Comunicação UM “PRÉ-TEXTO PARA A EDUCAÇÃO” LIMA, Cárita Portilho de2 MALLMANN, Laureen Gabriel1 Orientadoras: Dr. Carmen Lúcia Reis3 Ms. Viviane Prado Buiatti Marçal4 Co-autores: Adriana Moreira Silva1 Camila Barbosa Tiago1 Marina Borges e Silva2 Natália Galdiano Vieira2 Valter Flávio de Souza5 Palavras-chave: Interdisciplinar, Pré-texto, Teatro. O presente trabalho visa relatar experiências vividas durante a realização da primeira etapa do projeto “ser e conviver: a interdisciplinaridade no desenvolvimento pessoal e social de estudantes de 6 a 12 anos de idade e seus educadores”, elaborado por docentes do curso de psicologia da Universidade Federal de Uberlândia, que promove a interdisciplinaridade com os cursos de Artes Visuais, Música e Teatro. O objetivo desta primeira etapa foi apresentar diferentes maneiras de contribuir para a formação do indivíduo, envolvendo as crianças e os educadores na construção de um trabalho a partir da reflexão de valores, atitudes, relacionamentos e comportamentos, nas quais possibilitem diferentes maneiras de ser e conviver. O projeto é desenvolvido em um Centro de Formação na cidade de Uberlãndia que atende crianças de 6 a 12 anos de idade. Participam deste trabalho duas docentes do Instituto de Psicologia, uma psicóloga e dez estagiários, sendo três do Curso de Psicologia, três do Curso de Teatro, dois do Curso de Música e dois do Curso de Artes Visuais. A prática no Centro de Formação envolve 10 educadores e 75 estudantes com faixa etária entre 6 e 12 anos de idade. Este projeto envolve curso (in) formativo com educadores e oficinas com estudantes onde são abordadas temáticas relacionadas à educação de crianças, jovens e adultos para a vida e o desenvolvimento das competências pessoais e sociais. Com as crianças busca-se trabalhar outras formas de relacionar, a comunicação, socialização, cooperação e respeito com o próximo. Neste relato serão destacadas as interrelações construídas entre os cursos de Teatro e Psicologia, apesar disso as contribuições dos outros cursos não podem ser descartadas, pois o fato de constituirmos um grupo garante o envolvimento de todos na elaboração das atividades, planejamentos e questionamentos de nossa prática, no trabalho com vinte e uma crianças com seis e sete anos de idade (intitulada pela instituição como Equipe 1), fazem parte dessa equipe 11 meninos e dez meninas. A principio o trabalho foi coordenado por duas estagiárias, uma da psicologia e outra das artes visuais, porém após X encontros a aluna das artes visuais saiu do projeto e foi selecionada uma estagiária do curso de teatro. Quando a aluna das artes visuais não pôde continuar no projeto foi um momento delicado porque estávamos tentando nos vincular a essas crianças e tentando estabelecer comunicação com estas. Como a estagiária do Teatro entrou no projeto quando este já estava em andamento, uma duvida prática surgiu: Como inserir uma pessoa desconhecida na sala da aula de maneira extra-cotidiana. Depois de muito pensar, optamos por pedir o auxílio de um outro aluno do curso de Teatro que participa indiretamente do projeto. Juntos construímos uma proposta para a chegada desta estagiária na instituição, baseada em um “Pré-texto”. Foi construído um personagem de um espião, vindo de Espiolândia, que trouxe para o trabalho com as crianças uma nova espiã para continuar com o treinamento deles. Este treinamento é realizado em alguns poucos lugares, escolhidos pelo comando de Espiolândia, onde os funcionários conseguem detectar crianças com predisposição a um possível trabalho como espião. Nem todos irão concluir todas as etapas do treinamento, posto que este vai sempre sendo modificado e cada vez torna-se mais complexo, lembrando que uma regra fundamental do treinamento é saber respeitar as etapa. A idéia estava construída, fomos ao Centro de Formação, onde uma “figura estranha” (O Espião) que segurava uma grande mala estava pairando no pátio, aguçando a curiosidade dos presentes. No horário previsto as crianças foram encaminhadas para suas respectivas salas de aula, logo o Espião encaminhou-se para a sala da Equipe 1. A história da Espiolândia foi revelada juntamente com a suposta identidade do Espião, sempre pedindo sigilo absoluto. Em um dado momento disse que veio trazer uma nova espiã, abriu a mala onde ela estava escondida para não levantar maiores suspeitas, mas a espiã havia fugido, então ele saiu da sala e a buscou. Para exemplificar o trabalho realizado na Espiolândia, o Espião contou a história de um espião bem sucedido na empresa, chamado Sei Não. Um menino que devido a sua curiosidade e comprometimento com o treinamento, logo foi promovido e hoje trabalha nos mais altos escalões de Espiolândia. Falou sobre o treinamento que seria realizado e da importância do cumprimento das etapas e suas regras, como por exemplo: Na primeira etapa (que foi realizada) é expressamente proibido qualquer tipo de agressão física, posto que os participantes ainda não tiveram trabalho específico voltado para a defesa pessoal, portanto, nesse primeiro momento a defesa deve ser intermediada pelas espiãs responsáveis pelo treinamento, que devem buscar solução para resolução dos problemas juntamente com os participantes envolvidos. Durante a contação de história, percebemos que as crianças estavam bastante concentradas e envolvidas pela dinâmica, participando com comentários e questionamentos. E nos fornecendo informações que nos ajudaram a perceber o quanto estavam envolvidas por aquela situação lúdica. Com certeza a participação das crianças foi algo que nos motivou a dar continuidade ao processo. O espião foi embora, levando suas assistentes que voltariam na semana seguinte. A turma na qual este trabalho foi desenvolvido apresentava algumas dificuldades devido aos constantes episódios de agressividade, bem como de inquietação e falta de colaboração entre as crianças, além disso, as atividades que eram planejadas, discutidas e programadas pareciam não fazer sentido para aquelas crianças. Essa realidade foi aos poucos se alterando. O “pré-texto” do treinamento, que embora não tenha utilizado um texto pronto, utilizou uma situação que envolvia pequenos textos, a priori desconexos, mas que aos poucos foram fazendo sentido. Com o pré-texto do treinamento foi possível construir relações afetivas com os alunos, pois eles foram permitindo-se comunicar com as estagiárias. Além disso, foi possível trabalharmos com jogos teatrais, jogos de aquecimento, contação de histórias, desenho, dobradura e mosaico, dentre outras atividades. Durante a realização de um desenho que buscava fazer uma avaliação final do trabalho as impressões mais marcantes representadas pelas crianças tinham relação com os nossos encontros, muitos expressaram a figura do espião e sua grande mala, assim como muitas atividades que foram realizadas ao longo do processo. Percebemos algumas conquistas significativas no trabalho com o grupo: as ocasiões nas quais a comunicação verbal é predominante aumentaram, os episódios de agressividade diminuíram significativamente, as crianças estão mais engajadas na realização das atividades propostas, o respeito pelos colegas e pelos estagiários tem sido discutido e exercido com freqüência cada vez maior. Para concluir essa primeira etapa, optamos por trazer novamente a figura do Espião, para que os alunos pudessem mostrar a ele como procedeu a primeira etapa do treinamento, também para trabalhar com a questão do despedir-se e do entender a vida como cíclica. O Espião apareceu, trazendo a história de um outro espião, João Gurumete, que também serve de exemplo por sua coragem, criatividade e prontidão frente as dificuldades que a vida lhe apresentou. Depois disso o Espião abriu uma mala que mostrou um grande jardim, onde várias flores de diferentes cores, formatos e tamanhos saltavam aos olhos das crianças, esse foi o presente que nós de Espiolândia escolhemos dar aos nossos alunos que agora são também nossos amigos. Acreditamos que as mudanças alcançadas no grupo estão vinculadas à busca por construir relações que legitimem cada criança e que contribuam para os seus processos de desenvolvimento e aprendizagem. O Espião foi embora, mas as crianças já sabem que o treinamento irá continuar, eles terão novos espiões para lhes auxiliar, mas o treinamento iniciado não será interrompido. O trabalho das estagiárias com esta equipe foi concluído no mês de julho, a partir do próximo semestre a equipe receberá outros estagiários, ainda do referido projeto, pois uma das propostas do projeto é realizar um rodízio dos estagiários entre as equipes da instituição. Para trazer esse ‘‘pré-texto’’ para o ambiente escolar, partimos do pressuposto de que as atividades educativas que envolvem a expressão artística, a dinâmica corporal e a experiência estética são algumas das bases para o aluno organizar percepções, classificando e relacionando eventos, construindo, com todas as suas capacidades, um todo significativo. Sem dúvida, com a força e magicidade do Teatro, colocar a arte a serviço do processo educativo. Na medida em que o Teatro engloba todas as demais artes cria condições para ampliação do conhecimento e se constitui em elemento importantíssimo na formação intelectual, ética, moral, artística e social da criança que se encontra formando suas bases. A própria organização social está a exigir atualmente novas formas de comunicação. E sendo a educação um dos setores desta organização social, não pode deixar de utilizar instrumentos que atendam a esta prática de repensar o cotidiano, e refletir sobre aquilo que nos é apresentado. O Teatro deve funcionar como meio de comunicação direta, não transmitindo estruturas preestabelecidas ou impondo ideologias, mas criando situações para que a criança, diante de novos elementos possa criar e recriar. Utilizando técnicas e práticas corporais, as experiências de pensar com o corpo, presentes nos jogos e nos momentos de brincadeiras, são elementos para a vitalização e o equilíbrio do ser, de maneira articulada, em todos os níveis. Exercícios que propõem ao sujeito pensar com autonomia, recorrendo a componentes de sua personalidade, articulando-os num trabalho criativo e de intenso grau de comunicação entre indivíduo e grupo, entre artista e público e entre aluno e professor. Articulando o trabalho corporal às aulas que contemplem os sentimentos, as sensações e a intuição, tanto quanto a razão, levando em conta o imaginário, os desejos e os sonhos dos participantes, em uma educação que supere as tradicionais fronteiras estabelecidas entre as disciplinas, buscando a formação da emancipação e da cidadania, com a participação de todos os envolvidos como sujeitos da história. Aprender brincando, não é algo que deva ser percebido como mero lazer ou momento de recriação, mas como uma proposta para trabalhar com a infância, entendendo a criança antes de tudo como um ser humano inteiramente capaz de dialogar consigo, com o grupo e com a sociedade, utilizando ferramentas que o levem a refletir sobre situações cotidianas e questionar aquilo com que não concorda. A brincadeira sendo um lugar comum na infância, que vai se perdendo com a chegada da adolescência e fase adulta, mostra as crianças que é também um lugar de aprendizado e crescimento, que não deve ser abandonada mas trabalhada a favor de nossos objetivos. E assim construímos o nosso Pré-texto para a educação, para a construção de relações, construção de conhecimento, construção de pensamento crítico e construção de amizades. Um Pré-texto para ensinar aqueles que tanto nos ensinaram. 1 2 Discente da Faculdade de Teatro UFU Discente do Instituto de Psicologia UFU 3 Docente do Instituto de Psicologia UFU Psicóloga Escolar/Educacional 5 Discente da Faculdade de Artes Visuais UFU 4 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ALVES, R. "É brincando que se aprende". Folha de S.Paulo, São Paulo, 17 fev. 2002. [Caderno Sinapse]. ANTUNES, C. Uma nova concepção sobre o papel de brincar. Páginas Abertas. São Paulo, ano 29, n. 21, 2004. BOAL, A. 200 exercícios e jogos para o ator e o não-ator com vontade de dizer algo através do teatro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997 BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. 1996. CABRAL, B (Org.). Ensino do teatro: experiências interculturais. Florianópolis: Conselho Britânico-UFSC-CAPES, 1999. CAVALIERI, A. Teatro vivo na escola. São Paulo: FDT, 1998. COURTNEY, R. Jogo, teatro e pensamento: as bases intelectuais do teatro na educação. São Paulo: Perspectiva, 1980. ELIAS, L. C. dos S.; MATURANO, E. M. Oficinas de Linguagem: uma proposta de atendimento psicopedagógico para crianças com queixas escolares. Estudos de Psicologia, Natal. 1 (1), jan. abr. 2005. FERREIRA, S. (org.). O Ensino das Artes: construindo caminhos. Campinas, SP: Papirus, 2001. HELD, J. O imaginário no poder: as crianças e a literatura fantástica. São Paulo: Summus, 1980. JAPIASSU, R. Metodologia do Ensino de Teatro. Campinas: Papirus, 2003. LEITE, M. I. F. P. Brincadeiras de menina na escola e na rua: reflexões da pesquisa no campo. Cadernos Cedes, ano XXII, n 56, abr. 2002. p. 63 – 80. MOURA, A. Brincadeira é coisa séria. Santo André: Revista Coop , n.232, Jun. 2003. SERRÃO, M.; BALEEIRO, M. C. Aprendendo a Ser e a Conviver. São Paulo: FTD, 1999. SILVA, S. M. C. Psicologia Escolar e Arte: uma proposta para a formação e atuação profissional. Campinas, SP: Alínea, 2005. WECHSLER, S. M. Criatividade: descobrindo e encorajando. São Paulo: Psy, 1998.