X Semana de Extensão, Pesquisa e Pós-graduação - SEPesq
Centro Universitário Ritter dos Reis
Design de Superfície: reflexões sobre simbologias e análise de imagem
de uma padronagem1
Mônica Heydrich*
Esp. em Design de Superfície
Centro Universitário Ritter dos Reis
[email protected]
André Luis Marques da Silveira*
Dr. em Informática na Educação
Centro Universitário Ritter dos Reis
[email protected]
Resumo: O presente artigo apresenta reflexões sobre os signos e os significados direcionados a
especialidade do Design de Superfície. Reflete-se sobre alguns conceitos relacionados com os
estudos da semiótica e a produção das imagens neste campo do Design. Os conceitos estudados
apoiam a análise da imagem de uma superfície, exemplificada a partir de uma padronagem
específica, coleção “Ant’ique”, dos designers europeus do Studio GamFratesi. Acredita-se que as
possibilidades de simbologias de uma imagem são preocupações importantes para aqueles que
projetam, na área do Design, pois podem definir ou, até mesmo, restringir o interesse do usuário
sobre o produto. Utiliza-se a revisão bibliográfica para o embasamento das reflexões, dos
conceitos e da análise do padrão selecionado.
Palavras-chave: Design de superfície. Signo. Significado. Simbologia. Análise de imagem.
1 Introdução
A inspiração e motivação para desenvolver o presente artigo surgiram da leitura do
texto na revista ABD Conceitual2, destinada principalmente ao público de arquitetos,
designers e designers de interiores, interessados em inovações e tendências sobre
assuntos referentes às respectivas áreas. O texto versa sobre as superfícies e seus
significados, de forma poética, conforme segmento a seguir:
1
Artigo proposto como parte da avaliação da disciplina de Fundamentos do Design de Superfície, no Curso de
Pós-Graduação em Design de Superfície (UniRitter), em 2012/1, ministrada pela Prof.ª Me. Marina Bortoluz
Polidoro, e posteriormente reescrito na disciplina de Processos de Simbolização em Design, ministrada pelo
Prof.° Dr. César Steffen, no PPGD - Mestrado em Design (UniRitter), 2014/1.
*Especialista em Design de Superfície (UniRitter) e Comportamento Organizacional e Gestão de Pessoas
(ESAB); Bacharel em Artes Plásticas, com habilitação em Desenho (UFRGS); Licenciada em Educação
Artística I e II Graus (UFRGS); Mestranda no PPGD - Mestrado em Design (UniRitter), sob orientação do Prof.°
Dr. André Luis Marques da Silveira, Mestre em Comunicação e Informação PPGCOM/UFRGS e Doutor em
Informática na Educação PPGIE/UFRGS.
2
Revista da Associação Brasileira de Designers de Interiores - ABD, décima edição de abril/maio de 2014, p.
26-31. Texto intitulado: “Superfícies: signos, significados e outras interpretações”, de Marcella Aquila.
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SEPesq – 20 a 24 de outubro de 2014
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SUPERFÍCIES CONTAM HISTÓRIAS. Casca de ovo, escama de peixe, caco de
vidro. Topologia, topografia, tipografia. Madeira rugosa, mármore frio, [...] Superfícies
são, provavelmente, as primeiras formas pelas quais percebemos o mundo – como
vemos e/ou tateamos buscando conhecê-lo. E, sejam elas elaboradas por mãos
humanas ou pela ação de centenas e milhares de anos da natureza, fato é que as
superfícies guardam sob si (ou em si) a chave para a solução de muitos enigmas.
(AQUILA, 2014, p. 28).
Esses enigmas podem ser desvendados no momento que nos propusermos a refletir
e analisar sobre os signos e seus significados. A autora enumera variadas superfícies com
as quais tomamos contato ao longo de nossas vidas e sugere que possuem significados
para cada pessoa. Desta forma, reforça-se o interesse e a importância de olharmos com
mais atenção para a “pele” dos objetos e os seus significados. Objetiva-se neste estudo
destacar as superfícies produzidas intencionalmente pelo homem e não as superfícies
naturalmente produzidas ou da natureza.
Refletindo sobre a produção dos artefatos na passagem dos tempos, observa-se a
necessidade do homem em interferir na superfície dos objetos, da pré-história até hoje,
primeiramente de forma artesanal e posteriormente de forma industrial. O tempo passou e a
necessidade de produzir objetos diferentes para variados tipos de públicos se tornou
importante, segundo Schwartz e Neves (2009, p. 108), “trabalhar a superfície dos produtos
fornece uma das formas possíveis de diferenciação deles até mesmo a customização.” Os
diferentes acabamentos das superfícies passaram a ser necessários, e a superfície “[...] um
dos elementos em que o designer intervém para buscar uma relação mais harmoniosa entre
o sujeito e o produto”. (SCHWARTZ; NEVES, 2009, p. 108). Essa relação harmoniosa está
ligada aos aspectos a serem levados em conta no momento de projetar as superfícies e que
refletem na etapa final, no momento de escolha, quando o usuário vai adquirir um produto.
Para Rüthschilling (2008), conceitua-se o Design de Superfície como:
[...] uma atividade criativa e técnica que se ocupa com a criação e desenvolvimento
de qualidades estéticas, funcionais e estruturais, projetadas especificamente para
constituição e/ou tratamentos de superfícies, adequadas ao contexto sociocultural e
às diferentes necessidades e processos produtivos. (RÜTHSCHILLING, 2008, p. 23).
A partir dos conceitos de Rüthschilling, datados entre 2006 e 2008 as autoras
Schwartz e Neves (2009, p. 109) os interpretam como “[...] à criação de texturas visuais e
táteis empregadas para a caracterização das superfícies, objetivando soluções estéticas,
funcionais e simbólicas”. Mencionam-se aqui as questões simbólicas como um dos
elementos de preocupação no projeto das superfícies. Os aspectos nos quais se
concentram as reflexões deste estudo são relacionados aos signos e significados das
imagens, a semiótica3, observados na superfície dos objetos. Ao projetar, reflete-se sobre a
caracterização das superfícies, as imagens que elas revelam, serão direcionadas para
determinado público e as questões simbólicas precisam atingir este mesmo público-alvo.
O primeiro contato com os objetos é com as suas superfícies, as escolhas dos
objetos vão iniciar a partir delas. Se o Design de Superfície não significar, o objeto poderá
3
Palavra originada a partir do termo grego semeion, que significa “signo”. É a ciência que estuda os signos e
seus significados. A palavra “Semiótica” é de origem Americana e “Semiologia” de origem Europeia.
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não causar o impacto necessário para se tornar atrativo ou não atingir os usuários aos quais
foi destinado.
O objetivo do presente estudo é analisar o Design de Superfície, a partir da
exemplificação de um objeto escolhido, uma padronagem. A proposta de análise tem como
foco abordar a imagem sob o “olhar” da semiótica e também pelos aspectos formais, e não
pelas questões estéticas ou técnicas. Segundo Joly (2006, P. 29) refletir sobre algum objeto
com a abordagem semiótica “é considerar seu modo de produção de sentido, ou seja, a
maneira como provocam significações, isto é, interpretações. De fato, um signo só é „signo‟
se „exprimir ideias‟ se provocar na mente daquele ou daqueles que o percebem uma atitude
interpretativa”.
A metodologia da pesquisa é de enfoque qualitativo, utilizando a revisão bibliográfica
como base para as propostas do estudo. Toda esta contribuição teórica embasou a
elaboração da análise de uma padronagem, observando aspectos formais e conceituais4 da
imagem, evidenciando a sua aplicação e relevância nos projetos de Design de Superfície.
Estrutura-se o artigo com três seções, além da introdução, considerações finais e das
referências. Reflete-se sobre os conceitos de superfície, imagem e simbologias a partir dos
autores selecionados, finalizando com a exemplificação da análise de uma superfície
pertinente ao processo proposto. A análise se divide em três momentos distintos, devido às
características próprias da imagem: 1°Distanciamento com o objeto; 2° Aproximação com o
objeto; e 3° Aproximação e transformação da imagem, significados e taxonomia do padrão.
2 Conceitos e percepções adotadas: imagem, superfície e simbologias no Design de
Superfície
Em um primeiro momento, pretende-se refletir sobre os conceitos de imagem5 e de
superfície6, devido seus variados significados em determinados contextos existentes.
Vivemos em um mundo repleto de imagens. Nos dias de hoje, percebe-se que o
desenvolvimento das tecnologias também nos proporciona maior contato com elas, em
todos os lugares e momentos. De acordo com Flusser (2007, p. 102), “as superfícies eram
raras no passado. Fotografias, pinturas, tapetes, vitrais e inscrições rupestres [...]. Mas elas
não equivaliam em quantidade nem em importância às superfícies que agora nos
circundam”. Ainda segundo o autor existem duas formas de leitura do mundo ou formas de
expressar o pensamento pelos homens, o “pensamento-em-superfícies” e o “pensamentoem-linhas”. Primeiramente o pensamento era em superfície, após a “invenção” da escrita o
pensamento passou a ser também em linhas.
Conforme Rose (2001), as imagens “visuais” se apresentam como elementos centrais
na contemporaneidade, que a autora chama de “o mundo visual" e que desempenham
influências no entendimento das pessoas sobre o mundo e as diferentes formas que cada
4
Optou-se por não analisar os aspectos técnicos do padrão relacionados aos fundamentos do Design de
Superfície: módulo, rapport, repetição, entre outros, deixam-se esses aspectos para uma próxima proposta
de estudo.
5
Complementando os significados: Imagem: “representação da forma ou do aspecto de ser ou objeto; aquilo
que apresenta uma relação de analogia, de semelhança (simbólica ou real)”. (HOUAISS, 2004).
6
Superfície: palavra que tem sua derivação do latim é relacionada ao conceito de face, de exterior dos corpos
e também de “forma geométrica com duas dimensões”. (HOUAISS, 2004).
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um percebe o que o rodeia. O mundo visual pode ser percebido de formas diferentes
conforme o contexto inserido e também conforme o espectador, a autora aborda questões e
conexões referentes à cultura, sociedade e imagens visuais, tratando o campo da cultura
visual como marca cultural da sociedade contemporânea. Para ela, não existe uma única
forma de interpretação das imagens, depende da sua construção, da cultura do espectador,
enfim, são variadas as óticas de observação e análise da imagem.
Existem muitas formas de definição de “imagem”, dependendo da escolha da
abordagem utilizada. Escolhe-se no presente texto abordar a imagem de acordo com os
seus aspectos formais e simbólicos. Desta forma, consideram-se as questões relacionadas
com os significados, ou seja, suas possíveis interpretações e relações com o espectador.
Neste sentido, Ramalho e Oliveira (2006, p. 25) argumentam que as imagens
possuem a função simbólica, a qual é intrínseca à sua condição, além de outras, como:
“mágicas, religiosas, políticas, estéticas, epistêmicas, informativas, decorativas, persuasivas
ou até comerciais”. E para Joly (2006), a partir da teoria se pode compreender a palavra
“imagem” de mais de uma forma:
O ponto comum entre as significações diferentes da palavra “imagem” (imagens
visuais/imagens mentais/imagens virtuais) parece ser, antes de mais nada, o da
analogia. Material ou imaterial, visual ou não, natural ou fabricada, uma “imagem” é
antes de mais nada algo que se assemelha a outra coisa. (JOLY, 2006, p. 38).
Neste contexto, a “imagem” passa a ser percebida como uma “representação”, como
“signo”, ou seja, “se ela parece é porque ela não é a própria coisa: sua função é, portanto,
evocar, querer dizer outra coisa que não ela própria, utilizando o processo da semelhança”.
(JOLY, 2006, p. 39). A representação de alguma coisa e de alguma forma pode ser visual,
mental ou virtual, além disso, podem ser imagens produzidas ou não. Corroborando Wolff
(2005, p. 21) afirma que a imagem representa aquilo que não está presente, e “[...] que
reproduz certos aspectos da aparência visível”.
No Design de Superfície se definem os tipos de representações das imagens, de
acordo com Schwartz e Neves (2009, p. 123), “a informação visual é representada por
texturas visuais, táteis e relevos, enquanto a informação tátil é representada por texturas
táteis e relevos, bem como pela sensação que a textura visual pode evocar”. Estas
representações podem ser analisadas a partir de aspectos formais das imagens que servem
de apoio para outras análises, como por exemplo, as de signos e seus significados.
3 Os signos e significados no Design de Superfície
Parte-se do princípio, a partir da afirmação de Braida (2009, p. 3), que o Design é
“uma forma simbólica, uma forma de comunicação e uma lente para se apreender o mundo
contemporâneo. [...] o Design pode ser compreendido como um fenômeno de linguagem”. E
também, a partir de outros autores, como Niemeyer (2003), o Design é também fenômeno
de cultura e comunicação, interferindo nos seus signos e significados. Na mesma direção,
Santaella (1996) também deixa claro este conceito, da seguinte forma:
Considerando-se que todo fenômeno de cultura só funciona culturalmente porque é
também um fenômeno de comunicação, e considerando-se que esses fenômenos só
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comunicam, porque se estruturam como linguagem, pode-se concluir que todo e
qualquer fato cultural, toda e qualquer atividade ou prática social constituem-se como
práticas significantes, isto é, práticas de produção de linguagem e de sentido.
(SANTAELLA, 1996, p. 166-167).
Desta forma, o Design de Superfície sendo uma especialidade do Design, inserido na
prática social, e ainda por abordar o tratamento das superfícies, relaciona-se
significativamente com as questões culturais e por sua vez, com as questões de linguagem
e significados. Mas não apenas como suporte, como a palavra superfície pode nos induzir,
mas como atuante na transmissão dos significados, devido o seu papel social, próprio da
área do Design.
Segundo a perspectiva de Peirce (2000, p. 46), “um signo é aquilo que, sob certo
aspecto ou modo, representa algo para alguém”. Santaella (2004) afirma que o signo é uma
representação de alguma coisa, ele está no lugar do objeto, mas não é o objeto. No
tratamento das superfícies, as imagens desempenham o seu papel com uma grande
variedade de signos, que representam e indicam a que tipo de pessoa se refere. Os signos
podem sinalizar o usuário e o local de utilização apropriado para um produto.
Os significados das superfícies podem variar conforme o usuário, aspectos culturais,
por exemplo, mas a relação entre produto, signo, significados e usuário terá de ser positiva,
para que o produto tenha aceitação. Neste sentido, Nojima (2006, p. 124) corrobora
afirmando que assim como na linguagem, “são construídos os significados que modelam e
orientam, retificam e reorientam os mais diversos discursos dos produtos resultantes do
design”. Refletir sobre os significados das imagens se torna uma prática indispensável no
Design e particularmente no Design de Superfície, onde a imagem parece ser intrínseca.
4 Design de Superfície: análise de uma padronagem
Nesta seção do artigo, pretende-se realizar a análise formal e conceitual de uma
padronagem, focando na especialidade do Design de Superfície, a partir da observação de
uma imagem7 e baseada em autores aqui referenciados. Desta forma, a escolha da imagem
para ser analisada foi livre, procurou-se um projeto de Design de Superfície relativamente
recente, com características incomuns e instigantes em algum dos aspectos da análise.
O padrão selecionado foi de um projeto desenvolvido para o papel de parede,
chamado “Ant‟ique”8, pelo Estúdio de Design “GamFratesi”9, fundado em 2006, formado
pela união de uma dinamarquesa e um italiano. A dupla é composta pela arquiteta Stein
Gam, mestre em Design de mobiliário e pelo designer Enrico Fratesi, mestre em Arquitetura.
Para facilitar, a análise foi dividida em três momentos distintos, o primeiro com uma
leitura de imagem utilizando a fotografia que mostra um maior distanciamento do espectador
do papel de parede. O segundo momento da leitura da imagem com a utilização de um
detalhe, fotografia feita com grande aproximação do objeto de análise. E finalizando, o
7
Imagem retirada do CD-rom, parte integrante do livro Pattern Design de Lou Andrea Savoir.
Nome dado ao padrão e/ou coleção, desenvolvido pelo Estúdio de Design “GamFratesi”, selecionado para a
análise no presente artigo.
9
Destaco alguns prêmios dos profissionais: “Best Danish designer 2009” e o “Walk the Plank award 2009”,
http://www.quartosala.com/thinqs/creative-love-stein-gam-e-enrico-fratesi/#!prettyphoto[singlepic1042]/0/
8
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terceiro momento, observando as possíveis transformações da taxonomia e das simbologias
do padrão, dependendo da ótica e do movimento do espectador. Possibilita-se assim, mais
de uma forma de leitura em relação aos aspectos formais e conceituais da padronagem.
4.1 Análise do primeiro momento: distanciamento com o objeto
A imagem fotográfica utilizada para a primeira etapa da análise demonstra o papel de
parede inserido no seu contexto decorativo, em uma ambientação. Nessa ambientação
encontram-se, além do papel de parede, uma poltrona e os interruptores de luz da parede,
elementos que servem de comparativos para identificação de proporção e escala entre
todos os elementos da imagem.
O objeto de análise trata-se de uma “estampa corrida10” de grande escala, que pelas
referências contidas na imagem, principalmente a poltrona, percebe-se que o registro foi
feito mantendo uma distância razoável, por volta de quatro metros, tendo possibilidade de
uma visão total do módulo, de sua repetição e de grande parte da padronagem.
Em um primeiro momento da observação, identificam-se os elementos que compõem
o padrão, os motivos11. É composto de um elemento e de suas variações, encontrando-se
diferenças na representação de sua forma, direcionamento dos movimentos e tamanhos.
Assim, em cada módulo, podem-se enumerar quatro elementos diferentes, resultado de
variações do motivo, nomeado aqui como “arabesco”. Observa-se nas imagens a seguir:
Figuras 1 e 2: Ant’ique Wallpaper dos Designers Gam e Fratesi; Padrão com a identificação do módulo.
Fonte:<http://meadedesigngroup.blogspot.com.br/2008/07/future-forecast.html>; e elaboração da autora com
base na pesquisa realizada.
10
Linguagem utilizada no Design de Superfície para designar estampas que possuem módulos repetidos com a
utilização de algum tipo de sistema de repetição.
11
Formas ou conjunto de formas que compõem o módulo e consequentemente o padrão, carregados com as
mensagens visuais do tema da padronagem, para livre interpretação do espectador.
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Cabe ressaltar que, “arabescos12” são identificados como formas geométricas com
características semelhantes a ramagens ou representações de folhas de plantas com
pontas, marcadas pelo movimento, arrisca-se que simulam folhas de plantas ao vento. Ou
até mesmo, indo mais longe ainda, remetem a representação de plumas, pois possuem
aspecto de leveza e detalhamento. Essa forma se destacou em vários momentos na história
da Arte como ornamentação, principalmente de palácios em séculos passados.
Esta é uma das primeiras relações que se pode fazer com esta imagem, é familiar, é
algo conhecido, algo que já foi visto de alguma outra forma e utilizado na Arte, como
ornamento no Oriente e posteriormente no Ocidente, constata-se a sua presença através
dos tempos. Pode-se dizer que são formas curvas e flexíveis que sugerem um movimento
contínuo, não possuem absolutamente nada de aspecto estático ou de dureza.
Estes motivos que sugerem as representações de folhas possuem uma forma com
vários segmentos, com pontas. Nas representações não se identifica uma folha em especial
existente na natureza, são elementos que remetem a esta representação, pois no restante
da imagem, os aspectos da natureza não ficam evidentes. Percebe-se uma característica
forte de ornamento, com uma intenção de adornar e sem a preocupação de especificamente
representar ou lembrar a natureza no resultado final.
Cada motivo tem uma movimentação própria em forma de “S” e com um leve
direcionamento em diagonal na superfície. Este tipo de movimento faz com que o
espectador faça uma “dança” com os olhos, o olhar entra e sai do elemento várias vezes,
dando voltas circulares sobre a superfície da imagem. É este tipo de movimento que nos
passa a sensação de um dinamismo, flexibilidade e suavidade.
A identificação do espectador com o objeto, provavelmente faz-se na relação das
formas com o tempo passado, com o clássico e com a sobriedade. Até aqui, com o
distanciamento do objeto, nada de diferente parece ser percebido, mas o objeto não foi
ainda totalmente revelado. Precisa-se de maior aproximação para observar os detalhes, do
que parece ser uma textura. Inicia-se a aproximação, despertando a curiosidade...
4.2 Análise do segundo momento: aproximação com o objeto
Ao se aproximar da estampa se observa que os motivos do padrão, os “arabescos”,
são formados pela repetição de outro elemento. Esse elemento é a representação gráfica
de uma formiga. O ícone de um inseto sem asas, uma formiga vista de cima.
Segundo Santaella (2004, p. 18), “Peirce dividiu os signos icônicos, ou seja, os
signos que agem como tal em função de uma relação de semelhança com seus objetos, em
três níveis: imagem, diagrama e metáfora”. Desta forma, o ícone da representação da
formiga, está classificado como uma “imagem”, pois esta “estabelece uma relação de
semelhança com seu objeto puramente no nível da aparência”. (SANTAELLA, 2004, p. 18).
Neste caso, considera-se a representação gráfica da formiga que compõe o módulo e forma
o “arabesco”, um signo do tipo ícone e de nível de imagem. A representação da formiga em
vista superior não deixa dúvidas de que tipo de inseto está sendo representado, em suas
12
Elementos ornamentais de origem Árabe, da Arte Islâmica, e que se espalharam pela Europa. (HOUAISS,
2004).
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características mais comuns: cor, forma, tamanho e até mesmo a sugestão de seu
movimento.
A forma de olhar os aspectos formais e conceituais da análise se transforma para o
espectador no momento que se aproxima da imagem. Inicia-se uma nova análise com um
novo motivo em repetição e com diferenças na forma, nos posicionamentos e movimentos.
A repetição do novo motivo, não segue um sistema de repetição, um rapport13, o
objetivo de sua repetição é revestir as formas anteriores, ou cobrir formando os “arabescos”.
São centenas de repetições em posições variadas, do mesmo ícone, a formiga,
utilizando-se a justaposição e a sobreposição desta pequena imagem. Em alguns
momentos mais agrupados, escurecendo o tom da cor preta e em outros menos agrupados.
É esse aspecto que passa a sensação da utilização de uma terceira cor, um tom de cinza,
quando o padrão é visto com um afastamento maior, e que com proximidade se pode
perceber que não está presente. Observa-se na figura a baixo:
Figura 3: Detalhe 1 - Ant’ique Wallpaper dos Designers Gam e Fratesi.
Fonte:<http://meadedesigngroup.blogspot.com.br/2008/07/future-forecast.html>
Neste momento, com um olhar mais próximo, pode-se observar que os motivos, as
formigas, formam uma “textura visual” pela repetição do mesmo elemento. E esta repetição
13
Palavra da língua francesa que é utilizada igualmente à palavra repeat de origem inglesa, no sentido de
repetição. No contexto do Design de Superfície é utilizada para designar o tipo de sistema de repetição
empregado no módulo, para desenvolvimento do padrão.
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e sobreposição de elementos, sugere o movimento frenético dos insetos em um formigueiro,
como se costuma observar o seu comportamento em seu habitat natural.
O fato de encontrarmos um elemento, o “arabesco”, formado por outro, a formiga,
tendo escalas completamente contrastantes, faz com que o espectador interaja com a
imagem, pois terá que se movimentar, afastando-se e aproximando-se, para poder fazer a
observação destes dois elementos tão distintos. O contraste entre os elementos não fica
somente na escala diferenciada, mas também percorre a temática. O espectador é levado a
se surpreender pela descoberta e tentar relacionar os dois motivos.
4.3 Análise do terceiro momento: a aproximação e a transformação da imagem,
significados e taxonomia do padrão.
Na etapa de aproximação da imagem e de descoberta de outro motivo contido na
formação do primeiro, desvendam-se outros conceitos ainda não revelados, é um momento
“mágico” neste padrão. No momento desta identificação o espectador se surpreende,
interage com o movimento que precisa ser feito para perceber tanto a “textura visual” quanto
os motivos maiores. Agora o espectador se questiona: Qual seria a intenção do autor com
relação aos dois motivos tão distintos? O que o autor quer dizer? O que ele pensou? Dê
onde partiu esta ideia? O que significam as formigas para mim?
São signos e seus significados que se revelam para o espectador, que consciente ou
inconscientemente reflete. Neste sentido, Niemeyer (2003) corrobora:
Os signos se organizam em códigos, constituindo sistemas de linguagem. Estes
sistemas constituem a base de toda e qualquer forma de comunicação. A principal
utilidade da semiótica é possibilitar a descrição e a análise da dimensão
representativa (estruturação sígnica) de Objetos, processos ou fenômenos em várias
áreas do conhecimento humano. (NIEMEYER, 2003, p. 19).
Percebe-se o contraste dos tipos de motivos utilizados para formar a totalidade da
imagem. A primeira visão, através do distanciamento, é o “arabesco”, representação que
remete a imagens de padrões clássicos14, sugere uma seriedade. Enquanto que em um
segundo momento, com a proximidade, visualiza-se a formiga remetendo justamente o
oposto da primeira, sugerindo algo novo, inusitado, alegre e descontraído. Um motivo que
pode até despertar, dependendo do espectador, certo desconforto.
O lúdico15 aparece nesta padronagem, mudando seus conceitos, público alvo e até
mesmo sua taxonomia16. Conforme a autora Gubert (2011), este padrão estaria inserido na
classificação dos “Clássicos Renovados”, e ainda define que “esta taxonomia designa
padronagens com a apropriação de motivos e/ou padrões clássicos, buscando sua
atualização mediante a releitura de algum aspecto, o qual pode ser formal, na composição,
escala, de aplicação ou cores”. (GUBERT, 2011, p.90).
14
Padrões clássicos: “entende-se como o padrão que possui uma origem histórica, que se mantém presente
por séculos”. (GUBERT, 2011, p.90).
15
Utiliza-se aqui no sentido de brincadeira, diversão.
16
É o estudo dos princípios gerais de classificação científica.
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Pode-se observar com maior precisão a representação da formiga no detalhe da
imagem a seguir:
Figura 4: Detalhe 2 - Ant’ique Wallpaper do Designers Gam e Fratesi.
Fonte: imagem do CD-rom, integrante do livro Pattern Design de Lou Andrea Savoir (2007).
A aproximação da estampa e a revelação do segundo motivo modifica a classificação
do padrão, a taxonomia modifica no instante da descoberta de seus outros significados.
Pode-se dizer que as interpretações por parte do espectador mudam, este passa a se
envolver mais com o objeto ou se desinteressar, dependendo do que este novo motivo
representa para ele.
5 Considerações finais
O Estúdio de Design “GamFratesi”, costuma fazer uma fusão de tecnologia e tradição
em seus trabalhos, na sua maioria, projetos de Design de móveis. É possível perceber
simplicidade, caráter artesanal e forte valor na pesquisa de cada peça. Observa-se que nos
conceitos, as percepções que suscitam parecem ser recorrentes. Nos projetos destes
designers, os contrastes estão muito presentes nas suas inspirações e os detalhes são
muito importantes. É o que se pode observar no padrão do papel de parede analisado,
“Ant’ique”.
Este “Clássico Renovado”, com toda a sua sobriedade, em apenas alguns
movimentos de aproximação, revela-se lúdico, os significados se transformam. Ele
surpreende, diverte, “mexe” com o espectador. Esse não poderá manter-se indiferente
diante desta surpresa. No mínimo incomodado ficará, dependendo da relação que este
espectador possui com o inseto representado, ou melhor, dependendo dos significados que
esta imagem pode despertar no espectador.
Segundo Wolff (2005, p. 26), o discurso é o que explica a imagem, os significados
para cada uma das pessoas.
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Não dispondo de conceito, a imagem não pode então raciocinar, comparar, induzir,
deduzir; ela não pode sobretudo explicar nada. Ao contrário, ela sempre deve ser
explicada por outra coisa que não imagens, portanto, pelo discurso. (WOLFF, 2005,
p. 26).
A imagem depende do outro, a identificação dos signos e significados também. No
Design o outro pode ser o Designer e o espectador, aquele que projeta e aquele que é o
usuário. Neste contexto, fica claro, com as características percebidas na análise do padrão,
o estilo de trabalho da dupla de designers que o projetou. E também se desvenda o perfil
dos usuários para aquele determinado produto. Segundo Cardoso (2012),
O potencial de significação dos artefatos vai muito além do princípio, relativamente
simples, de agregar valor. Quase todo objeto transmite visualmente informações
sobre sua natureza e, antes mesmo de ser manipulado, induz a determinada postura
da parte de quem o aborda. (CARDOSO, 2012, p. 115-116).
Nos projetos de Design de Superfície a principal preocupação é com o tratamento da
“pele” dos produtos, pois essa é a primeira relação que se obtém com os objetos. A forma
de interpretação das imagens pode ser decisiva nas relações com esses. O Designer de
Superfícies precisa refletir sobre os significados das imagens, para atingir com sucesso a
quem foi destinado o produto projetado.
Referências
AQUILA, Marcella. Superfícies: signos, significados e outras interpretações. IN: revista ABD
Conceitual. São Paulo, #10, abril/maio 2014.
BRAIDA, Frederico. Design como forma simbólica e como fenômeno de linguagem:
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Design de Superfície: reflexões sobre simbologias e