PROCESSO DE PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NA RELAÇÃO UNIVERSIDADE E MOVIMENTO DOS TRABALAHADORES RURAIS SEM TERRA Francine Heidrich Coimbra1 Resumo: O presente trabalho visa apresentar análises produzidas a partir da trajetória dos discentes envolvidos no Programa Permanente de Cooperativas Populares (INTECOOP) vinculado a Universidade Católica de Pelotas, através do trabalho realizado junto aos assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. O olhar deste estudo está focado na produção do conhecimento, para além do espaço acadêmico, potencializando a trajetória e as práticas discentes nos assentamentos de reforma agrária. Palavras-chave: Produção. Conhecimento. Cotidiano. Apresentação O presente estudo procurou analisar a trajetória dos discentes, a partir dos processos vividos no cotidiano dos assentamentos e da caminhada na formação dos mesmos, a fim de potencializar discussões no espaço acadêmico, produzindo conhecimento na formação universitária considerando as experiências vividas no cotidiano destes estudantes. É possível afirmar que esse processo se apresenta na realidade social, econômica, política e cultural, como espaço a ser descoberto, conhecido e questionado em torno das questões sociais, articulando alianças e parcerias frente às organizações que a população apresenta e, nesse caso, a relação estabelecida junto aos assentados do MST. Assim, é possível confrontar as teorias trabalhadas no espaço acadêmico com a realidade vivida pelos coletivos2. Através da relação entre discentes e assentados é possível fazer o exercício de que prática e teoria estão interligados, por isso ver e viver a realidade que pulsa na sociedade ao nosso redor. Assim, foi realizada uma pesquisa que se propôs a perceber o processo de formação que move os 1 Mestranda em Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, Pós-graduada em Educação pela Universidade Federal de Pelotas, Assistente Social graduada pela Universidade Católica de Pelotas. 2 Coletivo não é sinônimo de social, refere-se a uma multiplicidade, a uma rede de processos que opera, ao mesmo tempo, além do indivíduo, junto do socius, mas também aquém do indivíduo, remontando a afetos ... opera num nível distinto das formas unificadas do sujeito e do objeto. (Kastrup, 1999, p.187). 2 discentes, a fim de pensar espaços onde possamos discutir e sentir formas de resistência ao sistema capitalista. Considerando que a formação se constituí na experiência, na vivência, onde conhecimento é vida, é relação entre espaço acadêmico e realidade da sociedade, é um aprender e conhecer conectado e ligado ao cotidiano. No desenrolar do processo constituído na vivência e relação entre os discentes das mais diversas áreas, como Agronomia, Serviço Social, Psicologia, Economia, Pedagogia, Comunicação Social, entre outros, e os assentados do MST, foi possível perceber que a realidade é uma produção social, portanto o nosso olhar sobre ela também é produzido, a realidade não é coisa dada, ela se realiza a todo o momento. A pesquisa é qualitativa, pois compreende a realidade social como processo de mutação e não de estagnação, onde as relações estão em constante movimento, tendo em vista que o objeto não é um dado inerte e neutro, ao contrário, está possuído de significados. Este estudo não caracterizou lugares fixos para os sujeitos: pesquisador e pesquisado, e sim a relação entre ambos, repleta de ansiedades e expectativas que acompanharam este processo de produção. O processo de pesquisa ocorreu através da realização de entrevista aconteceu junto a cinco discentes, ambos envolvidos na mesma equipe vinculada a Incubadora que desenvolvia atividades com o MST, as entrevistas ocorreram com um discente da Agronomia, da Economia, da Psicologia e duas discentes do Serviço Social, ambos estavam nas atividades da equipe desde o início. O processo de entrevista ocorreu com o intuito de compreender a relação entre as práticas que perpassam na relação com os assentados do MST, procurando perceber se ocorrem contribuições na formação acadêmica. Além disso, aconteceram encontros nestes espaços nos quais participei junto aos assentados. Foram reuniões, encontros de formação, manifestações públicas, festas, visitas às famílias, assessorias realizadas e junto aos discentes nos encontros, reuniões, discussões e grupos de estudo, me sinto inserida neste processo onde se costura a relação entre discentes e assentados. Busco trazer nesta escrita momentos onde a participação e envolvimento destes agentes pulsam e afetam. Capitalismo: território demarcado A sociedade é uma rede, um tecido de instituições que envolvem várias áreas, como: saúde, trabalho, educação, regulamentação do parentesco, religião, entre outras, que determinam 3 as regras, as normas que regulam a atividade humana. São instrumentos de controle produzidos e utilizados pelo sistema capitalista vigente, a fim de formatar a sociedade, a partir de suas vontades ditadas pela economia. Partindo deste entendimento, o capitalismo se estrutura e reestrutura a partir de seus próprios interesses produzindo, desta forma, os processos de exploração, dominação, opressão, desigualdade, enfim, fatos que estão presentes nas relações humanas. Acompanhando o pensamento de Guattari e Rolnyk descobrimos que as formas de opressão utilizadas pelo capitalismo vão para além do controle de produção de bens e das relações sociais. Talvez a opressão consista na própria produção de subjetividade, ou seja, numa máquina que modela e “forma” conforme os interesses deste sistema perverso. O sistema capitalista3 desterritorializa, transforma o homem em trabalhador e coloca esta “máscara” a ser carregada no decorrer de seus dias. O sistema muda tudo de lugar, tira o agricultor do campo e coloca na cidade, monta um “quebra-cabeça” conforme seus interesses e imposições, onde cada peça tem o seu “lugar” e cada um na sua “ordem”, assim, reterritorializa4 para manter seu controle5. Os processos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização perpassam por uma engrenagem política, econômica, cultural e social, onde esses processos se movimentam como uma máquina na sociedade. É importante conhecer estes mecanismos que estamos submetidos para produzi-los ou reproduzi-los, ter claro o que desejamos como agentes6 desta sociedade, se nos impulsionamos a perpetuar e legitimar o sistema atual ou nos propomos a reinventar a sociedade como espaço onde construímos relações sociais, sem seguirmos esta ordem pré-determinada. Ordem esta onde o capital produz os modos como nos vestimos, como se 3 O capitalismo [...] sistema permanente de reterritorialização: as classes capitalistas estão constantemente tentando “recapturar” os processos de desterritorialização na ordem da produção e das relações sociais. Ele tenta, com isso, controlar todas as pulsões processuais que trabalham a sociedade. (Guattari; Rolnyk, 2005, p. 323). 4 O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quanto a um sistema percebido no seio do qual um sujeito se sente “em casa”. O território é sinônimo de apropriação [...] O território pode se desterritorializar, isto é, abrir-se, engajar-se em linhas de fuga e até sair de seu curso e se destruir. A espécie humana está mergulhada num imenso movimento de desterritorialização, no sentido de que seus territórios “originais” se desfazem ininterruptamente com a divisão social do trabalho [...] A reterritorialização consistirá numa tentativa de recomposição de um território engajado num processo de desterritorialização. (Guattari; Rolnyk, 2005, p. 388). 5 Controle não se trata de cuidar do corpo, em massa, grosso modo, como se fosse uma unidade indissociável mas de trabalhá-lo detalhadamente, de exercer sobre ele uma coerção sem folga [...]. (Foucault, 1998, p. 118). 6 Agentes são indivíduos – pessoas – sujeitos protagonistas das práticas que se desenvolvem no complexo intituído – organizado – estabelecido e seus equipamentos. O agente funciona mais como engrenagem ou efeito dos processos, e não como causa dos mesmos. (Baremblitt, 2002, p. 135). 4 dá o processo de aprendizagem, os modos de trabalho, o que consumimos, como nos constituímos como seres neste espaço, como se fôssemos “bonecos de marionete”. O capitalismo atua no corpo e move o desejo, a angústia e o medo das pessoas, alterando a sensibilidade, que passa a ser modelada sob a lógica do capital, ficando o desejo moldado em função do consumo de produtos e da posse de objetos, resultando em relações com os produtos oferecidos pelo mercado. Neste sentido, deve-se perceber que reproduzimos os modelos e é difícil nos desprendermos destas marcas que o sistema produz na sociedade em que estamos inseridos. Assim, buscamos linhas que possam nos levar para outros caminhos, mas deixando claro que mesmo assim levamos em nossa bagagem as imposições do sistema. Por isso, entendo os movimentos sociais como mecanismos de resistência e contraponto ao sistema capitalista, um espaço de luta contra a dominação e a hegemonia econômica. Surgindo a necessidade de construirmos alianças de resistência percebendo que a mudança não depende apenas do desejo individual, da vontade de alguns, mas da expressão coletiva, onde a mudança se constitui a partir do desejo deste coletivo. O MST se apresenta como mecanismo de luta, que através da discussão em torno da questão agrária, potencializa a invenção dos modos de vida no campo. A vida no campo não está imune ao mercado, o que seria impossível, pois vivemos em uma sociedade capitalista, mas o movimento prioriza a cultura do auto-consumo, a partir da produção de outras formas de vida, criando um movimento de resistência que se constitui no cotidiano destas vidas, na relação que estes estabelecem com o campo como local de habitar, resistir e produzir. Por isso, a importância de potencializar a relação com os assentados, através da criação de encontros que pudessem produzir e garantir os processos autogestivos deste coletivo, potencializando o desejo7 como produção, como processo de realização da realidade, de uma realidade que se metamorfoseia8. Diversos olhares surgiram no decorrer desse processo, a partir dos inúmeros espaços, contatos e afetos que foram produzidos nesta relação, potencializando a invenção do conhecimento. A partir das palavras de Nietzsche (2005) entende-se que o conhecimento foi inventado, desta forma, ele não tem origem, ele não é natural, nem mesmo resultado de 7 Não há eclosão do desejo, seja qual for o lugar em que aconteça, pequena família ou escolinha do bairro, que não coloque em cheque as estruturas estabelecidas. O desejo é revolucionário, porque sempre quer mais conexões, mais agenciamentos. (Deleuze; Parnet, 1998, p. 107) 8 Ousar inovar, contra o hábito, é a produção do desejo de resistir contra a dominação. A resistência evoca a memória para se construir, mas, por vezes, busca suporte na história, é para instrumentalizar-se melhor. Assim, a resistência recria o desejo este produz artefatos, saberes, modos de ser. A produção, se marcada pela singularidade, faz a diferença. E aí nada mais permanece o mesmo. (Beltrão, 2000, p. 20). 5 harmonias. O conhecimento não tem um modelo, ele continua sendo inventado no cotidiano, na produção de saberes, a criação do conhecimento se dá através da luta. Assim, estes acontecimentos9 produziram reflexões em torno deste coletivo, potencializando os espaços de vivência onde é possível descobrir o cotidiano, a vida, as histórias, as relações, o trabalho, enfim, a possibilidade de perceber a movimentação no espaço assentamento, onde se consolida a vida. Por isso, o espaço acadêmico necessita conhecer estes modos de vida, podendo garantir, desta forma, a construção de saberes que cercam os muros da Universidade. Portanto, surgiu o desejo de pesquisar esta relação entre discentes e assentados e a aproximação entre Universidade e Movimento Social, instigada em ressaltar as contribuições que esta relação produz na formação profissional. Desta forma, instigava-me saber os motivos que fizeram com que estes discentes se envolvessem com o MST? Tendo em vista que havia outras possibilidades de grupos na relação com a Incubadora, por que escolheram a equipe de atuação do Programa INTECOOP junto aos assentados? Através das entrevistas pude perceber algumas falas que demonstram as justificativas desta escolha, bem como se percebe o desejo e as expectativas que cercam esta relação. Conforme a discente do curso de Serviço Social da UCPel, a mesma já havia se aproximado deste Movimento Social por intermédio de sua participação em um grupo de pesquisa, assim percebese através das falas as relações que foram se configurando por meio do envolvimento no cotidiano dos assentamentos: Meu contato com o MST começou muito antes do projeto INTECOOP, foi através de um grupo de pesquisa, por esse motivo, por já existir esta aproximação minha escolha foi o trabalho com os assentamentos de reforma agrária, bem como realizar meu estágio curricular nos assentamentos. Fiquei realizada com a possibilidade de envolver-me mais com o Movimento, de me aproximar com a vida no campo, como se consolida esta vida, como as famílias desenvolvem suas atividades, sentir a organização deste Movimento Social, pois vejo que quanto mais contato tenho mais me apaixono por esta luta, pela reforma agrária... (Estudante do 5° semestre). 9 Acontecimento é uma multiplicidade que comporta muitos termos heterogêneos, e que estabelece ligações, relações entre eles, através das épocas. (Deleuze; Parnet, 1998, p. 83) 6 Acredito que os sujeitos do MST nos possibilitam viver estas descobertas e trazer esta produção do conhecimento para o espaço da sala de aula, promovendo a discussão em torno da vida cotidiana. De um saber10 enquanto viver. Este saber viver, ou viver saber possibilita construir conhecimento a partir das experiências vividas. Portanto, percebe-se que o envolvimento junto aos espaços do MST reflete no espaço sala de aula, como “um espaço de metamorfose das relações e do surgimento das maneiras de ser; um espaço em que se unem os processos...” (Lévy, 1998, p.121), onde as discussões e análises partem da realidade, da experiência, de um saber enquanto vivência. Neste sentido, surge a seguinte questão: as relações com os assentados contribuem na formação profissional do discente? Como nos diz um discente: Contribui muito sim, poderia pontuar várias, mas uma delas é o entendimento melhor disso tudo que estamos passando toda essa questão que a gente está vivendo, da questão agrária, da discussão do porque da reforma agrária, de porque de um país soberanos aos demais, do problema da fome, isso é o cerne da questão, consigo a partir deste projeto enxergar várias coisas interessantes. No momento que estou lá com os assentados relacionando o conhecimento acadêmico com a prática de campo. (Estudante do 9° semestre do curso de Agronomia da UFPel). Através das falas, como resposta a questão colocada, pode-se ressaltar a importância da relação entre discentes e assentados enquanto discussão e aprendizagem do conhecimento, considerando que a produção do conhecimento não ocorre apenas no espaço acadêmico, mas na relação com o campo de atuação em que os discentes se envolvem promovendo, desta maneira, a formação dos mesmos. Segundo a discente do curso de Serviço Social: O lidar com a terra requer todo o respeito, uma relação de cumplicidade e comprometimento. Esta relação amplia-se para além da terra como solo, abrange o meio ambiente, relações sociais e subjetividade humana. É todo um conjunto que se interliga e refletem nossa maneira de pensar, sentir e o agir no mundo. O MST está transformando, comprometido desde o princípio com a análise e ação em relação a essas questões. Prática transformadora que o MST demonstra no seu agir tendo o ser humano como precioso, preservando a terra, os seres da natureza e construindo uma sociedade diferente. Levantam a bandeira e lutam para além da 10 ... um saber viver, ou um viver saber, um saber coextensivo à vida. Depende, portanto, de um espaço cosmopolita e sem fronteiras de relações e de qualidades, de um espaço de metamorfose das relações e de emergência das maneiras de ser, de um espaço onde se reúnem os processos de subjetivação. (Lévy, 1998, p.176). 7 conquista da terra, trabalham vínculos, fortalecem relações, praticam a solidariedade, trabalham na construção de uma consciência que abrange o homem e o mundo como um todo. Isso não esta escrito em nenhum livro, mas na vida, no cotidiano dos assentados, isso trago para a sala de aula, esse olhar e essa experiência de vida que me esta sendo permitida pelos assentados, na convivência com as famílias. (Estudante do 5° semestre do curso de Serviço Social da UCPel). Esta resposta acrescenta a questão em torno do saber, de um saber viver como nos coloca o autor Pierre Lévy, permitindo analisar que esta relação entre discentes e assentados contribui na formação profissional e o conhecimento adquirido nesta realidade retorna para o espaço sala de aula produzindo discussões que partam do cotidiano dos assentados, de uma realidade que se mostra. Espaço acadêmico: a metamorfose do conhecimento O que produzimos na Universidade? Talvez essa pergunta não tenha uma única resposta, acredito que existam várias respostas e que estes entendimentos possam ser costurados no decorrer do tempo sem a preocupação de chegar a um único resultado, mas que seja um processo11. A Universidade é um estabelecimento, um lugar e não uma instituição12, tendo em vista que as instituições não são espaços físicos, mas um conjunto de regras, normas e lógicas a serem seguidos na sociedade, significam a regulação de uma atividade humana, por exemplo, dentro da Universidade nos encontramos com as instituições da educação, isto é, com as leis, normas e pautas, “que prescrevem como se deve socializar, instruir um aspirante a membro de nossa comunidade para que ele possa integrar-se a mesma com suas características efetivas” (Baremblitt, 2002, p. 27). Assim, entendendo a instituição como uma lógica ou norma, no estabelecimento universitário perpassam várias instituições, como a instituição da linguagem pensando em termos gramaticais, que nada mais é do que um conjunto de leis e normas responsáveis por manter a ordem da linguagem da comunicação verbal de maneira “correta”. 11 Processo aqui é visto em seqüência contínua de fatos ou de operações que podem levar a outras seqüências de fatos e de operações. O processo implica a idéia de ruptura permanente dos equilíbrios estabelecidos. (Guattari; Rolnik, 2005, p. 387). 12 As instituições são lógicas, são árvores de composição lógicas que, segundo a forma e o grau de formalização que adotem, podem ser leis, podem ser normas quando estão enunciadas de maneira manifesta podem ser hábitos ou regularidades de comportamentos (Baremblitt, 2002, p. 25). 8 Na Universidade conseguimos identificar as barreiras existentes no processo de aprendizagem, considerando as regras estabelecidas. Acredito que o espaço acadêmico também é um espaço de reprodução, “cópia ou imitação, [...] designa as tentativas de reiterar algo idêntico, igual ou similar ao que já existe, cumprindo sua função conservadora” (Baremblitt, 2002, p.166). Considero que estes fatos estão presentes neste estabelecimento, mas encontramos também espaços de ruptura, com linhas que costuram relações, produzindo novos conhecimentos e espaços do saber. Em muitos momentos, o espaço de sala de aula não responde a todos os questionamentos porque o saber não está acabado, assim entendo a possibilidade de busca de diferentes saberes em diferentes espaços, no caso o espaço dos assentados do MST. Portanto, se compreendo o saber desta maneira, entendo que não existe o “dono” da verdade, nem do saber, tendo em vista que o saber corresponde a processos coletivos construídos a partir da relação do processo de ensinar com o processo de aprender13. Partindo do entendimento que o conhecimento não se constitui apenas no espaço de sala de aula, como a relação vivida junto aos assentados retorna para a Universidade? Como o envolvimento com as vidas das pessoas, com a produção de todo o conjunto do lote onde está o assentado, entendendo que não é apenas a produção do alimento, mas a produção da vida dos assentados, contribui na discussão no espaço universitário? Estas questões foram levantadas nas entrevistas realizadas, sobre isso um dos discentes entrevistados afirmou: Essa discussão volta com certeza a sala de aula. Quando chego lá vejo uma realidade particular, sem a separação das disciplinas, das matérias, na agronomia isso é muito forte... eles abordam de forma isolada, é interessante tá trabalhando a partir da ligação de tudo que está envolvido nisso, não ficar tão preso só a isso, em preciosismo. (Estudante do 9° semestre do curso de Agronomia da UFPel). Assim, as análises e práticas produzidas na sociedade se constituem de maneira fragmentada, como se a produção da vida não passasse por vários elementos que a compõem, como a produção alimentícia referente ao produto também esta relacionada com a produção da vida, com a família, com o agricultor que esta no campo plantando, com os animais que pisam no 13 É neste sentido que ensinar não é transferir conhecimentos, conteúdos nem formar, é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar, quem aprende ensina ao aprender. (1996, p. 25). 9 solo, na qualidade do solo, pela relação estabelecida com a natureza, são as interações na sociedade. Desta forma, percebe-se que as análises se constituem através da possibilidade de interagirmos no espaço onde estamos inseridos. Justamente permitindo inserir estas análises relacionadas com a realidade experienciada nos assentamentos para a sala de aula contribuindo na formação profissional. Acredito que a relação junto ao MST retorna para a Universidade, pois para mim que desconhecia a vida no campo e a possibilidade de se aproximar desta realidade me permite ter vontade de estudar e entender a vida no campo, de como é viver no campo, plantar, tocar as vacas, que gosto tem a fruta no pé, qual o barulho do silêncio do campo. Poder me aproximar do agricultor, saber o que é para ele ser um agricultor, conhecer a vida simples, a vida no assentamento. Volta para a Universidade o aprender a conhecer esta realidade, o descobrir da organização do assentado no MST, movimento composto por vidas, sonhos e lutas. Sempre lembro de uma frase que ouvi de um agricultor: “Pra ser agricultor não precisa estudar muito, só precisa saber quando a terra ta no cio, semear a semente e depois acarinhar”, é isso estar na Universidade pra mim significa respeitar este saber, respeitar o conhecimento da população com a qual se esta envolvida. (Estudante do 5° semestre do curso de Serviço Social da UCPel). Nesta perspectiva, é possível compreender a Universidade, o espaço de sala de aula a partir da relação ensino-aprendizagem, considerando as diferentes experiências que emergem no cotidiano acadêmico. Torna-se claro que o conhecimento é uma produção que consolida-se em diferentes espaços, levando em conta as vivências, os momentos de experiências, sendo possível relacionar teoria e prática entendendo que “a teoria não expressa uma prática ela é uma prática“ (Foucault, 2002, p. 71). Ora, teoria e prática estão interligadas e não separadas, não é possível agir isoladamente sem entender e compreender o processo, sem debater profundamente o significado do fazer. Teoria junto da prática exige postura e comprometimento com a produção14 do conhecimento. A própria questão agrária que está presente nesta escrita nos faz analisar que a mesma não se refere apenas à distribuição da terra, a redistribuição da terra, mas tudo que está em torno desta discussão. Refere-se a todas as vidas que estão passando por essa discussão da reforma agrária, da distribuição da terra, do MST, do assentamento, do acampamento, enfim, a uma realidade que 14 Geração do novo daquilo que a Utopia Ativa persegue. É equivalente ao funcionamento. É aquilo que processa tudo que existe, natural, técnica, subjetiva e socialmente. É a permanente geração de tudo que pode logo tender-se a cristalizar-se. É o devir a metamorfose (Baremblitt, 2002, p. 164). 10 se realiza. Neste sentido, podemos nos questionar: para que a Universidade nos prepara? Muitas vezes percebe-se que as análises acadêmicas realizadas em sala de aula partem de um cotidiano desconhecido aos discentes. Torna-se difícil discutir situações não vividas, apenas contidas no imaginário e distante do nosso cotidiano. Considerações finais Portanto, através do presente estudo realizado junto aos discentes envolvidos no Programa da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares e através da relação estabelecida junto aos assentados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, é possível afirmar que ocorre produção de conhecimento dos discentes a partir das experiências vividas na realidade dos assentamentos. É potencializada a formação acadêmica dos estudantes na interação entre Universidade e Movimento Social, ou melhor, do espaço acadêmico de sala de aula com o espaço onde se configura a vida de inúmeras famílias assentadas, da vida de agricultores, deste modo de vida, que muitas vezes não é trabalhado na Universidade, pois não está presente em livros nem tampouco em teorias, ao contrário, este conhecimento é produzido no cotidiano da vida, na experiência vivida, no encontro com vidas e experiências de luta e organização populares, como manifestações da vida. Referências bibliográficas BAREMBLITT, Gregório. Compêndio de análise institucional e outras correntes: teoria e prática. 5. ed. Belo Horizonte, MG: Instituto Felix Guattari, 2002. BELTRÃO, Ierecê Rego. Corpos dóceis, mentes vazias, corações frios – Didática: o discurso científico do disciplinamento. São Paulo: Imaginário, 2000. CERTAU. Michel; GIARD, Luce; MAYOL, Pierre. A invenção do cotidiano: Morar e cozinhar. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1998. DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo: Escuta, 1998. FERNANDES, Bernardo Mançano. Questão Agrária, Pesquisa e MST. São Paulo: Cortez, 2001. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1998. ______ . Microfísica do Poder. 17. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2002. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 13. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. 11 GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Micropolítica Cartografias do Desejo. Petrópolis: Vozes, 2005. 439 p.JOHNSON, Allan G. Dicionário de sociologia: guia prático da linguagem sociológica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. KASTRUP. Virgínia. A invenção de si e do mundo: uma introdução do tempo e do coletivo no estudo da cognição. Campinas-SP: Papyrus, 1999. ______. Virgínia. A psicologia na rede e nos novos intercessores. Em Tânia M. G. Fonseca e Deise J. Francisco (org), Formas de ser e habitar a contemporaneidade. Porto A legre: Universidade UFRGS, 2000. p.13-26. KIRST, Patrícia Gomes; FONSECA, Tânia Mara Galli (orgs.). Cartografias e Devires: a construção do presente. Porto Alegre: UFRGS, 2003. LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva: para uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998. NIETZSCHE, Friedrich. Para Além do Bem e do Mal. São Paulo: Martin Claret, 2005.