UMA ABORDAGEM DIFERENCIADA DA APRENDIZAGEM DE
SISTEMÁTICA FILOGENÉTICA E TAXONOMIA ZOOLÓGICA NO
ENSINO MÉDIO
ARAÚJO, Lenon Oliveira de – PUCPR
[email protected]
COSTA, Ana Lúcia da – PUCPR
[email protected]
COSTA, Reginaldo Rodrigues da – PUCPR
[email protected]
NICOLELI, João Henrique – PUCPR
[email protected]
Eixo Temático: Práticas e Estágios nas Licenciaturas
Agência Financiadora: Coord. de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES
Resumo
Neste artigo descreve-se a aplicação de uma nova metodologia de ensino e aprendizagem da
Sistemática Filogenética no Ensino de Zoologia para Ensino Médio, a partir de uma atividade
proposta para alunos do Segundo Ano do Ensino Médio em uma escola publica de Curitiba
realizada pelos alunos do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da PUCPR e
participantes do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência - PIBID. O
diagnóstico realizado no início do programa revelou as dificuldades de aprendizado dos
alunos nessa escola e norteou o desenvolvimento de uma atividade bem sucedida na área de
Zoologia. O objetivo foi possibilitar ao aluno o entendimento da classificação dos seres vivos
sob uma perspectiva evolutiva através de uma atividade diferenciada. A metodologia utilizada
proporcionou ao aluno total liberdade para criar uma teoria evolutiva de um animal fictício.
Os resultados revelaram uma metodologia eficaz e com uma avaliação positiva no ensino de
Zoologia. Os alunos desenvolveram um texto criativo sobre sua teoria e a defenderam perante
a turma durante um seminário. Na exposição os alunos utilizaram cartazes, leituras de texto
para apresentar as características, táxons e evolução do animal fictício estudado. Como
destaque tivemos a criatividade dos alunos com teorias evolutivas apresentadas com
coerência, características evolutivas bem exploradas, função morfológica e adaptações
ambientais provando que os alunos aprenderam a base da Sistemática Filogenética. Além
disso, houve uma grande contribuição para o nosso desenvolvimento acadêmico, forçando a
busca de novos recursos didáticos para aplicar um trabalho diferenciado em um ambiente
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precário. Também surgiu a possibilidade de explorar uma nova área de trabalho,
proporcionando a viabilização de literatura para práticas em sala de aula.
Palavras-chave: Zoologia. Classificação Lineana. Teoria Evolutiva.
Introdução
O conteúdo do presente artigo é baseado em uma atividade desenvolvida dentro do
Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) do Curso de Licenciatura
em Ciências Biológicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Esta atividade é
referente ao ensino da Classificação dos Seres Vivos e Teoria Evolutiva, com uma turma do
segundo ano do ensino médio de um colégio localizado na cidade de Curitiba, Estado do
Paraná.
O PIBID é um programa que oferece bolsa para estudantes de cursos de licenciatura
plena, para que eles exerçam atividades pedagógicas em escolas públicas de ensino básico,
aprimorando sua formação e contribuindo para a melhoria de qualidade dessas escolas. Esse
programa tem como principais objetivos incentivar os jovens a reconhecerem a relevância
social da carreira docente; promover a articulação teoria-prática e a integração entre escolas e
instituições formadoras; e contribuir para elevar a qualidade dos cursos de formação de
educadores e o desempenho das escolas nas avaliações nacionais e, consequentemente, seu
Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), (CAPES, 2010).
Local de estudo
O estudo foi realizado em um colégio da rede estadual do município de Curitiba, que
atende alunos no ensino fundamental e médio. A inserção no Colégio teve início no dia 15 de
setembro de 2010, onde foi realizada a coleta de dados para responder ao Roteiro de Coleta de
Dados para o Diagnóstico de Gestão Escolar, se estendendo até a data de 29 de setembro de
2010. Essa atividade foi realizado com base em um questionário padrão fornecido pela
Coordenação Institucional do PIBID-PUCPR, preenchido com o auxilio do Projeto Político
Pedagógico (PPP) e Regimento Interno do colégio, além de consulta à direção, coordenação
pedagógica e à professora supervisora do projeto.
Após esse levantamento, foram realizadas observações livres (sem roteiro) em sala de
aula, em turmas de ensino médio, visando analisar a participação e comportamento dos alunos
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durante as aulas e a relação destes com o professor. Isso foi importante na tomada das
decisões das futuras atividades que seriam aplicadas a essas turmas, tais como: práticas ao ar
livre e dentro de sala de aula; locomoção dos alunos para outras salas com equipamento de
vídeo; dinâmicas e trabalhos em grupo e grupo focal.
Para que essas atividades fossem mais bem desenvolvidas, foram realizados testes
sobre o conteúdo de Biologia com as turmas de ensino médio, com questões objetivas de
múltipla escolha baseadas no livro didático adotado pela escola para os três anos do ensino
médio. Cada turma respondeu questões referentes apenas ao ano que cursava. Em seguida,
foram aplicados questionários com as mesmas turmas, compostos por questões objetivas de
múltipla escolha, discursivas e de associação, sobre as temáticas do Projeto – biologia como
ciência, o cenário ambiental e a saúde e a sociedade.
Como complemento da atividade docente, o grupo participou do conselho de classe do
colégio no último bimestre de 2010, onde foi observado o desempenho dos alunos através do
ponto de vista de cada professor. E no início do ano de 2011, na primeira semana do mês de
fevereiro, houve participação na reunião pedagógica e no Planejamento Escolar referente à
disciplina de biologia, que tinha o intuito de organizar as atividades do ano letivo.
Baseado neste Planejamento, todas as atividade do PIBID foram programadas de
acordo com o calendário da escola. Dentre estas atividades, destacou-se uma referente à
Classificação dos Seres Vivos em conjunto com a Teoria Evolutiva, aplicada em uma turma
de segundo ano do ensino médio, e que será o tema a ser tratado neste artigo.
Desenvolvimento
Com base nos testes referentes aos conteúdos de Biologia aplicados no início do
Programa, verificou-se que o tema da Classificação dos Seres Vivos, relacionado à
sistemática e taxonomia, era pouco abordado ou eram tratados de modo pouco eficaz no
aprendizado dos alunos. Isso ocorria devido à complexidade do tema e à necessidade de um
raciocínio mais amplo do aluno, ou seja, este precisaria basear seus conhecimentos não
somente no livro didático e nas atividades ali propostas, mas também conseguir visualizar
todo o processo evolutivo que ocorreu durante todos os anos, suas mudanças e conseqüências,
sem ter vivenciado esse processo. Consequentemente, isso acabava por trazer muitas dúvidas
aos alunos, como pôde ser visto nos resultados dos testes realizados (Tabela 1). Devido a isso,
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buscou-se uma nova forma de apresentar este conteúdo dentro da sala de aula, na tentativa de
proporcionar um melhor entendimento do conteúdo.
Tabela 1 - Resultado dos testes do Conteúdo de Biologia referente a Biodiversidade e
Classificação do Seres Vivos.
Turma A
Turma B
Média
Quantidade de Alunos
Acertos
Quantidades de questões
22
64
6
24
65
6
23
64
6
Fonte: Dados obtidos na Escola participante do projeto.
Média de Acertos
2,91
2,71
2,81
Segundo Lopes, Ferreira e Stevaux (2007), para transmitir um ensino adequado nas
áreas de sistemática filogenética e taxonomia zoológica em Biologia, é necessário
compreender as mudanças do processo evolutivo dos organismos vivos.
Segundo os autores:
É fundamental identificar as transformações dos organismos ao longo do tempo e
situar as linhagens com representantes atuais. É indispensável ser capaz de
reconhecer na diferenças e semelhanças a identidade e unidade do sistema vivo. Se o
ensino da Biologia deve refletir um universo em transformação constante a ser
entendido como tal, a Zoologia torna-se um instrumento ideal neste processo para os
níveis básicos (fundamental e médio) da educação formal (p. 265),
No primeiro semestre de 2011, segundo o Planejamento Escolar, os conteúdos
estruturantes trabalhados no segundo ano do ensino médio foram: A Organização dos Seres
Vivos e Mecanismos Biológicos, sendo que os temas específicos foram: Classificação dos
Seres Vivos: Critérios Taxonômicos e Filogenéticos e Teorias Evolutivas.
Para Borges e Lima (2007, p. 2)
Embora a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), de 1996,
expresse a urgência de reorganização da Educação Básica, a fim de dar conta dos
desafios impostos pelos processos globais e pelas transformações sociais e culturais
por eles geradas na sociedade contemporânea, na área das ciências biológicas, o
ensino de Biologia se organiza ainda hoje de modo a privilegiar o estudo de
conceitos, linguagem e metodologias desse campo do conhecimento, tornando as
aprendizagens pouco eficientes para interpretação e intervenção na realidade.
Atender às demandas atuais exige uma reflexão profunda sobre os conteúdos
abordados e sobre os encaminhamentos metodológicos propostos nas situações de
ensino.
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Após aulas expositivas introdutórias sobre classificação de seres vivos apresentadas
pela professora da escola, foi elaborada uma proposta pedagógica diferenciada a respeito da
sistemática filogenética e taxonomia zoológica. Essa atividade visava desenvolver nos alunos
a habilidade de construir uma teoria evolutiva relacionada a um animal fictício, a fim de
apresentar um conteúdo anteriormente visto como complexo em algo de fácil entendimento e
produzir dentro da sala de aula uma atividade experimental sem necessidade de recursos
laboratoriais. (Figura 1).
Figura 1 – Animais fictícios utilizados na atividade
Fonte: Ruppert e Barnes, 2006.
Segundo Gioppo e seus colaboradores (1998), há preferência em se trabalhar com
atividades demonstrativas, velhas conhecidas dos autores de livros-texto, que as repetem num
vicioso ciclo de plágio. Dando assim mais combustível as grandes empresas produtoras de
materiais para educação em massa que criam estojos laboratoriais e os vendem as escolas,
alguns de custo tão alto que ficam trancafiados em salas e quase nunca são utilizados e
quando utilizados a instituição não tem verba para reposição do material utilizado tornando-o
inutilizável.
Trabalhar com Biologia e Ciências sem que o aluno tenha contato direto com material
biológico e/ou experimental parece ser um formidável exercício de imaginação. Entretanto,
diante das dificuldades limitantes do modelo de ensino é o que acontece na maioria das vezes.
Professores inovadores nas suas metodologias e que ousam alguma mudança são persistentes
e determinados, mas também correm o risco de desanimar diante das dificuldades. Sem
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dúvida “remar contra a correnteza” durante muito tempo torna-se cansativo, podendo o
professor preferir acomodar-se a um modelo de ensino tradicional (LEPIENSKI e PINHO
2009, p. 6).
Para realização do exercício, os alunos foram organizados em grupos contendo de três
a quatro integrantes. Cada grupo recebeu um material que continha seis figuras de diferentes
espécies de indivíduos fictícios, em tamanho A4 para confecção de cartazes e mais seis
figuras no mesmo tamanho da figura 1 para colocar em seus trabalhos escritos, para elaborar a
classificação lineana de Reino/Filo/Classe/Ordem/Família/Gênero/Espécie. Os grupos
entregaram um trabalho escrito e realizaram uma apresentação para a sala defendendo sua
teoria evolutiva e os nomes dados a cada espécie, justificando-os. Foram utilizados de
cartazes e revisão de literatura para compor o trabalho. Todos esses processos foram
cumpridos num período de trinta dias, dentro das aulas de Biologia do segundo ano do ensino
médio e com supervisão da professora da escola, as apresentações ocorrem em duas aulas
tendo um tempo de 15 minutos cada equipe para demonstrar seu trabalho.
Considerações Finais
A realização da atividade sobre a Classificação dos Seres Vivos e Teoria Evolutiva
proporcionou aos alunos do segundo ano do ensino médio uma nova perspectiva sobre o
assunto. Quando os mesmos apresentaram seus resultados, ficou evidente o domínio do
conteúdo e a diversidade de idéias que compuseram suas teorias. A apresentação do trabalho
em forma de seminário tornou a atividade ainda mais interessante, pois todos os alunos
tiveram acesso ao resultado dos outros, e assim exerceram também seu pensamento crítico.
Além disso, a aplicação do exercício em sala de aula provou que uma aula diferenciada pode
se tornar bem sucedida sem a necessidade de um espaço também diferenciado - como um
laboratório - já que na realidade encontrada nessa escola, esse espaço não existia.
A maior dificuldade na atuação no colégio referiu à falta de estrutura com um espaço
físico direcionado às aulas práticas, além da carência de literatura com atividade práticas para
serem executadas dentro de sala de aula. Entretanto, a participação no Programa nos mostrou
a necessidade da criatividade do docente para executar aulas diferenciadas, utilizando de
baixo investimento para a escola e em locais com pouca estrutura. Porém, viu-se através desse
impasse que podemos explorar um novo campo de trabalho com a produção de recursos
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didáticos para esse ambiente, já que se torna cada vez mais necessário adequar os conteúdos
práticos da Biologia para a sala de aula. Também foi possível vivenciar a experiência da
relação aluno-professor, o contato com realidades diferentes e a quebra do paradigma de que
as escolas públicas não conseguem trabalhar os conteúdos com os alunos de maneira contrária
à tradicional.
Para Gioppo, Scheffer e Neves (1998, p.42)
...ao concluir a graduação, os alunos deparam-se com um reduzidíssimo número de
vagas nos cursos de pós-graduação na área biológica e vêem-se empurrados para o
mercado de trabalho na licenciatura, geralmente mais aberto e com vagas ociosas.
Então, estudantes preparados para atuar na pesquisa biológica enfrentam uma
“inesperada” situação: a do ensino.
Desse modo, concluímos que a participação efetiva do PIBID nas escolas pode ser
benéfica para todos os envolvidos, visto que pudemos aprimorar nosso desenvolvimento
acadêmico como futuros docentes e levar melhorias, idéias e novas práticas para serem
trabalhadas nas escolas públicas, proporcionando aos alunos uma aprendizagem diferenciada
e próspera.
REFERÊNCIAS
BORGES, Regina Maria Rabello, LIMA, Valderez Marina do Rodário. Tendências
contemporâneas do ensino de Biologia no Brasil. Revista Electrónica de Enseñanza de las
Ciencias Vol. 6 Nº 1 (2007) Disponível em < http://coralx.ufsm.br/revce/revce/2002/01/a4.
htm> Acesso em 14 de jun. de 2011.
CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Disponível em:
http://www.capes.gov.br/. Acesso em 14 de jun. de 2011.
GIOPPO, C.; SCHEFFER, E.W.O., NEVES, M.C.D. O ensino experimental na escola
fundamental: uma reflexão de caso no Paraná. Educar, n. 14, p. 39-57. 1998. Editora da
UFPR. Disponível em < http://www.educaremrevista.ufpr.br/arquivos_14/gioppo_scheffer
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LIPIENSKI, L.M., PINHO, K.E.P. Recursos Didáticos No Ensino De Biologia E Ciências.
Base de dados dia a dia educação. Disponível em http://www.diadiaeducacao.pr.gov.br/port
als/pde/arquivos/400-2.pdf?PHPSESSID=2009071511113042> Acesso em 05 de jul. de
2011.
12726
LOPES, W. R.; FERREIRA, M. J. M.; STEVAUX, M. N. Proposta pedagógica para o
ensino médio: filogenia de animais. Disponível em http://www.revistas.ufg.br/
index.php/sv/article/viewArticle/3417. Acesso em 14 de jun. 2011.
RUPPERT, E. E.; BARNES, R.D. Zoologia dos Invertebrados. 6 ed. São Paulo: Ed. Roca.
1996. 1028p.
SILVA JÚNIOR, César da, SASSON, Sezar. Biologia 2. São Paulo, Ed 7 Saraiva, 2002.
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uma abordagem diferenciada da aprendizagem de sistemática