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IMPRENSA E A MASSIFICAÇÃO DO ENSINO EM UBERLÂNDIA-MG: A REPRESENTAÇÃO POLÍTICA
ENQUANTO UM MODO DE ANÁLISE SÓCIO-HISTÓRICA (1940-1970)
Vicente Batista de Moura Sobrinho
Universidade Federal de Uberlândia
RESUMO
A representação política enquanto uma categoria de análise histórica no campo educacional no meio acadêmico
ainda permanece carente de estudos mais aprofundados. Neste sentido apontamos a imprensa, enquanto fonte e
método de análise em história da educação, tendo em vista esse modo de reflexão. A carência de abordagens
nesse universo aparece como um campo fértil para investigação no campo educacional. Nesta pesquisa, procurase, por intermédio do contato com significativa quantidade de matéria jornalística, verificar de como vinha se
dando o processo de massificação do ensino em um período rico da história brasileira. O referencial teóricometodológico desta pesquisa parte de abordagens históricas, sociológicas, filosóficas sobre a educação de
maneira mais ampla, do processo histórico em si, do pensamento político de orientação liberal e em confronto
com os textos veiculados nos jornais de circulação em Uberlândia, MG, em especial, o Correio de Uberlândia
(1940-1970) e O Estado de Goyaz, edições dos anos 1940, informantes privilegiados enquanto principais
representantes do corpus documental da referida investigação. O período de recorte coincide com o processo de
modernização da região do Triângulo Mineiro e, Uberlândia, aparece na fala jornalística como que uma espécie
de vanguarda de progresso na região, um exemplo de liderança geopolítica. A educação buscada no seu caráter
específico, a massificação do ensino, revela uma pluralidade de categorias de análises passíveis de revisão
crítica, sobretudo porque dará suporte a essa modernização pleiteada pelo corpo político local. O ensino de ler e
escrever, o ensino profissionalizante, bem como os projetos de extensão do mesmo à educação das massas,
fogem de abordagens visando o meramente local. Tais iniciativas estão vinculadas a um projeto muito mais
amplo na sociedade brasileira, como parte integrante do liberalismo, da democratização e do clamor por uma
modernização conservadora inserida em uma categoria maior. A imprensa enquanto divulgadora de projetos
sociais, na socialização de informações e como formadora de opinião pública, teve sua importância no processo
de modernização de Uberlândia, em especial dos anos 1940 aos anos 1970. Para tanto, através de um
levantamento criterioso, esse mesmo processo de modernização preconizado para essa localidade não seria
possível sem se desenvolver um projeto educacional de grande envergadura e, desta feita, partisse uma resposta
satisfatória ao problema exigido pelas condicionantes do processo histórico; modernização, crise do capitalismo
mundial, a luta em favor de ensino competitivo, ou seja, para modernizar era preciso educar a população,
prepará-la para que o desenvolvimento socioeconômico de Uberlândia e região não viessem sucumbir diante da
“ameaça” oriunda das nações hegemônicas, onde a palavra de ordem era educar para poder competir. Essa
exigência do processo vinculado às práticas capitalistas não deve ser vista de forma nenhuma como algo isolado
do projeto educacional, pelo contrário está intimamente e permanentemente em conexão. Mediante o contato
com significativa documentação sobre educação e por intermédio de: artigos, notas, editoriais, entrevistas,
crônicas, editais e pronunciamentos de autoridades locais, os quais compõem os gêneros do jornalismo
informativo e opinativo, aventa-se à possibilidade de pensar a História da Educação por um outro viés; analisar o
processo de instalação e consolidação do ensino na cidade de Uberlândia, tendo como escopo documental os
referidos textos e bibliografia específica, centrada na preocupação com “o ensino de massa”. A importância de se
realizar estudos desta natureza, reside, pois, na necessidade de compreender determinados temas, cuja análise
dentro dos propósitos da História da Educação, ainda permanecem lacunas para serem preenchidas, decorrendo
também a possibilidade de verificar a trajetória das propostas pedagógicas contidas nos artigos jornalísticos,
principalmente da extensão do ensino à maioria da população e estando a cidade de Uberlândia integrada a um
projeto mais abrangente, ou seja, às propostas de erradicação do analfabetismo no país. Neste aspecto, o ensino
de massa, aquele modelo proposto no sentido de sua distribuição por todo país, desde o ler e escrever, passando
pelo ensino técnico, magistério e outros modelos que levem em conta o aumento do efetivo escolar da
população, mantêm-se uma ligação estreita com a tônica do liberalismo e com a democracia, conceitos
apropriados pelas práticas capitalistas, a que se convencionou chamar de modernização da sociedade. Os
articulistas da imprensa local resguardaram para si a reivindicação de um papel fundamental, corroborando com
a idéia de estender a educação à maioria de “iletrados” do país, pois estes absorveriam com maior facilidade a
proposta daquele momento histórico, reforçando os alicerces que daria respaldo à representatividade política.
Nesta investigação tem-se verificado que a sociedade política presente nessa região, não estava alheia ao
processo que ora se arrolava. Portanto, o nosso papel enquanto historiador da educação brasileira será o de
verificar e o de analisar as contradições imanentes desse processo pela via local.
TRABALHO COMPLETO
424
Sabemos que uma cidade é como associação, e que
qualquer associação é formada tendo em vista algum bem;
pois o homem luta apenas pelo que considera um bem. As
associações, todas elas, portanto, prepõem-se algum lucro
– especialmente a mais importante de todas, visto que
pretende um bem mais elevado, que envolve as demais: a
cidade ou a sociedade política (ARISTÓTELES, Política) 1.
1 – Introdução
Nesta nossa trajetória buscando uma espécie de inovação divulgando resultados de um
processo de pesquisa em história da educação, a tarefa tem sido árdua, pois deparamos com
visões até desanimadoras por parte de alguns intelectuais, quando apontam a imprensa como
uma fonte não muito segura para expressar um contexto ou um fato relevante para a
verificação do processo da educação, por exemplo. Felizmente, existem aqueles que trazem
um maior alento para que continuemos nossa jornada, pois nos tornam cientes de que estamos
lidando com fontes fidedignas, mesmo em se tratando da imprensa não especializada em
educação, a imprensa comum. Alfred North. Whitehead na obra Los Fines de La Educacion y
otros Ensayos (1965)2, tem uma passagem que nos assegura quanto à legitimidade da
documentação a que estamos utilizando, ao sustentar no que concerne à simples transmissão
de informação, nenhuma universidade tem sua existência justificada desde a popularização
da imprensa no século XV. Parece redundante reafirmar constantemente o valor que ela
assumiu durante todos esses séculos de existência. O seu início coincide com a virada,
segundo um bom número de historiadores, para o mundo moderno3 que se deu
aproximadamente no entre o final do século XV e limiar do século XVI. Esta informação é de
capital importância no sentido de nos assegurar quanto ao nosso propósito de mergulhar no
tema história da educação, privilegiando as fontes contidas na imprensa local.
A escolha do nosso objeto de pesquisa resultou de investigações na imprensa
jornalística e ancorada em base teórica sobre o processo social, o histórico o filosófico e o
educacional4. Na busca de um melhor encaminhamento do processo de investigação
levantamos e catalogamos junto ao Arquivo Público Municipal de Uberlândia, MG, uma
extensa quantidade de matéria jornalística, em torno de 250 textos, em sua maioria
informando acerca do processo de massificação do ensino. Como se trata de um tema
eminentemente de cunho político passamos a enxergá-lo com um pouco mais de argúcia, daí o
nosso anseio em aprofundá-lo explorando o campo das representações, categoria ainda
carente de estudos, um tema não muito cristalizado no meio acadêmico. Esta investigação é
parte integrante de um projeto vinculado ao Núcleo de Estudos e Pesquisa em História e
Historiografia da Educação, História e Memória Educacional: construindo uma primeira
interpretação acerca do processo de instalação e consolidação da educação escolar na
região do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba (1880-1960), tendo por parte de seus
integrantes, a proposta de preencher algumas lacunas no processo histórico, buscando
subsídios teórico-metodológicos, bem como a compilação de fontes de interesse para o estudo
1
Dentre os muitos autores gregos, a categoria representação política pode ser percebida especialmente em
Aristóteles. Política. Trad. Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2002.
2
Whitehead, Alfred North. Los Fines de La Educacion y otros Ensayos. Madrid: Paidós, 1965.
3
Sobre o chamado mundo moderno no que concerne ao campo político, existe uma obra considerada um marco
importante neste terreno, trata-se de: Machiavelli, Niccolò. O Príncipe. Trad. Lívio Xavier. 2ed. Rio de Janeiro:
Ediouro, 2001. A referida edição traz uma introdução denominada A Originalidade de Machiavelli, feita pelo
expressivo intelectual Isaiah Berlin, o que permite enxergar com um pouco mais de acuidade o pensamento
político de Maquiavel.
4
Boto, Carlota. A Escola do Homem Novo: Entre o Iluminismo e a Revolução Francesa. São Paulo: UNESP,
1996; Cassirer, E. O Mito do Estado. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar,1976; Chauí, Marilena. S.
Cultura e Democracia: discurso competente e outras falas. 6ed, São Paulo: Brasiliense, 1993; Mannheim, K.
Ideologia e Utopia. Trad. Sérgio Magalhães Santeiro. 4ed Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
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da história da educação. Tal projeto, que inicialmente contou como o apoio do CNPq,
certamente trouxe à tona um período privilegiado para investigação no campo educacional.
2 - Imprensa e a representação política: aproximações
Com a velocidade do processo comunicativo na atualidade, com destaque para a rede
computadores cada vez mais potentes e a aplicação mais intensa da Internet na divulgação e
socialização de informações, a imprensa5 ganhou espaço bastante dilatado. Fica difícil, se nos
acomodarmos ao processo, pensar sobre a nossa maneira de agir. Na nossa ação cotidiana, as
atitudes, as nossas iniciativas quase sempre são pautadas por modelos, por fórmulas e formas
prontas e acabadas, é como se não tivéssemos o poder de autodeterminação de nossas
vontades. Os projetos que estão em andamento no intuito de melhorar a nossa vida são
arquétipos oriundos de um longo processo histórico e determinado por “alguém” e, na sua
retaguarda está uma plêiade de intenções dentro do pensamento liberal, tratado especialmente
no campo teórico pelos pensadores engajados na filosofia política, como Hobbes6, por
exemplo. Todo esse manancial de informações nos propicia pensar nas contribuições
maiúsculas de responsabilidade dos articulistas da imprensa. Ao longo de séculos a imprensa
tem sido forte na contribuição e na legitimação desses projetos de sociedade, e tais projetos
não resultaram de uma escolha individual, mas de grupos interessados no “bem comum”. É
possível discutir as artimanhas do “quarto poder” partindo de algumas indagações, entre elas
um modo de representação política7.
O pressuposto de uma representação política, enquanto um modo de análise sóciohistórica, é claro, e estamos cientes, não constitui numa tarefa simples. Ainda mais se
atentarmos para um campo não menos complexo quanto o educacional. Neste nosso trabalho,
o que vamos apresentar é apenas um esforço de meditação sobre as inter-relações entre o
processo educativo e o seu modo de construção e, principalmente algumas de suas formas,
arquitetadas e sutilmente determinadas dentro de uma representatividade política, cuja
imprensa trouxe à tona. Algumas condicionantes inerentes à iniciativa do corpo político
uberlandense mereceram destaque pelo alcance de suas metas tais como: liderança
geopolítica; a idéia de cidade moderna; progresso para todos; a cidade luz; o desejo de
grandeza; o modelo de progresso nestes campos diversificados.
5
Sobre a imprensa cf, Melo, José Marques de. Sociologia da Imprensa Brasileira: A implantação. Petrópolis:
Vozes, 1973; A Opinião no Jornalismo brasileiro. 2ed. Petrópolis: Vozes, 1994; Camargo, Ana Maria de
Almeida. A Imprensa Periódica como fonte para a História do Brasil.Campinas, 1971. (Separata dos Anais do V
Simpósio Nacional dos Professores de Universitários de História); Espig, Márcia Janete. O Uso da fonte
Jornalística no trabalho historiográfico, Estudos Ibero Americanos, PUCRS, XXIV, nº. 2, dez, 1998, pp.269-289.
6
Thomas Hobbes pertence ao movimento da ilustração do século XVII e reflete profundamente o seu tempo nas
obras que foram consideradas clássicas do pensamento político. Entretanto cabe lembrar que este autor não é
considerado um liberal. No nosso ponto de vista o liberalismo não coexiste isoladamente. Ele, como sendo parte
de um processo histórico do pensamento político, se encontra imerso num embate com outras categorias de
pensamento também dentro do campo político. Essas diferenças existentes entre os autores no universo da
política é que propicia maior alento no trato com a teoria social, provocando um maior calor nos debates em
torno de uma sociedade de massas, o que nos ajuda na compreensão e esclarecimento dos conflitos que
perpassam pelas categorias: sociedade civil, sociedade de massas, Estado Burguês, instituições e controle social,
lutas de classes, entre outras. Cf, Hobbes, T. Do Cidadão. Trad. Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Martins
fontes. 1998 e Leviatã: ou matéria, forma e poder de Estado Eclesiástico e Civil. Trad. Alex Marins. São Paulo:
Martin Claret, 2002.
7
Sobre a categoria representação ver: Bourdieu, P. O Poder Simbólico Trad. Fernando Tomaz. Lisboa: Difel,
1989. Chartier, R. A História Cultural: entre práticas e representações. Trad. Maria Manuela Galhardo. Lisboa:
Difel. 1990. O Mundo como representação. Trad. Andréa Daher e Zenir Campos Reis. Estudos Avançados, São
Paulo, jan.abr, 11(5): 171-191, 1991.
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A epígrafe que abre o presente texto tem o propósito de chamar atenção para uma
maneira de repensar uma representação política. Entendemos que a discussão dessa categoria
de análise envolve uma gama de teóricos de peso no campo da filosofia política8 como
fundamentos imprescindíveis ao uma releitura para uma posterior análise e aprofundamento
do tema em questão, e, indubitavelmente se espelharam em Aristóteles com a sua antevisão de
mundo moderno. Os textos compilados na imprensa de Uberlândia (Correio de Uberlândia e
O Estado de Goyaz), explicitando o processo de massificação do ensino9 devem ser
analisados, dentre as múltiplas formas possíveis, como um dos elementos estruturantes da
representação política local, não devendo de forma nenhuma ser enxergados como específicos
desse espaço geopolítico.
Aliás, boas partes dessas reflexões no âmbito político estão presentes nos gregos como
Aristóteles, influenciador das múltiplas interpretações feitas por diferentes autores nos
campos históricos10, filosóficos, sociológicos do mundo ocidental. Alguém disse que depois
de Permênedes ou Platão, tudo que se construiu, em se tratando de produção intelectual, são
apêndices deles, são notas de pé de pagina. Mas isso, não nos desanima11. Semelhante a
metáfora da tábua do peixeiro do historiador inglês Edward Hallet Carr12, na escolha do fato
histórico devemos ainda selecionar o que é o mais conveniente dentro de um universo de
possibilidades.
3 - O projeto de ensino para a cidade: uma busca no campo político
O projeto educacional para o povo de Uberlândia13 possui elos estreitos com o
objetivo mantê-la na vanguarda, enquanto líder do desenvolvimento sócio-econômico do
Triângulo Mineiro e em sintonia com o processo de modernização social que vinha ocorrendo
em várias partes do mundo. A passagem da obra Tempos de Capanema (1984), informa parte
8
Cf, Locke, John. Segundo Tratado Sobre o Governo: ensaio relativo à verdadeira origem, extensão e objetivo do
governo civil. Trad. Alex Marins. São Paulo: Martin Cleret, 2002; Burckhardt, Jacob. A Cultura do
Renascimento na Itália: um ensaio. Trad. Sérgio Tellaroli. São Paulo: Cia das Letras, 1991.
9
Cf, Moura Sobrinho, Vicente Batista de. Massificação Ensino em Uberlândia-MG: a fala da imprensa (19401960). Uberlândia: UFU, 2002. (Dissertação de Mestrado – mimeo); Imprensa e Massificação do Ensino em
Uberlândia-MG: Preliminares do percurso histórico (1940-1960). Caderno de História da Educação, v.1, nº 1,
Jan./dez. 2002, pp. 127-132.
10
Cf. Carr, Edward Hallett. Que é história. Trad. Lúcia Maurício de Alvarenga. 3ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1982. Trata-se de 6 conferências proferidas pelo autor na Universidade de Cambridge na Inglaterra de janeiro a
março de 1961, tratando da natureza, sentido e métodos empregados na investigação no campo da história.
11
Numa proposta de continuar o processo de investigação em história da educação, independente da natureza do
percurso, devem-se levar em conta estudos que envolvem o local. Para isso se torna necessária uma valorização
do que se tem produzido em termos de reflexão nesse campo investigativo em nosso espaço de atuação. Nesse
sentido, chamamos atenção para os seguintes textos: Carvalho, Carlos Henrique. Os Discursos Educacionais
Presentes na Imprensa uberlandense (1920-1950), pp.19-24; Gonçalves Neto, Wenceslau. A Documentação
Oficial de Uberabinha e Compreensão da História da Educação em Minas Gerais e na Região do Triângulo
Mineiro, pp.133-139; Araújo, José Carlos de Souza. A Imprensa Co-Participe da Educação do Homem, pp.5962, entre outros textos, publicados nos Cadernos de História da Educação, v.1, nº 1, jan./dez., 2002. A revista é
uma publicação da Faculdade de Educação, do Programa de Pós-Graduação em Educação e do Núcleo de
Estudos e Pesquisas em História e Historiografia da Educação da Universidade Federal de Uberlândia. A edição
é anual.
12
Op. cit. Que é história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
13
Um pouco deste processo foi detalhado no terceiro capítulo de nossa dissertação de mestrado defendida em 28
de fevereiro de 2002. O capítulo trata da massificação do ensino em Uberlândia-MG. Cf, Moura Sobrinho,
Vicente Batista de. Massificação Ensino em Uberlândia-MG: a fala da imprensa (1940-1960). Uberlândia: UFU,
2002 (mimeo).
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dessa dimensão assumida pelo processo histórico da educação das massas sob o abrigo da
tutela do Estado.
O imperativo do século consistiria no aniquilamento da neutralidade do estado
que o liberalismo interessava conservar. O Estado moderno seria essencialmente
um Estado de ideais, ao contrário do estado liberal que, por princípio,...Recusase a adotar qualquer ideal. Somente um Estado portador de uma ideologia
específica e precisa desenvolveria a grande missão pedagógica e técnica em
torno de um eixo ideológico definido, o que garantiria uma eficácia ímpar no
esforço de condução das massas14.
A situação preconizada pelo modelo de educação proposta pelo liberalismo pressupõe
uma educação que desse retorno não só do ponto vista econômico, social e cultural, tendo
como suporte as massas15, mas que assegurasse a perpetuação de determinada concepção de
sociedade, garantindo privilégios a uma possível “elite” dirigente16. No caso de Uberlândia
esse discurso parece incorporar a proposta de elaboração de conceitos condizentes com o que
há de “moderno” no campo social, e, logicamente a educação das massas, constituiria uma
necessidade dentro do projeto liberal atrelado ao modelo de desenvolvimento capitalista na
região. Quando a questão premente é a educação das massas, a complexidade que tal ação
política assume, é algo que não deve ser negligenciado. Não se pensa em educar as massas
pura e simplesmente adotando uma política visando única e exclusivamente o setor privado. A
participação do Estado nessa tarefa no processo é algo relevante, e aparece, sobretudo a partir
dos anos quarenta, no intuito de propiciar respaldo à ordem vigente. A missão pedagógica de
que falam os autores envolve a sociedade civil e o corpo político. Assim sendo, povo e Estado
na concepção liberal aparecem como corpo uno. Entretanto, devemos atentar para esse clamor
pela educação no que tange à disseminação pelo país, que, no período analisado, adquire
contornos autoritários. Porém, o desafio, no plano do discurso do ideológico, é trazer à tona
uma fala que desse o tom de suavidade nas ações políticas educacionais, convencendo à
grande massa da necessidade de se instruir e assim prestar um bom serviço à nação. Essa é,
indubitavelmente uma missão assumida pela imprensa local, no que diz respeito não só a
informação da opinião pública, mas a sua formação.
O trabalho de divulgação dos projetos educacionais através da imprensa jornalística
abre a possibilidade de indagação nas linhas historiográficas que valorizam as abordagens
regionais e locais, tendo como referência a educação, enquanto objeto de investigação
histórica. Verificamos que o nosso objeto de análise requer cuidados metodológicos
meticulosos, portanto, não é uma exclusividade deste espaço geopolítico. A preocupação com
a disseminação do ensino direcionado às massas integra-se com outras questões mais
complexas, que merecem análises mais aprofundadas. O editorial abaixo nos dá um pouco da
dimensão dos desafios que virão pela frente:
Foi no dia 31 de agosto de 1888 que a lei 3.643 elevou a categoria de município
as freguesias de Santa Maria e São Pedro de Uberabinha, que mais tarde viriam
a transformar-se no hoje pujante município de Uberlândia, uma das maiores
cidades do Brasil Central, núcleo populacional que cresce em espantosa
ascensão. Fundada por um mestre-escola, Felisberto Alves Carrejo, Uberlândia
conquistou, um a um, postos e posições de destaque. Hoje para a cidade asfaltada
14
Schtzwarman, S. et. Alii. Tempos de Capanema. São Paulo: EDUSP, 1984, p.62.
Ortega y Gasset, José. A Rebelião das Massas. Trad. Marylene Pinto. Machael. São Paulo: Martins Fontes,
2002.
16
Faoro, Raymundo. Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro. 4ed Porto Alegre: Globo,
1977. (2 vols).
15
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e feericamente iluminada a gasneon, com seus arranha-céus apontando para o
azul infinito de seu céu opalino, o impossível em matéria de progresso é palavra
desconhecida. Uberlândia cidade-dínamo que se fez mercê do trabalho, do arrojo
e do serviço de seus filhos com seus 90.000 mil habitantes, seus 15.000 prédios e
30.000 eleitores é mais que uma cidade. Já é uma pequena metrópole, jóia rara
encravada no almofadão precioso do território mineiro. 72 anos passaram sem
sentir para o uberlandense que olha, lá da “cidade velha”, lá da parte baixa da
cidade, em direção à ciclópica “Brodway” em miniatura que é a nossa
maravilhosa e festiva avenida Afonso Pena. É o colosso TV policrômico e
erguendo seus 16 andares para o céu. É o Uberlândia Clube que faz admirar-se
o mais traquejado viajante que nos visita. É o ritmo acelerado das construções
que não pára e o trabalho incessante e maravilhoso dos filhos desta grande terra.
Por tudo isso, pelo mui que Uberlândia representa no altar dos nossos corações é
que nos orgulhamos da data de amanhã, paralelo 72 na vida de nossa terra...17
A forma da mensagem transmitida pelo editorial acima assinala que havia uma mítica
sendo construída, e, essa mítica deveria perpetuar, mesmo que para isso a população de
maneira geral despendesse algum sacrifício. O referido trecho expressa até de forma emotiva,
um modelo de modernização pleiteado para a “Cidade Jardim”. Essa passagem ilustra o
intercâmbio imprensa e construção ideológica18 ao estimular, formar, e informar a opinião
pública a respeito das condições favoráveis ao progresso da cidade de Uberlândia. Entretanto,
devemos salientar que essas falas não se constituem numa mera retórica, ela vem carregada de
materialidade. Em outras oportunidades nos textos do mesmo jornal esse sedimento
ideológico é constantemente reafirmado. O contexto histórico no qual assentada a pedra
fundamental da “Cidade Jardim” demonstra que o corpo político possuía perfil ideológico
definido, cuidar para esse desenvolvimento fosse feito em etapas, mas em etapas progressivas.
Qualquer recuo no sentido de barrar o processo de liderança na região deveria ser
imediatamente combatido.
A sua própria emancipação política ocorrida no final do século XIX, já espelha esse
estigma. O tratamento dado especialmente pelo Correio de Uberlândia, os destaques
enfatizando o seu caráter de locomotiva do progresso no Triângulo Mineiro, aparece na
abordagem do jornal não só nos textos de cunho político administrativo, está também imerso
no discurso acerca da disseminação do ensino por toda a região. O móvel da ação política
daqueles que detiveram o poder durante o período de 1940 a 1970, não deve ser visto
desvinculado dessa ação política, em que a educação das massas, a formação do povo nos
vários campos; o cultual, o político o partidário, o intelectual e o profissionalizante
funcionariam como trampolim para progresso acelerado. Pudemos observar também que
outros autores verificaram as bases semelhantes a nossa com relação a esse crescimento
acelerado de Uberlândia sendo que,
[...] é possível situar Uberlândia entre as 81 cidades brasileiras que, no processo
de urbanização, conheceram acelerado crescimento econômico. De cidade “Boca
17
Editorial: “Uberlândia: 72 anos de trabalho e progresso”. Correio de Uberlândia, ano XXIIII, n. º 9.09, de 30
de agosto de 1960, p. 01.
18
Essa preocupação aparece em obras que fazem análises sociológicas tendendo para a sociologia do
conhecimento e, entre os principais representantes desta corrente está o pensador K. Mannheim, que questiona a
ideologia como “falsa consciência”. Aliás, Adam Schaff esclarece como o referido autor trata desta questão
especialmente no segundo capítulo da segunda parte de sua obra História e Verdade. Para Schaff, Mannheim
enxerga a ideologia como falsa consciência e em embora em suas reflexões quisesse tratar de relacionismo no
campo da sociologia do conhecimento acabou caindo na armadilha do relativismo. Cf, Schaff, Adam. O caráter
de classe do conhecimento histórico. In: História e Verdade. Trad. Maria Paula Duarte. São Paulo: Martins
Fontes, 1887, pp.141-185.
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do Sertão” , como era conhecida nos fins do século XIX, passou a ser o maior
entreposto comercial da Região, já em 195019.
As feições assumidas pelo ensino trazem essa conotação de compartilhamento
ideológico. Esse compartilhamento ideológico não deve ser entendido como escolha pessoal e
de grupos isolados, se trata de um interesse uno, característico de uma cidade, cuja “vocação
natural para metrópole líder”, é incontestável, segundo o discurso jornalístico. Nesse sentido
toda e qualquer ação política seja no setor econômico, sócio-cultural, seja no campo
educacional, as afinidades com esse projeto deveria estar em sintonia com o “ideário do
moderno”. Portanto, o que vêm à tona nesse importante arcabouço teórico e prático é um
modelo de representação política, um conluio entre os articulistas dos textos jornalísticos e o
móbil da ação do corpo político local atrelado a um contexto mais abrangente, ou seja,
nacional ou mesmo mundial, em prol dos interesses de Uberlândia. O quadro abaixo nos ajuda
a melhor visualizar a situação do crescimento da cidade ao longo dos anos 1900 a 1970.
Quadro – 1 – Crescimento populacional em Uberlândia-MG (1900-1970)
Ano
Censo
1900
1920
Total
11.856
22.956
1940
1950
42.179
56.751
1960
1970
88.282
124. 895
População
Urbana
–
–
%
–
–
Rural
–
–
%
–
–
21.077
36.647
49,97
64,26
21.102
20.264
50,03
35,74
71.717
111.640
81,24
89,39
16.565
13.255
18,76
10,61
Fonte: Quadro organizado pela sede do IBGE em Uberlândia-MG.
No decorrer da pesquisa deparamos com uma série de percalços inerentes ao processo
democrático, sendo que a educação foi pensada no intuito de propiciar respaldo ilustrativo e
técnico-pedagógico a grupos cada vez maiores da população uberlandense. Pelo menos foi
essa a tônica do discurso jornalístico. A cidade de Uberlândia emerge como espaço fértil para
as idéias a respeito de projetos educativos, tendo em vista a modernização da região, partir de
1940. Os seus antecedentes, porém, mostram que na visão do corpo político aqui sediado, o
pressuposto de modernização foi sendo montado desde a sua pedra fundamental.
O que se discutiu, o que se debateu, nos permitiu esse grau de compreensão em torno da
construção de uma mítica singular. Todo esse turbilhão de propostas de regulamentação
social, tendo como ponto de partida a educação das massas se encontram no mínimo, ao nosso
ver, elementos fundamentais para inserirmos no pensamento educacional em voga a partir dos
anos 1940: primeiro, a situação geográfica de Uberlândia, privilegiada em termos da
topografia do terreno, favorável ao desenvolvimento, tanto de natureza agropecuária quanto
industrial e comercial; segundo, a sua proximidade dos grandes centros potencialmente
consumidores – São Paulo, Rio de Janeiro e o Cento-Oeste; terceiro, a vontade política por
parte de seus corpos administrativos, unidos desde a sua fundação em favor de Uberlândia
líder de um espaço geoeconômico na região do Triângulo Mineiro.
A discussão acerca da massificação do ensino em Uberlândia, como apontaremos no
decorrer deste trabalho, amarra com questões que fogem à esfera do meramente local. Embora
apresentem suas especificidades a serem demonstradas nesta reflexão, o que está em jogo são
19
Cf, Guarato, M. Alfabetização de Adultos: a experiência do MOBRAL no município de Uberlândia.
Uberlândia: UFU, 2001, p.10. (Dissertação de Mestrado – mimeo).
430
questões de ordem complexas do ponto vista metodológico, quando o assunto é esboçar uma
educação que viesse de encontro às reais necessidades do município. A educação tratada no
discurso jornalístico é a educação formal, legitimada, regulamentada, tendo como uma
espécie de capa protetora o Estado. O Estado se fez presente na maioria dos discursos dos
articulistas ora como colaborador no processo, ora sofrendo as críticas severas por parte dos
dirigentes políticos locais e por pessoas comprometidas com a causa uberlandense. Dado o
teor da proposta para a “Cidade Jardim” de torná-la uma região de pólo industrial e comercial,
uma condição nascida da exigência dos seus fundadores, mostra bem a feição que passaria
tomar, sobretudo a partir dos anos 1940.
Os jornais investigados, O Estado de Goyaz e em especial o Correio de Uberlândia,
revelam as múltiplas faces de um processo que viria a se acirrar no início dos anos 1960,
momento em que a cidade já considerava os ensinos básicos e médios, no que diz respeito à
erradicação do analfabetismo embora ainda carentes ações mais firmes por parte do corpo
político local, já havia adquirido uma configuração próxima do ideal preconizado de um povo
culto e unido em torno dos interesses de Uberlândia e região. O que ganha ressonância agora é
o ensino de nível superior. Crescer em extensão territorial e ganhar projeção política sim, mas
tornar esse crescimento, forte, equilibrado, consolidado, legitimado. Não bastava possuir uma
máquina em perfeitas condições de operacionalidade, necessitaria sim, de um corpo
qualificado para o processo produtivo. Nesse sentido os ânimos voltam-se para instalação da
Escola de Direito e a Escola de Engenharia. São modelos de ensino em processo de
disseminação por todo o território nacional já a partir dos anos 1950. O valor das expressões
liberdade, democracia, patriotismo, aparece agora como alicerce, como respaldo de uma idéia
que, aliás, não tão nova, o liberalismo, logicamente com uma roupagem diferente do
apregoado no século XVIII e durante o século XIX. Muito embora os seus resquícios ainda se
fazem sentir. A busca aqui revela o pressuposto de uma sociedade, dentro dessa ótica, cada
vez mais funcional, resguardando, logicamente, certos grupos privilegiados em termos
econômicos. Eles sim ditariam mesmo que, de forma sutil e capciosa as regras do jogo20. O
Desafio de desmontar o discurso acerca do processo de massificação do ensino relatado nos
textos dos referidos jornais, certamente não para aqui, requerendo um mergulho mais fundo
nos aspectos históricos da educação das massas, e principalmente verificar como se deram
estes aspectos históricos no campo da política local.
O que vimos até aqui, não se trata de algo exclusivo dessa região, como demonstramos.
Se não é exclusividade dos projetos elaborados pelos responsáveis pela direção do município
de Uberlândia, ou seja, tais projetos vieram na maior parte das vezes sob a capa de diretrizes
metodológicas de outros lugares e outras épocas. As afinidades com as ações políticas
municipais em favor da educação do povo que aqui viviam e que para aqui foram atraídos, o
próprio direcionamento de suas vidas; intelectual, econômico, moral e profissional, não foram
escolhas pessoais de classes, daí o nosso desafio: demonstrar a ligação íntima entre o processo
de massificação do ensino ocorrido em Uberlândia entre os anos 1940 aos anos 1970, com o
modelo política voltada para a educação das massas construída ao longo dos anos. Atentemos
para o seguinte quadro sobre o índice de analfabetismo em Uberlândia em pessoas de mais de
5anos de idade, os dados são do IBGE, cobrindo o período 1950 a 1970.
Quadro – 2 – IBGE: índice de Analfabetismo em Uberlândia-MG em pessoas com mais
de 5 anos de idade (1950-1970)
Ano
1950
20
Total
46.718
Sabem Ler
27.243
%
58,31
Não Sabem Ler
19.475
%
41,69
Bobbio, N. O Futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. Trad. Marco Aurélio Nogueira. 3ed Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
431
1960
1970
74.741
109. 616
51.360
83.223
Fonte: IBGE – Censo Demográfico (1950 1960 e 1970).
68,72
75,92
23.381
26.393
31,28
24,08
A tarefa de lavar adiante uma sociedade de massas organizada nos moldes liberais e
democráticos está intimamente relacionada ao processo de massificação do ensino no
universo da democracia. O embate político vai se tornando cada vez mais intenso no final dos
anos 1950 e início dos anos 1960. Como todo qualquer processo democrático, baseado nas
reflexões feitas no âmbito do pensamento político, fica evidente que, na condução do referido
projeto de sociedade de massas, a questão burocrática manifesta-se com força considerável.
Poderíamos dizer até que essa força advinda da burocratização mantém vínculos estreitos com
a estrutura material e ideológica daqueles que estão na linha de frente da locomotiva social.
Nesse sentido, buscamos entender que a:
[...] massificação tem conseqüências políco-administrativas, culturais, econômicas.
Entre as primeiras está o aparecimento da burocracia – e sua organização
informal – como método para ordenar e solucionar os problemas apresentados
pela sociedade de massas. Entre as culturais, surgiu que se chamou cultura de
massas e os meios coletivos de informação, que desempenham importantíssimo
papel não só como meros informadores, mas também como formadores de opinião
pública21.
A imprensa uberlandense certamente atuou de forma decisiva na construção da mítica,
utilizando as chamadas forças vivas, com intuito de elevar a região à condição de destaque no
cenário nacional. Nesse aspecto a questão educacional ocupou um papel relevante na
elaboração do projeto de uma Uberlândia líder de um espaço geopolítico importante, entre os
anos 1940 e 1970. Dentro dessa especificidade, tomamos como escopo documental para a
nossa pesquisa, principalmente as edições do Correio de Uberlândia, tido como um dos
principais veículos de divulgação do desenvolvimento do interior do Brasil, onde a
preocupação com o ensino estendido á maioria da população brasileira e local, apareceram
destacadas, seja em editoriais, seja artigos, reportagens ou pronunciamentos.
4-
O corpo político local e o canal de informação: na trilha da representação de
cidade moderna
Na nota do jornal abaixo, podemos perceber que atuação política em relação ao ensino
em Uberlândia, especialmente a extensão dele ao maior numero possível da população local,
já era motivo de preocupação nos anos 1940. A partir dessa data, ganha especial interesse por
parte dos políticos locais, a luta para colocar a região do Triângulo Mineiro de uma vez por
todas no cenário sócio-econômico nacional e com a cidade de Uberlândia numa situação de
liderança geopolítico nessa região. Essa liderança deveria estar alicerçada em bases firmes,
não sendo o problema da educação uma mera situação secundária. Era preciso instruir o povo
no sentido de proporcionar respaldo ao projeto de ação política, nos setores econômicos e
sócio-culturais. Uberlândia necessitava entrar em sintonia como o moderno disseminado nos
discursos da imprensa e em outros veículos no Brasil e no mundo, buscar uma saída do
anonimato geopolítico, garantir a prosperidade e perpetuar a sua liderança no campo
industrial e, principalmente no campo comercial na região, ganhar notoriedade, valendo-se de
situação de zona de confluência favorável ao propósito dos políticos locais, torná-la como que
uma espécie de “portal do cerrado”. Uberlândia com a sua “vocação natural” para progresso,
não poderia continuar à mercê de políticos oportunistas. Diz a nota:
21
Dicionário de Ciências Sociais, Rio de Janeiro: FGV, 1986, pp.727-728.
432
A dedicada idéia de implementar o saber, mereceu sempre do administrador
uberlandense, momentos de atenção. Entregue ao Professor Jerônymo Arantes a
incumbência de manejar o mecanismo da instrução Pública, quer no perímetro
urbano, quer no recesso da vida rural, bebendo na fonte do saber, Uberlândia
apresenta a cifra confortante de 5000 alunos, ou sejam 23,8% da população total
do município estimada em 21000 habitantes. E os templos do saber surgem na
cidade, no campo, no trabalho patriótico da alfabetização22.
Esse anonimato geopolítico reflete um discurso de postura dentro da conjuntura sócioeconômica desenvolvida no Brasil e disseminada com mais intensidade a partir dos anos
1940. Cabe esclarecer, no entanto, que tal anonimato é reclamado pelos políticos ligados aos
partido de orientação liberal (UDN, PSD), no decorrer dos anos 1940 a 1970. A utilização da
expressão anonimato geopolítico vincula-se ao fato de que em situações de reivindicações de
melhorias para a cidade, tais como: mais escolas, mais hospitais, mais atenção do governo de
Minas Gerais para com a região do Triângulo Mineiro e, em especial Uberlândia, por ser a
mais dinâmica nesse período, maior retorno das verbas do Estado de Minas Gerais destinadas
aos municípios. O corpo político uberlandense, por intermédio do discurso da imprensa,
procura informar não só as potencialidades do seu povo, mas também se vangloriar de sua
localização geográfica. A sua situação geoeconômica aparece como um dos fatores
determinantes de um progresso contínuo e em sintonia com o moderno. O anonimato
geopolítico está intimamente vinculada ao fator arrecadação de impostos, considerada elevada
já a partir de 1940, o que legitima as suas reivindicações acerca do retorno de verbas de
representação por parte do Estado de Minas Gerais, “o estado vizinho”, como sustentava o
discurso como forma de pressionar e conseguir atenção dos governadores.
A imprensa logicamente tem um propósito definido que é o de informar e também
formar a opinião pública. Porém ela não está isenta de sensacionalismos e veiculação de perfis
ideológicos. Os dados do IBGE publicados em 1950, trazendo estatísticas da população e a
instrução, estão próximos do encontrado no jornal Correio de Uberlândia (1940):
Pessoas de 5 anos ou mais de Instrução declarada total da população em
Uberlândia dos que sabem ler e escrever : 18.293; sendo 9.887 homens e 8.406
mulheres, desse total não sabem ler nem escrever, total: 17.594, sendo 8.042
homens e 9..552 mulheres; pessoas de 5 anos ou mais de instrução não
declaradas, total 23, 10 homens e 13 mulheres23.
Tais notas são significativas, na medida em que expressam aproximações acerca do
andamento da educação de massa na cidade de Uberlândia, pleiteando a condição de cidade
mais progressista do interior de Minas Gerais. Notamos, de passagem, que dentro do processo
histórico educacional, preconiza-se a partir dos anos 1940, o direcionamento da educação,
vista sob um leque amplo. Sobretudo nesse período, o que estava em jogo como parâmetro de
modernização não era a educação exclusivamente voltada para a “elite”, o leque vai se
abrindo para as massas, pois não importava mais aquele “verniz” tão em voga no final do
século XIX até os anos 1920 no Brasil, mesmo porque a educação entendida como formação
do homem completo: formação moral, intelectual, política e profissional, não se enquadrava
mais no processo daquele momento histórico. Uberlândia Necessitaria embarcar nesse atalho
22
Nota: “Instrução”. Correio de Uberlândia, ano II, n.º 503, de 20 de janeiro, de 1940, p.04.
Fonte: Recenseamento geral do Brasil 1.º setembro de 1940, Rio de Janeiro, serviço gráfico do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística, 1950, p. 75.
23
433
para a modernização. A divulgação dos números expressos nas referidas notas nos dá, mesmo
que parcial, a noção dessa configuração, um modelo de modernização conservadora24.
5 - Considerações Finais
Na intenção de aprimorar nossas reflexões acerca de processos históricos e a sua
relação com a história da educação, trouxemos no presente trabalho um quinhão daquilo que
pretendemos aprofundar em um texto mais amplo, e, logicamente, isso pressupõe um diálogo
consistente com história e seus métodos de investigação. Não estamos tratando com a questão
da verdade, mas sugerindo uma forma de repensar a história da educação tendo como suporte
a imprensa local, apontando para um modo de análise sócio-histórica que é a representação
política calcada no tema não menos relevante no campo da política, a massificação do ensino.
A verdade, esta fica a cargo do expressivo autor Adam Schaff, que afirma na sua História e
Verdade (1987), ser o processo histórico resultante de um acúmulo de verdades parciais.
Não compartilhamos dessa concepção de história, pois o referido intelectual, ao
sustentar esta visão enxerga a história sob um foco teleológico, com um fim em si. Aliás, o
autor não só corrobora com esse ponto de vista, mas o confirma ao relatar que o seu objetivo
final, permanece sempre a verdade objetiva, e tudo o resto constitui unicamente o meio para
atingir este fim (p.300). A Obra veio a lume no ano de 1971, com o título original de Histoire
et Verité provocando uma celeuma no meio acadêmico adquirindo relevância na rediscussão
dos métodos de investigação histórica. Atualmente os ânimos se acalmaram, sendo que
grupos consideráveis de historiadores compartilham de uma idéia a respeito da história de
uma maneira diferente, valorizando enquanto uma ciência humana, mas nunca como verdade.
Portanto, estamos seguros do nosso propósito de apontar algum tipo de reflexão que
leve a uma abertura maior, a um embate mais consistente no campo da história da educação,
onde a verdade não aparece e nem se quer é cogitada. Queremos sim, entregar a mão à
palmatória, propor repensar uma categoria como a representação política tendo como apoio a
documentação referente à massificação do ensino na imprensa, sem medo do confronto de
idéias que, é claro não são verdadeiras, são propostas sempre discutíveis. O bom da história,
e, em especial a história da educação é exatamente isso, a abertura, as proposições, enfim,
esse dinamismo, essa pluralidade de opiniões, que nos anima e nos seduz. Nesta trajetória por
nós delineada, não podemos nos abater mediante descrenças ao nosso propósito de repensar
esta temática na história da educação. O assunto é desafiador. E, depois, devemos ser mais
fortes do que as nossas frustrações.
24
A referida categoria é tratada na tese de doutoramento de Wenceslau Gonçalves Neto. O processo de
modernização não deve ser visto fora do contexto educacional. O capítulo 4 da referida obra, A modernização
Desigual: duas décadas de privilegiamento na política agrícola, nos chamou atenção porque modernizar também
implicava em fornecer uma educação adequada ao homem do campo. (...) A estrutura brasileira de extensão
rural foi sedimentada a partir de experiência pioneira de Minas Gerais, iniciada em 1948, com o programa
ACAR – Associação de Crédito e Assistência Rural, entidade formada pela conjugação de esforços do governo
do estado de Minas Gerais e a AIA – Associação Internacional Americana para o Desenvolvimento Econômico
e Social, entidade fundada em 1946 pela família Rockfeller. Cf, GONÇALVES NETO, Wenceslau. Estado e
Agricultura no Brasil: política agrícola e modernização econômica brasileira (1960-1980). São Paulo: Hucitec,
1997. p. 203.
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423 A representação política enquanto uma categoria de análise