ESCOLA DE GUERRA NAVAL CMG VICTOR CARDOSO GOMES A SEGURANÇA COLETIVA NA AMÉRICA DO SUL: UMA UTOPIA?: A adoção de um Sistema de Segurança Coletiva na América do Sul pode ser considerada uma utopia? Possíveis implicações para a Marinha do Brasil. Rio de Janeiro 2009 CMG VICTOR CARDOSO GOMES A SEGURANÇA COLETIVA NA AMÉRICA DO SUL: UMA UTOPIA? : A adoção de um Sistema de Segurança Coletiva na América do Sul pode ser considerada uma utopia? Possíveis implicações para a Marinha do Brasil. Monografia apresentada à Escola de Guerra Naval, como requisito parcial para a conclusão do Curso de Política e Estratégia Marítimas. Orientador: CMG (RM1) Francisco José Matos Rio de Janeiro Escola de Guerra Naval 2009 RESUMO Durante a Guerra Fria, a rivalidade político-ideológica entre os Estados Unidos da América (EUA) e a ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) conduziu as dinâmicas de segurança. Como consequência do desmantelamento da URSS e a redução de poder da Rússia, os EUA, como única superpotência, foram levados a redefinir o seu papel na nova ordem de segurança, o que provocou um debate em nível global sobre a configuração de poder que se sucederia. Sobre este aspecto, salienta-se que esse debate permitiu a discussão sobre o novo papel dos mecanismos regionais de cooperação no sistema internacional e a própria revisão do conceito de segurança. Assim, o trabalho será realizado dentro de um contexto de regionalização da segurança, uma vez que durante os primeiros anos deste século XXI tem sido verificado o desenvolvimento de algumas ações em âmbitol regional, indicando o desejo de alguns países sul-americanos em ampliar a integração regional e, assim, deslocar o foco das discussões sobre segurança para o Continente. Desta forma, logo após ser apresentada uma visão atual da segurança, será realizada uma análise do atual estágio da integração regional, enfocando-se os mecanismos e os aspectos que podem representar possíveis ameaças ao desenvolvimento e aprimoramento da integração sul-americana. Passando para uma análise da Segurança Coletiva na América do Sul, será efetuada uma avaliação do papel desempenhado pelas novas ameaças surgidas no pós-Guerra Fria, bem como de alguns aspectos considerados necessários para o desenvolvimento de um mecanismo desse tipo no Continente. Ao final, serão levantados possíveis empregos e implicações para a Marinha do Brasil frente às novas ameaças e quando desenvolvendo ações que possam contribuir para a integração sul-americana. Palavras-chave: América do Sul. Comunidades de Segurança. Integração regional. Segurança coletiva. ABSTRACT During the Cold War, the politician-ideological rivalry between the United States of America (U.S.A.) and former-Union of the Soviet Socialist Republics (URSS), lead the international dynamic of security. As consequence of the dissociation of the URSS and the reduction of power of the Russia, USA, as only superpower, had been taken to redefine its role in the new order of security, what caused a debate in global level, on the pattern of the power that it would be succeeded. On this aspect, it is pointed out that this debate allowed the discussion about the new role of the regional mechanisms of cooperation in the international system and the revision itself of the security concept. Thus, the present study will be carried through inside the context of security regionalization, once that during the first years of Century XXI, has been verified the development of some actions at regional level, indicating the desire of some South American countries of increasing the regional integration and, so, to change the focus of the quarrels on security for the continent. In this way, soon after a current vision of the security was presented, there will be carried out an analysis of the current stage regional integration, when focusing the mechanisms and the aspects that can represent possible threats for the development and improvement of South American integration. Passing to an analysis of the South America Collective Security, an evaluation of the role played for the new threats appeared in the Cold Postwar period will be effected, as well as some aspects considered necessary for the development this type of mechanism in the continent. Finally possible jobs and implications for of the Brazilian Navy will be raised due to new threats and when developing actions that contribute for the South American integration. Word-key: South America. Security Communities. Regional Integration. Collective Security. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ALALC - Associação Latino-Americana de Livre Comércio ALADI - Associação Latino-Americana de Integração ALBA - Alternativa Bolivariana para as Américas ALCA - Área de Livre Comércio das Américas CAN - Comunidade Andina de Nações CDS - Conselho de Defesa Sul-americano CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina e Caribe CID - Colégio Inter-americano de Defesa CRS - Complexo Regional de Segurança EUA - Estados Unidos da América FARC - Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia IMO - Organização Marítima Internacional JID - Junta Inter-americana de Defesa MB - Marinha do Brasil MERCOSUL - Mercado Comum do Sul MFCS - Medidas de Fomento da Confiança e Segurança NAFTA - Tratado Norte-Americano de Livre Comércio OEA - Organização dos Estados Americanos ONU - Organização das Nações Unidas OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte OTCA - Organização do Tratado de Cooperação Amazônico PC - Plataforma Continental PDN - Política de Defesa Nacional RI - Relações Internacionais TCA - Tratado de Cooperação Amazônico TCRS - Teoria dos Complexos Regionais de Segurança TLC - Tratados de Livre Comércio TIAR - Tratado Interamericano de Assistência Recíproca UNASUL - União de Nações Sul-Americanas URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas ZEE - Zona Econômica Exclusiva SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .........................................................................................................6 2 UMA VISÃO ATUAL DA SEGURANÇA ..............................................................9 2.1 Os conceitos de segurança e de defesa . ......................................................................9 2.2 A regionalização e a redefinição da agenda de segurança no pós-Guerra Fria ..........11 2.2.1 A regionalização da segurança..................................................................................11 2.2.2 A redefinição da agenda de segurança......................................................................12 2.3 A Teoria dos Complexos Regionais de Segurança .....................................................13 3 A INTEGRAÇÃO REGIONAL ..............................................................................19 3.1 Mecanismos de integração sul-americana...................................................................19 3.2 Comunidades de Segurança.........................................................................................21 3.2.1 A Teoria de Karl Deutsch......................................................................................... 22 3.3 Ameaças para a integração sul-americana....................................................................24 3.3.1 Cenário Político ........................................................................................................25 3.3.2 Cenário Econômico ..................................................................................................27 3.3.3 Cenário Militar .........................................................................................................29 4 A SEGURANÇA COLETIVA NA AMÉRICA DO SUL ......................................35 4.1 Conceituação de Segurança Coletiva ..........................................................................35 4.2 Surgimento e crise dos mecanismos institucionais de segurança coletiva .................35 4.3 As ameaças no pós-Guerra Fria e o desenvolvimento de um sistema de segurança coletiva na América do Sul..........................................................................................39 5 EMPREGO E IMPLICAÇÕES PARA A MARINHA DO BRASIL ..................42 5.1 A Marinha do Brasil frente as “novas ameaças” .........................................................42 5.2 Contribuindo para a integração sul-americana ............................................................44 6 CONCLUSÃO............................................................................................................47 REFERÊNCIAS ......................................................................................................50 1. INTRODUÇÃO Durante o período conhecido como Guerra Fria1, a rivalidade político-ideológica entre os Estados Unidos da América (EUA) e a ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) conduziu as dinâmicas de segurança e as relações internacionais. Durante essa bipolaridade, a lógica que imperava era a da divisão conflituosa Leste-Oeste, sendo que quaisquer relações de segurança eram consideradas como parte deste conflito. Segundo Pagliari, verifica-se que durante esse período, o sistema interamericano permaneceu com seus mecanismos coletivos de segurança (Junta Interamericana de Defesa – JID e Tratado Interamericano de Assistência Recíproca - TIAR), inalterados, não se adaptando às novas exigências decorrentes das mudanças que vinham ocorrendo no sistema internacional (PAGLIARI, 2006). Alguns autores apontam como causa desse processo a forte liderança e a influência exercida pelos EUA sobre o Continente sul-americano. O diálogo regional estabelecido com o propósito de revitalizar e fortalecer as instituições realçou o fato de que, ao longo do tempo, os mecanismos foram perdendo força e validade, uma vez que os EUA priorizaram uma agenda bilateral com os países do continente, retirando a importância e a capacidade de ação dos organismos multilaterais (PAGLIARI, 2006). Com o final da Guerra Fria, a sociedade internacional apresentou profundas mudanças, sobretudo em decorrência do novo reordenamento do poder mundial. Segundo Graciela Pagliari, além da redistribuição de poder entre os Estados, o término da bipolaridade provocou questionamentos acerca da utilidade e legitimidade dos arranjos institucionais surgidos nesse período. Contudo, não apenas as instituições multilaterais tiveram sua efetividade questionada, mas também os principais atores do sistema internacional alteraram sua percepção em relação à natureza e à intensidade das ameaças para a segurança dos Estados e indivíduos na nova ordem mundial (PAGLIARI, 2008). Como consequência da dissociação da URSS e a redução de poder da Rússia, os EUA, como única superpotência, foram levados a redefinir o seu papel na nova ordem de segurança, o que provocou um debate em nível global sobre a configuração de poder que se sucederia. 1 Guerra Fria é a designação atribuída ao período histórico de disputas estratégicas e conflitos indiretos entre os Estados Unidos e a União Soviética, compreendendo o período entre o final da Segunda Guerra Mundial (1945) e a extinção da União Soviética (1991). (GUERRA FRIA. IN: WIKIPÉDIA 2009c) 7 Sobre esse aspecto, Monica Herz salienta que o processo que teve início com o final da Guerra Fria permitiu a discussão sobre o novo papel dos mecanismos regionais de cooperação no sistema internacional, o desenvolvimento de novos instrumentos analíticos para a investigação da segurança e a própria revisão do conceito de segurança (HERZ, 2005). Assim, a regionalização da segurança ganha espaço, conforme destacado por Marco Cepik. O autor salienta que quando o otimismo inicial quanto ao novo papel da Organização das Nações Unidas (ONU) no pós-Guerra Fria e quanto à nova ordem internacional se desfez, o tema da regionalização da segurança ganhou proeminência. O declínio da rivalidade entre as superpotências gerou uma redução no interesse dessas potências em diferentes regiões, ou seja, reavaliando a real necessidade de se atuar em determinada região. A maior parte das grandes potências também passou a ter incentivo menor para envolver-se em assuntos de regiões distantes do seu país (CEPIK, 2006). O presente trabalho será desenvolvido dentro de um contexto de regionalização da segurança, uma vez que durante os primeiros anos deste século XXI, tem sido verificado o desenvolvimento de algumas ações em nível regional, indicando o desejo de alguns países sul-americanos de ampliar a integração regional (política, econômica e militar) e, portanto, deslocar o foco das discussões sobre segurança para o Continente. Assim, verificar-se-á inicialmente, se as ações que estão sendo desenvolvidas no âmbito regional podem ampliar o atual nível de integração observado entre os países do Continente, de tal forma que possa permitir a adoção de um sistema de segurança coletiva na América do Sul e, posteriormente, identificar, dentro de um cenário de maior integração, possíveis empregos e implicações para a Marinha do Brasil. Assim, o trabalho será estruturado em seis capítulos, sendo que o primeiro se refere à introdução que ora se realiza. No segundo capítulo será apresentada uma visão atual da segurança, destacandose as diferenças fundamentais entre os conceitos de segurança e defesa que, por vezes, costumam ser empregados de forma conjunta. Veremos que o conceito de segurança possui uma abrangência bem maior do que o de defesa. Na sequência, será analisado o processo de regionalização e a redefinição da agenda de segurança no período pós-Guerra Fria. Finalizando o capítulo, será analisada a Teoria dos Complexos Regionais de Segurança (TCRS), atualizada por Buzan e Waever em seu livro: Regions and Powers: the structure of International Security (2003). O terceiro capítulo tratará de uma análise de um importante aspecto do trabalho, qual seja, a integração regional. Inicialmente faremos uma descrição sucinta dos mecanismos 8 de integração sulamericanos, realçando o papel que cada um representou ou representa para o desenvolvimento da integração. Na sequência, serão apresentados os estudos de Karl Deutsh. Em seu livro: Análise das relações internacionais (1978), o autor destaca a possibilidade de formação de blocos de países fortemente integrados em torno das chamadas Comunidades de Segurança. Finalizando o capítulo, discorremos sobre aspectos que podem representar possíveis ameaças e oportunidades para o desenvolvimento e aprimoramento da integração sul-americana. No quarto capítulo, de posse dos conhecimentos apresentados nos capítulos anteriores, será avaliada a Segurança Coletiva na América do Sul. Inicialmente, com o propósito de focar o estudo, será efetuada uma breve análise de seu conceito e significado. A seguir, será efetuada uma análise do papel desempenhado pelas novas ameaças surgidas no pós-Guerra Fria, bem como dos aspectos considerados necessários para o desenvolvimento de um mecanismo de segurança coletiva no Continente. O quinto capítulo será utilizado para avaliarmos possíveis empregos e implicações para a Marinha do Brasil frente às novas ameaças e quando desenvolvendo ações que possam contribuir para a integração sul-americana. No sexto capítulo será apresentada uma conclusão do trabalho, realçando se o atual processo de integração política e militar observada no Continente permite o desenvolvimento de um sistema de segurança coletiva na América do Sul e as possíveis implicações para a Marinha do Brasil frente às novas ameaças. 2. UMA VISÃO ATUAL DA SEGURANÇA 2.1 Os conceitos de segurança e de defesa Os termos segurança e defesa serão largamente citados e empregados ao longo do desenvolvimento do trabalho. Assim, torna-se importante a realização de uma análise quanto à conceituação e abrangência dos termos. Geralmente, segurança e defesa são usados em conjunção, porém, na verdade, cada um possui o seu significado específico. Para Vidigal, a segurança é um termo abrangente e, quando usado em relação à Nação, significa praticamente tudo, envolvendo aspectos políticos, econômicos, sociais, científico-tecnológicos e militares. Na sua visão, “para que haja segurança em uma sociedade é preciso que o cidadão tenha o sentimento de que seus valores não sejam ameaçados.” (VIDIGAL, 2007, p. 2). Reforçando esse entendimento, Karl Deutsch descreve: [...] segurança significa para a maioria das pessoas segurança de vida e integridade física para si e para os seus; e assim significa paz e a manutenção da paz. Mas segurança também pode significar a da riqueza e da propriedade, mesmo que essa riqueza seja baseada num conflito de interesses pessoais, porém real, entre credor e devedor, proprietário de terras e rendeiro, empregador e empregado – conflito capaz de atingir a intensidade de uma guerra latente em alguns países em desenvolvimento. Ou segurança pode significar segurança de símbolos e instituições, de posições de classe e funções, de imagens e hábitos, de ideologia e cultura, de pretensões a respeito e auto-respeito. (DEUTSCH, 1978, p. 217) A segurança também é definida pela Escola Superior de Guerra (ESG) como sendo um elemento indispensável à busca do bem comum, caracterizado pelo fato de a nação, a comunidade como um todo e cada um de seus integrantes sentirem-se garantidos contra ameaças de qualquer natureza, pelo emprego do poder nacional (COSTA, 2003, p. 77). Outra definição que enfatiza a abrangência da segurança é a adotada pelo Instituto de Pesquisas sobre o Desarmamento da ONU, em 1990, e que consta parcialmente no texto da Política de Defesa Nacional (PDN) brasileira: Segurança é uma condição pela qual os Estados consideram que não existe perigo de uma agressão militar, pressões políticas ou coerção econômica, de maneira que podem dedicar-se livremente a seu próprio desenvolvimento e progresso. A segurança dos indivíduos e das comunidades que compõem os 10 Estados é assegurada pela garantia do exercício da liberdade e dos direitos políticos, sociais e econômicos individuais, bem como pela preservação ou restauração de um meio ambiente saudável para as gerações presentes e futuras [...] (BRASIL, 2005, p.5). Percebe-se um aspecto importante da segurança: ela é um sentimento, uma sensação. Porém, vários são os fatos e/ou transformações surgidas no cenário internacional que obrigam à realização de uma revisão e/ou expansão do entendimento que cerca a palavra segurança. Após essa análise, verifica-se que a segurança não pode ser associada somente ao uso da capacidade militar de um Estado, mas na adoção de medidas em diversos outros campos, que também incorporam dimensões não-militares, para se contraporem a riscos e ameaças. Adquire, portanto, um caráter multidimensional, pois engloba, além do aspecto militar, os aspectos político, econômico, social, tecnológico e ambiental. Passando para a análise do termo defesa, constatamos que este é limitado e, embora podendo aparecer associado com os aspectos afetos à segurança, está relacionado com o emprego do poder militar. Para Vidigal, o conceito de defesa é bem menos abrangente, estando compreendido dentro do conceito de segurança, limitado, porém, à segurança contra ameaças externas e internas. [...] sendo a área onde é mais evidente o papel das Forças Armadas como instrumento do Estado (VIDIGAL, 2007, p. 2). A Escola Superior de Guerra conceitua a defesa como sendo “o conjunto dos atos realizados para obter ou resguardar a condição reconhecida como segurança” (COSTA, 2003, p. 78). Alfredo Michelena ao comentar os conceitos de segurança e defesa, apresenta a seguinte assertiva: Aunque diferentes, parece mas "elegante" hablar de seguridad que de defensa, por lo que el primer término se usa mas. Defensa se refiere al componente militar que da a un país o a um continente la capacidad de evitar u oponerse al uso de una fuerza armada externa. [...] Cuando hablamos de seguridad nos referimos a la situación o estado que permite que un país o grupo de países salvaguarden sus intereses y objetivos de interferencias substanciales externas (MICHELENA, 1995, p. 1).2 2 Ainda que diferentes, parece mais “elegante” falar de segurança que de defesa, uma vez que o primeiro termo é mais usado. Defesa se refere ao componente militar que fornece a um país ou a um continente a capacidade evtar ou opor-se ao uso de uma Força Armada externa. [...] Quando falamos de segurança, nos referimos a situação ou estado que permite que um país ou grupo de países salvaguardem seus interesses e objetivos de interferências substanciais externas. (Tradução nossa) 11 Da nossa Política de Defesa Nacional (PDN) extraímos o seguinte conceito de defesa: Defesa Nacional é o conjunto de medidas e ações do Estado, com ênfase na expressão militar, para a defesa do território, da soberania e dos interesses nacionais contra ameaças preponderantemente externas, potenciais ou manifestas (BRASIL, 2005, p. 1). Assim, a segurança é uma percepção que os cidadãos e instituições sentem em relação ao Estado e a defesa é uma ação que o Estado deve ter previamente organizada para superar as ameaças à sua soberania e aos interesses nacionais. 2.2 A regionalização e a redefinição da agenda de segurança no pós-Guerra Fria Durante o período da Guerra Fria, marcado pela bipolaridade entre os EUA e a URSS, os problemas relacionados à segurança internacional estiveram também associados às questões militares clássicas em função da disputa ideológica reinante. Os conflitos representavam a disputa entre o bloco capitalista liderado pelos EUA e o bloco comunista que tinha à frente a URSS. O fim desse período marcou o início de um debate sobre a redefinição do conceito de segurança em dois aspectos interrelacionados: a regionalização da segurança e a redefinição de sua agenda (LIMA, 2007). 2.2.1 A regionalização da segurança A regionalização da segurança ganhou relevo com o fim da Guerra Fria, na medida em que se elevaram as expectativas quanto à nova ordem mundial e quanto ao novo papel a ser desempenhado pela ONU que, após alguns anos de otimismo, foi gradualmente mostrando a sua incapacidade no cumprimento de suas tarefas; em parte por limitações financeiras, mas, principalmente, por sua fraqueza política, tendo esse Organismo uma reduzida capacidade de ação nos assuntos relacionados à manutenção da paz e da segurança internacionais (BARTOLOMÉ apud LIMA, 2007, p. 12). Para Mônica Herz, um dos processos que teve início como o final da Guerra Fria foi o debate sobre o novo papel dos mecanismos regionais de cooperação na produção de ordem no sistema internacional, na negociação de processos de paz, na criação de operações de paz, na produção de instituições e normas internacionais e que o fenômeno regionalismo é 12 hoje universal, tanto do ponto de vista espacial, atingindo praticamente todos os cantos do planeta, quanto do ponto de vista funcional, estando as organizações regionais envolvidas em assuntos tão diversos quanto comércio internacional, a construção de instituições democráticas ou a resolução de conflitos (HERZ, 2005, p. 1). Somando-se a isso, o declínio da rivalidade verificado entre as superpotências reduziu a “penetração” do interesse dos EUA em diferentes regiões e a maior parte das grandes potências, entre elas, China, Japão, Rússia e União Europeia, passaram a ter incentivo menor para envolver-se em disputas estratégicas em regiões distantes. Do lado da antiga URSS, verifica-se que a dissolução do Pacto de Varsóvia3, em 1991, também possibilitou a criação de novos Estados no Leste Europeu, permitindo que dinâmicas de segurança regional operassem entre esses novos atores independentes, o que gerou novas distinções regionais, dando continuidade a esse processo de regionalização (BUZAN, WAEVER, 2003, p. 3, 1018). 2.2.2 A redefinição da agenda de segurança Ampliando os aspectos já analisados com relação à redefinição da agenda de segurança, verifica-se que os debates pós-Guerra Fria aguçaram as percepções dos especialistas em segurança para a consideração de novas fontes de ameaças. Não resta dúvida que os atentados terroristas de 11 de setembro4, nos EUA, contribuíram de forma fundamental para essa mudança. Sobre esse assunto, Herz considera que: O aparecimento de novos temas, a serem tratados por especialistas em segurança internacional, o estabelecimento de fortes conexões entre economia e segurança, entre política e segurança compõe este cenário. A relação entre conflitos violentos e a disputa por recursos e a percepção de que a origem e respostas às ameaças não estão limitadas à esfera militar, está cada vez mais presente na literatura especializada. (HERZ, 2005, p. 7) Durante a Conferência Especial de Segurança, ocorrida no México em 2003, a Organização dos Estados Americanos (OEA) considerou, também, que além das ameaças 3 4 O Pacto de Varsóvia foi uma aliança militar formada em 14 de maio de 1955 pelos países socialistas do Leste Europeu e pela União Soviética. (PACTO DE VARSÓVIA. IN: WIKIPÉDIA 2009e) Os ataques terroristas de 11 de setembro, chamados também de atentados de 11 de setembro, foram uma série de ataques suicidas, coordenados pela Al-Qaeda contra alvos civis nos Estados Unidos da América em 11 de setembro de 2001. (ATAQUES TERRORISTAS 11 DE SETEMBRO. IN: WIKIPÉDIA, 2009a) 13 clássicas à segurança, apresentavam-se outras, com características mais complexas e nãomilitares. Assim, a segurança passaria a ter uma abordagem multidimensional, passando a incorporar “novas ameaças”, como por exemplo: terrorismo, crime organizado transnacional, tráfico de drogas, imigração ilegal, corrupção, degradação ambiental e pobreza (OEA, 2003b). Sobre o desenvolvimento de novos instrumentos de análise regional para os problemas de segurança presentes no sistema internacional, cabe destacar a importante contribuição formulada por Barry Buzan e Ole Waever em sua Teoria dos Complexos Regionais de Segurança. 2.3 A Teoria dos Complexos Regionais de Segurança Formulada inicialmente por Barry Buzan em 1991, a versão mais atualizada da Teoria dos Complexos Regionais de Segurança foi apresentada por Buzan e Waever no seu livro Regions and Powers: the structure of International Security. Com o propósito de sistematizar o estudo de segurança regional, os autores desenvolveram o conceito de Complexos Regionais de Segurança (CRS). Segundo os autores: “O CRS é um conjunto de unidades cujos principais processos de securitização, dessecuritização ou ambos, são tão interligados que seus problemas de segurança não podem ser analisados ou resolvidos de maneira independente umas das outras.” (BUZAN,WAEVER, 2003, p. 44). Para Buzan, Waever e Wilde, a “securitização” pode ser entendida como: Uma versão mais extrema da “politização”, pois em teoria qualquer assunto público pode ser posicionado no espectro que varia do “não-politizado” (significando que o Estado não lida com ele e de modo algum é tido como um tema de debate público – a esfera privada), passando por “politizado” (significando que o tema é parte de uma política pública requerendo uma decisão governamental – a esfera pública), indo até o “securitizado” (significando que o tema é apresentado como uma ameaça existente, requerendo medidas de emergência, o que justifica ações fora dos limites normais do processo político – a esfera de segurança). (BUZAN- WAEVERWILDE apud LIMA, 2007, p. 15) A ideia central da teoria é que uma vez que a maioria das ameaças se move com maior facilidade quando as distâncias envolvidas são menores, a interdependência de segurança é normalmente padronizada em grupos regionais, isto é, em complexos de segurança (BUZAN, 1991). 14 A teoria destaca a importância da territorialidade − pois os autores consideram a proximidade geográfica uma condição necessária para a delimitação de um complexo de segurança e das agendas regionais a partir das dinâmicas de segurança dos Estados mais poderosos do sistema, ou seja, a adjacência física tende a gerar uma maior interação de segurança entre os vizinhos do que em Estados localizados em diferentes áreas (LIMA, 2007, p. 15). A teoria fornece elementos de análise quanto à viabilidade da aproximação regional, oferece uma moldura conceitual para classificação da segurança das regiões e provê a base para estudos comparativos em segurança regional (BUZAN,WAEVER, 2003). Segundo os autores da teoria, existem atualmente no mundo onze CRS. Com relação ao Hemisfério americano, eles apresentaram dois CRS: América do Norte/América Central e América do Sul. Com relação ao CRS América do Sul, os autores ainda apresentaram uma divisão interna, produzindo dois subcomplexos: Região Andina e Cone Sul. Para Buzan e Waever, a estrutura essencial de um dado CRS seria conformada por três tipos de relações: 1) a distribuição de poder entre os Estados da região (polaridade regional); 2) os padrões de amizade-inimizade entre os atores relevantes ao longo dos setores militar, político, social, econômico e ambiental (polarização); e 3) relações de poder com atores externos à região, especialmente as grandes potências e superpotências (intrusão, overlay, dinâmicas interregionais e pré-complexos de segurança). Além destes tipos de relacionamentos, os autores apresentam, ainda, outros dois elementos cruciais para que possa ser avaliada a estrutura de um CRS: 1) a fronteira de exclusão que nos permite diferenciar um complexo (CRS) de outro, considerando pertencimentos exclusivos de cada país a um ou outro complexo; e 2) anarquia, o que significa que, em princípio, um CRS deve ser composto por duas ou mais unidades autônomas. (BUZAN, WAEVER, 2003). Retornando à estrutura essencial de um CRS, verifica-se que os padrões de amizade e inimizade podem ser classificados em termos de “formações conflituosas”, “regimes de segurança" e “comunidades de segurança”. Nas formações conflituosas, apesar da prevalência de atritos entre os atores, ainda há espaço para que ocorra algum tipo de relação amistosa. Os regimes de segurança permitem a cooperação entre Estados e a administração de disputas; nesse caso o dilema de segurança 15 não deixa de existir, mas pode ser silenciado na medida em que as expectativas mútuas vão sendo modificadas. Entretanto, a possibilidade do uso da força continua presente. Por fim, as comunidades de segurança seriam grupos de Estados integrados dentre os quais uma noção de comunidade foi desenvolvida de forma a proscrever a possibilidade do conflito entre os atores. O CRS da América do Sul foi classificado por Buzan e Waever como sendo um regime de segurança, tendo em vista a baixa incidência de guerras interestatais ao longo do século XX (BUZAN, WAEVER apud CEPIK, 2005, p. 5-6). Com relação aos dois subcomplexos do CRS América do Sul, constatamos que o subcomplexo do Cone Sul apresenta um maior nível de integração, motivado pelo avanço no seu processo democrático e estabilização econômica, obtidos em grande parte, pelo desenvolvimento do MERCOSUL, fazendo com que se aproxime de uma Comunidade de Segurança, enquanto o Grupo Andino permanece mais próximo de uma formação conflituosa, uma vez que é quase inexistente a dinâmica das relações, devido ao fato de ser composto, basicamente, por Estados fracos.5 Já do ponto de vista do padrão de distribuição de poder, os CRS podem ser classificados em dois tipos: padrão e centrados. Nos CRS do tipo padrão, a multipolaridade é definida principalmente pela presença de mais de uma potência regional (caso do Oriente Médio, América do Sul, Sul da Ásia, Chifre da África e África Austral), ou pela presença de mais de uma grande potência (caso do Leste Asiático). Já os CRS do tipo centrados, podem ser de três tipos: unipolares centrados em uma superpotência (América do Norte), unipolares centrados em uma grande potência (pós-URSS) e o último, quando a região tende a tornar-se um ator através de elevados graus de institucionalização (caso da União Europeia) (BUZAN, WAEVER, 2003). Por muito tempo, Brasil e Argentina foram considerados as duas maiores potências no Continente. Com o crescente declínio argentino, fica a seguinte indagação: Seria o Brasil hoje a única potência regional sul-americana? Em uma análise inicial poderíamos ficar tentados a dizer que “sim”. Entretanto, apesar da queda da Argentina, constatamos que o continente está acompanhando o crescimento de uma Venezuela, que capitaneada pelo seu Presidente, Hugo Chávez, busca um 5 Estados fracos, segundo Buzan (1991), são Estados com baixo grau de coesão sociopolítica, com instituições muito instáveis, com uma série de vulnerabilidades e com uma forte tendência a enfatizarem as questões internas. 16 papel de destaque e de liderança na América do Sul e também na América Central, com seu projeto político centrado no chamado “Socialismo do Século XXI”6. Ao longo da primeira década do século XXI, fomos testemunhas do duelo travado entre o Brasil e a Venezuela de se apresentarem como o país que pode exercer um papel de liderança no Continente. Os dois países são os principais atores dos blocos políticos/econômicos MERCOSUL e Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA), respectivamente. Como assinala Malamud: Tanto entre la mayor parte de los gobiernos paricipantes en las diferentes Cumbres realizadas en Costa do Sauípe como em la opinión pública internacional hubo um sentimiento bastante generalizado del papel que Brasil debe jugar, y estaba jugando en la ocasión, como líder regional. (MALAMUD, 2009, p. 3)7 Los países integrantes del ALBA, junto a Ecuador, que está sopesando la posibilidad de integrarse al grupo, tuvieron a lo largo de la Cumbre una actitud más beligeante en línea con postulados de Hugo Chávez. Esta actitud se centró básicamente en dos frentes: [...] y, el segundo, el cuestionamiento del liderazgo brasileno en tanto amenaza a la hegemonía continental al proyecto bolivariano. (MALAMUD, 2009, p. 7)8 Basta recordar as palavras de Hugo Chávez de que si bien Brasil es un líder regional, no es el único. (MALAMUD, 2009, p. 18)9 Continuando a análise da questão, poderíamos utilizar como ferramenta, um outro questionamento, qual seja: quais características um país deve possuir para que possa ser considerado uma potência regional? Susanne Gratius cita que Detlef Nolte10 elaborou a seguinte checklist para definir uma potência regional. A seu ver, elas devem: • Fazer parte de uma região definida; • Aspirar à liderança regional; 6 7 8 9 O Socialismo do Século XXI foi um projeto apresentado pelo Presidente da Venezuela com o propósito de apresentar uma alternativa ao capitalismo. Tem como um dos principais pressupostos o protagonismo popular, através de referendos e plebiscitos. (ARAUJO, 2007) Tanto entre a maior parte dos governos participantes nas diferentes reuniões realizadas na Costa do Sauípe como pela opinião pública internacional houve um sentimento generalizado do papel que o Brasil deve jogar , e estava jogando na ocasião como líder regional. (Tradução nossa) Os países integrantes da ALBA, junto com o Equador, que estava pensando na possibilidade de integrar-se ao grupo, tiveram ao longo da reunião uma atitude mais beligerante alinhada com os postulados de Hugo Chávez. Esta atitude se centrou em duas frentes: [...] na segunda, o questionamento da liderança brasileira que tanto ameaça a hegemonia continental do projeto bolivariano. (Tradução nossa) Basta recordar as palavras de Hugo Chávez de que se o Brasil é um líder regional, não é o único. (Tradução nossa) 17 • Possuir influência política e geoestratégica na construção regional; • Dispor de suficientes recursos materiais, organizacionais e ideológicos para criar um projeto regional; • Possuir notável interdependência política, econômica e cultural regional; • Dispor de destacada influência em assuntos regionais; • Ser reconhecido como líder regional pelos demais países do entorno geográfico; • Ser porta-voz em alguns assuntos regionais em foros internacionais. Apesar de que ao confrontarmos essas características com os atributos de alguns países do Bloco, especialmente, Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Venezuela, constatarmos que o Brasil é o país que reúne as maiores condições de assumir um papel de liderança na região, sendo hoje o grande porta-voz da América do Sul durante foros e reuniões (G-20), ainda não podemos afirmar que o país seja a única potência regional, uma vez que a sua liderança ainda é questionada por alguns países do continente, especialmente, a Venezuela. Vontando a análise dos CRS, verifica-se que a teoria admite a possibilidade de ocorrerem transformações internas passíveis de alterar a estrutura de um CRS ou a manutenção do seu status. Elas ocorrem dentro do contexto das fronteiras do complexo, podendo ser provenientes de alteração na estrutura anárquica provocada por possíveis processos de integração regional, ou de alteração no padrão de amizade e inimizade, em decorrência de mudanças ideológicas (BUZAN, WAEVER, 2003). Assim, constatado que um CRS poderá sofrer alterações, será efetuada no próximo capítulo uma análise do atual nível de integração observado entre os países que compõe o CRS “América do Sul” e, se essa integração poderá proporcionar a junção dos dois subcomplexos regionais (Região Andina e Cone Sul) apresentados pelos autores da Teoria. . 10 (NOLTE apud GRATIUS, 2007) 3 A INTEGRAÇÃO REGIONAL Os países médios que constituem a América do Sul se encontram diante do dilema ou de se unirem e assim formarem um grande bloco de 17 milhões de Km2 e de 400 milhões de habitantes para defender seus interesses inalienáveis de aceleração do desenvolvimento econômico, de preservação de autonomia política e de identidade cultural, ou de serem absorvidos como simples periferias de outros grandes blocos, sem direito à participação efetiva na condução dos destinos econômicos e políticos desses blocos, os quais são definidos pelos países que se encontram em seu centro. (GUIMARÃES, 2007, p. 3) 3.1 Mecanismos de integração Sul-Americana Como o objetivo não é apresentar um resumo histórico, daremos um salto no tempo e iniciaremos a análise desse item no ano de 1960, quando então foi criada a Associação Latino-Americana de Livre Comércio – ALALC, com o propósito de fomentar a integração econômica dos Estados latino-americanos, por intermédio da eliminação de todas as barreiras ao comércio entre os Estados membros até 1980. A associação encontrou obstáculos causados pelas políticas nacionais de substituição de importações e de industrialização e, mais tarde, pelas políticas de controle de importações para enfrentar as súbitas crises do petróleo que acarretaram inéditos déficits comerciais que atingiram os países importadores de energia, em especial o Brasil. Desta forma, em 1980, a estagnação das negociações comerciais levou à substituição da ALALC pela Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), que pouco contribuiu para alcançar a meta declarada de um mercado comum. Buscando a integração, os países andinos celebraram em 1969 o Pacto Andino, mais tarde transformado na Comunidade Andina de Nações11 (CAN), como um projeto mais audacioso de integração e de planejamento do desenvolvimento, prevendo inclusive a alocação espacial de indústrias entre os Estados membros. Unidos pela região amazônica, Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela firmam em 1978, o Tratado de Cooperação Amazônica (TCA)12, e se 11 Também conhecido como Pacto Andino. É um bloco econômico formado em 1969, inicialmente composto por: Bolívia, Colômbia, Chile, Equador e Peru, com o propósito de estabelecer uma união aduaneira. A Venezuela aderiu ao bloco em 1973 e se retirou em 2006. Atualmente são Estados associados: Chile, Argentina, Brasil, Paraguai e o Uruguai e observadores: Méxco e Panamá. (CAN, 2009) 12 Constitui-se em um foro regional para a coordenação de políticas entre os Estados e para a obtenção de recursos para financiamento de projetos de desenvolvimento (OTCA, 2009). 20 comprometem a realizar esforços e ações conjuntas para promover a sua defesa e o desenvolvimento sustentável dessa região (OTCA, 2009). Em 1991, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, firmaram o Tratado de Assunção, criando o MERCOSUL, uma aliança comercial visando a dinamizar a economia regional, movimentando entre si, mercadorias, força de trabalho e capitais. Em 1996, aderiram como membros associados, o Chile e a Bolívia; em 2003, o Peru; e em 2004, a Colômbia e o Equador. Em 2006, a Venezuela aderiu ao bloco e aguarda a ratificação dos Estados do MERCOSUL, para tornar-se membro pleno (BRASIL, 2009). Após a conclusão do NAFTA, em 1994, os Estados Unidos lançaram um projeto de negociação de uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Esse projeto pretendia criar um território econômico único nas Américas, com a livre movimentação de bens, serviços e capital, tornando clara a pretensão dos EUA em formalizar uma integração econômica hemisférica. Esse fato marca de forma clara a interferência e a influência exercida pelos organismos externos ao Continente, o qual se apresentou como um fator limitador da integração econômica dos países sul-americanos, em especial, dos blocos representados pela CAN e pelo MERCOSUL. Os Estados do Continente interpretaram a ALCA como sendo uma nova investida americana com o propósito de exercer o controle hegemônico do comércio nas Américas. Conforme salienta Guimarães: Apesar das declarações diplomáticas feitas na ocasião, e reiteradas posteriormente, de que a ALCA não afetaria os projetos de integração regional como a Comunidade Andina e o MERCOSUL, estava claro que a eventual concretização da ALCA eliminaria de fato a possibilidade de formação de um bloco econômico e político sul-americano. (GUIMARÃES, 2007, p.12) A ALCA, apesar de enfraquecida, ainda pode exercer um papel fragmentador de um possível processo de integração econômica sul-americana. Nesse aspecto, vemos que com o enfraquecimento do projeto da ALCA, os EUA vêm se utilizando dos Tratados de Livre Comércio (TLC), geralmente por intermédio de acordos bilaterais com países da América do Sul, em especial Chile e Colômbia, com o propósito de manter sua influência na região, bem como de enfraquecer os processo de integração MERCOSUL/UNASUL. 21 Em 2000, ocorreu a I Reunião dos Presidentes da América do Sul13, com o foco sobre três temas primordiais: democracia, paz e integração regional. Os Chefes de Estado presentes à Cúpula defenderam a adoção do princípio democrático representativo como condição essencial para a integração e propuseram a criação de uma rede de infra-estrutura física regional, por meio de projetos nas áreas de transportes, energia e telecomunicações, considerada elemento essencial ao processo de integração. Posteriormente, foi lançado em 2004, em Cuzco, o projeto de formação de uma Comunidade Sul-Americana de Nações, hoje denominada UNASUL. Na ocasião, os Estados sul-americanos comprometeram-se a desenvolver um espaço sul-americano integrado no âmbito político, social, econômico, ambiental e de infra-estrutura, que fortalecesse a identidade própria da América do Sul e lhe atribuísse uma maior representação nos foros internacionais. (SANTOS apud LIMA, 2007, p. 24) As negociações para concretizar a UNASUL encontraram três distintas resistências: primeiro, a de países que celebraram acordos de livre comércio com os Estados Unidos; segundo, a de países que dão prioridade ao fortalecimento do Mercosul e que acreditam que o Brasil estaria “trocando” o Mercosul pela UNASUL; terceiro, a de países que consideram ser necessário uma organização mais audaciosa, com base na solidariedade e na cooperação e não naquilo que consideram ser o individualismo “mercantilista” das preferências comerciais, dos projetos de investimento e do livre comércio (GUIMARÃES, 2007, p. 13). 3.2 Comunidades de Segurança Nesta seção abordaremos um ponto importante relacionado com a integração regional que diz respeito às comunidades de segurança, por entender que este modelo poderia ser a meta a ser alcançada pelos dois subcomplexos de segurança na busca de uma integração que permita, quem sabe, o desenvolvimento de um sistema de segurança coletiva na América do Sul. Empregaremos, para tal, a teoria apresentada por Karl Deutsch. 13 A Primeira Reunião dos Presidentes da América do Sul foi realizada em Brasília, nos dias 31 de agosto e 1º de setembro de 2000. O evento contou com a participação dos Chefes de Estado dos doze países da região: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela, bem como dos Presidentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Corporação Andina de Fomento (CAF). (RPAS, 2000) 22 3.2.1 A Teoria de Karl Deutsch Verifica-se que ao contrário de outras escolas de pensamento das Relações Internacionais (RI), o enfoque de Deutsch distingue-se da escola Realista por considerar que os Estados conseguem superar a situação de anarquia através da interação estatal e social e de processos de socialização, que se tornam, cada vez mais, transfronteiriços e de identidades cada vez mais coletivas (FLEMES, 2004). Daniel Flemes ainda apresenta a seguinte assertiva: Ao contrário de outras escolas de pensamento das relações internacionais, o enfoque de Deutsch distingue-se sobretudo por duas características. Em primeiro lugar, considera que os Estados conseguem superar a situação básica de anarquia das relações internacionais através da interação estatal e social, de processos de socialização, que se tornam, cada vez mais, transfronteiriços e de identidades cada vez mais coletivas. Em segundo lugar, o transacionalismo (Deutsch) constitui um quadro teórico e analítico para determinar a influência de instituições internacionais, bem como regionais na mudança pacífica nas relações internacionais. (FLEMES, 2004, p. 1) Conforme Deutsch, uma Comunidade de Segurança pode ser definida segundo os seguintes critérios: […] a security community […] is a group that has become integrated, where integration is defined as the attainment of a sense of community, accompanied by formal or informal institutions or practices, sufficiently strong and widespread to assure peaceful change among members of a group with reasonable certainty over a long period of time. (DEUTSCH apud FLEMES, 2004, p. 6)14 Segundo Deutsch, “as comunidades de segurança estão fortemente relacionadas com o nível de integração observado entre as unidades que a compõem”. Ainda segundo o autor: “o cumprimento das tarefas de integração e o sucesso ou fracasso da integração dependem em parte das condições prevalentes dentro das unidades políticas a serem integradas e entre elas.” (DEUTSCH, 1978, p. 247). Para o autor, as condições de integração podem ser divididas em quatro pontos: 1) relevância mútua entre as unidades; 2) compatibilidade de valores e recompensa em comum efetivas; 14 Uma Comunidade de Segurança é um grupo que se tornou integrado, onde a integração é definida como um sentimento de comunidade, acompanhado por instituições formais ou informais ou práticas, suficientemente forte e comum para garantir mudanças pacíficas entre membros de um grupo sobre um período longo de tempo. (Tradução nossa) 23 3) receptividade mútua; e 4) determinado grau generalizado de identidade conjunta. Dentro da ideia de integração, o autor apresenta dois tipos de comunidades de segurança: amalgamada e pluralística. Segundo Karl Deutsch: Se a meta principal da integração não for apenas a preservação da paz entre as unidades políticas integradas, mas também a aquisição de maior poder para finalidades específicas gerais, ou a aquisição de uma identidade funcional comum, ou alguma combinação de tudo isso, então uma comunidade amalgamada será provavelmente preferida. Porém, se o objetivo principal for a paz, então uma comunidade pluralística poderá bastar, e de fato, será mais fácil de alcançar. (DEUTSCH, 1978, p. 248-249). Como citado por Daniel Flemes, pode-se distinguir entre Comunidades de Segurança Amalgamadas, que são caracterizadas pela fusão política formal dos seus membros, e Comunidades de Segurança Pluralistas, na qual os Estados conservam a sua independência e soberania. (FLEMES, 2004) Partindo dessa citação, este autor entende que o modelo adequado para a América do Sul seria o da Comunidade de Segurança Pluralista, uma vez que tradicionalmente no Continente, os países não aceitam que sua soberania possa ser dividida ou negociada e que possam, também, vir a sofrer alguma ingerência externa em assuntos de natureza interna, condições que certamente poderão ser presenciadas pelos países integrados em uma Comunidade de Segurança Amalgamada. Flemes, ao desenvolver seus estudos sobre uma comunidade de segurança na América do Sul, também entende que o tipo de Comunidade de Segurança cabível será o pluralista, definido da seguinte forma: “[…] a transnational region comprised of sovereign states whose people maintain dependable expectations of peaceful change." (ADLER, BARNETT apud FLEMES, 2004, p. 6)15 Ainda segundo Flemes: “Numa Comunidade de Segurança assim definida, o exército já não terá como função interna a dissuasão dos membros entre eles, mas contribuirá apenas para a proteção dos Estados compreendidos na Comunidade de Segurança perante ameaças externas.” (FLEMES, 2004, p. 6). 15 Uma Comunidade Pluralista é uma região transnacional formada por países soberanos, cujas pessoas mantem expectativas comuns e seguras de mudanças pacíficas. (Tradução nossa). 24 Para ilustrar de que forma o desenvolvimento de uma Comunidade de Segurança afeta as relações entre os Estados participantes, em geral, e as suas políticas de segurança, em particular, Flemes cita que Adler e Barnett desenvolveram um modelo heurístico, no qual classificaram a evolução típico-ideal de uma Comunidade de Segurança em três fases: nascente, ascendente e madura. (ADLER, BARNETT apud FLEMES, 2004) Desta forma, Flemes sempre citando Adler e Barnett apresenta as seguintes Fases: Fase Nascente - Nessa fase, os governos não se esforçam para construir uma Comunidade de Segurança. Aspiram, antes, a coordenar as suas relações para melhorar a sua própria situação de segurança, assim como para promover o comércio e outras interações lucrativas para ambas as partes. Os Estados envolvidos criam organizações e instituições, por um lado, para aprofundar as interações, mas, por outro, para criar instâncias de controle que possibilitem a fiscalização do cumprimento das obrigações mútuas; Fase Ascendente - Esta fase caracterizase por um fortalecimento dos vínculos, pelo surgimento de novas instituições e organizações, assim como pela coordenação e colaboração das Forças Armadas dos Estados que cooperam entre si. Perdem importância as ressalvas mútuas e os respectivos cenários de ameaça. Aumenta a confiança mútua e surgem identidades coletivas; Fase Madura. Nesta fase as populações dos Estados soberanos vivem na expectativa de uma mudança pacífica. Numerosas instituições e organizações fortalecem e reproduzem as relações de intercâmbio dentro da Comunidade de Segurança. De acordo com os valores e identidades coletivos, não entram nas suas considerações possíveis ações de guerra por parte dos Estados parceiros e adaptam neste sentido uma atitude de autolimitação. (FLEMES, 2004) Apresentada a teoria, passaremos a realizar, na seção seguinte, uma análise das ameaças para a integração regional com o propósito de se verificar se o nível de integração existente atualmente poderia nos permitir afirmar que estaríamos caminhando para a constituição de uma comunidade de segurança na América do Sul e, quem sabe, para o estabelecimento de um sistema de segurança coletiva. 3.3 Ameaças para a integração sul-americana O chanceler Celso Amorim costuma repetir que o destino da América do Sul tem de ser o da integração e que ela deve fazê-lo pela via positiva da cooperação política e do comércio, ou será forçosamente integrada pela via perversa do crime organizado e do narcotráfico. (AMORIM apud ALMEIDA, 2006, p. 10) Deutsch afirma que “as comunidades de segurança estão fortemente relacionadas 25 com o nível de integração observado entre as unidades que a compõem”. Ainda segundo o autor: “o cumprimento das tarefas de integração e o sucesso ou fracasso da integração dependem em parte das condições prevalentes dentro das unidades políticas a serem integradas e entre elas.” (DEUTSCH, 1978, p. 247) Vidigal aponta que a PDN salienta a importância da integração sul-americana para a estabilidade do Continente como um todo, conforme texto abaixo: [...] distante dos principais focos mundiais de tensão e livre de armas nucleares, [a América do Sul] é considerada uma região relativamente pacífica. Além disso, o processo de consolidação democrática e de integração regional tende a aumentar a confiabilidade regional e a solução negociada dos conflitos. (PDN apud VIDIGAL, 2007. p. 5) Um dos grandes desafios para o processo de integração dos países da América do Sul é o de superar os obstáculos provenientes das grandes assimetrias existentes nos campos político, econômico e de segurança. Como alerta Guimarães: A redução das assimetrias é um elemento essencial da estratégia brasileira de integração. Em um processo de integração em que as assimetrias entre as partes são significativas tornam-se indispensáveis programas específicos e ambiciosos para promover sua redução. É óbvio que não se trata aqui das assimetrias de território e de população mas sim daquelas assimetrias de natureza econômica e social. (GUIMARÃES, 2007, p. 16) Segundo Maria Isabel Mallmann, “tanto os eventos de natureza econômica e financeira como os de caráter político e estratégico têm repercutido fortemente na região, sobretudo em função da ênfase que tem sido dada à integração sul-americana.” (MALLMANN, 2008, p. 2) 3.3.1 Cenário político Segundo Almeida, “a América Latina e, dentro dela, a América do Sul tem vivido, desde a época bolivariana, sob a mística da integração política”. (ALMEIDA, 2006, p. 1). Atualmente, os países da América do Sul vêm sendo governados, na maioria dos casos, por governos com mesma orientação ideológica, o que em primeira análise, poderia representar uma oportunidade para o desenvolvimento de uma maior integração política do 26 subcontinente. Constatamos que essa situação foi prevista por Buzan e Waever e, já destacada por este autor, na seção 2.3.16 Com exceção da Colômbia e do Peru, os demais países sul-americanos estão sendo governados por forças situadas à esquerda no espectro político. Ironicamente, essa confluência ideológica que poderia representar uma oportunidade política para que os governos da região encontrassem uma via consistente de cooperação que viabilizasse a emancipação social, favoreceu o surgimento de clivagens regionais importantes decorrentes, em grande medida, da regionalização das agendas nacionais. (MALLMANN, 2008) Destacando as diferenças dos modelos de esquerda existentes na América do Sul, Almeida apresenta a seguinte consideração: [...] alguns analistas da própria região – Castañeda, por exemplo, pretendem visualizar dois modelos de desenvolvimento político, ambos focados nas novas forças políticas de esquerda que estão se firmando no continente: de um lado, uma esquerda moderna, reformista, capitalista e democrática, que seria a do Chile, Uruguai, Brasil e, em parte, a Argentina e, de outro, a velha esquerda que insiste nos chavões antiimperialistas, nas mesmas receitas nacionalizantes e estatizantes, que possui nítidos traços autoritários, esta claramente identificada com Chávez e seus pupilos regionais, [...]. (ALMEIDA, 2006. p. 7) Verifica-se que, além do caráter ideológico dos governos, a política desenvolvida por alguns países sul-americanos vem sendo marcada pelo forte caráter neopopulista17 e nacionalista18. Vidigal aponta que: “a cena regional parece dominada pelo que se pode chamar de neopopulismo – um assistencialismo que, sem remover as causas básicas da miséria e do atraso das classes menos favorecidas, atende às suas necessidades mínimas – que gera altos dividendos eleitorais, criando condições para que o partido dominante se perpetue no poder.” (VIDIGAL, 2007, p. 6) Segundo Almeida, 16 Elas ocorrem dentro do contexto das fronteiras do complexo, podendo ser provenientes de alteração na estrutura anárquica provocada por possíveis processos de integração regional, ou de alteração no padrão de amizade e inimizade, em decorrência de mudanças ideológicas. (BUZAN, WAEVER, 2003). 17 Neopopulismo – “o populismo oscilando entre o autoritarismo e o hiper-democratismo, bem como entre o conservadorismo e o progressismo reformista – não poderia ser considerado nem como uma ideologia política, nem como um tipo de regime, mas como um estilo político, alicerçado no recurso sistemático à retórica de apelo ao povo e à posta em marcha de um modelo de legitimação de tipo carismático, o mais adequado para valorizar a mudança.” (PIERRE, ANDRÉ TAGUIEFF apud RODRÍGUEZ, 2007, p. 2) 18 Nacionalismo é um sentimento de valorização marcado pela aproximação e identificação com uma nação, mais precisamente com o ponto de vista ideológico. (NACIONALISMO. IN: WIKIPÉDIA, 2009e) 27 o peronismo, durante os últimos sessenta anos, teve várias encarnações: foi primeiro fascista, depois socialista moderado (mas assistindo a lutas terríveis entre suas facções de esquerda e de direita), veio a ser neoliberal com Menem, e hoje se descobre simplesmente nacionalista e populista, como sempre foi, aliás. [...] Aspecto ainda mais patético da involução que se observa nos costumes e no “mores” político local é o apelo recorrente a soluções do passado para enfrentar os problemas do presente: o velho apelo ao nacionalismo [...] (ALMEIDA, 2006, p. 8). De uma maneira geral, observa-se que os países sul-americanos são muito vulneráveis às políticas de governo praticadas pelos seus mandatários e partidos políticos de sua base de sustentação. Assim, a entrada de um novo presidente no poder do país, com base partidária diferente do seu antecessor, poderá provocar grandes mudanças em projetos em andamento. Para o Professor Francisco Carlos Teixeira da Silva a Política Interna se sobrepõe à Política Externa do país, ou seja, os interesses políticos partidários tornam-se mais importantes do que os interesses nacionais19. Ainda dentro do cenário político, verifica-se um quadro preocupante de conflitos e disputas que afetam diretamente o processo de integração regional. Por exemplo: a controvérsia entre a Colômbia e o Equador, ocasionada pelo ataque colombiano a um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) em solo equatoriano; a discussão entre o Brasil e o Paraguai sobre Itaipu; e a acirrada disputa entre Argentina e Uruguai iniciada por uma fábrica de celulose. Esta última, explica o veto uruguaio à candidatura do ex-presidente argentino Néstor Kirchner para o cargo de segundoSecretário Geral da UNASUL. 3.3.2 Cenário econômico Iniciaremos esta seção apresentando uma breve análise do atual processo de integração econômica realizada por Paulo Almeida: Na América do Sul, os resultados da sub-regionalização foram contraditórios, para dizer o mínimo. O Chile escolheu a via da “multilateralização” do livre-comércio e permanece consistentemente nesse itinerário, mesmo de forma unilateral. Quanto aos demais, houve sucessos e fracassos. O Pacto Andino, que primeiro tinha perseguido um modelo “europeu” de integração, e definido a panóplia completa de “políticas comuns” e instrumentos institucionais para a integração – inclusive um Tribunal –, não conseguiu sequer completar a sua união aduaneira, ficando 19 Texto apresentado pelo Prof. Francisco Carlos durante aula ministrada sobre o tema Estudos Regionais, no Curso de Estratégia e Política Marítimas da Escola de Guerra Naval no dia 22/07/2009. (SILVA F., 2009) 28 bem atrás do Mercosul, que logrou relativo sucesso nos seus primeiros quatro (transição) ou nove anos (depois de formar a união aduaneira) de vida. (ALMEIDA, 2006. p. 9) Após essas considerações, realizaremos uma breve análise do papel que poderá ser desempenhado pela União de Nações Sul-Americanas (UNASUL), organismo recémcriado que dentre os seus objetivos, se destaca o de promover a integração regional. No Tratado Constitutivo da UNASUL está explícito que os avanços alcançados em organismos já existentes que buscam integração (Mercosul e Comunidade Andina) e processos bilaterais de abertura comercial serão incorporados ao novo órgão e comporão a base dos procedimentos de união (MURAKI, 2008). De forma a registrar a grandeza com que foi concebida a UNASUL, Muraki cita que, quando da efetivação da UNASUL, o Presidente do Brasil fez a seguinte declaração: “ser isso a realização de um grande sonho. Mais do que maior integração entre os países da região, estar-se-ia vivenciando uma mudança no ‘tabuleiro do poder mundial’, uma vez que uma América do Sul integrada passaria a ter maior capacidade política no cenário internacional.” (MURAKI, 2008). Porém, o projeto da UNASUL apesar de alguns acertos iniciais de relevância e das suas potencialidades efetivas em alguns planos, não parece terminar de definir com clareza seus objetivos e projeções políticas e econômicas (CAETANO, 2009). Reforçando a incerteza quanto ao futuro da UNASUL, ressalta-se o fato de que todas as decisões deverão ser tomadas de forma consensual, fato este que poderá restringir ou até impedir a tomada de decisão sobre diversos pontos de interesses difusos e polêmicos desse assimétrico bloco regional. Como salienta Muraki: Questões territoriais (entre Bolívia e Chile, Peru e Chile), os impasses acerca da Hidrelétrica de Itaipu (entre Brasil e Paraguai), etc., podem ser os limites de tomada de ações da Unasul, uma vez que o Conselho de Chefes de Estado e de Governo necessitará de consenso absoluto em suas resoluções. Nesse sentido, será bastante trabalhoso atingir unanimidade entre Colômbia, Venezuela, Chile e Bolívia, por exemplo, em ações envolvendo questões de segurança e relacionamento com outros países, e isso deverá tornar-se motivo de inação para o órgão. (MURAKI, 2008. p. 15) Para o Brasil, uma UNASUL efetiva com integração das economias e criação de um livre mercado apresentaria uma possibilidade de expansão para a atuação de algumas de suas grandes empresas (Petrobras, Itaú, Odebrecht, Vale). Além disso, o Brasil, atualmente, 29 mantém superávit comercial com todos os países da região, à exceção da Bolívia, fato que poderia ser ampliado em uma área de livre-comércio continental. No entanto, alguns países, como Bolívia, Equador e Venezuela opõem-se às tentativas de regionalização do comércio nos moldes neoliberais, e isso bloqueia negociações que virtualmente favoreceriam o Brasil. (MURAKI, 2008) Finalizando a análise efetuada quanto aos cenários políticos e econômicos, apresento um texto do colunista Merval Pereira, em que apresenta a visão do então Ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, do processo de integração sul-americano: Os projetos de integração são um “corpo sem espírito”. [...] o bom é que não temos inimigos, mas estamos cercados “de um lado por países muito bem organizados, muito ordenados, admiráveis sob muitos aspectos, mas que não primaram pelas inovações institucionais. Não estou desmerecendo o significado do que o Chile alcançou. Mas ele e outros são países que aceitaram uma estratégia de integração no espaço econômico dos outros, em particular dos EUA, o que não queremos para a América do Sul. De outro lado, temos vizinhos muito rebeldes, mas muito confusos, que ameaçam afundar num pântano de populismo, de autoritarismo, de desorientação”. (UNGER apud PEREIRA, M., 2009)20 3.3.3 Cenário militar Um ponto importante a ser analisado e que se torna indispensável para o desenvolvimento da integração militar é o que se refere ao nível de confiança mútua existente entre os países da América do Sul. Ressaltando essa importância, Mallmann expõe que: [...] a confiança mútua é fundamental uma vez que estão em jogo os ganhos certos das estratégias individuais e as incertezas de uma maior interdependência. Dependendo de como são percebidas as oportunidades e ameaças, podem tanto ser providenciadas soluções, como surgir problemas adicionais. No plano militar, a percepção comum de ameaças externas pode aumentar a interdependência, assim como as desconfianças mútuas podem desencadear uma escalada armamentista. (MALLMANN, 2008, p. 4) Para termos uma ideia de como vêm sendo aplicadas as Medidas de Confiança Mútua pelos países do Continente, lançaremos mão das informações contidas no documento intitulado: “Actualización del Inventario de las Medidas de Fomento de la Confianza y la 20 Merval Pereira. Artigo “Uma nova visão”. Coluna do jornal “O Globo” de 19 de junho de 2009. (PEREIRA M., 2009) 30 Seguridad (MFCS) aplicadas durante el año 2005 por Estados del Hemisferio Americano y en Otras Regiones del Mundo”, apresentadas pela JID à OEA durante o II Forum sobre MFCS21. Levando-se em consideração os dados contidos na TAB. 1, verifica-se que excluindo-se o ano de 2002, poucos países (aproximadamente 33%) apresentaram relatório com as MFCS aplicadas anualmente. Observa-se, também, que somente Argentina, Brasil e Chile, países pertencentes do subcomplexo “Cone Sul”, sempre apresentaram seus informes. TABELA 1 Relação: países X informações MFCS aplicadas (2000 – 20005) (adaptada pelo autor para conter somente os países da América do Sul) PAISES ARGENTINA BRASIL BOLIVIA CHILE COLOMBIA EQUADOR GUIANA PARAGUAI PERU SURINAME URUGUAI VENEZUELA TOTAL DE PAÍSES QUE INFORMARAM AS MFCS APLICADAS 2000 SIM SIM NÃO SIM NÃO NÃO SIM NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO 2001 SIM SIM NÃO SIM NÃO NÃO NÃO NÃO SIM NÃO NÃO NÃO 2002 SIM SIM SIM SIM SIM NÃO NÃO NÃO SIM NÃO SIM SIM 2003 SIM SIM NÃO SIM NÃO NÃO NÃO NÃO SIM NÃO NÃO NÃO 2004 SIM SIM NÃO SIM SIM NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO 2005 SIM SIM NÃO SIM SIM SIM NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO NÃO 4 4 8 4 4 5 Fonte: OEA, (2006, p. 16). Do mesmo documento, podemos ainda retirar alguns dados relevantes relacionados com a forma e o tipo de MFCS aplicadas pelos países. Quanto à forma, conforme informações contidas no GRAF. 1, verifica-se que as MFCS mais empregadas foram as de cunho bilateral, ou seja, envolvendo apenas dois países. 21 (OEA, 2006). Este documento reúne todas as MFCS aplicadas pelos países integrantes da OEA. Em caráter voluntário, os países, anualmente, informam as medidas aplicadas. Essas medidas constam dos três documentos citados abaixo. A JID então consolida as informações recebidas em um único documento. Declaração de Santiago (OEA, 1996); Declaração de San Salvador (OEA, 1998); e Consenso de Miami (OEA, 2003a). 31 1400 1325 1200 1000 800 CANTIDAD 600 400 200 82 72 70 7 0 Bilateral Hemisferica Regional Subregional Mundial FORMA DE APLICACION GRÁFICO 1 – Distribuição da quantidade de medidas aplicadas por forma de aplicação, ano de 2005 Fonte: OEA, (2006, p. 34). Já quanto ao tipo de medida, verifica-se que, de acordo com TAB. 2, o grupo de medidas mais aplicado foi aquele relacionado a visitas protocolares de capacitação e adestramento, intercâmbio de pessoal civil e militar em atividades e exercícios de caráter militar, além de atividades desportivas e acadêmicas. Os grupos de medidas menos aplicados se referem à realização de seminários de capacitação, estudos, cursos de difusão e cooperação entre legisladores relacionados com as MFCS, além de consultas, intercâmbio de informação com referência ao controle, registro e limitação de armas convencionais. Constata-se que os assuntos mais sensíveis, relacionados ao controle, registro e limitação de armas convencionais são os que apresentam menos medidas de confiança aplicadas pelos países do Continente Sul-americano, retratando o atual nível de confiança observado na região. Assim, podemos concluir que com relação aos assuntos mais sensíveis, ainda existe uma reserva por parte dos países em aplicar as medidas de confiança mútua, ou seja, ainda reside um razoável ambiente de desconfiança. 32 TABELA 2 Relação: Tipos de MFCS X Quantidade de MFCS aplicadas (2005) Grupo MFCS A B C D E F G H I J Tipo de MFCS Registros de armas convencionais e gastos militares e intercâmbio de informações sobre orçamentos militares. Elaboração e intercâmbio de informação sobre políticas e doutrinas de defesa (Livros Brancos, composição e organização das Forças Armadas). Visitas protocolares de capacitação e adestramento, intercâmbio de pessoal civil e militar em atividades e exercícios de caráter militar, manobras além de atividades desportivas, acadêmicas Medidas relacionadas com a segurança da navegação e em transporte de dejetos nucleares. Cooperação em temas relacionados ao meio ambiente e a desastres naturais. Implementação de comunicações entre autoridades fronteiriças, bem como reuniões de alto nível entre países fronteiriços para consolidar a confiança mútua. Desenvolver atividades de cooperação e promoção de projetos de integração, em particular em zonas fronteiriças. Realização de seminários de capacitação, estudos, cursos de difusão, cooperação entre legisladores relacionados com as MFCS Preocupações especiais de segurança dos pequenos Estados insulares. Educação com temas vinculados a paz, segurança hemisférica, limitação de armamentos etc. Intercâmbio de informação referente ao controle, registro e limitação de armas convencionais Quantidade MFCS aplicadas 17 82 1200 6 29 103 1 2 31 0 Fonte: OEA, 2006, p. 25-31 Ainda sobre o tema confiança mútua, verifica-se que a crise que está se instalando no continente, envolvendo diretamente a Colômbia e a Venezuela e, indiretamente, alguns de seus vizinhos, poderá afetar a confiança de forma negativa. A notícia que vem sendo divulgada é de que os Estados Unidos estão negociando acordos bilaterais com o governo da Colômbia com o propósito de permitir a operação de militares americanos em bases no território colombiano. A notícia gerou protestos e ameaças, conforme destaca alguns artigos divulgados recentemente em periódicos de grande circulação. O professor José Romero Pereira Júnior ressalta que o fato evidencia a dificuldade para se desenvolver uma integração regional, tendo em vista a presença de três visões distintas de América: A presente controvérsia envolvendo Colômbia, Venezuela e a presença de militares norte-americanos em território colombiano, evidencia, uma vez mais, uma das principais dificuldades em aprofundar a integração regional no continente americano, em especial na América do Sul. De fato, no que toca à integração regional na América, uma das características mais marcantes da primeira década do século XXI é a coexistência de três visões 33 distintas de América: uma visão pró-estadunidense; uma visão bolivariana; e uma visão autonomista. Na América do Sul, Colômbia, Venezuela e Brasil representam, respectivamente, cada uma das três visões. (PEREIRA JUNIOR. 2009) Desta forma, fica evidente que a confiança mútua no Continente ainda é pouco difundida e aplicada pelos países, permanecendo mais no campo da retórica do que da prática. Tal aspecto dificulta a integração militar dos países sul-americanos. Ainda dentro do cenário da integração militar, verifica-se que uma iniciativa do Brasil, inicialmente rejeitada pela Colômbia, mas que ao final foi corroborada por todos os países do Continente, permitiu a criação do Conselho de Defesa Sul-americano (CDS), trazendo consigo a esperança de se caminhar para uma maior integração militar dos países. Quando do seu lançamento, o Ministro da Defesa do Brasil fez questão de realçar que não tratava de uma aliança militar e sim de um foro de consulta que permitisse uma maior aproximação e integração dos países. O artigo 1o da Decisão para o estabelecimento do Conselho de Defesa SulAmericano da UNASUL22, estabelece: “Criar o Conselho de Defesa Sul-Americano como uma instância de consulta, cooperação e coordenação em matéria de Defesa em harmonia com as disposições do Tratado Constitutivo da UNASUL em seus Artigos 3° alínea “s”, 5° e 6°.23” (CDS, 2008, p. 1) Dentre os diversos objetivos específicos destacam-se os de elaboração de políticas de defesa conjunta, de intercâmbio de pessoal entre as Forças Armadas de cada país, de realização de exercícios militares conjuntos, de participação em operações de paz das Nações Unidas, de troca de análises sobre os cenários mundiais de defesa e de integração de bases industriais de material bélico. Tendo em vista o curto tempo de vida, se torna prematura qualquer avaliação quanto ao seu desenvolvimento e atendimento dos objetivos traçados. Finalizando a seção, podemos constatar que, confrontando-se a análise apresentada ao longo desta seção com as condições necessárias para a obtenção da integração de unidades de uma determinada região, apresentadas por Deutsch, já destacadas na subseção 22 23 (CDS, 2008) Artigo 3° alínea “s” prevê o intercâmbio de informação e de experiências em matéria de defesa; O Artigo 5o refere-se ao Desenvolvimento da Institucionalidade. Discorre que poderão ser convocadas e conformadas Reuniões Ministeriais Setoriais, Conselhos de nível Ministerial, Grupos de Trabalho e outras instâncias institucionais que sejam requeridas, de natureza permanente ou temporária, para dar cumprimento aos mandatos e recomendações dos órgãos competentes. O Artigo 6o apresenta as atribuições do Conselho de Chefas e Chefes de Estado e de Governo, onde sedestaca a de convocar Reuniões Ministeriais Setoriais e criar Conselhos de nível Ministerial. 34 3.2.124, apesar de alguns avanços, podemos verificar que a integração dos países sulamericanos ainda se encontra em um nível muito incipiente e com diversas barreiras a serem ultrapassadas. 24 Para Deutsch, as condições de integração podem ser divididas em quatro pontos: 1) relevância mútua entre as unidades; 2) compatibilidade de valores e recompensa em comum efetivas; 3) receptividade mútua; e 4) determinado grau generalizado de identidade conjunta. 4. A SEGURANÇA COLETIVA NA AMÉRICA DO SUL 4.1 Conceituação de Segurança Coletiva Levando-se em consideração que o foco do estudo está centrado no termo “segurança coletiva”, faz-se necessária uma breve análise de seu conceito e significado. Segundo Tschumi: “A segurança coletiva funciona com uma concepção próxima à de uma aliança militar, existindo um comando militar unificado, sob a responsabilidade de uma organização internacional, para a realização das ações coletivas.” (TSCHUMI, 2008, p. 243). Tschumi salienta, ainda, que um sistema de segurança coletiva só pode ser empregado, pressupondo a existência de um ataque armado contra um Estado-membro do sistema e que seja utilizado apenas como uma forma de legítima defesa (TSCHUMI, 2008). Vemos também, que um sistema de segurança coletiva parte do caráter indivisível da própria segurança, uma vez que parte da lógica de que a insegurança de um Estado-membro representa a insegurança de todo o sistema. Segundo Guilherme Silva: O princípio de segurança coletiva baseia-se na noção de que a paz é indivisível e deve ser protegida pela coletividade de Estados-membros participantes de um eventual sistema de defesa. [...] Em termos práticos, esse tipo de sistema de defesa pressupõe o estabelecimento de um conjunto de mecanismos formais para impedir ataques à integridade territorial e à soberania de seus Estados-membros [...] (SILVA, G., 2005, p. 222). Como não existe unanimidade quanto à conceituação de segurança coletiva, utilizaremos para o desenvolvimento do trabalho o entendimento de que em um sistema de segurança coletiva, a paz será protegida por todos os países participantes de um sistema de defesa, que estabelecerá um conjunto de mecanismos formais para se contrapor a possíveis ameaças externas. 4.2 Surgimento e crise dos mecanismos institucionais de segurança coletiva É importante frisar que a presente análise será realizada dentro do contexto temporal limitado entre o término da Primeira Guerra Mundial e os dias atuais. 36 Verifica-se que a necessidade de adoção de um sistema de segurança coletiva ocorreu no final da Primeira Guerra Mundial, uma vez que até então, era utilizado o sistema de equilíbrio de poder, onde prevalecia o sistema de alianças entre os países. Segundo Luciana Siqueira, [...] a necessidade da segurança coletiva na sociedade internacional é acionada com o final da Primeira Guerra Mundial, onde surgiu o interesse pelos países ‘aliados’ de criar um sistema de segurança coletiva que visasse à manutenção da paz e segurança internacionais, porém sem a intervenção nos interesses internos de cada país. (SIQUEIRA, 2007, p. 1) Assim, em 1919, foi criada a Liga das Nações, que tinha como objetivo preservar a paz pela concertação internacional e pelos esforços diplomáticos25 ou a manutenção da paz e segurança internacionais e a tentativa de colocar o direito internacional como um poder central que regeria a ordem internacional (SIQUEIRA, 2007, p. 1), ou ainda, conforme Adriana Monteiro, o de "promover a cooperação, paz e segurança internacional, condenando agressões externas contra a integridade territorial e a independência política de seus membros”. (MONTEIRO, 2009) Apesar de existir, a Liga das Nações não evitou a implosão da Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra, a Liga continuou sua atuação somente como instituição onde os debates eram centralizados. Neste trabalho, não analisaremos as causas do insucesso da Liga. Durante a Segunda Guerra Mundial foi criada a Junta Interamericana de Defesa JID, como órgão encarregado de planejar a defesa do Hemisfério americano contra agressões externas. Como observa Vidigal: [...] em dezembro de 1941, após o ataque japonês a Pearl Harbour, foi possível a aceitação pelos Estados americanos do princípio de ‘segurança coletiva hemisférica’; em 1942, na Conferência do Rio de Janeiro, o conceito de “defesa comum” ganhou corpo, devido às pressões políticas e econômicas dos EUA, sendo, em conseqüência, criada a Junta Interamericana de Defesa (JID), para o planejamento de um sistema comum de defesa. (VIDIGAL, 1996, p. 6) Em 1962, a JID criou o Colégio Interamericano de Defesa - CID, com o propósito de acrescentar um componente de instrução à especialidade de defesa e segurança no sistema interamericano e de preparar pessoal militar e funcionários civis para ocuparem cargos de 25 LIGA DAS NAÇÕES. IN: INFOPÉDIA, 2009. 37 responsabilidade no hemisfério. Ainda dentro do Hemisfério americano, vemos que sob inspiração da Guerra Fria, em 1947 é assinado o TIAR e, em 1948, é criada a OEA, instrumentos que vieram a consolidar a hegemonia dos EUA sobre o Continente americano (VIDIGAL, 1996, p. 6). Segundo Luciana Siqueira, Nesse momento, as alianças da guerra estavam desfeitas e a URSS era considerada uma força agressiva em busca de expansão. O tratado configurase, então, como um pacto de segurança e defesa coletiva, e, ao invés de acordos bilaterais, estabelece um acordo de assistência militar mútua multilateral contra ameaças externas; que recomenda aos Estados o uso de métodos pacíficos de solução de conflitos, condenando o uso da força ou o recurso à guerra. A sua idéia era a da formação de uma frente comum em caso de ataque a qualquer membro, invocando o exercício imanente da legítima defesa individual ou coletiva. (SIQUEIRA, 2007, p. 1) Assim, estavam consolidados os mecanismos de segurança coletiva do sistema interamericano (OEA, JID e TIAR). Segundo esses instrumentos, as controvérsias e conflitos entre os países do Continente deveriam ser resolvidos por meios pacíficos. O fato, contudo, é que o TIAR representou muito mais um instrumento formal de defesa contra o avanço do comunismo do que propriamente um mecanismo que servisse para dissuadir agressões externas. Para alguns países, essa aliança americana perdera sentido após a Guerra das Malvinas26, pois os EUA abstiveram-se de apoiar um país do Continente, o que inviabilizou a invocação do TIAR como mecanismo de ajuda mútua do sistema interamericano. (SIQUEIRA, 2007) Em paralelo, vemos que ao final da Segunda Guerra Mundial, um novo sentimento pela segurança coletiva voltou a surgir no cenário internacional. Os países, levando em consideração o fracasso da Liga das Nações, resolvem criar uma organização internacional que viesse cumprir o papel até então designado à Liga, e que ao mesmo tempo agiria como centro mediador dos conflitos internacionais. Desta forma, em meados de 1945, foi criada a ONU, com o objetivo de “substituir a falida Liga das Nações e agir em nome de seu maior propósito, qual seja, a manutenção da paz e da segurança internacionais”. (SIQUEIRA, 2007, p. 1). O período da Guerra Fria instaurada pela disputa bipolar entre EUA e URSS dificultou a ação da organização, uma vez 26 A Guerra das Malvinas (também conhecida como Guerra do Atlántico Sul ou Guerra das Falklands) foi um conflito armado entre a Argentina e o Reino Unido envolvendo a questão da soberania sobre as Ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, ocorrido entre 2 de abril e 14 de junho de 1982. 38 que os dois países com maior poder de decisão no cenário internacional, geralmente apresentavam posições discordantes e conflituosas. Com o fim da Guerra Fria e a consequente fragmentação da URSS e a afirmação norte-americana de maior potência econômica, política e militar da época, a ONU passa a obter novas possibilidades de atuação. A Primeira Guerra do Golfo27, conflito marcado pela grande presença norteamericana no Iraque e pela forte atuação das forças da ONU, restabelece o consenso entre os cinco grandes membros do Conselho de Segurança, abrindo novas oportunidades de ação da organização internacional em prol da segurança coletiva. Os Estados Unidos, observando o critério da legítima defesa previsto na Carta da ONU, lideram uma coalizão militar a fim de expulsar do Kuwait as tropas iraquianas. (SIQUEIRA, 2007) Porém, recentes conflitos apontam para o fato de que o poder de atuação da ONU tem se mostrado restrito quando estejam envolvidos assuntos que atinjam interesses de um dos cinco grandes membros do Conselho. Em março de 2003, o Iraque foi invadido por tropas norte-americanas sob a denúncia de possuir ou de desenvolver armas de destruição em massa, contrariando as resoluções da ONU impostas após a Guerra do Golfo. Saddam Hussein acabou sendo expulso do poder numa guerra não autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU28. Assim, como cita Siqueira, [...] a Organização das Nações Unidas vem perdendo a cada dia seu papel de atuação no cenário internacional e sua legitimidade perante a sociedade internacional. As decisões levadas ao Conselho de Segurança são cada vez mais priorizadas conforme as necessidades daqueles que mais contribuem para a organização, colocando em cheque a eficácia de seus órgãos e até mesmo a eficácia da própria ONU perante o dilema da segurança coletiva e da paz mundial. (SIQUEIRA, 2007, p. 1) Dentro desse cenário de incerteza desempenhado pelas Nações Unidas e pelas instituições do sistema interamericano, será analisada a possibilidade de criação de um mecanismo de sistema de segurança coletiva restrito à América do Sul. 27 A Primeira Guerra do Golfo foi um conflito militar iniciado em janeiro de 1991 na região do Golfo Pérsico, contra o Iraque, para libertação do Kuwait. Esta guerra envolveu uma coalização de forças de países ocidentais liderados pelos Estados Unidos da América e Grã-Bretanha e países do Oriente Médio, como a Arábia Saudita e o Egito. (PRIMEIRA GUERRA DO GOLFO. IN: WIKIPÉDIA 2009g) 28 O Conselho de Segurança das Nações Unidas é um órgão das Nações Unidas com responsabilidades sobre a segurança mundial. O órgão tem o poder de autorizar uma intervenção militar em algum país. Todos os conflitos e crises políticas do mundo são tratados pelo conselho, para que haja intervenções militares ou missões de paz.. (CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU. IN: WIKIPÉDIA 2009b) 39 4.3 As ameaças no pós-Guerra Fria e o desenvolvimento de um sistema de segurança coletiva na América do Sul Vimos que além dos conflitos internos existentes na região, os países da América do Sul, sob forte influência dos EUA, assumiram como uma ameaça a ser combatida, a da possibilidade de difusão e instalação do regime comunista, que na época da Guerra Fria, era materializada pela URSS. Com o fim da Guerra-Fria, a noção de ameaça à segurança dos países se tornou mais difusa, as ameaças militares externas perderam força, abrindo espaço para novos fenômenos que foram denominados de “novas ameaças”. Cabe ressaltar, que esse fato vem sendo apontado por alguns autores como um dos obstáculos para o desenvolvimento de um mecanismo de segurança coletiva no continente, uma vez que para eles, uma das condições necessárias para o estabelecimento de um sistema desse tipo é a existência de uma ameaça externa comum. Vidigal argumenta que: O estabelecimento de um tratado comum de defesa não parece realístico; é algo que só funciona quando a ameaça é clara e iminente, o que não é o caso. A OTAN pôde funcionar na Europa porque, à época de sua criação, a ameaça da URSS era identificada com clareza; o TIAR sempre foi mais uma imposição da potência hegemônica e nunca teve credibilidade ou eficácia. (VIDIGAL, 2007, p. 11) Concordando com Vidigal, apresento opinião de Flores sobre a possibilidade de criação de um mecanismo desse tipo na América do Sul: Essa idéia é questionável: não havendo ameaça comum, efetiva e verossímil que justifique o destaque e a responsabilidade do(s) país(es) mais significativo(s), como foi o caso dos EUA na OTAN, um acordo de segurança e defesa coletiva envolvendo os Estados heterogêneos do MERCOSUL ou da Comunidade Sul-Americana de Nações, em paralelo ou substituindo o anacrônico TIAR, acabaria sendo mais produtor de constrangimentos e fricções do que soluções para problemas inexistentes. (FLORES, 2006, p. 18) Mario Flores ao continuar seu raciocínio destaca que: “sem a definição convincente do para o quê, como e contra qual ameaça, um esquema regional dessa natureza, naturalmente assimétrico por força da assimetria das circunstâncias geopolíticas, geoestratégicas, [...] acabaria gerando problemas políticos da união”. (FLORES, 2006, p. 18) 40 Na mesma linha de raciocínio, Michelena salienta: La incapacidad de romper con los viejos esquemas está generando la búsqueda del nuevo enemigo que reemplace al anterior. Se necesita un nuevo enemigo contra el cual balancear las fuerzas, para el cual hacer planes, al cual intimidar con el poder, del cual esperar todo lo malo y por el cual prepararse para la guerra. Quién o qué es el enemigo?, dónde está?, cómo es?, son varias de las preguntas que se han intentado responder en lo que va de la década de los años noventa. (MICHELENA, 1995, p. 2)29 Nesse cenário pautado pela inexistência de um inimigo externo comum e pela presença das “novas ameaças”, constatamos que os EUA, reforçado pelos eventos ocorridos em 11 de setembro, assumiram as ameaças representadas pelo terrorismo e o narcotráfico, como os mais importantes de sua pauta de segurança e, desde então, vêm tentando influenciar os países do continente a se engajarem no combate a essas ameaças. Entretanto, constata-se que na América do Sul, apesar da influência e ingerência americana, os países não são unânimes em definir a sua principal ameaça, ou seja, não há uma ameaça comum que possa unir as agendas de segurança do continente. Unanimidade que não fica restrita somente ao tipo de ameaça, mas também na forma de combatê-la. Aqui reside um outro ponto que distancia os países do continente. Alguns países, como é o caso daqueles pertencentes ao Grupo Andino, entendem que as ditas novas ameaças, em especial o narcotráfico, devam ser combatidas pelas Forças Armadas, enquanto outros, como é o caso dos países do Cone Sul, entendem que devam ser combatidas por Forças Policiais. Assim, constata-se que os dois subcomplexos de segurança (Grupo Andino e Cone Sul) apresentam distinções que podem apontar para um crescente distanciamento entre a natureza das respostas de segurança. Entre os elementos que podem marcar esse processo de distanciamento está o modo de como cada bloco reage às ameaças identificadas. Conforme destaca Hirst: “ao norte, é possível que tenhamos a ‘militarização’ dos problemas de segurança, enquanto que no sul, uma tendência à ‘criminalização’ de tais problemas. (HIRST apud VELLOZO, 2006, p. 74) Francine Jacome, também destaca essa divergência de emprego das Forças Armadas. Ela salienta que: 29 A incapacidade de romper com os velhos esquemas está gerando uma busca de um novo inimigo que substitua o anterior. Necessita-se de um novo inimigo para que se possa balancear as forças, fazer planos e dissuadir com poder. Do inimigo pode-se esperar todo o mal e por isso devemos nos preparar para a guerra. Quem ou o que é o inimigo? Onde está? Como é? São várias das perguntas que se tem tentado responder desde a década de 90. (Tradução nossa) 41 Adicionalmente, otro elemento de divergencia entre las subregiones del Cono Sur y la andina es el papel que se le otorga a las fuerzas armadas en la lucha contra el narcotráfico. En el primer caso, se ha considerado que deben mantenerse al margen mientras que en el segundo se han involucrado directamente. (JACOME, 2007, p. 13)30 A securitização dos problemas e ameaças do Continente sul-americano também pode ser apontada como um fator que dificulta a união dos dois sub-complexos regionais de segurança, e, por conseguinte, o desenvolvimento de um sistema de segurança coletiva na região. Buzan e Weaver destacam que os países que fazem parte de um mesmo CRS deverão possuir processos de securitização tão interligados que seus problemas de segurança não podem ser resolvidos de forma independente. (BUZAN, WAEVER, 2003, p. 44) Como indagam Buzan e Waever: Are we then witnessing an increasing split between a Southern Cone subcomplex marked by desecuritization and integration, and a Northern subcomplex with a weakening of states, increasing external involvement, and much violence at all levels of society? (BUZAN,WAEVER apud VELLOZO, 2006, p. 74)31 Além disso, verifica-se que os países da América do Sul não conseguiram, nas últimas décadas, elaborar uma visão compartilhada dos problemas de segurança e uma agenda concreta de ação. Como vimos, os países apresentam perspectivas e prioridades diferentes, tornando difícil o desenvolvimento de um mecanismo de segurança coletiva no continente. Como assinala Francine Jacome: Por lo tanto, puede señalarse que no se ha logrado desarrollar una visión multilateral y cooperativa de la seguridad colectiva ni en los ámbitos subregionales ni en el hemisférico. (JACOME, 2007, p. 10)32 30 Adicionalmente, outro elemento de divergência entre as sub-regiões do Cone Sul e Andina é o papel que se outorga às Forças Armadas na luta contra o narcotráfico. No Cone Sul se considerou que as Forças Armadas devem se manter afastadas enquanto que na Andina, as Forças Armadas devem se envolver diretamente. (Tradução nossa) 31 Estaríamos sendo testemunhas do aumento do distanciamento entre o sub-complexo do Cone Sul, que é marcado pela dessecuritização e integração, e o sub-complexo andino, formados por Estados fracos, aumento do envolvimento externo e de violência em todos os níveis da sociedade? (Tradução livre do autor) 32 Assim, pode ser assinalado de que não se conseguiu desenvolver uma visão multilateral e cooperativa da segurança coletiva nem no âmbito regional nem no hemisférico. (Tradução nossa) 5. EMPREGO E IMPLICAÇÕES PARA A MARINHA DO BRASIL Este capítulo será desenvolvido levando-se em consideração o emprego e as implicações para a MB frente às “novas ameaças” e quando desenvolvendo ações que possam contribuir para a integração sul-americana. 5.1 A Marinha do Brasil frente às “novas ameaças” Com o término da Guerra Fria e a consequente inexistência do inimigo externo comum, houve uma tendência mundial de redução do emprego do Poder Naval em atividades relacionadas com a guerra. Essa tendência foi reforçada após os atentados terroristas de 11 de setembro, com os EUA gerando pressões com o propósito de levar as Marinhas a assumirem um papel mais ativo nas tarefas relacionadas com as “novas ameaças”. (SILVA, A., 2006) Conforme salienta Silva, as marinhas poderiam estar diante do seguinte dilema: “deixar que outras instituições assumam a liderança em tarefas navais consideradas menos atrativas pode significar a possibilidade de perda de recursos e de relevância nacional.” (SILVA, A, 2006, p. 5) Entretanto, priorizar este tipo de atividade em detrimento das tarefas relacionadas com a Defesa da Pátria poderia significar a transformação das Marinhas em Guarda-Costeiras. Porém, a baixa probabilidade de o Brasil vir a se envolver em um conflito interestatal faz com que a sociedade discuta a possibilidade de se empregar a MB em atividades associadas ao uso do mar onde exista uma carência da presença do Estado, ou seja, em ações não relacionadas com a sua destinação principal. Sobre esse aspecto, verifica-se que a MB já vem sendo constantemente acionada pelo Governo para participar de assuntos relacionados com o mar. O Comandante da Marinha informou que a MB vem fiscalizando o cumprimento de leis e regulamentos em coordenação com outros órgãos do Poder Executivo. Informou que a fiscalização tem como propósito: Coibir infrações em águas em que o Brasil exerce sua soberania ou jurisdição e enfrentar as chamadas ‘novas ameaças’, que incluem os crimes transnacionais (contrabando, tráfico de drogas e de armas), o terrorismo internacional, os desastres naturais, os crimes ambientais, a pesca irregular, a cobiça pelos recursos naturais das nossas ZEE e PC e o crime organizado ao longo do litoral e no interior das bacias hidrográficas.33 33 Em palestra proferida na Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR) para os integrantes dos cursos de Altos Estudos das três Forças Singulares e da Escola Superior de Guerra, no dia 11 de março de 2009. (MOURA NETO, 2009) 43 Como exemplo do emprego coordenado com outros orgãos, o Comandante da Marinha citou o caso da embarcação de pesca “SABALA”, apreendida pela Marinha francesa e resgatada, no dia 24 de junho de 2007, por um Grupo-Tarefa sob o Comando da Primeira Divisão da Esquadra e composto pela Fragata “GREENHALGH” (F46) e pelo Navio-Tanque “ALMIRANTE GASTÃO MOTTA” (G23), em águas internacionais, próximo à costa da África; após ser rebocada pela “GREENHALGH” até o porto de Cabedelo, foi transferida para a custódia do Departamento de Polícia Federal/Paraíba, juntamente com a tripulação (três brasileiros e um boliviano) e a carga ilícita (840 kg de cocaína), no dia primeiro de julho do mesmo ano.34 Quanto aos delitos de repercussão internacional, mais especificamente o terrorismo, verifica-se que após o episódio de 11 de setembro de 2001, houve um incremento das operações de inteligência da MB. Ainda com relação ao terrorismo, ressalta-se o fato de que a Marinha vem participando da implementação, em nosso país, das exigências estabelecidas pelo Código Internacional para a Segurança de Navios e Instalações Portuárias, o chamado ISPS Code35. Este código foi aprovado pelos países signatários da Organização Marítima Internacional (IMO36), incluindo o Brasil, e entrou em funcionamento a partir de 1 de julho de 2004. O Comandante da Marinha informou que se trata de um sistema-padrão de segurança, com o intuito de proteger o tráfego internacional de passageiros e cargas da ameaça terrorista.37 Cabe ressaltar que, apesar das ações executadas aumentarem a segurança de todos os países signatários, contra esse tipo de ameaça (terrorismo), à MB cabe somente as ações a serem empreendidas nas águas jurisdicionais brasileiras. De todo o exposto, verifica-se que a MB vem efetuando ações contra as chamadas “novas ameaças”, somente em coordenação com órgãos brasileiros, não havendo o emprego conjunto com Marinhas de outros países contra esse tipo de ameaça. Entretanto, entende este autor que as iniciativas que poderão ser formuladas pelos países do Continente, para permitir o desenvolvimento de um mecanismo de segurança coletiva na América do Sul, poderão trazer novas tarefas para a MB no âmbito continental, como por exemplo, fazendo parte de uma operação envolvendo países do Continente contra a ameaça representada pelo 34 Ibidem Sigla do inglês International Ship and Port Facility Security Code. 36 Sigla do inglês International Maritime Organization. 37 Em palestra proferida na Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR) para os integrantes dos cursos de Altos Estudos das três Forças Singulares e da Escola Superior de Guerra, no dia 11 de março de 2009. (MOURA NETO, 2009) 35 44 narcotráfico. A ausência de uma ameaça externa tradicional poderá levar o Brasil e, em consequência a MB, a desempenhar ação preponderante contra as chamadas “novas ameaças”. Apesar disso, é importante destacar o seguinte texto de Silva: Se por um lado fica claro que existe hoje um incremento na demanda por maior segurança nos mares, não se pode esquecer que, estruturalmente, o sistema internacional não mudou. Os Estados continuam sendo os atores principais, envoltos em um ambiente que mescla vetores de interdependência, cooperação e conflito. (SILVA A. 2006, p. 5) Assim sendo, embora a conjuntura clame por uma maior participação da Marinha na segurança marítima, este autor entende que é importante que a MB não se afaste de sua destinação principal, mantendo a capacidade de defesa para o caso de conflitos interestatais. 5.2 Contribuindo para a integração sul-americana Conforme já citado na seção 3.3.3, verifica-se que os países signatários da UNASUL decidiram criar o CDS com o propósito de, em última análise, aumentar a cooperação e contribuir para o desenvolvimento da integração militar do continente. A Decisão para o estabelecimento do Conselho de Defesa Sul-Americano da UNASUL, estabeleceu diversos objetivos específicos, dos quais destaco os seguintes: a) Fortalecer a adoção de medidas de fomento da confiança e difundir as lições aprendidas; b) Promover o intercâmbio e a cooperação no âmbito da indústria de defesa; c) Estimular o intercâmbio em matéria de formação e capacitação militar, facilitar processos de treinamento entre as Forças Armadas e promover a cooperação acadêmica entre os centros de estudo de defesa; d) Compartilhar experiências e apoiar ações humanitárias, como a desminagem; e e) Compartilhar experiências em operações de manutenção de paz da ONU. Na mesma direção dos objetivos traçados pelo CDS, Vidigal salienta que: A nossa disposição de trabalhar juntos – intercâmbio de cursos, exercícios militares conjuntas e a cooperação em geral – tem uma capacidade dissuasória imensa, não pelo poder militar que possamos vir a demonstrar mas pelo inibidor político que representaria um ataque a países economicamente integrados, politicamente coesos e verdadeiramente democráticos. (VIDIGAL, 2007, p. 11) 45 Ainda dentro desse enfoque, Vidigal aponta algumas etapas de um longo processo de integração e cooperação militar: (VIDIGAL, 1996, p. 10) a) O intercâmbio de pessoal militar, de todos os níveis, para cursos ou outras atividades, como visitas ou estágios em unidades militares, etc.; b) A realização de exercícios militares em conjunto; c) A adoção de medidas para, conforme seja possível, compatibilizar os sistemas logísticos, mesmo que a longo prazo; d) A cooperação na área da indústria de material de defesa, que, numa última etapa, poderá levar a uma divisão regional de responsabilidades nessa área, diminuindo a dependência regional na importação de material de uso militar, sempre sujeita a injunções políticas; e) O estabelecimento da colaboração no setor de pesquisas militares, de modo a criar a massa crítica de inteligência e de recursos financeiros necessários a projetos desse tipo; f) A realização de estudos visando ao estabelecimento de uma concepção comum de defesa; e, finalmente, g) a concretização de um tratado regional de defesa. Constata-se que algumas etapas coincidem com os objetivos específicos traçados pelo CDS. Na mesma linha de raciocínio, o professor Francisco Carlos entende que: “as Forças Armadas devam desenvolver esforços na direção de uma maior integração em Operações de Manutenção de Paz, levando-se em consideração a grande experiência de países como a Argentina, o Brasil, o Chile e o Uruguai nesse tipo de missão.”38 Cabe destacar que a MB já vem desenvolvendo ações voltadas para o cumprimento de alguns objetivos específicos traçados pelo CDS e corroborados por Vidigal, além de se apresentar bem próximo do novo papel a ser desempenhado pelas Forças Armadas em um ambiente globalizado, uma vez que o Comandante da Marinha do Brasil apresentou a seguinte visão quanto ao emprego da Força: A Marinha atuará sob a égide de Organismos Internacionais. Em tempo de paz, a Marinha buscará continuar com seu importante papel de apoio à política externa, no qual se incluem as operações internacionais de paz e o valioso auxílio na aproximação e no fomento da confiança mútua com os países vizinhos. Citou o caso da Missão de Paz no Haiti, onde a Marinha 38 Texto apresentado pelo Prof. Francisco Carlos durante aula ministrada sobre o tema Estudos Regionais, no Curso de Estratégia e Política Marítimas da Escola de Guerra Naval no dia 22/07/2009 (SILVA F., 2009). 46 participa do contingente brasileiro com um Grupamento Operativo de 39 Fuzileiros Navais de 225 militares. Acrescentou ainda que: “em relação ao fomento da confiança mútua com os países vizinhos, vivemos, atualmente, uma fase positiva de maior cooperação na América do Sul. Iniciamos, no ano de 2006, com as Marinhas da Argentina, Chile, Peru, Colômbia e Uruguai, entendimentos para o desenvolvimento conjunto de um projeto de navio-patrulha.”40 Apesar de os principais adestramentos serem realizados ao longo da costa brasileira, existem comissões realizadas com Marinhas amigas, cujos principais propósitos são efetuar ação de presença, estreitar laços de amizade e adestrar unidades da MB em operações conjuntas com outras Marinhas, conforme previsto em objetivo específico do CDS. Destacam-se: PAMPAREX – estreitamento de laços com a Marinha da Argentina; UNITAS XLIX – Operação com as Marinhas dos EUA e Argentina; VENBRAS - Operação com a Marinha da Venezuela; PANAMAX – Exercício Multinacional com as Marinhas dos EUA, Canadá, Uruguai, Chile e Colômbia; FRATERNO XXVII – Operação com a Marinha da Argentina; URUEX – Exercício com a Marinha do Uruguai; DIPLOMEX – Estreitamento de laços com as Marinhas da Argentina e Uruguai; BOGATUN – Operação com a Marinha do Chile; PLATINA – Estreitamento de laços com a Marinha do Paraguai; NINFA XXII – Operação Ribeirinha com a Marinha do Paraguai; e BRACOLPER – Estreitamento de laços com as Marinhas da Colômbia e Peru. 39 Em palestra proferida na Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR) para os integrantes dos cursos de Altos Estudos das três Forças Singulares e da Escola Superior de Guerra, no dia 11 de março de 2009 (MOURA NETO, 2009). 40 Ibidem 6. CONCLUSÃO Com o propósito de promover o desenvolvimento da integração regional sulamericana foi criada a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) e, dentro desta, o Conselho de Defesa Sul-americano (CDS). Porém, sou de opinião de que apesar das ações desenvolvidas por esses organismos, o processo de integração política e militar no continente se mostra ainda relativamente lento, tornando distante a possibilidade de junção dos dois subcomplexos regionais de segurança e, por conseguinte, o desenvolvimento de um sistema de segurança coletiva na América do Sul. A seguir, passarei a discorrer sobre alguns motivos que, a meu ver, restringem e/ou dificultam o desenvolvimento da integração regional e a unificação dos subcomplexos sul-americanos. Apesar de os países sul-americanos estarem sendo governados, quase na sua totalidade, por forças situadas à esquerda no espectro político e, na maioria dos casos, por governos com mesma orientação ideológica, tal fato não favorece a integração regional e, sim, propicia o surgimento de clivagens regionais decorrentes, em grande medida, da regionalização das agendas nacionais marcadas pelo forte caráter neopopulista e nacionalista de seus governos. Os dois modelos de desenvolvimento político existentes na América do Sul, representados de um lado por uma esquerda reformista e democrática e por outro, uma esquerda marcada pelo discurso antiimperialista e pelas receitas nacionalizantes e estatizantes de seus governos, dificultam o desenvolvimento de uma maior integração regional. Os subcomplexos apresentam estágios de integração bem distintos. Enquanto o Cone Sul apresenta um maior nível de integração, motivado pelo avanço no seu processo democrático e estabilização econômica, o que o faz se aproximar de uma Comunidade de Segurança, o Grupo Andino motivado pelas suas tensões internas, permanece ainda fragmentado, aproximando-o de uma formação conflituosa. O fim da Guerra Fria tornou a noção de ameaça à segurança dos países mais difusa. Desaparecia a figura da ameaça externa comum, representada à época, pelo temor da difusão do regime comunista pelo Hemisfério americano. Esse autor entende que esse fato dificulta a união das agendas de segurança do Continente e se comporta como um limitador para o desenvolvimento de um mecanismo de segurança coletiva no mesmo. Além disso, o fim da Guerra Fria, também abriu espaço para novos fenômenos ligados à segurança dos Estados, denominados de “novas ameaças”. 48 Entendo que nesse cenário pautado pela inexistência de um inimigo externo comum e pela presença das chamadas “novas ameaças”, os EUA, reforçado pelos eventos ocorridos em 11 de setembro, assumiram as ameaças representadas pelo terrorismo e o narcotráfico como os mais importantes de sua pauta de segurança. e, desde então, vêm tentando influenciar os países do Continente a se engajarem no combate a essas ameaças. Apesar da influência e ingerência americanas, o autor é de opinião de que os países não são unânimes em definir a sua principal ameaça e, principalmente, a forma de combatê-la. Sobre esse aspecto, o autor entende que os dois subcomplexos apresentam diferenças que apontam para um crescente distanciamento entre a natureza das respostas para os seus problemas de segurança. O processo de securitização é distinto. Enquanto no Grupo Andino se observa uma “militarização” dos problemas de segurança, no Cone Sul constatamos uma tendência à “criminalização” de tais problemas. Este autor é de opinião de que a confiança mútua, combustível fundamental e necessário para o processo de integração regional e aproximação dos dois subcomplexos, não vem sendo desenvolvida por todos os Estados sul-americanos. Como vimos, nem todos os países vêm apresentando à OEA os seus relatórios anuais contendo as MFCS aplicadas. Vimos que os assuntos mais sensíveis, como registro e controle de armas convencionais, são os que apresentam menos MFCS pelos países, retratando o baixo nível de confiança observado na região. Sobre as possíveis implicações para a MB, verifico que elas decorrem do seu emprego frente às “novas ameaças” e quando desenvolvendo ações que possam contribuir para a integração sul-americana. A ausência de uma ameaça externa tradicional poderá levar o Brasil e, em consequência a MB, a desempenhar ação preponderante contra as chamadas “novas ameaças”. Entretanto, sou de opinião de que a MB deva conduzir suas atividades somente em coordenação com outros órgãos do Poder Executivo, tendo o cuidado de não se afastar de sua destinação principal, mantendo a capacidade de defesa para o caso de conflitos interestatais. O desenvolvimento da integração regional implicará para a MB a observância e o cumprimento dos diversos objetivos específicos estabelecidos pelo Conselho de Defesa SulAmericano, em especial, os seguintes: a) Fortalecer a adoção de medidas de fomento da confiança; b) Promover o intercâmbio e a cooperação no âmbito da indústria de defesa; 49 c) Estimular o intercâmbio em matéria de formação e capacitação militar, facilitar processos de treinamento entre as Forças Armadas e promover a cooperação acadêmica entre os centros de estudo de defesa; d) Compartilhar experiências e apoiar ações humanitárias, como a desminagem; e e) Compartilhar experiências em operações de manutenção de paz da ONU. 50 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Paulo. América do Sul: rumo à desintegração política e à fragmentação econômica?. Revista Carta Internacional – julho de 2006 Vol. 1 no 2. Disponível em: http://www.usp.br/cartainternacional/modx/index.php?id=59. Acesso em 12 jul. 2009. ARAUJO, Rafael. 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