UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ RAPHAEL GUILHERME DE CARVALHO POÉTICA DE UMA UTOPIA: A COLÔNIA ANARQUISTA CECÍLIA ENTRE A LITERATURA E A HISTÓRIA CURITIBA 2010 RAPHAEL GUILHERME DE CARVALHO POÉTICA DE UMA UTOPIA: A COLÔNIA ANARQUISTA CECÍLIA ENTRE A LITERATURA E A HISTÓRIA Monografia apresentada à disciplina de Estágio Supervisionado em Pesquisa Histórica como requisito parcial à conclusão do Curso de História, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná Orientador: Prof. Dr. Renato Lopes Leite Co-orientadora: Prof.ª Dr.ª Helenice R. da Silva CURITIBA 2010 À minha filha, Maria Clara, que está para nascer: esperança rediviva, um outro recomeço. À minha esposa, Danielle, acolhida dos ecos de imortalidade: a vida é a gente! À minha mãe, trabalhadora inesgotável, sem a qual a vida seria impossível: saiba da minha gratidão. RESUMO O estudo empreendido em torno das narrativas historiográficas e literárias a respeito da Colônia Anarquista Cecília (1890-1894), parte do pressuposto de que a memória sobre a colônia foi produzida tanto por narrativas literárias quanto historiográficas. Entendemos a produção intelectual do mentor e líder da colônia ácrata, Giovanni Rossi, como, em primeiro plano, literária. Seus romances utópicos, “Un Comune Socialista” (1878) ou “Un episodio d’amore nella colonia Cecilia” (1891), faziam a crítica da sociedade burguesa e, em seu lugar, propunham uma vida alternativa organizada em comunidades socialistas experimentais. A obra de Rossi pode ser considerada em paralelo a outros romances utópicos do período, como “News from Nowhere” (1890), de Wiliam Morris, ou “Voyage on Icarie” (1842), de Etienne Cabet. Situamos, por isso, Giovanni Rossi entre os chamados “socialistas utópicos”. Analisamos, então, desde tais fontes, o processo de produção da memória da Colônia Cecília, que passa pelo livro da historiadora Helena Isabel Mueller, “Flores aos rebeldes que falharam” (1999), e pelo romance histórico de Miguel Sanches Neto, “Um amor anarquista” (2005). Nesse sentido, procuramos entender como se dão as relações entre literatura e história, apoiados, sobretudo, na obra teórica de Paul Ricoeur, “Tempo e Narrativa (tomo III)”. Palavras-chave: Colônia Cecília. História e Literatura. Memória. ABSTRACT The study involving the historiography and literary narratives about the Cecília Anarchist Colony (1890-1894) assume that the memory of the colony has been produced by both the literary and historiographic narratives. We consider the intellectual works by the mentor and leader of the anarchist colony, Giovanni Rossi, essentially literary. His utopian novels, “Un Comune Socialista” (1878) or “Un episodio d’amore nella colonia Cecilia” (1891), criticized the bourgeois society, which proposed an alternate organized life in experimental socialist communities. The works by Rossi can be compared to the ones by other utopian novels of his time, such as “News from Nowhere” (1890) by Wiliam Morris or “Voyage on Icarie” (1842) by Etienne Cabet. Therefore, we situate Giovanni Rossi among the so-called utopian socialists and analyze the production process of the Colonia Cecília Memory, which comprises the book by the historian Helena Isabel Mueller, “Flores aos rebeldes que falharam” (1999) and the history novel by Miguel Sanches Neto, “Um amor anarquista” (2005). The major objective of our study is to understand how the relationships between literature and history take place and we have selected Paul Ricoeur’s theoretical model, “Temps et Rècit (Volume III)” to support our findings. Keywords: Colonia Cecília. History and Literature. Memory. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................7 2 ANARQUISMO REVISITADO .............................................................................................18 2.1 AINDA O ANARQUISMO .....................................................................................................18 2.2 O ANARQUISMO HISTÓRICO: FASE SOCIALISTA DO MOVIMENTO ............................22 2.3 SOBRE O LUGAR DE GIOVANNI ROSSI NO ANARQUISMO ..........................................33 3 A UTOPIA COMO GÊNERO LITERÁRIO: VARIAÇÃO IMAGINATIVA ............................38 3.1 UTOPIA: ENTRE A AGONIA E A ESPERANÇA .................................................................38 3.2 SOCIALISMO UTÓPICO......................................................................................................41 3.3 A UTOPIA COMO GÊNERO LITERÁRIO: OS ROMANCES UTÓPICOS DE GIOVANNI ROSSI ................................................................................................................................444 3.3.1 Sobre a Icária de Etienne Cabet ........................................................................................466 3.3.2 William Morris e o Novo Espírito Utópico ...........................................................................488 3.3.3 Romances Utópicos de Giovanni Rossi .............................................................................499 4 FIGURAÇÕES LITERÁRIAS E HISTORIOGRÁFICAS DA COLÔNIA ANARQUISTA CECÍLIA ...............................................................................................................................54 4.1 HISTÓRIA E LITERATURA................................................................................................554 4.2 HISTÓRIA: “FLORES AOS REBELDES QUE FALHARAM” ...............................................57 4.3 LITERATURA: “UM AMOR ANARQUISTA”.........................................................................61 5 CONCLUSÃO ....................................................................................................................664 FONTES ..............................................................................................................................................66 REFERÊNCIAS......................................................................................................................................67 7 1 INTRODUÇÃO “Ao alto de uma colina, por entre os pinheirais, divisava-se, hasteada ao alto de uma palmeira, enorme bandeira vermelha e preta. Era a bandeira da Colônia Cecília, saudando a chegada dos novos pioneiros”. 1 Zélia Gattai Assim a escritora Zélia Gattai – descendente de imigrantes italianos que embarcaram, com Rossi, no vapor Cittá di Roma em fevereiro de 1890, em busca do sonho de uma sociedade justa e solidária (para uns, afinados com a teoria anarquista) ou de melhores condições materiais de existência (para outros, marginalizados na Europa industrial) – narra em seu livro de memórias a história que contava seu avô sobre a chegada na Colônia Anarquista Cecília: a bandeira rubro-negra recebia os “ciganos”, como, segundo Zélia, os vizinhos chamavamnos, que se aproximavam. Rossi logo viria integrar os novos ao grupo e ensinarlhes a ausência de leis e de patrões e a distribuição dos produtos da atividade coletiva de acordo com as necessidades gerais. A narrativa literária de Zélia é uma dentre diversas outras sobre a Colônia Cecília. O “mito” da colônia Cecília permaneceu vivo durante mais de século, desde a dissolução da comuna em 1894, “mantendo-se, assim, ativa a sua função utópica”.2 A utopia, pensada como a fronteira entre o possível e o impossível é ainda “veículo da expressão do imaginário, um espaço possível do desejo”, segundo a historiadora da legendária colônia, Helena Isabel Mueller. Ressalte-se a dimensão atemporal da utopia, aquilo que lhe constitui a aparência do irreal e do impossível. Para o historiador que se interessa pela utopia cabe não perguntar sobre suas possibilidades de realização: “seu projeto não necessariamente precisa se concretizar, a narrativa é o único nível de concretude que a utopia necessita”3. Outro escritor paulista de literatura social, poeta e romancista, que narrou a colônia Cecília, foi Afonso Schmidt. O autor publicou dezenas de crônicas e novelas de vida popular e urbana de São Paulo, bem como uma obra poética “que envereda por um caminho tradicional onde a “vida dos simples” reaparece sempre 1 GATTAI, Z. Anarquistas, graças a Deus. São Paulo: Record, 1984, p.113. 2 MUELLER, H. I. Flores aos rebeldes que falharam: Giovanni Rossi e a utopia anarquista - Colônia Cristina Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1999, p.221. 3 Ibid., p.17. 8 como tema predominante [...] numa visão nacionalista que incorpora o mito do comunitarismo primitivo e rural”.4 Em 1942, publica o romance histórico Colônia Cecília: uma aventura anarquista na América, reeditada em 1980.5 Isabelle Felici critica, sobretudo, a ausência de verossimilhança entre os acontecimentos documentáveis e a prosa ficcional de Schmidt, que deliberadamente imagina e inventa, violentando tanto a história como a ficção: “tudo é refundido para formar uma outra história e dar curso ao seu lirismo [...]Se a experiência de Rossi o seduz, é porque a aventura vivida por um corresponde ao sonho do outro. Como, portanto, resistir à tentação de adaptar certos fatos, arranjar a verdade, inventar elos que faltam, calar alguns aspectos que não quadram com o resto?”.6 O artigo de Felici (destaque-se o caráter positivo evidenciado já no título), antipático às manifestações artísticas sobre o tema, objetiva estabelecer definitivamente, como se pudesse fincar um ponto final no fluxo imaginativo, a distinção entre lenda e realidade: “É muito provável que, se a lenda não se tivesse apoderado da história da Cecília, transmitindo uma versão desviada da verdade, a experiência comunitária não teria impressionado tanto as imaginações”.7 A principal das invenções do romancista criticadas pela autora é o contato entre D. Pedro II e Giovanni Rossi, intermediado pelo maestro Carlos Gomes, na Itália em 1888. Vários autores, baseados na obra do escritor paulista, repetiram a “versão do imperador”, que teria oferecido as terras e os subsídios para implantação da colônia no sul do país. Mesmo que porventura tenha ocorrido este encontro, a versão, embora plausível, não é convincente: Felici, embasada em confronto de documentos, conclui que “já destronado em 1890, o imperador sequer sabia da existência da Cecília”. Os anarquistas cecilianos, como outros imigrantes quaisquer, foram submetidos à Inspetoria de Terras e Colonização, onde recebem um lote de terras em Santa Bárbara de Cima, colônia próxima a Palmeira. O jornalista Newton Stadler de Souza,8 nato em Palmeira, foi um dos que reprovou em Schmidt o fato de procurar mais os efeitos estéticos e narrativos que o 4 FOOT, F. H. Nem pátria, nem patrão!: Memória operária, cultura e literatura no Brasil. São Paulo: UNESP, 2002, p.134. 5 SCHMIDT, A. Colônia Cecília: uma aventura anarquista na América. São Paulo: Brasiliense, 1980. 6 FELICI, I. A verdadeira história da Colônia Cecília de Giovanni Rossi. Cadernos AEL, Campinas, n.8/9, 1998, p.50. 7 Ibid., p.9. 8 SOUZA, N. S. O anarquismo da Colônia Cecília. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970. 9 compromisso com a veracidade/cientificidade. No entanto, ele próprio, segundo Felici9, é responsável, em seu ensaio, por “embelezamentos, arranjos, desvios e até mesmo erros às vezes grosseiros, em sua pesquisa, que tem, ela, vocação científica”. Inclusive, o jornalista corrobora a “versão do imperador”. Baseado no ensaio de Newton Stadler de Souza, em 1976, um diretor de cinema francês, Jean-Louis Comolli, interessou-se pela legendária colônia Cecília. O filme La Cecilia, de acordo com reportagem do jornal O Estado do Paraná,10 não foi assistido pelo jornalista, mas por alguns curitibanos que se encontravam em Paris: “alguns poucos curitibanos assistiram ao filme em Paris, entre os quais a professora Oksana Borussenko, do Departamento de História da UFP, que considerou válido e honesto o filme em termos históricos, embora, naturalmente, uma visão totalmente francesa". Ainda conforme a reportagem, em 1979, uma cópia teria sido trazida ao Brasil pela Unifrance, mas teve apenas exibições privadas no Rio e Brasília, na Maisom de France. Nenhuma empresa distribuidora se interessou em lançar comercialmente este filme, projetado com relativo êxito em alguns países europeus e, mais tarde, apresentado também na televisão francesa e inglesa. Em 1993, o escritor, cineasta e pesquisador Valêncio Xavier dirigiu o curta-metragem O Pão negro, episódio da colônia Cecília. Em 1984, por ocasião do centenário do teatro Guaíra, foi montada em Curitiba, por Ademar Guerra, uma peça teatral inspirada na Colônia Cecília. Para a segunda edição do texto (a primeira é de 1987) a autora, Renata Pallottini, escreveu um prefácio: “estávamos sendo desafiados a criar um texto e um espetáculo paranaenses, mas que, ao mesmo tempo, transcendessem o localismo e fossem além da aldeia”11. A história da Cecília de fato transcende o ponto do local: a primeira manifestação do anarquismo no Brasil circunscreve-se em esfera mais ampla, no imaginário socialista utópico, na crença positiva do progresso, nas lutas no seio do movimento operário italiano e europeu, nas lutas dos humildes contra o poder que toca diretamente os seus corpos: o Estado e as leis, o trabalho e o tempo roubado, a marginalização e a ignorância. O drama da colônia prefigurado no texto dramático é o embate entre a vigorosa vontade subversiva dos 9 FELICI, op. cit., p.52. 10 MILARCH, A. Colônia Cecília. O Estado do Paraná, Curitiba, 09, mar. 1978, Almanaque, p.20. 11 PALLOTTINI, R. Colônia Cecília: um pouco de ideal e de polenta. Rio de Janeiro: Achiamé, 2001. 10 cecilianos e a inviabilidade utópica ou dos sonhos individuais e as estruturas morais e sociais vigentes. Na abertura – a peça começa pelo presente e pelo fim – o autor visita o local onde outrora existiu a colônia: “[...] Neste sólido mar de indagações navegou, naufragou a barca dos possuídos. Aqui salvou-se a ideia e morreram os corpos”.12 Mais recentemente, foi publicado pela editora Record, o romance histórico Um amor anarquista, do escritor paranaense Miguel Sanches Neto13. Miguel é doutor em teoria literária pela Unicamp (1998) e professor de literatura brasileira na UEPG, além de crítico literário do jornal Gazeta do Povo e da revista Carta Capital e colaborador eventual de outros veículos da grande imprensa. O “amor livre” seria o elemento diluidor de um dos motes principais da moral burguesa a ser combatida – o casamento e a família. Giovanni Rossi, narrador-personagem, experimenta publicamente o amor livre ao compartilhar sua cama com outros jovens anarquistas. A necessidade de afeto erótico, resultado da maioria masculina, foi um dos principais problemas enfrentados pelos anarquistas no interior do Paraná. Aí temos a necessidade impondo obstáculos à utopia da liberdade anarquista: uma realidade esquálida para quem pretendia que os filhos fossem, primeiro, filhos da comunidade, sem pais nem donos, as mulheres sem patrão, depois, filhos do mundo, a aniquilar a família e a moral burguesas: “ao querer bem uma pessoa, o sexo com ela é mais legítimo do que com o cônjuge; no casamento, o sentido da obrigação anula o desejo”, diz Adele, personagem do triângulo amoroso, a quem corrobora e complementa Rossi: “[...] o amor livre é necessário para que a comunidade cresça dentro de seu espírito libertário, superando a organização familiar, na qual o homem faz as vezes de figura odiosa do patrão”.14 Para alguns críticos e círculos literários, o romance de Miguel Sanches Neto coloca-o como um dos grandes da prosa ficcional contemporânea, a julgar pela recepção positiva de sua obra pela crítica.15 Condição conquistada sob duras penas, já que, além das dificuldades inerentes à formação em um ambiente familiar não afeito aos livros, chegou a praticar trabalho escravo em fazenda de soja no 12 Ibid., p. 12. 13 SANCHES NETO, M. Um amor anarquista. Rio de janeiro: Record, 2005b. 14 Ibid., p.11. 15 SABINO, M. A utopia dissecada. Revista Veja, São Paulo, edição 1919, ano 38, n.34, 2005, p.112. 11 Mato Grosso. Com inclusão, afirma que, apesar de romance histórico, Um amor anarquista tem traços autobiográficos16. O autor há anos convive com a colônia Cecília, e declarou ter trabalhado pelo menos dez anos no livro: à frente da Imprensa Oficial do Paraná, organizou a publicação de alguns escritos de Giovanni Rossi, sob título A colônia Cecília e outras utopias (2000); é amigo de um médico de Ponta Grossa, descendente dos Artuzi (integrantes do projeto experimental) que, zeloso de suas “raízes anarquistas”, também pesquisou a colônia Cecília, e quem o levou, em 1999, à propriedade em que um dia se viveu a utopia anarquista. A escolha do tema do amor livre como eixo da narrativa romanesca se deve ao fato de ser “o episódio que trazia consigo o maior grau de contradição e ousadia [...] o amor era o elemento que trazia o maior número de possíveis narrativos, além de ser um dos maiores objetivos de Rossi”.17 As mistificações em torno da comunidade ácrata, explica, são fruto de dois tipos de incompreensão, opostas diametralmente: a dos conservadores, que a viam como uma ameaça moral, e a dos ideólogos de esquerda, que a viram como “um extenso movimento libertário, uma Canaã meio hippie. [...] a Cecília foi extremamente importante porque testou, no dia-a-dia, as crenças anarquistas e socialistas vigentes no final do século 19. [...] Na prática social, vários fatores desviavam os anarquistas de sua crença. Um deles é o amor romântico”18. Entre a historiografia propriamente dita da Colônia Cecília, além dos trabalhos de Isabelle Felici19 e Eric Gordon20, estudamos pelo menos outros três ao nível da pós-graduação: a dissertação de Silza Maria Pazzelo Valente (UEL), as teses de Beatriz Pellizzetti Lolla (UFPR) e Helena Isabel Mueller (USP). Beatriz Pelizzetti Lolla21 analisa da perspectiva do presente o que chama de “testamento ideológico e político” de Giovanni Rossi – uma utopia, uma peça literária, escrita em 1895, após a dissolução da colônia –, O Paraná no século XX. É o trabalho derradeiro (depois se dedicaria a atividades particulares) do anarquista 16 KRAUSS, P. Uma voz sutil. Rascunho: o jornal de literatura do Brasil, Curitiba, Jun. 2009. 17 SANCHES NETO, M. Tudo é coletivo. Rascunho: o jornal de literatura do Brasil, Curitiba, out. 2005a. 18 19 Ibid. FELICI, op. cit. 20 GORDON, E. A. Anarchism in Brazil: theory and practice, 1890-1920. Ann Arbor University Microfilms International, 1978. 21 LOLLA, B. P. Reflexões sobre uma utopia do século XIX como testamento ideológico para a “terra de todas as gentes” no século XX. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura, 1999. 12 italiano, “meio romance, meio estudo social, correspondendo à índole semi-poética dos primeiros socialistas em formação”, ainda a literatura como suporte da ação social.22 A autora, destaque-se, considera que “a posição de Rossi no microcosmo anarquista italiano era original, não classificável em esquemas doutrinários”, dado o ecletismo de influências na formação de seu “socialismo experimental”23. Neste trabalho de Rossi, que aponta o futuro, a autora observa semelhanças com a atualidade (se a considerarmos como o período do desmoronamento do bloco soviético aos dias atuais), enxerga Rossi como um antecipador, no seu ideário, de acontecimentos do século XX, como a emancipação da mulher, a crítica do socialismo autoritário, a crença no futuro democrático, o Paraná como um caldeamento étnico-cultural e espaço de tolerância à alteridade. Silza Maria Pazzelo Valente publicou em 1997, pela Editora da UEL, sua “Contribuição ao estudo do anarquismo em Curitiba” 24 . A interferência dos discursos e das práticas anarquistas na pacata ordem curitibana do início do século é investigada a partir do estudo da colônia Cecília (muitos desertores da colônia se instalaram em Curitiba, outros em São Paulo, uns poucos permaneceram em Palmeira), dos periódicos anarquistas editados em Curitiba (O Despertar, Il Dirito), dos artigos publicados na grande imprensa e das ações dos operários imigrados, como as greves, os boicotes e as sociedades então fundadas no despertar do movimento operário na cidade. Contrastavam o discurso oficial (liberal e positivista) das elites ervateiras e madeireiras e as denúncias de exploração por parte dos anarquistas na análise que compreende a imigração, a incipiente industrialização e a penetração do ideário anarquista como fenômenos inter-relacionados. A retomada da colônia Cecília pela autora é apenas parte do trabalho, que tem como mote principal a presença em Curitiba dos anarquistas, muitos deles oriundos da Cecília. Helena Isabel Mueller doutorou-se em história social pela Universidade de São Paulo (1990). Seu trabalho de doutoramento, que versa sobre as ideias utópicas de Giovanni Rossi experimentadas no interior do Paraná, foi publicado em 22 Ibid., p.73. 23 Ibid., p.17. 24 VALENTE, S. M. P. A presença rebelde na cidade sorriso: contribuição ao estudo do anarquismo em Curitiba, 1890-1920. Londrina: UEL, 1997. 13 Curitiba em 1999 pela editora Aos Quatro Ventos e constitui, hoje, talvez a maior referência para o estudo do tema. Se a história é a ciência do vivido, é também a história do sonhado, do imaginado. Uma das expressões mais antigas do pensamento rebelde é a utopia e a busca de soluções para questões sociais, embora nenhuma delas tenha se realizado concretamente, mas se materializado apenas nos escritos dos idealizadores. A utopia, na ótica da autora Helena Isabel Mueller, é ruptura: “ruptura intelectual com um presente indesejado, através da descrição de um espaço onde se tornaria possível um imaginário desejado”25. Mueller pensa a utopia como uma ruptura com a própria história, no sentido de que o desejo impaciente do novo expressa-se no imaginário, onde o tempo cronológico é abolido. Além disso, a utopia é “a expressão elaborada da alteridade, é a possibilidade da diferença”. A fronteira entre o possível e o impossível, que é a utopia, é ainda veículo da expressão do imaginário, um espaço possível do desejo26. A crítica marxista, porém, apropria-se da utopia, propondo que fosse eliminada da esfera do pensamento político: “[...] Estas pinturas imaginativas da sociedade futura nascem em uma época em que o proletariado, em sua infância, imagina confusamente sua própria posição. Para Marx e Engels, os utopistas tinham uma visão limitada da sociedade e não eram revolucionários, pois que pensavam acima da oposição de classes, dirigiam-se à sociedade como um todo, sem distinções, faltava para os socialistas utópicos o conhecimento da contradição entre burguesia e proletariado, e mais, a consciência de que tal contradição, expressa na luta de classes, motivava a própria dinâmica da história. A utopia era coisa do passado e a tendência histórica era o seu desaparecimento. No entanto, não é o que acontece: “o desejo de mudança social juntamente com o imaginário coletivo que dá forma a este desejo permanecem vivos”. Não apenas sobrevive, mas transforma-se; surge o que a autora chama de um “novo espírito utópico” 27. Uma nova dimensão da utopia no século XIX é a das “utopias vividas”. São marcantes os anos de 1848 e 1871, quando a classe dominada passa a falar e a 25 MUELLER, op. cit., p. 221. 26 Ibid., p.9. 27 Ibid., p.39. 14 agir; a utopia não fica de fora desse processo. Neste momento, “surge a utopia socialista, rejeitada e descartada pelo socialismo marxista, mas absorvida por outro socialismo, o anarquista [...] Desta maneira, faz-se parte integrante de um movimento social; é escrita desde dentro de uma prática política28. Dentre essas utopias vividas, a de Giovanni Rossi (1856 – 1943). Após o esboço de um quadro geral do ideário e do movimento anarquista (na Itália, com a presença de Bakunin) em fins do século XIX, a autora muda o foco de análise para pensar a ruptura (não mais somente com a história, mas) através da formação de colônias experimentais, espaços de vivência anarquista dentro da sociedade capitalista. Interessa-lhe aquele “novo espírito utópico”, ou seja, a crença de que é possível, em algum lugar, a construção de uma sociedade outra, radicalmente diferente daquela em que foi pensada. Rossi propõe, em diversos trabalhos, entre artigos em jornais anarquistas (Lo Sperimentale, por exemplo, jornal que funda em 1886) e “romances utópicos”, o experimentalismo (o socialismo experimental) como solução para as contradições entre teoria e prática. É esta, principalmente, segundo a autora, a base do pensamento de Rossi. A esperança de um futuro socialista está sempre presente no pensamento de Rossi, diferenciando-o dos demais utópicos: isso por sua vinculação ao movimento anarquista italiano. Antes do Brasil, Rossi vive, na Itália, uma experiência semelhante com a Associação dos Trabalhadores Agrícolas de Citadella. Aliás, a própria Itália é o ponto de referência, de partida e de chegada: a América aparece apenas como laboratório onde se realizará a experiência, ou como refúgio das massas excluídas do velho Mundo. As Américas abrem as fronteiras para essa população excluída, construindo nesse movimento migratório da segunda metade do século XIX, boa parte de sua identidade cultural. Ao realizar a colônia experimental – falamos da colônia socialista Cecília –, Rossi mantém viva a função utópica, pois não obedece a um plano mais elaborado em termos de organização senão a procura constante da liberdade. No entanto esta não se realiza, dadas as inúmeras necessidades por que passou a colônia, 28 Ibid., p.47. 15 desde alimentação e moradia, até amor e sexo. O espaço da liberdade foi comprometido pelas necessidades.29 Concluindo, a autora afirma que “permanece vivo o mito da colônia Cecília, mantendo ativa essa função utópica”. Para nós, um objeto profícuo para se pensar as relações entre as narrativas históricas e literárias, uma vez que ambos, historiadores e literatos (além de cinegrafistas, diretores de televisão, teatrólogos), debruçaram-se sobre ela. A sugestão da historiadora é fonte de inspiração para a pesquisa: ficção e história são as fronteiras diluídas entre a experiência concreta de uma pulsão utópica e o imaginário de uma liberdade que se desejou realizar. Não estamos preocupados tão-somente com “o que realmente aconteceu” naqueles breves quatro anos de existência, nem com as contribuições à formação do anarquismo no Brasil ou o suposto fracasso da experiência. Antes disso, interessa-nos seguir os rastros e miragens produzidas pelos sonhadores anarquistas que atravessaram o Atlântico em busca da realização da liberdade imaginada; a transposição, do ambiente utópico para a história vivida, do desejo de liberdade; e, principalmente, o cruzamento das narrativas construídas por historiadores e literatos, que constituíram uma memória sobre a colônia Cecília, sobre a experiência coordenada por Giovanni Rossi, autor de romances utópicos em finais do século XIX. Tanto a narrativa literária quanto a narrativa histórica pressupõem um processo de elaboração e estratégias de organização da realidade prefigurada, uma busca de coerência baseada na descoberta de laços e conexões, de relações entre as informações fornecidas pelo passado. História e literatura reconfiguram um passado. No caso da história, a reconfiguração é legitimada pelos dados fornecidos pelo passado, as fontes, além dos critérios exigentes e científicos do método que lhes garantem credibilidade e verossimilhança. À literatura, por sua vez, permite-se maior liberdade e amplitude, na medida em que foge aos condicionamentos impostos pelas fontes. Porém, enquanto a literatura visa à identificação entre o leitor e o tema, a história pressupõe um certo distanciamento crítico entre o leitor e o passado e o discurso do historiador. A possibilidade, nos domínios da história, do estudo dos laços entre discursos históricos e literários se deu graças a alguns questionamentos 29 Ibid., p.198. 16 epistemológicos30: o que estabelece uma distinção entre o passado real, concreto, e a historiografia, a narrativa feita do passado, sua recriação plausível; a convicção de que os dados do passado que chegaram até nós são representações dos fatos ocorridos o passado. A história, então, como representação do real, constrói também o seu discurso pelo viés do imaginário. Uma das maiores contribuições para o desenvolvimento de tais questões foi a do filósofo Paul Ricoeur (1913-2005). Ao analisar o “entrecruzamento da história e da ficção”31, o filósofo afirma que ambas, história e ficção, trabalham com o mesmo material: a refiguração do tempo no ato da leitura. O imaginário representaria, para Ricoeur, o ponto fundamental para a construção da história, pois para relacionar o tempo vivido ao tempo do mundo seria necessário construir conectores para manejar essa relação. É aí que o autor relembra a proximidade entre a história e a ficção, já que a “função representativa da imaginação histórica se aproxima mais uma vez do ato de se afigurar”32. Está aí, justamente, o entrecruzamento da história e da ficção, pois ambas recorrem às mediações imaginárias na refiguração do tempo, o que justifica, por exemplo, os empréstimos tomados da literatura pela história. O conceito de figura de que dispomos é criado por um dos maiores filólogos e críticos literários do século XX, Eric Auerbach, aqui explicado por Modesto Carone, prefaciador da edição brasileira: “Estabelecendo vínculos tanto com a verdade (veritas), da qual seria uma mimese ou imitação (imitatio), como também com historia ou littera [...] figura é o sentido literal ou o acontecimento que se refere a uma realização que está encerrada no seu próprio bojo [...] figura pode ser captada como meio-termo entre história e verdade”. A história, nessa perspectiva, a despeito de sua concretude, é uma figura que necessita ser interpretada.33 Nosso estudo sobre as interpretações dadas ao projeto utópico de Giovanni Rossi pela arte e pela história visa a discussão dos laços entre as diferentes manifestações do espírito. Com os olhos de Clio, dirigimos as questões, 30 LEMAIRE, R. O mundo feito texto. In: DE DECCA, E.; LAMAIRE, R (Orgs.). Pelas margens: outros caminhos da história e da literatura. Campinas: Unicamp; Porto Alegre: UFRGS, 2000, p.9-13. 31 RICOEUR, P. Tempo e narrativa. Tomo III. Tradução de: FERREIRA, Roberto Leal. Campinas: Papirus, 1997. Tomo III. 32 Ibid., p.332. 33 CARONE, M. Um roteiro do conceito de figura. In: AUERBACH, E. Figura. São Paulo: Ática, 1997, p. 8-10. 17 evidentemente, para o campo de análise da história; ela lança as perguntas, sobre si mesma, a serem respondidas na pesquisa. Contudo, não perdemos de vista as questões mais fundamentais da teoria anarquista em geral, seus fundamentos e problemas, as filiações intelectuais de Rossi, o movimento anarquista e as polêmicas no seio da Primeira Internacional, que vão limitando o espaço dos românticos socialistas, até serem lançados à margem da história: a utopia, segundo Helena Mueller, é duplamente vencida: pelos vencedores e pelos que pensam os vencidos. O socialismo libertário ou, conforme Michael Löwy, romantismo libertário34, de Cárdias fundamentalmente “trava um combate revolucionário contra o capitalismo e o Estado moderno, sob todas as suas formas. O que distingue esta corrente de outras parecidas é a oposição irreconciliável com o Estado e a aspiração a uma federação descentralizada de comunidades locais”. A atitude rebelde, o espírito antiautoritário, o sonhar indomável, para estes libertários – anarquistas, românticos, utópicos, como se queira –, antes de um objetivo a ser alcançado através de um projeto prático, são um fim em si, uma realização em si. Não importa que se materializem apenas, por exemplo, nas narrativas de suas miragens utópicas. Oscar Wilde, identificado com o socialismo libertário, pensou o belo contra os horrores do mundo industrial: “Se o socialismo for autoritário; se houver governos armados de poderes econômicos como estão agora armados de poderes políticos; se, numa palavra, houver tiranias industriais, então o derradeiro estado do homem será ainda pior que o primeiro”35. 34 LÖWY, M.; SAYRE, R. Romantismo e política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993, p.32-33. Os autores fazem levantamento, classificação e apreciação crítica das diversas manifestações de romantismo anticapitalista; entre elas, o anarquismo, que chama de “romantismo libertário”. 35 WILDE, O. A alma do homem sob o socialismo. Porto Alegre: L&PM, 1983, p.15. 18 2 ANARQUISMO REVISITADO “O anarquismo é, em resumo, como a fênix que desperta num deserto que começa a florescer, uma idéia que renasceu pela única razão que faz com que as idéias renasçam: o fato de que preenchem alguma necessidade profundamente sentida pelo indivíduo, mesmo quando essa necessidade não chega a ser expressa abertamente”. George Woodcock 2.1 36 AINDA O ANARQUISMO Jörn Rüsen, em sua teoria da história, desenvolve uma “matriz disciplinar”: “uma explicação teórica do tipo de racionalidade da constituição histórica de sentido”.37 Nela, ressalta, é importante que os elementos da vida prática – carências e funções de orientação – sejam articulados com os elementos teóricos, a fim de tornar inteligível o enraizamento da constituição de sentido na vida prática. O primeiro fator determinante da matriz disciplinar diz respeito às carências ou necessidades de orientação da vida humana prática, decorrentes das experiências na evolução temporal do mundo. O presente muda e, com isso, passado e futuro são constantemente rearticulados, o que nos leva, historiadores, a um constante repensar do passado e à sucessiva reescrita da história. Não há, portanto, um passado fixo, a ser esgotado pela história; a história é necessariamente escrita e reescrita a partir das posições do presente, onde se situam o problema da pesquisa e o sujeito que a realiza. Já os fundadores da revista Annales, na primeira metade do século XX, consideravam a importância do tempo presente na construção do conhecimento histórico: para Marc Bloch38, pensar que a história fosse uma ciência do passado, enquanto tal, soava absurdo; Lucién Febvre39 sublinhava que a função social da história é “organizar o passado em função do presente”. Atualmente, a guinada interpretativa, decorrente de um certo vazio deixado pelo desaparecimento dos 36 WOODCOCK, G. Grandes escritos anarquistas. Porto Alegre: L&PM, 1981, p.52. 37 RÜSEN, J. Razão histórica: teoria da história I, os fundamentos da ciência histórica. Brasília: UnB, 2001, p.161. 38 BLOCH, M. A Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2001, p.52. 39 FEBVRE, L. Combates pela história. Lisboa: Presença, 1989, p.19. 19 grandes paradigmas em vigor nos anos 60/70, volta as interrogações para a escrita da história. Na atual recomposição do sentido da história, a prática do historiador está aberta a novas interpretações, a um diálogo sobre o passado aberto para o futuro. A centralidade da narração, como esforço interpretativo, na escrita histórica, aponta que não há passado esgotável, mas que convém abri-lo, revisitar suas potencialidades.40 Uma das abordagens diagnósticas da contemporaneidade, disponíveis para a compreensão do presente, passa pelo desenvolvimento da análise sobre “sociedade de controle”.41 Antonio Negri e Michael Hardt dão-nos uma definição42: Devemos entender a sociedade de controle como aquela (que se desenvolve nos limites da modernidade e se abre para a pósmodernidade) na qual mecanismos de comando se tornam cada vez mais “democráticos”, cada vez mais imanentes ao campo social, distribuídos por corpos e cérebros dos cidadãos. [...] O poder é agora exercido mediante máquinas que organizam diretamente o cérebro (em sistemas de informação, redes de comunicação etc.) e os corpos (em sistemas de bem-estar, atividades monitoradas etc.) no objetivo de um estado de alienação independente do sentido da vida e do desejo de criatividade. A sociedade de controle pode ser caracterizada, então, por uma intensificação e uma síntese dos aparelhos de normalização que animam internamente nossas práticas cotidianas. Considerando-se ainda, com Foucault, a natureza biopolítica do novo paradigma de poder, este se expressa como um controle – cada vez menos visível e material e cada vez mais invisível e sutil – que penetra as profundezas da consciência e dos corpos da população e passa pela totalidade das relações sociais. Na sociedade de controle e no cenário do capitalismo pós-industrial ou rizomático, então, “pode-se dizer que a relação cada vez mais intensa de mútua implicação de todas as forças sociais que o capitalismo buscou durante todo o seu desenvolvimento foi plenamente realizada”.43 Disso decorre a necessidade de orientação no presente: revisitar o anarquismo como uma teoria política plural, heterogênea, que tratou com uma 40 DOSSE, F. A história à prova do tempo: da história em migalhas ao resgate do sentido. São Paulo: UNESP, 2001a, p.50. 41 DELEUZE, G. Post-Scriptum sobre as sociedades de controle. In: Conversações: 1972-1990. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992, p. 219-226. 42 HARDT, M.; NEGRI, A. Império. Rio de Janeiro: Record, 2006, p.42. 43 Ibid., p.44. 20 importância radical o tema da liberdade. Margareth Rago44 demonstra os possíveis elos e relações entre o pensamento de Michel Foucault e a tradição libertária, a fim de apontar a presença anarquista em seu pensamento bem como criar outras condições para se revisitar a história do anarquismo. O pensamento do filósofo francês vincula-se à tradição libertária, segundo Margareth Rago, ao formular a crítica do poder mais contundente na atualidade ou ao perseguir a criação de novas formas de subjetividade em um mundo constantemente pressionado pela ameaça totalitária. As possibilidades de liberdades passam por um problema ético, por um cuidado de si45, ou seja, um conjunto de práticas adotadas por um sujeito no sentido de buscar atingir um modo de existência desejável. Essencialmente antidogmático, o pensamento anarquista, contrário à rigidez, é elástico e durável, no entender de George Woodcock46, historiador das ideias e movimentos libertários. Esse caráter permitiu a ressurgência de idéias anarquistas nos anos 60, perturbando as hierarquias estabelecidas da direita e da esquerda. [...] Novas formas de organização aparecerem, foram desenvolvidos novos métodos de ação, mas reproduzem [...] nas opiniões sobre a sociedade atual e na aspiração de uma sociedade melhor o que tem sido ensinado pelos filósofos originais da tradição libertária. O que começou a aparecer na década de 1960 foi o ressurgimento da corrente anarquista de pensamento acompanhada de movimentos ativistas. Ressurgia, se não o anarquismo tal como fora elaborados pelos anarquistas históricos, uma tendência anarquizante oriunda de duas raízes distintas: da experiência dos participantes do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos e dos protestos de massa contra o desarmamento nuclear. Tendência jovem, sobretudo da classe média jovem, expressava essencialmente uma revolta, em especial contra as culturas industriais tecnocráticas. Não mais, porém, no campo do capital e do trabalho, mas sim conforme interpretações do novo libertarismo, no campo da personalidade. A espontaneidade do movimento dos estudantes em maio de 1968 na França – à margem do controle de sindicatos e partidos de esquerda – é uma das 44 RAGO, M. Foucault, história e anarquismo. Rio de Janeiro: Achiamé, 2004. 45 FOUCAULT, M. A ética do cuidado de si como prática da liberdade. In: MOTA, M.B. (Org.). Ditos e escritos V: ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004. 46 WOODCOCK. op.cit., 1981, p.44. 21 manifestações recentes mais importantes do espírito libertário.47 A revolta da geração de 1968 é uma revolta de caráter existencial, não revolucionária. É uma revolta, antes de tudo, antiautoritária, numa conjuntura econômica extremamente favorável – são os “anos dourados” da economia capitalista no século XX. Há um contraste entre a abundância material da sociedade de consumo – os jovens consomem seus símbolos de identidade – e o sufocamento material e espiritual do tradicionalismo, do conservadorismo e das hierarquias.48 Francisco Foot Hardman49 assinala a reposição (mais um “ressurgimento”) de culturas anarquistas e utópico-românticas no centro do furacão da atualidade. Segundo o autor, “a crise do socialismo real e o desmanche do bloco soviético liberaram forças críticas antiglobalização inimagináveis até a explosão de Seattle (1999)50”. Hardman afirma a necessidade, no cenário globalizado dominado pelas grandes corporações industrial-financeiras, de se refundar utopias e reabilitar culturas libertárias. O anarquismo representa para muitos uma alternativa tanto à democracia liberal quanto ao marxismo. A crise do socialismo real e o desmoronamento do bloco soviético repuseram culturas anarquistas e utópico-românticas nos movimentos sociais. Das carências de orientação no tempo presente, da necessidade de se pensar as alternativas de liberdade, portanto, é que parte nossa proposta de repensar de uma das primeiras, e talvez a mais importante, em termos de repercussão e memória, experiência do anarquismo na América Latina51. Embora a necessária, e até desejável, relação de empatia do sujeito com o objeto de estudo, tencionando melhor compreendê-lo52, nosso interesse pelo anarquismo não se confunde com nenhum tipo de militância, a não ser com uma postura ou uma atitude perante a própria existência: “um ethos, uma vida filosófica em que a crítica daquilo que somos é, ao mesmo tempo, uma análise histórica dos 47 Ibid., p.47-49. 48 RODRIGUES DA SILVA, H. Fragmentos de história intelectual. São Paulo: Papirus, 2002a. 49 FOOT HARDMAN, op. cit., p.13. 50 A “Batalha de Seattle” foi um conjunto de manifestações ocorridas em 30 de maio de 1999 por ocasião da reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), reunindo milhares de ativistas, entre ecologistas, anarquistas, trabalhadores, estudantes, pacifistas e humanistas. É considerada como um marco histórico das lutas antiglobalização e corporativismo neoliberal. 51 Max Nettlau, pesquisador e bibliógrafo do anarquismo, considerou-a a realização mais séria das tentativas anarquistas na América Latina. 52 DOSSE, F. A biografia intelectual: escrever uma vida. São Paulo: Edusp, 2009, p.374. 22 limites que nos são postos e a prova de sua possível superação”, nas palavras de Michel Foucault53. O desejo de liberdade, pulsão utópica, é sempre presente. Mas é preciso distinguir as utopias libertárias ou imanentes das autoritárias ou transcendentes, como sugerem Deleuze e Guattari: “é sempre com a utopia que a filosofia se torna política, e leva ao mais alto ponto a crítica de sua época”.54 2.2 O ANARQUISMO HISTÓRICO: FASE SOCIALISTA DO MOVIMENTO “Essendo nato e vissuto nei cepi, essendo l’erede di uma lunga progênie di schiavi, l’uomo, quando há incominciato a pensare, há creduto che la schiavitù fosse condizione essenziale della vita, e la liberta gli è sembrata cosa impossibilie”55 [Por nascer e viver na escravidão, por ser descendente de escravos, quando começou a pensar, o homem acreditava que a escravidão era uma condição essencial à vida e a liberdade parecia impossível] [trad. livre]. Errico Malatesta (1853-1932) usa as palavras acima, em publicação original de 1907, na sua definição de anarquia. Os anarquistas, em geral, iniciam seus textos teóricos tentando sair do embaraço provocado pela semântica do termo: cambiate l’opinione, convincete Il publico che Il governo non solo non è necessario, ma è estremamente dannoso, ed allora la parola anarchia, apunto perchè significa assenza di governo, vorrà dire per tutti: ordine naturale, armonia dei bisogni e degl’interessi di tutti, liberta completa nella 56 completa solidarietà. [Mudando a opinião e o público convencido de que o governo é desnecessário e extremamente prejudicial, a palavra anarquia, justamente por significar ausência de governo será o mesmo que dizer: ordem natural, harmonia das necessidades e interesses de todos, liberdade e solidariedade completas] [trad. livre]. Etimologicamente, em sua raiz grega, anarquia designa “ausência de governo” (an, sem; archon, governante), mas pode ser interpretada positiva ou negativamente, de acordo com as ideologias ou aspirações e interesses políticos. Platão, na República, ao criticar a democracia, a dizia “anárquica” e “multiforme”; historicamente, a nobreza francesa na Revolução acusava os revolucionários de 53 FOUCAULT apud RAGO, op. cit., p.15. 54 DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é filosofia? São Paulo: Editora 34, 1992, p.130. 55 MALATESTA, E. L’Anarchia. Ragusa: La Fiaccola, 1973, p.31. 56 Ibid., p.33. 23 “anarquistas” (os radicais, Robespierre e os jacobinos, são assim atacados pelo Diretório); os marxistas, após a célebre discussão na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) entre Bakunin e Marx, acusarão os anarquistas de partidários da desordem e da desorganização; Lênin, após a Revolução Russa, identificaria o anarquismo como um “esquerdismo”, uma doença infantil do comunismo; o criminalista Cesare Lombroso se empenharia em constituir uma tipologia do anarquista enquanto criminoso e terrorista57. O primeiro a usar publicamente a palavra anarquia para designar um projeto político de transformação da sociedade e uma visão filosófica de mundo teria sido Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) em seu livro O que é propriedade? (1840). Só se pode falar em anarquismo como um corpo de ideias, como uma teoria coerente e conscientemente organizada a partir das atividades e da obra de Proudhon: “Anarquia – a ausência de um mestre, de um governante, é a forma de governo a que estamos nos aproximando dia a dia”58. Ela representa a consagração do termo anarquia em sentido positivo, em oposição ao uso até então quase exclusivo no sentido de desordem e caos. Ao apontar para uma ruptura revolucionária, no decorrer do século XIX, o anarquismo “adquire uma organicidade como expressão e ponto de encontro de um debate ideal que encontra, na realidade social, correspondência imediata”59. Este livro de Proudhon exerceu influência sobre os círculos de pensamento social radicais no século XIX e seria, de início, elogiado por Marx, que, posteriormente, se tornaria um seu feroz adversário. Em grande parte por influência de Proudhon, um ano após a sua morte, seria fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores (ou a “Primeira Internacional”, de 1864). Suas obras forneceriam a infraestrutura intelectual do movimento operário europeu de então. Suas atitudes, durante a década de 1840 – em particular durante a Revolução de 1848, quando integrou a Assembleia Constituinte francesa e votou contra a Constituição aprovada – em questões relativas ao sistema, ao partido ou à organização política, além de refletir as ideias dos primeiros filósofos libertários, 57 GALLO, S. O anarquismo: uma introdução filosófica e política. Rio de Janeiro: Achiamé, 2006, p.23. 58 PROUDHON, P-J. A propriedade é um roubo. In: WOODCOCK, G. Grandes escritos anarquistas. Porto Alegre: L&PM, 1981, p.62. 59 ANARQUISMO. In: BOBBIO, N. et al. Dicionário de política. Brasília: UnB, 2002. p.23-29. 24 antes da criação de um efetivo movimento anarquista, anteciparam o 60 comportamento que ele iria adotar em relação à ação política . O princípio básico do anarquismo é a liberdade (daí o epíteto “socialismo libertário”), que deve ser socialmente construída: “ter a liberdade por norma é a verdadeira base da moralidade, o princípio regulador de todas as nossas ações, o motor que a filosofia busca [...]”.61 As bases da opressão a teoria anarquista encontra no maquinário político e no Estado, máximo dispositivo que mantém o homem em seu cativeiro histórico. Uma revolução deve, necessária e imediatamente, dissolver o Estado, caso queira criar as condições básicas para a conquista da liberdade. Cabe aqui um parênteses sobre a revolução para os anarquistas: os fins devem ser alcançados de imediato e a transformação social deve ocorrer no instantâneo da revolução. Para Bobbio, aparece claramente o elemento utópico de tal concepção, na qual a revolução “mais do que efetiva, é puramente ideal e, mais do que política, sua natureza manifesta é intelectual e abstrata”.62 Mais um aspecto do anarquismo deve ser ressaltado: ele não se liga à classe operária, mas às massas. Ele não evoca para sua luta a classe operária, ao contrário, considerada incapaz de obter a própria liberdade enquanto integrada no “sistema”. Liga-se, isto sim, segundo Bobbio, às massas sub-proletárias das cidades e do campo em especial, que vivem marginalizados pela sociedade burguesa e em condições de miséria moral e material.63 Mesmo havendo diferentes opiniões anarquistas, existe uma filosofia definida, assim como uma tendência anarquista reconhecida. Essa filosofia envolve três elementos: uma crítica à sociedade como ela é, uma visão de uma sociedade alternativa e um planejamento para pôr em prática esta transformação. Se o Estado é indesejado, deve-se demonstra por que ele é também desnecessário. Isso leva à consideração da visão anarquista do papel do homem na sociedade. Basicamente, pensam que se o homem obedecer às leis naturais da própria espécie será capaz de viver em paz com seus semelhantes. Em outras palavras, o homem é um ser naturalmente social; as instituições autoritárias é que deformam e atrofiam suas tendências cooperativas. O homem não é um ser solitário por natureza como 60 WOODCOCK, op. cit., 1981, p.17. 61 Ibid., p.63. 62 ANARQUISMO, op. cit., p.27. 63 Ibid., p.26. 25 sugeria Rousseau; ao contrário, é um ser social e sua forma natural de organizarse socialmente baseava-se na cooperação voluntária.64 Noam Chomsky65 também diz ser desanimadora uma tentativa de definição de anarquismo, tendo em vista a variedade de estilos e ações considerados anarquistas: “fica difícil expor suas doutrinas com precisão, com uma teoria específica e determinada da sociedade e da mudança social”. Então, cita o historiador anarquista Rudolf Rocker (1873-1958) em uma definição do que não é o anarquismo: [o anarquismo não é] um sistema social fixo, fechado, uma tendência definida no desenvolvimento histórico humano [...] que luta para o livre desenvolvimento, sem qualquer bloqueio, de todas as forças sociais e individuais. Para o anarquista a liberdade não é um conceito abstrato e filosófico, mas a possibilidade concreta essencial para todo o ser humano levar ao desenvolvimento completo de todas as capacidades, faculdades e talentos que a natureza o dotou, e convertê-los em valor social. Chomsky pergunta-se qual o valor de se estudar algo de natureza tão difusa e que não articula uma teoria social detalhada e específica. Reconhecendo que muitos críticos desqualificam o anarquismo como “utópico”, incompatível com as realidades de uma sociedade complexa, propõe que se considere o anarquismo, em todo estágio de evolução histórica, uma luta para “desmantelar as formas de autoridade e opressão”. Em nossa época, Chomsky “o problema é libertar o homem da desgraça da exploração econômica e da escravização social e política [...]; e o método para isso não é a conquista e o exercício do poder do Estado, mas a organização da vida econômica das pessoas de baixo para cima e seu desenvolvimento em espírito de socialismo” O anarquismo de Chomsky defende uma sociedade “altamente organizada, integrando e diversificando vários tipos de estrutura: nos locais de trabalho, comunidades e associações voluntárias [...] feita pela gestão das próprias pessoas envolvidas (autogestão)”. 66 O anarquismo, de acordo com Chomsky, enquanto ideia tem origem no Iluminismo; mais precisamente, no Discurso sobre a Desigualdade, de Rousseau; nos Limites da Ação do Estado, de Humboldt; na insistência de Kant, em sua defesa da Revolução Francesa, de que a liberdade mesma é o pré-requisito para 64 WOODCOCK, op.cit., 1981, p.19-20. 65 CHOMSKY, N. Notas sobre o anarquismo. São Paulo: Imaginário, 2004, p.23. 66 Ibid., p.25. 26 alcançar a maturidade para a própria liberdade. Foi o socialismo libertário que preservou e estendeu a mensagem humanista radical do Iluminismo e os ideais clássicos liberais. Deve ser considerado, portanto, herdeiro dos ideais liberais do Iluminismo. Mais que isso, descreve o anarquismo como uma confluência do Socialismo e do Liberalismo. Os ideais do liberalismo clássico teriam sido destruídos pelas realidades dos modelos econômicos capitalistas. O anarquismo é essencialmente anticapitalista ao se opor à dominação/exploração do homem pelo/sobre o homem. Ele insiste ainda que “o socialismo será livre ou nunca o será”. Assim, o anarquismo, confluência do liberalismo e do socialismo, deve ser considerado como a tendência libertária do socialismo67. Em consequência, um anarquista coerente é aquele que se opõe à propriedade privada dos meios de produção e à escravidão pelo salário, além do trabalho alienado e da intensa especialização do trabalho. Mais especificamente, um socialista de um tipo particular. Ele não apenas se opõe às questões citadas como espera que as mudanças sejam diretas, controladas pelos próprios trabalhadores, e não exercidas por uma força de elite (seja qual for) agindo em nome do proletariado. O italiano Nico Berti, anarquista e pesquisador do tema na Universidade de Pádova, em reflexão intitulada Per um bilancio storico e ideologico dell’anarchismo,68 preocupa-se – como pano de fundo do artigo – com o futuro do anarquismo, em face do seu esgotamento, após a perda de grande parte de suas características históricas e ideológicas. Por isso, põe em discussão a própria identidade histórica do anarquismo, ao se perguntar o que restou dele: “Ciò che comunque rimane resta ancora quell’anarchiscmo que abbiamo conosciuto e praticato?”. Procura as alternativas para se pensar o problema no que considera a essência do anarquismo: “l’essere dell’anarchismo non vive nel cielo, ma nelle viscere della storia reale, e però dire quale è la storia reale dell’anarchismo, vale a indicare la sua storicità” 67 69 . Torna-se mais claro o entendimento do anarquismo, Ibid., p.31. 68 BERTI, N. Per um bilancio storico e ideologico dell’anarchismo. Rivista Anarchica, Volontà, n. 38, p.43-76, 1984. 69 Ibid., p.43. 27 afirma, operando uma distinção fundamental entre anarquismo e movimento anarquista. O que chama “a essência do anarquismo” é resultado do cruzamento do processo de secularização na modernidade, com seu inexorável desencantamento do mundo, e seus dois efeitos históricos: a revolução industrial e a revolução francesa: “tale processo genera i due grandi movimenti etico-politici dell’età contemporanea, Il liberalismo e Il socialismo, la cui sintesi coerentemente ed estrema sfocia nell’anarchismo”. Explica, porém, que não se trata de mera síntese dos princípios do liberalismo e do socialismo, mas estes sofrem uma radical mutação genética ao se unirem os dois em uma ideologia revolucionária, a anarquista: “cosi, non si può parlare di ideologia anarchica se questa non soddisfa a priori Le condizioni formale dell’equilibrio coerente fra le istanze della liberta e quelle dell’uguaglianza”70. As várias tendências do pensamento libertário – segundo o tempo, o lugar, a tradição e a circunstância – devem, por assim dizer, girar em torno desta órbita, deste modelo ideal. O movimento anarquista, por sua vez, entendido especificamente como movimento político e social, é para o autor o único movimento que se torna político com o objetivo de manter sua primária e irredutível instância ética. Trata-se de uma contradição irreversível, pois se de um lado se constitui politicamente, de outro se nega enquanto tal. Assim, se o anarquismo, como um filho do iluminismo, participa da dessacralizante e dissolvente secularização, o movimento anárquico dá um resposta a esta secularização, mais precisamente, “precisamente la risposta di uma rottura storica e radicale della secolare tradizione machiavellica fondata sulla separazione fra l’etica e la política”.71 O anarquismo, então, responde ressignificando a política em dimensão ética. Não poderia ele não ter nascido no âmbito do movimento operário e socialista, pois que, em relação à objetiva modernização desencadeada pelo processo de secularização, este era mais um fenômeno de reação à dissolução de toda precedente codificação de sentido social, político, econômico e ético, operada pela modernização, que de revolução. O movimento anarquista nasce, então, no ambiente socialista e operário porque participa desta reação, mas em um duplo 70 Ibid., p.48. 71 Ibid., p.51. 28 sentido: ao reabilitar a ética na política e ao dar significado autônomo à reação social desencadeada pela modernização tranformando-a em radical revolução: “[...] così, l’anarchismo è veramente nella storia ma anche contro la storia”.72 A conexão entre anarquismo e movimento anarquista e movimento anarquista e movimento socialista mostra claramente o sentido da referida duplicidade, que não é um artifício dialético, mas a efetiva historicidade do anarquismo quando se faz movimento: “Il movimento anárquico è um soggeto etico che si muove in senso político all’interno di um corpo sociale”.73 Em sua primeira fase histórica, entre 1872 e 1917, ou da expulsão dos anarquistas da Primeira Internacional, após o Congresso de Haia, à Revolução Russa, o movimento anarquista sobrevive mantendo suas prerrogativas fundamentais: o internacionalismo permanece revolucionário apenas na medida em que a luta política não se sobrepõe à social; a revolução deve ser social,e não política; entre o “mundo burguês”, “con Il suo Dio, con Il suo stato, com Il suo capitale”, e o “mundo proletário” não pode haver mediação alguma. Nesta fase, Nico Berti afirma que [...] insomma, il significato storico-strategico di tutta questa fase si riassume nel fato che vi sono due soggetti principali, socialismo contro capitalismo, e due soggetti concorrenti all’interno del socialismo, 74 anarchismo e marxismo . Na história do socialismo é bastante conhecida a ruptura ocorrida entre Marx (e os marxistas) e Bakunin (e os anarquistas) no seio da Primeira Internacional, que acabou por comprometer a própria existência do mais importante órgão criado pelos militantes operários no século XIX. Em geral, a polêmica entre as duas correntes é tratada como resultado de diferentes concepções do socialismo: socialismo libertário, de um lado, e socialismo autoritário, de outro – na visão dos anarquistas; socialismo científico, de um lado, e socialismo utópico, romântico ou pequeno-burguês, de outro – na visão dos marxistas. Para Nico Berti, a diferença entre anarquismo e comunismo e entre anarquismo e liberalismo é que somente no anarquismo a liberdade constitui o princípio de toda sua teoria, enquanto para o comunismo e para o liberalismo se 72 Ibid., p.53. 73 Ibid., p.54. 74 Ibid., p.56. 29 apresenta a liberdade como o efeito de uma causa histórica. O princípio da sociedade civil liberal deriva da premissa epistemológica da economia política clássica, a qual afirma que a liberdade se dá pela manutenção da propriedade. A propriedade não pode estender-se a todos, então surge na sociedade liberal a inevitável necessidade de defender a propriedade por meio do poder político, isto é, do Estado. Quanto ao comunismo, estádio último do socialismo, ele postula a realização da liberdade no superamento irreversível da economia. A liberdade é posta, portanto, para ambos, comunismo e liberalismo, como um resultado histórico, especificamente como o produto, último de um processo de modernização. Neste ponto se encontra “l’abissale differenza che li separa dall’anarchismo”75. O anarquismo coloca a liberdade como um fim em si, como o princípio de toda conduta humana. Comunismo e liberalismo colocam a liberdade dentro da história, como um efeito; o anarquismo, ao invés, põe-na contra a história, a contrapelo, como uma objeção, como causa da modernização. Silvio Gallo chama atenção para a inegável pluralidade de ideias “que sempre garantiu a fecundidade do pensamento libertário [...]”. Essas variações acontecem devido à interpretação e aplicação daqueles princípios básicos nas condições vividas por cada um dos diferentes anarquistas. O que Silvio Gallo defende é que “o anarquismo não pode ser visto como uma doutrina ou como sistema filosófico, o que implicaria a existência de um corpo de ideias fechado”76. Admiti-lo como uma doutrina seria o mesmo que negar sua principal força: a afirmação da liberdade e a negação da autoridade. Silvio Gallo vê o anarquismo não como doutrina, fechada e imutável, mas como um princípio gerador, “uma atitude básica que pode e deve assumir as mais diversas características particulares de acordo com as condições sociais e históricas às quais é submetido”77. O anarquista é, para o autor, aquele que assume esse princípio básico de vida e de pensamento: a negação da autoridade e a afirmação da liberdade. 75 Ibid., p.72. 76 GALLO, S. op.cit., p.44. 77 Sobre o conceito de “princípio gerador” Cf. TEIXEIRA, L.G. Utopia: manual do militante. São Paulo: Ibrasa, 1983. 30 Devido aos variados matizes derivados dessa atitude básica é comum, dentre os estudiosos do anarquismo, dividir o movimento anarquista em diversas correntes, de acordo com a postura teórica e prática frente a estes princípios. Essa divisão em correntes vale, porém, “muito mais para efeito de exposição, representando uma divisão organizativa que historicamente nunca ocorreu”78. Flavio Luizzetto (1942 -), doutor em história pela Universidade de São Paulo e professor do Centro de Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Carlos, publicou diversos trabalhos sobre o anarquismo, sendo o livro Utopias Anarquistas79 o mais importante. No primeiro capítulo, “A sociedade futura segundo os anarquistas”, o autor se prende na explicação das várias correntes do pensamento anarquista que se preocuparam em organizar a futura sociedade ácrata. São expostos os vários projetos socioeconômicos formulados segundo as premissas das diferentes “escolas” do pensamento e movimento anarquista: a individualista, a coletivista, a mutualista e a socialista. Em geral, prevaleceu a pluralidade e a heterogeneidade de opiniões sobre a unanimidade. Em torno de certas (poucas) matérias houve algum consenso, como da necessidade de abolição do Estado, da valorização da individualidade ou da importância da educação. Em torno do problema da propriedade, por exemplo, não foram todas as tendências – como a socialista – que se posicionaram a favor de sua abolição. A escola individualista do anarquismo pregava que a organização da futura sociedade libertária deveria obedecer ao princípio da irrestrita liberdade individual (a mais elevada causa do movimento). Radicalmente contrários à ordem social vigente e ao Estado, opunham-se igualmente às tendências do movimento revolucionário da época que pretendiam mudar a sociedade à custa de algumas limitações a serem impostas à liberdade pessoal (dos marxistas a outros grupos do campo anarquista). O problema das relações entre o indivíduo e a coletividade (que afetou a todas as correntes do anarquismo) foi equacionado de modo peculiar pelos adeptos desta escola: a sociedade deveria molda-se aos indivíduos, e não o contrário. Era a doutrina do egoísmo, em que o interesse individual se tornava a 78 GALLO, S. op.cit., p.44. 79 LUIZZETTO, F. Utopias anarquistas. São Paulo: Brasiliense, 1987. 31 medida de todas as coisas, em busca da felicidade pessoal. O mais conhecido de seus representantes é Max Stirner (1806-1856). Baseado nas idéias deste, o norteamericano puritano Josiah Warren, em 1825, ajudou Robert Owen a fundar, no estado de Indiana, a colônia New Harmony, que tinha o objetivo de reconstruir a sociedade segundo o ideal da propriedade comum. Warren dois anos depois desistiria da empresa alegando que a uniformidade que se exigiu das pessoas tornou o ambiente insuportável; para ele, não se soube resolver os conflitos entre interesses coletivos e particulares80. A escola mutualista, segundo modelo proposto por Proudhon (1809-1865), ocupa posição intermediária entre o modelo individualista de Stiner e Warren, e os modelos socialistas, de Bakunin e Kropotkin. Para Proudhon, a dinâmica inerente à vida social oscila, permanentemente, entre as tendências federativas, ou seja, associativas, e as tendências individualistas, isto é, egoístas. Para os mutualistas, tais tendências (federativa e individualista) eram positivas e deveriam se generalizar na formação de todo tecido social; no entanto, a expansão das tendências positivas era obstaculizada por outra, negativa, representada pelo Estado. O Estado, centralizado por natureza, era essencialmente antifederalista e anti-individualista. Fazia-se mister a abolição do Estado para que funcionasse o sistema proposto pelo mutualismo.O sistema federativo evitaria a atuação de forças centralizadoras e neutralizaria os excessos do individualismo extremo, em prol da formação de associações de produtores livres e independentes. O problema da propriedade ocupava lugar especial nos planos do projeto mutualista. Proudhon distinguia duas modalidades de propriedade: “domínio” e “posse”. A primeira garante o direito absoluto sobre as coisas, a exploração do trabalho alheio sem qualquer esforço do proprietário; a segunda representa o direito que o homem tem de controle efetivo sobre o lugar que ocupa. Esta ele defendia; a outra, condenava. Preocupado com o produtor, desejava expandir a propriedade “posse”, que se tornaria a base de todo o sistema social: uma sociedade formada por produtores independentes, que poderiam constituir e administrar associações voluntárias, isto é, federações autogeridas de produtores autônomos que poderiam formar uma espécie de rede de alianças federativas81. 80 Ibid., p.18-23. 81 Ibid., p.23-27. 32 A escola socialista do anarquismo contrasta com as outras duas. Para eles, a sociedade não é inimiga do indivíduo; pelo contrário, é o ambiente no qual se desenvolve a individualidade e a prática de sentimentos sociais, tais como a solidariedade e a cooperação. A revolução social tem o papel de reverter os desvios ocasionados, por exemplo, pela competição individual. Dentro desta escola distinguem-se outras duas vertentes: a coletivista e a comunista. Bakunin (1814-1876), amigo pessoal de Proudhon, assimilou muitas de suas ideias, entre as quais a teoria da organização federativa da sociedade e a noção segundo a qual a parte da riqueza socialmente produzida deve ser proporcional à participação de cada indivíduo na produção. Mas a peculiaridade de Bakunin reside na proclamação da necessidade de se organizar a sociedade com base na coletivização dos meios de produção. Em outros termos, condenava com vigor a propriedade privada e seu defensor, o Estado. O coletivismo de Bakunin pressupunha a fusão entre a teoria federalista de Proudhon (organização livre dos produtores independentes) e a teoria socialista (propriedade coletiva dos meios de produção). O coletivismo anarquista, no que tange à distribuição da riqueza socialmente produzida (“a cada um de acordo com suas ações”) se distingue do anarquismo comunista de Malatesta e Kropotkin. A corrente anarquista comunista tem em Kropotkin (1842-1921) seu mais importante e conhecido teórico. Ele era o primeiro a reconhecer a presença das idéias de Bakunin nas suas próprias concepções sobre a organização da futura sociedade ácrata. Bakunin, coletivista, resistia à ideia de comunismo, a que considerava a negação completa da liberdade individual. Malatesta (1853-1932) acreditava que anarquia e comunismo se completavam mutuamente: “na medida em que se realize o comunismo será possível realizar o individualismo; isto é, o máximo de solidariedade para usufruir o máximo de liberdade”. Quais os argumentos utilizados pelos teóricos da corrente para afirmar que anarquia e comunismo em conjunto são o melhor caminho para uma sociedade libertária? A obra teórica mais importante da corrente é A ajuda mútua como fator de progresso entre os animais e os homens, do geógrafo e naturalista Kropotkin. Entre os animais não observou nenhum sinal de luta cruel pelos meios de subsistência entre animais da mesma espécie; em lugar disso, entre os animais de mesma espécie, viu a predominância do apoio e da ajuda mútua. Mais tarde, quando se sentiu atraído pelos estudos de darwinismo e sociologia, não pôde concordar com as 33 conclusões segundo as quais a luta pela sobrevivência entre os homens era uma “lei natural”. O anarquismo comunista de Kropotkin trata de planejar uma organização social capaz de perpetuar as condições para a livre prática dos princípios de solidariedade, cooperação e reciprocidade, estes sim, próprios da condição humana.82 Pela compreensão do socialismo libertário como um princípio gerador, e não como uma doutrina, é possível entender as diferenças entre seus pensadores e militantes, no tempo e nos diferentes lugares, o que nos leva a perceber que, segundo Gallo, o que existiram foram diferentes interpretações e aplicações de seus princípios básicos. Se o anarquismo foi historicamente duplamente vencido – pelos vencedores e pelos que pensaram os vencidos –, restando deste movimento alguns espasmos de penetração histórica, devidos mais aos seus princípios libertários e antiautoritários que propriamente uma ação política organizada, ele não se constituiu dogma, ortodoxia, enfim, uma doutrina política fechada. Ao contrário, a pluralidade de interpretações e aplicações de seus princípios básicos fez do anarquismo uma filosofia política rica e fecunda, na perspectiva da alternativa tanto ao status quo quanto ao marxismo dominante, que foi deformado e degenerou, no stalinismo brutal, em totalitarismo. 2.3 SOBRE O LUGAR DE GIOVANNI ROSSI NO ANARQUISMO Giovanni Rossi (1856-1943), italiano de Pisa, foi agrônomo e veterinário de profissão, formado em 1875 pela Escola Superior de Pisa. Ainda estudante, em 1873, inscreveu-se nas fileiras da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), na seção de Montescudalo, nos arredores de Pisa. No ato de inscrição, apresentou à AIT uma proposta de fundação de uma colônia, inicialmente pensada para a Polinésia. Em 1878, Rossi, sob pseudônimo Cárdias, publica o primeiro de seus romances utópicos, “Un Comune Socialista – bozzetto semi veridico”. A publicação esteve ligada ao grupo de anarquistas de Milão que faziam o jornal “A Plebe”. O personagem principal deste pequeno romance se chama Cárdias, que troca correspondências com a jovem Cecília, a quem explica suas teorias sociais 82 Ibid, p.30-36. 34 anarquizantes. Na década de 1880, além de colaborar em diversos jornais operários, publica os jornais “Il Socialista” (1883), em Gavardo, e “Lo Sperimentale” (1886), em Brescia. Em seus textos, Rossi defende recorrentemente a ideia do experimentalismo nas colônias socialistas. Nos jornais eram frequentes as resenhas de Rossi sobre o pensamento utópico de Fourier, Cabet e Owen, e ainda tecia comentários a respeito das experiências que viabilizaram. Beatriz Pellizzetti Lolla, estudiosa da Colônia Cecília, afirma que, considerando-se o experimentalismo do anarquista italiano, mais a sua obsessão pelos projetos utópicos, “a posição de Rossi no microcosmo anárquico italiano é original, não classificável em esquemas doutrinários”.83 A segunda metade do século XIX na Itália se dá sob o signo da unificação. Unificação nacional, unificação da burguesia emergente em torno da nação, unificação e tentativa de disciplinarização de seu movimento social ao projeto da nação.84 Mazzini (1805-1872) opera, na década de 1860, entre os trabalhadores industriais urbanos, “o papel de “organizador” da emergente classe trabalhadora italiana, no sentido mais radical e autoritário do termo”.85 Seria ele o porta-voz da disciplina nas relações entre capital e trabalho, evidentemente, sob a ótica do capital. Enquanto Mazzini tentava firmar sua força na organização do movimento operário italiano, Bakunin, em 1865, chegava à Itália. Com a chegada de Bakunin, começava a ganhar corpo o anarquismo na Itália. Nesse momento, o exilado russo, que havia participado das revoluções de 1848, encontrava-se na Itália entre dois apelos: o de Marx, pela organização de uma seção italiana da AIT, e o de Mazzini, para que se juntasse a ele. Desde o momento de sua fundação (1864) até a filiação de Bakunin (1868), a AIT cresce e expande sua atuação, não expressando em seus primeiros congressos divergências quanto as formas de organização e ação política. Os conflitos começam a surgir nas disputas entre Marx e Bakunin, os pensadores mais importantes das duas tendências que esboçam afirmação dentro do movimento. 83 LOLLA, op.cit., 1999, p.17. 84 MUELLER, op. cit., p.49. 85 Ibid., p.59. 35 O cerne da cisão na AIT seria, então, a questão da aceitação ou não de uma ação política centralizada e única para a associação como um todo. O movimento anarquista, como um todo, e na Itália, surgiria, de fato, em 1872, durante o Congresso de Saint-Imier, alternativo ao Congresso de Haia, convocado pela facção liderada por Marx. Ao contrário de Haia, que o Congresso de SaintImier rejeita qualquer forma de participação política e reafirma a autonomia e independência das federações que compõem a Internacional.86 Enfatizando a revolução social, a proposta dos anarquistas italianos é, ao contrário de angariar participação no poder político, destruí-lo. Tal ruptura, informada pelo anarquismo, pelo que ele tem de utópico em si, é também uma ruptura contra a história, uma recusa às determinações do momento histórico, que apresenta aos italianos um capitalismo norteador da disciplina da produção dos bens materiais e da vida. Movimento radicalmente anticapitalista, recusa enfaticamente as condições históricas dadas e, além, propõe a via da alteridade, a construção de uma outra história. A ruptura que propõe se expressa na recusa da política institucional. A sua força é, ambiguamente, sua maior fraqueza: enquanto movimento social, seu campo de atividades é a política, mas, ao negá-la, tem sua esfera de atuação limitada, coloca-se de início do lado de fora. Por outro ângulo, a ambiguidade ressalta o caráter radicalmente revolucionário do anarquismo, que prevê uma sociedade completamente outra87. Nesse sentido é que pensamos a formação das colônias experimentais: como a realização – ou, antes, experimentação – desta ruptura plena, tentativa de viver a alteridade, uma sociedade completamente outra em relação à existente historicamente, “espaços de vivência anarquista dentro da sociedade capitalista, [...] a concretização da utopia”88. Andrea Costa, um dos mais importantes militantes anarquistas na Itália do século XIX, em 1878 começa a repensar a questão partidária. Levanta a hipótese de representação legal, que fosse aceita pelo governo e que não estivesse tão sujeita à repressão, aventando, com isso, maiores possibilidades de ação. Esse posicionamento de Costa é visto pelos seus pares como uma espécie de “traição”, por exemplo, por Errico Malatesta. Rossi, que desde a publicação de “Un Comune 86 Ibid., p. 89-109. 87 Ibid., p. 110-4. 88 BERTI, N. La dimensione utopica del pensiero anarchico. Rivista Anarchica, Volontà, n.35, p.4-14, 1981. 36 Socialista” vivia sob vigilância e repressão pelo Estado italiano, afasta-se dos anarquistas propriamente ditos e aproxima-se da via partidária. Participa, em 1881, de uma “associação eleitoral democrática” organizada em Pisa para “fundar o Partido Socialista Revolucionário na Toscana, de orientação social-democrata, seguindo o paradigma daquele fundado por Costa na Romanha”.89 Segundo H.I. Mueller, essa posição de Costa e de Rossi se justifica pela tentativa de deixar a clandestinidade e fugir à repressão, além de ampliar a propaganda por meio das campanhas eleitorais. A postura dúbia, entre o anarquismo e a via parlamentar, provoca reações críticas dos anarquistas, entre eles, Malatesta. Rossi, em cartas trocadas com Andrea Costa em 1884, citadas por H.I. Mueller, afirma a importância de se aceitar a diversidade e a divergência de ideias diferentes dentro do movimento. Rossi “não aceita a crítica, continua a considerar-se anarquista, sem se comprometer com a militância”. A posição fundamental de Rossi no movimento anarquista italiano é a defesa da criação de comunidades em que se vivenciaria uma outra sociedade: “[...] há dez anos vivo somente para este projeto, e não o abandono. Tenho confiança nas pequenas forças despertadas por um objetivo prático”.90 Rossi pretendeu, por meio da experiência, que a ideia socialista fosse levada à prática. A questão central que permeou suas reflexões foi a relação entre teoria e prática, propaganda e ação; o experimentalismo, que apresentou como solução ao impasse, foi o epicentro do qual derivou toda sua ação. Rossi, através da formação de núcleos experimentais da vida anarquista, quis provar ao mundo a excelência das ideias anarquistas. Rossi, pleno de imaginação e desejo de ruptura, convida seus leitores a participar, com ele, de uma experiência de vida socialista. “Un Comune Socialista” (1878), narrativa utópica, projeta, pela imaginação, a vida em uma comunidade pautada pelo princípio anarquista da liberdade. J. C. Petifils ressalta o caráter utópico de Giovanni Rossi, ao afirmar que as suas influências são os socialistas utópicos, sobretudo Fourier, e, principalmente, ao asseverar que os utopistas, “recusando ao mesmo tempo a evolução e a revolução, escolhem um terceiro 89 MUELLER, op.cit., p.144. 90 ROSSI, Carteggio Costa. apud, Ibid., p.146. 37 caminho: a inversão do mundo pela utopia”. 91 A especificidade da utopia, segundo H.I. Mueller, é “a crítica à sociedade do presente, através de uma sociedade alternativa que é, por sua vez, deslocada para o não-lugar”92. Veículo de confissão do imaginário, a utopia é a possibilidade da diferença, expressão elaborada da alteridade. Os utopistas, como Giovanni Rossi, trataram de colocar em prática o seu socialismo, por meio de pequenas comunidades, visando, pelo contágio do exemplo, que se espraiasse por todo o corpo social. Devemos lembrar que “a intenção de dar à humanidade o exemplo raramente acabou bem” e que “a história das comunidades utópicas é, em geral, uma história do fracasso”93. Não é de somenos importância, por exemplo, que as miragens utópicas de Rossi tenham-se materializado mais em suas narrativas que na concretude de suas experiências. Interessa-nos, em primeiro plano, uma leitura dos romances utópicos de Cárdias (pseudônimo de Giovanni Rossi), em comparação com outros semelhantes: Viagem à Icária (1840), de Etienne Cabet, e Notícias de lugar nenhum (1890), de Willian Morris. No próximo capítulo, discutiremos utopia, socialismo utópico e os romances utópicos de Cárdias, fundamentais para a construção da memória da Colônia Cecília pela história e pela literatura. 91 PETIFILS, C.J. Os socialismos utópicos. São Paulo: Círculo do Livro, 1977, p.153. 92 MUELLER, op. cit., p.9. 93 JACOBY, R. Imagem Imperfeita: pensamento utópico para uma era antiutópica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p.29. 38 3 A UTOPIA COMO GÊNERO LITERÁRIO: VARIAÇÃO IMAGINATIVA “As utopias são, pois, os sonhos que os homens têm de sonhar com toda a força de seu espírito, para conviver consigo mesmos e com seu mundo, sob a condição da experiência radical da limitação da vida”. Jörn Rüsen 3.1 94 UTOPIA: ENTRE A AGONIA E A ESPERANÇA No século XX, o pensamento utópico conhece um colapso, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial e a crítica de intelectuais que viram nas utopias um perigo e as associaram aos totalitarismos. O norteamericano Russel Jacoby95 aponta pelo menos três razões para o esmaecimento da visão utópica: o colapso, desde 1989, dos regimes socialistas; o pensamento de alguns intelectuais do século XX – “a sabedoria de nossa época” – que não distinguem utópicos de totalitaristas; e o que chama de um empobrecimento crescente da imaginação ocidental pelo excesso de imagens pré-fabricadas, advindas do cinema ou da publicidade. Se o século XVI nos legou um termo novo, o termo “utopia” – a partir da obra de Thomas More –, o século XX nos deu a “distopia” – em Aldous Huxley ou George Orwell –, uma espécie de utopia deteriorada ou o complemento lógico das utopias. A história, no século XX, satura o pensamento utópico, enquanto o movimento da utopia para a distopia ratifica a história. Pensadores como Karl Popper, Isaiah Berlin e Hannah Arendt, a princípio seduzidos por um marxismo de caráter vagamente utópico, em seguida rejeitaramno diante de um stalinismo brutal; esses “antiutopistas liberais”, segundo a expressão de Jacoby, lideraram a crítica mais ampla ao totalitarismo. A objeção de Jacoby se ergue na medida em que tal crítica denigre todo o pensamento utópico e não, evidente, quando se aplica ao nacionalismo, ao etnocentrismo, ao totalitarismo ou às deformações do marxismo. Em comum, eles têm o fato de pertencer a uma mesma geração, nascida antes da Primeira Guerra Mundial, são judeus ou 94 RÜSEN, J. A história viva. Teoria da História III: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: UnB, 2007, p.138. 95 JACOBY, R. op.cit., p. 25. 39 descendentes de judeus e vieram da esquerda política assim como dela se desiludiram. Não cabe, aqui, um mapeamento detalhado do pensamento de cada um deles, como procede Jacoby; cabe, tão somente, mencionar as reservas deste autor quanto à associação ampla que se fez entre as utopias e os regimes cruéis do nazismo e do stalinismo; são antes os ranços nacionalistas, o racismo e, mais contemporaneamente, os fanatismos religiosos os responsáveis pelo totalitarismo moderno. O que liga a Utopia de More à Minha Luta, de Hitler? Para Russel Jacoby, “a comunidade humana tem mais motivos para temer os defensores de uma agenda étnica, religiosa ou nacionalista do que os homens com um projeto utópico”.96 O enigma básico da tradição utópica é a delimitação entre presente e futuro. Até que ponto os sonhos utópicos são uma afronta ao presente, medíocre e não utópico, ou a imaginação de um futuro, de um porvir? Gilles Deleuze e Félix Guattari apresentam um conceito de utopia que não remete a um tempo futuro ou uma forma ideal. Ao contrário, representa uma forma de resistência à baixeza do presente: “o fundo do poço da vergonha foi atingido quando a informática, o marketing, o design, a publicidade se apoderaram da própria palavra conceito e disseram – somos nós os amigos do conceito”97. Criar conceitos, tarefa da filosofia, é necessariamente intervenção no mundo, ressignificação do mundo ou reaprendizado do vivido98. Para Deleuze e Guattari, “a utopia faz a junção da Filosofia com sua época”. É com a utopia, eles afirmam, que “a filosofia se torna política e leva ao mais alto ponto a crítica de sua época”99. Na esteira do experimentalismo existencial e político de 1968, os autores sublinham as forças que pedem novos modos de existência, sem qualquer anseio de totalização. Entre elas, a utopia. Neste sentido é que enfatizam a necessidade de distinção entre utopias autoritárias (ou transcendentes) e as libertárias (ou imanentes): sobre as utopias libertárias, aponta-se o trabalho de Ernst Bloch, O princípio esperança (1959), que desenvolve “um marxismo humanista e utópico que pretende não apenas corrigir os conceitos de um marxismo vulgarizado [...] vai 96 Ibid., p.51. 97 DELEUZE, G.; GUATTARI, F. op.cit., p.19. 98 GALLO, S. Deleuze e a educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2003, p. 24. 99 DELEUZE, G; GUATTARI, F. op.cit., p.130. 40 além, pretende um novo marxismo, [...] uma reatualização do socialismo utópico e dos conceitos éticos de um pensamento voltado para o futuro”.100 Jörn Rüsen assevera que, embora a utopia tenha sido professada morta, ela pertence à vida cultural e sua linguagem precisa ser constantemente reelaborada. Em 1989, ela foi declarada esgotada e rejeitada como conceito. Com a queda dos Estados socialistas na Europa, a possibilidade de realização prática de alguns objetivos utópicos conheceu um amargo fim. Para ele, Rüsen, estes regimes não representam um salto sobre a realidade, mas antes uma remodelagem da realidade pela visão utópica. Isto levou a consequências funestas: da tentativa de realização da liberdade final à sua oposição, a opressão e a agonia. Em face de tais fatídicos resultados, Rüsen propõe que se repense a verdadeira utopia, o não-lugar, aquela em que precisamente não há lugar na realidade: “[...] the true utopia, the no-where, which has precisely no place in reality, needs to be rehabilitated”.101 A questão do autor é sobre a possibilidade de um movimento intelectual em direção ao totalmente novo e outro: “[...] our question is a fundamental one: should only that which is realisable serve as a cultural motivation?”. Para Rüsen, nós precisamos de uma utopia que além do realizável e controlável, na direção de dotar nossas ações de sentido plausível: “We must be able to dream (at night) in order to (during the day) do our work sobberly and wakefully”. Trata-se da relação necessária entre utopia e o senso pragmático da realidade. O poder da utopia é o poder inspirador e fantástico de transgredir as fronteiras limitadoras – na verdade, em geral, o poder mental de exuberância em interpretações culturais e de dar sentido à vida humana. O princípio utópico tem uma larga e profunda dimensão antropológica.Nas palavras do autor: “whenever human beings in suffer and action go decidedly beyond the given and plan another place in which they want to find themselves”. O estudo da cultura explora as interpretações que damos ao e a nós mesmos, a fim de viver no mundo e com nós mesmos. Cultura é a quintessência destas interpretações e significado é o seu princípio. Para Rüsen, “there is no culture without an interpretative exuberance, no 100 101 MÜNSTER, A. Ernst Bloch: filosofia da práxis e utopia concreta. São Paulo: Unesp, 1993, p.87. RÜSEN, J. Rethinking utopia: a plea for a culture of inspiration. In: RÜSEN, J. Thinking utopia: steps into others worlds. Berghahn Books, 2005a, v.4. p. 277-282. 41 meaning without the fundamental transgression of the here and now, the status quo and the conditions of life practice”. A proposta de Rüsen é que se conseguirmos conceber os elementos utópicos da orientação cultural de forma a evitar os riscos de virem a ser pervertidos em instrumentos de poder e violência, então, como uma fonte viva de resistência, a utopia pode reforçar nossas esperanças, que são o elixir da vida. Para Rüsen, “o pensamento utópico define-se pela negação da realidade das circunstâncias dadas da vida. Ele articula carências, na expectativa de circunstâncias de vida nas quais desaparecessem as restrições à satisfação dessas carências”. A utopia, entendida como a possibilidade do inteiramente outro, neutraliza, ficticiamente, as circunstâncias dadas da vida; o pensamento utópico, assim, “abre uma via para a orientação da existência humana, na qual representações de outras circunstâncias de vida aparecem como expressão de carências de mudança do mundo, motivadoras do agir”.102 As utopias, então, abrem um espaço específico de liberdade, ao proceder à crítica das circunstâncias atuais da vida e ao elaborar projetos de alternativas desejáveis. 3.2 SOCIALISMO UTÓPICO Em geral, os primeiros socialistas, na Inglaterra ou na França, são vistos como o elo de uma corrente que conduz, inevitavelmente, ao “socialismo científico”. No entanto, a redução dos socialistas ditos “utópicos” à condição de ingênuos precursores de Marx gera uma distorção de seu pensamento e de sua originalidade. Hoje, postos em xeque os dogmas do marxismo pela própria história, não é mais viável considerá-los desta forma – a adolescência do socialismo –, e sim, mais apropriadamente, como uma corrente original de pensamento político que se desenvolve em paralelo às outras formas de socialismo, além de se reconsiderar a dimensão utópica subjacente ao socialismo, enquanto tal, e ao marxismo, em específico.103 102 Id., 2007, p.138. 103 MÜNSTER, op.cit. 42 De acordo com Jean-Christian Petitfils, impregnado de subjetivismo, o campo da utopia permanece vago e mal delimitado. No entanto, da leitura do abundante gênero literário utópico, é possível esboçar um esforço de definição: “a utopia se apresenta, em geral, como uma descrição minuciosa de um mundo imaginário e edênico, situado fora do espaço e do tempo, uma cidade ou comunidade harmoniosa na qual o autor projeta seus fantasmas e seus sonhos”. Em última análise, afirma este autor, qualquer projeto social, mesmo o mais realista ou mais “científico”, comporta seu quinhão de utopia, “pelo simples fato de constituir a projeção e a expectativa de um ideal ainda não concretizado, que a complexidade e a diversidade do mundo impedirão sempre de se inscrever plenamente na realidade”. Se há diferenças marcantes, entre os socialistas, quanto aos meios empregáveis para se chegar a uma sociedade sem classes, sem Estado, sem a divisão do trabalho, “a escatologia marxista não é menos utópica que o universo fabuloso de Charles Fourier” .104 Martin Buber afirma que o próprio marxismo, a despeito de sua hostilidade para com a utopia, “não pôde, jamais, subtrair-se à suspeita de que abrigava uma fé secreta na utopia”.105 A denominação “utopista” passou a ser, contudo, uma das armas mais eficazes da luta do marxismo contra os socialismos não-marxistas. Tal denominação aparece, primeiramente, no Manifesto Comunista (1848), e dirige-se sobretudo aos fourieristas e a Proudhon, que são vistos como “homens superficiais”, por propor sistemas de reformas que, a pretexto de reorganizar a sociedade, pretendem conservá-la e, por isso, são rotulados como “socialistas burgueses”. Estes socialistas são considerados por Marx como frutos de uma época em que a indústria e, portanto, o proletariado, ainda não haviam se desenvolvido por completo. Os “sistemas” dos utópicos, então, são vistos como imaginários e fantásticos, pois propunham a abolição de uma diferença de classes que estava apenas começando a se esboçar, mas que deveria ser ela a provocar a transformação geral da sociedade. Para Marx, não se tratava de levar à prática um sistema utópico qualquer, mas de colaborar, conscientemente, no processo histórico de transformação da sociedade. A luta empreendida contra o “socialismo utópico” tinha o significado de um ato de política interna, no interior do movimento 104 PETITFILS, op.cit., p.9-11. 105 BUBER, M. O socialismo utópico. São Paulo: Perspectiva, 1971, p.22. 43 operário e da Internacional. O que Engels escreve trinta anos depois do Manifesto, no livro Anti-Dühring, trata-se de mera elaboração do que já figurava anteriormente. Inicialmente, Marx e Engels chamavam de utopistas aqueles cujas ideias precediam o desenvolvimento da indústria, do operariado e da luta de classes; posteriormente, a aplicação do termo se estende indistintamente a todos aqueles que não levavam em conta estes três fatores em suas elaborações.106 A utopia socialista, para Martin Buber, significa o desenvolvimento das possibilidades latentes na comunidade humana de se concretizar uma ordem justa. O socialismo moderno inicia um entrelaçamento intensivo de doutrina e ação, de projeto e experiência. Na secularização socialista da escatologia, Buber separa duas formas que atuam em separado: a forma profética de alguns socialistas ditos utópicos, e a apocalíptica, em especial no marxismo, segundo a qual, pela luta de classes a humanidade atingiria a superação da injustiça. O momento em que o ímpeto apocalíptico-utópico de Marx transborda e converte todo conceito econômico e científico em pura utopia, é quando fala da transformação que se sucederá à revolução social. Portanto, a utopia dos chamados utopistas é prérevolucionária, enquanto a marxiana é pós-revolucionária: o salto da humanidade do reino da necessidade para o reino da liberdade fundamenta-se na dialética, mas não mais em uma base “científica”.107 Buber caracteriza o caminho que segue à pós-revolução como a época de um centralismo total, que não tolera nenhum aspecto ou iniciativa que não sejam os seus. O socialismo não-marxista, ao contrário, acredita que é necessário criar, desde o presente, a atmosfera possível e necessária para a transformação futura; acredita não no salto pós-revolucionário, mas sim em uma continuidade revolucionária, dentro da qual a própria revolução significa a ampliação de uma realidade que, dentro do possível, já se realizou. Os “socialistas utópicos” aspiraram a uma reestruturação da sociedade, “com o auxílio das tendências descentralizadoras perceptíveis no seio do processo social e econômico e com o auxílio da rebelião mais profunda, que vai crescendo na alma do homem, a rebelião contra a solidão em massa ou coletiva”.108 O “anseio 106 Ibid.,p.10-16. 107 Ibid., p.21. 108 Ibid., p.26. 44 espiritual” chamado socialismo utópico luta pelo máximo de autonomia comunitária possível, dentro de uma luta maior pela reestruturação da sociedade. 3.3 A UTOPIA COMO GÊNERO LITERÁRIO: OS ROMANCES UTÓPICOS DE GIOVANNI ROSSI Se considerarmos a diversidade de interpretações sobre as utopias (literária, filosófica, histórica, sociológica e política), torna-se um desafio vê-las como exclusivamente literárias. Não é o nosso caso. Procuramos ver a utopia (os romances utópicos) de Giovanni Rossi à luz da história, ou seja, envolvida em seu contexto histórico de produção. Esta abordagem é capaz de superar aquela via exclusiva de interpretação interna ao texto, do ponto de vista único da linguagem, ao considerar os atores historicamente envolvidos na produção de sentido. Não entendemos a ficção utópica como puro documento, mas trabalhamos sobre distâncias, entre as representações propostas pela ficção e as realidades sociais que representam109. A imaginação utópica provém da realidade a qual visa abalar e se realiza, plenamente ou em parte, quando adquire forma concreta aquilo que não passava de ideia ou simplesmente formulando ideias que repõem a necessidade de reflexão crítica sobre o mesmo real. Dubois110 afirma que a utopia pertence sobretudo ao campo das ideias, das emoções e da afetividade e que, nascida da imaginação, adere suas raízes ao campo do literário e do ficcional. As formas literárias são uma expressão apropriada das utopias, sendo as outras o terreno da práxis, onde imbricam ações e ideias. A utopia como gênero literário, portanto, e em especial as utopias socialistas – que, surgindo da realidade, informam-na no sentido de transformá-la e estimular as esperanças diante dos limites da vida – devem ser lidas levando-se em consideração o seu contexto, numa espécie de “tradução do texto para o contexto”.111 Entendendo as utopias de Giovanni Rossi, em primeiro lugar, como ficções literárias, como romances utópicos, procuramos conceituações sobre o gênero. Pensamos, com Paul Ricoeur, que “a utopia, na sua forma literária, gera uma 109 CHARTIER, Roger. A história entre narrativa e conhecimento. In: ______. A história à beira da falésia: entre certezas e inquietudes. Porto Alegre: UFRGS, 2002, p.125. 110 DUBOIS apud GALLO, I. Utopia e socialismo. Morus: Utopia e Renascimento, no. 6, 2009, p. 247. 111 Ibid., p.247. 45 espécie de cumplicidade ou de conivência por parte de um leitor complacente”.112 O leitor pode inclinar-se a entender a utopia como hipótese plausível. Parte das estratégias literárias da utopia é fazer uso do meio retórico da ficção: “uma ficção literária é uma variação imaginativa cujas premissas o leitor assume durante algum tempo”. Não se pode, no entanto, desconsiderar a análise clássica de Karl Mannheim, segundo a qual a utopia é o discurso de um grupo e não de um indivíduo isolado: “a chave para a inteligibilidade das utopias é a situação estrutural do estrato social que, numa dada altura, as subscreve”.113 Ajuda-nos a entender as ficções utópicas de Giovanni Rossi, que as assina sob pseudônimo Cárdias, a obra de Miguel Abensour sobre “o novo espírito utópico”114. Abensour empreende uma comparação entre as utopias de Etienne Cabet e William Morris. Este último teria produzido uma obra aberta, de caráter experimental, enquanto aquele, uma utopia clássica, de sentido fechado, unívoco e autoritário: “Cabet recorre a uma maneira de informar que corresponde estreitamente ao governo autoritário e regulamentado ao extremo em Icária”. As contradições entre ideais de libertação e a disciplina extremada aparecem na análise da Icária histórica feita por Jacques Rancière115; afetada pelo egoísmo, as necessidades teriam se imposto às aspirações. Morris, ao contrário, praticaria uma maneira de informar de acordo com a mais extrema liberdade, essência de sua visão utópica. Esta liberdade estaria na interpretação do leitor; apelo explícito à experiência direta, sua orientação para o pensamento libertário decorre justamente de seu caráter experimental: “a viagem em utopia, experiência para o narrador, torna-se em experiência para o leitor”.116 Tendo no romance a matriz de sua utopia, sua estética se relaciona ao gênio libertário pelo culto dionisíaco do maravilhoso e do fantástico revolucionários”. A diferença das utopias de Cabet e outros e W. Morris “é que não se pode extrair de News from Nowhere nenhuma doutrina, nenhum sistema socialista específico”.117 112 RICOEUR, Ideologia e utopia. Lisboa: Edições 70, 1986b, p.446. 113 MANNHEIM apud, Ibid., p.461. 114 ABENSOUR, M. O novo espírito utópico. Campinas: Unicamp, 1990. 115 RANCIÈRE, J. A noite dos proletários: arquivos do sonho operário. São Paulo: Cia. Das Letras, 1988. 116 Ibid., p.159. 117 Ibid., p.136. 46 Tendemos a ver em Un Comune Socialista, de Cárdias, uma aproximação e uma semelhança com este “novo espírito utópico” de que fala Abensour. Seu romance utópico é dividido em duas partes, uma dedicada à crítica da sociedade presente, a sociedade burguesa do XIX, a outra “ao esboço de um natural e espontâneo organismo social, no qual a força dos indivíduos converge em um bem comum: o bem-estar do indivíduo no bem-estar da comunidade”.118 Por meio de uma narrativa ficcional em que ele mesmo, Cárdias é o protagonista, em diálogo com a jovem Cecília, personagem de anseios libertários, aquele vai-lhe apresentando passo a passo os temas da teoria anarquista e, juntos, vão sonhando com a realização da experiência utópica. A originalidade de Rossi não se assentava apenas em seu projeto de socialismo experimental do ponto de vista do econômico e social exclusivos, mas no centro de sua proposta colocou a liberdade da mulher, as relações interpessoais e o amor livre. Em 1893, publicaria na Itália “Um episodio de amore libero nella colônia Cecilia”119, relatando suas experiências práticas com relação ao “amor livre” na Colônia. 3.3.1 Sobre a Icária de Etienne Cabet Em março do ano de 1847 o jornal francês “Le Populaire”, de propriedade de Etienne Cabet, lançou um apelo: “Vamos a Icária”. Esse convite recebeu uma resposta imediata das classes populares e trabalhadoras da França e em três de fevereiro de 1848 o navio a vapor Rome partiu do porto de Havre rumo aos Estados Unidos. Entre seus passageiros encontravam-se sessenta e nove pioneiros trabalhadores. Trajando túnicas de veludo preto e chapéus cinzentos, esses seriam os pioneiros que fundariam uma nova sociedade segundo a visão de seu idealizador – que ficaria na França – Etienne Cabet120. Etienne Cabet nasceu em 1788, filho de um mestre torneiro mecânico na cidade de Dijon. Exerceu o direito em Paris após o governo dos 100 dias de Napoleão Bonaparte, tornando-se um republicano radical no mesmo período. Agregou-se à Carbonaria de La Fayette, porém afatou-se por considerar as 118 ROSSI, G. Un comune socialista. Milano, 1878, p. 55. 119 Dispomos de uma tradução desta obra: ROSSI, G. Um episódio de amor livre na Colônia Cecília. Rio de Janeiro: Achiamé, 2004. 120 PETITFILS, op .cit. p127. 47 sociedades secretas ineficientes. Após o exílio do monarca Carlos X no ano de 1830 e a instauração de uma monarquia constitucional com Luis Filipe I, Etienne Cabet foi convidado por Dupont de l´Eure, ministro da justiça, a exercer o cargo de Procurador Geral do Tribunal de Recursos da cidade de Bastia. Tendo sido destituído de seu cargo por discordância com o governo francês no ano de 1831, Cabet continuou com a sua participação política ao eleger-se deputado para a “Côte-d`Or” – departamento administrativo criado durante a Revolução Francesa formado pela antiga província da Borgonha – em julho do mesmo ano. Após sua ascensão política, Cabet lançou seu próprio jornal, o “Le Populaire”, no ano de 1833, e através dele foi acusado de crime de imprensa devido suas opiniões políticas, sendo forçado ao exílio na Inglaterra no ano de 1834. Seu tempo de exílio em Londres serviu para o amadurecimento político e econômico de suas ideias e escreveu seu livro “Histoire Populaire de La Revolutión Française de 1789 a 1830”. Demonstrou ser nessa época um republicano radical e um jacobinista exaltado, profundo admirador do filósofo Jean-Jacques Rousseau, de Robespierre e dos demais membros do Período do Diretório. No ano de 1839, ele publicou “Voyages et aventures de Lord William Carisdall en Icarie”, sob pseudônimo de Francis Adams com tradução para o francês de Th. Dufruit, apesar desse livro não ter sido lançado na Inglaterra antes da França. Porém, no ano de 1842, o livro passou a ser publicado com o título mais conciso “Voyage en Icarie” e a ser assinado pelo próprio Etienne Cabet. Seu livro rapidamente foi traduzido para diversas línguas, entre elas o inglês, alemão e espanhol e adquiriu popularidade entre os trabalhadores. Cabet partiu da França para os Estados Unidos em 1848, acompanhado de cerca de 500 operários, com o objetivo de fundar uma colônia socialista. Trata-se da experiência comunitária não-religiosa de mais longa duração na história americana.121 Miguel Abensour, ao comparar os romances utópicos de Cabet e William Morris, afirma que a utopia de Cabet acaba por ditar a “verdade” (ou o que deveria ser) à práxis, enquanto para Morris haveria mais verdade em uma pequena fase, por mais modesta, da práxis, que na mais acabada e harmoniosa das utopias. A institucionalização de todos os aspectos da sociedade e a limitação das 121 LAURENT, J. O lugar da exterritorialidade. In: RODRIGUES DA SILVA, H.; KOHLER, H. Travessias e cruzamentos culturais: a mobilidade em questão. Rio de Janeiro: FGV, 2008, p.196. 48 pretensões individuais dentro do governo icariano acabaram por caracterzar este regime. A República tornou-se uma ditadura popular que, na busca do bem-comum, recorreu à autoridade para eliminar a autonomia dos indivíduos. Nesse sentido, o livro de Cabet se assemelha a uma espécie de “ortodoxia utópica” de sentido fechado. 3.3.2 William Morris e o Novo Espírito Utópico A obra de William Morris incita a repensar a relação problemática entre a forma utopia e o espírito libertário. Sua originalidade estaria no entrecruzamento da experiência estética e de sua experiência política. Morris recusa a prisão de uma dada ortodoxia utópica, mas não defende a exclusão da utopia, nem muito menos que essa exclusão subentende a oposição socialismo utópico/científico.122 Operase, no “novo espírito utópico” a um reexame da utopia, “contra o movimento que faz bascular do interior a emancipação socialista em nova forma de opressão”. Publicado em folhetim (no jornal socialista Commonweal), entre janeiro e outubro de 1890, News from nowhere instaura ou pretende instaurar uma relação diferenciada com o leitor, em oposição à forma clássica – objeto fechado – do livro. Esta forma de algum modo convida o leitor a participar da escrita da utopia. Além disso, a publicação em jornal militante direciona, evidentemente, a uma intencionalidade em relação ao público leitor. Ao contrário de Cabet, não tem intenção de informar o movimento ou criar um novo; é parte integrante do movimento, representa uma “variação utópica no seio de uma experiência comum”. A obra de Morris, segundo Abensour, define-se como uma “obra aberta, pluridimensional, composta de tal forma que permite um intercâmbio, ou melhor, convida o leitor a formar por sua vez sua própria visão de socialismo”123. Trata-se de uma troca de pontos de vista sobre a questão de saber o que se passaria no dia seguinte ao da revolução, na era de repouso. Aí residiria sua diferença em relação a Marx: para este, o reino da liberdade só poderia estar calçado no das necessidades. Morris explora o reino da liberdade sobre suas próprias bases.Também rompe com o modelo utópico ao repensar o problema fundamental 122 ABENSOUR, op.cit., p.130. 123 Ibid., p.135. 49 do trabalho, ao pensar a “era do repouso” como uma vontade de sair da esfera do trabalho. Morris, então, praticaria uma maneira de informar de acordo com a mais extrema liberdade, essência de sua visão utópica. Esta liberdade estaria na interpretação do leitor; apelo explícito à experiência direta, sua orientação para o pensamento libertário decorre justamente de seu caráter experimental: “a viagem em utopia, experiência para o narrador, torna-se em experiência para o leitor”.124 Tendo no romance a matriz de sua utopia, sua estética se relaciona ao gênio libertário pelo culto dionisíaco do maravilhoso e do fantástico revolucionários”. A diferença das utopias de Cabet e outros e W. Morris “é que não se pode extrair de News from Nowhere nenhuma doutrina, nenhum sistema socialista específico”.125 3.3.3 Romances Utópicos de Giovanni Rossi Tendemos a ver em Un Comune Socialista, de Cárdias, uma aproximação e uma semelhança com este “novo espírito utópico” de que fala Abensour. Seu romance utópico é dividido em duas partes, uma dedicada à crítica da sociedade presente, a sociedade burguesa do XIX, a outra “ao esboço de um natural e espontâneo organismo social, no qual a força dos indivíduos converge em um bem comum: o bem-estar do indivíduo no bem-estar da comunidade”.126 Por meio de uma narrativa ficcional em que ele mesmo, Cárdias é o protagonista, em diálogo com a jovem Cecília, personagem de anseios libertários, aquele vai-lhe apresentando passo a passo os temas da teoria anarquista e, juntos, vão sonhando com a realização da experiência utópica, que se concretizaria em uma cooperativa agrícola em Poggio al Mare, no litoral tirreno. A originalidade de Rossi não se assentava apenas em seu projeto de socialismo experimental dos pontos de vista do econômico e social exclusivos, mas no centro de sua proposta colocou a liberdade da mulher, as relações interpessoais e o amor livre. Em 1893, publicaria na Itália “Um episodio de amore libero nella colônia Cecilia”127, relatando suas experiências práticas com relação ao “amor livre” na Colônia. 124 Ibid., p.159. 125 Ibid., p.136. 126 ROSSI, op.cit., 1878, p. 55. 127 Dispomos de uma tradução desta obra: Id., 2004. 50 No prólogo de Un Comune Socialista, Cárdias faz uma crítica da sociedade burguesa, direcionando o discurso aos próprios alvos da crítica: “voi, borghesi, avversate contro Il socialismo, ma non sapete che cos’é”, e segue uma explanação acerca de alguns pontos da teoria socialista, como uma definição de anarquismo e a crítica da família burguesa. “Abasso ogni autorità. Che la volontà individuali si manifestino liberamente nella coletività” parece ser a expressão sintética do anarquismo de Giovanni Rossi.128 Ainda contra a autoridade, expressa o desagrado quanto à família burguesa: “L’autorità, dannosa nello Stato, è ancor più dannosa nella famiglia, sai esercitata dall’uomo sua dona, sai esercitata daí genitore sulla prole”. Rossi não condena as uniões formadas por amor, pelas quais guarda um respeito e até uma admiração, mas afirma que estes casos são uma minoria absoluta e que, na maior parte das famílias, prevalece a frieza, a indiferença, o ciúme e, consequentemente, “la prostituzione coniugale”. Defende Rossi que “l’amore sai l’único vincolo che unisca la donna all’uomo e che, questo cessato, l’unione sai cnsiderata come uma brutura morale”.129 Uma consideração de Rossi chama atenção, por ressaltar seu caráter utópico e experimentalista do qual tratamos no capítulo primeiro: o seu livro não é a defesa da Revolução, nem tampouco de uma transformação pacífica.130 Este posicionamento parece corroborar o posicionamento de Rossi alinhado aos mais antigos “socialistas utópicos”, que propunham uma inversão do mundo pela utopia. Logo entra em cena – interferindo em um diálogo do narrador-personagem com o amigo Alessandro, de quem é irmã – a personagem Cecília, com que Cárdias, na primeira parte do romance, dedicada à propaganda da colônia de Poggio al Mare, desenvolve os diálogos e troca cartas – “Sognai, Cecilia, i suoi roseti, La Rivoluzione Sociale” – em que explica seus pontos de vista acerca da futura sociedade ácrata, sobretudo as teses a respeito do amore libero. Ela é descrita e caracterizada como mulher bela, doce e jovem: “di media statura e robusta di membra, rósea di carnagione, com due begli occhi cilestri, capigliatura bionda, finíssima [...] bellezza dolcissima e soave di Cecilia”.131 Nesta descrição se afigura, discretamente, um afeto, que cresce à medida que os dois conversam e 128 Ibid., p.10. 129 Ibid., p.11. 130 Ibid., p.17. 131 Ibid., p.30. 51 trocam cartas: “Ci si amava e Il nostro affeto non diminuiva, ma ingigantiva coll’amore per l’umanità. Parlare di Socialismo, per noi era parlare di amore”.132 O argumento central de Rossi, além da crítica da propriedade privada e defesa do coletivismo – da vida em comunidades – é a destruição da família burguesa, formada não por amor, mas por interesses egoístas, e em seu lugar a reposição do amor livre e desinteressado, capaz de não se prender à tirania das obrigações do matrimônio. Acreditando nisso, e que o casamento se dissolveria assim que deixassem os laços de amor a ser os únicos elos a unir o casal, Cárdias casa-se com Cecília e parte para a atividade de divulgação e organização do projeto de comunidade. A segunda parte do “libreccino” é dedicada à exposição da futura organização da comunidade. É na questão do experimentalismo, do convite ao leitor em participar da experiência, que o romance utópico de Rossi apresenta uma aproximação com relação ao trabalho de William Morris. Também ela aparece no fato de a mulher ser personagem central. No entanto, ao apresentar detalhes da futura sociedade ácrata, que planeja colocar em prática, aproxima-se da “utopia fechada” de que nos fala Abensour. O convite se torna explícito ao final da obra, no epílogo: “Il socialismo, questa gran sintesi dell’umana filosofia, grida a tutti gli uomini di buona volontà: la semente della verità destinata a produrre La messe della giustizia è già pronta; arate Il terreno, la stagione del seminare é venuta”. 133 O outro romance utópico de Rossi que nos serve de base para as reflexões é “Un episodio d’amore nella colônia Cecilia”, de 1893. Este trabalho descreve as experiências práticas de Rossi com a questão do “amor livre” durante a existência da colônia Cecília (1890-1894) e serviu de fonte para o romance histórico de Miguel Sanches Neto, “Um amor anarquista”, de 2006. Rossi havia conhecido Adele – enfermeira, 33 anos – durante a viagem que fez para a Itália em busca de novos socialistas dispostos a viver na colônia Cecília, povoá-la e desenvolvê-la. Adele, após ouvir discurso de Rossi sobre o amor livre, tinha-lhe confessado discretamente sua adesão àquelas idéias. Ela decidira viajar ao Brasil a fim de participar da experiência ceciliana; e viera acompanhada de Aníbal. 132 Ibid., p.40. 133 Ibid., p.93-94. 52 Logo, porém, Adele se interessaria por Rossi e por sua ideia de colocar em prática, e publicamente, o amor livre – como uma experiência “científica”, a fim de que contaminasse os outros moradores. Aníbal a princípio não se oporia: “Aníbal, por sua vez, respondeu como o homem que coloca acima de suas paixões o meticuloso respeito pela liberdade feminina”.134 Em diálogo com Rossi, Aníbal diz que a liberdade deve prevalecer e ser considerada antes de qualquer coisa, mesmo que por isso venha a sofrer; Rossi responde que “infelizmente, é ainda assim a vida hoje: a felicidade de um gera a dor de outro”. A reflexão posterior de Rossi é reveladora de seu posicionamento entre a teoria e a práxis, além de sua conceituação do amor livre: Na Colônia Cecília, desde o seu início, havia sido feita a divulgação da propaganda teórica do amor livre, entendido não como união ilegal – ou casamento divorciável sem padre e sem juiz –, mas como a normalidade das afeições múltiplas e contemporâneas, como verdadeira, inquestionável e factível liberdade de amor, tanto para o homem quanto 135 para a mulher. Rossi narra, então, todas as venturas e desventuras, problemas e inquietudes, diálogos e cenas eróticas que envolveram o triângulo amoroso. Em seguida, parte para os “resultados” da experiência, comparando-os com as ideias socialistas. A grande dificuldade na aceitação do amor livre está, para ele, na opinião universalmente aceita – como um dogma – de que é impossível que vários indivíduos se amem ao mesmo tempo: “cabe aos hereges a refutação do dogma, a demonstração de que a verdade está do outro lado – amar várias pessoas ao mesmo tempo é uma necessidade da condição humana”.136 A empresa de Rossi para retirar o amor livre (múltiplo e paralelo) dos domínios do adultério, da vergonha e do ridículo não é senão “o triunfo das sagradas leis da natureza e a afirmação contundente do direito, que movem-me também a um outro fim, mais elevado e amplo: a destruição da família”. A família, para Giovanni Rossi, representa “a principal razão de ser do regime capitalista”137 e, por isso, é incompatível com a vivência socialista. Tal assertiva é baseada na experiência comunitária ceciliana: “[...] na Colônia Cecília, quase todas as 134 ROSSI, G. Uma história de amor na Colônia Cecília. In: ROSSI, G. Colônia Cecília e outras utopias. Curitiba: Imprensa Oficial, 2000, p.95. 135 Ibid., p.96. 136 Ibid., p.114. 137 Ibid., p.122. 53 dificuldades de ordem interna saíram do egoísmo das famílias, e deveriam desaparecer no amor livre”. Isso atesta a importância central para Rossi do que teria sido o principal problema enfrentado pela colônia, a ausência de mulheres e, além, a ausência de mulheres dispostas a praticar o amor livre. Em relação às mulheres, ou à posição das mulheres na vida social do período, Rossi afirma que a emancipação feminina figura em todos os manifestos socialistas, mas mais como algo ornamental e inconsequente do que como algo essencial e necessário. O mais profundo e urgente, para o autor da utopia do amor livre, seria a “destruição espontânea da família em todo programa socialista [...]. E a moral socialista deveria assimilar o amor livre, como múltiplo e contemporâneo enlace de afetos, para que fosse desejado por todos e temido por ninguém”.138 Consideramos estes romances utópicos de Giovanni Rossi como uma primeira forma de memória a respeito da Colônia Cecília, uma vez que são fontes indispensáveis ao pesquisador do tema, e formam a base das estruturas narrativas posteriores, historiográficas ou literárias, produtoras de uma Memória a respeito da Colônia Cecília. Pertencentes sobretudo ao campo das ideias, das emoções e da afetividade, nascidas da imaginação, as utopias de Rossi aderem suas raízes ao campo do literário e do ficcional. As utopias socialistas do mentor da colônia ácrata, surgindo das carências de orientação daquela realidade, informam-na no sentido de transformá-la e estimular as esperanças diante dos limites da vida. 138 Ibid., p.126. 54 4 FIGURAÇÕES LITERÁRIAS E HISTORIOGRÁFICAS DA COLÔNIA ANARQUISTA CECÍLIA “Imprimir forma numa duração, tal é a exigência da beleza, mas também a da memória”. Milan Kundera 4.1 139 HISTÓRIA E LITERATURA A década de 1980 é entendida na história das ciências humanas na França como momento de renovações epistemológicas e metodológicas. A gradual substituição do paradigma crítico estruturalista, dominante durante os anos 60/70, em parte explicada pelo período de mudança conjuntural da sociedade – marcada pela crise socioeconômica; pelas críticas externas como ao cientificismo; e também pela emergência de novos interesses, deu lugar a novas abordagens na prática historiográfica.140 A falência do antigo paradigma explicativo deixa um vazio aparente que toma ares de crise. Nessa perspectiva, ocorreram deslocamentos na prática e no discurso histórico, abandonando os grandes sistemas totalizantes e tendendo para novas correntes de pensamento, como o subjetivismo, o fenomenologismo e a hermenêutica. Subjacente às novas correntes está a revalorização do sujeito e da ação; acaba-se com a oposição binária entre indivíduo e sociedade, preferindo-se um pensamento que os relacione.141 Nesse contexto intelectual, emerge uma nova categoria de análise pelas noções de representação e interpretação, as quais possibilitam a mediação entre sujeito e estrutura, a relação entre coletividade e indivíduo.142 A essa “guinada crítica” da ciência histórica francesa na década de 1990, corresponde uma virada sobretudo no ponto de vista epistemológico: tendo em 139 KUNDERA, M. A lentidão. Lisboa: Edições Asa, 1997, p. 30. 140 RODRIGUES DA SILVA, H. As mutações dos paradigmas intelectuais na França (1945-2000): movimento de profundidade e força de modismos. In: ______. Fragmentos da história intelectual. São Paulo: Papirus, 2002b, p.41. 141 RODRIGUES DA SILVA, H. O Pensamento das Relações: Alguns exemplos nas Ciências Sociais e nos Estudos Históricos Atuais. In: ______. Fragmentos da história intelectual. São Paulo: Papirus, 2002c, p.67. 142 DOSSE, F. Questões suscitadas pela pluralidade dos modelos interpretativos em ciências sociais: a guinada interpretativa. In: ______. A História à prova do tempo. São Paulo: UNESP, 2001c, p.39. 55 vista o resgate de sua identidade própria, ela reabilita duas noções fundamentais, o acontecimento e a temporalidade – os regimes de historicidade, esquecidos durante a vigência dos Annales143. A preocupação com a epistemologia faz a história se reaproximar da filosofia. Autores como Certeau, Rancière e Ricoeur, responsáveis por uma reflexão filosófica e poética da história, tratam de questões como os modos de escrita da história, a narrativa e a subjetividade do historiador. São alternativas historiográficas diante do esgotamento da corrente metodológica dos Annales. Françoise Dosse, em A História em Migalhas (1976), reclama a perda de uma identidade própria da história, à qual fornece como alternativa a reabilitação do acontecimento; o deslocamento da noção de grupo em direção ao indivíduo; e do científico ao literário. As reflexões de Certeau e Ricoeur obrigou os historiadores a “reconhecer a pertença da história ao gênero da narração, entendido no sentido aristotélico de pôr em intriga as ações representadas”.144 Os historiadores dos Annales, que negaram a história dos acontecimentos por uma história estrutural, iram-se confrontados pelas análises de Ricoeur, em “Tempo e Narrativa”, que assevera que toda história, até a mais estrutural, está construída a partir de fórmulas que governam a produção de narrações. Nunca houvera, portanto, um abandono da narrativa que justificasse a ideia de seu “retorno”. Os historiadores, então, tomam consciência da distância que existe entre o passado e sua representação – entre o que já foi um dia e o que já não é e os discursos representativos deste passado – e se torna possível uma reflexão das características comuns a todas as espécies de narrações e as singularidades próprias às narrações históricas. Alguns historiadores, da chamada linguistic turn, como Hayden White,145 chegam a avaliar a história como uma ficção, que partilha com a literatura as mesmas estratégias e procedimentos, desenvolvendo o mesmo tipo de conhecimento que as ficções narrativas, desconsiderando que o historiador depende das fontes e dos critérios de cientificidade e operações técnicas próprios de seu ofício. Tanto a narrativa literária quanto a narrativa histórica pressupõem um processo de elaboração e estratégias de organização da realidade prefigurada, 143 RODRIGUES DA SILA, H. A Renovação historiográfica francesa após a “guinada crítica”. In: MALERBA, J.; ROJAS, A. (Orgs.) Historiografia contemporânea em perspectiva crítica. São Paulo: Edusc, 2006, p.170. 144 CHARTIER, op. cit., 2002, p.130. 145 WHITE, H. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: Edusp, 2004. 56 uma busca de coerência baseada na descoberta de laços e conexões, de relações entre as informações fornecidas pelo passado. História e literatura reconfiguram um passado. No caso da história, a reconfiguração é legitimada pelos dados fornecidos pelo passado, as fontes, além dos critérios exigentes e científicos do método que lhes garantem credibilidade e verossimilhança. À literatura, por sua vez, permite-se maior liberdade e amplitude, na medida em que foge aos condicionamentos impostos pelas fontes. Porém, enquanto a literatura visa à identificação entre o leitor e o tema, a história pressupõe um certo distanciamento crítico entre o leitor e o passado e o discurso do historiador. A história, como representação do real, constrói também o seu discurso pelo viés do imaginário. A hermenêutica de Paul Ricoeur (1913-2005), assinalando a tensão entre objetividade e subjetividade na história, corresponde a uma tentativa de se articular a explicação histórica à sua compreensão narrativa, compreendendo o acontecimento em sua trama textual. Ricoeur desenvolve vasta reflexão filosófica sobre a temporalidade histórica. O tempo histórico, para ele, seria um tempo intermediário entre o tempo cosmológico (de Aristóteles) e o tempo íntimo ou psicológico (de Santo Agostinho), e equivale à sua própria narrativa. O tempo histórico, portanto, é o tempo narrado pelos historiadores. E a narrativa constitui, então, mediação indispensável na escrita da história, capaz de articular as categorias de historicidade elaboradas por Koselleck146, os “espaços de experiência” e os “horizontes de expectativa”.147 Ao analisar o “entrecruzamento da história e da ficção”, o filósofo afirma que ambas, história e ficção, trabalham com o mesmo material: a refiguração do tempo no ato da leitura. O imaginário representaria, para Ricoeur, o ponto fundamental para a construção da história, pois para relacionar o tempo vivido ao tempo do mundo seria necessário construir conectores para manejar essa relação. É aí que o autor relembra a proximidade entre a história e a ficção, já que a “função representativa da imaginação histórica se aproxima mais uma vez do ato de se afigurar”148. Está aí, justamente, o entrecruzamento da história e da ficção, pois 146 KOSELLECK, R. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto; PUC-RJ, 2006. 147 RODRIGUES DA SILA, op.cit., 2006, p.171. 148 Ibid,. p.332. 57 ambas recorrem às mediações imaginárias na refiguração do tempo, o que justifica, por exemplo, os empréstimos tomados da literatura pela história. Ambas as disciplinas, história e literatura, concorrem para a formação de uma memória sobre a Colônia Cecília. A memória, em termos funcionais, é a capacidade de desvelar e trazer para a superfície da história tradições e vestígios culturais, talvez a capacidade psicológica mais elementar.149 Diferenciada, porém, da lembrança, memória significa “experiências ancoradas no passado e nele localizáveis [...] possui contextualidade e é possível ser atualizada historicamente [...] é uma representação produzida pela e através da experiência, um elemento de orientação sobre a experiência do passado humano”150. A tarefa do historiador consiste, atualmente, em libertar as esperanças contidas na experiência histórica do passado, ou seja, em libertar a memória. É através de uma narrativa, de uma espécie de narração da memória que essa mediação linguística se processa. A memória aproxima-se da história por sua ambição de veracidade, por uma espécie de “contrato de verdade”. Para Paul Ricoeur, a passagem da memória à história se dá pela narrativa: “pelo médium linguístico da narrativa, o qual organiza, ‘met en intrigue’, tanto as lembranças pessoais como as lembranças coletivas”. 151 4.2 HISTÓRIA: “FLORES AOS REBELDES QUE FALHARAM” Helena Isabel Mueller graduou-se em História pela Universidade Federal do Paraná (1968), fez mestrado em História na University of Pittsburgh (1971) e Doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (1990). Seu trabalho de doutoramento versa sobre as ideias utópicas de Giovanni Rossi experimentadas na Colônia Socialista Cecília (Palmeira/PR, 1890-1894) e foi publicado em Curitiba em 1999 pela editora Aos Quatro Ventos. Entre 1973 e 1995, quando se aposentou, foi professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense. Trabalhou, ainda, na Universidade Tuiuti do Paraná até 2008. Se a história é a ciência do vivido, é também a história do sonhado, do imaginado. Uma das expressões mais antigas do pensamento rebelde é a utopia e 149 DIEHL, A.A. Cultura historiográfica: memória, identidade e representação. São Paulo: Edusc, 2002, p.115. 150 Ibid., p.122. 151 RODRIGUES DA SILVA, op. cit, 2006, p.179. 58 a busca de soluções para questões sociais, embora nenhuma delas tenha se realizado concretamente, mas se materializado apenas nos escritos dos idealizadores. A utopia, na ótica da autora Helena Isabel Mueller (Flores aos rebeldes que falharam, 1999), é ruptura: “ruptura intelectual com um presente indesejado, através da descrição de um espaço onde se tornaria possível um imaginário desejado”.152 Ela pensa a utopia como uma ruptura com a própria história, no sentido de que o desejo impaciente do novo expressa-se no imaginário, onde o tempo cronológico é abolido. Além disso, a utopia é “a expressão elaborada da alteridade, é a possibilidade da diferença”. A fronteira entre o possível e o impossível, que é a utopia, é ainda veículo da expressão do imaginário, um espaço possível do desejo. 153 Ao projeto de uma sociedade futura, como arquitetada pelos primeiros utópicos modernos – Saint-Simon, Fourier, Owen –, contrapõe-se, em meados do século XIX, no contexto da Segunda Revolução Industrial, o “socialismo científico”, de Marx e Engels. O espaço dos utopistas vai-se limitando até serem lançados à margem da história. A utopia, segundo Mueller, é duplamente vencida: pelos vencedores e pelos que pensam os vencidos. Ressalte-se, contudo, a dimensão atemporal da utopia, aquilo que lhe constitui a aparência do irreal e do impossível. Para o historiador que se interessa pela utopia cabe não perguntar sobre suas possibilidades de realização, mas antes disso, como as realidades de um certo presente se traduzem nas (e através das) utopias. O eixo de análise para a autora assim se manifesta: “o fundamental é olhar a utopia como expressão das revoltas, das obsessões e dos desejos de um determinado momento, através do imaginário social cuja direção ela desvenda [...] a utopia é parte da realidade e para ela fundamental [...] seu projeto não necessariamente precisa se concretizar, a narrativa é o único nível de concretude que a utopia necessita”154 [grifo nosso]. Se antes do século XIX as utopias são estáveis e a-históricas, ideais fora do tempo, no novecentos se tornam dinâmicas e vinculadas à história: não são projetos fechados, mas propostas abertas: “de estilo literário transformam-se em 152 MUELLER, op. cit., p.122. 153 Ibid., p.9. 154 Ibid., p.17. 59 portadoras de uma incipiente filosofia da história”. O imaginário utópico aproximase da expressão do desejo coletivo, preocupado, fundamentalmente, com a felicidade, da qual está bêbedo. O tema de maior debate é o trabalho (e o prazer). A crítica marxista, porém, apropria-se da utopia, propondo que fosse eliminada da esfera do pensamento político: “[...] Estas pinturas imaginativas da sociedade futura nascem em uma época em que o proletariado, em sua infância, imagina confusamente sua própria posição. Para Marx e Engels, os utopistas tinham uma visão limitada da sociedade e não eram revolucionários, pois que pensavam acima da oposição de classes, dirigiam-se à sociedade como um todo, sem distinções, faltava para os socialistas utópicos o conhecimento da contradição entre burguesia e proletariado, e mais, a consciência de que tal contradição, expressa na luta de classes, motivava a própria dinâmica da história”. A utopia era coisa do passado e a tendência histórica era o seu desaparecimento. No entanto, não é o que acontece: “o desejo de mudança social juntamente com o imaginário coletivo que dá forma a este desejo permanecem vivos”. Não apenas sobrevive, mas transforma-se; surge o que a autora chama de um “novo espírito utópico”.155 Uma nova dimensão da utopia no século XIX é a das “utopias vividas”. São marcantes os anos de 1848 e 1871, quando a classe dominada passa a falar e a agir; a utopia não fica de fora desse processo. Neste momento, “surge a utopia socialista, rejeitada e descartada pelo socialismo marxista, mas absorvida por outro socialismo, o anarquista [...] Desta maneira, faz-se parte integrante de um movimento social; é escrita desde dentro de uma prática política156. Dentre essas utopias vividas, a de Giovanni Rossi (1856 – 1943). Após o esboço de um quadro geral do ideário e do movimento anarquista (na Itália, com a presença de Bakunin) em fins do século XIX, a autora muda o foco de análise para pensar a ruptura (não mais somente com a história, mas) através da formação de colônias experimentais, espaços de vivência anarquista dentro da sociedade capitalista. Interessa-lhe aquele “novo espírito utópico”, ou seja, a crença de que é possível, em algum lugar, a construção de uma sociedade outra, radicalmente diferente daquela em que foi pensada. 155 Ibid., p.39. 156 Ibid., p.47. 60 Rossi propõe, em diversos trabalhos, entre artigos em jornais anarquistas (Lo Sperimentale, por exemplo, jornal que funda em 1886) e pequenas publicações157 o experimentalismo (o socialismo experimental) como solução para as contradições entre teoria e prática. É esta, principalmente, segundo a autora, a base do pensamento de Rossi. A esperança de um futuro socialista está sempre presente no pensamento de Rossi, diferenciando-o dos demais utópicos: isso por sua vinculação ao movimento anarquista italiano. Antes do Brasil, Rossi vive, na Itália, uma experiência semelhante com a Associação dos Trabalhadores Agrícolas de Citadella. Aliás, a própria Itália é o ponto de referência, de partida e de chegada: a América aparece apenas como laboratório onde se realizará a experiência, ou como refúgio das massas excluídas do velho Mundo. As Américas abrem as fronteiras para essa população excluída, construindo nesse movimento migratório da segunda metade do século XIX, boa parte de sua identidade cultural. Ao realizar a colônia experimental – falamos da colônia socialista Cecília –, Rossi mantém viva a função utópica, pois não obedece a um plano mais elaborado em termos de organização senão a procura constante da liberdade. No entanto esta não se realiza, dadas as inúmeras necessidades por que passou a colônia, desde alimentação e moradia, até amor e sexo. O espaço da liberdade foi comprometido pelas necessidades.158 Concluindo, a autora afirma que “permanece vivo o mito da colônia Cecília, mantendo ativa essa função utópica”. Para nós, um objeto profícuo para se pensar as relações entre as narrativas histórica e literária, uma vez que ambos, historiadores e literatos (além de cinegrafistas, diretores de telvisão, teatrólogos), debruçaram-se sobre ela. Ainda assim, em que pese a escassez de documentos históricos relativos diretamente à colônia, permanece pairando uma neblina sobre aqueles campos de 1890, que, antes de assustar o jovem pesquisador, são a fonte de inspiração: ficção e história são as fronteiras diluídas entre aquela expressão concreta e real de uma pulsão utópica e o imaginário de uma liberdade que se acreditou possível. 157 ROSSI, op. cit., 1878. 158 Ibid., p.198. 61 No resgate proposto pela autora, do viés utópico do anarquismo, chamalhe a atenção uma contradição: “rompendo com a história, o movimento anarquista se coloca contra ela, porém não tem outro espaço para existir a não ser dentro da história. Esta ruptura, por outro lado, é que permite que dentro do anarquismo se pense em construir uma história outra. Permanece a questão: a reconciliação jamais será possível?”.159 O trabalho de Helena Isabel Mueller é, sem dúvida, dos melhores, senão o melhor trabalho acadêmico em história sobre a colônia Cecília, se se considerar, principalmente, a farta documentação a que teve acesso (não diretamente sobre a colônia, cuja documentação é escassa – mas não ausente – e problema crônico) em arquivos na Itália e na Holanda, e as análises históricas fundamentadas em extensa bibliografia específica e direcionadas por uma problemática pertinente e ainda atual, dentro das perspectivas dos interesses dos historiadores contemporâneos. 4.3 LITERATURA: “UM AMOR ANARQUISTA” Mais recentemente, foi publicado pela editora Record, o romance histórico Um amor anarquista, do escritor paranaense Miguel Sanches Neto.160 Miguel é doutor em teoria literária pela Unicamp (1998) e professor de literatura brasileira na UEPG, além de crítico literário do jornal Gazeta do Povo e da revista Carta Capital e colaborador eventual de outros veículos da grande imprensa. Em relação à historiografia, condicionada a padrões disciplinares exteriores aos autores, e legitimada pela ética profissional da ciência histórica, o romance histórico não pretende produzir verdade, mas oferece, pela multiplicidade de vozes contidas em seu interior, um efeito histórico global. O “amor livre” seria o elemento diluidor de um dos motes principais da moral burguesa a ser combatida – o casamento e a família. Giovanni Rossi, narrador-personagem, experimenta publicamente o amor livre ao compartilhar sua cama com outros jovens anarquistas. A necessidade de afeto erótico, resultado da maioria masculina, foi um dos principais problemas enfrentados pelos anarquistas no interior do Paraná. Aí temos a necessidade impondo obstáculos à utopia da 159 Ibid., p.222. 160 SANCHES NETO, op. cit., 2005b. 62 liberdade anarquista: uma realidade esquálida para quem pretendia que os filhos fossem, primeiro, filhos da comunidade, sem pais nem donos, e as mulheres sem patrão; depois, filhos do mundo, a aniquilar a família e a moral burguesas: “ao querer bem uma pessoa, o sexo com ela é mais legítimo do que com o cônjuge; no casamento, o sentido da obrigação anula o desejo”, diz Adele, personagem do triângulo amoroso, a quem corrobora e complementa Rossi: “[...] o amor livre é necessário para que a comunidade cresça dentro de seu espírito libertário, superando a organização familiar, na qual o homem faz as vezes de figura odiosa do patrão”.161 Para alguns críticos e círculos literários, o romance de Miguel Sanches Neto coloca-o como um dos grandes da prosa ficcional contemporânea, a julgar pela recepção positiva de sua obra pela crítica.162 Condição conquistada sob duras penas, já que, além das dificuldades inerentes à formação em um ambiente familiar não afeito aos livros, chegou a praticar trabalho escravo em fazenda de soja no Mato Grosso. Com inclusão, afirma que, apesar de romance histórico, Um amor anarquista tem traços autobiográficos163. O autor há anos convive com a colônia Cecília, e declarou ter trabalhado pelo menos dez anos no livro: à frente da Imprensa Oficial do Paraná, organizou a publicação de alguns escritos de Giovanni Rossi, sob título A colônia Cecília e outras utopias (2000); é amigo de um médico de Ponta Grossa, descendente dos Artuzi (integrantes do projeto experimental) que, zeloso de suas “raízes anarquistas”, também pesquisou a colônia Cecília, e quem o levou, em 1999, à propriedade em que um dia se viveu a utopia anarquista. A escolha do tema do amor livre como eixo da narrativa romanesca se deve ao fato de ser “o episódio que trazia consigo o maior grau de contradição e ousadia [...] o amor era o elemento que trazia o maior número de possíveis narrativos, além de ser um dos maiores objetivos de Rossi”.164 As mistificações em torno da comunidade ácrata, explica, são fruto de dois tipos de incompreensão, opostas diametralmente: a dos conservadores, que a viam como uma ameaça moral, e a dos ideólogos de esquerda, que a viram como “um extenso movimento 161 Ibid., p.11. 162 SABINO, op.cit., p.112. 163 RASCUNHO, Curitiba, Jun. 2009. KRAUSS, P. Uma voz sutil. Rascunho: o jornal de literatura do Brasil, Curitiba, Jun. 2009. 164 SANCHES NETO, op.cit., 2005a. 63 libertário, uma Canaã meio hippie. [...] a Cecília foi extremamente importante porque testou, no dia-a-dia, as crenças anarquistas e socialistas vigentes no final do século 19. [...] Na prática social, vários fatores desviavam os anarquistas de sua crença. Um deles é o amor romântico”165. O próprio Rossi, conforme vimos no capítulo anterior, coloca o problema da falta de mulheres e, consequentemente, de práticas do amor livre como um dos elementos diluidores da colônia Cecília. Ao anunciar publicamente a experiência de amor livre entre ele mesmo, Rossi, Adele e Aníbal, afirma que: “numa colônia em que sempre foram raras as mulheres solteiras, o amor livre é necessário para que a comunidade cresça dentro de seu espírito libertário, superando a organização familiar, na qual marido faz as vezes da figura odiosa do patrão”.166 Rossi parecia estar certo de que o grande problema da comunidade era o regime de nessidades à qual estava submetida, e que sufocavam os anseios libertários: prevalece a monotonia [...] a Colônia só será atrativa se criar entretenimento, não podendo dar certo se persistir o atual regime de trabalho. Quando nossa população crescer, haverá ócio para as artes, para a leitura, para o namoro ou apenas para contemplar entardeceres, que não nos doerão tanto, pois a solidão estará afastada e o pôr-do-sol 167 será só poesia. Defendendo a colônia da acusação de fracasso absoluto, Rossi despreza as “causas acidentais”, incidentes pessoais e particulares da dissolução para assegurar que a pobreza e o regime de necessidades as mais básicas, como a prática sexual: “gozávamos de liberdade nas nossas relações, mas faltava-nos o bem-estar material [...] contrariamente à retórica dos poetas, preferimos as rosas da escravidão aos espinhos da liberdade”.168 165 Ibid. 166 SANCHES NETO, op. cit., 2005b, p.29. 167 Ibid., p.29. 168 ROSSI, op. cit., 2004, p.86. 64 5 CONCLUSÃO À guisa de conclusão, preferimos falar em “considerações finais”, expressão mais afeita e próxima ao espírito libertário – que evita ou foge de afirmações impositivas, as quais julga autoritárias – e à hermenêutica – que, aplicada à história, argumenta em favor da pluralidade de possibilidades de sentido. No primeiro capítulo, procuramos revisitar o anarquismo e pensar o lugar de Giovanni Rossi. Da preocupação acerca do acirramento das ferramentas de controle na sociedade contemporânea é que partem nossas reflexões. Disso decorre a necessidade de orientação no presente: revisitar o anarquismo como uma teoria política plural, heterogênea, que tratou com uma importância radical o tema da liberdade. A posição fundamental de Rossi no movimento anarquista italiano é a defesa da criação de comunidades em que se vivenciaria uma outra sociedade. Rossi pretendeu, por meio da experiência, que a ideia socialista fosse levada à prática; o experimentalismo, que apresentou como solução ao impasse, foi o epicentro do qual derivou toda sua ação. Rossi, pleno de imaginação e desejo de ruptura, convida seus leitores a participar, com ele, de uma experiência de vida socialista. No segundo capítulo, dedicado à utopia vista como em primeiro plano uma manifestação literária, discutimos a crise de que ela se tornou refém no século XX e a necessidade de se repensar a utopia como um fator de inspiração cultural, elixir da esperança e da vida cultural, segundo as sugestões de Jörn Rüsen. Procuramos entender as ficções utópicas de Giovanni Rossi, que as assina sob pseudônimo Cárdias, em comparação com as utopias de Etienne Cabet e William Morris. Este último – de acordo com as análises de Miguel Abensour sobre “o novo espírito utópico” – teria produzido uma obra aberta, de caráter experimental, enquanto aquele, uma utopia clássica, de sentido fechado, unívoco e autoritário. Rossi estaria mais próximo de William Morris, ao produzir uma utopia em que convida os leitores a tomar parte em suas idéias e experiências. A originalidade de Rossi não se assentava apenas em seu projeto de socialismo experimental dos pontos de 65 vista econômico e social exclusivos, mas no centro de sua proposta colocou a liberdade da mulher, as relações interpessoais e o amor livre. No terceiro capítulo, procuramos, por fim, compreender como as narrativas historiográficas e literárias constroem uma memória sobre o tema. Sua memória é construída pela história tanto quanto pela literatura, por aquilo que elas têm em comum: a centralidade da narrativa. A hermenêutica de Paul Ricoeur, assinalando a tensão entre objetividade e subjetividade na história, corresponde a uma tentativa de se articular a explicação histórica à sua compreensão narrativa, compreendendo o acontecimento em sua trama textual. Helena Isabel Mueller afirma que “permanece vivo o mito da colônia Cecília, mantendo ativa essa função utópica”. Para nós, tratou-se de um objeto profícuo para se pensar as relações entre as narrativas históricas e literárias, uma vez que ambos, historiadores e literatos, debruçaram-se sobre ela. Ficção e história são as fronteiras diluídas entre a experiência concreta de uma pulsão utópica e o imaginário de uma liberdade que se desejou realizar. A tarefa do historiador consiste, atualmente, em libertar as esperanças contidas na experiência histórica do passado, ou seja, em libertar a memória. 66 FONTES CABET, E. Travels In Icaria. New York: Syracuse University Press, 2003. MORRIS, W. Notícias de lugar nenhum. São Paulo: Perseu Abramo, 2002. ROSSI, G. (Cárdias). Colônia Cecília e outras utopias. Curitiba: Imprensa Oficial, 2000, Col. Brasil Diferente. ______. Un comune socialista. Milano, 1878. ______. Um episódio de amor livre na Colônia Cecília. Rio de Janeiro: Achiamé, 2004. 67 REFERÊNCIAS ABENSOUR, M. O novo espírito utópico. Campinas: Unicamp, 1990. ANARQUISMO. In: BOBBIO, N. et al. 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