suas dificuldades e fantasias envolvidas na doença e no tratamento. Nessa consulta, fazemos uma espécie de triagem do paciente. Se for detectada uma demanda psicológica, podemos fazer esse atendimento semanalmente, seja ele em grupo ou individualmente. Caso não seja detectada nenhuma demanda, o usuário poderá ser acompanhado a cada três meses. Porém, se por qualquer motivo houver modificação no quadro do paciente e verificarmos a importância de se iniciar um acompanhamento regular, este poderá ser feito em grupos terapêuticos ou individualmente. Essas modalidades de atendimentos são ambas pautadas na teoria psicanalítica, com foco no diabetes. Contudo, é importante lembrar que, em nenhuma das formas de atendimento citadas, o terapeuta estará preocupado diretamente com os sintomas causados pela diabetes, como a sede exagerada, a vontade de urinar diversas vezes, o suor frio, 2 Não é raro se verificar, em casos de diabetes em crianças, mães que se julgam culpadas pela doença do filho; e, por já terem dado esse infeliz “presente” ao filho, não conseguirem privá-lo de nada. 161 a visão embaçada, a fadiga etc. Evidentemente, o terapeuta os leva em consideração na medida em que possam se apresentar como sinais de uma emergência médica. Porém, tem em conta que, mais importante do que trabalhar sobre os sintomas, procurando extingui-los, deverá cuidar do paciente no que diz respeito à ampliação de sua percepção sobre aquilo que se repete em seus sintomas e movimentos (ações e fantasias) no cotidiano de sua vida. Atuará ainda procurando criar suporte para que consiga lidar melhor com as dificuldades encontradas nas situações de seu ambiente de convívio, as quais acabam influenciando, de uma forma ou de outra, no aparecimento dos sintomas das “crises diabéticas”. Dessa maneira, o trabalho de elaboração dos momentos de crise mostrase muito mais importante e sustentável do que aquele que se restringe a eliminar o sintoma, sem procurar avaliar as circunstâncias que afetam o paciente. Nessa busca do que pode estar afetando o sujeito adoecido, podemos encontrar, por exemplo, brigas e preocupações familiares, além de fantasias sobre a diabetes, entre outros fatores. O psicólogo deve atuar, também, de forma colaborativa com as demais áreas de saúde, ao que podemos chamar de consultoria colaborativa. Nela, o psicólogo não se coloca no lugar de detentor de um saber absoluto sobre o usuário, mas constrói, em conjunto e de forma colaborativa com os profissionais de saúde, a melhor forma de se resolver determinado problema trazido pelo usuário nas consultas. O foco desse trabalho passa a ser, então, as relações criadas entre profissionais de saúde e usuário, e não mais o paciente dito problemático. Outro procedimento de rotina importante na atenção ao paciente diabético é a sala de espera. Esta atividade propicia esclarecimento sobre a doença, agindo como uma forma de educação e promoção de saúde, uma vez que é neste local do ambulatório de Endocrinologia que entramos em contato também com pacientes que não são diabéticos ou que ainda não sabem que são. Por fim, destacamos os grupos interdisciplinares que, no caso da Psicologia, têm como objetivo divulgar e esclarecer o papel do psicólogo no tratamento do diabetes e possibilitar aos usuários um olhar multifocal sobre a enfermidade. Os grupos interdisciplinares são planejados sempre de forma a propiciar uma troca de experiências e informações, tanto da equipe médica com os pacientes, quanto dos pacientes entre si. 162 4 experiência da psicologia no proJeto desenvolvido no hospital universitário da universidade Federal de Juiz de Fora São surpreendentes as possibilidades de um trabalho em equipe como esse. Em nossa prática cotidiana, frequentemente fazemos descobertas que talvez, sem a experiência vivida na prática, não seríamos capazes de imaginar. Foi essa experiência que nos possibilitou o aprimoramento de nossos atendimentos, fazendo muitas vezes com que repensássemos nossas concepções. Hipóteses teóricas, que não eram consideradas importantes, tornaram-se primordiais para pensar o atendimento ao diabético, e outras, já tidas como relevantes, ganharam peso ainda maior. Entre esses pontos, destacamos a construção das atividades em equipe de modo interdisciplinar. Essa é, sem sombra de dúvida, uma das experiências mais extraordinárias que pode ser realizada no contexto hospitalar, principalmente quando a equipe se mostra atenciosa e aberta ao diálogo. É a convivência interdisciplinar que nos ensina os limites de nossos saberes. Ao longo desse capítulo, discorremos sobre a importância de que o saber psicológico possa transitar para as outras áreas de saúde. Da mesma forma, é primordial, para o psicólogo que atua em um serviço de Endocrinologia, conhecer sobre as enfermidades dos usuários que aí chegam, assim como sobre os cuidados que elas requerem. Desse modo, será preciso entender a importância da alimentação correta, da prática da atividade física, do uso da medicação e das orientações médicas dadas ao diabético. O exercício da interdisciplinaridade vem nos mostrar que pode existir uma integração, não somente na forma como olhamos o paciente, mas também na forma de aplicar nossos saberes sobre a doença. A experiência ensina que de nada adianta o paciente estar bem resolvido com as questões psíquicas que afetam sua doença se não sabe como se alimentar corretamente, não faz uso adequado de sua medicação, ou ainda, não é capaz de identificar, através dos sintomas, uma crise de hipoglicemia. Assim como a troca de informações entre os profissionais, a importância de um atendimento bem feito mostrou-se primordial para o desenvolvimento de nosso trabalho. Neste, nos movimentamos para chegar aos pacientes e aos demais profissionais da equipe. Isto implica uma saída do psicólogo de sua antiga postura clínica rígida, uma vez que, no contexto hospitalar, o psicólogo terá que ir ao encontro do usuário e dos colegas de outras áreas, seja para realizar atividades em sala de espera, 163 participar de reuniões de grupo interdisciplinar, ou mesmo deter-se nos corredores esclarecendo dúvidas e ouvindo aqueles que se dirigem a ele. Independentemente da forma como o psicólogo chega ao paciente, ele deve sempre visar um atendimento de qualidade. Outro ponto que se tornou muito claro no decorrer de nosso trabalho no ambulatório de Endocrinologia foi a importância da inclusão dos familiares do paciente diabético no tratamento. Como já dissemos, muitas vezes, o familiar se torna um elo valioso entre equipe de saúde e paciente, facilitando o tratamento. Por isso acreditamos que os grupos interdisciplinares e terapêuticos desenvolvidos com os pacientes diabéticos não devem se restringir somente a estes. Consideramos fundamental a participação da família em algumas atividades. Em resumo, podemos dizer que, em nosso trabalho, devemos estar dispostos a nos reinventarmos a cada dia, procurando entender as diversas formas de olhar a doença (seja se tratando do saber de outra área, seja escutando a ideia que o paciente tem de sua própria enfermidade), produzindo conhecimentos, ouvindo também aquele que não é diabético, mas que pode auxiliar no tratamento (como é o caso dos familiares), e, finalmente, buscando sempre fazer um atendimento de qualidade. 5 reFerências ÁVILA, L. A. Doenças do Corpo e doenças da Alma: investigação psicossomática psicanalítica. São Paulo: Escuta, 1996. CARVALHO, M. M. Psico-oncologia: história, características e desafios. Psicologia USP, São Paulo, v. 13, n. 1, p.151-166, 2002. DIMENSTEIN, M. D. B. O psicólogo nas unidades básicas de saúde: desafios para a formação e atuação profissionais. Estudos de Psicologia, v. 3, n. 1, p. 53-81, 1998. FILGUEIRAS, M. S. T. Psicossomática psicanalítica e contexto hospitalar – pressupostos e formas de articulação. Reunião Hospital Monte Sinai, Juiz de Fora, 2003. MATTOS, R. A. Os sentidos da Integralidade: algumas reflexões acerca de valores que merecem ser defendidos. In: PINHEIRO, R.; MATTOS, 164 R.A. (Org.) Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: IMS-UERJ, 2001. p. 39-64. SOUZA, E. M. D. Z. História da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar. Disponível em: <http://www.sbph.org.br/site/historia.php>. Acesso em: 20 fev. 2009. 165 CAPÍTULO 12 ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL EM UM PROGRAMA DE EDUCAÇÃO EM DIABETES AUTORES: Danielle Sachetto Ribeiro Patrícia Teixeira Groppo de Oliveira 1 introdução Entender a intervenção do assistente social junto ao portador de diabetes requer um olhar atento sobre as implicações da doença e de seu tratamento no cotidiano destes usuários; um conhecimento aprofundado dos impactos da doença para a política de saúde pública e as respostas que o Sistema Único de Saúde (SUS) engendra no seu enfrentamento. O diabetes mellitus é uma doença decorrente da falta de insulina e/ou da incapacidade de a insulina exercer adequadamente seus efeitos. Com frequência a doença se associa a complicações, disfunções e insuficiência em vários órgãos, especialmente olhos, rins, nervos, cérebro, coração e vasos sanguíneos, por isso o impacto na redução da expectativa e qualidade de vida é considerável. Atualmente o diabetes mellitus configura-se como uma epidemia mundial, traduzindo-se em grande desafio para os sistemas de saúde de todo o mundo. Vários são os elementos responsáveis pelo aumento da incidência e prevalência do diabetes, dentre os mais importantes temos a mudança no perfil demográfico da população com aumento da expectativa de vida e adoção de estilos de vida pouco saudáveis, como sedentarismo e dieta inadequada. O diabetes traz consigo, ainda, uma elevada carga social, em decorrência da perda de produtividade no trabalho, aposentadoria precoce e mortalidade prematura. Segundo Bahia (2008), os custos de uma doença podem ser divididos em: custos diretos, indiretos e intangíveis. Os custos diretos são aqueles diretamente resultantes das intervenções dos quais são exemplo as diárias hospitalares, os exames complementares, os medicamentos, as próteses e órteses e os honorários médicos. Entre os custos não médicos destacam-se o transporte do paciente ao hospital, os honorários de contratação de um cuidador temporário para o período de convalescença do paciente. Os custos indiretos, também chamados de custos sociais, resultam da perda de produtividade em função da doença, incapacidade ou morte prematura. Os custos intangíveis são de difícil mensuração e incluem, entre outros, o custo da sobrecarga psicológica do paciente e o custo do prejuízo de sua qualidade de vida e bem estar. Por isso, a prevenção do diabetes e de suas complicações é hoje prioridade em saúde pública. 2 o diabetes: implicações para a política de saúde O diagnóstico do diabetes tem impactos profundos na vida do sujeito, uma vez que são adotados projetos terapêuticos que envolvem a inserção de medicações e, em alguns casos, tratamentos mais invasivos como a insulinoterapia, além de mudanças de hábitos alimentares; inserção de atividade física e uma série de orientações e cuidados que devem ser reforçados, como cuidados com pé, com feridas, maior cuidado odontológico, além dos estigmas ligados ao diagnóstico da doença. Enfim, são diversos elementos que mudam a rotina da pessoa e trarão implicações na dinâmica familiar, no âmbito do trabalho e do lazer. O cuidado integral ao paciente com diabetes e sua família é um desafio para os profissionais de saúde, especialmente para contribuir com a inserção de novos elementos no modo de viver do diabético, que deverá aprender a gerenciar sua vida com diabetes em um processo que vise qualidade de vida e autonomia. Em razão destes elementos, o SUS estabelece estratégias e ações para prevenir e tratar o diabetes e suas complicações através de promoção da 168 saúde, prevenção, diagnóstico precoce e tratamento da doença, bem como capacitação de profissionais da saúde, adoção de medidas de assistência farmacêutica e incentivo a pesquisas voltadas para o cuidado com o diabetes (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010). Dentro de uma estratégia de assistência farmacêutica, o SUS fornece gratuitamente, para a rede básica de saúde, os medicamentos essenciais para o controle do diabetes. O Ministério da Saúde repassa recursos para estados e municípios que adquirem e distribuem os medicamentos e insumos necessários tais como glicosímetros, fitas reagentes para medida da glicemia capilar, seringas e agulhas para aplicação de insulina aos portadores do diabetes tipo 1. Para ser atendido no SUS, o usuário deve estar cadastrado no Sistema HIPERDIA1, que é utilizado para o acompanhamento dos portadores de diabetes mellitus e hipertensão arterial e está disponível nas unidades básicas de saúde. Através de pactuação entre as três esferas de governo, são oferecidos aos usuários do SUS medicamentos como cloridrato de metformina, glibenclamida, insulina NPH, insulina regular, insulina glargina e insulina detemir, além de insumos para monitoramento como glicosímetros, fitas reagentes para medida da glicemia capilar, seringas e agulhas para aplicação de insulina (SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE DE MINAS GERAIS, 2009). Além da assistência farmacêutica, são pontos essenciais da estratégia de atenção ao diabetes no SUS a preocupação com a prevenção, o estímulo ao auto cuidado e à autonomia dos usuários e as pesquisas na área de Diabetologia. Dentre as estratégias de prevenção estão a política de promoção da saúde, que tem como uma das prioridades o estímulo à atividade física e o Programa Saúde na Escola, cujo objetivo é prevenir agravos e promover a saúde dos escolares, por meio de avaliações do estado nutricional, detecção da incidência precoce de hipertensão e diabetes, controle de cárie, avaliação da acuidade visual e auditiva e também avaliação psicológica. Vale destacar que a prevenção a agravos e a promoção da saúde são elementos centrais da Estratégia de Saúde da Família, que foi adotada como vetor de reorganização do paradigma de atenção à saúde no Brasil pautado nas determinações constitucionais. 1 O HIPERDIA é o Sistema de Informação em Saúde de monitoramento da hipertensão arterial e do diabetes mellitus. 169 Por meio da Secretaria de Ciência e Tecnologia, o Ministério da Saúde prioriza e financia o desenvolvimento de pesquisas clínicas, análises de custos e de tecnologias em saúde, com o objetivo de qualificar o cuidado integral a diversos agravos, onde o diabetes é uma das prioridades. Tais medidas decorrem do alto índice de mortalidade e elevada prevalência da doença, além do alto custo social e financeiro para a sociedade e os sistemas de saúde. Em linhas gerais, este é o elenco de ações direcionadas ao portador de diabetes, que ganham particularidades em nível estadual e local, no âmbito da política nacional de saúde, através das quais o assistente social busca subsídios para viabilizar o acesso do usuário ao tratamento gratuito e de qualidade para sua doença. Entretanto, as demandas apresentadas ao Serviço Social no trato com os usuários portadores de diabetes não se esgotam no âmbito do acesso ao tratamento clínico, pois as implicações da doença atingem diversas esferas da vida dos sujeitos, criando, assim, outras necessidades e particularidades que serão expostas a seguir quando tratarmos especificamente do processo de trabalho do Serviço Social no Projeto “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus”, desenvolvido no Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF). 3 o serviço social e a intervenção na área da saúde O Serviço Social é uma profissão inserida na divisão social e técnica do trabalho coletivo, cuja matéria-prima de intervenção é a questão social em suas diversas expressões no cotidiano da população. Dizer que a questão social é a fundamentação do trabalho do assistente social significa que este profissional atua no conjunto das expressões da desigualdade na sociedade capitalista gerada pela contradição entre a produção coletiva da riqueza e sua apropriação privada, monopolizada por pequena parcela da população (IAMAMOTO, 2006). Tais desigualdades se refratam no âmbito da renda, da alimentação, da educação, do trabalho e da previdência dentre tantas outras esferas e se refletem, sobretudo, na saúde. No Brasil, a saúde sempre foi um dos principais campos de intervenção do Serviço Social, desde a sua institucionalização em 1945. Até a década de 70 a inserção dos assistentes sociais foi marcada por uma prática conservadora, 170 burocratizada numa perspectiva estrutural-funcionalista de forte influência norte-americana, voltada para práticas “educativas” que tinham um viés de controle sobre o comportamento dos usuários, reforçando estratégias de manutenção e reprodução da força de trabalho necessária ao processo desenvolvimentista engendrado pelo capital (BRAVO e MATOS, 2006). A partir da década de 70, começa a se engendrar no Serviço Social um movimento de ruptura2 com as perspectivas conservadoras que vinham balizando as intervenções profissionais até então, pautando o projeto profissional, que começa a se conformar, na ampliação do debate teórico fundamentado na teoria social crítica, elegendo valores democráticos como norte central. Essa nova orientação coloca o projeto de profissão do Serviço Social em consonância com o projeto do Movimento de Reforma Sanitária e impõe novas determinações à intervenção dos assistentes sociais no campo da saúde. A partir da década de 80, o Movimento da Reforma Sanitária ganha força e consegue imprimir no texto constitucional e na Lei Orgânica da Saúde grande parte de sua agenda: Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. (CF 1988) Art. 3º A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do País. (Lei 8080/1990) Com a inauguração do conceito ampliado de saúde, caracterizada como direito de todos e dever do Estado, balizando um Sistema Único de Saúde pautado em diretrizes de acesso universal, integralidade e participação social, o trabalho do assistente social na saúde pautado no Projeto Profissional comprometido com a classe trabalhadora e com o Projeto da Reforma Sanitária ganha suporte jurídico institucional. 2 Para uma melhor compreensão do movimento de renovação no Serviço Social, ver NETTO, J.P. Ditadura e Serviço Social: uma análise do Serviço Social no Brasil pós-64. 171 Com as conquistas obtidas na esfera dos direitos sociais na Constituição de 88, ocorrem na categoria profissional dos assistentes sociais significativas mudanças e avanços, possibilitando transformações em sua prática e atuação, apoiadas por novas requisições no setor da saúde, decorrentes de ampliação do conceito de saúde, da criação do SUS, da construção de um novo modelo de atenção à saúde, pautado pelo paradigma da determinação social da doença (BRAVO e MATOS, 2006). Entretanto, na década de 1990, é inaugurado no Brasil um projeto de Contra-Reforma com a implantação do neoliberalismo. Entra em cena, na implantação da política de saúde, o Projeto Privatista, tencionando o trabalho do assistente social. O processo de minimização na oferta de serviços de saúde oferecidos pelo Estado vai impactar negativamente em sua qualidade no acesso da população (BRAVO, 1996). Diante deste contexto, novas ações são colocadas para o assistente social na área da saúde, em que Bravo (1996) aponta para a necessidade de se resgatar a consciência sanitária da população, a democratização de informações e acesso, a capacitação político-técnica de conselheiros, o estímulo à participação e ao controle social, a realização de estudos que revelem o cotidiano da população e o desenvolvimento de ações e projetos interdisciplinares. Inauguram-se, no campo da intervenção do assistente social na área da saúde, novas demandas onde o trabalho interdisciplinar se torna essencial. É importante frisar que o Serviço Social tem “vocação” para trabalhar de forma integrada, numa perspectiva interdisciplinar, uma vez que a integração com outros profissionais é vital e essencial para o Serviço Social, porque enriquece o trabalho, rompe com o conhecimento fechado e quebra com o dogmatismo, beneficiando o usuário (STEPHAN-SOUZA, 1999). 4 bases da intervenção do serviço social no proJeto “acompanhamento, educação e prevenção em diabetes mellitus” O principal elemento que dá sustentação às ações do Serviço Social no atendimento ao sujeito portador do diabetes é a perspectiva de saúde como um complexo de determinantes biopsicossociais, o que pressupõe o cuidado pautado na integralidade, no trabalho em equipe e as ações de educação em saúde, elementos que perpassam todo o trabalho do Serviço Social como diretrizes transversais. 172 As implicações que estão postas para os sujeitos, durante o tratamento do diabetes, alteram significativamente o seu cotidiano, e o objetivo da equipe interdisciplinar do projeto é a manutenção de sua qualidade de vida, indicando ações terapêuticas, preventivas e de promoção da sua saúde que abarquem ao máximo suas necessidades. Por isso, o conceito de integralidade no cuidado ao usuário diabético, em todos os sentidos que carrega, é o eixo articulador do trabalho e a premissa sobre a qual o assistente social procura elaborar seu processo de trabalho. Ao analisar os sentidos da integralidade, Mattos (2006) ressalta que a integralidade se dá através da escuta ativa das necessidades de saúde para além daquelas diretamente ligadas à doença. É uma atitude de reconhecimento de um conjunto de necessidades às quais os serviços de saúde devem responder. Ressalta, ainda, que a integralidade deve comporse numa dimensão das práticas dos diversos profissionais envolvidos com o usuário, elevando-se ao desenvolvimento de atributos de organização do trabalho em equipe. A equipe deve predispor-se em discernir de um modo abrangente as diferentes necessidades dos usuários, das quais partiriam a organização do trabalho. Cecílio (2006) conceitua a Integralidade abordando-a sob dois aspectos: o da integração dos saberes dentro de um esforço individual e coletivo de escuta e decodificação das demandas e o da integração e articulação intersetorial dos serviços de saúde, ambas as dimensões partindo das necessidades de saúde da população. Nesta perspectiva, o assistente social no atendimento ao usuário diabético deve buscar entender de que maneira o diagnóstico rebate no processo de vida de cada um, seja na família, no âmbito do seu trabalho, no seu acesso e vinculação ao conjunto das políticas sociais. Torna-se fundamental conhecer a dinâmica de vida do usuário e perceber a apreensão que ele realiza acerca do seu processo de saúde, o que implica um conhecimento do que seja a doença e de como ela pode impactar no seu dia-a-dia de que forma ele entende a organização do seu tratamento, de como ele percebe o seu acesso à política de saúde pública, além do seu conhecimento das formas de efetivar seus direitos. A escuta qualificada das queixas e das demandas trazidas pelos usuários levam à identificação das necessidades de saúde que ultrapassam a demanda imediata, ampliando-se o processo de reflexão com o usuário para outros campos da vida social. Elementos econômicos, sociais, psicológicos, políticos e culturais estão claramente imbricados no processo 173 de adoecimento do portador de diabetes. Por isso é de extrema relevância considerar a saúde como constituída de um complexo de determinações, especialmente sociais (VASCONCELOS, 1997). Os perfis de saúde-doença de um determinado grupo da população estão determinados pelos processos de reprodução social de suas condições objetivas de existência, os quais estão determinados pelos processos que regem a reprodução geral dessa sociedade e que estabelecem a forma particular de inserção de tal grupo em tais processos gerais (CASTELLANOS, 1997). Um trabalho pautado numa concepção ampliada de saúde que tenha em vista o cuidado integral não pode se realizar por apenas uma disciplina isolada. Sendo assim, a atuação na área da saúde requer a intervenção de vários profissionais de maneira multi e interdisciplinar, já que uma única profissão é incapaz de, sozinha, dar conta de todas as dimensões que perpassam a saúde do indivíduo. Como já exposto, o Serviço Social tem como matéria-prima de seu trabalho a questão social constituída no bojo da complexa relação contraditória produzida entre as classes sociais. Portanto, a intervenção profissional do assistente social está sempre tensionada pelo movimento das transformações societárias engendradas nas complexas relações sociais estabelecidas. Isto significa que o campo interventivo do assistente social está em constante mudança, pois é histórico e, inegavelmente complexo, em que apenas uma disciplina não dá conta de desvendar a complexidade dos fenômenos que determinam o real. Portanto, é imperativo que o assistente social, além de realizar uma leitura constante do real, articule seu trabalho num movimento interdisciplinar. Especialmente no campo da saúde fundamental é importante a articulação de diversos saberes que interagem entre si na formação de um processo de trabalho em saúde. Um terceiro elemento que se coloca como eixo norteador da intervenção do Serviço Social no atendimento ao usuário diabético é o processo de educação em saúde, onde a prevenção de agravos e, especialmente, a promoção da saúde são elementos centrais. A educação em saúde, segundo Stephan-Souza (1999), é vista como proposta metodológica capaz de influenciar a inversão do paradigma tradicional da formação em saúde, sugerindo o abandono das formas conservadoras do ensino, tendo sustentação na troca sistemática entre saberes. Tanto o assistente social quanto os outros profissionais de saúde, para consolidar o trabalho coletivo no interior dos serviços de saúde, 174 necessitam de trabalho educativo, pela sua possibilidade de proporcionar trocas teóricas, conhecimentos de demandas e necessidades dos usuários. O trabalho em equipe é compreendido de forma associada ao enfoque educativo, e sua importância se centra na valorização da individualidade, da privacidade e da dignidade. Neste contexto, adotar práticas educativas favorece a capacitação de indivíduos e grupos para a transformação da realidade, agindo através de práticas educativas que extrapolam o processo de persuasão ou transferência de informação. Ela contribui para a formação crítica da realidade onde se insere o processo saúde-doença, atuando como uma prática políticopedagógica transformadora no processo de reforma sanitária. A valorização individual na abordagem educativa é dada pelo reconhecimento do resgate do indivíduo como singular, protagonista de seu processo histórico, destacando o valor de objetivos como informação, estímulo ao auto cuidado e reforço da auto estima. É a afirmação do indivíduo como sujeito nas ações em saúde, uma vez que tem a possibilidade de sair da condição de passivo para a condição de cidadão ativo, com uma história de vida. Utilizando-se dessa metodologia, o profissional torna-se capaz de entender e compreender a dimensão cultural dos usuários dos serviços de saúde e concomitantemente aprende a dialogar os conteúdos de seu conhecimento. O direito à saúde requer necessariamente a mudança nas formas de comunicação profissional-usuário (LIMA et al., 2001). E é nesta perspectiva que desenvolvemos nosso trabalho no Projeto “Acompanhamento, Educação e Prevenção em Diabetes Mellitus” no Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora. 5 a atuação do assistente social no proJeto “acompanhamento, educação e prevenção em diabetes mellitus” O principal objetivo do Serviço Social nesse projeto de atenção interdisciplinar ao portador do diabetes é contribuir no processo de melhora da qualidade de vida do usuário, articulando tratamento, prevenção e promoção da saúde através da viabilização do acesso ao conjunto das políticas sociais, especialmente, aos serviços de atenção à saúde do diabético. Além disso, busca-se identificar os determinantes sociais que 175 estejam atrelados ao processo saúde-doença do usuário e a identificação de elementos implicados no auto cuidado e adesão ao tratamento, investindo no potencial político do usuário através da politização das questões que se manifestam do seu cotidiano. Para a concretização destes nortes, o Serviço Social adota como estratégias o acolhimento ao usuário que chega pela primeira vez ao ambulatório, sempre em companhia de outro profissional de saúde das diferentes disciplinas que compõem o projeto3, o atendimento a cada usuário individualmente, o trabalho de grupo e a sala de espera. Todas as ações são realizadas, sempre que possível, em conjunto com outros profissionais do projeto com a finalidade de se garantir um olhar o mais amplo possível na escuta das necessidades colocadas pelos usuários. O atendimento conjunto também tem o fundamento de exercitar o trabalho interdisciplinar, tendo em vista que o projeto se conforma em um espaço de formação de recursos humanos na área da saúde, principalmente por se desenvolver em um hospital de ensino. O acolhimento realizado pelo Serviço Social em conjunto com outro profissional tem o objetivo de organizar e reorientar as práticas em saúde, além de construir um novo modo de assistir e gerir em saúde. Implica os seguintes princípios: – atender a todas as pessoas que procuram os serviços, garantindo acessibilidade universal, oferecendo resposta positiva ao problema de saúde do usuário; – reorganizar o processo de trabalho, a fim de que este desloque seu eixo central do médico para uma equipe multiprofissional, que se encarrega da escuta do usuário, comprometendo-se a solucionar seu problema de saúde; – qualificar a relação trabalhador-usuário que deve se basear em parâmetros humanitários de solidariedade e cidadania (FRANCO et al.,1999). O atendimento individual do Serviço Social é realizado quando o usuário está em retorno e tem como objetivo identificar demandas mais específicas para o Serviço Social, verificar respostas a orientações prestadas no acolhimento e verificar a condição em que o tratamento está acontecendo. 3 176 Enfermagem, Educação Física, Farmácia, Fisioterapia, Medicina, Psicologia, Nutrição, Odontologia e Serviço Social. Tanto o acolhimento quanto a abordagem individual se baseiam em um rol de questionamentos essenciais a partir dos quais é possível realizar uma aproximação da realidade do usuário, nos fornecendo subsídio para a construção do vínculo e encaminhamento das orientações necessárias. São abordados elementos como: a) composição familiar, b) condições de trabalho e renda da família, c) acesso ao conjunto das políticas públicas (previdência; assistência; educação e habitação, principalmente), d) acesso à rede de saúde (assistência farmacêutica, relação com a atenção primária, atenção a outras comorbidades), e) conhecimento acerca do estado de saúde e do diabetes, f ) entendimento que o usuário tem e adota sobre os cuidados necessários no diabetes, g) rede sócio-familiar de suporte ao sujeito. A partir da identificação destas questões iniciais são detectadas as principais necessidades dos sujeitos além de outros elementos – objetivos e subjetivos – que surgem na inter-relação estabelecida com os mesmos. Neste momento, são trabalhados esclarecimentos sobre a doença e suas implicações para o cotidiano e é estabelecido com o usuário um processo de reflexão sobre seus direitos, as formas de acesso e garantia dos mesmos. Há, no atendimento individual e no acolhimento, uma preocupação em garantir que o usuário tenha condições objetivas de manter a adesão ao tratamento estimulando sua autonomia nesse processo, munindo-o de informações claras, acessíveis e práticas de como encaminhar o auto cuidado, propiciando assim maior adesão ao tratamento. Para alcançar estes objetivos é importante que as informações sejam construídas com o usuário, que as mesmas façam sentido para ele e correspondam à sua realidade. O trabalho educativo com grupos é uma estratégia do projeto em que participam todas as disciplinas envolvidas no trabalho. O grupo acontece uma vez por mês, e todos os diabéticos que passam pelo projeto são convidados a participar, com abertura também para os familiares dos mesmos. A intervenção do Serviço Social no grupo aborda temáticas relacionadas a elementos políticos e culturais relacionados com diabetes na vida dos sujeitos. Há um planejamento semestral das atividades do grupo, e a escolha da temática a ser trabalhada pelo Serviço Social parte da análise das necessidades de maior relevância identificadas nos atendimentos individuais e no acolhimento. O Serviço Social procura tratar de questões relacionadas à política de saúde, enfatizando sua construção histórica de luta, seus avanços, desafios e a responsabilidade dos sujeitos na sua construção através de uma participação ativa, seja no dia-a-dia dos serviços, seja nos espaços institucionalizados de participação como conselhos e conferências. Outros elementos de trabalho no 177 grupo são as implicações da doença no cotidiano do usuário, as exigências de modificação de hábitos e os rebatimentos que os mesmos trazem na dinâmica familiar, no trabalho e nos espaços de lazer, além da estigmatização do diabético e o conjunto dos direitos sociais e sua violação. Enfim, existe uma série de elementos a serem tratados pelo Serviço Social no grupo, mas o importante é que tais elementos sejam buscados na vivência dos usuários. A metodologia de trabalho no grupo é baseada na metodologia da problematização proposta por Paulo Freire, onde o ponto de partida da reflexão é o cotidiano dos sujeitos, trabalhado num processo reflexivo em que são valorizadas suas experiências a partir dos conhecimentos e contribuições trazidos pelo grupo. Desta forma, o conhecimento vai se construindo de uma forma dialógica, em que a relação hierárquica entre quem ensina e quem aprende é quebrada para se construir uma relação dialética entre educador /educando (FREIRE, 1996). A sala de espera é o momento em que a equipe se reveza para socializar informações objetivas sobre o diabetes, a importância de sua prevenção e tratamento, além de divulgar as ações do projeto, constituindo-se assim como um espaço de prevenção primária no âmbito do diabetes. Enfim, a participação do Serviço Social no Projeto de atenção interdisciplinar ao portador do diabetes contribui para o processo de cuidado integral do paciente diabético através da viabilização de direitos pautados nas demandas cotidianas vivenciadas no processo saúde/doença. 6 reFerências BRAVO, M. I. S. Serviço Social e Reforma Sanitária: lutas sociais e práticas profissionais. Rio de Janeiro: Cortez, 1996. BRAVO, M. I. S.; MATOS, M. C. Projeto Ético Político do Serviço Social e sua Relação com a Reforma Sanitária: Elementos para o Debate. In: MOTA, A. E. et al. Serviço Social e Saúde – Formação e Trabalho Profissional. São Paulo: Cortez: OPAS: OMS: Ministério da Saúde, 2006. CASTELLANOS, P. L. Epidemiologia, Saúde Pública, situação de saúde e condições de vida: considerações conceituais. In: BARATA, R.B. (Org.) Condições de vida e situações de Saúde. Rio de Janeiro: ABRASCO, 1997. CECÍLIO, L. C. O. As Necessidades de Saúde como conceito estruturante na luta pela integralidade e equidade na atenção em saúde. In: PINHEIRO, 178 R.; MATTOS, R. (org.). Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: IMS/UERJ: ABRASCO, 2001. p. 115-128. FRANCO, T. B. et al. O acolhimento e os processos de trabalho em saúde: o caso de Betim, Minas Gerais, Brasil. Cad Saúde Pública, v.15, p. 345-53, 1999. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à pratica educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. IAMAMOTO, M. V. Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. São Paulo: Cortez, 2006. LIMA, N. T. et al. Saúde e Democracia: história e perspectivas do SUS. Rio de Janeiro: Ed. FIOCRUZ, 2006. MATTOS, R. A. Os sentidos da integralidade: algumas reflexões acerca de valores que merecem ser defendidos. In: PINHEIRO, R.; MATTOS, R. (org.). Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: IMS/UERJ: ABRASCO, 2001. p 39-66. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Política de Atenção ao Diabetes no SUS. Disponível em: <http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto. cfm?idtxt=29794&janela=1>. Acesso em: 10 set. 2010. MIOTO, R. C. T.; NOGUEIRA, V. M. R. Desafios atuais do sistema único de saúde – SUS e as exigências para os assistentes sociais. In: MOTA, A. E. et al. Serviço Social e Saúde – Formação e Trabalho Profissional. São Paulo: Cortez: OPAS: OMS: Ministério da Saúde, 2006. SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE DE MINAS GERAIS. HIPERDIA. Disponível em: <http://www.saude.mg.gov.br/politicas_de_ saude/hiperdia-mineiro-1/insumos-para-diabetes-farmacia-de-minas>. Acesso em: 12 jun. 2009. STEPHAN-SOUZA, A. A interdisciplinaridade e o trabalho coletivo em saúde. Revista APS, v. 2, n. 2, p. 5-10, 1999. VASCONCELOS, A. M. Serviço Social e prática reflexiva. Revista Em Pauta, n.10, p. 12, 1997. 179 Anexo I Interações medicamentosas – antidiabéticos orais Clorpropamida Drogas Interações FLUOROQUINOLONAS O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia: aumento do risco de hipoglicemia e hiperglicemia. DISOPIRAMIDA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ACARBOSE O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. HIDROCLOROTIAZIDA O uso concomitante pode resultar em diminuição da eficácia da clorpropamida. CLORTALIDONA O uso concomitante pode resultar em diminuição da eficácia da clorpropamida. ASPIRINA O uso concomitante pode causar hipoglicemia. SULFADIAZINA O uso concomitante pode resultar em maior efeito hipoglicemiante. INIBIDORES DA MAO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia excessiva, depressão do SNC e convulsões. PSYLLIUM O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ERVA DE SÃO JOÃO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. ALHO O uso concomitante pode resultar em aumento do efeito hipoglicemiante. GLUCOMANNAN O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. RIFAMPICINA O uso concomitante pode resultar em diminuição da efetividade da clorpropamida. CLORANFENICOL O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. 182 Drogas Interações SULFAMETOXAZOL O uso concomitante pode resultar em maior efeito hipoglicemiante. BLOQUEADORES BETAADRENÉRGICOS O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia, hiperglicemia ou hipertensão. FENO GREGO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. CLOFIBRATO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. RIFAPENTINA O uso concomitante pode resultar em diminuição da eficácia hipoglicemiante oral. AGENTES ANTIINFLAMATÓRIOS NÃO ESTERÓIDES O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. CLOROTIAZIDA O uso concomitante pode resultar em diminuição da efetividade da clorpropamida. BICARBONATO DE SÓDIO O uso concomitante pode resultar em diminuição da efetividade da clorpropamida. CLORETO DE AMÔNIO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. ALCAÇUZ O uso concomitante pode reduzir a eficácia do agente antidiabético. SOMATROPINA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. OCTREOTIDA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. PORFIMER O uso concomitante pode resultar em dano intracelular excessivo nos tecidos fotossensíveis. GINSENG O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. EUCALIPTO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. GYMNEMA SYLVESTRE O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. LEVOTIROXINA O uso concomitante pode resultar na redução da efetividade da clorpropamida. Drogas Interações LANREOTIDA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. FENITOÍNA O uso concomitante pode resultar em diminuição da efetividade da clorpropamida. GLUCOSAMINA O uso concomitante pode resultar na redução da efetividade da clorpropamida. DILTIAZEM O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. FOSFENITOÍNA O uso concomitante pode resultar na redução da efetividade da clorpropamida. ÁCIDO LIPÓICO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. glibenclamida Drogas Interações BOSENTANA O uso concomitante pode resultar em risco aumentado de elevação das enzimas hepáticas. FLUOROQUINOLONAS O uso concomitante pode resultar em: aumento do risco de hipoglicemia e hiperglicemia. ACARBOSE O uso concomitante pode resultar no aumento do risco de hipoglicemia. CLARITROMICINA O uso concomitante pode resultar em aumento das concentrações plasmáticas de glibenclamida e risco aumentado de hipoglicemia. GEMFIBROZIL O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. INIBIDORES DA MAO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. PSYLLIUM O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ERVA DE SÃO JOÃO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. VORICONAZOL O uso concomitante pode resultar em concentrações plasmáticas aumentadas de sulfonilureias. 183 184 Drogas Interações COLESEVELAM O uso concomitante pode resultar em diminuição da absorção e das concentrações plasmáticas da glibenclamida. RIFAMPICINA O uso concomitante pode resultar em diminuição da eficácia da glibenclamida. GLUCOMANNAN O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. VARFARINA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hemorragia. CICLOSPORINA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de toxicidade da ciclosporina (disfunção renal, colestase, parestesias). BLOQUEADORES BETAADRENÉRGICOS O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia, hiperglicemia ou hipertensão. RIFAPENTINA O uso concomitante pode resultar em diminuição da eficácia hipoglicemiante oral. SULFAMETOXAZOL O uso concomitante pode resultar em maior efeito hipoglicemiante. ASPIRINA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. AGENTES ANTIINFLAMATÓRIOS NÃO ESTEROIDES O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. CLOFIBRATO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. ALCAÇUZ O uso concomitante pode resultar em eficácia reduzida do agente antidiabético. SOMATROPINA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. OCTREOTIDA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. SITAGLIPTINA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. SALICILATOS O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. Drogas Interações GINSENG O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. CLORANFENICOL O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. FLUOXETINA O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. PORFIMER O uso concomitante pode resultar em dano intracelular excessivo nos tecidos fotossensíveis. SULFONAMIDAS O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. INIBIDORES DA ECA O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. CIMETIDINA O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. EUCALIPTO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. PROBENECIDA O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. LEVOTIROXINA O uso concomitantede pode resultar em diminuição da eficácia dos agentes antidiabéticos. HIDROCLOROTIAZIDA O uso concomitante pode resultar em diminuição da eficácia da glibenclamida. LANREOTIDA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. VALDECOXIB O uso concomitante pode resultar em aumento das concentrações séricas da glibenclamida e aumento do risco de hipoglicemia ANTIÁCIDOS O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. FLUCONAZOL O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. GLUCOSAMINA O uso concomitante pode resultar em eficácia reduzida do agente antidiabético. ÁCIDO LIPOICO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. 185 glipizida 186 Drogas Interações FLUOROQUINOLONAS O uso concomitante pode resultar em: aumento do risco de hipoglicemia ou hiperglicemia. DISOPIRAMIDA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ACARBOSE O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. DIAZÓXIDO O uso concomitante pode resultar em diminuição da eficácia da glipizida. RANITIDINA O uso concomitante pode resultar em aumento da absorção de glipizida. SULFADIAZINA O uso concomitante pode resultar em maior efeito hipoglicemiante. INIBIDORES DA MAO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. PSYLLIUM O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. GLUCOMANNAN O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. VORICONAZOL O uso concomitante pode resultar em concentrações plasmáticas aumentadas de sulfonilureias. CICLOSPORINA O uso concomitante pode resultar em um aumento do risco de toxicidade da ciclosporina (disfunção renal, colestase, parestesias). HIDROCLOROTIAZIDA O uso concomitante pode resultar em diminuição da eficácia da glipizida. SULFAMETOXAZOL O uso concomitante pode resultar em maior efeito hipoglicemiante. BLOQUEADORES BETAADRENÉRGICOS O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia ou hiperglicemia. CLARITROMICINA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. CIMETIDINA O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. Drogas Interações AGENTES ANTIINFLAMATÓRIOS NÃO ESTEROIDES O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. PORFIMER O uso concomitante pode resultar em dano intracelular excessivo nos tecidos fotossensíveis. VARFARINA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ALCAÇUZ O uso concomitante pode resultar em eficácia reduzida do agente antidiabético. SOMATROPINA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. OCTREOTIDA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. SITAGLIPTINA O uso concomitante pode resultar em um aumento do risco de hipoglicemia. GINSENG O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. EUCALIPTO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. LANREOTIDA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. LEVOTIROXINA O uso concomitante pode resultar em diminuição da eficácia dos agentes antidiabéticos. COLESTIRAMINA O uso concomitante pode resultar em diminuição da eficácia da glipizida. GLUCOSAMINA O uso concomitante pode resultar em eficácia reduzida do agente antidiabético. FLUCONAZOL O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. ÁCIDO LIPOICO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ANTIÁCIDOS O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. 187 gliclazida Drogas Interações ACARBOSE O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. BLOQUEADORES BETAADRENÉRGICOS O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia ou hiperglicemia. AGENTES ANTIINFLAMATÓRIOS NÃO ESTEROIDES O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. FLUOROQUINOLONAS O uso concomitante pode resultar em: aumento do risco de hipoglicemia ou hiperglicemia. CIMETIDINA O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. INIBIDORES DA MAO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. PORFIMER O uso concomitante pode resultar em dano intracelular excessivo nos tecidos fotossensíveis. ERVA DE SÃO JOÃO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. glimepirida 188 Drogas Interações FLUOROQUINOLONAS O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia ou hiperglicemia. DISOPIRAMIDA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. FLUCONAZOL O uso concomitante pode resultar em aumento das concentrações da glimepirida e risco aumentado de hipoglicemia. INIBIDORES DA MAO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia excessiva, depressão do SNC e convulsões. PSYLLIUM O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. Drogas Interações GLUCOMANNAN O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. FENOFIBRATO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. AGENTES ANTIINFLAMATÓRIOS NÃO ESTERÓIDES O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. CLORANFENICOL O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. PROBENECIDA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ALCAÇUZ O uso concomitante pode resultar em eficácia reduzida do agente antidiabético. SOMATROPINA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. OCTREOTIDA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. SITAGLIPTINA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. CLARITROMICINA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ACENOCOUMAROL O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. DICUMAROL O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. GINSENG O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. LEVOTIROXINA O uso concomitante pode resultar em diminuição da eficácia dos agentes antidiabéticos. SULFONAMIDAS O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. FENPROCUMONA O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. MICONAZOL O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. 189 Drogas Interações EUCALIPTO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. FLUOXETINA O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. VARFARINA O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. LANREOTIDA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. FLUVOXAMINA O uso concomitante pode resultar em um aumento nas concentrações plasmáticas de glimepirida. GLUCOSAMINA O uso concomitante pode resultar em eficácia reduzida do agente antidiabético. ÁCIDO LIPOICO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. metFormina 190 Drogas Interações IOBITRIDOL O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. DIATRIZOATO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IOEXOL O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IOPENTOL O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IOFENDILATO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. ÁCIDO IOSÉRICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. ÁCIDO IOBENZÂMICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. ÁCIDO IOGLÍCICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. Drogas Interações ÁCIDO METRIZÓICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. ÁCIDO IOCÁRMICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. ÁCIDO IODOXÂMICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. ÁCIDO IOGLICÂMICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IOSIMIDA O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IOTASUL O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IOTALAMATO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IOXAGLATO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. ÁCIDO IOXITALÂMICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IODIPAMIDA O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. METRIZAMIDA O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. ÁCIDO IOTRÓXICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IOTROLANA O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. LIPIODOL O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. TIROPANOATO SÓDICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IOPAMIDOL O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IODOPIRACETICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. ACIDO IODONIPÚRICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. 191 192 Drogas Interações IODAMIDA O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IODIXANOL O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IOVERSOL O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. ACIDO ACETRIZÓICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. ÁCIDO IOPRÔNICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IOMEPROL O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. ÁCIDO IOCETÂMICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. ÁCIDO IOPANOICO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IPODATO O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. IOPROMIDA O uso concomitante pode resultar em acidose e insuficiência renal aguda. CIMETIDINA O uso concomitante pode resultar em aumento nas concentrações plasmáticas de metformina. FLUOROQUINOLONAS O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia ou hiperglicemia. DOFETILIDA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de cardiotoxicidade (prolongamento do intervalo QT, parada cardíaca). INIBIDORES DA MAO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. PSYLLIUM O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ERVA DE SÃO JOÃO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. GLUCOMANNAN O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. Drogas Interações BLOQUEADORES BETAADRENÉRGICOS O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia ou hiperglicemia. ENALAPRIL O uso concomitante pode resultar em acidose. TOPIRAMATO O uso concomitante pode resultar em aumento na concentração da metformina. CEFALEXINA O uso concomitante pode resultar em aumento nos níveis plasmáticos e aumentar o risco de efeitos colaterais de metformina (náuseas, vômitos, diarreia). AMILORIDA O uso concomitante pode resultar em aumento nas concentrações plasmáticas de metformina. MORFINA O uso concomitante pode resultar em aumento nas concentrações plasmáticas de metformina. TRIANTERENO O uso concomitante pode resultar em aumento nas concentrações plasmáticas de metformina. TRIMETOPRIMA O uso concomitante pode resultar em aumento nas concentrações plasmáticas de metformina. QUININO O uso concomitante pode resultar em aumento nas concentrações plasmáticas de metformina. ALCAÇUZ O uso concomitante pode reduzir a eficácia do agente antidiabético. TROSPIUM O uso concomitante pode resultar em concentrações séricas aumentadas de metformina e / ou trospium. RANITIDINA O uso concomitante pode resultar em aumento das concentrações plasmáticas de metformina. GINSENG O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. FEMPROCUMONA O uso concomitante pode resultar na eliminação aumentada de femprocumona. DIGOXINA O uso concomitante pode resultar em aumento nas concentrações plasmáticas de metformina. QUINIDINA O uso concomitante pode resultar em aumento nas concentrações plasmáticas de metformina. EUCALIPTO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. 193 Drogas Interações GYMNEMA SYLVESTRE O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. PROCAINAMIDA O uso concomitante pode resultar em aumento nas concentrações plasmáticas de metformina. LEVOTIROXINA O uso concomitante pode resultar em diminuição da eficácia dos agentes antidiabéticos. VANCOMICINA O uso concomitante pode resultar em aumento nas concentrações plasmáticas de metformina. NIFEDIPINA O uso concomitante pode resultar em aumento da absorção de metformina. GLUCOSAMINA O uso concomitante pode resultar em eficácia reduzida agente antidiabético. ÁCIDO LIPOICO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. acarbose 194 Drogas Interações FLUOROQUINOLONAS O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia ou hiperglicemia. GLIPIZIDA O uso concomitante pode resultar no aumento do risco de hipoglicemia. CLORPROPAMIDA O uso concomitante pode resultar no aumento do risco de hipoglicemia. GLIBENCLAMIDA O uso concomitante pode resultar no aumento do risco de hipoglicemia. GLICLAZIDA O uso concomitante pode resultar no aumento do risco de hipoglicemia. INIBIDORES DA MAO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. VARFARINA O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hemorragia. Drogas Interações PSYLLIUM O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ERVA DE SÃO JOÃO O uso concomitante pode resultar no aumento do risco de hipoglicemia. DIGOXINA O uso concomitante pode resultar na diminuição da eficácia da digoxina. GLUCOMANNAN O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. BLOQUEADORES BETAADRENÉRGICOS O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia ou hiperglicemia. FENO GREGO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ALCAÇUZ O uso concomitante pode resultar na redução da efetividade da acarbose. GINSENG O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. CARVÃO ATIVADO O uso concomitante pode resultar na diminuição da efetividade da acarbose. LEVOTIROXINA O uso concomitante pode resultar na redução da efetividade da acarbose. AMILASE O uso concomitante pode resultar em redução da eficácia de acarbose. PANCREATINA O uso concomitante pode resultar em redução da eficácia de acarbose. EUCALIPTO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. GYMNEMA SYLVESTRE O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. GLUCOSAMINA O uso concomitante pode resultar na redução da efetividade da acarbose. ÁCIDO LIPÓICO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. 195 repaglinida 196 Drogas Interações GEMFIBROZIL O uso concomitante pode resultar em aumento da concentração plasmática da repaglinida. ITRACONAZOL O uso concomitante pode resultar em aumento da concentração plasmática da repaglinida. TELITROMICINA O uso concomitante pode resultar em aumento da concentração plasmática da repaglinida. CICLOSPORINA O uso concomitante pode resultar em aumento da concentração plasmática da repaglinida. INIBIDORES DA MAO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia. PSYLLIUM O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ERVA DE SÃO JOÃO O uso concomitante pode resultar no risco de hipoglicemia. CETOCONAZOL O uso concomitante pode resultar em aumento da disponibilidade da repaglinida DEFERASIROX O uso concomitante pode resultar em aumento da concentração plasmática da repaglinida. GLUCOMANNAN O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. TRIMETOPRINA O uso concomitante pode resultar em aumento da absorção e concentração plasmática da repaglinida. RIFAMPICINA O uso concomitante pode resultar na diminuição da absorção da Repaglinida. BLOQUEADOR BETAADRENERGICO O uso concomitante pode resultar em hipoglicemia ou hiperglicemia. FENO GREGO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. CLARITROMICINA O uso concomitante pode resultar na diminuição da absorção e da concentração plasmática da repaglinida. ALCAÇUZ O uso concomitante pode resultar na redução da efetividade da repaglinida. Drogas Interações LANREOTIDA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. SOMATROPINA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. GINSENG O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. LEVOTIROXINA O uso concomitante pode resultar na redução da efetividade da repaglinida. ERITROMICINA O uso concomitante pode resultar em aumento da concentração plasmática da repaglinida. ATAZANAVIR O uso concomitante pode resultar em aumento da concentração plasmática da repaglinida. TIPRANAVIR O uso concomitante pode resultar em alteração da concentração plasmática da repaglinida. EUCALIPTO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. GYMNEMA SYLVESTRE O uso concomitante pode resultar em um aumento do risco de hipoglicemia. OCTREOTIDA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia sanguínea. CARBAMAZEPINA O uso concomitante pode resultar em uma diminuição da concentração plasmática da Repaglinida. GLUCOSAMINA O uso concomitante pode resultar na redução da efetividade da Repaglinida. ÁCIDO LIPÓICO O uso concomitante pode resultar em um aumento do risco de hipoglicemia. nateglinida Drogas Interações PSYLLIUM O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ERVA DE SÃO JOÃO O uso concomitante pode resultar no risco de hipoglicemia. 197 Drogas Interações GLUCOMANNAN O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. LANREOTIDE O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. LEVOTIROXINA O uso concomitante pode resultar na redução da efetividade da nateglinida. OCTREOTIDA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. EUCALIPTO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. GYMNEMA SYLVESTRE O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. SOMATROPINA O uso concomitante pode resultar em alterações na glicemia. SULFINPIRAZONA O uso concomitante pode resultar em aumento da biodisponibilidade da nateglinida. ÁCIDO LIPÓICO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. pioglitazona 198 Drogas Interações TOLVAPTAN O uso concomitante pode resultar na diminuição da concentração plasmática do tolvaptan. RIFAMPICINA O uso concomitante pode resultar na diminuição da absorção da pioglitazona. GENFIBROZILA O uso concomitante pode resultar em aumento da concentração da pioglitazona. PSYLLIUM O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ERVA DE SÃO JOÃO O uso concomitante pode resultar no risco de hipoglicemia. ATORVASTATINA O uso concomitante pode resultar na diminuição da concentração sérica da pioglitazona. Drogas Interações CETOCONAZOL O uso concomitante pode resultar na diminuição da concentração sérica da pioglitazona. TOPIRAMATO O uso concomitante pode resultar na diminuição da absorção da pioglitazona. GLUCOMANNAN O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. FENO GREGO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. CONTRACEPTIVOS O uso concomitante pode resultar em perda da eficácia contraceptiva. ALCAÇUZ O uso concomitante pode resultar na redução da efetividade da pioglitazona. GINSENG O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. EUCALIPTO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. GYMNEMA SYLVESTRE O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. ÁCIDO LIPÓICO O uso concomitante pode resultar em aumento do risco de hipoglicemia. MIDAZOLAM O uso concomitante pode resultar na diminuição da concentração plasmática do midazolan. LEVOTIROXINA O uso concomitante pode resultar na redução da efetividade da pioglitazona. TIPRANAVIR O uso concomitante pode resultar na alteração da concentração plasmática da pioglitazona. GLUCOSAMINA O uso concomitante pode resultar na redução da efetividade da pioglitazona. Fonte: MICROMEDEX. Drug interactions [2010]. Disponível em: http:// www.thomsonhc.com/hcs/librarian/ND_T/HCS/ND_PR/Main/CS/2E0A61/ DUPLICATIONSHIELDSYNC/71EFA0/ND_PG/PRIH/ND_B/HCS/ND_P/Main/ PFActionId/hcs.Interactions.FindDrugInteractions. 199 Informações Gráficas Formato: 16 x 23 cm Mancha: 12 x 19,4 cm Tipologia: Adobe garamond Pro - Arial Black - AvantGarde - Symbol Papel: Offset 90 g/m² (miolo) - Cartão Suprema 250 g/m² (capa) Tiragem: 500 Impressão e acabamento: Sermograf Artes Gráficas e Editora ltda