Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 UMA PERSPECTIVA CURRICULAR DE FORMAÇÃO PARA A CIDADANIA NA ÁREA DE CIÊNCIAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL: É POSSÍVEL? Eliane Melo de Matos (Aluna Mestrado PROPEC – IFRJ) Lucilene Aparecida e Lima do Nascimento (Aluna Mestrado PROPEC – IFRJ) Alcina Maria Testa Braz da Silva (IFRJ, Docente e pesquisadora do Programa de Pós Graduação em Ensino de Ciências, Coordenadora do Núcleo RJ do projeto do Observatório de Educação - OBEDUC 2012) RESUMO A partir de uma investigação crítica da Proposta Curricular do Município de Duque de Caxias/RJ para a Educação Infantil este trabalho propõe-se a analisar o conteúdo e a elaboração deste documento, bem como as metodologias utilizadas para a implementação do mesmo nas escolas da rede municipal. Utilizando uma abordagem comparativa, foi feita uma pesquisa qualitativa, mediante análise da primeira Proposta Curricular datada de 2002 e a atual que foi reelaborada em 2012. Tal análise se mostrou relevante devido o uso sistemático de hibridismo nos textos oficiais na área educacional e à preocupação iminente, com a real efetivação da proposta no contexto das práticas escolares em ensino de ciências com vistas a formação cidadã nesta etapa escolar. Palavras-chave: cidadania, currículo, educação infantil, ensino de ciências Considerações Iniciais A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até os seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. (LDB 9394/96, art. 29) O artigo surgiu da necessidade em investigar criticamente a Proposta Curricular para a Educação Infantil do Município de Duque de Caxias/2012. Partiu-se de uma análise documental crítica, utilizando-se de pesquisa qualitativa para comparação da referida proposta buscando compreender os avanços ou retrocessos relacionados à proposta anterior datada de 2002. É importante explicitar a preocupação com a efetivação da proposta no campo da prática para que contribua efetivamente com a aprendizagem significativa das crianças da Educação Infantil do Município, considerando as especificidades desta etapa primordial para o desenvolvimento humano em seus múltiplos aspectos. Neste estudo, a concepção teórica de 1755 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Ausubel foi assumida para compreensão de aprendizagem significativa. Sendo assim, a aprendizagem significativa é o mecanismo humano para adquirir e armazenar uma vasta quantidade de ideias e informações em qualquer campo do conhecimento. (AUSUBEL, 1963, p.58). Foi preciso contextualizar historicamente o campo da Educação Infantil no Município de Duque de Caxias a fim de compreender o percurso de atendimento nesta etapa de escolarização dos alunos de creches (0 a 3 anos) e pré-escolas (4 a 5 anos e 11 meses). Em seguida busca-se contrapor a Proposta Curricular Inicial de 2002 com a atual Proposta recém-elaborada em 2012, analisando criticamente os avanços e retrocessos existentes, assim como o processo de hibridização presente no documento oficial. Finalmente buscamos refletir sobre a importância do ensino de ciências na Educação Infantil percebendo as características imediatamente perceptíveis na Proposta Curricular. Destaque é dado ao longo do texto para a relevância da formação docente, pois este se constitui quanto ator principal da mediação de qualquer trabalho realizado em ambiente escolar e, para que sua atuação seja realmente intencional e refletida faz-se necessário envolvimento constante em situações de interação com seus pares. Histórico da Educação Infantil no Município de Duque de Caxias/RJ Historicamente o município de Duque de Caxias vem acompanhando as transformações no campo da educação Infantil em todo país. A concepção inicial que permeava esta etapa de escolaridade, puramente assistencialista, para a atual concepção, voltada a garantia do direito das crianças a uma qualidade de atendimento na Educação Infantil com vistas à sua aprendizagem. O processo de urbanização, industrialização e crescimento do país na década de 70 contribuiu para o aumento da mão de obra feminina no mercado de trabalho. Tal fator gerou a pressão dos movimentos sociais em busca de um atendimento para os filhos das mulheres trabalhadoras, o que culminou com a instituição de creches populares e escolas para crianças de quatro a seis anos com o apoio do governo. Nesse contexto, a educação é baseava-se na compensação de carências culturais, de deficiências linguísticas e das defasagens afetivas, ou seja, o atendimento é pautado no que se considerava à época, suas necessidades. Nesse período inicia-se no Município de Duque de 1756 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Caxias o atendimento às crianças de 5 e 6 anos, realizado em algumas Escolas Municipais. (DUQUE DE CAXIAS, 2002) Na década de 80, há uma ampliação do atendimento na Educação Infantil às crianças de 0 a 3 anos, com o enfoque da educação voltado para a proteção, a prevenção, no que diz respeito aos cuidados em relação à saúde, à higiene, à alimentação. Com relação ás crianças de 4 a 6 anos, a educação era idealizada enquanto preparatória ao ingresso no ensino fundamental. (DUQUE DE CAXIAS, 2002) As primeiras creches pertencentes ao Município de Duque de Caxias são criadas a partir de 1982, existindo até 1989, quatro creches que eram gerenciadas pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social seu objetivo era atender crianças ditas carentes de 2 a 6 anos de idade, filhos de trabalhadores de baixa renda. (DUQUE DE CAXIAS, 2002) A partir da Constituição Federal de 1988, a educação na faixa etária de 0 a 6 anos em creches e pré-escolas passa a ser responsabilidade do poder público municipal. Conforme determina o artigo 227º: “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação exploração, violência, crueldade e opressão”. (Redação dada Pela Emenda Constitucional nº 65, de 2010) Em função dessa nova orientação a partir de 1989, as creches e pré-escolas passam a pertencer à Secretaria Municipal de Educação, após curto período de acompanhamento pela Secretaria Municipal de Saúde. A fim de orientar o trabalho pedagógico com os alunos desta etapa escolar, cria-se no mesmo ano a Coordenadoria de Ensino na Secretaria Municipal de Educação a fim de planejar e organizar o atendimento aos novos alunos da rede municipal. A partir da década de 90 considerando o que estabelece a Constituição Federal de 1988 reforçada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, que em seu artigo 54 prevê “atendimento em creche e pré-escola às crianças de 0 a 6 anos de idade.” (Lei n°8.069, de 1990); e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (9394/96), que reconhece a Educação Infantil como primeira etapa da Educação Básica e de suma importância ao desenvolvimento humano. A partir de 2000 ocorre a inauguração de 17 creches e em parceria com a Diocese de Duque de Caxias e Secretarias Municipais de Educação e Saúde, surgem as Creches Portais do Crescimento cujo objetivo era minimizar a desnutrição das crianças através do 1757 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 fornecimento de alimentação balanceada para superação da desnutrição infantil entre 1 a 5 anos e 11 meses assim como priorizar ações pedagógicas, visando à socialização e à formação das crianças. Em seguida ocorre a mudança de nome do projeto para Creche e Centro de Atendimento à Infância Caxiense (CCAIC), mas o objetivo permanece inalterado e são inspirados pelas ações governamentais dos Programas Fome Zero e da Desnutrição MaternoInfantil. Ocorre em 2003 a inauguração do primeiro Creche e Centro de Atendimento à Infância Caxiense, no bairro Amapá, seguido da inauguração de cinco CCAIC’s em 2004, nos bairros: Jardim Gramacho, Xerém, Parque Muísa, Jardim Anhangá e Olavo Bilac, finalizando em 2006 com a inauguração do 7º CCAIC em Campos Elíseos. Atualmente a Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias possui 26 unidades que oferecem exclusivamente creche e pré-escola e mais 7 unidades que são os chamados Centros de Atendimento à Infância Caxiense (CCAICs), que além do atendimento pedagógico, como nas creches acompanham o desenvolvimento de crianças com baixo peso de 0 a 5 anos. Há ainda 104 escolas municipais onde ocorre atendimento na idade pré-escolar (turmas de 4 e 5 anos). Segue abaixo, a título informativo, o gráfico1 contendo o comparativo do atendimento na Educação Infantil do Município de Duque de Caxias entre os anos 2009 e 2012. Gráfico 1 1 Gráfico 1 2: Comparativo do atendimento na Educação Infantil 1 Gráfico 1: retirado da Proposta Curricular da Educação Infantil do Município de Duque de Caxias/2012. 1758 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Proposta Curricular Cidadã ou apenas mais um texto híbrido? A primeira Proposta Pedagógica da Educação Infantil (PPEI) no município de Duque de Caxias/RJ surge em 2002. O documento preconiza a necessidade de expressar por escrito uma proposta que, segundo o texto, já vinha sendo realizada na Rede Municipal de Duque de Caxias. Movidos, primeiramente, pela necessidade de expressar uma proposta educacional que há alguns anos vem sendo realizada, percebemos a importância de alargar essas reflexões, aprofundando-nos em alguns pontos que poderão servir como referência e ajuda para todos os profissionais que valorizam a Educação Infantil (PPEI 2002, p.4). Dez anos corridos, no ano de 2012 surge um novo documento, agora denominado de Proposta Curricular Educação Infantil (PCEI). Aqui, a referência que se faz ao documento anterior, evidencia a necessidade de reformulação. Entendemos que o material produzido não era um modelo a ser seguido, um receituário, mas tratava-se da organização de ideias que fundamentavam práticas no trabalho cotidiano das unidades de Educação Infantil e que, permanentemente, poderiam ser analisadas e sujeitas a reformulações e atualizações. Em 2012, retomamos a proposta para apresentá-la aos educadores em um novo momento reflexivo sobre aspectos teóricos e práticos da Educação Infantil (PCEI 2012, p.6). Numa primeira análise, os documentos aparentam uma construção crítica de uma nova concepção curricular. Entre o primeiro e o segundo, na leitura de suas respectivas introduções, é possível perceber motivações e objetivos que diferenciam uma proposta da outra. No entanto, ao folheá-las, embora possuam formatações diferenciadas, suas estruturas textuais são muito semelhantes e muitos dos textos se repetem na íntegra. Essa constatação encaminhou o estudo para descobrir como se deu a elaboração da proposta, o seu caráter híbrido e quais finalidades educacionais são defendidas por ela. A primeira investigação parte nas informações oficiais constantes nas contracapas das propostas. Ambas foram construídas sob a égide do Governo do Prefeito José Camilo Zito. A Equipe de Implementadores da Educação Infantil formada por dez profissionais, quatro nomes se repetem nas propostas. Ressalta-se que em ambas as propostas PPEI/2002 e PCEI/2012, a assessoria foi prestada por Daniela Oliveira Guimarães 3. 3 Possui Graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992), Especialização em Educação Infantil (1995), Mestrado em Educação (1998) e Doutorado em Educação (2008) pela Pontifícia 1759 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Estas informações são de extrema relevância, visto que qualquer currículo educacional é construído a partir de políticas educativas que são colonizadas pelos imperativos das políticas econômicas (BALL, 2001, p.100). Desta forma, toda e qualquer proposta que pretenda ser curricular, estará sempre inundada de caráter político. Toda política curricular é constituída de propostas e práticas curriculares e como também as constitui, não é possível de forma absoluta separá-las e desconsiderar suas inter-relações. Trata-se de um processo de seleção e de produção de saberes, de visões de mundo, de habilidades, de símbolos e significados, portanto, de culturas, capaz de instituir formas de organizar o que é selecionado, tornando-o apto a ser ensinado. (LOPES, 1999, p.111) A repetição dos mesmos “atores” em ambas as propostas levanta a hipótese bem provável que muito do que foi construído na primeira proposta repete-se na segunda, porque a Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias se mantém influenciada, do ponto de vista curricular pela mesma comunidade epistêmica 4. (LOPES, 2006, p.115) A tentativa de se criar uma nova perspectiva curricular não está sendo colocada em dúvida aqui. Ficam claros os objetivos iniciais e a intenção da Equipe em reconstruir a Proposta de forma que possibilitassem às novas classes de Educação Infantil um desenvolvimento curricular mais autônomo. No entanto, isto é contraditório. Em uma década, a PCEI/2012 é um recorte da PPEI/2002, não trazendo as profundas mudanças ocorridas no âmbito educacional neste período. O acelerado desenvolvimento na área tecnológica e na rede de comunicações em geral não é levado em conta em nenhuma das propostas. Como o currículo está impregnado das concepções do grupo que o elabora, a manutenção de praticamente o mesmo grupo no decorrer de dez anos custou a ideia de se criar efetivamente uma nova proposta curricular. Pois, O currículo está implicado em relações de poder, o currículo transmite visões sociais particulares e interessadas, o currículo produz identidades individuais e sociais particulares. O currículo não é um elemento transcendente e atemporal – ele tem uma história, vinculada à formas específicas e contingentes de organização da sociedade e da educação. (MOREIRA; SILVA, 2002, p.7-8) Universidade Católica do Rio de Janeiro. Atualmente é Professora Adjunta da Faculdade de Educação da UFRJ, ministrando a disciplina Prática de Ensino em Educação Infantil. É colaboradora no Curso de Especialização em Educação Infantil da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Atua principalmente nos seguintes campos: Infância, Educação Infantil e Psicologia da Educação. (Fonte: Currículo Lattes) 4 O que distingue as comunidades epistêmicas de outros agentes sociais é o fato de serem constituídas por uma rede de profissionais com perícia e competência reconhecidas em um domínio particular, ao mesmo tempo que reivindicam uma autoridade política relevante em função do domínio que exercem em sua área específica de conhecimento. (SENE, J.E. A Sociedade do Conhecimento e as Reformas Educacionais. 2008). 1760 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Dando continuidade à análise do documento, posteriormente, eles se dedicam a resgatar a História da Educação Infantil, com o mesmo título “História da Infância e da Educação Infantil: Propostas para o Presente”, os textos se repetem. Na PCEI/2012 há recortes da longa PPEI/2002, construindo o que LOPES denomina de recontextualização por processos híbridos. “A recontextualização por processos híbridos de textos e definições curriculares, ao mesmo tempo que se desenvolve por princípios que estabelecem constrangimentos e limitam as leituras a serem realizadas, engendram espaços de conflitos e de resistência que podem ser ampliados.” (LOPES, 1999, p.9) Numa comparação detalhada em ambos os documentos, nota-se que o PCEI/2012 é formado em sua grande maioria por textos constantes na PPEI/2002. Os parágrafos estão ordenados de forma diferenciada, bem como os capítulos. Alguns textos são sutilmente modificados por palavras sinônimas ou mudando a ordem da frase, mantendo o significado original. Este hibridismo é mais presente principalmente quando a proposta se propõe a citar os princípios pedagógicos que norteiam o trabalho docente. “Compromisso com o aprendizado e com a democratização do saber. O acesso ao mundo letrado que nos abre portas para a criação, a imaginação, a produção de ideias e de novas realidades sociais e ambientais.” (DUQUE DE CAXIAS, 2002, p.30) “Acesso ao mundo letrado, valorizando o aprendizado e a democratização do saber, o que abre portas para a criação, a imaginação, a produção de ideias e de novas realidades sociais e ambientais.” (DUQUE DE CAXIAS, 2012, p.30) Muito interessante observar que todas as “falas” dos docentes constantes na PCEI/2012, que serviriam para legitimar uma construção coletiva do documento, são cópias fiéis das entrevistas feitas na PPEI/2002. Será que esses servidores em dez anos possuem a mesma percepção da construção da política curricular da Educação Infantil? Quais são as novas inquietações? O que a proposta de 2002 deixou de contemplar nesta última década? Na PCEI/2012 há um tópico que não encontramos na proposta anterior PPEI/2002 que trata de um levantamento histórico da evolução do atendimento na Educação Infantil no município, os dados estão atualizados até 2012. Uma diferença bastante significativa entre as duas propostas é a ausência da “Organização Curricular” na PCEI/2012. Ela está na PPEI/2002 em sua forma mais clássica, com conteúdos organizados por área disciplinar, legitimada por estar em consonância com os Parâmetros Curriculares Nacionais da Educação Infantil. O fato da proposta atual não trazer 1761 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 esta formatação curricular que engessa a dinâmica nos leva a crer na possibilidade do docente optar por um currículo integrado e interdisciplinar. O processo de recontextualização por processos híbridos caracteriza bem a PCEI/2012, pois ela é uma mera repetição da PPEI/2002, com os textos mais “enxutos”. No entanto, outra preocupação surge no caminhar da pesquisa: como o professor da sala de aula tem acesso a esses documentos? A Rede Municipal de Duque de Caxias, em 2003, providenciou a impressão em gráfica da PPEI/2002, mas em quantidade insuficiente, de forma que poucos profissionais foram contemplados 5. A PCEI/2012 encontra-se disponível no Portal da SME/Duque de Caxias 6, não há previsão para impressão e distribuição do documento entre os professores da Educação Infantil e nem mesmo há divulgação adequada sobre a existência deste documento on line. Ciências na Educação Infantil “No contexto da educação, há uma consciência crescente de que o papel desempenhado pelas ciências acentua a necessidade de oferecer às crianças, desde o nível de educação inicial, uma formação científica que leve devidamente em conta, por um lado, as necessidades e possibilidades de desenvolvimento cognitivo e, por outro, o estado atual e as perspectivas de evolução do conhecimento científico.” (FUENTES, SIMONSTEIN, 2012, p. 13) Em atenção ao reconhecimento dos seus direitos das crianças de 0 a 6 anos, expressos em legislação quanto à educação e ao atendimento em instituições escolares específicas, fazse relevante conhecer a metodologia pedagógica proposta no documento oficial do município relacionado ao ensino de ciências, a fim de perceber se as mesmas contemplam as especificidades da primeira etapa da Educação básica, ou seja, a Educação Infantil. Os princípios pedagógicos propostos no documento partem da valorização da cultura das crianças para nortear o trabalho docente e no que chama de caminho metodológico destaca a importância de “incentivar a curiosidade, a exploração, o encantamento, o questionamento, a indagação e o conhecimento das crianças em relação ao mundo físico e social, ao tempo e à natureza”. (DUQUE DE CAXIAS, 2012 p.30) A proposta destaca ainda a necessidade de 5 6 Fonte: Entrevista com servidores antigos da Rede Municipal de Ensino de Duque de Caxias. smeduquedecaxias.rj.gov.br 1762 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 “promover a interação, o cuidado, a preservação e o conhecimento da biodiversidade e da sustentabilidade da vida na Terra, assim como o não desperdício dos recursos naturais.”. (DUQUE DE CAXIAS, 2012 p.30) Desse modo, os docentes que tiverem acesso a Proposta Curricular serão motivados a trabalhar a partir de uma perspectiva questionadora com seus alunos, entretanto, são desconsiderados no documento oficial da Rede Municipal de Duque de Caxias as realidades precárias de trabalho nas escolas municipais, onde o educador não dispõe de espaço físico para propor atividades diversificadas no cotidiano e, muitas vezes são obrigados a trabalharem em condições sub-humanas devido à falta de água constante nas Escolas Municipais. Acredita-se que uma Proposta Curricular que se pretende cidadã esteja voltada para suscitar a reflexão crítica e, portanto, consciente do educando, estimulando-o a pensar sobre as contradições do sistema hierárquico ao qual estamos submetidos desde a Educação Infantil e, para isso é necessário partir de um debate crítico, a priori com todos os docentes da Rede, garantindo-lhes a participação efetiva no processo de elaboração da Proposta Curricular. “Outra idéia a ser desconstruída é a de que a infância é uma fase propícia para implementar a formação de hábitos de “futuros cidadãos” – como se a criança não fosse cidadã hoje ‐ alternativa de solução para os problemas da educação do país ‐ como se propagou em décadas anteriores – e hoje se propaga em relação aos problemas ambientais.”(DIAS; PEQUENO, 2012, p. 42) Neste sentido é que a abordagem de questões relacionadas ao ensino de ciências na Educação Infantil de modo interdisciplinar pode contribuir para a sensibilização e conscientização. A escola apresenta-se como cenário importante para suscitar questões científicas relativas ao mundo em que vivemos, contribuindo para a compreensão dos alunos como parte integrante da natureza assim como o seu potencial transformador. Para isso faz-se necessário o envolvimento ético de todos os atores sociais, assumindo seu papel de protagonistas no cenário de interlocução, visando (...) desenvolver a consciência dos atuais problemas dos cidadãos, em âmbito sistêmico, e buscar diferentes colaboradores que ampliem os benefícios de uma compreensão do papel da ciência no mundo contemporâneo com uma visão interdisciplinar- e com preocupações éticas e cívicas- são tarefas que exigem envolvimento e ação (KRASILCHICK; MARANDINO, 2007, p.49) Finalmente acredita-se que o trabalho com as Ciências Naturais desde a Educação Infantil deve voltar-se para ampliar as experiências das crianças sobre seu espaço de vivência social e natural e contribuir para a consequente construção de conhecimentos variados, 1763 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 possibilitando que os alunos estabeleçam progressivamente diferenciações entre a existência de explicações míticas, oriundas do “senso comum” e conhecimentos científicos. Considerações Finais Este artigo objetivou suscitar discussões e contribuir para a reflexão das pedagogas atuantes neste município acerca do discurso oficial para a Educação Infantil, por meio de sua Proposta de diretriz Curricular para esta etapa reelaborada em 2012 no município de Caxias/RJ. Percebemos a existência do hibridismo em toda a reformulação da mesma, o que gerou reflexões acerca da década de vazio, dada as escassas alterações documentais. Percebe-se que, apesar da Equipe Organizadora da SME tentar legitimar o processo de elaboração convidando professores representantes para as discussões de reelaboração, estas, foram somente para mascarar todo o processo, dando aspecto de legitimidade à proposta. Caso o documento chegue efetivamente às escolas, que tipo de discurso ele pode contribuir para gerar? Estarão os professores cientes deste hibridismo no documento oficial? Portanto, manifestamos nossa preocupação não somente com a divulgação da Proposta aos professores, como também a necessidade de reflexão coletiva crítica quanto ao seu processo de reelaboração. Outro fator que merece destaque foram às considerações sobre o ensino de ciências na Educação Infantil e se estas estão em consonância com uma perspectiva interdisciplinar, que considere o sujeito em sua totalidade e que parta das suas vivências em busca de uma aprendizagem realmente significativa. 1764 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Referências Bibliográficas AUSUBEL, D.P. The psychology of meaningful verbal learning. New York, Grune and Stratton, 1963. BALL, S. J. Diretrizes Políticas e Globais e Relações Políticas Locais em Educação. Currículo sem Fronteiras, v.1, n.2, pp 99-116, Jul-Dez/2001. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada em 5 de outubro de 1988. 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