Andréia de Araújo Duarte Representação Social e Coping: uma Forma de Elaboração da Diabetes Tipo 2 Diabetes: formas de elaboração Social Representation and Coping: A Form of Development of Type 2 Diabetes Graduanda do Curso de Psicologia do Centro Universitário de Brasília (SEPN 707/907 - Campus do UniCEUB - Asa Norte - Brasília - DF - CEP 70790-075 • Telefone: (61) 3966-1200 • E-mail: [email protected]) (SQN 212 bloco E – Apto 307 – Andréia de Araújo Duarte - Asa Norte – Brasília – DF – CEP 70864-050 • Telefone: (61) 8434-5731/ 3349-3806) • E-mail: [email protected] ) Orientador: Prof. Dr. Sergio Henrique de Souza Alves Representação Social e Coping: uma Forma de Elaboração da Diabetes Tipo 2 Social Representation and Coping: A Form of Development of Type 2 Diabetes Resumo A diabetes Mellitus tipo 2 (DMT2) é uma doença que impõe uma série de mudanças à vida do paciente, e a forma como cada paciente enfrenta estas mudanças e responde ao tratamento está de certa forma ligada às suas concepções de saúde e doença, ou seja, as suas representações sociais. No caso da doença, uma vez instaurado o alerta de ameaça, o indivíduo passa a procurar formas de conceber e resolvê-la a fim de conseguir seu estado de normalidade ou equilíbrio, a forma como enfrentamos tal ameaça é denominada de coping. O presente trabalho tem como objetivo levantar se existe alguma diferença entre a forma como os portadores de DMT2 de classes sociais diferentes concebem e enfrentam a doença. Para isso foram entrevistados dois participantes, ficando caracterizada assim uma notável diferença tanto na forma de elaboração quanto de enfrentamento da doença. Palavra-chave: DMT2; Dieta; Representação Social; Copin;, Elaboração. Abstract Type 2 Diabetes Mellitus (T2DM) is a disease that requires a number of changes to the patient's life, and how each patient faces these changes and responds to treatment is somehow linked to their conceptions of health and disease, ie, their social representations. In the case of the disease, once established the threat warning, the individual begins to look for ways to design and solve it in order to get his state of normalcy or balance, how we face this threat is called coping. The present work aims to raise if there is a significant difference between how patients with T2DM conceive of different social classes and face the disease. For two participants were interviewed, featured so getting a noticeable difference both in the form of elaboration as to cope with the disease. Keyword: T2DM; Diet; Social Representation; Coping; Development. INTRODUÇÃO A diabetes mellitus é uma doença crônica que se caracteriza pelo aumento da glicose no sangue, a hiperglicemia, ou seja, o organismo perde de forma parcial, a capacidade de metabolizar os açúcares fornecidos pelos alimentos, neste caso o açúcar não metabolizado acumula-se e não se transforma em energia. Atualmente a diabetes está classificada em: Diabetes Mellitus tipo 1, Diabetes mellitus tipo 2, que é a forma mais comum da doença e atinge cerca de 90% dos casos diagnosticados e Diabetes gestacional. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) a diabetes já afeta cerca de 347 milhões de pessoas em todo o mundo. Calcula-se que em 2040 cerca de 3,4 milhões de pessoas morreram em conseqüência do excesso de açúcar no sangue, visto que a mesma é uma doença de cunho silencioso, ou seja, quase método dos portadores não sabe que tem a doença (OMS). A diabetes Mellitus tipo 2 (DMT2), objeto de estudo deste trabalho, é uma doença que impõe uma série de mudanças à vida do paciente, mudanças essas que implicam em hábitos alimentares mais saudáveis, uma rotina diária de exercícios físicos e o uso contínuo de medicamentos. No caso do tratamento, o paciente passa a ter sua rotina de vida alterada não apenas por um breve período de tempo, mas para o resto da vida, e neste caso, para algumas pessoas viver com uma condição crônica pode ser algo muito ameaçador (Péres, Franco & Santos, 2008). Estudos têm demonstrado a importância da prática de atividade física nos portadores de doenças crônicas, tal como a diabetes (Lima, Santos, Nóbrega, Andrada, Stein, Gonçalves, Lobe, Sorino & Andrada, 2011). Porém o fato dos pacientes serem alertados pelos profissionais de saúde sobre tais benefícios, este conhecimento na maioria das vezes não implica um comportamento ativo (Knuth, Bielemann, Silva, Borges, Del Duca, Hallal, Rombaldi & Azevedo, 2009). Um estudo realizado na área mostrou que, na maioria das vezes o nível de conhecimento que o paciente tem sobre a diabetes, não esta relacionado com um maior controle glicêmico, e que na sua maioria as pessoas não parecem valorizar ações preventivas. Identificou-se também que 46,4 % das pessoas não tinham um conhecimento adequado sobre o valor normal da glicose sanguínea, demonstrado assim a existência de uma lacuna entre a fala do profissional de saúde e o paciente (Pace, Ochoa-vigo, Caliri & Fernades, 2006). Outro fator relevante em relação a DMT2 é o estigma social enfrentado por eles diariamente, pois, segundo Nunes (2005) a sociedade não está preparada para apoiar de forma efetiva este grupo que tem crescido a cada dia. Um bom exemplo disto pode ser visto nos hotéis e restaurantes, que dificilmente possui um cardápio adequado para a dieta necessária aos portadores de DMT2. Neste caso, a forma como cada paciente enfrenta estas mudanças e responde ao tratamento está de certa forma ligada às suas concepções de saúde e doença, ou seja, às suas representações sociais (Péres, Franco, Santos & Zanetti, 2008 e Sanches & Ceotto, 2012). Geralmente ao enfrentarmos novos desafios em nossa vida buscamos conceitos que nos orientem a respeito daquele fenômeno em especial, conceitos estes que estão pautados em nossa interação com o mundo social (Moscovicci,1978). Esta interação entre sujeito e mundo cria um novo campo conceitual, ou um novo mundo significativo, através do qual sua relação com o outro passa a ter sentido, dando origem assim as representações sociais, e são estas representações que vão permitir a existência de novos símbolos, que são pedaços da realidade mobilizada pela atividade criadora deste sujeito social para dar sentido a sua vivência (Guareschi & Jovchelovitch, 2003). Segundo Moscovici (1978) as representações sociais podem ser definidas como “imagens construídas sobre o real”, na sua maioria são elaboradas na relação dos indivíduos com seu grupo social na ação do espaço coletivo comum a todos. Sendo assim, elas são fruto de um processo sempre atuante, desencadeado pelas ações coletivas dos indivíduos. Como resultado temos a ação dos indivíduos, que é caracterizada pelas representações sociais que seu grupo elaborou, ou seja, “As representações sociais, individual ou social, fazem com que o mundo seja o que pensamos que ele é ou deve ser" ( Minayo, 1994, p. 108). Neste caso, é impossível falamos de representação social sem a presença da construção de sentido do próprio sujeito, uma vez que este não é um ser passivo na ação e na produção de sentidos, e é por isso que as nossas representações sociais vão de certa forma definir a forma como enfrentamos a doença ou o valor que damos a essa ameaça (Souza, 2011), valor este, que apesar de influenciado pelo social possui como afirma González Rey (2007) uma produção de sentido única do sujeito. No caso da doença, uma vez instaurado o alerta de ameaça, o indivíduo passa a procurar formas de conceber e resolvê-la, a fim de conseguir seu estado de normalidade ou equilíbrio, neste caso, a forma como enfrentamos tal ameaça é denominada de coping. Tomando como base a teoria cognitivista, Folkman e Lazarus (1984, citado por Antoniazzi, Dell'Agilo & Bandeira, 1998) descreve o coping como "um conjunto de esforços cognitivos e comportamentais, utilizado pelos indivíduos com o objetivo de lidar com demandas específicas, internas ou externas, que surgem em situações de stresse", e que de certa forma, é avaliada por ele como sendo algo que excede seus recursos pessoais. Segundo a teoria aqui proposta o coping divide-se em duas categorias funcionais: coping focado nas emoções, que é caracterizado por um valor emocional onde o indivíduo passa a fazer interpretações em relação ao ambiente, envolvendo mais o pensar do que o agir, formando assim novos conceitos em relação à forma de enfrentar, conceituar e de vivenciar a doença consigo mesmo e com seus familiares; coping focado no problema, onde o indivíduo começa a focar seu olhar em fatores externo, como a própria doença, passando a buscar repostas mais práticas e ativas em relação ao tratamento e às demais formas de lidar com este novo fenômeno (Sousa, Landeiro, Pires & Santos, 2011). Neste caso, tanto o estudo do coping com o estudo das representações sociais se mostra uma boa opção para conhecer o modo de funcionamento do sistema de referência dos portadores de DMT2, uma vez que as representações sociais têm por objetivo investigar como se formam as relações ideológicas no imaginário popular (Alves-Mazzotti, 2008), podendo ajudar a entender melhor como cada indivíduo concebe e enfrenta a doença, visto que as representações sociais estão diretamente relacionadas ao conceito formado por um grupo de pessoas a respeito de um fenômeno e interligado à forma como enfrentam a doença, ou seja, o coping. O presente trabalho tem como objetivo levantar se existe uma diferença significativa entre a forma como os portadores de DMT2 da classe social A e os portadores de DMT2 da classe C concebem e enfrentam a doença. MÉTODO O presente trabalho está fundamentado na Pesquisa Qualitativa, que tem como característica central a compreensão da produção do conhecimento como processo construtivo-interpretativo, construindo o fenômeno a partir do olhar do próprio sujeito, dando a fala um lugar de destaque, tanto na coleta como na disseminação dos dados (Godoy, 1995). Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética, protocolo...Data. • PARTICIPANTES: A amostra foi composta por dois participantes, um do sexo masculino, 70 anos, empresário, com renda aproximada de oitenta e cinco salários mínimos e outra do sexo feminino, 54 anos, doméstica, com renda aproximada de dois salários mínimos, todos portadores de diabetes mellitus tipo 2. O critério de exclusão da pesquisa foi não ser portador da patologia, bem como se recusar a assinar o Terno de Consentimento Livre e Esclarecido. • INSTRUMENTO: O instrumento utilizado foi à entrevista semi-estruturada, que na pesquisa qualitativa, tem o objetivo de converter-se em diálogo onde surgem inumeráveis elementos de sentido que podem ser relevantes para o processo de construção do conhecimento. • PROCEDIMENTO: A coleta de dados se deu através de entrevistas que foram feitas na residência dos respectivos participantes, em um local privativo e livre de interrupções, com duração de aproximadamente quarenta minutos cada. As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas para que possibilitasse um maior aproveitamento dos dados. • ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES: As análises das informações obedeceram às seguintes etapas: As respostas de todos os entrevistados foram reunidas em um texto único compondo um corpus de análise. Em seguida foi realizada uma leitura flutuante até a familiarização do pesquisador com o corpus. Após a leitura flutuante deuse início ao processo de categorização, cujo objetivo foi agrupar elementos em função de sua significação, ou seja, organizar as informações contidas nas respostas em unidades de análise ou eixos temáticos. Neste caso, as unidades de análise ou eixos temáticos foram constituídas levando-se em conta o objetivo da pesquisa, logo, a identificação de possíveis respostas à problematização da pesquisa (Minayo, 2007). ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS: Tomando como base os dados coletados nas entrevistas foi possível observar a forma como cada participante, ao seu modo e de forma tão antagônica, tem buscado um único objetivo, enfrentar a doença. Neste caso, para que fosse possível observar de forma mais ampla a análise dos dados, o mesmo foi dividido em categorias como: • Diabetes O conhecimento prévio que os participantes tinham a respeito da doença foi muito semelhante, tanto o participante 1, como a participante 2 não possuíam nenhum conhecimento a respeito da doença. Segundo eles não sentiam qualquer sintoma que pudesse de alguma forma alertar quanto a algo diferente em seu organismo. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) uns dos maiores problemas enfrentados pelas autoridades de saúde em relação à doença é o seu cunho silencioso, ou seja, cerca de 50% dos portadores de diabetes não sabem que tem a doença, agravando ainda mais seus sintomas. No caso do participante 1, o mesmo só teve o conhecimento da doença quando sua glicose estava extremamente elevada, sendo necessário o uso imediato de insulina. Já a participante 2, descobriu a doença em um exame de rotina, como a taxa de glicose não estava tão elevada, a mesma pode fazer uso apenas da dieta como recurso para o restabelecendo do seu equilíbrio glicêmico. Segundo ela, já havia participado de campanhas de rua para medir a taxa de glicose no sangue, porém apesar do procedimento, não ouve nenhuma informação importante a respeito da doença, "...ela só falou que eu não tinha diabetes...daí eu disse: então tá, mais ninguém me disse nada sobre a doença". Neste sentido, é necessário por parte dos profissionais de saúde uma linguagem mais simplificada porém esclarecedora, motivando os pacientes a aprender sobre a doença, para que possam assumir frente a mesma uma condição de sujeito ativo no tratamento e cuidado (Pace, Ochoa-Vigo, Caliri & Fernades, 2006). Em relação ao diagnóstico, o participante 1 relata que nunca lhe foi dito de forma enfática "você tem diabetes!", mesmo assim ele afirma ter uma "cabeça boa" e não se preocupa com isso, de forma que a doença nunca alterou sua retina ou a forma como este vê a vida. Segundo relata, já apresentava problemas de saúde, triglicérides altos, tendo que se submeter constantemente a exames médicos, ou seja, a família já apresentava uma dinâmica favorável, uma vez que, todos já sabiam que o pai necessitava de alguns cuidados especiais. Segundo Hauser (1990, citado por Nunes, 2005) inúmeros estudos realizados na área têm demonstrado que a estrutura família coesa tem cooperado para níveis glicêmicos mais baixos entre os pacientes e que o apoio familiar tem ajudado os pacientes a enfrentar melhor o estresse decorrente do diagnóstico. A participante 2, ao ser questionada sobre o diagnóstico diz: "eu fiquei triste né..." "Quando eu fui toma a vacina, o moço disse: Quem tem doença crônica pode tomar. Eu fiquei tão triste. Porque dai nunca sara né...". Segundo Minayo (1994) “As representações sociais, individual ou social, fazem com que o mundo seja o que pensamos que ele é ou deve ser", ou seja, a forma como recebemos e elaboramos um diagnóstico está diretamente ligada ao conhecimento prévio ou as informações que temos a respeito dele. Nesse caso, a participante 2 relata ter ficado muito triste quando ouviu o termo "doença crônica", pois para ela estava relacionado a algo que não tem cura, ou seja, para sempre. Gonzáles Rey (2007) afirma ser impossível falarmos de representação social sem a ascensão desta construção subjetiva, que acontece no processo de subjetivação, onde o sujeito internaliza suas crenças e medos, seus anseios e expectativas, neste caso, o termo "para sempre" teve um impacto significante na elaboração do diagnóstico da participante 2, o que se mostrou indiferente para o participante um que relata "ter uma cabeça boa e não ligar para isso". • Alimentação e Dieta Em relação à alimentação o participante 1 afirma que sempre gostou muito de comer e que hoje encontra muita dificuldade para manter a dieta restritiva imposta pela doença, mesmo porque segundo ele, nos hotéis que frequenta não tem um cardápio adequado a sua dieta, e o que se percebe é um abismo enorme de separação entre a alimentação hoteleira e a hospitalar, pois para ele é impossível se alimentar de forma adequada enquanto hóspede de um hotel, assim como é impossível, segundo ele, se alimentar em um hospital, “... Volte e meia eles me levam para lá, dai me dão aquela comida horrível, que não tem condição de comer, dai tem que baixar né... Eu fico só na maçãzinha que é o que da pra comer”. Bezerra (2003) afirma ser possível aplicar a boa gastronomia a dietas alimentares, a autora relata ainda que ao longo da história o homem foi se aperfeiçoando na arte da culinária de maneira que, uma alimentação saudável e saborosa pode ser implementada tanto na gastronomia hoteleira quando hospitalar, uma vez que, uma das maiores queixas das internações está diretamente ligada à alimentação hospitalar. Isto também corrobora com uma queixa constante dos portadores da doença que é a falta de apoio social. A sociedade em geral não está preparada para dar um suporte alimentar diferenciado a estas pessoas, não obstante estudos ter demonstrado que o apoio social é uma mola propulsora para o aumento da qualidade de vida dos portadores da doença (Nunes, 2005). Em contrapartida, a participante 2 relata que não encontra dificuldade em seguir a dieta imposta pela doença, pelo contrário, esta tem sido tão austera a ponto de provocar na paciente hipoglicemia. "Durante muito tempo eu não comia nada de farinha branca. Daí o médico me falou que não precisava ser tão assim... que em vez em quando eu podia comer alguma coisa. Porque esses dias eu tirei minha glicose e ela deu oitenta... num pode, sabe quando ela dá baixa eu sinto...", neste caso é visível que há uma distinção entre o olhar dado a alimentação pelo participante um e pela participante 2, uma vez que o participante um relata "não ligar para estas coisas" a participante dois diz:"...eu tenho é medo de morrer... por isso eu faço minha dieta tranquila" "...Quando o povo fala, iiii fulano morreu de diabetes, eu fico triste... O povo fala que fica cego, que isso que aquilo. Eu fiz até um exame de olho, porque eu morro de medo", ou seja, tanto a sua rotina alimenta quanto o seu comportamento rígido esta baseado na sua representação social da doença, "... o povo fala", "... o médico não teve nada a ver com isso, eu não ligo pra médico não...", para ela a influência do meio social, suas crenças e valores, tem um valor muito maior que a do profissional da saúde. No caso dos portadores de diabetes, a dieta tem se mostrado uma forma de coping, ou seja, é através desta que os pacientes têm demonstrado o modo como enfrentam e elaboram a doença. O participante um, apesar de saber os benefícios de uma boa alimentação, “... Você vê hoje no café eu comi: uma banana ouro, uma mexerica e um pedaço de manga, e eu to bem, não to inchado, to com disposição... to bem sabe", apesar disso ele relata ter muita dificuldade em segui-la de forma constante. Come pouco hoje, amanhã come mais, se a taxa sobe ele para de comer, e assim por diante, ou seja, ele conhece a dieta e os seus benefícios, mesmo assim faz a opção de não seguila corretamente, "a gente vê que pode controlar a diabete pela alimentação, talvez assim... se eu começar mesmo a entrar nessa, de não comer mesmo o que não presta... eu vou controlar a minha taxa sem remédio. Eu senti isso", é possível observar que o participante 1 consegue cognitivamente e emocionalmente avaliar a situação em questão, porém não consegue colocar em prática, ou não consegue transformar isso em ação, caracterizando um coping focado exclusivamente nas emoções. No caso da participante 2, alega não ter dificuldade de fazer a dieta, pois esta focada na doença e suas consequências "...tenho medo é de ela se agravar...por isso eu faço minha dieta tranquila", consequentemente um coping focado no problema. Folkman e Lazarus (1984, citado por Antoniazzi, Dell'Agilo e Bandeira, 1998) vão propor quatro modelos no qual o coping esta baseado, e ao observar os relatos do participante um fica bastante evidente que o coping tem apenas por função administrar uma situação estressora; já no caso da participante dois é um processo de esforço cognitivo e comportamental que a mesma despende a fim amenizar as demandas internas e externas que surgem desta interação sujeito e ambiente. Questionada sobre sua alimentação antes do diagnóstico, a participante 2 disse que nunca gostou de doces por isso ficou assustada, pois para ela a diabetes era uma "doença de quem come muito doce". “... Sabe, eu tinha diabetes e não sabia porque eu nunca gostei de doce. Entendeu... eu gosto é de massa, de arroz, macarrão, gora doce eu nunca gostei", o participante 1 quando questionado apresentou o mesmo argumento, relatando que também nunca gostou muito de doces. • Hospital e Medicamento Por consequência de uma dieta pouco rigorosa o participante 1 relata ter sido internado por várias vezes com taxas extremamente elevadas, "...Uma vez a glicemia tava quase em 500. Volte meia eles me levam pra lá... Eu fico só na maçãzinha, fico lá assistindo minha TV, recebo a visita dos filhos, das noras... dois dias ou três ela volta pro normal e eu caio fora", apesar da internação ter sempre uma conotação ruim, no caso aqui em específico, nota-se um certo ganho secundário por parte do participante, uma vez que, este afirma ter uma atenção maior quando está no hospital. Quando questionado a respeito do apoio da família o participante 1 não deixa muito claro este apoio, apenas diz que a família já estava acostumada, pois ele tinha um problema de triglicérides alto, ou seja, apesar da família estar estruturada em torno da enfermidade não fica explícito na fala do participante este acolhimento, isto só vai aparecer na hora da internação. Já a participante 2 afirma nunca ter sido internada, "...porque eu faço minha dieta né.", além disso mede a glicose apenas nos finais de semana e nunca fez uso de insulina, diferente do participante 1 que faz a medição três vezes ao dia, e o uso de 90 miligramas de insulina dividido em três doses. "...quarenta de manhã, na hora do almoço eu tomo vinte e a noite trinta". Em relação ao apoio familiar, a participante 2 afirma ter um apoio efetivo da mesma, principalmente da filha mais velha. Novamente cabe ressaltar a importância do apoio familiar na adesão dos pacientes ao tratamento e em sua influência na melhora da qualidade de vida dos mesmos (Nunes, 2005). • Atividade Física Em relação a prática de atividade física o participante 1 afirma que não é muito adepto, o mesmo relata que a prática de atividade física acontecem apenas nos finais de semanas ou em algum momento quando está de férias, ou seja, de forma bem esporádica. Estudos têm demonstrado que o uso aplicado de exercícios físicos, tem melhorado significativamente os níveis de lipídios e triglicerídeos, resultando assim em uma melhora na qualidade de vida e nas taxas glicêmicas (Lima, Santos, Nóbrega, Andrada, Stein, Gonçalves, Lobe, Sorino & Andrada, 2011). O participante 1, afirma ainda que obteve por parte dos profissionais de saúde, a informação quanto à importância de uma rotina diária de exercícios físicos, porém apresenta uma grande resistência quanto à sua prática. “O médico mesmo sempre fala que tem que andar, para baixar as taxas...” “...eu não sinto nenhuma vibração entende... eu não gosto!”. Isso corrobora a idéia de que o fato das pessoas conhecerem sobre os benefícios de uma vida ativa, não significa que este conhecimento se transformara em ação (Knuth, Bielemann, Silva, Borges, Del Duca, Hallal, Rombaldi & Azevedo, 2009). Já a participante 2 diz que o médico nunca falou nada sobre a prática de exercícios, mas ela relata que procura caminhar nos finais de semana, pois durante a semana ela trabalha e de certa forma, segundo ela “ Já to fazendo coisa física não é?”. Questionada sobre o porquê das caminhadas, uma vez, que não teve, segundo ela, uma orientação por parte dos profissionais de saúde, ela disse: “O povo fala que é bom pra diabetes. Daí eu caminho”. Mais uma vez podemos observar a importância e a influência das representações sociais, ou mesmo deste universo consensual, que atua na elaboração e na forma coma a participante 2 enfrenta a doença. Desta forma entendemos que é neste espaço, na relação dos indivíduos com seu grupo social, na ação do espaço coletivo que a participante dois tem elaborado seus significantes para enfrentar a doença ( Minayo, 1994, p. 108). Conclusão Uma vez que as representações sociais são elaboradas a partir da interação do sujeito com o seu espaço coletivo, foi possível algumas diferenças em relação à forma como os indivíduos enfrentam e elaboram a doença, ou seja, na forma de coping de cada um. Neste caso, as representações sociais se destacam, dando ao sujeito o conhecimento e o apoio necessário dentro deste universo novo e desconhecido, universo este que é remodelado a partir da elaboração deste sujeito, e para que este processo aconteça este sujeito vai agregar a esse novo conceito seus medos, anseios e até mesmo expectativas. Ao observamos a transcrições das falas é impossível não perceber quão forte é a influência deste meio externo, deste fala dita “popular”, que muitas vezes se sobrepõe as instruções médicas, e é de certa forma vivenciada como verdade preponderante. Fica caracterizado que em relação à Alimentação⁄Dieta e Hospital⁄Medicamento, essa diferença apresenta-se mais evidente na forma como os portadores de DMT2 da classe social A e os portadores de DMT2 da classe C concebe e enfrentam a doença. Aqui o coping muitas vezes se apresenta na forma de medo; medo do que as pessoas dizem sobre a doença, medo das consequências da doença e principalmente medo da morte. Porém, isso não fica tão evidente em relação às questões, tais como o conceito da própria doença (diabetes) e atividade física, apesar desta diferença aparecer no olhar dado ao diagnóstico, olhar este, que novamente saliento como sendo carregado de representações, desta forma, esta diferença tornase mais compreensível, pois a realidade que cada participante vivência no seu dia-a-dia é muitas vezes diferente. Já nos quesitos Alimentação⁄Dieta e Hospital⁄Medicamento, essa diferença provavelmente se devem aos estímulos alimentares aos quais os sujeitos têm acesso em suas vidas diárias, onde a classe A tem maior contato com alimentos ricos em carboidratos e açúcares que os sujeitos da classe C. Em relação à influência por parte dos profissionais de saúde cabe melhor investigação, uma vez que os participantes fazem uso de sistema de saúde diferenciado, ou seja, particular e público. Ressaltando que esta diferença muitas vezes pode significar um profissional com mais tempo para informar sobre a doença, ou não, ou até mesmo um médico a disposição para qualquer eventualidade. REFERÊNCIAS Alves-Mazzotti, A. J. (2008) - Representações Sociais: Aspectos teóricos e aplicações à educação. Revista Múltiplas Leituras, 1 (1), 18-43. Antoniazzi, A. S.; Dell'Agilo, D. D.; Bandeira, D. R. (1998 ) - O conceito de coping: uma revisão teórica. Estudos de psicologia. 3(2), 273-294. Bezerra, C. A. (2003). Gastronomia na prescrição de dietas hospitalares e as influências geradas pela Industria Hoteleira. (Dissertação de Monografia). Universidade de Brasília. Brasília, DF. Godoy, A. S. (1995). Introdução à pesquisa qualitativa e suas possibilidades. Revista de Administração de Empresas, Rio de Janeiro, 35 (2), 57-63. González. R. F. (2007). Psicoterapia, subjetividade e Pós-Modernidade: uma aproximação histórico-cultural. 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