PSICOPATOLOGIA PSYCHOPATHOLOGY Cognição e antioxidantes Cognition and antioxidants É comum, actualmente, a toma de vitaminas e minerais para melhoria da qualidade de vida, nomeadamente de “”antioxidantes” para evitar e declínio cognitivo. Não só o significado da associação entre os níveis de antioxidantes e o declínio cognitivo deve ser melhor avaliada como, e sobretudo, a toma dessas substâncias para a melhoria ou a prevenção do declínio cognitivo deve ser muito bem ponderada. Se é certo que Schmidt et al. (1998) fizeram um extenso estudo em 1032 mulheres e 737 homens onde analisaram as correlações entre as pontuações da Mattis Dementia Rating Scale (MDRS) e os níveis plasmáticos de vários antioxidantes, para concluírem que existia uma correlação significativa entre as pontuações mais baixas da MDRS e níveis baixos de beta-caroteno e alfa-tocoferol; também é certo que, mesmo que tal correlação se confirme em estudos randomizados, isso não significa que a toma regular daquelas substâncias altere o curso do declínio cognitivo. Isso mesmo é sugerido pelo estudo aqui relatado, incluído no Age-Related Eye Disease Study. Os investigadores avaliaram o efeito na degenerescência macular de suplementos vitamínicos, tendo também administrado de testes cognitivos para avaliarem a fluência verbal, a memória e a atenção. Estudaram 2166 participantes (idade média de 75 anos) ao longo de 7 anos (em média) de tratamento, divididos em quatro grupos: (1) antioxidantes vitamina C (500mg), vitamina E (40001) e Beto caroteno (15mg); (2) zinco (80mg) e cobre (2mg); (3) os cinco suplementos anteriores; (4) placebo. De todos os participantes só 4,5% apresentavam critérios para disfunção cognitiva. Os resultados demonstraram que não existiam diferenças, no desempenho cognitivo, entre os quatros grupos, sugerindo que os antioxidantes (nestas dosagens) não tinham qualquer efeito na cognição. Schmidt et al. (1998), J Am Geriatr Soc,V46 (2004), Neurology,V63 Défice mnésico nos doentes com esclerose múltipla Memory deficit in multiple scleroris patients Para avaliar o efeito do donezepil (um inibidor da acetilcolinesterase) na perturbação da memória dos doentes com esclerose múltipla, Krupp et al. (2004) conduziram uma investigação duplamente cega de 24 semanas, na qual 69 doentes com esclerose múltipla e com, pelo menos, um défice ligeiro da memória verbal foram randomizados para receber donezepil (10 mg/dia) ou placebo. Foram excluídos os doentes que apresentavam grande défice cognitivo ou depressão. Os resultados sugeriram que a memória verbal melhorou significativamente no grupo do donezepil comparativamente com o grupo do placebo, mesmo após terem sido controladas variáveis como o sexo, o tipo de esclerose múltipla e o grau da disfunção mnésica. Apesar disso o humor e a fadiga não se alteraram ao longo do estudo. Os efeitos secundários mais comuns foram os sonhos, a diarreia e as náuseas. Apesar de a amostra ser pequena e, por isso, a necessidade de replicação com uma amostra maior, este estudo apresenta-nos uma evidência preliminar da eficácia dos inibidores da acetilcolinesterase nos problemas de memória em populações não alzheimerianas. Krupp et al. (2004), Neurology,V63 Génese dos défices cognitivos na esquizofrenia e na Perturbação Bipolar Origin of cognition deficits in schizophrenic and bipolar patients Os défices cognitivos são dados clínicos que fazem parte VOLUME VI Nº6 NOVEMBRO/DEZEMBRO 2004 41 Escolhas do Director / Editor’s Choices 42 dos quadros esquizofrénicos e bipolares. Existe, ainda, alguma controvérsia quanto à sua origem, tendo sido aventadas várias hipóteses: resultado da medicação, sintomas activos do quadro clínico, uso de substâncias ou resultado de algum processo relacionado com a doença primária. Altshuler et al. (2004) administraram uma bateria neuropsicológica a 40 indivíduos com perturbação bipolar tipo I (em eutímia), a 20 indivíduos com esquizofrenia (em estadio não agudo estável) e a 22 controlos saudáveis, todos do sexo masculino. Todos os doentes tomavam medicação: para a perturbação bipolar tomavam lítio ou anticonvulsivantes, antidepressivos e antipsicóticos; para a esquizofrenia tomavam neurolépticos, antipsicóticos atípicos e agentes anticolonergéticos. Os resultados sugeriram que, quando comparados com o grupo de controlo, os doentes de ambos os grupos apresentavam maiores défices da função executiva e os doentes esquizofrénicos tinham maiores défices do que os bipolares. Foi também verificada uma distribuição normal do défice da disfunção executiva para o grupo dos doentes bipolares. A memória declarativa está também alterada em ambos os grupos de doentes. Não se obtiveram correlações significativas entre o consumo de álcool e o défice cognitivo, mas obtiveram-se para os antipsicóticos (6 doentes bipolares) e os anticolinérgicos (11 doentes esquizofrénicos). É claro que o facto de todos os doentes estarem a tomar medicação constitui um viés importante deste estudo, no entanto, dado que apenas algumas substâncias foram correlacionadas com os défices cognitivos, pode-se considerar que alguma disfunção cognitiva poderá ser atribuída à própria doença. Ahshuler et al (2004), Biol.Psych., V56 VOLUME VI Nº6 NOVEMBRO/DEZEMBRO 2004 Amígdala temporal e desenvolvimento sócio-cognitivo Temporal amygdala and social-cognitive development Começa a ser divulgada a teoria amigdalina da “teoria da mente” (capacidade humana de pensar sobre os pensamentos dos outros) e começa também a ser testada. Shaw et al. (2004) administraram testes que avaliam a “teoria da mente” e uma bateria de testes cognitivos a 15 indivíduos com lesões amigdalinas desde o nascimento, a 11 indivíduos que tiveram uma infância normal mas que tiveram uma lesão amigdalina na idade adulta (normalmente na sequência de uma lobectomia temporal anterior), a 14 indivíduos que fizeram neurocirurgia para a epilepsia, mas sem lesão amigdalina e 38 controlos saudáveis. Os autores verificaram que o grupo com lesão precoce da amígdala apresentava mais alterações nos testes da “teoria da mente” (com tarefas simples e complexas), comparativamente com todos os outros grupos, enquanto que os que apresentavam lesões amigdalinas tardias tinham desempenhos normais naqueles testes. Estes dados são muitos importantes relativamente a vários aspectos. Por um lado, sugerem que o papel da amígdala na “teoria da mente” depende de períodos sensíveis do desenvolvimento. Mas, para além disso, este estudo sugere que a amígdala deve receber e responder às expressões faciais e outros sinais referentes ao estado mental de outra pessoa, nos primeiros anos de vida para que haja um desenvolvimento adequado da “teoria de mente”. Por outro lado, este estudo sugere que nos adultos, o funcionamento da “teoria da mente” pode ocorrer sem a comparticipação da amígdala, provavelmente através das áreas cerebrais já identificadas em estudos de neuroimagem como estando relacionadas com a “teoria da mente” (córtice pré frontal mediano esquerdo e o córtice orbito frontal). Para além disso, estes dados são também importantes para a teoria amigdalina do autismo a qual postula que as alterações funcionais e estruturais da amígdala em adultos com autismo pode reflectir anomalias precoces no desenvolvimento amigdalino e nas suas conexões corticais. Sabendo-se que o autismo é uma doença neurodesenvolvimental com défices na “teoria da mente”, isto significa que o disfuncionamento amigdalino precoce no autismo pode ser um determinante para os défices sociais que estes doentes apresentam mais tarde. Num plano mais psicofisiológico, a descoberta de uma alteração selectiva da mente no grupo com lesão precoce da amígdala vem dar sustentação ao famoso argumento de Leslie segundo o qual, a “teoria da mente” poderá apresentar uma organização modular e ser independente da função executiva. Shaw et al. (2004), Brain, V127