Anais do Encontro Nacional de Recreação e Lazer
Circuito de lazer:
notas etnográficas
sobre as ligas de
futebol de Porto
Alegre
Resumo
O propósito desta comunicação é apresentar algumas “questões sociais” implicadas na existência e funcionamento das ligas de futebol da cidade de
Porto Alegre, especialmente sobre a participação delas na conformação de
um grande circuito de lazer esportivo frequentemente denominado de municipal da várzea. As análises estão baseadas numa pesquisa etnográfica
multilocalizada, realizada entre 2009 e 2011. Concluiu-se que, ao instituíremse enquanto circuito de lazer objetivado na forma de competições, as ligas
engendram intermediações de questões que fazem conviver diferentes dimensões da vida cotidiana urbana.
Palavras-chave: Circuito. Lazer. Futebol.
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Introdução
A formação de ligas como maneira de organização dos jogadores e das práticas futebolísticas não é uma invenção recente na história de Porto Alegre.
Arlei Damo (2002) e Gilmar Mascarenhas (2001) apontaram para este tipo de
organização no início do século XX, vinculadas a noções de “raça”, de “classe social” e “desenvolvimento regional”. Em trabalho mais recente, tratando
da relação do futebol com o processo de industrialização da cidade, entre as
décadas de 1930 e 1950, Miguel Stédile (2011) analisa a formação de ligas
específicas de bairros operários (estes vinculados a fábricas), como opção às
“ligas de elite”, colocando em pauta a discussão sobre o “lazer e o divertimento” das classes operárias.
O fato é que a formação e existência de ligas de futebol no âmbito dessa cidade,
tal como esses estudos indicam, tocam em temas e disputas sociais urbanas
marcantes em cada época, o que nos fez buscar um entendimento das questões histórico-culturais vinculadas a elas num período mais recente, tendo em
vista a seguinte problematização: Que tipos de questões estão implicados na
existência e funcionamento das ligas no “cenário” mais recente da cidade de
Porto Alegre? Como isso se retraduz num circuito de lazer das pessoas e dos
grupos que montam e circulam com seus times?
A produção dessas questões norteadoras, assim como uma possibilidade de resposta enunciada na presente comunicação, resulta de uma pesquisa etnográfica realizada entre 2009 e 2011 na cidade de Porto Alegre e região metropolitana,
orientada para dinâmicas polifônicas e sobrepostas de produção de significados atribuídos à práticas do futebol (montar times, dirigir, jogar, torcer, apitar,
disciplinar, organizar). Em termos metodológicos se tratou de uma etnografia
multilocalizada no sentido empregado por George Marcus (2001), uma vez que
envolveu processos de imersão, simultâneos e/ou intercalados, em espaços distintos (salas de reuniões, campos, praças, parques, vilas, ruas, bares, salões de
festas, residências), não apenas para compará-los, em que pese os significados
das práticas, mas fundamentalmente para entender as suas conexões a partir
do futebol (de seus “agentes”, seus artefatos, suas práticas e suas histórias em
circulação pela cidade).
Nesse sentido, podemos afirmar que esta foi uma “etnografia em imersão-circulação”, cujos resultados refletem permanências (em alguns casos pertencimentos) e itinerários possíveis com/entre pessoas ou grupos, em face de jogos,
reuniões, festas e excursões do futebol. Estas situações etnográficas eram sistematicamente registradas em diários de campo e a retomada destes, juntamente com a realização de entrevistas e análises de documentos, é que nos
possibilitou a construção do presente texto, que não tem a pretensão de traduzir
a cultura dos “outros”. O propósito é apresentar algumas “questões sociais”
implicadas na existência e funcionamento das ligas de futebol da cidade de
Porto Alegre, especialmente sobre a participação delas na conformação de um
grande circuito de lazer esportivo frequentemente denominado de municipal da
várzea,1 coordenado pela Gerência de Futebol da Secretaria Municipal de Esportes, Recreação e Lazer de Porto Alegre (SME).
No decorrer dos 33 meses de pesquisa de campo, o número de ligas que estiveram
vinculadas a este circuito municipal foi diferente: 25 em 2009; 26 em 2010; 22
em 2011. Foram realizadas imersões etnográficas em 04 delas, duas das quais
eram denominadas “ligas de praças” e duas “ligas de vilas”.2 Com base nas observações no âmbito destas ligas, e também naquelas realizadas em diversos
espaços da gestão pública do esporte e do lazer da Prefeitura de Porto Alegre e
em uma série de entrevistas com os responsáveis por estas organizações, apresentamos duas “questões” que perpassaram a constituição do circuito varzeano
de lazer futebolístico. A noção de circuito, aqui, segue na mesma direção do
trabalho de Viviana Zelizer (2005). A autora se manifesta de maneira crítica à incidência direta das lógicas de um “sistema mundial” capitalista nos mercados,
destacando que existe uma série de circuitos de trocas que fazem conviver dimensões econômicas (impessoais) e sentimentais (íntimas). Para Zelizer (2005)
a doutrina dos “mundos hostis” ou de um sistema capitalista se fundamenta no
argumento de que a esfera econômica estaria separada da esfera sentimental.
Em contraponto a essa doutrina, a autora sustenta a existência de “circuitos de
comércio” que tratariam de fazer conviver, paradoxalmente, as dimensões econômicas e impessoais, constituindo suas classificações, seus próprios limites
de inclusão e exclusão a partir de suas lógicas e instituições.
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Classe social e/ou qualidade esportiva de
competições(?)
Quem olha para o futebol da várzea vivido nos campos da cidade de Porto Alegre
logo perceberá que se trata de um “lazer de trabalhadores”, daquelas pessoas que, entre os compromissos laborais, familiares, religiosos e educacionais,
encontram tempo para se divertir. Esta, sem dúvida alguma, é uma dimensão importante na compreensão das ligas. Porém, embora a noção de “lazer
dos trabalhadores” ocupe centralidade, não nos foi possível dizer que as ligas
são formadas e existem, fundamentalmente, para demarcar o pertencimento a
uma “classe social” ou a uma origem étnica. Ao longo da pesquisa, passamos a
compreendê-las menos como agregadoras de determinados tipos de equipes,
pessoas ou grupos, desta ou daquela classe social, e vê-las mais como organizadoras de competições que atraem (ou não) equipes formadas de diversos
modos.
Não significa que as ligas deixem de se apresentar como critério de pertencimento, mas que esses critérios estavam fortemente vinculados ao tipo de competição por ela organizada. Dizer que uma liga era “de elite” não significava
estritamente uma entidade que agregava pessoas de uma classe elitista (com
maior capital econômico e/ou cultural), mas que se tratava de uma “organização” capaz de coordenar uma competição com times de “alto nível” – no sentido
da performance futebolística – e de fazer valer um regulamento, especialmente
no que se refere à organização e à disciplina. Por isso, era fácil observar e seguir
times que circulavam em competições de várias ligas da cidade em busca das
“melhores competições” (que correspondiam às “melhores ligas”).
Entendemos que não estamos deixando de lado o fato de que algumas ligas, especialmente aquelas da periferia da cidade, eram desprivilegiadas de condições
concretas (dinheiro, computadores, impressoras, alambrados, vestiários, cal,
segurança pública) para dar conta de um determinado tipo de organização e
imposição da disciplina em relação a outras e que isto era, objetivamente, resultado de uma diferença de classe. Destacamos que, apesar disso, não era
possível deixar de notar que os times circulavam pelas ligas. Mesmo as equipes
formadas por jogadores residentes em regiões periféricas da cidade, especial-
daquelas condições concretas reconhecidas – eram facilmente vistas nas competições das “ligas de elite”, normalmente localizadas em praças e na região
centro da cidade. Os times que jogavam nas “melhores” ligas eram ou seriam
reconhecidos como “melhores” nas suas regiões.
De outra parte, apenas afirmar que a constituição e a existência das ligas estavam
vinculadas somente à objetivação da qualidade de suas competições também
seria, por demais, arbitrário. A dimensão de classe social era melhor percebida,
por exemplo, quando times formados por pessoas reconhecidas como de uma
“classe de elite” se esforçavam por evitar as competições das ligas que não
eram “de elite” no que tange as suas competições (qualidade do futebol, da
organização e da disciplina). Quer dizer, não se trata de excluir a dimensão das
condições concretas de vida dos envolvidos, mas de não se limitar a isso, especialmente quando se destaca a dimensão da circulação dos times pelas ligas
da cidade. Nesse sentido, nos foi imperioso reconhecer que as lógicas e normas
próprias das competições esportivas (objetivadas nas ligas), em boa medida,
retraduziam as demarcações de classe.
É a partir desse entendimento que nos ficou evidente que as ligas eram suas competições e a forma (esportiva) como eram experimentadas se sobressaía, ou,
pelo menos, retraduzia outras lógicas. Os times que aderiam a esta ou aquela
liga, automaticamente, tornavam-se seus membros, alguns por um curto período, outros de maneira mais duradoura, numa sequência de competições. Para
fazer parte da liga bastava, portanto, estar inscrito numa de suas competições.
Essa noção – de ligas como campeonatos e torneios – não era recente. Souza,3
funcionário da SME, que participou como jogador da várzea no final da década
de 1970, em entrevista, relatou ter disputado campeonatos na liga do bairro
Colombo, na Zona Sul da cidade. E, a forma como ele o fez, corresponde exemplarmente ao que estivemos argumentando:
Você falou que participou como jogador de uma Liga no final da década de 70
[pergunta]. Sim, da liga do campo do [bairro] Colombo. Ela usava aqueles 5
campos ali [na Zona Sul]. Tinha alguns, dois [moradores] se juntavam e faziam
um campeonato aqui na ponta de cá, no campo 1 e no 2, juntos, faziam um
campeonato. Era a “liga do campo” do [bairro] Colombo. [...] o nosso atacante
morava no posto que era bem na esquina ali, então ele ia nas reuniões da liga e
nos inscrevia no campeonato (Entrevistado SOUZA).
mente nas vilas – que podemos relacionar mais tranquilamente com a escassez
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No encadeamento dos discursos deste e de outros interlocutores da pesquisa,
seja nas conversas ou nas entrevistas, esse modo de existência das ligas na cidade tornou-se ainda mais recorrente a partir da segunda metade da década de
1980. Um primeiro fato frequentemente apontado para explicar o crescimento
do número de ligas foi o encerramento do municipal de futebol amador realizado pela Federação Gaúcha de Futebol (FGF), destacando, então, as ligas como
oportunidade de prática do futebol, mas na mesma lógica da FGF, isto é, como
promotora e organizadora de competições. A respeito disso, Borges – presidente de uma liga que vivenciou tal momento como jogador – ressaltou o seguinte:
Antigamente era a Federação Gaúcha de Futebol que fazia o campeonato [municipal]. Não existia liga. Aí as ligas surgiram a partir 87, 88. [...] Então, eles [a
Federação Gaúcha de Futebol] faziam o campeonato. Em 87 terminou. Aí que
surgiram as ligas, que surgiram as ligas. Surgiu a do [liga] parque Formosa
(BORGES, presidente da liga do parque Rondon).
Na ausência da Federação como articuladora emerge a necessidade de instituição de “outro” modelo de circuito futebolístico municipal de lazer, que conferisse continuidade à oferta de competições. As ligas, algumas já existentes na
década de 1980, ganharam destaque no fomento dessa oferta, operando retraduções das diferenças de classes sociais a partir das lógicas do universo das
classificações esportivas, principalmente da qualidade técnica-tática dos times,
da organização das competições e da capacidade de imposição da disciplina.
Política pública participativa de lazer e/ou
empreendimentos particulares(?)
Sem o municipal amador da FGF, com as oportunidades das ligas crescendo, mas
sem uma conjunção delas num único circuito, duas competições foram frequentemente apontadas como alternativas no final da década de 1980: o campeonato “O Povo no Governo” realizado pelo poder executivo municipal, na gestão do prefeito Alceu Colares (1986-88, PDT) e a Copa Paquetá (1989 a 2004),4
esta referida como um campeonato independente.5 Os esforços do poder público, as competições das ligas e estes campeonatos independentes compunham
o cenário de um circuito da várzea no final da década de 1980 e início de 1990,
porém de maneira desconectada. Em 1991, no Governo Municipal do Partido
dos Trabalhadores (PT), através da Supervisão de Esportes e Recreação Pública
(Serp), foi organizado um campeonato municipal, inicialmente com a indicação
de times representantes das regiões do Orçamento Participativo (OP).6
Com a criação do Setor de Campos de Várzea da Serp em 1992, se inicia um
segundo movimento que impactaria na ampliação e no alinhamento das ligas
na cidade de Porto Alegre num circuito mais claramente instituído e instituinte. Optou-se pela realização de um campeonato municipal não com base nas
regiões do OP, mas na organização já existente das ligas e dos campeonatos
independentes, sob a justificativa de que esta demarcação simbólica gozava de
mais sentido prático na vida das pessoas-times do que a delimitações estratégicas de governança baseadas em regiões (do OP). Iniciava-se um esforço de
mapeamento e alinhamento para que as ligas e competições independentes
indicassem times classificados para uma segunda fase. Isto foi efetivado pela
primeira vez em 1993, mas apenas na categoria livre e, a partir de 1994, passou a englobar os veteranos, constituindo os primeiros passos deste circuito
do municipal da várzea. Em entrevista, Souza, um dos dirigentes vinculado à
Prefeitura Municipal, que participou ativamente desse processo, o relatou da
seguinte forma:
A gente não podia desrespeitar uma organização já existente. A gente sabia da
existência das ligas, não sabíamos onde tinha estas ligas e como eram. Então,
a partir da criação do Setor de Campos de Várzea. [...] Nós começamos a ir em
todos os campos públicos de moto. Nós saíamos de tarde, íamos lá, no sábado,
no domingo. Chegávamos naquele campo lá e dizíamos. Esse campo aqui é da
Prefeitura. Mas quem é que cuida do campo? Como é que é? Há, aqui é uma
liga, nós temos uma liga, a gente organiza um campeonato e tal. E aí nós fomos fazendo um mapeamento dessas ligas e chegamos a conclusão que tinha
em todos os campos públicos de Porto Alegre, tinha os que eram dentro das
praças públicas e que mais ou menos gerenciados pelas pela Supervisão de
Esportes na época, mas mesmo assim tinha uma liga, um líder da comunidade,
uma equipe que tinham horários determinados dentro do campo, que era praticamente semiprivativo. [...] Nós fomos cadastrando todos esses campos. Pegamos um mapa da cidade de Porto Alegre, fomos botando uma bandeirinha
ali, campo tal, liga tal, não tem liga, tem liga e tal. Aí aonde tinham as ligas
nós começamos a ir à noite, que dia é a reunião da liga, terça-feira, então nós
pegávamos a moto e íamos na reunião. [...] E onde não tinha liga nós nos propusemos a dizer não, aqui é um campo público, tem que sair um campeonato
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para socializar o espaço. [...] Faz o campeonato, num determinado período do
ano, num campo público, a gente ajuda, ajuda a fazer o regulamento, fornece
tabela, fornece súmula e tal.
Em 94 nós introduzimos esta forma de fazer campeonato. Criamos essa estrutura de respeitar os campeonatos das ligas, basear nosso campeonato numa
parceria com as ligas. No primeiro semestre, numa forma de autogestão e
auto-financiamento, as ligas organizavam seus campeonatos e nos indicavam
os campeões em vista destes campeonatos. E também os jogadores que,
porventura, tivessem sido punidos por agressão, por alguma coisa, para nós
aca­tarmos as punições. E nós fazíamos o campeonato municipal no segundo
semestre, este financiado pela Prefeitura.
Se no início da conformação do circuito os membros do Setor de Campos de Várzea reconheciam em “[...] qualquer agrupamento de 3, 4 ou 5 times uma liga”,
tal como afirmou Souza, chegando ao ponto de ter 43 delas – incluindo, nessa
conta, os campeonatos independentes reconhecidos –, em seguida e aos poucos, passou-se a exigir a “regularização” das ligas que, para terem o “direito” de
indicar os times, deveriam apresentar seus estatutos e diretoria eleita. Nestes
termos, aquelas que almejavam vagas para o municipal foram elaborando seus
estatutos, muitas deles a partir de um modelo – o da liga do parque Formosa foi
várias vezes citado nesse sentido –, contanto, inclusive, com o auxílio de funcionários da Prefeitura7 interessados na consolidação de grupos auto-organizados
e numa participação popular na gestão das práticas de futebol. Em meados dos
anos 2000, esta tarefa de “oficialização” também foi assumida por outra organização denominada de Uniligas (União das Ligas de Futebol Amador de Porto
Alegre), criada em 2004 com a justificativa de defender os interesses comuns
das ligas de futebol da cidade, em especial na relação com o poder público
municipal.
Nas duas ligas “de vilas” em que a imersão ocorreu por mais tempo, a “da vila
Paraná” (“do Miranda”) e “da vila Marechal” (“do Gomes”), foi possível constatar,
seja por observações ou pelos relatos em entrevistas, essa “transformação” dos
“campeonatos independentes” em “ligas” para garantir a participação no circuito municipal. Elaboraram seus estatutos e suas atas de eleição, “oficializando” a
organização, muito embora o funcionamento continuasse focado na realização
de competições, gerenciada por uma pessoa com a ajuda de familiares e outros
poucos colaboradores. Aliás, a ideia de que a liga era de propriedade de uma
pessoa revelava-se um aspecto importante para sua compreensão, até porque
elas eram “naturalmente” tratadas e reconhecidas pelos nomes ou apelidos de
seus dirigentes, diretores ou presidentes e, poderia dizer, sem maiores problemas, de seus “donos” (“liga do Miranda”, “liga do Gomes”, “liga do Dimas”, “liga
do Pagé”). No caso das duas ligas que foram observadas mais de perto (durante
22 meses), os nomes constantes nos documentos (atas de posse e estatuto)
eram, na maioria, figurativos, para dar conta da “oficialização”, tal como confirmou o Gomes da liga da Vila Marechal ao falar desse processo:
Depois a gente criou a liga porque a Secretaria agarrou e nos obrigou a ter
um registro. Mas esse campeonato eu faço vai para o vigésimo ano. Em 2012
vai para o vigésimo campeonato. Esse campeonato inicia assim. Categoria de
base, 16, 17 e 18 anos e 10 times. Era tudo time montado, cada um montava um
time vinha. Aí eu fiz um regulamento, não é. Eu fiz, fazia um regulamento e
apresentava para os treinadores, porque na época não tinha presidente, era o
treinador quem mandava e desmandava, não tinha. [...] E foi indo, foi indo, foi
passando e aí foi encorpando e hoje nós somos uma liga organizada, graças a
SME também, porque também a gente não pode culpar a intervenção deles que
passou por uma organização oficial, tem registro em cartório, tudo direitinho,
quer dizer é um trabalho sério, não é um trabalho qualquer. [...].
Você fez o campeonato e depois foi transformando na Liga? É, a liga vai fazer
[pensando], fez 4 anos [no papel?], vai fazer 4 anos no papel. [...]. Então, eu estava independente, não tinha nada a ver com a Prefeitura e nada. Mas daí desde
que começou a fazer as reuniões das ligas com a Secretaria, eu vi que o troço
era totalmente diferente e aí chegou a um ponto que muitos caras resistiram
não é, chegou a um ponto que nós não tivemos muita saída [...]. Daí o que é que
aconteceu, a Prefeitura bateu o martelo, tem que ser assim, se não, não disputa
campeonato, não tem direito disso, não tem direito àquilo, e aí eu pensei e disse
não, os caras estão certos. [...]
O que eu tenho aqui na vila só o vice-presidente que nunca atuou. Joga comigo,
mas nunca atuou [na liga]. Acho que ele teve em uma ou duas reuniões nesses
quase quatro anos de Liga. E o Paraíba faz parte da diretoria, o Samuel faz parte
da diretoria, a mãe dele faz parte da diretoria e o resto do pessoal é [pensando],
não mora aqui. A gente montou uma diretoria, como se diz, diretoria de [pensando], só para constar no papel. E que eles, nenhum me ajuda, nenhum me ajuda.
A lógica que o Gomes apontou corresponde ao que foi também observado noutras ligas. Essas pessoas e “suas ligas” promoviam “suas competições” numa
dinâmica de negociação entre serem “campeonatos independentes” e serem
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“parceiros da Prefeitura” na gestão dos espaços públicos. Para continuarem realizando os campeonatos e torneios nos campos públicos “necessitavam” incorporar as demandas. De uma maneira ou de outra, acabavam mediando os
usos dos campos em contrapartida da possibilidade de colaborar na oferta de
espaços de lazer para a comunidade local e simultaneamente de lucrar com as
copas, com as taxas de inscrição dos times nos campeonatos ou com outros
lucros simbólicos relativos à liderança comunitária. A noção de que o futebol
servia para o lazer e para fazer renda estava muito clara nos discursos e práticas
dos dirigentes ou “donos” das ligas.
Contando com a disponibilidade de, pelo menos, um campo ou arregimentando
times com campos, cabia às ligas, “seguindo” um regulamento geral do circuito, promoverem, no primeiro semestre de cada ano, os campeonatos que valiam
vagas para o municipal do segundo semestre. Contudo, apesar deste campeonato ser esperado pelas equipes – tinha um valor simbólico maior em vista da vaga
para o municipal –, ele não representava a única competição organizada pelas
ligas. Como empreendedoras elas tratavam de aproveitar os tempos-espaços
disponíveis (a maioria públicos), realizando outros campeonatos e torneios, englobando, inclusive, categorias de jogadores distintas daquelas constantes nos
regulamentos “da SME”, de 40 e 50 anos de idade, considerados, inclusive, mais
lucrativos e ausentes de problemas. A liga do parque Iguaçu, por exemplo, que
tinha como lema “futebol o ano inteiro”, realizava quatro campeonatos durante
o ano. Outras, da mesma forma, procuram compor uma agenda anual de competições, algumas delas de caráter mais rápido, como o Torneio de Integração
promovido pela liga a vila Paraná e o Torneio do Boi realizado pela liga do parque
Matinhos, alguns deles chamados de torneio caça-níquel, dada a clareza quanto
a sua finalidade (fazer renda).
Considerações finais
No decorrer das notas etnográficas e interpretações apresentadas, procuramos
apontar para duas “questões” socioculturais que ofertam sentido e conferem
possibilidades de existência e funcionamento das ligas de futebol da cidade
de Porto Alegre, sobretudo em que pese a participação delas na constituição de um circuito de lazer “em parceria” com órgãos da gestão pública mu-
nicipal. O propósito, vale destacar, não foi apresentar uma “história oficial”
da construção do circuito, mas de pensar como esta categoria (circuito), ao
constituir-se, opera mediações e intermediações de “questões sociais” (classes sociais; classificações esportivas; políticas públicas; empreendimentos
para fazer renda).
Essa noção de circuito de lazer está presente nos trabalhos realizados e orientados por José Guilherme Cantor Magnani (MAGNANI; SOUZA, 2007; MAGNANI;
TORRES, 2008). Porém, em relação a estes trabalhos, o que observamos não
é uma circulação orientada para os espaços e equipamentos na cidade que,
embora não contíguos, são reconhecidos como uma unidade pelos seus habitués. A circulação dos times (grupos, jogadores) pela cidade, a ocupação dos
campos, nos parques, nas praças ou nas vilas, está fortemente baseada na intermediação colocada em operação pelas ligas, sobretudo pela oferta de seus
campeonatos e torneios. Disso deriva nosso entendimento de que as pessoas,
grupos e “seus times” reconhecem o circuito de lazer mais pelas ligas e seus
“dirigentes” do que propriamente pelos campos. Estando e circulando no circuito é fundamental conhecer e reconhecer os “donos” das competições que se
engendram nos espaços e equipamentos de lazer da cidade.
Notas
1 Em termos gerais, este circuito compreende a realização do campeonato municipal de futebol, nas categorias livre e
veterano, em tempos e espaços distintos: a etapa organizada pelas ligas de futebol da cidade – chamado de regionais
–, realizada no período de março a agosto, agregando times da cidade de Porto Alegre e da região metropolitana,
contando com árbitros contratados diretamente ou através de ligas de arbitragem; e a etapa organizada pela
Gerência de Futebol – conhecida como o municipal –, realizada no período de setembro à dezembro, com os times
classificados nos regionais ou indicados, separados em duas divisões (A e B), envolvendo árbitros contratados por
uma liga de arbitragem licitada pela Prefeitura.
2 A construção e a utilização dessas denominações, embora se tenham relação com a “localização geográfica” das
ligas (nas praças ou nas vilas), não podem ser reduzido a isso. Engloba um intricado processo a respeito do qual não
teremos condições de apresentar aqui.
3 A Copa Paquetá, é uma das competições independentes mais lembradas no âmbito da várzea. Os seus times,
jogos e campeões são constantemente lembrados. Ter jogado a Paquetá é, sem dúvida, uma marca para o jogador
da várzea.
4 Uma competição organizada por pessoas físicas, com apoio/patrocínio de uma empresa do ramo de materiais
esportivos, que não estava vinculada a nenhuma liga.
5 O Orçamento Participativo (OP) é um processo pelo qual a população decide, de forma direta, a aplicação dos
recursos em obras e serviços que serão executados pela administração municipal. Foi implantado na gestão em
1989, com 16 regiões, atualmente são 17 (PORTO ALEGRE, 2011).
6 Os nomes das pessoas, assim como as denominações dos times, das vilas, dos parques e das praças (que serão
citados mais adiante), foram substituídos em face de questões de ética de pesquisa.
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7 “Levamos aquele modelo de estatuto eles corrigiam a lápis, tudo, devolviam para nós; nós fazíamos, batíamos e
mandávamos para eles e eles elegiam a direção da liga e nós cadastrávamos aquela Liga”, explicou-me o Souza, em
entrevista.
Referências
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torcedores e clubes. Porto Alegre: UFRGS, 2002.
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