Artigo de Pequisa Original Research Artículo de Investigación Perfil epidemiológico de população idosa PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE UMA POPULAÇÃO IDOSA ATENDIDA PELO PROGRAMA SAÚDE DA FAMÍLIA EPIDEMIOLOGICAL PROFILE OF ELDERLY PEOPLE SERVED BY THE FAMILY HEALTH PROGRAM PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE UNA POBLACIÓN ANCIANA ATENDIDA POR EL PROGRAMA SALUD DE LA FAMILIA Expedita Sinhara Sampaio GarciaI Maria Vieira de Lima SaintrainII RESUMO: A pesquisa aborda a atuação do agente comunitário de saúde, tendo como objetivo identificar o perfil epidemiológico da população idosa atendida no Programa Saúde da Família de Ibicuitinga-Ceará, em 2005. A partir de estudo quantitativo, 192 idosos, com idade entre 60 e 89 anos, foram entrevistados e examinados por 17 agentes comunitários de saúde após treinamento por um cirurgião dentista. Utilizou-se um questionário contendo perguntas abertas e fechadas, sendo os dados computados por meio do software SPSS versão 10. Os resultados indicam que a saúde autorreferida pelos idosos apresenta-se satisfatória, a despeito da elevada incidência de hipertensão arterial e acentuado índice de edentulismo. Concluiu-se pela existência de controle da hipertensão arterial, contudo, de um estado de saúde bucal preocupante. Os dados coletados pelos agentes comunitários de saúde retrataram a realidade vivenciada em outros estudos, considerando sua atuação valiosa para o planejamento em saúde e melhoria do perfil epidemiológico da população. Palavras-Chave: Epidemiologia; idoso; agente comunitário de saúde; Programa Saúde da Família. ABSTRACT ABSTRACT:: The study considers the activities of community health agents, and aims to identify the epidemiological profile of the elderly people in the Family Health Program in Ibicuitinga, Ceará State, in 2005. In this quantitative study, 192 elderly people aged from 60 to 89 were interviewed and examined by 17 community health agents previously trained by a dental surgeon. A questionnaire of open and closed questions was applied and the responses computed using SPSS software (version 10). The results indicate the systemic health self-reported by the elderly is satisfactory, despite high rates of arterial hypertension and tooth loss. In was concluded that control of arterial hypertension is present, but that the state of oral health was cause for concern. The data collected by the community health agents reveal the same realities encountered by other studies and also the value of such agents’ activities to health planning and to improving epidemiological profiles. Keywords: epidemiology; elderly; community health agent; family health program. RESUMEN: La investigación aborda la actuación del agente comunitario de salud, con el objetivo de identificar el perfil epidemiológico de la población anciana asistida en el Programa Salud de la Família de Ibicuitinga – Ceará - Brasil, en 2005. Desde un estudio cuantitativo, 192 ancianos, con edad entre 60 y 89 años, fueron encuestados por 17 agentes comunitarios de salud tras entrenamiento por un cirujano dentista. Se utilizó un cuestionario conteniendo preguntas abiertas y cerradas, siendo los datos computados por medio del software SPSS versión 1.0. Los resultados indican que la salud de dichos ancianos se presenta satisfactoria, a pesar de la elevada incidencia de hipertensión arterial y acentuado índice de falta de dientes. Los datos recolectados por los agentes comunitarios de salud retrataron la realidad de otros estudios, considerando su actuación valiosa para la planificación en salud y mejoría del pefil epidemiológico de la población. Palabras Clave Clave: Epidemiologia; anciano; agente comunitario de salud; Programa Salud de la Familia. INTRODUÇÃO Cada vez mais cresce o índice de idosos no mundo. Para a Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento 1 , espera- se que ocorra uma transformação demográfica mundial nos próximos 50 anos, haja vista que o número de idosos no ano 2000 foi de 600 milhões e chegará a quase 1 bilhão e 200 mil em 2050. A promoção de saúde fundamenta-se na Carta de Ottawa, associa-se a um conjunto de valores - vida, saúde, solidariedade, equidade, democracia, cidadania, desenvolvimento - trabalhando com a idéia de responsabilização múltipla e combinação de estratégias. É definida como I Cirurgiã-dentista. Coordenadora da equipe de saúde bucal da Secretaria de Saúde do Município de Ibicuitinga-CE, Brasil. Doutora em Odontologia em Saúde Coletiva. Professora do Centro de Ciências da Saúde. Mestrado em Saúde Coletiva e Curso de Odontologia da Universidade de Fortaleza – UNIFOR. Fortaleza-CE-Brasil. E-mail: [email protected]. II p.18 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2009 jan/mar; 17(1):18-23. Recebido em: 12.10.2008 - Aprovado em: 18.12.2008 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación o processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria da sua qualidade de vida e saúde, incluindo uma maior participação no controle deste processo2:19. As informações sobre a saúde da população idosa e suas demandas por serviços médicos e sociais são fundamentais para o planejamento da atenção e promoção da saúde3. Contou-se com a colaboração do agente comunitário de saúde (ACS) no levantamento de dados referentes às condições de saúde dos idosos alvos. O objetivo da pesquisa foi identificar o perfil epidemiológico da população idosa atendida no Programa Saúde da família (PSF) do município de Ibicuitinga-CE. Os resultados deverão oferecer base para um planejamento que venha a configurar a realidade vivenciada, facilitando a atuação e eficácia da equipe do PSF. REFERENCIAL TEÓRICO O envelhecimento inicia-se após a fecundação, pois inúmeras células envelhecem, morrem e são substituídas antes mesmo do nascimento. A Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa4 classifica como idoso o indivíduo de 60 anos e mais, contudo, ao considerar que o envelhecimento é um processo natural que ocorre ao longo de toda a experiência de vida do ser humano, por meio de escolhas e de circunstâncias, enfatiza que necessariamente não se fica velho aos 60 anos. Para compreender o significado de ser idoso nos dias atuais, é necessário diferenciar a idade biológica da cronológica e da idade social. Autores5 relatam o envelhecimento de pessoas que permanecem ativas e alertas na 3ª idade, enquanto outras experimentam doenças incapacitantes em idades menos avançadas, diferenciando assim o envelhecimento fisiológico do patológico. O indivíduo pode envelhecer de forma natural, convivendo bem com as limitações impostas pela idade, mantendo-se ativo até fases tardias da vida, consideradas cientificamente como senescência; porém, outro período, denominado senilidade, ocorre com o envelhecimento anormal ou patológico, no qual o efeito negativo das doenças provoca incapacidade progressiva para uma vida saudável e ativa. Entender a relação entre envelhecimento saudável e doença exige inúmeros estudos, porquanto velhice e doença não se apresentam como sinônimos. Busca-se a compreensão do envelhecimento como processo benigno e não patológico6. Existe, entretanto, maior vulnerabilidade dos idosos para adoecer e, em vista disto, merece destaque a distinção entre ser ou estar velho saudável e velho doente7. As alterações que ocorrem no envelhecimento são acompanhadas por limitações no desempenho funcional que comprometem a participação social da Recebido em: 12.10.2008 - Aprovado em: 18.12.2008 Garcia ESS, Saintrain MVL pessoa idosa, conseqüentemente prejudicando sua qualidade de vida8:885. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bemestar, garantindo-lhes o direito à vida, enquanto o Estado deve assegurar-lhes a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de políticas sociais públicas que permitam o envelhecimento saudável em condições de dignidade9. O Ministério da Saúde criou, em 1994, o PSF, consolidado como estratégia prioritária na reorganização da atenção básica. Substituindo o modelo tradicional, objetiva conhecer a realidade das famílias, identificar os problemas de saúde e riscos de exposição das populações10. Estudos epidemiológicos são essenciais para identificar problemas prioritários, de modo a orientar decisões relativas à definição de prioridades para intervenção11, proporcionando maior resolubilidade ao serviço. Com participação ativa no PSF, os agentes comunitários de saúde (ACS) constituem componentes de importância na melhoria da condição de saúde das comunidades. Atuam junto aos domicílios como facilitadores da equipe de saúde, identificando as necessidades e doenças autorreferidas. Faz-se necessário utilizar seu potencial no reconhecimento dos indivíduos com necessidades odontológicas, facilitando a equipe de saúde bucal desenvolver ações de forma programada. METODOLOGIA O universo da pesquisa compreendeu a população idosa de 60 anos e mais, de ambos os sexos, residentes em Ibicuitinga. O município possui quatro distritos, quatro equipes de saúde da família e 17 agentes comunitários de saúde. Localizado no Nordeste do Brasil, dista 198 Km de Fortaleza, capital do Estado do Ceará, possui 10.926 habitantes, dos quais 1.099 (10%) têm 60 anos e mais. O tamanho da amostra de 196 idosos foi estimado com base na proporção de 85% da população com problema de saúde, nível de significância de 95% e precisão relativa de 5%. Por estratificação, foi calculado o número de idosos proporcional a cada distrito e, noutro momento, por sorteio, a amostra dos 196 idosos. Este é um estudo transversal, quantitativo, do tipo exploratório-descritivo. Os estudos transversais descritivos avaliam a situação da população em um determinado momento, são de fácil realização e em saúde pública tornam-se linha de base para planejamento em saúde12. O instrumento de pesquisa consistiu em um questionário cotendo perguntas fechadas (dicotômicas e Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2009 jan/mar; 17(1):18-23. • p.19 Artigo de Pequisa Original Research Artículo de Investigación Perfil epidemiológico de população idosa de múltipla escolha) e abertas, para obter a prevalência das doenças autorreferidas, características socioeconômicas e condição de saúde bucal dos pesquisados. Nesta pesquisa, foram utilizados indicadores de um instrumento aplicativo denominado Indicador Comunitário em Saúde Bucal13, composto por um questionário estratégico facilitador para que o ACS do PSF possa levantar a situação epidemiológica em saúde bucal da população. Os dados foram coletados por 17 ACS, que participaram da oficina de treinamento, na qual o questionário foi discutido e aplicado na prática sob orientação do cirurgião dentista. Na primeira fase da oficina, os ACS, por meio de cartazes e fotos ilustrativas, identificaram critérios para reconhecer dentes hígidos, cariados, doença periodontal, uso e necessidade de prótese. Os ACS treinaram examinando-se a si próprios. Na segunda fase, o treinamento foi realizado com 10 idosos voluntários com os quais foi aplicado o questionário, compreendendo a entrevista e o exame bucal. Nesse momento, cada ACS examinou pelo menos quatro idosos. O treinamento possibilitou aos ACS a sistematização das variáveis, conferindo maior confiabilidade e precisão aos dados coletados. Teve também como objetivo integrá-los na equipe de saúde bucal e conscientizá-los sobre a importância dos dados no planejamento de atividades e a efetiva atuação de ações de saúde junto à população. No decorrer da pesquisa, cada ACS, treinado e sob consentimento livre e esclarecido, aplicou o questionário em média de 11 idosos. Com auxílio de uma espátula de madeira, para afastar lábios e bochechas, realizou o exame bucal da seguinte forma: contagem do número de dentes; número de dentes com cárie (cavidades visíveis sem o auxilio do espelho bucal); condição periodontal - situação da gengiva (inflamação, piorréia, dentes moles); uso de prótese total (superior, inferior ou ambas) e prótese parcial (superior, inferior ou ambas). Foram adotados como critérios de inclusão: a idade dos entrevistados (60 anos e mais), assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes da coleta de dados, capacidade de responderem às perguntas e residência fixa no município. Foi estabelecido o período de janeiro a maio de 2005 para a execução do trabalho de campo e demais etapas da pesquisa. Por intermédio do software Statistical Package for Social Science (SPSS), versão 10, os dados foram organizados e foi realizada a análise do tipo descritiva para a distribuição das variáveis. Uma autorização foi assinada pelo Secretário de Saúde do município, fiel depositário, responsável pelas ações e intervenções de saúde realizadas no locus investigado. Os idosos foram informados sobre os objetivos da pesquisa e os procedimentos a serem realizados, tendo sido assegurado a eles o sigilo e a liberdap.20 • Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2009 jan/mar; 17(1):18-23. de de retirar seu consentimento em qualquer fase da pesquisa. Ressalta-se o cumprimento dos preceitos éticos da autonomia, não maleficência, beneficência e justiça da pesquisa em seres humanos, conforme Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde14. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COÉTICA), da Universidade de Fortaleza (UNIFOR), sob Parecer n°. 04-509. RESULTADOS E DISCUSSÃO Da amostra, quatro sujeitos foram excluídos pelo fato de o questionário não ter sido completamente preenchido, contemplando, assim, um total de 192 idosos. A população do estudo teve idade média de 69 anos com desvio-padrão de ±6,8. A maioria é do sexo feminino (53,6%) e casada (67,7%), destacam-se os viúvos (22,9%). O analfabetismo (67,2%) caracterizou a maioria dos entrevistados, tendo sido identificados como alfabetizados (30,2%) aqueles que sabem apenas escrever o próprio nome. A ocupação foi maior representada por aposentados. Ver Tabela 1. TABELA 1: Distribuição e percentual do número de idosos entrevistados por sexo, estado civil, nível de escolaridade e ocupação. Município de Ibicuitinga - Ceará, 2005. Va r i á v e i s Sexo Feminino Masculino Estado civil Casado Solteiro Viúvo Separado/Outros Escolaridade Analfabeto Alfabetizado 1º grau incompleto Ocupação Aposentado Aposentado/agricultor Agricultor Doméstica To t a l f % 103 89 53,6 46,4 130 07 44 11 67,7 3,7 22,9 5,7 129 58 5 67,2 30,2 2,6 164 14 6 8 192 85,4 7,3 3,1 4,2 100,0 Observou-se a participação dos idosos em grupos de atuação, por meio de cooperativas (2,6%), grupo religioso (12,5%), associações de moradores (5,7%), grupo de idosos (25%) e outras participações (6,3%). Quanto à medicação, 29% dos entrevistados tomam Captopril todos os dias, 16% hidrocortiazida e 25% usam medicação composta de três a mais fármacos. Considerando a coleta de dados aleatória, os percentuais encontrados não se distanciam do perfil Recebido em: 12.10.2008 - Aprovado em: 18.12.2008 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación Garcia ESS, Saintrain MVL da população brasileira em que as mulheres representam 50,8% da população total e 51,2 % da população do Estado do Ceará15. Camarano16 considera que, quanto mais velho for o contingente analisado, maior será a proporção de mulheres, dada as hipóteses de que são menos expostas a riscos, acidentes de trânsito, domésticos e de trabalho, homicídios e suicídios, consomem menos tabaco e álcool e fazem uso mais freqüente dos serviços de saúde17. Observou-se um nível de escolaridade muito baixo, conforme dispõe a Tabela 1. Mostra-se oposto aos obtidos pela PNAD de 200618, na qual foram detectadas apenas 33,5% de analfabetos contra 67,2% em Ibicuitinga. A falta de escolaridade pode interferir no dia-a-dia do idoso, ocasionando dificuldades ao manusear os medicamentos, seguir dietas ou prescrições. Provavelmente reconhecerão seus medicamentos somente pela embalagem, cor ou formato dos comprimidos. Nessa forma insuficiente, pode ocorrer troca de medicação, que trará prejuízos ao idoso e maiores riscos à sua saúde, sendo necessária uma orientação redobrada dos profissionais para com seus acompanhantes ou cuidadores, a fim de ensiná-los a prevenir possíveis enganos. Para Romero19, a verdadeira expressão da pobreza do idoso no Brasil está relacionada a duas situações: baixo salário e escolaridade. Contrapondo a baixa escolaridade, prevaleceu situação confortável relativa à condição socioeconômica, observando que a maioria dos entrevistados tem renda fixa, seja da aposentadoria ou aposentadoria mais o trabalho na agricultura, de acordo com a Tabela 1. Apesar desta condição relativa à renda salarial, não significa que seja o suficiente para sustento satisfatório. No Brasil, 65,3% dos idosos utilizam seus benefícios para manter a chefia do domicílio20. A universalização da aposentadoria, após os 65 anos para idosos carentes, aumentou o poder aquisitivo, mas, por outro lado, ocasionou a dependência dos mais jovens da família em relação ao aposentado. A grande participação dos idosos em grupos comunitários e de apoio tem como resultado a importância que o município desempenha neste sentido. Cada equipe do PSF promove reuniões mensais com grupo de idosos quando temas são abordados pelos profissionais de saúde. No sentido de promover maior integração, realizam-se atividades de educação em saúde, dinâmicas de grupo e um momento de lanche, fornecido pela Secretaria de Ação Social, oferecendo ocasiões de descontração e lazer para aqueles que muitas vezes se encontram sozinhos e sem esperança. Esta situação benéfica em Ibicuitinga evidencia a posição de Silvestre e Costa Neto6, na qual a estratégia de saúde da família deve representar para o idoso o vínculo com o sistema de saúde. Tão importante quanto o sistema técnico, ou mais ainda, é o sistema social que por sua natureza se refere ao grupo responsável por fazer acontecer, otimizando os recursos da instituição para desenvolver todos os processos necessários ao atendimento da clientela21. A dimensão organizativa do processo produtivo das equipes de saúde da família se caracteriza pela realização de atividades e pela intensa divisão de trabalho, tendo no planejamento conjunto a busca de soluções22. Quanto ao acesso às unidades de saúde, a maioria dos entrevistados (95,3%) respondeu que, quando não se sentia bem, procurava o posto de saúde. Tudo leva a crer que esta população está sendo informada como usuária a buscar seus direitos. Diferente do constatado em pesquisa sobre as condições de acesso dos usuários às unidades de saúde, de que “o acesso aos serviços é focalizado e seletivo para responder a uma determinada queixa, sendo tecnologicamente atrasado e discriminatório”23: 822. Para os autores, o serviço é dirigido ao usuário de baixa renda e à população excluída socialmente, ferindo, assim, os princípios da universalidade e da integralidade pelo não cumprimento dos preceitos constitucionais de que a saúde é um direito de todos e dever do Estado24. Relativamente à condição de saúde autorreferida, na Tabela 2, observa-se a hipertensão arterial com 43,2%. Tal resultado se aproxima dos dados nacionais de 45,4%18. Segundo Costa3, em estudos sobre a população idosa brasileira, as doenças do aparelho circulatório ocuparam o primeiro lugar entre as causas de mor- TABELA 2: Distribuição dos problemas de saúde e doenças autorreferidas pelos idosos entrevistados. Município de Ibicuitinga - Ceará, 2005. (N=192) Problemas de saúde/doenças Alcoolismo Deficiência motora Diabete Hipertensão arterial Problemas respiratórios Deficiência visual Deficiência auditiva Outros (dor lombar, enxaqueca, reumatismo, etc) Sem doenças autorreferidas Recebido em: 12.10.2008 - Aprovado em: 18.12.2008 f 5 4 16 83 11 6 4 10 74 % 2,6 2,0 8,3 43,2 5,7 3,1 2,0 5,2 38,6 Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2009 jan/mar; 17(1):18-23. • p.21 Artigo de Pequisa Original Research Artículo de Investigación Perfil epidemiológico de população idosa talidade dos idosos, sendo as mais freqüentes as moléstias cerebrovasculares e isquêmicas do coração, todas relacionadas à hipertensão arterial. A prevalência do diabetes de 8,3%, nessa população, sugere situação confortável relativa aos dados de 11,0% da estimativa atual para a população igual ou superior a 40 anos25, igualmente os 5,7% das doenças respiratórias para 8,6 % da PNAD 1998 citado por Romero19:782. Nesta pesquisa, apenas uma minoria relatou múltiplas doenças e 74 (38,6%) não mencionaram nenhum tipo, número elevado quando relacionado a 19,5% da mesma PNAD19 e também contrário aos achados de Santos, Lebrão Duarte e Dias de Lima8 onde a presença de duas ou mais doenças foram as variáveis mais importantes. A morbidade percebida e relatada pelo indivíduo durante uma entrevista depende da percepção que ele tenha sobre as alterações de saúde, que varia nos diversos segmentos sociais, por ser profundamente influenciada pelos aspectos socioculturais26. Para o autor, é um meio bastante utilizado pela facilidade de obter informações na identificação de casos que permitam verificar o estado de saúde das pessoas e assim ter meios para realizar planejamentos e ações em saúde. A saúde bucal dos idosos, expressa nos resultados da Tabela 3, apresenta-se semelhante aos recentes estudos realizados no Brasil. A porcentagem de edentulismo (68,8%) não difere das pesquisas26,27, onde detectou-se 69,2% e 58,1%, respectivamente. O levantamento epidemiológico Saúde Bucal no Brasil28 (SBBrasil) para a faixa etária de 65 a 79 anos, mostrou que 92,9% dos componentes do índice CPO-D (dentes cariados, perdidos e obturados) são dentes perdidos ou extraídos. Dos pesquisados, 45,8% têm necessidade de prótese total superior e/ou inferior, próximo ao do SBBrasil, de 39,9%. Das pessoas desdentadas [132 (68,8%)], apenas 54,2% faziam uso de prótese, daí 37% delas relatarem dificuldade para mastigar. Condição esta corroborada por autores29 ao detectarem, em idosos, problemas funcionais e psicológicos ocasionados pelo edentulismo, cárie dental e doença periodontal, destacando no discurso do sujeito coletivo que a mastigação não é realizada com naturalidade e conforto, sendo necessário selecionar tipo de alimento ou a forma de consumi-lo. O sangramento gengival de 4,2%, nesta pesquisa, se assemelha a do Projeto SB Brasil, com 3,3%. No que concerne às doenças periodontais, entre 60 pessoas que ainda possuíam dentes, 23 (38,3%) delas relataram sentir seus dentes abalados e apenas 35 (58,3%) confirmaram escovar seus dentes. Essa precária condição vem associar a presença de sangramento gengival e mau hálito. A queimação bucal, que aflige 13% dos idosos, é dado confirmado por pesquisas30, 31, as quais referenciam que as glândulas salivares nos idosos sofrem uma perda em sua capacidade funcional de aproximadamente 20-30%, diminuindo a lubrificação da cavidade bucal, deixando-a susceptível a alterações patológicas. Os achados nesta pesquisa evidenciam a contribuição do ACS na equipe de saúde e podem ser corroborados por Tendler citado por Viana e Dal Poz32:252 para quem “a figura do agente de saúde extrapola a questão saúde e passa a ser a porta de entrada das políticas sociais para as populações mais carentes”. CONCLUSÃO Os resultados assinalam que o perfil socioepidemiológico dos idosos do Município de Ibicuitinga está caracterizado pela baixa escolaridade e condição socioeconômica de renda intermediária, oriunda da aposentadoria e/ou agricultura; a condição de saúde aponta a hipertensão arterial sistêmica e a precária condição de saúde bucal como os principais problemas epidemiológicos; a participação dos idosos em grupos de apoio, prevalecendo a procura pela unidade básica de saúde e grupos de idosos, evidencia a efetiva atuação da equipe de saúde do PSF; e os dados coletados pelos ACS retrataram a realidade vivenciada em outros estudos, podendo-se considerar sua atuação de TABELA 3: Distribuição das condições de saúde bucal dos idosos participantes da pesquisa. Município de Ibicuitinga - Ceará, 2005. Va r i á v e i s Dentes presentes Escova os dentes Dentes abalados Gengiva sangra Tem mau hálito Dificuldade para mastigar Sente queimação na boca Usa prótese Tira a prótese para dormir Higieniza a prótese p.22 • Sim f 60 35 23 8 40 71 25 104 64 96 Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2009 jan/mar; 17(1):18-23. % 31,2 58,3 38,3 4,2 20,8 37,0 13,0 54,2 61,6 92,3 Não f % 132 68,8 25 41,7 37 61,7 184 95,8 152 79,2 121 63,0 167 87,0 88 45,8 40 38,4 8 7,6 T otal Total 192 60 60 192 192 192 192 192 104 104 Recebido em: 12.10.2008 - Aprovado em: 18.12.2008 Artigo de Pesquisa Original Research Artículo de Investigación grande valia no processo de mudança para o planejamento em saúde e melhoria do perfil epidemiológico da população. REFERÊNCIAS 1. ONU- II Assembléia Mundial sobre Envelhecimento. Estratégia Internacional de ação sobre o envelhecimento. In: O envelhecimento e o desenvolvimento de um mundo que envelhece. Tradução de Antônio Rubens Pompeu Braga. Fortaleza (Ce): INESP 2003. 2. 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