A Construção Social do Setor Cultural em uma Instituição Bancária Autoria: Ari de Souza Soares, Fernanda Centamori Petito Resumo: O objetivo deste trabalho é analisar a formação do Setor Cultural no contexto de uma instituição bancária. Pretende-se, assim, apoiando-se no construtivismo social, explicitar o papel social, a importância do fator histórico e simbólico, a questão da legitimidade, o relacionamento interinstitucional, etc. Para tanto, realizou-se um estudo de caso, através de uma pesquisa documental e de entrevista junto a uma pessoa-chave da Caixa Cultural São Paulo. Em seguida, os dados foram analisados segundo a perspectiva de Análise do Discurso (AD) da Escola Francesa. Observou-se que o construtivismo social do Setor Cultural, pela natureza e riqueza de suas ações, ocorre também através do próprio produto cultural oferecido pela Caixa, uma vez que este emerge não da ação unilateral desta instituição, mas das ações e propostas dos atores sociais envolvidos com o meio cultural e artístico, na amplitude do território nacional. Da mesma forma, percebeu-se que a seleção dos projetos culturais é feita a partir de especialistas atuantes no mercado e contratados especificamente para esta finalidade, o que pluraliza e coletiviza o processo de construção social do Setor Cultural no Brasil, no contexto e nas limitações desse objeto de estudo. 1 Introdução Grande parte dos trabalhos que tratam do Setor Cultural, o fazem a partir de uma fundamentação teórica institucionalista e de formação de campos organizacionais (LEÃO JUNIOR, 2006; LORÊTO e PACHECO, 2007; VIEIRA et al., 2001; CARVALHO E LOPES, 2001). Embora não se conteste aqui a utilidade no uso da Teoria Institucional para explicar o Setor Cultural, o que se percebe é que estes estudos partem de uma noção pré-concebida e dada de uma realidade já institucionalizada, sem descer ao nível do contexto, das relações e das práticas que demonstrem e explicitem como isto de fato ocorre. Neste sentido, o objetivo deste trabalho é analisar a formação do setor cultural no contexto de uma instituição bancária. Pretende-se, assim, explicitar, apoiando-se no construtivismo social, o papel social da organização cultural, a importância do fator histórico e simbólico, a questão da legitimidade junto à sociedade, as práticas de gestão e rotina, bem como, por fim, o relacionamento dessa organização com as demais organizações do Setor Cultural. A justificativa deste trabalho se apresenta, dessa forma, tanto como uma resposta à demanda teórica na compreensão destes processos institucionalizadores de promoção das artes e do Patrimônio Cultural, bem como, através das peculiaridades do estudo realizado, o levantamento de questões pertinentes e atuais do Setor Cultural no Brasil. Para tanto, realizou-se um estudo de caso, através de uma pesquisa documental e de entrevista, na Caixa Cultural São Paulo, pertencente à Caixa Econômica Federal. Em seguida, os dados foram analisados segundo a perspectiva de Análise do Discurso (AD) da Escola Francesa. Este trabalho está estruturado da seguinte forma: na seção seguinte (seção 2), intitulada “O construtivismo do Setor Cultural e sua institucionalização”, destacar-se-á questões relativas ao Setor Cultural, em um contexto teórico fundamentando a partir do construtivismo social. Na seção 3 – “caminhos percorridos”, é feita uma descrição teórica da metodologia empregada e do método de coleta e análise utilizados. Na seção 4, realizou-se uma contextualização histórica da Caixa Econômica Federal, seu papel social e suas ações culturais. Na seção 5, a análise dos dados é feita mediante a construção de um percurso 1 semântico – “a institucionalização cultural em uma organização socialmente imersa”, a partir do qual são explicitados cinco (5) planos temáticos que abordam diferentes aspectos institucionais. Na seção 6, são colocadas as considerações finais, seguida – na seção 7 – do referencial utilizado no texto. 2. O construtivismo do Setor Cultural e sua institucionalização Uma discussão sobre o Setor Cultural exige uma clara distinção entre “a cultura no plano do cotidiano daquela que ocorre no circuito organizado” (BOTELHO, 2001, p.73), ou, segundo Dimaggio (1991), uma atenção para a relação dicotômica entre a cultura popular (folclórica e de variedades comerciais) e a cultura erudita (dos museus, óperas, teatros, etc.). Assim, de acordo com Botelho (2001, p.74), é preciso estabelecer duas dimensões da cultura: a antropológica e a sociológica, sendo que esta diferenciação é fundamental, pois tem determinado o tipo de investimento governamental em diversos países. Na dimensão antropológica, a cultura se forma no cotidiano, através da interação social dos indivíduos, na construção de seus valores e de suas identidades. A construção deste universo se dá pelas origens regionais, pelos interesses profissionais, pelos estilos de vida, hábitos e costumes arraigados, “pequenos mundos que envolvem as relações familiares, as relações de vizinhança e a sociabilidade num sentido amplo” (BOTELHO, 2001, p.74). Neste espaço de práticas cotidianas, segundo Certeau (1994, p.16), o interessante não é destacar a oferta de produtos culturais em si, mas as operações de seus usuários, a “proliferação disseminada” de criações anônimas que “irrompem com vivacidade e não se capitalizam”. O que há é uma subversão, um reemprego daquilo que se consome. As pessoas vivendo e metaforizando o que lhe é imposto pela ordem dominante. Por outro lado, a dimensão sociológica, foco deste trabalho, ocorre no âmbito especializado, quando há uma “intenção explícita de construir determinados sentidos e de alcançar algum tipo de público, através de meios específicos de expressão” (BOTELHO, 2001, p.74). Esta cultura interfere no circuito organizacional, que estimula a produção e circulação de bens simbólicos. Trata-se, assim, de uma expressão artística no sentido estrito. Geralmente é foco de atenção das políticas públicas, já que possui uma visibilidade concreta, e para se efetivarem, dependem de instituições e sistemas organizados socialmente (BOTELHO, 2001, p.74), isto é: “uma organização da produção cultural que permite a formação e/ou aperfeiçoamento daqueles que pretendem entrar nesse circuito de produção, que cria espaços ou meios que possibilitam a sua apresentação ao público, que implementa programas/projetos de estímulo, que cria agências de financiamento para os produtores”. Nestas organizações culturais, segundo Lawrence e Phillips (2002), não obstante haver um valor de troca para seus produtos, é seu significado que define o seu consumo e desempenho, mais do que qualquer outro fator a eles associado. Embora as práticas gerenciais e organizacionais dessas organizações tenham parecido anômalas até recentemente, elas estão se tornando crescentemente difíceis de ignorar, considerando, principalmente, a “extraordinária influência sobre nossos valores, nossas atitudes, e nossos estilos de vida” (LAMPEL et al., 2000, p.263). Destarte, de acordo com Lawrence e Phillips (2002), sendo organizações que gerenciam, produzem e distribuem produtos culturais, as organizações culturais diferem dos outros tipos de organização, principalmente, por sua razão de existir, 2 antes de qualquer outra coisa, ser o consumo dos seus símbolos na forma de significados interpretados pelos consumidores de seus produtos. A multiplicidade de objetos culturais seja talvez, segundo Dória (2001), a característica mais instigante dos tempos atuais, não se conseguindo analisar essa constelação sem recorrer-se a analogias imperfeitas como o mercado; isso porque se o "bem cultural" fosse mero suporte da mercadoria (seu valor de uso) não haveria por que distingui-lo com tanta atenção. Assim, o relacionamento do homem com a obra de arte não é usá-la, mas, como bem destaca Arendt (1997, p.180), “ela deve ser cuidadosamente isolada de todo o contexto dos objetos comuns para que possa galgar o seu lugar devido no mundo”. Este “bem cultural” reflete objetivações da expressividade humana. Estas objetivações, conforme Berger e Luckmann (2004, p.53), servem de “índices mais ou menos duradouros dos processos subjetivos de seus produtores, permitindo que se estendam além da situação face a face em que podem ser diretamente apreendidas” Leão Junior (2001, p.1) salienta que os objetivos dessas organizações culturais são nitidamente sociais e conservacionistas. “Sociais, pois são instrumentos de educação popular e conservacionistas por visarem à manutenção e restauração de bens de interesse público, bem como de valores culturais”. Além disso, o autor destaca o fato de que tais organizações culturais sofrerem pressões sociais no sentido de cumprirem seu papel e da necessidade de legitimarem este no contexto social, o que ocorre através de ações que aproximem estas organizações da sociedade. Isto tem ocorrido porque a cultura, hoje, tem se tornado um segmento cada vez mais importante para o desenvolvimento integrado das sociedades, e para o crescimento econômico propriamente dito, comparecendo nesse novo cenário tanto como um importante segmento produtor e empregador nas áreas de bens e serviços, quanto também um setor capaz de qualificar a nova mão-de-obra requerida por este (BALABAN, 1998). Percebe-se, então, que hoje a cultura está cada vez mais permeada por um conceito de produto ou sendo considerada como mercado em expansão do qual surgirá novas formas de comércio e de emprego. Esta concepção está na base do que tem se consolidado como “indústria cultural”, a partir da qual, consoante Dória (2001), o Estado tem definido novos vínculos com a produção e o consumo de cultura. Neste sentido, Durand (2001, p.66) Destaca uma pluralidade de interesses existentes na área cultural, como, “grupos, associações, organismos, revistas, fontes de financiamento, identidades e qualificações intelectuais, técnicas, estéticas, políticas e administrativas”. A participação de variados setores da sociedade, os bens simbólicos e artefatos materiais trabalhados, a evocação de narrativas históricas, o entrelaçamento destas organizações culturais, etc., é um ambiente fecundo a ser estudado a partir dos fundamentos teóricos da abordagem institucional. O Institucionalismo, agregando valores ao modelo do paradigma racionalista, busca, dessa forma, contemplar também aspectos cognitivos, culturais e simbólicos. Ou seja, conforme Dimaggio (1991), a Teoria Institucional enriquece a capacidade de análise de influência mútua entre as organizações, bem como, nos negócios que se realizam além da concepção clássica da indústria, principalmente, quando referente a um dado setor ou campo. Ao encontro dessas idéias, mais apropriado ainda é abordar a questão por meio do construtivismo social, uma vez que este imbricamento (embeddedness) está relacionado à imersão da atividade econômica e organizacional dos agentes num contexto mais amplo de relações (MACIEL, 2007). No construtivismo social, Berger e Luckmann (2004, p.79) destacam que “a institucionalização ocorre sempre que há uma tipificação recíproca de ações habituais por tipos de atores”, implicando para as instituições os aspectos de historicidade e controle. Isto porque, tais tipificações se constroem no curso de uma história compartilhada, não sendo passíveis de uma criação instantânea e imediata. Daí a observação de que “as instituições têm 3 sempre uma história, da qual são produtos. É impossível compreender adequadamente uma instituição sem entender o processo histórico em que foi produzida” (BERGER E LUCKMANN, 2004, p.79-80). Da mesma forma, Machado-da-Silva, Fonseca e Crubellate (2005, p.12) entendem que estrutura, agência e interpretação “são mais apropriadamente tratadas quando definidas como elementos fundamentais da institucionalização como processo recorrente (institutionalizing)”. Assim, segundo os autores, através do compartilhamento intersubjetivo, cabe aos atores sociais participar do processo de construção social da realidade. 3. Caminhos percorridos Para o desenvolvimento deste estudo, adotou-se como estratégia de pesquisa o Método do Estudo de Caso. De acordo com Yin (2005, p.2005), o Estudo de Caso é uma investigação empírica de um fenômeno contemporâneo no contexto da vida real. A preferência pelo uso deste método neste trabalho, decorre do fato de ser adequado para responder questões explicativas “como” e “porque”, caracterizando-se por sua dinâmica em lidar com uma variedade de evidências: documentos, artefatos, entrevistas e observações. Buscando um método de análise que fosse apropriado à abordagem institucionalista, mais especificamente, ao Construtivismo Social, e orientando-se pelas considerações de Berger e Luckmann (2004, p.92), segundo os quais, “o edifício das legitimações é construído sobre a linguagem e usa-a como seu principal instrumento”, optou-se para o tratamento dos dados (primários e secundários), a técnica de Análise do Discurso da Escola Francesa. Assim, efetuou-se uma pesquisa documental na coleta de dados secundários (consulta a artigos científicos, folders de divulgação, sites, livros, etc.) para que um roteiro semiestruturado pudesse ser estruturado e que este atendesse às peculiaridades de investigação do objeto de estudo. Em um segundo momento foram feitos contatos através de ligações e emails para um agendamento prévio de entrevista com algum dirigente ou pessoa-chave da Caixa Cultural SP. Após confirmado um horário previamente definido, foi realizada uma entrevista em profundidade, a partir de um roteiro semi-estruturado, com o Diretor de Marketing Cultural da Caixa Cultural de São Paulo. Em seguida, paralelamente à transcrição da entrevista, foi feito recursivamente consultas a documentos secundários, como: regulamentos, normas, livros e documentos históricos que serviram de auxílio complementar às informações obtidas pela fonte primária (entrevista). Feito isso, foram localizados planos temáticos no texto transcrito da entrevista, os quais iriam compor o percurso semântico ao final denominado “A construção social do Setor Cultural em uma instituição bancária”. Este recurso fundamentou-se, tanto na qualidade do intradiscurso coletado quanto na idéia de que “a linguagem constrói campos semânticos ou zonas de significação linguisticamente circunscritas. O vocabulário, a gramática e a sintaxe estão engrenadas na organização desses campos semânticos” (BERGER E LUCKMANN, 2004, p.61). Faria (2001, p.31) nos ensina que “para o intradiscurso, utilizamos como principal categoria descritiva a de percurso semântico”. O percurso semântico é, conforme Greimas e Courtés (1979), uma categoria descritiva composta por um conjunto de temas (abstrato) e figuras (concreto) dispostos na construção de um sentido. Por sua vez, de acordo com Fiorin (2004, p.24), o tema é “o elemento semântico que designa um elemento não-presente no mundo natural, mas que exerce o papel de categoria ordenadora dos fatos observáveis”. Por exemplo, são temas a saudade, o amor, a fidelidade, etc. Por outro lado, “figura é o elemento 4 semântico que remete a um elemento do mundo natural: casa, mesa, mulher, rosa, etc.” (FIORIN, 2004, p.24). Mainguenaeau (2000, p.13) destaca que a Análise do Discurso “em vez de proceder a uma análise lingüística do texto em si ou a uma análise sociológica ou psicológica de seu ‘contexto’, visa articular sua enunciação sobre um certo lugar social”. Neste sentido, nossa análise se fundamentou na articulação das categorias de pessoa, espaço, tempo e tema (FIORIN, 2002). Paralelamente, foram observou-se também, no discurso do entrevistado, propriedades da seleção lexical, conjugação de elementos explícitos e implícitos, posição do discurso hegemônico e aspectos ideológicos. 4. Uma breve história da Caixa Econômica Federal e suas ações sócio-culturais. Em 1861, um decreto pequeno e relativamente simples de número 2.723 rubricado pelo então imperador, Dom Pedro II, implantava oficialmente a Caixa Econômica da Corte que propunha-se, naquele momento, a ser o “banco dos pobres” ou, nas palavras do visconde de Rio Branco, “o cofre seguro das classes menos favorecidas” (Bueno; 2002, p.06). De sua origem até os dias de hoje, sem deixar de lado seu propósito de incentivar a poupança e ser uma instituição que oferecesse garantias aos seus depositantes, a atual Caixa Econômica Federal percorreu longos caminhos paralelamente a história do Brasil, sofrendo grandes mudanças e tornando-se, hoje, o maior banco público da América Latina (CAIXA; 2008). Atualmente, é o maior agente de políticas públicas do governo federal, patrocinando eventos e projetos artísticos em todo país, com o intuíto de preservar e difundir a cultura nacional, sem perder o foco de inserção social. Hoje a Caixa possui projetos que contribuem para facilitar o acesso de todos os seguimentos sociais à arte e à cultura. Em 1980, após esforço de economiários de todo o Brasil, o Conjunto Cultural da Caixa em Brasília foi inaugurado, e foi este o marco inicial para que, tempos depois, outros Conjuntos Culturais pudessem surgir em outras cidades (CAIXA, 2005). A Caixa possui uma ampla política de patrocínios que abrange diversos níveis de produção artística em prol do intercâmbio de culturas e a troca de conhecimentos e experiências estéticas. No atual contexto, após algumas mudanças, os espaços da Caixa deixaram de ser Conjunto Cultural da Caixa para se tornarem espaços da CAIXA CULTURAL, que hoje já estão presentes em Brasília, Curitiba, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. De acordo com Lôreto e Pacheco, a atuação cultural da Caixa decorre de macrodiretrizes traçadas pelo Governo, e estas vão se tornando realidade de acordo com as necessidades de cada região em que a Caixa atua (LÔRETO, PACHECO; 2006). Com a atual demanda crescente de público há a necessidade de ampliar suas ações, para isso a Caixa aprovou em 2004 a criação de novos espaços culturais na cidades de Fortaleza, Porto Alegre e Recife, sendo esta uma ação que busca valorizar a riqueza cultural de outras regiões e alcançar um público ainda maior. Em São Paulo, a CAIXA CULTURAL SP, inaugurada em 1989, divide-se em dois espaços: Espaço Sé, localizado na Praça da Sé, 111, e o Espaço Paulista, localizado na Avenida Paulista, 2.083. O Espaço Sé se encontra no Edifício Sé, tombado pelo patrimônio histórico municipal, local onde já foi matriz da Caixa em São Paulo, edifício projetado e construído no final da década de 1930 no estilo art déco e sua imponência remete ao período da Era Vargas (BUENO; 2002, p.276). O Espaço Sé compreende seis galerias que variam de 36m² a 190m² para mostras de artes plásticas, um museu que desde sua inauguração em 1989 exibe uma exposição permanente de objetos que contam a história da Caixa em São Paulo e uma sala de leitura. O 5 Espaço Sé realiza em suas dependências espetáculos de música, teatro, dança, exposições de artes plásticas e fotografia. Já o Espaço Paulista possui uma galeria de 300m² que destina-se a mostras de artes plásticas. 5. Percurso semântico “A construção social do Setor Cultural em uma instituição bancária” 5.1 O papel social no passado, presente e artefatos Na análise do trecho (01), a figura “Caixa”, implícito subentendido, está relacionada ao Banco Caixa Econômica Federal (CEF). O tema explicitado é “história”, identificado com o ano de fundação da instituição “1861” e com a personagem histórica “Dom Pedro II”. O entrevistado sugere, em seu discurso, na seleção lexical dos termos “papel” e “caráter”, que a atuação do banco está voltada para os problemas sociais do país, através do explícito “população mais humilde”. Em seguida, o tema implícito da liberdade emerge através do termo histórico explicitado “Carta de Alforria”, implícito subentendido, instrumento através do qual os escravos obtinham a liberdade. Este exemplo, colocado pelo entrevistado, tanto indica uma ação social no passado quanto reforça os aspectos históricos da instituição. De fato, conforme Berger e Luckmann (2004), a historicidade é um dos principais aspectos envolvidos na formação de uma instituição, sobretudo, no sentido de uma história compartilhada. (01) A Caixa sempre teve esse papel desde sua criação, em 1861, lá com Dom Pedro II. Ela tem esse caráter de agir, de estar atuando junto com a população mais humilde [...]. Uma curiosidade da história da Caixa, não sei se vocês já leram mas, enfim, os escravos abriam caderneta de poupança na Caixa, depositavam suas economias e compravam sua Carta de Alforria com essas economias, através do dinheiro poupado. [...] Caixa já tem essa atuação junto com todas as camadas sociais [...], desde sua inauguração praticamente. No trecho (02), surge o tema implícito da inserção social, a partir da exemplificação do papel social da CEF no presente. A inserção social ocorre pela obtenção de “emprego” por “três moradores de sua” através do serviço de “internet gratuita” oferecido pela Caixa Cultural. Adiante, o tema implícito da informação surge por meio da explicitação do termo “GloboNews”, implícito subentendido, canal de notícias da televisão, que torna este acontecimento um fato público. (02) Ele pode muito bem vir na internet gratuita. Por exemplo, nós temos moradores de rua que vem na internet gratuita aqui embaixo no andar no térreo. Inclusive, a GloboNews fez há um tempinho atrás uma reportagem com três moradores de rua que freqüentam a nossa internet gratuita e arrumaram emprego através da internet gratuita mandando currículo No trecho (03), a ação da Caixa Cultural manifesta-se sobre artefatos, do explícito “edifício”, de valor histórico-social. Assim, a “função social” ocorre através da restauração – “fachada restaurada” – e preservação – “preservada o mármore no hall de entrada”, de um “edifício” localizado no Anhangabaú. O efeito produzido é duplo, pois, ele incorpora um tempo passado e um tempo presente, isto é, através da preservação de um espaço e da 6 utilização deste para “habitação para baixa renda”. A hipérbole “monte de gente” busca ressaltar o alcance dos benefícios proporcionados por esta ação da CEF. Esta prática da Caixa Cultural está em conformidade com a idéia de Leão Junior (2001, p.1), segundo o qual, os objetivos das organizações culturais são nitidamente sociais e conservacionista, visto que, “Sociais, pois são instrumentos de educação popular e conservacionistas por visarem à manutenção e restauração de bens de interesse público, bem como de valores culturais”. (03) Aquele edifício, por exemplo, do Anhangabaú que chama Escala Jorge, é um prédio que passou por toda uma reciclagem através de um projeto da Caixa de habitação para baixa renda, mas ele teve toda sua fachada restaurada e preservada os mármores no hall de entrada, [...] e o prédio cumpre uma função social que foi adequada para habitação de baixa renda e mora um monte de gente que morava em situação de risco em alguns lugares 5.2 Espaço, história e o sentido da preservação No trecho (04), o tema explícito da “preservação” se torna institucionalizado, uma vez que a ação ocorre dentro de uma lógica técnica e sistemática, possibilitada pelo trabalho conjunto de entidades atuando segundo as diretrizes legais instituídas. Assim, o termo “prédio”, espaço implícito subentendido, refere-se à Agência Sé, onde está localizado a Caixa Cultural SP. A evocação do personagem histórico “Getúlio Vargas” se constrói no sentido de preservação da memória, o que, no contexto do “prédio” se manifesta pelos explícitos “museu fechado só para visitação pública”, “preservado sua integridade”, “tombado” e “patrimônio histórico municipal”. (04) Esse prédio foi inaugurado em 1939 pelo Getulio Vargas, então assim eu quero dizer que a gente querendo ou não faz parte da historia do país e aqui tem um pedaço bom dessa história, dessa convivência, [...] esse histórico que a gente tem aqui e que é um dado muito forte da Caixa, há um andar inteiro aqui que é do museu fechado só para visitação publica, fechado no sentido de que ele é preservado sua integridade ele é tombado inclusive pelo patrimônio histórico municipal [...], então assim a cultura se une a tudo isso inclusive para a preservação do patrimônio histórico No trecho (05), temos o tema implícito da mudança, a partir dos explícitos “adaptações”, “readequação” e “transformando”. Através do discurso do entrevistado, percebe-se este movimento de transformação do “prédio” onde se localiza a Caixa Cultural. Isto é possível porque o prédio é apenas parcialmente “tombado” como patrimônio histórico, o é apenas “parcialmente”. Assim, tem-se a passagem do espaço enquanto valor de uso – adequado à “necessidade”, para o valor histórico e simbólico, similar, inclusive, aos bens culturais que irá abrigar. Isto confere um status de permanência a certos artefatos da organização – como prédios, móveis, espaços, etc. – que reforçam ainda mais seu valor institucional. Logo, de acordo com Arendt (1997, p.181), “sua durabilidade permanece quase isenta ao efeito corrosivo dos processos naturais, uma vez que não estão sujeitas ao uso por criaturas vivas”. Com isso, segundo a autora, é como se “a estabilidade humana transparecesse na permanência da arte, de sorte que certo pressentimento de imortalidade – não a imortalidade da alma ou da vida, mas de algo feito por mãos mortais” (ARENDT, 1997, p.181). (05) O prédio, como é tombado parcialmente, ele permite algumas adaptações, então ele passou por uma readequação toda para atender a essas necessidades atuais. Por outro lado, as partes mais nobres do prédio que hoje a área cultural ocupa, com o passar do tempo, ela deixa de atender uma necessidade de uma agencia bancaria, por 7 exemplo, as coisas vão se transformando, então nesse aspecto é importante a ocupação que acontece pela área cultural porque alem dela preservar esses espaços e isso você pode verificar não só aqui na Caixa Cultural SP tanto, por exemplo a gente tem na Caixa Cultural em Salvador que está dentro de um prédio de 1950, um prédio dos jesuítas. No trecho (06), o tema implícito da arte emerge a partir do espaço explicitado “galeria” e dos personagens explícitos “produtor” e “curador”. O discurso do entrevistado estabelece uma dualidade entre a concepção e as limitações entre uma “galeria branca” e um “espaço tombado”. No primeiro caso, tem-se o espaço moderno, flexível às mudanças e adaptações e, por isso, preferível pelos personagens acima citados. No segundo caso, o espaço tombado representa rigidez, explicitado por “algumas limitações”. Não obstante a preferência de curadores e produtores ser de um espaço moderno, a Caixa Cultural optou pela “configuração do espaço do prédio histórico”, como forma de valorizar a herança histórica da instituição. Assim, a posicionamento da instituição se dá mesmo que não seja aquele que o mercado tem como preferível. (06) Se você perguntar para um produtor que é um curador, se ele prefere uma galeria, [...] dentro de espaço tombado que tem algumas limitações ou uma galeria branca em outro espaço, ele vai preferir a galeria branca. É uma concepção atual, e isso dentro desses valores é o que prevalece, mas por outro lado, essa configuração do espaço do prédio histórico é também permite uma grande atuação, claro que uma vez ou outra vai haver algum limite em algum aspecto, não é como uma galeria branca, nós temos que ter certos cuidados a mais pra essa exposição No trecho (07), temos o tema implícito da rotina, por meio do qual o entrevistado exemplifica várias situações nas quais se exige um maior cuidado quando se faz a opção por um espaço que é “patrimônio histórico”. Assim, através dos explícitos “pendurar um quadro em qualquer lugar”, “se bate em uma madeira” e “uma iluminação em um lugar que não poderia”, tornam-se cuidados rotineiros, os quais, singularizados pelos espaços, sedimentamse como hábitos. Estas ações habituais, conforme Berger e Luckmann (2004, p.78), passam a fazer parte do acervo geral de conhecimentos, tornando a tipificação recíproca uma das forças do processo de institucionalização. (07) a proteção do patrimônio histórico você não pode, por exemplo, pendurar um quadro em qualquer lugar, você não vai ficar furando os mármores, por exemplo, [...] porque assim no afã de resolver as questões de produção muitas vezes se bate em uma madeira muitas vezes se coloca uma iluminação em um lugar que não poderia [...] então isso de certa forma nos incumbe de uma obrigação maior que é cuidar deste patrimônio 5.3 Da diversidade dos projetos ao público alvo No trecho (08), o termo técnico “edital público” se refere à prática formal institucionalizada de seleção de “projetos” culturais como “artes plásticas”, “fotografia”, “música”, “dança”, “teatro”. Neste trecho, percebe-se uma tecnicidade discursiva na distribuição dos projetos culturais, o que está explicitado em “abastecer as pautas”, “nível nacional”, “especialistas no mercado” e “comissão de fora”. Esta concepção está na base do que tem se consolidado como “indústria cultural”, a partir da qual, consoante Dória (2001), o Estado tem definido novos vínculos com a produção e o consumo de cultura. 8 (08) A gente realiza um edital público no país inteiro para, através desse edital público, a gente receber os projetos de todos os seguimentos que a [...] a gente atua de artes plásticas, fotografia, música, dança, teatro [...] a gente teve entorno de 5000 pré-inscrições. E disso é que saem os projetos para abastecer as pautas dos cinco Estados que temos no país, em todos os segmentos. O edital é a nível nacional (...). A Caixa contrata uma seleção de especialistas no mercado (...) uma comissão de fora, de especialistas que atuam no mercado, críticos de arte, pessoas de museus, enfim. No trecho (09), tem-se o tema implícito da divulgação da arte, isto é, da visibilidade tanto dos artistas quanto dos produtos e serviços oferecidos como arte. Assim, no fragmento “passa a ver o que o artista lá do interior da Bahia”, o entrevistado busca, através da exemplificação, demonstrar como este espaço é conferido aos artistas que estão distantes dos grandes centros urbanos e, por isso mesmo, do grande público apreciador de arte. Os termos “leitura surpreendente”, significa o contato com uma forma de expressão pertencente à um universo que o público pode alcançar por meio da arte. Esta multiplicidade de objetos culturais seja talvez, segundo Dória (2001), a característica mais instigante dos tempos atuais, embora seu contraponto, como visto no trecho anterior, seja a decorrência natural de, ao se ter uma indústria cultural, ter-se também uma massificação dos bens culturais. (09) Quando a gente abre inscrição, os projetos inscritos eles já vem com um destino (geográfico), um desejo deles de serem realizados ou só em São Paulo, ou no Rio ou em todos os espaços. Aí depende muito da proposta que chega pra nós [...] então surpreende muito você passa a ver o que o artista lá do interior da Bahia consegue fazer aquela leitura surpreendente disso, entendeu. Eu considero isso uma das coisas mais importantes que a gente realiza No trecho (10), o paralelismo da construção léxica dos fragmentos “mais diverso público” e “mais diversas camadas sociais” reforça a idéia de que a “atuação da Caixa Cultural” fundamenta-se fortemente no seu conteúdo social em sentido amplo, isto é, direcionada a variadas classes sociais. No termo explícito “endereço”, temos uma exemplificação de sua diversidade, uma vez que seu centro se localiza na “Sé” e na “Paulista”. O termo “Sé” refere-se à Praça da Sé, centro geográfico da Cidade de São Paulo. O termo “Paulista” refere-se à Avenida Paulista, tradicional centro financeiro da cidade. No primeiro, temos um público bastante heterogêneo e mais fragmentado socialmente, enquanto no segundo, percebe-se um público mais elitizado. O fragmento “público que passa na porta” implica tanto uma facilidade de acesso do público à Caixa Cultural, como o inverso, isto é, uma facilidade de contato da Caixa com o público. Os termos “ponto de registro” situa-se pelo forte conteúdo histórico do lugar que, em função dos prédios antigos, da Catedral, dos cafés, etc., carrega consigo as marcas do tempo. (10) A atuação da Caixa Cultural é um pouco voltada para o mais diverso público, das mais diversas camadas sociais, até pela própria atuação da Caixa [...], nós temos esse endereço aqui na Sé e um na Paulista, mas em ambos os endereços, nós temos o mais diverso público que passa na porta, tanto aqui na Sé quanto na Paulista, talvez aqui na Sé mais ainda, porque aqui é um ponto de convergência de todas as classes sociais [...] eu falo que a Praça da Sé é um ponto de registro. No trecho (11) temos o tema explícito “classes sociais”, onde o entrevistado faz uma distinção entre instituições culturais elitizadas, explicitado por “classe mais elevada”, em lugares como “meio dos jardins” e “alto de Pinheiros”, implícito subentendido, regiões nobres da cidade de São Paulo. Por outro lado, como um espaço “para todas as classes sociais”, o lugar explicitado é “Praça da Sé”, sendo colocado como uma preocupação das “instituições 9 públicas de cultura” o atendimento a estes lugares. Contextualizando, Leão Junior (2001, p.1) destaca que tais organizações culturais sofrerem pressões sociais no sentido de cumprirem seu papel e da necessidade de legitimarem este no contexto social, o que ocorre através de ações que aproximem estas organizações da sociedade. (11) É claro que a gente percebe instituições culturais em locais que realmente você pode dar uma conotação, por exemplo, lá no meio dos jardins, ou lá no alto de Pinheiros, que você percebe que aquilo é nítido uma segmentação, uma classe mais elevada, [...] mas eu acho que principalmente nas instituições publicas de cultura, quer dizer, eu acho que cria um pouco mais desse olhar voltado para todas as classes sociais, e no nosso caso específico, eu acho que é fantástico o local que a gente está inserido que é a Praça da Sé e essa convivência com todas essas pessoas que circulam por aqui, que é uma gama muito diversificada. No trecho (12), tem-se o tema implícito do turismo, através dos termos explicitados “visitar” e “turista estrangeiro”. Ao explicitar “noção de referência”, o entrevistado tanto se refere ao aspecto geográfico, destacando lugares como “Pátio do Colégio” e “Catedral da Sé”, quanto a idéia de uma referência social e histórica, percebida ao longo do percurso. Esta diversidade de um público mais amplo e diverso também encontra apoio no tema implícito do idioma, através dos explícitos “além do português” e “outra língua”. Podemos compreender esta busca por um grande público como um mecanismo de legitimação, tanto para o público brasileiro quanto aos visitantes estrangeiros. Isto se dá, de acordo com Lawrence e Phillips (2002), pelo fato de não obstante haver um valor de troca para seus produtos, ou seja, um denominador comum, o valor percebido está no alcance de suas ações, mais do que qualquer outro fator a eles associado. (12) Isto é uma certa busca por uma noção de referência, quase toda cidade do mundo que você vai, você vai no Centro quando você vai visitar e aqui não acontece diferente. O turista estrangeiro vem no Pátio do Colégio, vem na Catedral da Sé que é aqui perto, então passa por aqui, tanto que a gente tenta ter sempre é ter alguns textos além do português, ter uma outra língua, para participar disso daí, porque tem uma procura. 5.4 Criando relações e amenizando a competitividade No trecho (13), temos o tema implícito do relacionamento interinstitucional a partir do explícito “apoio financeiro”, que consiste nos recursos destinados às ações que ocorrem em outras instituições culturais. Assim, seleciona-se as entidades para o programa denominado “Adoção de entidades culturais”. O termo “adoção” vem do direito civil e se materializa na idéia de adotar um filho que precisa de cuidados. No contexto, representa-se a Caixa como um “pai” dessas instituições culturais menores às quais ela fornece fomento. Como bem destaca Botelho (2001, p.74), ao falar da cultura sociológica, ela estimula a produção e circulação de bens simbólicos, que para se efetivarem, dependem de instituições e sistemas organizados socialmente. (13) A Caixa realiza inclusive um edital que chama Adoção de entidades culturais e nesse edital a Caixa distribui um apoio financeiro para dar para os projetos de outros museus que não da Caixa, entendeu? E no ultimo edital a gente apoiou 32 projetos nos país inteiro, vindos do Amapá até o Rio Grande do Sul, e isso por si só já cria relações com todas essas instituições 10 A seguir, no trecho (14), retomando a passagem anterior, o entrevistado destaca uma instituição cultural que recebe apoio e fomento da Caixa Cultural, qual seja, o “Museu do Ipiranga”. Neste sentido, o apoio financeiro concedido pela Caixa converte-se numa relação interinstitucional – “dentro dessas relações” – de forma que ocorram trocas simbólicas que vão além de aspectos técnicos e econômicos, como fica explicitado no fragmento “trazer uma exposição do museu pra cá”. (14) O Museu do Ipiranga, por exemplo, se você entra no térreo, todas as salas [...] foram todas refeitas com replanejamento, com audiovisual, com tudo com o dinheiro que a Caixa deu pra eles através desse edital da adoção de entidades culturais [...], e isso nos permite, por exemplo, dentro dessas relações, muitas vezes trazer uma exposição do museu pra cá. No trecho (15) temos o tema explícito da “competitividade”. De acordo com o entrevistado, a competitividade é “amenizada ou quebrada” em virtude das “políticas” destas instituições serem “exclusivas”, “diferenciadas” e pelas “questões específicas de casa lugar”. Cada instituição estaria atuando segundo um dado segmento, que pode ser um recorte social de público, um dado período artístico, etc. Assim, o entrevistado cita dois exemplos, entre os quais focaliza a atuação da caixa Cultural. Enquanto o “Banco do Brasil”, implícito subentendido Centro Cultural Banco do Brasil atua “mais” com “artistas consagrados”, o “Itaú Cultural” trabalha mais com a “questão da tecnologia”. A Caixa Cultural, explicitada através do pronome “nós”, situa-se, pois, entre estes pólos, tendo “predominância” de “novos artistas”. (15) Eu acho assim, que as políticas são muito exclusivas, são muito diferenciadas. Por exemplo, enquanto o Banco do Brasil atua, [...] mais com artistas consagrados, por exemplo, nós atuamos assim com uma gama muito grande tanto com artistas consagrados quanto novos artistas e uma predominância até de novos artistas, então são questões distintas até, [...] se poderia haver uma competitividade eu acho que ela é amenizada ou quebrada por causa dessas questões especificas de cada lugar, você vê, por exemplo, você pega o Itaú Cultural ele atua mais com essa questão da tecnologia. 5.5 O imbricamento do setor cultural nas atividades bancárias No trecho (17), no explícito “no caso da Caixa Cultural”, temos o silenciamento do entrevistado sobre outras instituições que apresentem um comportamento diferente da Caixa Cultural. A Caixa, neste sentido, não utiliza “Lei Rouanet”, implícito subentendido a Lei Federal de Incentivo à Cultura, como forma de fomento para suas ações culturais. Nos fragmentos “verba da própria Caixa” e “dinheiro de marketing da Caixa mesmo” busca dar uma grande ênfase no fato de que a Caixa investe em cultura com seus próprios recursos e não aqueles destinados ao pagamento de impostos. Neste sentido, o discurso do entrevistado busca demonstrar que o investimento da Caixa à cultura é fruto mais do censo de civilismo da empresa do que dos incentivos fiscais promovidos pelo Estado. Este fato deve ser analisado com cautela, uma vez que a Caixa Econômica Federal é uma empresa pública, pertencendo, pois, à esfera dos interesses estatais. Deve-se destacar, ainda, a importância da proximidade dada entre a Caixa Cultural e a Caixa Econômica Federal, sendo aquela apenas um departamento desta, explicitado no fragmento “a gente está dentro do banco”. 11 (16) No caso da Caixa Cultural, a gente trabalha com verba da própria Caixa, aqui a gente não usa Lei Rouanet em nada, é dinheiro de marketing da Caixa mesmo, então é totalmente ligada uma coisa com a outra, a gente está dentro do banco e dentro do banco Caixa, e o dinheiro do banco Caixa é que como a gente chama verba de marketing é que vem uma parte destinada a área cultural. No trecho (17), temos o tema implícito do profissão, através dos explícitos “funcionários”, “concurso”, “trabalhar” e “profissionalizar”. Conforme o entrevistado, não existe um “concurso específico” para a seleção de funcionários para a Caixa Cultural. Fundamentando o trecho anterior, tudo ocorre internamente através de “filtros”, de forma que os funcionários que possuam apreciação pela arte, explicitado no termo “paixão”, são remanejados dentro da própria instituição. A idéia é que a Caixa seja composta, primeiro, por pessoas que tenham “paixão” pela área, para que, a partir daí, recebam apoio para se “profissionalizar”. Esta proximidade reforça a idéia de que o reconhecimento e os valores atribuídos à Caixa Cultural sejam compartilhados por toda a instituição bancária. (17) Não existe nada específico dentro da Caixa banco, um concurso específico pra trazer os funcionários para cá, não, é uma série de filtros, as pessoas que tem essa paixão, [...] dentro das possibilidades, acabam vindo trabalhar na área cultural. [...] Claro que, assim, depois que a gente está na área, a gente muitas vezes tem o apoio da Caixa pra se profissionalizar mais. No trecho (18), ao responder sobre como era deixar de trabalhar nas agências bancárias para trabalhar na Caixa Cultural, temos o tema implícito da mudança, através do explícito “mudar”. O Entrevistado diz que “não considera sair”, que é “trabalhar em outra área da empresa como as várias que existem”. (18) Na verdade, a gente não considera sair, entendeu? A gente considera mudar é simplesmente trabalhar em outra área da empresa como as várias áreas que existem [...] a gente não considera que a gente saiu do banco por isso entendeu, a gente está no banco só que estamos na área de cultura marketing cultural. Por fim, no trecho (19), este imbricamento do setor cultural é explicitado na relação “Caixa Cultural” e as atividades bancárias, como explícito, “financiamento de casa” e “resgatamento de PIS”. O entrevistado sintetiza essa imersão cultural no fragmento “meio que tudo junto aqui”, porque “cria as convivências”. (19) O cliente da agência Sé que vai fazer financiamento de casa, resgatamento de PIS ou qualquer outra coisa, ele pode muito bem passar na Caixa Cultural que é meio que tudo junto aqui, e é ótimo que seja assim, porque cria as convivências, você vem ver uma coisa e já vê a outra 6. Considerações finais Neste estudo, foi possível explicitar vários aspectos presentes em uma organização que a qualifica como uma instituição, com base nos processos de institucionalização observados a partir do construtivismo social. Neste sentido, foram analisados como planos temáticos, a questão da historicidade, da imersão social, dos recursos de legitimação, do relacionamento interinstitucional, no âmbito de nosso objeto de pesquisa, isto é, a Caixa Cultural SP. Não obstante ser este um dos objetivos que guiou o trabalho – uma vez detectada uma lacuna de 12 estudos que descrevam melhor como o Setor Cultural se apresenta institucionalmente – foi possível perceber várias nuanças existentes que, peculiares ao nosso objeto de estudo, geram questionamentos que, melhor compreendidos, habilitar-nos-á ampliar nossa compreensão das Instituições do Setor Cultural como um todo. O construtivismo social observado na Caixa Cultural SP, pela natureza e riqueza de suas ações, vai além dos planos temáticos observados acima. Assim, observa-se que esta construção social ocorre também através do próprio produto cultural oferecido pela Caixa, uma vez que este emerge não da ação unilateral desta instituição, mas das ações e propostas dos atores sociais envolvidos com o meio cultural e artístico, na amplitude do território nacional. Logo, é uma oferta coletiva multilateral de produtos culturais advindos da sociedade, e que tem na Caixa Cultural o agente financiador e seletivo daquilo que vai ser distribuído e se tornar assim, um bem cultural à disposição do público nos espaços da Caixa Cultural. Ocorre ainda que, esta construção social do Setor Cultural apresenta outro aspecto que fundamenta ainda mais esta exposição. Isto porque, a seleção deste produto cultural é feita através da Caixa, mas não pela Caixa. Ou seja, a seleção é feita a partir de especialistas atuantes no mercado e contratados especificamente para esta finalidade, o que pluraliza e coletiviza o processo de seleção dos projetos, evitando que haja uma um viés ideológico a partir da instituição por esta ou aquela concepção de arte. Vale lembrar, neste sentido, que o fator delimitador que parte da instituição advém das limitações físicas de seus espaços e dos recursos disponíveis para cada projeto. Sendo este um estudo de caso focado em apenas instituição, não se pode fazer ainda considerações para o Setor Cultural Brasileiro em sua totalidade, embora o prosseguimento desta pesquisa que ainda se desenvolve tem demonstrado que as demais organizações culturais adotam práticas gestoras de cultura similares àquelas que aqui observamos. É preciso, ainda, esclarecer um importante dado sobre a Caixa Cultural SP. Todas as Caixas Culturais têm como instituição mantenedora a Caixa Econômica Federal, que é um banco público, na qualidade de empresa pública, e por isso mesmo, seu capital advém dos recursos do Estado brasileiro. Neste sentido, pelas atribuições adjuntas à lei de criação da CEF, encontra-se como uma de suas funções, a responsabilidade social, podendo-se a partir daí avaliar melhor as ações desenvolvidas pela CEF que, não ponderada apenas por fatores econômicos, deve ser compreendida no quadro geral de políticas sociais do Estado. Vale dizer que isto não desqualifica suas iniciativas, porém, contextualiza-as quando comparadas às demais instituições presentes no Setor Cultural. 7. Referências ARENDT, H. A condição humana. 8.ed. Rio de Janeiro: Forense universitária, 1997. BALABAN, M. D. Os indicadores quantitativos da cultura. In: WEFFORT, F.; SOUZA, M. (Orgs.). Um olhar sobre a cultura brasileira. Rio de Janeiro: Associação de Amigos da FUNARTE, 1998. BERGER, P. L.; LUCKMANN, T. A construção social da realidade. 24ª Ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 2004. 13 BOTELHO, I. As dimensões da cultura e o lugar das políticas públicas. Revista São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 15, n. 2, 2001. BUENO, E. Caixa: Uma História Brasileira. Porto Alegre: Buenas Idéias Metalivros, 2002. CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. Disponível em: http://www.caixa.gov.br/acaixa/historia_missao.asp. Acesso em 16mar. 2008 CARVALHO, C. A.; LOPES, F. D. Convergência Estrutural e Processual entre Teatros e Museus no Rio Grande do Sul. In: 25 Encontro Nacional de Programas de Pós-Graduaçào em Administração, 2001, Campinas. Anais do XXV ENANPAD. Rio de Janeiro : ANPAD, 2001. v. 1. p. 1-15. CERTEAU, M. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1994. DIMAGGIO, P. Cultural entrepreneurship in nineteenth-century Boston: the creation of an organizational base for high culture in America. In: MUKERJI, S.; SCHUDSON, M. (Org.), Rethinking popular culture: Contemporary Perspectives in Cultural studies. Berkeley: University of California Press, 1991. DÓRIA, C. A. A merencória luz do Estado. São Paulo em perspectiva, vol.15 no.2, São Paulo Abr/Jun 2001. DURAND, J. C. Cultura como objeto de política pública. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 15, n. 2, p. 66-72, 2001. FARIA, A. A. M. Interdiscurso e intradiscurso: da teoria à metodologia. In: MENDES, E. A. de M.; OLIVEIRA, P. M.; BENN-IBLER, V. (Orgs.). O novo milênio: interfaces lingüísticas e literárias. Belo Horizonte: Fale/UFMG, 2001. FIORIN, J. L. As Astúcias da Enunciação: As categorias de pessoa, espaço e tempo. São Paulo, Ática, 2002. __________. Linguagem e Ideologia. São Paulo: Ática, 2004. GREIMAS, A.; COURTÉS, J. Dicionário de semiótica. São Paulo: Cultrix, 1979. LAMPEL, J.; LANT, T.; SHAMSIE, J. Balancing Act: Learning from Organizing Practices in Cultural Industries. Organization Science, Hanover, v.11, n.3, p.263-269, May/June 2000. LAWRENCE, T. B.; PHILLIPS, N. Understanding Cultural Industries. Journal of Management, London, v.11, n.4, p.430-441, Dec. 2002. LEÃO JÚNIOR, F. P. S. Formação e estruturação de campos organizacionais: um modelo para análise do campo cultural. In: ENANPAD 2001, 2001, Campinas-SP. Anais do XXV ENANPAD, 2001. LORÊTO, M. S. S.; PACHECO, F. L. A inserção da lógica de mercado no campo cultural: a relação entre as instituições bancárias e a cultura em Recife. Cadernos EBAPE. BR (FGV), 2007. 14 MACHADO-DA-SILVA, C. L.; FONSECA, V. S.; CRUBELLATTE, J. M. Estrutura, agência e interpretação: elementos para uma abordagem recursiva do processo de institucionalização. Revista de Administração Contemporânea, v. 9, n. 1ª ed. esp, p. 09-39, 2005. MACIEL, C. de O. Práxis Estratégica e Imersão Social em Uma Rede de Organizações Religiosas. Dissertação (Mestrado em Administração) - Universidade Federal do Paraná. 2007. MAINGUENEAU, D. Termos-chave da análise do discurso. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000. VIEIRA, M. M. F.; VIEIRA, T. B. B.; FRAGA, P. R.; LOPES, Fernando Dias. O Setor Cultural de Porto Alegre: formação e característica a partir da teoria institucional. READ Revista Eletrônica da Administração (UFRGS), Porto Alegre, 2001. YIN, R.K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 3º ed. Porto Alegre, Bookman, 2005. 15