Características prosódicas de uma forma de tópico no português do Brasil
Bruno Alberto de Oliveira Mota (Fapemig-UFMG)
[email protected]
Tommaso Raso (UFMG)
[email protected]
Maryualê Malvessi Mittmann (UFMG)
[email protected]
João Antônio Moraes (UFRJ)
[email protected]
O objetivo deste trabalho é apresentar uma descrição das características entonacionais de
uma das formas da unidade informacional tópico, encontrada na fala brasileira. Esta forma
diferencia-se de outras formas já encontradas no português brasileiro (ALVES DE DEUS, 2008;
RASO; ULISSES, 2008; RASO; MELLO, 2010b) e também no italiano (FIRENZUOLI;
SIGNORINI, 2003). Será descrita a forma e serão analisados exemplos que ilustram suas
características fundamentais, utilizando-se para tal a síntese da fala realizada através do software
Praat.
Os dados analisados são extraídos do C-ORAL-BRASIL (RASO; MELLO, 2010a), corpus
oral do português do Brasil, um ramo do projeto C-ORAL-ROM (CRESTI; MONEGLIA, 2005).
Todos os textos da amostra são de fala espontânea, coletados seguindo a maior variação diafásica
possível (graças à utilização de equipamentos sem fio não invasivos de última geração), divididos
em monólogos, diálogos e conversações. A fala é transcrita e segmentada em enunciados
(delimitados através da identificação de quebras prosódicas percebidas como terminais) e unidades
tonais (delimitadas através da identificação de quebras prosódicas percebidas como não terminais
dentro dos enunciados) (MONEGLIA-CRESTI, 1997; MELLO-RASO, 2009).
A estrutura do corpus permite a análise informacional da fala espontânea segundo a Teoria
da Língua em Ato (CRESTI, 2000). Segundo a teoria, o enunciado é a menor unidade da fala com
autonomia pragmática e define-se como a contrapartida linguística do ato de fala (AUSTIN, 1962).
As unidades internas ao enunciado, por sua vez, podem cumprir diferentes funções informacionais
(unidades informacionais). A mais importante é a de comentário, pois a ela cumpre veicular a força
ilocucionária, sendo necessária e suficiente para formar um enunciado. As outras unidades que
podem participar de um padrão informacional são o tópico, o apêndice (de comentário ou de
tópico), o parentético, os auxílios dialógicos e o introdutor locutivo. A identificação de cada unidade
é realizada com base em três critérios concomitantes: funcional, distribucional e entonacional.
A segunda função mais importante, do ponto de vista textual, é a de tópico. Este é definido
como a unidade que determina semanticamente o âmbito de aplicação da força ilocucionária
(critério funcional), posicionada à esquerda do comentário (critério distribucional) e com perfil
prosódico do tipo prefixo (HART; COHEN; COLLIER, 1990) melodicamente subordinado ao
comentário, com foco entonacional à direita (critério entonacional). Esta definição permite
distinguir o tópico de outras noções, como tema ou dado, frequentemente usadas na literatura
(SIGNORINI 2004). A unidade de tópico não pode ser interpretada em isolamento (ao contrário do
comentário). A locução do tópico não apresenta restrições de ordem sintática, desde que se
configure como um domínio de identificação. Assim, o tópico pode ser expresso através de um SN,
um SP, um SAdj, um SAdv ou um SV. Não há necessidade de que o tópico apresente
composicionalidade sintática com o resto do enunciado, já que a relação entre as unidades é de
natureza funcional, marcada pelo padrão prosódico.
Nos estudos realizados para o italiano, foram identificadas e descritas três formas
entonacionais diferentes para a unidade de tópico (chamadas de formas do tipo 1, do tipo 2 e do tipo
3). Estes estudos foram realizados com base em 150 tópicos (75 com voz masculina e 75 com voz
feminina) selecionados aleatoriamente em um corpus de italiano comparável ao utilizado no
presente trabalho. A noção de forma entonacional refere-se ao conjunto de parâmetros prosódicos
presentes em uma unidade prosódica com função informacional. Os parâmetros considerados são:
evolução da curva melódica ao longo da unidade, tempo (timing), frequência fundamental (F0)
média, F0 do ataque e duração de diversos segmentos da unidade. Cada forma entonacional é
constituída por três diferentes tipologias de porções tonais, das quais somente uma é necessária, o
núcleo. As outras duas são opcionais: uma preparação, à esquerda do núcleo, e uma coda, à direita.
A forma do tipo 1 é a mais frequente no italiano (55% dos casos) e caracteriza-se por um
movimento ascendente-descente, com subida na última sílaba tônica, que apresenta um
alongamento, e descida na postônica (ou, no caso de oxítonas, com subida e descida na última
sílaba). A forma do tipo 2 é a segunda mais frequente (24% dos casos): possui movimento niveladoascendente, a subida se inicia na última sílaba tônica, com alongamento, e continua nas eventuais
pós-tônicas. Na forma do tipo 3 (21% dos casos) o movimento é descendente-nivelado-ascendente.
Neste caso, o núcleo não recai apenas sobre a porção final (à direita) da unidade, mas está
distribuído por toda ela; a eventual “preparação” se situa entre dois movimentos necessários,
chamados semi-núcleos, um de descida no começo da unidade e outro de subida no final; este
movimento de subida final sempre recai sobre a última sílaba, seja tônica ou pós-tônica, também
com alongamento (FIRENZUOLI; SIGNORINI, 2002).
No português brasileiro, as formas identificadas mais comuns são análogas às formas do
tipo 1 e 2 descritas acima; uma forma análoga à do tipo 3 também foi encontrada, porém com
freqüência muito menor. No entanto, uma análise do corpus revelou tópicos com forma
entonacional não encontrada no italiano, que chamamos de tipo 4, aparentemente com freqüência
superior àquela de tipo 3 mas inferior àquela de tipo 1 e 2. Esta forma é caracterizada por um ataque
extra alto, com valores de duração e intensidade também altos, uma rápida descida melódica e um
alongamento e um aumento de intensidade na sílaba tônica final. Nesta sílaba, o movimento de F0
pode ser de ligeira subida, de ligeira descida ou nivelado, mas o que é fundamental para a percepção
funcional é o alongamento na última tônica; entre o ataque e a tônica final é possível uma
preparação, assim como acontece para a forma do tipo 3, caracterizando também esta forma como
holística, ou seja formada por dois semi-núcleos.
A tabela abaixo mostra um exemplo desta tipologia de tópico, com os valores de F0,
duração e intensidade para cada sílaba da locução “de certa forma” no enunciado “porque / &he / de
certa forma /=TOP= a bancada evangélica /=TOP= eles tão / muito contra /=COM= essa coisa /
né//1. O enunciado é realizado por um informante masculino.
sílabas
parâmetros
(de)
(t)cer ta
for
ma
F0 peak
F0 average
F0 variation
dB max
dB average
syllabic dur
vowel dur
*
*
*
*
*
*
*
356
348
15
79,4
77,7
324
95
199
188
23
82,2
80,2
361
138
167
166
2
78,0
76,9
113
41
189
179
16
80,8
78,8
158
57
A imagem abaixo mostra a forma estilizada do mesmo tópico.
Frequency (Hz)
500
0
0
1.052
Time (s)
1
A barra simples indica quebra não terminal e a barra dupla quebra terminal. Se mantém a etiquetagem somente da
unidade de tópico e de comentário.
É importante notar que, quando o movimento na tônica final é de subida, este é insuficiente
para configurar um tópico do tipo 2, ou seja, escutando-se apenas a porção final, não se identifica a
função da unidade como tópico. Ao contrário, utilizando-se a síntese para eliminar este movimento
de subida final, mantendo somente a intensidade e o alongamento, preserva-se a percepção da
função de tópico da unidade.
O trabalho mostra como é possível identificar e descrever formas de funções
informacionais através da análise de corpora de fala realmente espontânea e que línguas diferentes
podem ter formas comuns, mas também formas específicas.
Referências
AUSTIN, L. J. (1962) How to do things with words. Oxford: Oxford University Press.
ALVES DE DEUS, L. (2008) O Tópico no português do Brasil. Dissertação (Mestrado em
Linguística) – Faculdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.
CRESTI, E. (2000) Corpus di Italiano parlato. Firenze: Accademia della Crusca. Vol 1.
CRESTI, E.; MONEGLIA, M. (eds) (2005) C-Oral-Rom: Integrated Reference Corpora For Spoken
Romance Languages. Amsterdam: John Benjamins.
FIRENZUOLI, V.; SIGNORINI, S. (2003) L’unità informativa di topic: correlati intonativi. Em:
MAROTTA, G.; NOCCHI, N. (orgs.). La coarticolazione. Atti delle XIII GFS. Roma: Il Calamo.
HART, J’t.; COLLIER, R.; COHEN, A. (1990) A perceptual study on intonation: An experimental
approach to speech melody. Cambridge: Cambridge University Press.
MELLO, H.; RASO, T. (2009) Para a transcrição da fala espontânea: o caso do C-ORAL-BRASIL.
Revista Portuguesa de Humanidades. 2009, p. 301-325.
MONEGLIA, M.; CRESTI, E. (1997) L’intonazione e i criteri di trascrizione del parlato adulto e
infantile. In: BORTOLINI, U.; PIZZUTO, E. Il Progetto CHILDES Italia. Pisa: Del Cerro, p. 57-90.
RASO, T.; MELLO, H. (2010a) The C-ORAL-BRASIL corpus. In: Moneglia, M.; Panunzi, A.
(eds.) Bootstrapping Information from Corpora in a Cross Linguistic Perspective. Firenze: Firenze
University Press, pp. 193-213.
RASO, T.; MELLO, H. (2010b) As especificidades da unidade de tópico em PB e possíveis efeitos
do contato lingüístico. In: SARAIVA, E.; CHAVES MARINHO, J. Estudos da língua em uso: da
gramática ao texto. Belo Horizonte: Faculdade de Letras, UFMG.
RASO, T.; ULISSES, A. (2008) Tópico e Apêndice no português do Brasil: algumas considerações.
Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 16, n. 1, p. 247-262.
SIGNORINI, S. (2004). L’unità di topic: caratteristiche e frequenza in un corpus di italiano parlato.
Il topic complesso. In: D’ACHILLE, P. (Ed.). Generi, architetture e forme testuali. Atti del VII
Convegno Internazionale SILFI. Firenze: Franco Cesati, p. 227-238.
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