A mulher brasileira e o discurso publicitário dos produtos de beleza: uma leitura ideológica. Profa. Mérli Leal PUC - Rio Grande do Sul Falar da origem da libertação da mulher é sempre algo confuso. Isto porque esta origem parece vir de um espaço ideológico entre o feminismo e o marxismo. Mas afinal entender a forma como os meios de comunicação, principalmente a publicidade, engendram seus sentidos através da figura feminina é a função deste trabalho. Vamos tentar estabelecer algumas relações entre os anúncios de produtos de beleza veiculados na revista NOVA enquanto discursos sociais produtores de um sentido e a mulher enquanto sujeito histórico deste discurso. Dentro desta perspectiva vamos examinar as produções simbólicas, que passam pela linguagem e pela cultura e que reais sentidos são produzidos ao nível da recepção das mensagens publicitárias. A EVOLUÇÃO DA MULHER ENQUANTO SUJEITO Segundo Simone de Beauvoir não se nasce mulher, mas torna-se mulher. Este tornar-se esta impregnado de lutas diárias por espaço em todas as instâncias. 1 O contexto sócio-histórico em que vivemos interfere sobremaneira nas formas de significado social e a questão de gênero passa por este processo. A problemática feminina na sociedade capitalista emerge junto a outras desigualdades, distorções e enganos deste sistema que vê tudo de forma fragmentada. O projeto de assumir o gênero deve ser compreendido como algo que ocorre dentro de um campo de relações sociais que limitam a liberdade do sujeito desde o inicio. O corpo da mulher é em si uma situação social e não um simples fato biológico. Para Foucault, a categoria de diferenciação de gênero assume seu significado a partir de um modelo de poder jurídico que não pode simplesmente ser ultrapassado, mas que pode ser disperso ao ponto de as oposições binárias perderem sua rigidez. A vida da mulher neste mundo está cheia de mitos, a começar pela definição bíblica que diz que a mulher foi feita a partir de uma costela do homem, que já criado, resolveu ter uma companhia, depois a expulsão do paraíso, por causa da curiosidade de uma...mulher. O homem teria que trabalhar, ganhar o pão com o suor do seu rosto e a mulher sofreria dores horriveis ao parir. Chegar em segundo lugar e ter sido a culpada da expulsão do paraíso tem sido um peso a carregar por muitos séculos. O MARXISMO E AS RELAÇÕES DE GÊNERO O conceito marxista de gênero se estabelece na relação entre produção e econômico, isto é, incorporando apenas aquelas atividades ocupadas com a feitura de alimentos e objetos. Assim, o critério que MARX utiliza para demarcar a posição de classe - relação quanto aos meios de produção - é compreendido como relação quanto aos meios de produzir alimentos e objetos. Para Marx, a primeira divisão de classes surgiu da luta de apropriação do primeiro excedente social, quer dizer, o primeiro excedente social de 2 alimentos e objetos. Uma consequência desta definição de classe é desconsiderar conflitos históricos por outras atividades socialmente necessárias, tais como geração e criação de filhos. Uma segunda consequência é não levar em conta mudanças na organização dessas atividades como componentes da mudança histórica. A teoria passa por alto sobre atividades que tem sido pelo menos um dos importantes componentes nas relações de genero. Muitos teóricos feministas observam as consequências de Marx ter deixado as atividades reprodutivas de fora de sua teoria da história. Mary Ó Brien, por exemplo, mostra que um dos efeitos é separar a continuidade histórica da continuidade biológica, o que se poderia observar ser sobremodo irônico para um materialista. Marx coloca as atividades reprodutivas como naturais, portanto a-históricas. Para nós é claro que a questão de gênero é uma questão de classe e portanto uma questão de luta constante por espaço e poder. Uma feminista, Iris Young analisa esta questão de forma muito clara: “Tarefas tradicionais das mulheres tais como dar à luz e criar filhos, atender doentes, lavar, cozinhar, etc. caem sob a categoria de trabalho tanto quanto fazer objetos numa fábrica.. Utilizar a categoria da produção ou trabalho para designar apenas a feitura de objetos materiais concretos numa fábrica moderna foi uma das desnecessárias tragédias da teoria marxista “. Com o desenvolvimento do capitalismo cada vez mais selvagem no Brasil, temos um cidadão mulher aparentemente livre, independente, dona do seu nariz. Falamos aparentemente porque ao conquistarmos mercado de trabalho, salários mais dignos e direitos sociais mais amplos, ainda carregamos o pecado original. Cumprimos jornada dupla de trabalho: Criar e cuidar da casa e dos filhos ainda é responsabilidade da mulher. Manter-se bela, sedutora, atraente mesmo depois de 8 horas de trabalho é função da mulher, segurar o casamento mantendo o marido satisfeito ainda é função da mulher. Manter fidelidade também é uma obrigação social muito mais da mulher do que do homen e mesmo o papel sexual ainda continua sendo comandado pela 3 hegemonia masculina. Os filhos homens são criados diferentes das filhas mulheres, afinal elas engravidam... Mas eles podem pegar AIDS? Mesmo assim, com tanta evolução tecnológica, mental, emocional, as desigualdades com que as mulheres se deparam são históricas e imutáveis. Se os meios de comunicação vendem a cantora MADONNA como um simbolo de liberação, deixa claro em seus implícitos que este comportamento só é aceito para uma mega star, mulheres do mundo dito real devem ter comportamentos normatizado, levar uma vida honesta e dentro das regras sociais. A mulher enquanto projeto dela mesma, retomando o conceito de projeto de SARTRE, vive a contradição absoluta da diferença versus o poder. As relações socias em nosso meio são relações de poder e este poder passa pela questão dos gêneros. As contradições sociais sobre a conformidade e desvio de gênero são tão grandes que a maioria das pessoas se sente profundamente ferida se lhes dizem que exercem sua masculinidade ou feminilidade inadequadamente. Na medida em que a existência social exige uma insofismável afinidade de gênero, não é possivel existir num sentido socialmente significativo fora das normas de gênero estabelecidas. Se existir é sempre existir enquanto gênero, extraviar-se do gênero estabelecido é negar-se enquanto existência. A MULHER NUMA PERSPECTIVA CULTURAL Segundo Geertz a cultura consiste em estruturas de significado socialmente estabelecidas, nos termos das quais as pessoas fazem certas coisas como sinais de conspiração. Vamos ampliar este conceito entendendo cultura também como um campo onde os atos sociais ganham significado, onde eles podem ser descritos. 4 A cultura pressupõe interação social, eu e o outro, num sistema entrelaçado de signos interpretáveis. A organização social é feita sempre a partir da divisão de classes. Nesta divisão temos masculino e feminino. O relacionamento entre estes dois gêneros na sociedade capitalista é perpassado por relações de poder prescritas pela cultura. Tudo que foi estabelecido até então entre os sexos foi definido prioritariamente pela cultura. Se até as emoções são artefatos culturais, é fundamental entender como a cultura enquanto mecanismo de padronização de comportamentos dá significado a figura feminina. Um conceito fundamental para entender isto é o conceito de mitos: fornecem os quadros das instituições sociais e as racionalizações dos privilégios sociais num ritual, o mundo vivido e o mundo imaginário fundem-se sob a mediação de um único conjunto de formas simbólicas. As formas simbólicas servem para estabelecer e sustentar relações de dominação nos contextos sociais em que elas são produzidas, transmitidas e recebidas. Temos uma construção social em que o que prevalece são as relações de produção brancas, masculinas e de classe dominante. As construções femininas são sempre tratadas como algo fora do comum, espera-se desempenho intelectual do homem, da mulher é desejável. Nos próprios pedidos de emprego vemos a diferenciação bem presente: para as mulheres é sempre solicitado boa aparência, para os homens outros atributos, beleza para a mulher é fundamental, para o homem é um acréscimo. Este padrão cultural não se modifica, apesar de todo avanço tecnológico presente, das mudanças de paradigmas e comportamentos. Tudo o que se espera de uma mulher é definido pela cultura, pelos padrões culturais. A criação desta super mulher independente, profissional, liberada é uma criação social e cultural. Os homens precisavam de uma mulher assim, 5 além de todas estas qualidades elas ainda cuidam dos filhos, da casa, fazem supermercado, acumulam funções para mostrarem que são importantes na construção da sociedade. E o homem aplaude e sente-se aliviado, pois não precisa mais carregar nas costas uma mulher vegetal. Para a sociedade capitalista isto também é importante: mulher trabalhando fora engrossa a lista de mão-de-obra qualificada que vai consumir, gastar e retroalimentar a cadeia do consumo que sustenta o capitalismo. Seria importante analisar se as mulheres possuem a devida dimensão deste contexto social onde elas estão atuando. É fundamental analisar como se engendram as relações de poder em nossa sociedade para perceber como os sentidos são produzidos nos meios de comunicação de massa utilizando a figura feminina. Segundo Foucault, o poder é uma relação de forças, ou melhor, toda relação de forças é uma relação de poder. Esta força não está no singular, ela tem como caracteristica essencial estar em relação com outras forças, de forma que toda força já é uma relação, isto é, poder. O meio social necessita de relações para existir, portanto todo o ato social funciona na base de poder. Cabe analisar neste momento a entrada do ser humano no mundo do simbólico, um momento segundo Lacan fundamental para o desenvolvimento saudável deste ser humano. Este momento explica um pouco a forma como o poder materno se instaura e ao mesmo tempo se torna um peso , trazendo culpas a mulher. Lacan aceita a proposição de que o sujeito falante não é o sujeito das convenções do discurso lingüístico, mas sujeito a elas. Não há lugar para um sujeito, nenhum lugar para ser humano, fazer sentido fora da significação; a linguagem sempre tem regras que nenhum sujeito tem o poder de decretar. Este dito aplica-se com igual força na diferenciação sexual dos sujeitos. Meninos e meninas recebem suas identidades de gênero em virtude de convenções sócio-lingüísticas do seu contexto social. Dessa maneira Lacan fornece um importante corretivo as interpretações biologistas da diferenciação de gêneros na teoria freudiana no complexo de castração. No entanto, Lacan faz uma contribuição muito mais dramática à teoria psicanalitica. Ele sugere que a própria entrada do sujeito no mundo da 6 linguagem, o sistema convencional de significado que ele chama de simbólico, é determinada pelo relacionamento do bebê com a mãe. Segundo Lacan, a gênese da consciência lingüística ocorre quando o bebê se reconhece como tendo uma identidade distinta da de sua mãe: esse momento primordial de separação é vivido pelo bebê como uma perda (assim como ganho de uma identidade), e em particular como a perda de um outro onipotente, doador de vida e produtor de gozo. O que se perdeu é a experiência da totalidade, o sentido de ser uno com a mãe. A dor desta perda resulta numa primeira repressão que de um lado sepulta a lembrança do relacionamento com a mãe arcaica no inconsciente e, de outro, projeta o bebê no domínio simbólico do discurso significativo, para satisfazer o seu desejo de restabelecer um relacionamento com o Outro. Mas uma vez projetado na linguagem, esse desejo jamais poderá ser satisfeito na forma não mediada da identificação primária com a mãe, e, pois, para sujeitos falantes nosso discurso é sempre assinalado por uma lacuna. Essa lacuna manifesta-se em teoria lingüistica como a distância entre significante e significado. Assim, para Lacan, antes da linguagem há apenas o nada da morte. A experiência pré-linguistica é o Imaginário, a projeção consciente do sujeito de uma fantasia da relação não mediada com o outro no espaço da experiência não-consciente. Para Lacan a linguagem nos afasta da natureza. Estamos destinados a ser vitimas do desejo do outro-que é também parte de nós mesmos-que jamais poderá ser satisfeito. Lacan desloca o complexo de castração freudiano da diferenciação de gêneros para a genese do dominio simbólico. Em lugar da descoberta do bebê da mãe sem falo, ele põe a descoberta do bebê da mãe fálica. A meta lacaniana definitiva é que o sujeito (homem ou mulher) assuma sua castração. Portanto, ambos os sexos ingressam no reino do simbólico pelo mesmo mecanismo de castração. Não tendo pênis, a mulher é determinada por sua exclusão do reino simbólico. Ela e o que não pode ser representado, ou mesmo aquilo de que não se pode falar. 7 Julia Kristeva concorda com a estrutura lacaniana básica da relação da mulher com a linguagem: “A situação analitica de fato mostra que é o pênis que, tornando-se o principal referente nessa operação de separação, dá pleno significado á falta ou ao desejo que constitui o sujeito durante sua (dele ou dela) inserção na ordem da linguagem... As mulheres...parecem sentir que são os acasos, que foram deixadas de fora do contrato social-simbólico, da linguagem como o vínculo social fundamental.” Quando Lacan fala de mulher em sua relação com a linguagem, emprega mulher para significar a experiência infantil da mãe, não a mulher concreta. A mãe arcaica, onipotente é um produto da fantasia do bebê, e não uma pessoa real. Essa fantasia é que vem a ser reprimida para que a criança domine a linguagem dentro deste sistema, porém Lacan deve obscurecer essa identificação concreta por relegar o carater de pessoa da mãe a uma função estrutural abstrata. Assim, a afirmativa de Lacan de que não existe isso que se chama mulher (a fantasia arcaica) é uma verdade trivial, mas ao fundir seu conceito de mãe arcaica com mães concretas, ele faz com que a exclusão das mulheres do reino simbólico (a perda de poder e status por isto) pareça um fato necessário da vida. A identificação da essência da mulher com uma mãe idealizada é um exemplo claro do privilegiamento da opinião masculina sobre a mulher em comparação com a dela mesma. Mulher é aquilo que não pode ser forçado submeter-se aos conceitos do discurso masculino. Retomando alguns conceitos de Julia Kristeva, o estado de coisas estabelecido repousa numa agitada repressão que jamais poderá ser perfeitamente total. Os homens podem ou não ser capazes de reprimir o seu lado feminino, mas as mulheres representam uma força subversiva potencial que vai diretamente aos alicerces de nossa vida social tal como se acha atualmente constituida. Todavia, como já mostramos, o discurso lacaniano que possibilita a identificação entre o feminismo e o possivel negativo abala seus próprios impulsos. A essencia desse relacionamento frustra o poder 8 subversivo do negativo e lançaria as mulheres para fora da sociedade masculina que elas desagregariam. A CONSTRUÇÃO DE UM ESPAÇO SOCIAL É fundamental retomar alguns conceitos sobre ideologia para poder entender melhor os discursos que retratam a mulher, ou melhor, que parecem retratar. Se, conforme Altusser coloca somos constantemente interpelados pela ideologia, procuramos entender esta interpelação na verdade como um ato de vida constantemente politico. Todas as nosssas decisões enquanto seres sociais, passa pela instância das escolhas, das opções, de pertencer a este ou a aquele grupo social. Algumas vezes isto é uma escolha, outras vezes isto foi anteriormente construido pelo contexto sócio-histórico. Quando mais divisão de classes tem uma sociedade, menos escolhas sociais teremos. Segundo Thompson, o conceito de ideologia serve para se referir ás maneiras como o sentido (significado) serve, em circunstâncias particulares para estabelecer e sustentar relações de poder que são sistemáticamente assimétricas, portanto relações de dominação-ideologia, num sentido mais amplo é o sentido a serviço do poder. É fundamental então saber como o sentido é construido e usado pelas formas simbólicas dos mais variados tipos. Vamos analisar basicamente as construções discursivas da linguagem publicitária, classificando-a como uma forma simbólica, que reproduz relações de dominação. Os meios de comunicação de massa passaram da instância da representação da sociedade para a construção da realidade desta sociedade. Na verdade as relações entre as pessoas é quase sempre mediada pelos meios de comunicação. Este processo de mediação é estruturado segundo interesses da classe dominante, que detém o mercado destes meios. O que vemos é portanto uma comunicação social que pouco retrata do social enquanto realidade, mas 9 um engendramento feito a partir das referencialidades de uma classe especifica, com interesses bem definidos. Segundo Guareschi, a comunicação e a informação passam a ser alavancas poderosas para expressar e universalizar a própria vontade e os próprios interesses dos que detém os meios de comunicação. O monopólio da propriedade privada da terra, os latifundios, se prolongam no monopólio do poder politico como dominação e passam a abranger, lógicamente, o monopólio dos meios de comunicação social, a serviço da dominação ideológica. Mas a nossa análise vai tentar entender a veiculação das mensagens publicitárias não de um ponto de vista da recepção passiva, mas sim a partir das interpretações e intervenções que a recepção se utiliza para produzir seus sentidos. A ocupação de um espaço social pelo elemento feminino tem acontecido sempre dentro de uma proposta de concessão de poder do universo masculino. E sem dúvida a legitimação destas concessões passam pelo universo da linguagem e no caso da comunicação passam pelo universo dos discursos sociais. Para FOUCAULT os discursos são práticas que formam objetos de que falam.Usam signos para designar coisas, fazem mais do que isto e é esse algo mais que é preciso descrever. Este lugar social da figura feminina dentro da linguagem e dos meios de comunicação precisa ser analisado do ponto de vista da formação das modalidades discursivas, a saber: Quem fala: dentro do contexto social onde a mulher está inserida, que tipo de linguagem ela está autorizada a falar.Que estatutos são estabelecidos para que a mulher possa proferir este ou aquele discurso. Em nossa sociedade estas questões já estão estabelecidas, a linguagem é uma questão de genero. Isto uma mulher não deve dizer, isto é jeito de falar de homem, quantas vezes estes comentários passaram desapercebidos pelos nossos ouvidos.O direito de proferir um discurso é regulamentar, juridicamente estabelecido e é aceito ou não, considerado ou não, sempre levando em conta estas regras fundamentais que legitimam quem fala. Outro fator fundamental nas formações discursivas de Foucault são os lugares de onde vem os discursos. Este lugar também é instituido, também é 10 carregado de idelogia. As mulheres possuem um espaço fisico e social delimitado; quando ouvimos falar que lugar de mulher é na cozinha, temos nesta expressão um alto teor de implícitos e subentendidos. O lugar permitido para proferir discursos enquanto mulher é quase sempre o lugar institucional da mulher: o lar. Este lar pode ser até mesmo aquela mulher super moderna, independente, que até tem desconto na compra do seguro anunciado pela publicidade, afinal fica implicito que mulher paga menos porque bate menos o carro, bate menos porque dirige menos. Porque fica mais em casa. Na revista NOVA durante todo o ano de 96 tivemos apenas 1 anúncio vendendo automóvel. Dentro do contexto editorial da revista, o anúncio do carro pareceu meio estranho no ninho. Mulher utilizando o discurso pedagógico, o discurso culinário, o discurso protetor: dentro da escola/universidade, dentro da cozinha ou adjacencias (porque o curso superior de nutrição tem um número infimo de homens?) O próprio quarto acaba sendo um lugar de onde pode vir o discurso feminino, negociando com o homem no seu momento de descanso fisico e com menos resistencia para dizer-lhe não. Os lugares de onde está vindo o discurso feminino é ainda o lugar estabelecido socialmente pelos últimos anos. Falar fora destes lugares é ser contraventor de um sentido estabelecido. A sociedade trata as mulheres que falam fora dos lugares estabelecidos como exceções. As posições que a figura feminina ocupa a partir do seu discurso está relacionada ao prestigio que esta figura tem nos diversos dominios ou grupos de objetos. Dentro desta estrutura, a mulher que fala questiona segundo uma grade de interrogações explicitas ou não e que ouve segundo uma programação de informação. Esta posição é culturalmente atribuida, até mesmo nossos questionamentos são socialmente engendrados. Se até mesmo as emoções são artefatos culturais, como diz GEERTZ, as posições que ocupamos ao proferir um discurso são sempre coodeterminadas pelas posições que a cultura nos instituiu. Temos nesta instância aquilo que FOUCAULT chamou de campo de presença, que diz que é preciso entender todos os enunciados já formulados e que são retomados em um discurso a titulo de verdade admitida, de descrição exata, de raciocinio fundado. Todas as ações sociais possuem esta 11 intertextualidade, que vivem e se nutrem de relaçõoes com outros textos, outras estórias, que nunca são únicos, são muito mais do que parece. São as lacunas, os não-ditos, que nos mostram como a figura feminina é realmente representada no contexto social. A cultura fornece o vinculo entre o que os homens são capazes de se tornar e o que eles realmente se tornam. É interpretando o fluxo do discurso social que é possivel realmente descobrirmos estes véus. O FEMININO E A REPRESENTAÇÃO Desde o final dos anos 60 o movimento feminino no ocidente vem se engajando com politicas de produção de sentido. As maneiras como as mulheres são representadas em anúncios, com as novas mídias, tem sido objeto de ataque, debates, questionamentos. A presença do feminino na cultura capitalista moderna é forte. Isto significa que ser feminina em nossa cultura, afeta a todos nós, homens e mulheres. O discurso publicitário é um objeto multidimensional. O sujeito que produz este objeto, por definição não pode ser um sujeito que tenha controle de todos os seus níveis de determinação que estão neste objeto. Segundo Verón a linguagem não é um instrumento porque ninguém que fala controla a linguagem. Esta afirmação é um exagero, que tenta dizer que a gente não sabe o que faz quando está falando. Evidentemente que o sujeito tem um certo tipo de relação com os signos que produz. PRODUZINDO SENTIDOS NO DISCURSO PUBLICITÁRIO 12 Mediante processos de linguagem, a mídia não só determina mas engendra seu referente, isto é, ela pensa e constrói o objeto de que fala. Ela se constitui numa espécie de mediação de um real que se passa em outro plano (imaginário) e noutro momento que aquele do objeto cultural, da idéia, do valor ou do serviço de que se fala. Seu discurso é uma fala sobre. Dessa forma , o que resulta é um processo de produção de sentido, o desenvolvimento de um modo de codificação. Isto significa que se deve compreender o discurso publicitário não apenas como um conjunto de signos, uma mensagem, mas um dispositivo mais complexo cujas regras e inteligibilidade dependem daquilo que é imposto pela feição especifica do meio, como uma ideologia, no interior do qual se constrói o discurso. Nessa acepção, a publicidade tem maneiras próprias para produzir a noção de realidade. Seu trabalho de construção discursiva leva uma exclusividade no sentido da construção deste discurso. É assim que o discurso publicitário marca as diferenciações socias no modo de informação, que é onde se organizam as regras que regem os contratos de leitura, que se dá no nível dos textos e das imagens, tratando de construir a noção de receptor no próprio nível da produção Os operadores produtores de sentido são intertextuais, estão sempre no interior de diversos universos discursivo. No caso das revistas femininas que veiculam nossos anúncios, objetos deste estudo temos que: a) As revistas femininas se coodeterminam: isto significa que o corpo editorial de uma revista feminina remonta discursivamente uma história ao longo deste tipo de revista vamos da primeira revista no inicio dos anos 20 e encontraremos similaridades com as revistas femininas do anos 90. b) A intertextualidade vale para universos discursivos diferentes ex: anúncios de revista e out-door. c) Anúncios de revista e comerciais de tv: só se entendem os anúncios das revistas mensais a partir das mensagens veiculadas durante todo o mês na televisão. A mensagem é resgatada pelo veículo impresso, que explica melhor o que pode ter ficado obscuro no discurso de 30 segundos da tv. 13 d) Outro operador de sentido são os textos mediadores, de códigos diferentes dos que determinam o discurso de cuja produção participam e podem, também, por em jogo matérias significantes que não se encontram investidas no discurso produzido por eles. Um exemplo são os informes publicitários ou matérias pagas sobre produtos de beleza. Em principio eles nos dão a sensação de apenas nos darem informações imparciais sobre saúde. Algumas páginas após encontramos em página dupla um anúncio de um produto especifico para sanar o problema levantado no release anterior. Nesta categoria temos aquilo que Verón chama de discurso oculto. Em publicidade discurso oculto seriam os lay-outs de um anúncio, a pré-produção de um comercial, o roteiro deste comercial, as marcações de cor, de fotos, etc. O discurso publicitário passa por um processo de produção, onde temos um sujeito produtor e outro sujeito receptor. Tanto o sujeito produtor como o sujeito receptor são definidos pela posição social. O conjunto de determinações que definem a posição social dos produtores de sentido é o que chamamos de: condições de produção dos discursos. Produção são as operações de investimento do sentido nas matérias significantes, originando textos. A leitura do processo de produção de um discurso esta relacionada as suas condições de produção, a leitura é sempre um efeito de sentido. Todos os discursos são dotados de ideologia, o que dá consistencia a um discurso é o contéudo ideológico. Se analisarmos as condições de produção do discurso publicitário teremos primeiramente o sistema de produção vigente: no capitalismo a publicidade tem como função principal estabelecer relações de compra e venda de determinado produto ou serviço através de mensagens atraentes, sedutoras, contextualizadas para um consumidor ideal denominado de alvo. O universo do receptor enquanto sujeito deste processo é de falta de alguma coisa e o universo do produtor da mensagem é de preenchimento desta falta. São lugares discursivos diferentes, que se articulam pela falta de algo e pelo preenchimento desta falta. O discurso publicitário é da ordem do simbólico, perpassado pela linguagem e pela cultura e possui marcas próprias do seu funcionamento. O discurso pertence ao genero ideológico, e cada formação ideológica constitui um conjunto complexo de atitudes e de representações que não são individuais, nem universais, mas que se relacionam mais ou menos diretamente a posições de classes em conflito 14 umas em relação ás outras. Segundo Hjelmslev o ideológico concerne à substância do conteúdo e o código é o consenso social que torna possivel a comunicação. Para Verón ideológico é uma dimensão constitutiva de qualquer sistema social de produção de sentido. É possivel perceber que tudo que entra na ordem discursiva vem de um lugar socialmente determinado. Todo o discurso que se refere às mulheres tem implicitamente um contexto social préconstruido, marcado pela luta de classes e por uma problemática histórica fundamental: o que pode e o que deve ser dito para as mulheres e sobre as mulheres. A CIRCULAÇÃO DO SENTIDO NO DISCURSO PUBLICITÁRIO A circulação do sentido é que torna possivel o processo comunicacional. Para Verón circulação é um conjunto de mecanismos que fazendo parte do sistema produtivo, definem as relações entre gramática de produção e gramática de recepçao em um determinado discurso. São as relações entre condições de produção e condições de recepção. O discurso da comunicação de massa circula de forma imediata, a distância histórica entre produção e consumo é zero. Basta que a recepção se reconheça no discurso que circula, para que aconteça o efeito de sentido. O discurso publicitário vale-se constantemente de efeitos de sentido para ter eficiência. Um dos efeitos de sentido mais utilizado é o efeito de reconhecimento. Sempre que utilizamos nas chamadas do anúncios fatos da atualidade, titulos de filmes, peças de teatro, chavões e lugares comuns lingüisticos estamos recorrendo a este efeito de sentido, que funciona para tornar a mensagem acessivel, decodificável, pronta para circular junto ao receptor. O discurso é um fenômeno social e constitui um dos vinculos mais importantes de produção de sentido no interior de uma sociedade. Sem dúvida que normas sociais estruturam a percepção das matérias significantes. A revista NOVA veicula um determinado discurso publicitário para vender produtos de beleza em função de um contrato de leitura expresso entre o leitor e o produtor da 15 revista. Existe um pacto tao forte, que alguns anúncios parecem mesmo ser parte integrante do editorial da revista. É possivel que nos confundamos entre o que é anúncio e o que é matéria. Esta caracteristica destaca-se de duas maneiras: aqueles aspectos pelos quais a revista tende sempre a voltar para sua própria discursividade, para si mesma; e os aspectos denominados de circularidade que trabalham as condições de produção dos mesmos. A especificidade de uma revista é exatamente um sistema de antecipação que prepara as maneiras pelas quais a recepção deve olhar aquilo que é deles ou de outros suportes (revista NOVA-moda, beleza, culinária). Por isso a mídia desdobra o olhar do receptor para seu próprio campo interior, dizendo-lhe que ela trata de analisar aquilo que é da sua ordem, submentendo os valores, vidas, fatos, ao sistema de inteligibilidade. Outra caracteristica fundamental do discurso publicitário é como ele fala o texto nos diferentes meios, direcionando-o no sentido de indicar para outro sistema de produção de discurso ora abrilhantando-o ora preparando o próximo lance, o capitulo subsequente, mas sempre construindo a condição de sua produção. É que todo discurso se constrói à base de outros discursos (POLISSEMIA), e todo discurso, embora pertença a um campo matricial distinto, tem ligações com outros campos discursivos.Com efeito, o dispositivo publicitário da revista se vale de um subentendido, o já-visto, para posicionar o leitor no sentido situacional da mensagem publicitária. Vamos analisar dentro do processo de circulação do discurso publicitário, o papel de outros discursos relativamentre autonomos que, embora funcionando como momentos ou etapas da produção, não aparecem na superficie do discurso produzido ou terminado. Estes textos mediadores dependem, frequentemente de códigos inteiramente diferentes dos que determinam o discurso de cuja produção participam e podem, também, por em jogo matérias significantes que não se encontram investidas no discurso produzido pela mediaçao deles (matérias, anúncios). 16 EXEMPLIFICAR COM UM ANÚNCIO O SUPORTE COMUNICACIONAL REVISTA NOVA PRODUZINDO SENTIDOS Como sabemos, as revistas são publicações que com uma periodicidade semanal ou mensal, publicadas por editoras que guardam afinidades e são propriedades de sistema de comunicação. Ao nível da produção, este sistema de comunicação se destaca por duas caracteristicas distintas: a especularidade e a circularidade. Por circularidade entendemos aquele aspecto do suporte (revista) que trata de outros meios, cujos ingredientes operam como “condições de produção” da revista. Programas de televisão com enfoque feminino, que trata de saúde, ginástica, dicas de relacionamento, fórmulas mágicas de se dar bem profissionalmente circulam pela revista, como que retomados. A receita que não deu tempo de copiar da tv você tem impressa na revista. É importante acrescentar que os programas femininos vão sempre ao ar em horários nãonobres: à tarde e pela manhã. Sao até chamados de revistas eletrônicas, pois possuem um sem fim de informações nem sempre utéis, mas produzidas para encherem o tempo das mulheres, ociosas em suas casas. Por especularidade, temos a caracteristica pela qual o suporte fala de si mesmo, através de algumas operações discursivas que tratam de criar uma certa autonomia, no seu funcionamento e na sua própria discursividade em relação a outras matrizes do campo sócio-cultural. Quando a revista publica as cartas das leitoras falando da revista, da importância que tal matéria teve na vida daquela leitora, está sendo usado o recurso da especularidade. É neste ponto que se destaca a sua especificidade como revista especializada: um sistema de antecipação, no sentido de preparar o campo da recepção para aquilo que é da ordem de outro suporte (a tv, por ex.), pontuando e organizando, segundo regras próprias, as maneiras pelas quais a recepção deve olhar aquilo que é da ordem da tv, e que é remetido pela revista. Na verdade a leitora de NOVA possui um pacto tão estreito com a revista, que mesmo a revista se repetindo tanto em termos dos seus conteúdos editoriais, esta leitora mantém sua fidelidade. Analisando o nome da revista já é possivel fazer uma leitura interessante: que mulher não gostaria de todo o mês (periodicidade da revista) parecer mais nova? 17 É exatamente isto que a maioria dos anúncios veiculados na revista tentam passar: a juventude eterna através do melhores produtos de beleza do planeta. A OBRIGAÇÃO DE SER BELA Os conceitos de beleza mudam rápido, mas ainda continua sendo das mulheres a obrigação de ser bela para ter sucesso. O culto a beleza e a forma, tem escravizado mulheres, alterando padrões de comportamento. A publicidade não manipula desejos, pois sabemos que o receptor é ativo; o material mais significativo da construção da argumentação publicitária é, sem dúvida, explorar o universos dos desejos inconscientes do individuo. A grande arma para construir este discurso de forma eficiente é através da sedução. Publicidade é pura conotação, milhares de siginificados são possiveis quando se trata de seduzir um consumidor. Na seleção vocabular, um dos cuidados principais diz respeito à adequação dos termos ao públicico alvo. Por meio de regularidades formais, a mensagem publicitária facilita o processo de memorizar, recuperar e conservar a marca e o slogan. Para obter tais resultados, utiliza uma fórmula verbal manipulável e curta, porém jamais banal. Para ser eficáz, a mensagem publicitária pode explorar não apenas o já conhecido, a memória coletiva, mas também o novo, mostrando espirito de renovação por meio do uso de neologismos. A publicidade retrata não a mulher do mundo da realidade, mas aquela mulher que na realidade todas as mulheres gostariam de ser. Linda, jovem, magra, branca. A construção da figura feminina na publicidade é feita através do esteriotipo da perfeiçao. E isto se mostra uma forma simbólica que tenta reproduzir relações de dominação. Existe neste imperativo da mulher ser bela uma crueldade e uma desigualdade num nível altissimo. Os homens retratados não possuem este imperativo, mas exigem das mulheres isto. Ser belo carrega um pouco do ser 18 inocente ou excessivamente bom, porque não dizer babaca. Resgatando os contos de fadas: a rainha má de branca-de-neve não é tão bela como ela, mas é bem mais esperta, consegue livrar-se dela e ficar morando num castelo maravilhoso e se dá bem graças a sua inteligencia. A gata borralheira é uma bela sem personalidade, sem poder de luta, aceita passivamente ser manipulada pelas horrendas irmãs e madrasta e só consegue ir ao baile por forças sobrenaturais totalmente fora dela. E a bela adormecida é tão bela e inutil, que fica dormindo durante 100 anos, enquanto que a bruxa feia que a amaldiçoou passa este tempo todo numa boa. A linda sereia de Andersen se deixa ludibriar por uma bruxa do mar, que quase acaba casando com o principe. Ao mesmo tempo que ser belo nos transforma em seres especiais, bem sucedidos, também nos torna deslumbrados demais com nossa própria imagem. Há uma desregulagem entre o que somos internamente e o que aparentamos ser. Ser bela neste contexto social, tira de nós poder: rejeitamos a força interior, pela força do deslumbramento. E criamos uma prisão onde somos obrigadas a perpetuar a beleza através de poções mágicas, de pactos milagrosos: os produtos de beleza oferecidos a nós pelos mass midia. Somos controlados socialmente pela relação que temos com os produtos, ao consumir coisas nos inscrevemos numa instância social, garantimos um determinado status. Os objetos por nós consumidos passam a ser um passaporte para o sucesso e no caso específico dos produtos de beleza um ingresso na juventude eterna. A MULHER COMO CONSUMIDORA A mulher desempenha a função de protetora/provedora das necessidades da família e da casa, constituindo a imagem da domesticidade. Isto não significa que ela arque com as despesas da casa, mas sua função principal é escolher e comprar os produtos para casa. Por isto a maior parte das mensagens 19 publicitárias dirigem-se à mulher consumidora, que não se limita a consumir produtos femininos, mas todo o arsenal de objetos destinado a toda a familia. Mesmo com as várias faces de vida de uma mulher: mãe, profissional, com várias jornadas de trabalho, a publicidade bate sempre na mesma tecla: para ser feliz e bem sucedida, a mulher precisa estar sempre bela e ser (OU PARECER SER) sempre jovem. Esta função gratificante, infantilizante da publicidade, sobre a qual repousa nossa crença nela, nossa convivência por meio dela com o corpo social ,é ilustrada igualmente na sua função lúdica. Segundo Baudrillard a publicidade desempenha um papel de cartaz permanente do poder de compra, real ou virtual, da sociedade no seu todo. Disponha ou não dele, eu respiro este poder de compra. Além do mais, o produto se dá à vista, à manipulação: ele se erotiza___não somente pela utilização explicita de temas sexuais, mas pelo fato de que a compra ,a apropriação pura e simples é no caso transformada numa manobra, num roteiro, em dança complexa, acrescentando ao procedimento prático todos os elementos do jogo amoroso: avanço, concorrência, obscenidade, namoro e prostituição (até mesmo a ironia). Comprar passa a ter uma carga libidinal, onde até a escolha de um produto e o pagar por ele tornan-se atitudes eróticas. A imagem que temos através do discurso publicitário da figura feminina consumindo produtos de beleza nada mais é do que uma imagem da própria sociedade, reforçando relações de dominação através deste discurso, que é uma forma simbólica. A persuasão, como diz Packard, faz-se clandestina, mas não visa tanto á compulsão de compra e ao condicionamento pelos objetos, quanto à adesão ao consenso social que este discurso sugere: o objeto é um serviço, é uma relação pessoal entre você e a sociedade. Ao consumir um produto de beleza estou quase que automaticamente atendendo aos apelos da sociedade capitalista e com supremacia masculina a tornar-me aquilo que desde que o mundo é mundo as mulheres sempre foram: objetos de desejo, correndo atrás da juventude eterna para seu valor aparecer. A beleza é um conceito cultural, social e uma forma simbólica, que serve bastante para estabelecer relações de dominaçao, de diferença, de poder. E até certo ponto limitante no âmbito da atuação social. Quantas mulheres desanimam de competir por sentiren-se feias fisicamente? Algumas resistem a isto e vão à luta, mas vencem se 20 aproximando mais dos comportamentos masculinos. É possivel que a própria homossexualidade feminina seja um comportamento politico de fuga do poder masculino tentando anulá-lo através inclusive de uma independência emocional e sexual. É um comportamento que busca burlar uma harmonia social dentro do contexto dos generos. Mas por mais que se conteste, numa sociedade capitalista sempre será imperativo consumir. Consumir para até mesmo ser ouvido enquanto contestador. A publicidade traduz em suas peças sonhos latentes nas mulheres, não de uma forma manipulatória, mas dentro das propostas que a sociedade impõe, do contexto psicológico e sociológico de uma sociedade de consumo. Somos livres para optar pelo produto que quisermos, desde que possamos pagar por ele --“a liberdade tem seu preço...” “Perigosa é a liberdade de ser, que dirige o individuo contra a sociedade. Mais inofensiva é a liberdade de possuir, pois esta volta ao jogo sem o saber. Esta liberdade é bastante moral, uma vez que o consumidor é simultaneamente reconciliado consigo mesmo e com o grupo. É o ser social perfeito”. (Baudrillard) As revistas femininas abrem para as mulheres as portas da liberdade: os sentidos que são ofertados buscam integrar esta mulher ao contexto social, mostram como ser a melhor mulher para seu homem. Mesmo a ausência dos homens na revista feminina é uma presença. Como identificamos uma revista masculina? Pelo número de mulheres despidas que há nelas. Dificilmente uma revista masculina dá grandes dicas de como conquistar uma mulher. As dicas dadas são no máximo para o homem ter sucesso profissional. Toda a estrutura de produção de sentido pressupoe que mulheres devem sentir e homens devem pensar, racionalizar. Foucault questiona se o sujeito, exterior à frase, nao seria simplesmente o individuo real que a articulou ou escreveu. O poder masculino aparece na ausência,mas está presente de forma constante nos discursos dirigidos às mulheres pelos meios de comunicação social. E esta afirmação não possui uma explicação tao simples. O poder existe numa relação,nao existe sozinho, portanto este poder é dado também pelas mulheres e se reafirma na relação que as mulheres estabelecem com os homens. Se os homens sempre ganham mais que as mulheres, porque não deixá-los pagar a conta? Se o casamento torna as mulheres mais respeitáveis socialmente, porque não utilizar o sobrenome do marido? Se os homens podem nos ajudar a chegar onde queremos, por que motivo iriamos desprezar 21 este poder? Isto tudo se inscreve no nosso inconsciente, fruto de uma cultura que vê estas questões como algo desejável, permitido, normal. É importante analisar a visão de MORIN em relação a cultura e a liberdade: “Se podemos conceber o complexo das liberdades, também podemos então compreender que a cultura seja tanto libertação como prisão para o conhecimento ou para o pensamento. A cultura aprisiona-nos no seu etnosócio-centrismo, o seu hic et nunc, nos seus imperativos e proibições, nas suas normas e normalizações, nas suas limitações e nas suas ocultações. Mas, ao mesmo tempo, a cultura oferece-nos uma linguagem, um saber, uma memória, uma comunicação, uma possibilidade de trocas,verificações refutaçoes.Quando ela comporta em si a pluralidade dialógica e a abertura em relação às outras culturas e aos saberes exteriores, oferece-nos a possibilidade de libertar-nos de forma relativa das suas limitações e das suas ocultações”. A cultura tem o antidoto para ela própria. Toda a revolução em termos de comportamento e visão de mundo que passa pela via cultural vai gerar alguma resposta. Nada do que foi conquistado pelas mulheres neste último século explodiu de forma imediata; foi necessário passar por um processo de hibernação cultural. Nas próprias contradições do patriarcado surgiram as alternativas de lutar pela libertação. O processo de luta pelo espaço social feminino e uma revolução na visão do feminino nos meios de comunicação terão necessariamente que passar pela dialética. Querer um espaço novo para o feminino, significa abrir um espaço para a construção de um novo homem. Para tanto, é necessário construir um espaço social e cultural. O DISCURSO PUBLICITÁRIO CONSTRUINDO INTELIGIBILIDADE 22 Todo discurso está no interior de um sistema de formaçães sociais. Quando falamos em discurso da comunicação de massa, nos referimos a um conjunto complexo de formações sociais. Neste sentido discurso e ideologia não podem ser separados, pois o sentido será determinado a partir da relação de ambos. Na verdade o efeito de sentido existe porque existe a ideologia em seu interior. Segundo Orlandi a ideologia nao promove ocultação, nem engano, mas produz o desconhecimento de sentidos através de processos (históricos) discursivos cuja materialidade (lingüistica) podemos observar ou discernir..Ou seja, podemos compreender a ideologia como o fato de que os sentidos são fixados históricamente em uma direção determinada. (ORLANDI, 1990, P.103) Tais sentidos, acrescenta a autora, resultam da produção de um certo imaginário, ou seja, de uma interpretação que aparece como necessária e que destina sentidos fixos para as palavras num certo contexto sócio-histórico. E a produção desse imaginário, que é social,resulta das relaçoes entre poder e sentidos. O discurso publicitário possui caracteristicas muito próprias para engendrar o sentido: ele é sempre produzido com uma intencionalidade mercadológica, estabelecida por planos de marketing, pesquisas de consumidor, briefing, contexto econômico. Ele tem sempre a intenção de despertar no consumidor desejos inconscientes, portanto nao podemos classificá-lo como discurso manipulador. As condições de produção do discurso mostram a conjuntura em que um discurso é produzido bem como suas contradições. Nesssas condições, o sujeito produz seu discurso, não como fonte de conhecimento, mas como efeito dessa rede de relações imaginárias, constituindo-se o discurso publicitário com a representação desse imaginário social. A utilização do recurso da imagem como complementar do sentido deste discurso o torna ainda mais particular em termos de análise. A imagem sozinha é uma rede infinita de significados, mas ancorada ao texto possui uma função fundamental. Toda imagem é polissêmica e presupõe, subjacente a seus significados, uma cadeia flutuante de significados , podendo o leitor escolher alguns e ignorar outros, não de forma anárquica, mas de acordo com o saber investido na imagem (saber prático, racional, cultural, estético). Barthes-Retórica da imagem. 23 O texto tem uma função de regular o sentido, a estabelecer um limite ao significado. O texto publicitário possui regras de construção muito particulares. Não há um manual de redação para o texto publicitário. Álias, quando mais se puder ferir as construções tradicionais de texto, mais eficiente ele se tornara. Uma das únicas regras fundamentais é estabelecer uma relação entre o anúncio publicitário e o meio onde ele está sendo veiculado. Veicular fralda descartável numa revista masculina fere por assim dizer as regras de midia, que dizem que devemos veicular nossas mensagens para o nosso alvo. Neste caso seriam as mulheres, potencialmente mães, a revista adequada só poderia ser PAIS E FILHOS. Não ferindo este principio, qualquer construção é permitida. Existem algumas técnicas de redação publicitária, mas elas dizem mais a respeito de macetes criativos, do que sobre regras de construçao textual. É importante considerar que: -o texto publicitário é sempre construido a partir de outros textos. Esta intertextualidade é fundamental para que o alvo da mensagem grave a mensagem pela redundância que vem destes outros textos que ele já leu. - A resposta a eficiência da nossa mensagem se reflete no ato de compra do produto ou serviço, portanto a recepção dá sua resposta. Quando algo no anúncio fere valores morais, éticos, etc, através do código do consumidor e do CONAR(Código de auto-regulamentaçao publicitária) é possivel interditar uma campanha. - Todas as construções de sentido em publicidade precisam ser tratadas da mesma forma nos diferentes meios de veiculação: a mensagem em revista deve ter o mesmo tratamento na tv, no rádio, no out-door: o consumidor tem que encontrar através da repetição constante da mensagem, o beneficio que tenta ser oferecido. - Um anúncio publicitário pode criar, pela força da persuasão, um modo de vida, um estilo, uma moda, um chavão lingüistico. Um exemplo é a expressao”não é nenhuma BRASTEMP”, que virou sinonimo de coisa boa. - No caso das revistas femininas, as escolhas são feitas pelas mulheres em função dos contratos de leitura e do perfil sócio-economico. As revistas masculinas não são tão compartimentadas: o leitor de PLACAR é das mais 24 variadas classes e mesmo a revista PLAYBOY pode ser lida por todo tipo de homem. As preocupações dos homens parecem ser sempre as mesmas, enquanto que as mulheres possuem universos de sentido mais diversificados. Este fator talvez possa ser explicado também em função das mulheres não terem um lugar social definido. Os homens dominam um universo de sentido traduzível, objetivo. A mulher ainda se mantém misteriosa, profundamente em constante transformação, uma grande confusão. É claro para nós que o discurso publicitário não busca retratar a vida real, sua matéria significante é o sonho, o que pode ser se consumirmos determinado produto. Mas como atingir gente real com discursos irreais? A psicologia do consumo responde a isto de forma total: construimos um mundo irreal a partir do sonho inconsciente de cada um, se todos sonham com uma vida melhor porque não trazê-la agora e mostrar que se usarmos tal produto isto se realizará? O psicanalista Erich Fromm colocou esta questão de uma forma muito ilustrativa: ” De maneira puramente subjetiva, as necessidades falsas são experienciadas como sendo urgentes e reais, tal e qual as verdadeiras, e sob um ponto de vista puramente subjetivo nao poderia haver um critério para fazer a distinção. Na terminologia moderna, poder-seia diferenciar entre necessidades neuróticas e racionais. Frequentemente, o homem só é consciente de suas necessidades falsas, e inconsciente das reais. A missão do analista da sociedade é exatamente despertar o homem para tomar conhecimento das ilusórias necessidades falsas e da realidade de suas necessidades verdadeiras”. (Erich Fromm-conceito marxista do homem, Zahar, Rio, 1962). O DISCURSO PUBLICITÁRIO ENQUANTO FORMA O discurso publicitário é forma o tempo todo, utilizando constantemente figuras de linguagem; metafóras, metonimias, recursos de estilo, chavões, etc. Ele não existe só no texto gráfico, complementa-se por uma profusão de 25 imagens, ilustrações, inflexões, etc. A concepção de discurso de Júlia Kristeva oferece elementos importantes para analisar o discurso publicitário. Segundo ela todo pronunciamento tem um movimento dual, chamado de momentos simbólicos e semióticos. O simbólico é a função referencial do pronunciamento, o modo pelo qual ele situa o locutor em relação a uma realidade que lhe é externa. O semiótico designa os aspectos corporais inconscientes do pronunciamento, tais como ritmo, tom de voz, metáforas, jogos de palavras e gesto. Diferentes tipos de pronunciamentos tem diferentes relações do simbólico e do semiótico. A linguagem cientifica, por exemplo, procura suprimir os elementos semióticos, enquanto a linguagem publicitária os acentua. No entanto, nenhum pronunciamento é isento da dualidade de uma relação do simbólico e semiótico, e é através de seu relacionamento que o significado é gerado. O sujeito está em andamento, posicionado pelos níveis divisores e móveis da significação, a qual é sempre mais do apreendido ou entendido discursivamente. Os aspectos semióticos heterogêneos do pronunciamento influenciam tanto locutores como ouvintes nos modos corporais e afetivos inconscientes que sustentam e acionam a expressão e entendimento do significado referencial. Kristeva é absolutamente clara em rejeitar uma concepção irracionalista que afirmasse serem todos os pronunciamentos igualmente sensiveis e simplemente reduzisse qualquer discurso a um brinquedo. Conforme nos é possivel entender, a teoria de Kristeva diz que a comunicação é motivada não apenas pelo objetivo de obter consenso, uma compreensão compartilhada do mundo, mas também e até mais basicamente, por um desejo de amar e ser amado. Ser aceito, querido, é uma das referencialidades fundamentais deste enfoque semiótico que se aplica muito bem na argumentação publicitária. As pessoas não somente ouvem, assimilam e argumentam sobre a validade dos discursos. Mais que isso, são sensibilizadas de um modo imediato pelas expressões e maneiras pelas quais falam umas com as outras. Os interlocutores não apenas dizem o que querem significar, mas o dizem emocionalmente, de modo agressivo, de modo contundente ou ofensivo, e tais qualidades emocionais dos contextos de comunicação nao devem ser considerados como pré-linguisticos ou não lingüisticos. Reconhecer, porém, esses aspectos dos pronunciamentos implica admitir a multiplicidade e as ambiguidades irredutiveis do significado. Falamos até em comparar os recursos usados na construção do discurso 26 publicitário com os recursos poéticos. forma é sempre poética. A linguagem publicitária em sua O DISCURSO PUBLICITÁRIO NA INSTÂNCIA DA IMAGEM É certo que as imagens femininas são uma forma de definir feminilidade e que isto é construido culturalmente. As mulheres produzem ou olham representações em uma cultura que tradicionalmente exclui seu ponto de vista. O discurso publicitário trabalha as imagens femininas sempre a partir do processo social de ser mulher. A noção de feminino está muito ligada ao fator do corpo, da sexualidade. A mulher representada nas imagens publicitárias é antes de mais nada um corpo. As mulheres são sempre definidas pela sua aparência pessoal, sabemos que os homens não são avaliados por este critério de forma tão contundente. O visual é particularmente importante na definição de feminilidade, não só pelo significado atribuido às imagens na cultura moderna, mas também porque a personalidade e o status de uma mulher são constantemente julgados por sua aparência; um exemplo extremo disto é que em tentativas de estupro, as roupas vestidas pela vitima tem sido usadas como evidência de sua cumplicidade com o ataque. Imagens de mulheres devem ser vistas como parte deste processo de organização da sexualidade, da alteração e construção negociada de masculinidade e feminilidade. Os sexos e as identidades sexuais são construidas através de práticas discursivas diferentes. Pode haver portanto, definições competitivas de feminilidade que podem ser encontradas em variados discursos culturais. A imagem feminina é utilizada na publicidade para objetivos bem particulares, nem sempre a favor da mulher enquanto sujeito. Discursos visuais funcionam para privilegiar certos valores e significados sociais, ao mesmo tempo que excluem outros. 27 Assim, a construção que o discurso publicitário faz da mulher é branco, heterosexual, jovem, saudável e de classe média ou alta, recusa ou torna invisiveis mulheres de raça, preferencia sexualidade, habilidade fisica e posição social diferente da classe dominante. Isto não envolve somente o teor da representação, embora seja muito importante, mas as formas como o observador é atingido. Um bom exemplo é um anúncio de bronzeadores, que veiculou a seguinte chamada: NÃO É ÓTIMO ESTAR MARROM QUANDO TODOS ESTÃO BRANCOS? O anúncio é claramente enderçado às mulheres, mas a suposição implicita é que todos os seus leitores são brancos, portanto o contéudo do anúncio é sexista e racista, mas de um modo diferente. A imagem faz uso de um corpo de mulher para vender o produto, mas o discurso constrói especificamente um nós para que a cor da pele, em uma sociedade racista, tenha muitas conotações diferentes. Anúncios como esse e uma maioria de imagens visuais na mídia corrente, ajudam a definir que formas de feminilidade são aceitáveis ou não. Estão fora aquelas que contrariem ou não se ajustem nos valores da sociedade. O olhar masculino está perpassado de poder e controle sobre as imagens que contempla. O corpo feminino é posicionado e estruturado por ele, enquanto seu próprio corpo permanece duplamente escondido. Este tipo de prazer sexual, olhar sem ser visto, voyeurista é muito caracteristico de outras formas culturais além dos anúncios, filmes e pornografia. As mulheres também possuem também poder ao olhar. Basta observar isto através das formas culturais dirigidas às mulheres: revistas, novelas, bestsellers, etc. Elas sempre passam uma limitação no modo de definir feminilidade, trabalhando com conceitos padronizados onde casamento e filhos são sempre a finalização feliz de qualquer narrativa onde a mulher seja sujeito. Na cultura capitalista do pós-guerra a propaganda é uma forma de comunicação em que todos temos participação, seja fazendo escolhas ou nao. Suas figuras de retórica, slogans e narrativas interagem como gracejos e tem 28 grande penetração cultural. A despeito porém, de sua imensa importancia economica e ideológica, a propaganda é comumente confundida como fútil ou mentirosa. É esse pressuposto que feministas tem contestado, argumentando que a publicidade, no modo como desdobra as imagens femininas, constrói e reafirma visões esteriotipadas e limitadoras da vida e aptidões das mulheres. É possivel construir uma imagem feminina em papéis mais reais e positivos do que os oferecidos pela dicotomia usual dona-de-casa ou prostituta. A mídia ajudou a disseminar e reforçar visões miticas da mulher ou como supermãe ou como objeto sexual, que sustentaram a presunção sexista que lugar de mulher é na cozinha ou na cama. A propaganda sempre fugirá de qualquer critica a respeito da mulher que se fundamente sobre sua face enganosa ou mesmo o prejuizo que ela tem em ser capitalista, sexista, etc. Não que estas questões não sejam válidas, mas elas evitam a ideologia do modo como os anúncios repercutem. Representações de mulheres em anúncios, portanto, funcionam para produzir ou ao menos reforçar significações sociais sobre papéis apropriados. Estes papéis no nível do conhecimento e das presunções do bom senso, são articuladas de modo especifico pelas imagens, é impossivel não entrar no mundo das representações. Estas representações circulam e passam a ter significados sociais e parecem reais porque traduzem o que muitas pessoas pensam da realidade. Na verdade o que a publicidade trabalha não é com o real, é com a situação ideal desejada pelo leitor da mensagem, reafirmando e representando valores e atitudes que parecem verdadeiros. Nos comerciais todos os cafés da manhã tem suco de laranja, todos gostariam ou achariam ideal que tivesse, não significa que tenha ou que seja uma mentira total não ter. A propaganda constrói significados que, então, parecem naturalmente verdadeiros. Ela faz isso ligando produtos e imagens, valores, crenças que já tem aceitaçao social. A propaganda não constrói imagens femininas, mas diferenças entre homens e mulheres. A estrutura da publicidade determina com ela será interpretada.Como leitores socais de sexo, classe ou raça diferentes, podemos escolher, rejeitar ou negociar o significado implicado pelas imagens. Esta habilidade de interpretar além do significado pretendido por uma imagem sugere que, embora a publicidade trabalhe para nos situar como individuos 29 ideais, podemos entender mal ou deliberadamente rejeitar esta situação de submissão. O significado depende do tipo de conhecimento e expectativas que o observador traz para a imagem bem como o contexto em que ela é vista. A REPRESENTAÇÃO DA BELEZA NOS ANÚNCIOS As mulheres são representadas nos anúncios de forma fragmentada, enquanto os homens são menos desmembrados. A beleza fisica é mostrada através das formas corporais: seios, pernas, nádegas, coxas, boca vermelha... A mulher e seu corpo são totalmente postos à venda, mesmo quando isto aparentemente não parece necessário. Mulher bonita com corpo à mostra chama atenção e os anúncios estão repletos de exemplos. Houve um anúncio de carros que utilizava a imagem de uma mulher linda e com pouca roupa e dizia: Descobrimos que isto chama a atenção. Agora olhe a outra máquina. As pesssoas sem roupa ficam desprotegidas, sem nenhum poder, uma vez que ferem uma regra social básica. Apenas crianças aparecem nuas e isto tem uma conotação positiva. Já houve casos na publicidade brasileira de aparecerem homens nús, mas é bom acrescentar que mesmo nús eles mantinham corporalmente a posição de poder inabalada. Nunca estavam na cama ,nem numa situção de dominacão. Eles não eram a oferta, eles enquanto objeto de desejo é quem escolheriam quem iria desfrutar de toda esta potência. O discurso visual publicitário mostra o homem como forte e a mulher como submetida a ele. Mesmo quando ela aparece forte, no final das contas existe um homem mais forte que ela, nem que seja para acender o seu cigarro. A mulher enquanto imagem é sempre apresentada como objeto. Basta ser bonita para ter um lugar assegurado dentro da sociedade, que a esteriotipa como sendo aquele ente que não precisa ser culto, nem inteligente, e até mesmo, em alguns casos, estes predicados assustam os homens. 30 Ser feminina nas imagens do mundo publicitário e no universo da revista NOVA é mostrar-se passiva, fútil, meiga, submissa, carinhosa. A mulher, assim, deve apenas ter a preocupação de enfeitar-se, embonecar-se. Qualquer tentativa de afirmação depõe contra a sua feminilidade. Existe uma grande desigualdade de valores quando tratamos imagens femininas e masculinas. Cabelo branco em homem é charme, sinal de maturidade, nas mulheres é sempre sinal de velhice, de decadência. As caixas de preparados para pintar os cabelos, independente da marca, usam a figura feminina sempre para suas publicidades. Segundo Eliane Leitão o número de palavras existentes em português para significar a aparência fisica da mulher, é, sem dúvida, muito maior do que as usadas em relação ao homem.. De 29 termos pesquisas pela autora para elogiar uma mulher, 18 tem conotações sexuais. O uso da língua reduz as mulheres ao status de coisa, porque elas são julgadas quase que exclusivamente pela aparência fisica. É possivel perceber que as imagens publicitárias de homens e mulheres recebem tratamentos diferenciados e assimétricos. A mulher será sempre um corpo e os homens eventualmente até podem ser. O que para as mulheres é regra, para os homens é algo ocasional e até charmoso, diferente. É interessante analisar anúncios onde os homens aparecem fazendo tarefas domésticas. Isto é sempre tratado como se ele estivesse sendo especial, cabeça boa, fazendo algo fora do comum.. As tarefas do lar, segundo a ideologia que rege nossa sociedade, são naturalmente das mulheres. E é partindo disto que todas as imagens são construidas . A imagem dominante de feminilidade na propaganda atual é o ideal da beleza e da forma. A transição da mulher doméstica para a mulher fascinante está eficientemente traduzida no seguinte anúncio ”Cuide muito bem do seu corpo. Porque se um dia alguém falou que só enxergava você como profissional, estava mentindo”. (NOVA,MAIO-96) A foto é de uma mulher fazendo de conta que esta trabalhando: sentada em cima da mesa do escritório, de mini-saia e sem o minimo jeito de estar trabalhando, o anúncio prioriza a mulher fatal, colocando a aparência fisica como a única forma da mulher destacar-se. Este ideal de beleza e boa forma 31 transfigurou-se na nova camisa-de-força das mulheres. Segundo Berger 1972:47), o ideal é passivo e controlado pelo olho masculino: “Os homens agem e as mulheres aparecem. Os homens olham para as mulheres. As mulheres percebem que estão sendo olhadas. Isso não só determina a maioria das relações entre homens e mulheres, mas ainda a relação delas entre si. O observador da mulher em si mesma é masculino: A observada, feminina. Assim ela própria se transforma num objeto---mais particularmente, num objeto de percepção visual: numa visão.” A maioria dos anúncios de produtos de beleza oferecem uma beleza que se baseia em artificios. Não adianta tentar fugir, mais cedo ou mais tarde você vai precisar ser mais jovem.. 32 33