Anais do XX Congresso Brasileiro de Automática Belo Horizonte, MG, 20 a 24 de Setembro de 2014 UMA NOVA TÉCNICA DE CÁLCULO DE VELOCIDADE DO VENTO PARA ANEMÔMETROS ULTRASSÔNICOS BASEADA NA FUSÃO DE DADOS ENTRE MÚLTIPLOS TEMPOS DE TRÂNSITO E CORRELAÇÃO CRUZADA ENTRE ENVOLTÓRIAS DE RECEPÇÃO Lucas de Souza Ribeiro∗, David Pereira Silva Junior∗, Maurı́cio Moreira∗, Alex Lemes Guedes∗, José Alexandre de França∗, Maria Bernadete de Morais França∗ ∗ Instituto de Tecnologa e Desenvolvimento Econômico e Social - ITEDES Av. Pres. Castelo Branco, 655, Londrina, PR, 86061-335, Brasil Emails: [email protected], [email protected], [email protected], [email protected], [email protected], [email protected] Abstract— The wind speed is important for many areas such as aviation, agriculture, construction, wind energy generation and transmission of electricity. Various technologies can be used to measure the wind velocity, with different operating principles and distinct advantages and disadvantages.In this paper, wind speed measurement technologies based on ultrasound were addressed. These technologies do not have moving parts and can have good accuracy and precision, depending on the measurement technique used. Based on techniques presented in other studies, a new technique to measure the wind speed was developed. Is expected an operational range of hundreds of km/h. It consists of a fusion of techniques based on transit time measurement by zero crossing and by envelope detection. It showed good accuracy in the practical tests and has an enhanced energy performance. Experiments on wind tunnel were performed and the data were validated by a commercial anemometer. As a result, the technique showed maximum deviation of 3.25 km/h and RMS error of 1.21 km/h in relation to data obtained by the commercial anemometer for wind speed range from 0 to 37.9 km/h. Phase Diference (PD), ultrassonic transducer, Envelope detection, Zero crossing. Keywords— Resumo— A velocidade do vento é uma variável importante para muitas áreas, como aviação, agricultura, construção civil, geração de energia eólica e transmissão de energia elétrica. Várias tecnologias podem ser utilizadas para medir a velocidade do vento, com princı́pios de funcionamento diferentes que apresentam vantagens e desvantagens distintas. Neste trabalho, foram abordadas tecnologias de medida de velocidade do vento baseadas em ultrassom, que não apresentam partes móveis e pode possuir boa precisão e exatidão, dependendo da técnica de medida utilizada. Baseada em técnicas apresentadas em outros trabalhos, foi desenvolvida uma nova técnica para medir a velocidade do vento. Espera-se uma faixa operacional de centenas de km/h. Ela consiste na fusão de técnicas baseadas em medida de tempo de trânsito por cruzamento por zero e por detecção de envoltória. A técnica apresentou boa exatidão e precisão nos testes práticos, além de possuir um desempenho energético aprimorado. Foram realizados experimentos com túnel de vento, e os dados obtidos foram validados por um anemômetro comercial. Como resultado, a técnica apresentou desvio máximo de 3,25 km/h e erro RMS de 1,21 km/h em relação aos dados obtidos pelo anemômetro comercial para uma faixa de velocidade do vento de 0 a 37,9 km/h. Palavras-chave— zero. 1 Diferença de Fase (DF), Transdutor ultrassônico, Detecção de envoltória, Cruzamento por por uma estrutura que capta o fluxo de ar em movimento (hélices ou conchas) (Kristensen, 1993) . Este é o anemômetro mais simples e popular, entretanto possui aplicação restrita devido a algumas limitações. Por exemplo, ele apresenta uma baixa sensibilidade a rajadas de vento de curta duração, devido à inércia da estrutura móvel. O anemômetro baseado no princı́pio termoelétrico usa a troca de calor para determinar a velocidade do fluido e a versão mais conhecida desse tipo de anemômetro é o a fio quente (Bruun, 1996). Nele, um fio condutor (sensor) é aquecido por uma determinada técnica de excitação e exposto em contato com o ar, onde deseja-se medir a velocidade do vento. A passagem do vento retira calor deste fio e esta diminuição de calor é convertida em uma grandeza elétrica, cuja medida é proporcional à velocidade do vento. Nos métodos de excitação usados para este tipo de anemômetro pode-se manter uma grandeza elétrica constante Introdução O conhecimento da velocidade de ventos é de grande importância para várias aplicações, dentre elas pode-se citar a aviação, a agricultura, a construção civil, a geração de energia eólica e a transmissão de energia elétrica. Nesta última aplicação, o conhecimento da velocidade dos ventos é importante para a especificação e/ou manutenção de torres e cabos de transmissão de energia, visando o menor impacto quanto ao tombamento dessas estruturas. Os equipamentos capazes de medir a velocidade dos ventos são chamados de anemômetros, que podem ser baseados em diferentes princı́pios de funcionamento. Dentre os anemômetros eletrônicos, os princı́pios mais conhecidos são o rotacional, termoelétrico e ultrassônico. O princı́pio rotacional é baseado na velocidade angular de um rotor que pode ser impulsionado 434 Anais do XX Congresso Brasileiro de Automática Belo Horizonte, MG, 20 a 24 de Setembro de 2014 (tensão, corrente ou potência) e a velocidade do vento é calculada em função da temperatura do fio (sensor) (Sarma, 1993). Outra forma é medir a corrente elétrica necessária para manter a temperatura do sensor constante, assim a velocidade do vento é dada como uma função dessa corrente (Freymuth, 1967). Como vantagens desse tipo de anemômetro pode-se citar seu tamanho reduzido, em comparação com o rotacional, e sua sensibilidade para baixas velocidades de vento. Como desvantagens, tem-se sua fragilidade e necessidade de re-calibrações constantes, devido a seus parâmetros serem sensı́veis à partı́culas de poluição depositadas no fio, o que limita seu uso em ambientes externos e abertos. Com o avanço da microeletrônica no mundo, alguns trabalhos estão sendo realizados a fim de desenvolver novas propostas para medição de velocidade e direção do vento baseadas em micro estruturas, conhecidas como MEMS (MicroElectroMechanical Systems). Dentre esses trabalhos, pode-se citar Wu et al. (2011), Liu et al. (2009), Du et al. (2009) e Puczylowski et al. (2011). O anemômetro ultrassônico é baseado no princı́pio de que o tempo que uma onda sonora emitida por um transmissor demora para chegar até um receptor é dependente da velocidade de deslocamento do ar entre o transmissor e o receptor (Villanueva et al., 2009). Ao medir esse tempo, também chamado de tempo de trânsito, é possı́vel calcular a velocidade do deslocamento do ar. Para isso, existem diferentes técnicas de instrumentação e de processamento de dados para determinar o tempo de trânsito, como diferença de fase (DF), threshold-detection (TH) e técnicas baseadas em correlação de sinais (Hauptmann et al., 2001; Andria et al., 1998; Beck, 1981). Em outro trabalho, foi desenvolvida uma técnica baseada na fusão das técnicas DF e TH (Villanueva et al., 2009). A técnica DF apresenta boa exatidão e precisão, porém, possui uma faixa de operação estreita, impossibilitando o seu uso para situações com grandes variações de velocidade do vento (Villanueva et al., 2009). Já a TH apresenta menor precisão que a DF, pois fatores que causam atenuação do sinal sonoro transmitido podem afetar o seu funcionamento, porém possui uma faixa operacional maior. As técnicas baseadas em correlação de sinais apresentam menor exatidão que as técnicas TH e DF, porém não necessitam que o sinal sonoro seja transmitido de forma contı́nua durante a medição da velocidade do vento, o que é necessário nas outras técnicas. Isto proporciona menor consumo de energia. No trabalho de Villanueva et al. (2009), a fusão das técnicas DF e TH resulta em boa exatidão e precisão, mesmo em uma faixa de operação maior do que a permitida para a técnica DF. Porém, uma desvantagem desta técnica é que ela exige a transmissão contı́nua do sinal sonoro durante a medição. A Z X Y B d AB Figura 1: Posicionamento do par de transdutores. Neste trabalho, é proposta uma nova técnica que apresenta boa exatidão, conforme os experimentos realizados, e que não necessita de transmissão contı́nua do sinal ultrassônico durante a medida da velocidade do vento. Isto proporciona melhor eficiência energética em comparação com a técnica proposta por Villanueva et al. (2009). A técnica proposta aproveita algumas caracterı́sticas das técnicas DF e TH, e utiliza um tratamento digital em conjunto com a correlação cruzada de sinais para garantir exatidão e precisão. Os resultados apresentados são preliminares, porém validam a técnica desenvolvida. 2 Fundamentos Nesta seção serão apresentados os equacionamentos e as técnicas utilizadas no desenvolvimento da nova técnica sugerida por este trabalho. As técnicas a seguir são utilizadas para medir a velocidade do vento por meio de transmissão de ondas de ultrassom. O tempo em que a onda transmitida demora para percorrer uma distância fixa pelo ar varia conforme a velocidade do som atmosférico e a velocidade do vento entre o transmissor e o receptor. Foram utilizados transdutores de ultrassom que podem atuar como receptores ou transmissores. A Figura 1 mostra como os transdutores foram posicionados neste trabalho, com uma distância dA B entre eles. Os sinais utilizados nas técnicas descritas a seguir estão demonstrados na Figura 2. O sinal superior é utilizado para acionar os transdutores de ultrassom a uma frequência de 25,3 kHz durante a transmissão. Então, após um tempo Tt , o sinal de ultrassom emitido chega ao outro transdutor, receptor, que transforma a onda sonora em um sinal elétrico, conforme a curva vermelha da Figura 2. Este sinal possui duas formas de informação necessárias para as técnicas utilizadas. Uma delas são os tempos, representados por TABmed , em que ocorrem os cruzamentos por zero volts no sinal de recepção, detectado por um comparador que gera o sinal digital inferior da Figura 2 em azul. Outra forma de informação é a amplitude do sinal de recepção, a envoltória, utilizada na correlação cruzada, explicada na Seção 2.2. 435 Anais do XX Congresso Brasileiro de Automática Belo Horizonte, MG, 20 a 24 de Setembro de 2014 (3) em (2), obtém-se após algumas operações algébricas Tt TAB atr VAB = TAB med 0 0.5 1 Tempo (ms) 1.5 Medição de velocidade do vento pelo cruzamento por zero VAB = − dAB − Vsom , TABmed − TABatr dAB + TBAmed − TBAatr q 2 Vsom − VY2 − VZ2 , (5) onde TBAmed é o tempo entre a emissão e a geração de um dos pulsos de recepção gerados pelo comparador, no sentido de B pra A, e TBAatr é a diferença entre o tempo de trânsito do sinal emitido e o tempo TBAmed . Ao fazer a média dos valores obtidos em (4) e (5), o resultado é Ao medir o tempo entre a emissão e cada borda de subida do sinal de saı́da do comparador, é possı́vel calcular a velocidade do vento, VAB entre o transdutor emissor e o transdutor receptor. Considerando que o sentido do vento seja paralelo ao eixo formado pela distância entre os transdutores A e B: VAB = q 2 Vsom − VY2 − VZ2 . (4) Essa equação é mais genérica que a Equação (1), podendo ser utilizada mesmo quando o sentido do vento não é paralelo ao eixo entre os transdutores A e B. Porém, é necessário conhecer os valores de Vsom , VY e VZ . Em outro caso, quando é realizada a transmissão do sinal de ultrassom no sentido contrário, ou seja, quando B é emissor e A é receptor, obtém-se Figura 2: Sinais de acionamento, recepção e comparação. 2.1 dAB − TABmed − TABatr (1) . (6) Neste caso, conhecendo os valores de TABmed , TABatr , TBAmed e TBAatr , não é necessário conhecer os valores de Vsom , VY e VZ para encontrar o valor de VAB . Por isso, neste trabalho, para descobrir a velocidade do vento paralelo ao eixo formado pelos transdutores A e B, são realizadas duas transmissões em sentidos opostos. A Equação (3) apresenta como é obtido o valor do tempo de trânsito. Esta variável é dependente da velocidade do vento. TABatr é um valor constante, determinado pela escolha do pulso de referência da saı́da do comparador, neste caso, o pulso que ocorre quando a envoltória do sinal de recepção possui valor máximo para quando não há vento, visto na Figura 2. O mesmo é valido para TBAatr , quando é realizada a transmissão e recepção no sentido contrário. Para garantir exatidão e precisão para a medida de TABmed , é estipulado um tempo de referência, Tref , que é o perı́odo entre a transmissão e a ocorrência de um dos pulsos de recepção para velocidade do vento igual zero (Figura 3). Para as medidas seguintes, com velocidade do vento diferente de zero, é escolhido como pulso correto o que possuir o tempo de ocorrência mais próximo de Tref , que é o mesmo pulso escolhido no passo anterior, porém deslocado (em vermelho na Figura 3). Essa técnica tem como desvantagem uma baixa faixa de operação, sendo eficiente somente para baixas velocidades de vento. Isto ocorre pois o pulso de recepção escolhido, em condições ideais, pode deslocar somente meio perı́odo de sua VAB = onde: dAB é a distância entre os transdutores, Figura 1; TABmed é o tempo entre a emissão e a geração de um dos pulsos de recepção gerados pelo comparador, por exemplo, o pulso em que ocorre o máximo da envoltória do sinal de recepção (Figura 2); TABatr é a diferença entre o tempo de trânsito do sinal emitido e o tempo TABmed (Figura 2); Vsom é a velocidade do som. Quando o sentido do vento não é paralelo ao eixo entre os transdutores, podendo ser decomposto em uma soma de dois vetores, vetor paralelo ao eixo e vetor perpendicular ao eixo, a Equação (1) não pode ser utilizada. Para obter uma equação válida, deve-se considerar a equação exposta no trabalho de Schotland (1955), (X − VX · Tt )2 +(Y − VY · Tt )2 + (Z − VZ · Tt )2 = (Vsom Tt )2 , (2) onde: X, Y e Z são as coordenadas da posição do receptor em relação ao emissor em um plano cartesiano tridimensional; VX , VY e VZ são os valores das magnitudes obtidas pela decomposição vetorial da velocidade do vento; Vsom é a velocidade do som; Tt é o tempo de trânsito do sinal emitido, ou seja, Tt = TABmed − TABatr . (3) Considerando que o par de transdutores A e B localizam-se sobre o eixo X de um plano cartesiano tridimensional, com uma distância dAB entre eles, sendo A o emissor e B o receptor, e substituindo 436 dAB 2 1 TABmed −TABatr − 1 TBAmed −TBAatr Anais do XX Congresso Brasileiro de Automática Belo Horizonte, MG, 20 a 24 de Setembro de 2014 Tref sentará valor máximo para n 6= 0, deslocado no mesmo sentido do deslocamento dos sinais. Considerando que as envoltórias dos sinais de recepção para velocidades de vento diferentes sejam idênticas, porém defasadas no tempo devido os diferentes tempos de transito do sinal de recepção, ao realizar a correlação cruzada entre a envoltória do sinal de recepção quando a velocidade do vento é zero e a envoltória do sinal de recepção quando o valor do vento é diferente de zero, pode-se encontrar o deslocamento do sinal de recepção provocado pelo vento, que é proporcional à posição em que ocorre o valor máximo da correlação cruzada entre estas envoltórias, VREF = 0 km/h VA > 0 km/h VB > V A VC < 0 km/h VD < V C Tempo Figura 3: Sinais de saı́da do circuito de comparação para velocidades de vento diferentes. As bolas pretas indicam os pulsos mais próximos de Tref . Os pulsos corretos são vermelhos. Os casos VA e VC representam casos em que não houve erro. Já os casos VB e VD , os pulsos errados foram escolhidos. Nmax = round((Tt − Ttzero ) · famostragem ), (8) onde round() é função de arredondamento, Ttzero é o tempo de transito do sinal de ultrassom entre os transdutores quando a velocidade do vento é zero, Tt é o tempo de trânsito do sinal ultrassônico para uma velocidade do vento diferente de zero e famostragem é a frequência em que o sinal da envoltória foi amostrado. Como Ttzero é um tempo constante, considerando Vsom constante, ao analisar o vetor obtido pela correlação cruzada entre envoltórias e identificar a posição do elemento com maior valor (Nmax ), ao realizar algumas operações algébricas na equação 8, é possı́vel encontrar o valor Tt aproximado, apresentando erro amostral devido a discretização do sinal, frequência, que é igual à frequência de acionamento do emissor, sem que haja detecção errônea (casos VB e VD da Figura 3). Quando o pulso de referência possui um deslocamento temporal superior a meio perı́odo, outro pulso possui um tempo de ocorrência mais próximo do tempo estipulado, e não o pulso correto. Neste caso, TABmed é tempo total entre a transmissão e a ocorrência do pulso errado mais próximo do tempo estipulado. Como TABatr e TBAatr possuem valores fixos, o valor calculado para o tempo de trânsito possui um erro igual ao perı́odo entre os pulsos de recepção, ou seja, para uma transmissão a uma frequência fac , 1 o erro é ± fac . 2.2 Tt ≈ Ttzero + A correlação cruzada discreta é muito utilizada para encontrar padrões em um vetor de números. Ela dá como resultado um vetor com os valores proporcionais à similaridade entre dois sinais, e cada valor deste resultado representa a somatória dos pontos resultantes da multiplicação pontual entre os dois sinais, sendo que um destes sinais possui um deslocamento proporcional à posição do resultado relacionado da correlação cruzada. Em outras palavras, a correlação cruzada é, por definição, +∞ X f ∗ [m] · g[m + n], (9) Dessa forma, como Ttzero e famostragem são valores conhecidos e Nmax é obtido pela análise da correlação cruzada, obtendo Tt pela Equação (9), é possı́vel calcular a velocidade do vento com a Equação 6 e 3. Além do erro amostral, outro erro associado a esta técnica é a deformação da envoltória provocada pelo vento (visı́vel na Figura 6, Seção 4), que pode alterar a resposta da correlação cruzada. Isso diminui a exatidão da velocidade do vento calculada por este método e, por isso, não é utilizada como resposta do sistema. Essa velocidade do vento calculada é utilizada para encontrar a velocidade correta na técnica proposta neste trabalho. Medição de velocidade do vento por correlação cruzada (f ⋆ g)[n] = Nmax . famostragem (7) 3 m=−∞ onde f e g são os sinais analisados e f ∗ é o complexo conjugado de f . Ao realizar a autocorrelação, ou seja, a correlação cruzada de dois sinais iguais, é obtido um vetor com o valor máximo em n = 0, quando f e g estão em fase e possuem máxima similaridade. Porém, se um destes sinais, f ou g, sofrer um deslocamento, a correlação cruzada entre eles apre- Técnica proposta para aumentar a precisão e exatidão da medição de vento Para aumentar a precisão e a exatidão das técnicas citadas anteriormente, para uma faixa de velocidade do vento maior, foi desenvolvida a técnica descrita a seguir. Ela consiste em analisar uma série de pares de pulsos que podem resultar no calculo do valor correto para a velocidade do vento 437 Anais do XX Congresso Brasileiro de Automática Belo Horizonte, MG, 20 a 24 de Setembro de 2014 entre os transdutores A e B, utilizando a técnica da Seção 2.1. Estes pares são filtrados por regras que devem ser satisfeitas. Dos pares remanescentes, é escolhido o par de pulsos cuja velocidade do vento calculada com o uso dele possui o valor mais próximo da velocidade calculada pela técnica apresentada na Seção 2.2. A velocidade do vento calculada com este par de pulsos é o resultado final da técnica proposta. A seguir, são apresentados os detalhes dessas operações. 3.1 Figura 4: Túnel de vento utilizado nos experimentos com os anemômetros. Análise dos pares de pulsos Para medir a velocidade do vento com a exatidão da técnica apresentada na Seção 2.1, porém para uma faixa de velocidade de vento maior, são armazenados os tempos dos cinco pulsos mais próximos a Tref , para transmissão de ultrassom no sentido AB e BA, resultando em dez valores de tempo. Os cinco valores de tempo obtidos na transmissão de A pra B são combinados com os cinco valores obtidos pela transmissão de B pra A, em pares. Então são obtidos 25 pares, referentes à TABmed e TBAmed , utilizados para calcular 25 valores de velocidade de vento. Somente um desses 25 resultados é desejado e apresenta o valor correto da velocidade do vento. Por isso, são utilizadas duas regras para filtrar os 25 pares de tempo obtidos: 2 2 2 VAB + Vperp 6 VMAX ; (10) Vperp ∈ R; (11) 3.2 Os pares de pulsos que atendem as equações 10 e 11 são comparados com o resultado obtido pela correlação cruzada entre a envoltória armazenada no microcontrolador com a envoltória de recepção digitalizada. Desta comparação, a velocidade do vento obtida pelo par de pulsos que possui o valor mais próximo da velocidade calculada a partir da correlação cruzada é escolhida como resposta do sistema. 4 e VMAX é a velocidade do vento máxima que pode ser medida com essa técnica sem haver perda de precisão e exatidão. VMAX está relacionada à quantidade de tempo que o par de pulso correto pode deslocar sem que haja a escolha do par de pulso errado, equivalente à deficiência da técnica citada anteriormente, porém com um faixa de deslocamento maior. VMAX é definida por dAB dAB Vsom − Npulsos ·fac 2 − Vsom , (13) onde Npulsos é o número de pulsos analisados por transmissão, que no caso deste trabalho são cinco, e fac é a frequência de acionamento dos transdutores de ultrassom. Vperp é obtido pela combinação das equações (4), (5) e (12) por meio de operações algébricas que resultam na equação Vperp = ± r 2 − 14 T Vsom dAB ABmed −TABatr −T dAB BAmed −TBAatr 2 Resultados Experimentais Para validar o sistema proposto e a técnica desenvolvida, foram realizados ensaios em laboratório. Para isso, foi utilizado um túnel de vento, desenvolvido para este trabalho, que pode ser visualizado na Figura 4. O controle de velocidade do vento é realizado pela tensão que alimenta o motor do túnel de vento, e a velocidade máxima de operação é 37, 92Km/h. Para validar os resultados obtidos pelo equipamento desenvolvido, foi utilizado um anemômetro comercial da Gill Instruments, modelo Windmaster 3D, que possui exatidão de 1,5% para uma velocidade do vento de 12m/s. O anemômetro desenvolvido foi calibrado para trabalhar com uma distância de 20 cm entre os transdutores. Os dois anemômetros foram inseridos simultaneamente no túnel de vento durante os experimentos. A Figura 5 mostra os sinais provenientes do circuito desenvolvido. Os dados foram obtidos com o auxı́lio de um osciloscópio. O primeiro gráfico, (a), mostra o sinal de acionamento sobre os terminais do transdutor de ultrassom, composto por 10 ciclos de onda quadrada com 20 V pico-apico. Desta forma, o sinal de ultrassom é gerado. O gráfico (b) mostra o sinal de recepção retificado (em vermelho) e o sinal de envoltória (em azul). É possı́vel observar um atraso de fase entre a envoltória e o sinal retificado. Isto ocorre devido às caracterı́sticas do filtro passa-baixas utilizado no detector de envoltória. Além disto, é observada a detecção do sinal transmitido no mesmo momento em que o transdutor emissor é acionado. Isto é provocado por ruı́do eletromagnético e pelo onde Vperp é o módulo da velocidade do vento perpendicular ao eixo AB formado pelos transdutores, também definido por q (12) Vperp = VY2 + VZ2 , VMAX = Comparação entre velocidades de vento . (14) 438 20 Tabela 1: Ensaio no túnel de vento. 0 −20 Output (V) Output (V) Output (V) Anais do XX Congresso Brasileiro de Automática Belo Horizonte, MG, 20 a 24 de Setembro de 2014 0 0.5 1 Tempo (ms) (a) 1.5 0 0.5 1 Tempo (ms) (b) 1.5 0 0.5 1 Tempo (ms) (c) 1.5 Tensão (V) 0 2 4 6 8 10 12 14 2 0 −2 Ret Env 5 0 −5 Comercial (km/h) 0,31 4,61 10,67 16,69 22,25 28,03 33,00 37,90 Projetado (km/h) -0,38 4,31 13,92 16,11 21,95 27,62 32,74 37,92 Desvio (km/h) -0,69 -0,30 3,25 -0,58 -0,30 -0,41 -0,26 0,02 40 35 Figura 5: Sinais do circuito desenvolvido: (a) sinal de acionamento; (b) sinal de recepção retificado e sinal do detector de envoltória; (c) saı́da do comparador. Velocidade (km/h) 30 VAB = 0 km/h 25 20 15 10 Tensão (Unid. Arb.) 0 5 0 0 Anemômetro projetado Anemômetro comercial 1 2 3 4 5 Tempo (minutos) 6 7 8 VAB = 37,2 km/h Figura 7: Primeiro gráfico comparativo entre o anemômetro comercial e anemômetro desenvolvido. 0 0 0.5 1 Tempo (ms) 1.5 comercial e desenvolvido, consistiu em aumentar a velocidade do vento no túnel de vento gradativamente, por meio da tensão de alimentação, e armazenar os dados colhidos pelos dois anemômetros. Os dados obtidos estão expostos na Tabela 1. Como pode-se observar, o anemômetro desenvolvido apresentou uma resposta muito semelhante à resposta do anemômetro comercial, apresentando desvio máximo de 3,25 km/h e erro RMS de 1,21 km/h. Isso mostra a viabilidade da técnica desenvolvida e aprova a topologia do circuito utilizado. Figura 6: Sinais de recepção para velocidades de vento diferentes. deslocamento do sinal sonoro pela armação de alumı́nio que posiciona os dois transdutores, na qual a velocidade do som é muito superior do que no ar. Também, pode-se ver o sinal gerado pelo sinal de ultrassom que viajou pelo ar, que provoca o segundo aumento da amplitude do sinal de recepção, a partir de aproximadamente 0,7 ms. O gráfico (c) mostra o sinal de saı́da do circuito que detecta o cruzamento por zero do sinal de recepção. Foi realizado um teste para demonstrar os efeitos que o sinal de recepção sofre com o vento. Para isso, os transdutores foram posicionados com uma distância de 80 cm entre eles para maximizar os efeitos. Foram realizadas duas transmissões em velocidades de vento diferentes, 0 km/h e 37,2 km/h. A Figura 6 mostra o sinal de recepção para cada caso. É possı́vel perceber o deslocamento da envoltória. Além disto, o formato das duas envoltórias são ligeiramente diferentes, como pode ser visto pela diferença de amplitude entre as caudas das envoltórias dos sinais, o que interfere na resposta da correlação cruzada. O primeiro ensaio utilizando os anemômetros Para comparação gráfica direta entre o anemômetro comercial e o projetado, foram feitos experimentos nos quais variou-se aleatoriamente a tensão aplicada ao motor DC do túnel. A partir dos dados obtidos dos dois anemômetros, obtevese os gráficos das figuras 7 e 8. Os gráficos da Figura 7 mostram uma semelhança satisfatória entre os anemômetros. A curva em azul mostra os dados obtidos com o anemômetro do projeto, amostrada a uma taxa de 0,33 Hz, e a curva em vermelho mostra os dados do anemômetro comercial, amostrado em 0,5 Hz. Devido às diferenças na taxa de amostragem, pôde-se observar uma oscilação capturada pelo anemômetro comercial próximo aos 5 minutos, que não fora capturada pelo anemômetro do projeto, sem que isto 439 Anais do XX Congresso Brasileiro de Automática Belo Horizonte, MG, 20 a 24 de Setembro de 2014 km/h. É importante ressaltar que, apesar do sistema ter sido avaliado quantificando a velocidade do vento em uma direção, ele pode ser empregado para o desenvolvimento de anemômetros 3D. Os resultados são preliminares. É necessário realizar uma avaliação da incerteza de medição. Além disto, deve-se realizar um estudo comparativo entre diferentes técnicas para medição da velocidade do vento. Por fim, testar a técnica em tuneis de vento que produzam velocidades maiores, na ordem de centenas de quilômetros por hora, afirmaria sua validade operacional para medir velocidades elevadas. 40 Velocidade (km/h) 30 20 10 0 Anemômetro projetado Anemômetro comercial −10 0 2 4 6 8 Tempo (minutos) 10 Agradecimentos Figura 8: Segundo gráfico comparativo entre o anemômetro comercial e anemômetro desenvolvido. Os autores agradecem a Eletrosul Centrais Elétricas S.A. pelo financiamento das pesquisas. seja um problema, pois maiores taxas de amostragem também são possı́veis no anemômetro projetado. Para uma análise gráfica mais direcionada às comparações de amplitudes de velocidade, procurou-se fazer um ensaio com trechos temporais mais longos em uma mesma velocidade, como mostra a Figura 8. Por observação dos intervalos temporais nos primeiros 8 minutos dos gráficos da Figura 8, percebe-se uma boa equivalência entre as amplitudes de velocidade entre os anemômetros e também uma resposta rápida, o que demonstra o formato de escada dos gráficos. A partir dos 8 minutos, variou-se mais abruptamente as tensões aplicadas, o que causa uma maior aceleração nas amostras. Em consequência disso, podem ser verificados desvios que tomam maiores amplitudes pela falta de sincronia entre as medidas instantâneas dos dois anemômetros, sem que isso gere perda de confiabilidade. Nos trechos de maior amplitude, fica evidente que o anemômetro projetado detectou uma pequena diferença nas velocidades, ficando um pouco abaixo das medidas do comercial. Tal aspecto também não causa surpresa, visto que o anemômetro comercial também possui desvios tabelados pelo fabricante. 5 Referências Andria, G., Attivissimo, F. and Lanzolla, A. (1998). Digital measuring techniques for high accuracy ultrasonic sensor application, Instrumentation and Measurement Technology Conference, 1998. IMTC/98. Conference Proceedings. IEEE, Vol. 2, pp. 1056– 1061 vol.2. Beck, M. S. (1981). Correlation in instruments: cross correlation flowmeters, Journal of Physics E: Scientific Instruments 14(1): 7. Bruun, H. H. (1996). Hot-wire anemometry: Principles and signal analysis, Measurement Science and Technology 7. Du, L., Zhao, Z., Fang, Z., Xu, J., Geng, D. and Liu, Y. (2009). Micro-wind sensor based on mechanical drag and thermal effects, Sensors and Actuators A 155: 66–72. Freymuth, P. (1967). Feedback control theory for constant?temperature hot?wire anemometers, Review of Scientific Instruments 38: 677–681. Hauptmann, P., Hoppe, N. and Puettmer, A. (2001). 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