As histórias em quadrinhos (HQ’s) na formação dos professores de Ciências e Biologia
As histórias em quadrinhos (HQ’s) na formação dos
professores de Ciências e Biologia
Comics in the training process of Science and Biology teachers
Melchior José Tavares Júnior*
Universidade Federal de Uberlândia
Resumo
O objetivo desse texto foi refletir sobre HQ’s como recurso didático no
Ensino de Ciências e Biologia. Da experiência como docente do curso
de Ciências Biológicas, ministrando a disciplina Metodologia de Ensino
desde 2009, inferimos que as HQ’s podem ser úteis na Educação, os
futuros professores aprovam sua utilização, proporiam que seus alunos
elaborassem suas próprias HQ’s. Alertamos para a adequação conceitual,
pois a utilização da HQ pressupõe uma correção absoluta, salvo nos
casos em que o professor deseje comparar ao conceito adequado; para
a linguagem, uma vez que muitos cartunistas utilizam uma linguagem
chula em suas produções; para a imagem, pois os autores constroem
personagens que não são facilmente identificados como pessoas ou
são animais desconhecidos; para os valores, pois os quadrinhos podem
emitir juízos particulares dos autores.
PALAVRAS-CHAVE: Histórias em quadrinhos; Ciências Biológicas; Formação de professores.
Abstract
The aim of this paper was to reflect on comics as a teaching resource in
the Science and Biology teaching. From the experience as a professor
in the Biological Sciences course, which we worked in the Teaching
Methodology subject since 2009, we infer that comics can be useful in
education, the future teachers approve its using and they would propose that their students draw up their own comics. We alert to the conceptual adequation, because the use of comics presupposes an absolute
correction, unless in the cases in which the teacher wishes to compare
the appropriate concept; for language, considering that many cartoonists use a foul language in their productions; for the image, because
the authors build characters that are not easily identified as persons or
they are unknown animals; for the values, because comics can show
particular judgments from the authors.
KEYWORDS: Comics; Biological Sciences; Teacher Training.
educação | Santa Maria | v. 40 | n. 2 | p. 439-450 | maio/ago. 2015
ISSN: 0101-9031
http://dx.doi.org/10.5902/1984644414164
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Melchior José Tavares Júnior
Introdução
Atualmente, as histórias em quadrinhos (HQ’s) fazem parte do cotidiano
das pessoas. Estão nos jornais, nas revistas, nos livros, na internet, nas provas do vestibular tradicional, nos concursos públicos e até no Exame Nacional do Ensino Médio
(ENEM). Na medida em que foram capazes de evidenciar aspectos da sexualidade, da
alimentação das pessoas, do vocabulário social, dos meios de transporte, da religiosidade e das questões éticas, as HQ’s foram se constituindo como um veículo que retrata a
arte e a cultura de uma determinada sociedade. Guimarães define as HQ’s como uma,
forma de expressão artística que tenta representar um movimento através do registro de imagens estáticas. Assim, é História em
Quadrinhos toda produção humana, ao longo de toda sua História,
que tenha tentado narrar um evento através do registro de imagens,
não importando se esta tentativa foi feita numa parede de caverna
há milhares de anos, numa tapeçaria, ou mesmo numa única tela
pintada. [...]. Engloba manifestações na área da Pintura, Fotografia,
Desenho de Humor como a charge e o cartum, e até algumas manifestações da Escrita. (GUIMARÃES, 1999, p. 12).
Destacamos duas formas assumidas por este tipo de comunicação, a saber,
as histórias completas, na forma de revistas ou livros, e as curtas histórias, as chamadas tirinhas, tiras ou historietas. Conforme Carvalho e Martins (2009), as tirinhas, geralmente com três quadros, surgiram pelo pouco espaço disponível nos jornais americanos do
início do século passado. No Brasil, destacamos o considerável espaço ocupado pelas
tirinhas nos jornais A folha de São Paulo e o Zero Hora, de Porto Alegre/RS. Nos
Jornais locais, as historietas vêm sendo produzidas por autores regionais e nos parecem
potencialmente educativas, embora o espaço conquistado seja tímido e as publicações
ainda em preto e branco podem não chamar a atenção do leitor professor.
Assumindo as HQ’s como uma expressão artística contextualizada à nossa época, capaz de exercitar a criatividade e a imaginação da criança, por meio de
uma linguagem dinâmica (BIBE-LUYTEN, 1984), consideramos que estas podem
ser importantes na educação formal, como recurso didático com potencial capaz de
dar suporte às diversas disciplinas escolares, de maneira interdisciplinar, reflexiva e
prazerosa (HANZE, 2006). Nessa direção, concordamos com o pensamento de Giesta
(2002, p. 165), ao afirmar que as HQ’s podem “servir aos professores como recurso a
ser utilizado em sala de aula, em tarefas de casa, oportunizando a análise e a reflexão
acerca das temáticas abordadas”. Por outro lado, apesar das HQ’s já serem recomendadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), no volume dedicado à Língua
Portuguesa (HANZE, 2006), sua legitimação na escola ainda é tímida, talvez pela
predominância de uma forma exclusiva de leitura, conforme nos alerta Bruzzo (2002).
Neste texto, buscamos refletir sobre os limites e as possibilidades das HQ’s
como recurso didático no Ensino de Ciências e Biologia. O lugar de onde pensamos é
o da docência no curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Uberlândia
(UFU), no qual ministramos a disciplina Metodologia de Ensino, desde 2009. Nessa
disciplina, trabalhamos as HQ’s tanto como um recurso que o futuro professor pode
apresentar aos alunos na sala de aula como um objeto a ser elaborado pelos próprios
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estudantes da Educação Básica, no desenvolvimento de conteúdos de Ciências e Biologia.
Apresentaremos, inicialmente, alguns elementos da trajetória das HQ’s no
Brasil, enfatizando aqueles que contribuíram para a relação Quadrinhos-Ciência no
século passado e início do atual. A seguir, buscamos refletir sobre o foco das pesquisas
que abordam HQ’s no ensino de Ciências e Biologia. Por fim, à luz dessas considerações históricas-conceituais, tecemos as nossas, a partir de nossa experiência com o
tema.
A trajetória das HQ’s no Brasil: abrindo caminhos para o
ensino de Ciências e Biologia
As primeiras obras publicadas na forma de HQ’s ocorreram no final do
século XIX, porém, só se efetivaram no Brasil no início do século seguinte, com a
publicação, em 1905, da revista em quadrinhos O Tico-Tico. Em 1960, a editora Ebal
lançou dois volumes de História do Brasil em quadrinhos. Desde então, essa forma de
“narrativa quadrinizada” (CIRNE, 1975) ocupou-se principalmente de temas muito
específicos de nossa cultura, sobretudo pelo viés da história do descobrimento do Brasil1, da escravatura2, das guerras enfrentadas pelo país3, o que chama a atenção para a
riqueza oferecida à disciplina História. Em 1970, Antônio Luiz Cagnin publica um
livro que se tornou uma referência sobre a linguagem dos quadrinhos dentro de processos narrativos.
A identificação das HQ’s com a educação científica ocorre desde 1950, com
o lançamento das revistas Ciência em quadrinhos e Enciclopédia de Quadrinhos. Em
1959, Ziraldo lança a revista Pererê, com ênfase na cultura popular e na fauna brasileira.
Em 1990, uma publicação da editora Abril, intitulada Proteus - A aventura da ciência
em quadrinhos, responde ao momento histórico da disciplina Ciências que, nessa época,
buscava no aluno o desenvolvimento do futuro cientista e a valorização do pensamento científico e da Ciência. Essa publicação era caracterizada por aventuras de ficção
científica em quadrinhos e também perguntas e respostas sobre os temas envolvidos.
As HQ’s respondem, atualmente, a outros anseios, e os desenhistas buscam
provocar a sociedade para uma reflexão crítica, sobretudo quando tratam de temáticas
como a saúde, a sexualidade, o controle de natalidade, o preconceito com a terceira idade, a higiene, o consumo de drogas, a domesticação dos animais e a questão ecológica,
sendo esta última o carro chefe das mais recentes publicações em quadrinhos, chegando a tornar-se objeto de investigação acadêmica (GIESTA, 2002). Como exemplos
dessa tendência, destacamos a Reciclagem em quadrinhos, publicada em 1995 pela editora Casa da Qualidade, apresentando a maneira correta de se praticar o 3R (Redução,
Reutilização e Reciclagem), a série Ecologia em Quadrinhos, publicada em 1992 pela
editora Brasiliense, e os gibis do personagem Chico Bento, desenvolvido por Maurício
de Souza e publicado pela editora Globo. Conforme Danton (1997), essa reorientação
dos quadrinistas também implicou numa visão mais crítica sobre a Ciência, especialmente em relação à questão da ética no fazer científico.
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Esses investimentos, ao longo do século XX, podem ter contribuído para o
deslocamento das HQ’s de uma condição marginal para uma maior valorização como
recurso didático no início desse século, tanto para o ensino de Ciências como de outras
disciplinas. Nos dias atuais, iniciativas bem sucedidas como o Gibiozine4, uma revista de histórias em quadrinhos para divulgação de conceitos científicos, desenvolvida
desde 2007 por graduandos do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal
de São Carlos (UFSCar), bem como o estabelecimento de eventos acadêmicos, como
as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, podem consolidar esse reconhecimento da potencialidade didática das HQ’s. Inserimos, também, nesse panorama,
livro de Marcos Caruso e Cristina Silveira, intitulado Questões ambientais em tirinhas,
publicado em 2007; bem como o livro de Flávio de Almeida, intitulado Darwin no
Brasil, publicado em 2009, que retrata de forma não professoral a passagem do famoso
naturalista pelo Brasil, especialmente Rio de Janeiro e Recife.
Finalmente, a perspectiva Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) também
pode ter contribuído para a valorização das HQ’s no Ensino de Ciências e Biologia, na
medida em que contribui para que os conteúdos tradicionais possam ser abordados de
modo a inserir o aluno numa dimensão mais crítica da realidade.
As HQ’s no ensino de Ciências e Biologia: qual o foco das
pesquisas?
As pesquisas em HQ’s são recentes no Brasil. Para Vergueiro, a academia
nacional sempre foi refratária à legitimação desse objeto de pesquisa. Para o autor:
Os intelectuais universitários sempre tiveram uma ressalva quanto
aos produtos de massa. Levaram um certo tempo para aceitar os
meios de comunicação de impacto mundial incontestável, como o
cinema ou o rádio, e para acreditar que pudessem representar um
objeto de estudo digno dos bancos acadêmicos ou que pudessem
oferecer como resultado verdadeiras obras de arte. (VERGUEI-
RO, 2005, p. 15).
Atualmente, as HQ’s vêm sendo estimuladas por eventos como a Jornada
Internacional de Histórias em Quadrinhos, promovida bianualmente pela Universidade de São Paulo (USP), desde 2011. Note-se o registro na página do evento:
As Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos têm como principal proposta servir de ponto focal para as pesquisas sobre histórias em quadrinhos produzidas em diferentes regiões do país e também no exterior. O congresso acadêmico,
ao mesmo tempo em que dá visibilidade a tais estudos, contribui para promover
um intercâmbio de conhecimento entre os temas abordados e seus respectivos autores.
Dentre os eixos temáticos do evento citado, encontramos um intitulado
Quadrinhos e Educação, seção onde os artigos relacionados ao ensino de ciências e
Biologia encontram-se publicados. Sobre esses artigos, o tema saúde parece ser o foco
dos pesquisadores.
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Destacamos o trabalho de Adriana Couto Pereira Rocha (2011), intitulado
Saiba mais: a Turma da Mônica como material paradidático para o ensino de Ciências. O
estudo procura analisar o material exibido na coleção Você Sabia?/Saiba Mais, de Maurício de Souza. Conforme a autora,
O presente estudo conclui avaliando o material adequado para o
uso como recurso paradidático, com algumas ressalvas a respeito
dos referidos equívocos presentes ao longo das histórias, aos quais o
professor deve permanecer alerta, e sugere que o material passe por
uma revisão mais cuidadosa de modo a aumentar sua credibilidade
e suas possibilidades de adoção no ensino de ciências. (ROCHA,
2011, p. 59).
Outro trabalho apresentado no mesmo evento, e que destacamos aqui, é o
de Roberto Elísio dos Santos e Deise Cavignato (2011), intitulado HQ e saúde: o uso
das histórias de Maurício de Sousa na prevenção de doenças e promoção da saúde. O estudo
da coleção Educar para Prevenir ressalta a importância da utilização das HQ’s no processo educativo: “A partir da análise preliminar realizada nas histórias em quadrinhos
elaboradas por Mauricio de Sousa e sua equipe, pode-se considerar que essas narrativas têm o mérito de tratar de doenças e sintomas para leitores que não teriam outra
forma de obter essas informações” (SANTOS; CAVIGNATO, 2011, p. 67).
Outros estudos também vêm sendo desenvolvidos com o foco na saúde,
queremos destacar a pesquisa de Cabello; La Roque; Souza (2010). Os autores perceberam que as HQ’s facilitaram a aprendizagem dos alunos da 5ª e 6ª séries sobre o
tema Hanseníase. Conforme os autores, “as respostas dos alunos são descritas e discutidas, mostrando que uma história em quadrinhos pode ser bem utilizada como
material educacional para questões de saúde” (p. 225).
Outros temas também vêm sendo foco de pesquisas sobre as HQ’s no ensino de Ciências e Biologia. Chamamos a atenção para o estudo de Carvalho e Martins
(2009), no qual foi possível perceber que as HQ’s contribuíram de forma positiva
para o ensino dos conteúdos força da gravidade, estrelas, satélites e raios no Ensino
Fundamental.
Nessa mesma direção, destacamos alguns dos livros publicados na série
Quiósque, alguns deles resultado de pesquisa acadêmica, que relacionam HQ’s com a
Ciência. São eles Ciência em Quadrinhos, de Gian Danton (2005), que aborda as descobertas científicas nas HQ’s, sua evolução e antecipações; Watchman e a teoria do Caos,
do mesmo autor, que aborda a obra prima de Alan Moore sob o prisma da teoria do
caos; O rasgão no real, de Bráulio Tavares, que aborda a metalinguagem como discurso
da ficção científica.
Além do tema Saúde, Astronomia, Ciência e Divulgação científica, entendemos pertinente o registro da pesquisa de Lilyane Ramalho Cordeiro, realizada em
2006, intitulada Limites e Possibilidades das Histórias em Quadrinhos como mediadora de
Educação Ambiental. Como trabalho de conclusão do curso de Especialista em Ensino
de Ciências, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, esse estudo investigou 344
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tirinhas do site oficial da turma da Mônica, buscando aquelas potenciais para a Educação Ambiental. Conforme a autora:
A partir da análise quantitativa de 344 tirinhas foi verificado que 12
delas (3,49%) apresentaram temas referentes às questões ambientais
e que este número aumentou para 24 (6,98%) após uma análise
qualitativa, onde foi levada em conta principalmente às características dos desenhos, postura e condutas dos personagens, etc. Com
isso, foi possível concluir que as histórias em quadrinhos são uma
boa ferramenta para a prática de educação ambiental, embora tenha sido verificado uma baixa incidência de tirinhas relacionadas às
questões ambientais. E ainda, seu uso vai depender da observação
e análise por parte dos leitores assim como dos educadores que as
utilizem para suas práticas pedagógicas. (CORDEIRO, 2006, p. 11).
Outro trabalho com foco ambiental foi a pesquisa de Silva; Mata; Oliveira
(2011), que investigou a potencialidade das HQ’s na aprendizagem sobre o tema poluição, com 28 alunos do ensino Fundamental de uma escola pública. Para os autores:
As HQs motivaram os alunos a participar da aula, aproximou a assunto do cotidiano dos estudantes, facilitou a discussão acerca do
tema favorecendo a reflexão, o questionamento e consequentemente
proporcionou ao aluno participar ativamente da aula, construindo
o conhecimento de maneira mais significativa. (SILVA, MATTA,
OLIVEIRA, 2011, p. 01).
Para concluir esse tópico, nos alinhamos ao pensamento da pesquisadora
Mariana Pizarro (2009), segundo a qual os conceitos da ciência, presentes nas HQ’s,
podem contribuir para o ensino da disciplina escolar, ainda que o professor precise
ficar atento aos ajustes que se fizerem necessários.
As HQ’s na formação inicial: a ação e a reflexão sobre a
ação
Desde 2009, quando assumimos a disciplina Metodologia de Ensino, componente obrigatório do curso de Ciências Biológicas da UFU, decidimos pela abordagem das HQ’s no planejamento da disciplina. Essa decisão partiu do princípio que
a Biologia a ser ensinada na escola não precisa ser tradicionalmente chata, maçante,
descontextualizada, cheia de nomes e tabelas para serem decoradas (PENA, 2003;
FERNANDES, 1998). Além da dimensão lúdica, o outro suporte para a abordagem
das HQ’s foi o princípio da operacionalidade dos conteúdos ou a “aula operatória”
(RONCA; TERZI, 1995). Para esses autores, os processos de ensino devem ser organizados de forma que os alunos, de posse de determinados conceitos, possam ser capazes de lidar com a realidade, de resolver questões, o que se dá pela operacionalização
desses conceitos. Assim, entendemos que as HQ’s oportunizam desde o contato com
o conteúdo até sua mobilização, na medida em que o estudante cria sua própria tirinha.
Temos organizado a abordagem das HQ’s em quatro momentos.
No primeiro, oferecemos a cada graduando três folhas de papel, nas quais
se encontravam 24 tirinhas numeradas. Para cada uma das tirinhas, os graduandos são
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convidados a buscar conteúdos de Ciências e Biologia, cujo ensino pode ser facilitado
por aquela tirinha. Entretanto, não buscamos apenas o ensino de alguns conteúdos
possíveis, queremos também alertar os alunos para a presença intencional ou não de
determinados aspectos como o racismo, o sexismo, as questões relativas à religião e
classe social. Nesse momento inicial, procuramos situar esse recurso didático como
sujeito à ação do professor, como exemplo, não se constranger em usar o corretivo
para retirar um par de patas de determinado inseto, afinal, pode vir a ser estratégico
em determinado momento da prática docente. Voltando à atividade, analisamos a primeira tirinha com os alunos, os quais passam a ter aproximadamente 30 minutos para
analisar as demais. Após esse período, discutimos cada uma das tirinhas com a turma,
em função do que nos interessa abordar em cada uma delas, conforme mencionado anteriormente. No segundo momento, que ocorre de forma não presencial, informamos
aos alunos que devem visitar pela internet os projetos Oficina de Educação através de
Histórias em Quadrinhos (Eduhq) e Gibiozine, que propõem aos alunos a construção de
HQ’s de próprio punho. Nessa atividade não presencial, os graduandos devem estimar
se, na condição de professores de Ciências e Biologia, proporiam aos alunos a elaboração de HQ’s para abordagem dos conteúdos da disciplina. Os graduandos entregam
essa atividade por escrito e, num terceiro momento, discutimos o panorama dessas
respostas com a turma. O quarto momento constitui-se no oferecimento aos alunos de
cinco textos disponibilizados no e-mail da disciplina, nos quais se encontram artigos
com resultados de pesquisa sobre HQ’s no ensino de Ciências e Biologia.
À luz dos referenciais apresentados anteriormente, as considerações a seguir
são resultado de nossa reflexão na ação e sobre a ação (SCHÖN, 1992), no que diz
respeito à abordagem das HQ’s na disciplina Metodologia de Ensino, nos últimos cinco
anos.
Os conteúdos biológicos das historietas
Em contato com as HQ’s, os alunos e as alunas do curso de Ciências Biológicas tiveram poucas dificuldades para identificar os conceitos biológicos envolvidos
nas historietas. Essa observação nos tranquiliza e nos leva ao encontro de Durham
(2006), ao afirmar que o ensino de Ciências pressupõe que o professor possua um
domínio básico de conteúdos específicos dessa área de conhecimento. Por outro lado,
a imediata rejeição aos erros conceituais presentes nas tirinhas irritam os graduandos.
Lembramos-nos do estudo de Gonçalves e Machado (2005), que chamam a atenção
para os erros conceituais presentes em HQ’s, os quais podem ser úteis ao professor
na mediação entre o senso comum e o científico. Outro aspecto que vem chamando
nossa atenção é o fato dos alunos terem menor domínio dos conteúdos de botânica
do que os de Zoologia, Ecologia ou Genética, fenômeno recorrente, conhecido como
“cegueira botânica” (WANDERSEE; SCHUSSLER, 2001). Destacamos também que,
enquanto nosso vocabulário conceitual sempre se remete à expressão já transposta didaticamente e presente nos sumários dos livros didáticos, o vocabulário conceitual dos
alunos sempre se remete ao conteúdo biológico, apreendido nas disciplinas específicas
do curso.
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Sobre as personagens das historietas
Durante a avaliação das tirinhas como objetos com potencial educativo, observamos que os graduandos encontram dificuldade em entender o comportamento
das diversas personagens criadas pelos cartunistas, bem como não identificam de imediato que se trata de determinado animal ou uma pessoa. No início do trabalho com
as HQ’s, estimamos que esse estranhamento era decorrente do desconhecimento das
personagens e que, portanto, poderia ser superado. Entretanto, nos anos que se seguiram, observamos, à semelhança de Bruzzo (2002), que o antropomorfismo presente nas
tirinhas incomoda os jovens biólogos, o que pode se constituir em um obstáculo na
opção das HQ’s para utilização pedagógica pelos futuros professores. Por outro lado,
os estudos clássicos de Tamir e Zohar (1991) evidenciaram que o antropomorfismo
não perturba os estudantes do Ensino Médio. Conforme os autores, “a maioria entende a diferença entre explicação biológica e explicação antropomórfica” (p. 05). Essa
contraposição aponta para a relevância de novas investigações no campo da educação.
Os conteúdos atitudinais das historietas
Menos explícito, mas não menos importante, os futuros professores demonstraram grande dificuldade na percepção dos juízos de valores muito particulares,
emitidos pelos autores das HQ’s. Note-se que as HQ’s não são elaboradas com fins de
educação; nós que elegemos algumas, por seu potencial pedagógico. De fato, observamos que aspectos como racismo, sexismo e questões relativas à religião e classe social,
abordadas de forma inoportuna e deselegante, por vezes passavam despercebidas pelas
análises dos alunos, que focavam apenas os conteúdos de Ciências e Biologia presentes
na tirinha. Esse olhar objetivado dos graduandos é compreensível, mas deve chamar
nossa atenção os conteúdos informais presentes nas historietas, sob pena da tirinha
ser excluída da prática pedagógica do professor, em face de seu desserviço educacional.
Essa postura rigorosa e estrita em relação ao conhecimento biológico e tecnicista em
relação aos aspectos pedagógicos pode ser resultado da profunda influência da formação específica que antecede às disciplinas pedagógicas, aspecto já evidenciado em
outras pesquisas (TAVARES JR., 2005). Atualmente, temos avaliado produções paradidáticas cuja finalidade educacional já filtra essas abordagens inapropriadas, como é
o caso de Darwin no Brasil.
Elaboração das HQ’s pelos alunos da Educação Básica
Ao longo dos últimos cinco anos, atuando como docente da disciplina Metodologia de Ensino, observamos que 90% dos graduandos consideram viável a elaboração das HQ’s pelos alunos da escola básica, com fins de contribuir para a aprendizagem dos conteúdos de Ciências e Biologia. Chama a atenção esse percentual em face
das considerações anteriores, que apontam para limites e cautela na abordagem desse
recurso didático. Os argumentos apresentados pelos alunos foram de que essa atividade coloca os estudantes numa posição ativa e divertida em relação ao conhecimento,
diminuindo o cansaço das aulas expositivas. Para muitos graduandos, a elaboração das
HQ’s provoca o desenvolvimento de habilidades, bem como promove a interação entre
os colegas, por isso mesmo deve ser bem monitorada pelo professor da disciplina. Por
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outro lado, alguns poucos citam que a atividade pode ser até inviável, pois os alunos
que não sabem desenhar podem rejeitar o exercício e até se constrangerem. Outro limite, ainda que raramente mencionado, é a necessidade de muito tempo na elaboração
das tirinhas. Na medida em que não vem sendo possível a elaboração das HQ’s pelos
próprios graduandos, ficamos sempre a ponderar sobre o espaço das HQ’s em uma
disciplina de formação docente, como a Metodologia de Ensino.
Conclusão
Trabalhando com as HQ’s na disciplina Metodologia de Ensino, percebemos
que as mesmas podem ser bastante úteis para o Ensino de Ciências e Biologia, devendo ser contempladas na formação dos professores dessas disciplinas. Note-se, porém,
que o entusiasmo pelo tema deve ser acompanhado de moderação e investigação sobre
o que ocorre, de fato, na apropriação desse recurso didático pelos futuros professores.
Assim, apropriar-se das HQ’s na qualidade de recurso didático requer nossa atenção para aspectos básicos, a saber: (1) a adequação conceitual, pois a utilização
didática da HQ pressupõe uma correção absoluta, salvo nos casos em que o professor
deseje utilizar como parâmetro de comparação em relação ao conceito adequado; (2) a
linguagem, uma vez que os muitos desenhistas utilizam uma linguagem chula em suas
produções, e a imagem, pois os autores constroem personagens que não são facilmente
identificados como pessoas ou são animais desconhecidos; (3) os valores, pois os quadrinhos podem emitir juízos muito particulares dos autores.
Entendemos que essas provocações são novos objetos que surgem após uma
fase de consolidação das HQ’s como recurso didático e devem, portanto, ser objetos de
investigação científica, cujos resultados, esperamos, possam contribuir para a formação
docente nos cursos de licenciatura em Ciências Biológicas.
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Notas
1
A grande Viagem, publicada pela editora FTD, em 1999.
2
Casa Grande & senzala, publicada pela editora Ebegraph, em 2001.
3
Adeus, Chamingo Brasileiro: Uma história da guerra do Paraguai, Editora Cia das letras, 1999.
A revista eletrônica, atualmente com ISSN, pode ser acessada pelo endereço eletrônico: <http://www.
ufscar.br/fotografia/gibiobanca.php>. Acesso em: 22 abr. 2014.
4
* Professor doutor da Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, Minas Gerais, Brasil.
Correspondência
Melchior José Tavares Júnior – Av. Mato Grosso 806 / Apt. 102, Bairro Nossa Senhora Aparecida, CEP:
38400-724 – Uberlândia, Minas Gerais.
E-mail: [email protected]
Recebido em 29 de maio de 2014
Aprovado em 09 de março de 2015
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