Andréia de Araújo Duarte
Representação Social e Coping: uma Forma de Elaboração da Diabetes
Tipo 2
Diabetes: formas de elaboração
Social Representation and Coping: A Form of Development of Type 2
Diabetes
Graduanda do Curso de Psicologia do
Centro Universitário de Brasília
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Orientador: Prof. Dr. Sergio Henrique de Souza Alves
Representação Social e Coping: uma Forma de Elaboração da Diabetes
Tipo 2
Social Representation and Coping: A Form of Development of Type 2
Diabetes
Resumo
A diabetes Mellitus tipo 2 (DMT2) é uma doença que impõe uma série de
mudanças à vida do paciente, e a forma como cada paciente enfrenta estas
mudanças e responde ao tratamento está de certa forma ligada às suas
concepções de saúde e doença, ou seja, as suas representações sociais. No
caso da doença, uma vez instaurado o alerta de ameaça, o indivíduo passa a
procurar formas de conceber e resolvê-la a fim de conseguir seu estado de
normalidade ou equilíbrio, a forma como enfrentamos tal ameaça é
denominada de coping. O presente trabalho tem como objetivo levantar se
existe alguma diferença entre a forma como os portadores de DMT2 de classes
sociais diferentes concebem e enfrentam a doença. Para isso foram
entrevistados dois participantes, ficando caracterizada assim uma notável
diferença tanto na forma de elaboração quanto de enfrentamento da doença.
Palavra-chave: DMT2; Dieta; Representação Social; Copin;, Elaboração.
Abstract
Type 2 Diabetes Mellitus (T2DM) is a disease that requires a number of
changes to the patient's life, and how each patient faces these changes and
responds to treatment is somehow linked to their conceptions of health and
disease, ie, their social representations. In the case of the disease, once
established the threat warning, the individual begins to look for ways to design
and solve it in order to get his state of normalcy or balance, how we face this
threat is called coping. The present work aims to raise if there is a significant
difference between how patients with T2DM conceive of different social classes
and face the disease. For two participants were interviewed, featured so getting
a noticeable difference both in the form of elaboration as to cope with the
disease.
Keyword: T2DM; Diet; Social Representation; Coping; Development.
INTRODUÇÃO
A diabetes mellitus é uma doença crônica que se caracteriza pelo
aumento da glicose no sangue, a hiperglicemia, ou seja, o organismo perde de
forma parcial, a capacidade de metabolizar os açúcares fornecidos pelos
alimentos, neste caso o açúcar não metabolizado acumula-se e não se
transforma em energia. Atualmente a diabetes está classificada em: Diabetes
Mellitus tipo 1, Diabetes mellitus tipo 2, que é a forma mais comum da doença
e atinge cerca de 90% dos casos diagnosticados e Diabetes gestacional.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) a diabetes já afeta cerca de
347 milhões de pessoas em todo o mundo. Calcula-se que em 2040 cerca de
3,4 milhões de pessoas morreram em conseqüência do excesso de açúcar no
sangue, visto que a mesma é uma doença de cunho silencioso, ou seja, quase
método dos portadores não sabe que tem a doença (OMS).
A diabetes Mellitus tipo 2 (DMT2), objeto de estudo deste trabalho, é uma
doença que impõe uma série de mudanças à vida do paciente, mudanças
essas que implicam em hábitos alimentares mais saudáveis, uma rotina diária
de exercícios físicos e o uso contínuo de medicamentos. No caso do
tratamento, o paciente passa a ter sua rotina de vida alterada não apenas por
um breve período de tempo, mas para o resto da vida, e neste caso, para
algumas pessoas viver com uma condição crônica pode ser algo muito
ameaçador (Péres, Franco & Santos, 2008). Estudos têm demonstrado a
importância da prática de atividade física nos portadores de doenças crônicas,
tal como a diabetes (Lima, Santos, Nóbrega, Andrada, Stein, Gonçalves, Lobe,
Sorino & Andrada, 2011). Porém o fato dos pacientes serem alertados pelos
profissionais de saúde sobre tais benefícios, este conhecimento na maioria das
vezes não implica um comportamento ativo (Knuth, Bielemann, Silva, Borges,
Del Duca, Hallal, Rombaldi & Azevedo, 2009). Um estudo realizado na área
mostrou que, na maioria das vezes o nível de conhecimento que o paciente
tem sobre a diabetes, não esta relacionado com um maior controle glicêmico, e
que na sua maioria as pessoas não parecem valorizar ações preventivas.
Identificou-se também que 46,4 % das pessoas não tinham um conhecimento
adequado sobre o valor normal da glicose sanguínea, demonstrado assim a
existência de uma lacuna entre a fala do profissional de saúde e o paciente
(Pace, Ochoa-vigo, Caliri & Fernades, 2006).
Outro fator relevante em relação a DMT2 é o estigma social enfrentado
por eles diariamente, pois, segundo Nunes (2005) a sociedade não está
preparada para apoiar de forma efetiva este grupo que tem crescido a cada
dia. Um bom exemplo disto pode ser visto nos hotéis e restaurantes, que
dificilmente possui um cardápio adequado para a dieta necessária aos
portadores de DMT2.
Neste caso, a forma como cada paciente enfrenta estas mudanças e
responde ao tratamento está de certa forma ligada às suas concepções de
saúde e doença, ou seja, às suas representações sociais (Péres, Franco,
Santos & Zanetti, 2008 e Sanches & Ceotto, 2012). Geralmente ao
enfrentarmos novos desafios em nossa vida buscamos conceitos que nos
orientem a respeito daquele fenômeno em especial, conceitos estes que estão
pautados em nossa interação com o mundo social (Moscovicci,1978). Esta
interação entre sujeito e mundo cria um novo campo conceitual, ou um novo
mundo significativo, através do qual sua relação com o outro passa a ter
sentido, dando origem assim as representações sociais, e são estas
representações que vão permitir a existência de novos símbolos, que são
pedaços da realidade mobilizada pela atividade criadora deste sujeito social
para dar sentido a sua vivência (Guareschi & Jovchelovitch, 2003). Segundo
Moscovici (1978) as representações sociais podem ser definidas como
“imagens construídas sobre o real”, na sua maioria são elaboradas na relação
dos indivíduos com seu grupo social na ação do espaço coletivo comum a
todos. Sendo assim, elas são fruto de um processo sempre atuante,
desencadeado pelas ações coletivas dos indivíduos. Como resultado temos a
ação dos indivíduos, que é caracterizada pelas representações sociais que seu
grupo elaborou, ou seja, “As representações sociais, individual ou social, fazem
com que o mundo seja o que pensamos que ele é ou deve ser" ( Minayo, 1994,
p. 108).
Neste caso, é impossível falamos de representação social sem a
presença da construção de sentido do próprio sujeito, uma vez que este não é
um ser passivo na ação e na produção de sentidos, e é por isso que as nossas
representações sociais vão de certa forma definir a forma como enfrentamos a
doença ou o valor que damos a essa ameaça (Souza, 2011), valor este, que
apesar de influenciado pelo social possui como afirma González Rey (2007)
uma produção de sentido única do sujeito.
No caso da doença, uma vez instaurado o alerta de ameaça, o indivíduo
passa a procurar formas de conceber e resolvê-la, a fim de conseguir seu
estado de normalidade ou equilíbrio, neste caso, a forma como enfrentamos tal
ameaça é denominada de coping. Tomando como base a teoria cognitivista,
Folkman e Lazarus (1984, citado por Antoniazzi, Dell'Agilo & Bandeira, 1998)
descreve
o
coping
como
"um
conjunto
de
esforços
cognitivos
e
comportamentais, utilizado pelos indivíduos com o objetivo de lidar com
demandas específicas, internas ou externas, que surgem em situações de
stresse", e que de certa forma, é avaliada por ele como sendo algo que excede
seus recursos pessoais.
Segundo a teoria aqui proposta o coping divide-se em duas categorias
funcionais: coping focado nas emoções, que é caracterizado por um valor
emocional onde o indivíduo passa a fazer interpretações em relação ao
ambiente, envolvendo mais o pensar do que o agir, formando assim novos
conceitos em relação à forma de enfrentar, conceituar e de vivenciar a doença
consigo mesmo e com seus familiares; coping focado no problema, onde o
indivíduo começa a focar seu olhar em fatores externo, como a própria doença,
passando a buscar repostas mais práticas e ativas em relação ao tratamento e
às demais formas de lidar com este novo fenômeno (Sousa, Landeiro, Pires &
Santos, 2011).
Neste caso, tanto o estudo do coping com o estudo das representações
sociais se mostra uma boa opção para conhecer o modo de funcionamento do
sistema de referência dos portadores de DMT2, uma vez que as
representações sociais têm por objetivo investigar como se formam as relações
ideológicas no imaginário popular (Alves-Mazzotti, 2008), podendo ajudar a
entender melhor como cada indivíduo concebe e enfrenta a doença, visto que
as representações sociais estão diretamente relacionadas ao conceito formado
por um grupo de pessoas a respeito de um fenômeno e interligado à forma
como enfrentam a doença, ou seja, o coping. O presente trabalho tem como
objetivo levantar se existe uma diferença significativa entre a forma como os
portadores de DMT2 da classe social A e os portadores de DMT2 da classe C
concebem e enfrentam a doença.
MÉTODO
O presente trabalho está fundamentado na Pesquisa Qualitativa, que
tem como característica central a compreensão da produção do conhecimento
como processo construtivo-interpretativo, construindo o fenômeno a partir do
olhar do próprio sujeito, dando a fala um lugar de destaque, tanto na coleta
como na disseminação dos dados (Godoy, 1995).
Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética, protocolo...Data.
•
PARTICIPANTES:
A amostra foi composta por dois participantes, um do sexo masculino,
70 anos, empresário, com renda aproximada de oitenta e cinco salários
mínimos e outra do sexo feminino, 54 anos, doméstica, com renda aproximada
de dois salários mínimos, todos portadores de diabetes mellitus tipo 2. O
critério de exclusão da pesquisa foi não ser portador da patologia, bem como
se recusar a assinar o Terno de Consentimento Livre e Esclarecido.
•
INSTRUMENTO:
O instrumento utilizado foi à entrevista semi-estruturada, que na
pesquisa qualitativa, tem o objetivo de converter-se em diálogo onde surgem
inumeráveis elementos de sentido que podem ser relevantes para o processo
de construção do conhecimento.
•
PROCEDIMENTO:
A coleta de dados se deu através de entrevistas que foram feitas na
residência dos respectivos participantes, em um local privativo e livre de
interrupções, com duração de aproximadamente quarenta minutos cada. As
entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas para que possibilitasse
um maior aproveitamento dos dados.
•
ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES:
As análises das informações obedeceram às seguintes etapas: As
respostas de todos os entrevistados foram reunidas em um texto único
compondo um corpus de análise. Em seguida foi realizada uma leitura flutuante
até a familiarização do pesquisador com o corpus. Após a leitura flutuante deuse início ao processo de categorização, cujo objetivo foi agrupar elementos em
função de sua significação, ou seja, organizar as informações contidas nas
respostas em unidades de análise ou eixos temáticos. Neste caso, as unidades
de análise ou eixos temáticos foram constituídas levando-se em conta o
objetivo da pesquisa, logo, a identificação de possíveis respostas à
problematização da pesquisa (Minayo, 2007).
ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS:
Tomando como base os dados coletados nas entrevistas foi possível
observar a forma como cada participante, ao seu modo e de forma tão
antagônica, tem buscado um único objetivo, enfrentar a doença.
Neste caso, para que fosse possível observar de forma mais ampla a
análise dos dados, o mesmo foi dividido em categorias como:
•
Diabetes
O conhecimento prévio que os participantes tinham a respeito da doença
foi muito semelhante, tanto o participante 1, como a participante 2 não
possuíam nenhum conhecimento a respeito da doença. Segundo eles não
sentiam qualquer sintoma que pudesse de alguma forma alertar quanto a algo
diferente em seu organismo. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde)
uns dos maiores problemas enfrentados pelas autoridades de saúde em
relação à doença é o seu cunho silencioso, ou seja, cerca de 50% dos
portadores de diabetes não sabem que tem a doença, agravando ainda mais
seus sintomas. No caso do participante 1, o mesmo só teve o conhecimento da
doença quando sua glicose estava extremamente elevada, sendo necessário o
uso imediato de insulina. Já a participante 2, descobriu a doença em um exame
de rotina, como a taxa de glicose não estava tão elevada, a mesma pode fazer
uso apenas da dieta como recurso para o restabelecendo do seu equilíbrio
glicêmico. Segundo ela, já havia participado de campanhas de rua para medir a
taxa de glicose no sangue, porém apesar do procedimento, não ouve nenhuma
informação importante a respeito da doença, "...ela só falou que eu não tinha
diabetes...daí eu disse: então tá, mais ninguém me disse nada sobre a
doença". Neste sentido, é necessário por parte dos profissionais de saúde uma
linguagem mais simplificada porém esclarecedora, motivando os pacientes a
aprender sobre a doença, para que possam assumir frente a mesma uma
condição de sujeito ativo no tratamento e cuidado (Pace, Ochoa-Vigo, Caliri &
Fernades, 2006).
Em relação ao diagnóstico, o participante 1 relata que nunca lhe foi dito
de forma enfática "você tem diabetes!", mesmo assim ele afirma ter uma
"cabeça boa" e não se preocupa com isso, de forma que a doença nunca
alterou sua retina ou a forma como este vê a vida. Segundo relata, já
apresentava problemas de saúde, triglicérides altos, tendo que se submeter
constantemente a exames médicos, ou seja, a família já apresentava uma
dinâmica favorável, uma vez que, todos já sabiam que o pai necessitava de
alguns cuidados especiais. Segundo Hauser (1990, citado por Nunes, 2005)
inúmeros estudos realizados na área têm demonstrado que a estrutura família
coesa tem cooperado para níveis glicêmicos mais baixos entre os pacientes e
que o apoio familiar tem ajudado os pacientes a enfrentar melhor o estresse
decorrente do diagnóstico.
A participante 2, ao ser questionada sobre o diagnóstico diz: "eu fiquei
triste né..." "Quando eu fui toma a vacina, o moço disse: Quem tem doença
crônica pode tomar. Eu fiquei tão triste. Porque dai nunca sara né...". Segundo
Minayo (1994) “As representações sociais, individual ou social, fazem com que
o mundo seja o que pensamos que ele é ou deve ser", ou seja, a forma como
recebemos e elaboramos um diagnóstico está diretamente ligada ao
conhecimento prévio ou as informações que temos a respeito dele. Nesse
caso, a participante 2 relata ter ficado muito triste quando ouviu o termo
"doença crônica", pois para ela estava relacionado a algo que não tem cura,
ou seja, para sempre. Gonzáles Rey (2007) afirma ser impossível falarmos de
representação social sem a ascensão desta construção subjetiva, que
acontece no processo de subjetivação, onde o sujeito internaliza suas crenças
e medos, seus anseios e expectativas, neste caso, o termo "para sempre" teve
um impacto significante na elaboração do diagnóstico da participante 2, o que
se mostrou indiferente para o participante um que relata "ter uma cabeça boa e
não ligar para isso".
•
Alimentação e Dieta
Em relação à alimentação o participante 1 afirma que sempre gostou muito
de comer e que hoje encontra muita dificuldade para manter a dieta restritiva
imposta pela doença, mesmo porque segundo ele, nos hotéis que frequenta
não tem um cardápio adequado a sua dieta, e o que se percebe é um abismo
enorme de separação entre a alimentação hoteleira e a hospitalar, pois para
ele é impossível se alimentar de forma adequada enquanto hóspede de um
hotel, assim como é impossível, segundo ele, se alimentar em um hospital, “...
Volte e meia eles me levam para lá, dai me dão aquela comida horrível, que
não tem condição de comer, dai tem que baixar né... Eu fico só na maçãzinha
que é o que da pra comer”. Bezerra (2003) afirma ser possível aplicar a boa
gastronomia a dietas alimentares, a autora relata ainda que ao longo da
história o homem foi se aperfeiçoando na arte da culinária de maneira que,
uma alimentação saudável e saborosa pode ser implementada tanto na
gastronomia hoteleira quando hospitalar, uma vez que, uma das maiores
queixas das internações está diretamente ligada à alimentação hospitalar. Isto
também corrobora com uma queixa constante dos portadores da doença que é
a falta de apoio social. A sociedade em geral não está preparada para dar um
suporte alimentar diferenciado a estas pessoas, não obstante estudos ter
demonstrado que o apoio social é uma mola propulsora para o aumento da
qualidade de vida dos portadores da doença (Nunes, 2005).
Em contrapartida, a participante 2 relata que não encontra dificuldade em
seguir a dieta imposta pela doença, pelo contrário, esta tem sido tão austera a
ponto de provocar na paciente hipoglicemia. "Durante muito tempo eu não
comia nada de farinha branca. Daí o médico me falou que não precisava ser
tão assim... que em vez em quando eu podia comer alguma coisa. Porque
esses dias eu tirei minha glicose e ela deu oitenta... num pode, sabe quando
ela dá baixa eu sinto...", neste caso é visível que há uma distinção entre o olhar
dado a alimentação pelo participante um e pela participante 2, uma vez que o
participante um relata "não ligar para estas coisas" a participante dois diz:"...eu
tenho é medo de morrer... por isso eu faço minha dieta tranquila" "...Quando o
povo fala, iiii fulano morreu de diabetes, eu fico triste... O povo fala que fica
cego, que isso que aquilo. Eu fiz até um exame de olho, porque eu morro de
medo", ou seja, tanto a sua rotina alimenta quanto o seu comportamento rígido
esta baseado na sua representação social da doença, "... o povo fala", "... o
médico não teve nada a ver com isso, eu não ligo pra médico não...", para ela a
influência do meio social, suas crenças e valores, tem um valor muito maior
que a do profissional da saúde.
No caso dos portadores de diabetes, a dieta tem se mostrado uma forma
de coping, ou seja, é através desta que os pacientes têm demonstrado o modo
como enfrentam e elaboram a doença. O participante um, apesar de saber os
benefícios de uma boa alimentação, “... Você vê hoje no café eu comi: uma
banana ouro, uma mexerica e um pedaço de manga, e eu to bem, não to
inchado, to com disposição... to bem sabe", apesar disso ele relata ter muita
dificuldade em segui-la de forma constante. Come pouco hoje, amanhã come
mais, se a taxa sobe ele para de comer, e assim por diante, ou seja, ele
conhece a dieta e os seus benefícios, mesmo assim faz a opção de não seguila corretamente, "a gente vê que pode controlar a diabete pela alimentação,
talvez assim... se eu começar mesmo a entrar nessa, de não comer mesmo o
que não presta... eu vou controlar a minha taxa sem remédio. Eu senti isso", é
possível
observar
que
o
participante
1
consegue
cognitivamente
e
emocionalmente avaliar a situação em questão, porém não consegue colocar
em prática, ou não consegue transformar isso em ação, caracterizando um
coping focado exclusivamente nas emoções. No caso da participante 2, alega
não ter dificuldade de fazer a dieta, pois esta focada na doença e suas
consequências "...tenho medo é de ela se agravar...por isso eu faço minha
dieta tranquila", consequentemente um coping focado no problema.
Folkman e Lazarus (1984, citado por Antoniazzi, Dell'Agilo e Bandeira,
1998) vão propor quatro modelos no qual o coping
esta baseado, e ao
observar os relatos do participante um fica bastante evidente que o coping tem
apenas por função administrar uma situação estressora; já no caso da
participante dois é um processo de esforço cognitivo e comportamental que a
mesma despende a fim amenizar as demandas internas e externas que surgem
desta interação sujeito e ambiente.
Questionada sobre sua alimentação antes do diagnóstico, a participante
2 disse que nunca gostou de doces por isso ficou assustada, pois para ela a
diabetes era uma "doença de quem come muito doce". “... Sabe, eu tinha
diabetes e não sabia porque eu nunca gostei de doce. Entendeu... eu gosto é
de massa, de arroz, macarrão, gora doce eu nunca gostei", o participante 1
quando questionado apresentou o mesmo argumento, relatando que também
nunca gostou muito de doces.
•
Hospital e Medicamento
Por consequência de uma dieta pouco rigorosa o participante 1 relata ter
sido internado por várias vezes com taxas extremamente elevadas, "...Uma vez
a glicemia tava quase em 500. Volte meia eles me levam pra lá... Eu fico só na
maçãzinha, fico lá assistindo minha TV, recebo a visita dos filhos, das noras...
dois dias ou três ela volta pro normal e eu caio fora", apesar da internação ter
sempre uma conotação ruim, no caso aqui em específico, nota-se um certo
ganho secundário por parte do participante, uma vez que, este afirma ter uma
atenção maior quando está no hospital. Quando questionado a respeito do
apoio da família o participante 1 não deixa muito claro este apoio, apenas diz
que a família já estava acostumada, pois ele tinha um problema de triglicérides
alto, ou seja, apesar da família estar estruturada em torno da enfermidade não
fica explícito na fala do participante este acolhimento, isto só vai aparecer na
hora da internação.
Já a participante 2 afirma nunca ter sido internada, "...porque eu faço
minha dieta né.", além disso mede a glicose apenas nos finais de semana e
nunca fez uso de insulina, diferente do participante 1 que faz a medição três
vezes ao dia, e o uso de 90 miligramas de insulina dividido em três doses.
"...quarenta de manhã, na hora do almoço eu tomo vinte e a noite trinta".
Em relação ao apoio familiar, a participante 2 afirma ter um apoio efetivo
da mesma, principalmente da filha mais velha. Novamente cabe ressaltar a
importância do apoio familiar na adesão dos pacientes ao tratamento e em sua
influência na melhora da qualidade de vida dos mesmos (Nunes, 2005).
•
Atividade Física
Em relação a prática de atividade física o participante 1 afirma que não é
muito adepto, o mesmo relata que a prática de atividade física acontecem
apenas nos finais de semanas ou em algum momento quando está de férias,
ou seja, de forma bem esporádica. Estudos têm demonstrado que o uso
aplicado de exercícios físicos, tem melhorado significativamente os níveis de
lipídios e triglicerídeos, resultando assim em uma melhora na qualidade de vida
e nas taxas glicêmicas (Lima, Santos, Nóbrega, Andrada, Stein, Gonçalves,
Lobe, Sorino & Andrada, 2011).
O participante 1, afirma ainda que obteve por parte dos profissionais de
saúde, a informação quanto à importância de uma rotina diária de exercícios
físicos, porém apresenta uma grande resistência quanto à sua prática. “O
médico mesmo sempre fala que tem que andar, para baixar as taxas...” “...eu
não sinto nenhuma vibração entende... eu não gosto!”. Isso corrobora a idéia
de que o fato das pessoas conhecerem sobre os benefícios de uma vida ativa,
não significa que este conhecimento se transformara em ação (Knuth,
Bielemann, Silva, Borges, Del Duca, Hallal, Rombaldi & Azevedo, 2009).
Já a participante 2 diz que o médico nunca falou nada sobre a prática de
exercícios, mas ela relata que procura caminhar nos finais de semana, pois
durante a semana ela trabalha e de certa forma, segundo ela “ Já to fazendo
coisa física não é?”. Questionada sobre o porquê das caminhadas, uma vez,
que não teve, segundo ela, uma orientação por parte dos profissionais de
saúde, ela disse: “O povo fala que é bom pra diabetes. Daí eu caminho”. Mais
uma vez podemos observar a importância e a influência das representações
sociais, ou mesmo deste universo consensual, que atua na elaboração e na
forma coma a participante 2 enfrenta a doença. Desta forma entendemos que é
neste espaço, na relação dos indivíduos com seu grupo social, na ação do
espaço coletivo que a participante dois tem elaborado seus significantes para
enfrentar a doença ( Minayo, 1994, p. 108).
Conclusão
Uma vez que as representações sociais são elaboradas a partir da
interação do sujeito com o seu espaço coletivo, foi possível algumas
diferenças em relação à forma como os indivíduos enfrentam e elaboram a
doença, ou seja, na forma de coping de cada um. Neste caso, as
representações sociais se destacam, dando ao sujeito o conhecimento e o
apoio necessário dentro deste universo novo e desconhecido, universo este
que é remodelado a partir da elaboração deste sujeito, e para que este
processo aconteça este sujeito vai agregar a esse novo conceito seus medos,
anseios e até mesmo expectativas. Ao observamos a transcrições das falas é
impossível não perceber quão forte é a influência deste meio externo, deste
fala dita “popular”, que muitas vezes se sobrepõe as instruções médicas, e é de
certa forma vivenciada como verdade preponderante.
Fica
caracterizado
que
em
relação
à
Alimentação⁄Dieta
e
Hospital⁄Medicamento, essa diferença apresenta-se mais evidente na forma
como os portadores de DMT2 da classe social A e os portadores de DMT2 da
classe C concebe e enfrentam a doença. Aqui o coping muitas vezes se
apresenta na forma de medo; medo do que as pessoas dizem sobre a doença,
medo das consequências da doença e principalmente medo da morte.
Porém, isso não fica tão evidente em relação às questões, tais como o
conceito da própria doença (diabetes) e atividade física, apesar desta diferença
aparecer no olhar dado ao diagnóstico, olhar este, que novamente saliento
como sendo carregado de representações, desta forma, esta diferença tornase mais compreensível, pois a realidade que cada participante vivência no seu
dia-a-dia é muitas vezes diferente.
Já nos quesitos Alimentação⁄Dieta e Hospital⁄Medicamento, essa diferença
provavelmente se devem aos estímulos alimentares aos quais os sujeitos têm
acesso em suas vidas diárias, onde a classe A tem maior contato com
alimentos ricos em carboidratos e açúcares que os sujeitos da classe C.
Em relação à influência por parte dos profissionais de saúde cabe melhor
investigação, uma vez que os participantes fazem uso de sistema de saúde
diferenciado, ou seja, particular e público. Ressaltando que esta diferença
muitas vezes pode significar um profissional com mais tempo para informar
sobre a doença, ou não, ou até mesmo um médico a disposição para qualquer
eventualidade.
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Spink, M. J. (2003) Desvendando as teorias implícitas: uma metodologia de
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Petrópolis, Rj: Vozes.
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Andréia de Araújo Duarte Representação Social e Coping