I SIMPÓSIO INTERNACIONAL DO NÚCLEO DE PESQUISA EM PINTURA E ENSINO – NUPPE Instituto de Arte / Universidade Federal de Uberlândia – IARTE/UFU MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 10 a 13 de setembro de 2012, Uberlândia – MG – Brasil A POÉTICA DA RUÍNA: Uma reflexão sobre a matéria pictórica e a passagem do tempo Dayane de Souza Justino1 Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal de Uberlândia PALAVRAS CHAVE: Ruína / matéria /pintura/ passagem do tempo A tópica da passagem do tempo aqui abordada parte da noção sobre a poética da ruína situada no âmbito da linguagem da pintura contemporânea, traçando diálogos a partir do campo matérico sob diferentes camadas de significados e memória. Sentidos do tempo evidenciados em uma produção poética pessoal e nas obras de artistas, que de algum modo, articulam referenciais do passado indo além dos sistemas tradicionais de representação. A imagem pictórica da ruína como eixo norteador de análise, a observação das permanências, usos e ressignificações, implica indiretamente uma idéia de crise, declínio, estruturas incertas, indefinidas, inacabadas, um processo ativo de onde surgem novas maneiras de investigar o fazer no tempo e o fazer do tempo, formas de ruinismos sobre as quais se fundamentam nossa pesquisa e reflexão da pintura no cenário contemporâneo da arte. KEYWORDS: Ruin / material / paint / passage of time 1 Graduada em Artes Plásticas (Licenciatura e Bacharelado) pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Mestre pelo Programa de Pós Graduação em Artes na linha Fundamentos e Reflexões (UFU) com a dissertação "Ruínas da cor: poéticas pictóricas do tempo". Desenvolve pesquisa teórica e prática, sobretudo obras pictóricas e processo de formação e transformação da matéria. Endereço para acessar este CV: http://lattes.cnpq.br/5108526476416061 MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 Uberlândia – MG – Brasil The topic of the passage of time approach the notion of the poetics of ruins located within the language of contemporary painting, through dialogues material from the field in different layers of meaning and memory. Sense of time evidenced in a personal and poetic works of the artists who somehow articulate benchmarks of the past beyond the traditional systems of representation. The pictorial image of the ruin as a guideline for analysis, observation stays, uses and new meanings, implies indirectly an idea of crisis, decline, structures uncertain, undefined, unfinished, an active process where there are new ways to investigate the time and make the time, forms of ruinismos which are based on our research and reflection of painting in contemporary art scene. * No cenário artístico atual evidencia-se a independência e a variedade de meios e dispositivos que ampliam as possibilidades poéticas, o que contribui com o pensamento de que a temporalidade tornou-se fundamental para compreendermos não só os processos e práticas pictóricas, mas também os diálogos que ressoam entre diferentes épocas e artistas. Captar as frequências emitidas pelo tempo e descobrir como expressá-las poderia então ser o modo como cada artista, a partir das suas experiências e escolhas, passou a contribuir com o seu tempo. Voltando o olhar mais especificamente para as obras pictóricas, percebemos que os sentidos do tempo se articulam por referenciais do passado que vão além dos sistemas tradicionais de representação, suscitando questões ligadas de maneira intrínseca aos modos matéricos e/ou conceituais acerca da passagem do tempo. A investigação sobre a tópica do tempo aqui abordada parte de uma produção poética pessoal iniciada ainda no ano de 2002, com o objetivo de explorar empiricamente as possibilidades da limalha de ferro como matéria pictórica sob a ação e reação do tempo. Tais experimentos colaboraram na elaboração de uma série de trabalhos que constituem a pesquisa “Entre fragmentos: uma materialidade MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 Uberlândia – MG – Brasil oxidante na simbologia da imagem” 2 seria então o inicio para a construção de uma iconografia de criação plástica alicerçada na cumplicidade entre a apropriação de elementos formais arquitetônicos e a exploração de processos transformacionais da natureza matérica. (Figura 1 e 2). FIGURA 1- JUSTINO, Dayane. “Sem título”. 2004. Limalha de ferro e cimento sobre tela 0,80 x 0,90 cm. FONTE: Acervo particular da artista. 2 A pesquisa em poética visual intitulada “Entre Fragmentos: uma materialidade oxidante na simbologia da imagem” situa-se no campo da pintura não-convencional, visando discutir acerca da influência de formas simbólicas no imaginário contemporâneo e em minha construção plástica, partindo do contexto arquitetônico barroco numa análise formal e iconológica de elementos como: o arco e a voluta, evidenciando o diálogo pictórico entre a expressividade matérica oriunda do óxido de ferro e outros materiais. JUSTINO, D. Entre Fragmentos: uma materialidade oxidante na simbologia da imagem. 2004. Trabalho de Conclusão de Curso de Licenciatura e Bacharelado em Artes Plásticas. Universidade Federal de Uberlândia. MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 Uberlândia – MG – Brasil FIGURA 2 – JUSTINO, Dayane. “Sem título”. 2004. Limalha de ferro e cimento sobre tela sobre tela 1,00 x 0,90 cm FONTE: Acervo particular da artista. A natureza matérica é potente, versátil, ambígua, limitadora e ao mesmo tempo cheia de possibilidades aparentemente submissas aos desejos do artista. A matéria impede e permite num movimento extremamente ativo de ação e reação, chegando ao ponto de transgredir o não permitido. A presentificação da matéria em camadas de acúmulos e deteriorações nos revela um deslocamento simbólico baseado em experiências interligadas a distintas temporalidades, apontando para a existência de um fluxo contínuo que condensa camadas de presente, futuro e passado. A matéria é o fluxo contínuo da realidade ou da existência: quando o que não é – o futuro – faz-se matéria, transforma-se no que foi – o passado. Pode-se dizer que a matéria é o puro presente; mas o que é presente senão o instante inapreensível, inexistente em que a espera (ou expectativa) do futuro torna-se memória (ou saudade) do passado? (ARGAN, 1992, p.617). As ideias acerca da natureza transicional do tempo foram expressas de diferentes formas ao longo da história em torno de perspectivas biológicas, culturais, religiosas e filosóficas que envolveram um sentido de continuidade humana MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 Uberlândia – MG – Brasil relacionada à sucessão de diferentes estados de percepção. Uma consciência que estaria ligada a nossa própria memória, às nossas experiências e aos processos históricos responsáveis pela construção de registros visuais e a noção de representação, seriam então imagens que passariam a construir nossas matrizes de classificações e julgamentos sobre a realidade humana (CHARTIER, 2009, p.51). Apegados a esse sentido de duração e sobrevivência do passado no presente nos deparamos com uma vida contínua pertencente à memória que a torna testemunha da simultaneidade das percepções temporais. As formas representativas são como células vivas da história e da construção de significados que emergiram principalmente na linguagem da pintura. Imagens do tempo que de algum modo estão comprometidas com a transmissão de impulsos históricos, artísticos, temáticos, religiosos e alegóricos na tradição pictórica. Vínculos ideológicos foram construídos a partir da decomposição das imagens e reconstrução de seus percursos no tempo e no espaço, tal possibilidade de se pensar as variações das formas de representação e seu processo histórico levou Erwin Panofsky3 em Et in Arcadia ego: Poussin e a tradição elegíaca (1936) analisar as paisagens poussinianas, que segundo o crítico evocam a ruína comparada a uma forma de vestígio, como presença no tempo – objeto arquiteturado e descontruído, como na obra propriamente intitulada Et in Arcádia ego4 (Figura 3) a 3 O método historiográfico de Erwin Panofsky trata sobre a impossibilidade de uma descrição puramente formal da imagem visual, artística ou não, argumentando que numa descrição elementar da figuração não há como separar os dados do conteúdo e os dados formais. Panofsky estabelece três níveis de interpretação de três diferentes temas ou significado: natural, convencional e o conteúdo. Diante destes temas distintos, o ato de interpretar também será distinto: descrição pré-iconográfica, análise iconográfica e interpretação iconológica respectivamente. Como método histórico investiga as imagens no seu percurso ou desenvolvimento ao longo do tempo, visando compreender a tradição da imagem definida por Panofsky como “a soma total dos processos históricos” (PANOFSKY apud GINZBURG, 1990, p. 64). 4 Apenas cerca de seis anos antes, Nicolas Poussin havia realizado uma primeira versão da mesma obra, inspirado numa tela de mesmo título, de Giovanni Francesco Guercino, que elaborou a primeira representação conhecida do tema da morte na Arcádia – objeto de análise de Erwin Panofsky no estudo Et in Arcadia ego: Poussin e a tradição elegíaca (1936). Na história da interpretação do quadro de Poussin, dentre as traduções propostas ao enunciado Et in Arcadia ego, duas delas se opuseram, uma sendo “Eu também vivi na Arcádia” e a outra “Eu, a morte, estou presente mesmo na Arcádia”. A segunda versão é a que Panofsky reconhece como justa, exprimindo-a desta forma: “A morte está inclusive na Arcádia” (LICHTENSTEIN, 2005, p. 111). MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 Uberlândia – MG – Brasil ruína o monumento seria a chave de interpretação da memória e da desconstrução do tempo (PANOFSKY, 1936, apud MARIN, 2001, p.102). Em vez de confrontados, em seu caminho por um fenômeno aterrador, encontram-se absorvidos numa discussão calma e contemplação meditativa (...) temos uma mudança básica de interpretação. Os árcades não parecem tanto estar sendo advertidos sobre um futuro implacável quanto estar imersos numa doce meditação acerca da beleza do passado [...] (PANOFSKY, 2002, p. 401). FIGURA 3: Nicolas Poussin. Et in Arcadia ego, c. 1638-1640. Óleo sobre tela. 185 x 121 cm. Museu do Louvre, Paris. Collection de Louis XIV. FONTE: MEZZO MONDO (2010). O sentido de ruína aqui exposto e os seus encantamentos nos aproxima da morte como símbolo do perecível da existência, afronta assim a estabilidade do tempo e do espaço árcades, dando lugar à gênese irreversível da ruína, estabelecida como marco e monumento a anunciar e celebrar a passagem paradoxal entre vida (origem) e morte (destruição). Ruína a conturbar a doce e serena paisagem árcade, região idílica até então considerada a morada perfeita da comunhão entre o homem e a natureza, anunciando os paradoxos da finitude humana, sendo presente a dúvida e inquietação ― intertempo a evocar um passado perdido e um futuro incerto. MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 Uberlândia – MG – Brasil A recorrência da temática temporal na tradição da pintura confirma que o apego associado à arquitetura tornou-se umas das formas-chave da representação visual das transfigurações do tempo, revelando a interação estética e cultural de diferentes interpretações em torno da apreciação da natureza, do passado e das ruínas arquitetônicas transformadas em símbolos ambíguos relacionados à decadência matérica e a conversão formal de fragmentos e restos. A variação das imagens da passagem do tempo e suas distintas possibilidades de enunciação fortalece a criação de um imaginário contemporâneo acerca da poética da ruína, que valoriza a dimensão imaterial da memória pelas acepções temporais no espaço pictórico, como na produção do pintor alemão Anselm Kiefer que com uma postura assumida num contexto de pós-guerra evoca a necessidade existencial de uma mudança na concepção tradicional da representação após catástrofe. Nas suas obras percebe-se a recusa ao esquecimento do passado da história alemã e a cultura germânica, uma rememoração ao passado onde presente e passado estão em constante conexão (Figura 4). MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 Uberlândia – MG – Brasil FIGURA 4: Anselm Kiefer. Steigend, steigend sinke nieder, 2006. Victoria & Albert Museum, Londres, em 2008. FONTE: NOTE-A-BEAR (2010). Kiefer, um pintor de ruínas onde a noção da passagem do tempo é referida em diversas camadas de representações, tanto pelos materiais empregados nas obras dentre eles argila, concreto, cimento, galhos, pó e cinzas como pela transformação da arquitetura em ruínas num cenário de morte e destruição, não remetendo no olhar deste artista a um fim no sentido de algo que está acabado, mas a esperança de recomeço a partir da sua própria vivência estendida no tempo. O retorno à pintura da década de 1980, que para muitos significou o desenterrar de uma tradição pulverizada e dissolvida pelas vanguardas – um desenterrar da ruína que seria a própria pintura –, deu-se em muitos países (como no Brasil), com igualmente múltiplas significações, colaborando na criação de uma linguagem contemporânea ambígua e flexível. É nesse contexto que a produção do artista Daniel Senise se revela por meio de uma nova concepção romântica da pintura que propõe em si sua própria resolução. Atributos formais expressivos passaram a MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 Uberlândia – MG – Brasil compor suas obras numa dinâmica plástica do peso e equilíbrio, enfatizando a presença e ausência dos objetos através de texturas e impregnações, numa síntese de tempos, memórias e percepções do passado. A imagem no trabalho de Senise é incorporada através de apagamentos, rastros e perdas que operam como resíduos da passagem do tempo, tomando como referencia a consagrada Anunciação de Fra Angelico, realizada no século XV (Figura 05), o artista ressuscita seus personagens e espaços, estruturando-os em manchas terrosas de caráter nostálgico, mas dinâmico, numa construção superposta de memórias em que se dá a “predominância de fragmentos, de resquícios de monumentos do mundo civilizado” (Figura 06). FIGURA 05: Fra Angelico. Anunciação, 1437 -1446. Afresco Museu Nacional de São Marcos, Florença. FONTE: SUMA TEOLÓGICA (2010). MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 Uberlândia – MG – Brasil FIGURA 06: Daniel Senise. Sem título, 1999. Acrílica e pó de ferro sobre tela, 185 x 240 cm. Leilão de arte latino-americana na Sotheby’s de 31 de maio de 2001. FONTE: THE CITY REVIEW (2009). Obra que desvela o caráter corrosivo do tempo e o dinamismo da memória que atua vertiginosamente sobre a imagem, tem-se aqui uma montagem de tempos impuros, de manipulações matéricas monocromáticas e oxidantes que, no mesmo instante em que criam a imagem, também ressaltam seu aspecto destrutivo e arruinado. As manchas revelam, em meio à simetria das linhas que estruturam o espaço arquitetônico, não mais o anjo ou Maria, mas sim presenças ferruginosas diluídas na tela pela ação e reação do pó de ferro ― matéria responsável pelo aspecto inacabado de uma superfície pictórica dialética, entre a representação e a própria passagem do tempo. Práticas e processos alimentaram ao longo da história a construção de um imaginário de ruínas no campo pictórico, seja enquanto forma arquiteturada, ou ainda, pela sua reinterpretação temporal e matérica que ainda opera em camadas de significados da visualidade contemporânea. Diante de tantas provocações sobre a sobrevivência das formas e o apego pelas possibilidades e incertezas da matéria, MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 Uberlândia – MG – Brasil retomamos o pensamento para o nosso próprio processo de criação que também compartilha interesses semelhantes aos dos artistas precursores da chamada pintura matérica, por relacionar o uso da matéria pictórica de modo expressivo e ilimitado a uma iconografia criada através da identificação da matéria e percepções existenciais..5 Pintura que se quer viva, orgânica, em movimento, condensando presente, futuro e passado como “fluxo contínuo da realidade ou da existência” ou ainda como “o puro presente” (ARGAN, 1992, p. 617). “Ruínas” (Figura 5) e “Muralhas” (Figura 6) fazem parte de uma série de trabalhos desenvolvidos entre os anos de 2007 e 2008, experimentos realizados a partir da apropriação da limalha de ferro sobre o tecido, tendo a principio uma preocupação com as formas que foram desenhadas com carvão sobre a tela numa espécie de croqui. Num segundo momento, as linhas foram contornadas com o pó da limalha de ferro ganhando densidade e espessura, posteriormente as telas foram submetidas ao processo de oxidação quando a água age sobre a limalha de ferro e resulta no surgimento de diversas manchas ferruginosas que extrapolam os limites do suporte e a definição formal pré-estabelecida. A tela torna-se testemunha de um processo de ação e reação que revela através de paleta de cores ferruginosas o caráter corrosivo do tempo numa aparente decadência da matéria e sobrevivência de formas arruinadas. 5 A pintura matérica é apontada como uma das tendências do Informalismo, podendo ser identificada na produção de artistas considerados como seus precursores Jean Fautrier, Jean Dubuffet, Alberto Burri e Antoni Tápies, cujas obras se aproximam ao manter forte o vínculo entre a origem da matéria e a mesma matéria elaborada e convertida em obra. Para a filosofia heideggeriana, o que é o essencial na obra, reafirmando o caráter do fazer, é a matéria como coisa da obra, como o seu conteúdo, aquilo do que ela é feita, sua origem – a matéria como base e campo da conformação artística (CIRLOT, 1983). MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 FIGURA 5 – JUSTINO, Dayane. Ruínas, 2007. Limalha de ferro sobre tela sobre tela 2,00 x 1,60 cm. FONTE: Acervo particular da artista. Uberlândia – MG – Brasil MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 Uberlândia – MG – Brasil FIGURA 6 – JUSTINO, Dayane. Muralhas, 2008. Limalha de ferro sobre tela sobre tela 1,90 x 1,66 cm. FONTE: Acervo particular da artista. As ideias que as ruínas despertam estão deslocadas no tempo e no espaço ativando novas maneiras de refletirmos poeticamente como estamos absorvidos pelo o processo de ação e reação da matéria. As impressões pontuadas até aqui foram captadas a partir da nossa própria prática pictórica e a de outros artistas que consideramos como distintas formas de ruinimos acerca da matéria pictórica e a passagem do tempo. Os experimentos realizados por nós mais recentemente ainda estão em observação e precisam ser assistidos de maneira detida, pois ainda no ano de 2010 mudanças ocorrem no processo de criação e a sua relação com o suporte quando resolvemos substituir o tecido pelo vidro. Tal procedimento apontou outras MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 Uberlândia – MG – Brasil questões evocadas pela limalha de ferro que deixou de apenas sobrepor a tela, para assumir a responsabilidade pela constituição do próprio suporte pictórico através de acúmulos e manchas ferruginosas detidas entre duas camadas de vidros (Figura 7). FIGURA 7 – JUSTINO, Dayane. Sem título, 2010. Madeira, vidro, limalha de ferro e água, 0,50 x 0,60 cm. FONTE: Acervo particular da artista. O desejo pelo aprisionamento da matéria e seu processo ativo de transformação permanece em nossa investigação até os dias de hoje apresentando-se em pequenos depósitos oxidados pelo tempo, o tempo da desconstrução, o tempo do ruir que abriga e inventa o seu próprio passado. As ideias que as ruínas despertam em mim são grandes. Tudo aniquila, tudo perece, tudo passa. Somente o mundo permanece. Somente o tempo dura. Como o mundo é velho! (Denis Diderot, 1767, apud STAROBINSKI, 1994, p.205). MOVÊNCIAS DA PINTURA ISSN 2316 – 2279 Uberlândia – MG – Brasil REFERÊNCIAS ARGAN, Giulio Carlo. Arte moderna: do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. CIRLOT, Lourdes. La pintura informal em Cataluña, 1951-1970. Barcelona: Anthropos, Editorial del Hombre, 1983. GINZBURG, Carlo. De Warburg a E. H. Gombrich: notas sobre um problema de método. In: ______. 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