PSICOLOGIA E JUVENTUDE: INTERVENÇÃO NO ENSINO MÉDIO Débora Jerônima Arantes* Jordana de Castro Balduino ** Resumo: O presente trabalho baseia-se nas atividades desenvolvidas no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID – do curso de Psicologia, campus Goiânia, da Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Educação – UFG/FE. Através do vínculo do PIBID de Psicologia, regional Goiânia, com uma instituição escolar da rede pública estadual, foi desenvolvido – por seis bolsistas do PIBID psicologia sob a orientação de um professor supervisor, na escola, e um coordenador da UFG – um projeto de intervenção com os estudantes do Ensino Médio da instituição. O projeto desenvolvido foi “O que faz sua cabeça? Psicologia, Juventude e Grafite” e se fundamentou nos dados levantados através de observações da dinâmica da escola. O projeto objetiva contribuir para uma formação mais humana dos jovens do Ensino Médio através da reflexão e discussão a respeito da constituição do indivíduo e da sua relação com a sociedade. O mesmo se realiza em formato de oficinas quinzenais aos sábados e os temas da Psicologia trabalhados se relacionam a realidade e cotidiano da juventude na contemporaneidade como: identidade, sexualidade, violência, criminalidade, intervenção urbana e outros. O projeto também objetiva que os estudantes sejam ativos no processo educativo/formativo. Desta forma busca fomentar a participação dos estudantes e proporcionar também uma metodologia dinâmica para a discussão das temáticas. O projeto encontra-se em desenvolvimento e o seu encerramento, no final de 2014, prevê a realização de uma oficina prática de Grafite, na qual os estudantes registrarão nos muros da escola sua expressividade e a reflexão fruto das discussões suscitadas ao longo do projeto. Palavras-chave: psicologia; juventude; ensino médio. * Graduanda em Psicologia na Universidade Federal de Goiás e bolsista do PIBID – Faculdade de Educação (UFG/FE) – e-mail: [email protected] ** Psicóloga, Doutora, Professora do curso de Psicologia da FE/UFG e coordenadora do PIBID- Psicologia (Regional Goiânia) – e-mail: [email protected] Introdução O presente trabalho baseia-se nas atividades desenvolvidas no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) do curso de Psicologia, regional Goiânia, da Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Educação (UFG/FE). O programa PIBID é fomentado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e tem por objetivo proporcionar o desenvolvimento e aprofundamento das competências e habilidades dos graduandos em licenciatura, através da integração entre Educação Superior e Educação Básica. Essa integração ocorre com foco na rede pública de Educação Básica proporcionando ao licenciando um 2 contato teórico e prático com a realidade da escola pública. Esta vinculação também possibilita uma articulação entre os licenciandos e os professores da rede pública proporcionando experiências inovadoras para ambos com intuito de buscar soluções para os problemas que possam ser encontradas no processo ensino-aprendizagem (EDITAL PIBID/UFG n. 102/2013). Com base nos parâmetros e objetivos do PIBID e no Projeto Institucional da UFG, o subprojeto do curso de Psicologia para o PIBID, edital 2013, objetiva através da aproximação do estudante com o campo, repensar criticamente as contribuições que a Psicologia poderia proporcionar para Educação Básica, principalmente no Ensino Médio da instituição púbica de educação. Em suma o subprojeto busca repensar através do contato teórico-prático as possibilidades e limites da inserção do professor de Psicologia no campo da Educação Básica. A reflexão crítica que o subprojeto propõe é atual e de profunda relevância para o campo da formação do professor de Psicologia. Isso se justifica devido às mudanças advindas pela obrigatoriedade da oferta de licenciatura nos Cursos de Graduação em Psicologia, estabelecida pela nova diretriz curricular através da Resolução nº 5 de 15 de março de 2011 (BRASIL, 2011). Tal obrigatoriedade tem ampliado a discussão e reflexão a respeito da licenciatura em Psicologia. A partir dessas discussões surge, o projeto de Lei proposto pela deputada federal Luiza Erundina do PSB/SP (PL 105/2007), em defesa da inserção da disciplina de Psicologia no Ensino Médio. Tal proposta é defendida por todas as entidades representativas da psicologia e pelas áreas da psicologia escolar e educacional (EDITAL 80/2013/PIBID/UFG, 2013). Através do Edital n.102/2013 para o PIBID foi estabelecido o vínculo do PIBID Psicologia, regional Goiânia, com duas instituições públicas da rede estadual de educação, tais escolas ofertam a formação no Ensino Médio. O presente trabalho se desenvolve em uma das instituições púbicas vinculadas e é composto de seis bolsistas do PIBID Psicologia sob a orientação de um professor na escola, supervisor, e um coordenador da UFG. O inicio das atividades do PIBID Psicologia, regional Goiânia, ocorreu no primeiro semestre de 2014, com a ida a campo para levantamento de dados e o desenvolvimento de uma proposta de intervenção. Tal proposta culminou no desenvolvimento de um projeto, o qual no atual momento encontra-se em fase de execução, com encerramento previsto para dezembro de 2014. 3 O relato do respectivo projeto de intervenção é o objetivo do presente texto. Deste modo será relatado o processo de levantamento de dados e principalmente o desenvolvimento da proposta de intervenção com os estudantes do Ensino Médio. Como o projeto encontra-se em andamento os resultados, que serão apontados, são parciais, necessitando-se ao termino do projeto de uma análise mais conclusiva. O projeto: O que faz sua cabeça? Psicologia, Juventude e Grafite Durante todo o primeiro semestre foi realizado um levantamento sobre a realidade da escola através de observações da estrutura física da instituição, de diferentes aulas e de momentos informais, como o recreio. Foram realizadas também entrevistas semiestruturadas com o professor supervisor de campo, objetivando conhecer mais da história e características da Instituição observada e da realidade do Ensino Médio público em Goiás. Todos esses dados eram registrados nos diários de campo de cada bolsista. Os dados levantados na instituição foram: o relato dos estudantes expondo que sentiam “sem voz” frente à Instituição, tanto no âmbito da relação professor-aluno quanto com a coordenação escolar; questões e discussões referentes à escolha profissional e formação superior, principalmente em instituições federais, não eram frequentes no ambiente escolar. Outro dado relevante refere-se à estrutura física da escola, verificamos que a escola não era muito valorizada por grande parte dos estudantes. Percebemos que os mesmos não se reconheciam como agentes na construção e manutenção do espaço escolar, diante disso alguns acabavam atuando na desvalorização e destruição do patrimônio público. Tais dados possibilitaram compreender um pouco da dinâmica escolar, dando bases para o desenvolvimento da proposta de intervenção da Psicologia na instituição, com os estudantes do Ensino Médio. O contexto e dinâmica observados ressaltam a possibilidade de contribuição dos conhecimentos da ciência psicológica na formação dos estudantes. Assim sendo o projeto pensado se fundamenta em alguns pressupostos teóricos, como a compreensão da constituição histórica e multideterminada do sujeito. Portanto partimos de uma concepção histórico-cultural. É através do processo de socialização, apropriação da cultura e interação social, que ocorre a humanização. No processo de socialização cada indivíduo singular se apropria do que foi historicamente constituído, ou seja, se apropria da cultura através da relação e interação com os outros 4 homens e com o meio social esse processo é o que possibilita a humanização. Esse processo interacional se dá através dos instrumentos, transformação da natureza pelo trabalho, e pela linguagem (REGO, 1995; OLIVEIRA, 1997; VIGOTSKY, 1991). O projeto de intervenção desenvolvido foi “O que faz sua cabeça? Psicologia, Juventude e Grafite”. O respectivo objetiva, ao longo de sua execução, contribuir para uma formação mais humana e crítica dos jovens do Ensino Médio, através da reflexão e discussão a respeito da constituição do indivíduo e da sua relação com a sociedade. Nesta perspectiva as autoras Soligo e Azzi (2008), discorrem que: Cursar o ensino médio, direito que assiste a todos os jovens brasileiros, representa mais do que garantir chances no mercado de trabalho imediato ou de aprovação no vestibular. Segundo a própria LDB, a educação deve promover a reflexão, o pensamento crítico e criativo, a construção de autonomia de pensamento e cidadania. [...] Ora, para construirse como sujeito pleno, é preciso compreender a vida, nas suas possibilidades e dilemas. O acesso a um conhecimento que permita a compreensão do humano subjetivo é, portanto, um direito do aluno (SOLIGO; AZZI, 2008 p. 67). Corroborando com as concepções das autoras citadas, o projeto tem buscado capturar a atenção dos estudantes para a questão “O que faz sua cabeça?”. Através desta questão objetivamos promover a discussão e compreensão, por parte dos estudantes, dos fenômenos socioculturais que perpassam sua constituição enquanto indivíduo. Entendemos que esse processo contribui na promoção da construção do pensamento crítico e autônomo. Compreendendo as bases teóricas que fundamentaram o projeto estabeleceremos agora a compreensão do público alvo. Como o projeto trabalha com um público que se encontra em uma fase de desenvolvimento específica – são os jovens do Ensino Médio 1º a 3º anos com faixa etária variando de 14 a 21 anos – optou-se por empregar o conceito de juventude. O conceito adolescência é comumente utilizado em Psicologia, no entanto os conceitos adolescência e juventude possuem diferenças. “O conceito de adolescência se difere da ideia de juventude, pois este último é mais amplo e possui um maior atravessamento de temas sociais, culturais, políticos, econômicos, territoriais, dentre outros” (MOREIRA; ROSARIO; SANTOS, 2011 p. 458). Completando a definição dos conceitos compreende-se a “adolescência como período inicial da juventude, esta vista como uma categoria mais abrangente” (PÁTARO, 2011 p. 16-17). A autora também discorre sobre a forma como 5 compreendemos e lidamos com os jovens, sendo esta forma muito influenciada pelas concepções históricas e sociais construídas sobre a categoria. Assim sendo juventude é uma categoria histórica e social e deste modo mutável, do mesmo modo que suas bases constituintes. Diante das transformações sociais e culturais, na sociedade contemporânea, os critérios e referenciais do conceito de juventude igualmente vêm se modificando. A sociedade contemporânea traz novas delimitações e novos desafios no âmbito do trabalho, da política, da violência, da escola. Nesse cenário a temática da juventude vem ganhando relevância, pois tais delimitações e desafios são esferas que afetam especialmente os jovens, que vivenciam mais intensa e diretamente esses processos (PERALVA; SPOSITO, 1997 apud PÁTARO, 2011). Com a compreensão das mudanças sociais na contemporaneidade e suas implicações na juventude, para a efetivação dos objetivos propostos compreendemos que alguns temas de discussão e reflexão eram essenciais na intervenção. A escolha dos temas se justificou devido à relação dos mesmos com a realidade cotidiana dos jovens e o impacto psicossocial que exercem sobre estes na contemporaneidade. Os temas propostos foram: identidade, sexualidade, violência e criminalidade, trabalho e intervenção urbana. De acordo com os fundamentos teóricos apresentados para efetivação do projeto, foi adotado como método, técnica, oficinas dialogadas e o grafite. Essas técnicas, principalmente o grafite, foram escolhidas por se caracterizarem como uma manifestação de linguagem, típica dos jovens. Essa escolha metodológica demarca também o atendimento a uma demanda levantada, sobre a necessidade dos estudantes de terem voz ativa. Deste modo o projeto também objetiva que os estudantes sejam participantes e ativos no processo educativo/formativo. Desde o inicio o projeto busca a participação dos alunos na concordância com os temas propostos e na sugestão de temas que gostariam que fossem trabalhados. Fomenta-se a participação dos estudantes através de uma metodologia dinâmica para as exposição e discussão de cada temáticas. Deste modo buscamos estabelecer uma relação professor-aluno pautada no respeito mútuo, com a abertura e valorização da participação do estudante. A relação interpessoal e metodologia que propomos se difere da que muitas vezes se observa em sala de aula. Não se pauta em uma concepção bancária de educação, como apresenta Paulo Freire (1983), na qual o aluno é um depositário do 6 conhecimento oferecido pelo professor, sendo marcada pela falta de diálogo e pela contradição entre educador-educando. Pelo contrário buscamos uma educação dialógica com vista à autonomia dos estudantes. Freire (1983) citado por Zatti (2007), denuncia que a narração e a dissertação são características da educação bancária, pois demarca um sujeito, o narrador, e os objetos pacientes, os ouvintes, no caso da educação os educandos. Essa forma de educação mantém a contradição entre educador e educando e apresenta retalhos da realidade de forma estática, sem levar em conta a realidade do educando. Deste modo o educador é o depositante, do conhecimento, e o educando o depositário. O problema é que quanto mais são tratados como depósitos, menos serão capazes de consciência crítica e de libertarem-se da situação de opressão. Essa educação autoritária inibe a capacidade de perguntar, poda a curiosidade (cf. FREIRE e FAUNDEZ, 1986, p. 46), gera um homem passivo, ingênuo, que não é capaz de um pensar autêntico. Assim, há a aceitação passiva das estruturas que tornam os homens seres para outro, heterônomos. Ela, em vez de transformar o homem em ser autônomo... (ZATTI, 2007 cap. 3.6). Apoiando o exposto acima as autoras Soligo e Azzi (2008) ressaltam que a produção de conhecimento na área da Psicologia dá aprendizagem já mostrou a importância do sujeito no seu processo de aprendizagem e a necessidade de construção de métodos ativos de ensino. E ressaltam também que “ensinar Psicologia implica superar a estratégia expositiva, na busca de estratégias dialógicas e ativas de construção compartilhada de conceitos e sentidos” (SOLIGO; AZZI, 2008 p. 76). É a partir destas proposições e posições teórico-metodológicas que o projeto de intervenção foi desenvolvido e vem se efetivando em conjunto com os estudantes do Ensino Médio da escola estadual da região metropolitana de Goiânia. Nessa perspectiva, para o encerramento da intervenção se prevê a realização de uma oficina prática de Grafite, na qual os estudantes registrarão nos muros da escola sua expressividade e a reflexão fruto das discussões suscitadas ao longo do projeto. O grafite será a linguagem e o meio o qual os estudantes irão atuar na escola, deixando sua “marca” no espaço físico. A partir do exposto evidencia-se que objetivamos uma inserção no campo da educação, enquanto professores de Psicologia, através de uma reflexão crítica dos fundamentos e objetivos de nossa ação e buscando contribuir para o desenvolvimento 7 de uma consciência críticas e criativa nos educandos, consciência sobre si e sobre o mundo. Metodologia do projeto e reflexões Com exposto o formato pensado para a efetivação do projeto foi a realização de encontros em formato de oficinas temáticas, tais oficinas ocorrem quinzenalmente aos sábados pela manhã, com duração de duas horas. Em cada oficina uma temática (identidade, sexualidade, violência e criminalidade, trabalho) é discutida. Foi montado um cronograma de trabalho no qual foram previstos nove encontros, sendo destinadas datas para as discussões temáticas e a realização de oficinas teórico-práticas de grafite, com um profissional da área. A escolha por essa técnica de execução (oficinas), não se justifica apenas por questões teórico-metodológicas. Como colocado na introdução do respectivo texto existe um Projeto de Lei proposto pela deputada federal Luiza Erundina do PSB/SP (PL 105/2007), em defesa da inserção da disciplina de Psicologia no Ensino Médio. Mas o fato é que a Psicologia ainda não integra o currículo regular do Ensino Médio, deste modo não existe uma disciplina formal, dentro do horário curricular dos estudantes que possibilite a execução do projeto. Diante disso foi necessário que as oficinas ocorressem aos sábados, se configurando como uma atividade extracurricular. Pelo caráter extracurricular do projeto, os bolsistas do PIBID, não frequentam o espaço escolar cotidianamente, não sendo possível um contato mais direto com os estudantes, salvo nas oficinas. Para a divulgação do projeto aos estudantes do Ensino Médio, faz-se necessário, em cada semana que antecede as oficinas, a realização de convite oral em cada sala de aula da instituição. Também são colados cartazes com as informações da oficina, para que se reforce no cotidiano dos estudantes o convite à participação. O fato da Psicologia não estar inserida no currículo regular da Educação Básica é de grande influencia no trabalho, se configurando por parâmetros positivos e/ou negativos. Dentre os positivos temos o interesse que o estudante demonstra em refletir e discutir sobre as temáticas propostas, frequentando as oficinas mesmo em horário extracurricular. Outro fator positivo é a liberdade que os bolsistas encontram na realização das oficinas desde a proposta, construção dos conteúdos e a efetivação. 8 Utilizam-se metodologias dinâmicas e abertas, muitas vezes ocorrendo em espaços diversos do da sala de aula, como por exemplo, na quadra ou pátio. Mesmos apontados como fatores positivos o fato é que as questões pontuadas acima também se apresentam por um viés negativo como, por exemplo, o fato da oficina ocorrer em horário extracurricular impede, por questões socioeconômicas, muitos estudantes de participarem, pois alguns trabalham, inclusive aos sábados de manhã. O outro fator, a questão da liberdade na construção da oficina, pode ser visto por um viés negativo. Como a Psicologia não integra o currículo regular do Ensino Médio não há uma sistematização dos conteúdos a serem ministrados e referências bibliográficas que orientem a intervenção na Educação Básica. Deste modo tudo tem que ser construído, havendo em alguns momentos dificuldade no levantamento bibliográfico, principalmente de um material que tenha transposição de conteúdo para uma linguagem mais acessível. Diante disso a inserção no campo da educação, através da intervenção, demarca os benefícios que a Psicologia goza por não integrar o currículo, ao mesmo tempo em que também demarca as dificuldades por essa não inserção. As autoras Soligo e Azzi (2008) adotadas como referência neste projeto apontam algumas razões de “Por que psicologia no Ensino Médio” defendendo a inserção da Psicologia como disciplina obrigatória no currículo. No entanto a discussão sobre a inserção ou não da Psicologia no currículo do Ensino Médio é complexas. A realização da intervenção no campo da educação, através do projeto, demarca as possibilidades de contribuição da Psicologia para a formação mais humana dos estudantes. Ressaltando-se desta forma a importância dessa área do conhecimento para a educação. No entanto a via de entrada e acesso no campo educacional não se baseou em uma inserção por meio de uma disciplina formal. Assim podemos refletir e fomenta ainda mais a complexa discussão sobre a necessidade da inserção da Psicologia no currículo regular do Ensino Médio como uma disciplina de caráter obrigatório. Resultados Como descrito anteriormente os resultados do projeto percebidos até então são parciais, visto que o encerramento está previsto para o final de 2014. Com as primeiras divulgações o projeto se iniciou com uma ampla procura por parte dos estudantes, cerca de quarenta estudantes. A quantidade de participantes do inicio do projeto superou as 9 expectativas, pois o mesmo se configura como uma atividade extracurricular e não obrigatória. No primeiro encontro realizou-se a apresentação dos professores e dos estudantes, assim como do projeto e suas propostas. Realizou-se também um levantamento das temáticas que mais interessavam os jovens presentes. O resultado em ordem decrescente de votos foi: sexualidade, identidade, trabalho, drogas, criminalidade e violência. Esse resultado foi consensual as temáticas já pensadas para a oficina. Desde o inicio das oficinas os estudantes participaram ativamente das discussões, mantendo-se esse dado em todos os encontros até então. No entanto o houve um decréscimo do número de estudantes participando, havendo nos últimos três encontros uma média de 20 estudantes. A frequência dos estudantes é rotativa, no entanto há estudantes que frequentam a oficina desde o início. Podemos indicar o fato da oficina ocorre em horário extracurricular como um desafio, contribuindo para as desistências apontadas. Podemos indicar também, enquanto possibilidade, um estranhamento com a metodologia, visto que rompe com o habitual modelo tradicional de aula. O desdobramento das discussões das temáticas, com metodologias mais dinâmicas e a participação efetiva dos estudantes, culminou no uso integral do tempo destinado para a duração das oficinas, o que se avalia de forma positiva. Houve necessidade de alteração no cronograma para concluir a discussão de algumas temáticas que ficaram inconclusas em apenas um encontro. Foi o caso da oficina de sexualidade, que se desdobrou para um novo encontro com o tema gênero. No entanto como o calendário previsto possui datas fechadas, não sendo possível acrescentar encontros houve tema suprimido, com o tema drogas. Como colocado o cronograma estava definido e com datas fechadas, no entanto houve contratempos forçando a remarcação de datas e perdas de alguns encontros, devido fatores internos e externos a instituição. Por exemplo, a impossibilidade de utilizar a escola em determinadas datas devido a recessos e feriados que não estavam previstos anteriormente. Esse fator demarca um ponto importante que tem representado dificuldade para a realização do projeto, a relação com a Instituição. Mesmo com tentativas de contato e dialogo a relação se manteve distante, não havendo muita comunicação e troca de informações. Tal realidade dá indícios de como é a relação da gestão com os estudantes. 10 Avaliamos que o projeto apresenta possibilidade de contribuições por sua metodologia diversificada e sua fundamentação em teorias da Psicologia, que levam em consideração o indivíduo e sua constituição histórica e social. As temáticas propostas para a reflexão e discussão com os jovens em si não são inovadoras. No entanto como já apontado na apresentação do projeto, o objetivo é pensa-las de uma forma diferente do que os estudantes costumam ver na escola e no cotidiano. Certamente estudam sexualidade, violência, criminalidade e trabalho na escola, em diversas disciplinas, entretanto com enfoques e objetivos diferentes dos propostos no presente projeto. As autoras Soligo e Azzi (2008), apontam alguns conteúdos psicológicos como temas transversais, que perpassam várias disciplinas. No entanto a psicologia é mais do que temas transversais é uma área do conhecimento, que tem contribuições para a formação do estudante, como já pontuado. Assim as temáticas trabalhadas se fundamentam em teorias psicologias, na qual se adota uma visão psicossocial buscando associar as constituintes sociais e individuais, subjetivas. Deste modo buscamos proporcionar ferramentas para que os jovens compreendam sua relação com constituintes sociais e culturais com fins a reflexão e compreensão de naturalização, ideologias e preconceitos que cercam sua existência (SOLIGO; AZZI, 2008). Esta é a contribuição que a Psicologia pode oferecer a educação e avaliamos que deve ser um compromisso do profissional que se insere neste campo. Como anteriormente citado o encerramento do projeto prevê a realização de uma oficina prática de Grafite, esta culminância da reflexão suscitada nas oficinas ainda não ocorreu. Podemos prever que a realização desta suscitará novos dados possibilitando uma analise mais profunda e rica dos resultados do projeto. Considerações finais Retomando o objetivo do subprojeto de Psicologia PIBID, regional Goiânia, de refletir criticamente a respeito das possíveis contribuições da inserção da Psicologia no Ensino Médio. Podemos refletir, com o desenvolvimento do projeto de intervenção descrito, que a Psicologia tem sim contribuições possíveis para a formação dos estudantes do Ensino Médio. As participações, questionamentos e posicionamentos observados nos alunos durante as oficinas até o presente momento indicam contribuições do projeto para a construção de uma consciência um pouco mais crítica de 11 si e do mundo. Tendo consciência de que há diversos fatores históricos e sociais constituintes do individuo. Quando ouvimos de um estudante que defende a redução da maior idade penal que a discussão suscitada na oficina o fez ouvir outros pontos de visa e pensar, já avaliamos como um resultado positivo, mesmo que as posições e compreensões não tenham se alterado na oficina, a “semente” à reflexão foi plantada e esperamos que germinem a consciência de que as coisas que estão postas no mundo não são naturais e nem sempre foram assim e se fundamentam em ideologias. Deste modo objetivamos plantar a semente de uma formação mais humana e de uma consciência mais autônoma. Com relação à problemática da inserção do licenciado em psicologia no Ensino Médio enquanto disciplina formal, integrando o currículo regular, não indicamos respostas e posicionamentos. O que podemos indicar é que existem outras formas de se inserir na Educação Básica e que podem se mostrar tão formativa ou até mais do que uma disciplina formal e obrigatória. Cabe refletir e discutir sobre essas outras inserções e buscar por sua efetivação na realidade da escola brasileira, visto que a psicologia tem sim, dentro de certos limites, contribuições para uma formação mais humana e cidadã dos estudantes. Bibliografia BRASIL. Conselho Federal de Educação. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Psicologia, estabelecendo normas para o projeto pedagógico complementar para a Formação de Professores de Psicologia. Resolução de nº 5 de 15 de março de 2011. Diário Oficial da União, Brasília, 16 de março de 2011 – Seção 1 – p. 19. EDITAL PIBID/UFG n. 102/2013. Disponível em: http://pibid.prograd.ufg.br/up/296/o/EDITAL_102_Estudantes_PIBID_2013-GoianiaGoias.pdf. Acessado em outubro de 2014. EDITAL 80/2013/PIBID/UFG, Subprojeto de Psicologia PIBID/UFG. Disponível em: http://pibid.prograd.ufg.br/up/296/o/Subprojeto_Psicologia-UFG-GYN.pdf. Acessado em outubro de 2014. MOREIRA, J. O.; ROSARIO, A. B.; SANTOS, A. P. 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