GEOGRAFIAS DA NOITE
FAZER GEOGRAFIA ATRAVÉS DA LUZ
Teresa Alves
CEG
Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa
Alameda da Universidade
Faculdade de Letras
1699-214 LISBOA
Tel. 21 792 00 00
e-mail: [email protected]
Palavras-chave: paisagens nocturnas, luz/iluminação, planeamento, cultura, cidadania
0. Introdução
A Geografia tem como objecto de estudo os processos que explicam a diversidade das paisagens
urbanas e regionais. Ao longo dos tempos privilegiaram-se as abordagens centradas no estudo das
paisagens que emanam da luz natural. As paisagens nocturnas merecem a nossa atenção quando
revelam algo de particular - a beleza da mancha resultante da iluminação, um vulcão em
actividade, uma trovoada, um período festivo com muita luz, como as luzinhas de Natal, um fogo
de artifício ou as fogueiras dos Santos Populares - ou seja, quando acontece algo que contraria a
escuridão e cria um acontecimento com luz. Só muito raramente procuramos desfrutar a noite em
busca da escuridão e, mesmo assim, o que queremos realmente são as condições ideais para
podermos apreciar o luar ou o brilho das estrelas. A importância da luz no nosso imaginário é tal
que raramente conseguimos beneficiar plenamente de outras paisagens que não sejam as visuais.
Das paisagens dos sons e dos cheiros só muito raramente se fala e, ainda menos, se desfruta.
Recentemente, começaram a surgir abordagens centradas no estudo das paisagens nocturnas, ou
seja, aquilo que se poderá designar de geografia da noite. Com esta comunicação pretende-se
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contribuir para a discussão do papel da luz natural e artificial na construção das paisagens
nocturnas. Enquanto a luz do dia nos proporciona muita informação, as paisagens nocturnas
nascem, acima de tudo, da nossa imaginação. Interpretamos as paisagens nocturnas por
fragmentos e substituímos os “buracos negros” onde não conseguimos ver nada por elementos
gerados pela nossa imaginação. A luz da noite transfigura, põe em relação ou separa, delimita e
organiza, dissimula ou mostra. A luz artificial é um instrumento privilegiado para prefigurar um
lugar ou um uso, para dar sentido a um território ou ajudar a descobri-lo.
A luz natural e a iluminação artificial, para além de funções como a segurança e o dar
visibilidade, assegurando uma melhor leitura do espaço, têm um papel, cada vez mais importante,
no lazer, na criação de bem-estar e na possibilidade da apropriação nocturna do território. De que
modo a luz pode contribuir para os processos de segregação e de inclusão em termos espaciais?
Como é que a iluminação está a ser incorporada no urbanismo? Como é que a luz pode ser um
instrumento de gestão da organização do espaço?
Outra questão fundamental é o desperdício de energia que ocorre na larga maioria das iniciativas
relacionadas com a luz artificial. Como é que o planeamento pode contribuir para um uso
racional da energia? Como pode ajudar à redescoberta da noite e do céu nocturno? Como é que
pode valorizar o contraste entre luz e sombra? O fundamental para um território e para as pessoas
que nele vivem não é a quantidade de luz, mas a sua qualidade.
Por fim abordaremos a questão da luz e do espaço público. Hoje considera-se que o território, e,
em particular, os espaços públicos veiculam um sentido, valores de uso, memórias, sensações,
nomeadamente, estéticas. Surge assim uma reorientação das intervenções de luz no sentido de as
colocar ao serviço das pessoas (do seu conforto, do seu prazer e, porque não, dos seus medos)
revelando presenças, magnificando espaços, formas e materiais, permitindo uma apreensão
diversa dos lugares e dos eventos que aí se desenrolam, contribuindo para a criação de fortes
laços de identidade entre as pessoas e os lugares onde habitam.
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1. O urbanismo e a iluminação
No imaginário popular a noite esteve sempre associada a todos os perigos - insegurança,
criminalidade, desconforto... Até à vulgarização da iluminação, assim que o Sol desaparecia, as
pessoas refugiavam-se em casa. Os espaços públicos só eram usufruídos após o pôr do Sol
quando a luz artificial, como uma fogueira, ou a luz natural, o luar, o permitiam.
A primeira cidade do mundo a ter iluminação pública com base na electricidade foi Birgminghan
no Reino Unido, nos anos 30 do século XVIII. As primeiras experiências de iluminação com
electricidade em Paris foram em 1844 com a iluminação do obelisco de Luxor na Praça da
Concórdia.
Em Portugal a iluminação pública surge em 1780, em Lisboa, com o governo de Pina Manique, e
utilizava o azeite como combustível (Serrão, 1979). Em 1848 foram introduzidas as primeiras
luminárias a gás. Em 1878 surgiram as primeiras experiências com a electricidade, que só passa a
ser utilizada sistematicamente em 1929. Em termos regionais os contrastes foram muito
acentuados até à 2ª metade do século XX. A introdução da electricidade na iluminação pública da
cidade do Porto ocorreu apenas em 1924 e nas outras cidades o processo foi ainda mais tardio.
Em muitas áreas rurais a electricidade só chegou após o 25 de Abril de 1974. A taxa de 95% de
cobertura da população residente com a distribuição de electricidade só foi atingida nos anos 80.
Ainda hoje continua a haver população rural sem acesso a este serviço, uma vez que devido ao
isolamento o custo da instalação da rede pública é muito elevado e ninguém o quer ou pode
suportar.
Com o desenvolvimento da iluminação pública e, particularmente, com a difusão da
electricidade, os modos de vida das populações mudaram radicalmente. Gradualmente o
quotidiano deixou de ser ditado pela sucessão do dia e da noite e foi-se ajustando mais à
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necessidade da sequência das tarefas e das funções. O sistema económico, na busca de maior
eficácia e maior rendibilidade, utilizou a luz artificial para prolongar a jornada de trabalho,
estendendo-a pela noite dentro, ao mesmo tempo que anulou as variações sazonais. A circulação
à noite nos espaços públicos tornou-se mais segura devido à iluminação e ao facto de haver mais
pessoas nas ruas, o que deu uma nova vida a estes espaços.
Em termos territoriais, todavia, a segregação acentuou-se. A iluminação pública não chegou a
todos os sítios ao mesmo tempo, nem com a mesma qualidade. Nas cidades as ruas tidas como as
mais importantes foram iluminadas, mas as áreas habitadas pelas pessoas com menos recursos
continuaram na escuridão por muito mais tempo. O contraste veio tornar estas áreas ainda mais
repulsivas, mais perigosas, mais inquietantes e menos confortáveis.
A iluminação começou por ter apenas funções de visibilidade e de segurança, assegurando uma
melhor leitura do espaço à noite. Foi na Exposição Mundial de Paris de 1900 que, pela primeira
vez, a luz vai surgir associada ao lazer, à criação de prazer e de bem-estar (Narboni, 2003a), à
possibilidade de uma apropriação nocturna da cidade por todas as pessoas. A noite continuava a
despertar medos, mas devido a uma série de mudanças sociais e culturais deu-se início a uma
nova etapa: a noite passa a estar associada também a aspectos positivos (Paquot, 2000). É o
tempo de descanso, do lazer e da possibilidade de usufruir o tempo fora do trabalho.
As primeiras iluminações dos espaços públicos surgiram por iniciativa de famílias abastadas que
iluminavam os espaços em redor das suas casas (Serrão, 1979). A iniciativa do desenvolvimento
da iluminação pública, em Portugal, resultou de decisões do poder político, mas exploração foi
entregue a empresas privadas (Serrão, 1979). A luz fascinava a iniciativa privada, não só pelos
lucros, mas também como símbolo de poder.
Durante os anos 20 e 30 do século XX, nos países mais desenvolvidos, para além da iluminação
das ruas, avenidas e praças, generalizou-se a iluminação de edifícios como os teatros, os cinemas
e os grandes armazéns, que assim se tornavam conhecidos e ganhavam prestígio (Narboni,
2003a). Rapidamente a luz transformou-se num instrumento que permitia dar outro tipo de
visibilidade, o que passa a estar em questão não é a segurança, mas o ser reconhecido, a luz passa
a dominar as campanhas de publicidade. Em 1925 a Citroen afixou o seu nome em letras
luminosas sobre a Torre Eiffel (Narboni, 2003a). A publicidade, através dos anúncios luminosos
começa a transformar de forma radical a imagem das grandes cidades. Na antiga Europa de Leste
as cidades eram “tristes” porque lhes faltava a animação resultante da publicidade, da sinalética e
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do grafismo urbano dos anúncios luminosos. Em Junho de 1990 o sinal mais imediatamente
visível da queda do muro, em Berlim, era, precisamente, a instalação de grandes anúncios nos
prédios das principais praças da parte Leste da cidade.
A iluminação efémera de espaços públicos, para celebrações, foi utilizada desde cedo. Em
Portugal e noutros países por ocasião de momentos festivos (por exemplo casamentos ou
nascimentos régios) organizavam-se grandes festas em que o ponto alto ficava associado a
manifestações de luz em espaços públicos, dos arcos iluminados aos fogos de artifício. Em
Strasbourg, em 1918, a catedral foi iluminada com holofotes do exército para comemorar o
armistício (Gwiazdzinski, 2000). Assim, e após um período em que o que imperou foi a escuridão
para evitar os bombardeamentos, a luz surgia como uma forma de afirmar a liberdade de ver e
poder ser visto.
As iluminações festivas com carácter permanente só vão surgir mais tarde. Por ocasião da
exposição internacional de Paris, em 1937, foi inaugurada a primeira iluminação permanente da
Torre Eiffel. Mas foi, sobretudo, após a 2ª Guerra Mundial que se consolidou a tendência de
embelezamento permanente da cidade através da luz, afirmando e consolidando a sua visibilidade
(Narboni, 2003a). As inovações técnicas associadas à produção e distribuição ao permitiram
baixar os preços da electricidade tornaram possível tais mudanças. As transformações políticas
permitiram executá-las. Na maior parte dos países europeus, e na sequência da 2.ª Guerra
Mundial, a produção e distribuição de energia ficou a cargo de grandes empresas nacionalizadas,
pois havia a perspectiva que só nestas condições seria possível atingir os grandes objectivos
económicos e sociais da reconstrução. A iluminação pública mais que um meio económico para
fazer lucros, passa a ser um bem social que deveria ser colocado ao serviço de toda a sociedade.
Até aos anos 60 o desenvolvimento da iluminação pública fez-se sem planificação, não
respondeu a qualquer estratégia definida previamente (Narboni, 2003a). O objectivo era iluminar
os espaços públicos, ruas, avenidas ou praças, e o património construído de modo a que as
pessoas pudessem ver e ser vistas, revelando os objectos, as formas ou os percursos, criando um
sentimento de segurança e de conforto, permitindo uma apropriação nocturna da cidade. As
intervenções limitavam-se à escolha das luminárias e do tipo de lâmpadas (Narboni, 2003a).
Como a oferta era pouco variada a iluminação tendia a uniformizar a paisagem nocturna, não
respeitava a diversidade dos sítios, nem o espírito dos lugares.
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Para Roger Narboni (2003b) os primeiros estudos que podem ser considerados formas de
planeamento da iluminação pública surgiram com o plano director de ordenamento e urbanismo
da Ile-de-France (1964-65). Este plano interveio a uma escala regional e decidiu o surgimento de
5 cidades-novas em torno de Paris. Nos estudos prévios que planearam esta mudança da estrutura
urbana ficou definido que havia necessidade de hierarquizar, diferenciar, estabelecer tipologias de
iluminação em função das características do uso das vias de comunicação. Estabelece-se, assim,
pela primeira vez uma diferenciação no tipo de iluminação conforme as vias se destinavam a
peões ou a automóveis. A luz passava a ser um instrumento que poderia ser utilizado no
planeamento territorial.
2. A iluminação como instrumento de planeamento territorial
No início dos anos 80, em França, uma reestruturação do poder político descentralizou para as
autarquias locais poderes que permitiam aos presidentes das maires intervirem na gestão da
iluminação dando-lhes, portanto, capacidade de decidir sobre as novas instalações de luz
(Narboni, 2003a). Estas mudanças foram determinantes em termos da evolução dos conceitos
relacionados com a iluminação pública. Já não bastava escolher luminárias e lâmpadas, o
urbanismo passou a contar com um novo instrumento: a luz artificial. A iluminação deixa de ser
considerada como um equipamento que se escolhe por catálogo e passa a ser tratada como um
elemento do projecto urbano contribuindo, de uma forma decisiva, para o ordenamento dos
territórios, para o desenho de espaços urbanos geradores de qualidade de vida para as populações
que aí habitam.
Esta fase vai ser marcada decisivamente por intervenções inovadoras que dão à noite uma nova
dimensão. A noite transforma-se na paleta onde se criam paisagens nunca vistas, autênticas obras
de arte. De entre estas intervenções podemos salientar: o plano de luz para o parque de La
Villette (Georges Berne, 1982) que introduziu o conceito da pluridisciplinariedade no
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planeamento da utilização da luz e que criou um espaço que revolucionou a percepção ao criar
duas paisagens a diurna e a nocturna; a renovação da iluminação da Torre Eiffel (Pierre Bideau,
1986) que aplicou o conceito desenvolvido por Yann Kersalé da luz ao sair de dentro da torre, de
modo a revelar a estrutura, criando uma perspectiva completamente diferente do objecto; o
concerto para o Papa de Jean Michel Jarre em Lyon (1986) que criou uma paisagem nocturna que
apelava a todos os sentidos e que abrangia toda a cidade; e a obra de Yann Kersalé no Grand
Palais (1987) onde as luzes vibravam e palpitavam ao ritmo do relógio do Observatório
Astronómico, revelando um potencial simbólico nunca visto.
No fim dos anos 80 têm início os primeiros Esquemas de Ordenamento da Luz, em cidades
francesas e do Reino Unido (Major, 2003). Em 1992 surge o primeiro plano para a iluminação
fora da Europa, em Singapura, mas concebido por uma equipa coordenada por especialistas
franceses (Narboni, 2003a).
A problemática da luz começa a abordar questões que vão muito para além do dar visibilidade
aos objectos. A luz urbana deixa de se limitar aos domínios do património construído e passa a
abarcar novos espaços, nomeadamente, as grandes paisagens, como aconteceu com o projecto do
Ruhrgebiet, na Alemanha. Surge uma reflexão prospectiva sobre o papel que a luz deve ter na
imagem, na paisagem e na ambiência nocturna das cidades. A luz pode dar sentido a um lugar,
dar-lhe um novo valor de uso.
As mudanças de filosofia na iluminação acompanharam as mudanças do discurso urbano. Para
Laurant Fachard (2003) estas mudanças resultaram do facto de se ter passado a considerar a
arquitectura e os espaços públicos como veiculadores de sentido, de valores, nomeadamente,
estéticos. Assistiu-se, assim, a uma reorientação das intervenções de luz no sentido de as colocar
ao serviço das pessoas, revelando presenças, magnificando espaços, formas e materiais, mas
permitindo uma apreensão multivariada dos lugares e dos eventos que aí se desenrolam. A luz
passa a desempenhar novos papéis, nomeadamente, pode contribuir de uma forma decisiva para a
criação de laços de identidade entre as pessoas e os lugares onde habitam. Para Laurent Fachard a
iluminação deveria deixar de ser pública para se tornar cidadã, porque a iluminação é, sem
dúvida, uma das grandes conquistas sociais do século XX.
Em simultâneo com este processo de afirmação da iluminação, assistimos a uma tomada de
consciência ecológica sobre o desperdício de energia que ocorre na larga maioria das iniciativas
relacionadas com a luz - devido à poluição luminosa os EUA enviam para o céu 110 milhões de
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dólares por ano; a mancha luminosa emitida por Lisboa é superior à de Madrid, devido ao
ineficiente uso da luz. Esta tendência ao chamar a atenção para o desperdício de energia veio
reorientar o planeamento da luz no sentido da redescoberta da noite e da obscuridade. Isto não
significa um retrocesso da importância da iluminação, mas pelo contrário o reafirmar do poder
simbólico que pode estar subjacente a intervenções de luz. Toma-se consciência que a luz só é
espectacular se emanar da escuridão, para tal torna-se necessário revalorizar o contraste entre luz
e sombra. Dominar a luz abre a possibilidade à descoberta de novas paisagens sonoras,
olfactaltivas, mas também visuais, nomeadamente, as decorrentes da luz artificial, mas também
as que resultam da luz natural do céu nocturno (luar e estrelas), dos vulcões e das trovoadas. Os
principais planos de ordenamento da luz tornam-se em planos de obscuridade (Narboni, 2003a).
O exemplo de Stromboli, nas Ilhas Eólicas, em Itália, é paradigmático: para que as pessoas
pudessem desfrutar do espectáculo do vulcão, em contínua actividade, a autarquia desligou a
iluminação pública. A experiência é inesquecível pela beleza das explosões, que só assim pode
ser apreciada, mas também pelo estímulo a todas as outras paisagens dos sentidos: cheiros, sons,
paladar, tacto…
Nos últimos anos o tema "luz" passou a ser preocupação no planeamento urbano e na definição
da imagem das cidades. Alguns municípios, em Portugal, procuraram desenvolver planos-luz
para o seu território ou pelo menos para as principais concentrações urbanas. Estes planos
estabelecem, em linhas gerais, a diferenciação e a hierarquia das intensidades luminosas em
termos funcionais e da importância dos símbolos a iluminar. A tendência é, todavia, para a
uniformização das soluções, esquecendo a valorização das especificidades e das dinâmicas de
cada lugar. Na iluminação dos monumentos é bem patente este processo, a utilização de
lâmpadas semelhantes fazem com que todos os castelos, todas as catedrais, todos os edifícios
relevantes sejam profusamente iluminados, com luzes mais ou menos amarelas, mas sempre com
uma intensidade exagerada que esmaga as formas e não revela a diversidade dos materiais.
Um projecto de luz deve contribuir para ajudar a identificar lugares essenciais, como nós, portas,
rotundas, pontos de referência, locais onde é necessário tomar decisões de orientação ou que
ajudam a criar um referencial que permite identificar o território. A luz pode dar coerência
territorial a um espaço fragmentado pelo crescimento urbano desordenado, através de uma
mudança de cor ou de um elemento de arte de luz podemos compreender que mudados de
concelho, de freguesia ou de localidade. A iluminação pode contribuir para diminuir barreiras
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topográficas, como as margens de um rio, uma colina, uma via de comunicação, facilitando a
leitura do território. A utilização de diferentes tipos de iluminação para prefigurar diferentes
tipos de usos do espaço (residencial, comercial, lazer, transportes, etc.) ajuda a identificar a
estrutura urbana e aumenta a rapidez e a capacidade de dominar ou conhecer um dado território.
O conhecimento do território é um factor estratégico na resolução dos problemas de insegurança.
Mais do que a quantidade de luz que se coloca no espaço público é a qualidade dessa luz, através
da capacidade de nos transmitir informações, que permite alcançar objectivos como a segurança
e o conforto, que por sua vez são elementos estratégicos da vivificação dos espaços públicos.
3. Utilizar a luz artificial como um utensílio na criação de paisagens
A luz artificial tem a capacidade de dramatizar os espaços, de valorizar o carácter heróico das
construções, de magnificar estruturas, de revelar materiais, de gerar uma identidade global ao
mesmo tempo que pode estimular a diversidade criando ambiências diferentes de um lugar para
outro. O que há de semelhante, e ao mesmo tempo de diferente, entre os centros históricos das
principais cidades europeias é que o ambiente criado pela iluminação dos espaços públicos nos
permite ler e dominar rapidamente os aspectos essenciais de territórios até há pouco
desconhecidos, mas a utilização de diferentes opções técnicas e estéticas permitem criar situações
bem diversificadas. Veja-se o exemplo da Grand Place de Bruxelas, onde se optou apenas por
uma iluminação pública limitada, que permite revelar as belíssimas fachadas pelo contraste com
as iluminações específicas de alguns edifícios, quer pela luz que sai de dentro das cervejarias e
dos restaurantes. A obscuridade que reina nesta praça só a enaltece e serve ao mesmo tempo para
estimular a animação nocturna.
Outro caso é do Bairro de Montmart em Paris onde a par dos esforços dos comerciantes para
chamar a atenção para os seus estabelecimentos com iluminações muito exageradas, nalguns
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casos agressivas, se procura criar ambientes intimistas, onde reina uma certa obscuridade e donde
é possível desfrutar plenamente o espectáculo das luzes na Cidade Luz.
No núcleo antigo de Edimburgo a luz dos projectores que iluminam as fachadas é suficiente para
garantir uma iluminação geral considerada razoável e favorece os edifícios cujo valor estético se
deseja pôr em destaque.
Em Nápoles pelo contrário, a ausência de uma política concertada de iluminação dos espaços
públicos conduziu à proliferação caótica de projectores colocados pelos comerciantes que assim
pensam defender o seu património. A recuperação da Spaca Nápoles – o núcleo antigo e pobre do
centro da cidade - continua comprometida, favorecendo ainda mais a proliferação das actividades
ilícitas. Ao mesmo tempo, o facto da praça em frente da Estação Central ser um dos poucos sítios
com muita iluminação promoveu a concentração dos sem-abrigo, gerando paisagens de extrema
miséria quer de dia, quer de noite. As consequências em termos de ambiência nocturna da cidade
são desastrosas, levando a uma segregação espacial cada vez mais acentuada.
A luz renova o olhar pois torna visíveis aspectos desconhecidos, altera as formas dos edifícios e
territórios, modifica as percepções diurnas dos espaços e edifícios, desmaterializa superfícies e
cria novas sensações. Quando à noite chegamos ao cimo da Serra da Gardunha e podemos
alcançar com a vista, em toda a sua extensão, a Cova da Beira estamos perante uma paisagem que
dificilmente reconhecemos como a que podemos observar durante o dia. À noite a imensidão de
luzes faz-nos crer que estamos perante uma enorme área metropolitana, com densidades
apreciáveis de construção e de ocupação. De dia verifica-se que o povoamento é disperso, com
núcleos urbanos bem consolidados como o Fundão ou a Covilhã, mas a paisagem continua a ser
dominada por extensas áreas rurais.
A cidade de Istambul está rodeada de extensas áreas de construções, mais ou menos precárias,
onde habitam milhões de pessoas que nas últimas três décadas chegaram à cidade em virtude de
um fenómeno de intenso de êxodo rural. De noite, estas áreas parecem imensas árvores de natal,
com luzinhas que brilham de uma forma encantadora. Quando amanhece e deparamos com o
espectáculo da pobreza e da miséria destes bairros, compreendemos como a beleza do contraste
entre a escuridão e a luz, pode alterar radicalmente a leitura da paisagem.
A importância da luz artificial na reconstrução de cidades, como Beirute (Líbano) e Ho Chi Minh
(Vietenam) destruídas pela guerra, ficou patente no estudo desenvolvido por Combarel (1995).
Na ausência da recuperação da iluminação pública, foram os anúncios luminosos que ao criarem
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espaços agradáveis durante a noite conseguiram recriar os lugares sociais onde as pessoas se
reuniam e conviviam. A paisagem de ruínas, insuportável durante o dia, transformava-se à noite
através da iluminação proporcionada pelos anúncios, numa paisagem virtual, agradável que foi
permitindo uma certa regeneração da vida urbana.
A capacidade plástica da luz artificial é um instrumento de transformação dos territórios e de
construção de novas paisagens urbanas. Las Vegas é o paradigma da cidade definida pela lógica
da sinalética e da comunicação gráfica baseada em instalações de luz. Cidade onde a noite é o
momento alto da actividade económica, a luz cria e recria paisagens hollyodescas que atraem à
cidade milhões de visitantes.
Em Nova Iorque a beleza da sky line de Manhattan resulta de milhões de pontos luminosos
criados pela textura das janelas que se destacam em contraste na paisagem, mas também pela
heterogeneidade dos topos dos arranha-céus que identificam os edifícios numa espécie de
competição. Recentemente o edifício da CNN na Times Square transformou-se no centro de uma
nova experiência urbana. Na fachada os anúncios e os sinais deram lugar a placas de pixels que
combinam as propriedades da televisão, dos monitores dos computadores e dos grandes ecrans de
cinema e permitem, com base nas tecnologias informáticas mais recentes, transformar a paisagem
a uma velocidade nunca vista. Para Gandelsonas (2003) na Times Square o espaço urbano
adquiriu as propriedades dos médias, folheia-se como uma revista, pode-se fazer zapping como
na televisão ou surfar como na Internet. O simbolismo da luz na sociedade americana ficou bem
patente quando, para comemorar o primeiro aniversário do 11 de Setembro, se optou pela
singeleza e, ao mesmo tempo, pelo magnífico espectáculo de dois imensos focos na direcção do
céu.
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A luz pode dar sentido a um lugar, dar-lhe um novo valor de uso. A obra de Yann Kersalé Nuit
des Docks (Saint-Nazairé, 1989) constitui um marco na história da utilização da luz como um
utensílio para requalificar um território. Através de uma intervenção de luz um espaço até aí
ignorado pelos habitantes, o porto e a antiga base de submarinos, passou a ser um lugar para ver e
ser mostrado aos visitantes, reconciliando as pessoas com o seu território (Kérsalé, 2003).
Rurgebiet (Alemanha) é um projecto de transformação cultural de uma região em que a luz é um
dos instrumentos estratégicos (Alves, 2004). O Ruhr é uma antiga região industrial em crise: com
graves problemas sociais, nomeadamente, uma alta taxa de desemprego (a última mina a encerrar
em 2003 criou 5500 novos desempregados); com graves problemas ambientais (poluição sonora,
visual, águas e ar). O desafio era transformar uma região repulsiva num espaço agradável para
viver e num potencial destino turístico. O objectivo era mudar a paisagem, mas sem terem de se
submeter à lógica do crescimento económico. A opção foi modificar radicalmente a paisagem
através da valorização do património, recuperando o sentimento de pertença, encorajando a
apropriação dos antigos espaços industriais pelos habitantes, promovendo o desenvolvimento de
serviços culturais. O instrumento fundamental foi a luz artificial. O resultado final foi a
transformação das velhas estruturas industriais, responsáveis pelo mau nome da região, em obras
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de arte, fontes de uma nova imagem e de novos simbolismos, capazes de novas utilizações e
destinadas a públicos variados.
Conventry foi uma cidade medieval muito rica, mas o património edificado foi destruído com os
bombardeamentos da 2ª Guerra Mundial. Nos anos 80, a cidade entra em crise com o
encerramento das grandes unidades ligadas às indústrias do automóvel; acentuam-se os
problemas sociais, como o desemprego e a criminalidade. A consciência colectiva dos habitantes,
a ligação afectiva à cidade ficou muito fragilizada. O poder político consciente dos problemas e,
particularmente de como a cidade era desagradável à noite, resolveu intervir. Após conhecer
outras experiências decidiu que um projecto de iluminação ambicioso poderia fazer a diferença e
poderia contribuir de uma forma decisiva para o processo de revitalização urbana. Através de um
estudo minucioso identificaram-se quais os pontos que mereciam um tratamento particular, não
só os principais monumentos da cidade; mas todos os outros elementos que tornassem a cidade
mais legível. À medida que o projecto foi desenvolvido os técnicos foram discutindo as propostas
com o poder político, mas também com os habitantes de Conventry e com os agentes
económicos. E incorporaram as sugestões, recusando sempre ter uma atitude que não fosse de
quem estava ali para trocar/partilhar experiências. O sucesso do projecto resultou sobretudo das
acções de concertação (Major, 2003). A dinamização do espaço urbano foi complementada com
acções de animação que favoreceram o tecido económico mais tradicional, mas também
permitiram o desenvolvimento de uma economia ligada ao turismo.
4. A arte da luz
Um outro domínio em que a luz desempenha um papel central é na criação de eventos culturais
que podem dinamizar a vida nocturna dos espaços públicos. São particularmente conhecidas as
acções de marketing territorial – promover territórios através de eventos de luz - como a Festa da
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Luz de Lyon, a Nuit Blanche de Paris ou o Christmas Tree Festival de Genéve. Este verão
decorreu Luzboa 04, primeira bienal da luz em Lisboa. O objectivo destes eventos é criar registos
artísticos, associando a arte e a cultura, de modo a criar acções de animação em espaços públicos.
A Festa da Luz em Lyon nasceu a partir da tradição de uma procissão de velas no dia 8 de
Dezembro e como componente efémera do plano de luz implementado depois de 1998. Os
artistas são convidados a intervir criando obras de luz que são exibidas durante as três noites do
Festival. Na maior parte dos casos são peças efémeras, pura experimentação, mas nalgumas
situações acabam por se traduzir em instalações permanentes como a que requalificou um dos
bairros mais degradados da cidade. A presença de milhares de pessoas no centro da cidade, em
2003 terão chegado ao milhão de pessoas numa só noite, impõe a necessidade de criar percursos
que obrigam as pessoas a circular entre as várias instalações. Procura-se, por outro lado, que as
pessoas não sejam meros espectadores, mas participantes activos no evento. A Fête des Lumières
2003 produziu obras com dispositivos relacionais, criando contextos de convivialidade em
inúmeras circunstâncias, como no caso da obra de Ron Haselden que projectava em laser os
nomes que as crianças escreviam, ou os milhares de velas nas janelas, como uma imensa
instalação interactiva à escala da cidade, construída por intermédio da Internet.
Nuitblanche é um evento que dura apenas uma noite, mas que movimenta milhões de visitantes.
Instalações que se caracterizam pela espectacularidade ou pela singeleza, fazem as pessoas
deambular pela cidade de Paris durante toda uma noite.
No Christmas Tree Festival de Genéve os artistas “vestem” as árvores da cidade, criando obras
sugestivas e originais árvores de Natal.
Luzboa é um evento cultural dedicado aos temas da luz e da iluminação em contexto urbano, com
relevo para uma programação de arte contemporânea internacional, iniciativas culturais e
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animação urbana. Dedicar uma grande iniciativa urbana ao tema da Luz assenta na ideia de que a
luz e a iluminação são factores de realização humana e urbanidade. De qualidade de vida. No
campo da luz, discursos e saberes pluridisciplinares, com destaque para a ciência e a tecnologia
aplicadas na cidade e em prol do bem público, têm à sua frente todas as oportunidades e
possibilidades de desenvolvimento.
Foram três os domínios de acção do evento de 2004: i) arte contemporânea como motor de
imagem urbana, realização de projectos nacionais e internacionais de arte contemporânea em que
a Luz seja a pedra-de-toque de fenómenos de comunicação geradores de identidade, magia e
riqueza visual; ii) desenho urbano de luz, acções de desenho urbano exemplares, visando a
renovação simbólica e ambiental da capital, integrando preocupações de qualidade vivencial; iii)
Bienal da Luz nas grandes rotas culturais, assegurar a ritualização de uma bienal internacional,
integrando a capital nas rotas internacionais do turismo cultural e contribuindo para uma autoimagem positiva e integradora de Lisboa e Portugal.
Nos eventos de luz em espaço urbano, a luz é, por assim dizer, o pretexto e o leit-motiv para uma
redescoberta do espaço urbano, das suas virtualidades e das suas potencialidades. A Cultura
torna-se estruturante e a Arte um acontecimento de comunicação. Também um território de
experimentação colectiva, de debate e diálogo, em rara fusão de públicos.
CONCLUSÕES
A luz artificial pode ser um instrumento de transformação dos territórios contribuindo para a
construção de novas paisagens:
•
intervindo na requalificação dos espaços, criando ambientes adequados à funcionalidade:
15
:: ao iluminar edifícios pretende-se revelar o património construído remarcável,
dar-lhe uma outra leitura, valorizando pormenores, materiais, por vezes dar-lhe
mesmo uma outra materialidade,
:: quando se iluminam espaços públicos conviviais, parques ou jardins, o objectivo
é dar-lhes vida torná-los funcionais durante a maior parte do dia, mas ao mesmo
tempo torná-los calorosos e atractivos,
:: quando se iluminam espaços comerciais ou de lazer as ambiências procuram ser
festivas, alegres,
:: quando se iluminam pontos altos, como torres, depósitos de água, pretende-se
criar um referencial para assinalar o território e ajudar na orientação;
•
invertendo situações negativas, promovendo planos de iluminação para valorizar espaços
em dificuldade;
•
criando sentimentos de pertença, de conhecimento dos lugares, dando novos sentidos para
a apropriação dos territórios: promovendo uma leitura clara do território, separando o tipo
de iluminação de acordo com as tipologias de uso, utilizando as mudanças da luz para
orientar;
•
valorizando o património construído ou o património natural criando novas percepções,
mas nunca perdendo a noção da necessidade de coerência entre a iluminação pública e as
iluminações artísticas;
•
criando objectos de arte qualificadores dos territórios;
•
produzindo marketing territorial – promover territórios através de eventos de luz –
criando registos artísticos, associando a arte e a cultura.
O trabalho com a luz tem a dupla qualidade do imediatismo e do custo, pois um efeito, uma dada
imagem pode ser obtida mais rapidamente e com menor custo do que uma intervenção sobre o
material. Os centros comerciais, com uma arquitectura medíocre, que são transformados através
da luz, provam que o virtual, o encenado pode tomar o lugar do real, do espaço vivido. Não
devemos correr estes riscos.
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