Artigo de Pequisa
Original Research
Artículo de Investigación
Perfil epidemiológico de população idosa
PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE UMA POPULAÇÃO IDOSA
ATENDIDA PELO PROGRAMA SAÚDE DA FAMÍLIA
EPIDEMIOLOGICAL PROFILE OF ELDERLY PEOPLE SERVED BY THE
FAMILY HEALTH PROGRAM
PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE UNA POBLACIÓN ANCIANA ATENDIDA
POR EL PROGRAMA SALUD DE LA FAMILIA
Expedita Sinhara Sampaio GarciaI
Maria Vieira de Lima SaintrainII
RESUMO: A pesquisa aborda a atuação do agente comunitário de saúde, tendo como objetivo identificar o perfil
epidemiológico da população idosa atendida no Programa Saúde da Família de Ibicuitinga-Ceará, em 2005. A partir de
estudo quantitativo, 192 idosos, com idade entre 60 e 89 anos, foram entrevistados e examinados por 17 agentes
comunitários de saúde após treinamento por um cirurgião dentista. Utilizou-se um questionário contendo perguntas
abertas e fechadas, sendo os dados computados por meio do software SPSS versão 10. Os resultados indicam que a
saúde autorreferida pelos idosos apresenta-se satisfatória, a despeito da elevada incidência de hipertensão arterial e
acentuado índice de edentulismo. Concluiu-se pela existência de controle da hipertensão arterial, contudo, de um estado
de saúde bucal preocupante. Os dados coletados pelos agentes comunitários de saúde retrataram a realidade vivenciada
em outros estudos, considerando sua atuação valiosa para o planejamento em saúde e melhoria do perfil epidemiológico
da população.
Palavras-Chave: Epidemiologia; idoso; agente comunitário de saúde; Programa Saúde da Família.
ABSTRACT
ABSTRACT:: The study considers the activities of community health agents, and aims to identify the epidemiological
profile of the elderly people in the Family Health Program in Ibicuitinga, Ceará State, in 2005. In this quantitative study,
192 elderly people aged from 60 to 89 were interviewed and examined by 17 community health agents previously trained
by a dental surgeon. A questionnaire of open and closed questions was applied and the responses computed using SPSS
software (version 10). The results indicate the systemic health self-reported by the elderly is satisfactory, despite high rates
of arterial hypertension and tooth loss. In was concluded that control of arterial hypertension is present, but that the state
of oral health was cause for concern. The data collected by the community health agents reveal the same realities
encountered by other studies and also the value of such agents’ activities to health planning and to improving epidemiological
profiles.
Keywords: epidemiology; elderly; community health agent; family health program.
RESUMEN: La investigación aborda la actuación del agente comunitario de salud, con el objetivo de identificar el perfil
epidemiológico de la población anciana asistida en el Programa Salud de la Família de Ibicuitinga – Ceará - Brasil, en
2005. Desde un estudio cuantitativo, 192 ancianos, con edad entre 60 y 89 años, fueron encuestados por 17 agentes
comunitarios de salud tras entrenamiento por un cirujano dentista. Se utilizó un cuestionario conteniendo preguntas
abiertas y cerradas, siendo los datos computados por medio del software SPSS versión 1.0. Los resultados indican que la
salud de dichos ancianos se presenta satisfactoria, a pesar de la elevada incidencia de hipertensión arterial y acentuado
índice de falta de dientes. Los datos recolectados por los agentes comunitarios de salud retrataron la realidad de otros
estudios, considerando su actuación valiosa para la planificación en salud y mejoría del pefil epidemiológico de la
población.
Palabras Clave
Clave: Epidemiologia; anciano; agente comunitario de salud; Programa Salud de la Familia.
INTRODUÇÃO
Cada vez mais cresce o índice de idosos no mundo. Para a Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento 1 , espera- se que ocorra uma transformação
demográfica mundial nos próximos 50 anos, haja vista
que o número de idosos no ano 2000 foi de 600 milhões e chegará a quase 1 bilhão e 200 mil em 2050.
A promoção de saúde fundamenta-se na Carta
de Ottawa, associa-se a um conjunto de valores - vida,
saúde, solidariedade, equidade, democracia, cidadania, desenvolvimento - trabalhando com a idéia de
responsabilização múltipla e combinação de estratégias. É definida como
I
Cirurgiã-dentista. Coordenadora da equipe de saúde bucal da Secretaria de Saúde do Município de Ibicuitinga-CE, Brasil.
Doutora em Odontologia em Saúde Coletiva. Professora do Centro de Ciências da Saúde. Mestrado em Saúde Coletiva e Curso de Odontologia
da Universidade de Fortaleza – UNIFOR. Fortaleza-CE-Brasil. E-mail: [email protected].
II
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o processo de capacitação da comunidade para atuar na melhoria da sua qualidade de vida e saúde,
incluindo uma maior participação no controle deste processo2:19.
As informações sobre a saúde da população idosa e suas demandas por serviços médicos e sociais são
fundamentais para o planejamento da atenção e promoção da saúde3.
Contou-se com a colaboração do agente comunitário de saúde (ACS) no levantamento de dados referentes às condições de saúde dos idosos alvos. O objetivo da pesquisa foi identificar o perfil epidemiológico
da população idosa atendida no Programa Saúde da
família (PSF) do município de Ibicuitinga-CE.
Os resultados deverão oferecer base para um planejamento que venha a configurar a realidade
vivenciada, facilitando a atuação e eficácia da equipe do PSF.
REFERENCIAL TEÓRICO
O envelhecimento inicia-se após a fecundação,
pois inúmeras células envelhecem, morrem e são substituídas antes mesmo do nascimento. A Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa4 classifica como idoso o
indivíduo de 60 anos e mais, contudo, ao considerar
que o envelhecimento é um processo natural que ocorre ao longo de toda a experiência de vida do ser humano, por meio de escolhas e de circunstâncias,
enfatiza que necessariamente não se fica velho aos 60
anos. Para compreender o significado de ser idoso nos
dias atuais, é necessário diferenciar a idade biológica
da cronológica e da idade social. Autores5 relatam o
envelhecimento de pessoas que permanecem ativas e
alertas na 3ª idade, enquanto outras experimentam
doenças incapacitantes em idades menos avançadas,
diferenciando assim o envelhecimento fisiológico do
patológico. O indivíduo pode envelhecer de forma
natural, convivendo bem com as limitações impostas
pela idade, mantendo-se ativo até fases tardias da vida,
consideradas cientificamente como senescência; porém, outro período, denominado senilidade, ocorre com
o envelhecimento anormal ou patológico, no qual o
efeito negativo das doenças provoca incapacidade progressiva para uma vida saudável e ativa.
Entender a relação entre envelhecimento saudável e doença exige inúmeros estudos, porquanto
velhice e doença não se apresentam como sinônimos.
Busca-se a compreensão do envelhecimento como processo benigno e não patológico6. Existe, entretanto,
maior vulnerabilidade dos idosos para adoecer e, em
vista disto, merece destaque a distinção entre ser ou
estar velho saudável e velho doente7.
As alterações que ocorrem no envelhecimento são
acompanhadas por limitações no desempenho funcional que comprometem a participação social da
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pessoa idosa, conseqüentemente prejudicando sua
qualidade de vida8:885.
A família, a sociedade e o Estado têm o dever de
amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bemestar, garantindo-lhes o direito à vida, enquanto o
Estado deve assegurar-lhes a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de políticas sociais públicas
que permitam o envelhecimento saudável em condições de dignidade9.
O Ministério da Saúde criou, em 1994, o PSF,
consolidado como estratégia prioritária na reorganização da atenção básica. Substituindo o modelo tradicional, objetiva conhecer a realidade das famílias,
identificar os problemas de saúde e riscos de exposição das populações10.
Estudos epidemiológicos são essenciais para identificar problemas prioritários, de modo a orientar decisões relativas à definição de prioridades para intervenção11, proporcionando maior resolubilidade ao serviço.
Com participação ativa no PSF, os agentes comunitários de saúde (ACS) constituem componentes
de importância na melhoria da condição de saúde das
comunidades. Atuam junto aos domicílios como
facilitadores da equipe de saúde, identificando as necessidades e doenças autorreferidas. Faz-se necessário utilizar seu potencial no reconhecimento dos indivíduos com necessidades odontológicas, facilitando a
equipe de saúde bucal desenvolver ações de forma
programada.
METODOLOGIA
O universo da pesquisa compreendeu a população
idosa de 60 anos e mais, de ambos os sexos, residentes
em Ibicuitinga. O município possui quatro distritos,
quatro equipes de saúde da família e 17 agentes comunitários de saúde. Localizado no Nordeste do Brasil, dista 198 Km de Fortaleza, capital do Estado do
Ceará, possui 10.926 habitantes, dos quais 1.099 (10%)
têm 60 anos e mais.
O tamanho da amostra de 196 idosos foi estimado
com base na proporção de 85% da população com problema de saúde, nível de significância de 95% e precisão relativa de 5%. Por estratificação, foi calculado o
número de idosos proporcional a cada distrito e, noutro
momento, por sorteio, a amostra dos 196 idosos.
Este é um estudo transversal, quantitativo, do
tipo exploratório-descritivo. Os estudos transversais
descritivos avaliam a situação da população em um
determinado momento, são de fácil realização e em
saúde pública tornam-se linha de base para planejamento em saúde12.
O instrumento de pesquisa consistiu em um questionário cotendo perguntas fechadas (dicotômicas e
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de múltipla escolha) e abertas, para obter a prevalência
das doenças autorreferidas, características socioeconômicas e condição de saúde bucal dos pesquisados.
Nesta pesquisa, foram utilizados indicadores de um
instrumento aplicativo denominado Indicador Comunitário em Saúde Bucal13, composto por um questionário estratégico facilitador para que o ACS do PSF
possa levantar a situação epidemiológica em saúde
bucal da população.
Os dados foram coletados por 17 ACS, que participaram da oficina de treinamento, na qual o questionário foi discutido e aplicado na prática sob orientação
do cirurgião dentista. Na primeira fase da oficina, os
ACS, por meio de cartazes e fotos ilustrativas, identificaram critérios para reconhecer dentes hígidos, cariados,
doença periodontal, uso e necessidade de prótese. Os
ACS treinaram examinando-se a si próprios. Na segunda fase, o treinamento foi realizado com 10 idosos voluntários com os quais foi aplicado o questionário, compreendendo a entrevista e o exame bucal. Nesse momento, cada ACS examinou pelo menos quatro idosos.
O treinamento possibilitou aos ACS a sistematização
das variáveis, conferindo maior confiabilidade e precisão aos dados coletados. Teve também como objetivo
integrá-los na equipe de saúde bucal e conscientizá-los
sobre a importância dos dados no planejamento de atividades e a efetiva atuação de ações de saúde junto à
população.
No decorrer da pesquisa, cada ACS, treinado e
sob consentimento livre e esclarecido, aplicou o questionário em média de 11 idosos. Com auxílio de uma
espátula de madeira, para afastar lábios e bochechas,
realizou o exame bucal da seguinte forma: contagem
do número de dentes; número de dentes com cárie
(cavidades visíveis sem o auxilio do espelho bucal);
condição periodontal - situação da gengiva (inflamação, piorréia, dentes moles); uso de prótese total (superior, inferior ou ambas) e prótese parcial (superior,
inferior ou ambas).
Foram adotados como critérios de inclusão: a idade dos entrevistados (60 anos e mais), assinatura do
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes da
coleta de dados, capacidade de responderem às perguntas e residência fixa no município. Foi estabelecido
o período de janeiro a maio de 2005 para a execução do
trabalho de campo e demais etapas da pesquisa.
Por intermédio do software Statistical Package for
Social Science (SPSS), versão 10, os dados foram organizados e foi realizada a análise do tipo descritiva para
a distribuição das variáveis.
Uma autorização foi assinada pelo Secretário de
Saúde do município, fiel depositário, responsável pelas ações e intervenções de saúde realizadas no locus
investigado. Os idosos foram informados sobre os objetivos da pesquisa e os procedimentos a serem realizados, tendo sido assegurado a eles o sigilo e a liberdap.20 •
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de de retirar seu consentimento em qualquer fase da
pesquisa. Ressalta-se o cumprimento dos preceitos éticos da autonomia, não maleficência, beneficência e
justiça da pesquisa em seres humanos, conforme Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde14.
O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de
Ética em Pesquisa (COÉTICA), da Universidade de
Fortaleza (UNIFOR), sob Parecer n°. 04-509.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Da amostra, quatro sujeitos foram excluídos pelo
fato de o questionário não ter sido completamente preenchido, contemplando, assim, um total de 192 idosos.
A população do estudo teve idade média de 69
anos com desvio-padrão de ±6,8. A maioria é do sexo
feminino (53,6%) e casada (67,7%), destacam-se os
viúvos (22,9%). O analfabetismo (67,2%) caracterizou a maioria dos entrevistados, tendo sido identificados como alfabetizados (30,2%) aqueles que sabem
apenas escrever o próprio nome. A ocupação foi maior
representada por aposentados. Ver Tabela 1.
TABELA 1: Distribuição e percentual do número de idosos
entrevistados por sexo, estado civil, nível de escolaridade e
ocupação. Município de Ibicuitinga - Ceará, 2005.
Va r i á v e i s
Sexo
Feminino
Masculino
Estado civil
Casado
Solteiro
Viúvo
Separado/Outros
Escolaridade
Analfabeto
Alfabetizado
1º grau incompleto
Ocupação
Aposentado
Aposentado/agricultor
Agricultor
Doméstica
To t a l
f
%
103
89
53,6
46,4
130
07
44
11
67,7
3,7
22,9
5,7
129
58
5
67,2
30,2
2,6
164
14
6
8
192
85,4
7,3
3,1
4,2
100,0
Observou-se a participação dos idosos em grupos de atuação, por meio de cooperativas (2,6%), grupo religioso (12,5%), associações de moradores (5,7%),
grupo de idosos (25%) e outras participações (6,3%).
Quanto à medicação, 29% dos entrevistados tomam Captopril todos os dias, 16% hidrocortiazida e
25% usam medicação composta de três a mais fármacos.
Considerando a coleta de dados aleatória, os
percentuais encontrados não se distanciam do perfil
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da população brasileira em que as mulheres representam 50,8% da população total e 51,2 % da população
do Estado do Ceará15. Camarano16 considera que,
quanto mais velho for o contingente analisado, maior
será a proporção de mulheres, dada as hipóteses de
que são menos expostas a riscos, acidentes de trânsito, domésticos e de trabalho, homicídios e suicídios,
consomem menos tabaco e álcool e fazem uso mais freqüente dos serviços de saúde17.
Observou-se um nível de escolaridade muito
baixo, conforme dispõe a Tabela 1. Mostra-se oposto
aos obtidos pela PNAD de 200618, na qual foram detectadas apenas 33,5% de analfabetos contra 67,2%
em Ibicuitinga. A falta de escolaridade pode interferir no dia-a-dia do idoso, ocasionando dificuldades ao
manusear os medicamentos, seguir dietas ou prescrições. Provavelmente reconhecerão seus medicamentos somente pela embalagem, cor ou formato dos comprimidos. Nessa forma insuficiente, pode ocorrer troca
de medicação, que trará prejuízos ao idoso e maiores
riscos à sua saúde, sendo necessária uma orientação
redobrada dos profissionais para com seus acompanhantes ou cuidadores, a fim de ensiná-los a prevenir
possíveis enganos. Para Romero19, a verdadeira expressão da pobreza do idoso no Brasil está relacionada a
duas situações: baixo salário e escolaridade.
Contrapondo a baixa escolaridade, prevaleceu situação confortável relativa à condição socioeconômica,
observando que a maioria dos entrevistados tem renda
fixa, seja da aposentadoria ou aposentadoria mais o trabalho na agricultura, de acordo com a Tabela 1. Apesar
desta condição relativa à renda salarial, não significa
que seja o suficiente para sustento satisfatório. No Brasil, 65,3% dos idosos utilizam seus benefícios para manter a chefia do domicílio20. A universalização da aposentadoria, após os 65 anos para idosos carentes, aumentou o poder aquisitivo, mas, por outro lado, ocasionou a dependência dos mais jovens da família em relação ao aposentado.
A grande participação dos idosos em grupos comunitários e de apoio tem como resultado a importância que o município desempenha neste sentido. Cada
equipe do PSF promove reuniões mensais com grupo
de idosos quando temas são abordados pelos profissionais de saúde. No sentido de promover maior
integração, realizam-se atividades de educação em
saúde, dinâmicas de grupo e um momento de lanche,
fornecido pela Secretaria de Ação Social, oferecendo
ocasiões de descontração e lazer para aqueles que
muitas vezes se encontram sozinhos e sem esperança.
Esta situação benéfica em Ibicuitinga evidencia a posição de Silvestre e Costa Neto6, na qual a estratégia
de saúde da família deve representar para o idoso o
vínculo com o sistema de saúde. Tão importante quanto o sistema técnico, ou mais ainda, é o sistema social
que por sua natureza se refere ao grupo responsável
por fazer acontecer, otimizando os recursos da instituição para desenvolver todos os processos necessários ao
atendimento da clientela21. A dimensão organizativa
do processo produtivo das equipes de saúde da família
se caracteriza pela realização de atividades e pela intensa divisão de trabalho, tendo no planejamento conjunto a busca de soluções22.
Quanto ao acesso às unidades de saúde, a maioria dos entrevistados (95,3%) respondeu que, quando
não se sentia bem, procurava o posto de saúde. Tudo
leva a crer que esta população está sendo informada
como usuária a buscar seus direitos. Diferente do constatado em pesquisa sobre as condições de acesso dos
usuários às unidades de saúde, de que “o acesso aos
serviços é focalizado e seletivo para responder a uma
determinada queixa, sendo tecnologicamente atrasado e discriminatório”23: 822. Para os autores, o serviço é
dirigido ao usuário de baixa renda e à população excluída socialmente, ferindo, assim, os princípios da
universalidade e da integralidade pelo não cumprimento dos preceitos constitucionais de que a saúde é
um direito de todos e dever do Estado24.
Relativamente à condição de saúde autorreferida,
na Tabela 2, observa-se a hipertensão arterial com
43,2%. Tal resultado se aproxima dos dados nacionais
de 45,4%18. Segundo Costa3, em estudos sobre a população idosa brasileira, as doenças do aparelho circulatório ocuparam o primeiro lugar entre as causas de mor-
TABELA 2: Distribuição dos problemas de saúde e doenças autorreferidas pelos
idosos entrevistados. Município de Ibicuitinga - Ceará, 2005. (N=192)
Problemas de saúde/doenças
Alcoolismo
Deficiência motora
Diabete
Hipertensão arterial
Problemas respiratórios
Deficiência visual
Deficiência auditiva
Outros (dor lombar, enxaqueca, reumatismo, etc)
Sem doenças autorreferidas
Recebido em: 12.10.2008 - Aprovado em: 18.12.2008
f
5
4
16
83
11
6
4
10
74
%
2,6
2,0
8,3
43,2
5,7
3,1
2,0
5,2
38,6
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talidade dos idosos, sendo as mais freqüentes as moléstias cerebrovasculares e isquêmicas do coração, todas
relacionadas à hipertensão arterial.
A prevalência do diabetes de 8,3%, nessa população, sugere situação confortável relativa aos dados de
11,0% da estimativa atual para a população igual ou
superior a 40 anos25, igualmente os 5,7% das doenças
respiratórias para 8,6 % da PNAD 1998 citado por
Romero19:782. Nesta pesquisa, apenas uma minoria relatou múltiplas doenças e 74 (38,6%) não mencionaram nenhum tipo, número elevado quando relacionado a 19,5% da mesma PNAD19 e também contrário aos
achados de Santos, Lebrão Duarte e Dias de Lima8
onde a presença de duas ou mais doenças foram as
variáveis mais importantes.
A morbidade percebida e relatada pelo indivíduo
durante uma entrevista depende da percepção que ele
tenha sobre as alterações de saúde, que varia nos diversos segmentos sociais, por ser profundamente influenciada pelos aspectos socioculturais26. Para o autor, é um
meio bastante utilizado pela facilidade de obter informações na identificação de casos que permitam verificar o estado de saúde das pessoas e assim ter meios para
realizar planejamentos e ações em saúde.
A saúde bucal dos idosos, expressa nos resultados da Tabela 3, apresenta-se semelhante aos recentes estudos realizados no Brasil. A porcentagem de
edentulismo (68,8%) não difere das pesquisas26,27, onde
detectou-se 69,2% e 58,1%, respectivamente. O levantamento epidemiológico Saúde Bucal no Brasil28
(SBBrasil) para a faixa etária de 65 a 79 anos, mostrou
que 92,9% dos componentes do índice CPO-D (dentes cariados, perdidos e obturados) são dentes perdidos ou extraídos. Dos pesquisados, 45,8% têm necessidade de prótese total superior e/ou inferior, próximo
ao do SBBrasil, de 39,9%. Das pessoas desdentadas
[132 (68,8%)], apenas 54,2% faziam uso de prótese,
daí 37% delas relatarem dificuldade para mastigar.
Condição esta corroborada por autores29 ao detectarem, em idosos, problemas funcionais e psicológicos
ocasionados pelo edentulismo, cárie dental e doença
periodontal, destacando no discurso do sujeito coletivo que a mastigação não é realizada com naturalidade e conforto, sendo necessário selecionar tipo de alimento ou a forma de consumi-lo. O sangramento
gengival de 4,2%, nesta pesquisa, se assemelha a do
Projeto SB Brasil, com 3,3%. No que concerne às doenças periodontais, entre 60 pessoas que ainda possuíam dentes, 23 (38,3%) delas relataram sentir seus
dentes abalados e apenas 35 (58,3%) confirmaram escovar seus dentes. Essa precária condição vem associar a presença de sangramento gengival e mau hálito.
A queimação bucal, que aflige 13% dos idosos, é
dado confirmado por pesquisas30, 31, as quais referenciam
que as glândulas salivares nos idosos sofrem uma perda em sua capacidade funcional de aproximadamente
20-30%, diminuindo a lubrificação da cavidade bucal, deixando-a susceptível a alterações patológicas.
Os achados nesta pesquisa evidenciam a contribuição do ACS na equipe de saúde e podem ser corroborados por Tendler citado por Viana e Dal Poz32:252
para quem “a figura do agente de saúde extrapola a
questão saúde e passa a ser a porta de entrada das
políticas sociais para as populações mais carentes”.
CONCLUSÃO
Os resultados assinalam que o perfil socioepidemiológico dos idosos do Município de Ibicuitinga está
caracterizado pela baixa escolaridade e condição
socioeconômica de renda intermediária, oriunda da
aposentadoria e/ou agricultura; a condição de saúde
aponta a hipertensão arterial sistêmica e a precária condição de saúde bucal como os principais problemas
epidemiológicos; a participação dos idosos em grupos
de apoio, prevalecendo a procura pela unidade básica
de saúde e grupos de idosos, evidencia a efetiva atuação da equipe de saúde do PSF; e os dados coletados
pelos ACS retrataram a realidade vivenciada em outros estudos, podendo-se considerar sua atuação de
TABELA 3: Distribuição das condições de saúde bucal dos idosos participantes da
pesquisa. Município de Ibicuitinga - Ceará, 2005.
Va r i á v e i s
Dentes presentes
Escova os dentes
Dentes abalados
Gengiva sangra
Tem mau hálito
Dificuldade para mastigar
Sente queimação na boca
Usa prótese
Tira a prótese para dormir
Higieniza a prótese
p.22 •
Sim
f
60
35
23
8
40
71
25
104
64
96
Rev. enferm. UERJ, Rio de Janeiro, 2009 jan/mar; 17(1):18-23.
%
31,2
58,3
38,3
4,2
20,8
37,0
13,0
54,2
61,6
92,3
Não
f
%
132
68,8
25
41,7
37
61,7
184
95,8
152
79,2
121
63,0
167
87,0
88
45,8
40
38,4
8
7,6
T
otal
Total
192
60
60
192
192
192
192
192
104
104
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Perfil Epidemiológico de uma População Idosa Atendida pelo