0 CENTRO UNIVERSITÁRIO MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ – USJ DÉBORA RAQUEL SCHUTZ A CONSTITUIÇÃO DOS DESENHOS CURRICULARES NO BRASIL, EM UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA São José 2009 1 DÉBORA RAQUEL SCHUTZ A CONSTITUIÇÃO DOS DESENHOS CURRICULARES NO BRASIL, EM UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA Trabalho elaborado para a disciplina de Conclusão de Curso do Curso de Pedagogia, do Centro Universitário Municipal de São José – USJ Profº. Orientador: Dr. Juares da Silva Thiesen São José 2009 2 DÉBORA RAQUEL SCHUTZ A CONSTITUIÇÃO DOS DESENHOS CURRICULARES NO BRASIL, EM UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA. Trabalho de Conclusão de Curso elaborado como requisito final para aprovação no Curso de Pedagogia do Centro Universitário Municipal de São José – USJ. Avaliado, em 8 de julho de 2009, por: __________________________________ Prof. Dr. Juares da Silva Thiesen Orientador __________________________________ Prof. Dr. Sérgio Luiz Ferreira Membro Examinador __________________________________ Prof. MSc. Vera Regina Lúcio Membro Examinador 3 Dedico este trabalho a minha família, que acompanhou todo o processo de minha formação, fortalecendo-me e pacientemente compreendeu minhas ausências. Em especial, a Deus, que me concedeu a vida e a sabedoria. 4 AGRADECIMENTOS Agradeço àqueles que, de alguma forma, colaboraram para a realização desta pesquisa, dentre eles os funcionários da Secretaria do Estado da Educação de Santa Catarina, por colocarem à disposição os documentos necessários para a elaboração do relatório. Agradeço também a todos os professores que passaram por minha formação acadêmica e contribuíram para que eu pudesse alcançar esta conquista. Aos meus colegas e amigos, que, em muitas vezes, ouviram-me compartilhar as dúvidas e experiências desta pesquisa, auxiliando-me a refletir sobre esta caminhada. E, meu agradecimento especial ao professor Juares da Silva Thiesen, que orientou todo o processo de elaboração e realização da pesquisa, contribuindo significativamente para a concretização desta. 5 LISTA DE TABELAS Matriz curricular 1- Proposta de currículo para a escola primária no período de 1549 a 1570...........................................................................................................................................29 Matriz Curricular 2- Proposta para o currículo de acordo com o Ratio Studiorum, no período de 1599......................................................................................................................................30 Matriz Curricular 3 – Proposta elaborada a partir da reforma Pombalina no período de 1772...........................................................................................................................................31 Matriz Curricular 4 – Proposta de currículo para as escolas de primeiras letras no período de 1827...........................................................................................................................................32 Matriz Curricular 5 – Proposta Curricular para o Ensino Primário, no período de 1854.........33 Matriz Curricular 6 – Proposta Curricular para o Ensino Primário, no período de 1879.........33 Matriz Curricular 7 – Proposta Curricular para o Ensino Primário, no período de 1890.........34 Matriz Curricular 8 – Proposta Curricular para o Ensino Primário, no período de 1946.........36 Matriz Curricular 9 – Proposta Curricular para o Ensino Primário, no período de 1961.........39 Matriz Curricular 10- Proposta Curricular para o ensino de 1º grau, no período de 1981.......42 Matriz Curricular 11- Proposta Curricular para o ensino de 1º grau, no período de 1986.......44 Matriz Curricular 12- Proposta Curricular para o ensino fundamental, no período de 1996....46 Matriz Curricular 13- Proposta Curricular para o ensino fundamental, no período de 2006....48 6 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO............................................................................................................. 7 2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS................................................................ 9 3 REFERENCIAL TEÓRICO......................................................................................... 11 3.1 Contextualização do Currículo no Brasil.................................................................. 11 3.2 Contextualização do Currículo para o Ensino Fundamental.................................. 17 3.3 As Matrizes Curriculares do Ensino Fundamental no Período de 1500 à 1960..... 27 3.4 Concepções Curriculares, Legislação e Matrizes Curriculares do Ensino Fundamental Pós Primeira LDB...................................................................................... 4 ALINHAVANDO AS DISCUSSÕES A TÍTULO DE 37 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................................................................... 50 5 REFERÊNCIAS........................................................................................................... 55 ANEXOS..................................................................................................................................57 7 1 INTRODUÇÃO Compreender a complexidade da dimensão curricular no contexto pedagógico e sua relevância na concretização de uma educação encharcada ideologicamente de intencionalidades e que, mesmo assim, valorize e defenda a constituição de sujeitos históricos, sociais, críticos e autônomos, é tarefa essencial para os educadores em processo de formação no século XXI. A escolha do tema de trabalho de Conclusão do Curso (TCC), denominado “A Constituição dos Desenhos Curriculares no Brasil, numa perspectiva histórica”, deve-se fundamentalmente à inquietação da pesquisadora em compreender como essa constituição, no decorrer da história do Brasil, contribuiu para a organização dos atuais currículos que sustentam a educação básica e, em particular, o Ensino Fundamental. Não se justifica qualquer discussão sobre currículo ou teoria curricular sem a contribuição de estudiosos dessa importante e complexa categoria, que ao mesmo tempo abarca tanto a dimensão pedagógica quanto a epistemológica da educação. Tratando-se das questões curriculares, Apple afirma que “A escola não é um espelho passivo, mas uma força ativa, uma força que também serve para legitimar as ideologias e as formas econômicas e sociais tão estreitamente ligadas a ela. E é exatamente essa ação que precisa ser desvendada” (1982. p. 67). A partir de estudos e pesquisas do campo curricular, ainda que empiricamente, foi possível perceber que o currículo é que orienta as práticas escolares e que a ele está vinculada toda uma concepção de sujeito, de mundo, de trabalho e de sociedade. O currículo, em boa medida, determina que sujeito deva ser formado, para quê e para quem. Sendo assim, é realmente necessário que se pense o quanto esse campo é relevante no processo de qualificação da educação e, por isso, justifica a opção por essa temática nesse processo de pesquisa. A influência do currículo na sociedade é tão intensa e determinante, que historicamente ele surge, como afirma Apple (1982), com a perspectiva de controle social de aculturar os imigrantes que chegavam aos Estados Unidos para impedir que os costumes da população nativa fossem reduzidos com a chegada de novos costumes. Outro exemplo que evidencia a influência do currículo na constituição da educação e da sociedade, é o fato de que as grandes reformas nacionais, geralmente eram iniciadas pela mudança no currículo. 8 A teoria curricular fundamenta-se, no Brasil, a partir da década de 20, sofrendo grande influência das concepções americanas predominantes nesse período, sendo essas encharcadas de ideais progressivistas e tecnicistas. Os precursores do campo curricular no Brasil foram os “pioneiros da educação nova”, um grupo constituído por 26 educadores, que, ao realizarem estudos nos Estados Unidos, foram muito influenciados pelos ideais norte-americanos e retornaram ao Brasil dispostos a propor uma reforma educacional, pois acreditavam que muitos aspectos da educação brasileira precisavam ser repensados. É importante ressaltar que as concepções curriculares predominantes, nesse período, ainda eram fortemente influenciadas por modelos europeus. Para consolidar sua proposta, esse grupo de educadores escreveu um documento chamado “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”∗, que circulou, em âmbito nacional, com a finalidade de oferecer diretrizes para uma política de educação. A partir de 1964, o currículo foi introduzido como disciplina nos cursos de nível superior, evidenciando a importância desse campo de estudos para a sociedade. A relevância da abordagem do processo de construção dos desenhos curriculares, para o Ensino Fundamental, no Brasil, como tema do trabalho de conclusão de curso, incluindo a identificação da relação entre o desenho curricular e as aspirações de cada período histórico, deve-se ao fato de que, em nosso País, há uma considerável produção teórica que aborda a teoria curricular, contudo poucas têm analisado a questão da materialização dessas teorias em desenhos curriculares. Esse aspecto, de fato, necessita ser investigado, tendo em vista que é nos desenhos curriculares, que evidenciam-se concepções de educação, sujeito e mundo presentes em diferentes períodos. Seu estudo poderá fornecer subsídios para reflexões acerca da atual conjuntura educacional brasileira. A presente pesquisa tem, pois, a intenção de demonstrar como historicamente se desenvolveu o processo de construção dos desenhos curriculares para o ensino fundamental no Brasil e quais as contribuições desse processo para o currículo atual. Nesse sentido, buscou-se analisar a constituição curricular do Ensino Fundamental no Brasil, a partir de uma perspectiva histórica, identificando suas contribuições para as matrizes curriculares atuais, além de, apresentar e reconstituir as matrizes curriculares do Brasil desde 1500 até os dias atuais. ∗ Esse manifesto foi um documento elaborado por um grupo de treze educadores, no qual foram expressas as reivindicações deles em relação a educação nacional. 9 2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A pesquisa tem um caráter histórico, que busca por meio de obras, documentos e legislações, alcançar os objetivos propostos. Nessa perspectiva, delinearam-se os procedimentos metodológicos a seguir discriminados. Do ponto de vista metodológico, a pesquisa caracterizou-se como um estudo de natureza teórica, tendo em vista que se realizou a partir da busca de documentos e legislação que contemplaram o tema e demais referenciais bibliográficos que possam contribuir para construção da pesquisa. Do ponto de vista dos objetivos, constituiu-se em uma pesquisa exploratória, pois buscou conhecer o fenômeno a ser estudado, evitando-se distorções acerca da realidade. Do ponto de vista temporal, a pesquisa teve o caráter de cortes transversais, entendendo que, por se tratar de uma pesquisa histórica, teve como objetivo dar ênfase a alguns momentos históricos e relacioná-los transversalmente, buscando elementos que contribuíssem para essa análise. O estudo situa-se numa perspectiva histórica que buscou, como fontes teóricas, um conjunto de obras, documentos e legislação, os quais permitissem uma caracterização temporal. Para seu desenvolvimento foram realizados os seguintes passos: * visita à biblioteca da Universidade do Estado de Santa Catarina para aproximar-se da literatura desse campo; * para a contextualização do currículo no Brasil, a pesquisa foi baseada em autores reconhecidos, como Antônio Flávio Moreira; * para o período de 1500 a 1960, fez-se a apresentação dos desenhos curriculares, na forma de adaptação das teorias que abordam esse período, tendo como principal referência Solange Aparecida Zotti; * para o período pós primeira LDB, fez-se a apresentação e análise da teoria curricular, da legislação para esse campo de estudo e dos desenhos curriculares predominantes nesse período, tendo como referência Antônio Flávio Moreira, Mary Rangel e Solange Aparecida Zotti; * visita a Secretaria do Estado da Educação de Santa Catarina, a fim de coletar dados referentes as matrizes curriculares para o Estado, pós primeira LDB; 10 * elaboração do relatório de pesquisa, com base nos resultados encontrados a partir do projeto; * produção de um artigo científico, como síntese do relatório de pesquisa; e * o trabalho encerrar-se-á com a apresentação da pesquisa e seus resultados a uma banca examinadora, como requisito para conclusão do curso de Pedagogia do Centro Universitário de São José. 11 3 REFERENCIAL TEÓRICO 3.1 Contextualização do Currículo no Brasil. A organização curricular no Brasil anterior ao ano de 1920 ainda não estava bem fundamentada, organizava-se a partir de uma proposta tradicional híbrida, em que estavam presentes os princípios positivistas de Pestalozzi, de Hebart e dos jesuítas. Havia uma diferenciação das concepções para a escola elementar e para o ensino secundário, na qual, para escola elementar, acreditava-se que tudo poderia ser ensinado, desde que se utilizassem os métodos adequados já, para o ensino secundário, eram enfatizados currículos enciclopédicos, que se caracterizavam predominantemente pelos estudos literários. Quanto a escolas profissionais, pouquíssimas existiam nesse período. A perspectiva educacional presente no Brasil até a década de 20 é permeada por concepções europeias, que influenciaram desde a dimensão curricular até o próprio processo de ensino-aprendizagem, sendo estes pautados numa educação enciclopédica e retórica. Essas concepções eram “importadas” da Europa e aplicadas no Brasil, sem maiores discussões e aprofundamentos. A partir das mudanças sociais e políticas que vinham se desencadeando nesse período, um grupo de educadores brasileiros, denominado “Pioneiros da Educação Nova”, que influenciados por pesquisas vivenciadas nos Estados Unidos, propuseram uma reforma educacional em âmbito nacional, argumentando que os modelos presentes precisavam ser superados. Dentro dos aspectos contidos na proposta de reforma, estavam as teorias curriculares, que, pela primeira vez, começavam a ser discutidas e repensadas no Brasil. Levando-se em consideração que essas novas perspectivas acerca da educação foram fortemente influenciadas por concepções norte-americanas, faz-se necessário contextualizar as tendências teóricas que permeavam as discussões, neste País, naquele momento. De acordo com Moreira (1999), as teorias educacionais e curriculares de maior influência nos Estados Unidos se fundamentavam em três paradigmas, que estão baseados em uma pesquisa elaborada por Domingues. O primeiro paradigma denomina-se consensual-circular, no qual o currículo centra-se nos alunos e em suas necessidades, que se fundamenta em uma orientação fenomenológica e apresenta seu interesse em compreensão, ou seja, enfatiza a interação entre professores e alunos, defendendo mais aprendizagem e atribuição de significados do que o ensino e os 12 comportamentos previamente determinados; valoriza a participação de alunos e professores nas decisões a serem tomadas; e promove a integração dos conteúdos e os seleciona a partir do que é considerado “bom” ou não de conteúdos pré-determinados. Os autores referenciais são Máxime Greene e Willian Pinar. De acordo com Moreira (1999, p. 55): A proposta de currículos que conciliem a ênfase na experiência infantil com a ênfase nos fins, idéias e valores sociais representadas pela experiência adulta aponta para uma mistura em interesses (práticos e mesmo emancipatórios [...]), mais que para um interesse claramente definido. O segundo paradigma abordado por Moreira é o técnico-linear, que tem como principal característica a ênfase nos objetivos, nas estratégias, no controle e na avaliação, ou seja, nos aspectos técnicos do currículo. Apesar de a ênfase desse paradigma estar centrada no domínio das técnicas, do controle social do comportamento (mesmo que implícito) e de defender que as experiências curriculares ajudem os estudantes a construírem uma visão, cada vez mais, unificada e, assim, unificar seu comportamento, também aborda características de um interesse em compreensão, tais como: a percepção dos alunos como sujeitos ativos no processo, a preocupação com as necessidades e os interesses dos alunos, considerando estas, como uma fonte para se elaborarem os objetivos, defendendo um currículo não por disciplinas, mas um currículo funcional que deverá ser elaborado a partir dos problemas da vida cotidiana. Os principais teóricos que abordam essa teoria são Tyler e Hilda Taba. Conforme Moreira (1999, p. 67): Em síntese, Tyler combina propósitos de desenvolvimento individual, competência social democrática e mudança social que correspondem à tendência progressiva do pensamento curricular, com elementos tomados de empréstimos a Bobbitt, voltados para o desempenho competente e para a manutenção da sociedade existente. O terceiro paradigma apresentado por Moreira é o dinâmico-dialógico, em que está muito presente a dimensão política e ideológica do currículo, dimensões estas não contempladas pelos outros paradigmas, em que se procurou evidenciar a relação entre as questões curriculares e a economia, o estado, a ideologia, o poder e a cultura, em vez de se preocupar com o domínio das técnicas, como planejamento, objetivos, avaliação referentes ao currículo. Para compreender essa relação, é defendido um currículo que promova a conscientização e a constituição de sujeitos críticos, que estejam comprometidos com a criação de uma nova ordem social, acentuando a presença de um interesse emancipatório. Um aspecto dessa teoria questionado por Moreira é que, como os autores críticos não 13 operacionalizam seus ideais de forma a serem compreendidos pelos professores, ou seja, rejeitam o discurso do planejamento e do controle e os modelos de organização curricular relacionados a essa dimensão, acabam dificultando que a prática pedagógica se direcione com base nesse paradigma. Seus principais autores são Henry Giroux e Michael Apple. Segundo Moreira (1999, p. 77): No que se refere ao foco central de nosso estudo, podemos concluir que o paradigma dinâmico-dialógico proposto por Domingues oferece espaço para os autores americanos críticos mais influentes no Brasil nos dias de hoje, bem como para os autores brasileiros que vêm discutindo a questão do conhecimento escolar (conteudistas e educadores populares). O reconhecimento de divergências e diferentes orientações na tendência crítica reforça nosso ponto de vista de que tendências curriculares com conflitos internos são mais reais que tendências monolíticas. Na tendência critica contemporânea essa diversidade é claramente observável. Achamos, porém, que a mesma diversidade, em maior ou menor grau, pode ser encontrada nas demais tendências. Os ideais que circulam por esses três paradigmas estão baseados nas concepções escolanovistas elaboradas por Dewey e Kilpatrick, concepções estas muito presentes nos Estados Unidos nesse período e que acabaram influenciando diretamente as questões curriculares e as concepções de ensino-aprendizagem e educação. Já esclarecidos os principais paradigmas que permearam as discussões acerca de questões curriculares nos Estados Unidos, retornamos a discutir a influência dessas concepções no Brasil, a partir das propostas de reforma defendidas pelos pioneiros da educação. De acordo com Moreira (1999, p. 82), As primeiras infra-estruturas do campo do currículo corresponderam, inicialmente, ás reformas educacionais promovidas pelos pioneiros nos estados e, a seguir, a base institucional do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) e do Programa de Assistência Brasileiro-Americana á Educação Elementar (PABAEE). Os pioneiros contaram com o apoio de duas instituições para construir uma perspectiva curricular para o Brasil, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) e o Programa de Assistência Brasileiro-Americana à Educação Elementar (PABAEE), instituições estas que foram responsáveis pela formação de profissionais no campo curricular, o desenvolvimento de pesquisas, a organização de cursos e o patrocínio para publicação de livros-texto sobre currículo. É importante ressaltar que o INEP fundamentava-se em ideais progressivistas, com base em autores como Dewey e Kilpatrick, e o PABAEE se orientava em uma concepção mais tecnicista. É possível perceber uma relação entre as correntes progressivista e tecnicista 14 no Brasil, aspecto que influenciou os ideais que estavam sendo construídos, no País, nesse período, ou seja, como essas instituições foram as principais responsáveis pela divulgação e formação de profissionais nesse campo, essa elaboração ocorreu baseada em orientações tecnicistas e progressivistas. Um dos grandes colaboradores para o desenvolvimento do campo curricular no Brasil foi Anísio Teixeira, um dos pioneiros da educação nova, que ao propor uma reorganização da instrução pública na Bahia, ele evidenciou que as disciplinas escolares poderiam ser consideradas instrumentos para determinados fins, superando a ideia que elas teriam fim em si mesmas, chamando a atenção para a importância de planejar o currículo, levando-se em conta a realidade dos alunos e suas necessidades, voltando-se tanto para os interesses individuais quanto para os sociais. Segundo estudos de Moreira (1995 apud MOREIRA, 1999, p. 88), “[...] a reforma elaborada por Teixeira na Bahia representou o primeiro esforço para introduzir algumas inovações que iriam mais tarde caracterizar a abordagem escolanovista de currículo e ensino.” Em 1955, foi criado o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), órgão subordinado ao INEP que desenvolveu estudos sobre o conteúdo curricular e promoveu cursos sobre currículo. As Divisões de Treinamento do Magistério (DTM), coordenadas pelo CBPE, ofereceram cursos sobre o planejamento curricular e organizaram escolas experimentais com a intenção de colher elementos sobre currículo e metodologias de ensino. Foi incluída nesses cursos a disciplina de currículo e supervisão, com a intenção de formar especialistas nessa área, evidenciando-se a distinção entre quem planeja o currículo (supervisores) e quem o coloca em prática (professores). A partir da promulgação da primeira Lei de diretrizes e Bases da Educação (LDB), em 1961, a disciplina de currículos e programas foi introduzida nos cursos de ensino superior, evidenciando a influência dos esforços promovidos pelos pioneiros para se pensar o currículo na educação. A LDB de 1961 foi a primeira tentativa de integrar os três níveis de ensino em uma única estrutura, sendo a origem do planejamento sistemático da educação brasileira, definindo também as atribuições do Conselho Federal de Educação e estabelecendo currículos mínimos para os cursos de graduação. Em 1962, foi criada a base universitária do curso de Pedagogia, em que currículos e programas foi considerada como uma disciplina eletiva, voltada para os especialistas em educação. As discussões que permearam esse período também foram influenciadas por perspectivas críticas, fundamentadas principalmente nas ideias de Paulo Freire, defensor de 15 uma educação dialógica, que possibilite a libertação dos oprimidos através da conscientização, fornecendo subsídios para que os educandos reflitam sobre seu papel enquanto sujeitos no mundo e com o mundo, capazes de agir nele e transformá-lo. Freire entendia que a organização curricular, para consolidar-se como instrumento de conscientização, deveria corresponder aos anseios e às necessidades apresentadas pelo grupo de alunos, ou seja, o conteúdo curricular deveria ser pautado nas situações existenciais concretas daquele grupo. Com o golpe de 1964, muitas mudanças aconteceram no cenário Nacional, o poder foi tomado pelos militares, desencadeando um processo de ditadura militar, quando vários setores da sociedade foram modificados com o objetivo de garantir o poder total aos militares e a nova ordem vigente, assim como a racionalização tecnológica de todos os setores sociais visando ao desenvolvimento do País. Nessa perspectiva, a educação também foi reestruturada a partir de algumas mudanças, dentre elas, a ruptura com as concepções criticas que vinham se fundamentando; a forte influência americana para se pensar a organização curricular, sendo essa mediada pelo United States Agency for International Development (USAID); o treinamento de supervisores educacionais que recebiam de forma resumida as instruções teóricas e as repassavam aos professores; a predominância do enfoque tecnicista, aspecto que influenciou diretamente a inserção da disciplina de programas e currículos no ensino superior; e a organização da estrutura escolar como reflexo da estrutura social, ou seja, a fragmentação das funções e a hierarquia de poder dentro da escola, com o objetivo de tornar esse espaço mais eficiente e produtivo. Ressalta-se, ainda, a grande preocupação dos militares com o ensino secundário e profissionalizante, refletindo o “eficientismo” norte-americano, como afirma Moreira (1999). Nesse período, são infiltrados, no campo curricular, com uma ênfase maior, os ideais progressivistas defendidos por autores como Tyler, Taba, Alexander, Saylor, Ragan e Fleming. Esses aspectos evidenciam que o discurso curricular brasileiro não foi marcado simplesmente por uma transferência educacional de concepções norte-americanas, principalmente as concepções tecnicistas, pelo contrário, demonstram que essas discussões foram permeadas pelo encontro de teorias norte-americanas com a realidade educacional brasileira, suas particularidades e seus pesquisadores que reconstruíram as influências norteamericanas a partir dos elementos apresentados aqui no Brasil. Por volta de 1974, sob a presidência de Geisel, o Brasil começa um processo de reconstrução da democracia e descompressão política, em que novas perspectivas para o 16 currículo começam a surgir. A partir da década de setenta, o campo curricular passa a ser influenciado mais por fatores sociais e processuais do que pelos internacionais, evidenciandose o caráter nacionalista que essas discussões são retomadas. Juntamente com a reabertura política do País, desenvolveram-se, no Brasil, teorias curriculares de caráter mais crítico, em que são questionados os aspectos presentes na tendência escolanovista, sendo eles extremamente técnicos e metodológicos, pois, de acordo os teóricos progressistas da pedagogia crítico-social dos conteúdos, dentre eles, Dermeval Saviani e José Carlos Libâneo, essa ênfase tecnicista contribuiu para desqualificação da educação popular e acabou por reduzir as possibilidades do currículo. Nessa perspectiva, a tendência crítico-social dos conteúdos propôs uma nova concepção de currículo e educação, em que deveria estar baseada na transmissão dos conhecimentos socialmente construídos, visando à possibilidade de a classe popular ter elementos teóricos suficientes para perceber sua condição social e modificá-la. Evidenciando a ênfase conteudista dessa tendência. Por outro lado, Paulo Freire também defensor de uma perspectiva crítica de educação, opõe-se a essa tendência, em que argumenta que transpor a ênfase nas técnicas para a ênfase nos conteúdos escolares, pouco pode contribuir de fato para a educação popular, pois desconsidera a realidade e os conhecimentos desse grupo de sujeitos, marginalizando-os, ainda mais, do processo educativo. Para Freire, a organização curricular deve estar pautada na realidade do grupo de alunos e valorizar os conhecimentos da cultura popular, para, então, alcançar um conhecimento diferente, completando, assim, o ciclo gnosiológico. A partir de todas essas discussões acerca da questão curricular no Brasil, em que muitos teóricos têm se esforçado para construir concepções curriculares brasileiras, que considerem a realidade que faz parte desse contexto, procurou-se repensar, também, o papel do Estado nesse processo, inclusive no que diz respeito à qualificação do ensino público e às implicações do currículo para que ocorra essa qualificação. Com base em estudos desenvolvidos por Siumara Quintella e Miriam Utsumi (2008), é possível perceber que essas discussões a respeito do campo curricular influenciaram fortemente a administração pública brasileira, representada pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), nas décadas de 80 e 90, principalmente nesta última década, na qual o MEC, com auxílio de estudiosos desse campo, elaborou um documento curricular oficial, chamado Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), com o objetivo de fornecer uma proposta curricular consistente e flexível para a educação brasileira. 17 A elaboração dos PCN foi um dos grandes movimentos nacionais que repensaram o papel do currículo na história da educação brasileira, assim como a reforma proposta pelos Pioneiros da Educação Nova e a consolidação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Por fim, esse foi o primeiro passo para as discussões acerca da constituição dos desenhos curriculares no Brasil, numa perspectiva histórica. A continuidade dessa discussão irá se desencadear nos tópicos seguintes, com o objetivo de construir uma produção mais aprofundada, que forneça subsídios para se pensarem as contribuições das produções teóricas desse campo, historicamente, para a atual conjuntura educacional brasileira. 3.2 Contextualização do Currículo para o Ensino Fundamental. A organização curricular que prevalece hoje no Brasil, no que diz respeito à organização espaço temporal, dividindo a educação básica em Ensino Fundamental e Médio é muito recente, determinada a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação n. 9394/96. Pesquisas realizadas no campo curricular demonstram que o ensino fundamental, historicamente, foi relegado a segundo plano pelos grupos que eram responsáveis pela organização educacional, aspecto que se torna evidente ao se analisarem as propostas dos desenhos curriculares, para o ensino fundamental, no Brasil no período de 1500 a 1900. Nesse período, o número de propostas para essa modalidade de ensino eram insuficientes e, ainda, as propostas criadas não conseguiam se concretizar por diversos motivos, dentre eles, a falta de interesse da elite em financiar o ensino fundamental. Um dos fatores que influenciou diretamente essa realidade foi o fato de que, nesse período, não era de interesse dos grupos dominantes uma educação voltada para o ensino popular, pois se entendia que o ensino inicial, como a aquisição da leitura, da escrita e dos cálculos, era papel da família, ou seja, a elite preocupava-se exclusivamente com a preparação de seus filhos nos colégios secundários, para torná-los aptos a continuarem seus estudos na Europa. Infelizmente, essa era a realidade educacional predominante nesse período, em que a educação era financiada e organizada pelos grupos dominantes e estava a serviço somente dessa parcela da sociedade. 18 Com a intenção de explicitar essa problemática serão expostas, neste texto, as concepções de ensino fundamental predominantes, em cada período da história do Brasil, e os principais responsáveis pelo financiamento educacional, de acordo com cada conjuntura histórica. Cabe ressaltar que os períodos da história brasileira aqui apresentados se constituem em Brasil Colônia, Brasil Império e Primeira República. O período de 1500 a 1822, conhecido como Brasil Colônia, é caracterizado pela dependência econômica e política do Brasil em relação a Portugal. Nesse contexto, Portugal, enquanto país colonizador tinha como objetivo explorar o território conquistado, impor a ideologia dominante aos que aqui habitavam e povoar esse território. Nessa perspectiva, a educação popular pouco interessava ao Império português, pois não era de interesse da metrópole o financiamento para uma efetiva instalação da escola primária universal, tendo em vista que o conhecimento deveria ser dominado somente por aqueles que dirigiam a sociedade. A principal intenção do governo de Portugal, no que diz respeito à educação na Colônia, resumiu-se a catequização dos índios, visando a sua aculturação e adaptação aos costumes civilizados e ao financiamento do ensino secundário, aspecto predominante na educação jesuítica, que tinha como função preparar a elite para concluir seus estudos na Europa. De acordo com Zotti (2004, p. 215), Podemos constatar que as políticas educacionais, especialmente a organização curricular advinda destas, no período colonial, atenderam aos interesses econômicos dominantes. O currículo cumpria seu objetivo à medida que, construído no modelo europeu, traduzia a concepção de mundo do colonizador formando o dirigente para manutenção da sociedade de acordo com seus interesses, especialmente econômicos. Portanto, estender o ensino a maioria da população nunca interessou a aristocracia agrária, que via seu papel restrito a educação da elite. Ao analisar a realidade educacional do Brasil nesse período, pode-se constatar que não havia propostas que pensassem ou discutissem questões curriculares, principalmente no que diz respeito ao ensino elementar. As poucas discussões que se desencadeavam estavam mais preocupadas com a catequização dos índios e preparação da elite do que em construir uma proposta curricular sólida. Essa análise evidencia o quanto o currículo para o ensino fundamental pouco interessava ao império português. Em 1822, o Brasil se torna independente de Portugal, dando inicio ao período denominado de Brasil Império. No inicio do século XIX, o mundo passou por diversas transformações ocasionadas pela Revolução Francesa, sendo que em 1807, Portugal é 19 invadido pelas tropas francesas e a família Real se vê obrigada a fugir para o Brasil, sob a proteção e o apoio da Inglaterra, em troca da abertura dos portos. Com a chegada e a instalação da nobreza portuguesa no Rio de Janeiro, constitui-se outro modo de organização no que diz respeito à relação Portugal/ Brasil, agora o Brasil deixa de ser uma simples Colônia e passa a ser o refúgio da Família Real. Nessa perspectiva, passa a ser de interesse da Corte investir na educação brasileira, ainda que a ênfase tenha sido dada aos cursos de nível superior, privilegiando-se a educação da elite, como destaca Romanelli (1998 apud ZOTTI; 2004, p. 35): “A preocupação exclusiva com a criação do ensino superior e o abandono total em que ficaram os demais níveis de ensino demonstra claramente esse objetivo, com que se acentuou uma tradição – que vinha da colônia – a tradição da educação aristocrática”. Mais uma vez, a educação popular foi desconsiderada, pois, para atender às necessidades da Corte, o Ensino Superior e Secundário (em forma de aulas régias) foram os níveis de ensino que receberam maior atenção e investimento. O ensino primário continuou reduzido a aprender a ler, escrever e contar. Nesse período, houve um discurso sobre a necessidade de construir um projeto sólido de educação para garantir a grandeza da nação. Nesse sentido a Constituição de 1824 (ZOTTI, 2004) determinou que a instrução primária deveria ser direito de todos os cidadãos. Porém, como a lei não estabeleceu metas para o cumprimento dessa determinação, o quadro em que a educação se encontrava não se alterou, mantendo-se a educação a serviço de uma minoria privilegiada. O Decreto Imperial, de 15 de outubro de 1827 (ZOTTI, 2004) determinava que, em todas as cidades, vilas e lugares populosos, deveriam ser criadas escolas de primeiras letras. Essa foi a primeira iniciativa do governo em relação à estruturação da educação elementar e a única até 1946. Apesar de ser uma determinação legal, esse decreto não conseguiu se efetivar, mantendo-se a mesma organização educacional elitizada, que predominava até então. Nesse período, outras iniciativas foram tomadas, visando à universalização do ensino primário, tais como: o Ato Adicional de 1834; o Decreto n. 1331, de 1854; e a reforma Leôncio de Carvalho, em 1879 (ZOTTI, 2004). Porém, essas iniciativas se mantiveram somente no papel, pois o governo pouco se movimentou para torná-las efetivas. Novamente se pôde perceber que as discussões que envolviam questões curriculares estavam direcionadas para o ensino superior e secundário, ou seja, o currículo para o ensino das primeiras letras pouco era discutido e problematizado, mantendo-se em segundo plano. 20 O período conhecido como Primeira Republica teve seu inicio em 1889 e só foi desencadeado pelas necessidades de o Estado se reorganizar e se adequar às exigências que as transformações mundiais exigiam, consolidando o modo de produção capitalista. A elite cafeeira teve grande participação nesse processo, contando com o apoio da classe média urbana. Nesse contexto, as aspirações mediante a sociedade também se modificaram, aspecto que estimulou uma tentativa de mudança na orientação econômica, com o incentivo a industrialização, assim como outras perspectivas para educação nacional, com propostas de redução do analfabetismo e extensão da escola elementar a toda população. O perfil de desenvolvimento do Brasil, nesse período, acabou se voltando para um modelo ruralístico, devido às pressões das oligarquias cafeeiras, que determinaram o rumo de desenvolvimento do País de acordo com seus interesses. Nessa perspectiva, a industrialização já não era mais o foco, servindo apenas para manipular e explorar a riqueza produzida pela terra, enquanto as atividades agrícolas eram consideradas o ápice da economia. Sendo assim, a efetivação de uma educação de direito de todos os cidadãos, com o objetivo de reduzir o analfabetismo e a preparar mão de obra qualificada também deixou de ser de interesse do governo. Como afirma Zotti (2004, p.67), “Para os defensores dessa sociedade, a educação continuava sendo um artigo de luxo restrito às classes favorecidas, sendo privilegiado, portanto, o ensino secundário e superior em detrimento da expansão do ensino primário.” A Constituição de 1891 (ZOTTI, 2004), define as atribuições dos Estados e da União em relação à legislação e ao financiamento da educação nacional, determinando que a) à união competia privativamente legislar sobre o ensino superior na capital da república, cabendo-lhe, mas não privativamente, criar instituições de ensino secundário e superior nos Estados e prover a instrução no Distrito Federal: b) aos Estados se permitia organizar os seus sistemas escolares completos: c) no Distrito Federal, pertencia o ensino superior á alçada do governo do país, a que se facultava, mas não se impunha, prover a instrução nos graus primário e médio (AZEVEDO, 1976 apud ZOTTI, 2004, p. 68) Ao analisar essa Constituição, fica claro que a preocupação da União, no que se refere a educação nesse momento, estava muito mais vinculada ao Ensino Superior do que ao Ensino Primário. Esse aspecto se torna evidente, também, nas propostas de reforma do ensino nesse período, pois a reforma Benjamin Constant foi a única que atingiu o ensino primário; enquanto, para o ensino secundário, foram propostas cinco reformas (Benjamin Constant – 21 1890; Epitácio Pessoa – 1901; Lei Orgânica Rivadávia Correia – 1911; Carlos Maximiliano – 1915; e João Luís Alves - 1925). Após esse período o Brasil presencia uma nova organização social, tendo como Presidente Getúlio Vargas. Esse período ficou conhecido como Estado Novo, e foi marcado pelo ideal nacional-desenvolvimentista, em que o modelo econômico presente era o de “substituição de importações”. Uma ênfase muito forte foi dada no desenvolvimento industrial, aspecto que influencia diretamente a função da educação, que passou a ser vista como meio para alcançar o desenvolvimento industrial e econômico do País. Em 1931, ocorreu a reforma Francisco Campos, que criou o Conselho Nacional de Educação e propôs diretrizes para o ensino superior e secundário, porém essa reforma não alcançou o ensino primário, que mais uma vez foi desconsiderado. Nesse período houve uma grande mobilização, por parte dos intelectuais da educação, a fim de reivindicar melhorias na qualidade do ensino, reformulação da prática pedagógica, que deveria estar pautada nas concepções da Escola Nova. Essa mobilização resultou na elaboração de um documento chamado “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”. Somente em 1946, com a Reforma Capanema, é que foi proposta uma reestruturação do ensino primário, em que se procurou concretizar, como iniciativa do governo, diretrizes gerais para esse nível de ensino, instituindo o ensino primário gratuito e obrigatório. Essa reestruturação foi baseada nos ideais escolanovistas. Em 1961, foi promulgada a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que teve como função legislar sobre todos os níveis de ensino, inclusive o ensino primário. Essa Lei representou um grande avanço na história da educação brasileira, pois foi a primeira iniciativa, por parte do Estado, para criar uma legislação própria para a educação. Quanto ao ensino primário, a Lei definiu como objetivos, para esse nível de ensino, o desenvolvimento do raciocínio e das atividades de expressão da criança, além da sua integração no meio físico e social (ZOTTI, 2004). No que diz respeito ao currículo, a LDB se apresentou mais flexível do que as Leis anteriores, apresentando apenas algumas diretrizes gerais, que foram determinadas por três partes: uma nacional, indicada pelo Conselho Federal de Educação; uma estadual, determinada pelos Conselhos Estaduais de Educação; e uma escolar, formada pelas matérias que as escolas escolhessem a partir de listas oferecidas pelos conselhos estaduais ou federal. Logo após a promulgação dessa Lei, ocorreu o golpe militar de 1964, que provocou uma nova mudança na configuração da educação brasileira. As concepções que vinham se construindo, até então, foram substituídas por uma concepção tecnicista de educação e 22 currículo com o objetivo de satisfazer as aspirações dos militares em relação à educação, que passou a ser vista como meio de controle social e manutenção da ordem militar vigente. Nessa perspectiva, o ensino primário acaba sendo deixado de lado novamente, pois a preocupação dos militares, no que diz respeito à educação, estava voltada para o ensino profissionalizante e superior, tendo em vista que a principal intenção dos militares era de garantir um desenvolvimento econômico, baseado na “Teoria do Capital Humano”, sendo assim, era necessário qualificar os jovens e adolescentes para o mercado de trabalho. O interesse dos militares, no que se refere ao ensino primário, residia no fato de ser estimulada a privatização do ensino, aspecto que se torna evidente ao analisarmos a organização e distribuição dos recursos financeiros para a educação, em que a maioria das verbas estavam comprometidas com o setor privado, além da oferta de bolsas de estudo e descomprometimento com a educação pública. De acordo com Zotti (2004, p.141): Na área educacional, apesar das reformas, o Estado se descomprometeu gradativamente de financiar a educação pública; os recursos estavam comprometidos com o capital privado, repassando, ainda assim, verbas para as escolas particulares. A grande parcela da população nem sequer tem acesso à escola básica, enquanto a iniciativa privada domina o pré-escolar, cresce no 2º grau e é majoritária no ensino superior. Em 1971, foi promulgada a Lei n. 5692/71, essa Lei é considerada um marco na história da educação brasileira, pois organizou todo o sistema de ensino que vigora até a LDB de 1996, desenvolvendo a estrutura curricular de modo tão detalhado que definiu inclusive como as disciplinas, atividades e áreas de estudos deveriam ser trabalhadas e organizadas. Os aspectos abordados por essa Lei, no que se refere ao ensino primário, se constituem em determinar um currículo pleno que dê as bases nacionais para organização dos sistemas de educação e garantir o oferecimento obrigatório desse nível de ensino, tendo em vista que o governo militar procurava solucionar o problema relativo à demanda de vagas para o ensino superior e, para isso, era preciso equacionar as problemáticas do ensino de 1º e 2º graus juntamente com a reforma universitária (ZOTTI, 2004). Outro ponto que influenciou o governo militar a valorizar o ensino de primeiro grau, tornando-o obrigatório de quatro para oito anos, foi o fato de o Brasil apresentar um alto índice de analfabetismo histórico, pois, até então, a educação fundamental vinha sendo relegada a segundo plano e privando muitos cidadãos do direito de acesso à educação pública. Como um dos objetivos dos militares era o de desenvolvimento econômico do país, era necessário investir na educação e garantir a preparação de mão de obra qualificada, sendo que 23 os organismos internacionais já vinham pressionando o governo para que os índices de analfabetismo fossem reduzidos. Nessa perspectiva, o currículo para o ensino de primeiro grau nesse período, ainda esteve sob forte influencia de concepções tecnicistas de currículo e educação e também de teorias psicológicas de desenvolvimento, sendo Piaget o teórico mais influente nesse momento. As reformas realizadas posteriormente à Lei n. 5692/71 se constituíram em reformulações dessa Lei, sendo elas a Lei n. 7044/82, que reformulou aspectos referentes à educação profissional, ou seja, teve maior repercussão no ensino de segundo grau, e o I Plano Nacional de Desenvolvimento da Nova República aprovado pela Lei n. 7489/86. Essa última Lei se desenvolveu no período de fim da ditadura e reabertura política do país, ou seja, os ideais abordados estavam pautados no principio de democratização da educação e da sociedade. Nessa perspectiva, uma das intenções do governo era de garantir a qualidade da educação e a universalização do ensino, principalmente, do ensino de primeiro grau. A Constituição Federal de 1988, que também foi elaborada nesse período de redemocratização do País, definiu alguns aspectos referentes à educação nacional, que evidenciam a necessidade de universalização e qualificação da educação, inclusive do ensino fundamental. Segundo o art. 205 do Capítulo III, Seção I, da Constituição, a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Em se tratando exclusivamente do ensino fundamental, o artigo 208 dessa Constituição, define o ensino fundamental, como obrigatório e gratuito, inclusive para aqueles que não tiveram acesso na idade própria, assim como subsídios financeiros e didáticos para o atendimento do educando do ensino fundamental por meio de programas suplementares que ofereçam material didático-escolar, transporte, assistência a saúde e alimentação. Nos parágrafos 1º, 2º e 3º, do artigo citado acima, a Lei enfatiza o acesso obrigatório e gratuito ao ensino fundamental, como direito público subjetivo, e ainda, argumenta que o nãooferecimento do ensino obrigatório ocasiona a responsabilidade à autoridade competente. A Lei afirma que compete ao Poder Público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a chamada e zelar, com o auxílio dos pais ou responsáveis, pela frequência à escola. No que se refere ao currículo para o ensino fundamental, a Lei estabelece, em seu Art. 210, que serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar 24 a formação básica comum e o respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais. O parágrafo 2º desse mesmo artigo define que o ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurando às comunidades indígenas o direito de respeitar a sua língua materna. Quanto ao financiamento da educação básica, a Lei afirma que os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no Ensino Fundamental e Médio, sendo que a educação básica pública atenderá, com prioridade, o ensino regular. O artigo 214 da Constituição Federal de 1988 define que a Lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração plurianual, visando à articulação e ao desenvolvimento do ensino, em seus diversos níveis, e à integração das ações do Poder Público com o objetivo de erradicar o analfabetismo; universalizar o atendimento escolar; melhorar a qualidade de ensino; a formação para o trabalho; e a promoção humanística, cientifica e tecnológica do País. Em continuidade a esse processo o Brasil participou da “Conferência Mundial de Educação para Todos”, realizada em Jomtien, na Tailândia, em 1990. Essa conferência esteve baseada na preocupação internacional com o ensino fundamental e na luta pela satisfação das necessidades básicas de aprendizagens para todos. Com o objetivo de atender aos compromissos estabelecidos na Conferência, o Ministério da Educação e do Desporto elaborou o “Plano Decenal de Educação para Todos” que teve, como cronograma, o período de 1993 a 2003. Nesse plano, a ênfase dada à qualificação e universalização do ensino fundamental marcou a nova configuração da educação brasileira, em que a educação básica, como direito de todos, que já vinha sendo buscada a partir da década de 60, mas foi interrompida pela ditadura militar, torna-se pauta nas discussões governamentais. No que se refere ao currículo para o ensino fundamental: O Plano Decenal de Educação, em consonância com o que estabelece a Constituição de 1988, afirma a necessidade e a obrigação de o Estado elaborar parâmetros claros no campo curricular capazes de orientar as ações educativas do ensino obrigatório, de forma a adequá-lo aos ideais democráticos e à busca da melhoria da qualidade do ensino nas escolas brasileiras (PARAMETROS CURRICULARES NACINAIS, 1997, p.15). Em 20 de dezembro de 1996, foi aprovada a Lei Federal n. 9394, que se constituiu na nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Esse documento, baseado na Emenda Constitucional n. 14, de setembro de 1996, priorizou o ensino fundamental, disciplinando a 25 participação de Estados e Municípios no tocante ao financiamento desse nível de ensino (PARAMETROS CURRICULARES NACIONAIS, 1997). A LDB, de 1996, ampliou a educação básica, passando essa a ser constituída pelos níveis: educação infantil, ensino fundamental e ensino médio. De acordo com o art. 23, do Capítulo II da LDB, de 1996, a educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudo, grupos não-seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios. A Lei ainda definiu que a carga horária mínima anual será de oitocentas horas, distribuídas em duzentos dias letivos. No que diz respeito, exclusivamente, ao ensino fundamental, a LDB/96 definiu o ensino fundamental com duração mínima de oito anos, obrigatório e gratuito, na escola pública, sendo a matrícula obrigatória a partir dos sete anos de idade e facultativa a partir dos seis anos. O ensino religioso é de matrícula facultativa e é assegurado o respeito á diversidade cultural brasileira e da comunidade atendida. A organização curricular, segundo a LDB, será composta por uma base comum, definida pela União, que tem como objetivo propiciar a todos a formação básica comum, através de diretrizes estabelecidas em colaboração entre os Estados, os Municípios e a Federação, que nortearão os currículos e seus conteúdos mínimos. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997, p. 16): [...] a LDB consolida a organização curricular de modo a conferir uma maior flexibilidade no trato dos componentes curriculares, reafirmando desse modo o principio da base nacional comum, a ser complementada por uma parte diversificada em cada sistema de ensino e escola na prática, repetindo o art.210 da Constituição Federal. Em complemento a essa Lei, o governou elaborou um documento denominado “Parâmetros Curriculares Nacionais”, que, baseado nas propostas curriculares dos Estados e Municípios brasileiros, na análise dos currículos oficiais e das informações relativas a experiências de outros países, produziu os parâmetros nacionais para as questões curriculares da educação brasileira. A versão preliminar desse documento foi apresentada em 1995/1996 e passou por um processo de discussão em âmbito nacional, presenciado por docentes das universidades públicas e privadas, técnicos de secretarias estaduais e municipais de educação, de instituições representativas de diferentes áreas do conhecimento, (PARAMETROS CURRICULARES NACIONAIS, p.1997). especialistas e educadores 26 Em 1997, foi publicada a versão revisada dos “Parâmetros Curriculares Nacionais”, com o objetivo de qualificar o ensino fundamental, auxiliando os educadores a formularem os projetos das escolas nas quais atuam, fornecendo subsídios teóricos no campo curricular que sejam flexíveis o suficiente para levar em conta as especificidades de cada região e garantindo a todos os cidadãos brasileiros o direito de acesso aos conhecimentos socialmente construídos. Esse documento também evidencia a preocupação do governo com a qualificação e universalização do ensino fundamental, inclusive no campo curricular, pois esse documento procura “[...] uma referência curricular comum para todo o País, ao mesmo tempo que fortalece a unidade nacional e a responsabilidade do Governo Federal com a educação [...]” (PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS, 1997, p.36). Em 6 de fevereiro de 2006, foi promulgada a Lei Federal n. 11.274 que alterou a redação de alguns artigos da LDB/96 e definiu o ensino fundamental de nove anos. Essa alteração já vinha sendo construída desde 2001, que, com a aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), estabeleceu o Ensino Fundamental de nove anos como meta para a educação nacional. Essa modificação, na estrutura do ensino fundamental, acarretou modificações também na organização curricular desse nível de ensino, pois o ingresso no ensino fundamental passou a ser da criança que completa seis anos de idade até o dia 1º de março do mesmo ano de ingresso, e os componentes curriculares devem levar em consideração as especificidades desses sujeitos. Nesse sentido, o MEC elaborou um documento denominado: “Ensino Fundamental de nove anos: orientações para a inclusão da criança de seis anos”, com o intuito de fornecer subsídios teóricos que auxiliem a prática pedagógica nos anos iniciais e respeitem as especificidades da infância, assim como garantir a implantação do Ensino Fundamental de nove anos. Com base nesse apanhado histórico, pode-se perceber que o ensino fundamental passou a ser valorizado e problematizado, a fim de garantir a qualidade e universalização desse nível de ensino, somente a partir da primeira LDB, de 1961, processo que acabou sendo interrompido com o Golpe Militar de 1964, pois os ideais dos militares não consideravam como prioridade o ensino primário e estavam pautados na concepção de que a escola e o currículo deveriam ser voltados para o mercado de trabalho, e sua organização também deveria seguir os moldes do eficienticismo capitalista e a rígida organização hierárquica das funções sociais e escolares. 27 Em 1971, foi retomado o processo de expansão do ensino fundamental devido às mudanças na configuração da sociedade e as exigências internacionais no que se refere à educação. Com a reabertura política do País esse processo foi se intensificando, aspecto evidente nas propostas legais de 1986 assim como na Constituição Federal de 1988. A “Conferência Mundial de Educação para Todos”, que aconteceu em 1990, dá continuidade a esse processo de universalização e qualificação do ensino fundamental, estabelecendo metas para garantir esses objetivos. Em continuidade a esse processo, todas as medidas tomadas pelo governo, frente o ensino fundamental e sua organização curricular, têm sido para expandir, qualificar e garantir o acesso de todos a esse nível de ensino. Enfim, é possível perceber que a valorização do ensino fundamental é um aspecto muito recente, que passou a ter força, principalmente, a partir da década de 90, e ainda tem muitas conquistas a realizar. 3.3 As Matrizes Curriculares do Ensino Fundamental no Período de 1500 a 1960 A presente pesquisa se propõe a apresentar a constituição das matrizes curriculares no Brasil, desde sua colonização até os dias atuais. Essa apresentação organizar-se-á em dois períodos, sendo o primeiro de 1500 a 1960; e o segundo, no período pós 1960. Neste tópico, discutiremos o primeiro período. É importante ressaltar que, no decorrer da pesquisa, tem-se a intenção de verificar os referenciais conceituais de currículo que permearam cada período histórico, mesmo que, em alguns momentos, esses referenciais estejam implícitos nos desenhos curriculares e, em outros momentos, não se possa ter clareza de em qual concepção a proposta esteve embasada. Com o objetivo de esclarecer que o conceito de currículo historicamente foi sendo construído a partir de diferentes olhares, faz-se necessário definir as concepções de currículo que permeiam as discussões que fundamentam essa pesquisa. O currículo possui várias definições, cada uma delas parte de perspectivas diferentes. De acordo com Juares Thiesen, a conceitualização de currículo se organiza a partir de três enfoques predominantes, que se constituem em currículo visto como principio educativo, como linhas ideológicas ou como processos sócio-culturais em construção; currículo visto como projeto ou planejamento das atividades educativas; e currículo visto como prática, conjunto de experiências atividades ou execução de processos educativos. 28 O primeiro enfoque é representado por autores como Smith, Stanley, Shores, Berman e Apple e suas principais características se delinearam a partir da concepção de currículo como área que deve determinar as direções das tendências da educação, orientar os programas escolares para o futuro, na busca de acompanhar as transformações do mundo e criar acesso ao conhecimento e a tradição, principalmente, às áreas que têm sofrido com a tradição seletiva. O segundo enfoque tem como principais representantes Taba, Goodlad, Anderson, Alexander, Krug e Tomaz Tadeu da Silva. As características desse enfoque se constituem em pensar o currículo como um plano para aprendizagem e que tudo que se sabe sobre o processo de aprendizagem e o desenvolvimento do ser humano devem contribuir para sua elaboração, além da concepção do currículo como cérebro de um programa escolar. Enfim, esse enfoque valoriza as estratégias, os conhecimentos psicológicos e os conhecimentos escolares, como partes constituintes da elaboração curricular. O terceiro enfoque, elaborado por Thiesen, é representado pelos teóricos Kilpatrick, Bobbit, Caswell, Campbell, Rugg, Ragan, Anderson, Fleming e Doll. Esses estudiosos definiram currículo como uma sucessão de experiências escolares, capaz de desenvolver a consciência de grupo, ou, ainda, todas as experiências vivenciadas pelos sujeitos. Esses autores entendem o currículo como as experiências desenvolvidas pelos indivíduos, no espaço escolar, e enfatizam que essas experiências deverão desenvolver conhecimentos e habilidades na vida desses sujeitos. Mesmo a partir dessas discussões, considera-se que o ponto central do currículo escolar está em definir um curso ou uma carreira que irá, de certa forma, contribuir para formar determinado sujeito. Essa é a dimensão ideológica do currículo, as concepções de homem e de mundo que permeiam a elaboração do currículo, com certeza, influenciarão na formação desses sujeitos. Nessa perspectiva, a matriz curricular representa a materialização dos paradigmas curriculares, dando forma ao aspecto ideológico dos mesmos. A presente pesquisa busca, então, abordar a construção das matrizes curriculares no Brasil desde sua colonização. Nesse movimento, foi possível perceber que, mesmo antes de ser colonizado, no Brasil, já havia um currículo, que estava baseado na educação indígena, na qual se aprendia fazendo, nas relações entre homens. A primeira matriz curricular sistematizada presente no Brasil se inicia com a educação jesuítica a partir de 1549, comandada pelo Padre Manuel da Nóbrega, onde o objetivo inicial era a catequização dos índios, e posteriormente a formação da elite. Já, no ano de 1570, 29 criaram-se colégios nos centros urbanos mais importantes, compreendendo o Ensino de Primeiras Letras, Ensino Secundário, Ensino Superior e excluiu-se a Educação Profissional. Matriz curricular 1- Proposta de currículo para a escola primária, no período de 1549 a 1570 EDUCAÇÃO DIRIGIDA AOS MAMELUCOS, ÓRFÃOS, INDÍGENAS E OS FILHOS DOS COLONOS BRANCOS: AQUELES QUE SE DESTACAVAM NOS ESTUDOS RECEBIAM UM ENSINO DIFERENCIADO: Doutrina Cristã Ensino da gramática latina Bons costumes Aos demais: Primeiras letras Ensino profissional: Ensino do português Agrícola *Canto orfeônico e música instrumental, como componentes opcionais. Manufatureiro Fonte: adaptado de Zotti (2004, p. 18 e 19) Em 1570, após a morte de Nóbrega, a Companhia de Jesus incentivou a criação de colégios nos centros urbanos mais importantes da faixa litorânea, com a intenção de trabalhar a educação das elites burguesas, preparando-as para “exercer a hegemonia cultural e política da Colônia, conforme os interesses de Portugal”. (ZOTTI, 2004, p. 19). Essa nova proposta de educação se organizava em Ensino das Primeiras Letras; Ensino Secundário; e Ensino Superior. A primeira grande reforma curricular no Brasil foi o Ratio Studiorum, cuja ideologia visava à preparação da elite para manutenção do controle e do poder perante a sociedade. Conforme Xavier (1994 apud ZOTTI, 2004, p. 21): Essa afirmação deixa explícito que a educação era pensada a partir de um mundo pronto, perfeito e objetivava adequar o homem a essa visão. Nesse mundo perfeito, “a cada um o que é de direito e vontade dos desígnios divinos”, portanto, a educação pertencia àqueles que tinham o que fazer com ela, aos nobres e à alta burguesia, para continuar seu papel de dirigentes da sociedade. É nesse sentido que se dá o trabalho mais marcante dos jesuítas no Brasil, a formação das elites e das lideranças da sociedade colonial, para que a consolidação da cultura católica fosse garantida. 30 Matriz Curricular 2 - Proposta para o currículo, de acordo com o Ratio Studiorum, no período de 1599 CURSO ELEMENTAR: CURSO DE HUMANIDADES Ler, escrever Arte acabada da composição e da escrita CURSO SUPERIOR (TEOLOGIA E ARTES) Retórica Contar Humanidades Doutrina religiosa católica Ensino literário de base clássica Gramática Fonte: adaptado de Zotti (2004, p. 21 e 22) É necessário ressaltar que o foco desta pesquisa é o curso elementar apresentado no primeiro bloco dessa matriz curricular, porém optou-se por apresentar os demais níveis de ensino nessa matriz, tendo em vista que esclarece as orientações do Ratio Studiorum no que se refere à organização educacional. A proposta defendida pelos jesuítas, para organização curricular com base no Ratio Studiorum, foi considerada, segundo Ponce (1990 apud ZOTTI, 2004, p. 21); “a mais perfeita organização que se conhece para quebrar nos alunos o mais tímido assomo de independência pessoal”. Vale ressaltar que a proposta curricular do Ratio Studiorum era tão detalhada que previa desde a posição das mãos dos alunos até o modo de levantar os olhos. Em 1772, ocorreu a Reforma Pombalina, quando o Marquês de Pombal modificou as matrizes curriculares, deixando para trás todo modelo que os jesuítas haviam construído, recomeçando a educação no Brasil sobre outras bases. Da retirada dos jesuítas à Reforma Pombalina, foram 13 anos de abandono da educação. Os ideais que fundamentaram essa reforma estavam baseados no Iluminismo, momento em que a razão está em oposição à religião, levando-se em conta que a modernidade exigia novas perspectivas. Como afirma Carvalho (1999 apud ZOTTI, 2004, p. 25): As Reformas Pombalinas tiveram por objetivo a recuperação econômica de Portugal e uma das ações foi a modernização do ensino e da cultura portuguesa, objetivando a formação do nobre, para que atendesse aos interesses do Estado, podendo este até ser cristão. Isso demonstra que não foi simplesmente um intento anti-religioso, mas “a remodelação dos métodos educacionais vigentes, pela introdução da filosofia moderna e das ciências da natureza em Portugal. 31 Matriz Curricular 3 – Proposta elaborada a partir da Reforma Pombalina no período de 1772: ENSINO ELEMENTAR: Aulas de primeiras letras Gramática Latim Grego Fonte: adaptado de Zotti (2004, p. 28 e 29). Na reforma da matriz curricular, alguns aspectos não foram implantados, como o ensino das línguas, a formação profissional e o estudo das ciências, devido à resistência de Portugal em implantar essas inovações na Colônia, pois essa seria uma formação voltada para a elite, classe social, que poderia completar seus estudos na Europa. É importante ressaltar que a consolidação das disciplinas como Retórica, Hebraico, Matemática, Filosofia e Teologia, foi muito precária, tendo em vista a escassez de recursos, o despreparo dos docentes e a inexistência de um currículo regular com objetivos claramente definidos. Em 15 de outubro de 1827, foi aprovado o primeiro Decreto Imperial para a educação, que definiu a instalação das Escolas de Primeiras Letras, nos lugares populosos que fossem necessário, essa iniciativa demonstrou uma idéia de democratização de ensino, mas o que na realidade, não ocorreu. A matriz curricular das escolas de primeiras letras consistia em ensinar a ler, escrever, as quatro operações e noções de geometria aos meninos; e, as meninas, em vez de noções geometria, aprendiam-se prendas domésticas. Em 1854, há uma reforma nas escolas de primeiras letras, que se inspira no modelo francês, dividindo o ensino em elementar e superior. 32 Matriz Curricular 4 – Proposta de currículo para as escolas de primeiras letras no período de 1827 AOS MENINOS: ÀS MENINAS: Ler e escrever Ler e escrever As 4 operações aritméticas As 4 operações aritméticas Prática de quebrados, decimais e proporções Prendas domésticas e boas maneiras Noções gerais de geometria prática Gramática da língua nacional Gramática da língua nacional Princípios da moral cristã e doutrina católica Princípios da moral cristã e doutrina católica Fonte: adaptado de Zotti (2004, p. 40) É interessante ressaltar que o projeto elaborado por essa Lei não conseguiu se efetivar. De acordo com Azevedo (1976, apud ZOTTI, 2004, p.41), “Os resultados [...] dessa lei que fracassou por várias causas, econômicas, técnicas e políticas, não corresponderam aos intuitos do legislador: o governo mostrou-se incapaz de organizar a educação popular no país.” No ano de 1854, foi aprovada a Reforma Couto Ferraz, que estabelecia a obrigatoriedade do ensino elementar, reforçava a obrigação do Estado em relação ao financiamento da educação, vetava o acesso de escravos ao ensino público e previa a criação de classes especiais para adultos (ZOTTI, 2004). 33 Matriz Curricular 5 – Proposta Curricular para o Ensino Primário, no período de 1854 O ENSINO PRIMÁRIO COMPREENDE: PODE COMPREENDER TAMBÉM∗: Instrução moral e religiosa Desenvolvimento da aritmética em suas operações práticas Leitura explicada dos evangelhos e noticias da História Sagrada Elementos da história e da geografia (principalmente do Brasil) Princípios das ciências físicas e de história natural (aplicáveis aos usos da vida) Ao sexo feminino, seria incluído: bordados e trabalhos de agulha mais necessários Leitura e escrita Noções essenciais de gramática Princípios elementares da aritmética Sistemas de pesos e medidas do Município Fonte: adaptado de Zotti (2004, p. 42) Essa proposta também não conseguiu se efetivar, pois não pôde contar com o apoio do governo, que não tinha interesse em financiar o ensino primário, já que considerava que essa era uma obrigação da família, ou seja, a elite recebia o ensino básico em casa e se preparava, para o Ensino Superior, nos colégios de Ensino Secundário, ficando o povo à margem do direito à educação. No ano de 1879, ocorreu a reforma organizada pelo ministro Carlos Leôncio de Carvalho. Esse ministro foi considerado o inovador do ensino mais audacioso do período do Império (ZOTTI, 2004), essa reforma propôs um ensino baseado nos princípios liberais dos Estados Unidos, nas concepções de Rousseau, um ensino igual para ambos os sexos e o direito à educação para os escravos. A matriz curricular apresentava características positivistas, com ênfase no cientificismo. Matriz Curricular 6 – Proposta Curricular para o Ensino Primário, no período de 1879 ENSINO PRIMÁRIO Leitura e escrita Noções essenciais de gramática Princípios elementares da aritmética Ênfase no ensino de ciências Canto e música Ginástica Desenho Fonte: adaptação de Zotti (2004) e Machado (s.d.) ∗ Matérias com caráter opcional. 34 Cabe ressaltar que, assim como nas outras propostas que se desenvolveram nesse período, no que se refere ao ensino primário, essa Reforma também não conseguiu ser instaurada, pois dependia da aprovação do Poder Legislativo, que desconsiderou as propostas defendidas pela reforma, reforçando o posicionamento do governo em relação ao ensino primário. Conforme Zotti (2004, p. 43): O Império relegou o ensino primário ao descaso completo, ficando as poucas tentativas de aperfeiçoamento reduzidas a leis que nunca foram cumpridas. O currículo aplicado, no sentido do prescrito para ser ensinado, nunca passou de aulas de leitura, escrita e cálculo. De fato, a elite nunca teve interesse por esse nível de ensino, e o povo...ora, para que educar o povo... A Reforma de Benjamin Constant, em 1890 já, na Primeira República, estabeleceu a mudança do ensino primário dividindo-o em dois graus de ensino, que compreendiam sete anos de estudos, correspondendo à idade de 7 a 13 anos e 13 a 15. Essa reformulação se fundamenta em uma abordagem positivista, na qual são introduzidas disciplinas cientificas na matriz curricular e sua efetivação ocorreu somente no Distrito Federal, naquela época, localizado no estado do Rio de Janeiro. Matriz Curricular 7 – Proposta Curricular para o Ensino Primário, no período de 1890 ENSINO PRIMÁRIO – 1º GRAU: ENSINO PRIMÁRIO – 2º GRAU∗: Instrução moral e religiosa Português Leitura e escrita Álgebra Noções essenciais de gramática Trigonometria Princípios elementares da aritmética Direito Pátrio Sistema de pesos e medidas do Município Economia Geografia e História (principalmente do Brasil) Desenho Instrução Moral e Cívica (passa a substituir a educação religiosa em ambos os graus) Trabalhos manuais Agronomia Fonte: adaptado de Zotti (2004, p. 71) ∗ O 2º grau aqui, corresponde a segunda etapa do ensino primário, sendo freqüentado por alunos de 13 à 15 anos. 35 É importante salientar que, das várias Reformas que ocorreram nesse período, essa foi a única que contemplou o ensino primário, mesmo que sua proposta se restringisse ao Distrito Federal. Esse aspecto se torna evidente, também, nas propostas de reforma do ensino, nesse período, pois a reforma Benjamin Constant foi a única que atingiu o ensino primário, enquanto, para o ensino secundário, foram propostas cinco reformas (Benjamin Constant – 1890; Epitácio Pessoa – 1901; Lei Orgânica Rivadávia Correia – 1911; Carlos Maximiliano – 1915; e João Luís Alves - 1925). Sendo assim até 1920, o ensino primário se resumiu a leitura, escrita e cálculo. Conforme Zotti (2004, p. 82): O ensino primário, durante esse período, continuou sendo ignorado pelo governo federal. A Reforma Benjamin Constant foi a única que atingiu o ensino primário, porém, não entrou em vigor por diversos motivos, entre eles os recursos financeiros e a orientação pedagógica duramente criticada. A reforma apontou para a formação cientifica, pensada com base no modelo pedagógico de Comte. Contudo, essa proposta não vigorou, pois se constituiu simplesmente no acréscimo de disciplinas cientificas ás humanidades, tornando o plano de estudos enciclopédico, além de não respeitar as próprias orientações de Comte. O século XX marcou, no Brasil, uma ruptura em relação à organização políticoeconômica que constituía as bases da organização social agrária, dirigida pelas oligarquias cafeeiras, dando lugar ao novo modelo, o modelo urbano industrial, que se fortaleceu influenciado pelas transformações sociais que o mundo construía a partir da Revolução Industrial. Nesse contexto, a classe dirigente, no Brasil, reconfigura-se com a saída das oligarquias cafeeiras do poder e a entrada da classe média, representada pelos tenentes. Na busca por um desenvolvimento industrial do país, a educação passa a ser vista como meio para se atingir esse desenvolvimento, sendo que no que se refere ao ensino primário estava muito longe de alcançar esse objetivo. Segundo Chagas (1980 apud ZOTTI; 2004, p. 73), “O censo de 1920 revela uma situação alarmante: de 6.582.017 crianças em idade escolar, apenas 1.249.449 (19%) recebiam algum ensino, e já não se negava que 75%dos adolescentes e adultos eram analfabetos.” Houve, também, nesse período, uma forte mobilização dos intelectuais da área da educação, que insatisfeitos com o descaso do Estado em relação ao processo educativo, elaboraram um documento chamado “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”, no qual propuseram reestruturações de ordem teórica e pedagógica para o sistema de educação brasileiro. 36 Mesmo com toda essa preocupação em investir na educação, visando ao desenvolvimento econômico do Brasil, só, em 1946, com a Reforma Capanema, é que houve uma ação concreta por parte do Estado para qualificar e universalizar o ensino primário. A Lei Orgânica do Ensino Primário foi a única desde o decreto de 1827, que se preocupou em oferecer diretrizes gerais para esse nível de ensino. Essa lei estava fortemente influenciada pelos ideais escolanovistas proclamados pelos Pioneiros da Educação. Essa reforma dividiu o ensino primário em fundamental e supletivo, sendo que o fundamental compreendia crianças de 7 a 12 anos e era organizado em quatro anos de curso elementar e um ano de curso complementar que deveria ser preparatório ao exame de admissão no ginásio. Já o supletivo, era destinado a adolescentes e adultos que não haviam participado desse nível de ensino em idade adequada, correspondendo a dois anos de estudo (ZOTTI, 2004). Matriz Curricular 8 – Proposta Curricular para o Ensino Primário, no período de 1946 CURSO PRIMÁRIO ELEMENTAR: CURSO PRIMÁRIO SUPLETIVO: Leitura e Linguagem oral e escrita Leitura e Linguagem oral e escrita Iniciação á matemática Aritmética e Geometria Geografia e História do Brasil Geografia e História do Brasil Desenho e trabalhos manuais Ciências Naturais e Higiene Canto orfeônico Desenho Educação Física Noções de direito usual (legislação do trabalho, obrigações da vida civil e militar) Economia Doméstica e Puericultura, só para os alunos do sexo feminino. Conhecimentos gerais aplicados á vida social, á educação para a saúde e o trabalho. Fonte: adaptado de Zotti (2004, p. 116) A partir dos pontos abordados, pode-se perceber que todo currículo elaborado e implantado, no Brasil, no período do século XV a XX, foi baseado na ideologia da classe dominante, atendendo às necessidades e aspirações desta classe, mantendo a hegemonia cultural, e voltado para uma educação elitista. Praticamente, não houve uma mobilização concreta para a democratização do ensino, nem almejava-se uma matriz curricular com conhecimentos que fossem significativos e pudessem contribuir para o dia a dia dos sujeitos, pelo contrário, mantinha-se a exclusão da maioria da população, sendo que a matriz curricular visava à formação clássica. 37 Como afirma Zotti (2004, p. 213), Ao examinarmos os diferentes períodos da historia do Brasil e, consequentemente, sua educação, verificamos que desde os jesuítas esta foi conduzida pela ótica da classe dominante, de acordo com seus objetivos econômicos e políticos, com o fim de dar uma resposta às suas necessidades. Nesse contexto, as definições curriculares oficiais tiveram por objetivo fazer cumprir, na prática, as concepções dominantes. Constatamos que a organização escolar brasileira, por meio de diversos mecanismos, entre eles as definições curriculares oficiais, historicamente negou à grande maioria de seus cidadãos o direito ao conhecimento. Ressaltando ainda o controle e a falta de autonomia dada ás escolas: Com essas orientações, há um completo controle da organização curricular das diversas escolas. Por mais que o discurso presente nos documentos fosse o de autonomia na escolha da parte diversificada, pouco sobrou para as escolas decidirem (ZOTTI, 2004, p. 224). Sendo assim, percebe-se que, apesar de, por 400 anos, a educação ser discutida e reformulada no Brasil, ainda há muitos pontos a serem revistos para que a educação possa cumprir sua função social, e o primeiro deles é deixar de manter a hegemonia cultural. O tópico seguinte se propõe a apresentar e analisar as matrizes curriculares a partir de 1960, com o objetivo de dar continuidade a essas discussões e realizar um aprofundamento maior em relação a esse período da história da educação brasileira. 3.4 Concepções Curriculares, Legislação e Matrizes Curriculares do Ensino Fundamental Pós Primeira LDB As concepções curriculares que nortearam esse período da história brasileira vieram sendo construídas com base em diversas teorias, sendo que cada uma delas refletia o desenvolvimento intelectual e social que o Brasil se encontrava. Primeiramente, as concepções curriculares estavam baseadas na teoria da Educação Nova, aspecto evidenciado pelos ideais dos pioneiros da educação. Esses teóricos foram os primeiros a questionar a estrutura educacional vigente e a propor mudanças significativas. A reestruturação do ensino fundamental, assim como de toda a educação em geral, passou a receber uma atenção maior do Estado a partir desse período, principalmente pelo 38 grande avanço industrial que a sociedade estava passando, exigindo uma nova configuração da educação, como afirma Zotti (2004, p. 133), Nesse contexto, o ensino primário também passa a ser fundamental, pois até então nenhuma iniciativa havia sido tomada. Com o desenvolvimento industrial, a educação primária, juntamente com os diversos cursos profissionalizantes, começa a fazer sentido em virtude da necessidade de mão-de-obra minimamente qualificada. Essa preocupação fica evidente ao analisarmos a criação de novas leis que visavam à expansão do ensino e a forte mobilização teórica que permeou esse período. Em 1945, com o fim do Estado Novo, foi eleita uma Assembleia Constituinte que elaborou e aprovou a nova Constituição promulgada em 18 de setembro de 1946. Essa constituição define que é obrigação do Estado fixar e legislar sobre as “diretrizes e bases da educação nacional” (ZOTTI, 2004). De acordo com Zotti (2004, p. 117), “Esse dispositivo constitucional foi o passo fundamental para a construção de uma lei única com o papel de regular para todo o território nacional a educação em todos os níveis e formas”. Nessa perspectiva, pode-se perceber a relevância dessa iniciativa para a educação brasileira, tendo em vista que ela define o papel do Estado em legislar, oferecer diretrizes e suporte financeiro para todos os níveis de ensino, inclusive, o ensino primário, rompendo com a realidade vivenciada até então, em que eram privilegiados os níveis de ensino que atendiam às necessidades da classe dominante, enquanto eram desconsideradas as necessidades da população em geral. A elaboração da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) se desencadeou a partir de 13 anos de discussões e disputas, sendo promulgada em 20 de dezembro de 1961. Essa legislação definiu como objetivos do ensino primário o desenvolvimento do raciocínio e das atividades de expressão da criança, e sua integração no meio físico e social (ZOTTI, 2004). A LDB, no que diz respeito à organização curricular, manteve a estrutura da Reforma Capanema, determinando que o ensino primário tivesse duração de quatro anos, podendo abranger também o ensino complementar, que teria duração de mais dois anos. A Lei ofereceu diretrizes gerais para esse nível de ensino, ficando assim organizado: 39 Matriz Curricular 9 – Proposta Curricular para o Ensino Primário, no período de 1961 ENSINO PRIMÁRIO Leitura e Linguagem oral e escrita Aritmética Geografia e História do Brasil Ciências Desenho Canto orfeônico Educação Física Educação Religiosa (facultativa) Fonte: adaptado de Zotti (2004, p. 119) Em 1964, com o golpe militar, a estrutura social se reconfigura, agora o autoritarismo dos militares é que define os rumos do desenvolvimento do País, inclusive da educação. Nessa perspectiva, a educação passa a ter outro foco, o de descomprometimento, por parte do Estado com a educação, na busca da privatização dessa área. Segundo reflexões de Germano (1994 apud ZOTTI, 2004, p.141), Na área educacional apesar das reformas, o Estado se descomprometeu gradativamente de financiar a educação pública: os recursos estavam comprometidos com o capital privado, repassando, ainda assim, verbas para as escolas particulares. A grande parcela da população nem sequer tem acesso à escola básica, enquanto a iniciativa privada domina o pré-escolar, cresce no 2º grau e é majoritária no ensino superior. O período ditatorial rompeu com toda construção teórica, metodológica e legal que os grupos de intelectuais lutaram para conquistar até esse período. As concepções curriculares escolanovistas vão sendo substituídas por concepções tecnicistas de currículo, em que o eficienticismo técnico da produção capitalista invade também o espaço escolar. Em 1967, foi elaborada uma nova Constituição, no campo da educação, que reafirmou alguns princípios da LDB, de 1961, e antecipou alguns aspectos que fundamentaram as propostas posteriores. No que diz respeito às disciplinas curriculares, o Decreto n. 869/69 enfatizou a obrigatoriedade da Educação Moral e Cívica (EMC), em todos os níveis de ensino, evidenciando o objetivo dos militares perante a educação, ou seja, o papel da escola 40 passou a ser o de restabelecer a ordem e a tranquilidade, homogeneizar os estudantes, visando à submissão ao regime político. Para completar o propósito dos militares referentes à educação, em 1971, foi elaborada a Lei n. 5692/71, que reorganizou toda estrutura educacional do Brasil. Essa Lei procurou ajustar compativelmente os três níveis de ensino de acordo com a realidade brasileira, principalmente, a realidade econômica. A reforma proposta por essa Lei organizou o ensino em 1º e 2º graus, sendo o primeiro grau correspondente ao ensino primário e o segundo grau correspondente ao ensino secundário. Outro aspecto reformulado por essa proposta foi que o ensino obrigatório que antes era de quatro anos, agora passa a ser de oito anos. Essa preocupação com o ensino de 1º grau se deve ao fato de os militares objetivarem a construção de um Brasil-potência, estabelecendo convênios com organismos internacionais procurando concretizar esse objetivo. Como o ensino primário, até então, havia sido relegado a segundo plano, a realidade educacional brasileira estava muito distante das exigências internacionais no que diz respeito aos índices de analfabetismo e à instrução mínima da população. Por isso, os militares precisavam reestruturar o ensino primário, buscando alcançar o maior número de pessoas possíveis na escola, reduzir o analfabetismo e preparar minimamente a mão de obra qualificada para inserção no mercado de trabalho que deixou de ser ruralistico e passou a se configurar como urbano industrial, já a partir de 1920. Nesse contexto, o Brasil recebeu apoio técnico da Agency For International Development (AID) por meio de convênios estabelecidos entre o MEC e USAID. Esse apoio se caracterizou por cursos e preparação de especialistas na área curricular, além de oferecer uma formação voltada para a concepção tecnicista de educação. A Lei n. 5692/71 foi um marco da história da educação brasileira, sendo que as propostas de matrizes curriculares, até a reformulação da LDB, em 1996, foram baseadas nessa Lei. Os objetivos do ensino presentes nessa Lei estão baseados no paradigma tecnicista de educação, voltadas para o mercado de trabalho e paradigmas psicológicos das fases do desenvolvimento humano. De acordo com Rangel (1990, p. 37), [...] o objetivo geral do ensino de 1º e 2º graus, refere-se de acordo com o Artigo 1º da Lei 5692/71, ao desenvolvimento de potencialidades como elemento de autorealização, qualificação para o trabalho e preparo para o exercício consciente da cidadania; o geral se desdobra nos específicos de 1º grau, formação da criança e do pré-adolescente, variando em conteúdo e métodos segundo as fases de desenvolvimento dos alunos; e de 2º grau, formação integral do adolescente. 41 A organização curricular, a partir dessa Lei ficou definida com base em três grandes eixos: o núcleo comum, a parte diversificada e a educação especial. O currículo foi estruturado dessa forma, pois se considerava que os conhecimentos socialmente construídos organizados e distribuídos no núcleo comum não dariam conta da formação plena do cidadão, por isso se elaborou uma matriz curricular que alcançasse vários âmbitos da formação, com ênfase na formação para o trabalho. O núcleo comum, determinado pelo Conselho Federal de Educação, é composto por grandes linhas a partir das quais “já que nos compete formular apenas um mínimo, possamos chegar ao destaque de partes sem retirá-las funcionalmente do seu todo natural” Parecer 853 (1971 apud RANGEL, 1990, p. 39). A parte diversificada, de responsabilidade do Conselho Estadual de Educação, que se constitui em conteúdos que “visam atender, conforme as necessidades e possibilidades concretas, às peculiaridades locais, aos planos dos estabelecimentos e às diferenças individuais” (idem). A educação especial, também determinada pelos Conselhos Estaduais de Educação, caracterizou-se pelo desenvolvimento de aptidões e pela iniciação para o trabalho. É importante ressaltar que as instruções para organização da matriz curricular se delineavam tecnicamente, de modo tão detalhado, que estabeleciam a forma como os conteúdos deveriam ser trabalhados, “a partir do mais para o menos geral, do menos para o mais específico” (PARECER 853, 1971 apud RANGEL, 1990, p. 38). Outros aspectos sugeridos pelo parecer, no que diz respeito à prática pedagógica, abordavam que as atividades, áreas de estudos e disciplinas se desenvolveriam sobre as experiências colhidas em situações concretas, estabelecendo a forma de trabalho das atividades, disciplinas e áreas de estudos, conforme as especificidades de cada modalidade. Enfatizava que o relacionamento, ordenação e seqüencia dos conteúdos curriculares de acordo com as fases de desenvolvimento dos alunos é fundamental para a elaboração do currículo pleno. Esse ponto evidencia a forte influência da teoria construtivista de Piaget para o processo pedagógico nesse período. A partir dessas definições, a matriz curricular ficou desenhada dessa forma: 42 Matriz Curricular 10 - Proposta Curricular para o ensino de 1º grau, no período de 1981 MATÉRIA COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO COMPONENTE CURRICULAR -Língua Portuguesa 1ª serie X 2ª série X 3ª série X 4ª série X 5ª série 5 6ª série 5 7ª série 4 8ª série 4 -Educação Artística X X X X 2 2 1 1 -Educação Física X X X X 3 3 3 3 _ _ 2 2 -Estudos Sociais 5 5 4 4 -História 2 3 2 2 -Geografia 3 2 2 2 -Organização Social e Política do Brasil -Educação Moral e Cívica -Ensino Religioso _ _ _ 1 _ _ 1 _ 1 1 1 1 3 3 3 3 4 4 4 4 2 2 2 2 25 25 25 25 -Língua Estrangeira Moderna. -Integração Social ESTUDOS SOCIAIS -Iniciação a Ciências e Programas de Saúde CIÊNCIAS X X X X X X X X X X X -Ciências e Programas de Saúde -Matemática FORMAÇÃO ESPECIAL CARGA HORÁRIA X -Iniciação para o trabalho Total Semanal X 20 X 20 X 20 X 20 Fonte: Decreto n. 13.474, de 13 de março de 1981, fornecido pela Secretaria do Estado da Educação de Santa Catarina. Um dos aspectos marcantes dessa proposta é que o objetivo central da educação, nessa concepção, era voltado para as necessidades do mercado de trabalho, principalmente nas séries finais do 1º grau. Toda estrutura do ensino fundamental era pensada visando a atender as expectativas da sociedade capitalista, por isso a ênfase na concepção tecnicista de educação. Em 1982, é elaborada a Lei n. 7044/82, que redefine algumas determinações da Lei 5692/71. Dentre as modificações estão a substituição do termo “qualificação para o trabalho”, por “preparação para o trabalho”, no qual os argumentos abordados pela Lei são o de reconfigurar a distinção entre educação geral e formação especial na definição do currículo pleno, entendendo que não se trata de qualificar para o trabalho, mas de alcançar a formação integral dos sujeitos, inclusive a preparação para o trabalho. De acordo com as contribuições de Brasil (1982 apud ZOTTI , 2004, p. 195), 43 [...] a preparação para o trabalho fosse entendida como componente da “formação integral” do aluno, como uma “educação para a vida”, obrigatória e indissociável dos planos curriculares do 1º e do 2º graus: a preparação para o trabalho constitui-se em atividade que perpassa toda a vida escolar, abrangendo atitudes, habilidades, hábitos, posturas, envolvendo todos os membros da escola e extrapolando seus limites, estendendo-se á comunidade com a qual procurará harmonizar-se. Essa Lei influenciou mais profundamente o currículo de 2º grau, pois, antes, era obrigatório o ensino profissionalizante nesse grau de ensino e, agora, passou a ser opcional, o aluno pode escolher entre cursar o ensino profissionalizante (formação profissional) ou a educação geral no 2º grau. É importante ressaltar que, como o foco desta pesquisa é o ensino fundamental, esse aporte legal pouco interferiu na estrutura da matriz curricular, para o ensino de 1º grau, baseada na Lei n. 5692/71. Nesse período já se encaminhava no Brasil, um processo de redemocratização, e em 1985 é derrubada a Ditadura Militar. Nesse contexto em 1986 com base no parecer n. 785/86 do Plano de Educação Básica da Nova República, é alterado o núcleo comum da matriz curricular elaborado a partir da Lei n. 5692/71. O “I Plano nacional de Desenvolvimento da Nova República” (ZOTTI, 2004) foi aprovado, em 6 de junho de 1986, e baseado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação apontava como objetivos a universalização do ensino de 1ª grau, a ampliação e qualificação do 2º grau, redimensionar as modalidades supletiva e especial de ensino, melhorar os padrões de desenvolvimento acadêmico, integrar a educação física e o desporto no processo da educação, utilizar recursos tecnológicos para fins educativos e redefinir as competências institucionais nos exercícios dos encargos públicos (ZOTTI, 2004). O argumento utilizado para essa modificação está pautado em teorias criticas da educação, tais como: a “Pedagogia Revolucionária” e a “Critico-Social dos conteúdos”, que passaram a ter um maior espaço frente às discussões educacionais e começaram a questionar o tratamento dado aos conteúdos, no qual eles teriam um fim em si mesmo, dissociados da realidade. Segundo Rangel (1990), outro aspecto que influenciou a reestruturação do núcleo comum da matriz curricular foi o Aviso Ministerial n. 911/86, no qual se apresentava a insatisfação da sociedade no que se refere ao ensino e aos currículos. O Aviso também enfatizava a necessidade de recuperar a qualidade no ensino de Língua Portuguesa e Matemática. 44 Dentre as principais mudanças ocasionadas por esse parecer, destacam-se a introdução do Português e da Matemática como categorias de matérias, a recomendação do ensino de uma língua estrangeira moderna, a partir da 5ª série, o ensino de Filosofia no 2º grau e destaque das funções da preparação para o trabalho, a critério da escola (RANGEL, 1990). Matriz Curricular 11 - Proposta Curricular para o ensino de 1º grau, no período de 1986 COMPONENTE 1ª 2ª 3ª 4ª 5ª 6ª 7ª 8ª MATÉRIA CURRICULAR serie série série série série série série série LÍNGUA -Domínio da língua X X X X X X X X PORTUGUESA materna referentes à matemática X X X X X X X X -Educação Artística X X X X 2 2 1 1 COMUNICAÇÃO -Educação Física X X X X 3 3 3 3 E EXPRESSÃO -Língua Estrangeira 2 2 2 2 -Estudos Sociais 5 5 4 4 -História 2 3 2 2 -Geografia 3 2 2 2 ESTUDOS -Organização Social e _ _ _ 1 SOCIAIS Política do Brasil _ _ 1 _ 1 1 1 1 3 3 3 3 2 2 2 2 25 25 25 25 -Conhecimentos MATEMÁTICA Moderna. -Integração Social X X X X -Educação Moral e Cívica -Ensino Religioso X X X X -Iniciação a Ciências e X X X X Programas de Saúde -Ciências e Programas de CIÊNCIAS Saúde FORMAÇÃO -Iniciação para o trabalho ESPECIAL CARGA Total Semanal 20 20 20 20 HORÁRIA Fonte: Adaptado do Decreto n. 13.474, de 13 de março de 1981, fornecido pela Secretaria do Estado da Educação de Santa Catarina. 45 Essa mobilização nacional, em torno da educação básica, demonstra que todo o descaso histórico que se tinha até então com o ensino fundamental, tem caminhado rumo aos primeiros passos para mudança, enfim desencadeou-se um grande processo de discussão e preocupação por parte dos intelectuais, da sociedade e do governo com esse nível de ensino. Outro aspecto que evidenciou a preocupação em qualificar o ensino de primeiro grau e garantir o acesso de todos à escola foi a “Conferência Mundial de Educação para Todos”, realizada em 1990, em Jomtien, na Tailândia. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), essa conferência resultou em posicionamentos de priorização do ensino fundamental, com o objetivo de garantir a satisfação das necessidades básicas de aprendizagem de todos, inclusive jovens e adultos. Em 1993, o Ministério da Educação e do Desporto coordenou a elaboração do “Plano Decenal de Educação para Todos”, procurando atender aos compromissos estabelecidos internacionalmente na Conferência de Jomtien. De acordo com o PCN (1997, p. 15), esse Plano foi: [...] concebido como um conjunto de diretrizes políticas em contínuo processo de negociação, voltado para a recuperação da escola fundamental, a partir do compromisso com a equidade e com o incremento da qualidade, como também com a constante avaliação dos sistemas escolares, visando ao seu contínuo aprimoramento. A reformulação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional foi aprovada em 20 de dezembro de 1996. Essa Lei ampliou e consolidou o dever do Estado com a educação pública, principalmente com o ensino fundamental. As concepções de currículo presentes na LDB se apresentaram bem flexíveis e se caracterizaram com base nos paradigmas críticos de leitura de mundo, conhecimento de todos os âmbitos sociais e naturais, principalmente dos conhecimentos referentes à realidade brasileira, assim como do exercício pleno da cidadania. Um aspecto evidente nessa legislação quanto aos componentes curriculares, é o intuito de garantir a difusão dos conhecimentos socialmente construídos, sendo que essa difusão, segundo a LDB, é papel da escola. No que se refere à organização curricular em forma de matriz, a LDB definiu que, para proporcionar a todos a formação básica comum, é de obrigação da União elaborar diretrizes gerais para nortear os currículos e seus conteúdos mínimos, a serem complementados por uma parte diversificada, que tem como objetivo enriquecer a formação básica comum em cada sistema de ensino. Nessa perspectiva, foi elaborada uma “Base Nacional Comum”, delineada 46 pelo Conselho Nacional de Educação e, uma parte diversificada que é composta pela Língua Estrangeira Moderna. Matriz Curricular 12 - Proposta Curricular para o ensino fundamental, no período de 1996 Resolução n. 02/CEB/CNE 1ª 2ª 3ª 4ª 5ª 6ª 7ª 8ª -Língua Portuguesa X X X X 4 4 4 4 Totais Sema nais 16 -Matemática X X X X 4 4 4 4 16 -Ciências X X X X 3 3 3 3 12 BASE -História X X X X 3 3 3 3 12 COMUM -Geografia X X X X 3 3 3 3 12 -Educação Física X X X X 3 3 3 3 12 -Artes X X X X 2 2 2 2 08 -Ensino Religioso X X X X 1 1 1 1 04 -Língua Estrangeira Moderna Totais semanais _ _ _ _ 3 3 3 3 12 PARTE DIVERSIFICADA Total DISCIPLINAS (aulas semanais) SÈRIES 26 26 26 26 104 Fonte: Secretaria do Estado da Educação de Santa Catarina Como se pode perceber nessa matriz curricular, a concepção que se tinha anterior a Lei n. 5692/71, em que a função do ensino primário era de se trabalhar exclusivamente a leitura, escrita e cálculo foi superada, tendo em vista que, desde a matriz curricular de 1971, foram introduzidos outros conceitos a serem trabalhados no ensino fundamental, sendo esses, resultado dos conhecimentos socialmente construídos, conhecimentos esses que auxiliam na compreensão do mundo e da sociedade. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, também reformulou a nomenclatura dos níveis da educação em geral, sendo que o ensino de 1º grau passou a ser denominado Ensino Fundamental, o ensino de 2º grau passou a ser Ensino Médio, e a educação básica passou a ser composta pela Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio. A ampliação da Educação Básica proposta pela LDB é outro grande avanço da legislação educacional, pois, dessa forma, é dever do Estado e direito de todos os cidadãos o 47 acesso e permanência na escola desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, ampliando assim as possibilidades de desenvolvimento dos cidadãos brasileiros. Em se tratando especificamente do Estado de Santa Catarina, as propostas curriculares estão pautadas nos referenciais fornecidos pela LDB, como Lei maior, nos “Parâmetros Curriculares Nacionais”, assim como na “Proposta Curricular de Santa Catarina”. Essa proposta foi elaborada, em sua primeira versão, a partir de 1988 por um grupo de educadores, tendo sido publicada em 1991. Em 1998, foi publicada a segunda edição da proposta elaborada pelo Grupo Multidisciplinar, que foi composta por três volumes, sendo eles: Disciplinas Curriculares; Temas Multidisciplinares; e Formação Docente. Essa segunda edição foi resultado das discussões de reformulação da primeira versão. Como complemento a esse referencial, em 2005, foi elaborado outro caderno denominado “Estudos Temáticos”, formado pela compilação de textos elaborados por Grupos de Trabalho e tem como função ampliar a reflexão sobre seis temáticas consideradas relevantes e subsidiar políticas públicas para a educação catarinense. A Proposta, como documento oficial, tem com objetivo “nortear a prática pedagógica dos educadores na perspectiva da construção de uma escola pública de qualidade para todos” (SECRETARIA DO ESTADO DA EDUCAÇÃO, 2009). Em âmbito nacional, outro documento que fornece subsídios teórico-metodológios, para organização curricular, e vem complementando a LDB, são os “Parâmetros Curriculares Nacionais”. Esses parâmetros foram elaborados a partir dos estudos das propostas curriculares estaduais e municipais, da analise dos currículos oficiais e do contato com informações que relatavam as experiências educacionais em outros países (PARÂMETROS CURRILARES NACIONAIS, 1997). Esse documento tem como objetivo estabelecer uma referência curricular comum para todo o país, assim como dialogar com as propostas curriculares dos estados fornecendo uma proposta flexível e subsídios que auxiliem na elaboração das propostas curriculares buscando uma integração e ao mesmo tempo uma autonomia para os estados e os sistemas de ensino. A última Reforma no que se refere à organização curricular do ensino fundamental, foi a Lei Federal n. 11.274, promulgada em 2006, que altera a redação de alguns artigos da LDB/96, e define o ensino fundamental de nove anos. Essa alteração já vinha sendo construída desde 2001, que com a aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), estabeleceu o Ensino Fundamental de nove anos como meta para a educação nacional. Essa modificação, na estrutura do ensino fundamental, acarretou alterações também na organização curricular desse nível de ensino, pois o ingresso no ensino fundamental passou a 48 ser da criança que completa seis anos de idade até o dia 1º de março do mesmo ano de ingresso, e os componentes curriculares devem levar em consideração as especificidades desses sujeitos. Nesse sentido, o MEC elaborou um documento denominado “Ensino Fundamental de nove anos: orientações para a inclusão da criança de seis anos”, com o intuito de fornecer subsídios teóricos que auxiliem a prática pedagógica nos anos iniciais e respeitem as especificidades da infância, além de garantir a implantação do Ensino Fundamental de nove anos. Matriz Curricular 13 - Proposta Curricular para o Ensino Fundamental, no período de 2006 DISCIPLINAS ANOS INICIAIS 1ª BASE COMUM PARTE DIVERSIFICADA TOTAL 2ª ANOS FINAIS 3ª 4ª 5ª 6ª 7ª 8ª 9ª -Língua Portuguesa X X X X X 04 04 04 04 -Matemática X X X X X 04 04 04 04 -Ciências X X X X X 03 03 03 03 -História X X X X X 03 03 03 03 -Geografia X X X X X 03 03 03 03 -Educação Física 03 03 03 03 03 03 03 03 03 -Arte 02 02 02 02 02 02 02 02 02 -Ensino Religioso X X X X X 01 01 01 01 -Língua estrangeira _ _ _ _ 20 03 03 03 03 SEMANAL 20 20 20 20 20 26 26 26 26 Fonte: Secretaria do Estado da Educação de Santa Catarina É importante ressaltar que essa reestruturação do ensino fundamental teve como objetivo assegurar a toda a criança um tempo maior de convívio escolar, uma gama maior de oportunidades para o aprendizado e, com isso, uma educação de qualidade. Porém, o ingresso mais cedo, com seis anos, no ensino fundamental não significa transferir os conteúdos da 1ª série regular para o 1º ano dos nove anos. Nesse sentido, houve todo um movimento dos órgãos governamentais para garantir que a organização curricular para o ensino fundamental de nove anos, não fosse mera transferência de conteúdos, tendo em vista a necessidade de se 49 levar em conta a ludicidade e as especificidades da infância, para que se possa de fato garantir o sucesso no processo de ensino-aprendizagem. Ao analisarmos a constituição das matrizes curriculares, para o período pós-primeira LDB, fica evidente o processo de busca pela universalização e qualificação do ensino fundamental, que envolveu desde governantes, até intelectuais da educação nesse período. A própria mobilização governamental, procurando construir todo um referencial legal, teórico e metodológico para o ensino fundamental, evidencia essa busca. O ensino fundamental, que antes era relegado a segundo plano, passa a ser prioridade nacional. Nesse sentido percebe-se o grande avanço que a educação brasileira conquistou, até porque este é um aspecto muito recente, que esteve permeando as discussões educacionais com a devida ênfase somente a partir da década de 80. Outro aspecto que evidencia o processo de qualificação do ensino fundamental é a organização das matrizes curriculares, as quais anteriormente eram compostas basicamente pela leitura, pela escrita e pelo cálculo, sendo que atualmente, as matrizes passam a ter uma gama maior de conhecimentos a serem trabalhados e discutidos, conhecimentos estes que podem auxiliar na compreensão do mundo, da sociedade e do ser humano. Levando-se em conta que as matrizes curriculares se constituem na materialização das concepções de currículo, de homem e de mundo de quem elabora as matrizes, a ampliação dessas, assim como a flexibilidade apresentada nos documentos legais referentes à organização curricular para esse período, demonstram um salto também nestas concepções. Pois se entende-se que os educandos são sujeitos ativos no meio social e que através da compreensão desse meio e de si mesmo, enquanto sujeito no mundo e com o mundo, pode ser potencializada com a apreensão dos conhecimentos construídos pela humanidade, é necessário se pensar uma proposta curricular que dê conta dessas questões e seja flexível o suficiente para respeitar as particularidades e necessidades de cada região. Sendo assim, as matrizes curriculares aqui apresentadas, evidenciam a luta por uma educação de qualidade, principalmente no nível fundamental, sendo que muitas conquistas já foram alcançadas, mas ainda há muitas outras a conquistar. O próximo tópico apresentado neste trabalho diz respeito às considerações acerca da constituição curricular do Brasil, em que se procurou alinhavar todas as discussões que permearam essa produção, com o objetivo de analisar como essa constituição contribuiu para a organização curricular brasileira atual. 50 4 ALINHAVANDO AS DISCUSSÕES A TÍTULO DE CONSIDERAÇÕES FINAIS A constituição curricular, no Brasil, historicamente foi marcada pelas necessidades sociais, nacionais e internacionais que permearam o âmbito da educação, ou seja, a educação, em cada período histórico, foi sendo construída em resposta aos anseios daqueles que, de alguma forma, exerceram a influência sobre esse processo. O que se pode perceber, a partir dos estudos realizados, é que todo processo de construção das matrizes curriculares, no Brasil, esteve pautado nas diferentes teorias curriculares que foram se desenvolvendo historicamente de acordo com as concepções delineadas nessas teorias. Ao se falar em matriz curricular, é importante ressaltar que essa se constitui a partir da materialização das teorias curriculares que foram se desenvolvendo no decorrer da história da educação brasileira. Essas discussões, no Brasil, são muito recentes, pois somente a partir de 1920, com base em uma nova organização social, é que passaram a ser discutidos aspectos referentes à teoria curricular no Brasil, principalmente sob a influência dos Pioneiros da Educação Nova. A teoria curricular no Brasil sofreu grande influência das teorias norte-americanas do período citado acima, sendo que essas teorias, em sua maioria, estavam baseadas nos ideais da Escola Nova defendidos por John Dewey. Não se tratou de uma simples transferência de teorias, pelo contrário, as teorias foram construídas a partir de um contexto diferente, dos Estados Unidos, reconstruíram-se a partir do contato com o contexto brasileiro. Diante desse quadro, é necessário refletirmos também acerca das características históricas do ensino fundamental no Brasil. A presente pesquisa evidenciou que, até meados de 1970, a educação fundamental ou o ensino primário esteve relegado a segundo plano, pois não era de interesse da classe dominante nem do governo investir nesse nível da educação. Esse aspecto pode ser observado desde o Brasil Colônia, período no qual a função da educação era de preparar os filhos da elite para concluírem seus estudos no exterior, privilegiando o Ensino Secundário, além da catequização dos índios por meio da educação jesuítica. Outro aspecto que evidencia o descaso com o ensino de primeiras letras é a ausência de escolas, professores e teorias que fundamentassem as propostas, pois estas, na maioria das vezes, foram implantadas sem maiores discussões e aprofundamentos no que se refere à questão curricular. Com a vinda da família real para o Brasil houve uma mobilização do Império para ampliação dos cursos superiores, pois era necessário oferecer aos cidadãos da Corte uma 51 educação que garantisse a preparação da elite. Nesse sentido, o ensino primário ainda se mantém pouco difundido e as matrizes curriculares propostas para esse período não ultrapassam as noções de leitura e cálculo. Em 1822, o Brasil se tornou independente de Portugal, juntamente com a independência se fortaleceu um discurso liberal, nacional e popular de organização política, porém esses ideais se mantiveram somente no discurso, pois, na realidade, o Estado esteve a serviço da elite e acabou atendendo basicamente aos interesses dessa classe social. Nesse sentido, não era de interesse da classe dominante a instrução popular, o ensino elementar era considerado pela elite, papel da família. Em 1827, foi criada a primeira Lei de instrução elementar no Brasil. Essa Lei definiu que haveria escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugares populosos do País, definindo também as diretrizes gerais para a organização da matriz curricular, que se constituíam em leitura, escrita, operações aritméticas, práticas de quebrados, decimais e proporções, noções gerais de geometria prática, gramática da língua nacional, princípios da moral cristã e doutrina católica. Porém, por diversos fatores, dentre eles, a falta de metas para o cumprimento da Lei, a ausência de professores qualificados, enfim, a total falta de uma infra-estrutura básica que deveria ser oferecida pelo governo a Lei não conseguiu sucesso em sua implantação. No período correspondente ao Brasil Primeira República, o ensino fundamental continuou sendo pouco valorizado, mesmo que, com uma nova configuração da sociedade, tendo em vista a forte pressão internacional que vinha impulsionando o desenvolvimento industrial e também a ampliação de acesso à educação com o intuito de qualificar mão de obra para atender às necessidades da sociedade industrializada. Nesse período, os componentes das matrizes curriculares para o ensino primário ainda acabam restritos a leitura, escrita e cálculo, sendo que algumas propostas estimularam a inserção de conteúdos, como história e geografia, mas acabaram sendo implantadas somente no Distrito Federal. Até então, os conteúdos explícitos nas matrizes curriculares se resumiam a escrita, leitura e cálculo. A Reforma de Capanema, a partir da Lei Orgânica em 1946, foi a primeira que se preocupou em expandir os componentes da matriz curricular para o ensino primário. Essa Reforma esteve pautada nos ideais escolanovistas e, dessa forma, procurou ampliar a gama de conhecimentos que a escola deveria oferecer para os alunos que frequentassem o ensino primário. É importante ressaltar que a relação de desenvolvimento entre as discussões das teorias curriculares influenciadas pelos Pioneiros da Educação e a ampliação dos 52 componentes curriculares para o ensino primário, tendo em vista que as matrizes sofreram maior aprofundamento somente após o período de 1930, ou seja, quando esteve em pauta a reflexão a respeito das teorias curriculares no Brasil, evidenciando a estreita relação entre as teorias curriculares e as matrizes curriculares. Em 1961, foi criada a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação, essa iniciativa do governo evidencia a preocupação que o poder público passa a ter com a educação em geral, inclusive com o ensino primário, pois pela primeira vez na história da educação brasileira é estabelecida uma legislação que tem o papel de regular para todo o território nacional a educação em todos os seus níveis, oferecendo diretrizes e bases para toda a educação nacional. A organização curricular para o ensino primário estabelecida pela Lei foi baseada na Reforma Capanema. Nesse período, vinha se desencadeando toda uma discussão acerca da necessidade de garantir um ensino público e de qualidade a toda população, até porque a organização social estava fortemente ligada ao desenvolvimento industrial mundial, sendo assim a educação deveria atender às necessidades sociais. Com o Golpe Militar de 1964, as conquistas alcançadas no campo da educação, são interrompidas, pois para os militares importava uma educação eficiente que garantisse a ordem e o desenvolvimento econômico do país. Nesse sentido houve um grande movimento por parte dos militares para privatização da educação, com o intuito de reduzir as responsabilidades do Estado perante a educação nacional. Ainda, no contexto da ditadura, foi criada a Lei n. 5692/71 que foi um marco na história da educação brasileira, pois organizou todo o sistema de ensino no Brasil. As definições desta lei vigoraram até a atual LDB promulgada em 20 de dezembro de 1996. É importante salientar que a Lei ampliou o ensino primário de quatro para oito anos e garantiu a obrigatoriedade desse nível de ensino. Essa valorização do ensino primário, que vinha acontecendo desde a primeira LDB e foi interrompida pelos militares, é retomada pelos próprios militares devido às pressões internacionais para redução do analfabetismo e garantia do desenvolvimento industrial e econômico do País. A organização da matriz curricular pautada nessa Lei ampliou os conteúdos curriculares para o ensino de primeiro grau, incluindo na proposta da matriz as ciências, língua estrangeira moderna, estudos sociais e a preparação para o trabalho, foco da proposta dos militares. A Lei ainda definiu que a matriz organizar-se-á a partir de um núcleo comum definido pelo Conselho Federal de Educação e uma parte diversificada que possa atender às especificidades regionais, além da preparação para o trabalho. Toda essa estrutura foi pautada 53 em concepções tecnicistas de educação, com o objetivo de garantir a eficiência e hierarquia no espaço escolar. Em 1985, com a queda da Ditadura Militar, teve início um processo de redemocratização do País, havendo uma grande mobilização, por parte da sociedade brasileira e dos organismos internacionais, pela busca por uma educação básica de qualidade para todos. Sendo assim, pode-se perceber a intensificação do processo de valorização do ensino fundamental, que passou a ser visto como nível essencial de educação a todo cidadão, ou seja, como direito que deveria ser garantido pelo Estado. A “Conferência Mundial de Educação para Todos”, em Jomtien, na Tailândia, realizada em 1990, vem complementar essas discussões e estabelecer metas que ajudaram a concretizar as discussões abordadas. O “Plano Decenal de Educação para Todos” foi elaborado como iniciativa do governo procurando atender as definições estabelecidas na Conferência de 1990, e a ênfase do Plano foi dada à qualificação e universalização do ensino fundamental. É importante ressaltar que, durante todo esse período de discussão e aprofundamento das questões relacionadas ao Ensino Fundamental, a organização curricular se manteve pautada na matriz elaborada a partir da Lei n. 5692/71. Todos os aspectos discutidos nesse período, seja na Conferência de Jomtien, seja no “Plano Decenal de Educação para Todos”, resultaram na elaboração da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, promulgada em 1996. Os aspectos contidos na Lei enfatizaram a obrigatoriedade do ensino fundamental, inclusive para aqueles que não tiveram acesso na idade própria, ou seja, definiram como obrigação do Estado, oferecer a educação básica a todos os cidadãos brasileiros. Essa Lei definiu, também, que a matriz curricular para o ensino fundamental deveria ser organizada a partir de uma base comum definida pela União e uma parte diversificada constituída por uma língua estrangeira moderna. A base comum ficou composta por um conjunto de conteúdos que procuraram garantir o acesso aos conhecimentos socialmente construídos, ampliando significativamente os componentes das matrizes curriculares anteriores a 1970. Os “Parâmetros Curriculares Nacionais” foram publicados em 1997, servindo como referência nacional para organização curricular. Nesse contexto, foram elaboradas, também, as Propostas Curriculares estaduais e municipais que ofereceram subsídios teóricometodológicos que contribuíram para a efetivação de uma educação de qualidade para todos. 54 Esses movimentos de discussão, que permearam a educação brasileira a partir da década de 90, buscaram o aprofundamento de questões curriculares, metodológicas e, levaram ao questionamento do papel da educação perante a sociedade, evidenciando um processo de melhoria que a educação brasileira vem conquistando. É certo que há muitos aspectos que ainda precisam ser repensados e conquistados, mas é certo, também, que tendo em vista o curto espaço de tempo em que o Ensino Fundamental passou a ser priorizado, já houve um grande avanço, principalmente no que diz respeito à universalização desse nível de ensino. As discussões que se desencadearam recentemente foram baseadas em teorias e concepções críticas, sendo que houve um grande aprofundamento das questões curriculares, do papel da educação, do professor, do aluno e dos conhecimentos nesse processo. O aprimoramento e aprofundamento das questões curriculares apresentados, nas atuais propostas de matrizes curriculares, para o ensino fundamental, demonstram a contribuição de todo processo de desenvolvimento histórico das matrizes curriculares no Brasil, mesmo que a passos lentos, tendo em vista que a ampliação dos componentes das matrizes começou se efetivar por volta da década de 60. É importante ressaltar que essa construção não esteve desvinculada do desenvolvimento intelectual alcançado pelo País, nem do desenvolvimento econômico e político do Brasil, ou seja, as questões educacionais estão intimamente ligadas aos aspectos sociais, políticos e econômicos. Enfim, todo o processo de desenvolvimento tanto político quanto social que permeou o processo de construção histórico da educação brasileira contribuiu para as atuais propostas curriculares para o Ensino Fundamental na medida em que favoreceu as discussões e aprofundamentos das questões curriculares, inclusive no que se refere às matrizes curriculares. Considera-se que ainda há muitos pontos a serem repensados na estrutura educacional brasileira, principalmente no Ensino Fundamental, para que de fato possa ser garantido o direito a uma educação de qualidade, sobretudo no que se refere ao fracasso escolar e à valorização dos profissionais da educação. 55 5 REFERÊNCIAS APPLE, Michael W. Ideologia e currículo. São Paulo: Brasiliense, 1982. BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Acesso em: maio de 2009. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm BRASIL, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 9. ed. Santa Catarina: SINEP/SC, 1998. BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1997. MACHADO, Maria Cristina Gomes. O projeto de Rui Barbosa: o papel da educação na Modernização da sociedade. Acesso em: abril de 2009. Disponível em: http://www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/artigos/aj/FCRB_MariaCristina_Projeto _RuiBarbosa.pdf MOREIRA, Antonio Flávio B. Currículos e programas no Brasil. 4. ed., São Paulo: Papirus, 1999. MOREIRA, Antonio Flavio B; SILVA, Tomaz Tadeu. Territórios contestados: o currículo e os novos mapas políticos e culturais. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2004. QUINTELLA, Siumara Silveira Melo; UTSUMI, Miriam Cardoso. A Questão do Currículo nas Séries Iniciais no Brasil: Perspectivas Históricas. São Paulo. Acesso em: 2008. Disponível em: www.fafibe.br/revistaonline/arquivos/siumara,. RANGEL, Mary. Currículo de 1. e 2. graus no Brasil: considerações sobre filosofia, crítica e prática das propostas legais. 2. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1990. 56 SANTA CATARINA. Decreto n. 13.474, de 13 de março de 1981. Define a composição da matriz curricular para o Ensino Fundamental no período de 1980. Lex: SED/SC, 2009. SANTA CATARINA. Secretaria do Estado da Educação. Ensino Fundamental de Nove Anos na Rede Pública Estadual. Santa Catarina, 2009. Acesso em: maio de 2009. Disponível em: http://www.sed.sc.gov.br . THIESEN, Juares da Silva. Questões sobre Currículo e Teoria Curricular. Apostilas de estudos. ZOTTI, Solange Aparecida. Sociedade, Educação e Currículo no Brasil: dos jesuítas aos anos de 1980. São Paulo: Autores Associados; Distrito Federal: Editora Plano, 2004. 57 ANEXOS