O ESVAZIAMENTO DO PAMPA GAÚCHO: UMA ANÁLISE A PARTIR DO ENVELHECIMENTO E DA MASCULINIZAÇÃO RURAL NA APA DO IBIRAPUITÃ [email protected] Apresentação Oral-Desenvolvimento Rural, Territorial e regional CASSIANE DA COSTA RAUBER1; ANDRÉIA NUNES SÁ BRITO2; IONE TEREZINHA DENARDIN3; MATHIAS AUGUSTO RAUBER4. 1,2,3.UFSM, SANTA MARIA - RS - BRASIL; 4.UERGS, CACHOEIRA DO SUL - RS BRASIL. O esvaziamento do pampa gaúcho: uma análise a partir do envelhecimento e da masculinização rural na APA do Ibirapuitã Grupo de Pesquisa: 09 Resumo A dinâmica demográfica do rural contemporâneo aponta para dois novos e preocupantes processos, o envelhecimento e a masculinização rural. Esses aparecem como conseqüência, entre outros fatores, da seletividade no êxodo rural, onde há predomínio de jovens e mulheres. Diante da baixa densidade populacional do pampa gaúcho, o esvaziamento do rural toma contornos nítidos. A Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã, que tem como uma das funções proporcionar aos moradores locais uma vida sustentável e digna com a preservação das suas características, pode ter o futuro comprometido pelo envelhecimento e a masculinização da população. Levando-se em consideração a importância dessa problemática esse artigo propõe uma reflexão sobre o esvaziamento populacional do rural do pampa gaúcho tomando como referência para esta região a APA do Ibirapuitã. Para tanto se utiliza do Diagnóstico dos Sistemas Agrários realizado em sua área de abrangência e, particularmente, das observações do discurso, das relações sociais e da paisagem. As informações necessárias à discussão da questão foram obtidas em visitas a domicílios e entrevistas a dezessete famílias locais, sendo que os dados empíricos foram comparados com dados secundários. É visível tanto nos discurso e nos domicílios visitados quanto nos dados secundários a masculinização e o envelhecimento dessa população. Enquanto discute os condicionantes dessa questão, o trabalho aponta alternativas para a sua superação nesse contexto. Palavras-chaves: Masculinização rural, envelhecimento, pampa, APA do Ibirapuitã. Abstract The demographic dynamics of rural contemporary points to two new and worrying processes the aging and the countryside masculinization. These appear as consequence, among other factors, the selectivity in the rural exodus, where there is a predominance of young people and women. Front the low population density of Pampa gaucho, emptying the countryside takes sharp contours. The Environmental Protection Area of Ibirapuitã, 1 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural which has as one of the functions to provide the local residents a sustainable and dignified life with the preservation of their characteristics, may have the future compromised by aging and the masculinization of the population. Taking into account the importance of this problem this article proposes a reflection on the emptiness of the rural population of the Pampa gaucho taking as reference for this region the APA Ibirapuitã. For that, it is used the diagnosis of the agrarian system performed in its area of coverage, and particularly, of the observations of the discourse, of the social relations and of the landscape. The information needed to discuss the question were obtained in visits to homes and interviews with seventeen local families, and the empirical data were compared with secondary data. It is visible both in discourse and in homes visited and in the secondary data, the masculinization and the aging of this population. While discussing the constraints of this case, the work suggests alternatives to overcome them in this context. Key Words: Rural masculinization, aging, pampa, APA of the Ibirapuitã. INTRODUÇÃO Os estudos a respeito do fenômeno do êxodo rural no Brasil, que foram retomados no final dos anos 90 e início dos 2000, apontam para a seletividade das migrações por sexo e idade. Isto é, configurando o efeito de masculinização e envelhecimento da população rural, o que se confirma em estudos conduzidos na região sul (Camarano e Abramovay, 1999; Anjos e Caldas, 2005). A região do pampa, além da representação simbólica da figura masculina do gaúcho, tem vivenciado na realidade de seu meio rural o afastamento das mulheres e das atividades ligadas a elas. Bem como, o afastamento dos jovens e¸ com eles, parte muito importante da força de trabalho desse meio. Colocamos aqui alguns elementos que podem ser interpretados como causas e/ou efeitos desse processo, na busca de entender as origens do fenômeno aplicado à especificidade local, bem como apontar suas conseqüências. Este artigo tem como objetivo, portanto, propor uma reflexão sobre o esvaziamento populacional do rural do pampa gaúcho tomando como referência para esta região a Área de Proteção Ambiental do Rio Ibirapuitã através do Diagnóstico dos Sistemas Agrários realizado em sua área de abrangência1. Ele utiliza-se, particularmente, de dezessete entrevistas realizadas em domicílios locais, observações do discurso, das relações sociais e da paisagem comparados com dados secundários. O texto estrutura-se em cinco seções. Na primeira, apresenta-se a metodologia utilizada no trabalho. Na seqüência, em “Masculinização e envelhecimento da população rural como temáticas” abordam-se esses novos processos relacionados ao êxodo rural brasileiro. Na terceira seção, “A situação refletida no contexto da APA do Ibirapuitã” são mostradas as evidências do envelhecimento e da masculinização nessa área. Já na quarta discutem-se as influências e conseqüências desses processos na dinâmica local. Essa seção subdivide-se para abordar as condições específicas das mulheres e dos jovens. Encerramos o artigo constatando, nas “Considerações finais”, que a mesma dinâmica populacional 1 Nesse sentido, os resultados apresentados no trabalho possuem um caráter parcial e complementar ao Diagnóstico dos Sistemas Agrários realizado na APA do Ibirapuitã. 2 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural evidenciada no Brasil aplica-se, de forma pronunciada, à região do pampa. Também apontamos algumas possíveis alternativas para se contornar essa problemática a partir das demandas locais. 1. Procedimentos analíticos A pesquisa que originou as presentes reflexões é fruto do exercício didático da Disciplina Planejamento e Gestão de Projetos de Desenvolvimento, do Programa de PósGraduação em Extensão Rural da Universidade Federal de Santa Maria. A área de referência para a coleta de dados da pesquisa circunscreve-se a parcela dos municípios de Rosário do Sul, dentro dos distritos de São Carlos e Caverá, e Alegrete nos distritos de Vasco Alves e Catimbau. Essas localidades pertencem à Unidade de Conservação denominada Área de Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã, que abrange, além desses, parcela dos municípios de Santana do Livramento e Quaraí, todos situados na fronteiraoeste2 do Rio Grande do Sul. Os métodos e técnicas de investigação utilizados no trabalho geral basearam-se na metodologia de Análise Diagnóstico de Sistemas Agrários, tendo como suporte o Guia Metodológico elaborado pelo convênio INCRA/FAO (Garcia Filho,1999). Em um primeiro momento obtiveram-se dados secundários sobre a realidade dos municípios componentes, referentes ao seu histórico, índices sócio-econômicos, mapas temáticos da região, evolução dos sistemas de criação e produção, entre outros. Esta consulta teve como objetivo realizar uma prévia identificação e caracterização agroecológica e sócio-econômica da área em estudo, delimitando assim, zonas homogêneas para posterior trabalho de campo. No momento seguinte da pesquisa, realizado no município de Alegrete, procedeu-se com entrevistas aos informantes qualificados (moradores mais antigos da região, técnicos da Fundação Maronna3, representante do IBAMA, entre outros), qualificando as informações levantadas e confirmando-se, então, uma delimitação de três zonas características. Correspondendo estas a: Zona Norte, nas duas margens do Rio Ibirapuitã (Alegrete), de solos mais pedregosos, com população distribuída e presença de propriedades médias em relação às demais; Zona Leste, na margem direita do rio (Rosário do Sul e parte de Santana do Livramento), de relevo mais acidentado e população concentrada nos rincões adjacentes às estâncias; e Zona Sudoeste, na margem esquerda (Quaraí e parte de Santana do Livramento), predominância das coxilhas e várzeas, forte presença de grandes propriedades. A partir deste então o trabalho foi focado nas regiões de população mais representativa e maior diversidade de tipos sociais, isto é, nas Zonas Norte e Leste, de forma a obter o produto final com maior riqueza de informações. Para caracterização das microrregiões utilizaram-se como instrumentos metodológicos as entrevistas semiestruturadas e observações a campo, primeiramente com informantes que conhecessem a localidade com um todo, obtendo-se como produto uma tipologia dos Sistemas de 2 Próximos às divisas do Brasil com o Uruguai e com a Argentina. Instituição de pesquisa e extensão situada em uma propriedade, a Estância do 28, dentro dos limites da APA. 3 3 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Produção4 das Zonas estudadas. Posteriormente, foram realizadas entrevistas com os informantes específicos pertencentes a cada sistema de produção segundo a tipologia elaborada, buscando caracterizá-los e compreender a racionalidade dos mesmos. Sendo tais entrevistas de cunho geral, para fins de conhecimento dos sistemas produtivos praticados, foram observados em seu conjunto alguns aspectos em especial, de conteúdo e forma, referentes à demografia. Para o alcance do objetivo desse trabalho foi utilizada especialmente a interpretação dos discursos, obtidos por meio de gravação e registro escrito das dezessete entrevistas realizadas, assim como a leitura da paisagem local e da dinâmica demográfica existente nos domicílios onde foram realizadas essas entrevistas. Além disso, foi realizada uma comparação dessas informações com dados levantados nos municípios integrantes da APA do Ibirapuitã na Contagem Populacional 2007 realizada pelo IBGE5. Os dados da Contagem referentes à população estratificada por sexo, idade e condição de domicílio de Alegrete, Quaraí, Santana do Livramento e Rosário do Sul foram sistematizados em quatro faixas etárias, conforme a metodologia utilizada por FROEHLICH e PIETRZACKA (2004). As faixas etárias referem-se à população de 014; 15-24; 25-59 e 60 ou mais anos, denominadas nessa ordem como crianças, jovens, adultos e idosos. 2. Masculinização e envelhecimento da população rural como temáticas A dinâmica demográfica rural do Brasil, de forma semelhante ao que acontece em muitos países, é marcada por um histórico de grande perda de população para as cidades, principalmente durante a urbanização do país e a modernização agrícola. A população rural brasileira que era de 44% do total em 1970 não passava de 22% em 1996. Essa redução pode ser explicada pelos movimentos migratórios e pela diminuição da fecundidade. Enfim, o país teve um processo de desruralização da população, que se concentrou em algumas regiões como a nordeste (CAMARANO e ABRAMOVAY, 1999). Cabe ressaltar que o processo de urbanização do Brasil difere da situação acontecida em muitos países desenvolvidos, como os Estados Unidos da América. Enquanto nas condições norte-americanas o processo foi controlado, com absorção da mão-de-obra vinda do rural nas crescentes oportunidades de trabalho nos centros urbanos, na realidade brasileira o que houve foi uma expulsão descontrolada da população rural sem que houvesse condições dignas de recebê-la no contexto urbano. Um dos resultados dessa situação foi a formação de bolsões de pobreza circundantes às cidades, que persistem e multiplicam-se até os dias atuais. Não foi somente o êxodo rural o responsável pela transformação na dinâmica populacional rural do Brasil. Observa-se ao longo das últimas décadas a diminuição da taxa de natalidade no espaço rural, mesmo que essa se conserve maior do que a urbana. A alta taxa de natalidade rural era importante, pois, até então, representava uma forma natural 4 Caracterização de Sistema na escala da unidade de produção, utilizado para aquelas em que a racionalidade está baseada na produção agrícola. Sua determinação é feita através de enquetes que exploram a estrutura e o funcionamento da unidade de produção agrícola, estando baseada na combinação entre cultivos e criações mais importantes, ou que geram a maior parcela da renda. Ex: Sistema de produção bovino de corte/ ovino de lã e plantas de cercado. 5 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 4 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural de equilíbrio dessa população frente à saída de um grande número de pessoas que buscavam a vida urbana. O aumento da longevidade da população em geral, provocado por fatores como o avanço da medicina que propiciou melhorias na área da saúde, também colabora com essa modificação. O espaço rural passa, então, a ter um maior percentual de idosos entre a sua população. Conforme Schneider (1994) no Rio Grande do Sul o processo de envelhecimento da população rural é ainda mais intenso do que em outros estados do Brasil. Para Jardim (2002) a pirâmide etária da população gaúcha, que era de base larga no inicio do século XX estreitou-se, ganhando um contorno de “pêra” com a diminuição da população mais jovem e aumento dos adultos e idosos. Assim o envelhecimento populacional que era comum às condições européias, passa a fazer parte também de uma realidade mais próxima. O processo existente nos territórios rurais e urbanos, é agravado nas condições rurais pela seletividade do êxodo que atinge principalmente jovens nos dias atuais, como está expresso na citação abaixo. “Há consenso entre os pesquisadores de que a grande mudança constatada nos últimos anos tem sido a de que o êxodo rural generalizado vem sendo convertido num processo bastante mais seletivo, que preferencialmente remete às cidades a população jovem e altamente produtiva” (ANJOS E CALDAS, 2005, p.673). Além da gravidade dessa situação de migração da população jovem às cidades, outro público também é alvo da seletividade do êxodo, as mulheres. No Brasil, a população feminina só não superou a migração masculina na década de 1960. Em 1980, por exemplo, migraram 22% a mais mulheres do que homens. Uma das conseqüências dessa sobreposição feminina é a masculinização rural e o aumento de mulheres na cidade, a feminização urbana (CAMARANO e ABRAMOVAY, 1999). Para esses mesmos autores a mulher migra mais jovem do que o homem. O predomínio no êxodo rural contemporâneo, portanto, é das moças. Esse predomínio pode trazer sérias conseqüências ao mundo rural como o celibato. Em alguns países, como a França, desde a década de sessenta essa problemática preocupa. Os jovens rurais franceses encontrando dificuldades para conseguir um casamento frente à migração feminina precisam recorrer muitas vezes às agências matrimoniais para encontrarem uma noiva. A sucessão das unidades produtivas dessa forma fica comprometida. Para Bourdieu (2006) a jovem rural francesa, da mesma forma que acontece em outros países, migra mais porque é mais apta para a adoção dos modelos culturais urbanos do que o rapaz. ”(...) ela não vê senão, como se diz, o lado bom da cidade. Daí se compreende, por um lado, que a cidade exerça verdadeiro fascínio na jovem camponesa e, por meio da cidade, também os homens citadinos”( p.89). Além dessa justificativa cultural, muitas outras animam a saída da população jovem e feminina do rural, agravando, através dessa combinação, o envelhecimento e a masculinização nesse ambiente. No contexto do pampa gaúcho esses processos tomam contornos nítidos, pois a configuração da região é marcada pela baixa densidade populacional. O sistema de produção bovinocultura extensiva, característico dessa realidade precisa de extensões representativas de terra para garantir a reprodução das unidades produtivas. As propriedades de agropecuaristas familiares, que são a maioria na área, atingem facilmente duzentos hectares, o que difere bastante de outras regiões gaúchas. Começou há algumas 5 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural décadas um processo de esvaziamento da população do campo que acentua essa realidade, tornando preocupante o futuro das comunidades locais, conforme veremos na seqüência. 3. A situação refletida no contexto da APA do Ibirapuitã A Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã é uma das unidades de conservação brasileiras que autoriza a ocupação humana no ambiente a ser protegido. Além disso, uma das funções dessa APA é proporcionar aos moradores locais uma vida sustentável e digna com a preservação das suas características. O cumprimento dessa função pode estar sendo seriamente comprometido pela configuração demográfica que se desenha na área. O êxodo rural, movimento populacional do meio rural para o urbano, constitui o retrato da fuga em busca de melhorias nas condições e qualidade de vida. É preciso mencionar que na zona rural estudada a deficiência de serviços públicos é bem maior do que na urbana, dando a impressão até que o rural é um pedaço esquecido da sociedade, da sociedade da qual ele é a base. A dinâmica populacional encontrada na APA reflete essa situação. Podem ser feitas algumas observações sobre essa realidade utilizando-se como indicativo a população visitada em dezessete domicílios da área. A grande maioria da população é formada por adultos e idosos, sendo alta a representatividade de idosos. Na maior parte dos domicílios não são encontrados jovens ou crianças. Em muitos desses domicílios residem apenas idosos, fato que modifica a dinâmica produtiva e social local. Além disso, muitas pessoas que trabalham na área têm a sua principal residência na cidade. Observou-se também a campo que a maioria da população é masculina, sejam jovens, adultos ou idosos. Essas informações sobre a população da APA são confirmadas através do cruzamento com dados secundários sobre a população total dos quatro municípios integrantes da área, como pode ser visto na Tabela 1. Tabela 1: Estratificação da população dos quatro municípios integrantes da APA do Ibirapuitã por condição de domicílio, idade e sexo. Municípios Rural Urbano Homem Mulher Total 0 a 14 anos Alegrete Quarai Rosário do Sul Sant' Ana do Livramento Dif.* %** Homem Mulher Total Dif.* %** 8235 2645 4295 7970 16205 2640 5285 4397 8692 265 5 -102 1,64 0,09 -1,17 962 208 516 829 193 468 1791 401 984 133 15 48 7,43 3,74 4,88 9410 9294 18704 116 0,62 1083 1028 2111 55 2,61 6216 1733 2989 5978 12194 1648 3381 2854 5843 238 85 135 1,95 2,51 2,31 543 120 324 444 85 261 987 205 585 99 35 63 10,03 17,07 10,77 5928 5820 108 0,92 577 550 1127 27 2,40 15 a 24 anos Alegrete Quarai Rosário do Sul Sant' Ana do Livramento 11748 25 a 59 anos 6 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Alegrete Quarai Rosário do Sul Sant' Ana do Livramento 15387 4277 7614 16813 4613 8356 32200 8890 15970 -1426 -336 -742 -4,43 -3,78 -4,65 2450 572 1301 1670 337 1015 4120 909 2316 780 235 286 18,93 25,85 12,35 15634 18119 33753 -2485 -7,36 2102 1546 3648 556 15,24 Mais de 60 Alegrete 3975 5297 9272 -1322 -14,26 867 534 1401 333 Quarai 1310 1779 3089 -469 -15,18 224 153 377 71 Rosário do Sul 2309 2928 5237 -619 -11,82 471 347 818 124 Sant' Ana do Livramento 4526 6476 11002 -1950 -17,72 667 506 1173 161 * Número de homens menos número de mulheres; **Diferença percentual entre homens e mulheres. 23,77 18,83 15,16 13,73 Embora representando o contexto geral da área dos municípios, e não apenas das partes integrantes da APA, os dados da Contagem Populacional dos municípios em questão revelam o êxodo rural existente que claramente masculiniza o rural nas faixas etárias jovem, adulta e idosa da região. Na população adulta e idosa observamos as maiores diferenças relacionadas ao sexo e à condição de domicílio, enquanto a população urbana apresenta sobreposição feminina, a rural mostra um percentual de masculinização alto, maior que dez por cento, em todos os municípios nas duas faixas etárias. Chamamos a atenção para a sobreposição masculina também entre a população idosa rural, o que difere do esperado, pois a expectativa de vida da mulher é maior do que a do homem. Na população jovem urbana não se evidencia um processo de feminização, como era esperado em contraponto à masculinização rural nessa faixa etária, entretanto o baixo percentual de jovens nas duas condições pode ser um indicativo de que a esse grupo da população desses municípios busca emprego em outros centros urbanos. A diminuição do número de habitantes em municípios do pampa nos últimos anos reforça a tendência de migração dessa população para outras regiões do estado como a Metropolitana e a Serra Gaúcha. Os moradores locais expõem a gravidade dessa situação. A título de exemplo citase o caso de uma mesa eleitoral que, conforme um informante local, em 1978 contava com 200 eleitores em média e, atualmente tem 63, demonstrando que o êxodo rural nesse período foi muito grande. Outro exemplo utilizado pelo entrevistado Paulo6 como demonstrativo do despovoamento da área são as atividades de piquete7. Antigamente nós fazia rodeio que começava na sexta de manhã e se ia até domingo de noite. Isso aqui era tapado de acampamento. Quando nós saía eu levava, no mínimo, 18 guri comigo. Hoje ta parado. Não existe qualquer dado preciso referente ao envelhecimento e à masculinização que leve em consideração toda a população da área da APA, entretanto o discurso dos moradores reforça a realidade mostrada nos domicílios visitados e nos dados secundários. 6 No artigo são utilizados nomes fictícios para evitar a exposição dos entrevistados. Grupos de familiares, amigos e/ou vizinhos, que constituem unidades geralmente filiadas aos CTGs (Centros de Tradições Gaúchas). Os piquetes organizam em suas sedes competições que são representações das lidas campeiras com o gado e com cavalos, assim como atividades artísticas. 7 7 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural A dinâmica demográfica apresentada é provocada por diversos fatores e implica em sérias conseqüências para o futuro da APA do Ibirapuitã, conforme será discutido na seqüência. 4. Discutindo influências e conseqüências do envelhecimento e da masculinização na área De modo geral, o empregado e o produtor familiar, ou seus descendentes, não tendo renda suficiente para manter um desejável nível de subsistência, migram para as cidades, em busca de melhores oportunidades. Como estão geralmente despreparados para a disputa por uma vaga de trabalho nas condições urbanas, passam a viver, muitas vezes, em condições subumanas, acentuando ainda mais a questão da pobreza urbana. Os donos de grandes áreas de terra geralmente não têm muita preocupação com as condições de vida local porque eles próprios não costumam residir na fazenda, na maior parte das vezes preferem o conforto urbano, conforme percebe o morador local André: “Quase tudo mora na cidade. Por aqui é, os maiores tudo moram na cidade. Os que tem dinheiro moram na cidade, os que tem menos moram por aqui. Aqui é o lugar daqueles que não tem nada.” Esse sentimento de inferioridade, entretanto, parece não interferir no relacionamento entre os grandes produtores e as famílias mais simples, de minifundiários e empregados. Essa situação pode ser explicada pela necessidade da confiança mútua, pois é necessário deixar a fazenda aos cuidados das famílias dos peões. As mulheres e os jovens enfrentam dificuldades ainda maiores para viverem nesse contexto. A desvalorização do trabalho feminino e a falta de ambientes de lazer são alguns dos fatores que promovem a masculinização rural, como veremos na seqüência. 4.1. A condição particular da mulher Assim como os homens participam da renda familiar vendendo sua força de trabalho para o empresário agrícola, as mulheres também prestam serviço fora da propriedade ou auxiliam na lida de campo diária, mesmo em atividades que exigem grande esforço físico como o conserto de cercas. Essa situação se evidenciou nos sistemas produtivos familiares, em que toda a mão-de-obra da família não era absorvida nas lidas de campo e nas atividades do lar. Entretanto, as profissões como alambrador, tosquiador, tropeiro, carreteiro, domador são ligadas às figuras masculinas. Nas fazendas que contratam mão-de-obra permanente, por exemplo, as mulheres trabalham nas funções de cozinheiras ou na limpeza, mas raramente são contratadas para desempenhar as funções acima mencionadas. Na contratação temporária para as lidas de campo o trabalho feminino é visto como auxílio, conforme fica descrito no trecho a seguir: Entrevistador – O que mais vocês fazem quando prestam serviço? Filho – Eu, mais o que eu fazia era esquilar8. 8 Ato de cortar a lã dos ovinos, desempenhado por máquina com pentes ou manualmente, com tesouras chamadas de “martelos”, feito anualmente durante a primavera. Nessa região ainda predominam os rebanhos de raças voltadas para a produção de lã, então esse serviço emprega uma mão-de-obra sazonal. No tempo em que não se utilizavam amplamente as máquinas elétricas, era comum a contratação de grandes grupos de esquiladores, as “comparsas”. 8 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Entrevistador – à martelo ou com tesoura elétrica? Filho – a martelo. Entrevistador – E o teu pai também? Filho – Também. Mãe – Eu agora parei, deixei de esquilar. Entrevistador – A senhora esquilava também? Mãe – É, me criei ajudando o pai a esquilar aqui. Desde pequena... Todo serviço... Eu, se vou pegar na cerca, eu pego em todo serviço. Agora o meu marido mesmo contratou uma cerca pra o S. Fulano9 aqui, aí eu ajudei. Fizemos bem rápido, nós os três. E, portanto, apesar do trabalho feminino ser imprescindível dentro dos tipos familiares, ainda assim é secundarizado. Quando as mulheres desempenham trabalhos considerados produtivos, isto é, que geram riqueza, geralmente fica configurado como “ajuda”. Nas tarefas do âmbito da reprodução familiar, que não são vistas como trabalho, mas como atividades ligadas ao afeto (“trabalho de mulher”), sustentam aquilo que os homens fazem e que a sociedade considera como trabalho produtivo (SOF, 2006). A desvalorização do trabalho feminino pode ser apontada como um possível fator de afastamento das mulheres do meio rural, pois constitui ali a noção de ambiente masculino. O que seriam os meios de atração à mulher no rural, como os espaços de convívio social, são praticamente inexistentes para elas. Nem mesmo o culto à religião configura ambientes de sociabilidade, como ocorre em regiões de predominância das etnias italiana (na maioria católicos) e alemã (na maioria luteranos), em que se promovem eventos e a comunidade é participativa em torno do templo. Observou-se o cunho de espiritualidade desvinculada de doutrinas religiosas nesses locais, pois as referências ao divino geralmente eram acompanhadas de elementos da natureza. Por exemplo, na declaração de uma entrevistada que, quando lavava roupas na sanga10, ajoelhava-se à barranca e “benzia-se com a água” fazendo as suas preces. Foram vistas poucas capelas que, segundo os relatos, eram utilizadas apenas nas oportunidades em que o padre vinha da cidade para a missa semanal, da qual participavam algumas famílias. Os espaços de convívio para as mulheres são restritos aos bailes, onde todos os adultos participam, e em algumas festas promovidas pelas escolas, aonde também as crianças vão. Além disso, as visitas esporádicas a algum vizinho ou parente. Já os bolichos, pequenos comércios onde há lugar para jogos, são freqüentados quase exclusivamente por homens, assim como os rodeios, onde elas só assistem às provas desempenhadas por eles. O fator da sociabilidade restrita para as mulheres é um agravante do ponto de vista da sua participação no ambiente público, pois mesmo nas visitas continuam dentro do ambiente ao qual se “resignam” na sua rotina diária. A alimentação da família e o cuidado com questões relacionadas à saúde estão entre as funções femininas locais. Observa-se essa relação mesmo entre as mulheres que não se envolvem diretamente nas lidas de campo, como é o caso das mulheres nos tipos patronais. Esse fator é importante do ponto de vista do autoconsumo e da segurança alimentar11, 9 Pseudônimo. Córrego ou curso d’água de proporções inferiores a um arroio. 11 Autoconsumo refere-se ao consumo feito pela unidade familiar da produção obtida dentro da propriedade, também chamado por alguns de produção de subsistência. Já a segurança alimentar refere-se à garantia da 10 9 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural principalmente na agricultura familiar, e pode ser um limitante naquelas unidades onde só residem homens. Nessas unidades onde a mulher está fora, é falecida ou simplesmente numa existiu, a alimentação torna-se menos diversificada, pois dificilmente os homens atenderão o campo e cultivos de consumo interno que requerem maior atenção, como a horta. E mesmo o “cercado” ou “chácara”, como chamam o local destinado às “plantas de baraço” (por exemplo: melancia, melão, abóbora) somadas por vezes ao milho, ao feijão e à mandioca, ficam desatendidos e perdem a regularidade de cultivo. No contexto gaúcho e de forma ampla, Brumer expõe algumas possíveis explicações para a seletividade do êxodo rural contemporâneo: “A seletividade da migração por idade e sexo pode ser explicada, e, grande parte, pela falta de oportunidades existentes no meio rural para a inserção dos jovens, de forma independente da tutela dos pais; pela forma como ocorre a divisão do trabalho no interior dos estabelecimentos agropecuários e pela relativa invisibilidade do trabalho executado por crianças, jovens e mulheres; pelas tradições culturais que priorizam os homens às mulheres na execução dos trabalhos agropecuários mais especializados, tecnificados e mecanizados, na chefia do estabelecimento e na comercialização dos produtos; pelas oportunidades de trabalho parcial ou de empregos fora da agricultura para a população residente no meio rural; e pela exclusão das mulheres na herança da terra” (BRUMER, 2004, p.210). Como está exposto acima, da mesma forma que as mulheres, os jovens encontram algumas dificuldades específicas, como a continuidade dos estudos, que os afastam do rural. Dessa forma alimenta-se o envelhecimento na APA do Ibirapuitã. 4.2. Voltando o olhar para os jovens A distância dos centros urbanos, maior que setenta quilômetros em algumas localidades, parece ter influído na saída da população do campo, principalmente dos jovens. A infra-estrutura deficitária também colabora, o transporte é uma das dificuldades. Grande parte das famílias depende de ônibus para ir à cidade, para o qual o valor da passagem, chega a quinze reais nos locais mais isoladas. Essa situação leva muitas pessoas a buscarem alternativas como a aquisição de casa na cidade ou mesmo a saída dali. O acesso ao estudo é outra questão preocupante. As escolas de ensino fundamental, chamadas de pólos educacionais, são centralizadas em algumas localidades, funcionando em turno integral e em dias alternados da semana com o oferecimento do transporte escolar gratuito. Essas condições potencializam a freqüência no meio rural. Já o ensino médio é oferecido somente na cidade, na maioria dos casos sem transporte escolar para os estudantes oriundos do rural. Durante as entrevistas constatou-se que a escolaridade costuma atingir a oitava série entre os mais novos, entre os adultos e idosos geralmente atinge a quarta série, variando conforme o nível máximo oferecido pelas escolas das redondezas no tempo em que estudavam. Foi observada certa contrariedade por parte dos pais na situação dos jovens terem de se deslocar até a cidade para cursarem o ensino médio, como está exposto na fala abaixo. oferta de alimentos em quantidade e na qualidade adequadas para a reprodução da família dentro dos padrões mínimos de saúde e nutrição. 10 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (...) agora, como eu digo, o estudo agora tem que ter, né? Mas tem que aprender todo o serviço, não adianta só estudar e não aprender o serviço! Pois se não dá no estudo que tem, vai no serviço, se sabe fazer! (...). Assim, guri em campanha, sozinho na cidade é brabo! Eu já sou do tempo antigo, mesmo que meu pai (Dona Maria, moradora local). Essa fala que reflete o desgosto com a saída dos filhos para a cidade em busca da continuidade do estudo é justa. Nessa situação o jovem perde paulatinamente o contato com a sua origem rural. Além disso, os jovens rurais têm o mesmo direito de estudarem que os urbanos. A questão da distância da escola ou da menor demanda no espaço rural não pode prejudicá-los. Quando os pais são favoráveis à continuidade de estudos, duas situações são comuns. A família adquire uma casa na cidade para onde a mulher muda-se acompanhando os filhos enquanto esses estiverem estudando. Nesse caso o patriarca da família continua no meio rural juntamente com os filhos que não estudam mais. Por vezes as mulheres planejam voltar quando os filhos estiverem independentes, em outras levar também o marido, quando precisam de alguma assistência constante em saúde, inexistente nessas localidades rurais. Outra situação denotada foi a estadia dos estudantes com famílias conhecidas na cidade, muitas vezes em troca de serviços domésticos no caso das moças, como uma mãe, Dona Ana, relata na fala abaixo. (...) o colégio era pequeninho e ela foi estudando, depois foi morar na cidade pra estudar com gente amiga, gente boa, porque parente eu não tenho aqui. Uma vez até tivemos olhando pra comprar uma casa na cidade, porque o marido queria me botar, mas eu não sou de cidade, fui criada na campanha, nunca gostei. Daí ela me disse eu me viro, passava trabalho nas mãos dos outros, mas vou me virando. Dessa forma as pessoas são ‘expulsas’ do rural. “Como eu digo, uns é pela questão do colégio, a maioria por isso (...). Vai, terminam indo tudo, muitos homens também” (Dona Maria). Essa questão do acesso à escola parece ser uma das principais justificativas para a saída de jovens, os principais emigrantes da APA do Ibirapuitã. A busca por emprego urbano também é outra explicação. Nota-se, entretanto, que os centros urbanos próximos à área da APA não oferecem muitas oportunidades reais de trabalho a essas pessoas. Pelo contrário, observa nos últimos anos a diminuição de empregos nessa região com a conseqüente saída da população urbana para outras regiões do estado. Assim, talvez seja inadequado dizer que o jovem é atraído pelo mundo urbano no pampa, parece mais sensato dizer que ele é expulso do rural. A chegada recente da eletricidade em muitos locais através do ‘Programa Luz para Todos12 é vista pela população com esperança, a partir dessa melhoria na qualidade de vida seria menor a migração de jovens na opinião do morador Luciano. “Eu acho que com esse negócio dessa luz já não vai muita gente. Tem mais jeito da gente lidar. Acho que agora ta melhor para esses caras mais novos. Eu pra mim, já tem gente voltando, tem gente que arrendava as terras e ta voltando.” 12 O Programa Nacional de Universalização do Acesso e Uso da Energia Elétrica - Luz para Todos foi criado em 2004 pelo Governo Federal, sendo coordenado pelo Ministério de Minas e Energia com participação da Eletrobrás e de suas empresas controladas para levar energia elétrica para a população do meio rural. 11 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Ao lado da eletricidade, a aposentadoria também seria responsável pela modificação da dinâmica demográfica local, possibilitando a permanência de mais pessoas, principalmente as idosas, na região. A aposentadoria faz com que os mais idosos tenham a possibilidade de adquirir o que não é produzido nas suas propriedades, porém, se mantenham ativos em termos de comercialização. Mesmo havendo uma diminuição da produção pelo fato da idade avançada, a aposentadoria faz com que eles não saiam de suas propriedades porque produzem menos, mas têm uma renda garantida. Nota-se visivelmente o envelhecimento da população da APA. A presença de idosos (aposentados) é muito comum, embora não possamos precisá-la devido à falta de informações sobre a população residente na área. Tal fato faz com que a escassez de mão de obra se apresente e a dinâmica produtiva das propriedades comece a se transformar, conforme relata Cláudio. “Tá terminando, né, conforme vão saindo do campo. A atividade da alambrador, não tem gente aqui que faça, vem da cidade. Esquilador, tem as máquinas. E assim sucessivamente”. Na verdade esses profissionais ainda são encontrados na APA, mas a quantidade parece ter diminuído. Apesar de todas as dificuldades apontadas, percebeu-se nos moradores da APA do Ibirapuitã o gosto pelo seu modo de vida, pela herança que receberam dos seus pais, como na fala da moradora Ana. “Às vezes as pessoas dizem: que buraco! Mas eu adoro esse buraco”. Também são comum entre as famílias entrevistadas os casais sozinhos que tem vários filhos residindo e trabalhando na cidade, existem casos em que mais de dez filhos deixaram o campo. Contudo, nas situações em que os filhos estão continuando a profissões dos pais, do lado desses, a satisfação é evidente, como está exposto na fala de Dona Ana. Não sei como é que o meu ficou, dizia que queria agricultura. (...) é um guri que não sai pra lado nenhum, é um guri bom que merece coisa boa. Quando tinha alguma coisinha, algum divertimento por aqui, até eu nunca vi um filho maravilhoso assim. Ele dizia: pai, se tem um serviço eu fico em casa, se não tem eu vou. Diante da propensão ao desmembramento da família e do esquecimento das tradições, a possibilidade de sucessão na unidade produtiva orgulha os pais. Esse é o futuro almejado pela população local, contrário ao esvaziamento. A riqueza das relações sociais local está comprometida, entretanto a reversão desse quadro pode ser buscada através de algumas ações. Esse pensamento encaminha aos apontamentos finais. Considerações finais É difícil tratar quantitativamente da dinâmica demográfica na APA do Ibirapuitã, sendo que não existe qualquer dado confiável que abranja toda a sua população. Diante da importância dessa unidade de conservação julga-se indispensável a superação dessa lacuna. A mudança de setores do IBGE, conforme a área em questão pode ser uma alternativa viável e prática. É visível tanto nos domicílios visitados, quanto nos dados secundários e na fala dos moradores o envelhecimento e a masculinização da população da APA. Os grupos 12 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural feminino e jovem da população predominam nesse êxodo, animados por várias motivações como a desvalorização do trabalho feminino, a busca pela continuidade dos estudos, o déficit de infra-estrutura e opções de lazer nas localidades. Uma das funções da APA do Ibirapuitã é proporcionar aos moradores dessa área uma vida sustentável e digna, preservando as suas características. Sem, entretanto, a expectativa concreta de melhoria nos padrões de vida dessas pessoas, o futuro das localidades pode ser seriamente comprometido pelo celibato, problemas sucessórios, envelhecimento e conseqüente esvaziamento populacional. Precisa-se investir em políticas públicas que melhorem as perspectivas futuras, principalmente das mulheres e jovens, nessa área. A oferta de ensino médio no meio rural com transporte escolar gratuito é uma necessidade urgente. O investimento em infraestrutura, principalmente na oferta de opções de transporte acessíveis à população e unidades de saúde no rural são direitos básicos, porém inexistentes em muitas localidades. O apoio a alternativas de lazer e integração social que promovam a cultura local também é importante, nesse caso devem ser criados espaços específicos para as mulheres. Além disso, o incentivo à formação de associações, o apoio à diversificação produtiva, às atividades não agrícolas e a maior oferta de linhas de crédito específicas a esse público podem ser boas alternativas. Entre as atividades não agrícolas com bom potencial para envolver as mulheres destaca-se na região o trabalho artesanal com lã. Enfim, a problemática não é apenas importante, ela necessita que decisões sejam tomadas em sua resposta, de forma eficaz e rápida. Assim a APA do Ibirapuitã não será um lugar quase desabitado, marcado pelo envelhecimento e a masculinização da população. Será um lugar de relações sociais riquíssimas, onde se preserva as tradições da fronteiraoeste gaúcha, como é almejado. O esvaziamento do pampa não pode ser observado ‘de braços cruzados’. 13 Porto Alegre, 26 a 30 de julho de 2009, Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural Referências Bibliográficas ANJOS, F. S..; CALDAS, N. V. O futuro ameaçado: o mundo rural face aos desafios da masculinização, do envelhecimento e da desagrariação. In: Ensaios FEE, Porto Alegre: FEE, v.26, n.1, p.661-694, jun.2005. BOURDIEU, P. O camponês e seu corpo. Curitiba: Rev. Sociol. Política, 26, p.83-92, jun. 2006. BRUMER, A. Gênero e agricultura: a situação da mulher na agricultura do Rio Grande do Sul. Florianópolis: Estudos Feministas, 12(1), p.205-227, jan-abr.2004. CAMARANO, A. A.; ABRAMOVAY, R. Êxodo rural, envelhecimento masculinização no Brasil: panorama dos últimos 50 anos. Rio de Janeiro: IPEA, 1999. e FROEHLICH, J. M.; PIETRZACKA, R. 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